Sunteți pe pagina 1din 80

A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE

Dado s d e Catalogaçã o n a Publicaçã o (CIP ) Internaciona l


(Câmar a Brasileir a d o Livro , SP , Brasil )

Múller-Lauter, Wolfgan g
A doutrin a d a vontad e d e pode r e m Nietzsch e / Wolfgan g Múller-Laute r ;
Itraduçã o Oswald o Giacoi a l. — Sã o Paul o : ANNABLUME , 1997 . — (Colaçã o E ; 6 )

Título original: Nietzsche Lehre von Willen Zúr Macht .


Bibliografia .

1. Nietzsche , Friedric h Wilhelm , 1844-190 0 l. Título . II. Série .

CDD-19 3

índice s par a catálog o sistemático :


1. Vontad e de poder: Nietzsch e : Fiolosofia alem ã
19 3

A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE


SUMÁRI O
Wolfgan g Múller-Laute r

ISBN: 85-85596-85-6

A TERCEIR A MARGE M D A INTERPRETAÇÃ O


Capa: Luciano Guimarães
Scaríett Marton
Revisão: Dída Bessana

A DOUTRIN A D A VONT A D E PODE R E M


CONSELH O EDITORIA L
NIETZSCH E 4 9
Eduardo Permeia Canizal
Willi Bolle Caracterizaçã o provisóri a d a vontad e de 1 pode r 54
Norval Baitello Júnior
Carlos Gardin
Observaçõe s sobr e a problemátic a do s póstumo s 56
Lucrécia D'Aléssio Ferrara A significaçã o do s póstumo s n a interpretaçã o de
Ivan Bystrina
SalmaT. Muchail Nietzsch e po r Karl Schlecht a 5 9
Ubiratan D'Ambrósio A respeit o da s declaraçõe s d e Nietzsch e sobr e a
Plínio de Arruda Sampaio
Maria Odila Leite da Silva Dias vontad e de pode r em obra s publicada s 62
Sobr e a interpretaçã o d a vontad e d e pode r com o
11 edição: maio de 199 7 princípio metafísic o 7 0
A vontad e de pode r com o u m e múltipl o 7 3
©Wolfgang Múller-Lauter
'Vontad e de Poder ' n o singula r 8 1
Os muito s mundo s e o únic o mund o 9 8
'As ' vontade s d e pode r 'no ' mund o 10 4
ANNABLUME editora. comunicação A vontad e d e pode r com o interpretaçã o 12 0
Rua Ferreira de Araújo , 359 — Pinheiros
05428-000 . São Paulo . SP . Brasil
Tel. e Fax . (011)212.676
4
http://annablume.com.br
A TERCEIRA
MARGEM DA
INTERPRETAÇÃO

Scarlett Marton
Sempre os escritos de Nietzsche dão margem a múl-
tiplas leituras. Apresentam enorme riqueza em figuras de esti-
lo, mascaram a história da vida de um homem, revelam uma
experiência filosófica determinante. Prestam-se a estudos de
ordem diversa: o exame estilístico, a análise psicológica, a
interpretação filosófica.
Neles se inspiram grande número de trabalhos; deles
tratam outros tantos. Há os que se consagram às influências
que o filósofo exerceu e os que se dedicam à repercussão de
sua obra. Há os que comparam o tratamento que ele dá a
alguns temas com os de outros autores e os que se detêm na
análise de um de seus textos. Há ainda os que se voltam para
o exame de questões precisas e os que se empenham em
avaliar a atualidade de seu pensamento enquanto um todo.
Entre nós, duas leituras da obra de Nietzsche acaba-
ram por impor-se: a de Heidegger e a de Foucault. Enquanto
Heidegger, com seu fino e preciso trabalho filológico, julgou
que a empresa nietzschiana consistia em levar a metafísica
até as últimas consequências, Foucault, com a amplitude e
audácia de sua visão, entendeu que ela residia em inaugurar
10 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 11

novas técnicas de interpretação. Um atenuou a reflexão do e permanece objeto das mais diversas interpretações. Mas tal
filósofo para pôr em relevo a sua própria; o outro dela se diversidade não resulta apenas dos pressupostos que norteiam
apropriou enquanto caixa de ferramentas. as várias leituras; deve-se também a uma dificuldade técnica.
À margem de ambas situa-se a interpretação de É sobretudo nos fragmentos póstumos, redigidos pelo filósofo
Múller-Lauter. entre o verão de 1882 e os primeiros dias de 1889, que tal
concepção se acha presente; e só muito recentemente estas
anotações foram publicadas na íntegra.3
Em seu ensaio A doutrina da vontade de poder em Múller-Lauter enfrenta o desafio. Começa por pergun-
Nietzsche,1 Wolfgang Múller-Lauter propõe-se a explorar as tar pela legitimidade de recorrer aos póstumos para examinar
ideias do filósofo e desvendar a trama dos seus conceitos. a concepção de vontade de potência. Deve-se considerá-los
Partindo da análise de uma concepção considerada central mais relevantes que a obra publicada? Ou, pelo menos, tão
pela maioria dos comentadores, reconstrói com clareza e vigor importantes quanto ela? Deve-se, ao contrário, levar em conta
o pensamento do autor de Zaratustra, aquilatando o alcance somente os textos publicados pelo próprio Nietzsche? Ou ater-
de sua reflexão.
se sobretudo a eles? Mais até, deve-se confiar em igual medi-
Não é por acaso, porém, que adota este ponto de
da nas diferentes edições das anotações inéditas deixadas
partida. Controvertida, a concepção de vontade de potência2 é
pelo filósofo? Enfim, como se deve proceder diante dos escri-
tos de Nietzsche?
1. Publicado numa primeira versão nos Nietzsche-Studien
Esta é, por certo, uma questão metodológica; é inevi-
(3) 1974, Berlim, Walter de Gruyter, p. 1-60, é considera-
do pelo próprio autor como seu ensaio mais importante. tável que os estudiosos tenham de se haver com ela. Alguns
2. Optamos por traduzir a expressão Wille zur Macht por julgam de maior valor os livros editados pelo filósofo; outros
vontade de potência. E isto por várias razões. Adotamos
a escolha feita por Rubens Rodrigues Torres Filho na sua cia, impulso e o vocábulo Macht, associado ao verbo ma-
tradução para o volume Nietzsche — Obras Incompletas chen, como fazer, produzir, formar, efetuar, criar. Enquan-
da coleção "Os Pensadores" (São Paulo, Abril Cultural, to força eficiente, a vontade de potência é força plástica,
2S ed., 1978). Permanecemos fiéis a outros escritos nos- criadora. É o impulso de toda força a efetivar-se e, com
sos, em que desde 1979 fizemos essa opção. Se traduzir isso, criar novas configurações em relação com as de-
Wille zur Macht por vontade de potência pode induzir o mais. Contudo, a principal razão, que nos leva a manter
leitor a alguns equívocos, como o de conferir ao termo a escolha que fizemos, consiste em oferecer ao leitor,
"potência" conotação aristotélica, traduzir a expressão com as duas opções de tradução ("vontade de potência"
por vontade de poder corre o risco de levá-lo a outros, e "vontade de poder"), a possibilidade de enriquecer sua
como o de tomar o vocábulo "poder" estritamente no compreensão dos sentidos que a concepção Wille zur
sentido político (e, neste caso, contribuir — sem que seja Macht abriga em Nietzsche.
essa a intenção — para reforçar eventualmente apropria- 3. Trata-se da edição crítica das obras completas do filóso-
ções indevidas do pensamento nietzschiano). Mesmo cor- fo organizada por Giorgio Colli e Mazzino Montinari: Wer-
rendo o risco de fazer má filologia, parece-nos ser possí- ke. Kritische Gesamtausgabe, 30 vs., Berlim, Walter de
vel entender o termo Wille enquanto disposição, tendên- Gruyter & Co., 1967/1978.
12 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 13

atribuem peso maior aos fragmentos póstumos. Há ainda quem Assim é que Karl Jaspers, por exemplo, compara a
hierarquize os textos segundo a importância que acreditam ter obra do filósofo a um canteiro de obras: as pedras estão mais
cada um deles, encarando este ou aquele como a "obra capi- ou menos talhadas, mas a construção se acha por fazer. 4
tal". E há quem entenda que se deva levar em conta apenas Walter Kaufmann caracteriza seu modo de pensar e expres-
os póstumos que se mostram de acordo com a obra publicada. sar-se como "monadológico": cada aforismo tende a ser auto-
Contudo, esta não é apenas uma questão metodológi- suficiente, mas o conjunto se apresenta enquanto construção
ca. Perguntar sobre a relação que se deve estabelecer com os filosófica. 5 Jean Granier entende seus escritos enquanto um
escritos de Nietzsche tem outras implicações. Importa, antes todo como um campo de ruínas — aspecto causado por sua
de mais nada, deixar clara a disposição de não considerar a vontade ilimitada de contestação. 6 Eugen Fink, por sua vez,
obra do autor de Zaratustra mero escrito ideológico; implica assegura que "Nietzsche mais dissimulou que publicou sua
sobretudo tornar patente a intenção de toma-la enquanto texto filosofia" 7 e Heidegger, de quem esta interpretação é tributá-
filosófico. Esta atitude vem contrapor-se a outras que, sem ria, afirma que "é nos escritos 'póstumos' que será preciso
dúvida, não se pautam por motivos teóricos nem se norteiam buscar a autêntica filosofia de Nietzsche".8
por razões de método.
Quanto a este ponto, Múller-Lauter parece estar de
Visando a construir e divulgar certa imagem do filóso-
acordo com Heidegger. Também ele entende que Nietzsche
fo, logo depois do colapso psíquico que ele sofreu nos primei-
ocultou concepções suas ou apenas as deixou entrever. De
ros dias de janeiro de 1889, muitos decidiram colocá-lo "no
fato, não são raras as passagens em que o filósofo critica a
seu devido lugar". Houve então os que se dispuseram a fazer
linguagem em sua função comunicativa.9 Para que haja comu-
uma reavaliação retrospectiva das ideias à luz do enlouqueci-
mento; atribuíram diferentes datas à manifestação dos primei-
4. Cf. Nietzsche — Einfúhrung in das Verstándnis seines
ros sintomas da doença mental. Houve também os que tenta- Philosophierens, Berlim, Walter de Gruyter & Co., 1950.
ram detectar os escritos redigidos sob o efeito das drogas; 5. Nietzsche, Philosopher, Psychologist, Antichrist, Nova York,
foram unânimes em ver nos textos de Turim a influência do The World Publishing Co., 101 ed., 1965.
cloral. Enfim, não foram poucos os que se aproveitaram do 6. Lê problème de Ia vérité dans Ia philosophie de Nietzsche,
Paris, Seuil, 1966.
estado em que Nietzsche mergulhou para desacreditar sua obra.
7. Nietzsches Philosophie, Stuttgart, 1960, p. 10.
Hoje a situação é outra. São razões de método que 8. Nietzsche, Berlim, GuntherNeskeVerlag, 1961, v. 1,p. 17.
têm de embasar os diversos procedimentos que os estudiosos 9. Lembremos da belíssima passagem do Crepúsculo dos
adotam em relação à obra publicada e às anotações inéditas ídolos: "Não nos estimamos mais o bastante, quando nos
do filósofo. Mas é bem possível que tais decisões metodológi- comunicamos. Nossas vivências mais próprias não são
cas escondam intenções; é provável até que exponham ângu- nada tagarelas. Não poderiam comunicar-se, se quises-
sem. É que lhes falta a palavra. Quando temos palavras
los de visão. É certo que revelam o viés pelo qual o estudioso
para algo, também já o ultrapassamos. Em todo falar há
compreende o autor de Zaratustra, a maneira pela qual o intér- um grão de desprezo. A fala, ao que parece, só foi inven-
prete apreende como o próprio Nietzsche se percebeu e se tada para o corte transversal, o mediano, o comunicativo.
colocou. Com a fala já se vulgariza o falante" (Incursões de um
14 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 15

nicação, não basta utilizar as mesmas palavras; é preciso co- der a importância e recebam, por fim, cuidadosa formulação.
mungar as mesmas experiências. Atendendo a exigências da Ao que nos parece, para tentar compreender o pensamento de
vida gregária, a linguagem opera abreviações. Antes de mais Nietzsche, é preciso levar em conta todas as suas ideias — as
nada, abrevia como o indivíduo se sente e o que pensa a claramente explicitadas e as por serem elaboradas. É igual-
respeito de si e do mundo. Seu caráter grosseiro está longe, mente necessário considerar todos os seus escritos — os li-
pois, de ser contingente; acha-se inscrito em sua própria natu- vros publicados e os fragmentos póstumos. Pois, como bem
reza. É para facilitar a sobrevivência que a linguagem, grossei- (az ver Muller-Lauter, o próprio filósofo "se compreendia como
ra, simplifica. E não se reconhecendo simplificadora torna-se o mais escondido de todos os ocultos".
o solo propício onde se enraízam preconceitos metafísico-reli- No fim das contas, o autor de Zaratustra é um pen-
giosos. Razões bastantes para Nietzsche apresentar concep- sador a quem não se aplica a máxima estruturalista que in-
ções suas de modo velado, alusivo ou mesmo hipotético. siste em dever o historiador trabalhar tão-somente com a obra
E a estas razões acrescentam-se outras. Tampouco assumida pelo autor.11 Por isso mesmo, é fundamental dis-
são raros os momentos em que o filósofo se antecipa à elabo- tinguir, no conjunto dos inéditos, os escritos póstumos e os
ração de suas ideias. Tanto é que, em agosto de 1881, ao ser esboços preparatórios de trabalhos publicados, as paráfrases

atravessado pela visão do eterno retorno, decide não partici- de textos já concluídos e os projetos de empreendimentos
futuros. É imprescindível discernir com clareza os diversos
pá-la a ninguém.10 Mas, passados alguns meses, já na Gaia
registros em que as anotações póstumas se situam. Daí, a
ciência anuncia que tudo retorna sem cessar. É certo que, em
importância de discutir e avaliar as diversas edições da obra
sua obra, existem questões sempre retomadas; é certo tam-
do filósofo.
bém que algumas questões são tratadas num único texto e
Para o leitor brasileiro, esta questão talvez pareça
outras surgem, sofrem mudanças e desaparecem; é certo ain-
desprovida de sentido. Ela não revela de imediato toda sua
da que, por vezes, a descontinuidade das questões se dá de
importância; ainda hoje não se dispõe sequer de uma edição
uma linha para outra. Mas também ocorre que ideias se apre-
sentem de início enquanto simples anotações, pareçam logo per-
11. Cf. GOLDSCHMIDT, Victor. "Tempo histórico e tempo
lógico na interpretação dos sistemas filosóficos". In A
extemporâneo, § 26. Utilizamos a edição das obras de religião de Platão, traduzido do francês por leda e Os-
Nietzsche (Werke. Kritische Studienausgabe), organi- waldo Porchat Pereira, São Paulo, Difel, 1963, onde se
zada por Colli e Montinari; sempre que possível, recor- lê: "Seja qual for o valor dos inéditos, eles não são,
remos à tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho enquanto concebidos num tempo unicamente vivido, cons-
para o volume Nietzsche — Obras Incompletas da cole- truídos no tempo lógico, que é o único a permitir o exer-
ção Os Pensadores. cício da responsabilidade filosófica. Notas preparató-
10: Tanto é que no dia 14 escreve a Heinrich Kõselitz: "Pen- rias, onde o pensamento se experimenta e se lança,
samentos surgiram em meu horizonte, pensamentos tais sem ainda determinar-se, são léxeis sem crença e, filo-
como nunca vi. Não direi uma palavra e procurarei man- soficamente, irresponsáveis; elas não podem prevale-
ter-me calmo e impassível. Sem dúvida, é preciso que cer contra a obra, para corrigi-la, prolongá-la ou coroá-
eu viva ainda alguns anos". la" (p. 146-7).
16 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 17

das obras completas de Nietzsche em português.12 Aqui como nou as publicações, insistiu no lançamento de edições bara-
alhures, o filósofo tornou-se célebre antes de ser conhecido. tas. Leiloou os manuscritos das conferências "Sobre o futuro
Por volta de 1900, André Gide escrevia nas Lettres à Angèle: dos nossos estabelecimentos de ensino", vendendo-os para
"A influência de Nietzsche precedeu o aparecimento de sua um jornal popular em dezembro de 1893; autorizou a publica-
obra". Atento à difusão de seu pensamento na França, referia- ção de O anticristoem setembro de 1895; organizou uma an-
se ao fato de seus livros não terem sido todos traduzidos para tologia de poemas lançada antes do Natal de 1897. Com o
o francês. Quase cem anos depois, as palavras de Gide pres- capital proveniente dos direitos autorais, adquiriu uma proprie-
tam-se muito bem para descrever o que ocorre entre nós. dade em Weimar e nela instalou os Arquivos Nietzsche, onde
Os estudiosos de Nietzsche, porém, logo se vêem recebia personalidades do mundo cultural e político. Mais tar-
confrontados com sérios problemas, quando se debruçam so- de, permitiu e incentivou a utilização da filosofia nietzschiana
bre as primeiras edições de seus textos. Em 1901, Elizabeth pelo Terceiro Reich e, em 1935, foi enterrada com as honras
nacionais.
Fõrster-Nietzsche publicou uma obra a que deu o nome de
E sobre o filósofo Elizabeth Fõrster-Nietzsche escre-
Vontade de potência. A partir de apontamentos que o filósofo
veu ensaios, artigos e uma biografia em três volumes. Para a
deixou e de um plano que ele seguiu durante algum tempo,
primeira edição da Vontade de potência, redigiu longa introdu-
reuniu 483 fragmentos póstumos redigidos entre o outono de
ção. Nela afirmava que o livro constituía a principal obra em
1887 e os primeiros dias de janeiro de 1889. Escolheu-os a
prosa do irmão; infelizmente não fora concluído ou talvez ti-
dedo no caos das notas escritas durante meses e organizou-
vesse sido, perdendo-se o manuscrito por ocasião da crise de
os sem respeitar sequer a ordem cronológica. Assim, com a
Turim. Em 1906, publicou a segunda edição, em que reuniu
ajuda de Heinrich Kóselitz, compilou o que apresentou como
1.067 fragmentos póstumos, e mais uma vez não respeitou a
a "obra filosófica capital" de Nietzsche.
ordem cronológica nem explicitou os critérios de seleção.
Para legitimar sua empresa, a irmã do filósofo não
Nos manuscritos de Nietzsche, a intenção de escre-
hesitou em falsificar cartas por ele dirigidas, na sua maioria, à
ver um livro intitulado Vontade de potência surge por volta de
amiga Malwida von Meysenbug; obteve os originais, compôs o
agosto de 1885; é apenas um título ao lado de outros, um
texto a partir deles e depois os destruiu. Apresentando-se co-
projeto literário dentre vários. No verão do ano seguinte, um pla-
mo destinatária das missivas, pretendia impor imagem de cre-
no de trabalho intitulado "Vontade de potência" traz como sub-
dibilidade junto aos editores e amigos do filósofo; queria levar título "Ensaio de uma transvaloração de todos os valores. Em
a crer que conhecia as intenções dele melhor que ninguém. 4 livros", disposição que se mantém até 26 de agosto de 1888.
Espírito empreendedor, Elizabeth empenhou-se na di- A partir daí, o título "Vontade de potência" desaparece, ceden-
fusão do nome de Nietzsche pela imprensa; entre 1893 e 1900, do lugar a "Transvaloração de todos os valores".13
fez dele o ídolo das revistas. De posse da custódia de seus
escritos, elaborou uma nova edição de seus livros, supervisio- 13. A esse propósito, comenta Mazzino Montinari: "Assim
terminam, na vigília do próprio fim de Nietzsche, as vi-
12. E ainda menos da edição crítica organizada por Giorgio cissitudes do projeto literário da Vontade de potência"
Colli e Mazzino Montinari. (Su Nietzsche, Milão, Editor! Riuniti, 1981, p. 65).
18 A DOUTRIN A DA VONTAD E DE PODE R EM NIETZSCH E A TERCEIR A MARGEM D A INTERPRETAÇÃ O 1 9

Questionáve l so b vário s aspectos , a obr a qu e a irm ã Vei o a público , po r fim , a ediçã o crític a da s obra s
do filósof o publico u com o Vontade d e potência serviu , at é a completa s d e Nietzsche , organizad a po r Giorgi o Coll i e Maz -
décad a d e 1950 , enquant o instrument o d e trabalh o par a o s /m o Montinari . Frut o d e u m trabalh o d e fôlego , desenvolvid o
estudiosos . Contudo , depoi s d a Segund a Grand e Guerra , Kar l iio long o d e ano s co m extrem o cuidad o e rigor , conto u co m a
Schlecht a denuncio u o procediment o de Elizabet h colaboraçã o decisiv a d e Muller-Lauter . D e iníci o parceir o d e
Fôrster-Nietzsch e e desqualifico u o livr o po r el a inventado . Montinar i ness e empreendimento , el e acabo u po r substituí-lo ,
Baseando-s e e m pesquisa s feita s no s Arquivo s Nietzsch e e m depoi s d e su a mort e e m 1986 , passand o a coordena r e dirigi r
Weimar , constato u qu e nã o existi a a Vontade d e potência, a ,is tarefa s editoriai s relativa s ao s póstumo s Q à s carta s d e
"obr a capital" ; tud o o qu e havi a era m papéi s póstumos. 14 Nietzsche. 15 Imprescindíve l par a a pesquis a internaciona l acer -
Nã o coub e a ele , porém , publica r n a íntegr a o s escri - c a d a obr a d o filósofo , est a ediçã o crític a acumul a mérito s
to s d o filósofo ; n a ediçã o e m trê s volume s qu e levo u a termo , inquestionáveis : torno u acessíve l ao s estudioso s a totalidad e
limitou-s e a divulga r pequen o númer o d e inéditos . E , a o lad o do s escrito s d e Nietzsche ; busco u recupera r o s texto s d e acor -
de algun s outro s textos , nel a inclui u justament e o s fragmento s d o co m o s manuscrito s originai s ordenado s cronologicamente ;
póstumo s reunido s n a ediçã o d e 190 6 d a Vontade d e potên- procuro u depura r da s deformaçõe s e falsificaçõe s qu e sofrera m
cia. É be m verdad e qu e procuro u estabelece r a orde m crono - a obr a publicada , a s anotaçõe s inédita s e a correspondência ;
lógic a e m qu e teria m sid o redigidos ; ma s nã o alcanço u grand e inclui u imens o aparat o histórico-filológic o d e valo r inestimá -
êxito , pois , a o qu e consta , nã o tev e acess o ao s manuscrito s vel . Contudo , ante s d e el a vi r a público , grave s equívoco s
originais . Nã o é po r acas o que , n o entende r d e Muller-Lauter , fora m gerado s pela s ediçõe s qu e a antecederam . Alguma s
o grand e mérit o d a ediçã o qu e Schlecht a organizo u residi u dentr e elas , se m dúvida , també m contribuíra m par a a s dife -
em denuncia r a lend a d e qu e a Vontade d e potência consti - rente s apropriaçõe s ideológica s da s ideia s d o auto r d e Zara-
tustra.
tuiri a a "obr a filosófic a capital " d e Nietzsche . E se u maio r
No iníci o d o século , n a Europa , muito s considerava m
defeit o — apesa r d e nã o se r ess a a intençã o d o edito r —
Nietzsch e u m pensado r do s mai s revolucionário s e , n a Espa -
consisti u e m reforça r a image m d o filósof o qu e ess e mesm o
nha , chegava m a vê-l o com o u m "anarquist a intelectual" . Pas -
livr o divulgou .
sada s pouca s décadas , porém , tomaram-n o com o u m do s pila -
14 . Foi , então , incisivo : "bast a folhea r ess e conjunt o parreas d o nazism o n a Alemanh a e dele s e apropriara m com o u m
ve r qu e o s texto s reunido s (n a Vontade d e potência),
embor a póstumos , despertara m interess e considerável . 15 . Nã o s e deté m a í a atividad e editoria l d e Muller-Lauter
Deve-s e refleti r aind a mai s sobr e o fato , quand o s e per - Alé m d e responde r durant e algu m temp o enquant o dire -
ceb e qu e a maio r part e desse s texto s impresso s se m a to r d e Theologia Viatorum, u m do s mai s importante s pe -
autorizaçã o d e Nietzsch e nã o concord a co m a textur a riódico s n a áre a d e teologi a filosófic a e filosofi a d a reli -
do s manuscritos : a Vontade d e potência nã o è um a obr a gião , fundo u e m 197 2 o s Nietzsche-Studien. At é be m
póstuma " (" A lend a e seu s amigos" . In Lê Cãs Nietzsche, recentemente , fo i u m do s editore s responsávei s dess a
traduzid o d o alemã o po r Andr é Coeuroy , Paris , Galli - publicaçã o anual , que , po r su a qualidade , conquisto u
mard , 1960 , p . 123) . u m luga r ímpa r n a cen a filosófic a mundial .
20 A DOUTRIN A DA VONTAD E DE PODER EM NIETZSCHE A TERCEIR A MARGEM DA INTERPRETAÇÃ O 21

pensado r d e direit a n a França. 16 Po r certo , houv e que m de - ideológica . Reivindicand o " a exigênci a ancestra l d a racionali
nuncio u a tram a qu e ligav a o nom e d e Nietzsch e a o d e Hitler .dade" , algun s pensadore s d a nov a geraçã o frances a quisera m
D e 1935 a 1945, vário s intelectuai s — dentr e eles : Bataille , pensa r co m Nietzsch e contra o nietzschianismo ; melho r ainda
Klossowski , Jean-Wahl , qu e s e reunia m e m torn o d a revist acontra determinad a utilizaçã o da s ideia s d o filósofo . E pensa
Acéphale — empenharam-s e e m desfaze r o equívoco . co m Nietzsche , e m princípio , deveri a significa r leva r a sér
N o fina l d a décad a d e 1960 , a extrema-esquerd a fran - sua s afirmações . Ma s o propósit o qu e declarava m persegui
ces a fe z d o filósof o o suport e d e sua s teorias . E intelectuai s dnã e o impedi u qu e fizesse m recorte s arbitrário s no s textos 1 8 o
peso , durant e a s dua s última s década s n a França , privilegia -e apoiasse m e m citaçõe s extraída s d a Vontade d e potência
s
ra m a vertent e corrosiv a d o se u pensamento . Incluíram-n o aseo m leva r e m cont a qu e est e fo i u m livr o inventad o pel a irm
lad o d e Mar x e Freu d entr e o s "filósofo s d a suspeita" ; e enten d-o filósofo. 1 9 D e fato , combatend o o qu e julgara m se r um
dera m a filosofi a com o "exercíci o infinit o d a desconstrução" apropriaçã . o ideológica , a d e apresenta r Nietzsch e com o o mes
tr e d a suspeita , limitaram-s e a substitui r um a image m su a p
Be m mai s recentemente , algun s pensadores d a nov a geraçã o
outra . E co m a agravant e d e qu e est a nov a imagem , n a verda
pretendera m rompe r co m Nietzsch e atravé s d e u m acert o d e
de , reedito u outra s be m mai s antigas : a d e Nietzsch e racist a
conta s co m o s nietzschiano s francese s d e hoje . E voltara m
anti-semit a ou, na melho r das hipóteses , a de Nietzsch e com
contr a seu s mestres , Foucault , Deleuze , Derrid a e outros , a s
prometid o co m o pensament o tradicional .
arma s qu e este s lhe s ensinara m a manejar. 1 7
É co m determinaçã o qu e Múller-Laute r s e empenh a
Est e fat o ilustr a be m o s mau s feito s d a apropriaçã o
e m desmascara r a s leitura s ideologizante s d a obr a d o filósofo
E m se u artig o " O desafi o Nietzsche" , el e fa z ve r co m clarez
16 . A títul o d e exemplo , cf . o artig o "Nietzsch e contr a Marx" ,
publicad o e m 193 4 po r Drieu-la-Rochelle com o "ideologia s tê m frequentement e relaçõe s própria s d
, e m Socialis-
me fasciste. reciprocidade". 2 0 Mostr a com o s e construi u a image m marxist
17 . Cf . BOYER , Alai n et alii. Pourquoi nous ne sommesd e Nietzsch
pás e num a reaçã o à image m nacional-socialist a forja
nietzschéens, Paris , Bernar d Grasse t & Fasquelle , 1991 d a n. o Terceir o Reich . E apont a que, par a tanto , e m muit o con
D e mod o geral , o livr o pec a po r falt a d e reflexã o filosó -
fic a e excess o d e estado s psicológicos , relato s autobio - 18 . É o cas o d o artig o d e Andr é Comte-Sponvill e " A be
gráficos . Mas , par a alé m d a aparent e catarse , te m u m fera , o sofist a e o esteta : ' a art e a serviç o d a ilusã
objetiv o polític o muit o preciso : demarca r território , con - (n a ediçã o brasileira , p . 37-96) .
quista r espaç o n o cenári o intelectua l francês . E , par a 19 . É o qu e ocorr e n o text o d e Pierre-Andr é Taguief
tanto , nad a mai s eficient e qu e a polémica . S e a obr a paradigm a tradicionalista : horro r d a modernidad e e
possu i a qualidad e d o panfleto , ist o é , a veemência , se u tiliberalismo , Nietzsch e n a retóric a reacionária " (n a
maio r defeit o resid e e m manifesta r a alergi a po r Nietzsche , çã o brasileira , p . 213-94) .
co m o ímpet o d e contrapor-s e ao s nietzschiano s france - 20 . Traduzid o num a primeir a versã o po r Ernan i Chave s
ses . Lançad o n o Brasi l co m o títul o Po r qu e nã o somos n a versã o definitiv a pel a Comissã o Editoria l d a revista
nietzschianos (Sã o Paulo , Ensaio , 1994) , esperemo s qu e in discurso (21) , 1993 , p . 21 . Est e fo i o primeir o text o
nã o venh a apena s substitui r u m equívoc o po r outro s Múller-Laute r qu e co m grand e satisfaçã o logramo s
tantos , mai s grave s e numerosos . blica r n o Brasil .
22 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 23

correu o trabalho de Georg Lukács. Recorrendo à sociologia, pensamento, como propedêutica à superação das condições
o autor de A destruição da razão pretendeu explicar as coloca- individuais", e concluiu: "recuperemos Nietzsche".
ções do filósofo como resultantes de determinada posição ideo- Por furtar-se a enfrentar seu pensamento, há quem
lógica que vinha em defesa da burguesia imperialista na Ale- pretexte os efeitos políticos desastrosos que ele teria causa-
manha. Embora suas ideias fossem nebulosas, suas afirma- do. Se hoje há quem declare que seus escritos são monstruo-
ções confusas e sua reflexão eivada de contradições, ao seu sos, é porque não quer ver as deturpações de que foram obje-
pensamento garantia coesão o conteúdo social nele expresso. to. Assim reaviva-se a imagem de Nietzsche precursor do na-
E este consistia na luta contra o socialismo. zismo, fruto de uma leitura ligeira e superficial.
Mas Múller-Lauter pergunta: "Pode-se demonstrar me- Por desprezar sua reflexão, há quem sustente que o
lhor o irracionalismo de Nietzsche do que quando se lhe nega filósofo não fornece instrumentos para analisar as questões
toda coerência de ideias e se encontra sua unidade pura e políticas. Se hoje há quem assegure que, no Brasil, é inútil ler
simplesmente na irrazão ideológica da fundamentação do seus textos, é porque deles espera respostas imediatas para
imperialismo?"21 Não é por acaso que o livro de Lukács foi os nossos problemas. Assim divulga-se a imagem de Nietzsche
determinante na antiga República Democrática da Alemanha; desnecessário e inoperante, fruto de um modo de pensar prag-
ele contribuiu para a maneira pela qual lá passaram a encarar mático e utilitarista.
Nietzsche. Julgaram que seu pensamento se propunha a fazer Para desvalorizar suas ideias, há quem argumente
a roda da história girar para trás; entenderam, por exemplo, que o autor de Zaratustra é um fenómeno episódico da história
que a vontade de potência e o eterno retorno do mesmo esta- da filosofia. Se hoje há quem afirme que sua obra não deixou
vam na base da visão de mundo que alimentava todas as marcas, é porque desconhece a gama de escritos e debates
cruzadas anticomunistas.22 que ela continua a ensejar. Assim difunde-se a imagem de
E a nós surpreende que também no Brasil ainda haja Nietzsche sem escola ou seguidores, fruto de uma abordagem
quem partilhe tais preconceitos. Entre nós, muito cedo as ideias precipitada e cheia de prevenção.
de Nietzsche despertaram interesse. Já no início do século, Em suma, se entre nós ainda hoje há quem alerte
sua obra deixava marcas na literatura anarquista. Poucas dé- para os perigos do contágio Nietzsche ou por ele manifeste
cadas depois, seguindo o espírito da época, o filósofo passou alergia, argumentando que é um pensador contraditório e irra-
a ser tomado como pensador de direita. E quando chegava ao cionalista, é porque não se dispõe a enfrentar, sem intermedia-
auge a sua difamação, António Cândido tomou a sua defesa. ções, sua fala: corrosiva, mas também construtiva.
No ensaio "O portador", publicado em 1946 no Diário de São
Paulo, conclamou a que se levasse em conta "sua técnica de
Nietzsche, um dos pensadores mais controvertidos de
21. Idem, ibidem, p. 21. nosso tempo, deixou uma obra polémica que continua no cen-
22. Múller-Lauter menciona o último livro sobre Nietzsche tro da discussão filosófica. Mas, na verdade, dele sempre se
que veio a público na República Democrática da Alema-
disse o que se quis. Nos cem anos que nos separam do mo-
nha. Trata-se de Zur Philosophie Fríedrich Nietzsches
de Heinz Malorny lançado em 1989, em Berlim. mento em que interrompeu sua produção intelectual, as mais
24 A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 25

variadas imagens colaram-se à sua figura, as leituras mais precursor do nazismo e os que o encararam como o crítico da
diversas juntaram-se ao seu legado. ideologia, no sentido marxista da palavra.
Logo depois da crise de Turim, a súbita repercussão E multiplicaram-se as interpretações de suas ideias.
da obra trouxe em seu bojo o exorcismo de sua filosofia. Num Alguns tentaram esclarecer os textos partindo de uma aborda-
primeiro momento, o interesse despertado pela biografia e a gem psicológica. Entendiam as possíveis contradições neles
ênfase dada ao estilo atenuaram a força de suas ideias. Epi- presentes como manifestação de conflitos pessoais;23 perce-
sódios de sua vida — como a estada em clínicas psiquiátricas biam suas ideias como uma "biografia involuntária de sua alma";24
— atraíam a atenção e aguçavam a curiosidade. Genialidade compreendiam, em particular, sua concepção de além-do-
e loucura eram termos indissociáveis nos "círculos nietzschia- homem como fruto de uma "filosofia de temperamento".25 Ou-
nos", que começaram a proliferar em toda a Alemanha na tros, apoiando-se na psicanálise, diagnosticaram seu pensa-
passagem do século. Tudo se passava como se a crise em que mento como expressão de uma personalidade neurótica. En-
o filósofo mergulhara o envolvesse numa aura de mistério, caravam a doutrina da vontade de potência como tradução
conferindo a afirmações suas o peso das proclamações de um filosófica do jogo de seus mecanismos inconscientes;26 rela-
profeta. cionavam essa mesma doutrina com seu sentimento de
Era na literatura mais do que em qualquer outro cam- inferioridade;27 tomavam as teses da morte de Deus e do sur-
po que se exercia a sua influência. Nele se inspiraram autores gimento do além-do-homem como o ponto de chegada de um
naturalistas e expressionistas menos conhecidos e, também, processo que remontava às origens da consciência moderna.28
escritores de renome como Stefan George, Thomas Mann e, 23. Cf. ANDRÉAS-SALOMÉ, Lou. Friedrich Nietzsche In
mais recentemente, Robert Musil e Hermann Hesse. Muitos seinen Werken, Frankfurt am Main, Insel Verlag, 1983;
em português, Nietzsche em suas obras, São Paulo,
partiam do princípio de que Nietzsche não elaborou um progra-
Brasiliense, 1992. O propósito do livro é esclarecer o
ma, mas criou uma atmosfera: o importante era respirar o ar pensador através do homem; o pressuposto de que par-
de seus escritos. Fascinados por sua linguagem, nele redesco- te é o de que, em Nietzsche, obra e biografia coincidem.
briam a sonoridade pura e cristalina das palavras, a correspon- 24. Cf. WOLFF, Hans. Friedrich Nietzsche. Der Weg zum
dência exata entre nuanças de sons e sentidos, a nova perfei- Nichts, Berna, A. Francke Verlag, 1956.0 autor procura
ção da língua alemã. Mas viam-no sobretudo como um fino mostrar como o empenho de Nietzsche em conhecer
condenou-o ao niilismo.
estilista e abandonavam quase por completo o exame de suas
25. Cf. JANKÉLÉVITCH, S. Révolution et Tradition, Paris,
ideias. Janin, 1947. O objetivo do livro reside em fazer ver que
Entre 1890 e 1920, biografia e estilo ficaram em pri- o pensamento de Nietzsche é uma "filosofia de atmos-
meiro plano; com os anos, porém, começaram a surgir as mais fera".
diversas interpretações da filosofia de Nietzsche. Alguns fize- 26. Cf. JUNG, Cari Gustav. Úberdie Psychologie dês Unbe-
ram dele o defensor do irracionalismo; outros, o fundador de wussten, Zurique, Rasher Verlag, 1951.
27. Cf. DELAY, Jean. Aspects de Ia Psychiatrie moderne,
uma nova seita, o guru dos tempos modernos. Houve os que o
Paris, PDF, 1956. O autor dedica uma parte desse estu-
consideraram um cristão ressentido e os que viram nele o do à interpretação de algumas teses de Nietzsche.
inspirador da psicanálise. Houve ainda os que o tomaram por 28. Cf. ADLER, Gerhard. Études de Psychologie Jungienne,
26 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 27

