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SUMÁRIO

PENSAMENTO GEOGRÁFICO..........................................................................................5
INTRODUÇÃO...............................................................................................................5
SISTEMATIZAÇÃO DE HUMBOLDT E RITTER....................................................................5
RATZEL E A ANTROPOGEOGRAFIA.................................................................................6
VIDA DE LA BLACHE E A GEOGRAFIA HUMANA...............................................................6
DESDOBRAMENTOS DA PROPOSTA LABLACHIANA..........................................................7
ALÉM DO DETERMINISMO E POSSIBILISMO – HARTSHORNE............................................7
GEOGRAFIA PRAGMÁTICA.............................................................................................8
GEOGRAFIA CRÍTICA.....................................................................................................8
CONCEITOS FUNDAMENTAIS DE GEOGRAFIA..................................................................9
REGIÃO........................................................................................................................9
ESPAÇO GEOGRÁFICO.................................................................................................10
PAISAGEM..................................................................................................................11
TERRITÓRIO...............................................................................................................11
LUGAR.......................................................................................................................12
AMBIENTE .................................................................................................................12
DOMÍNIOS MORFOCLIMÁTICOS....................................................................................13
CARACTERÍSTICAS GERAIS..........................................................................................13
AMAZÔNIA.................................................................................................................14
CERRADO...................................................................................................................16
MATA ATLÂNTICA.......................................................................................................16
CAATINGA..................................................................................................................17
MATA DE PINHAIS......................................................................................................17
CAMPOS SULINOS......................................................................................................18
ÁREAS DE TRANSIÇÃO................................................................................................19
TRANSIÇÃO NORDESTINA.........................................................19
TRANSIÇÃO DA REGIÃO SUL BRASILEIRA...................................19
PANTANAL...............................................................................19
DESERTIFICAÇÃO NO BRASIL.......................................................................................19
HIDROGRAFIA DO BRASIL...........................................................................................20
BACIA AMAZÔNICA...................................................................21
BACIA PLATINA........................................................................21
BACIA SÃO FRANCISCO.............................................................22
PROGRAMA DE TRANSPOSIÇÃO.................................................22
BACIAS SECUNDÁRIAS..............................................................23
PRINCIPAIS HIDROVIAS............................................................23
PORTOS NO BRASIL..................................................................25
CLIMA NO BRASIL.......................................................................................................25
O CLIMA COMO RECURSO NATURAL...........................................25
FENÔMENOS............................................................................27
DOMÍNIOS CLIMÁTICOS...............................................................................................27
RAZÕES DA SECA NO NORDESTE...............................................28
RELEVO NO BRASIL....................................................................................................28
OS ECOSSISTEMAS E AS CAUSAS DE SUA DEGRADAÇÃO.............30
REVOLUÇÃO CIÊNTIFICA TECNOLÓGICA.......................................................................31
A RCT E A GLOBALIZAÇÃO........................................................31
A REVOLUÇÃO DA TECNOLOGIA DE INFORMAÇÃO.........................................................32
O CAPITAL FINANCEIRO..............................................................................................33
DESNATURALIZANDO..................................................................................................34
A MÍDIA EM REDE.......................................................................................................34
O INTEMPORAL CASTELLIANO.....................................................................................35
CONCLUSÃO...............................................................................................................35
FORMAÇÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO.....................................................................35
HISTÓRICO DA OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO .............................................................35
HOROGENIA DO TERRITÓRIO BRASILEIRO....................................................................38
PERÍODO COLONIAL.................................................................38
O IMPÉRIO...............................................................................38
ERA RIO BRANCO.....................................................................39
A CONQUISTA DO HEARTLAND..................................................40
O BRASIL NO SÉC XXI – MILTON SANTOS.....................................................................40

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O TERRITÓRIO BRASILEIRO.........................................................................................40
DO NATURAL AO MEIO TÉCNICO CIÊNTIFICO INFORMACIONAL......................................41
O MOMENTO NATURAL.............................................................42
O MEIO TÉCNICO.....................................................................42
O MEIO TÉCNICO-CIÊNTIFICO-INFORMACIONAL...........................44
REGIÃO CONCENTRADA ...........................................................45
DINÂMICA DA QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL...........................................................45
DESAFIOS DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL.............................................................45
TRATADOS QUE ENVOLVEM O BRASIL........................................46
AGENDA 21..............................................................................47
AGENDA 21 BRASILEIRA: TÓPICOS: TEMAS CENTRAIS
DESTACADOS:..........................................................................47
DEFLORESTAMENTO NA AMÉRICA DO SUL .................................47
CONSERVAÇÃO E PRESERVAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL............48
SANEAMENTO BÁSICO E QUALIDADE DE VIDA NO BRASIL............48
MEIO AMBIENTE, SANEAMENTO E TRANSPORTE........................49
COMÉRCIO INTERNACIONAL E MEIO AMBIENTE...........................49
REPRESENTATIVIDADE DO BIOMA BRASILEIRO............................................................49
GESTÃO DA COSTA BRASILEIRA...................................................................................50
PROJETOS DE CONSERVAÇÃO DE ECOSSISTEMAS.......................51
OLHARES CONTEMPORÂNEOS SOBRE O URBANO.........................................................51
MUDANÇAS NO ESPAÇO BRASILEIRO - URBANIZAÇÃO ................51
PROCESSOS DE URBANIZAÇÃO E A REDE DE CIDADES..................................................52
A REDE DE CIDADES NO BRASIL................................................52
REDE INDUSTRIAL BRASILEIRA....................................................................................53
DINÂMICA DO INVESTIMENTO INDUSTRIAL NO BRASIL................53
NOVOS DETERMINANTES DA LOCALIZAÇÃO INDUSTRIAL.............54
TEORIAS DEMOGRÁFICAS...........................................................................................55
FOME X CRESCIMENTO POPULACIONAL.......................................................................55
ABORDAGEM SOBRE AS MIGRAÇÕES NO BRASIL..........................................................56
TENDÊNCIAS ATUAIS DAS MIGRAÇÕES NO BRASIL .....................58
MOVIMENTOS FRONTEIRIÇOS....................................................58
MIGRAÇÃO NA AMAZÔNIA.........................................................59
MIGRAÇÃO URBANA E NOVOS PÓLOS DE ATRAÇÃO.....................59
O BRASIL RURAL........................................................................................................60
HISTÓRICO DA AGRICULTURA NO BRASIL.....................................................................60
AGRICULTURA VOLTADA PARA O EXTERIOR...............................61
A MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA...........................................................................61
O CASO BRASILEIRO.................................................................63
AS MODIFICAÇÕES NO CAMPO EM FACE À MODERNIZAÇÃO:........64
BIOTECNOLOGIA E AGROINDÚSTRIA..........................................65
O CENÁRIO DE COOPERAÇÃO EM BIOTECNOLOGIA .....................65
GESTÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO..........................................................................66
GEOGRAFIA ECONÔMICA DO BRASIL............................................................................66
ESPAÇO ECONÔMICO BRASILEIRO.............................................66
REGIÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS...................................................................................67
REGIÃO NORTE........................................................................67
REGIÃO NORDESTE ..................................................................67
REGIÃO CENTRO-OESTE............................................................68
ORGANIZAÇÃO REGIONAL DO ESPAÇO BRASILEIRO......................................................68
MODIFICAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO............................................68
PERSPECTIVAS DE INTEGRAÇÃO DA BACIA AMAZÔNICA................................................69
EM BUSCA DE UM PROJETO PAN-AMAZÔNICO.............................70
POSSIBILIDADE DE COOPERAÇÃO E A QUESTÃO FRONTEIRIÇA......................................70
PROGRAMA AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL.........................................................................71
TERRITORIALIZAÇÃO: ESTRATÉGIA DE RECONHECIMENTO DA

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SOCIOBIODIVERSIDADE DA REGIÃO...........................................71
A POLÍTICA BRASILEIRA DE COMBATE AO NARCOTRÁFICO............................................72
AQÜÍFERO GUARANI...................................................................................................73
PROJEÇÕES DO BRASIL PARA 2020.............................................................................75
FONTES DE ENERGIA.................................................................................................77
CENÁRIO ENERGÉTICO MUNDIAL. ...............................................................................77
NO BRASIL.................................................................................................................78
PETRÓLEO.................................................................................................................78
LOBATO, A PRIMEIRA DESCOBERTA...........................................78
A CRIAÇÃO DA PETROBRÁS.......................................................78
MUDANÇA NO PAPEL DO ESTADO..............................................79
BACIA SEDIMENTAR DO AMAZONAS..........................................79
PROÁLCOOL...............................................................................................................80
BIODIESEL.................................................................................................................80
GÁS NATURAL............................................................................................................81
CARVÃO MINERAL......................................................................................................82
GEOPOLÍTICA.............................................................................................................82
GEOPOLÍTICA DO BRASIL............................................................................................82
INTEGRAÇÃO NACIONAL...........................................................82
O PROBLEMA DA CAPITAL.........................................................83
REDIVISÃO TERRITORIAL..........................................................83
GEOPOLÍTICA DA BACIA DO PRATA............................................84
GEOPOLÍTICA NA VIRADA DO MILÊNIO: BERTHA BECKER..............................................84
HERANÇA DA GEOPOLÍTICA.......................................................84
HIPÓTESES GEOPOLÍTICAS SOBRE O PODER MUNDIAL ...............85
TECNOLOGIA ESPACIAL DO PODER DO ESTADO..........................85
DA ESTRATÉGIA À LOGÍSTICA....................................................86
LOGÍSTICA: INCLUSÃO E EXCLUSÃO...........................................86
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL...........................................87
REDEFINIÇÃO DA ESTRUTURA DE PODER GLOBAL.......................87
QUESTÕES FINAIS....................................................................88
GLOBALIZAÇÃO.........................................................................................................88
A AMÉRICA LATINA: HERANÇA COLONIAL, CONDIÇÃO PERIFÉRICA E INDUSTRIALIZAÇÃO
TARDIA......................................................................................................................90
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA E LATINO-AMERICANA.............................................91
GEOGRAFIA DO COMÉRCIO EXTERIOR........................................91
PRINCIPAIS AEROPORTOS E CONEXÕES....................................92
ESTRUTURAÇÃO E OS OBJETIVOS DO MERCOSUL........................93
CIÊNCIA E TECNOLOGIA NO MERCOSUL......................................94
A NOVA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO.........................................................94
A COOPERAÇÃO TÉCNICA INTERNACIONAL...................................................................95
EXTRATOS JORNALÍSTICOS DE RELEVÂNCIA.................................................................96
AMAZÔNIA AZUL........................................................................................................96
FUNDO MUNDIAL PELA AMAZÔNIA..............................................................................96
CONSTRUÇÃO DE REDE LIGANDO SETE PAÍSES.............................................................97
USINAS NO PANTANAL...............................................................................................97
INTEGRAÇÃO DA INFRA-ESTRUTURA SUL-AMERICANA..................................................97
OBRA LIGARÁ O BRASIL AO PACÍFICO. ........................................................................99
CONVENÇÃO QUADRO SOBRE MUDANÇA DO CLIMA ...................................................100
PROGRAMA ANTÁRTICO BRASILEIRO.........................................................................100
OS BIOCOMBUSTÍVEIS ENTRAM NO JOGO GLOBAL/OPINIÃO.........................................101
O G-8 E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS .........................................................................102
O PROTOCOLO DE KYOTO..........................................................................................103
KYOTO, O MUNDO E O BRASIL...................................................................................104
NA ONDA DA BIOENERGIA.........................................................................................105
A ALTERNATIVA DOS BIOCOMBUSTÍVEIS ...................................................................106
ETANOL, GEOPOLÍTICA E NAÇÃO...............................................................................107
CONTROLE DE DESMATE VAI INTEGRAR PÓS-KYOTO ..................................................108
LULA E BACHELET ASSINAM ACORDO COM MORALES.................................................109
O MERCADO NUCLEAR BRASILEIRO ...........................................................................109
BRASIL CRITICA IDÉIA DA UE DE LIGAR CLIMA E COMÉRCIO .......................................110

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PROGRAMA DO BIODIESEL É EXEMPLO PARA O MUNDO..............................................111
A AMAZÔNIA NÃO ESTÁ À VENDA..............................................................................111

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PENSAMENTO GEOGRÁFICO
INTRODUÇÃO
O pensamento geográfico remonta a antiguidade grega, com conteúdo
variado. Tales privilegia a medição do espaço e a discussão da forma da Terra. Heródoto,
com a descrição dos lugares, numa perspectiva regional. Muitas vezes, na obra de um
mesmo autor aparece a discussão de vários temas, hoje tidos Geográficos, sem que a
mínima conexão entre eles. Portanto, o conhecimento geográfico era disperso. Até o final
do séc. XVIII, não é possível falar em conhecimento geográfico padronizado com temas.
Resumia-se a relatos de viagem, curiosidades e áridos relatos estatísticos.
A sistematização aparece no início do séc. XIX, quando a Geografia é
organizada como pensamento autônomo, objetivado no processo de avanço e domínio
das relações capitalistas. O objetivo era o conhecimento da extensão real do planeta, que
se inicia com as grandes navegações. A constituição de um espaço mundial, que tem por
centro difusor a Europa, é elemento destacado da transição do feudalismo para o
capitalismo. O segundo pressuposto era a existência de base empírica de informações
sobre vários lugares da Terra. Condição que se aprofunda com o avanço do
mercantilismo e os impérios coloniais, pois a apropriação de dado território implicava
estabelecer relação mais estreita com os elementos aí existentes para criar
estabelecimentos perenes, atividades econômicas e inventários de recursos. O terceiro,
no aprimoramento das técnicas cartográficas como relevante para o comércio.
No fim do séc. XVIII, a filosofia a valora e sistematiza a Geografia, no campo
das possibilidades da razão humana, e propunha a explicação racional do mundo. Outra
fonte foram os ideólogos burgueses a quem interessava o modo de produção emergente,
as formas de poder e organização do Estado. Montesquieu, em o Espírito das Leis,
elaborava teses deterministas: o povo das montanhas era pacífico por ter a proteção das
montanhas, os das planícies eram bárbaros por estarem sujeitos a invasões.
A economia política foi responsável pelas primeiras análises de fenômenos da
vida social, devido às necessidades práticas impostas pelo incremento do comércio.
Discute produtividade do solo, dotação diferenciada dos lugares, distâncias e aumento
populacional. O evolucionismo, de Darwin e Lamarck, forneceu o patamar imediato da
legitimação científica; enquanto Heckel dá as bases a Ecologia – estudo das inter-
relações dos elementos que coabitam um espaço.
Assim, os pressupostos históricos e as fontes da sistematização geográfica
forjaram-se na “fase heróica” da burguesia. A transição do feudalismo para o capitalismo
ocorreu, de forma não homogênea, na Europa. Não se pode compreender a Geografia
sem o desenvolvimento capitalista na Alemanha, com Humboldt e Ritter, onde está o
eixo principal de desenvolvimento, com os primeiros institutos, teorias e metodologias.

SISTEMATIZAÇÃO DE HUMBOLDT E RITTER


Na Alemanha as relações capitalistas penetram sem alterar a ordem feudal. O
feudalismo “modernizado” produz para um mercado aberto, mas mantém as relações de
trabalho. O mercado entre as unidades é moderado diante das barreiras alfandegárias. A
burguesia desenvolve-se à sombra do Estado, mas não o revoluciona. O Bloqueio
continental de Bonaparte propicia industrialização incipiente e incremento do comércio
interno, e a Confederação Germânica provoca um ideal de unidade. Nesse período, eram
temas relevantes para as classes dominantes: a constituição de um Estado nacional
centralizado, a ausência de relações duráveis e os pontos de convergência econômicos.
Assim, iniciam os estudos de temas como apropriação do território e variação regional.

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Humboldt inicia a sistematização e define a geografia como espécie de síntese
de todos os conhecimentos relativos à Terra, era ciência sintética, preocupada com a
conexão entre os elementos que busca através das conexões, a causalidade existente na
natureza. Ritter, diferente de Humboldt, define o conceito de “sistema natural”, isto é,
uma área delimitada e dotada de individualidade. A geografia deveria estudar os arranjos
individuais e compará-los. Cada arranjo abarcaria um conjunto de elementos,
representando uma totalidade. Baseava seu entendimento na sua perspectiva religiosa,
servindo a geografia como ciência de ligação com o divino. A proposta de Ritter é
antropocêntrica, regional e valoriza a relação homem-natureza.
Ambos representam a Geografia Tradicional, mas o primeiro abarca o Globo
sem privilegiar o Homem, enquanto o segundo prioriza a região e o homem.

RATZEL E A ANTROPOGEOGRAFIA
Ratzel vivencia a constituição do Estado Alemão, o que influencia seu
pensamento, e serve à legitimação expansionismo. A unificação tardia da Alemanha não
impediu o desenvolvimento interno, mas a deixou de fora da partilha das coloniais, o que
alimentou um expansionismo. Sua geografia era engajada e fazia elogio ao imperialismo.
Seu principal livro ANTROPOGEOGRAFIA definiu o objeto geográfico como o
estudo da influência que as condições naturais exercem sobre a humanidade. Essa
influência atuaria, primeiro na fisiologia e na psicologia dos indivíduos e esses na
sociedade. Segundo, a natureza influenciaria a constituição social, pela riqueza que
propicia, através dos recursos do meio. A natureza atuaria na possibilidade de expansão
de um povo, obstaculizando ou ampliando o isolamento ou a mestiçagem.
Realizou extensa revisão sobre o tema da influência da natureza sobre o
homem. Afirma que a sociedade mantém relações duráveis com o solo, manifestadas nas
necessidades de moradia e alimentação. O progresso significaria um maior uso dos
recursos do meio, logo, uma relação mais íntima com a natureza. Afirma que quando a
sociedade organiza-se para defender o território, cria o Estado.
Elabora o conceito de “espaço vital” que representa proporção de equilíbrio,
entre a população de dada sociedade e os recursos disponíveis para suprir suas
necessidades. A sua geografia privilegia o elemento humano, e abriu várias frentes de
estudo como formação do território, distribuição dos povos e raças, isolamento e suas
conseqüências. Manteve a Geografia como ciência empírica pela análise e observação.
Seus discípulos formaram a doutrina do determinismo geográfico – “as condições
naturais determinam a História”, “o homem é produto do meio”, “a indolência do
homem tropical”, “subdesenvolvimento como fruto da tropicalidade”.
Sua teoria desdobrou a Geopolítica, dedicada ao estudo da dominação dos
territórios, a ação do Estado sobre o espaço. Seus discípulos: Kjelen criou a geopolítica;
Mackinder desenvolveu a teoria das áreas pivô – heartland; Haushofer prioriza o caráter
bélico. O Ambientalismo que representa determinismo atenuado, sem visão fatalista,
onde a natureza não é vista como determinante, mas como suporte da vida humana.

VIDA DE LA BLACHE E A GEOGRAFIA HUMANA


La Blache opõe-se às colocações de Ratzel, tendo em conta a conjuntura do
conflito de interesses com a Alemanha. O revolucionário desenvolvimento do capitalismo
ampliou a representação e o espaço de ação política. Trouxe as camadas populares e o
socialismo militante. Como Ratzel, La Blache representava, através do discurso científico,
o interesse das classes dominantes. Enquanto o primeiro exprimia o autoritarismo
alemão, o segundo manifestava um tom mais liberal, sem a politização explícita.

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Criticou a teoria do espaço vital, e através dele, o expansionismo germânico.
Valorizou o elemento humano que era passivo nas teorias de Ratzel. Assim, estimou a
História, mas apesar da carga humana, afirmava que a Geografia é uma ciência dos
lugares, não dos homens. Recriminou a concepção fatalista e determinista da relação dos
homens e da natureza. É a partir de La Blache que se articula a Geografia Francesa.
Definiu o objeto da Geografia como a relação Homem-Natureza, na
perspectiva da paisagem. Colocou o homem como ser ativo, que sofre a influência do
meio, porém atua sobre ele, transformando-o. Observou que as necessidades são
condicionadas pela natureza, e o homem busca as soluções para satisfazê-la. O homem
transforma a matéria natural e cria formas sobre a superfície terrestre. Assim a
perspectiva Vidalina, vê a natureza como possibilidades para a ação humana, daí o nome
de Possibilismo. A teoria de Vidal concebe o homem como hóspede antigo de vários
pontos da superfície terrestre, adaptando-se ao meio que o envolvia, criando um acervo
de técnicas, hábitos, usos e costumes, ao qual chamou de “gênero de vida”.
Enumera fatores que mudariam o gênero de vida, como o exaurimento dos
recursos(impulsionaria migrações). Avaliava o contato com outros gêneros de vida como
fundamental ao progresso. A cidade, oficina da civilização, é ponto de convergência. À
geografia caberia estudar os gêneros de vida, os motivos de sua manutenção, difusão,
transformação dos domínios, tendo em vista as formas visíveis criadas pela sociedade na
sua relação histórica e cumulativa com o meio natural. Abriu espaço para falar sobre a
missão civilizadora do europeu na África e endossar o colonialismo francês. Apesar da
crítica a Ratzel, não rompeu com suas formulações, foi um prosseguimento. Hostilizou o
pensamento abstrato e especulativo, propondo o método empírico-indutivo.

DESDOBRAMENTOS DA PROPOSTA LABLACHIANA


Geografia Regional - A partir de La Blache, o conceito de Região balizou as
pesquisas. A partir da Região exprimir-se a forma dos homens organizarem o espaço
terrestre. A região seria escala de análise, unidade espacial dotada de individualidade. A
geografia seria prioritariamente um trabalho de identificação das regiões do globo.
Geografia Econômica – privilegia como objeto de sua análise a vida
econômica de uma região, discutindo fluxos, trabalho e produção, enfim variados
elementos do quadro regional. Chegou a constituir ramo autônomo do pensamento
geográfico, diferenciado e igualado em importância ao da Geografia Humana. Foi um dos
focos destacados de renovação do pensamento geográfico, no limite da tradicional.
Geografia Histórica – dedica-se a temas como organização do espaço na
Antigüidade, as vias comerciais da Europa na Baixa Idade Média.
Habitat – desenvolvido por Sorre, estuda uma porção do planeta vivenciada
por uma comunidade que a organiza. O habitat é uma construção humana que expressa
as múltiplas relações entre o homem e o ambiente que o envolve. Pode ser entendida
como Ecologia do Homem, isto é, a relação dos agrupamentos com o meio em que estão
inseridos, processos pelo qual o homem o transforma.

ALÉM DO DETERMINISMO E POSSIBILISMO – HARTSHORNE


Hartshorne e Hettner desenvolveram a Racionalista pelo fato de ter
menor carga de empirismo, em relação às anteriores. Privilegia o raciocínio dedutivo.
Hettner a propõe como a ciência que estuda “a diferenciação das áreas”, isto
é, a que visa explicar “por que” e “em que” diferem as porções da superfície terrestre.
Afirma que o caráter singular das diferentes parcelas do espaço adviria da particular
forma de inter-relação dos fenômenos existentes.

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Hartshorne propõe que as ciências seriam definidas por métodos próprios,
não por objetos. O estudo geográfico não isolaria os elementos, ao contrário trabalharia
suas inter-relações, estudo da variação de áreas. Conceitos básicos: área e integração
(estudo de parcela da superfície, diferenciada pelo observador). Essa delimitação é
processo de escolha do observador, dessa forma, a área seria instrumento de análise, ao
contrário da região e território, vistos como realidades exteriores ao observador.
Geografia Nometética – nela o pesquisador pararia na primeira integração e
reproduzi-la-ia tomando os mesmo fenômenos e fazendo as mesmas inter-relações. As
comparações permitiriam chegar a um padrão de variação dos fenômenos tratados.
Permitia, assim, análises tópicas, isto é, centradas em temas, como Petróleo, Café, etc.
Geografia Cultural – formulada por Carl Sauer propõe a análise das formas
que a cultura de um povo cria na organização de seu meio.
Essas propostas são as derradeiras da Geografia Tradicional, e finaliza a idéia
de ciência síntese, empírica ou de contato. Como saldo a Tradicional deixou uma ciência
elaborada, sistematizada, unitária, identificou os problemas. Também deixou material
para pesquisas posteriores com dados minuciosos para pesquisas posteriores.

GEOGRAFIA PRAGMÁTICA
Efetua crítica a insuficiência e o caráter não prático da análise tradicional, que
não vai aos fundamentos ou à base social. Pretende a renovação metodológica, busca
novas técnicas e nova linguagem as novas tarefas postas pelo planejamento.
Uma corrente é a Geografia Quantitativa que defende o uso de modelos
matemáticos para explicar o temário geográfico. Todas as questões tratadas, as relações
e inter-relações de fenômenos de elementos, as variações da paisagem, seriam passíveis
de ser expressas em termos numéricos e compreendidas na forma de cálculo.
A Sistêmica ou Modelista propõe o uso de modelos de representação e
explicação no trato dos temas. Seria a representação das estruturas fundamentais da
organização do espaço. Apóia-se na idéia dos fenômenos manifestaram-se por fluxos.
A Teorética é a base da renovação pragmática, aparecendo em inúmeras
propostas. Vem na teoria dos jogos, que vê a ação do homem como fruto de opções; ou
a difusão de inovações, que busca explicar como a modernização penetra no meio social.
A da Percepção busca entender como os homens percebem o espaço, como
se dá sua consciência em relação ao meio que os encerra, como percebem e como
reagem frente às condições e aos elementos da natureza ambiente.
A Pragmática desenvolve tecnologia de intervenção da realidade. Funciona
como arma de dominação para os detentores do poder Estatal. Em si, é apenas acervo
de técnicas, que se transforma em ideologia. Mascara as contradições sociais e legitima a
ação do capital sobre o espaço terrestre.

