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Da Desvantagem da Superioridade Intelectual

por William Hazlitt

traduzido por: Leandro Diniz ||


fonte: http://www.blupete.com/Literature/Essays/Hazlitt/TableTalk/Superiority.htm

Vai-me perdoar o leitor pela tradução. Não que considere estar ruim, mas certamente ótima
não está. Hazlitt era um escritor dos mais redondos. Transitava entre as expressões cultas e
diárias tão facilmente quanto manejava as liberdades gramaticais da sua língua. Tais
elementos são deveras difíceis de resolver. Mas dada a pertinência do tratamento para o
estudo do nosso meio, que deixa o ambiente do próprio escritor um paraíso, tive de publicá-la,
a transcrição. Como noutras transliterações, as notas próprias do autor vão sem nenhuma
indicação, as que estão indicadas como [notas do editor] são do editor do livro, cuja edição não
faço a mínima noção. E, ainda, as notas assinaladas como [notas do trad.] são as que eu
mesmo pus contextualizando, no máximo que pude, as referências e citações. Sem mais, boas
leituras.

A principal desvantagem de saber mais, e enxergar mais além do que os outros, é geralmente
não ser entendido. Um homem está, em conseqüência disto, sujeito a originar paradoxos, que
imediatamente o transportam para além do alcance do leitor comum. Uma pessoa falando,
uma vez, de uma maneira trivial de um homem de mente muito original, recebeu como
resposta: "Ele caminha com passos tão largos, tão longe de você, que ele diminui à distância."

Petrarca reclamava que a "Natureza o fez diferente das outras pessoas" — singular d'altri
genti. A grande felicidade da vida é: nem estar melhor nem pior do que o rumo geral daqueles
com quem você se encontra. Se você está abaixo deles, você é atropelado; se está acima deles,
logo encontra um nível mortificante na diferença deles, sobre a qual você, particularmente, se
aborrece. Qual é a utilidade de ser moral em uma cela de prisão ou sábio em Bedlam1? "Ser
honesto, como anda este mundo, é ser um homem escolhido dentre dez mil outros." Assim diz
Shakespeare; e os comentadores não adicionaram que, sob tais circunstâncias, um homem é
mais provável tornar-se um fundo de calúnia do que o alvo de admiração, por assim ser. "Que
passa, meu caro colega?"2 é a resposta usual a todas estas pretensões excessivas. Ao não fazer
[em Roma] como faziam aqueles em Roma, nós cortamos nós mesmos da sociabilidade e da
sociedade. Falamos outra língua, temos noções de nós próprios e somos tratados como uma
espécie diferente. Nada pode ser mais complicado que adentrar com tais idéias rebuscadas no
rebanho comum, que certamente vai

"Permanecer de todo atônito, como um tipo de novilhos,


Entre quem alguma besta de raça estranha e estrangeira
Inconsciente é sucedida, vagueando longe de seus pares: Assim

1
[nota do trad.] Bedlam ou Bethlem Royal Hospital é um hospital um Londres que primeiramente foi
uma instituição especializada em doentes mentais, significado este aludido aqui pelo autor.
2
A saudação de Jake Cade para alguém que tentava louvar-se ao dizer que podia escrever e ler. -- ver
Henrique VI - segunda parte.
vão seus olhares medonhos trair seus medos ocultos."

"Stand all astonied, like a sort of steers,


'Mongst whom some beast of strange and foreign race
Unwares is chanced, far straying from his peers: So
will their ghastly gaze betray their hidden fears."