A repercussão de seus escritos acabou por fazer-se deve ler Nietzsche. Nenhum filósofo alemão escreveu textos
sentir nas mais diversas áreas: na literatura, nas artes, na tão acessíveis como ele".30 É bem verdade que, neste caso, o
psicanálise, na política, na filosofia. É inegável que seus tex- leitor não se arrisca a defrontar-se com um escrito hermético
tos deixaram marcas indeléveis em nossa cultura. Sensível ao e impermeável a toda abordagem. É certo, porém, que corre o
impacto causado por Nietzsche nos últimos cem anos, Múller- risco de julgar, iludindo-se, apreender com justeza o que pare-
Lauter afirma: "A história de sua influência, que não se limitou ce facilmente acessível. Mais grave é este perigo que tem de
nem à Alemanha, nem à Europa, já foi diversas vezes escrita enfrentar: o de deter-se onde é instado a prosseguir investi-
sob diferentes pontos de vista". E acrescenta: "Com resulta- gando, o de abandonar arbitrariamente a busca e apegar-se
dos consideráveis, foi inserida no conjunto de experiências de ao já conhecido. E nada mais avesso ao espírito nietzschiano
sucessivas gerações de nosso século".29 que cristalizar convicções.31
Antes de tudo, Nietzsche não queria ser confundido. No entender de Múller-Lauter, o filósofo lança mão de
Para sua surpresa e horror, tanto anti-semitas quanto anar- diversos recursos "para induzir seus leitores a um trato pene-
quistas se diziam seus adeptos. Ao longo de décadas, porém, trante com seus textos". E todos contribuem para incitá-los a
será evocado por socialistas, nazistas e fascistas, cristãos, portarem-se enquanto filólogos.32 Recorre a expedientes vá-
judeus e ateus. Pensadores e literatos, jornalistas e homens rios para atraí-los, provocá-los e levá-los a toda espécie de
políticos terão nele um ponto de referência, atacando ou de- tentações. E todos concorrem para instigá-los a ruminar seus
fendendo sua obra, reivindicando ou exorcizando suas ideias. pensamentos.33 É desta forma que quer ser lido; lentamente,
No mais das vezes, vão operar recortes arbitrários em seu
30. "Uma filosofia para ruminar", Folha de S. Paulo, 9 de
pensamento visando a satisfazer interesses imediatos. Dessa
outubro de 1994, Caderno Mais, p. 7. Sob esse título
perspectiva, quem julgou compreendê-lo equivocou-se a seu veio a público a primeira parte do texto "Úber den Um-
respeito; quem não o compreendeu julgou-o equivocado. gang mit Nietzsche" (Sobre o trato com Nietzsche) na
Uma coisa é denunciar as utilizações indevidas que tradução de Oswaldo Giacóia Júnior. E este foi o segun-
se fez do autor de Zaratustra; outra é apontar as dificuldades do texto de Múller-Lauter que pudemos trazer para o
de compreensão que seus escritos colocam. Atento a estas leitor brasileiro.
31. Lembremos do aforismo 483 de Humano, demasiado hu-
duas ordens de questões, Múller-Lauter adverte: "À primeira
mano, onde se lê: "As convicções são inimigas mais
vista parecem ser supérfluas indicações acerca de como se perigosas da verdade que as mentiras".
32. Cf. nesse sentido Ecce homo, Por que escrevo livros tão
Genebra, Librairie de 1'Université, 1957. Consagra uma bons, § 5: "Que, nos meus escritos, fala um psicólogo
parte do trabalho ao esclarecimento de ideias de sem igual, é talvez a primeira constatação a que chega
Nietzsche, a partir de teses de Jung. um bom leitor — um leitor tal como mereço e que me lê
29. "O Desafio Nietzsche", loc. cit., p. 7. E Múller-Lauter como os bons filólogos de outror liam Horácio".
refere-se ao livro de Hermann Rausching, Masken und 33. Cf. nessa direção A genealogia da moral, prefácio, § 8:
Metamorphosen dês Nihilismus (Frankfurt/Viena, 1954), "É certo que, a praticar desse modo a leitura enquanto
em que, a partir da iminência do niilismo antecipada por arte, é necessário algo que precisamente em nossos
Nietzsche, o autor distingue três fases de sua influência. dias mais se desaprendeu — e por isso exigirá tempo
28 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 29

com cuidado e consideração. Do leitor ideal espera coragem e Klossowski37 pareciam atentos àquilo que o discurso nietzschia-
curiosidade; exige uma leitura compromissada. no suscitava; nortearam-se menos pelas ideias do filósofo que
Acerca da questão "como ler Nietzsche?", Deleuze e pela perspectiva que acreditavam apontar. Em 1964, no Coló-
Lyotard tomaram posição no Colóquio de Cerisy.34 Entende- quio de Royaumont, Foucault aproximara "Nietzsche, Marx,
ram que ele não se presta a comentários, como Descartes ou Freud".38 Não se tratava de examinar os pensadores para con-
Hegel. Nele, a relação com o exterior não é mediada pela trapor concepções suas ou de lançar mão de um deles para
interioridade do conceito ou da consciência; as palavras não demolir o outro, mas de relacioná-los justamente porque, em
valem como significações, representações das coisas. E que- vez de multiplicar os signos do mundo ocidental, teriam criado
rer comentá-lo, revelar o sentido de seu discurso, implica to- nova possibilidade de interpretá-los. Em 1972, Deleuze, Klos-
mar o partido da interioridade e da representação. É preciso, sowski e Lyotard insistiram em atribuir a Nietzsche lugar privile-
ao contrário, fazer uma leitura intensiva do filósofo; no dizer de giado. A ele recorreram para refletir sobre política, arte, cultura,
Deleuze, conectar o texto com a força exterior pela qual ele faz psiquiatria; tomaram-no como referência para pensar seques-
passar algo ou, no de Lyotard, produzir novas, diferentes in- tros e justiça popular, ocupação de fábricas e squattings, insur-
tensidades. Com isso, o autor desapareceria no texto e este, reições e comunidades antipsiquiátricas, happenings e pop art,
nos leitores. a música de Cage e os filmes de Godard. Segundo Lyotard, só
Naquela ocasião, Deleuze,35 Lyotard36 e também
Nietzsche permitia um discurso de intensidades máximas; para
Deleuze, ele operava uma decodificação absoluta, enquanto Freud
até que meus escritos sejam 'legíveis' — para o qual se
deve ser quase vaca e de modo algum 'homem moder- e Marx apenas recodificações.
no': o ruminar..." É com prudência e cautela que Múller-Lauter se posi-
34. Em julho de 1972, o Colóquio de Cerisy congregou pen- ciona diante da leitura proposta pelos franceses e, em parti-
sadores franceses e alemães, na sua maioria, para debater
cular, por Deleuze. Antes de mais nada, busca situá-la no espa-
o tema "Nietzsche hoje?" Os trabalhos então apresenta-
dos foram publicados sob o título Nietzsche aujourd' hui? ço em que conflitam as diversas apropriações ideológicas do
em dois volumes na coleção 10/18 (Paris, UGE, 1973), autor de Zaratustra. No artigo "O desafio Nietzsche", mostra
que reuniu 24 comunicações, geralmente seguidas pela que à imagem nacional-socialista do filósofo construída no Ter-
reprodução das discussões, e duas mesas-redondas. A ceiro Reich veio opôr-se a marxista, que via seu pensamento
partir desse material, organizamos o volume Nietzsche
como expressão da luta da burguesia contra o socialismo.
hoje? (traduzido do francês por Milton Nascimento e Sô-
nia Salzstein Qoldberg, São Paulo, Brasiliense, 1984),
que trouxe a público nove trabalhos seguidos das discus- 36. Cf. "Notes sur lê retour et lê kapital". In Nietzsche
sões que então ensejaram. O critério de nossa seleção aujourd'hui?, v. 1, p. 141-57; "Notas sobre o retorno e o
consistiu em oferecer ao leitor brasileiro a máxima diver- Kapital". In Nietzsche hoje?, p. 44-55.
sidade, diversidade de temas, abordagens e perspectivas. 37. Cf. "Circulus vitiosus". In Nietzsche aujourd'hui?, v. 1, p.
35. Cf. "Pensée nómade". In Nietzsche aujourd'hui?, volu- 141-57; "Circulus vitiosus". In Nietzsche hoje?, p. 91-103.
me 1, p. 159-74; "Pensamento nómade". In Nietzsche 38. In Nietzsche, Cahiers de Royaumont — Philosophie ne VI,
hoje?, p. 56-76. Paris, Minuit, 1967, p. 183-92.
30 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 31

E, a partir do início da década de 1970, a esta última imagem Mas, pondo em relevo o caráter transgressor da filo-
intelectuais franceses contrapuseram outra, a que tomava sua sofia de Nietzsche, não acabou Deleuze por atribuir-lhe "um
filosofia justamente como aliada no combate ao emburguesa- pathos social que lhe é estranho"? Mais até, não acabou por
mento. Foi nessa direção que caminhou Michel Foucault. Gran- ler os escritos do filósofo "de uma maneira particularmente
de foi o impacto do texto que apresentou no Colóquio de Royau- descompromissada"? É justamente o que pensa Muller-Lau-
mont. Aproximando Nietzsche, Freud e Marx, seu trabalho ser- ter. "Impõe-se a questão de saber", diz ele, "se a corrente de
viu, por um lado, como ponto de partida para as reflexões que força, com a qual Deleuze penetra de fora no interior dos afo-
Deleuze, Lyotard e Klossowski vieram a desenvolver acerca da rismos nietzschianos e de novo volta para fora, enriquecido
atualidade do pensamento nietzschiano. E, por outro, provocou pelo seu conteúdo, não acaba por estabelecer um tratamento
reações imediatas da parte dos ideólogos na antiga República arbitrário dos textos do filósofo, tratamento que excede a aber-
Democrática da Alemanha. Insurgindo-se contra a ideia de colocar tura já concedida por Nietzsche a seus leitores". E conclui:
Nietzsche e Marx lado a lado, eles sustentaram que não era "Tal pergunta deve ser respondida afirmativamente".39
possível nem legítimo pretender que ambos tivessem algum pon- Ainda a propósito da questão "como ler Nietzsche?",
to em comum. Karl Lòwith defende este ponto de vista: Não são as leituras
Por não ater-se ao passado, Deleuze não se preocupou que constituem um texto filosófico; ele permanece o que é,
com a utilização indevida que fascistas e nazistas fizeram dos independentemente delas. Há, portanto, leituras corretas e er-
escritos de Nietzsche; entendeu que com ela Jean-Wahl, Klos- radas. O critério que se impõe é o de compreender o autor
sowski e Bataille já haviam acertado as contas. Por voltar-se como ele mesmo se compreendeu — nem mais, nem menos.
para o futuro, empenhou-se em ressaltar o caráter ativo das E, no caso de Nietzsche, as dificuldades não são grandes,
ideias do autor de Zarafusfra; julgou que nelas se manifestava uma vez que ele reexaminou seus escritos nos prefácios de
grande força revolucionária. Seguindo em vários pontos a inter- 1886 aos livros já publicados e ainda na autobiografia. "Nietzsche
pretação de Foucault, considerou que, se a "trindade" Nietzsche, é o tipo de pensador que sempre tentou, ele próprio, fazer o
Marx e Freud se achava na aurora da modernidade, o primeiro
balanço de seu pensamento", afirma Lòwith; "no Ecce Homo,
nome que a constituía deveria ocupar posição de destaque. As
visão retrospectiva da obra, constata, surpreso, que teve ideias,
ideias de Freud e as de Marx concorreram para desmontar os
mas ignorava sua unidade e era inconsciente de sua coerên-
códigos sociais estabelecidos; o marxismo e a psicanálise, en-
cia, que só lhe aparecia no fim".40
quanto "as duas burocracias fundamentais", voltaram a normali-
Outra é a posição de Múller-Lauter. Tomando distân-
zar a vida pública e a privada. E assim operaram recodificações.
cia em relação a Lòwith, ele entende que, na autobiografia
Contra a "cultura burguesa", de que acreditava fazer parte inclu-
mais do que em qualquer outro texto, Nietzsche desafia o leitor
sive o pensamento marxista, Deleuze procurou utilizar a filosofia
a compreender seu pensamento. Tanto é que já no prólogo
nietzschiana. Contra a construção da imagem marxista do filóso-
fo, que só pôde condenar o estilo aforismático que ele adotou em 39. "O Desafio Nietzsche", loc. cit., p. 24.
vários de seus textos, o pensador francês quis resgatar o aforis- 40. In Nietzsche aujourd'hui?, volume 2, p. 227; Nietzsche
mo como instrumento de luta. hoje?, p. 159.
32 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE
A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 33

clama que não o confundem.41 Mas, se no primeiro parágrafo a defesa de convicções. Não é por acaso que, no entender de
faz essa exigência, logo no seguinte apresenta-se como uma Nietzsche, seriam justamente estes os requisitos essenciais
natureza antagónica.'12 E, no seu caso, é preciso levar em do espírito livre.44
conta não só os antagonismos que tem fora de si mas também
Alguns não hesitam em falar do mal-estar que hoje
aqueles que traz em si. É por essa razão que "não há o único
lhes provocam os escritos do filósofo; outros, da sedução que
entendimento correio do pensamento de Nietzsche em um sen-
ainda exercem. No Colóquio de Cerisy, Eugen Fink45 reconhe-
tido definitivo e conclusivo", assegura Múller-Lauter. "Isso por-
ceu que sua obra literária não mais influenciava escritores de
que não apenas ele próprio é inconcluso, mas, segundo pres-
talento como outrora; o encanto produzido pela perfeição de sua
supostos a ele inerentes, também tem que permanecer incon-
linguagem era coisa datada. Também Lõwiíh'16 admitia que a
cluso".43
embriaguez provocada por suas metáforas, parábolas e aforis-
Nos dois artigos publicados no Brasil, não passam
mos pertencia ao passado, quando Assim falava Zaratustra,
despercebidas as inquietações de Múller-Lauter diante da ques-
verdadeira bíblia, acompanhava os voluntários da Primeira Guer-
tão "como ler Nietzsche?". Na verdade, ele se dedica a des-
ra. Contudo, a aversão ou o fascínio, que porventura os textos
mascarar as apropriações ideológicas da obra do filósofo e
de Nietzsche ainda podem causar, não devem ofuscar o olhar
empenha-se em lidar com as peculiaridades de sua maneira
do comentador. Ele deseja, por certo, um leitor atento — e não
de expressar-se. Se é preciso impedir desvios e deturpações
preconceituoso ou entusiasta.
propositais de seu pensamento, também é necessário evitar
mal compreender suas ideias. E, no limite, os dois procedi- De diferentes maneiras, ao longo dos anos, os histo-
mentos vêm juntos; num caso e noutro, trata-se de desfazer- riadores da filosofia interpretaram a sua obra. Alguns procura-
se de hábitos, abandonar comodidades, renunciar à segurança.
44. Vale lembrar esta passagem notável da Gaia ciência:
Numa palavra, trata-se de impedir a adoção de crenças, evitar
"Onde um homem chega à convicção fundamental de
que é preciso que mandem nele, ele se torna 'crente';
41. É o que se lê nas últimas linhas do primeiro parágrafo inversamente seria pensável um prazer e uma força de
do prólogo de Ecce homa "Nessas circunstâncias há autodeterminação, uma liberdade da vontade, em que
um dever, contra o qual se revolta, no fundo, meu hábi- um espírito se despede de toda crença, de todo desejo
to, e mais ainda o orgulho de meus instintos, ou seja, de de certeza, exercitado, como ele está, em poder man-
dizer: Ouçam! Pois eu sou tal e tal. Não me confundam, ter-se sobre leves cordas e possibilidades, e mesmo
sobretudo!" diante de abismos dançar ainda. Um tal espírito seria o
42. Cf. as primeiras linhas do segundo parágrafo do prólogo espírito livre par excellence" (§ 347).
de Ecce homcr. "Não sou, por exemplo, nenhum bicho- 45. Cf. "Nouvelle expérience du monde chez Nietzsche". In
papão, nenhum monstro de moral — sou até mesmo Nietzsche aujourd'hui?, v. 2, p. 345-64; "Nova experiên-
uma natureza oposta (eine Gegensatz-Natur) à espécie cia do mundo em Nietzsche". In Nietzsche hoje?, p.
de homem que até agora se venerou como virtuosa. 168-92.
Entre nós, parece-me que precisamente Isso faz parte 46. Cf. "Nietzsche et 1'achèvement de 1'athéisme". In
de meu orgulho". Nietzsche aujourd'hui?, v. 2, p. 207-22; "Nietzsche e a
43. "Uma filosofia para ruminar", loc. cit., p. 7. completude do ateísmo". In Nietzsche hoje?, p. 140-67.
A DOUTRIN A DA VONTAD E DE PODE R EM NIETZSCHE A TERCEIR A MARGE M D A INTERPRETAÇÃ O 35
34

ra m aponta r o s referenciai s teórico s qu e el e adoto u e apro - 1954, 55 Heidegge r apontav a a íntim a ligaçã o entr e a teori a d a
funda r o s conceito s co m qu e trabalhou ; outro s buscara m si - vontad e d e potênci a e a doutrin a d o etern o retorno ; e m 1961, 56

tuá-l o e m se u moment o históric o e reinscrevê-l o n a atmosfer a permiti u qu e fosse m editado s seu s curso s sobr e a filosofi a
cultura l d e su a época . U m do s primeiro s a desenvolve r u m nietzschiana . U m an o depois , aparece u n a Franç a o trabaih o
trabalh o d e conjunt o sobr e o se u pensament o fo i Charle s de Gille s Deleuze, 57 qu e pô s e m relev o a noçã o d e valo r e
Andler. 47 Lançado s entr e 192 0 e 1931 , o s sei s volume s d e saliento u a importânci a d o procediment o genealógico . E m 1964 ,
se u estud o fora m criticado s po r outro s comentadores . Henr i n o Colóqui o d e Royaumont , Miche i Foucaul t aproximo u
Lefebvre 48 nele vi u um afrancesament o da s ideia s de Nietzsch e "Nietzsche , Marx , Freud" , entendend o que , n o sécul o XIX ,
e Jea n Granier 49 nel e responsabilizo u o acúmul o d e documen - ele s teria m inaugurad o um a nov a hermenêutica . E , e m 1972 ,
tos acessório s pel a penúri a d a anális e do s tema s propriamen -
n o Colóqui o d e Cerisy , encontr o internaciona l e m torn o d a
te filosóficos . O trabalh o d e Andle r teve , porém , grand e rele -
questã o "Nietzsch e hoje?" , Deleuze , Klossowsk i e Lyotar d ex -
vância : aponto u a s influência s a qu e Nietzsch e fo i suscetível ,
plorara m e m outr a direçã o a trilh a abert a po r Foucault ; nã o
refe z a tram a conceitua i d e seu s escrito s e empenhou-s e e m
pretendera m pensa r a atualidad e ci o text o nietzschian o ma s
reintroduzi-l o n a tradiçã o cultural . Kar l Lõwith , po r su a vez ,
pensa r a atualidad e através dele .
publico u e m 194 1 u m estudo, 50 e m qu e tentav a reinseri-l o n o
Fo i pel a leitur a do s pensadore s franceses , e m parti -
pensament o alemã o d o sécul o XIX , e ante s disso , e m 1935 ,
cula r d e Foucaul t e Deleuze , que , recentemente , n o iníci o d a
outro, 51 e m qu e s e detinh a n o exam e d a doutrin a d o etern o
décad a d e 1980 , o auto r d e Zaratustra ganho u outr a ve z des -
retorno . E m 1936 , Kar l Jaspers 52 escreve u u m trabalh o siste -
taqu e n o Brasil . A parti r d e Royaumont , Foucaul t encaro u
mátic o sobr e a vid a e obr a d o filósofo . Vint e ano s mais tarde ,
Walte r Kaufmann 53 troux e a públic o important e estud o e m lín - Nietzsch e meno s com o objet o d e anális e qu e com o gritle d e

gu a inglesa , consagrando-s e sobretud o à anális e d a teori a da lecture; relacionou-s e co m el e meno s com o o comentado r co m
vontad e d e potência . Ness a época , e m texto s d e 1950 54 e de se u interpretandum qu e com o o pensado r co m su a caix a d e
ferramentas . E m Cerisy , Deleuze , qu e e m 196 2 havi a publica -
d o u m comentári o exempla r d a obr a d o filósofo , questiono u o
47 . Cf . Nietzsche, sã vie e t sã pensée, Paris , Gallimard . qu e er a se r nietzschian o hoje : prepara r u m trabalh o sobr e
48 . Cf . Hegel, Marx, Nietzsche, Paris , Casterman , 2 - ed. , 1975 .
Nietzsch e o u produzir , n o curs o d a experiência , enunciado s
49 . Cf . L ê problème d e I a vérité dans I a philosophie dnietzschianos
e .
Nietzsche, Paris , Seuil , 1966 . Amig o pessoa l d e Foucault , Gérar d Lebrun , qu e este -
50 . Cf . Von Hegelzu Nietzsche, Zurique , EuropaVerlag , 1941 .
51 . Cf . Nietzsches Philosophie de r ewigen Wiederkehr v
dêse entr e nó s po r mai s d e trint a anos , sempr e privilegio u pen -
Gleichen, Hamburgo , Feli x Meine r Verlag , 3 - ed. , 1978 .sadore s com o Nietzsch e e Pascal . A ele s recorri a com o instru -
52 . Cf . Nietzsche — Einfúhrung in da s Verstândnis seines \ Berlim , Walte r d e Gmyte r & Co. , 1950 .
55 . Cf . VortrãgeundAufsàtze, Túbigen , GuntherNesk e Ver -
53 . Cf . Nietzsche, Philosopher, Psychologist, Antichrist, No - lag , 1954 .
va York , Th e Worl d Publishin g Co. , 10 a ed. , 1965. 56 . Cf . Nietzsche, 2vs., Berlim , GuntherNeskeVerlag' , 1961 .
54 . Cf . Holzwege, Frankfurt , Vittori o Klostermann , 2 - ed. , 1952 . 57 . Cf . Nietzsche e t I a philosophie, Paris , PUF , 1962 .
A TERCEIR A MARGE M DA INTERPRETAÇÃ O 37
36 A DOUTRIN A D A VONTAD E D E PODE R E M NIETZSCH E

escrev e Muller-Lauter , "nã o pod e se r encontrad a com o u m


mento s d e trabalho ; com o operadore s utilizav a conceito s seus . ultim o substrat o d e 'verdades ' subjacente s a se u pensamento ,
Fazend o d a filosofi a um a históri a heterodoxa , nã o procuro u ne m simplesment e extraída s d e seu s textos". 59
reconstitui r sistema s d e pensamento , tomando-o s isolado s un s Qu e Nietzsch e nã o se pretend a u m pensado r sistemá -
do s outros , o u determina r verdade s d e doutrinas , substituindo - tico , salt a ao s olho s d e que m entr a e m contat o co m su a obra .
a s uma s à s outras . Tampouc o pretende u coteja r sistema s filo -
E iss o nã o s e dev e apena s a o estil o específic o qu e adot a o u
sófico s o u compara r verdade s doutrinárias , apontand o sua s
a o tratament o peculia r qu e d á a certa s questões . Deve-s e so -
afinidade s e divergências , seu s débito s e créditos . Rejeitand o
bretud o à su a recusa , explícita , do s sistema s filosóficos . D e
a técnic a d a contabilidade , trato u d e apreende r o s parti pris
fato , nã o sã o rara s a s veze s e m qu e a ele s s e opõe. 60 Ma s o
velado s d e u m procediment o lógico , capta r a s ideia s subjacen -
pont o centra l d e su a crític a nã o resid e n o fat o d e apresenta -
te s a um a obra , diagnostica r o não-dit o d e u m autor .
re m um a unidad e metodológic a e si m d e fixare m um a dogmá -
A Lebrun , e a muito s qu e el e formou , a genealogi a
tica . Tampouc o sã o rara s a s ocasiõe s e m qu e s e opõ e ao s
nietzschian a permiti u desvenda r o ardi l do s filósofos , pratica r
espírito s sistemáticos. 61 A o pretende r impo r a o pensament o
a desconfianç a fac e à s mai s diversa s formaçõe s ideológicas ,
caráte r monolítico , ele s seria m levado s a desisti r d a busca ,
enfim , questiona r a vertent e clericalista , teológica , crist ã d e
abandona r a pesquisa , abri r mã o d a criatividade . Acreditand o
noss o pensamento . Poi s com o escrev e o própri o Gérar d Lebrun :
precisa r d e amplo s horizonte s par a te r grande s ideias , Nietzsch e
nega-s e a encerra r o pensament o num a totalidad e coes a ma s
Ma s qu e outra coisa pretender, quando no s
fechada . Pondo-s e com o u m pensado r assistemático , e mes -
propomos a ler Nietzsche hoje? Muito se en-
m o anti-sistemático , manifest a su a dissonânci a fac e a cert a
ganaria quem pretendesse travar conhecimen-
concepçã o d o saber , qu e identific a filosofi a e sistema .
to com um filósofo a mais. Nietzsche não é
Par a o s estudioso s d o filósofo , desd e log o s e impô s a
um sistema: é um instrumento de trabalho —
pergunt a acerc a d a existênci a o u nã o d e u m sistem a e m su a
insubstituível. E m ve z d e pensar o qu e el e
obra . Na s primeira s década s dest e século , Charle s Andle r cons -
disse , importa acima d e tudo pensar co m
tat a que , embor a já haj a consens o quant o à existênci a d e um a
ele".58

59 . " O Desafi o Nietzsche" , loc. cit, p . 13 .


Co m Lebrun , Muller-Laute r talve z s e pusess e d e acor -
60 . Nu m fragment o póstumo , afirma : "nã o so u limitad o o
do quant o a est e ponto : Nad a mai s estranh o a Nietzsch e que ; bastant e par a u m sistem a — ne m mesm o par a me u sis -
o projet o d e enclausura r o pensamento , encerrá-l o no s limite s j tema... " ([255 ] 1 0 [146 ] d o outon o d e 1887) .
estreito s d e um a dogmática . Nad a mai s distant e del e qu e o ; 61 . N a Aurora assegura : "Exist e um a comédi a do s espírito s
sistemáticos ; querend o perfaze r u m sistem a e arredon -
propósit o d e coloca r a reflexã o a serviç o d a verdade , asfixia- 1
da r o horizont e qu e o cerca , forçam-s e a pô r e m cen a
Ia so b o pes o d o incontestável . "Ta l unidad e ( a d e su a obra)" , j
a s qualidade s mai s fraca s n o mesm o estil o da s qualida -
de s mai s forte s — quere m apresentar-s e com o nature -
58 . "Po r qu e le r Nietzsch e hoje? " In : Passeios a o léu. São ] za s inteira s e homogénea s e m su a força " ( § 318) .
Paulo , Brasiliense , 1983 , p . 38 .
38 A DOUTRIN A DA VONTAD E DE PODE R EM NIETZSCH E A TERCEIR A MARGE M D A INTERPRETAÇÃ O 39

filosofi a nietzschiana , aind a s e duvid a d e qu e el a poss a com - espírito s sistemáticos , tev e d e reconhecer , e m 1888 , qu e po r
porta r u m sistema . N o se u entender , porém , a obr a d e Nietzsch e veze s fo i co m esforç o qu e escapo u d e se r u m deles. 62 Este s
abrig a pel o meno s doi s sitemas , fruto s d e dua s grande s intui - sã o o s argumento s qu e alinhava , par a entã o concluir :
ções : o d o pessimism o estético , elaborad o entr e 186 9 e 1881 ,
e o d o transformism o intelectualista , desenvolvid o d e 188 1 a S e s e levam e m conta, apesar d e todas a s
1888 . Parcialment e incoerente s entr e si , cad a u m dele s revel a suas oposições, as conexões imanentes do
perfeit a coerênci a e m s i mesmo . Po r outr o lado , Jasper s sus - pensamento nietzschiano, este não pode ser
tent a qu e o filósof o nã o constró i u m conjunt o intelectua l lógico . simplesmente oposto à sistematicidade. 63
O s esboço s d e sistema , presente s e m seu s escritos , sã o ape -
na s apresentaçõe s provisória s d e ideia s visand o à exposição , Ma s també m co m Kaufman n e m cert a medid a concor -
consequência s d e determinad a orientaçã o d e pesquis a o u re - da Múller-Lauter . S e Nietzsch e é u m pensador-de-problemas ,
sultado s d a açã o qu e pretend e exerce r atravé s d a reflexã o ne m po r iss o s e deté m n o exam e d e questõe s isoladas . A o
filosófica . Kauimann , po r su a vez , recorrend o à distinçã o pro - contrário , sempr e vis a à unidade . S e procur a conecta r o s pro -
post a po r Nicola i Hartman n e m O pensamento filosófico e su a blema s específico s co m u m todo , ne m po r iss o esper a torna r
história, s istení a qu e Nietzsch e nã o é u m pensador-de-siste - su a reflexã o definitiva . A o contrário , que r continuament e pô r à
ma s (system-thinker), ma s u m pensador-de-problema s (pro- prov a sua s hipóteses . "El e experiment a co m o pensamento" ,
blem-thinker}. Procurand o faze r experimento s co m o pensar , escrev e Múller-Lauter .
e! e lecorr e a o estil o aforismátic o e , ness a medida , est á d e
acord o co m o espírit o d a época , marcad o pel a insatisfaçã o S e no s deixarmos levar po r seus questiona-
crescerú e co m o s modo s tradicionai s d e expressão . Po r enten - mentos, que no essencial ainda são os nos-
de r "experimentar " com o "tenta r vive r d e acord o com" , a uni - sos, poderemos ser enredados por suas refle-
dad e do - se u pensamento , embor a po r veze s obscurecid a — xões, poderemos trilhar os caminhos que le-
ma s nunc a obliterad a — pel a descontinuidad e d o experimen - vam ao âmago dos problemas e conjuntos de
talismo , encontrari a garantia s n a unidad e d a própri a vida , o u seu filosofar? 4
seja , repousari a num a "unidad e existencial" . Lõwith , po r fim ,
encar a o pensament o nietzschian o com o u m sistem a e m afo - 62 . Cf . o fragment o póstum o (372 ) 1 1 [410 ] d e novembr o d
rismos . Su a produçã o aforismátic a apresent a um a unidade , 1887/març o d e 1888 , a qu e Múller-Laute r s e refere : "NB
ligad a à d a própri a taref a filosófica , amba s sustentada s pel a Desconfi o d e todo s o s sistemático s e o s evito . A vonta
d e d e sistem a é , par a u m pensado r a o menos , alg o qu
lógic a d e cert a sensibilidad e diant e d a filosofia .
compromete , um a form a d e imoralidade.. . Talve z adivi
Quant o a est e ponto , Múller-Laute r concord a e m cert a
nhe m atravé s d e u m olha r lançad o embaix o e atrá s des
medid a co m Lõwith . S e Nietzsch e sustent a qu e o cao s s e ach a te livr o d e qu e sistemátic o el e própri o escapo u co m es
inscrit o n o mundo , també m reconhec e qu e a orde m é indispen - forç o — d e mi m mesmo... "
sáve l par a a vida . Tant o é qu e nã o pôd e furtar-s e — co m o se u 63 . " O Desafi o Nietzsche" , loc. c/f. , p . 13 .
pensament o — a ordenar . E , malgrad o a crític a qu e dirig e ao s 64 . " O Desafi o Nietzsche" , loc. cit,, p . 13 .
40 A DOUTRIN A D A VONTAD E DE PODE R EM NIETZSCH E A TERCEIR A MARGE M D A INTERPRETAÇÃ O 4 1

Lówit h e Kaufman n insiste m n o fat o d e o filósof o te r se acha m intimament e relacionadas . É est a relação , ao qu e no s
colocad o o estil o aforismátic o a serviç o d e se u experimentalis - parece , qu e defin e o caráte r experimenta i de su a filosofia .
mo . O s aforismos , tentativa s renovada s d e refleti r sobr e algu - Nest e contexto , encontr a luga r um a questã o centra l pa -
ma s questões , possibilitaria m experimento s co m o própri o pen - ra grand e part e do s comentadores : a de investiga r se Nietzsch e
sar . Mai s cuidadoso , Múller-Laute r julg a qu e nã o s e dev e atri - é incoerent e ou não , se se u pensament o é contraditóri o ou não .
bui r a Nietzsch e u m estil o aforismático , porqu e el e recorre u a Jaspers , Kaufman n e Granier , entr e outros , alerta m par a a exis -
diverso s meio s estilísticos de expressão . Contudo , tant o Lówith tênci a de contradiçõe s e m seu s textos . Kar l Jasper s sustent a
e Kaufman n quant o Múller-Laute r ressalta m o caráte r funda - que ela s nã o se deveriam , porém , ao privilégi o de um mod o de
mentalment e experimenta l d o pensament o nietzschiano . expressão , mesm o porqu e a obr a nã o apresentari a um a form a
De fato , sã o vário s o s texto s e m qu e o filósof o convi - dominant e e abrigari a tant o o discurs o contínu o quant o o aforis -
da o leito r à experimentação , sej a po r entende r qu e nós , hu - mátic o o u polémico . A interpretaçã o teri a d e busca r toda s a s
manos , nã o passamo s d e experiência s o u po r acredita r qu e contradiçõe s e, reunind o concepçõe s relativa s a um mesm o te -
nã o nos devemo s furta r a faze r experiência s com nós mesmos . ma , chega r à "dialética real", que levaria a esclarece r o projet o
Em Assim falava Zaratustra, jamai s lanç a mã o da linguage m nietzschian o e , co m isso , compreende r a necessidad e da s con -
conceituai ; a s posiçõe s qu e avanç a tampouc o s e baseia m e m tradições .
argumento s o u razões ; assentam-s e e m vivências. 65 E m Para Walte r Kaufmann , po r su a vez , entend e qu e a maneir a
além d e be m e mal, refere-s e ao s filósofo s d o futur o com o de pensa r e expressar-s e de Nietzsch e permitiri a qu e surgisse m
experimentadores , com o o s qu e tê m o deve r "da s ce m tentati - contradiçõe s no s seu s escritos , ma s ela s poderia m se r resolvi -
vas , das cem tentaçõe s da vida".66 E, num fragment o póstu - das , se considerados os "processos de pensamento" que o leva-
mo , afirm a ignora r "o qu e seja m problema s 'purament e espiri - ra m a pensa r com o fez . O primeir o pass o par a apreendê-lo s
tuais ' ", 67 Co m isso , que r ressalta r qu e su a reflexã o e su a vid a consistiri a e m reexamina r a relaçã o entr e o s fragmento s póstu -
mo s e o s livro s publicados . A obr a póstum a comportari a um a
65 . Tant o é que , nu m determinad o momento , a personage m
divisã o em trê s partes : O anticristo, Ecce homoe O caso Wagner,
centra l diz a um de seu s discípulos : "Po r que ? Pergunta s
trabalho s concluído s qu e só viera m a públic o depoi s da cris e de
por que ? Nã o so u daquele s a que m se tem o direit o de
perguntar por seu porque. Acas o é de onte m a minha 1889 , deveria m ser tratado s como livros publicados; as nota s
vivência ? H á muit o qu e vivencie i as razõe s de minha s utilizada s par a as aula s na Universidad e da Basileia , apresen -
opiniões " ("Do s poetas") . Recusand o teoria s e doutrinas , tand o u m discurs o contínuo , nã o traria m maiore s dificuldades ;
rejeitand o a erudição , Zaratustr a sempr e apel a par a su a
enfim , a mass a de fragmentos , redigido s durant e as caminhada s
experiênci a singular . É co m o intuit o de reforça r est a atitu -
no s Alpe s e utilizado s o u nã o e m trabalho s posteriores , seri a
de que , repetida s vezes , recorr e à image m do sangue .
"De todo s os escritos", diz ele , "am o apena s o que al- revelador a d o mod o pel o qua l o auto r chego u a sua s posiçõe s
guém escrev e com seu sangue" ("D o ler e escrever"). finais, ma s não poderi a ser equiparad a ao s livro s concluídos .
66. Cf. § 42.
67. Cf . o fragment o póstum o 4 (285 ) do verã o de 1880 , meu corpo e a minha vida; ignor o o que seja m proble -
ond e se lê: "Sempre escrev i minha s obra s co m tod o o ma s 'purament e espirituais'".
42 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 43