GEOGRAFIA CRÍTICA
É defendida pelos que posicionam transformação da realidade. Assume
conteúdo político do conhecimento e propõe geografia militante por sociedade mais justa.
Yves Lacoste, critica o empirismo tradicional, vinculam o conhecimento como ligado ao
imperialismo e afirma: “A geografia é prática social em relação à superfície terrestre”.
Desenvolveu-se com estudos temáticos, como: cidades, não se confundido
com Geografia Urbana. O contato com outras ciências (filosofia, sociologia), é benéfico.
Exemplo de Foucault nas colocações sobre a relação entre o espaço e o poder. Outros
autores analisam o território, enfocam a expansão espacial do capitalismo e os fluxos
gerados, a organização e a lógica do capital na ordenação dos lugares.

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Milton Santos, em Por uma Geografia Nova, argumenta que é necessário
discutir o espaço social e sua produção como objeto. Este espaço social ou humano é
histórico, obra de trabalho, morada do homem. O espaço é campo de força, cuja energia
é a dinâmica social. O espaço seria um fator, pois é acumulação de trabalho e capital na
superfície terrestre, que cria forma duráveis, que denomina “rugosidades”, ou seja,
produzir é produzir espaço. O Estado deve ser analisado, pois é agente de
transformação, difusão e intermediário entre forças internas e externas, e o grande
criador de rugosidades. As diferenças entre os lugares seriam naturais e históricas. Seu
traço é a desigualdade, pois a história do capital é seletiva, elege áreas, estabelece
divisão do trabalho, e impõe a hierarquização dos lugares.
Para Milton Santos, a geografia permite perceber a relação entre espaço e
movimentos sociais. Na atualidade, vive-se a mobilidade dos homens, que mudam de
lugar, assim como de produtos, imagens e idéias, que evidencia transformações na
relação espaço-tempo. Entende o lugar como eixo de sucessões, de tempos internos, de
coexistência de tempo e espaço, que conduz à desterritorialização ou de
desculturalização. Enquanto a globalidade se identifica nos processos coletivos que se
distribuem em diferentes espaços, o mundo é composto pela singularidade de cada local.

CONCEITOS FUNDAMENTAIS DE GEOGRAFIA


REGIÃO
O termo deriva do latim régio, que se refere à unidade político territorial em
que se dividia o Império Romano. Sua raiz está no verbo governar, o que atribui à região
uma conotação política. Há três acepções entre os geógrafos:
A primeira apóia-se na natureza. Trata-se natural, conceito adotado pelos
geógrafos físicos e deterministas. Concebe-a como porção da superfície terrestre
identificada pela combinação de elementos de relevo, clima, vegetação.
A segunda origina-se de reação à matriz positivista, e entende a região como
área de ocorrência de uma mesma paisagem cultural. A região passa a ser entendida
como longo processo de transformação da paisagem natural em cultural. O arranjo dos
campos, o sistema agrícola e o habitat rural.
A terceira, que não elimina as anteriores, considera a região a partir de
propósitos específicos, não tendo a priori, como no caso da região natural e da região-
paisagem, uma única base empírica. É possível identificar regiões climáticas, industriais,
nodais. A região natural e a região paisagem passam a ser uma das múltiplas
possibilidades de recortar o espaço geográfico.
Novos conceitos, a partir dos anos 70, baseados na geográfica crítica apoiam
a idéia de persistência da diferenciação de áreas, não compartilhando a tese de que o
mundo esteja se tornando homogêneo, indiferenciado e, conseqüentemente, as regiões
estejam desaparecendo: ao contrário, aditem o processo de sua transformação.
Hobsbawn aponta que a história de cada porção da superfície terrestre não é
mais autônoma, mas dependente em maior ou menor grau, de processos gerais,
universais. A globalização, etapa superior capitalista, emerge a partir do final da II GM,
torna mais complexa a fragmentação articulada da superfície terrestre.
A economia mundial e a globalização não geraram a homogeneização global,
mas ratificaram as diferenças espaciais que já existiam. O capitalismo industrial criou,
desfez unidades regionais nos diferentes continentes. A fragmentação articulada que
caracteriza a globalização é mais complexa, implicando na afirmação de múltiplos
mosaicos que se acham irregularmente superpostos.

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ESPAÇO GEOGRÁFICO
Esse conceito baliza o campo de atuação da Geografia. Constitui o conceito
mais abrangente e abstrato. Para Milton Santos, o espaço geográfico é formado por
conjunto indissociável, solidário e contraditório, de sistemas de objetos e
sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como um quadro único
na qual a história se dá. No começo era a natureza selvagem, formada por
objetos naturais, que vão sendo substituídos por objetos fabricados, técnicos,
mecanizados e, depois cibernéticos fazendo com que a natureza artificial tenda
a funcionar como uma máquina.
A concepção de espaço geográfico está contido a categorias da natureza,
sociedade, tempo e espaço. Faz-se necessário, então, refletir sobre como a Geografia
concebeu e concebe estas categorias na construção do conceito de espaço geográfico.
O conceito de natureza, dos geógrafos, constitui-se algo externo ao homem.
Natureza são os elementos ou o conjunto dos elementos formadores do planeta Terra.
Esta separação constitui herança, como de resto nas demais ciências, das idéias de
Descartes de separação entre natureza e homem, dessacralização da natureza,
transformando-a em objeto e o homem em sujeito conhecedor e dominador desta.
Os fundadores da Geografia propõem que sob formas diferentes, o objeto
centrado na relação homem-meio (natureza). Sob esta perspectiva, resgata outra
categoria: a sociedade. Nesta articulação em seus primeiros momentos a Geografia
trabalhou mais com o conceito de comunidade do que com sociedade, aqui entendida
como expressão da vida humana pelas relações sociais temporalmente estabelecidas.
Os geógrafos críticos observam que a mesma tendeu, no início, a naturalizar o
homem na medida em que o via como um constituinte do espaço geográfico. Dizia La
Blache, "a Geografia é a ciência dos lugares e não dos homens", interessando a
obra materializada e não as relações sociais. Esta visão modifica-se devido a
aproximação da Geografia com a Sociologia, a exemplo de Pierre George, e da Geografia
com a Economia e a Ciência Política, a partir do materialismo histórico. Neste momento,
parte da Geografia preocupa-se com o espaço geográfico, entendendo-o como
resultado das formas como os homens organizam sua vida e suas formas de
produção. Nesta perspectiva, a Geografia concebe a relação natureza-sociedade sob a
ótica da apropriação, concebendo a natureza como recurso à produção.
O tempo perpassou e perpassa a análise geográfica através de seu conceito, o
espaço geográfico. A Geografia, no início, assumiu concepção de tempo Kantiana,
concebendo-o linear, sucessão de fatos no espaço. O espaço geográfico foi analisado
como ciclo, onde a compreensão era de fatos sucessivos que voltam ao ponto inicial. O
tempo, nesta perspectiva, evoca a idéia de dinâmica estável, movimento que se repete.
A visão crítica, ao romper com a visão de estabilidade, concebe o tempo
como espiral. Neste sentido, o tempo projeta-se como determinação ou possibilidade, por
avanços e retornos. O espaço geográfico é a coexistência das formas herdadas,
reconstruídas sob uma nova organização com formas novas em construção, ou
seja, é a coexistência do passado e do presente ou de um passado reconstituído
no presente. Esta concepção permite aos geógrafos, como faz Milton Santos, propor
uma nova concepção de tempo-espaço indissociável, como veremos posteriormente.
O espaço constituirá categoria central para a Geografia. Este tendo sido, por
vezes, confundido com o objeto próprio da Geografia. Da mesma forma que as demais
categorias analisadas, a concepção de espaço para os geógrafos foi e é concebida
diferentemente. Inicialmente, assim como o tempo, o espaço foi concebido à maneira de
Kant, como espaço absoluto, espaço receptáculo, espaço continente, lugar de ocorrência

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do fenômeno geográfico. Adquiriu dimensões específicas, tornou-se demarcável, passível
de delimitação, de localização, de forma absoluta. A cartografia de base e a localização
absoluta foi em parte o suporte desta concepção.
As transformações no pós-guerra associadas à novas concepções
científicas permitem à Geografia falar de outro espaço: o relativo. Neste contexto, os
geógrafos passaram a falar de espaço como algo definível a partir de variáveis pré-
estabelecidas, definidas a priori, a partir dos objetivos de delimitação. O espaço existiria,
então, como representação, podendo ser objetivamente delimitado em cartas e mapas.
David Harvey concebe o espaço como sendo absoluto (material), relativo
(relação entre objetos) e relacional (contém e está contido nos objetos) - "o objeto
existe na medida em que contém e representa dentro de si próprio as relações
com outros objetos". Considera que o espaço não é nem um, nem outro em si mesmo,
podendo transformar-se em um ou outro, dependendo das circunstâncias.
Para Milton Santos "o espaço é acumulação desigual de tempos". O que
significa conceber espaço como heranças. Espaço–tempo são categorias indissociáveis,
nos permitindo reflexão sobre espaço como coexistência de tempos. Desta forma, num
mesmo espaço coabitam tempos diferentes, tempos tecnológicos diferentes, resultando
daí inserções diferentes do lugar no sistema ou na rede mundial (mundo globalizado).

PAISAGEM
É a expressão materializada das relações do homem com a natureza num
espaço circunscrito. Para muitos, o limite da paisagem atrelava-se à possibilidade visual.
Os geógrafos consideraram paisagem para além da forma. Troll concebia-a
como o conjunto das interações homem e meio. É algo além do visível, é resultado de
processo de articulação entre os elementos. Assim, é "estudada na sua morfologia,
estrutura e divisão além da ecologia da paisagem, nível máximo de interação
entre os diferentes elementos". Esta análise, em sua visão, poderia ser de ordem
exclusivamente natural (paisagens naturais) ou de ordem humana (paisagens culturais).
Milton Santos concebe paisagem como a expressão materializada do espaço
geográfico, interpretando-a como forma, e afirma: "Paisagem é o conjunto de formas
que, num dado momento, exprimem as heranças que representam as sucessivas
relações localizadas entre o homem e a natureza". Ou ainda, A paisagem se dá
como conjunto de objetos reais concretos”.
Paisagem é "transtemporal" junta passado e presente. Espaço é sempre
presente, situação única. Paisagem seria o sistema material, relativamente imutável;
espaço é sistema de valores, que se transforma permanentemente.
É conceito operacional que nos permite analisar o espaço geográfico sob a
conjunção de elementos naturais e tecnificados, sócio-econômicos e culturais. Ao
optarmos pela análise geográfica a partir da paisagem, poderemos concebê-la enquanto
forma (formação) e funcionalidade (organização), percebendo-a como processo de
constituição e reconstituição de formas na sua conjugação com a dinâmica social.

TERRITÓRIO
Considera o espaço geográfico a partir do político ou dominação-apropriação,
vinculado ao domínio de determinada área, centrada na identidade nacional.
Para Álvaro Heidrich: "a diferenciação do espaço em âmbito histórico tem
início a partir de sua delimitação, isto é; por sua apropriação como território; em parte
determinado pela necessidade e posse de recursos naturais para a conquista das
condições de sobrevivência, por outra parte, por sua ocupação física como habitat. Neste
instante, na origem, a defesa territorial é exercida diretamente pelos membros da

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coletividade. Noutro, com o Estado, há população fixada territorialmente e socialmente
organizada para produção de riquezas, cada indivíduo não mantém mais relação de
domínio direto e repartido com o restante da coletividade sobre o território que habita.
Historicamente, associa-se a idéia de natureza e sociedade configuradas por
limite de extensão do poder. Hoje, fala-se em complexidades territoriais, entendendo-o
como campo de forças, ou "teias ou redes de relações sociais". Segundo Souza, não há
possibilidade de conceber " superposição absoluta entre espaço com seus atributos
e o território como campo de forças”, pois "territórios são relações sociais
projetadas no espaço". Por conseqüência, estes espaços concretos podem formar-se
ou dissolverem-se de modo muito rápido.
Essa ótica analítica norteou perspectivas vinculadas à idéia de poder sobre
espaço e recursos: Estado-nação. Recentemente, esse conceito flexibiliza-se e permite
tratar de territorialidades como expressão da coexistência de grupos, por vezes num
mesmo espaço físico em tempos diferentes. Trata-se de dimensão do espaço que
desvincula as relações humanas e sociais de relação direta, extraindo a necessidade de
domínio dos recursos naturais, como expressa-se na concepção clássica de território. A
natureza, enquanto recurso associado ao território, não é mais necessária.

LUGAR
O lugar consistiria, a partir da Cartografia, a expressão do espaço geográfico
na escala local; a dimensão pontual. Recentemente, o lugar é resgatado na Geografia e
passa a ser analisado de forma mais abrangente. Para Milton Santos, lugar constitui a
dimensão da existência que se manifesta através "de cotidiano compartido
entre as mais diversas pessoas, instituições, cooperação e conflito na base da
vida comum". Nos remete a reflexão de nossa relação com o mundo. Para Santos esta
relação era local-local agora é local-global, tendo muita força no contexto atual.
O conceito de lugar induz a análise geográfica a outra dimensão - a da
existência, para Santos: "refere-se ao tratamento geográfico do mundo vivido". De
um lado, se singulariza a partir de visões subjetivas vinculadas a percepções emotivas, a
exemplo do sentimento topofílico (experiências felizes). Implica em compreender o lugar
através de nossas necessidades existenciais, localização, posição, interação com objetos
e/ou pessoas. Identifica-se com a nossa corporeidade e, a partir dela, o nosso estar no
mundo, no caso, a partir do lugar como espaço de existência e coexistência.
Pode ser trabalhado na perspectiva de mundo vivido, que leve em conta
outras dimensões do espaço, conforme se refere Santos, quais sejam os objetos, as
ações, a técnica, o tempo. Santos se refere ao lugar, dizendo: "no lugar, nosso
próximo, se superpõe, dialeticamente ao eixo das sucessões, que transmite os
tempos externos das escalas superiores e o eixo dos tempos internos, que é o
eixo das coexistências, onde tudo se funde, enlaçando definitivamente, as
noções e as realidades de espaço e tempo".
Resulta daqui sua visão de mundo vivido local–global. Para o autor, o lugar
expressa relações de ordem objetiva em articulação com relações resultantes do poder
hegemônico, imbricadas com relações horizontais de coexistência e resistência.

AMBIENTE
Em seu período inicial, referia-se a Geografia não ao ambiente, mas ao meio,
e sua origem histórica está vinculada à biologia. Em seu desenvolvimento assume a
concepção "de unidade de diversas manifestações entre si relacionadas, sistema,
nos termos que o estruturalismo o redefiniu, organismo".

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Pode ser lido como algo externo ao homem, cuja preocupação seria
estudar o funcionamento dos sistemas naturais. Ou, incluir o homem, neste caso "em
única esfera cuja chave principal é constituída por processos naturais". A idéia de
ambiente elimina "a tensão essencial qual seja a de ser o homem sujeito".
O Ambiente contrapõe-se à paisagem, embora tenha se transformado no
tempo e apropriada por outras definições como meio, habitat e ecossistema, designando
o mundo exterior ao homem. Na atualidade, a ótica ambiental, na perspectiva naturalista
apóia-se em conceitos que não dimensionam a tensão sob as quais se originam os
impactos. A Geografia tem pensado o ambiente diferentemente da Ecologia, nele o
homem se inclui não como ser naturalizado, mas como ser social produto e produtor.

DOMÍNIOS MORFOCLIMÁTICOS

CARACTERÍSTICAS GERAIS
Os domínios morfoclimáticos brasileiros são definidos a partir das
características climáticas, botânicas, pedológicas, hidrológicas e fitogeográficas. Com
esses aspectos é possível delimitar seis regiões. Devido à extensão territorial do Brasil o
geógrafo Aziz Ab’Sáber (1970), dividiu o Brasil em seis domínios:
I. Amazônico – norte, terras baixas e grande processo de sedimentação; clima e
floresta equatorial;
II. Cerrados – região central, vegetação tipo cerrado e inúmeros chapadões;
III. Domínio dos Mares de Morros – região leste (litoral brasileiro), onde se encontra a
floresta Atlântica que possui clima diversificado;
IV. Caatinga – nordeste (polígono das secas), de formações cristalinas, área depressiva
intermontanhas e de clima semi-árido;
V. Mata de Araucária – sul, área do habitat do pinheiro brasileiro (araucária), região de
planalto e de clima subtropical;
VI. Pradarias – sudeste gaúcho, local de coxilhas subtropicais.

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A origem do mosaico botânico brasileiro é resultado da expansão e retração
das florestas, cerrados e caatingas provocada pela alternância de climas úmidos e secos
nas regiões tropicais, durante os períodos glaciais do Quaternário. As florestas tropicais e
outras formações abertas já existiam desde o inicio da era Pleistocênica e não foi
destruído por geleiras, como no hemisfério norte. No sul, as glaciações modificaram a
distribuição de umidade, provocando a desintegração de espaços contíguos e
favorecendo a expansão de vegetação de clima mais seco.

AMAZÔNIA
Situação Geográfica: Situado a norte, o domínio Amazônico é a maior
região morfoclimática do Brasil, com uma área de aproximadamente 5 milhões km² –
equivalente a 60% do território – abrangendo Amazonas, Amapá, Acre, Pará, Maranhão,
Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso. Fora do Brasil, estende-se pela Guiana
Francesa, Suriname, Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia. A floresta pluvial que cobre a
região tem seus limites definidos pela caatinga do Nordeste. A partir dos cerrados do
Centro-Oeste, a floresta separa-se por uma extensa faixa de matas secas.
Características do Povoamento: pouco povoada, devido a grande extensão
territorial e dos difíceis acessos ao interior. O governo em 1970, realizou o programa de
ocupação populacional na região amazônica, com migrações oriundas do nordeste. A
extração da borracha permitiu desenvolver área, antes inóspita economicamente, numa
região de alta produtividade. Nessa época, muitas cidades foram afetadas com o
crescimento gerado pelo capital. O governo continuou auxiliando e orientando o
desenvolvimento da região e incorpora em Manaus a Suframa (Superintendência da Zona
Franca de Manaus) que trouxe indústrias transnacionais. Outros projetos instalados pelo
governo federal na região amazônica, como:
• Projeto Jarí - na década de 60, o empresário norte-americano Daniel Ludwig
comprou na região área de 1.600.000ha. Com incentivos do Governo, explorou os
minérios da região de caulim (um tipo de argila) e agropecuários: plantação de
árvores para corte, arroz, criação de búfalos etc. Em 1982, o Projeto foi
nacionalizado, e vendido a brasileiros. Contemplava produtos como a celulose. A
necessidade de abastecer a fábrica levou a construção de Estrada de Ferro;
• Programa Calha Norte - programa desenvolvido para proteger a faixa de
fronteira na Amazônia, pouco despovoada. Criado em 1985, atende à necessidade
de promover a ocupação e o desenvolvimento ordenado da Amazônia, respeitando
as características regionais, as diferenças culturais e o meio ambiente, em
harmonia com os interesses nacionais. Em conjunto com outras ações de
segurança, melhorar as condições de saúde, educação, saneamento básico,
transporte, energia e comunicações dos núcleos mais carentes da região norte,
proporcionado melhoria na qualidade de vida. Também visa aumentar o Poder
Estatal Brasileiro na região, atuando de forma direta na manutenção da soberania
nacional, inibindo a proliferação de ações ilícitas e servindo de núcleo de
colonização e de apoio às comunidades mais pobres;
• SIVAM - é rede de coleta e processamento de informações de caráter cooperativo
entre as agências governamentais. Cobre 60% de todo território nacional. Região
de diversidade de fauna e flora, reservas de minério e um dos maiores mananciais
de água doce do planeta. Desde julho de 2002, com a inauguração do SIVAM,
está em operação uma imensa rede de monitoramento e controle do espaço
aéreo. Composto de satélites, radares fixos e móveis, Centros de Vigilância

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Regionais (Manaus, Belém e Porto Velho), estações de monitoramento ambiental
e meteorológico, aviões EMB-145 e ALX. Apesar do custo de US$ 1,4 bilhão, é
relevante para o controle de queimadas, deflorestamento, garimpo, contrabando
de armas e drogas e à invasão do espaço aéreo, com rotas não autorizadas. O
SIVAM não é apenas projeto militar, mas foi idealizado com objetivos definidos:
estabelecer a presença do Estado nas comunidades, controlar o tráfego aéreo
interligado com o Cindacta, proteção do meio ambiente, monitoramento das
navegações, atualização de mapas, vigilância das fronteiras, etc.
• PoloNoroeste - Abrangeu a área de influência da rodovia BR-364, entre Cuiabá
(MT) e Porto Velho (RO), e teve como objetivos contribuir para a maior integração
nacional. Visa promover a adequada ocupação demográfica da região noroeste do
Brasil, aumentar a produção e renda de sua população; reduzir as disparidades
de desenvolvimento intra e inter-regionais. Dentre as ações do programa, incluiu-
se a implantação de dezenas de projetos de colonização agrícola, como o de
Machadinho, visando o assentamento de pequenos agricultores sem-terras;
• Grande Carajás - Em 1980 foi implantou projeto de exploração do minério de
ferro, com o nome de Projeto Grande Carajás, e deu início, em 1987, à construção
da hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins; e
• Poloamazônia – de estimulo à produção agropecuária e extrativa mineral em
faixas da Amazônia oriental.
Características Bio-Hidro-Climáticas e Fisiográficas: Maior bacia
hidrográfica do mundo. Dois tipos de estações flúvio-climáticas: a estação das cheias e a
da seca, porém esta última não interrompe o processo pluviométrico, só que em índices
diferentes. O Clima equatorial de temperatura estável ao longo do ano. É floresta
equatorial de frágil equilíbrio. Devido à existência de inúmeros rios, a região sofre muita
sedimentação fluvial e detém altas taxas de umidade. Solo não rico, mas a precipitação
torna este domínio riquíssimo em floresta hidrófita e não o solo, que sofre com a
lixiviação. A diversidade da flora não deve ser confundida como potencialidade agrícola,
pois com a retirada da vegetação transformam o solo em alvo da erosão Os tipos de
matas encontradas: igapó – regiões inundadas; várzea –regiões inundadas ciclicamente
e de terras altas – dificilmente inundadas. A rede hidrográfica é fonte de potencialidade
econômica, pois seus leitos fluviais são de grande piscosidade, o que torna a área num
importante atrativo para o turismo e a população ribeirinha. O transporte existente é
influenciado pela rede hidrográfica, enquanto que o rodoviário é quase inexistente.
Condições Ambientais e Economicamente Sustentáveis: Devastação
ambiental na Amazônia – queimadas, desmatamentos, extinção de espécies, exploração
descontrolada, indústrias mineradoras e a agricultura tornam áreas de vegetação em
solos de fácil erosividade. São poucas as atividades econômicas que não agridem a
natureza. A extração da borracha, por exemplo, era uma economia viável
ecologicamente, pois necessitava da floresta para o crescimento das seringueiras.
Novo Significado do Patrimônio Natural da Amazônia: desafio do
Contexto Sócio-Econômico e Político Contemporâneo. Em nível global: revalorização da
natureza decorrente da crise ambiental, da revolução científico-tecnológica e da
mercantilização de novos elementos (ar, vida, água); Em nível nacional: retomada do
crescimento econômico com inclusão social e conservação ambiental; Em nível regional:
a Amazônia como região em si, e não mero espaço de expansão da fronteira.
Conseqüências dos projetos Agroindustriais: destruição da
biodiversidade; destruição do solo pela retirada da floresta; mudanças climáticas

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aumentam a evapotranspiração e extresses e doenças trazidas pelas monoculturas.

CERRADO
Situação Geográfica: Formado pela vegetação de cerrado, onde encontram-
se as formações de chapadas ou chapadões como a Chapada dos Guimarães e dos
Veadeiros. A fauna e flora ali são de grande exuberância, tanto para pontos turísticos,
como científicos. É da região do cerrado as três nascentes das principais bacias
hidrográficas brasileiras: a Amazônica, a São-Franciscana e a do Paraná.
Localizado na região central do Brasil detém uma área de 45 milhões de
hectares, sendo o segundo maior domínio por extensão territorial. Incluindo neste espaço
os Estados: do Mato Grosso, do Mato Grosso do Sul, do Tocantins (sul), de Goiás, da
Bahia (oeste), do Maranhão (sudoeste) e de Minas Gerais (noroeste).
Características do Povoamento: Devido a sua localização, o povoamento e
a ocupação eram fracos até iniciarem os programas de políticas de interiorização do
desenvolvimento nos anos 40 e 50, e da política de integração nacional dos anos 70. A
primeira é baseada na construção de Brasília e a segunda, nos incentivos aos grandes
projetos agropecuários e extrativistas, além de infra-estrutura, estradas e hidroelétricas.
Com estes recursos, a região vem a atrair investidores e mão-de-obra, e
conseqüentemente ocorre um salto no crescimento populacional de cada Estado.
Características: Centrada no planalto, é dividido pelas formações de
chapadas que ali existem, com mais de 500 metros de altura, da era Pré-Cambriana,
limitam o planalto central e as planícies – como a Pantaneira. Flora única, constituída por
árvores tortuosas e de aspecto seco, devido à composição do solo, deficiente em
nutrientes e altas concentrações de alumínio. Dois períodos sazonais de precipitação,
seco e chuvoso. Com sua vegetação rasteira e de campos limpos, o clima tropical
existente nesta área, condiz a uma boa formação e um ótimo crescimento das plantas. O
solo formado por latossolos, areais quartzosas e podzólicos. Apresenta características à
fácil erosividade devido às estações chuvosas e degradação ambiental descontrolada.
Condições Ambientais e Ecologicamente Sustentáveis: O cerrado atraiu
muita atenção para a agricultura (dependente de correção com fertilizantes). Tornou-se
região de grande produção de grãos como a soja. Boa adaptação dos gados zebu e
nelore. Nesse sentido, a criação de reservas bio-ecológicas. Ativa exploração mineral,
como o ouro e o diamante, fonte de devastação à natureza.