A ignorância do propósito do outro é uma causa suficiente de medo e medo produz ódio: por
isso a suspeita e o rancor lançados contra todos aqueles os quais estabelecem um refinamento
e sabedoria maiores, que seus vizinhos. É em vão pensar em amaciar este espírito de
hostilidade pela simplicidade nas maneiras ou pela condescendência às pessoas de menor
estatura. Quando mais condescendente, mais eles vão atrever-se em relação a isto; eles o
temerão menos, mas te odiarão mais; e estarão mais determinados a se vingar de você pela
superioridade, para a qual eles estão inteiramente na escuridão e da qual você mesmo parece
nutrir dúvidas consideráveis. Toda a humildade do mundo apenas passará por fraqueza e
idiotice. Eles não possuem a noção de tal coisa. Eles sempre querem dar uma boa impressão; e
argumentam que você faria o mesmo se tivesse quaisquer de tais talentos dos quais as pessoas
falam. Portanto, é melhor você jogar fora o grande homem de uma vez -- ser valentão,
arrogante, falar empostado e passar por cima deles: você pode, através disso, pretender
extorquir um respeito externo ou uma civilidade comum; mas você não terá nada (com as
pessoas baixas) pela paciência e boa natureza, somente o insulto declarado ou um desprezo
silencioso. Coleridge sempre fala com as pessoas sobre o que elas não entendem: eu, por
exemplo, procuro falar com elas sobre o que elas realmente entendem, e encontro somente a
mais má-vontade com isso. Elas julgam que eu não penso delas como capazes de nada melhor;
que eu não penso que vale à pena, como o vulgo diz, lançar uma palavra aos cães. Eu, certa
vez, reclamei disto com Coleridge, pensando nisto à duras penas, que eu devesse ser enviado a
um Convento por não fazer uma exibição prodigiosa. Ele disse: "Na medida em que você
assume um personagem, você deve produzir suas credenciais. É um ônus sobre a boa natureza
das pessoas admitir algum tipo de superioridade, mesmo quando existe a prova mais evidente
disto; mas é uma tarefa muito dura para a imaginação admiti-lo sem qualquer fundamento
aparente disso."

Não existe, então, um erro maior que supor que você evita inveja, malícia e a falta de caridade,
tão comuns no mundo, indo entre as pessoas sem pretensões. Não existem pessoas que não
tenham pretensões; ou menores suas pretensões, menos elas podem agüentar reconhecer as
suas sem algum tipo de apreço recebido. Quanto mais informações os indivíduos possuem, ou
quanto mais eles se aperfeiçoaram em dado assunto, tanto mais eles prontamente podem
conceber e admitir o mesmo tipo de superioridade, que sentem dos outros, a si mesmos. Mas
da ignorância e vulgaridade baixas, imbecis e do nível do esgoto, nenhuma idéia ou amor à
excelência pode surgir. Você pensa que está indo consideravelmente bem com eles; que você
está deixando de lado a secura do pedantismo e da pretensão e ganhando o caráter de um
tipo de simples, despretensioso e bom companheiro. Isto não funcionará. Durante todo o
tempo em que você está fazendo estes avanços familiares, e esperando estar à vontade, eles
estão tentando te passar pra trás. Você pode esquecer que você é um autor, um artista ou que
não é -- eles não esquecem que não são nada, nem diminui a ponta de desejo de provar que
você está na mesma situação. Eles lançam mão de alguma circunstância da sua roupa; sua
maneira de entrar numa sala é diferente da dos outros; você não come vegetais -- isto é
estranho; você possui uma expressão particular, que eles repetem e isto torna-se um tipo de
piada padrão; você parece grave, ou doente; você fala, ou é mais silencioso que o normal; você
está, ou não está, com dinheiro: todas essas pequenas e insignificantes circunstâncias, nas
quais você se assemelha, ou difere das outras pessoas, formam muitos dos pontos da acusação
contra você que está acontecendo na imaginação delas, e são muitas as contradições no seu
caráter. A qualquer outra pessoa eles passariam em branco, mas a uma pessoa da qual eles
ouviram tanto, não podem de todo evitar. Enquanto isso, aquelas coisas nas quais você pode
realmente ser excelente passam em branco, pois eles não podem julgá-las. Eles falam muito
bem de algum livro que você não gosta e, portanto, você não responde. Você recomenda a
eles irem ver alguma pintura, na qual eles não acham muito a admirar. Como você os
convencerá que está certo? Você pode fazê-los perceber que as falhas estão neles e não na
pintura, ao menos que você consiga dar-lhas seu conhecimento? Elas mal distinguem a
diferença entre um Correggio3 e uma sujeira qualquer. Isto lhe deixará mais próprio de um
entendimento? Quanto mais você sabe a diferença, mais profundamente você a sente, ou
mais intensamente você deseja transmiti-la, mais longe você se encontra encerrado à uma
distância incomensurável da possibilidade de conduzi-los a visões e sentimentos para os quais
eles não possuem nem mesmo os primeiros rudimentos. Você não pode fazê-los ver com seus
olhos e eles devem julgar por si mesmos.