Jean Granier, por fim, julga que as contradições que cidade de perspectivas adotadas na reflexão sobre a mesma
a obra de Nietzsche comporta se tornariam compreensíveis, problemática.
se tomadas enquanto expressão da pluralidade de pontos de Quando se trata de examinar as eventuais incoerên-
vista do autor. Estes, no entanto, não se achariam linearmente cias do autor de Zaratustra, as contradições eventuais de seu
justapostos, mas estruturados em "andares", de modo que, pensamento, Múller-Lauter é taxativo: o que se coloca sob
levando em conta a verticalidade das intuições nietzschianas, nossos olhos é uma filosofia que vive de seus próprios confli-
seria possível detectar as linhas de ruptura responsáveis pela tos. "A filosofia de Nietzsche vive de suas tensões imanen-
clivagem dos diferentes pontos de vista e apreender, assim, a tes", assegura. "Somente delas se obtém a unidade de sua
dinâmica de seus "ultrapassamentos". obra".68 E esta é talvez a principal razão pela qual ele tem de
Preocupados com as contradições que emergem dos permanecer inconcluso, não pode almejar um termo de chega-
textos de Nietzsche, Jaspers, Kaufmann e Granier propõem da para suas investigações. De fato, não é mais um sistema
três maneiras distintas de lidar com elas. Para Jaspers, uma filosófico o que propõe. O que faz é criar outra forma de con-
vez que quer chegar à "dialética real", elas são necessárias; ceber a filosofia, outro modo de filosofar. Pondo em prática
para Kaufmann, já que espera entender os "processos de pen- sua "psicologia do desmascaramento", questiona preconcei-
samento", elas acabam por dissolver-se; para Granier, porque tos, combate pré-juízos, denuncia convicções. Suas conside-
pretende apreender a dinâmica dos "ultrapassamentos", elas rações, audaciosas, ousadas, irreverentes, são por isso mes-
se tornam compreensíveis. mo extemporâneas. Distanciando-se de Foucault, que toma o
Ora, experimentalismo e perspectivismo têm ligação filósofo como sua caixa de ferramentas, Múller-Lauter talvez
estreita. Ao fazer experimentos com o pensar, Nietzsche per- então dissesse que ele é antes de tudo um instrumento de
segue uma ideia a partir de vários ângulos de visão, aborda trabalho para si mesmo.
um tema assumindo diversos pontos de vista, enfim, reflete
sobre uma problemática adotando diferentes perspectivas. Nes-
sa medida, as contradições que o confronto com os textos Mas, em seu ensaio A doutrina da vontade de poder
traz à tona são necessárias, tornam-se compreensíveis e aca-
em Nietzsche, é sobretudo com Heidegger que Múller-Lauter
bam por dissolver-se. São necessárias, não por terem sido
se propõe a discutir.69 Se com Foucault ele não chega a dialo-
colocadas por uma "dialética real", como quer Jaspers, mas
por emergirem da diversidade de ângulos de visão assumidos 68. "O Desafio Nietzsche", loc. c/f., p. 13.
na abordagem da mesma questão; tornam-se compreensíveis, 69. É fato que deixa clara sua intenção, na primeira nota ao
não por corresponderem a momentos que seriam em seguida texto, de nele levar em conta principalmente as obje-
"ultrapassados", como pretende Granier, mas por surgirem ções que Weischedel ("A vontade e as vontades. Para
da pluralidade de pontos de vista tomados no tratamento do a discussão de Wolfgang Múller-Lauter com Martin Hei-
degger". InZeitschriftfurphilosophische Forschung27/'\,
mesmo tema; acabam por dissolver-se, não por se apresenta-
1973, p. 71-6) e Kôster ("A problemática da interpreta-
rem enquanto etapas preparatórias que levariam a posições ção científica de Nietzsche. Reflexões críticas a respei-
finais, como espera Kaufmann, mas por brotarem da multipli- to do livro de Wolfgang Múller-Lauter sobre Nietzsche".
44 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE
A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 45

gar intensamente, com Heidegger se defronta várias e repeti-


No entender de Heidegger, a metafísica, não se colo-
das vezes. 70 Em seu artigo "O desafio Nietzsche", constata cando a pergunta pelo Ser, encerra-se nos parâmetros exclu-
com razão que, "a despeito de seus aspectos discutíveis, a sivos do ser do ente.72 É nesse espaço que Nietzsche desen-
interpretação heideggeriana de Nietzsche exerceu capital in- volve a reflexão filosófica. Seu pensamento apresenta cinco
fluência, que ainda perdura, não só sobre as leituras de Nietzsche termos fundamentais: a vontade de potência, o niilismo, o eter-
na Alemanha, mas também na França e nos Estados Unidos".71 no retorno do mesmo, o além-do-homem e a justiça; através
de cada um deles, a metafísica revela-se sob certo aspecto,
In Nietzsche-Studien (2), 1973, p. 31-60) fizeram a seu numa relação determinada. A vontade de potência designa o
livro Nietzsche, Sua filosofia dos antagonismos e os an- ser do ente enquanto tal, sua essência; o niilismo diz respeito
tagonismos de sua filosofia (Nietzsche. Seine Philoso-
à história da verdade do ente assim determinado; o eterno
phie der Gegensãtze und die Gegensàtze seiner Philo-
retorno do mesmo exprime a maneira pela qual o ente é em
sophie, Berlim, Walter de Gruyter & Co., 1971). Contu-
do, as primeiras linhas do ensaio revelam que seu inter- totalidade, sua existência; o além-do-homem caracteriza a hu-
locutor privilegiado, embora oculto, é Heidegger. manidade requerida por essa totalidade; a justiça constitui a
70. Em seu livro Nietzsche — Sua filosofia dos antagonis- essência da verdade do ente enquanto vontade de potência. A
mos e os antagonismos de sua filosofia, publicado em partir daí, Heidegger empenha-se em mostrar de que modo o
1971, já apresenta refutação filosófica decisiva da inter- pensamento nietzschiano fica enredado nas teias da metafísi-
pretação que Heidegger faz do pensamento nietzschi-
ca. Procurando impor a própria reflexão como um movimento
niano.
71. Loc. c/f., p. 9. O interesse particular, que Múller-Lauter antimetaf ísico, Nietzsche opera tão-somente a inversão do pla-
demonstra pela interpretação heideggeriana de Nietzsche, tonismo, pois "a inversão de uma proposição metafísica per-
ao contrapor-se a ela de maneira determinada e decidi- manece uma proposição metafísica".73
da, torna-se ainda mais compreensível, se se levar em Com a morte de Deus, o filósofo nomeia o destino
conta a sua formação. Nas palavras de Oswaldo Gia-
de vinte séculos da história ocidental, apreendendo-a como
coia Júnior: "Membro de uma geração de intelectuais
cuja formação transcorreu sob marcante influência de o advir e o desdobrar-se do niilismo. Ao afirmar que "Deus
filósofos como Martin Heidegger e Karl Jaspers, assim está morto", quer dizer que o mundo supra-sensível não tem
como sob o impacto avassalador das consequências da poder eficiente. Encarando-o como ilusório, é levado a con-
Segunda Grande Guerra, Múller-Lauter fez também par-
siderar verdadeiro o mundo sensível — e, nisto, segue a ins-
te do grupo dos jovens académicos que assumiu como
própria a tarefa de soerguer dos escombros aquilo que piração positivista da época. Ao passar do espírito para a
restara do património universitário e do legado espiri- vida, pensa a metafísica até as últimas consequências, sem
tual da tradição alemã. Data, pois, de muito cedo sua
ocupação reflexiva com a obra de M. Heidegger, bem 72. Cf., entre vários outros textos, Kant und das Problem
como seu envolvimento — de início marcado por certa der Meiaphysik, onde se lê: "a metafísica é o conheci-
disposição negativa — para com a filosofia de Nietzsche, mento fundamental do ente enquanto tal e em totalidade".
que — como é sabido — foi apropriada e deformada, 73. Cf. Sobre o humanismo, traduzido do alemão por Emma-
malgrado seu, para fins de propaganda e mistificação nuel Carneiro Leão, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro,
ideológica nacional socialista".
1967, p. 47-8.
A TERCEIRA MARGEM DA INTERPRETAÇÃO 47
46 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE

conseguir, porém, romper com ela.74 Sem chegar a desmon- camadas". 76 Ora, é justamente o que ele põe em prática, com

tar a estrutura fundamental do ente enquanto tal, a filosofia discrição e modéstia, mas também com determinação.
Em seu livro Nietzsche — Sua filosofia dos antagonis-
nietzschiana continuaria a desenvolver-se no horizonte do "es-
mos e os antagonismos de sua filosofia, pretende fazer uma
quecimento do Ser".
apresentação e crítica imanentes da obra do filósofo. Em seu
Muller-Lauter poderia muito bem pôr-se de acordo com
ensaio A doutrina da vontade de poder em Nietzsche, conta
Heidegger quanto a incluir Nietzsche na história da metafísica.
não perder de vista em momento algum o horizonte de sua
E com ele poderia também concordar quanto à necessidade de
filosofia. Em ambos os casos, põe-se à escuta e busca com-
outro começo para o pensar. Contudo, Heidegger julga que a
preender os interesses e questionamentos específicos do au-
reflexão nietzschiana constitui o momento de completude da
tor de Zaratustra. Opta assim por estar atento àquilo que o
metafísica ocidental, uma vez que, ao inverter o platonismo, a
próprio Nietzsche quis dizer ou disse. Tomadas tais decisões
ela propiciou esgotar suas possibilidades essenciais. E Muller-
metodológicas, dispõe-se a investigar em profundidade o que
Lauter entende que a empresa de Nietzsche consiste justa-
elegeu como seu objeto de exame. E, no caso do ensaio, ele
mente em proceder à destruição da metafísica a partir dela
consiste nesta afirmação — aparentemente simples — do filó-
mesma. Se, por vezes, o filósofo assume ares de metafísico,
sofo: "esse mundo é a vontade de potência — e nada além
(ao pensar, por exemplo, o eterno retorno como a suprema
disso!" 77
aproximação entre o vir-a-ser e o ser 75 }, por trás das aparên-
É tal a estratégia a que Muller-Lauter recorre que, a
cias que inventa para si a cada momento, leva a metafísica a
cada passo do texto, destitui a concepção da vontade de po-
desmoronar, porque não se detém em momento algum em
tência das conotações metafísicas com que os intérpretes a
suas investigações. "A significação completa desse aconteci- carregaram: unicidade, permanência, substancialidade, fixidez,
mento", conclui Muller-Lauter, "só poderia ser adequadamen- universalidade. Mas não nos enganemos; o principal objetivo
te interpretada no quadro de uma extensa discussão em que a que persegue é o de demonstrar, contrapondo-se a Heideg-
metafísica fosse problematizada na multiplicidade de suas ger, que a reflexão de Nietzsche exclui a pergunta pelo fun-
damento do ente, no sentido da metafísica tradicional. E, com
74. Heidegger conclui: "Enquanto simples inversão da me-
isso, põe em evidência o que ela tem de mais próprio: o plu-
tafísica, o antimovimento de Nietzsche contra ela cai
irremediavelmente nas suas ciladas — e de tal forma ralismo e o dinamismo, pois é graças a eles que pode abrir-
que a metafísica, divorciando-se de sua natureza pró- se para o futuro.
pria, não pode mais, enquanto metafísica, pensar a pró- Pluralista, o pensamento nietzschiano apresenta ao
pria essência" ("Nietzsche's Wort 'Gott ist tot'". In Holz- leitor múltiplas provocações. Dinâmico, a ele propõe sempre
wege, Frankfurt am Main, Vittorio Klostermann, 2- ed.,
novos desafios: a crítica contundente dos valores, que entre
1952, p. 200).
nós ainda vigem; os ataques virulentos à religião cristã e à
75. Cf. o fragmento póstumo 7 (54) do final de 1886/ prima-
vera de 1887, onde se lê: "Que rudo retome é a mais
extrema aproximação de um mundo do vir-a-ser com o 76. A doutrina da vontade de poder em Nietzsche, p. 53.
do ser". 77. Cf. o fragmento póstumo 38 (12) de junho/julho de 1885.
A DOUTRIN A DA VONTAD E DE PODE R EM NIETZSCH E

mora l d o ressentimento , constitutiva s d e noss a maneir a d e


pensar ; o combat e à metafísica , qu e devast a noçõe s consa -
grada s pel a tradiçã o filosófica ; a desconstruçã o da linguagem ,
qu e subvert e termo s comument e empregados ; a tentativ a de
implodi r as dicotomias , qu e desestabiliz a noss a lógica , noss o
mod o habitua l d e raciocinar . Contudo , se u desafi o maio r tal -
ve z consist a no caráte r experimenta l qu e reveste . Instigand o a
questiona r se m trégu a o u termo , descart a grand e quantidad e
de preconceitos , desmascar a a falt a d e sentid o d e inúmera s
convicções . Tant o é que , a o concebe r a vid a com o possibilida -
de d e "experimentaçã o d e conhecimento" , Nietzsch e fa z d o
II
experimentalism o su a opçã o filosófica .
Distanciando-s e da s leitura s empreendida s po r Hei -
degge r e po r Foucault , aind a tã o e m vog a entr e nós , Muller -
Laute r inaugur a um a nov a vertent e interpretativ a d a obr a d o A DOUTRIN A
filósofo . Compreend e d e outr o mod o se u caráte r peculiar ; el e DA VONTAD E D E
nã o residiri a na tentativ a de leva r a metafísic a at é a s última s
consequência s ne m no ensai o de inaugura r nova s técnica s de
PODE R EM
interpretação . A filosofi a nietzschian a s e d á a o leito r enquant o NIETZSCH E
reflexã o incessante , e m permanent e mudança . Com o o ri o de
Heráclito , el a afirm a a inocênci a d o vir-a-ser ; mai s ainda , el a
se põ e enquant o vir-a-ser . E a o percebê-l a dess a perspectiva , Wolfgang Múller-Lauter
Múller-Laute r situa-s e — par a lembra r u m títul o d e Guimarãe s Tradução de
Ros a — n a terceir a marge m do rio . Oswaldo Giacoia Júnior
A doutrina da vontade de poder em Nietzsche1

Também aqui, como tão frequentemen-


te, a unidade da palavra nada garan-
te para a unidade da coisa.
H.H. l, 14

Quando Nietzsche escreve que o mundo seria vonta-


de de poder e nada além disso, com essa clara declaração ele
parece nos ter posto em mãos uma chave para a compreensão
de seu pensamento, com emprego da qual os intérpretes filo-
sóficos estão familiarizados: ele nomeia o fundamento do ente
e determina, a partir dele, o ente em sua totalidade; seu pen-

A presente tradução tem por base a segunda versão, até


aqui inédita, do texto publicado nos Nietzsche/Studien de
1974, Berlim/Nova York, Walterde Gruyter, p. 1-60. Tra-
ta-se de versão revista e ampliada, que nada altera nas
posições hermenêuticas fundamentais do texto original.
Optei por vontade de poder, não pelo corrente termo von-
tade de potência, para traduzir o conceito nietzschiano
Der Wille zur Macht. A tradução tem o inconveniente de
arriscar-se a circunscrever o conceito demasiadamente
52 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE
A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 53

samento é metafísica, no corrente sentido da longa história da mente à estrutura do volitivo (Gefúge von Wollendem), que,
perguntado pelo seu derradeiro, fáctico ser-dado (Gegeben-
filosofia ocidental. A compreensão desse pensamento não nos
sein), subtrai-se no in-fixável (Un-fest-stell-bare). Não há dúvi-
coloca, pois, em princípio, diante de novos problemas. Nietzsche
da de que Nietzsche permanece metafísico. Nenhuma dúvida
pode também se voltar explicitamente contra a metafísica, mas
de que ele restaura a metafísica: por exemplo, quando pensa,
podemos rapidamente nos convencer de que ele dela fala ape-
na doutrina do retorno, a suprema aproximação entre o devir e
nas no sentido de uma teoria dos dois mundos (Zweiwelten-
o ser. Mais essencial parece-me, porém, que, por detrás das
theorie). Se desconsideramos esse estreitamento, não pode
fachadas, sempre de novo erigidas por ele, a metafísica des-
ser mantida a pretensão de Nietzsche de que sua filosofia não
morona, em consequência de seu incessante perguntar. A sig-
seja metafísica. Nietzsche apenas prolonga, poderíamos as-
nificação completa desse acontecimento só poderia ser ade-
sim dizer, a cadeia das interpretações metafísicas do mundo
quadamente interpretada no quadro de uma extensa discus-
com um elo ulterior.
são em que a metafísica fosse problematizada na multiplicida-
Heidegger atribuiu à filosofia de Nietzsche uma signi-
de de suas camadas.
ficação particular no interior da história da metafísica. Ele a
Seja observado que minha interpretação de Nietzsche,
interpreta como acabamento (Vollendung) da metafísica oci-
com efeito, contradiz fundamentalmente a de Heidegger, mas
dental, na medida em que, na inversão (Umkehrung) da meta-
que não me vejo por isso em oposição ao esforço de Heideg-
física por ela operada, as possibilidades essenciais desta últi- ger por um "ultrapassamento (Verwindung) da metafísica". Sua
ma deveriam se esgotar. No pensamento de Nietzsche aconte- necessidade — assim como também a necessidade do "outro
ce, porém, ainda mais: a destruição da metafísica a partir dela começo" preparado por Heidegger — parece-me muito mais
própria. Deixa-se mostrar que dela, justamente como do pínca- crescer, a partir do pensar de Nietzsche, em medida ainda
ro supremo da "metafísica da subjetividade", essa subjetivida- mais forte do que se tornou manifesto por meio das interpreta-
de despenca no infundado (Grund-lose). A metafísica "vonta- ções até agora existentes.
de de vontade", na figura da vontade de poder transparente a Trata-se, nessa investigação, da pergunta pela vontade
si mesma, se torna querer-do-querer (gewolltes Wollen), que de poder. Ao empreendê-la, queremos tentar nos mover intei-
não mais remete a um alguém que quer, à vontade, mas tão-so- ramente no horizonte da filosofia de Nietzsche. Mostrar-se-á
qual complexa problemática se encontra por detrás da afirma-
no registro da filosofia política, mas apresenta também a ção, que soa tão simples: o mundo seria vontade de poder e
vantagem de evitar a ressonância e a evocação da distin-
nada além disso.2 Nessa problemática queremos ingressar
ção metafísica entre ato e potência — o que certamente
contraria a intenção de Nietzsche —, assim como de man-
ter presente um dos mais fundamentais aspectos de seu 2. Em linhas fundamentais, apresentei minha interpretação
pensamento, qual seja, uma concepção de força e poder da "vontade de poder" em meu livro: Nietzsche. Sua filo-
se esgotando, sem resíduos, a cada momento de sua sofia dos antagonismos e os antagonismos de sua filoso-
efetivação. Nos termos de Para além de Bem e Mal, afo- fia, Berlim-Nova York, 1971. Em crítica mais pormenori-
rismo n8 22, todo poder (jede Macht) extrai, a todo instan- zada discutiram comigo: W. Weischedel em uma contri-
te, sua última consequência. (N. do T.) buição para a discussão intitulada A vontade e as vontades.
54 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 55

passo a passo. Parece-me conveniente, em face de sua com- um da vontade de poder. Assim "um quantum de poder ... é
plexidade, começar com a introdução de algumas característi- designado por meio do efeito que ele exerce e a que resiste."5
cas declarações de Nietzsche acerca do que ele entende por Por toda parte, encontra Nietzsche a vontade de po-
"vontade de poder". Elas devem abrir um primeiro acesso ao der em obra. "Mais inequivocamente" ela se deixa mostrar
que na sequência será explicitado.3 "em todo vivente ... que tudo faz não para se conservar, mas
para se tornar mais."6 Mas, também no âmbito inorgânico, a
vontade de poder é o unicamente atuante. Nietzsche se sepa-
ra da "vontade de vida" de Schopenhauer, como forma funda-
Caracterização provisória da vontade de poder
mental da vontade: "a vida é um mero caso particular da von-
tade de poder, — é totalmente arbitrário afirmar que tudo an-
Vontade de poder não é um caso especial do querer.
seia por passar para essa forma da vontade de poder."7
Uma vontade "em si" ou "como tal" é uma pura abstração: ela
não existe {actualmente. Todo querer é, segundo Nietzsche, ed. G. Colli e M. Montinari, Berlim-Nova York, Walter de
querer-algo. Esse algo-posto, essencial em todo querer é: po- Gruyter, 1967 s. OGJ.) VIII2, 296. As obras publicadas ou
der, Vontade de poder procura dominar e alargar incessante- preparadas para publicação por Nietzsche serão citadas
mente seu âmbito de poder. Alargamento de poder se perfaz com precisa indicação, tanto quanto possível, do escrito,
parágrafo, aforismo etc., segundo a edição KGW. Os pós-
em processes de dominação. Por isso querer-poder (Macht-
tumos serão citados de acordo com a KGW, na medida em
wolien] não é apenas" 'desejar', aspirar, exigir." A ele perten- que já publicados nessa edição. Uma vez que para os
ce o 'afeio do comando".4 Comando e execução pertencem ao póstumos da década de 1880, até aqui publicados na KGW,
em parte não se dispõe de quaisquer concordâncias (V 1
Para a discussão de Wolfgang Múller-Lauter com Martin e 2), em parte apenas daquelas da KGW (VIII 2 e 3) para
Heidegger. In: Z/pf)F27/1, 1973, p. 71-76 e P. Kõster em a edição/n ocravo (GA. 19 volumes e um volume de índice
A problemática da interpretação científica de Nietzsche. remissivo, Leipzig, Naumann/Krõner, 1894 s.), é possível
Reflexões críticas a respeito do livro de Wolfgang Múller- que um ou outro fragmento póstumo já publicado na KGW
Lauter sobre Nietzsche, In: Nietzsche-Studien2,1973, p. seja citado segundo a edição GA. Na medida em que
31-60. No que se segue, considerarei em notas as obje- forem indicados textos da KGW que foram impressos em
ções essenciais principalmente desses críticos, na medi- edições anteriores da compilação de fragmentos póstu-
da em que se relacionem à problemática da vontade de mos A VONTADE DE PODER, serão indicados entre pa-
poder. Onde isso não ocorre expressamente, penso, po- rênteses os números dos aforismos dessa compilação sem
rém, ter tomado em conta as objeções no curso da minha mencionar eventuais diferenças na decifração e limitação
exposição. do aforismo ou alterações de texto efetuadas pelos edito-
3. As exposições seguintes originaram-se de uma conferên- res de GA.
cia sob o título Reflexões sobre a doutrina de Nietzsche 5. Fragmento póstumo, primavera de 1888, 14 [79]; KGW
da vontade de poder, que pronunciei em Lówen (Louvain) VIII 3, 50 (Vontade de Poder — doravante VP. 634).
a convite da Wijsgerig Gezelschap em 13 de maio de 1973. 6. Fragmento póstumo, primavera de 1888, 14 [121]; KGW
4. Fragmento póstumo, novembro 1877-março 1888,11 [114]; VIII 3, 93 (VP. 688).
KGW (Kritische Gesamtausgabe der Werke Nietzsches, 7. Idem, (VP. 692).
56 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 57

Não apenas naquilo que domina e que estende seu tornada acessível à discussão acerca de Nietzsche nos qua-
domínio se exterioriza a vontade de poder, mas também no dros da assim chamada "edição em oitavo maior". Os póstu-
dominado e submisso. "Mesmo o relacionamento do que obe- mos completos só estarão prontos quando a edição crítica da
dece para com aquele que domina" tem de ser entendido "co- obra completa promovida por G. Colli e M. Montinari tiver che-
mo um resistir", no sentido mencionado.8 Também o homem gado à sua conclusão. No entanto, já segundo os volumes até
é, no fundo — em qualquer que seja o modo de relação —, aqui publicados dessa edição, pode ser dito que, sobre a base
vontade de poder. Nietzsche remete todas as nossas ativida- do material ora tornado conhecido, a pesquisa sobre Nietzsche
des intelectuais e anímicas a avaliações (Wertschàtzungen), (Nietzsche-Forschung) se vê colocada, sob vários aspectos,
que "correspondem a nossos impulsos e suas condições de diante de uma nova situação.
existência." Num apontamento póstumo, escreve a esse res- Não se pode dizer, no momento, se conhecimentos
peito: "Nossos impulsos são redutíveis à vontade de poder. A essencialmente novos para a resposta à pergunta pela vonta-
vontade de poder é o último Faktum por detrás do qual pode- de de poder podem resultar dos textos até aqui ainda inéditos.
mos chegar."9 Com isso se torna claro, que para Nietzsche "a Ouso duvidar disso, não por derradeiro porque os editores
essência mais interna do ser é vontade de poder."10 anteriores dedicaram precisamente a ela uma atenção parti-
Essas primeiras exposições da temática da vontade cular. Assim é que, sob o título: "A Vontade de Poder" foi
de poder se orientaram pelos póstumos. Pergunta-se se tal publicada uma composição de apontamentos póstumos de
orientação é legítima. Numa questão tão importante, não deve- Nietzsche, primeiramente limitada, no ano de 1901, a 483 afo-
ríamos, de preferência, nos ater apenas — ou pelo menos rismos e contendo, em 1906, 1.067 aforismos. Em suas com-
primariamente — aos escritos publicados pelo próprio Nietzsche? pilações, seus editores se orientavam por um dos numerosos
Como fica, então, a confiabilidade filológica dos póstumos edi- planos que Nietzsche, de fato, projetara para uma futura obra,
tados? Que peso filosófico têm os apontamentos não publica- mas que não realizara. Ao fundamentar seu empreendimento
dos por Nietzsche em relação à obra autorizada por ele? numa disposição de Nietzsche de 17/03/1887, seguindo uma
divisão muito geral de Nietzsche, eles reuniram num conjunto
textos que, em vários aspectos, são de caráter diverso e so-
Observações sobre a problemática dos póstumos mente em parte — ainda que considerável — contribuem para
o esclarecimento daquilo que Nietzsche entende por "vontade
A maior parte das anotações inéditas de Nietzsche, de poder". Além disso, de fato, também a respectiva escolha
na medida em que possui imediata relevância filosófica, foi e ordenação sistemática são mais do que questionáveis, sem
falar de leviandade editorial em particular. Além disso, em ou-
8. Fragmento póstumo, GA XIII, 62. Agosto-setembro de
tros volumes de póstumos da edição em oitavo maior, pode-se
1885, n8 40 [55]; KGW VII 3, 387.
obter algo significativo para a compreensão por Nietzsche da
9. Fragmento póstumo, GA XIV, 327, comparar GA XVI,
415. Agosto-setembro de 1885, ns 40 [61 ]; KG W VI13,393.
vontade de poder. Que o problema da vontade de poder entrou
10. Fragmento póstumo, primavera de 1888, 14 [80]; KGW na consciência pública, e, com efeito, tanto no bom sentido,
VIII 3, 52 (VP. 693). filosoficamente questionador, quanto no mau emprego, do tipo
58 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 59

jargão, isso tem de ser sobretudo remetido a que, com a edi- a concepção de M. Heidegger de que "a autêntica filosofia de
ção de 1906, um livro com o título A vontade de poder foi Nietzsche não teria chegado à configuração definitiva e à pu-
publicado e causou efeito, do qual se afirmou que ele apresen- blicação em moldes de obra, nem na década entre 1879 e
tava a obra filosófica principal de Nietzsche. 1889, nem nos anos seguintes." Aquilo que o próprio Nietzsche
É vedado falar de uma tal obra principal de Nietzsche. publicou seria "sempre fachada". A autêntica filosofia de
Mas proibe-se também deixar de lado, como meros póstumos, Nietzsche teria permanecido como "póstumo". 14
os aforismos e fragmentos publicados nas mencionadas com-
pilações, assim como nos outros volumes da edição em oitavo
maior. Na verdade há que se diferenciar entre, por um lado, A significação dos póstumos na interpretação
"póstumos autênticos", e, por outro lado, excertos em forma
de paráfrase, que Nietzsche ultimava, assim como "prepara-
de Nietzsche por Karl Schlechta
ções" para publicações por ele mesmo ainda realizadas. Aqui
À valoração dos póstumos de Nietzsche exemplifica-
a nova edição crítica completa abrirá ainda conhecimentos
da na particularmente marcante exposição de Heidegger se
essenciais. Mas, já a respeito da relação entre primeiras ano-
contrapõe, como outro extremo, a convicção de K. Schlechta:
tações e textos ulteriores, retrabalhados para a publicação, o
nas obras por ele mesmos publicadas ou inequivocamente des-
caso de Nietzsche não é como o de outros autores. Nietzsche
tinadas à publicação, Nietzsche ter-se-ia expresso de modo
não apenas retinha muitas de suas concepções. Ele também
completamente inequívoco, categórico. Em relação a uma au-
dava expressão a algumas delas, em seus escritos, apenas de
têntica possibilidade de compreensão, não resta nada de es-
modo encoberto, simplesmente alusivo, ou também em forma
sencial a desejar. Teríamos de querer entender Nietzsche ape-
hipotética. A indicação a respeito da peculiar significação dos
nas a partir daquilo que ele publicara.^5 Schlechta publicou
póstumos de Nietzsche perde em estranheza, quando ouvimos
que Nietzsche se compreendia como o mais escondido de to-
14. M. Heidegger, Nietzsche, 2 v. Pfulingen 1961; nesse
dos os ocultos. 11 Em Para além de Bem e Mal ele até escreve
caso: 1,17. Que, nos escritos por ele mesmo publicados,
que não amamos mais suficientemente nosso conhecimento, Nietzsche "quase não tenha falado da vontade de po-
tão logo o comunicamos.12 E num apontamento póstumo do der" é, para Heidegger, "um sinal de que ele quis pro-
ano 1887 se lê: "Eu não considero mais os leitores: como teger o mais longamente possível esse [elemento OGJ.]
poderia eu escrever para leitores?... Mas eu me anoto, para mais interior da verdade do ente enquanto tal, por ele
reconhecida, e colocá-lo sob o abrigo de um único, sim-
mim."13 Aquilo que Nietzsche reteve adquire peso particular a
ples dizer", op. cit. II, p. 264.
partir de tais declarações. Desse modo, há boas razões para
15. K. Schlechta: O caso Nietzsche, Munique, 2- ed. 1959,
11, comparar 90 e o prefácio à edição de Nietzsche por
11. Fragmento póstumo de novembro 1882-fevereiro 1883, K. Schlechta (abreviada como SÁ), 111,1433. Que Schlech-
nr. 4[120];KGWVII 1,151. ta não exclui a possibilidade de que ainda se possa
12. Para além de Bem e Mal, 160; KG W VI 2, 100.
encontrar material importante nos póstumos ainda não
13. Fragmento póstumo, outono de 1887, 9 [188]; KGW VIII
editados, mostra-o uma observação no Relatório filoló-
2, 114.
gico de sua edição da obra de Nietzsche: "Quando dis-
60 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE

uma edição em três volumes das obras de Nietzsche, muito de, como fatal efeito, que os consulentes de sua edição te-
respeitada, a que, desde então, recorrem não poucos autores nham tido diante dos olhos apenas essa parte dos póstumos;
como único fundamento textual para suas interpretações. Essa e ela, desse modo, diferentemente dos póstumos não publica-
edição não se limita, todavia, como seria de se esperar da dos por Schlechta, tenha mais uma vez recebido particular
acima exposta concepção do editor, às publicações de Nietzsche. relevância objetiva. A esse respeito indicara Schlechta, com
Muito ao contrário, Schlechta acolheu no terceiro volume de razão, que não seria propriamente explicável como os editores
sua edição — ao lado de outros textos — os fragmentos pós- de A vontade de poder não acolheram também em sua coletâ-
tumos reunidos na edição de A vontade de poder publicada em nea de aforismos aqueles apontamentos de Nietzsche encon-
1906. tráveis nos volumes XIII e XIV da edição em oitavo maior como
• Pode-se ver aqui uma inconsequência de Schlechta. "demais póstumos". Pode-se levantar a mesma objeção con-
No entanto, o "peso histórico" conferido na literatura à supos- tra o próprio Schlechta: se já havia esforço para uma edição
ta obra principal de Nietzsche fez parecer a ele como justifica- de póstumos cronologicamente orientada, por que não, pois,
do publicar, de novo e integralmente, os textos da compilação inclusão cronologicamente ordenada dos "demais póstumos"?16
A vontade de poder. Isso ocorre, em verdade, de tal modo que Não favoreceu Schlechta, de facto — ainda que
Schlechta dissolve a reunião sistemática dos antigos editores,
e, em vez disso, procura estabelecer uma rigorosa ordenação 16. Num relato sobre as reflexões preliminares dos editores
cronológica dos aforismos de que se compõe a compilação. de uma tradução italiana de obras e póstumos de
Nisso ele não foi suficientemente bem-sucedido e nem poderia Nietzsche, escreve M. Montinari: Não pudemos "tam-
bém fazer nenhum uso da edicão-Schlechta para nos-
sê-lo, visto que os manuscritos originais não estavam à sua
sos fins. Com efeito, tínhamos diante de nós, em seus
disposição. O mérito da edição de Schlechta consiste, não por dois primeiros volumes, uma reprodução fiel, na maior
derradeiro, em ter destruído definitivamente, para a consciên- parte, das edições originais de Nietzsche; porém no ter-
cia pública, a legenda da obra principal. Que ele tenha publi- ceiro volume — embora em alguma medida cronologica-
cado, entretanto, apenas aqueles textos que os editores da mente ordenado — tínhamos exatamente o mesmo ma-
terial tornado conhecido em 1906 pela publicação da
compilação de 1906 já tinham escolhido, isso gerou, em verda-
segunda edição de A Vontade de Poder. Em Florença,
teríamos podido ainda, na verdade, fazer algo mais, pa-
se que 'A Vontade de Poder' nada de novo ofereceria, ra além de Schlechta: com auxílio do aparato de Otto
essa afirmação se relaciona apenas com a mencionada Weiss a A Vontade de Poder (volume 16 da edição em
escolha dos póstumos. Na verdade, isso não parece oitavo maior), teríamos, com efeito, podido eliminar al-
melhor relativamente ao que foi publicado na edição em gumas grosseiras mutilações; além disso, teríamos tam-
oitavo maior, XII s. (1903 s.) — porém minha afirmação bém podido consultar o primeiro A Vontade de Poder de
não se relaciona à totalidade dos póstumos. Isso não um só volume (1901) e, por meio disso, podido salvar
pode ser de maneira nenhuma, pois, em parte, esses um certo número de importantes fragmentos que, curio-
póstumos ainda não foram, em absoluto, decifrados, ou samente, desapareceram do segundo, definitivo, certa-
não o foram de modo incontestável; ainda existe, pois, mente muito mais extenso A Vontade de Poder (1906);
entre eles, textos desconhecidos" (SÁ III, 1405). finalmente, com base no índice dos manuscritos dos
62 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 63