MATA ATLÂNTICA
Primeiro nome dado à vegetação que separava o mar das terras interiores.
Hoje, é nome genérico à grande variedade de matas tropicais úmidas que ocorrem de
forma azonal nas regiões costeiras. O mecanismo de distribuição da umidade da MPA é
responsável pela sua exuberância e diversidade. É fisionomicamente semelhante a
Amazônica, o que sugere comunicação em tempos remotos.
Domínio da Mata Atlântica, Florestas, Campos Meridionais e Zonas Litorâneas.
Ocupada pelo caipira, o gaúcho e o caiçara, depois pelos colonos europeus. É a região
mais industrializada. As florestas cobriam 90% desse território, hoje ocupam apenas 5%.
Possui solos de boa qualidade e lençóis freáticos que foram aproveitados para diversas
culturas em esquemas predatórios (pequeno interesse em recompor o meio produtivo).
A dilapidação da cobertura florestal: Diminui a matéria orgânica e a
umidade do solo, o volume dos mananciais de água, o controle biológico natural e o
fornecimento de materiais e serviços para as populações locais; Causou êxodo rural e
problemas sociais nas áreas urbanas; Contribui para o desajuste climático global.

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Ciclos de ocupação. A ocupação ocorreu em ciclos: milho e culturas nativas,
trigo e culturas importadas, cacau, cana-de-açúcar, café e criação extensiva de gado.
Recentemente se incorporaram uva, cítricos, soja, suinocultura e piscicultura. A erosão
do solo agrícola foi alta demais, sobretudo nas culturas que o deixam descoberto e onde
existem declives. Áreas com solos profundos ainda permitem culturas predatórias.
Problema: os Agrotóxicos: A soja, a cana-de-açúcar e outros cultivos da
“revolução verde” demandam volumes crescentes de fertilizantes químicos e agrotóxicos.
Outro problema: Contaminação: A produção de álcool gera 14 litros de
vinhoto por litro de etanol. É reciclada boa parte, mas, no passado, causou graves
desastres nos rios. Perde-se 50% dos insumos nos lençóis freáticos. A suinocultura do
Oeste de Santa Catarina despeja diariamente 8,8 milhões de metros cúbicos de esterco
líquido nos córregos e rios da região, volume equivalente aos dejetos de uma metrópole.
Agricultura dependente: A agricultura “dita moderna” depende de insumos
externos: fertilizantes químicos solúveis e agrotóxicos (inseticidas, acaricidas, fungicidas,
herbicidas). O consumo destes produtos está em escalada exponencial e há grandes
interesses em jogo. O uso de agrotóxicos no Brasil aumentou 276% frente a um
crescimento de 76% da área plantada. A venda de agrotóxicos em 1990 foi de um bilhão
de dólares. Em menos de dez anos o valor dobrou: 2,2 bilhões de dólares em 1997.
Consciência e Busca de soluções: Com o fim dos subsídios ao crédito, os
agricultores perceberam a insustentabilidade econômica e ambiental das técnicas
embutidas no “pacote tecnológico” da “Revolução Verde”. Iniciou-se assim um processo
de transição para uma agricultura menos dependente de insumos externos e menos
predatória dos recursos naturais. As principais escolas de agricultura alternativa são
denominadas “orgânica”, “biodinâmica”, “ecológica”, “natural” e podem ser englobadas
na proposta geral da Agroecologia.
As propostas de preservação compreendem o plantio direto, adubação
verde, manejo integrado de pragas, uso de resíduos agrícolas, comitês de planejamento
de bacia, co-geração de energia, fim das queimadas, manejo integrado de pragas.
Manutenção da diversidade cultural, integração de produção vegetal e animal, rotação de
culturas, fixação biológica de nitrogênio. Implementar sistemas integrados de produção
de alimentos e energia, agricultura familiar, integração vertical, mecanismos de
solidariedade. E o tratamento de resíduos industrias e resíduos urbanos tratados

CAATINGA
No tupi significa Mata Branca, é predominante no Nordeste. São matas secas,
abertas, deciduais, que se desenvolvem em clima cuja estação de chuvas é bem marcada
e cujo volume anual de umidade está abaixo de 700mm. Seu desenvolvimento se dá sob
um solo fértil que pode ser arenoso ou pedregoso (litossolos). A falta de água não é
constante em toda a região. Algumas recebem 1100mm ano, embora sejam
concentradas em alguns meses. No polígono das secas, a média anual chega a 350mm.
É mosaico de coberturas vegetais que formam uma diagonal que separa as
duas florestas tropicais do Brasil (Amazônica e Atlântica). Apresenta alta perda de água
por evaporação que pode chegar a 1800mm anuais. Compreende a Mata Seca, que perde
folhas durante a seca (xeromórficas). As caatingas arbustivas são mais raras e as
cactáceas são representativas. Apesar das condições, são ricas em espécies frutíferas,
plantas para fibra vegetal, ceras e óleos.

MATA DE PINHAIS

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Situação Geográfica: Encontrado desde o sul paulista até o norte gaúcho, o
domínio das araucárias ocupa uma área de 400.000 km².
Características do Povoamento: A região foi povoada, no final do século
XIX, por imigrantes italianos, alemães, poloneses, ucranianos, que diversificaram a
economia local e tornou essa região uma das mais prósperas economicamente.
Características Bio-Hidro-Climáticas e Fisiográficas: Atualmente, a
vegetação é escassa e ausente em algumas áreas. A condição de arbórea, geralmente
com mais de 30 m de altura, condiz a solo profundo, em virtude de suas raízes
estabelecerem a sustentação da própria árvore. A região das araucárias encontra-se no
planalto meridional onde a altitude pode variar entre 500 e 1.200 m. Isso evidencia um
clima subtropical em toda sua extensão com boa precipitação nesse domínio, variando de
1.200 a 1.800 mm. A região identifica-se com uma grande rede de drenagem em toda a
sua extensão territorial. O solo é formado principalmente por latossolos brunos e roxos,
cambissolos, terras brunas e solos litólicos. Detém uma alta potencialidade agrícola,
como: milho, feijão, batata, etc. As morfologias do relevo se destacam por uma forte
ondulação até um montanhoso, o que o representa num solo de fácil adesão a processos
erosivos, iniciados pela degradação humana e social.
Condições Ambientais Sustentáveis: Hoje a araucária é protegida por lei.
Mas os questionamentos ambientais não estão somente na vegetação. Devido a
utilização, há anos vêem sofrendo com erosão. Compreende uma importante área no sul
brasileiro, a qual detém nível de conservação e reestruturação vegetal de importância.

CAMPOS SULINOS
Situação Geográfica: Situado ao extremo sul brasileiro, mais exatamente a
sudeste gaúcho, o domínio morfoclimático das pradarias compreende uma extensão,
segundo Ab’Saber, de 80.000 km² e de 45.000 km² de acordo com Fontes & Ker – UFV.
Características do Povoamento: Território da cultura gauchesca.
Caracterizado por baixo povoamento, destaca-se pelos latifúndios agropastoris, que são
até hoje marcas conhecidas dos pampas gaúchos. Os jesuítas iniciaram o povoamento
com a catequização dos índios e posteriormente surgem as povoações de charqueadas.
Passando por bandeirantes e tropeiros, as pradarias estagnam esse processo (ciclo do
charque) com a venda de lotes de terras para militares, pelo governo federal.
Características Bio-Hidro-Climáticas e Fisiográficas: Área chamada de
pradarias mistas, o solo condiz ao mesmo. Segundo Ab’Saber, que o caracteriza como
diferente dos outros domínios morfoclimáticos, existindo o paleossolo vermelho e o claro.
Denominado um solo jovem, guarda materiais ferrosos e primários, de coloração escura.
Estabelecido por um clima subtropical com zonas temperadas úmidas e sub-úmidas, a
região é sujeita a sofrer alguma estiagem durante o ano. Sua amplitude térmica alcança
índices elevados. Evidencia suas limitações agrícolas, pois o solo é pouco espesso e têm
pedras. Assim, caracteriza-o a atividade pastoril. Com a utilização do solo sem controle,
denota-se um sério problema erosivo que origina as ravinas e posteriormente as
voçorocas. Processo amplia-se rapidamente e origina o chamado deserto dos pampas. A
drenagem existente é perene com rios de grande vazão, como: Uruguai e Ibicuí.
Condições Ambientais e Economicamente Sustentáveis: O domínio
morfoclimático das Pradarias detém importantes reservas biológicas, como a do Parque
Estadual do Espinilho (Uruguaiana e Barra do Quarai) e a Reserva Biológica de Donato
(São Borja). Há indícios de desertificação que tende a crescer anualmente, faz da região
foco de estudos e projetos para estagnar esse processo. Devido ao mau uso da terra pelo
homem, como a monocultura e as queimadas, essas podem originar as ravinas, que por

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sua vez farão surgir às voçorocas. Solo é arenoso e a morfologia do relevo é de leve
ondulação, facilitando a dispersão de areia ocasionados pela ação eólica.

ÁREAS DE TRANSIÇÃO
Encontrados entre os vários domínios morfoclimáticos brasileiros, as faixas de
transições são: as Zonas dos Cocais, a Zona Costeira, o Agreste, o Meio-Norte, as
Pradarias, o Pantanal e as Dunas. Espalhadas por todo o território nacional constituem
importantes áreas ambientais e econômicas.

TRANSIÇÃO NORDESTINA
A zona dos cocais, representa uma importante fonte de renda à população
nordestina, pois é nessa área principalmente, que se faz à extração dos cocos. A zona
costeira detém outra característica, é uma importante região ambiental, onde se
encontra a vegetação de mangue, que constitui um bioma riquíssimo em decomposição
de matéria. Outra faixa de transição é o agreste, que é responsável pela produção de
alimentos, como: leite, aves, sisal, entre outras matérias primas para indústrias. No
litoral cearense encontram-se as dunas, que é uma região de montantes de areias
depositados pela ação dos ventos e de constante remodelação. O meio-norte se
estabelece entre a caatinga do sertão e a Amazônia (Maranhão e Piauí). Com uma
diversidade de vegetação, o meio-norte detém economia na pecuária bovina e na criação
do jegue. A carnaúba e o óleo de babaçú são outras fontes de extrativismo.

TRANSIÇÃO DA REGIÃO SUL BRASILEIRA


Na região sul, encontra-se a zona de transição das Pradarias, que se situa
entre os domínios morfoclimáticos da Araucária e das Pradarias. São geralmente campos
acima de serras e são encontradas vegetações do tipo araucárias, de campo, floresta e
cerrado. Assim, os sistemas naturais situados nessa região, são de fundamental
importância para o meio natural envolvente a ela.

PANTANAL
O pantanal é uma das principais zonas de transição no Brasil. Compreende
grande diversidade de fauna e flora. Situado em regiões serranas e em terras altas, o
pantanal é considerado grande reservatório de água, por encontrar-se numa depressão
entre várias montanhas. Sua rede fluvial é composta por rios como o Cuiabá e Taquari,
considerados perenes. Como o pantanal passa por duas estações climáticas durante o
ano, a seca e as cheias dos rios, essa região detém características e denominações
únicas, como: “cordilheira” – que significa áreas mais altas, onde não sofrem
alagamentos; salinas – regiões deprimidas que se tornam lagoas rasas e salgadas com
as cheias dos rios; barreiros – depósitos de sal após a seca das salinas; caixas – canais
que ligam lagoas, existindo somente durante as inundações; e vazante – cursos d´aguas
existentes durante as chuvas. Sofre conseqüências ambientais com a exploração mineral,
que poluem intensamente os rios – considerados como os responsáveis pela existência
da biodiversidade da região. A pecuária e a utilização de enormes monoculturas fazem o
despejo de uma grande quantidade de agrotóxicos aos rios.
É importante a preservação dessas zonas de transição para a existência dos
domínios morfoclimáticos brasileiros. Eles estabelecem relação direta com a fauna, flora,
hidrografia, clima e morfologia, conservando o equilíbrio dos frágeis sistemas ecológicos.

DESERTIFICAÇÃO NO BRASIL
No documento resultante da Conferência do Rio, a Agenda 21, em seu

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capítulo 12, estabelece definição do termo desertificação, como sendo "a degradação da
terra nas regiões áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas, resultante de vários fatores,
entre eles as variações climáticas e as atividades humanas". Por degradação da terra
compreende-se a degradação dos solos, dos recursos hídricos, da vegetação e a redução
da qualidade de vida das populações afetadas.
Há dois tipos de desertificação: a climática (redução progressiva de chuvas,
associadas a fatores como alterações na temperatura da água dos oceanos) e a ecológica
(verifica-se quando os ecossistemas perdem sua capacidade de se regenerar; a fauna
reduz-se e o solo empobrece e, normalmente, conta com colaboração humana).
No Brasil, as áreas susceptíveis são aquelas que correspondem às regiões
semi-árida e sub-úmida seca, localizadas em sua grande maioria na Região Nordeste e
no norte do Estado de Minas Gerais e na região sudoeste do Rio Grande do Sul. Três
pontos do semi-árido revelaram índices crescentes de desertificação: interior do Ceará,
baixo São Francisco e a vertente interiorana da Chapada diamantina. No Rio Grande do
Sul houve caso típico de desertificação quando a prática agrícola sistemática em áreas de
arenitos expôs as rochas matrizes, dando origem a extensos areais e campos de dunas.
A desertificação provoca impactos ambientais, correspondentes à destruição
da fauna e da flora, redução da disponibilidade de recursos hídricos e perda física e
química dos solos. Esses impactos ambientais geram uma perda considerável da
capacidade produtiva; Sociais, provocando migrações que se incorporam nas cidades; e
Econômicos, com a destruição de solos agriculturáveis.
O Brasil faz parte do programa de combate a desertificação, tanto
internacionalmente: Programa de Combate à Desertificação na América do Sul, com
apoio do BID, e Convenção Internacional das Nações Unidas de Combate à
Desertificação – UNCCD, ratificada no Brasil desde 1996. E internamente desenvolve o
Projeto Áridas e o Programa Nacional de Combate à Desertificação - PNCD.

HIDROGRAFIA DO BRASIL
São originadas em sistemas naturais de drenagem de águas, que, obrigadas
pelos divisores de águas do relevo, escoam em direção descendente, acaba dando
estrutura padronizada: cabeceiras (nascentes), divisores (obstáculos naturais), cursos
principais ou secundários, e foz. As bacias hidrográficas brasileiras são dependentes das
características ambientais dominantes relacionadas a precipitações no espaço e no
tempo, tipo de geologia, solo dos terrenos e formas de ocupação que contribuem para o
fornecimento de sedimentos para os rios.Tem como características gerais:
a) Existem três centros dispersores de água: O Planalto das Guianas (lado
esquerdo do Amazonas), a Cordilheira dos Andes (rio Amazonas) e Planalto
Brasileiro, com subunidades Paraná, Paraguai, São Francisco, Parnaíba, etc.
b) O território brasileiro é pobre em formações lacustres (lagos), em virtude de
sua estrutura geológica, diferente de lagos tectônicos ou glaciares encontrados
no resto do mundo. No Brasil, o mais comum são lagos de barragem,
originados da acumulação sedimentar de rios ou mar, como dos Patos e Mirim.
c) Quanto à foz, há predominância de estuário e são poucos os que formam delta
como os rios Parnaíba e Piranhas, a foz do Amazonas é mista.
d) Além dos rios perenes, possui rios temporários, encontrados no clima semi-
árido do Polígono das secas.
e) Predomina os rios de planalto com regime pluvial, na qual as cheias e
estiagens dependem da estação chuvosa e seca.

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BACIA AMAZÔNICA
Maior bacia fluvial do mundo, compreende 56% do Brasil. Estende-se da
cordilheira Andina e avança por todo o norte do Brasil. Em virtude de seus afluentes
estarem nos dois hemisférios possui um duplo período de cheias. O rio Amazonas é um
típico rio de planície, com desnível de apenas 60m no Brasil. A Bacia tem grande
potencial hidráulico proveniente dos afluentes do rio principal, que são de planalto. O Rio
apresenta o fenômeno da pororoca, quando marés quebram o equilíbrio e penetram o
vale fluvial. O rio Amazonas e seus tributários oferecem boa condição para a navegação,
e a vida, comunicação e transportes na região dependem dos rios.
O Rio Tocantins não é afluente do Amazonas, mas pertence à bacia por desaguar
na Foz. Com nascente em Goiás, o principal afluente é o Araguaia.

BACIA PLATINA
Segunda maior bacia do mundo, compreende os rios Paraná, Uruguai e
Paraguai, ocupa 16,4% do Brasil.
Paraná – Maior das três bacias. Possui a maior potencia instalada de energia
elétrica, nos rios Paraná, Grande, Paranaíba, Tietê e Paranapanema, e, portanto,
navegação difícil, mas algumas das usinas hidroelétricas possuem eclusas. Regime
dependente das chuvas de verão.
Paraguai – Formada por rios de planície, nas na serra do Araporé (MT),
atravessa a depressão do Pantanal e nas épocas das cheias inunda uma vasta área.
Desemboca no Rio Paraná, próximo a Corrientes. Possui regime tropical com cheias
violentas. É navegável e por ele são escoados muitos produtos, destacando-se o
manganês, portanto de pequeno potencial hidroelétrico,
Uruguai – Drena 2% do Brasil, de regime subtropical, com duas cheias e duas
vazantes anuais, é utilizado para navegação e possui pequeno potencial hidroelétrico.

21
BACIA SÃO FRANCISCO
Com 2.800 km de extensão, nasce na Serra da Canastra, desemboca entre
Sergipe e Alagoas. Apresenta dois estirões navegáveis: o médio, com cerca de 1.371 km
de extensão, entre Pirapora(MG) e Juazeiro/Petrolina (dividido em trechos) e o baixo,
com 208 km, entre Piranhas(AL) e a foz, no Oceano Atlântico.
Atravessa regiões com condições naturais diversas. As partes extremas
superior e inferior da bacia apresentam bons índices pluviométricos, enquanto os seus
cursos médio e sub-médio atravessam áreas de clima bastante seco. Assim, cerca de
75% do deflúvio do São Francisco é gerado em Minas Gerais, cuja área da bacia ali
inserida é de apenas 37% da área total. A área entre a fronteira Minas-Bahia e a cidade
de Juazeiro, representa 45% do vale e contribui com apenas 20% do deflúvio anual.
Os aluviões recentes, os arenitos e calcários, que dominam boa parte da bacia
de drenagem, funcionam como esponjas ao reterem e liberarem as águas nos meses de
estiagem, a ponto que, em Pirapora, o mínimo se dá dois meses após o mínimo pluvial.
À medida que penetra na zona semi-árida, apesar da intensa evaporação, da
baixa pluviosidade e dos afluentes temporários da margem direita, tem seu volume
d'água diminuído, mas mantém-se perene, graças ao mecanismo de retroalimentação. As
condições pluviométricas, no baixo curso, diferem dos cursos anteriores. No baixo vale os
meses mais chuvosos são de maio a julho. A estiagem perdura de setembro a fevereiro.
No médio e alto vales as maiores precipitações vão de novembro a março.
A hidrovia do São Francisco é interligada por ferrovias e estradas aos centros
econômicos do Sudeste, e faz parte do Corredor de Exportação Centro-Leste. Ao norte,
nas cidades vizinhas a Juazeiro e Petrolina, a hidrovia está ligada às capitais do
Nordeste. O porto mais importante é o de Pirapora(MG), interligado aos portos fluviais e
marítimos.
Em grande parte do vale as áreas mais propícias ao aproveitamento agrícola
situam-se às margens do mesmo. Por esse motivo a maior parcela da população do vale
se encontra nas proximidades do rio.

PROGRAMA DE TRANSPOSIÇÃO
Para enfrentar os problemas da regiã, foi criado o Programa Conviver, com o
objetivo de dinamizar a economia; oferecer infra-estrutura hídrica; viabilizar a melhor
convivência da população com a região. O destaque é o projeto de transposição, que
evoluiu para a integração de bacias hidrográficas, aliada à revitalização.
Foram desenhados dois eixos: Norte e Leste. No Norte, a água aumentará a
vazão das bacias locais, estimulando a produção agrícola dos seus vales férteis e a
melhoria da manutenção dos açudes da Região. No Eixo Leste serão beneficiados os
Estados de Pernambuco e da Paraíba, mediante o aumento da vazão da Bacia dos Rios
Moxotó, Ipojuca e Paraíba. A água será utilizada pela população urbana e pela indústria
(cuja capacidade de pagamento possibilita o retorno econômico do investimento).
A transposição associa-se às ações de revitalização, diante da necessidade de
recuperar e ampliar a sua disponibilidade hídrica. Articulam-se atividades de
recuperação, conservação e preservação ambiental, a melhoria das condições sócio-
ambientais da Bacia e o aumento da quantidade e da qualidade das águas. A
coordenação da revitalização, gerida pelo MMA, em função da transversalidade do tema,
conta também com a contribuição do MIN, responsável direto.
A viabilidade econômica justifica-se com a redução das despesas públicas com
gastos emergenciais e assistenciais às populações, decorrentes da seca. Ressalta-se a
redução das migrações para os grandes centros, a elevação da qualidade de vida, a

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redução de gastos com a saúde pública e a abertura de perspectiva de desenvolvimento.

BACIAS SECUNDÁRIAS
BACIA DO NORDESTE - 10% do território, com rios perenes e temporários. Os
rios permanentes abrangem o Maranhão e Piauí. Nas várzeas pratica-se a rizicultura e
extração de babaçu. Os temporários são de regime semi-árido e secam na estiagem.
BACIA DO LESTE - 6% do território, vai de Sergipe até São Paulo. Rios
temporários no alto e médio curso, como o Paraguaçu e Pardo. Predominam rios de
planalto, mas de pequeno potencial elétrico. O Rio Doce no SE atravessa região rica em
minério e agropecuária.
BACIA DO SUL - Abrange 2,5% do território, de São Paulo até o Rio Grande
do Sul. Pequeno potencial hidroelétrico, em alguns trechos a navegação é possível.

PRINCIPAIS HIDROVIAS
Hidrovia do Madeira - (Corredor Oeste-Norte) – É navegável numa
extensão de 1.056 km, entre Porto Velho e sua foz, no rio Amazonas, permitindo, mesmo
na estiagem, a navegação de grandes comboios, com até 18.000 t. Os investimentos na
hidrovia, compreendem dragagens, derrocamentos, balizamento e sinalização.
Atualmente, cerca de 2 milhões de t/a de cargas já são transportados pelo rio Madeira.
Hidrovia do Guamá-Capim (Corredor Araguaia-Tocantins) - A hidrovia
Guamá-Capim é um importante corredor de transporte de minérios provenientes das
jazidas de caulim e de bauxita. Hoje, observa-se a formação de relevantes pólos
agropecuários, na região de Paragominas. A hidrovia está sinalizada e dragada, com
expectativa de movimentar 2 milhões t/a.
Hidrovia do São Francisco (Corredor São Francisco) - O rio é totalmente
navegável em 1.371 km, entre Pirapora(MG) e Juazeiro(BA)/Petrolina(PE), para a
profundidade de projeto de 1,5 m, quando da ocorrência do período crítico de estiagem.
Sem saída para o Atlântico, o rio São Francisco tem seu aproveitamento integrado ao
sistema rodo-ferroviário da região. A partir da implantação do sistema multimodal, o
escoamento da produção agrícola do oeste da Bahia, com foco na cidade de Barreiras, é
realizado por rodovia até a cidade de Ibotirama na margem do São Francisco, descendo o
rio pelo transporte hidroviário até Juazeiro/Petrolina, e deste, por ferrovia, para o Porto

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de Aratú (BA). A barragem de Sobradinho, cuja transposição é realizada através de
eclusa. A movimentação anual fica em torno de 60.000 t/a.
Hidrovia Tietê-Paraná (Transmetropolitano do Mercosul e Sudoeste) -
A hidrovia Tietê-Paraná permite a navegação em extensão de 1.100 km entre Conchas
no rio Tietê e São Simão(GO), rio Paranaíba até ltaipu, atingindo 2.400 km navegáveis.
Ela já movimenta mais de um milhão de toneladas de grãos/ano, a distância média de
700 km. Computadas as cargas de pequena distância como areia, cascalho e cana de
açúcar, a movimentação no rio Tietê aproxima-se de 2 milhões de toneladas.
Hidrovia do Paraguai(Corredor do Sudoeste) - Sistema de transporte de
utilização tradicional e natural, que conecta o interior da América do Sul com os portos
de águas profundas no curso inferior do rio Paraná e da Prata. Com 3.442 km de
extensão, desde Cáceres até o estuário do rio da Prata. As principais cargas
transportadas no Brasil são: minério de ferro, manganês e soja. Os fluxos de carga vêm
crescendo, respondendo à expectativa de interação comercial, e tem como principais
portos: Cáceres, Corumbá e Ladário, além de três terminais privados expressivos. O
trecho da hidrovia Paraguai/Paraná pode ser dividido em dois segmentos, devido às
peculiaridades de calado e formação dos comboios. Por 3 meses ao ano, a navegação no
trecho sofre limitações, e os comboios têm de operar com menos carga ou, em estiagens
rigorosas, deixar de navegar, principalmente, nos 150 km próximos à Cáceres. Outro
trecho é o que se estende de Corumbá até a foz do rio Apa. Faz parte da Hidrovia do Sul
as Lagoas dos Patos e Mirim, o canal de São Gonçalo que liga o rio Jacuí ao Taquari, que
constituem o estuário do Guaíba. Na Lagoa dos Patos a navegação é realizada por
embarcações fluviomarítimas, de até 5,10 m de calado, entre Rio Grande e Porto Alegre.
Hidrovias em projeto - Implantação das hidrovias do Tocantins-Araguaia e
do Tapajós. Ambas importantes para viabilização da produção agrícola da região Centro-
Oeste, encaminhada aos portos do norte do País, com grandes reduções de custos.