A força intelectual não é igual a física. Você não tem poder no entendimento dos outros, a não
ser pela simpatia deles. Você saber, de fato, muito mais sobre um assunto, não te dá uma
superioridade, ou seja, um poder sobre eles, mas apenas torna mais impossível para você fazer
a mínima impressão neles. É, então, uma vantagem para você? Pode ser, enquanto está
relacionada a sua própria satisfação, mas isto coloca um fosso profundo entre você e a
sociedade. Isto coloca tropeços a cada curva do seu caminho. Tudo aquilo pelo que você tem o
maior orgulho e prazer está perdido aos olhos vulgares. Com o que eles ficam satisfeitos é
certa indiferença ou desgosto por você. Ver várias pessoas folhear um portfólio de gravuras de
diferentes mestres; que desafio isto é para a paciência, como dá nos nervos ouvi-las cair
encantadas com alguma banalidade de lugar comum e passar sobre alguma divina expressão
de fisionomia sem notar, ou com uma observação de que ela é muito peculiar? Quão inútil é,
em tais casos, se abalar ou argumentar ou protestar? Não é, tão bom também, estar sem todo
esse conhecimento hiper-crítico e fastidioso e ser agradado ou desagradado como for, ou lidar
com a primeira falha ou beleza que é apontada pelos outros? Eu ficaria grato em mudar minha
familiaridade com as pinturas e livros e, certamente, o que eu sei da humanidade, pela
ignorância comum delas.

Está registrado na vida de algum notável (de quem o nome eu me esqueci) que foi um
daqueles "que amava a hospitalidade e o respeito": e eu confesso pertencer à mesma classe
do gênero humano. A civilidade está comigo como uma jóia. Eu gosto de um pouco do elogio
confortável e do papo indolente e descuidado, eu odeio ser sempre sábio, ou buscando a
sabedoria. Eu tenho muito a ver com cabalas literárias, questões, críticos, atores, escrita de

3
[nota do trad.] Correggio é como era conhecido o pintor italiano Antônio Allegri (Correggio, c.1489 -
Idem, 5 de março de 1534). Foi um pintor da Renascença italiana, contemporâneo de Leonardo e Rafael,
com obras nos principais museus de todo o mundo.
ensaios, sem levá-los comigo para a diversão e para todas as companhias. Eu desejo, nesses
momentos, passar como uma companhia bem-humorada; e boa vontade é tudo que eu quero
em retorno para ser uma boa companhia. Eu não desejo estar sempre me colocando, e aos
outros, as questões do destino, do livre-arbítrio, presciência absoluta, etc. Eu devo afrouxar
algumas vezes. Devo ocasionalmente parecer inculto. O tipo de conversa que mais me
incomoda é aquele de como está o dia e se provavelmente amanhã vai chover ou terá um dia
limpo. Isto eu considero embora apreciando o otium cum dignitate, o ócio honrado, como o
fim e privilégio de uma vida de estudos. Eu me resignaria a este estado de fácil indiferença,
mas eu noto que não posso. Devo manter uma certa pretensão, que está muito longe do meu
desejo. Devo ficar na defensiva. Eu devo assumir o desafio continuamente, ou acho que estou
perdendo terreno. "Eu não sou nada, senão crítico." Enquanto eu estou pensando que horas
são ou como eu vim a citar inadvertidamente uma passagem bem conhecida, como se eu o
tivesse feito de propósito, os outros estão pensando se eu não sou verdadeiramente um
colega maçante como, algumas vezes, dizem que sou. Se uma chuva garoa tamborilando
contra as janelas, isto me trás à mente uma suave chuva de primavera, da qual eu escapei
vinte anos atrás, em um pequeno bar perto de Wem em Shropshire e enquanto eu olhada para
as plantas e arbustos, ante a porta, bebendo do orvalho úmido, sorvia um copo de cerveja
espumante e voltei para casa no crepúsculo da noite, mais claro para mim do que o sol do
meio dia como está agora! Devo suavizar este sentimento? Em vão. Eles me perguntam quais
são as novidades e me encaram se eu digo que não sei. Se uma nova atriz apareceu, por que
eu devo tê-la visto? Se um novo romance surgiu, por que eu devo tê-lo lido? Uma vez, eu
costumava ir sentar-me à mesa de cribbage4 com um amigo, depois devorava um frio bife de
lombo de vaca e fazia umas observações desinteressadas, de um jeito que me satisfazia, mas
isso não durou muito. Eu estabeleci uma pequena pretensão e, portanto, esse pouco que foi
estabelecido por mim foi tomado de mim. Como eu mesmo não disse nada sobre aquele
assunto, era continuamente jogado na minha cara que eu era um autor. Tendo-me nesta
desvantagem, meu amigo queria se aproveitar de uma falha ou duas no jogo, e ficava
insatisfeito se eu não o deixasse. Se eu o ganhava, seria estranho se ele não entendesse o jogo
melhor do que eu. Se eu mencionava meu jogo favorito de raquetes5, existia um silêncio geral,
como se este fosse meu ponto fraco. Se eu reclamava de estar doente, era perguntado por que
eu me deixei ficar. Se eu dizia que um ator tinha atuado bem em tal parte, a resposta era:
existe uma opinião diferente em um dos jornais. Se qualquer alusão era feita aos homens de
letras, existia um riso suprimido. Se eu contava uma estória engraçada, era difícil dizer se o riso
era por minha causa ou por causa da narrativa. A esposa me odiava pelo meu rosto feio; os
serventes porque eu não podia sempre dispô-los de tickets para o teatro e porque eles não
podiam dizer exatamente o que um autor exatamente significava. Se um parágrafo parece
diferente de tudo que já tinha escrito, eu achava que já estava pronto antes de mim e que eu
iria ser amplamente criticado. Eu me submetia a tudo isto até ficar cansado, depois desisti.