contrariamente à sua intenção declarada —, uma valoração proveniência e maior envergadura."18 Schlechta explicita, em
superior daqueles manuscritos que foram publicados em A Von- sua resposta,19 não disputar, naturalmente, "que Nietzsche,
tade de Poder?17 na obra por ele publicada, apostrofe frequentemente a vontade
de poder como uma propriedade fundamental da Vida", assim,
por exemplo, quando deixa Zaratustra dizer:" 'onde encontrei
A respeito das declarações de Nietzsche sobre vivente, lá encontrei vontade de poder'". Porém, onde procu-
a vontade de poder em obras publicadas rara "explicitar e precisar esse seu pensamento", ele não teria
chegado a um "resultado apresentável".
A diminuta apreciação, por Schlechta, da relevância Esse julgamento de Schlechta não se deixa sustentar.
filosófica dos póstumos publicados de Nietzsche teve como De fato, a obra autorizada por Nietzsche não oferece nenhum
consequência uma controvérsia, na qual se tratava também da fundamento suficiente para uma compreensão da vontade de
problemática objetiva da vontade de poder. Karl Lõwith censu- poder. A insondabilidade do que ele procurou denominar com
rava Schlechta por ter espalhado uma nova legenda-Nietzsche, essa combinação de palavras se abre somente quando recor-
qual seja: "que não haveria a vontade de poder, como um remos aos póstumos. De acordo com Schlechta, porém, os
problema posto e meditado por Nietzsche, da mais remota póstumos publicados na edição em oitavo maior nada ofere-
cem de novo, em face do que Nietzsche disse em suas publi-
volumes XIII e XIV da edição em oitavo maior, teríamos cações. Desse modo, ele chega à convicção de que faltaria
podido complementar os manuscritos utilizados para A capacidade de sustentação ao pensamento da vontade de po-
Vontade de Poder (aqueles, portanto, que também fo- der. Mas, se também nos escritos de Nietzsche frequentemen-
ram indicados nos volumes XV e XVI da edição em oita- te apenas se encontram "fachadas" a respeito da vontade de
vo maior. Dessa maneira, teríamos podido estabelecer
poder, então há mais, decerto, a ser retirado deles para o
um rol mais amplo de fragmentos póstumos da década
de 1880, em alguma medida cronologicamente ordena-
esclarecimento desse problema do que Schlechta quer perceber.
dos segundo os manuscritos." Em seguida, Montinari Ingressemos aqui apenas naquilo que o próprio Schlech-
entra em ulteriores problemas editoriais. Ele descreve o ta menciona. Em sua resposta a Lõwith, ele apresenta "duas
caminho que conduziu à KGW. e indica a tarefa dela. A provas" extraídas de obras de Nietzsche, que considera como
citação foi extraída da versão original de um ensaio de representativas para o problema discutido. Elas são — assim
Montinari, que o autor cordialmente me pôs à disposi- quer mostrar Schlechta — não somente inconciliáveis entre si;
ção. Desse ensaio só foi publicada, até agora, uma tra-
cada uma das duas considerações deve ser, além disso, tam-
dução em inglês realizada por D. S. Thatchter sob o
título: The New Criticai Edition of Nietzsches Complete bém problemática em si mesma. Na sequência, submeterei as
Works (in: The Malahat Review 24, Victoria 1972, p. duas "provas" a uma consideração mais precisa. Entendo, da
121-34).
17. E. Heftrich apresentou em seu livro A filosofia de Nietzsche. 18. K. Lõwith: Sobre a nova legenda-Níetzsche de Schlech-
Identidade de mundo e nada (Frankfurt/M. 1962, p. 291-95) ta, Merkur, 12, 1958,782.
uma crítica exaustiva e detalhada ao procedimento de 19. Para as considerações de Schlechta a que recorrere-
Schlechta. Que ela seja enfaticamente recomendada aqui. mos na sequência v. O caso Nietzsche, op. cit., p. 120-22.
64 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 65

mesma maneira, os textos nelas contidos como representati- mental da vontade", acrescenta ele entre parênteses"— qual
vos para o que foi publicado por Nietzsche. seja da vontade de poder, como é minha proposição —". Com
A "primeira prova" de Schlechta é o aforismo 36 de razão escreve E. Heftrich: "O claro notum est do parêntese
Para além de Bem e Mal. Nietzsche apresenta aqui seu pensa- limita porém a hipótese segundo a qual o aforismo é conduzi-
mento da vontade de poder, no contexto de uma série de refle- do; sim, coloca-a inteiramente em suspenso, com o que se
xões que são revestidas da forma de hipóteses. Elas precisam torna solução, princípio, aquilo que se encontra entre parênte-
ser aqui tanto menos apresentadas individualmente quanto ao ses (minha proposição)."21 De fato, com o acréscimo, Nietzsche
intérprete Schlechta unicamente interessa o caráter hipotético vai além das reflexões por ele apresentadas no aforismo como
que se exprime em locuções como: "suposto que...", "temos hipóteses dignas de questão, e nele menciona sua convicção
que ousar a hipótese...", "suposto finalmente que desse cer- fundamental. Aqui não se pode, com efeito, falar de falta de
to..." — e semelhantes. Nietzsche encerra suas considerações confiança. B: O mencionado aforismo encontra-se em Para
com a reflexão: além de Bem e Mal sob o título: "O Espírito Livre" (Segunda
seção). Os espíritos livres devem ser os novos "filósofos do
desse modo teríamos, com isso, adquirido o perigoso talvez em todo sentido",22 como Nietzsche escreve já
direito de determinar inequivocamente toda antes, na primeira seção de seu livro. Ele lhes recomenda
força atuante como vontade de poder. O mun- suas "máscaras e sutilezas", com as quais sejam confundi-
do visto a partir de dentro, o mundo determi- dos. Nisso deve se exprimir seu estilo.23 Eles representam um
nado e designado por seu 'caráter inteligível' tipo de transição: como se diz num texto de seu período inter-
— seria justamente 'vontade de poder' e na- mediário de criação, importa a Nietzsche "franquear o acesso
da além disso.20 à compreensão de um tipo ainda mais elevado e difícil do que
é o próprio tipo do espírito livre: — nenhum outro caminho
Schlechta considera digno de nota a cautela com a conduz ao discernimento."24 Se considerarmos sob esse as-
qual Nietzsche se expressa, nessa sua primeira explicitação pecto as experiências do pensamento apresentadas no aforis-
da problemática da vontade de poder. Que Nietzsche escolha mo 36 de Para Além de Bem e Mal, então temos de concordar
o subjuntivo: o mundo seria "vontade de poder" e nada além com A. Baeumler em sua crítica a Schlechta. Baeumler escre-
disso, leva-o a escrever: "Para um pensamento que deve dar ve que seria erróneo interpretar "um meio de estilo como um
sustentação (tragen), isso não soa muito confiável". distanciamento objetivo no ponto capital".25
Contra a concepção de Schlechta, duas coisas se dei-
xam trazer a campo. A: No mencionado aforismo, Nietzsche 21. Heftrich: A filosofia de Nietzsche, op. cit., 72.
22. Para além de Bem e Mal, 2; KGW VI 2, 11.
fala não apenas hipoteticamente. Depois de ter escrito: "Su-
23. Para além de Bem e Mal 25, KGW VI 2, 38.
posto finalmente que desse certo explicar toda nossa vida afe-
24. Fragmentos póstumos; GA XIV, 349. Outono de
tiva como a conformação e ramificação de uma forma funda- 1885-1886, ns 2 [17]; KGW VIII 1,72.
25. A. Baeumler, Posfácio à Vontade de Poder, In: Kõrner-
20. Para além de Bem e Mal, 36: KGW VI 2, 50 s. Taschenausgabe (KTA) 9, 10 ed. 1964, p. 714.
66 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 67

Numa conclusiva consideração sobre a "primeira pro- que Nietzsche, no texto anteriormente manuscrito, não se ex-
va" de Schlechta indiquemos um apontamento póstumo de prime hipoteticamente, mas com inequívoca resolução:
Nietzsche, com o qual teremos ainda, mais adiante, que nos
ocupar mais de perto.26 Ele é proveniente do ano de 1885 e ...quereis um nome para esse mundo? Uma
pertence aos materiais que Nietzsche considerou para a com- solução para todos os seus enigmas? Uma
posição de Para além de Bem e Mal. Na conclusão desse luz para vós, vós os mais ocultos, os mais
apontamento, Nietzsche se expressou sobre a vontade de fortes, os mais intrépidos, os mais da meia-
poder de maneira semelhante. Nesse contexto, a única dife- noite? — Esse mundo é a vontade de poder
rença que nos interessa 27 entre ambos os textos consiste em — e nada além disso!28

26. Fragmento póstumo de VP. 1067; GA XVI, 401 s. Junho- Mostraremos ainda, na sequência, com que incontes-
julho de 1885, n9 38 [12], KGW VII 3, 338 s. tada convicção Nietzsche pensa a efetividade do mundo a par-
27. Sobre a problemática da relação entre o texto publicado tir de seu pensamento fundamental da vontade de poder. Se o
e o póstumo inédito, cf. Heftrich: A Filosofia de Nietzsche,
que importa é destacar as derradeiras "compreensões" (Ein-
op. cit. p. 69 s. Podemos recorrer ainda, além disso, a
uma versão anterior da conclusão do aforismo 1067 de sichten) e não a problemática da atitude de questionamento
VP., reproduzida em GA XVI, 515. [Como preparação dos "espíritos livres", então — como em outros casos, por
de KGW VII 3, n- 38 [12], impresso em Kritische Studie- outras razões — o fragmento póstumo merece aqui ascendên-
nausgabe — KSA —, vol 14, p. 727]. No contexto de cia interpretativa sobre a versão publicada.
uma discussão com L. Klages, Karl Lõwith contrapôs as Ao recorrermos à "segunda prova" de Schlechta, cai-
duas versões em seu livro: A filosofia de Nietzsche do
mos mais fundo nas dificuldades que se colocam quando per-
eterno retomo do mesmo (Stuttgart, 2- ed. 1956, p. 97).
guntamos pela vontade de poder. Se, a partir do primeiro tex-
A primeira versão desloca a "vontade-de-querer-de-no-
vo-e-ainda-uma-vez" para o primeiro plano. Ela só po- to, pudemos concluir que Nietzsche busca um "princípio meta-
deria ser interpretada sob inclusão da problemática da físico fundamental", ao qual todas as "forças atuantes" pudes-
doutrina do retorno, que tem de ficar excluída dos limi-
tes desta dissertação. Lõwith escreve: "Enquanto que do" (op. cit., p. 98). Lõwith considera que as doutrinas
na primeira versão o problema de um querer do eterno de Nietzsche da vontade de poder e do eterno retorno
retorno, na figura do mútuo espelhamento entre consti- se contradizem mutuamente. Contrariamente a isso, pro-
tuição do mundo e comportamento próprio, encontra aqui curei mostrar a compatibilidade entre elas em meu livro
irmã aparente solução: em que o auto-querer do mundo sobre Nietzsche (op. cit., p. 135 s.). Entre outras coisas,
é pensado como um querer-sempre-de novo-a si mes- importa-me aí mostrar em que medida a suprema vonta-
mo do eterno retorno, e a vontade humana, como um de de poder tem de querer o eterno retorno do mesmo.
querer para trás e para diante, se move igualmente em Considerada a partir de minha interpretação, dissolve-
círculo; na segunda versão, a problematicidade. de um se a aparência de uma discrepância objetiva entre as
querer da fatalidade se torna antes encoberta que ex- duas versões do texto.
pressa pela abrupta fórmula da 'vontade de poder', que 28. Fragmento póstumo de VP. 1067; GA XVI, 402. Junho-
simplesmente deve ser a mesma no homem e no mun- julho de 1885, n9 38 [12]; KGW VII 3, 339.
68 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 69

sem se deixar reconduzir, no entanto a passagem que Schlech- que, por princípio, têm as forças espontâneas, agressivas,
ta menciona agora indica uma outra espécie de estrutura da usurpadoras, criadoras de novas interpretações." A vontade
vontade de poder. Trata-se do aforismo 12 da segunda dis- de poder é apresentada por Nietzsche, aqui, como pluralidade
sertação de Para a Genealogia da Moral,29 do qual ele consi- de forças.
dera, na verdade, apenas algumas passagens essenciais. Em Justamente isso irrita Schlechta. No esforço de des-
sua opinião, esse texto é "pelo menos tão elucidativo" quanto tacar claramente o pensamento da multiplicidade, ele o enco-
o anteriormente mencionado por ele, no que diz respeito à bre. Ele acentua que Nietzsche fala de "processos de subju-
falta de capacidade de sustentação dos pensamentos de gação independentes um do outro." Schlechta observa a res-
Nietzsche. Este se volta aqui tanto contra o pensamento de peito: "Se os processos de subjugação são de fato indepen-
uma teleologia na natureza quanto contra o gosto dominante dentes um do outro, então todo sentido intermediário é absur-
da época, "que pactuaria, de preferência, ainda com a abso- do." Com a palavra "sentido intermediário", joga ele manifes-
luta casualidade, até com o absurdo mecanicista de todo acon- tamente com "a" vontade de poder. Ele cita, sem dúvida,
tecer, do que com a teoria de uma vontade de poder atuante incompletamente e de uma maneira que, com efeito, desloca
em todo acontecer." Schlechta considera que ambas as posi- aquilo que é pensado por Nietzsche. Completemos a formula-
ções recusadas por Nietzsche, tanto o "progressus em dire- ção que Schlechta retirou do aforismo 12, pelo menos até
ção a uma meta" quanto também o "absurdo mecanicista", onde isso é indispensável para a compreensão do texto.
representam apenas "contraposições verbais" em relação à Nietzsche escreve: " 'desenvolvimento' de uma coisa, de um
autêntica compreensão do mundo por Nietzsche, que consis- uso, de um órgão, é... a sequência de processos de subjuga-
tiria na hipótese de "um mundo do acaso absoluto". Então, ção mais ou menos profundos, mais ou menos independentes
para Nietzsche, "acaso" e "acaso" são duas coisas distintas, um do outro, que nele se passam ..." Eles são, pois, mais ou
assim como "necessidade" e "necessidade" são duas coisas menos independentes um do outro. Com isso, a independên-
distintas, segundo ele emprega tais palavras numa compreen- cia é limitada. Também processos de subjugação que têm
são "mecanicista", ou no contexto de sua interpretação da "mais" independência um do outro, não são, certamente, com-
vontade de poder. Quando Schlechta é de opinião, por exem- pletamente independentes um do outro, como interpreta Schlech-
plo, de que o conceito de força de Nietzsche provenha "do ta. Que Nietzsche, que enfatiza alhures o relacionamento de
arsenal da ciência da natureza positivista", então ele não to- tudo com tudo, fale, nesse contexto, de independência, tem
ma suficientemente a sério aquilo que Nietzsche diz na última seu fundamento em que ele polemiza aqui contra toda deter-
parte do aforismo sobre "as rigorosíssimas, aparentemente minação causal ou teleológicamente orientada dos decursos
objetivíssimas ciências". Nascendo da "idiossincrasia demo- de acontecimentos. Em relação a tais determinações, os pro-
crática" contra tudo o que é senhorial, elas desconhecem, por cessos de subjugação das vontades de poder, que em verda-
exemplo, a fisiologia contemporânea, a essência da vida, sua de constituem todos os "desenvolvimentos", são mais ou me-
vontade de poder. "Com isso se passa por cima da primazia nos independentes.
Isso desconsiderado, as duas "provas" de Schlechta
29. Para a Genealogia da Moral I112; KGW VI 2, p. 329-32. nos conduziram perante duas possibilidades, aparentemente
A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 71
70 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE

incompatíveis, de interpretação da doutrina da vontade de poder. a si mesma, destaca-se o "caráter intensificador" da vontade

Nietzsche, de fato, não "meditou" suficientemente o problema de poder interpretada por Nietzsche.32 E W. Schulz considera,

da vontade de poder? Pois ou a vontade de poder é, com efeito, em concordância com Heidegger, que aquilo contra o que se

o princípio que funda o mundo, ou o mundo é o infundado volta a vontade de poder "não seria mais nada exterior, mas
sempre apenas ela mesma". Ela ultrapassaria sempre só a si
ocorrer-conjunto e desprovido de princípio dos processos nos
numa auto-supressão que eternamente se repõe.33 Que tais
quais a cada vez "uma vontade de poder se tornou senhora de
algo menos poderoso", como se diz no aforismo mencionado. indicações possam bastar.
O fato de que Nietzsche fale — especialmente nos
póstumos — muito frequentemente da vontade de poder pare-
ce fortalecer interpretações da espécie ora mencionada. E quan-
Sobre a interpretação da vontade de poder
do ele escreve a respeito do mundo, como já foi considerado,
como princípio metafísico que ele seria a vontade de poder e nada além disso, então
aparentemente se proíbe qualquer concepção em que a efeti-
Nas interpretações de Nietzsche predomina a concep-
vidade, no entender de Nietzsche, não seja considerada como
ção segundo a qual a vontade de poder deve ser entendida
unidade metafisicamente fundada.34
como o fundante metafísico. Mesmo quando nos recusamos a
conceber a vontade de poder como "inequívoca" vontade me- 32. Cf. a esse respeito meu livro Nietzsche, op. cit., p. 30 s.
tafísica, no sentido de Schopenhauer — isto é, como um "prin- 33. W. Schulz: O Deus da metafísica moderna, Túbingen,
cípio substancial da efetividade, fundamentado em si mesmo" 1957, p. 101.
34. Em A vontade e as vontades, pergunta Weischedel:
—, ainda assim pode-se persistir em que Nietzsche, "com efei-
"Nietzsche é metafísico, como quer Heidegger, ou não
to, pensa, finalmente, as várias vontades de poder concretas
o é, como afirma Múller-Lauter?" (op. cit., p. 74). Fica
como manifestações de um princípio unitário, determinante de pressuposto, com a pergunta, um entendimento comum
toda efetividade", como o faz W. Weischedel.30 Sua interpreta- de metafísica entre os perguntados. Se isso ocorre com
ção permanece — inobstante todas as outras diferenças — razão, é o que deve ser discutido, pelo menos indicati-
aparentada com a de Jaspers, que considera que Nietzsche vamente.
Segundo Nietzsche, a metafísica surge em vir-
substancializa o autêntico ser como vontade de poder, no inte-
tude de que o pensar "acrescenta (hinzudenkt), inventa
rior de uma efetividade pensada sem transcendência, no mun- o incodicionado para o condicionado." A Nietzsche im-
do da "pura imanência".31 Sob um traçado completamente di- porta, sempre de novo, "expor o absurdo de toda meta-
verso, também Heidegger parte da unicidade da vontade de física como derivação do condicionado a partir do incon-
poder, que se mantém e se supera a si mesma. No superar-se dicionado." (Póstumos de I/P., 574; GA. XVI, 71; agosto
de 1883, ns 8 [25]; KGW VII 1, 352). Oriento-me pelo
próprio entendimento de metafísica de Nietzsche, quan-
30. W. Weischedel: A vontade e as vontades, op. cit., p. 76
do me refiro à genealogia da metafísica a partir da lógica
e 75.
(Nietzsche, op. cit., p. 13), e quando separo a filosofia
31. K. Jaspers, Nietzsche, Introdução à compreensão de seu
de Nietzsche daquela de Schopenhauer. Para Nietzsche,
filosofar, Berlim, 2- ed., 1947, p. 310.
72 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 73

Que no mesmo manuscrito se leia que o mundo seja mencionado. O "múltiplo" se deixa, com certeza, compreender
"uma monstruosidade força ... ao mesmo tempo um e múlti- a partir "do um". Quero entretanto, a partir dessa determina-
plo", isso não exclui uma interpretação metafísica no sentido ção, desenvolver um outro entendimento de vontade de poder
e mundo. Sou de opinião de que ele é mais adequado àquilo
trata-se de metafísica quando "é deduzida uma multipli- que a Nietzsche importa.
cidade a partir de um primeiro, simples." Não é exato
que meu próprio entendimento de metafísica se esgote
nessa formulação, como manifestamente pensa Weis-
A vontade de poder como um e múltiplo
chedel (-4 vontade e as vontades, op. cit., p. 72). Para
mim é importante destacar o entendimento de metafísi- O mundo é um e múltiplo. O mundo é a vontade de
ca de Nietzsche, também para minha discussão com poder. Pode-se suspeitar, de acordo com isso, que também a
outras interpretações de Nietzsche. Não se é justo com vontade de poder é um e múltiplo. Partamos de que a vontade
Nietzsche, quando se lhe imputa que ele caia, ele pró-
de poder seja um. O um, como teológica e metafisicamente
prio, na figura da metafísica vista e criticada por ele.
Isso ocorre com Heidegger, como tentei mostrar (do autor: fundante, é recusado por Zaratustra. Ele denomina "malvadas
Nietzsche, op. cit., p. 30 s.). Isso ocorre também com todas essas doutrinas do um."35 Também o um não é, para
Weischedel quando ele escreve que Nietzsche poderia
valer, "com efeito, como o grande destruidor da metafí- jetividade, como suspeita B. Taureck em sua apresenta-
sica tradicional. Todavia isso apenas significa que ele a ção de meu livro (In: Ciência e figura do mundo, 1972,
substitui por sua nova metafísica da vontade de poder. Caderno 3, p. 236 s.). Que a subjetividade intensificada
Também ele não pode renunciar a estabelecer um Ab- ao extremo sinaliza, ao mesmo tempo, seu próprio de-
solutum no filosofar." (O Deus dos filósofos, volume l, clínio, isso ainda deve ser mostrado em seguida de mo-
Darmstadt, 1971, p. 455). Do pensar não-metafísico de do mais claro.
Nietzsche, falo apenas quando apresento, de modo ima- Essas poucas indicações têm de bastar para
nente, seu entendimento de metafísica. Se compreen- limitar a pergunta de Weischedel, mencionada de início.
Somente na medida em que Heidegger imputa ao pen-
demos, porém, metafísica de modo muito mais abran-
samento de Nietzsche uma metafísica contra a qual es-
gente, como o perguntar pelo ente em sua totalidade e
te expressamente se voltou, tem razão a oposição ope-
enquanto tal, então temos que, segundo minha concep-
rada na pergunta. O próprio Weischedel não permanece
ção, designar também Nietzsche como metafísico. En-
na oposição. Ele indica que a determinação, por Hei-
tão há que se atentar também para os sinais de dissolu- degger, da vontade de poder como constituição do ser
ção na metafísica de Nietzsche: "o todo" só é dado e minhas considerações da vontade de poder como úni-
ainda como "caos", o ente enquanto tal não é mais ca qualidade "estão mais próximas uma da outra do que
'fixável'. Se, com Heidegger, interpretamos metafísica aparece à primeira vista" (A vontade e as vontades, op.
em sua 'essência' como esquecimento do ser, então a cit., p. 75). De fato, tanto Heidegger quanto eu destaca-
metafísica de Nietzsche, na qual "ser" vale como mera mos a vontade de poder como essência. Todavia, na
ficção, representa uma espécie de metafísica mais ele- elaboração daquilo que significam essência e existência
vada. Em todo caso, concordo com Heidegger na medi- em Nietzsche cessa a comunidade.
da em que não estou disposto a excluir Nietzsche da 35. Assim falou Zaratustra II: Nas ilhas bem-aventuradas;
história da metafísica, até mesmo da metafísica da sub- KGW VI 1,106.
74 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 75

Nietzsche, de modo algum, "o simples". "Tudo o que é sim- de poder "nunca seja o querer de um singular, efetivo", vonta-
ples é meramente imaginário, não é 'verdadeiro'. O que é efe- de de poder seria sempre "vontade essencial (Wesenswille)."40
tivo, o que é verdadeiro, nem é um, nem é redutível a um."36 O mundo de que fala Nietzsche revela-se como jogo
O que quer dizer, então, unidade para Nietzsche? Ele respon- e contrajogo de forças ou de vontades de poder. Se pondera-
de: "Toda unidade só é unidade como organização e concerto mos, de início, que essas aglomerações de quanta de poder
(Zusammenspiel), não diferente de como uma comunidade hu- ininterruptamente aumentam e diminuem, então só se pode
mana é unidade."37 Isso nos força a pensar também o um da falar de unidades continuamente mutáveis, não, porém, da uni-
dade. Unidade é sempre apenas organização, sob a ascen-
vontade de poder sob esse aspecto. A multiplicidade acede ao
dência, a curto prazo, de vontades de poder dominantes.
primeiro plano. Só uma multiplicidade pode ser organizada em
Nietzsche radicaliza ainda sua concepção por meio da obser-
unidade. Trata-se, no múltiplo organizado, de "quanta de po-
vação de que cada unidade dessa, como uma "formação de
der", se, pois, o único mundo não é nada mais que vontade de domínio(Herrschafts-Gebilde)", apenas significaria, todavia não
poder. Posso, então, estabelecer uma ligação com aquilo que seria "um".41 O um não é. Então também a vontade de poder
foi exposto por ocasião da 'segunda prova' de Schlechta. não é como um. A unidade de formações de domínio, nas
A vontade de poder é a multiplicidade das forças em quais está inserida uma multiplicidade de quanta de força, não
combate umas com as outras. Também da força, no sentido de tem nenhum ser. Por outro lado, porém, Nietzsche diz, como
Nietzsche, só podemos falar em unidade no sentido de organi- ouvimos: A unidade é unidade como organização. Incorre
zação. Com efeito, o mundo é uma firme, brônzea grandeza de Nietzsche aqui numa contradição consigo mesmo? Se acredi-
força, ele forma "um quantum de força." 38 Mas esse quantum tamos na " 'razão' dentro da linguagem", então temos de res-
só é dado na contraposição de quanta. Com razão, observa G. ponder afirmativamente. Todavia a linguagem-razão é, para
Nietzsche, "uma velha senhora mentirosa". No mesmo contex-
Deleuze: "Toute force est ... dans un rapport essentiel avec
to se diz: Nada teve até então "uma mais ingénua força de
une autre force. L'être de Ia force est lê pluriel; il serait propre-
convencimento do que o erro do Ser, como foi formulado, por
ment absurde de penser Ia force en singulier."39 Não sendo as
exemplo, pelos eleatas: ele tem a seu favor cada palavra, cada
forças nada mais do que as "vontades de poder", então não frase que falamos."42 Nietzsche está convencido de que a lin-
se deixa sustentar a afirmação de Heidegger de que a vontade
40. M. Heidegger: Nietzsche, op. cit. l, 73. Heidegger ex-
36. Fragmento póstumo, primavera de 1888,15 [118]; KGW põe: (op. cit. II, 36): "Em lugar de 'vontade de poder'
VIII 3, 272 s. (VP., p. 536). Nietzsche diz frequentemente e equivocamente 'força'."
37. Fragmento póstumo de V P., p. 561; GA. XVI, 63. Ou- 41. Fragmento póstumo de VP., p. 561; GA. XVI, 63. Outo-
tono de 1885-outono 1886, n9 2 [87]; KGW VIII 1, 102. no de 1885-outono 1886, n9 2 [87]; KGW VIII 1, p. 102.
38. Fragmento póstumo de V P., p. 1067 e 638; GA. XVI, Comparar Fragmento póstumo da primavera-outono de
401 e 115. Junho-julho de 1885, n5 38 [12]; KGW VII 3, 1881, n 9 11 [115] KGW V 2, p. 380: "Um impulso ainda
p. 339 e outono 1885-outono 1886, n9 2 [143]; KGW VIII tão complexo, se ele tem um nome, vale como unidade,
1,p. 135. e tiraniza todo pensador que procura sua definição."
39. G. Deleuze: Nietzsche et Ia philosophie, Paris, 31 ed. 42. Crepúsculo dos ídolos, A "razão" na filosofia, 5; KGW VI
1970, p. 7. 3, p. 72.
76 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 77

guagem nos engana quando tomamos a palavra ao pé da letra, da sucumbiram à sedução de seu conceito de ser: Demócrito,
isto é, quando permanecemos nela e deixamos de perceber,' entre outros, quando inventou seu átomo..."47
por meio dela, a indicação a processos (Sachverhalte) que não Nietzsche não sucumbe a tal tentação. Se não há
são absorvidos nela. Porque Nietzsche fala indicativamente nenhum ser no sentido do estável, então não há também ne-
dessa maneira, ele pode tanto dizer "é", quanto negar efetivi- nhum átomo. Não apenas o um de uma formação de domínio
dade ao "é".43 Na verdade, há que se perguntar em que sen- organizada não tem fa/ser, porém também o múltiplo "combi-
tido não há ser. "Ser" é, segundo Nietzsche, "uma ficção va- nado" em uma formação não "é", na medida em que é pensa-
zia." Que, com essa afirmação, ele acredita44 poder se repor- do como constituído a partir de unidades fixas. O múltiplo dos
tar a Heráclito, assim como já sua alusão aos eleatas, isso quanta de poder não há, pois, que ser entendido como plurali-
indica qual "limitação do ser", para dizê-lo com Heidegger,45 é dade de dados-últimos quantitativamente irredutíveis, não co-
constitutiva para o entendimento do ser por Nietzsche: o ser é
mo pluralidade de "mônadas" indivisíveis.48 Deslocamentos
opçisto ao devir e dele derivado como "engano".46 Como o
de poder no interior de organizações instáveis permitem que
oposto do devir, o "ser" vale como o estável (das Bestândige).
de um quantum de poder advenham dois, ou que dois se tor-
O pensamento da estabilidade (Bestàndigkeit) se compõe, no
nem um. Se nós nos servimos dos números num sentido esta-
entanto, inteiramente com o pensamento da multiplicidade.
bilizador e definitivo , então há que ser dito que o "número"
Nietzsche observa: "Também os adversários dos eleatas ain-
dos seres permanece sempre em fluxo.49 Não há nenhum indi-
viduum, não há nenhum último, indivisível quantum de poder
43. Kôster critica minha diferenciação, relativamente a
Nietzsche, entre conceito fixador e palavra indicativa (A
problemática, op. cit., p. 40). As questões que se colocam 47. Crepúsculo dos ídolos, A "razão" na filosofia 5; KGW. VI
nesse contexto foram levadas adiante e aprofundadas por 3, p. 72.
J. Salaquarda (In: OAnticristo, Nietzsche-Studien2,1973, 48. Quando recuso a hipótese de que se possa atribuir à
p. 91 s; aqui: p. 133 s.). A partir das exposições de Sala- vontade de poder de Nietzsche uma substancialidade,
quarda, torna-se claro como Nietzsche pode proporcionar no sentido leibniziano (do autor: Nietzsche, op. cit., p.
32 s.), atrás disso não se oculta o pensamento de pro-
a seus "conceitos", por exemplo "uma singular cor de
porcionar às vontades de poder substancialidade em
lusco-fusco, um aroma tanto de profundidade quanto de
qualquer outro sentido, como suspeita Kôster (A proble-
mofo." (Fragmento póstumo; GA. XIV, p. 355; junho-julho
mática..., op. cit., p. 43 s.). Também não incorro no
de 1885, n9 37 [5]; KGW VII 3, p. 305 s.).
perigo de uma substancialização quando, seguindo a
44. Crepúsculo dos ídolos, A "razão" na filosofia 2; KGW. VI
marcha dos pensamentos de Nietzsche, entendo o ho-
3, p. 69.
mem como unidade de relativa independência. Com is-
45. M. Heidegger: Introdução à metafísica, Tubingen, 1953, so, depois de sua prévia "destruição", "o homem" não
p. 71 s. desperta, em minha interpretação, "para uma nova vi-
46. É verdade que ocasionalmente Nietzsche utiliza a pala- da", como escreve Kôster (op. cit., p. 46); desde o início
vra "ser" também no sentido de "vida". Então o próprio de minhas considerações a esse respeito (do autor:
ser é entendido como devir. Por vezes, ele é empregado Nietzsche, op. cit., p. 18 s.), ele é visto como multiplici-
também no sentido de "essência", de "efetividade", de dade de forças organizada em unidade.
"ente particular", assim como de "ente em sua totalidade". 49. Cf. Do autor: Nietzsche, op. cit., p. 33.
78 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 79

por detrás do qual cheguemos. Nietzsche pretende pensar "ra- Se suprimo pelo pensamento todas as rela-
dicalmente", na medida em que teria "descoberto o 'ínfimo ções, todas as "propriedades", todas as "ati-
mundo' como o sobretudo decisivo."50 Como táctico, esse ín- vidades" de uma coisa, então não permanece
fimo nunca pode ser um derradeiro. Como mundo, ele é sem- a coisa: porque coisidade é primeiramente fin-
pre uma formação constituída por "quanta de força, cuja es- gida por nós, em virtude de necessidades ló-
sência consiste em exercer poder sobre todos os outros quan- gicas, portanto para fins de designação, de
ta de força." 51 se colocar de acordo.55
Uma formação de domínio não "é" um, ela significa
um. O que se quer dizer aqui com "significar"? Em Para além "A" coisa significa um para o intérprete, embora a ele,
de Bem e Mal, escreve Nietzsche, o querer lhe parece sobre- na efetividade, somente uma multiplicidade se contraponha.
tudo "algo complicado, algo que é unidade somente como Entretanto, também "o" intérprete nada mais é que uma multi-
palavra."52 Já observamos que a linguagem nos simula unida- plicidade "com fronteiras inseguras".56 Nós somos "uma mul-
des. Todavia o significar é de essência mais originária do que tiplicidade que se imaginou uma unidade", anota Nietzsche.57
o falar. Falar é uma maneira de expressão do querer-poder.53 A consciência, o intelecto, serve como meio com o qual "eu"
Ela sela o que previamente já foi interpretado como algo. Toda "me" engano a mim mesmo.58 Com efeito, há que haver "uma
interpretação surge a partir do anseio de poder de formações porção de consciência e vontade em todo complicado ser orgâ-
de domínio. Elas arranjam para si mesmas aquilo que elas nico"; no entanto nossa consciência superior habitualmente
querem superar, talvez incorporar a si, ou contra o que elas se mantém fechadas as outras."59 Por meio dessa consciência, a
colocam em defesa. O arranjar é sempre um igualar falsifica- formação de domínio que eu sou se dá a entender para si
dor e tornar fixo. Aquilo que é igualado e tornado fixo é prepa- mesma como um: por meio de "simplificar e esclarecer, por-
rado para ser apanhado ou também para a postura de defesa tanto falsificar." Dessa maneira são tornados possíveis os apa-
de um querer-poder.54 Nietzsche escreve:
rentemente simples atos de vontade.60

55. Fragmento póstumo, outono de 1887, 10 [202]; KGW


50. Fragmento póstumo, primavera de 1888, 14 [37]; KG W VIII 2, 246; (VP. 558).
VIII 3, p. 28. 56. Fragmento póstumo; GA. XIII, 80. Primavera de 1884,
51. Idem, 14 [81]; KGW VIII 3, p. 53. nr. 25 [96]; KGW VII 2, p. 29.
52. Para além de Bem e Mal 19; KGW VI 2, p. 26. 57. Id. XII, 156. Outono de 1881, n 8 12 [35]; KGW V 2, p. 480.
53. "O direito senhorial de dar nomes vai tão longe que nos 58. "Eu e mim são sempre duas pessoas diferentes." Tam-
deveríamos permitir apreender a própria origem da lin- bém meu "mim" é "fingido e inventado" (Fragmento
guagem como expressão de poder dos dominadores: póstumo; GA XII, 304; verão-outono de 1882, n5 3 [1], p.
eles dizem 'isto é isso e isso', eles selam cada coisa e 352 e 3 [1], p. 333; KGW VII 1, p. 96 e 93 s.).
acontecer com um som e por meio disso, ao mesmo 59. Fragmento póstumo; GA. XIII, p. 239 s. Primavera de
tempo, tomam posse deles", lê-se em Para a Genealo- 1884, 25 [401]; KGW VII 2, p. 112.
gia da Moral (l, 2; KGW VI 2, p. 274). 60. Idem, 249; junho-julho de 1885, ns 37 [4]; KGW VII 3, p.
54. V. a esse respeito, do autor: Nietzsche, op. cit., p. 11 s. 304. Comparar do autor: Nietzsche, op. cit., p. 25 s.
80 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE