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PORTOS NO BRASIL

CLIMA NO BRASIL
É regulado pela dinâmica atmosférica, e obedece a modelos conhecidos.
Conforme a latitude ou estação do ano, predominam os fluxos zonais ou meridianos;
ambos impulsionados pelos grandes anticiclones estacionários. Mudança significativa do
clima supõe variação nesse arcabouço. Pode ser identificado não apenas pela
temperatura, mas pelo conjunto dos seus elementos (precipitação, ventos, umidade).
Em 1959 a Organização Meteorológica Mundial definiu o clima como “conjunto
flutuante de condições atmosféricas caracterizadas pelos estados e evolução do tempo no
curso de um período suficientemente longo, em domínio espacial determinado”. Para
entender seu mecanismo, é necessário entender o papel dos seguintes fatores:
− A água e micropartículas presentes na atmosfera influem de forma relevante;
− A forma do planeta se explica pelas diferenças de latitude, aquecimento e
circulação, portanto, pelas zonas climáticas;
− A inclinação do eixo de rotação e a translação permitem entender o ciclo anual
dos fenômenos do clima;
− Finalmente, as formas do relevo e a distribuição das terras e águas concorrem
para completar a caracterização do mosaico climático nas escalas menores.

O CLIMA COMO RECURSO NATURAL


Considera-se como recurso natural todo e qualquer componente da natureza
que o homem pode usar em seu benefício, pois é responsável pela repartição da fauna e
flora. O clima, como manifestação habitual da atmosfera em determinado ponto, é um
dos importantes recursos naturais à disposição do homem e foi considerada matéria de

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interesse comum da humanidade por decisão da ONU em 1989.
A água doce, recurso essencial, tem sua distribuição e estoques
determinados, em grande parte, pela condição do clima. A ocorrência de precipitação
anual significativa é uma das condições para se implantar uma hidroelétrica.
As práticas da agricultura têm mais sucesso quando exercida nas chamadas
áreas core dos domínios climáticos, isto é, onde suas características são bem
individualizadas. As faixas periféricas ou de transição são sempre de alto risco porque
são mal definidas e podem apresentar flutuações.
MASSAS DE AR
Brasil, pelas suas dimensões continentais, possui uma diversificação climática
bem ampla, influenciada pela sua configuração geográfica, sua significativa extensão
costeira, seu relevo e a dinâmica das massas de ar sobre seu território. Esse último fator
assume grande importância, pois atua diretamente sobre as temperaturas e os índices
pluviométricos nas diferentes regiões do país.
Em especial, as massas de ar que interferem mais diretamente no Brasil,
segundo o IBGE, são a Equatorial, tanto Continental como Atlântica; a Tropical, também
Continental e Atlântica; e a Polar Atlântica que proporciona diferenciações climáticas.

Massas de Ar que atuam no Brasil


Denominação Centro de Origem Características
mEc Equatorial Continental Noroeste da Amazônia Quente e Úmida
mEa Equatorial Atlântica Anticiclone dos Açores Quente e Úmida
mTa Tropical Atlântica Anticiclone de Santa Helena Quente e Úmida
mTc Tropical Continental No Chaco Paraguaio e Boliviano Quente e Seca
mPa Polar Atlântica Patagônia inicia fria e úmida, depois seca
Os avanços e recuos das massas é que vão determinar o clima, pois
imprimem em cada área em que passam certas características, decorrentes de suas
propriedades. As superfícies por onde se deslocam modificam suas características e
qualidades, o que acaba por transformá-la.
Massa Polar - Massa Tropical Continental - Estas massas interagem entre
si. O encontro da polar com a tropical continental é a grande causa da formação das
frentes frias. É a responsável pelas ondas de frio no centro-sul do país, gerando geadas e
neve no sul do Brasil e friagens no oeste amazônico. A frente fria que acompanha a
massa na borda frontal causa chuvas de intensidade moderada a forte, porém de rápida
duração. Os esporádicos episódios de neve na região serrana do sul ocorrem quando um
sistema de baixa pressão acompanha a massa de ar sobre a costa litorânea da região
sul. A massa pode ser de deslocamento continental e atlântica. A de deslocamento atlântico
tem sua área de influência mais restrita e normalmente atinge apenas a região sul.
Massa Tropical e Equatorial Atlântica - Quentes e úmidas. Os ventos
alísios, e a passagem de centros de alta pressão sobre o oceano fazem os ventos
voltarem-se para o continente, assim carregando umidade marítima para a faixa leste
mais próxima do litoral do Brasil, mas não causam chuvas significativas.
Massa Equatorial Continental - Originada na Amazônia central e
influenciada pela ZCIT. A instabilidade produzida é responsável pela nebulosidade sobre
a região central amazônica. O alto calor associado à umidade provoca o surgimento de
instabilidade que associadas à ZCIT provoca área de grande nebulosidade e temperatura,
que é a massa equatorial continental. Sua atuação é constante na região norte, porém
durante os meses de verão pode atingir o centro-oeste, parte do nordeste e sudeste
além de pequena área mais ao noroeste da região sul. A massa de ar provoca valores
elevados de precipitação acumulada, principalmente sobre a região norte.

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FENÔMENOS
O acompanhamento de fenômenos como as fases quentes (El Niño) e as
frias (La Niña) da Oscilação Sul são fundamentais para o País, principalmente por
causa dos diferentes impactos climáticos que ocasionam.
El Niño - É o aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico. Altera o
padrão normal de circulação atmosférica. Seus efeitos na região sul: precipitações
abundantes (primavera) e chuvas intensas de maio a julho, aumento da temperatura
média do ar. No sudeste ocorre moderado aumento das temperaturas médias. No
Centro-Oeste há a tendência de chuvas acima da média e temperaturas mais altas no sul
do Mato Grosso do Sul. No nordeste: secas de diversas intensidades no norte do
Nordeste, durante a estação chuvosa, de fevereiro a maio. No Norte ocorrem secas de
moderadas a intensas, no norte e no leste da Amazônia. Está associada a incêndios.
La Nina - É o resfriamento das águas do Pacífico. Modifica a circulação
atmosférica. Seus efeitos na região Sul: passagens rápidas de frentes frias. No Sudeste:
temperaturas abaixo da média durante inverno e verão. No Nordeste: frentes frias,
principalmente no litoral do Nordeste. No Norte: chuvas abundantes no norte e nordeste.

DOMÍNIOS CLIMÁTICOS
De acordo com a classificação climática de Arthur Strahler, predominam no
Brasil cinco grandes climas, a saber:
• clima equatorial úmido – Compreende a Amazônia e parte do Centro-Oeste.
Enorme incidência solar, grande quantidade de água e matas acrescentam muita
umidade. Nesse clima, quando o ar ascende, carrega muita umidade, que logo
condensa e retorna como chuva. Média de 24°C, exceto no Planalto das Guianas;
• clima tropical alternadamente úmido e seco, Abrange os estados de Minas
Gerais e Goiás, parte de São Paulo, Mato Grosso do Sul, parte da Bahia, do
Maranhão, do Piauí e do Ceará. É um clima tropical típico, quente e semi-úmido,
com uma estação chuvosa (verão) e outra seca (inverno);
• clima tropical tendendo a ser seco Abrange o Sertão do Nordeste, clima
tropical próximo ao árido com médias pluviométricas inferior a 1000mm. As
chuvas concentram-se num período de 3 meses. No Sertão há o encontro de
quatro sistemas atmosféricos oriundos das massas de ar mEc, mTa, mEa, mPa;

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• clima litorâneo úmido Abrange o território brasileiro próximo ao litoral. A massa
de ar que exerce maior influência nesse clima é a tropical atlântica (mTa). As
duas principais estações: verão (chuvoso) e inverno (menos chuvoso), com
médias térmicas e índices pluviométricos elevados; é um clima quente e úmido; e
• clima subtropical úmido das costas orientais e subtropicais, Abrange o
Brasil Meridional, porção localizada ao sul do Trópico de Capricórnio, com
predominância da massa tropical atlântica, que provoca chuvas fortes. No
inverno, tem freqüência de penetração de frente polar, dando origem às chuvas
frontais com precipitações devidas ao encontro da massa quente com a fria, onde
ocorre a condensação do vapor de água atmosférico. O índice médio anual de
pluviosidade é elevado e as chuvas são bem distribuídas durante todo o ano,
fazendo com que não exista a estação da seca.

RAZÕES DA SECA NO NORDESTE


O sistema atmosférico de circulação de ar é a melhor maneira de estudar os
domínios climáticos. No caso do Nordeste, o trecho semi-árido é atingido pelo ar
subsidente das Células de Walker (direção oeste-leste) e Hadley (norte-sul) no ciclo
subsidente (ar seco que desce), o que impedem que se produza ascensão de ar
indispensável à formação de nuvens. E as massas de ar úmido que a atingem acabam
provocando a chuva orogênica para a zona da mata ao chegar ao planalto da Borborema.
Os fatores não naturais são a sobrecarga que o ser humano impõe ao local,
com o desnudamento do terreno, aumentando os valores de albedo de 5 a 15%, sendo,
portanto, menor a irradiação terrestre que aquece o ar em contato com a superfície. O
excesso populacional agrava um processo de desertificação existente.
Os períodos de precipitação, existentes, mas desiguais, sugerem a existência
de mecanismo produtor de chuva. Os sistemas frontais (frentes frias) exercem influência
sobre o sistema desempenham papel importante na precipitação. Isso porque, por ser
um ar mais frio, tende ao se deslocar para o Nordeste, a provocar a ascensão de ar local,
produzindo as nuvens de chuva, processo que pode ser interrompido pelo El niño.

RELEVO NO BRASIL
O território brasileiro é formado por duas estruturas: os escudos, ou maciços
antigos, e as bacias sedimentares. Não existem, portanto os dobramentos modernos.
A base estrutural do nosso território é de natureza cristalina, São blocos de
rochas antigas, magmático-plutônicas ou metamórficas. São extensões resistentes,
estáveis, desgastados e associadas à minerais metálicos. Correspondem à 36% de nosso
território e divididos em duas porções: o escudo das Guianas, ao norte da Planície
Amazônia, e o escudo Brasileiro, na parte Centro-Oriental do nosso país, cuja grande
extensão permite dividi-lo em seis: Sul-Amazônico, Atlântico, Araguaio-Tocantins, Sul-
Rio Grandense, Gurupi e Bolívio Mato Grossense.
O restante, aproximadamente 64%, é coberta por terrenos sedimentares. São
depressões relativas, ou seja, planos mais baixos encontrados nos escudos, preenchidos
por detritos ou sedimentos das áreas próximas. Esse processo ocorre ainda hoje. Estão
associados à presença de combustíveis fósseis - o petróleo, o carvão, o xisto e o gás
natural. Constituem grandes bacias como a Amazônia, ou pequenas bacias, geralmente
alojadas em compartimentos de planaltos, como as de Curitiba, ou o Recôncavo Baiano.

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Durante muito tempo, a classificação comum do relevo brasileiro foi a
proposta do geógrafo Aroldo de Azevedo. Entretanto, em 1995, foi apresentada nova
proposta, de Jurandyr Ross, com dinâmica diferente de analisar o relevo. Confrontando-
se a proposta clássica com a nova, observam-se as seguintes diferenças:
• A classificação tradicional identifica apenas planícies e planaltos, estes em áreas
de escudos cristalinos e bacias sedimentares. A nova classificação introduz uma
terceira: as depressões;
• A nova identifica, na bacia Amazônica, um grande trecho de planalto e uma
enorme área de depressão, enquanto as anteriores classificavam de planície; O
mesmo ocorre com outras áreas de terras rebaixadas, que anteriormente eram
designadas como planícies e agora passaram a serem chamadas de depressões;
• Extensas áreas caracterizadas como planaltos, na nova são identificadas como
grandes depressões. Assim, a continuidade antes atribuída aos planaltos foi
perdida, recortada e interrompida pro depressões; e
• Com as depressões, a perda de continuidade territorial dos planaltos e o destaque
que Ross deu aos planaltos associados aos dobramentos pré-cambrianos, obtendo
como resultado o aumento da nomenclatura dos segmentos do relevo. Assim, há
planaltos em associações com as bacias sedimentares, em associação com duas
manifestações de plataformas e em associação com os dobramentos antigos. Ao
todo são onze planaltos, onze depressões e seis planícies.
A orogênese que deu origem aos dobramentos modernos na costa ocidental
da América teria repercutido numa grande extensão do território sob a forma de
epirogênese, soerguendo as plataformas, dobramentos antigos e bacias sedimentares. O
resultado foi elevação das bacias sedimentares mais ou menos no nível das plataformas
cristalinas, o que explica por que o território brasileiro é marcado pelo predomínio
planáltico de baixa altitude, com poucas planícies e sem grandes depressões interiores.
Ao longo de milhões de anos, as formas de relevo foram desgastadas pela
erosão que se processou por condições climáticas, sem que o processo fosse uniforme.
Destaca-se o modo como se deu a erosão nas áreas em que havia contato entre os
planaltos cristalinos e os sedimentares. A erosão diferencial deve-se à menor resistência

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do material sedimentar, que resultou em rebaixamentos nas bordas dos escudos
cristalinos. Esses rebaixamentos que ocorrem em todo o território são as depressões.
Há a questão do desaparecimento da Planície Amazônica. A parte oriental, é
bacia sedimentar marcada por topos convexos, que raramente ultrapassam 300 metros e
foram erodidos sobre sedimentos recentes. Ao norte, existe frente de cuestas (escarpas
típicas de erosão em bacias sedimentares); portanto um planalto. Quanto à depressão
ocidental, exibe terrenos em torno de 200metros, com formas de topos planos ou
levemente convexos, esculpidos nos sedimentos da formação do Solimões. Logo, a
erosão é o processo que predomina na região, e não pode ser indicada como planície,
embora não constitui um planalto, pois é uma área muito deprimida.

OS ECOSSISTEMAS E AS CAUSAS DE SUA DEGRADAÇÃO


Costuma-se denominar ecossistemas grandes domínios paisagísticos, para
definição dos quais consideram-se aspectos do relevo e dos climas.
Planaltos: áreas onde o processo de erosão predomina sobre o processo de
deposição de sedimentos. Ao norte das depressões amazônicas, e junto às fronteiras com
as Guianas e a Venezuela, encontram-se alguns dos pontos mais elevados do Brasil.
Trata-se da linha de serras dos Planaltos Residuais Norte-Amazônicos. No Sudeste:
serras do Espinhaço (jazidas minerais do Quadrilátero Ferrífero) e da Mantiqueira (mares
de morros). As escarpas aparecem na transição entre áreas rebaixadas e planaltos.
Freqüentemente têm denominações tecnicamente inadequadas, como é o caso da Serra
do Mar. Os planaltos e chapadas da Bacia do Paraná exibem terrenos sedimentares onde
ocorreram derrames vulcânicos. A decomposição do basalto deu origem à famosa terra
roxa, o solo de maior fertilidade natural do país. A Chapada dos Parecis funciona como
divisor entre as águas da Bacia do Paraguai e as da Bacia do Amazonas. A elevação do
Espigão Mestre separa os afluentes do rio São Francisco dos afluentes do Rio Tocantins.
Depressões: exibem predomínio de processos erosivos. Os altos e médios
vales dos rios Tocantins e Araguaia são depressões tipicamente caracterizadas. A
Depressão Sertaneja e do São Francisco foram, no passado, importante caminho de
interiorização seguido pelos vaqueiros e criadores nordestinos. O planalto da Borborema
se interrompe a depressão. A face oeste da Borborema está sujeita a longas secas. A
face leste recebe os ventos úmidos do litoral que provocam chuvas freqüentes e
propiciam condições ideais para o cultivo de frutas tropicais. No Sul e no Sudeste, as
depressões ganham um imenso S, separando os terrenos cristalinos do oriente dos
derrames vulcânicos da Bacia do Paraná.
Planícies: áreas onde a sedimentação se sobrepõe a erosão. A Planície e
Pantanal Mato-Grossense é a mais típica planície brasileira. Constitui parte de uma
depressão relativa encaixada entre a Cordilheira dos Andes e os planaltos do Escudo
Brasileiro, denominada Chaco, que abrange terras brasileiras, paraguaias, argentinas e
bolivianas, funcionando como bacia de captação de cursos pluviais. As Planícies e
Tabuleiros Litorâneos estendem-se do Maranhão ao Rio Grande do Sul, chegando quase a
desaparecer em trechos da costa Sul e Sudeste.
Pode-se afirmar que o empobrecimento dos solos, o desequilíbrio ecológico e
a perda da biodiversidade tiveram início no período colonial. A rápida urbanização
brasileira é fator que têm contribuído para a degradação ambiental em diferentes
biomas. A reflexão sobre o meio ambiente, a fim de se alcançar o desenvolvimento
sustentável, exige paradigmas que alterem a relação homem/ natureza verificada desde
o período colonial. A apropriação e a preservação de territórios e ambientes sem uso
produtivo imediato é uma forma de controlar o capital natural para o futuro.

30
REVOLUÇÃO CIÊNTIFICA TECNOLÓGICA
Theotonio dos Santos parte da premissa que o conhecimento cientifico possui
papel relevante na organização das atividades produtivas. Os antecedentes vêm da IIGM,
quando surgem ramos de produção dependentes do conhecimento cientifico como
energia nuclear, novos materiais e biotecnologia; o que provoca mudanças radicais no
desenvolvimento das forças produtivas. A pesquisa e desenvolvimento no interior das
empresas a define, ou não, como competitiva. A informação e preparação de quadros de
pesquisa transformam-se em nova atividade econômica. O processo de produção e
organização do trabalho exige novo sistema de gestão das relações sociais, educação,
saúde, habitação e lazer. A forma cientifica do conhecimento passa a ocupar papel
central e articulador do conjunto da vida. É nova etapa do desenvolvimento das forças
produtivas. Suas leis estão fundamentadas na substituição do trabalho diretamente
produtivo e da divisão natural do trabalho, automação e administração cientifica.
A passagem do fordismo ao toyotismo representa a concentração e
centralização da produção. Novos complexos produtivos em escala global reforçam o
sistema de redes para articular flexivelmente um conjunto de empresas hierarquizadas.
Na sociedade surge tempo de trabalho excedente e de tempo livre. Abandona-
se a produção extensiva baseada na expansão das forças produtivas existentes; e entra
a produção intensiva baseada na administração dessa base produtiva.
A produção submete-se ao conhecimento cientifico – predomínio da ciência
pura sobre a aplicada. Maiores recursos são destinados à evolução cientifica, e o novo
padrão tecnológico que tende a se generalizar por todo o sistema produtivo. Há
modificação na estrutura de empregos, com diminuição de produtores diretos agrícolas e
industriais, ampliação dos trabalhadores de serviços e do mercado informal.
O aumento das necessidades espirituais e o papel subjetivo na dinâmica social
provocam a sofisticação da produção e a busca pela diversificação crescente para atender
essa subjetividade e individualidade. A nova divisão do trabalho tende a se estender
internacionalmente, quando países desenvolvidos tendem a dedicarem-se as atividades
novas, geradas pela RCT e transferem parte da produção aos menos desenvolvidos.
Os paises de desenvolvimento médio recebem industria de produção e outras
partes do complexo produtivo global. Exige-se mão-de-obra barata, mas com habilidade
manual. A preocupação ambiental tende a deslocar as indústrias para os NICs, e paises
menos desenvolvidos tendem a se isolarem e se marginalizarem.

A RCT E A GLOBALIZAÇÃO
O surgimento da economia mundial passou a vincular vários universos
econômicos regionais num mercado mundial, se consolida no séc. XIX sob a hegemonia
da Inglaterra. Até a IIGM, os processos de produção têm base local ou nacional, com
eventual utilização de matéria prima importada. A partir de 45, inicia-se um processo de
integração dos sistemas produtivos mundiais. Empresas multinacionais articulam um
sistema complexo de produção a partir de diferentes pontos do globo, movimentam
capital internacional e expandem os serviços e o mercado de capitais e financeiro.
Inicia a articulação da CEE. O Japão articula parte da economia asiática em
torno da exportação para os EUA. O leste europeu se reintegra na economia mundial.
Todas as regiões do mundo passam por processos de integração, em escala variadas.
EUA, EU, Japão, Rússia e China constituem os centros dessa economia supra-regional.
Aumenta a competitividade internacional com fusões empresariais, maior

31
disponibilidade financeira em escala mundial e mudanças das intervenções empresariais
no mercado. A tecnologia de comunicação permite instantaneidade entre todos os paises.
O aparelho institucional das relações internacionais converte-se numa camisa
de força para os novos níveis de integração mundial. O conjunto de transformações das
forças produtivas assume a forma de processo de globalização da economia mundial. O
mercado mundial é cada vez mais formado por acordos negociados entre os agentes
econômicos. A regulação dos mercados exige formas supranacionais. Reafirma-se o G8
como instância reguladora e coordenadora mundial provisória e introduz nos sistemas
reguladores o conjunto das nações do globo.
Desaparece a forma imperialista da economia mundial, presente na lei de
desenvolvimento desigual e combinado da economia capitalista. Incorpora-se nova visão
global da gestão, baseada na coexistência de regimes diversos e até antagônicos.
Milton Santos afirma que os países subdesenvolvidos conheceram pelo menos
três formas de pobreza e, paralelamente, três formas de dívida social, na segunda
metade do século passado, que seriam: pobreza-marginalidade, pobreza incluída e a
pobreza estrutural globalizada. Essa classificação está atrelada ao processo de
globalização perversa. Aponta como características indesejadas do processo:
− Está associada ao processo econômico da divisão social do trabalho internacional
ou interna, a pobreza-marginalidade é considerada a doença da civilização e o
consumo apresenta-se como o centro da explicação das diferenças e das
percepções das situações.
− A pobreza incluída iniciou-se como um processo associado a problemas privados,
assistencialistas e locais, mas a globalização não tem mudado o perfil dessa
forma de pobreza.
− A pobreza estrutural globalizada impôs-se como natural e inevitável nos tempos
atuais, pois há uma produção globalizada da pobreza, mais presente, sem
dúvida, nos países pobres.
− Com relação à dívida social, os pobres já foram incluídos; posteriormente, foram
marginalizados; e, atualmente, estão sendo excluídos.

A REVOLUÇÃO DA TECNOLOGIA DE INFORMAÇÃO


Para Castells, em A Sociedade em Rede, hoje, a sociedade esta estruturada
em torno de oposição entre a rede e o ser. Nessa condição, os padrões de comunicação
ficam sob estresse permanente, a fragmentação social expande-se na medida em que as
identidades tornam-se mais especificas e difíceis de serem compartilhadas.
Haveria tendência histórica dos processos dominantes na era da informação
de se organizar em torno de redes. Para Castells, as redes constituem "a nova
morfologia social de nossas sociedades, e a difusão da lógica de redes modifica
de forma substancial a operação e os resultados dos processos produtivos e de
experiência, poder e cultura”. Se por um lado Castells reconhece que isso não é novo,
por outro defende que a novidade está na existência de uma base material para sua
expansão penetrante na estrutura social.
Para Castells a síntese de rede é o conjunto de nós interconectados: “O que é
um nó depende do tipo de redes concretas, bolsas de valores e suas centrais de serviços
auxiliares na rede dos fluxos financeiros. São conselhos de ministros e comissários
europeus da rede que governa a UE. São campos de coca e papoula, laboratórios
clandestinos, pistas de aterrisagem, e instituições financeiras para lavagem de dinheiro,
sociedades e Estados do mundo inteiro. São sistemas de televisão, estúdios de

32
entretenimento, meios de computação gráfica, equipes para cobertura jornalística e
equipamentos móveis gerando, transmitindo e recebendo sinais na rede global da nova
mídia no âmago da expressão cultural e da opinião pública, na era da informação”.
Para Castells a inclusão/exclusão em redes e a arquitetura das relações entre
redes, possibilitadas por tecnologias rapidíssimas da informação, "configuram os
processos e funções predominantes em nossas sociedades”. Redes são estruturas
abertas que tendem a se expandir, gerando novos nós, que compartilham os mesmos
códigos de comunicação (valores ou objetivos de desempenho).
Redes são instrumentos para a economia baseada na inovação, globalização e
concentração descentralizada; para o trabalho, trabalhadores e empresas voltadas para a
flexibilidade e adaptabilidade; cultura de desconstrução e reconstrução contínuas;
política destinada ao processamento instantâneo de novos valores e humores públicos;
organização social que visa a suplantação do espaço e invalidação do tempo. Assim, é
uma fonte de drástica reorganização das relações de poder.
Castells enfatiza a necessidade lógica de estar-em-rede: para não sucumbir é
preciso estar nas redes. Fora delas não há salvação. Do ponto de vista do trabalho,
trabalhadores e empresas devem voltar-se para a flexibilidade e adaptabilidade,
conceitos mágicos do neoliberalismo. Caberia perguntar como podem os excluídos
integrarem-se nas redes. Ou a viabilidade de um caminho alternativo.
Não interessa o conteúdo circulante da rede, o que importa é sua circulação e
seu consumo rápidos e geradores de enormes lucros. Nessa sociedade em rede há
primazia da morfologia sobre a ação social. A lógica de redes gera “uma determinação
social em nível mais alto que a dos interesses sociais específicos expressos por meio das
redes: o poder dos fluxos é mais importante que os fluxos do poder”.