Uma das misérias das pretensões intelectuais é que nove décimos daqueles com quem você
travar contato não sabem se você é um impostor ou não. Eu temia que certas críticas
4
[nota do trad.] Uma espécie de jogo de cartas.
5
[nota do trad.] Raquetes (inglês: Rackets ou Racquets) é um esporte de raquete jogado basicamente
nos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido. Seu sistema de jogo e regras é semelhante a do squash,
sendo freqüentemente chamado de hard rackets para distinguir-se do esporte formalmente nomeado
squash rackets.
anônimas fossem parar nas mãos dos serventes dos locais que eu freqüentava ou que meu
chapeleiro ou meu sapateiro calhassem de lê-los, os quais possivelmente não podem dizer se
elas são bem ou mau fundamentadas. A ignorância do mundo deixa qualquer um à mercê da
sua malícia. Existem pessoas das quais você deseja uma boa opinião ou uma boa vontade,
deixando de lado qualquer pretensão literária; e é duro perder, por um mau relato (o qual
você não possui nenhum meio de retificar), o que você não pode ganhar por um bom. Depois
de uma diatribe no Quarterly6 (que é trazido por um cavalheiro que ocupa meu apartamento
antigo no primeiro andar)7 meu senhorio me trouxe sua conta (de algo pendente), e sobre a
minha oferta de dá-lo a maior parte em dinheiro e um cheque para o resto, balançou a cabeça,
e disse: que receava não poder aceitá-lo. Logo depois, a filha entra e, à minha cuidadosamente
menção das circunstâncias para ela, respondeu gravemente: "que, de fato, seu pai esteve
quase arruinado pelas contas." Esta é a pior situação de todas. É em vão para mim empenhar-
me em explicar que a publicação na qual eu sou caluniado é um mero mecanismo do governo -
- um órgão de uma facção política. Eles não sabem nada sobre isto. Sabem apenas que tais e
quais imputações foram lançadas; e quanto mais eu tento destruí-las, mais eles pensam que
existe alguma verdade nelas. Talvez as pessoas da casa eram Tories8 ferrenhos -- algum tipo
de agentes do governo. É para que eu esclareça a ignorância deles? Se eu disser que uma vez
escrevi uma coisa chamada "Prince Maurice´s Parrot", e "Essay on the Regal Character"9, o
primeiro no qual uma alusão é feita a um nobre marquês, e no último a uma grande
personalidade (assim pelo menos, me disseram, ela tinha sido considerada) e as quais o Sr.
Croker tem instruções peremptórias para retaliar; eles não podem conceber qual conexão
pode existir entre mim e tais distintas personalidades. Eu não agüento mais. Tal é a miséria
das pretensões além de sua situação imediata; e que não são ajudadas por quaisquer símbolos
externos, inteligíveis para toda a humanidade, de riqueza ou posição social!