De tudo isso deveria ter-se tornado claro que Nietzsche 'Vontade de Poder' no singular
sempre tem em vista multiplicidades tácticas de vontades de
poder, que, respectivamente, significam um no sentido de sim- Nietzsche emprega o singular em tripla significação.
plicidade ou estabilidade, todavia são formações complexas e Na primeira significação, a vontade de poder é relacionada à
incessantemente mutantes, sem constância, nas quais ocorre
singulares" (A vontade e as vontades, op. cit., p. 75),
uma contraposição de quanta de força em variadas gradua-
remete o pensamento de Nietzsche àquela dimensão me-
ções. Contudo, com que direito pode Nietzsche, então, falar tafísica que ele abandonou. O próprio Nietzsche incorre-
sempre outra vez da vontade de poder, como se ela não fosse ria naquela duplicação da efetividade que ele combate: a
dada apenas na multiplicidade caracterizada, como se ela fos- vontade de poder subsistiria uma vez como o abrangen-
te, como princípio, e depois ainda em suas particulariza-
se factualmente um? Como se a vontade de poder, como algo
ções. Por outro lado, Weischedel se aproxima de minha
simples, fundasse o mundo.61 concepção quando escreve que as muitas vontades de
poder "se reúnem nisso: que elas todas são da essência
61. Tanto Weischedel quanto Kóster objetam contra a inter- da vontade de poder" (op. cit., p. 75), a vontade de poder
pretação do "pluralismo da vontade de poder", por mim teria "seu modo de existência nas vontades concretas
apresentada em meu livro sobre Nietzsche, que este, cuja constituição ela forma." Ele se afasta dela novamen-
todavia, sempre de novo fale da vontade de poder. Am- te, quando considera que Nietzsche estaria "a caminho
bos os críticos recorrem à proposição de Nietzsche de da metafísica para a realidade concreta" (op. cit., 76).
que esse mundo seria vontade de poder e nada além Com isso Weischedel pensa, todavia, a mutiplicidade a
disso. Colocar-se-ia a questão, assim escreve Weische- partir da vontade de poder como um primeiro fundante
del, do porque Nietzsche "não diz — no sentido de Múl- dessa.
ler-Lauter —: esse mundo é a infinita plenitude das von- A problemática de uma interpretação que con-
tades de poder" (A vontade e as vontades, op. cít., p. sidera a vontade de poder como um quase-sujeito, que
75). Kóster considera que a proposição teria, "segundo se quer a si mesmo, se destaca claramente na discussão
Múller-Lauter, que soar propriamente: 'Esse mundo é (a de Kóster comigo. Kóster acha em meu "insistir na multi-
multiplicidade das) vontades de poder..." (A Problemá- plicidade dos derradeiros dados (Letztgegebenheiten)"
tica..., op. cit., p. 39). A mencionada proposição exige uma " unilateralidade" (A Problemática..., op. cit., p. 48).
de fato, como tento mostrar pormenorizadamente nesta O "aspecto de multiplicidade, indubitavelmente constitu-
dissertação, uma explicação na direção caracterizada tivo na vontade de poder, não deveria ser salientado às
por meus críticos. Em que sentido Nietzsche pode falar custas do igualmente constitutivo aspecto da unidade"
da vontade de poder como do mundo, deve se tornar (op. cit., p. 41). No curso de sua interpretação de um
claro nos dois itens seguintes. fragmento póstumo da primavera de 1888 (que, todavia,
A conclusão que Weischedel extrai daquela pro- só se encontra completo e não fragmentado na KGW VIII
posição, segundo a qual ela sugere que Nietzsche, "to- 3, 49-51, Fragmento. 14 [79]), ele chega ao seguinte re-
davia, pense finalmente as várias vontades de poder sultado: "Com isso parece que a multiplicidade dos quan-
concretas como manifestações de um princípio unitário, ta (idênticos com a vontade de poder) teria na vontade de
determinante de toda efetividade", "isso de maneira tal poder seu fundamento" (op. cit., p. 41, nota 22). Isso me
que essa vontade abrangente ganha figura em vontades parece questionável. A questão que deve ser colocada
82 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 83

totalidade do efetivo. Nós ouvimos: o mundo é a vontade de do com o nome "a vontade de poder". A que remete aqui o
poder e nada além disso. O todo em sua variedade é designa- emprego do singular? Com ele, Nietzsche exprime que a von-
tade de poder é a única qualidade que se deixa encontrar, seja
aqui é a da relação entre "identidade" e "fundamento".
Kóster corre perigo de resvalar num dualismo inadequa- não se encontra nelas (op. cit., p. 48 s. Nota 33). Isso
do aos pressupostos de pensamento de Nietsche quando seria "a sutileza a que se teria aqui que ter prestado
diferencia entre as vontades de poder do indivíduo e a atenção". Quando Kóster escreve, porém, que "também
vontade de poder. O que vale para aquelas "não pode, alhures quase continuamente nos outros textos póstu-
sem mais, ser universalizado e aplicado à vontade de mos ... o conceito de vontade de poder seria primeira-
poder." Minha consideração de que todo o simples se mente empregado no singular e não colocado entre as-
apresenta como produto de uma efetiva multiplicidade pas", isso é, então, dito brandamente, um exagero. Há
valeria, em verdade, "inteiramente para a destruição por várias passagens em que Nietzsche emprega o plural
Nietzsche da vontade individual, não vale porém de igual sem aspas, e há várias passagens onde ele coloca o
maneira (sic!) para a 'vontade de poder' que com ela não singular entre aspas. Enumerá-las aqui parece-me dis-
pode ser confundida (sic!) (op. cit., p. 42). Por outro lado, pensável. — Mas mesmo quando se desconsidera a cita-
enfatiza Kóster que, apesar de toda distinção, as duas da expressão de Kóster, tendente à generalização, e se
determinações se pertencem. Todavia, segundo ele, elas toma a sério sua exigência de que a significação das
não se deixam pensar em conjunto. O "caráter total do aspas colocadas por Nietzsche "só então emerge quan-
universo e. com isso, a vontade de poder se anuncia na do se toma o (se. particular) texto como um todo", mos-
impensável e justamente assim querida simultaneidade tra-se de imediato que temos que ultrapassar o texto par-
de Um e Múltiplo", para o que Nietzsche teria "emprega- ticular, para compreender o sentido desse destaque (op.
do o conceito de dionisíaco". Em todo caso, a "identida- cit., p. 49). Um instrutivo exemplo disso oferece a esforço
de dionisíaca" teria sido "querida por Nietzsche apesar e de Heftrich para interpretar as aspas entre as quais
por causa de sua impossibilidade" (op. cit., p. 42 s.). Nietzsche, no início do aforismo de VP. 1067 (junho-julho
Apesar da crítica de Kóster (op. cit., p. 36, nota 16), não de 1885, fr. n8 38 [12]; KGW VIII 3, p. 338), colocou as
posso ingressar aqui na compreensão por Nietzsche do duas palavras "o mundo". Mostra-se logo que Heftrich
dionisíaco. Na crítica de Kóster, o dionisíaco tem, em tem que ir muito além do longo aforismo, "pois interpretar
todo caso, a função de trazer à síntese os antagonismos, as aspas significa naturalmente determinar o conceito
naquele impensável que é objeto do querer (op. cit., p. 'mundo'" (A filosofia de Nietzsche, op. cit., p. 54). Tam-
36, comparar especialmente também 57), e, a partir des- bém a interpretação que Kóster me apresenta como exem-
se impensável, desqualificar como racionalista o trata- plo — a interpretação de um travessão por Heidegger —
mento, por Nietzsche, dos antagonismos (v. a respeito na só é possível a partir de uma compreensão da vontade de
sequência p. 54 s. Nota 188). poder, que não pode ser extraída do aforismo sob inter-
Se Kóster, em sua diferenciação entre a vonta- pretação. — Se limitarmos ainda mais a repreensão de
de de poder e as vontades de poder, se volta para a Kóster, se a relacionarmos apenas com a passagem da
utilização por Nietzsche das aspas, o tipa de sua argu- qual parte sua argumentação, isto é, com o enunciado de
mentação contrasta, porém, com a sutileza de seu obje- Nietzsche acerca das "duas 'vontades de poder' em com-
to. Ele indica que Nietzsche, ,em duas passagens citadas bate", então temos que constatar que Kóster obtém sua
por mim, coloca o plural entre aspas, enquanto o singular própria interpretação não apenas do mencionado aforis-
A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 85

o que for que consideremos.62 Temos que nos prevenir, po- poder" não é um Um efetivo; esse Um nem subsiste de alguma
rém, contra substancializar, de alguma maneira, a qualidade, maneira para si, nem sequer é "fundamento do ser" (Seins-
ainda que essa maneira seja tão sublime. A qualidade não grund). Só há "efetiva" unidade como organização e combina-
existe como algo subsistente por si, não como sujeito ou qua- ção de quanta de poder.
se-sujeito, também não como o Um, cujas "produções" são as Se Nietzsche fala de vontade de poder como única
complexas formações de duração relativa, como considera qualidade, então ele, muito frequentemente, deixa de lado o
Heidegger.63 Antes ao contrário, a única qualidade já é sempre artigo. Por meio disso torna-se particularmente claro que, no
dada em tais quantitativas particularizações, senão ela não caso da vontade de poder, não se trata de um princípio ou
poderia ser essa qualidade. Toda vontade de poder é, com de um ens metaphysicum. Isso ocorre também em duas for-
efeito, dependente de sua oposição a outras vontades de po- mulações de Nietzsche, às quais se recorre com especial
der, para poder ser vontade cie poder. A qualidade "vontade de prazer, para espremer sua filosofia num sistema metafísico,
no qual ela não cabe. No contexto de uma crítica a Schope-
mo (VP. 401; fr. póstumo da primavera de 1888, n9 14
nhauer em Para além de Bem e Mal, ele assim fala do "mun-
[137], [138], [140]; KGW VIII 3, p. 113 s.); que, a partir da
do, cuja essência é vontade de poder";64 e num fragmento
contradição entre Vida e Nada, a vontade de poder pro-
duz as múltiplas oposições daquela fútil aparência cha- póstumo se diz (como já citado de início), "a essência mais
mada 'mundo' e, ao mesmo tempo, destruindo, as reco- íntima do ser" seria "vontade de poder". Se Nietzsche escre-
lhe em si" (op. cit., p. 49); isso não pode ser retirado da ve "a vontade de poder" ou "vontade de poder", com certeza
peça textual, como seria de se esperar de acordo com a pensa ele sempre a única qualidade, evidentemente descon-
mencionada exigência.
siderando-se os casos nos quais, com a designação "a von-
É evidente que também minha interpretação das
tade de poder", ele destaca uma vontade de poder em sua
aspas, no enunciado acerca das duas 'vontades de po-
der' em combate, se nutre de um entendimento global do constituição particular.
pensamento de Nietzsche. Há aqui, como alhures, outras Passemos, pois, à segunda significação do "modo de
razões que fazem aparecer como apropriado esse desta- expressão no singular" em Nietzsche. Visto que a vontade de
que. Nesse caso: a extrema simplificação (que já indiquei
poder é a única qualidade do efetivo, Nietzsche pode empre-
em meu livro, op. cit., p. 76); a explicitação de que tam-
gar o singular também em vista de determinações universais,
bém a vontade de nada é vontade de poder; o caso de
que as duas vontades de poder (dos fortes e dos fracos) com as quais frequentemente multiplicidades são reunidas em
não são vontades de poder fácticas, se as pensamos em âmbitos, ou adquirem significação de algum outro eventual
sua universalidade e não como particularizações em or- modo abrangente. Seja mencionado como exemplo o projeto
ganizações (a esse respeito infra p. 27 s.). — Carece de de um plano da primavera de 1888, que traz o sobrescrito:
uma explicitação própria o porque a filosofia de Nietzsche,
"Vontade de poder. Morfologia". Nesse apontamento, Nietzsche
em geral, tenha "sempre que parecer uma filosofia das
compila os títulos:
'aspas'", como ele próprio escreve (GA XIV, 355; junho-
julho de 1885, n°- 37 [5]; KGW VII 3, p. 306).
62. A esse respeito, do autor: Nietzsche, op. cit. 21 s.
63. HEIDEGGER, M.: Nietzsche, op. cit., II, p. 106. 64. Para além de Bem e Mal 186; KGW VI 2, p. 109.
86 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 87

Vontade de poder como "natureza" sua essência, vontade de poder. Tornar visível essa essência,
como vida nos "âmbitos" de espécie diversa, é a tarefa de uma "morfolo-
como sociedade gia" da vontade de poder, de que se fala também em um outro
como vontade de verdade plano de Nietzsche da primeira metade do ano 1888.67 Isso
como religião vale, precisamente, quando a vontade de poder permanece
como arte oculta em determinadas maneiras de expressão (não produ-
como moral ções!). Apresentemos uma parte da estruturação de um outro
como humanidade.65 projeto de Nietzsche do mesmo ano, que porta o sobrescrito:
Não podemos nos ocupar aqui nem com os títulos "A vontade de poder. Ensaio de uma Transvaloração de todos
isolados, nem com a sequência de sua compilação.66 A partir os valores". Ele mostra de que maneira tem de ser entendida
desse apontamento, deve ser tornado claro como (a) vontade a vontade de poder, por exemplo, como moral e religião:
de poder não pode ser entendida. Ela não é um fundamento do
mundo, que produz vida, ou se exterioriza como arte, ou se //. Os falsos valores
efetiva como humanidade. Muito ao contrário, as "configura- 1. Moral como falsa
ções" (Gestaltungen) apresentadas por Nietzsche são, segundo 2. Religião como falsa
3. Metafísica como falsa
65. Fragmento póstumo, primavera de 1888, 14 [72]; KGW
4. As ideias modernas como falsas.
VIII 3, 46. — Imediatamente antes desse texto se en-
contra a seguinte disposição:
III. O critério da verdade
"Vontade de poder como 'lei natural' 1. A vontade de poder.™
Vontade de poder como vida
Vontade de poder como arte Em suas configurações tradicionais, ainda determi-
Vontade de poder como moral
nantes dessa era, moral e religião são da essência da vontade
Vontade de poder como política
Vontade de poder como ciência
de poder, ainda quando nelas essa essência aparece numa
Vontade de poder como religião." (Id. 14 [71]). inversão. O critério para "falso" e "verdadeiro" há que se en-
66. Aqui tem lugar uma comparativa 'filologia das aspas'. A
palavra 'natureza' é, na listagem, a única palavra colo- 67. Fragmento póstumo, primavera de 1888,14 [136]; KGW
cada entre aspas. No apontamento manuscrito por VIII 3, p. 112. — Nietzsche dá valor à constatação de
Nietzsche a palavra 'lei natural' está entre aspas. Isso que exposições morfológicas nada podem explicar, mas
sugere o entendimento de 'natureza', no texto acima estão apenas em condições de descrever estados de
citado, como natureza mecanicamente interpretada. Is- fatos: cf. Fragmento póstumo de VP. 645; GA. XVI, 118
so, mais uma vez, significaria que, também porisso, es- s; e GA. XIV, p. 331. Junho-julho de 1885, n8 36 [28];
taria vedada uma interpretação da sequência no sentido KGW VII 3, p. 226 e verão-outono de 1884, ns 27 [67];
de curso do desenvolvimento de uma vontade de poder KGW VII 2, p. 291.
metafísicamente pensada. Não há aqui nenhum quase 68. Fragmento póstumo, primavera-verão de 1888, 16 [86];
— hegelianismo. KGW VIII 3, p. 311 s.
88 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE

contrar naquilo que, sem encobrimento, é vontade de poder universais, os conceitos mais vazios", assim lemos em Cre-
como vontade de poder. Ele aflora "na intensificação do senti- púsculo dos ídolos, formam "a última fumaça da realidade
mento de poder".69
Precisamos avançar ainda um passo. As configura-
samento de Nietzsche, ponto sobre o qual, todavia, não
ções e determinações universais não são "falsas" apenas na se pode prosseguir aqui. É essencial, para o que aqui
medida em que nelas conteúdos particulares são reunidos em está em discussão, que a relação essência-existência
unidades. Elas já são "falsas" em razão de sua universalida- tem que ser pensada já em relação à vontade de poder.
de. Isso vale, pelo menos, para quando ao universal é atribuí- Com efeito, também aqui parece desaparecer a diferen-
ça: pelos menos as interpretações de Nietzsche domi-
da "existência". Também à vontade de poder, pensada por-
nantes dão testemunho disso. Se é que se trata de um
ventura como princípio universal e supremo, não cabe nenhu-
"desaparecer", então vale, efetivamente, no contexto
ma existência. Ela só existe factualmente como única qualida- citado, a alegada proposição de Heidegger, segundo a
de nos quanta de poder, ou como essência apenas na multipli- qual um tal desaparecer "só se deixaria mostrar quando
cidade, que não se pode abranger com a vista, daquilo-que-é se procura tornar visível a diferença." Isso deve ser
(dass-sein); ou como essência apenas na plenitude das "exis- tentado acima.
Para o entendimento da essência da vontade
tências" conflitantes. 70 "Os 'supremos conceitos', isto é, os mais
de poder no sentido metafísico, Heidegger resume algu-
mas determinações da vontade, que se deixam encon-
69. Fragmento póstumo de VP., p. 534; GA. XVI, 45; prima- trar em Nietzsche: "Vontade como o assenhorar-se de...
vera de 1885, ns 34 [264]; KGW VII 2, p. 71: "Com isso, que se utrapassa a si mesmo, vontade como afeto (o
verdade não é algo que estivesse aí e tivesse que ser excitante assalto), vontade como paixão (o galopante
encontrada, descoberta, — mas algo que há que ser arrebatamento na imensidão do ente), vontade como
criado e que dá nome a um processo, mais ainda para sentimento (a condição [Zustàndlichkeit] de permanecer
uma vontade de subjugação, que, em si, não tem ne- junto a si mesmo) e a vontade como comando." Com
nhum fim: inserir verdade, como um ativo determinar, razão, Heidegger se recusa a cunhar, a partir dessas e
não como um tornar-se consciente de algo que 'em si' ulteriores determinações possíveis, "uma 'definição' mais
fosse fixo e determinado. É uma palavra para a 'vontade pura segundo a forma, que reuna tudo o que foi exposto."
de poder1." (Fragmento póstumo do outono de 1887, n° (Nietzsche, op. cit., p. 70 s.). Também na sequência
9 [91]; KGW VIII 2, p. 49). A respeito desse critério de dessa investigação renunciamos a "definições": com elas
verdade, v. do autor: Nietzsche, op. cit., p. 108-15. incorremos na Lógica de que Nietzsche escapa. No que
70. Heidegger procura expor "como, na metafísica de concerne às mencionadas determinações, aqui interes-
Nietzsche, a diferença entre essentia e existentia desa- sa sobretudo a primeira. Como há que se entender o
parece, por que ela tem que desaparecer no fim da assenhorar-se que se ultrapassa a si mesmo? Heideg-
metafísica; como, no entanto, dessa maneira é alcança- ger o interpreta como auto-sobrepujar-se da vontade.
da a extrema distância do começo" (Nietzsche, op. cit, "Essa essência única da vontade de poder regra a inter-
II, p. 476). No contexto de suas considerações da histó- dependência que lhe é própria. Ao sobrepujar pertence
ria da metafísica, Heidegger entende a vontade de po- aquilo que deve ser, a cada vez, superado, enquanto
der corno essentia, o eterno retorno do mesmo como correspondente grau de poder, e aquilo que o supera. É
existentia. Uma tal coordenação é inadequada ao pen- preciso que o que deve ser superado oponha uma resis-
90 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 91

evaporada."71 Esse universal é apenas fumaça, a realidade Nietzsche afirma: "Nelas não se encontra a efetividade de
consiste a cada vez no particular jogo-total (Gesammtspieí) de modo algum."73
ações e reações operado no interior de complexas formações Nietzsche fala de inefetividade e "falsidade" também
de centros de força. 72 Há que se partir daqui, nelas fazer co- em relação àquelas "determinações universais" (no quadro
meço. Uma das "idiossincrasias dos filósofos" consiste, po- dessa exposição há que se permanecer nessa expressão indi-
rém, em "confundir o último e o primeiro. Eles colocam no ferenciada), que — como propriamente dispensáveis — não
começo, como começo, aquilo que vem no fim (se. os mais vêem "no fim", porém se tornaram imprescindíveis para o exis-
universais, "supremos" conceitos) — infelizmente! pois sequer
tir humano.
deveria vir." Se nos apoiamos na razão (na medida em que
esta não leva em conta o sentido histórico e não pensa até o
Outrora tomou-se a alteração, a mudança, o
fim aquilo que testemunham os sentidos), permanecemos en-
devir em geral como prova de aparência ...
tão no "aborto e no ainda-não-ciência", o que aqui significa
Inversamente, vemo-nos hoje, de certo modo,
"metafísica, teologia, psicologia, teoria do conhecimento." Ou
enredados no erro, necessitados ao erro, exa-
"ciência formal, semiologia: como a Lógica e aquela Lógica
tamente na medida em que o preconceito da
aplicada, a Matemática." Dessas disciplinas, que se movem
razão nos constrange a estabelecer unidade,
em determinações universais diversas, de conteúdo ou de forma,
identidade, duração, substância, causa, coi-
sidade, ser; tão seguros estamos, com funda-
tência e, por isso mesmo, seja algo constante que se mento em uma verificação rigorosa conosco
mantém e se conserva. Mas é preciso também que aqui- mesmos, que aqui está o erro.7*
lo que supera tenha uma posição firme e seja resisten-
te, sob pena de não poder se ultrapassar a si mesmo, Também aqui, "o falso" é transformação da verdadei-
nem permanecer na intensificação sem oscilar, nem per-
ra essência da vontade de poder. Essa verdadeira essência da
manecer seguro de suas possibilidades de intensifica-
ção" (op. cit., p. 269 s.). O que supera carece da resis- vontade de poder pode, todavia, ser indicada em todo transfor-
tência do que há que ser superado. Nisso concordo com mado, até mesmo como condição de possibilidade e necessi-
Heidegger. Quando ele compreende, todavia, o jogo de dade de tal transformação. Isso se torna claro em um outro
mútua oposição entre o sobrepujante e aquilo a sobre- apontamento de Nietzsche. Ele nomeia:
pujar como curso gradual "de um Unitário", ele eleva a
essência da vontade de poder a um ente absoluto que,
a partir de si mesmo, se desdobra em multiplicidade, "fim e meio"
permanecendo, inobstante, junto a si. Com isso, o pen- "causa e efeito"
samento de Nietzsche fica equivocado. "sujeito e objeto"
71. Crepúsculo dos ídolos, A "razão" na filosofia 4, KGW VI
3, p. 70. 73. Crepúsculo dos ídolos, A "razão" na filosofia 4 e 3; KGW
72. Fragmento póstumo, primavera de 1888,14 [184]; KGW VI 3, p. 70.
VIII 3, p. 162 s. A Vontade de Poder 567. 74. Id. 5; KGW VI 3, p. 71.
92 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 93

"fazer e padecer" todos os "fins", "metas", "sentidos" são apenas maneiras de


"coisa em si" e expressão e metamorfoses de uma vontade, inerente a todo
"fenómeno" acontecer: a vontade de poder... e que o mais universal e
profundo instinto em todo fazer e querer permaneceu o mais
como explicações (não como fato) e em que medida talvez desconhecido e oculto, porque in praxi nós sempre seguimos
como necessárias explicações? (como "conservadoras") — to- seu mandamento, porque nós somos esse mandamento ,.."77
das no sentido de uma vontade de poder."75 A transição é aqui fácil de encontrar. Até a última vírgula na
Se consideramos algo como fim ou como meio para passagem citada, fala-se da universalidade essencial da von-
um fim, então não temos nenhum estado de fato diante dos tade de poder. Quando se diz, em conclusão, que nós mesmos
olhos; empreende-se uma explicação. Se também o querer- somos vontades de poder "como mandamento", Nietzsche pen-
poder impõe uma tal explicação, então o explicado não adqui- sa então "entes" existentes como vontades de poder. Nessa
re com isso a dignidade do efetivo.76 significação, evidentemente, não apenas o homem, porém to-
No texto citado por último Nietzsche fala de uma von- da unidade organizada de quanta de poder é uma vontade de
tade de poder. Caímos, com isso, na problemática da terceira poder. Desse modo anota Nietzsche;
significação que o singular adquire em Nietzsche. Uma vonta-
de de poder é uma particular vontade de poder, distinta de A complexidade maior, a aguda separação, o
outras. No apontamento mencionado, é manifestamente do no- lado a lado dos órgão e funções conformados,
mem, como de uma vontade de poder, de que se fala. Vontade com desaparecimento dos membros interme-
de poder significa, aqui, não apenas a essência da efetividade diários — se isso é perfeição, assim resulta
como tal, porém um efetivo em sua efetividade. Frequente- uma vontade de poder no processo orgânico,
mente, com particular frequência em curtos apontamentos pós- em virtude da qual forças dominadoras, con-
tumos, não se pode diferenciar inequivocamente se Nietzsche formadoras, ordenadoras aumentam sempre
considera este ou aquela. Em suas discussões, ele não raro o âmbito de seu poder, no interior do qual
transita de um ao outro. Tomo um exemplo disso num texto, no sempre de novo simplificam: o imperativocres-
qual, entre outras coisas, é tratada a já destacada pergunta cendo.
pelo modo de ser-dado da "finalidade". Nietzsche escreve "que
Quando Nietzsche fala, dessa maneira, de uma von-
75. Fragmento póstumo de A Vontade de Poder 589; GA.
tade de poder, ele então pressupõe, com a expressão singular,
XVI, p. 91; outono de 1885-outono 1886, ns 2 [147];
KGWVIIM.p. 137.
o plural como dado. Isso vale, naturalmente, também para
76. Nietzsche denomina a "aparente finalidade" também uma aquelas expressões nas quais ele liga "vontade de poder" com
vez "a consequência ... (da) vontade de poder." (Frag- um pronome possessivo. Assim, por exemplo, cada povo se
mento póstumo, outono de 1887, 9 [91]; KGW VIII 2, 50;
VP. 552. A respeito da problemática da ex-posição v. na 77. Fragmento póstumo, novembro de 1887-março de 1888,
sequência item 10). 9 [91]; KGW VIII 2, p. 286 s; VP. 675.
94 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 95

distingue por sua particular vontade de poder. Zaratustra diz trás vontades de poder. A particularização já é, em si, sempre
que sobre cada povo se eleva uma tábua de valores, como um repelir aquilo que resiste, ela possibilita o assujeitamento
tábua de suas superações: ela seria "a voz de sua vontade de como a submissão, a incorporação e o ajustamento em relação
poder".79 Em um apontamento póstumo escreve Nietzsche: a outrem que se particulariza. Particularizar-se, e, na particu-
um povo que ainda creia em si, venera em seu Deus, por meio larização, relacionar-se, agindo ou reagindo, com o outro se
de projeção de seu sentimento de poder, "as condições por particularizando: dessa maneira se consuma todo acontecer.
meio das quais ele se eleva". Esse Deus representa "a alma Para nós, "nenhuma mudança é representável", es-
agressiva, sedenta de poder, de um povo, sua vontade de creve Nietzsche, "na qual não haja uma vontade de poder." E
poder"80 Não devemos nos deixar induzir a erro pelo pronome para que não opinemos tratar-se aqui da "única" vontade de
possessivo: os povos não "possuem" suas diferentes vonta- poder, temos de prosseguir lendo: "Não sabemos derivar ne-
des de poder ao lado de outra coisa, que lhes seria ainda nhuma mudança, quando não ocorre uma usurpação de poder
peculiar. Eles são particulares vontades de poder — e nada sobre outro poder."82 Se uma vontade de poder alcançou "o
além disso. Isso vale para tudo aquilo a que Nietzsche atribui predomínio sobre um poder inferior", então trabalha "o último
efetividade. Todo "específico" é o que é somente como "sua" como função do maior."83
vontade de poder. No contexto de uma discussão com a ciên- Falar-se de uma vontade de poder que se submete a
cia da natureza contemporânea, Nietzsche considera: outra é, naturalmente, uma simplificação. Que uma vontade de
que todo corpo específico anseia tornar-se se- poder apresenta, respectivamente, um ajustamento hierarqui-
nhor, expandir sua força (sua vontade de po- camente estruturado de várias vontades de poder particulares,
der:) sobre todo o espaço e repelir tudo o que Nietzsche o expôs em suas considerações sobre o corpo hu-
resiste à sua expansão. Mas ele se choca mano de modo particularmente insistente.84 Ele escreve:
permanentemente com iguais anseios de ou-
tros corpos e termina por se arranjar ("reu- Não se pode admirar até o fim como uma tal
nir") com aqueles que lhe são suficientemen- imensa reunião de seres viventes, cada um
te aparentados: assim, eles conspiram juntos independente e submisso e, todavia, em certo
pelo poder e o processo segue adiante...81
82. Ibid. KGW VIII 3,52 (VP. 689).
Nesse sentido, uma vontade de poder é uma organi- 83. Id. outono de 1887, 9 [91]; KGW VIII 2, 50 (VP. 552).
zação de quanta de poder particularizando-se em face de ou- 84. "Seguindo o fio condutor do corpo" — como Nietzsche
frequentemente formula — devemos poder experienciar

79. Assim falou Zaratustra l, Das mil metas e da única meta; da melhor maneira aquilo que nós próprios somos. Em
KGWVI 1,p. 70. comparação com o espírito, seria aquele "o fenómeno

80. Fragmento póstumo, maio-junho 1888,17 [4]; KGW VIII mais rico, que permitiria observações mais claras." (Frag-
3, p. 321. mento póstumo VP. 532; Cf. 492; GA XVI, 44, cf, 18;

81. Fragmento póstumo, primavera de 1888, 14 [81]; KGW agosto-setembro de 1885, nr. 40 [15]; KGW VII 3, 367,
VIII 3, 165 s. (VP. 636). comparar nr. 40 [21]; KGW VII 3, 370 s.
96 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 97

sentido, novamente comandante e agente pe- a questão: de que espécie é a extrema organização, a mais
la própria vontade, pode viver como todo, cres- extensa vontade de poder? Como "últimos organismos cuja
cer e persistir por um tempo.85 configuração vemos", Nietzsche nomeia povos, estados,
sociedades.87 Diferentemente de "configurações e determina-
De novo somos remetidos do "um" aos "muitos", às ções gerais" que só exibem a vontade de poder ao modo de
unidades respectivamente organizadas em si mesmas e instá- expressões, indicações, "consequências" ou "sinais",88 eles
veis, sem uma subsistente essência (Kern) de ser. são efetivas formações de domínio. Visto que neles, como or-
ganismos existentes, a essência da vontade de poder está
Também aqueles ínfimos seres viventes que dada como ser fáctico (dass-sein), os chamados últimos e su-
constituem nosso corpo... não valem para nós premos organismos podem ser utilizados como "ensinamento
como átomos anímicos, muito pelo contrário, sobe os primeiros organismos." 89 Todavia, não é necessário
como algo crescente, combatente, reproduzin-
do-se e de novo agonizantes; de modo que 87. Fragmento póstumo do outono de 1881, 11 [316]; KGW
seu número se altera instavelmente. V 2, p. 461.
88. Para a Genealogia da Moral, 1112; KGW VI 2, p. 330.