O CAPITAL FINANCEIRO
Castells fala que o capitalismo mudou e tem como característica fundamental:
ser global e estruturado. A acumulação de capital prossegue e sua realização de valor
é cada vez mais gerada nos mercados financeiros estabelecidos pelas redes. A partir
dessas redes é re-investido em todos os setores. É revertido para a metarrede de fluxos
financeiros e transformado em commodities. Nele, capitais específicos elevam-se ou
diminuem, definindo o destino de empresas, poupanças familiares, moedas e economias.
O resultado da rede é zero: os perdedores pagam pelos ganhadores”.
Para sua operação, o capital financeiro depende do conhecimento e da
informação gerada pela tecnologia da informação. “É na interação entre o investimento
em empresas lucrativas e o uso dos lucros acumulados para fazê-los frutificar nas redes
financeiras globais que o processo de acumulação se baseia”.
O capital financeiro condiciona o destino das indústrias de alta tecnologia. Por
outro lado, a tecnologia e a informação são ferramentas decisivas para gerar lucros e
apropriar fatias de mercado. Assim, o capital é global ou se torna global para entrar
no processo de acumulação da economia em rede eletrônica. O capital flui e
suas atividades induzidas de produção, gerenciamento e distribuição espalham-
se por redes interconectadas de geometria variável.
O que ocorre com a mão-de-obra e com as relações sociais de produção? Há
mais empregos do que em outras épocas, devido à ampla incorporação de mulheres ao
mecado de trabalho. “A difusão das tecnologias da informação, embora sem
dúvida dispense trabalhadores e elimine alguns postos de trabalho, não
resultou e provavelmente não resultará em desemprego em massa no futuro
previsível”. Por outro lado, as relações sociais entre capital e trabalho "sofreram

33
transformação profunda”. O capital é global, o trabalho em geral é local.
“O informacionalismo leva à concentração e globalização do capital
exatamente pelo emprego do poder descentralizador das redes. A mão-de-obra está
desagregada em seu desempenho, fragmentada em sua organização, diversificada em
sua existência. As redes convergem para uma metarrede de capital que integra os
interesses capitalistas em âmbito geral e por setores e esferas de atividades (...). Os
trabalhadores perdem sua identidade coletiva, tornam-se cada vez mais individualizados
quanto as capacidades, condições de trabalho, interesses e projetos”.
Dupas chama o posicionamento de Castells de "otimismo contido". As
transformações no mundo do trabalho no capitalismo flexível da era da informação não
têm como conseqüência o aumento do desemprego. Isso poderia ser comprovado", pelo
fato de que as sociedades mais avançadas, criaram maior quantidade de postos de
trabalho, e apresentaram menores índices de desemprego". A difusão das tecnologias de
informação não provoca desemprego, "pois reduz tempo de trabalho por unidade de
produção e aumenta a flexibilidade no trabalho, individualizando cada trabalhador".
A oferta de empregos migra para as regiões mais pobres, e afirma que há
mais postos de trabalho e uma proporção mais elevada de pessoas em idade de trabalhar
empregadas que em nenhum outro momento da história, especialmente pela
incorporação maciça da mulher ao trabalho, sem ter causado fraturas importantes no
mercado. Segundo ele, a difusão das tecnologias da informação não tem como resultado
um desemprego massivo, nem parece que o fará em um futuro previsível".
Analisa que o grande problema não está no desemprego, mas sim na
deterioração das condições de trabalho, "fato demonstrado pela explosão do
trabalho infantil na última década". Esse otimismo contido assim se formata: a
sociedade em rede, operando as tecnologias da informação, produz maravilhas, mas
convive com a precarização do trabalho. Essa contenção do otimismo funciona como um
dique à adesão fácil, mas não propõe modelos alternativos, apenas informa, construindo
um texto descritivo-informativo, que opera a partir do conceito naturalizado de rede.
A definição iguala inúmeros tipos de redes, como os mercados de bolsas de
valores, a circulação das drogas, as redes de televisão, etc. Mas, não afirma a
possibilidade de tratar no mesmo nível as redes que globalizam o capital e cultura.

DESNATURALIZANDO
Capital e trabalho parecem não necessitar mais de diplomatas ancorados na
modernidade que realizem acordos, pois "Embora as relações capitalistas de
produção persistam, capital e trabalho tendem a existir em diferentes espaços e
tempos: o espaço dos fluxos e dos lugares, tempo de redes computadorizadas
versus tempo da vida cotidiana. Então, eles vivem lado a lado sem se
relacionarem, à medida que a existência do capital global depende cada vez
menos do trabalho específico e cada vez mais do trabalho genérico acumulado,
operado por pequeno grupo que habita os palácios virtuais das redes globais".
Castells não fala em confronto, mas em redes de resistência, como as de
Seattle, contra a OMC, que necessitam estar na rede para combater. É isso que restitui o
espaço da política na construção de redes naturalizadas. O que interessa não é estar em
rede, mas estar nela, sem o qual não há eficácia.

A MÍDIA EM REDE
Para Castells "as expressões culturais são retiradas da história e da
geografia e tornam-se mediadas pelas redes de comunicação eletrônica que

34
interagem com o público e por meio dele em uma diversidade de códigos e
valores, por fim incluídos em um hipertexto audiovisual digitalizado". Ou seja, a
cultura é retirada da história, naturalizada, transformando-se em digital. A análise do
discurso, cumprem função fundamental, revelando os mecanismos discursivos na mídia.
Nesse sentido, o conceito de "política" é desorientado. A política não é a arte
da inscrição da voz excluída, mas politicagem. "Como a informação e a comunicação
circulam pelo sistema de mídia, a prática política ali cresce. A liderança é personalizada e
formação de imagem é geração de poder. Não que toda política possa ser reduzida a
isso, mas sejam quais forem os atores, eles existem na mídia.

O INTEMPORAL CASTELLIANO
Para Castells "o tempo intemporal parece ser o resultado da negação do
tempo nas redes do espaço de fluxos. Enquanto isso, o tempo cronológico, é medido e
avaliado diferencialmente para cada processo de acordo com sua posição na rede. A
construção das formas dominantes desenvolve rede que ignora as funções não
essenciais, como grupos subordinados e os territórios desvalorizados. Com isso, gera-se
distância infinita entre essa rede e a maioria das pessoas, atividades e locais. Não que
esses desapareçam, mas seu sentido estrutural deixa de existir".
A sociedade em rede representaria "transformação qualitativa da experiência
humana". Em termos de relação entre natureza e cultura, o primeiro modelo foi o de
dominação da natureza sobre a cultura, o segundo foi o de dominação da natureza pela
cultura (era moderna, revolução industrial) e no novo estágio atual a qual a cultura se
refere, suplantando a natureza a ponto dessa ser renovada artificialmente como forma
cultural. É modelo cultural de interação e organização social. Por isso é que a informação
representa o principal ingrediente de nossa organização social, e os fluxos das
mensagens e imagens constituem o encadeamento básico de nossa estrutura ".
É o começo de nova existência, "marcada pela autonomia da cultura vis-
à-vis as bases materiais de nossa existência". A construção dessa rede se fez passo
a passo, com investimentos e políticas públicas dos países mais ricos. Essa rede acolhe
os objetos de discurso e sinais enviados pela sociedade já integrada a rede; restando a
outra parcela, os excluídos da rede.
CONCLUSÃO
Surge às portas da Era da informação crise de legitimidade que esvazia de
sentido e de função as instituições da era industrial. O Estado perde suas bases políticas,
desorganizando as bases da democracia liberal dos últimos dois séculos. As identidades
legitimadoras dão espaço para a difusão das identidades de resistência na sociedade em
rede, mais individualizadas.
Pelo fato de termos uma visão histórica de mudanças sociais meio fechada,
nos perdemos com as mudanças simbólicas processadas por redes multiformes. É nesses
"recônditos da sociedade", em redes múltiplas, que se nota a geração de uma nova
sociedade, "germinada nos campos da história pelo poder da identidade".

FORMAÇÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO


HISTÓRICO DA OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO
A decisão portuguesa de dar início à colonização da América, trinta anos após
a descoberta, deveu-se ao perigo concreto de perdê-las para concorrentes europeus,
como os franceses, e a sensível redução dos lucros do comércio oriental de especiarias.
Desta forma, pode-se afirmar que aspecto primordial da primeira fase do capitalismo no
Brasil se dá por meio da circulação das mercadorias. O processo de colonização, tal como

35
nas demais colônias ibero-americanas, subordinou-se ao processo de surgimento do
capitalismo europeu de base mercantil e de sua afirmação ao longo da Idade Moderna.
A ocupação teve início a partir de sua faixa litorânea. Os núcleos litorâneos
desenvolveram-se em função da exploração extrativista e da produção agrícola, indicando
um vínculo e uma fraca articulação com o interior do território. Essa primeira etapa de
ocupação territorial foi caracterizada por atividades predatórias voltadas para extração da
madeira. Posteriormente, o governo português concentrou esforços para difusão da
produção de cana-de-açúcar, apesar das dificuldades com o meio físico, índios, altos
custos dos meios de transporte e da escassez da mão de obra, fatos que foram
compensados pelo preço do açúcar no mercado europeu.
No início do povoamento, a população ficou bastante restrita ao litoral.
Somente no séc. XVII é que a penetração foi efetiva. No litoral do nordeste, o incremento
demográfico teve importância na atividade agrícola canavieira; a ocupação de seu interior
deu-se através da instalação da pecuária bovina em áreas não propícias ao
desenvolvimento da cana-de-açúcar. As novas ocupações tiveram como objetivo principal
à criação de animais e deu origem à formação dos primeiros núcleos urbanos no interior.
No sudeste surgia São Paulo, que contribuiu para uma expansão da ocupação
do território. Revelou-se então a existência de importantes riquezas minerais em terras
que hoje pertencem a Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Nos séculos XVI e XVII a
lavoura canavieira e a criação de gado foram atividades que contribuíram para a
efetivação da ocupação do espaço brasileiro.
No séc. XVII, a descoberta de minerais provocou o deslocamento do
povoamento para o interior, temporariamente, uma vez que baseada na exploração
aluvial. A mineração contribuiu para a formação dos primeiros núcleos urbanos
dependentes da mineração, vinculados à exploração econômica de jazidas.
A ocupação da Amazônia ocorreu pela à existência de muitos rios, o que
permitiu a implantação de pequenos núcleos que, voltados para a subsistência, não
prosperaram. Essa ocupação inicial não mudou em quase nada as condições naturais,
exceto em algumas regiões, como a área ao redor de Belém.
A ocupação do Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste ocorreu a partir do séc. XVII.
No extremo sul do Brasil, iniciou-se com núcleos de colonos açoreanos. Essa
região já havia sido objeto de incursões de criadores paulistas, que haviam se
estabelecido em áreas de campo, desenvolvendo a pecuária, que encontrou condições
ambientais favoráveis para o desenvolvimento, tendo como finalidade a exportação do
couro. Nessa época, destaca-se a cidade de São Paulo como centro de comercialização
para integração das diferentes áreas povoadas.
Por volta do séc. XIX, a ação colonizadora instalou mais de vinte colônias que
permaneceram até o fim do século. O sistema de apropriação de terras, através de
colonização oficial ou particular, foi implantado também em outras regiões de mata;
porém, foi no sul do país que esse modo ocupacional de terras foi mais difundido.
Como conseqüência dessa expansão, ocorreu centralização de antigos núcleos
urbanos dessas áreas, ao mesmo tempo em que surgiram novas aglomerações urbanas
pela atividade cafeeira. No Rio de Janeiro, o ritmo foi mais rápido que em São Paulo,
onde, no séc. XX, ainda existiam extensas áreas ocupadas por matas. Neste, a difusão
cafeeira deu-se com a expansão da rede ferroviária, ou mesmo direcionando este
movimento, contribuindo com a expansão dessa lavoura e favorecendo o crescimento
demográfico do estado. No entanto, o uso inadequado dos solos cultivados com o café
levou-as ao esgotamento rápido, o que promovia o deslocamento constante da lavoura
cafeeira em direção às novas áreas.

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Na primeira metade do séc. XX, São Paulo estava ocupado e desmatado,
existindo apenas pequenas áreas com matas, que contrastavam com as extensões
cobertas por cafezais, dando origem a nova paisagem. O povoamento atingiu o norte do
Paraná, onde as condições eram semelhantes. Nessa área, a colonização particular
promovida por estrangeiros, responsáveis pela instalação de infra-estrutura rodo-
ferroviária, atraiu colonos de outros estados, que haviam passado por São Paulo.
Já no fim da década de 40, consolidou-se a ocupação em terras de mata do
norte do Paraná, tornando-se uma das áreas mais prósperas do Brasil, favorecendo o
aparecimento de diversos núcleos urbanos.
A ocupação no Rio Grande do Sul, na segunda metade do séc. XIX, deu-se por
maioria européia. Aos poucos os colonos foram ocupando encostas e vales do planalto
meridional, estabelecendo-se em unidades de pequena produtividade e provocando o
aparecimento de centros urbanos no interior do Paraná e Santa Catarina.
Com a República, as terras devolutas passaram a ser propriedades do Estado.
Isto contribuiu para acelerar a ocupação na direção oeste, provocando o desmatamento
dessas áreas. Esse processo de ocupação se restringia às áreas de mata, deixando os
campos nas quais se instalava uma atividade criatória extensiva. Por iniciativa oficial,
empresas participaram da ocupação dessas terras.
Em Santa Catarina, predominou a colonização particular, promovida pelo
capital comercial europeu, em direção ao planalto, onde encontrou, no fim da década de
30, a frente de expansão gaúcha. No Paraná esse tipo de colonização expandiu-se até o
norte e juntou-se à frente de expansão paulista. No fim da década de 40, não existiam
mais terras “livres” no Rio Grande do Sul e praticamente todas as terras de matas haviam
sido destruídas, restando apenas reservas ao longo do Rio Uruguai. Em meados do séc.
XX, os estados do Sul estavam quase todos ocupados.
Ainda na metade do séc. XX, outras áreas foram objetos de colonização oficial
e particular, dando destaque às colônias do Vale do Rio Doce (SP), do Mato Grosso, de
Goiás e Uvá (GO), e de Dourados (MS).
Na década de 70, a construção de uma nova capital deu-se num curto espaço
de tempo, impulsionando a ocupação do Brasil Central. Ocorreram mudanças no traçado
da malha rodoviária nacional, destacando a implantação das rodovias em direção às
capitais estaduais e às regiões de fronteiras, o que permitiu a incorporação de novas
áreas à economia nacional, acelerando o ritmo no interior do País.
A partir daí, o Estado passou a desempenhar um importante papel na
ocupação do território, apoiado por incentivos fiscais, visando investimentos privados em
novas áreas. A preocupação do governo com o desenvolvimento das regiões periféricas e
a tentativa de viabilização para exploração dos recursos naturais e das potencialidades
produtivas beneficiaram mais as grandes empresas do que as populações presentes.
A década de 70 caracterizou-se pela ocupação das terras das Florestas da
Amazônia e pela valorização das terras de Cerrado. A ocupação da Amazônia foi acelerada
pela tentativa de integração nacional. A abertura de vias de penetração permitiu a
ocupação de terras distantes, fazendo surgir uma grande frente de expansão; a ação de
empresas, as pequenas e médias propriedades e a colonização oficial visando a
diminuição das tensões sociais existentes nas áreas rurais permitiram sua ocupação. Esta
ocupação estendeu-se desde o Acre até o nordeste do Maranhão, assumindo diferentes
graus de intensidade, aliadas a uma despreocupação com a ecologia local.
A valorização das terras do Cerrado ocorreu em função de dois aspectos: a
proximidade dos grandes centros urbanos do País e a topografia plana que facilitava a
mecanização de atividades agrárias. Esses aspectos favoráveis ao desenvolvimento

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dessas terras vieram ao encontro da necessidade de expansão da agricultura gerada pelo
modelo de País que privilegiava a produção agrícola exportável.

HOROGENIA DO TERRITÓRIO BRASILEIRO


Horogênese: configuração dos limites dentro dos quais um poder político
exerce sua soberania, e que o separam de uma outra configuração onde se exerce outra
soberania. A mera definição abstrata de um traçado, como no caso de Tordesilhas, não
gera uma fronteira. A linha de fronteira nasce na etapa intermediária, a da delimitação.
A fronteira do Brasil estende-se por 23.086 km, subdivididas numa sessão
marítima de 7.367 km e numa terrestre de 15.719 km. O Império foi o grande período
de horogênese. O império delimitou 7.948 km de fronteiras. O período colonial é
responsável por apenas 2.709 km, ou cerca de 17%. A "era de Rio Branco", classificada
aqui como período nacional, respondeu por quase o dobro: 5.063 km, ou 32%.
Perto de 30% da extensão dos limites de horogênese imperial originaram-se
de guerras, enquanto mais de metade da extensão dos limites de horogênese nacional
originaram-se de arbitramento. Pode-se afastar a possibilidade de um paralelo com a
Europa, pois o que chamam de sentimento nacional não exerceu aqui a influência
verificada na Europa para recompor o mapa político nos moldes da Santa Aliança (1815).
O Tratado de Madri de 1750 foi negociado sob a influência da doutrina das
fronteiras naturais, e teve em Alexandre de Gusmão o seu operador. As fronteiras
naturais seriam o Amazonas, a norte, o Paraguai, a oeste, e o Rio da Prata ao sul.
PERÍODO COLONIAL
Legou ao Estado apenas uma díade fronteiriça completa, o Suriname, e os
segmentos do Rio Grande do Sul e do Guaporé. A díade do Suriname só foi limitada
oficialmente, por Rio Branco, em 1906, após a solução arbitral dos complicados litígios
guianenses com a França e a Grã-Bretanha. Anteriormente, um tratado deixou de ser
firmado em razão das pretensões francesas sobre a margem setentrional do Amazonas.
O Rio Grande do Sul assenta-se sobre o Uruguai, adotado como fronteira
natural pelo tratado de Madri, assegurando a posse lusitana dos Sete povos das missões
e provocando as guerras guaraníticas. Em Santo Idelfonso, a conjuntura internacional
desfavorável a Portugal condicionou o abandono desse critério. Mas, as missões de um
lado e povoados de outro: o Rio Guaporé tornou-se fronteira especial, à frente de dois
expansionismos coloniais contrapostos e com estratégias distintas. O mito do “vazio” não
corresponde a construção histórica de décadas de coroas rivais.
A atividade de consolidação do front passou pela construção dos fortes de
Nossa Senhora da Conceição e Príncipe da Beira. Viana Moog, ressalta a importância da
rede fluvial na expansão bandeirante à função de pontos de referência nas marchas rumo
ao sertão. Em 1750 havia o mito da ilha Brasil, na qual acreditava-se na existência de
uma ligação entre o Rio Paraguai e o Rio Madeira. Em 1772, obrou-se o trânsito de
canoas, utilizando-se lagoas temporárias formadas nas cheias. O Mapa da Derrota das
Canoas enfoca a trajetória imaginada das canoas entre as bacias. O autor extraiu suas
conclusões sobre o sistema centrífugo das correntes atlânticas do litoral e o sistema
centrípeto do Prata-Amazonas, pelas suas contravertentes de Mato Grosso.
A Ilha Brasil emana do conceito das fronteiras naturais, e associa-se a
obstáculos naturais à expansão colonial dos bandeirantes que funcionariam também
como marcos referenciais para as negociações diplomáticas.

O IMPÉRIO
Contudo, uma atividade diplomática ofensiva, destinada a delimitar as

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fronteiras do Brasil, só foi deflagrada pelo império já perto da metade do século. Nesse
período, prevaleceu a noção de que os fundamentos do direito territorial deveriam ser
invocados sobre a base dos tratados coloniais de limites – Santo Ildefonso. Deve-se a
Duarte da Ponte Ribeiro, a elaboração daquela que viria a ser a doutrina imperial, a partir
da utilização do uti possidetis (posse efetiva), e passou a ser a doutrina oficial.
O império delimitou duas díades amazônicas por meio de tratados, explícita
ou implicitamente, sob o princípio do uti possidetis de facto: a do Peru, em 1851, e da
Venezuela, em 1859. Se na Amazônia o Império negociou os limites com base no uti
possidetis, no Prata esse princípio foi imposto na ponta de baionetas. As díades do
Uruguai e do Paraguai respondem pela extensão de fronteiras originadas de guerras e
materializam a conclusão da complexa política platina conduzida desde a transmigração.
O encerramento da Farroupilha e os acordos de Caxias com Bento Gonçalves
exigiam uma solução definitiva para os problemas de limites provinciais com a Banda
Oriental, solucionado com o tratado que deu exclusividade da Lagou Mirim ao Brasil e fez
a fronteira passar pelo Quarai, configurando um compromisso entre as posições do Barão
da Ponte e de Honório Hermeto.
A diade do Paraguai só se fixou após a guerra da Tríplice Aliança. A primeira
linha divisória foi definida nos tratados de Madri e Ildefonso, porem a tarefa de limitação
esbarrou nas divergências sobre os rio Igurei e Corrientes. Em 1844, o Tratado firmado
com Carlos Lopes determinou que se prosseguissem as discussões tomando por base
Ildefonso. O Tratado da Tríplice Aliança, em artigo secreto, alem de estabelecer que todo
o Chaco Paraguaio ficaria com a Argentina, no tocante ao Brasil dispunha que seriam
traçados limites apoiados, ao sul, pelo Rio Paraná.

ERA RIO BRANCO


A política de limites do Império foi descrita, nos Estados vizinhos, como
expansionista ou imperialista. Na era Rio Branco, apesar da ausência de guerras de
fronteiras e constante recurso do arbitramento, o episodia acreano acabaria por reforçar
as prevenções hispano-americanas. A demarcação das fronteiras no império encontrou
no Barão da Ponte Ribeiro sua mais alta figura, e a República achou, no Barão do Rio
Branco, o fixador dos seus limites. Ambos tiveram em Alexandre de Gusmão seu ilustre
predecessor. Helio Viana classificou o B. do Rio Branco como o fundador da diplomacia da
república, enxergou na sua obra a configuração do corpo da pátria.
A primeira questão de fronteiras protagonizada pelo Barão, restringia-se à
interpretação dos tratados coloniais, relativa ao segmento de Palmas. A área só se teria
tornado litigiosa, em 1881, quando o Brasil instalou postos militares junto aos Rios
Chapecó e Chopim e a Argentina protestou. Esse contencioso trouxe a tona antigo
problema estratégico, relativo à integração do Brasil meridional ao núcleo político e
econômico do território. No caso de derrota, o Rio Grande do Sul ficaria unido ao restante
do território por um corredor estreito de apenas 250 quilometros. Aspecto já ressaltado
por Alexandre de Gusmão ao negociar o Tratado de Madri.
Outro episódio, relativo à Guiana francesa, também consistiu na interpretação
das disposições de um tratado colonial. Em 1885, povoadores franceses chegaram a
proclamar uma República. Em 1887, a questão foi à arbitramento. Não veladamente, os
franceses acenaram com a hipótese de uma ação militar, o que levou Rio Branco, já
designado plenipotenciário em Missão especial, a aventar com o recurso à solidariedade
monroista. Em 1900, o Brasil foi declarado vitorioso, o segmento oriental foi fixado no
Oiapoque, e o ocidental, na linha de cristas do divisor de águas da Serra do Parima.
A era do Rio Branco teve seu ápice na complexa negociação que resultou na

39
incorporação do Acre ao território brasileiro. O povoamento da região do Acre por
seringueiros provocou crise militar em 1899, a proclamação de independência e o
arrendamento boliviano ao Bolivian Syndicate. Seguindo uma trilha brilhante, apoiou a
reinterpretação na jurisprudência internacional que confere o direito ao trecho superior de
um rio ao pais que tem a soberania do trecho inferior, quando a área não se encontra
ocupada. O tratado de Petrópolis, finalmente alcançado, transferiu o Acre para o Brasil,
em troca de indenização de 2 milhões de libras, permutas territoriais e a construção da
Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, associada à livre navegação na bacia amazônica.
A díade da Colômbia foi a última a ser delimitada. Em 1907, o tratado de
Limites e Navegação fixava a divisória ao norte do Japurá, adiando o ajuste da linha ao
sul em razão da disputa entre a Colômbia, Equador e Peru relativa à área. Em 22, o Peru
transferiu à Colômbia a área do trapézio de Letícia, a partir dos bons ofícios brasileiros.
Em 1928, a Colômbia aceitou a linha negociada entre Brasil e Peru, em 1851.
A CONQUISTA DO HEARTLAND
Os estudos das estratégias de integração nacional no Brasil atribuem à
centralização política da Revolução de 30 o papel de impulso inicial. Enfatiza-se a função
de Vargas na construção do aparato administrativo e burocrático do Estado, dotando-o de
instrumentos para intervenção sobre a configuração geoeconômica do território.
Professores somo Bachkheueser revelavam preocupação com a divisão político-
administrativa do território, contrário à autonomia federal e preconizava redivisão
baseada no principio da equipotência. Travassos afirmava que o subcontinente entre as
vertentes do Amazonas e do Prata, atribuindo o centro do triângulo bolivariano como
região fundamental. Ambos raciocinavam dentro do conceito de heartland, de Mackinder.
No Brasil imperial, a febre ferroviária da segunda metade do séc XIX atualizava
e dava forma à missão que a elite política e econômica se atribuía de construir a nação,
levando a civilização aos sertões tropicais, como nos casos das ferrovias Madeira-Mamoré
e Noroeste (problema das comunicações internas com o Mato Grosso).
A Guerra do Paraguai revelou a vulnerabilidade do trajeto fluvial platino. As
tropas que partiram de São Paulo para o Mato Grosso demoraram mais de um ano para
chegar. No decênio que se seguiu à Guerra, todas as estradas que se projetaram e cuja
construção se iniciou no planalto – Sorocabana e E. F. Araraquara - , nasceram com o
objetivo de alcançar Goiás e Mato Grosso, ligando São Paulo, e por intermédio deste, a
capital às duas províncias. Os projetos de interligação supunham, em geral, a extensão da
planejada artéria estratégica par além dos limites do Brasil, até o Pacífico.
A E. F. São Paulo – Rio Grande destinava-se a soldar o pólo econômico e
político do território à extremidade meridional. O litígio de Palmas, atualizou as
preocupações nesse sentido. Articulava o Paraguai ao litoral atlântico brasileiro, desviando
seu comércio exterior do trajeto fluvial do Rio da Prata.
A transferência da capital federal é analisada no contexto do processo de
integração territorial e das ideologias desenvolvimentistas que acompanharam o pós II
GM. Para Varnhagen, que tecia considerações territoriais que ecoavam o mito da Ilha-
Brasil, o planalto central, por ser o divisor de águas, se prestaria a ligar todo o sistema
fluvial. E o retângulo desenhado pelo relatório Cruls, passou a figurar em todos os
mapas e Atlas com um vazio a ser preenchido pelas gerações seguintes.