A impertinência da admiração é dificilmente mais tolerável do que as demonstrações de


desprezo. Eu conheci uma pessoa, que eu nunca tinha visto antes, me perseguindo durante
toda a hora do jantar, perguntando quais artigos eu tinha escrito na Edinburg Review. Eu
estava, pelo menos, envergonhado de responder aos meus esplêndidos pecados daquela
maneira. Outros vão pegar algo que não é seu e dizer que eles estão certos de que mais
ninguém poderia tê-lo escrito. Pela primeira frase eles sempre podem dizer seu estilo. Agora,
eu odeio que meu estilo seja conhecido; como eu odeio toda idiossincrasia. Estes bajuladores
obsequiosos não poderiam prestar-me pior elogio. Então, existem aqueles que se esforçam
para ler tudo o que você escreve (o que é exagero); enquanto outros, mais provocadores,
regularmente emprestam suas obras aos amigos assim que as recebem. Eles sabem, bastante
bem, tuas noções sobre os diferentes assuntos, de ouvir você discursando sobre eles. Além do
mais, eles têm em mais alta conta o seu caráter pessoal, que têm sobre seus escritos. Você
explica as coisas melhor de uma maneira comum quando não está visando um efeito. Outros
lhe dizem das falhas, que ouviram dizer, foram encontradas no seu último livro e que
defendem seu estilo, em geral, da acusação de obscuridade. Um amigo, uma vez me contou,

6
[nota do trad.] O Quarterly Review foi um jornal literário e político cuja primeira edição foi publicada
em Março de 1809 pelo editor John Murray, de Londres, Inglaterra.
7
[nota do editor] end. Mr. Walker´s, 9, Southampton Buildings, Chacery Lane.
8
[nota do trad.] Tory é o nome do antigo partido de tendência conservadora do Reino Unido, que reunia
a aristocracia britânica.
9
[nota do editor] Ensaios Políticos, 1819, pp. 51, 335
de uma disputa que ele teve com um chegado, este negou que eu sabia soletrar as palavras
mais comuns. Estas são comunicações confidenciais confortáveis, às quais os autores, que
possuem seus amigos e seus desculpadores, estão sujeitos. Um cavalheiro me disse, que uma
moça objetou meu uso da palavra aprendedor10, como má gramática. Ele disse que achou uma
pena que eu não tivesse mais cuidado, mas que a moça talvez fosse preconceituosa, pois seu
marido tinha um cargo no governo. Eu procurei pela palavra e a encontrei em um lema de
Butler. Eu estava ressentido, e desejava que ele dissesse à tal crítica, que a falha não estava em
mim, mas em alguém que tinha muito mais sabedoria, mais aprendizado e lealdade do que eu
poderia pretender ter. Então, novamente, alguém vai escolher a coisa mais rasa que puder
encontrar, para enchê-la com panegíricos; e outras lhe dizem (como meio de deixá-lo ver quão
prestigiosa acham sua capacidade), que suas melhores passagens são falhas. Lamb tem uma
habilidade de saborear (ou como ele diria, paladear11) o insípido. Leigh Hunt tem um truque de
se afastar dos bocados saborosos que você põe em seu prato. Não existe o começar para
algumas pessoas. Faça o que fizer, elas podem fazer melhor; encontre o sucesso que for, a boa
opinião delas as mantém em melhor lugar, e correm ante o aplauso do mundo. Certa vez,
mostrei a uma pessoa desta inclinação presunçosa (com não pouco triunfo, eu confesso) uma
carta de um relato lisonjeiro que eu recebi de um celebrado Conde Stendhal, datada de Roma.
Ela recebeu isto com um sorriso de indiferença e disse que tinha recebido ele mesmo uma
carta de Roma no dia anterior, de seu amigo S------! Eu não pensei disto "pertinente ao
assunto". Godwin pretende que eu nunca escrevi nada que valesse um centavo, somente meu
"Answers to Vetus"12 e que eu falhei completamente quando tentei escrever um ensaio, ou
qualquer coisa que fosse mais curta.