Para tornar completamente clara a fundante efetivida- 89. Nietzsche fala dos últimos organismos no plural: povos,
estados, sociedades. Para poder ser vontade de poder,
de da multiplicidade para tudo aquilo que se dá "a entender"
toda vontade de poder carece, com efeito, de uma con-
como unidade, Nietzsche aduziu à citada frase um parênteses.
tra-vontade. Porisso é vedado admitir-se, acima das três
Ele fala "daqueles ínfimos seres viventes que constituem nos- últimas formações nomeadas, ainda uma derradeira co-
so corpo (mais corretamente: de cujo atuar-conjunto aquilo mo factualmente subsistente. Assim, Nietzsche pode di-
que denominamos 'corpo' é a melhor alegoria)."86 zer: "A 'humanidade' não avança; ela nem sequer exis-
Aquilo que Nietzsche denomina uma vontade de po- te." (Fragmento póstumo da primavera de 1885,15 [8];
KGW VIII 3, 202; VP. 90). Tem que restar sem discus-
der é, de fato, jogo de oposição (Gegenspiel) e concerto (Zu-
são aqui que Nietzsche, frequentemente, emprega a ex-
sammenspieí) de muitas vontades de poder, -de todo modo
pressão "humanidade" na apresentação de seu próprio
organizadas em unidade. E aquela vontade está, por seu lado, assunto (por exemplo, em sentido de massa, soma de
inserida na contraposição e concerto de uma vontade de poder todos os homens, essência dos homens). Em todo caso,
mais abrangente. Desse modo, um homem, por exemplo, for- a humanidade não é, para ele, organismo e, com isso,
ma um quantum de poder que organiza em si inúmeros quanta não é uma vontade de poder. V. a respeito: fragmento
de poder. Em oposição e associação com outros homens, ele póstumo da primavera-outono de 1881, n 9 11 [222]; KGW
V 2, 425, onde Nietzsche se volta contra discussões
próprio pertence a "organismos" mais abrangentes. Coloca-se
filosóficas; "transformar a humanidade num organismo
— isso é o oposto de minha tendência." A ele interessa
85. Fragmento póstumo GA XIII, 247 s. Junho-julho de 1885,
a "máxima pluralidade possível de organismos mutá-
n9 37 [4]; KGW VII 3, p. 302.
veis, de espécies diferentes, que, chegados à sua ma-
86. Ibid. 248 s. Junho-Julho de 1885, n5 37 [4]; KGW VII 3,
turidade e decomposição, deixam cair seu fruto, os indi-
p. 303.
víduos, dos quais, com efeito, a maioria perece, mas os
98 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 99

aqui recorrer ainda a uma re-tradução do falso universal no O todo do mundo orgânico é a rede (Aneinan-
verdadeiro particular. A essência da particularização à manei- derfàdelungj de seres com pequenos mundos
ra de organização — como é constitutivo para todo quanta de fictícios em torno de si:ao transporem para
poder — deixa-se destacar mais facilmente nos macrorganis- fora de si, em experiências, sua força, seus
mos do que nas "unidades menores". desejos, seus costumes, como seu mundo ex-
Ainda que as três formações denominadas possam terior.90
ser as "últimas" em relação às formas de organização huma-
nas, permanece ainda, todavia a questão se a efetividade em Em consequência disso, mundo é, de um lado, um
seu todo, o mundo, não é efetividade organizada. Se a questão todo: mundo orgânico. Quando lemos, no mesmo manuscrito,
tivesse uma resposta afirmativa, então teria de ser provada, "que não há mundo inorgânico", então podemos entender sob
uma vez mais, a possibilidade da existência da vontade de
"mundo", como mundo do orgânico, o todo da efetividade.
poder como fundamento da efetividade.
Nesse apontamento, fala-se, de outro lado, em fictícios peque-
Nós partimos de duas afirmações de Nietzsche: o mun-
nos mundos dos seres particulares. Fica próxima a suposição
do seria um e múltiplo; o mundo seria vontade de poder e nada
de que tais ficções não teriam qualquer peso particular. Pare-
além disso. Demos então espaço à suspeita de que também a
ce ser essencial apenas o primeiramente nomeado "conceito
vontade de poder seria una e múltipla. O resultado de nossas
de mundo". Quando ouvimos, entretanto, que o todo, nele com-
reflexões até aqui reza: Existe apenas uma multiplicidade de
preendido, forma a rede de seres com os "pequenos mundos",
vontades de poder. A vontade de poder é uma determinação
então somos remetidos de novo àqueles seres. E quando nos
essencial. A uma vontade de poder cabe efetiva unidade ape-
lembramos de que Nietzsche chama de sobretudo decisivo91 o
nas como concerto na oposição a outras vontades de poder. No
"ínfimo mundo", faz então pleno sentido desdobrar a pergunta
que se segue deve ser tematizada a primeira afirmação: o
pela compreensão de mundo, por Nietzsche, a partir desse
mundo seria um e múltiplo.
decisivo.
A questão dos pequenos e ínfimos mundos surge do

Os muitos mundos e o único mundo pluralismo da vontade de poder de Nietzsche. "Todo centrum
de força tem sua perspectiva para o inteiro resto" das forças
Na mencionada proposição, "mundo" significa aquilo com as quais se relaciona, "isto é, sua bem determinada valo-
que se costuma denominar "totalidade do ente" ou "o ente em ração, sua espécie de ação, sua espécie de reação." Um tal
seu todo". Entretanto, essa não é a única significação de mun- agir e reagir perspectivamente valorador constitui a cada vez
do na filosofia de Nietzsche. Assim é que ele escreve: "um mundo". À objeção de que desse modo só se chega a
mundos aparentes, contrapõe Nietzsche: "Como se restasse
poucos são o que interessa." Nesse contexto, o socia-
lismo é visto por Nietzsche como "fermentação", que 90. Fragmento póstumo; GA XIII, 80. Abril-junho de 1885,
"anuncia incontáveis experimentos do Estado, portanto n8 34 [247]; KGW VII 3, p. 223.
também de declínios do Estado e novos ovos." 91. Cf. p. 79.
100 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 101

ainda um mundo, se suprimíssemos o perspectivo! Com isso trair nossa perspectiva para, desse modo, conservar, o mundo.
ter-se-ia, decerto, suprimido a relatividade."92 A relatividade "O mundo, abstraído de nossa condição de viver nele... não
pertence, porém, essencialmente às vontades de poder se or- existe como mundo 'em si'."96 Pressupondo que haja o mundo
ganizando umas contra as outras. Dessa maneira, em conse- como o todo da efetividade, então podemos empregar positiva-
quência da insuprimível perspectividade, vive "cada um dos mente a declaração contida na proposição citada. A esse mun-
seres diferentes de nós em um outro mundo que nós."93 Po- do pertencem então nossas particulares condições de vida, e
dendo-se falar apenas de mundos perspectives, dissolve-se o com isso nossas perspectivas, como pertencem a ele as ações
problema de sua suposta aparência. "O mundo não é para nós e reações respectivamente determinadas de rodos os seres
apenas um resumir relações sob uma medida?" A proposição singulares. Quando Nietzsche diz que "o mundo" seria "ape-
seguinte contém a resposta afirmativa: "Tão logo falte essa nas uma palavra e o jogo total (Gesammtspiel) dessas ações",97
arbitrária medida, nosso mundo se derrete."94 Se não há qual- então isso significa que ele concebe o mundo como o "mundo
quer "medida absoluta", então não resta mais nenhuma som- das forças." 98 Cada força projeta para si, com efeito, um mun-
bra de direito de se falar em aparência (Schein).95 do próprio. Mas esse respectivamente próprio não conduz ao
O desdobramento dessa problemática do mundo pa- encapsulamento em face dos mundos das outras forças. Toda
rece conduzir a idêntico resultado que a discussão da vontade força (isto é, toda vontade de poder) está, decerto, relacionada
de poder. Do singular somos remetidos ao plural. Se tomamos às outras forças em oposição ou acomodação. O mundo tem,

a sério as considerações de Nietzsche sobre a perspectivida- na verdade, "sob certas circunstâncias, sua feição diferente a

de, então permanece incompreensível para nós com que direi- partir de cada ponto." Mas, como o agregado de todas as
forças, ele forma, decerto, o "material" para todos os particu-
to ele ainda pode falar cio mundo. Não temos de concluir: não
lares projetos-de-mundo. O mundo não resulta das "somató-
há o mundo, há apenas mundos? Nietzsche, entretanto, em-
rias" dos mundos perspectives: esses são, decerto, "em todo
prega a expressão "o mundo" sempre de novo, no sentido de
caso, completamente incongruentes."99 Também a rede (Anei-
efetividade em seu conjunto. No início desta seção, recorre-
nanderfàdelung) de que se falou antes não produz nenhum
mos a um exemplo de que ele pensa também a relação dos
contexto (Zusammenhang) dos mundos particulares. Porém, o
pequenos mundos ao mundo como um todo. Precisamos, por-
mundo é bem a soma dos seres que ficcionam mundos, a
tanto, tentar esclarecer essa relação.
soma das forças factualmente dadas.
Há que se manter firme nisso: que não podemos sub-
Segundo Nietzsche, a soma das forças é limitada. "A
medida do todo das forças é determinada, nada de infinito."100
92. Fragmento póstumo da primavera de 1888, 14 [184];
K G W V I I I 3 , 162 s. l/P. p. 567. 96. Id. 14 [93]; KGW VIII 3,63; (VP. 568).
93. Id. VP. 565; GA XVI, 65. Verão de 1886-primavera 1887, 97. Id. 14 [84]; KGW VIII 3, 163; (VP. 567).
n8 6 [14]; KGWVIII 1,p. 244. 98. Fragmento póstumo da primavera-outono de 1881, 11
94. Fragmento póstumo do outono de 1881,11 [36]; KGWV [148]; KGW V 2, 396.
2, p. 352.
99. Id. primavera de 1888,14 [93]; KGW VIII 3, 63; (VP. p.
95. Id. primavera de 1888, 14 [184]; KGW VIII 3, 163, (VP. 568).
p. 567).
100. Id. primavera-outono de 1881,11 [202]; KGW V 2, 421.
A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 103
102 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE

Ele denomina o mundo "uma fixa, brônzea grandeza de força, pótese de que o todo seria um organismo repugnaria a essên-

que não se torna maior nem menor, que não se consome, mas cia do orgânico.™4 E tão pouco quanto o mundo, como um
se modifica, inalteravelmente grande como todo, uma econo- todo, é um ser vivente,105 tão pouco é ele uma organização,
mia sem despesas e perdas, mas igualmente sem crescimento num outro sentido qualquer. Ora, nós ouvimos que unidade só
e aportes." 101 Nietzsche não apenas admite uma limitação na é unidade como organização. Por isso Nietzsche não pode
soma total da força, como também uma limitação do número falar do todo como do mundo unitário. É sugestivo que, num
possível de situações de força (Kraftlagen). Com isso, ele in- manuscrito mais tardio, ele recuse a possibilidade de que o
corre em contradição consigo mesmo: a infinita divisibilidade mundo seja o "todo" como unidade: "Parece-me importante
das forças, por meio da qual fica excluído todo pensamento de que abandonemos o todo, a unidade." Ainda mais sugestiva é
uma quase-substancialidade das vontades de poder, deixa es- a fundamentação que ele dá para isso. A essa unidade teria de
paço para o pensamento de infinitamente múltiplas combina- pertencer "alguma força, um incondicionado. Não se poderia
ções de força. Nietzsche tem de admitir, entretanto, uma limi- deixar de toma-lo como instância suprema e batizá-lo 'Deus'."
tação das situações de força, se sua doutrina do eterno retor- Para a constituição da unidade do todo, seria necessário um
no do mesmo — que não será discutida aqui — deve ter vali- fundante originário, que organizaria a multiplicidade total. Re-
dade cosmológica.102 Para fundamentação dessa limitação, ano- cairíamos com isso, porém, no preconceito metafísico comba-
ta ele: "O infinitamente novo vir-a-ser é uma contradição, ele
tido por Nietzsche. Assim, exige ele: "Tem-se que estilhaçar o
pressuporia uma força infinitamente crescente. Mas do que
todo; desaprender o respeito pelo todo; retomar para o próxi-
deve ela crescer! De onde se nutrir, nutrir com excedente!"103
mo, o nosso, aquilo que demos ao desconhecido, ao todo."106
A argumentação tem força de convencimento em relação à
inalterabilidade das quantidades de força: a hipótese de uma 104. Ibid. comparar também fragmento póstumo GA XII, 60,
força total (Gesamtkraft) infinitamente crescente é absurda. primavera-outono de 1881, n8 11 [201]; KGW V 2, p.
No entanto, não ficam excluídas, de modo algum, combina- 420: "Como todo, temos que pensá-lo (se. o todo) tão
ções de força infinitamente mutáveis no interior de uma quan- longe quanto possível do orgânico!"

tidade de força permanentemente igual — assim há que se 105. A Gaia Ciência 109; KGW V 2, p. 145.
106. Fragmento póstumo VP. p. 331; GA XVI, p. 381, final
objetar aqui contra Nietzsche — se os quanta de força são
de 1886-primavera de 1887, ns 7 [62]; KGW VIII 1, p.
infinitamente divisíveis. 325. V. já também fragmento póstumo da primavera-
Nossa pergunta pel'o mundo se orienta pela proble- outono de 1881, n5 11 [201]; KGW V 2, p. 420: "A
mática da vontade de poder. Para ela, é essencial que Nietzsche contra-parte científica moderna da crença em Deus é
acrescente à sua tentativa de fundamentação o seguinte: a hi- a crença no rodo como organismo: isso me repugna.
Ora, o totalmente raro, o indizivelmente elevado, o or-

101. Fragmento póstumo VP. 1067; GA XIII, 401. Junho- gânico, que somente percebemos sobre a crosta da

julho de 1885, n°- 38 [12]; KGW VII 3, p. 335. terra, fazer dele o essencial, universal, eterno! Isso é

102. Comparar a respeito, do autor, op. cit., p. 180 s. sempre ainda humanização da natureza! E uma disfar-
çada pluralidade de deuses nas mônadas, que em con-
103. Fragmento póstumo da primavera-outono de 1881, 11
[213]; KGW V 2, p. 423. junto formam o todo-orgânico!... Fantasmagoria! — Se
104 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 105

Com isso, Nietzsche rejeita explicitamente o pensamento de Todos os entes são concebidos por Nietzsche como
que o mundo pudesse estar enraizado na vontade de poder estruturas de domínio, como quanta de poder hierarquicamen-
como num fundamento do ser factualmente subsistente. te organizados. Também o homem é, como já ouvimos, uma tal
"O" mundo não é nenhum todo como unidade, no estrutura. "Aquilo que o homem quer, aquilo que quer toda
caso de que toda unidade é unidade de organização. Não há, ínfima parte de um organismo vivente, é um plusde poder."108
decerto, nenhuma força fundamental organizando-o num todo. Nele todo "impulso" é, ele próprio, vontade de poder. Cada
Falar de um mundo tem então, para Nietzsche, só o sentido de (impulso OGJ.) é "uma espécie de anseio de domínio, cada
que ele admite uma quantidade limitada de força, entendida um tem sua perspectiva, que ele gostaria de impor como nor-
em incessante alteração. Trata-se também de quantidades li- ma a todos os demais impulsos."109 Impulsos reúnem-se para
mitadas de força, quando Nietzsche fala do mundo orgânico, sustentar oposição a outros complexos de impulsos. Os anta-
do mundo inorgânico e semelhantes, num sentido setorial. Tais gonismos dos impulsos levam a incessantes deslocamentos
"mundos" não existem por si, também não apresentam nenhu- nas constelações de poder: "por meio de cada impulso, é agi-
ma unidade organizada. Trata-se aqui de divisões, por razões, tado também seu contra-impulso."110 Como em tudo que é,
finalmente, heurísticas. assim também no homem "todo acontecer, todo movimento,
"O mundo" é caos, como diz Nietzsche:107 a-legalida- todo vir-a-ser" tem de ser interpretado "como um fixar de rela-
de de agregações e desagregações de forças. Posto que o ções de grau e de força, como um combate."111 Nesse sentido,
mundo não é um todo organizado, então também não há a Nietzsche descreveu o ego como "pluralidade de forças de
vontade de poder como o ens metaphysicum constituinte do espécie pessoal, das quais ora essa, ora aquela estaria em
mundo. Existem apenas multiplicidades de vontades de poder, primeiro plano, e olharia para as outras como um sujeito olha-
a vontade de poder não existe.
ria para um sugestivo e determinante mundo exterior." O do-
mínio muda no interior dos complexos pulsionais: "O ponto de
vista (Standpunkt) se desloca aos saltos."112 Este não deve
'As' vontades de poder 'no' mundo ser entendido como Um estável. Não é adequado estabelecer

Sobre aquilo que caracteriza uma vontade de poder 108. Fragmento póstumo da primavera de 1888, 14 [174];
como vontade de poder, o mais importante já foi dito. No que KGW VIII 3, 152; (VP. 702).
109. Id. VP. 481; GA XVI, 12; final de 1886-primavera 1887,
se segue, deve ser indicado o ente em sua particularidade
nr. 7 [60]; KGW VIII 1,323.
como vontade de poder no mundo.
110. Fragmento póstumo; GA XI, 283; outono de 1880, nr.
6 [63]; KGW V 1,540.
o todo pudesse se tornar um organismo, teria se torna- 111. Fragmento póstumo de outubro de 1887, 9 [91]; KGW
do um." VIII 2, 49; (VP. 552).
107. Assim considera Nietzsche, por exemplo, em Fragmen- 112. Fragmento póstumo; GA XI, 235; outono de 1880, nr.
to póstumo (novembro de 1887-março 1888, 11 [74]; 6 [70]; KGW V 1, 541 s. Le-se aqui: "O sujeito se
KGW VIII 2, 279; (VP. 711)): "Que o mundo não é, em desloca aos saltos". Com isso não se dá uma diferen-
absoluto, um organismo, porém o caos." ça na própria coisa.
106 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 107

"uma unidade" por detrás da multiplicidade de nossos afetos: o querer-poder. Em todo caso, o querer-poder carece daquilo
"basta apreendê-la como um governo."113 que a ele resiste. "A vontade de poder só pode se exteriori-
Aquilo que deve valer para o homem concerne tam- zar em resistências; ela busca pelo que a ela resiste — essa
bém, para Nietzsche, todo vivente: no "âmbito de efetividade" é a tendência original do protoplasma, quando estende seus
do orgânico não há nada de outro que complexos contextos de pseudotentáculos e tateia em torno de si. A apropriação e a
quanta de poder, "uma multiplicidade de seres em combate incorporação é, sobretudo, um querer-subjugar, um formar,
uns com os outros",114 dos quais cada um deles, em sua par- conformar e transformar, até que o subjugado tenha passado
ticular perspectividade, combate em conjunto com outros quan- inteiramente ao poder do agressor e o tenha aumentado. Não
ta ou em oposição a eles pelo domínio no interior de unidades sendo bem-sucedida a incorporação, então desmorona a for-
relativas. Sob esse aspecto, mesmo um protoplasma aparece mação; e a duplicidade aparece como consequência da von-
"como uma multiplicidade de forças químicas",115 a que cabe tade de poder: para não deixar escapar o que foi conquista-
unidade somente na medida em que a multiplicidade se "dá do, a vontade de poder separa-se em duas vontades."116 "O
a entender" como acobertador concerto. Desde o homem até, protoplasma se dividindo 1/2 + 1/2 não= 1, porém = 2", anota
cá embaixo, o protoplasma, vale, pois, que o vivente —, em Nietzsche.117
consequência da multiplicidade das perspectivas nele atuan- Se o mundo é a vontade de poder e nada além disso,
tes —, apreende de modo múltiplo aquilo que se lhe contra- então também as ocorrências no "âmbito de efetividade" não
põe. O que se lhe contrapõe é, sob certas circunstâncias,
apenas temporariamente o contraposto. Um organismo pode 116. Fragmento póstumo do outono de 1887, 9 [151]; KGW
incorporar a si aquilo que inicialmente lhe é estranho; incor- VIII 2, 88; (VP. 656). — Comparar Id. primavera de
poração é, decerto, um modo fundamental em que é efetivo 1888,14 [174]; KGW VIII 3,152; (VP. 702). A respeito
da divisão e assimilação dos seres vivos inferiores até
a constituição de castas nos organismos superiores, v.
113. Id. XIII, 245; agosto-setembro de 1885, nr. 40 [38];
KGW VII 3, 379. Num outro apontamento póstumo, lê- também fragmento póstumo da primavera-outono de

se a respeito do homem "como multiplicidade": "Seria 1881, n 5 11 [134]; KGW V 2, 388 s.


falso concluir necessariamente de um Estado um mo- 117. Fragmento póstumo, GA XIII, 259; comparar id. XVI,
narca absoluto (a unidade do sujeito)" (Fragmento pós- 325; outono de 1885-outono 1886, n8 2 [68]; KGW VIII
tumo; GA XIII, 243; verão-outono de 1884, n8 27 [8]; 1, 90. Comparar outono de 1885, n» 43 [2]; KGW VII 3,
KGW VII 2, 276 s.). — Nietzsche fala ocasionalmente 439; outono de 1887, n5 9 [98]; KGW VIII 2, 55 s:
de uma espécie de aristocracia de 'células' nas quais "Nenhum 'átomo'-sujeito. A esfera de um sujeito cres-
reside o domínio (Fragmento póstumo VP. 490; GA cendo permanentemente, ou diminuindo-; caso ele não
XVI, 16; agosto-setembro de 1885, n8 40 [42]; KGW VII consiga organizar a massa obtida, ele se decompõe
3, 382). Ele destaca, desse modo, a multiplicidade em em 2. Por outro lado, ele pode, sem destrui-lo, trans-
cada vontade de poder dominante. formar em seu funcionário um sujeito mais fraco e, até
114. Fragmento póstumo, maio-julho de 1885, nr. 35 [59]; um certo grau, formar junto com ele uma nova unida-
KGW VII 3, 259. de. Nenhuma 'substância', muito mais algo que, em si,
115. Fragmento póstumo, GA XIII, 227. Maio-julho de 1885, anseia por fortalecimento; e que só indiretamente quer
nr. 35 [58]; KGW VII 3, 259. se 'conservar' (ele quer se suplantar)."
108 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 109

orgânico têm de ser interpretadas como lutas de poder. Nietzsche concretamente afirma, pode ser explicitado no exemplo do con-
empreende essa interpretação, sempre de novo, no contexto ceito de causa. Num texto póstumo particularmente esclarece-
de sua crítica ao pensamento mecanicista. Que ele contrapõe dor, do qual podem ser mencionadas algumas passagens, lê-se:
a este sua "teoria de uma vontade de poder ocorrente em todo
acontecer", já o observamos por ocasião da discussão da 'se- Calculado psicologicamente, o inteiro concei-
gunda prova' de Schlechta.118 Com a minuciosidade exigida to (de causa OGJ.) nos advém da convicção
pelo assunto, não podemos ingressar aqui na crítica de Nietzsche. subjetiva de que (nós OGJ.) somos causa,
Temos de nos limitar a algumas indicações, das quais deve qual seja, de que o braço se movimenta... nós
ficar claro como ele, a partir de sua "teoria", critica aquela do diferenciamos a nós, os autores, do fazer e
mecanicísmo. utilizamos esse esquema em toda parte —
"Mecânica" reduz o mundo "à superfície", para fazê- nós procuramos um agente em cada aconte-
lo "compreensível". Ela é "propriamente só uma arte de es- cer... Nós procuramos coisas para explicar por
quematizar e abreviar, uma dominação da multiplicidade pela que algo se alterou. Mesmo ainda o átomo é
arte da expressão — nenhum "entender" (Verstehen), mas um uma tal excogitada "coisa" e "sujeito-originá-
designar para fins de comunicação(Verstàndigung).""9 O pen- rio"... Finalmente compreendemos que coisas,
sar mecanicista "imagina" de tal modo o mundo, que ele pode conseqúentemente também átomos, não
ser calculado. Ele finge "unidades originárias... 'coisas' (áto- atuam: porque ele não estão, em absoluto, aí
mos), cujo efeito permanece constante." Assim como ocorre ... que o conceito de causalidade é completa-
aqui a transposição de nosso falso conceito de sujeito, como mente inutilizável... Não há causas, nem efei-
fixa t/n/dade-eu, tanto sobre o "conceito de átomo" como tam- tos. Lingúisticamente não sabemos como nos
bém sobre o "conceito de coisa", assim também se oculta libertar disso. Mas nada jaz aí. Se eu penso
nossa fingida "subjetividade" por detrás, por exemplo, tanto o músculo separado de seus efeitos, então eu
do cenceito mecanicista do movimento, como do "conceito de o negue/.121
atividade (separação de ser-causa e atuar)". A mecânica tem,
pois, não apenas esse preconceito psicológico como seu pres-
Temos de "eliminar" todos os "ingredientes" de nos-
suposto, porém também o preconceito suposto — sobretudo
sa errónea convicção subjetiva para alcançar o que está oculto
no conceito de movimento — por nossa "linguagem dos senti-
dos". No interior da interpretação mecanicista do mundo, te- (VP. 634), Nietzsche anota que não faria nenhuma di-
mos sempre "nosso olho, nossa Psicologia."m O que isso ferença se partimos da "ficção de uma partícula de
átomo ou mesmo de sua abstração, o átomo dinâmi-
118. V. p. 11 s. 69 s. co." Nele se pensa "sempre ainda uma coisa que atua,
119. Fragmento póstumo, GA XIII, 85; verão de 1886-outo- — isto é, não escapamos do costume para o qual nos
no1887, n9 5 [16]; KGWVIII 1, 194. dirigem sentidos e linguagem."
120. Fragmento póstumo da primavera de 1888, 14 [79]; 121. Fragmento póstumo da primavera de 1888, 14 [98];
KGW VIII 3, 51; (VP. 635). — No mesmo apontamento KGW VIII 3, 66 s. (VP. 551).
110 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 111

na compreensão mecanicista da efetividade. Encontramos, en- Com o objetivo de indicar as consequências para as
tão, "quanta dinâmicos, numa relação de tensão com todos os quais Nietzsche é impelido na elaboração de sua doutrina da
outros quanta dinâmicos: cuja essência consiste em sua rela-
veut" (op. cit. p. 56). Com isso, ele 'diferencia' onde
ção com todos os outros quanta, em seu 'fazer efeito' (wirken)
Nietzsche não 'diferencia', não está autorizado a dife-
sobre eles."122 Também para o "âmbito inorgânico da efetivi- renciar, sem renunciar à coesão interna de seu pen-
dade", vale a proposição: "toda força impulsionante é vontade samento. Para além do já considerado, há que se
de poder". Não há uma outra força. Precisamente o impelir indicar ainda, nesse contexto, as considerações de
Nietzsche no aforismo 36 de Para Além de Bem e
agente e reagente, o aumento e a diminuição de forças, não
Mal, onde se trata de "determinar inequivocamente
são pensados como tais "em nossa ciência", o que é digno de toda força atuante como vontade de poder." "Natural-
ser pensado permanece oculto por detrás de nosso esquema mente, 'vontade' só pode fazer efeito sobre Vonta-
causa-efeito.123 de'..., deve-se arriscar a hipótese: se, por toda parte
onde são reconhecidos 'efeitos', não é vontade que
122. Id. 14 [79]; KGW VIII 3, 51; (VP. 635). faz efeito sobre vontade — e se todo acontecer me-
123. Id. primavera de 1888, 14 [121], VIII 3, 92; (VP. 688). cânico, na medida em que uma força nele se torna
— Não se deve mal-entender Nietzsche quando ele atuante, não é exatamente força de vontade, efeito
escreve: "O vitorioso conceito de força com o qual de vontade" (KGW VI 2, 51). Em seus escritos,
nossos físicos criaram Deus e o mundo carece ainda Nietzsche emprega o conceito de força numa dupla
de um complemento: deve ser-lhe atribuída uma von- significação: numa delas no sentido do representar
tade interior, que eu designo como 'vontade de po- mecanicista; em outra no sentido da 'vontade de po-
der'." (Fragmento póstumo de VP. 619; GA XVI, 104). der'. Aquela deve ser genealógicamente derivada a
Deleuze designa essa proposição como "un dês textes partir desta. Quando parte da maneira mecanicista de
lês plus importants que Nietzsche écrivit pour expli- pensar, Nietzsche pode, com efeito, falar da necessi-
quer cê qu'il entendait par volonté de puissance" dade de uma complementação do conceito de força
(Nietzsche et Ia philosophie, 3a ed. Paris, 1970, p. 56). 'dos físicos', que Deleuze entende como exigência de
Na verdade, ele toma demasiado literalmente a consi- "adição" com uma 'vontade interior' (nesse contexto,
deração de Nietzsche de que o conceito de força care- ele emprega a palavra "ajouter", op. cit., p. 57).
ceria de um complemento ("complément") por meio da Nietzsche, porém, pensa aqui tão pouco 'aditivamen-
vontade de poder. Com razão, escreve ele: "La volon- te' quanto, num outro aforismo (VP. 634, primavera
té de puissance ... n'est jamais séparable de telle et de 1888, ns 14 [79], KGW VIII 3, p. 49 s.), o exigido
tellle forces déterminées." Também há que se concor- distanciamento do popular conceito mecanicista de ne-
dar com ele quando considera: "La volonté de puis- cessidade tem uma significação meramente subtrati-
sance ne peut pás être séparée de Ia force, sans tom- vá. Aquilo que , para a compreensão da efetividade,
ber dans 1'abstraction metaphysique" (op. cit. p. 57). resulta da substituição do conceito mecanicista de for-
Todavia, a problemática de sua interpretação vem à ça pelo de Nietzsche, torna indispensável um novo-
luz quando ele acrescenta; "Inséparable ne signifie pensar dos processos (Vorgànge) na natureza, no qual
pás identique", e introduz a diferenciação: "La force não pode mais ser atribuída verdade a nenhum 'resí-
est cê qui peut, Ia volonté de puissance est cê qui duo' da mecânica. Que Nietzsche, com isso, não con-
112 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 113
A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE

vontade de poder, devem ser ainda discutidos dois problemas outra força'."124 "Precavenho-me de falar em 7e/s'químicas...

nesse contexto: o da percepção no "âmbito inorgânico" e o da Trata-se de uma fixação absoluta de relações de poder: o mais

necessidade em todo acontecer. Voltemo-nos, em primeiro lu- forte se torna senhor do mais fraco, na medida em que este
não pode impor seu grau de independência."125 Em lugar da
gar, para o segundo.
necessidade expressa nas leis, surge, em Nietzsche, a neces-
A. Comecemos com uma pergunta. A empregabilida-
sidade com a qual transcorrem os combates dos quanta de
de sem exceções das "leis naturais" não nos remete a uma
poder. Se vale "que uma determinada força justamente nada
constância originária em todo acontecer, determinada por suas
de outro pode ser que exatamente essa determinada força",
fórmulas? Nietzsche escreve a respeito: "A inalterável sequên-
então isso significa "que ela não se descarrega de outro modo
cia de certas aparências não demonstra nenhuma lei, mas
num quantum de força-resistência que não aquele que é con-
uma relação de poder entre duas ou mais torças. Dizer: 'mas
forme à sua fortaleza." E isso, de novo, significa: "Acontecer
justamente essa relação permanece idêntica a si' nada mais
e acontecer-necessário é uma tautologia."™6 Isso parece per-
significa que: 'uma e mesma força não pode ser também uma
manecer na necessidade da qual se fala também na teoria
física, ainda que ela seja interpretada de outro modo por
testa a utilidade da mecânica, esse é um outro pro-
Nietzsche.
blema. Disso se falará ainda mais adiante. P. Vala-
dier considera nos Bulletin Nietzschéen (Archives de Que esse não é o caso, fica claro nos esforços de
Philosophie 36/1, 1963, 141) que os trabalhos de De- Nietzsche para contestar, em duplo aspecto, a pretensão de
leuze "n'ont pás peu contribua ... à 1'interpretation de validade das leis natufais (sem, com isso, pôr em dúvida a
Ia volonté qui défend aussi Muller-Lauter." Concordo empregabilidade, sim, a utilidade dessas leis). Em primeiro
com ele a respeito da comunidade de algumas ten- lugar, ele se volta contraia convicção de que as leis naturais
dências em Deleuze e em mim, nas discussões da seriam de-validade a-temporal\m segundo, ele recusa a con-
problemática da vontade de poder; minha atenção pa-
cepção de que acontecimentos sejam fundamentalmente apreen-
ra isso foi primeiramente despertada pela indicação
didos nessas leis.
dele. Porém não devem ser deixadas fora de consi-
Assim escreve ele: "Não podemos afirmar uma eterna
deração as profundas diferenças das interpretações.
Só se poderia falar delas aqui 'exemplarmente'. En- validade de nenhuma 'lei natural', não podemos afirmar a eter-
trementes, o texto citado no início desta nota foi pu- na permanência de nenhuma qualidade química, nós não so-
blicado na KGW (junho-julho de 1885, fr. ns 36 [31]; mos suficientemente sutis para ver o presumível fluxo absoluto
VII 3, 287). Ao invés de "vontade interior", tem que do acontecer, o permanente está aí apenas graças a nossos
ser lido: "um mundo interior". Que um mundo interior
(portanto, uma multiplicidade de vontades de poder) 124. Fragmento póstumo de VP. 631; GA XVI, 109; outono
tenha que ser atribuído a toda força física (sem que de 1885-outono 1886, n8 2 [139]; KGW VIII 1, 133 s.
topemos, finalmente, com algo 'simples'), vem em apoio 125. Id. 630; GA XVI, 108 s. Junho-julho de 1885, n8 36
de minha interpretação. V: a respeito: M. Bauer: Para [18]; KGW VII 3, 283.
a genealogia do conceito de força de Nietzsche; in: 126. Fragmento póstumo do outono de 1887,10 [138]; KGW
Nietzsche-Studien 13, p. 222 s. Nota 34. VIII 2, 202; (VP. 639).
114 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 115

grosseiros órgãos, que resumem e dispõem em superfície aquilo A interpretação mecanicista da efetividade, dirigida pelos en-
que, em absoluto, não existe dessa maneira.'n27 Das "qualida- ganadores preconceitos da linguagem, dos sentidos e da "Psi-
des" químicas,128 diz-se, em outro lugar, que elas fluem e se cologia", não toma conhecimento das fundamentais mudanças
alteram, "o espaço de tempo pode ser enorme, que a fórmula de espécie menor e mais sutil. Ela simplifica, ao fixar unidades
atual de uma composição é refutável pelo sucesso. Provisoria- estáveis, entre as quais constrói ligações. Mantendo-se no
mente, as fórmulas são verdadeiras: pois elas são grosseiras; o grosseiro, ela fixa leis sobre a base de tais ligações, às quais
que é, pois, nove partes de oxigénio para onze partes de hidro- atribui irreversível necessidade. Todavia, tal necessidade não
génio? Esse 9:11 é de todo impossível fazer exatamente, há é, em verdade, irreversível, não é, em absoluto, necessidade.
sempre um erro na efetivação, conseqúentemente uma certa Incessante tornar-se-outro cabe ainda ao ínfimo e sutilíssimo.
envergadura no interior da qual o experimento é bem-sucedido. Nada permanece aquilo que é num ponto do tempo. Sob certas
Mas, do mesmo modo, está no interior desta mesma envergadu- circunstâncias, suas mudanças transpõem também aquela "cer-
ra a eterna mudança, o eterno fluxo de todas as coisas, em ta envergadura" que tem de ser dada, para se poder levar uma
nenhum momento o oxigénio é exatamente o mesmo que no lei, uma fórmula, à aplicação. Por detrás da "não-verdadeira
anterior, mas algo novo: ainda quando essa novidade é dema- necessidade" da mecânica, Nietzsche procura indicar a "ver-
siado fina para toda mensuração; sim, a inteira evolução de dadeira necessidade". Ela consiste em que um quantum de
todas as novidades ao longo da duração do género humano poder, a cada tempo, só pode extrair uma determinada conse-
ainda não é suficientemente grande para refutar a fórmula."129 quência em sua relação com os outros quanta de poder.
6. Também os "-entes" inorgânicos são vontade de
127. Id. primavera-outono de 1881, 11 [293]; KGW V 2, 452. poder. Uma vontade de poder procura, por exemplo, subjugar
128. Que, em verdade, não haja quaisquer qualidades, isso
uma outra vontade de poder. À subjugação pertence um modo
se encontra na conclusão do texto citado em seguida.
— a cada vez específico — de "conhecer" aquilo que deve ser
Há, decerto, apenas a única qualidade 'vontade de
poder'. subjugado. Nenhuma vontade de poder é uma "vontade cega".
129. Fragmento póstumo da primavera-outono de 1881, 11 Por isso Nietzsche é obrigado a admitir um "conhecer",130 um
[149]; KGW V 2, 397. A respeito do erro de Nietzsche "perceòertambém para o mundo inorgânico". Em alguns apon-
v: A. Mitasch: O estudo da natureza por Nietzsche, tamentos póstumos encontramos concisas indicações a esse
1950, p. 25. Ele considera que poderia residir aqui um
respeito. Ele procura caracterizar um tal perceber em sua dife-
"erro de transcrição em face do dado de Schopenhauer,
rença para com o perceber no mundo orgânico. Ele chega aqui
que falara de 1 átomo de hidrogénio e 9 átomos de
'oxigénio' ... (Em verdade, 8 partes ponderadas a ponto de dizer que "no mundo químico" dominaria "a mais
[Gewichtsteil] de oxigénio e 1 parte ponderada de hi- aguda percepção da diferença de força". Diante disso, já um
drogénio, 1 átomo de oxigénio sobre 2 átomos de hi-
drogénio." O erro é desprovido de importância para a um seu igual, na verdade basta-nos a hipótese de que
afirmação de princípio de Nietzsche, segundo a qual, há inumeráveis iguais." Fragmento póstumo n 9 11 [237];
nas ciências da natureza, só estamos autorizados a KGW V 2, 429 s.
falar de 'qualidades' semelhantes, ao invés de iguais: 130. Fragmento póstumo; GA XIII, 230; verão de 1883, nr.
"Nada ocorre duas vezes, o átomo de oxigénio é sem 12 [27]; KGW VII 1,442.
116 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 117

protoplasma, como multiplicidade de forças químicas, tem "uma do sentir, representar e pensar" teria "sido originariamente
insegura e indeterminada percepção de conjunto de uma coisa uno", diz-se em outro apontamento. "No inorgânico essa uni-
estranha". Insegurança e indeterminação provêm de que as dade tem de estar presente (vorhanden): pois o orgânico já
várias forças são "seres mutuamente combatentes", cujo an- começa com a separação." 133 O ser-um do inorgânico forma o
tagonismo é, então, também decidido quando o protoplasma irrecusável pressuposto para a fixidez de suas perspectivas.
"se sente diante do mundo externo". A agudeza da percepção, "Todo orgânico se diferencia do inorgânico em que ele nunca
que deve ser própria às forças químicas como tais, está na é idêntico a si mesmo em seus processos." 134 O anorgânico é,
segurança e na determinação. Essas só podem ser dadas em pois, o idêntico a si mesmo. Aqui o próprio Nietzsche projeta a
"percepções firmes", que Nietzsche, de fato, atribui ao inorgâ- identidade no interior daquilo que é "o mais digno de reverên-
nico. Na medida em que fixidez, no sentido de estabilidade, cia", enquanto, por toda parte alhures a desmascara, no en-
constitui o critério do tradicional conceito de verdade, ele pode tanto, como mera projeção.
dizer do perceber no interior do mundo inorgânico: "aqui domi- Não devemos atribuir peso demasiado a essa incon-
na Verdade' ",131 sequência de Nietzsche, por certo encontrável apenas em con-
Desses e de outros apontamentos pode-se auscultar cisas indicações. O pensamento fundamental de Nietzsche,
em Nietzsche, creio eu, uma quase velada saudade daquela amplamente exposto, é que não há qualquer Um, em sentido
"verdade", da verdade, cuja destruição forma a principal preo- de permanência. Unidade é sempre unidade como organiza-
cupação de sua filosofia. Essa saudade ecoa também quando ção de quanta de poder uns contra os outros e uns com os
ele anota que o "mundo inorgânico", jacente por detrás do outros. As "relações" dadas aqui "constituem primeiramente
mundo orgânico, seria "o que há de supremo e mais digno de seres". 135 Aqui sempre se deve atentar para isso: "que uma
veneração." Faltaria aqui "o erro, a limitação perspectiva".
Todo orgânico já apresenta "uma especialização". A perda em mentado e sem erro, força contra força! E no mundo
sensitivo tudo falso, obscuro! É uma festa fazer a tran-
toda especialização consiste manifestamente na perda da agu-
sição desse mundo para o 'mundo morto' — e o maior
deza e fixidez das percepções. Na falta dessas últimas estaria, desejo do conhecimento é contrapor a esse mundo,
então, a "limitação perspectiva" de que fala Nietzsche.132 "To- falso e obscuro as eternas leis, onde não há qualquer
prazer, qualquer sofrimento e engano ... Não nos dei-
131. Id. 227 s. Maio-julho de 1885, n9 35 [51], [53], [58], xemos pensar o retomo ao desprovido de sensibilida-
[59]; KGW VII 3, 258 s. de como um retrocesso! Nós nos tornamos inteiramen-
132. Id. 228 (Outono de 1885-primavera 1886, n8 1 [105]; te verdadeiros, nós nos completamos. A morte há que
KGW VIII 1, 31). — Comparar, a esse respeito, Frag- ser reinterpretadal Nós nos reconciliamos assim com o
mento póstumo da primavera-outono de 1881, 11 [70]; efetivo, isso é, com o mundo morto."
KGW V 2,336: "Falsidade fundamental das avaliações 133. Fragmento póstumo, GA XIII, 229; verão de 1883, ne
do mundo sensitivo face ao (mundo OGJ.) morto. Por- 12 [27]; KGW VII 1,422.
que nós somos essas avaliações! Pertencemos a elas! 134. Id. 231; verão de 1883, ns 12 [31]; KGW VII 1, 424.
E, todavia, a superficialidade, o engano começa com a 135. Fragmento póstumo da primavera de 1888, 14 [122];
sensibilidade ... O 'mundo morto'! eternamente movi- KGW VIII 3, 95; (VP. 625).
118 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 119

coisa se dissolva numa soma de relações, nada prova contra como a relação mútua de acontecimentos que não se deixam
sua realidade".136 Isso também vale, naturalmente, para as apreender como acontecimentos, mas se fixam mutuamente
"ínfimas" unidades inorgânicas. para — pagando tributo ao acontecer — ter de deixar escapar
Retornemos ainda uma vez às enunciações de sempre de novo toda fixação. 138
Nietzsche sobre o mundo inorgânico: aqui dominaria "verda-
Partindo das discussões a respeito da percepção no
de"! Fala-se, no mesmo apontamento, que com o mundo orgâ-
mundo inorgânico, destacamos o estabilizar como um traço
nico começaria a "aparência" (Schein). Podemos recorrer, en-
essencial que cabe a iodas as vontades de poder. Retornando
tão, à crítica de Nietzsche ao tradicional esquema verdade-
os olhos para os "âmbitos de efetividade" que nós — seguindo
aparência. Para o nosso contexto, tem de bastar a indicação
as considerações de Nietzsche — percorremos como amostra-
do resultado dela. Posto que Nietzsche parte do subjugar pers-
gem, pode-se dizer, então, que encontramos por toda parte o
pectivo, a cada vez perspectivo, toda "verdade" se torna "apa-
mesmo dado fundamental: processos de agregação e desagre-
rência" e toda "aparência" "verdade". Ao final, dissolve-se a
gação de vontades de poder. Pergunta-se: se em face desses
oposição. Todo conhecimento, toda percepção demonstra-se
como "acomodação" (Zurechtmachung) de algo a serviço de processos (Sachverhalt) pode-se, com razão, falar de "âmbi-

uma vontade de poder respectivamente dominante. As acomo- tos" (Bereichen). Que significado cabe à diferenciação de
dações têm a força de "estabilizações" (Fest-stellungen) do Nietzsche entre mundo orgânico e inorgânico? De modo algum
incessantemente mutável na efetividade. Trata-se, nas pers- estamos autorizados a admitir uma diferença qualitativa de
pectivas do inorgânico, de arranjadoras estabilizações daquilo tais âmbitos. Como síntese de forças químicas, o protoplasma
que resiste (às quais pode ser atribuída, no máximo, uma "fi- não é algo essencialmente outro que as próprias forças quími-
xidez" relativa137), de idêntico modo como nas percepções "a cas. Que Nietzsche não traça nenhuma fronteira entre "os
partir de muitos olhos", como Nietzsche as constata no mundo mundos", isso se mostra mesmo onde ele — da maneira pro-
orgânico. Todo ente estabiliza e, em verdade, com necessida- blemática já mostrada — fala da particularidade do "perceber
de. O estabilizar é um traço fundamental da vontade de poder. inorgânico". Aí se fala da "transição do mundo do inorgânico
Ora, aquele que estabiliza e o estabilizado alteram-se perma- ao do orgânico".139 Quando ele, uma vez, concebe o orgânico
nentemente. Se um estabilizador quantum de poder quer per- como especialização do inorgânico e, uma outra vez, conside-
manecer um quantum de poder dominante, então ele tem de, ra que não haveria nenhum mundo inorgânico (a respeito de
sempre de outra maneira (pois ele próprio se altera incessan- que já se tratou em outro contexto), 140 aqui reside, então, ape-
temente e com isso se altera sua perspectiva), estabilizar sem- nas aparentemente um paradoxo. No primeiro caso, ele pensa
pre novamente o dominado, que se altera. O perceber de to-
das as vontades de poder se deixa descrever formalmente 138. Para a problemática que, desse contexto, resulta para
a doutrina de Nietzsche da vontade de poder, cf. do
136. Id. primavera-outono de 1881, 13 [11]; KGW V 2, 518; autor: op. cit., p. 95-115.
comparar supra p. 79. 139. Fragmento póstumo; GA XIII, 227; maio-julho de 1885,
137. Lembro-me da indicação de Nietzsche de que oxigénio ne 35 [59]; KGW VII 3, 259.
seria algo novo a cada instante; v. supra p. 114. Vo. V. p. 28 s. 99 s.
120 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 121