O BRASIL NO SÉC XXI – MILTON SANTOS


O TERRITÓRIO BRASILEIRO
Por território entende-se geralmente a extensão apropriada e usada.

40
Enquanto a territorialidade humana refere-se a tudo aquilo que nos pertence, num
sentido mais estrito o território é um nome político para o espaço de um país. É questão
central da história humana e constitui pano de fundo do estudo de suas diversas etapas.
Um dos critérios para representar cada período histórico é o estudo da
técnica, a qual autoriza, em cada momento, uma forma e uma distribuição de trabalho. A
divisão territorial do trabalho envolve a repartição do trabalho vivo nos lugares e, de
outro, uma distribuição do trabalho morto e dos recursos naturais. Por essa razão a
redistribuição do processo social não é indiferente às formas herdadas, e o processo de
reconstrução da sociedade e do território pode ser entendido a partir da categoria de
formação sócio-espacial. A divisão territorial do trabalho cria uma hierarquia entre
lugares. Hoje, a ciência informacional que aparece como um complexo de variáveis que
comanda o desenvolvimento do período atual. O meio técnico-ciêntifico-informacional é a
expressão geográfica da globalização.
O uso do território pode ser definido pela implantação de infra-estrutura, para
as quais utilizamos a denominação de sistemas de engenharia, e também pelo
dinamismo da economia e da sociedade. São os movimentos da população, distribuição
da agricultura e indústria, arcabouços normativos que configuram as funções do espaço
geográfico. O estudo do povoamento é indispensável ao entendimento das estruturas
vigentes, assim como os sistemas de movimento do homem, capitais, produtos e ordens.
A urbanização significa ao mesmo tempo uma maior divisão do trabalho e uma maior
fluidez no território. O peso do mercado externo acaba por orientar uma boa parcela dos
recursos coletivos para a criação de infra-estruturas, serviços e formas de organização.

DO NATURAL AO MEIO TÉCNICO CIÊNTIFICO INFORMACIONAL


A história do território brasileiro é a síntese das histórias de suas regiões. Para
entendê-la um esforço de periodização é essencial. Entre historiadores, a industrialização
desponta como fundamento de uma boa parte das periodizações. Uma das mais
frutuosas é a de Caio Prado, que propõe considerar oito momentos:
a) Preliminares, de 1500/30;
b) Ocupação efetiva, de 1530/1640, definida pelo início da agricultura e suas
atividades acessórias;
c) Expansão da colonização, de 1640/1770, marcada pela mineração e ocupação
do Centro-Sul, a pecuária e o povoamento do Nordeste, a colonização do Vale
Amazônico e a colheita florestal;
d) Apogeu da Colônia, de 1770/1808, com o renascimento da agricultura e a
incorporação do Rio Grande do Sul para a pecuária;
e) Liberalismo, de 1808/50, determinada pelo declínio do pacto colonial e
aparecimento do capitalismo industrial;
f) Império escravocrata e aurora burguesa, de 1850/89, caracterizados pela
evolução agrícola, um novo equilíbrio econômico, a decadência do trabalho
servil e sua abolição, a imigração e a colonização;
g) República burguesa, de 1889/1930, com dois sub-períodos, a industrialização
e o imperialismo; e
h) A crise de um sistema a partir de 30.
Celso Furtado, Formação Econômica do Brasil, distingue cinco etapas:
a) fundamentos econômicos da ocupação (até a implantação da empresa
agrícola);
b) economia escravagista da agricultura tropical, sécs. XVI e XVII;
c) economia escravagista mineira, séc. XVIII;

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d) economia de transição para o trabalho assalariado, séc. XIX, com café,
imigração européia, a transumância amazônica e a eliminação do trabalho
escravo; e
e) economia de transição para um sistema industrial, séc. XX.
Para Florestan Fernades, há três fases: “A fase da eclosão do mercado
capitalista moderno é fase de transição neocolonial. Sua delimitação pode ir da abertura
dos portos até 1860. A fase de formação e expansão do capitalismo competitivo se
caracteriza pela consolidação e disseminação desse mercado e por seu funcionamento
como fator de diferenciação do sistema econômico. Compreende tanto o período de
consolidação da economia urbano-comercial quanto à primeira transição industrial
verdadeira, e dura até a década de 50, no século XX. A irrupção do capitalismo
monopolista caracteriza-se pela reorganização do mercado e do sistema de produção, por
meio das operações comerciais e financeiras. Embora haja tendências anteriores, ela só
se acentua no fim da década de 50 e caráter estrutural a partir da revolução de 64”.
A busca de periodização do território brasileiro é ponto de partido para projeto
ambicioso: falar a nação pelo território. Podem ser identificados 3 grandes momentos:
O MOMENTO NATURAL
É marcado pelos tempos lentos da natureza comandando as ações humanas;
a unidade era dada pela natureza, e a presença humana adapta-se ao sistema natural.
Os locais utilizados por grupos humanos para desenvolver sua base material
nos primórdios da história constituíram o que se chama de meio natural, mas que não
pode ser desvinculada de uma técnica de ocupação uma vez que com a presença do
homem atribui-se valor às coisas. Esse processo não significou a implantação de próteses
nos lugares, mas a imposição à natureza de um primeiro esboço de presença técnica,
pois ritmos e regras buscavam sobrepor-se a ordem natural.

O MEIO TÉCNICO
Atenuou o império da natureza. A mecanização seletiva desse conjunto de
ilhas que era o território identifica sub-períodos. As técnicas pré-máquina, e depois as
técnicas da máquina, apenas na produção definem o Brasil como um arquipélago da
mecanização incompleta. Posteriormente, a incorporação de máquinas ao território
(ferrovias, telégrafos), estaríamos autorizados a apontar um meio de circulação
mecanizada e industrialização, caracterizado pela urbanização interior e formação da
Região Concentrada (Estados de RJ, ES, MG, SP, PR, SC e RS). No pós-guerra, sobrevém
a integração nacional, graças às estradas de rodagem, e uma nova industrialização. Dá-
se uma integração do território e mercado, com uma significativa hegemonia paulista.
Aqui, o movimento da sociedade e a transformação dos conteúdos e funções
dos lugares podem ser entendidos pelas sucessivas divisões territoriais do trabalho. A
produção de cada lugar é o motor do processo, porque transforma as relações do todo e
cria novas vinculações entre as áreas. Mais tarde, a invenção e a difusão das máquinas e
a elaboração de formas de organização mais complexas permitem outros usos do
território. Novas geografias desenham-se, a partir de prolongamentos não apenas do
corpo do homem, mas do próprio território, constituindo verdadeiras próteses.
O Brasil arquipélago constituía-se com a vinculação da demanda para o
exterior, formando-se zonas econômicas e criam-se verdadeiras famílias e gerações de
cidades testemunhando sucessão de divisões territoriais de trabalho em graus diversos
de tecnificação. Cidades do ouro, diamantes, de colonização são tipos que assinalam o
dinamismo da urbanização brasileira; era conseqüência da localização dos poderes
político-administrativo e a centralização dos agentes. Todavia em áreas como a

42
Amazônia, ainda impunha-se o meio natural.
Durante quatro séculos lentos, o território brasileiro, em áreas como a Bahia
foram a base de uma produção fundada na criação de um meio técnico muito mais
dependente do trabalho direto e concreto do home do que da incorporação de capital à
natureza. A partir do século XIX, a produção e o território se mecanizam, com usinas e
trens. No Sul a política de imigração assinalou a forma de povoamento e trabalho. Em
São Paulo constituía mão de obra qualificada e desejosa por consumo.
Uma transição pode ser observada entre o período anterior, herança da época
colonial pré-mecânica, e a verdadeira integração nacional. É diferenciado entre as
regiões, mas iniciou-se em meados década de 40, quando se estabelece uma rede
brasileira de cidades com hierarquia nacional, crescimento industrial e predominância do
Centro-Sul. Paralelamente, aumento acelerado da população, com velhas estruturas
sociais. Melhor infra-estrutura e novas formas de participação do país na fase industrial
do modo de produção permitiram às cidades beneficiárias aumentar seu comando sobre
o espaço regional, enquanto a navegação, importante para o comércio exterior, ensejava
um mínimo de contatos entre as diversas capitais regionais. Rompia-se, assim, o tempo
lento para dentro do território para um tempo rápido para fora.
O crescimento populacional criou excedentes no campo, e esses, cada vez
mais numerosos dirigiram-se para as cidades. Esse movimento corresponde, quase
sempre, a uma preocupação pela melhoria de vida. A estrada, o avião, aproximando
áreas de crescimento facilitam os contatos e a propagação de novidades. O rádio teve
papel importante ao prover o conhecimento da existência de outros lugares com
melhores condições de vida aos iletrados.
A partir de 1930, São Paulo tornou-se metrópole industrial. Ao acompanhar
esse despertar industrial, o país inteiro foi obrigado a concretizar a integração nacional. A
indústria precisa ampliar seu mercado e a extinção das barreiras à circulação de
mercadorias entre os Estados da União marcou um avanço fundamental no processo de
integração econômica. Foram criadas as condições de formação do que é hoje a região
polarizada do país, dado por uma integração do Sul e Sudeste. A partir de 45 e 50 a
indústria ganha novo ímpeto com o chamado crescimento industrial intencional, para
diferenciá-lo do crescimento industrial não intencional dos anos 30. A política cambial, a
modernização do aparelho estatal, melhor inserção na economia internacional e
facilidades a entrada de capital estrangeiro alavanca o processo. Cidades no interior
desenvolvem-se, Manaus e Santos crescem integradas pelos transportes.
No período anterior à unificação do mercado interno, tanto a força local ou a
regional dependia de fatores regionais (propriedade, consumo, renda, transportes). Mas
quando da primeira unificação, a região mais avantajada passava a dispor de condições
para competir com outras regiões na própria zona de influência. Havia de um lado
mudança no esquema produtivo, e maior seletividade geográfica mediante uma
polarização. O desequilíbrio industrial entre Rio e SP afirma-se quando a indústria
paulista conhece uma diversificação. A formação de capital em SP é um dos fatores dessa
diversificação. A construção de Brasília foi um passo importante, pela construção da rede
de estradas e expansão do consumo. O golpe de 64 pode ser considerado um novo passo
de internacionalização da economia, com a influência da guerra fria e de acordos
assinados para tornar segura a entrada de capitais.
Antigas metrópoles costeiras perdiam importância, e nova hierarquia era
firmada. A industrialização e a produção agrícola mais moderna, e o consumo mais difuso
que a produção constituem o conteúdo mais visível no novo processo territorial.

43
O MEIO TÉCNICO-CIÊNTIFICO-INFORMACIONAL
Caracterizou-se, nos anos 70, por revolução nas telecomunicações, quando o
meio técnico se difunde. Mas, como era restrito a algumas áreas. A globalização passa a
configurar uma nova geografia, distinguindo lugares segundo a presença ou escassez das
novas variáveis chave. Agravam-se as diferenças regionais, aumenta a importância da
área concentrada, e inicia-se a ocupação de áreas periféricas com produção moderna. No
Brasil, a região concentrada cresce em importância com a predominância paulista.
A IIGM mostrou as dificuldades provocadas pela ausência de rede nacional de
transportes um país como o Brasil. A ideologia do consumo, do crescimento econômico e
do planejamento foram os grandes instrumentos políticos e os grandes provedores das
idéias que iriam guiar a reconstrução ou remodelação dos espaços nacionais, juntamente
com a economia, sociedade e política. Para realizá-los era necessário equipar e integrar o
território com recursos modernos, era o caminho da integração do território.
Nos países subdesenvolvidos ocorria a corrida pelo crescimento e
desenvolvimento, as necessidades de consumo interno, o imperativo de afirmar o Estado
sobre a nação e a indispensabilidade de um comando central eram argumentos de peso,
embora ideológicos. Sobre isso, a adaptação ao modelo capitalista com a ideologia da
racionalidade e modernização a qualquer preço ultrapassa o setor industrial, impõe-se ao
setor público, mídia, ensino, religião e trabalho. Para Mamigonian, a industrialização
dependente provocou novos problemas, pois o contingente de mão-de-obra e tecnologia
não criou empregos suficientes com pequena renda, em situação que exigia governos
autoritários. A dependência manifestou-se com o crescimento do envio de lucros e
royalties, não dando margem à apropriação do excedente econômico.
A década de 70 marcou o fim do ciclo, quando havia necessidade de
mudanças no corpo social e político associados à diminuição de atividade econômica, o
que exige a investimentos públicos numerosos para manter a atividade. Uma nova
divisão territorial do trabalho esboça-se no Brasil a partir da necessidade de transformar
minérios, petróleo, ou substituir esses recursos. É o momento da implantação dos pólos
industriais, petroquímicos e siderúrgicos. Ampliam-se as redes de transporte, mais
densas e modernas. Moderniza-se a agricultura, expandem-se as fronteiras agrícolas. Os
intercâmbios aumentam e cresce o setor de serviços, pois há maior necessidade de
organização dos serviços públicos e privados, de transportes e de bancos. Concomitante,
preservam-se uma série de condições de subdesenvolvimento, muitas vezes agravadas
pelo crescimento econômico. A política de crescimento estimula a produção de bens de
capital, para o qual não existe mercado interno. O capital comanda o território, e o
trabalho, tornado abstrato, representa papel indireto. Por isso as diferenças regionais
passam a ser diferenças sociais e não mais naturais.
A união entre ciência e técnica transformou o território brasileiro, e revigorou-
se com os novos recursos da informação, a partir do período da globalização e sob a
égide do mercado, que se torna global. O território ganha novos conteúdos e impõe
novos comportamentos, graças às enormes possibilidades de produção e, da circulação
de insumos, produtos, dinheiro, idéias e informações, ordens e homens. É a irradiação do
meio técnico-científico-informacional que se instala sobre o território, em áreas contínuas
no Sudeste e no Sul ou constituindo manchas e pontos no resto do país. A questão da
fluidez do espaço apresenta-se agora em outros termos: informação e finanças são
primordiais na arquitetura social e espacial de um país. Distinguem-se áreas onde a
informação e as finanças têm maior importância, da mesma forma que antes se fazia
com a mão-de-obra, definindo-se novos usos e uma nova escassez.

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REGIÃO CONCENTRADA
Região concentrada é a área onde os acréscimos de ciência e tecnologia ao
território se verificam de modo contínuo. Expressão mais intensa do meio técnico-
científico-informacional, essa região abrange os estados do Sudeste (Espírito Santo, Rio
de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo), os estados do Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio
Grande do Sul) e dois estados do Centro-oeste (Mato Grosso do Sul e Goiás), tendo
como pólo as metrópoles de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Nessa região, a modernização generalizada e a intensa circulação interna e
com outras regiões e países correspondem a uma marcada divisão territorial do trabalho.
Sede da agricultura mais moderna do Brasil e do mais expansivo desenvolvimento
industrial e financeiro, essa área concentra, também, os níveis superiores dos sistemas
de saúde, educação, lazer e serviços modernos, como a publicidade, cujas demandas são
garantidas pelo consumo dessa grande concentração produtiva e populacional.
As metrópoles de São Paulo e do Rio de Janeiro sediam os escritórios das
mais poderosas firmas nacionais e das filiais das empresas globais, que têm papel de
controle do mercado nacional e de comando do respectivo território. É em São Paulo que
se elabora e concentra a maior parcela das informações sobre economia, sociedade e
território. A acumulação de atividades intelectuais assegura a essa metrópole o
predomínio das atividades produtivas de ponta, a função de suporte aos segmentos
modernos da economia do país e caráter de encruzilhada na expansão do meio técnico-
científico-informacional. Como o território deve ser usado, hoje, com o conhecimento
simultâneo das ações empreendidas em lugares distantes, a sua função de centro
informacional lhe concede uma nova hierarquia no sistema urbano brasileiro.

DINÂMICA DA QUESTÃO AMBIENTAL NO BRASIL


DESAFIOS DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Na Conferência das ONU sobre Meio Ambiente, realizada em Estocolmo (72), a
crise ambiental foi associada à explosão demográfica dos países pobres. O planeta é um
sistema finito de recursos, submetido às pressões do crescimento exponencial da
população e da produção econômica.
Entretanto, grande parte da crise ambiental contemporânea é resultante de
padrões de produção e de consumo adotados por parcela relativamente pequena da
população mundial. Atualmente, os recursos energéticos mais utilizados no mundo são o
carvão, o petróleo e o gás natural, a água e os minerais radioativos: juntos,
correspondem a cerca de 90% da oferta mundial de energia. A Conferência de
Estocolmo, recomendou diminuir a utilização dos principais recursos energéticos.
O conceito de desenvolvimento sustentável, divulgado pelo documento "Nosso
Futuro Comum", se contrapõe em muitos sentidos às concepções predominantes da
reunião de Estocolmo. O Relatório Bruntland (87) aborda de maneira integrada as
questões ambientais, demográficas e sociais. O uso intensivo de recursos naturais e a
manutenção de padrões de consumo acima das possibilidades ecológicas em certas
regiões do planeta, assim como a disseminação da pobreza em outros, são fatores de
risco global. O desenvolvimento sustentável só existe quando se cumprem os requisitos
ambientais para a continuidade dos padrões de produção e consumo desejados, e
quando estes são passíveis de se estender ao conjunto da humanidade.
Em geral, não é preciso esgotar os recursos renováveis, como florestas e
peixes, desde que sejam usados dentro dos limites de regeneração de crescimento

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natural. No tocante a recursos não-renováveis, os níveis de uso devem levar em conta a
disponibilidade do recurso, de tecnologias que minimizem seu esgotamento, e a
probabilidade de se obterem substitutos para ele.
O conceito de desenvolvimento sustentável foi um dos fios condutores dos
debates da Conferência Rio 1992, e é um dos pilares da Agenda 21, um vasto programa
de ações de curto, médio e longo prazo aprovado pela conferência no sentido de garantir
a sustentabilidade ambiental dos novos investimentos produtivos e recuperar áreas já
degradadas pelo uso predatório dos recursos naturais.
Sustentabilidade é um conceito que envolve sinergia entre fenômenos
naturais e ações humanas, quando ciclos naturais de nutrientes tornaram-se ativos
parceiros nas atividades econômicas.

TRATADOS QUE ENVOLVEM O BRASIL


Podem ser citados:
• Convenção sobre o Tráfico Internacional de Espécies ameaçadas (CITES), em
vigor a partir de 75, com o objetivo de controlar e prevenir a extinção de espécies
ameaçadas pelo comércio ilegal;
• Convenção sobre terras úmidas (RAMSAR), em vigor a partir de 75 e na qual o
Brasil tem papel essencial pela diversidade de ecossistemas designados como
áreas úmidas de importância global;
• Convenção para proteção do patrimônio cultural e natural (HERITAGE) em vigor a
partir de 75 e gerenciada pela UNESCO;
• Convenção de Viena para Proteção da camada de ozônio e Protocolo de Montreal
para substancias que agridam a camada de ozônio, em vigor a partir de 1989;
• Convenção da Basiléia para os movimentos transfronteiriços de rejeitos perigosos
e sua disposição final, a partir de 1992;
No período pós-Rio 92 a diplomacia brasileira tem atuado com papel
estratégico nas negociações dos seguintes tratados:
• Convenção de Biodiversidade Biológica, em vigor a partir de 93, mas com diversas
questões pendentes relacionadas à regulamentação para bioprospecção e
valoração do conhecimento tradicional;
• Convença da ONU para mudanças climáticas (UNFCCC), em vigor a partir de 94,
que gerou a proposta de Kyoto cujo texto foi aprovado em 97 e sobre o qual
existem fortes dissidências e questões polêmicas;
• Convenção da ONU para os oceanos (UNCLOS), (94), dirigidas às questões de
soberania sobre os recursos marinhos provenientes de zonas costeira, incidindo
especificamente sobre o ambiente marinho, regulamentação e pesquisa; e
• Convenção da ONU para combate à desertificação (UNCCD), em vigor a partir de
96, dirigida a paises de 4 regiões afetados pelo problema.
• O Protocolo de Cartagena. Surgido no bojo da Convenção de Diversidade Biológica
da Rio-92, refere-se basicamente ao fluxo entre fronteiras de organismos vivos
modificados (OVMs), entre eles os transgênicos. A preocupação principal é com a
biossegurança e os possíveis efeitos negativos dos OVMs sobre a biodiversidade
do país receptor e, em segundo plano, sobre a saúde das pessoas e dos animais.
Trata-se de criar um mecanismo de defesa para os países "importadores" de
OVMs sem restringir o comércio, por meio de barreiras técnicas impostas em
nome de suposto interesse global. Tanto as razões para aderir como as que
levaram praticamente todos os grandes exportadores de alimentos - exceto o
Brasil - a não ratificar o protocolo variam e são particulares de cada país.

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Além das convenções, que têm força de lei, a partir da Rio 92, compromissos
de grande impacto internacional foram estabelecidos através de alguns instrumentos de
forte alcance em torno do compromisso do desenvolvimento sustentável, como a Agenda
21 e a Carta da Terra e outros princípios de cunho setorial.

AGENDA 21
É programa de ação baseado em 40 capítulos, que constitui a mais ousada e
abrangente tentativa já realizada de promover, em escala planetária, um novo padrão de
desenvolvimento, conciliando métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência
econômica. Nasceu em Estocolmo (72). Seus tópicos:
• Promoção do desenvolvimento agrícola, rural e sustentável.
• Promoção do desenvolvimento industrial sustentável
• Integração do Meio Ambiente nas decisoões
• Acesso as informações para tomada de decisões
• Gerenciamento de Ecossistemas frágeis
• Dinâmica demográfica e sustentabilidade
AGENDA 21 BRASILEIRA: TÓPICOS: TEMAS CENTRAIS DESTACADOS:
• Cidades Sustentáveis
• Agricultura Sustentável
• Infraestrutura e Integração Regional
• Gestão de Recursos Naturais
• Redução das desigualdades sociais
• Ciência e tecnologia para o Desenvolvimento sustentável.
A Agenda 21 Global está estruturada em quatro seções:
• Dimensões sociais e econômicas
• Conservação e gestão dos recursos para o desenvolvimento
• Fortalecimento do papel dos principais grupos sociais
• Meios de implementação
Conceitos chave da Agenda 21 Global:
• Cooperação e parceria
• Educação e desenvolvimento individual
• Equidade e fortalecimento dos grupos socialmente vulneráveis
• Planejamento
• Desenvolvimento da capacidade institucional
• Informação.
As premissas para a elaboração da Agenda 21 Brasileira:
• Envolver os diferentes atores da Sociedade no estabelecimento de parcerias
• Incorporar o principio federativo
• Possuir um caráter gerencial e mobilizador de meios
• Adotar abordagem integrada e sistêmica das dimensões econômicas, social,
ambiental e político-institucional do desenvolvimento sustentável.

DEFLORESTAMENTO NA AMÉRICA DO SUL

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CONSERVAÇÃO E PRESERVAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL
Influenciados pela crítica à controvertida participação em Estocolmo (72) e
pela polêmica gerada em torno da proposta brasileira de desenvolvimento a qualquer
custo, foi criada a Secretaria Especial do Meio Ambiente, em 1973, e o IBAMA
(responsável pela política nacional de unidades de conservação). As leis brasileiras
prevêem além da cidade de conservação, metade da terra incluída em qualquer projeto
econômico deve ser mantida como floresta (onde houver).
Uma estação ecológica é extensão de área natural, de valor ecológico,
destinado à pesquisa e à experimentação científica. Essas áreas compreendem porções
de relevante interesse para a proteção, com vistas a assegurar as condições ecológicas
locais. Os parques urbanos objetivam preservar áreas verdes locais de lazer.

SANEAMENTO BÁSICO E QUALIDADE DE VIDA NO BRASIL


O predomínio do crescimento horizontal que marcou, pelo menos até a década
de 1970, a expansão da mancha urbana das metrópoles brasileiras não impediu o
aparecimento de "ilhas de verticalização". Essa tendência à horizontalização foi
determinada pelo atraso na implantação de um esqueleto de vias férreas e de metrô para
o transporte urbano de massas. A ausência dessa "armadura ferroviária" condicionou
uma expansão da área no urbanizada ao longo do eixo das avenidas radiais.
As metrópoles brasileiras assumiram feição espalhada e disforme. A expansão
desordenada gera pressão crescente por serviços públicos. As conseqüências ambientais
da ocupação desordenada dos espaços periféricos são de gravidade semelhante.
Esse modelo expansionista entrou em crise na última década. A redução do
movimento migratório em direção às cidades maiores e a desaceleração do crescimento

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vegetativo contribuem para o encerramento dessa etapa de descontrolada expansão
horizontal. Como conseqüência do esgotamento desse modelo, aumentam as favelas e os
cortiços nas áreas mais antigas e estabilizadas das cidades.

MEIO AMBIENTE, SANEAMENTO E TRANSPORTE


A Conferência Habitat II deu ênfase à questão urbana ambiental ao definir a
sustentabilidade como princípio e assentamentos humanos sustentáveis como objetivo a
ser perseguido. No entanto, a preocupação com os problemas ambientais urbanos
(brown agenda) ainda não recebeu a mesma atenção da agenda verde. É recente a
explicitação do componente ambiental nas políticas urbanas e de saneamento, como
acesso a água e esgoto, apesar de 80% dos domicílios possuírem coleta de lixo.
A principal fonte de poluição atmosférica ainda é o monóxido de carbono
produzido pela frota de veículos. A inexistência de sistemas adequados de tratamento de
resíduos, tanto das atividades econômicas quanto das atividades domésticas, tem
provocado altos índices de poluição hídrica.