O que alguém pode fazer em tais casos? Eu devo confessar uma fraqueza? O único contra-
argumento que eu conheço a estas recusas e mortificações é, algumas vezes, uma nota
acidental ou um sinal distintivo de um estranho. Eu sinto a força do digito mostrari [uma
pessoa para apontar] de Horácio -- eu gosto de ser apontado na rua ou ouvir as pessoas
perguntarem na quadra do Sr. Powell13, quem é o Sr. Hazlitt? Isto é para mim uma extensão
agradável da identidade pessoal de alguém. Seu nome, tão repetido, deixa um eco como uma
música aos ouvidos: atiça o sangue como o som de um trombeta. Isto mostra que as outras
pessoas estão curiosas para ver você: que elas pensam em você e sentem um interesse em
você sem que você saiba. Isto é uma almofada sobre a qual recostar-se; um forro para sua
pobre, estremecida, maltrapilha opinião sobre si mesmo. Você quer alguma coisa tão cordial
aos espíritos exaustos e alívio da monotonia das especulações abstratas. Você é algo; e, por
ocupar um lugar nos pensamentos dos outros, pensa menos desdenhosamente de si mesmo.
Você está mais capaz para encarar os desafios do preconceito e da injúria vulgar. É agradável,
desta maneira, ter sua opinião citada contra você e seus próprios ditos repetidos para você
como coisas boas. Estava uma vez falando ao poço com um homem inteligente e criticando a

10
[nota do trad.] No original learnerder.
11
[nota do trad.] O verbo usado em inglês é palating. Seria o verbo correspondente a paladar, como
este verbo não existe, vão-me escusar os leitores por improvisar.
12
[nota do editor] Contribuída ao Mourning Chronicle em 1813
13
[nota do editor] O campo de raquete na rua St. Martin.
performance do Sr. Knight de Filch14. "Ah!", ele disse, "o pequeno Simmons era o rapaz para
interpretar este personagem." Ele adicionou, "existia uma observação, das mais excelentes,
feita sobre sua atuação no 'Examiner' (penso que seja) -- Que ele pareceu como se tivesse uma
forca em um olho e uma bela garota no outro."15 Eu nada disse, mas estive de memorável bom
humor o resto da noite. Eu raramente estive em companhia onde o jogo de Fives16 fosse
mencionado, mas alguém perguntou, no curso da conversa. "Deus, alguém já viu uma
consideração sobre um tal de Cavanagh17, que apareceu algum tempo atrás na maioria dos
jornais? É sabido quem escreveu isso?" Estes são momentos tentadores. Eu triunfei sobre uma
pessoa, de quem o nome eu não mencionarei, na seguinte ocasião. Sucedia de eu estar
falando algo sobre Burke e estava expressando minha opinião dos seus talentos sem medir
meus termos, quando este cavalheiro me interrompeu dizendo que ele pensava, de sua parte,
que Burke tinha sido grandemente superestimado e, então, adicionou, em sua maneira
descuidada: "Deus, você leu uma caracterização dele no último número da ------------ ?"; "Eu a
escrevi!"18 -- Eu não pude resistir à antítese, mas estava, depois, envergonhado de minha
petulância momentânea. Contudo, ninguém que eu encontro jamais me poupa.

Algumas pessoas procuram e intrometem-se nas personalidades públicas, para, como parece
ser, buscar suas falhas e, mais tarde, denunciá-las. Aparências são para isto, mas a verdade e
um melhor conhecimento da natureza são contra esta interpretação do assunto. Sicofantas e
bajuladores são, não intencionalmente, traiçoeiros e inconstantes. Eles estão inclinados a
admirar desordenadamente a princípio e não encontrando um fornecedor constante de
comida para seu tipo de apetite doentio, eles tomam nojo do objeto de sua idolatria. Para
estarem quites com sua credulidade, eles afiam sua astúcia para espionar falhas e ficam
deleitados ao descobrir que as respostas são melhores que seu desejavam primeiramente. É
um caso de estudo, "animado, audível e cheio de ventilação". Eles possuem o órgão da
admiração e o órgão do medo em níveis proeminentes. O primeiro requer novos objetos de
admiração para satisfazer seus desejos inquietos; o segundo os fazem curvar-se ao poder
aonde quer que seu critério mutante aporte, voluntariosos de bajular todos os partidos e
prontos para trair qualquer um, com sua pura fraqueza e servilismo. Eu não acho que eles
signifiquem nenhum mal: pelo menos, eu posso olhar para esta dissimulação com indiferença,
em meu próprio caso particular. Eu tenho estado mais disposto a ressenti-lo quando eu o
tenho visto ser praticado sobre outros, onde tenho sido mais capaz de julgar a extensão do
prejuízo e a insensibilidade e a loucura idiota que isto revela.