"genealogicamente".141 No segundo caso, ele se volta contra de Nietzsche. Ele próprio sustenta uma pretensão de superio-
o pensamento mecânico: no mundo inorgânico não dominam ridade em face de outras interpretações do mundo. Ao questio-
pressão e impulso, também nele só há a mútua oposição de narmos seu pensamento em relação a essa pretensão, depa-
"organismos" naquele sentido, no qual também povo, Estado, ramos com o problema da fundamentabilidade de sua "doutri-
sociedade são organismos. Temos, pois, que diferenciar, em na da vontade de poder".
Nietzsche, um conceito amplo e um conceito estrito de orga- Partimos do aforisma 22 em Para além de Bem e
nismo. Depois do que foi anteriormente considerado,142 quase Ma/.143 Lá Nietzsche indica a insuficiência da interpretação
não carece mais de menção que devemos nos precaver contra mecânica do mundo. Já conhecemos seus argumentos e os
a hipótese de que, como "âmbito de efetividade", o "mundo discutimos com base em outros aforismos e fragmentos nos
orgânico" seria abrangido pelo mundo orgânico como pelo to- quais eles recebem exposição mais pormenorizada, ou pelo
do da efetividade. O mundo não é mundo orgânico, mas mun- menos os nomeamos.144 Para o que aqui nos importa, é essen-
do de "organismos": o caos das organizações de poder se cial que ele impute aos "físicos" má "filologia". A "legalidade
alterando permanentemente. da natureza" não seria "um estado de fato, um texto", porém
"interpretação". Ele contrapõe a ela sua própria interpretação:

A vontade de poder como interpretação e poderia vir alguém que, com a intenção e a
arte de interpretação opostas, soubesse, na
Expusemos a interpretação da efetividade por mesma natureza e tendo em vista os mesmos
Nietzsche. Ora, há várias dessas interpretações. A filosofia de fenómenos, decifrar precisamente a imposi-
Nietzsche apenas aumenta o número delas, como já nos per- ção tiranicamente irreverente e inexorável de
reivindicações de potência — um intérprete
guntamos no início deste trabalho? Não queremos perguntar
que vos colocasse diante dos olhos a falta de
aqui por um privilégio que poderia ser admitido para ela a
exceção e incondicionalidade que há em toda
partir de um outro pensamento. Importa a autocompreensão
"vontade de potência", em tal medida que
141. Não deve ser dito com isso que nas considerações de quase toda palavra, e mesmo a palavra "tira-
Nietzsche sobre a relação inorgânico-orgânico não se nia", se mostrasse, no fim das contas, inutili-
mostrariam contradições. Se o orgânico é, uma vez, zável, ou já como metáfora enfraquecedora e
"derivado" do inorgânico, diz-se, entretanto, num ou- atenuante — por demasiado humana; e que,
tro manuscrito, que o orgânico, em sentido estrito, não
contudo, terminasse por afirmar desse mundo
teria surgido (Fragmento póstumo, GA XIII, 232; pri-
mavera de 1884, n8 25 [403]; KGW VII 2, 113). Tam- o mesmo que vós afirmais, ou seja, que tem
bém o "desenvolvimento" do inorgânico até o homem um decurso "necessário" e "calculável", mas
é concebido às vezes como elevação, às vezes como
descida. 143. Para além de Bem e Mal 22; KGW VI 2, 31.
142. V. p. 31 s. 102 s. 144. Cf. acima p. 109 s; e p. 108 s.
122 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 123

não porque nele reinam leis, mas porque ab- fia crítica de Kant."146 "O movimento infinito do ex-por parece
solutamente faltam as leis, e cada potência, chegar a uma espécie de completude na auto-apreensão des-
a cada instante, tira sua última consequência. se ex-por: na ex-posição das ex-posições."™7 "A ex-posição
de Nietzsche, que sabe que todo saber é ex-posição", recolhe-
Nietzsche ainda acrescenta, então, a essas conside- ria "esse saber em sua própria ex-posição por intermédio do
rações: "Posto que também isso seja somente interpretação pensamento de que a própria vontade de poder" seria "o im-
— e sereis bastante zelosos para fazer essa objeção? — ora, pulso onipresentemente atuante, infinitamente diverso, do ex-
tanto melhor! —" 145 por".
A possível objeção dos "físicos" não é apenas tolera-
da, ela é manifestamente admitida. Como a teoria mecanicista, A ex-posição de Nietzsche é, de fato, uma ex-
também a teoria da vontade de poder é "apenas" interpreta- posição do ex-por e, por isso, distinta, para
ção. Não se coloca, então, interpretação contra interpretação? ele, de todas as ex-posições anteriores, ingé-
Não se teria de dizer, então, que ambas estariam autorizadas nuas em comparação com ela, que não tinham
a sustentar a mesma pretensão de verdade? Nietzsche escre- a autoconsciência de seu ex-por.148
ve, no entanto, que se os físicos suscitassem aquela objeção,
isso seria "tanto melhor". Em que medida melhor, melhor para Em toda problemática da interpretação de Nietzsche
quemt por Jaspers, a cujo contexto pertencem essas considerações,149
A objeção faz arranjo com a interpretação de Nietzsche. isso, no entanto, é corretamente visto: todo saber é, para
Ela contém no "também... apenas" a concessão de que a tese Nietzsche, ex-posição, todo saber desse saber é ex-posição
da legalidade da natureza seria interpretação. Admitido isso, da ex-posição. Podemos dizer também, segundo o que foi por
contudo, encontramo-nos num nível onde há que se perguntar nós considerado: em sua variedade, as ex-posições são inter-
pelo interpretar enquanto tal. Quem diz que isso e aquilo é pretações de vontades de poder; que elas o são, isso é, do
interpretação tem de conceder espaço para a pergunta pelo mesmo modo, interpretação. Deverá ser discutido a seguir o
que é interpretação em geral. Interpretação se demonstra a si que isso afirma mais precisamente, e quais consequências
mesma como carente de interpretação. Ora, Nietzsche preten- resultam daí.
de ter interpretado adequadamente o interpretar. Jaspers en- Precisamos por diante dos olhos, em primeiro lugar, a
contra em Nietzsche "a teoria de todo ser-do-mundo (Welt-
sein) como um mero ser-ex-posto (Ausgelçgtsein), do saber do 146. K. Jaspers, Nietzsche, op. cit., p. 290.
147. Idem, p. 296.
mundo como uma respectiva ex-posição (Auslégung)", teoria
148. Id. 299.
que teria sido obtida "a partir de uma transformação da filoso- 149. Naturalmente, não se pode aqui ingressar nessa pro-
blemática. Para a compreensão, por Jaspers, da ex-
145. Ibid. [o trecho citado foi extraído de: Fr. Nietzsche: posição de Nietzsche, haveria que se recorrer espe-
Obra incompleta, trad. Rubens Rodrigues Torres Filho, cialmente às suas considerações sobre a problemática
São Paulo, Abril Cultural, V ed. 1974, p. 280, OGJ.f de 'verdade e vida' (Nietzsche, op. cit., p. 184s.).
124 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 125

extensão do conceito de interpretação de Nietzsche. Todas as sucumbir à sedução da gramática, e separar o que se pertence
vontades de poder ex-põem, interpretam. Assim, por exemplo, inseparavelmente. Desse modo, diz-se num outro apontamen-
também as percepções perspectivas do anorgânico são inter- to: "Não se deve perguntar: 'quem, pois, interpreta'?" A per-
pretações. E não apenas todas as percepções, todo conheci- gunta é errónea, pois "o próprio interpretar" tem "existência"
mento e todo "saber" são ex-posições, mas também todos os (Dasein);152 é "ficção" "colocar ainda o intérprete por detrás
feitos e formações, sim, todos os acontecimentos.150 Assim, da interpretação."153 "O" interpretar não tem "existência (Da-
por exemplo, trata-se de "uma interpretação...na formação de sein) como um 'ser1", no sentido de permanência, porém "co-
um órgão." "A vontade de poder interpreta", isso significa res- mo um processo, um v/r-a-ser."154 Se, no final da seção ante-
pectivamente:
rior, caracterizamos o perceber das vontades de poder como
relação de acontecimentos entre si, que se fixam mutuamente,
Ela limita, determina graus, diferenças de po-
pode-se dizer, então, sob o aspecto aqui destacado, que von-
der. Meras diferenças de poder não poderiam
tades de poder se contrapõem como interpretações continua-
ainda sentir-se enquanto tais: algo que quer
mente mutantes. Torna-se claro, depois disso, que, contra o
crescer tem de estar aí, que interpreta todo
positivismo, Nietzsche pode trazer a campo: "não há fatos,
outro algo que quer crescer segundo seu va-
apenas interpretações."155
lor... Em verdade, a própria interpretação é
Ao levar em conta que toda interpretação é perspecti-
um meio para se tornar senhor sobre algo.
va, seguimos adiante na, entrementes já familiar, marcha de
Nietzsche acrescenta: "o processo orgânico pressu- pensamento de Nietzsche. Ele que, com prazer, faz uso da
põe permanente interpretar."151 relação filológica texto-interpretação (AusIegungY55 para o es-
O modo de expressão escolhido aqui por Nietzsche se clarecimento de relações fundamentais da efetividade, escre-
aproxima de um mal-entendido. Poder-se-ia opinar que a von- ve: o mesmo texto permitiria inumeráveis interpretações.157 Se
tade de poder (entendida como uma vontade de poder, ou mal- pensamos na infinita divisibilidade dos perceptivos guanfa de
interpretada como a vontade de poder, no sentido de um ens
152. Id. 556; GA XVI, 61. Outono de 1885-outono 1886, nr.
metaphysicum) seria um sujeito, do qual o interpretar pudesse
2 [151]; KGW VIII 1, 138.
ser predicado (sujeito OGJ.) que, por sua vez, formaria o pres- 153. Id. 481; GA XVI, 12. Final de 1886-primavera 1887, nr.
suposto anterior para processos. Não estamos autorizados a 7 [60]; KGW VIII 1,323.
154. Id. 556; GA XVI, 61. Outono de 1885-outono 1886, na
150. Comparar GA XIII, 64; outono de 1885-primavera 1886, 2 [151]; KGW VIII 1, 138.
nr. 1 [115]; KGW VII11, 34: "O caráter/nferpre/af/Vode 155. Id. 481; GA XVI, 11. Final de 1886-primavera 1887, nr.
todo acontecer. Não há qualquer acontecimento em si. 7 [60]; KGW VIII, 1,323.
O que acontece é um grupo de aparências, seleciona- 156. A respeito da "parábola filosófica da interpretação",
das e resumidas por um ser interpretante." comparar Jaspers: Nietzsche, op. cit. 292 s.
151. Fragmento póstumo de VP. 643; GA XVI, 117 s. Outo- 157. Fragmento póstumo, GA XIII, 69. Outono de 1885 —
no de 1885-outono 1886, nr. 2 [148]; KG W Vllí 1, p. 137 s. primavera 1886, n 8 1 [120]; KGW VII11, 35.
126 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 127

poder,158 então não podemos ficar surpresos ao lermos na uma explicação (Deutung) serve à intensificação do poder,
Gaia Ciência: "O mundo se tornou para nós ... de novo 'infini- então ela é, no mencionado sentido, mais verdadeira do que
to': na medida em que não podemos recusar a possibilidade de aquelas que simplesmente conservam a vida, tornam-na su-
que ele encerra em si infinitas interpretações.'n59 portável, a refinam, ou separam o doente e o conduzem ao
A perspectividade de toda interpretação torna-se um fenecimento."164 Primeiramente, queremos trazer sob esse cri-
problema que, por fim, ricocheteia sobre o próprio filosofar de tério a explicação mecanicista do mundo, que Nietzsche, com
Nietzsche, quando pensamos que entre as inumeráveis inter- efeito, sempre de novo apreende como o essencial adversário
pretações de um texto, não há "nenhuma interpretação contemporâneo de sua própria filosofia. 165
'correia'."160 Não temos qualquer direito de admitir um "conhe- Em que sentido o modo mecanicista de pensar é ape-
cer absoluto": "o caráter perspectivo, enganoso, pertence à nas uma "filosofia de fachada",166 já deixamos que o próprio
existência."161 Então, toda explicação (Deutung) do mundo é Nietzsche nos exibisse.167 Mais importante ainda é que ela é
também uma interpretação perspectivamente enganosa, a me- falsa. Ela esquematiza, encurta, escolhe "designações" em
canicista não menos que aquela que compreende todo aconte- função de tornar universalmente compreensível. Ela finge uni-
cer do mundo como o caos de vontades de poder cooperantes dades constantes, leis. Ela imagina o mundo com vistas à cal-
e combatentes. Em consequência disso, "o" mundo, concebi- culabilidade. A "comum linguagem de sinais... para fins de mais
do como soma de forças, seria uma interpretação perspectiva fácil calculabilidade" serve à dominação da natureza.m Apoie-
do mundo, ao lado de inúmeras outras. Em face da fundamen- mo-nos aqui. Se, por meio da perspectiva mecanicista, torna-se
tal relatividade de todo explicar-o-mundo, o que poderia ser efetiva uma tal dominação, que, além disso, ainda cresce perma-
aduzido em favor da "verdade" da interpretação de Nietzsche? nentemente, então ela pode ser "falsa", com efeito, na medida
Nietzsche, porém, nos deu ele próprio um critério pa- em que não lhe chega à vista o acontecer em seus "transcursos
ra aquilo que ele entende por verdade. Ele assenta na intensi- efetivos". Porém, no sentido do critério de verdade de Nietzsche,
ficação do poder (Machtsteigerung).™2 Sob esse critério fica não é ela "mais verdadeira" do que todas as anteriores explica-
colocada a "infinita interpretabilidade (Ausdeutbarkeit) do mun- ções do mundo, uma vez que ela intensificou e intensifica o poder
do". Nele deve fazer prova de si163 "toda interpretação (Aus-
164. Id. GA XVI, 31. Agosto-setembro de 1885, n2 40 [12];
deutung) como um sintoma de crescimento ou de declínio." Se
KGW VII 3, 365.
165. "Das ex-posições domundotentadas até aqui, a meca-
158. V. supra p. 16 s. nicista parece se colocar hoje triunfalmente em primei-
159. A Gaia Ciência, livro V, 374; KG W V 2, 309. ro plano." (Fragmento póstumo de VP. 618; GA XVI,
160. Fragmento póstumo, GA XIII, 69. Outono de 1885-pri- 103; junho-julho de 1885, nr. 36 (34]; KGW VII3,224).
mavera 1886, n 8 1 [120]; KGW VIII 1, 35. 166. Fragmento póstumo, GA XIII, 82. Abril-junho de 1885,
161. Id. XIV, 40. Abril-junho de 1885, ne 34 [120]; KGW VII
ns 34 [247]; KGW VI l 3, 224.
3, 180.
167. A esse respeito, e também a respeito do que vem a
162. V. p. 89.
seguir, v. p. 108 s. *
163. Fragmento póstumo de VP. 600; GA XVI, 95. Outono
168. Fragmento póstumo, GA XIII, 83 s. Verão-outono de
de1885-outono1886, n8 2 [117; KGW VIII 1, 118.
1884, n2 26 [227]; KGW VII2, 207.
128 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 129

do homem como nenhuma outra antes? A partir daí podemos, Contrariamente a isso, não parece estar assegurado
então, entender que Nietzsche, ocasionalmente, se expresse que a concepção segundo a qual o mundo estaria dado so-
com reconhecimento sobre essa explicação do mundo. Ela vale, mente numa infinidade de interpretações perspectivas das von-
para ele, "não como a mais comprovada consideração do mundo, tades de poder seria profícua para o querer-poder — sem con-
mas como aquela que torna necessário o maior rigor e disciplina, siderar a questão a ser discutida a seguir: como, então, uma
e que põe de lado toda sentimentalidade." Nietzsche lhe atribui tal concepção sobre o exclusivo perspectivismo pode ser pos-
até uma função seletiva, com palavras que nos lembram o "efei- sível. Se a explicação mecanicista é falsa, no seatido de des-
to" que deve suscitar sua doutrina do eterno retorno:169 a repre- coberta do efetivo acontecer, e verdadeira no sentido da pró-
sentação mecanicista seria "ao mesmo tempo, uma prova de pria compreensão de verdade por Nietzscfoe, então poderia ser
crescimento físico e anímico: raças malogradas, fracas de von- que a explicação do mundo como njiilBpJrcrdade de vontades
tade, perecem nela."170 de poder é, com efeito, "verdadeira"*.^ sentido que teve de
A interpretação mecanicista do mundo pode ser tam- ser recusado à figuração mecanicista do mundo, ao mesmo
bém "uma das mais estúpidas"; sim pode-se com ela até cele- tempo, porém, errónea no sentido do critério de verdade como
brar o "princípio da maior estupidez possível",171 isso contudo intensificação de poder. Não fica próximo o pensamento de
não depõe contra sua "verdade" intensificadora de poder. Ne- que a compreensão (Einsicht) da relatividade de nossas inter-
la pode-se tratar também de uma perspectiva de superfícies, pretações paralisa nosso anseio de poder, enquanto que no
entretanto permanece "maravilhoso que, para nossas necessi- não saber da relatividade nosso querer-poder se deixa desdo-
dades (máquinas, pontes etc.), as hipóteses mecanicistas são brar desinibido e, por isso, bem-sucedido? O próprio Nietzsche
suficientes." E pode-se tratar aí de "necessidades muito gros- aponta, com suficiente frequência, para a necessidade de ig-
seiras" e "os pequenos erros...não entram em consideração:"172 norância, ou até de auto-engano, tanto para a manutenção
se com essa interpretação somos dominadores da natureza^ como para o aumento de poder daquela organização que é o
então tem de permanecer irrelevante, por certo, se a ex-posp homem. Pertence à nossa "unidade subjetiva" — na qual te-
cão é estúpida, grosseira ou errónea. mos de pensar em "governantes à testa de uma comunidade"
— "certa ignorância em que o governante deve ser mantido a
169. Comparar: fragmento póstumo da primavera-outono de
1881,11 [338]; KG W V 2, 471: "A história futura: esse
respeito das disposições singulares e até das perturbações da
pensamento triunfará sempre mais — e os nele não comunidade": como condição para o governo organizador. De-
crentes, segundo sua própria natureza, têm finalmente vemos conquistar uma apreciação elevada "também para o
que pereceu" não-saber, o ver grosseiramente, o simplificar, o perspectivo."
170. Fragmento póstumo, GA XIII, 82. Abril-junho de 1885,
Vale especialmente para nosso espírito que "interpretar-se fal-
n8 34 [76]; KGW VII 3, 163.
samente poderia ser útil e importante para sua atividade."173
171. A Gaia Ciência, livro V, 373; KGW V 2, 308. — Frag-
mento póstumo VP. 618; GA XVI, 103. Junho-julho de O "psicólogo do futuro" tem que observar que "o grande egoís-
1885, n9 36 [34]; KGW VII 3, p. 288 s.
172. Fragmento póstumo da primavera-outono de 1881, 11 173. Fragmento póstumo de VP. 492; GA XVI, 17 s. Agosto-
[234]; KGW V 2, p. 429. setembro de 1885, n9 40 [21]; KGW VII 3, p. 370 s.
130 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE

mo de nossa vontade dominante" exige de nós "que, diante de


f A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 131

perda no sentimento e consciência do próprio poderio e, com


nós mesmos, fechemos gentilmente os olhos."174 Há que se isso, nesse próprio poderio.
mostrar, então, como, entretanto, para Nietzsche — medindo Em contraposição a isso, "a nova ex-posição" de
segundo o parâmetro de sua própria compreensão de verdade —, Nietzsche quer dar "aos futuros filósofos, como senhores da
afinal se inverte a valoração da teoria mecanicista e da teoria terra, a necessária desenvoltura."178 Ora, exatamente o pers-
do querer-poder. Naquela, as leis da natureza são, com efeito, pectivismo radical parecia levar ao acanhamento aquele que
propriamente os senhores, nós temos de nos compreender quer (das Wollende). Sua respectiva ex-posição é relativa; con-
como aqueles que estão submetidos a elas. "Que algo aconte- seqúentemente, como aquele que sabe disso, ele parece ape-
ce sempre desse e daquele modo é aqui interpretado como se nas ainda poder pensar desencorajadamente e agir com con-
um ser, em consequência da obediência a uma lei ou a um vicção enfraquecida. Todavia, esse só é o caso, assim Nietzsche
legislador, agisse sempre desse e daquele modo: enquanto procura mostrar, se não pensamos a perspectividade em suas
ele, abstração feita da 'lei', teria liberdade para agir de outro últimas consequências, e não a tomamos a nosso cargo. Re-
modo. Mas exatamente aquele assim e não de outro modo sumamos o curso de seu pensamento: Todas as interpreta-
poderia provir do próprio ser, que se comportaria desse e da- ções são perspectivas; não há qualquer parâmetro de medida
quele modo não primeiramente com vistas a uma lei, porém no qual se pudesse provar qual é a "mais correta" e qual a
como constituído desse e daquele modo."175 "É mitologia pen- "menos correta"; o único critério para a verdade de uma ex-
sar que forças obedecem a uma lei, de maneira que, em con- posição da efetividade consiste se e em que medida ela está
sequência dessa obediência, nós temos toda vez o mesmo
em condições de se impor contra outras ex-posições. Cada ex-
fenómeno."176 Nietzsche, que fareja "moral de escravos" por
posição tem tanto direito quanto tem poder. A compreensão da
detrás de todas as manifestações da história ocidental — e perspectividade de todas as interpretações, a que conduz a
não apenas dela —, a encontra finalmente também por detrás
"doutrina da vontade de poder" de Nietzsche, pode, por isso,
das explicações mecanicistas do mundo: "Precavenho-me de propiciar aos que são fortes em poder a "boa consciência"
falar de leis químicas: isso tem um paladar moral." Por toda
para a incondicional imposição de seus "ideais". Ora, outros
parte, em verdade, o mais forte se torna senhor sobre o mais
"ideais" de outras vontades de poder, pertencentes a outras
fraco, não há aí nenhum "respeito por 'leis'."177 Quem, porém,
perspectivas, se contrapõem ao querer deles. Não lhes são
se concebe como obedecendo a leis necessárias, esse sofre
prescritos valores que os vinculem. Pois uma tal vinculação
pressuporia, decerto, uma autoridade fixadora, transcendente
174. Fragmento póstumo da primavera de 1888, 14 [27];
KGWVIII3, 23; (VP. 426).
ou imanente ao mundo. No entanto, só a vontade de poder
175. Fragmento póstumo de VP. 632; GA XVI, 110. Outono subjugadora tem, a cada vez, autoridade. Desse modo, tam-
de 1885-outono 1886, n6 2 [142]; KGW VIII 1, 135. bém os fortes têm finalmente de romper com a crença de que
176. Id. 629; GA XVI, 108. Final de 1886-primavera 1887, estariam submetidos a leis naturais, ao subsumi-la ao critério
ns 7 [14]; KGW VIII 1,307.
177. Id. 630; GA XVI, 108 s. Junho-Julho de 1885, n°- 36
178. Fragmento póstumo, GA XIV, 31. Agosto-setembro de
[18]; KGW VII 3, 283.
1885, nr. 40 [12]; KGW VII 3, 365.
A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 133

de verdade da intensificação de poder. Consideremos isso a Se a filosofia da vontade de poder de Nietzsche pre-
partir de um pensamento fundamental de Nietzsche: "O deus tende declarar a verdade sobre a efetividade, ela não incorre
moral" está morto.179 Mas sua "sombra" ainda perdura. Há em contradição com o critério de verdade surgido dessa filoso-
que se "vencê-la" ainda.180 Também a explicação mecanicista fia. Vista a partir dele, ela é até mesmo a única ex-plicação
do mundo permanece ainda nessa "sombra". O "paladar mo- consequente do mundo. Nós nos movemos em círculo. Tal
ral", insito às suas leis naturais, o denuncia. circularidade pertence a todo compreender. Nietzsche sabe
A interpretação instituidora de novos valores, por par- disso inteiramente, seu pensamento é dirigido por esse saber.
te de futuros poderosos, só pode ser, do mesmo modo, pers- "Por fim, o homem não encontra nas coisas nada mais que
pectiva. Por causa de sua coesão, ela não toma conhecimento aquilo que ele próprio nelas introduziu: — o reencontrar se
de muita coisa. O não-saber recebe uma significação constitu- denomina ciência, o introduzir — arte, religião, amor, orgulho.
tiva para o interpretar, ele tem de se tornar até um mo-querer- Ainda mesmo que isso devesse ser um jogo de crianças, deve-
saber. Também o esquecerá essencial para o ex-por dos po- ríamos prosseguir em ambos, e ter boa vontade para ambos —
derosos — como para toda ex-posição. O próprio saber da uns para o reencontrar, outros — nós outros! — para o
perspectividade não deve, porém, ser "esquecido".181 Esse introduzir."182 O que foi dito por último não significa, natural-
saber libera, decerto, para a ilimitada subjugação. mente, que uns só reencontram o que os outros apenas intro-
Se os futuros filósofos devem se tornar os senhores do duziram. Introduzir e reencontrar pertencem à respectiva uni-
mundo, então sua interpretação tem de ter também a necessá- dade de ex-posição. No entanto, Nietzsche acentua o ocultar
ria "amplitude de conteúdo" para isso. Ela tem de explicar a como o decisivo. O que é exigido por ele é um ocultar ao criar
efetividade em sua totalidade, assim como em suas particulari- novos valores. O reencontrar não é apenas um tornar-se aten-
zações, para não permanecer aquém das explicações globais to para o ocultado, porém, além disso, o descobrir do ocultado
já dadas e, por isso, submeter-se a elas. Ela tem de desmasca-
em todo ex-posto, o alargar-se do ocultar sobre a compreen-
rar as outras explicações do mundo como interpretações, que
são de todo efetivo. Ora, a filosofia de Nietzsche, que quer
só podem se mal-entender a si mesmas, porque elas ou não se
encorajar futuros filósofos para instituições de novos valores,
compreendem, absolutamente, como interpretações, ou pelo
não desdobra ela própria, na interpretação perspectiva, ape-
menos não entrevêem a essência do interpretar. Isso não exclui
nas aquilo que ela originariamente "introduziu"? No que ele
que ela possa se servir úe uma outra interpretação como de um
escreve, não se expressa apenas sua perspectiva particular?
instrumento, na medida em que esta é útil para a intensificação
Não ricocheteia sobre sua própria explicação a por ele afirma-
do poder, como é o caso da mecânica, com vistas à dominação
da relatividade de todas as explicações?
da natureza. Com isso, ela não concebe aquela ex-plicação
Na sequência procuramos esclarecer a circularidade
como verdadeira no sentido de sua própria pretensão de validade.
do pensamento de Nietzsche. Como em toda compreensão, o
179. Fragmento póstumo VP. 55; GA XV, 183. Verão de
que importa é "penetrar da maneira correia" no círculo, para
1886-outono 1887, ns 5 [7]; KGW VIII 1, 217.
180. A Gaia Ciência 108; KGW V 2, 145. 182. Fragmento póstumo VP. 606; GA XVI, 97. Outono de
181. Cf. a esse respeito, do autor: Nietzsche, op. cit., p. 118 s. 1885-outono 1886, n5 2 [174]; KGW VIII 1. 152.
134 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 135

empregar uma expressão de Heidegger.183 Já expusemos que ticularidade e a radicalidade da interpretação de Nietzsche nos
Nietzsche pode fundamentar a pretensão de sua filosofia a ser permanecem ocultas. Se nós nos movimentamos nele, então
a verdadeira explicação do mundo com o critério de verdade elas podem se fazer visíveis. Há que se destacar que Nietzsche
brotado dessa própria filosofia. Segundo esse critério uma ex- não apenas compreende toda ex-posição do mundo como es-
plicação tem de se impor contra as outras explicações do mun- sencialmente constituída pela vontade de poder, mas ele pen-
do. Só nisso podem, decerto, mostrar-se sua fortaleza e seu sa também as consequências que surgem da auto-compreen-
poder. Se perguntamos mais precisamente pelo que significam são de sua filosofia como ex-posição. Sua filosofia da vontade
fortaleza e poder de uma explicação, então penetramos mais de poder não pode, pois, ter um caráter meramente contempla-
profundamente no círculo. Eles não se deixam perceber sim- tivo. Ela própria é expressão do querer-poder. Nela se quer
plesmente no "sucesso", por exemplo, na história até aqui. que os futuros criadores de valores se compreendam como
Com efeito, o milenarmente perdurante domínio da compreen- vontades de poder. "Vós mesmos sois esta vontade de poder
são do mundo moralmente determinada não é, para Nietzsche, — e nada além disso" — recorda ele ao homem. Isso é um
expressão de sua fortaleza, mas signo de fraqueza. O querer- apelo. Ele afirma:
poder não está, precisamente aqui, liberado como verdadeiro
querer-poder. Precisamos tomar por base a própria interpreta- compreendei finalmente o que em verdade sois!
ção por Nietzsche de fortaleza no sentido de irreservado po- Deus está morto, combatei também então sua
der-subjugar, se queremos acompanhar a pretensão de sua sombra! As tábuas de valores que até aqui
filosofia de que ela seria mais verdadeira, porque mais forte, elevastes sobre vós não têm nenhuma valida-
do que outras explicações do mundo. E novamente se mostra de! Não vos deixeis mais determinar por es-
o círculo, quando Nietzsche, admite um "período pré-moral da ses valores, determinai vós mesmos os valo-
humanidade", que deve compreender o tempo pré-histórico, res! Transvalorai os valores antigos, a partir
que só então é seguido pelo período moral. Encontramos aqui de vossa autocompreensão como querer-po-
uma construção da "história" do homem que, deve fundamen- der, criai novos valores.
tar a necessidade de futura fortaleza numa era pós-moral, a
partir do retorno àquilo que inicialmente deve ter sido. Essa Também a Nietzsche o que importa é não apenas
fortaleza seria, então, verdadeira fortaleza. "interpretar" o mundo, mas transformá-lo. Ele compreendeu,
Jaspers escreve que, em Nietzsche, pensa-se "num com efeito, que todo transformar é interpretar e todo interpre-
círculo que parece se suprimir, e no entanto de novo impele tar transformar. Na verdade, também o período moral é carac-
para diante."184 O círculo não pode ser suprimido. Se nós olha- terizado pela sequência de sempre novas interpretações do
mos para ele apenas como uma estrutura formal, então a par- mundo. Mas a transformação fundamental ainda falta. Sobre
sua necessidade, não há apenas que refletir, há que se exortar
183. M. Heidegger, Ser e Tempo, l- ed. Túbingen, 1957, para ela. A partir da compreensão do efetivo como vontade de
p. 153. poder, Nietzsche se torna Anunciador. Em Assim falou Zara-
184. K. Jaspers, Nietzsche, op. cit., p. 294. tustra sua filosofia não escorrega para a "poesia". Zaratustra é
136 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE
A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 137