COMÉRCIO INTERNACIONAL E MEIO AMBIENTE


Os últimos 50 anos foram de liberalização do comércio, mas novas formas de
protecionismo foram desenvolvidas. Na OMC segue-se o princípio de que as políticas
comerciais devem ser usadas com fim estritamente comercial e de que o livre comércio,
a não-discriminação e a reciprocidade trazem benefícios para todos.
A OMC tenta restringir as práticas comerciais associadas a imposições de
normas ambientais, da mesma maneira que procede com as restrições econômicas e
sociais. As referências à conduta ambiental foram debatidas na Rodada Uruguai.
O fundo é o Princípio da Nação Mais Favorecida e a Definição de Produtos
Nacionais que têm por objetivo minimizar o recurso abusivo às barreiras comerciais.
As Barreiras Técnicas têm de ser justificadas e estabelecem as discriminações
permitidas, como exceção à regra geral. As discriminações podem ser toleradas se
aplicadas para proteger a ordem pública, a moral e a conservação. Não há menção
quanto aos recursos naturais, restringindo-se às plantas, animais e recursos minerais,
produtos e serviços associados ao Desenvolvimento Sustentável. O artigo em referência
deixa dúvidas sobre a questão da extraterritorialidade, vez que o importador não poderia
impor normas técnicas cujo impacto ultrapasse as fronteiras do país de origem.
A OMC define os subsídios como “acionáveis” ou “não-acionáveis”, como os
subsídios destinados ao combate à poluição, que não são interpretados como dados
diretamente às exportações. Dessa forma, a valoração do custo da degradação ambiental
enfrenta dificuldades, face à complexidade da cadeia de fatores a serem considerados.
A OMC não possui normas específicas sobre poluição das atividades
econômicas, que só podem ser consideradas em situações de “poluição transfronteiriça”,
isto é, quando o processo de produção de um país afeta o país vizinho, como é o caso do
fenômeno de chuvas ácidas e do Protocolo de Montreal relativo à camada de ozônio.
Sendo assim, a OMC vem recomendando e incentivando a homogeneização de padrões
de produtos, de gestão e de processos na área ambiental ou fora dela.

REPRESENTATIVIDADE DO BIOMA BRASILEIRO


O Brasil é o país de maior biodiversidade do Planeta. Foi o primeiro signatário
da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB), e é considerado megabiodiverso –
país que reúne ao menos 70% das espécies vegetais e animais do Planeta. A
biodiversidade pode ser qualificada pela diversidade em ecossistemas, em espécies
biológicas, em endemismos e em patrimônio genético.

49
Devido a sua dimensão continental e à grande variação geomorfológica e
climática, o Brasil abriga sete biomas, 49 ecorregiões, já classificadas, e incalculáveis
ecossistemas. A biota terrestre possui a flora mais rica do mundo. É preciso lembrar que
abriga, também, a maior rede hidrográfica existente e rica diversidade sociocultural.
Esses estudos levam em consideração diversos elementos tais como, riqueza
biológica, vegetação, distribuição de áreas protegidas e antropismo. Os estudos têm por
objetivo verificar como os diversos ecossistemas estão sendo representados por meio de
ações conservacionistas como áreas protegidas, corredores ecológicos, projetos de
preservação de espécies etc. Obtém-se, assim, uma identificação e análise de lacunas,
que deverão ser consideradas na definição de prioridades de conservação.
Os métodos de identificação de ecorregiões, lacunas, gestão biorregional e
ecorregional, estão sendo empregados pelas principais instituições conservacionistas
mundiais, com intuito de padronizar procedimentos e eficiência nas ações.

GESTÃO DA COSTA BRASILEIRA


A costa brasileira abriga ecossistemas de alta relevância ambiental. Ao longo
do litoral brasileiro podem ser encontrados manguezais, restingas, dunas, praias, ilhas,
costões rochosos, baías, brejos, falésias, estuários, recifes de corais e outros ambientes
importantes do ponto de vista ecológico, todos apresentando diferentes espécies animais
e vegetais. Isso se deve, basicamente, às diferenças climáticas e geológicas da costa
brasileira. É na zona costeira que se localizam as maiores presenças residuais de Mata
Atlântica, com enorme variedade de espécies vegetais. Também os manguezais, de
expressiva ocorrência na zona costeira, cumprem funções essenciais na reprodução
biótica da vida marinha. Enfim, os espaços litorâneos possuem riquezas significativas de
recursos naturais e ambientais, mas a intensidade da ocupação desordenada vem
colocando em risco todos os ecossistemas presentes na costa litorânea.
O litoral amazônico vai da foz do rio Oiapoque ao delta do Parnaíba. Apresenta
grande extensão de manguezais, matas de várzeas de marés, campos de dunas e praias.
Apresenta uma rica biodiversidade em espécies de crustáceos, peixes e aves.
O litoral nordestino começa na foz do rio Parnaíba e vai até o Recôncavo
Baiano. É marcado por recifes calcíferos e areníticos, e dunas. Há ainda manguezais,
restingas e matas. Nas águas do litoral nordestino vivem o peixe-boi marinho e as
tartarugas, ambos ameaçados de extinção.
O litoral sudeste segue do Recôncavo Baiano até São Paulo. É a área mais
povoada e industrializada do país. Possuem falésias, recifes e praias de areias
monazíticas (mineral de cor marrom-escura). É dominada pela Serra do Mar e tem a
costa muito recortada, com várias baías e pequenas enseadas. O ecossistema mais
importante dessa área é a mata de restinga, que tem a fauna ameacada.
O litoral sul começa no Paraná e termina no Arroio Chuí, no Rio Grande do Sul.
Com muitos banhados e manguezais, o ecossistema da região é riquíssimo em aves, mas
há outras espécies: ratão-do-banhado, lontras (ameaçada de extinção), capivaras.
A densidade demográfica média da zona costeira brasileira é superior à média
nacional. Nota-se que a formação territorial foi estruturada a partir da costa, tendo o
litoral como centro difusor de frentes povoadoras, ainda em movimento. Hoje, metade da
população brasileira reside numa faixa de até 200km do mar, o que impacta os
ecossistemas litorâneos. Dada a carências de serviços urbanos, tais áreas constituem-se
nos principais espaços críticos para o planejamento ambiental da zona costeira do Brasil.
Não há dúvida em defini-las como as maiores fontes de contaminação do meio marinho.
E as grandes cidades litorâneas abrigam grande número de complexos industriais dos

50
setores de maior impacto sobre o meio ambiente (química, petroquímica, celulose).
Enfim, observa-se que a zona costeira apresenta situações que necessitam
tanto de ações preventivas como corretivas para o seu planejamento e gestão, a fim de
atingir padrões de sustentabilidade para estes ecossistemas.

PROJETOS DE CONSERVAÇÃO DE ECOSSISTEMAS


Gestão Biorregional dos Lençóis Maranhenses/Delta do Parnaíba
Abrange complexo de ecossistemas costeiros e marinhos, constituído pelos
Lençóis Maranhenses e o Delta do Parnaíba. Envolve ecossistemas de relevância
ambiental, marcado pela transição de ambientes terrestres e marinhos. Aí estão
encadeados parques nacionais e APAs estaduais. A área sedimentar denominada de
Lençóis Maranhenses resultou da ação combinada dos ventos, ondas e correntes
marítimas e formam dunas. O projeto desenvolve ações de conservação, uso sustentável
dos recursos naturais e ordenamento da ocupação do espaço territorial.
Valoração Econômica dos Manguezais de Santa Catarina
Tem por objetivo desenvolver e aplicar, por meio de função dose-resposta
(método OCDE), metodologia para determinar os diferentes impactos a que vêm sendo
submetidos os manguezais e os valores correspondentes ao custo de reposição dessas
áreas. A metodologia Pressão–Estado–Resposta retrata a relação de casualidade entre as
atividades humanas, o estado do meio ambiente e a reação social decorrente.
Projeto de Valoração Econômica do Recôncavo Baiano
Originalmente conhecido como Projeto de Conservação e Valoração
Socioeconômica dos Ecossistemas de Manguezais na América Tropical – Recôncavo
Baiano, objetiva avaliar as atividades e impactos ambientais ocorrentes nas bacias de
drenagem do Recôncavo Baiano que comprometem a manutenção dos ciclos naturais dos
manguezais e outros ecossistemas associados.

OLHARES CONTEMPORÂNEOS SOBRE O URBANO


MUDANÇAS NO ESPAÇO BRASILEIRO - URBANIZAÇÃO
• A urbanização preside as mudanças econômicas no Brasil.
• Foi associada com o estabelecimento de sistemas produtivos industrializados.
• A urbanização com industrialização serviu para a saída da crise dos anos 20
quando se esgotou o antigo modelo exportador colonial. Foi o campo de práticas
do governo para alargar a classe média e ampliar o mercado interno.
• No campo urbano se sucederam as revoluções de instâncias ideológicas e políticas
que influíram na condução da política econômica.
• Destacou-se a ação de governo(Vargas) na criação de instituições sociais urbanas.
• O desenvolvimento dos anos 50, enfatizou-se a infra-estrutura interurbana para
unir o arquipélago regional econômico.
• Criação de enclaves da modernidade – Brasília.
• Fase do autoritarismo assume grande dimensão a modernização administrativa e
investimento dirigido para o espaço construído urbano.
• Órgãos federais de políticas urbanas para o interurbano e o intraurbano.
• Ao longo do processo a população ia se transferindo do quadro rural para o
urbano, que de 32% da população total em 1940, passou para 76% em 1996.
• No contexto a cidade aparece como o meio em que, apesar de todas as
desigualdades, forças de mercado se acumulam e atuam no sentido de quebrar

51
antigas estruturas. O processo teve pois o sentido Estado - cidades - mercado

PROCESSOS DE URBANIZAÇÃO E A REDE DE CIDADES


Conheceu uma aceleração notável desde a década de 1950. Apoiou-se no
êxodo rural, incentivado pela modernização técnica do trabalho rural e pela concentração
da propriedade fundiária. A urbanização do Brasil, apesar de geral, não é uniforme.
A organização do Centro-Oeste foi impulsionada pela fundação de Brasília e
pelas rodovias de integração nacional. A ocupação do espaço rural por grandes
propriedades acentuou a tendência urbanizadora.
A região Sul viveu um processo lento e limitado até década de 1970: estrutura
agrária familiar policultora, ancorada no parcelamento da propriedade da terra. Depois,
a mecanização acelerada da agricultura e a concentração da propriedade da terra
impulsionaram uma transferência acelerada da população rural para o meio e o urbano e
fluxos migratórios para as novas frentes pioneiras do Centro-Oeste e da Amazônia.
No Nordeste, o movimento urbanizador foi menos intenso. A persistência de
uma elevada participação da população rural decorre da estrutura minifundiária e familiar
tradicional da faixa do agreste, reteve a força de trabalho no campo. Até a década de
1980, o movimento migratório para o Sudeste transferia populações do campo
nordestino para cidades dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Na região Norte, o crescimento relativo da população urbana tem sido mais
lento. O processo da urbanização foi concentrador: gerou cidades grandes e metrópoles.

A REDE DE CIDADES NO BRASIL


As metrópoles nacionais: São Paulo e Rio de Janeiro. As metrópoles regionais:
Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza e Belém. Brasília não
chegou a se tornar uma metrópole regional completa.
Em um primeiro momento, o Brasil urbano era arquipélago e suas
metrópoles comandavam suas zonas de influência. Num segundo momento, houve a
formação de mercado único, limitado à Sudeste e à Sul. O terceiro momento, quando o
mercado nacional se constitui. E o quarto momento, quando há mercado único mas
segmentado; único e diferenciado; um mercado hierarquizado e articulado por firmas
hegemônicas, nacionais e estrangeiras, que comandam o território com o apoio do
Estado. Mercado e espaço, ou melhor, mercado e território, são sinônimos.
A nova divisão do trabalho territorial atinge a própria região concentrada,
privilegiando a cidade de São Paulo. Atividades modernas presentes em diversos pontos
do país necessitam se apoiar em São Paulo para um número crescente de tarefas.
Dispersão e concentração dão-se de modo dialético, de modo complementar e
contraditório. Se, continuamente, o espaço tornava-se unificado e fluido, todavia
faltavam condições de simultaneidade que somente hoje se verificam.
O novo princípio da hierarquia é a hierarquia das informações. As
questões de centro e periferia ficam ultrapassadas. Hoje a metrópole está presente em
toda parte instantaneamente. Trata-se de "dissolução da metrópole", condição do
funcionamento da sociedade econômica e da sociedade política. Temos agora o fenômeno
da "metrópole transnacional" cuja força deriva do poder de controle sobre a economia e
o território. Trata-se de fato novo, completamente diferente da metrópole industrial. A
metrópole informacional assenta sobre a metrópole industrial, mas já não é a mesma
metrópole. Prova de que sua força não depende da indústria é que aumenta seu poder
organizador ao mesmo tempo em que se nota uma desconcentração da atividade fabril.

52
REDE INDUSTRIAL BRASILEIRA
O triangulo Rio-SãoPaulo-BH é o grande pólo industrial do Brasil, abrangendo
o leste de SP, o sul de MG, o RJ e avançando pelo sul do ES, na qual encontra-se
complexo heterogêneo de atividades secundárias. A economia cafeeira respaldou o
arranque industrial paulista, sendo as primeiras áreas industriais localizadas junto aos
eixos ferroviários que ligavam a cidade ao Rio de Janeiro. No pós-guerra, a aceleração do
crescimento industrial alterou a localização das regiões fabris que transbordou os limites
do município, onde os eixos rodoviários substituíram as linhas de trem. A industrialização
do RJ apoiou-se em seu mercado consumidor e na proximidade com as empresas
estatais e da nascente indústria petroquímica.
São Paulo tem sido palco de processo de dispersão industrial, como
conseqüência da expansão econômica para o interior, por muito baseados na agricultura,
o que gerou mercados consumidores e força de trabalho. O sistema viário: Anchienta-
Imigrantes, Bandeirantes-Anhanguera e Castelo Branco potencializaram essa dinâmica.
No Sul, de Porto-Alegre a Curitiba, estende-se região industrial periférica, com
empresas formadas com capital local e com tecnologia, que passaram de regionais a
nacionais. Iniciadas pelos imigrantes qualificados, predomina a industria voltada para
bens não-duráveis, dependentes de matérias-primas vegetais e agropecuárias.
No Nordeste, a industria desenvolveu-se em torno das metrópoles regionais,
limitadas a Zona da Mata. Revela, simultaneamente, processo de descentralização
(nacional) e concentração (regional). Sua industria moderna é fruto do planejamento
governamental e de incentivos fiscais destinados a atrais capitais do Centro-Sul.
No Norte, o destaque vai para a Zona Franca de Manaus. Criada em 67,
quando foi deflagrada processo geopolítico visando a criação de centro industrial na
Amazônia. Transformada em porto livre para o comércio exterior, com isenção de
impostos, teve sucesso e passou a concentrar quase metade da população do Estado.
Com mercados consumidores extra-regionais, seus capitais são transnacionais.

DINÂMICA DO INVESTIMENTO INDUSTRIAL NO BRASIL


Analisando-se a participação da produção física e indicadores de emprego,
observa-se perda de participação do Rio de Janeiro e de São Paulo em relação ao
restante do Brasil. As mudanças mostram alteração na dimensão espacial do
desenvolvimento, em que a desconcentração das últimas décadas deve ser acompanhada
por aumento da heterogeneidade das regiões brasileiras, com o surgimento de ilhas de
produtividade em quase todas as regiões; e crescimento maior das antigas periferias
nacionais e importância maior do conjunto das cidades médias.
Tendências indicam continuidade da desconcentração para o Centro-Sul, até
mesmo, para o Nordeste, no caso das indústrias intensivas em mão-de-obra. Mas, o Sul
beneficia-se dessa tendência já que sua participação no setor secundário apresenta
notável crescimento. Contudo, esses novos padrões não serão uniformes.
Motivados por essa aparente desconcentração, vários estados e municípios
têm-se lançado em programas arrojados de atração de investimentos, utilizando-se de
ampla gama de incentivos. Apesar de os diversos rounds da guerra fiscal tenderem a
igualar o nível de benefícios concedidos, é inegável que a maior agressividade das
unidades menos industrializadas reforça ainda mais essa trajetória de desconcentração.
Em paralelo, também se identifica um processo de concentração regional dos
investimentos em setores com grande potencial de crescimento, como telecomunicações
e informática, em função de a sistemática do processo produtivo básico equalizar os
incentivos para o conjunto do país. De forma análoga, os impactos do programa de

53
privatização ampliam o peso das áreas mais industrializadas do país, tanto por
intermédio da racionalização das atividades quanto pelo fechamento de antigas plantas.
A avaliação desse panorama é difícil visto que os fenômenos em curso. Desde
logo, o menor peso direto do Estado no investimento produtivo, a abertura econômica, e
blocos regionais, cada um a seu modo, provocam impactos nada desprezíveis na
configuração regional da indústria brasileira. Pode-se chegar a algumas conclusões:
− A expansão da indústria brasileira, em diferentes estados do país, dá-se em
estreita relação com a concentração demográfica.
− Transporte e estrutura agrária têm sido obstáculos à circulação de mercadorias e,
portanto, empecilhos ao desenvolvimento industrial de certas áreas do país.
− As indústrias mais desenvolvidas do país localizam-se em áreas onde houve
implantação de ferrovias e de estradas de rodagem.

NOVOS DETERMINANTES DA LOCALIZAÇÃO INDUSTRIAL


Para analisar o significado do rearranjo espacial da indústria brasileira é
importante não se ater apenas à mudança relativa da produção corrente, como também
ao ajuste local. Apesar das diferenças setoriais, alguns pontos comuns relacionam-se à
natureza do ajuste praticado pelas empresas. Em particular, vale chamar atenção que:
• em conjunturas de elevado investimento, a desconcentração industrial pode ser
identificada em novas unidades produtivas;
• em casos isolados a desconcentração assumiu a forma de traslado de plantas, a
exemplo do segmento de áudio e vídeo, para a Zona Franca de Manaus;
• a desconcentração relativa a partir do final dos anos 70 deve ser explicada no
contexto do que, desde então, foi a matriz de investimentos da economia
brasileira: insumos básicos, bens intermediários, bens intensivos, etc;
• reestruturação das empresas a partir dos anos, ganhos de produtividade,
aumento do conteúdo importado e mudanças organizacionais;
• a racionalização das atividades desenvolvidas levando em consideração os
diferenciais de custo, de logística e de qualificação de mão-de-obra dos sítios em
que estava localizada cada planta;
• diante da inexistência de pressões de sucateamento das plantas já instaladas, a
estratégia das empresas foi a de alterar o mix de produtos e de atividades; e
O ajuste da localização espacial aponta a tendência de manter nas antigas
áreas industriais exclusivamente as linhas de maior conteúdo tecnológico, ou que, por
diversas razões, demandem mão-de-obra de maior qualificação.
Isso não descarta os prováveis efeitos negativos de reestruturação produtiva
mais intensa sobre as metrópoles brasileiras. Em qualquer alternativa, São Paulo irá
continuar perdendo peso na produção industrial. Porque as empresas já instaladas nessa
área devem privilegiar inversões em outras regiões, não significando desindustrialização.
Assim, em primeiro lugar, investimentos desde o final da década de 70
ainda repercutiram sobre as bases regionais da indústria e trouxeram consigo
componente de desconcentração. Esse fato é válido para a indústria de bens
intermediários herdada do II PND(química e extrativa mineral são exemplos).
Em segundo lugar, o esforço exportador possibilitou alternativas localizadas
de dinamismo econômico, que, apesar de incapazes de ancorar novo padrão de
crescimento a economia, foram importantes para algumas regiões, a exemplo dos
investimentos em papel e celulose, extrativa mineral ou siderurgia.
Em terceiro lugar, a tendências das novas atividades industriais localizarem-

54
se fora das áreas metropolitanas, fugindo das deseconomias de aglomeração das grandes
cidades (menor disponibilidade de terrenos, maiores custos de instalação e operação).
Em quarto lugar, a desconcentração recente passou a ser determinada
também pelo impacto diferenciado da crise sobre as estruturas econômicas regionais,
acentuando os aspectos problemáticos nas áreas mais industrializadas. As chamadas
periferias, sobretudo as assentadas sobre a agroindústria e bens intermediários, viam-se
em melhor posição relativa, porque conseguiu mais facilmente ampliar suas exportações.
Por fim, é necessário ter em conta a dimensão do ajuste microeconômico da
empresa industrial, que traz consigo uma série de impactos locacionais, que nem sempre
são captados pelas estatísticas da produção corrente. Em especial, saliento dois
aspectos: a tendência a reforçar a relação entre fornecedores e montadoras, e o
rearranjo de mix de produto e linhas de produção nos segmentos multiplantas.
O resultado parece indicar a continuidade da desconcentração, ainda que
menos intensa em função do menor investimento agregado, com perdas da RM de São
Paulo e Rio de Janeiro. Essa trajetória deve vir acompanhada de aumento da
heterogeneidade no desenvolvimento das regiões brasileiras, com o surgimento de ilhas
de produtividade em quase todas as regiões, crescimento relativo maior das antigas
periferias nacionais e importância maior das cidades médias.

TEORIAS DEMOGRÁFICAS
FOME X CRESCIMENTO POPULACIONAL
Desde a Antiguidade, a questão do crescimento populacional e suas relações
com a vida social, econômica e política sempre constituiu motivo de preocupações. Deste
modo, surgiram teorias para as várias tendências.
A primeira liberal, denominada Malthusiana, estabelece os seguintes
princípios de que o crescimento não é detido por nenhum obstáculo, e cresce em
progressão geométrica. E, os meios de subsistência, mesmo em condições favoráveis,
não progridem rapidamente, seguindo uma progressão aritmética.
Os obstáculos ao crescimento seriam as epidemias, as práticas
anticoncepcionais e a sujeição moral, na qual o indivíduo não se casaria até tiver
recursos suficientes. A sujeição moral constitui a chave da teoria malthusiana, pois a via
como a melhor forma de se reduzir a natalidade, sendo portanto chamada de
antinatalista. Malthus baseou-se na lei dos rendimentos decrescentes, elaborada pelos
economistas clássicos, sustentando que o rendimento do solo não cresce em proporção à
intensificação progressiva do trabalho ou ao aumento do trabalho.
A Teoria Neomalthusiana também propõe o controle da natalidade. Surgiu
após a IIGM em decorrência da necessidade de uma resposta às inquietações de um
mundo dividido em ricos e pobres.
Pode ser resumida no fato de que o crescimento demográfico acelerado
dificulta o desenvolvimento econômico. As populações jovens exigem grandes
investimentos em educação e saúde, sacrificando outras áreas, principalmente as
produtivas. A renda per capita é sacrificada pelo elevado número de indivíduos.
No entanto, a teoria é refutada por não ser possível aceitar que o
desenvolvimento econômico seja o aumento da renda per capita, por ser uma simples
média aritmética. Pode representar o interesse oculto de classes sociais desejosas em
controlar a natalidade, como os de grupos farmacêuticas.
Os Reformistas contrapõem-se aos neomalthusianos, ao não acreditar que o
crescimento populacional seja a causa da situação precária em que vivem muitas

55
coletividades. Ao contrário, a pobreza produz crescimento demográfico exagerado. A
partir disso propõe reformas sociais e econômicas para melhor distribuição dos recursos.
Os que defendem a Tese do Grande Mercado de Consumo, afirmam que
os paises subdesenvolvidos não podem copiar o desenvolvimento capitalista, necessitam
voltar-se para si mesmos. Assim para alcançar o desenvolvimento necessita de um
grande mercado interno de consumo. No entanto, grande mercado é somente uma
condição, não suficiente para o crescimento, sendo necessárias reformas sociais. Pode
ser caracterizada como reformista. Ao mesmo tempo em que analisa as implicações de
uma população numerosa sobre a economia, propõe mudanças sociais.
Oficialmente, contrária à tese neomalthusiana, a política brasileira foi natalista
e populacionista. As declarações oficiais sempre argumentaram em favor do povoamento
do território. A legislação trabalhista privilegia o salário-família (5% do s.m. p/ filho
menor) e o auxílio maternidade, pelo que se pode inferir uma política de crescimento.