14
[nota do trad.] Aqui ele se refere ao personagem da The Beggar's Opera (Ópera dos Mendigos ou
Ópera dos vagabundos) que é uma ópera de balada de 1728 dividida em um prólogo e três atos, com
letras de John Gay e músicas de Pupusch.
15
[nota do editor] "View of the English Stage", 1821, pp. 176-7. A passagem aparece na crítica do
escritor à Ópera dos Mendigos.
16
[nota do trad.] Fives é um esporte inglês que acredita-se deriva das mesmas origens que os outros
esportes de raquetes. Em Fives, uma bola é jogada contra as paredes de uma quadra especial, usando
mãos enluvadas ou limpas como se fossem raquetes.
17
[nota do trad.] Parece que aqui se fala de Patrick Cavanagh, que foi um mártir caólico irlandês
beatificado pelo Papa João Paulo II em 27 de setembro de 1992.
18
[nota do editor] O "O Caráter de Burke" foi escrito, em 1807 ("Eloquence of the British Senate", 1807,
ii, 206-17.) está reproduzida em "Winterslow, 1850" Ensaio xii.
Eu não acho que grandes realizações intelectuais são, de algum modo, recomendadas às
mulheres. Elas as confundem e são uma divergência à questão principal. Se scholars falam com
as damas do que eles entendem, suas ouvintes não são as mais sábias; se eles falam sobre
outras coisas, eles apenas provam-se idiotas. A conversa entre Angelica e Foresight em "Love
for Love"19 é uma receita completa para todo este nonsense esgotante: enquanto ele está
divagando sobre os signos do zodíaco, ela está na ponta dos pés na terra. Tem sido observado
que os poetas não escolhem suas amantes muito sabiamente. Creio que não é escolha, mas
necessidade. Se eles pudessem dar o lenço como o Grand Turk20, imagino que veríamos
escassas mortais, mas, ao invés, deusas, rodeando seus passos e cada uma exclamando, com a
própria criada jônia de Lord Byron:

"Então tu deverás encontrar-me sempre a teu lado,


Agora e de hoje em diante, se o último puder ser!"

"So shalt thou find me ever at thy side,


Here and hereafter, if the last may be!"

Ah! não, estes são evidentes, ganhos por homens de mortal, e não de etérea, forma e daí em
diante o poeta, em cuja mente as idéias de amor e beleza são inseparáveis, como os sonhos do
sono, vão sobre a esperança desamparada da paixão e vestem a primeira Dulcinéia que terá
compaixão dele, com todas as cores da fantasia. De que serve isto de reclamar, se a ilusão dura
por toda a vida e o arco-íris ainda pinta sua forma na nuvem?

Existe um erro que eu desejaria, se possível, reparar. Os homens de letras, artistas e outros,
não tendo êxito com as mulheres a uma certa posição na vida, pensam que a objeção é pelo
desejo delas de fortuna e que subsistirão melhores chances se descerem mais baixo, onde
apenas suas boas qualidades ou talentos serão apreciados. Oh! cada vez pior. A objeção é para
eles mesmos, não para sua fortuna -- à sua abstração, à sua ausência mental, às suas noções
ininteligíveis e românticas. Mulheres educadas podem ter um vislumbre do seu significado,
podem ter uma pista ao seu caráter, mas a todas as outras eles são densas trevas. Se a amante
sorri a seus avanços ideais, a criada rirá sem reservas; ela joga água em você, chama a irmã
para ouvir, envia seu namorado para perguntar a você o que quis dizer, jogará a vila ou a casa
contra você; será uma farsa, uma comédia, a brincadeira constante do ano e, então, o
assassino se revelará. Scholars deviam ser jurados em Highgate.21 Eles não são páreos para as
arrumadeiras e para as serventes das hospedarias. Eles têm melhores chances com herdeiras