o porta-voz de seu anúncio. Uma vez que seu chamado ecoa si mesmo sob suas formas perspectivas e so-
sem ter sido ouvido, Nietzsche se vê relançado na tarefa de mente nelas. Não podemos ver em redor de
pôr diante dos olhos dos homens, em sua nadidade, as sempre nosso próprio ângulo: é uma curiosidade de-
ainda dominantes ex-posições morais do mundo. Já que tam- sesperada querer saber que outras espécies
bém para isso ele encontra apenas poucos ouvidos, as argu- de intelecto e perspectiva ainda poderia ha-
mentações que ele introduz em seus derradeiros anos de cria- ver: por exemplo, se algum ser poderia viven-
ção tornam-se sempre mais grosseiras, a auto-apresentação, ciar o tempo para trás, ou alternadamente pa-
sempre mais exagerada, os tons que ele emite, sempre mais ra diante e para trás (com o que seria dada
estridentes. Com tudo isso ele exige: "escutai-me, afinal"! uma outra direção da vida e um outro conceito
Não estamos autorizados, porém, a considerar a filo- de causa e efeito).™5
sofia de Nietzsche unicamente sob o aspecto de anúncio e
apelo, tão essencial quanto ele seja para a compreensão de A argumentação de Nietzsche é, em si mesma, con-
seus escritos, particularmente a partir do Zaratustra. No des- vincente. "Nós" somos seres perspectivamente interpretantes;
dobramento de sua interpretação, ele se vê necessitado a acom- se todos os outros seres também interpretam, nosso intelecto
panhar os pressupostos de pensamento que são imanentes a não pode, em verdade, sondá-lo. Com a hipótese de outros
ela. Somente na reflexão sobre eles pode sua filosofia satisfa- seres perspectivantes, nada fica ainda resolvido acerca do
zer sua pretensão de fundamental explicação da efetividade caráter particular de suas perspectivas. Nós podemos ver so-
em seu todo. Comecemos com a pergunta: Em que medida mente sob nossa perspectiva; mesmo quando queremos por
pode Nietzsche sustentar a pretensão de que sua interpreta- em perspectiva (perspizieren) nosso Perspectivar (Perspizie-
ção da interpretante efetividade apreende esse seu caráter de ren), permanecemos sob nossa perspectiva. Ora, no texto ci-
interpretação? tado, fala-se, com efeito, de autoprova do intelecto; cuja im-
Com isso, retorna o tema do caráter perspectivo de possibilidade é frequentemente exposta por Nietzsche.186 Mas,
todo interpretar. No quinto livro de A Gaia ciência considerava
Nietzsche a esse respeito: 185. A Gaia Ciência (Livro 5) 374; KGW V2, 308.S.
186. V. já fragmento póstumo do outono de 1880, n2 6 [130);
Quão longe alcança o caráter perspectivo do KGW V 1, 559: "O intelecto é a ferramenta de nossos
impulsos, ele jamais se torna livre. Ele se aguça na
existente ou até se há ainda algum outro ca-
luta dos diferentes impulsos e, por meio disso, refina a
ráter, ...se, por outro lado, todo existente não atividade de todos os impulsos particulares." Mais tar-
é essencialmente um existente interpretante de, em relação à possibilidade de auto-conhecimento
(auslegendesj — isso não pode, como é justo, do intelecto, escreve Nietzsche: "É quase cómico que
ser resolvido nem mesmo pela aplicada e pe- nossos filósofos exijam que a filosofia tenha que co-
nosamente escrupulosa análise e autoprova meçar com uma crítica da faculdade de conhecimento:
não é muito improvável que um órgão do conhecimen-
do intelecto: uma vez que, nessa análise, o
to possa 'criticar-se' a si mesmo?" "Uma ferramenta
intelecto humano não pode deixar de se ver a não pode criticar sua própria aptidão: o próprio intelec-
138 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 139

de que modo deveria valer apenas para o intelecto que ele não novo, uma vez que abertura e manter-em-aberto eram seu
pode ver em redor do próprio ângulo? Todo ex-por é, entretan- assunto?
to, perspectivo, até quando não limitado ao intelecto. São jus- A partir dos pressupostos elaborados nesta investiga-
tificadas, pois, as cautelas críticas que Nietzsche introduz pa- ção, oferece-se para isso, com efeito, uma resposta. Se a
ra nosso conhecimento de "outra existência (von "anderem própria filosofia de Nietzsche é querer-poder, que quer fortale-
Dasein")"- De novo, isso significa, certamente, que — à luz da cer os futuros fortes para a tomada do poder, então todas as
auto-reflexão crítica do interpretar — as considerações de ex-posições particulares, como também a ex-posição da efeti-
Nietzsche sobre a contraposição das vontades de poder pers- vidade como um todo, têm de ser postas a serviço dessa tare-
pectivamente interpretantes como efetividade pura e simples fa. Se é posto diante dos olhos dos homens que há, por toda
do mundo se demonstram como mera construção. Não teria parte no mundo, lutas de poder e quanta de vontade, nos quais
predomina o mais forte, e nada além disso, então os homens
Nietzsche ainda completado essa auto-reflexão, tê-la-ia de no-
fortes — em face da ausência de exceção para a "lei" de que
vo esquecido depois de perfazê-la, quando fala do perceber
todo poder em todo instante extrai sua consequência — têm de
perspectivo no "âmbito" orgânico e inorgânico? Isso não pode,
perder suas derradeiras "inibições", oriundas de seu estar-
decerto, ser tomado seriamente em consideração. Tem Jas-
enraizado na tradição, têm de exercer sem reserva seu poder
pers razão quando considera que Nietzsche teria feito "tudo
na instituição de novos valores. Com efeito, sob o exame au-
ao alcance de suas forças para a abertura e manutenção em
tocrítico dessa interpretação, a explicação "do" mundo como
aberto do possível", encerrando "de novo, ao final, por meio
"vontade de poder" figuraria, então, apenas uma ficção. A
de absolutização" da vontade de poder? A "metafísica da von- partir do critério de verdade de Nietzsche, ela seria, no entan-
tade de poder" levada a efeito "em todas os fenómenos" seria to, verdade. Contra essa compreensão da explicação do mun-
"também da espécie da anterior metafísica dogmática?"™7 do por Nietzsche deixa-se, com efeito, imediatamente objetar
Jaspers mal-entende Nietzsche, quando lhe imputa um tal dog- que Nietzsche, que, com a doutrina do retorno, exige o máxi-
matismo. Mas, nela mesma, sua argumentação permanece in- mo dos fortes, exigiria muito pouco deles com a doutrina da
satisfatória. O que poderia ter motivado Nietzsche a encerrar vontade de poder. Por que não lhes deve poder ser exigido
entrever a ficção como ficção! Tendo o próprio Nietzsche, to-
to não pode determinar suas fronteiras, também não davia, chamado a atenção para a "limitação" perspectiva de
seu ser-bem-sucedido ou malogrado." — "Um aparato
todo interpretar, isso seria tanto mais incompreensível. Se os
de conhecimento que quer conhecer a si mesmo!! De-
veríamos estar além desse absurdo de tarefa. (O estô-
futuros poderosos — exatamente por causa do poder — de-
mago que se consome a si mesmo)" (Fragmento pós- vem ser ao mesmo tempo os mais sábios,188 então não pode
tumo; GA XIV, 3; Outono de 1885-primavera 1886, na
1 [60]; KGW VIII 1, 22. Outono de 1885-outono 1886, 188. A respeito da problemática em que incorre Nietzsche
n8 2 [132] KGW VIII 1, 131. Verão-outono de 1884, n8 quando procura pensar o futuro grande homem, inclu-
26 [18]; KGW VII 2, 152). sive o além-do-homem (Obermenschen) como síntese
187. K. Jaspers, Nietzsche, op. cit., p. 309 s.; comparar, por de fortaleza e sabedoria, v. do autor: Nietzsche, op.
exemplo, 330. cit., p. 117-34.
140 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE
A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 141

permanecer oculto a eles precisamente o caráter fictício da


precisamente seres de nossa espécie possam conservar-se na
explicação do todo da efetividade. Em face da remissão ao
existência); por outro lado, ao mesmo tempo, com uma capa-
correspondente dogmatismo de sua interpretação da inteira cidade de compreender exatamente esse ver perspectivo co-
efetividade, proveniente de seus próprios pressupostos, eles mo perspectivo, a aparência como aparência. Isso quer dizer:
teriam, por certo, que se 'sentir' como os menos sábios, por- equipado com uma crença na "realidade", como se ela fosse
tanto como os mais fracos.
a única, e novamente também com a compreensão interna
Escapamos do dilema no qual nos encontramos se — (Einsicht) dessa crença, isto é, que ela seria apenas uma limi-
ainda nos movimentando no círculo — nós indagamos da inter- tação perspectiva em face de uma verdadeira realidade. Po-
pretação de Nietzsche quais possibilidades do interpretar ela rém uma crença examinada com essa compreensão interna
admite para o homem, e pelo que ela vê determinadas essas não é mais crença, foi dissolvida como crença. Em resumo:
possibilidades. Como se mostrará, essa pergunta foi apenas não estamos autorizados a pensar nosso intelecto dessa ma-
aparentemente respondida quando nos reportamos ao aforis- neira plena de contradição, que ele é uma crença e, ao mesmo
ma 374 de A Gaia ciência. Já as considerações que seguem à tempo, um saber dessa crença como crença.." Na conclusão
passagem citada tomam a sério a possibilidade de que o mun- dessa consideração, Nietzsche exige a supressão dos concei-
do encerre em si infinitas interpretações. E o sobretítulo do tos "coisa em si" e "aparência". Sua oposição seria tão "inú-
aforismo reza: "Nosso novo 'infinito'". Decerto podemos ex- til" quanto aquela "mais antiga de 'matéria e espírito'".
trair daí, a despeito de todas as objeções críticas, que peso Da inútil oposição: coisa em si-aparência, nasce uma
conserva para Nietzsche o pensamento de que haveria tam- maneira de pensar que introduz uma contradição em nosso
bém existente não-humano, que ex-põe. Porém, por meio dis- intelecto. A contradição torna clara a insustentabilidade da cons-
so, as objeções críticas ainda não estão removidas. Um passo trução daquela oposição. Porém, Nietzsche não emprega aqui
adiante nos leva um apontamento póstumo, proveniente dos "excepcionalmente uma vez a contradição como último critério
anos 1885-1886.189 Nietzsche se volta aí contra a "modéstia de verdade para suas afirmações", como considera Jaspers
do ceticismo filosófico ou... da resignação religiosa", que, a no contexto de sua interpretação do citado manuscrito.190 O
respeito da essência das coisas, diria que ela lhes seria des- "princípio de contradição" é para Nietzsche uma grosseira e
conhecida ou parcialmente desconhecida. Na verdade, isso falsificadora "acomodação" que vela o efetivo caráter antago-
seria (modéstia, na medida em que pretende dispor de um nístico da existência.191 Como contradições intoleráveis têm
saber a respeito da legitimidade da "diferenciação entre uma de valer, porém, para ele, aquelas que conduzem à supressão
'essência das coisas' e um mundo da aparência". "Para poder de seu próprio critério de verdade. Fáctico exercício do poder
fazer uma tal diferenciação, ter-se-ia de pensar nosso intelec- não pode ser tanto possível quanto impossível.192 Também
to como acometido de um caráter contraditório: uma vez insta-
lado sobre o ver perspectivo (como é necessário, para que 190. K. Jaspers, Nietzsche, op. cit., p. 329.
191. V. do autor: Nietzsche, op. cit., p. 13 s.
192. No início de suas considerações críticas, designa Kõster
189. Fragmento póstumo; GA XIII, 48 s. Verão de 1886-pri-
como "característica geral" de meu livro sobre Nietzsche
mavera 1887, n9 6 [23]; KGW VIII 1, p. 246 s.
que eu me coloque "decididamente sobre o solo da
142 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 143

nosso intelecto está a serviço do exercício do poder, ele é, que somos "nós", criaram para si. Se, como ferramenta des-
como ouvimos, um órgão que as muitas vontades de poder, sas vontades de poder, ele deve constituir "a crença na realida-

ciência racional, familiarizada com os argumentos da do" por Nietzsche "como 'impensável'". Como se não
lógica" (A Problemática, op. cit., p. 34). Minha inter- houvesse um pensamento, que se atestasse a si mes-
pretação não poderia ser mais fundamentalmente mal- mo, que deixa racionalidade atrás de si; como se não
entendida. Essa inadequada pré-compreensão impreg- houvesse — por exemplo — a 'Ciência da Lógica' de
na todas as objeções que Kõster apresenta na sequên- Hegel, que impugna a pretensão de direito da lógica
cia. Isso é tanto mais incompreensível, quanto inicio formal. Sob esse aspecto, é grotesco ver minha inter-
minha apresentação de Nietzsche com a destruição, pretação "numa clara oposição à relação de Heideg-
por este, da oposição lógica, para, por detrás dela, ger com Nietzsche" (op. cit., p. 34). Como se, do mes-
indicar os efetivos antagonismos das vontades de po- mo modo, não importasse a Heidegger, sempre de no-
der. Kóster julga que eu não apreendo a crítica da vo, expor a compatibilidade das declarações de
lógica por Nietzsche como suficientemente radical (op. Nietzsche. Tomemos apenas a pergunta pelo relacio-
cit., p. 41), "que, em decorrência disso, a 'supressão' namento entre as doutrinas de Nietzsche da vontade
por Nietzsche do princípio de contradição permanece, de poder e do eterno retorno, como elas se colocam
de modo característico, sem enérgica consequência para Heidegger. Numa crítica à interpretação de
no curso da investigação" (op. cit., p. 41). Uma vez Nietzsche por Baeumler, escreve ele: "Mas, suposto
que eu, entretanto, no curso de minha investigação, que exista uma contradição entre as duas doutrinas...:
pressuponho as consequências da crítica da lógica por sabemos desde Hegel que uma contradição não é ne-
Nietzsche, coloca-se a questão; como é que Kóster cessariamente (sic!) uma demonstração contra a ver-
chega a me manter aportado naquela lógica que eu, dade de uma proposição metafísica, mas uma demons-
com Nietzsche, deixo para trás? Onde se trata, para tração a favor. Se, portanto, eterno retorno e vontade
mim, da pergunta pela possibilidade ou impossibilida- de poder se contradizem, então essa contradição é
de de uma atestação da síntese de antagonismos em talvez exatamente a exigência de pensar (sic!) esse
Nietzsche, Kóster acha que "todos os indícios" apon- gravíssimo pensamento, ao invés de buscar fuga no
tam para que eu espere de Nietzsche, "com isso, uma 'religioso'. Mas mesmo admitido que jazeria aqui uma
demonstração racional-argumentativa" (op. cit., p. 57). insuprimível contradição, e que a contradição cons-
Tenho que dizer que eu não sou tão tolo? Se constato trangeria à decisão: ou vontade de poder ou eterno
antagonismos no pensamento de Nietzsche, então afer- retorno, por que Baeumler se decide contra o gravíssi-
rar-me-ia, segundo Kõster, simplesmente em sua "in- mo pensamento de Nietzsche e o ápice da considera-
compatibilidade lógica" (op. cit., p. 37). Também a pre- ção (Gipfel der Betrachtung), a favor da vontade de
caução com que escolho minhas palavras (plausibili- poder"? (Nietzsche, op. cit., l, 30 s.). Heidegger coloca
dade, compatibilidade, atestação filosófica) não moti- Nietzsche ilimitadamente sob a exigência do pensar;
vou Kõster a colocar em questão sua objeção de racio- mesmo contradições fundamentais não constituem, pa-
nalismo. Tem-se que ter a impressão que ele igualiza ra ele, nenhuma exigência de buscar fuga no 'impen-
entre: demonstrativo-de-contradição = racional = lógi- sável'; ele admite a possibilidade de que possa haver
co = científico, e a essa equação, que ele toma sob o insuprimível contradição em Nietzsche, que poderia
signo 'pensabilídade', só vê contraposto aquilo "queri- constranger à decisão. Diferentemente de Baeumler,
144 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 145

de", então, como uma tal ferramenta, ele não pode estar ao tempo determinado a negar essa crença, ao concebê-la como
mesmo tempo determinado a negar essa crença, ao concebê-la ficção perspectiva. Isso significa que, também no caso aqui
discutido, evitar a contraditoriedade no sentido lógico-formal
não vê Heidegger, como é sabido, nenhuma contradi-
não constitui o critério de verdade — tão pouco quanto já a
ção insuprimível entre as duas doutrinas de Nietzsche:
consideração de Nietzsche de que uma ferramenta não pode-
ele procura, pelo contrário, destacar — evidentemente
à sua maneira —, sua compatibilidade, sim sua "uni- ria se encontrar acima de sua própria aptidão como ferramenta
dade interna" (op. cit., l, 14). pode ser vista como "argumento lógico" —, porém a fáctica
Kôster pretende, no entanto, ter reconhecido impossibilidade de não poderem ser subordinadas ao mesmo
que eu (em oposição a Heidegger) imputo a Nietzsche órgão do querer-poder funções que mutuamente se suprimam.
critérios racionais de medida, quando pergunto pela
A pergunta: como pode, então, ocorrer que o intelecto
compatibilidade de suas declarações fundamentais. Pa-
aprendesse a se mal-entender a si mesmo no sentido caracte-
ra Kôster, a radicalidade da impugnação, por Nietzsche,
do princípio de contradição consiste em que Nietzsche rizado, deixar-se-ia responder, a partir de Nietzsche, somente
só deve ainda poder se expressar em contradições? O no ampliado contexto de uma genealogia da autocompreensão
que acima aduzi contra Jaspers vale, como princípio, humana. Há que se renunciar aqui a uma tal exposição. A
para o pensamento de Nietzsche: se Nietzsche, no problemática, de que Nietzsche, em relação ao intelecto como
contexto da exposição de sua própria posição, não
a um órgão determinado, consegue se tornar senhor, a partir
pode autorizar nenhuma contradição, ele não se sub-
mete, com isso, ao critério de verdade da lógica. A de seus pressupostos, retorna mais uma vez a nós do ponto
pretensão à 'concordância' de seu pensamento é de de vista do interpretar. Certamente podemos dizer, segundo o
uma espécie mais fundamental, ela não é atingida por que foi considerado anteriormente, que a auto-compreensão
exigências formais de 'concordância lógica'. Somente de uma interpretação como interpretação não tem de estar
em relação a essa exigência, questiono, em meu livro,
disposta contra o querer-poder, mas pode e deve exatamente
o pensamento de Nietzsche.
liberar o interpretar. Como um todo, o interpretar não está,
De acordo estamos, manifestamente, Kôster
e eu, sobre a incompatibilidade interna de pensamen- como o intelecto, limitado a determinadas funções. Ainda as
tos fundamentais de Nietzsche. A suposição de Kôster sim, não se pode recusar as questões: como é possível que o
de que eu poderia ser de opinião de que Nietzsche interpretar perspectivo em geral pode se compreender a si
"não teria visto" a incompatibilidade (A Problemática,
op. cit., p. 58) é absurda: a mim importa, com efeito, que o próprio Nietzsche coloca para seu pensamento
exatamente mostrar como Nietzsche luta por compati- com uma intensidade digna de atenção. Segundo pen-
bilidade. Quando considero que a síntese de fortaleza so, quando se destaca o incompatível em sua plena
e sabedoria no além-do-homem só pode ainda ser man- incompatibilidade, faz-se mais justiça a essa intensi-
tida em aberto por Nietzsche como o que é objeto de dade, do que quando se conduz o movimento de seu
crença, então, com o 'só ainda', não salto para fora da pensamento ao repouso no impensável. Exatamente
crítica imanente, como opina Kôster (Op. cit., p. 58 s; esse último seria 'fechar os olhos aos perigos' (op. cit.,
nota 50); com tal 'limitação', não o meço segundo uma p. 60) que, com a filosofia de Nietzsche, vieram a nos-
'exigência científica', porém falo a partir da exigência so encontro.
146 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 147

mesmo como um tal interpretar? Que direito pode Nietzsche rado", está em luta com o mais recente. O homem carrega em
fazer valer para sua pretensão de que sua interpretação da si o múltiplo que ele interpreta. E ele não poderia tê-lo acolhido
efetividade como antagonismo de interpretações perspectivas em si, não poderia ser o interpretante que ele é, se o próprio
seja mais do que uma perspectiva meramente humana, seja acolhido não fosse da essência do interpretar. A partir do men-
mais do que até apenas a perspectiva particular do filósofo cionado pressuposto, Nietzsche pode ainda dar um passo adian-
Nietzsche? te: uma vez que o homem subsiste, "está provado com isso
Se queremos tentar responder essas perguntas a par- que um género de interpretação (ainda que sempre ampliada
tir da própria interpretação de Nietzsche, temos de partir então [fortgebaut]) também subsistiu, que não mudou o sistema da
de que, para ele, o homem "não é somente um individuum, interpretação."196
porém a totalidade do orgânico continuando a viver numa de- Com isso temos em mãos a chave para a resposta às
terminada linha".193 A partir desse pressuposto torna-se-nos duas questões colocadas. Nietzsche pode interpretar o múlti-
completamente claro por que a "análise e autoprova do inte-
lecto" não está em condições nem de descobrir algo sobre a
KGW V 2, 423). O condicionante não permanece como
correção de nosso conhecer, nem também algo suficiente so-
causa fora de nós, nós somos aquilo que nos condicio-
bre o próprio intelecto: nela nem sequer o homem, mas apenas na. Vale, por outro lado: "Dizes que alimentação, lo-
uma de suas "ferramentas" é subtraída ao fluxo do vir-a-ser, cal, ar, sociedade te alteram e determinam? Ora, tuas
tomada por si, isolada e considerada por si mesma em sua opiniões fazem-no ainda mais, pois elas te determi-
aptidão. Em contraposição a isso, Nietzsche quer "re-traduzir nam a essa alimentação, local, ar, sociedade." Frag-
mento póstumo da primavera-outono de 1881, n- 11
o homem... na natureza", permanecer "surdo às armadilhas
[43]; KGW V 2, 394.
dos velhos passarinheiros metafísicos, que por um tempo de-
196. Fragmento póstumo VP. 678; GA XVI, 143; final de
masiado longo lhe sussurraram: 'tu és mais! tu és mais eleva- 1886-primavera 1887, n9 7 [2]; KGW VII11, 259. — Em
do'! tu és de outra proveniência' ",194 A proveniência do ho- Nietzsche, pensamento transcendental e naturalístico
mem encontra-se na natureza, e "mais" ele não é num sentido não apenas ingressaram numa simbiose, eles se inter-

qualitativo, porém sim num sentido quantitativo. A totalídade- penetram, se fundem inteiramente um no outro. Toda
ênfase no naturalismo de Nietzsche carece de corre-
do-orgânico continua a viver nele. E na medida em que todo
ção por meio de uma indicação de que roc/oente inter-
orgânico é uma síntese de forças inorgânicas, "vive" nele tam- preta, é interpretação. E vale, inversamente, que toda
bém o inorgânico.195 O mais antigo, a ele "firmemente incorpo- interpretação é 'natural'. É insuficiente e conduz a mal-
entendidos quando, como J. Habermas (v. seu Posfá-
193. Fragmento Póstumo VP. 678; GA XVI, 143. Final de cio a Fr. Nietzsche: Escritos de teoria do conhecimen-
1886-primavera 1887, n8 7 [2]; KGW VIII 1, 259. to, Frankfurt/M. 1968), na discussão da revisão por
194. Para além de Bem e Mal, 230; KGW VI 2,175. Nietzsche do 'conceito de transcendental', nos dete-
195. "O inorgânico nos condiciona inteiramente: água, ar, mos na doutrina perspectiva dos afetos humanos. Es-
solo, figura do solo, eletricidade etc. Nós somos plan- sa perspectividade tem que ser entendida, por sua vez,
tas sob tais condições" reza um apontamento (Frag- a partir da multiplicidade das perspectivas 'naturais',
mento póstumo da primavera-outono de 1881,11 [210]; que ingressaram no ser-homem. Uma tal explicação
148 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE
A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 149

pio efetivo, o ente natural, como múltiplo interpretar porque o


até aqui são avaliações perspectivas, graças
próprio homem é um ser interpretante, e só pode sê-lo porque às quais nós nos conservamos na vida, isto
aquilo que nele conflui, como ente inorgânico e orgânico, já, é, na vontade de poder, de crescimento do
ele próprio, interpreta. Como síntese e multiplicidade de inter- poder, que cada elevação do homem traz con-
pretações, pode o homem perceber seu interpretar perspecti- sigo a superação de interpretações mais es-
vo, na medida em que "o ponto de gravidade se desloca aos treitas, que todo alcançado fortalecimento e
saltos" e muda a perspectiva a partir de cada novo ponto. Ele alargamento de poder abre novas perspecti-
tem o saber desse mover-se aos saltos, porque ele, como todo vas e faz crer em novos horizontes — isso
orgânico, reúne experiências, dispõe de memória.197 A possi- percorre meus escritos.™8
bilidade de interpretar o interpretar surge, assim, da mudança
das interpretações. Nem é necessário para isso uma faculdade Partindo dessa auto-apresentação de Nietzsche, limi-
particular, nem se abandona com isso a perspectividade do tamo-nos ao destaque de dois pontos de vista: A. Aumento de
interpretar. poder significa obtenção de novas perspectivas (porque ulte-
Nietzsche resumiu uma vez: riores quanta de poder foram incorporados), e com isso alar-
gamento das interpretações. Isso, mais uma vez, caracteriza a
que o valor do mundo jaz em nossa interpre- elevação do homem. Inversamente, vale: "a pluralidade
tação (que talvez em algum lugar são ainda (Mehrheit) da explicação (:) Sinal da força".199 A inversão só
possíveis outras interpretações que as mera- vale então, com efeito, se as muitas explicações se deixam
mente humanas), que as interpretações de organizar em unidade e não efetivam a desagregação, como
Nietzsche evidencia, particularmente para "a modernidade".200
possibilita a Nietzsche fazer declarações sobre o cará- B. A interpretação das interpretações de Nietzsche não se
ter de interpretação também do ente inorgânico e or- compreende como filosofia absoluta. Em verdade, impõe-se
gânico, e ao mesmo tempo escapar da possível censu- em seu pensamento a convicção de que tudo o que é seria
ra de que sua filosofia da vontade de poder seria natu-
interpretação. Mas ele não exclui que haja ainda outras inter-
ralismo dogmático. Pontos de partida para uma crítica
a Nietzsche são dados também no patamar de com- pretações que não estão incluídas no ser-homem. O homem é,
preensão obtido com isso. Mas ele tem, primeiro, que decerto, "apenas" a totalidade-do-orgânico continuando a vi-
ser uma vez alcançado, se uma crítica objetivamente ver "em uma determinada linha".201 Mantém aberta com isso a
fundamentada (sachgegrúndete Kritik) da 'teoria do co- possibilidade de que futuros homens, "além-do-homem"
nhecimento' de Nietzsche deve sertentada.
197. "Talvez nada seja mais terrível e ominoso em toda 198. Fragmento póstumo, VP. 616; GA XVI, 100. Outono de
pré-história do homem do que sua mnemotécnica", es- 1885-outono 1886, n5 2 [108]; KGW VIII 1, 112.
creve Nietzsche em Para a Genealogia da Moral (GM. 199. Id. 660; GA XVI, 95. Outono de 1885-outono 1886, n?
II, 3; KQW VI 2, 311). Partindo da pergunta pela possi- 2 [117]; KGW VIII 1, 118.
bilidade do poder-prometer, ele dá aí indicações sobre 200. V. do autor: Nietzsche, op. cit., p, 35 s.
sua genealogia da memória.
201. V. supra, nota 193.
150 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE 151

(Úbermenschen), por meio de incorporação de interpretações estado muito mais abrangente; que justamente ele chega e
para nós ainda inacessíveis, poderiam, em comparação com nenhum outro, que ele chega justamente com essa maior ou
os viventes de hoje, ampliar ainda sua compreensão da efeti- menor clareza, por vezes seguro e imperioso, por vezes fraco
vidade. "Numa espécie superior de seres, o conhecimento terá e carente de um apoio... exprime-se em sinais, em tudo isso,
também novas formas, que agora não são ainda necessárias."202 alguma coisa de nosso estado global."204 Naquilo que aqui
A interpretação de Nietzsche inclui em si mesma a possibilida- escreve o "psicólogo" Nietzsche como auto-observador — ele
de, sim, a necessidade de seu próprio alargamento e modifica- que, aliás, tão decidamente recusa a auto-observação, ou pelo
ção como um seu aspecto essencial. menos adverte contra ela — , deixa-se fazer claro o caráter de
Depois de nos termos movido, de modo variado, no acontecimento das interpretações. Como interpretação, o ho-
círculo da interpretação de Nietzsche, ingressemos mais uma mem é certamente vontade de poder. Mas essa vontade de
vez, em conclusão, na pergunta pelo quem de sua interpreta- poder é a permanentemente mutante organização de vontades
ção. Já ouvimos que esta não é uma questão autorizada, na de poder, que são em si mesmas vontades de poder organiza-
medida em que não haveria, em primeiro lugar, um algo que, das. Quanto mais "abrangentes" se tornam as organizações
então, interpretasse. O próprio interpretar tem existência. É de poder, tanto mais independentes são as forças organizado-
erróneo, portanto, compreender o perspectivismo de Nietzsche ras das organizadas. Entretanto, são finalmente suas mutan-
como subjetivismo." Tudo é subjetivo', dfzeis vós: mas já isso tes constelações de poder que decidem sobre o regime de
é ex-posição" escreve Nietzsche e recusa tal discurso.203 Num governo. O homem é uma tão complexa organização de poder,
apontamento mais longo do ano 1885 se diz: "O pensamento... que ele não pode mais experimentar aquilo que, "no fundo", o
impele. Ele é interpretação, mas ele é interpretado. Ele é von-
emerge em mim — de onde? por meio de quê? não o sei. Ele
tade de poder, mas — como "vontade do homem" — vontade
vem, independentemente de minha vontade costumeiramente .
de poder impotente em relação a sua autoconstituição.205 Inte-
envolto e ensombrecido por uma multidão de sentimentos, de-
sejos, aversões, também de outros pensamentos... Nós o ex-
204. Fragmento póstumo; GA X-l V, 40 s. Junho-julho de 1885,
traímos de tal multidão, o limpamos, colocamo-lo sobre seus ne38[1];KGWVII3,-p.323s.
pés... quem faz isso tudo — não o sei, e sou aqui seguramente 205. V. a propósito já Aurora, 120:" 'Não sei, em absoluto,
mais espectador do que causa desse processo... Que em todo o que faço! Não sei, em absoluto, o que devo /azert' —
pensar parece tomar parte uma multiplicidade de pessoas — : Tens razão, mas não duvides de que serás fe/fo! A
cada instante! Em todos os tempos, a humanidade con-
isso não é, de maneira alguma, fácil de observar, somos fun-
fundiu o ativo e o passivo, isso é seu eterno entalhe
damentalmente mais fortes no inverso, ou seja: ao pensar, não
gramatical." "O próprio combate me é oculto, do mes-
pensar no pensar. A origem do pensamento permanece oculta; mo modo que a vitória, como vitória; pois bem que
é grande a probabilidade de que ele é apenas o sintoma de um tomo conhecimento do que, finalmente, faço, — mas,
com isso, não tomo conhecimento de qual motivo triun-
202. Id. 615; GA XVI, 100. Verão-outono de 1884, ns 26 fou propriamente" (Aurora, 129; KGW V 1, 113, 117;
[236]; KGW VII 2, 208. comparar Aurora, 124, KGW V 1, p. 114. V. também
203. Id. 481; GA XVI, 12. Final de 1886-primavera 1887, n5 Fragmento póstumo da primavera-outono de 1881, n9
7 [60]; KGW VIII 1,323. 11 [131], KGW V 2, p. 387.
152 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE

ligir isso significa afirmar ilimitadamente o que foi inteligido


como o finalmente verdadeiro. "Amor fati" é a última palavra
da filosofia da vontade de poder. Mas também essa palavra só
lhe pode ser "adjudicada" a partir de sua própria abissalidade.206
Nada seria mais erróneo, mais inadequado à interpre-
tação de Nietzsche, do que, por fim, deixar-se pôr em evidên-
cia a vontade de poder, semelhantemente a um deus ex ma-
china, senão como o sujeito metafísico, no entanto como o
acontecimento fundamental. Há, decerto, para Nietzsche com-
plexos de acontecimentos, mas não há o acontecimento funda-
mental. Não há o um, há apenas mutiplicidades se reunindo,
se separando. O filosofar de Nietzsche exclui, como uma per- Scarlett Marton é mestre em filosofia pela Sorbonne
gunta relevante para o acontecer efetivo, a pergunta pelo fun- e doutora pelo departamento de Filosofia da Universidade de
damento do entei no sentido da metafísica tradicional. São Paulo, onde é professora de filosofia moderna e contem-
porânea.
Escreveu Nietzsche. A transvaloração dos valores (Mo-
derna, 48 ed., 1996), publicado pela Moderna, Nietzsche, das
forças cósmicas aos valores humanos (Brasiliense, 1990) e
Nietzsche, uma filosofia a marteladas (Brasiliense, 5- ed., 1991)
e organizou Nietzsche hoje? (Brasiliense, 1985). Publicou ain-
da artigos em livros e revistas especializadas, sendo os mais
significativos: "Pascal: a busca do ponto fixo e a prática da
anatomia moral" (In: Finitude e transcendência, Vozes/Editora
da PUC-RS, 1996); "Por uma filosofia dionisíaca" (In: Krite-
rion, n9 89,1994); "Nietzsche e Hegel, leitores de Heráclito ou
a propósito de uma fala de Zaratustra: Da superação de si (In:
Dialética e liberdade, Vozes/Editora da URGS, 1993); "O eter-
no retorno do mesmo: tese cosmológica ou imperativo ético?"
(In: Ética, Companhia das Letras, 1992); "Nietzsche: cons-
206. O "fatalismo" de Nietzsche não entra em conflito com ciência e inconsciente" (In: O inconsciente — várias leituras,
sua autocompreensão como aquele que tem que ape-
Escuta, 1991), "Nietzsche e a Revolução Francesa" (In: Dis-
lar aos homens para acolher sobre si a verdade da
doutrina da vontade de poder. "Apelo" e "anúncio" curso, n 9 18,1991) e "Foucault leitor de Nietzsche" (In: Recor-
são, por sua vez, necessitados (ernôtigt), como o seria dar Foucault, Brasiliense, 1985).
também a aceitação do apelo pelos futuros grandes
homens.
Oswaldo Giacoia Júnior é mestre em filosofia pela
PUC-SP com a dissertação "Discurso Filosófico e Discursos
Científicos: Convergência e Dispersão", sob a orientação do
professor-doutor Bento Prado Júnior. Defendeu seu doutorado
em filosofia na Freie Universitàt Berlin, na Alemanha, sob a
orientação do professor-doutor Reinhart Maurer. É professor
de filosofia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da
Universidade Estadual de Campinas — UNICAMP.
Entre outras publicações, escreveu: "Das Problem der
Anomie in Lateinamerika", in Volker Luehr (org.): Materiallen
fúr Forschung, Sonderdruck vom Lateinamerika (Institui der
Freien Universitàt Berlin, 1987). "O Grande Experimento: so-
bre a Oposição entre Eticidade e Autonomia em Nietzsche", in
Trans/Form/Ação Revista de Filosofia, 12, São Paulo, Edu-
nesp, 1989, p. 97-132. "Filosofia da Cultura e Escrita da His-
tória", in O que nos faz pensar — Revista de Filosofia da
PUC-RJ, 1990, p. 24-50. "F. Nietzsche: Fragmentos Póstu-
mos" (trad.), in Trans/Form/Ação Revista de Filosofia, 13, São
Paulo, Edunesp, 1990, p. 139-145. "Nietzsche—Filósofo da
Cultura", in Salma Tannus Muchail (org.): Um passado revisi-
tado: 80 anos de filosofia da PUC-SP, São Paulo, Educ, 1992,
p. 93-104. "Ética e Uso de Animais em Experimentação", in
Ciência Hoje, Revista da SBPC, outubro de 1992. "A Fatalida-
de da Violência e a Fecundidade do Pensar", in Perspectivas,
156 A DOUTRINA DA VONTADE DE PODER EM NIETZSCHE

Revista do Departamento de Sociologia da UNESP, São Pau-


lo, Edunesp, 1992, p. 107-17. "O Anticristo e o Romance Rus-
so", in Cadernos Primeira Versão, 55, Campinas, IFCH/UNI-
CAMP, 1994, p. 1-30. "Nietzsche e a Modernidade segundo
Habermas", in Ideias, 2, Campinas, IFCH/UNICAMP, 1994, p.
5-37. "A Crise da Cultura como Escalada do Nihilismo", in
Benedito Nunes (org.) A crise do pensamento, Belém, UFPA,
1994, p. 1-35. "Crítica da Moral como Política em Nietzsche",
in Cadernos do IEA/USP, São Paulo, 1996. "F. Nietzsche. Frag-
mentos Póstumos II", (trad.), in Textos didáticos, 26, Campi-
nas, IFCH/UNICAMP, 08/1996.