19
Peça de William Congreve (Bardsey, 24 de Janeiro de 1670 - Londres, 19 de janeiro de 1729), poeta e
dramaturgo neoclássico inglês.
20
O Grand Turk era o nome dado no Ocidente para o Sultão do Império Otomano, a referência aqui
provavelmente diz respeito a esta passagem: Depois das visitas dos funcionários do estado, a porta da
Sala do Manto Sagrado enfrente a Enderun seria fechada e a porta de ferro fechada para que a do
Harém fosse aberta. Ao convite as esposas do sultão, suas favoritas, suas irmãs e suas filhas, cobrindo
suas cabeças com lenços de oração, cada uma visitaria em cerimônia. Elas deixariam a sala depois de
receber um lenço especial do sultão. Retirada e traduzida de: http://www.turkishairlines.com/en-
INT/skylife/article.aspx?mkl=2097
21
[nota do editor] Uma alusão ao uso jocoso (há muito tempo tornou-se obsoleto) de fazer alguém um
freeman of Highgate (um homem livre de Highhate). [nota do trad.] O Juramento aos Cornos é um falso
juramento que foi tradicionalmente dado aos visitantes de vários pubs em Londres no subúrbio de
Highgate durante os séculos XVII, XVIII e XIX. O juramento consistia de uma série de declarações lidas
por um balconista, confirmando a dedicação de alguém ao deboche e à alegria.
ou damas de qualidade. Estas últimas têm altas noções de si mesmas que podem ajustar-se a
alguns de seus epítetos! Elas estão acima da mortalidade, assim como seus pensamentos! Mas
com a vida inferior, a artimanha, a ignorância e a trapaça, vocês não têm nada em comum.
Quem quer que você seja, que pense poder fazer um compromisso ou uma conquista lá, pela
boa natureza ou bom senso, esteja avisado por uma voz amigável e se retire a tempo desta
disputa desigual.

Se, como eu disse acima, scholars não são páreos para arrumadeiras, por outro lado,
cavalheiros não são páreos para canalhas. Os primeiros estão com a sua honra, eles agem com
medida; os últimos aproveitam todas as vantagens e não têm nem idéias nem princípios. É
embasbacante quão rápido alguém sem educação aprenderá a trapacear. Ele é impenetrável a
qualquer raio do conhecimento liberal; seu entendimento é

"Não penetrável pelo poder de qualquer estrela"

"Not pierceable by power of any star"

mas é poroso a todos os tipos de truques, sofismas, estratagemas e garotices, pelos quais
qualquer coisa pode ser conseguida. Sra. Peachum, de fato, diz, que para suceder na mesa de
jogo, o candidato deve ter a educação de um nobre. Eu não sei o quanto este exemplo
contradiz a minha teoria. Eu penso que é uma regra que aos homens de negócios não devem
ser ensinadas outras coisas. Qualquer um estará quase certo de fazer dinheiro se não tem
outra idéia em sua mente. Uma educação universitária, ou o estudo intenso da verdade
abstrata, não habilitará o homem a conseguir barganhar, a levar a melhor sobre outro ou
mesmo de resguardar-se de ser passado para trás. Como Shakespeare diz, que " ter uma boa
aparência é efeito do estudo, mas ler e escrever vem por natureza": pois pode ser
argumentado, que para ser um tratante basta um dom da sorte, mas para bancar o bobo e se
favorecer é necessário ser um homem educado. Os melhores políticos não são aqueles que
estão profundamente fundamentados na matemática ou nas ciências éticas. Os governantes
se mantém no caminho da conveniência. Muitos homens têm sido dificultados de colocar sua
sorte no mundo por um cultivo inicial de seu senso moral; e se arrependem disto no ócio
durante o resto de sua vida. Um homem sagaz disse a meu pai, que ele não enviaria um filho
seu para a escola de maneira alguma, pois ao ensiná-lo a dizer a verdade, ele o desqualificaria
para ter sua vida no mundo!

É muito pouco necessário adicionar qualquer ilustração para provar que os mais originais e
profundos pensadores não são sempre os escritores mais sucedidos e populares. Esta não é
uma desvantagem meramente temporária; mas muitos grandes filósofos têm não apenas sido
vigiados enquanto viviam, mas esquecidos assim que morreram. O nome de Hobbes é talvez
suficiente para explicar esta asserção. Mas eu não desejo ir mais afundo nesta parte do
assunto, que é óbvia nela mesma. Eu disse, creio, suficiente para sair o ar de paradoxo que
paira sobre o título deste ensaio.