ABORDAGEM SOBRE AS MIGRAÇÕES NO BRASIL


A migração corresponde a movimento de população sobre o espaço. Nem
sempre a idéia de migração esteve ligada a dinâmica da sociedade, isto é, inicialmente a
ênfase da idéia de migração recaía sobre o local de origem ou de residência da população
e suas causas e conseqüentes alterações.
A região Nordeste foi a primeira grande área de atração populacional do País,
cuja prosperidade no negócio agrícola atraiu colonos portugueses. O século XVII assistiu
ao primeiro fluxo intra-regional. A relativa estagnação da economia açucareira e a
descoberta de metais em Minas Gerais levou milhares de nordestinos para aquela área.
Com o declínio da mineração, novo deslocamento para as regiões de expansão cafeeira.
Na segunda metade do séc. XIX, o êxodo nordestino ganhava a região norte,
atraídos pela prosperidade na exportação de borracha. No séc. XX, a industrialização
opera profunda transformação na economia, com predomínio da Região Sudeste,
articulando as diversas regiões produtivas às necessidades da acumulação industrial.
Até 1970, a Região Sul comportou-se como área de atração, registrando
participação crescente no total da população brasileira. A partir de 70, a introdução do
cultivo intensivo de soja alterou a estrutura agrária, com crescimento do tamanho médio
das propriedades e a mecanização, expulsou pequenos trabalhadores rurais.
O período de 1940 a 1960 correspondeu ao Êxodo Rural. A interpretação
baseada na Teoria Clássica da Migração: identificação, explicação e caracterização dos
efeitos de repulsão e atração de cada área. Os estudos incorporavam conceitos e
analogias com processo físico-mecânicos como motor (impulso para migração), atração
(chegada) e repulsão (saída). À idéia do motor acoplava-se o arranque da economia no
país e seus efeitos sobre o território, no qual a migração era um vetor de movimento.
O movimento migratório revela o movimento de constituição das disparidades
e desigualdades espaciais. E, sobre este espaço desigualmente organizado e articulado
compreende-se a coexistência de processos espaciais, novos e diferentes tipos de fluxos
migratórios se realizam. Introduz-se o sentido da articulação processual que permite
visualizar a mudança e não mais o "motor". Deste modo áreas de atração e áreas de
repulsão ganham um novo significado. Migração não é mais migração pura e
simplesmente. E a mudança não é somente a hipérbole do êxodo rural e da urbanização.
Ao longo da década de 70, a ação do Estado produzindo as bases para
mudanças sobre o território traria à existência uma série de processos espaciais que
incorreria numa gama variada de fenômenos e fluxos em várias direções do território

56
nacional, e não é apenas o Êxodo Rural configura espacialmente este processo. Em
menor escala, as migrações interurbanas constituíam o apoio logístico fundamental nas
diversas etapas que compunham o grande movimento do Êxodo Rural.
Um outro movimento de população fruto do contexto supracitado passa a ter
grande visibilidade: a expansão da fronteira agrícola em direção ao centro-oeste e à
Amazônia. Os dados censitários apontam ainda nos anos 70, o centro-norte do país como
área de despovoamento. Concomitantemente verifica-se a ocorrência de movimentos
diferenciados como frentes pioneiras, emigração e despovoamento tudo inserido dentro
da mesma região. Foram alimentadas pela modernização rural, industrialização e
estagnação econômica, estabelecidas diretrizes governamentais a orientar a expansão:
absorção do excedente demográfico e diminuição de tensões por terra, aumento da
oferta de alimentos, controle efetivo sobre vastos e despovoados territórios.
Como resultado, o crescimento da população do Centro-Oeste, nas quais os
fluxos migratórios foram importantes. Os projetos de novas estradas transformaram a
região em área de atração populacional. Incentivou-se projetos de colonização privada,
primeiro em Goiás, depois no Mato Grosso.
O Projeto de Integração Nacional de Médici tinha objetivos geo-estratégicos
de ocupação territorial através da construção da Transamazônica e da Cuiabá-Santarem,
com projetos de colonização, mas teve fôlego curto e não obteve o sucesso esperado.
Ainda nesse período, Rondônia recebeu recursos do Programa Polonoroeste para
asfaltamento e colonização, cujo fluxo migratório atraiu mais pessoas do que a
capacidade de absorção, causando inchaço urbano.
A retenção migratória estaria associada aos níveis hierárquicos dos centros
urbanos e aos níveis sócio-econômicos dos migrantes, partindo do princípio que tanto
maior o nível sócio-econômico, maior será a probabilidade de permanecer fixado. A
migração seria vista assim como estratégia para as pessoas maximizarem o seu acesso
às oportunidades irregularmente repartidas no espaço e desigualmente disponíveis no
tempo. A infra-estrutura de transportes e o sistema de comunicação intensificaram para
os núcleos urbanos o afluxo de pessoas que dependendo do nível sócio-econômico e
educacional estariam mais ou menos apta a se fixarem ou partirem para nova etapa.
É possível perceber que diferenciam-se migração de mobilidade espacial
do trabalho. A migração diferentemente da mobilidade do trabalho implicaria na
desterritorialização do grupo ou indivíduo. O recente estágio de interiorização da
população brasileira estaria atrelado à criação das bases para a constituição do espaço
físico e social e na formação dos mercados regionais de trabalho. Tais mercados não são
estanques ou isolados, existindo diferentes formas de relação entre eles. Este fato se
explica nas diferentes formas estimuladas pela ação de integração do Estado, pelo
desenvolvimento dos transportes e das comunicações, através da expansão horizontal do
capital e pelos mecanismos diversos que produzem os movimentos de população.
A importância da ação do Estado não estaria, apenas na regulação econômica
da constituição do mercado nacional e regional. Mas, as articulações da dinâmica própria
da reprodução ampliada do capital com a intervenção estatal sobre o território que
revelaram afinal a relação entre Estado e migrações internas. No caso da Amazônia
brasileira foi através de subsídios, política controlada de terras, e o mais importante:
uma política urbana necessária para o incentivo à implantação da rede de captura e
acionamento de capital, força de trabalho, informação e mercadorias – a rede urbana.
As atuais formas de organização capitalista incluem um padrão cada vez mais
organizado através da dispersão, da mobilidade geográfica e das respostas flexíveis nos
mercados de trabalho e nos mercados de consumo. Tudo isso acompanhado por pesadas

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doses de inovação tecnológica, de produto, de informação e institucional.

TENDÊNCIAS ATUAIS DAS MIGRAÇÕES NO BRASIL


Considera-se como tendências atuais dos movimentos migratórios no Brasil as
conjunturas espaciais que passaram a configurar sintomas das mudanças recentes da
política sócio-econômico do país que reverberam na estrutura territorial do país.
No que tange às mudanças estruturais pode-se partir do reconhecimento que
a década de 90 trouxe o advento de fatos que marcaram o destino da economia mundial
e nova hierarquização dos espaços envolvendo globalização, blocos econômicos, espaços
sub-nacionais, transformação da metrópole. Concomitantemente ao fato dos espaços
conterem cada vez mais formas de poder, como a tecnologia, mais territórios e recortes
eles contém e acumulam. Portanto, mais valor é agregado aos espaços e territórios.
Na medida em que cada vez mais se abrem fronteiras (lato sensu), mais se
produzem territórios, no sentido da geo-estratégia das formas sociais de reprodução e
novas oportunidades espaciais. Para àqueles cujo poder de aporte de investimentos na
maioria das vezes significa apenas a venda da força de trabalho, a migração é uma
estratégia, uma resistência, uma eterna possibilidade ou impossibilidade de ficar ou sair.
No Brasil, especialistas apontam para a situação de "migrações de curta
distância", predominantemente intra-regionais; podendo ser sazonais em áreas de
modernização agrícola ou inter-municipais em áreas urbanas. A "migração de retorno"
estaria associada a trabalhadores aposentados ou que se integram a uma rede
estratégica familiar. A tendência à "migração solitária" e a constituição de famílias
unipessoais que comportam subcategorias como migrantes e albergados.

MOVIMENTOS FRONTEIRIÇOS
A interiorização da urbanização no Brasil e a expansão espacial da agricultura
modernizada atreladas a uma forte concentração fundiária impeliu a população para uma
maior continentalização. Através dos brasiguaios, anos 80, tomou-se conhecimento que o
mercado de trabalho nacional extrapolava suas fronteiras com a ida de trabalhadores
para as plantações em solo paraguaio.
A ocupação da faixa de fronteira sempre teve destaque no discurso geopolítico
militar. Projetos de colonização para efetiva posse e controle nacionais conduziram ao
longo destas últimas décadas munição para a iminente intervenção no território.
Embora o projeto ainda não tenha sido levado a cabo, a efetiva ocupação por
parte de diversos segmentos populacionais realiza-se na forma de uma urbanização
desarticulada com presença de cidades em torno da faixa de fronteira de ambos os lados
(por exemplo a cidade de Corumbá no Brasil e Santa Cruz de la Sierra na Bolívia). O
desenvolvimento de um arco de cidades em zona fronteiriça tem dinamizado pontos de
apoio na circulação da força de trabalho inter-fronteiras que muitas vezes dirigem-se
para as frentes de trabalho agrícola e garimpeira. Na fronteira da Amazônia equatorial a
intensidade da ocupação tende a tencionar as áreas especiais de povoamento como as
terras indígenas ou unidades de conservação. Para o sul tencionam-se os conflitos com a
população urbana e os agricultores que adentram no Paraguai, Argentina e Uruguai.
O MERCOSUL pode intensificar mais ainda a mobilidade populacional. Na
verdade, deve torná-la mais regulada, porque envolverá segmentos de trabalhadores
especializados. No atual estágio ainda se luta pela regulamentação dos contratos de
trabalho e da previdência. Deve-se esperar que os fluxos transitem de um país para
outro ao sabor das possibilidades de ocupação ou de crises políticas ou econômicas.

58
MIGRAÇÃO NA AMAZÔNIA
A década de 90 consagrou a intensidade do processo de urbanização na
Amazônia, com o aumento da população urbana e novas municipalidades. A importância
explica-se pelo fato de que todo processo contou com o apoio logístico dos centros
urbanos locais, independentes de sua posição na hierarquia urbana. O modelo de
incorporação da fronteira conduziu para os núcleos urbanos uma sucessão de fluxos
migratórios, de onde a população migrante se redistribuía em função das atividades
econômicas, enquanto a agropecuária avançou em conquista aos cerrados e à floresta.
Àqueles que se voltaram para opções dentro da própria região encontraram
no garimpo uma das alternativas. Devido à velocidade de deslocamentos entre as áreas
torna-se difícil o mapeamento das áreas de garimpo. A cada refluxo da atividade
corresponde a uma nova "parada" nas cidades do entorno.
A urbanização torna-se uma estratégia, pois as cidades das regiões mais
dinâmicas da Amazônia vêm assinalando um crescimento cada vez maior em função:
1. modernização cada vez mais acentuada da agricultura (soja em MT e RO) que
utiliza de forma sazonal a mão de obra, que passa então a residir nas cidades;
2. necessidade de serviços urbanos demandados pela própria agricultura;
3. novos padrões de consumo entre a população rural por produtos industrializados e
serviços urbanos, acentuados pela experiência urbana dos próprios migrantes;
4. menor acesso à terra devido à concentração fundiária e à legislação trabalhista;
5. retração do mercado de trabalho nas grandes cidades.
A expansão territorial dos investimentos recoloca no mapa das migrações
algumas áreas, como a Amazônia Ocidental, onde a hidrovia do Rio Madeira para atender
ao escoamento da soja produzida no norte de Mato Grosso e em Rondônia deve
incrementar rede de cidades ribeirinhas. Em Humaitá (AM) a hidrovia se interligará com
a rodovia Transamazônica até o município de Apuí (AM). Na esteira da expansão
hidroviária e da infra-estrutura portuária vem sendo incorporada nova região produtora
de soja ao sul do estado do Amazonas. O novo projeto de escoamento da soja inverte a
direção que antes seguia para o porto de Paranaguá.
Um outro eixo se estende em torno da BR-174 que liga Manaus à Venezuela.
Muitos agricultores vêm se deslocando da região de Rondônia para Roraima; municípios
vêm incorporando vantagens em função do asfaltamento. O comércio com a Venezuela
vem se intensificando, já acordado a venda de eletricidade da hidrelétrica de Guri e a
venda de produtos hortifrutigranjeiros. Em contrapartida sai do Brasil peixe, frutas
eletrodomésticos de Manaus. As cidades de Roraima, entre elas Boa Vista e Caracaraí
vêem suas populações aumentarem em função das expectativas para a região.
Na Amazônia Oriental, a criação de áreas de livre comércio no Amapá -Bonfim
e Santana vêm direcionando fluxo migratório qualificado em função do comércio de
mercadorias e do abastecimento comercial da população de Belém, incluindo um raio de
ação mais amplo que busca o mercado consumidor de São Luiz, Terezina e Fortaleza.
O Vale do Guaporé, noroeste de Mato Grosso, vem sendo incorporado através
de investimentos em diferentes setores da atividade agrária. A região, localizada em
faixa de fronteira deverá comandar uma maior mobilidade, principalmente com a Bolívia.

MIGRAÇÃO URBANA E NOVOS PÓLOS DE ATRAÇÃO


O mapa do emprego urbano no Brasil vem mudando aceleradamente. Novos
pólos de atração surgem localizados tanto em novas cidades da fronteira agrícola, quanto
pela redefinição econômica e ampliação da prestação de serviços em cidades de porte
médio do interior dos estados brasileiros. Para Santos o modelo econômico

59
exportador ao incrementar culturas agrícolas modernas e o conseqüente
crescimento de aglomerações urbanas introduz nova forma de regulação no
território. Esta nova forma de regulação, de distribuição e do trabalho vem
ampliando a demanda por urbanização. O desdobrar deste processo revela fatores
de urbanização realizados pelo aumento gradativo do consumo e, por conseguinte, da
demanda por serviços que estariam relacionados:
a) aumento do trabalho intelectual, terceirização e, portanto, a urbanização;
b) ampliação do consumo, saúde, educação e do lazer, ao lado do consumo sempre
crescente de produtos de bens de consumo imediatos e duráveis. Incentivo à
migração da classe média metropolitana ávida por melhor qualidade de vida
alcança os centros médios do interior dos estados, ou mesmo as capitais de
estado de menor porte como Vitória (ES) e Florianópolis(SC).
A tecnologia voltada à produção agrícola, uso dos sistemas informacionais,
aporte de investimentos nas cidades com mínimo de infra-estrutura e nicho de mão de
obra barata, extensividade do atendimento médico e educacional, e difusão dos sistemas
bancários criam condições de localização de investimentos produtivos em cidades, cuja
contrapartida locacional fica dependente da infra-estrutura viária. O que explica as
indústrias que têm se instalado no Brasil e, sacramentar de vez a vocação de pólo metal-
mecânico do país e do MERCOSUL na nova divisão territorial do trabalho mundial.
Configura-se novo mapa urbano. O PNAD indica tendência ao menor ritmo de
crescimento das metrópoles em detrimento das cidades com status de capital regional.

O BRASIL RURAL
HISTÓRICO DA AGRICULTURA NO BRASIL
Desde o início, a ocupação das terras brasileiras pelos portugueses assumiu
as características de exploração voltada para o exterior. A introdução da agroindústria
canavieira em grande propriedade, a partir de 1530 é sua característica.
A introdução do cultivo da cana-de-açúcar na colônia implicou a doação, pelo
rei, de grandes porções de terra (sesmarias) a quem desejasse dedicar-se a essa
atividade. Entretanto, a doação baseava-se na avaliação do pretendente, do status social
e dos serviços prestados à coroa. Assim, a aquisição das terras, apesar de
regulamentada, derivava do arbítrio real e não de um direito inerente ao pretendente.
Além da exploração colonial havia os colonos que se estabeleciam em um
pedaço de terra que não havia sido doado pela coroa, e apesar da pequena extensão,
eram considerados ilegais e discriminados.
Com a Lei de Terras (1850), o critério de acesso às terras foi modificado .
Proibia outros meios que não a compra. Venda em hasta pública, com preços mínimos
elevados. Regulamentava o tamanho das posses, e determinava a devolução para o
Estado de toda terra não ocupada. A análise da Lei de Terras faz crer que: em 1850 o
café já ocupava o primeiro lugar na pauta de exportações, com grandes lucros; Baseava-
se no princípio de que numa região onde o acesso à terra era fácil, era impossível obter
mão-de-obra; Pressão inglesa contra o tráfico de escravos (lei Eusébio de Queiroz 1851);
Ao elevar o preço das terras privilegiou o grande proprietário; A venda pública subsidiava
a imigração; Liquidou os meios tradicionais de acesso à terra.
Como a marcha do café se fez por meio de uma agricultura itinerante, as
terras cansadas passaram a sofrer um retalhamento e foram ocupadas pela agricultura
voltada ao abastecimento do mercado interno. Processo intensificado com a crise de 29.
Em 64, o Estatuto da Terra definiu os imóveis rurais em minifúndio,

60
empresa rural, latifúndio de exploração e por dimensão. A caracterização é baseada no
módulo rural que significa área explorável por um conjunto familiar (4 pessoas),
correspondente a 1000 jornadas anuais, lhe absorva a força de trabalho e seja capaz de
proporcionar rendimento de subsistência e progresso social e econômico.

AGRICULTURA VOLTADA PARA O EXTERIOR


O fato de as culturas basearem-se no mercado externo pode ser atribuído a:
• Passado colonial: na divisão internacional do Trabalho, o Brasil e outras colônias
ficaram como fornecedores de produtos agrícolas e matérias primas. Assim, os
gêneros de exportação suplantam o mercado interno de alimentos;
• Economia agrário-exportadora: continua no séc XXI, como fonte de divisas e saldo
positivo na balança comercial. Instituições de pesquisa governamental privilegiam
esses produtos; e
• Preços internacionais: podem incentivar produtos, como soja, e de fontes de
energia renovável como álcool e bio-diesel, ou depreciar outras, mesmo que
necessárias ao consumo interno.
MUNDO RURAL ANTERIORMENTE À MODERNIZAÇÃO:
• Atividades econômicas – diretamente ligadas à agricultura e à criação de animais.
Quase a totalidade dos habitantes rurais dedicava-se a esse ramo. Não há
dedicação, a não ser eventual, ao processamento industrial dos produtos;
• Natureza – Força produtiva fundamental no mundo rural, a qual o homem
acrescenta trabalho. Ciclos naturais condicionam a vida e os ritmos de produção;
• Demografia – As populações que trabalham a terra estão dispersas no espaço,
pois a exigência de território não permite grandes populações;
• Homogeneidade social – As comunidades tendem a ser étnica, cultural e social
mais homogêneas que as urbanas;
• Mobilidade Social – O destino do homem rural em termos de mudança de classe e
status social não comporta alterações significativas. Não há muita diversidade de
classes sociais, profissões ou ocupações. O que ocorre é apenas prosperidade ou
decadência econômica das atividades;
• Interações sociais – A interação voluntária ou não é menor do que a do homem
urbano. A área de contato do membro de uma comunidade rural é mais estreita e
limitada e baseadas em relações comunitárias e de vizinhança.

A MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA
Desde o início do comércio em grande escala, a atividade agrícola apresentou
crescente processo de internacionalização. Somente no presente século conhece ação
contínua de mudanças e globalização. Isto se deve ao fato da revolução tecnológica
ter atingido esta atividade, a qual incorpora seus principais signos, acompanhando as
transformações dos demais setores. Para Milton Santos, o anterior 'sistema de objetos' e
'sistema de ações' foram substituídos, vez que se mostravam incompatíveis com as
novas formas de produção, distribuição e consumo, atingindo a organização de novo
modelo técnico, econômico e social. Este se baseia na incorporação da ciência, tecnologia
e informação para aumentar e melhorar a produção, culminando em transformações
econômicas e, conseqüentemente, sócio-espaciais. Hoje, a agricultura se realiza de
forma globalizada, se não na sua produção, através da sua circulação e distribuição e de
seu consumo, mostrando-se uma das grandes contagiadas pela revolução tecnológica.

61
A aplicação dos procedimentos e métodos científicos para a realização da
produção agropecuária, visando o aumento de produtividade e a redução de custos,
aperfeiçoou e expandiu seu processo produtivo. Com a pesquisa tecnológica foi possível
reestruturar o conjunto de elementos técnicos empregados neste conjunto de atividades,
transformando os tradicionais sistemas agrícolas e abrindo inúmeras novas possibilidade.
Uma transformação importante é a reorganização da relação entre estes três
fatores tradicionais da produção, sendo que o aumento da extensão da área cultivada
deixou de ser o fator exclusivo de crescimento da produção agrícola, uma vez que o uso
intensivo de capital e tecnologia elevou a produtividade do trabalho no setor. Um
instrumento primordial para a modernização da agricultura foi o amplo emprego de
máquinas, insumos químicos e biotecnologia, fornecidos pela atividade industrial,
provocando metamorfoses, seja na atividade humana voltada para a transformação da
natureza, que se transforma cada dia mais de terra-matéria em terra-mercadoria.
A rentabilidade do capital almejada pela economia globalizada tornou
necessária a existência de formas mais eficazes de produção, transformando
radicalmente as forças produtivas da agropecuária. Desta forma, um dos caminhos
buscados pela pesquisa tecnológica voltada para o setor visou justamente uma
aproximação do seu processo produtivo com o funcionamento da indústria, parâmetro
considerado ideal para obter maior crescimento e acumulação. Diante disso, uma das
principais orientações do progresso tecnológico na agricultura teve como intuito a
produção de insumos artificiais, produzidos em escala industrial, capazes de substituir
parte dos insumos naturais e, assim, ter um maior controle sobre o ciclo biológico das
plantas e dos animais, deixando-o menos vulnerável.
Para José Graziano da Silva, a produção agropecuária deixou de ser uma
esperança ao sabor das forças da natureza para se converter numa certeza sob o
comando do capital, perdendo a autonomia que manteve em relação aos outros setores
da economia durante séculos. Assim, se os solos não forem suficientemente férteis,
aduba-se; se as chuvas forem insuficientes, irriga-se; se ocorrerem pragas e doenças,
utiliza-se defensivos químicos ou biológicos.
Com tais transformações, a agricultura passou a ser um empreendimento
totalmente associado à racionalidade do período, apresentando as mesmas possibilidades
das demais atividades para a aplicação de capital e para auferir alta lucratividade. Nesse
sentido, no Período Técnico-Científico significou o fim do isolamento que a atividade
manteve em relação aos demais setores econômicos, graças a uma crescente
interdependência com o desenvolvimento geral da economia, ocorrendo um processo
contínuo de fusão com capitais dos demais setores.
O estreitamento de relações entre a produção agrícola e o restante da
economia é um fator importante quando se quer distinguir a agricultura contemporânea
daquela existente antes da revolução tecnológica, quando grande parte dos circuitos
espaciais da produção se esgotavam no interior do próprio estabelecimento agrícola. Para
Milton Santos, os “circuitos espaciais da produção agrícola e os círculos de cooperação
necessários a sua realização extrapolam, de forma cada vez mais intensa, os limites de
uma propriedade rural, de uma região ou de um país, transformando parte da agricultura
numa atividade associada ao 'circuito superior da economia”.
Antes do processo de difusão de inovações na agricultura, a produção era
destinada ao autoconsumo. Hoje, a produção agrícola tem seu funcionamento cada vez
mais regulado pelo mercado, objetivando a troca, o comércio, em função das demandas
urbanas e industriais, ficando restrita a poucas áreas a produção de subsistência.
Para Milton Santos, considerar que o campo, quando do início da aceleração

62
contemporânea, era um espaço menos rugoso de formas representativas de períodos
históricos anteriores, possuindo uma flexibilidade muito superior à apresentada pelas
cidades, estas repletas de capitais mortos, tem se mostrado um dos 'locus' preferenciais
de introdução do capital tecnológico, já que não oferece resistência ao seu contágio. Por
tudo isso, nas áreas onde hoje a produção agropecuária se dá com importante
participação da ciência, tecnologia e informação, a paisagem bucólica associada à vida no
campo não é mais do que mera lembrança, sendo que o meio natural e o meio técnico
vêm sendo rapidamente substituídos pelo meio técnico-científico-informacional,
aumentando a proporção da natureza social sobre a natural.
O CASO BRASILEIRO
O Brasil é um dos países que mais reorganizou sua atividade agropecuária
calcada em bases científico-técnicas. O tamanho continental de seu território, com
extensas áreas pouco rugosas, aliadas à forte concentração fundiária e a existência de
um parque industrial em expansão foram fatores favoráveis às transformações que se
processaram no setor agrícola. A partir da difusão de novos sistemas de objetos e de
novos sistemas de ações, a modernização da agricultura brasileira se realizou abalizada
na racionalidade do atual sistema temporal, tendo seu funcionamento regulado pelas
relações de produção e distribuição globalizadas, cada vez menos dedicadas à
subsistência, direcionando-se para atender a crescente demanda do mercado urbano
interno e à produção de produtos exportáveis, seja em estado bruto ou passando por
algum tipo de transformação industrial, aumentando seu valor adicionado.
A enxada, o latifúndio, a mão-de-obra escrava e a monocultura estão entre os
mais fortes elementos associados à história da atividade agrícola brasileira. Séculos de
história não se apagam de um dia para o outro, mas a força das variáveis inerentes ao
Período Técnico-Científico vem se difundindo cada vez mais rapidamente no setor. Desde
os anos de 1960, observa-se sensíveis modernizações no perfil produtivo desta sua
atividade, que se intensificou de forma notável nas décadas seguintes, afetando todos os
níveis da produção, transformando as relações econômicas e sociais até então vigentes,
com forte repercussão na sua organização territorial. O movimento de mudança da
agropecuária brasileira se caracteriza, assim, pela substituição da economia natural por
atividades agrícolas integradas à indústria, pela intensificação da divisão do trabalho e
das trocas intersetoriais e pela especialização crescente da produção. Hoje, a produção
agropecuária moderna existe como realidade em áreas espacialmente restritas, mas as
novas formas de produção, distribuição e consumo têm influência direta sobre as
condições gerais da agricultura de todo o país.
O emprego de amplo leque de insumos industriais modernos (fertilizantes,
sementes e mudas, defensivos químicos, etc) mudou o seu processo produtivo, assim
como todas as tradicionais formas de distribuição e consumo da sua produção. A
utilização de métodos e procedimentos científicos possibilitou o aumento de
produtividade e a ocupação de inúmeras áreas antes não utilizadas para a atividade,
aumentando de forma estrondosa sua fronteira agrícola.
Hoje a modernização da agricultura atinge, direta ou indiretamente, todo o
país, mas processou-se de forma seletiva. A difusão de inovações, e a distribuição de
crédito rural ocorreu de maneira não uniforme, constituindo setor baseado em estrutura
dual, promovendo desenvolvimento cada vez mais desigual. As áreas, as culturas e os
produtores que não foram incorporados a modernização exercem papéis periféricos na
organização da produção agrícola que se processa nas últimas décadas. O espaço rural
não foi homogeinizado, vez que desigualmente atingido. Construiu-se, dessa forma, um
espaço seletivo, com uma forte concentração territorial das formas resultantes do

63
processo de modernização da agricultura.
Tudo isso acabou acarretando a transformação de funções historicamente
exercidas por determinadas áreas de produção agrícola e por determinados produtos
agrícolas, gerando uma nova e mais profunda divisão social e territorial do trabalho
agrícola no Brasil. Assim, ganham destaque áreas que passam a produzir produtos
agropecuários industrializados ou semi-industrializados, voltados para a exportação.
Paralelamente à modernização da agricultura, desenvolveu-se um moderno
parque industrial, seja das indústrias para suprir novas demandas da atividade agrícola e
pecuária (fertilizantes, adubos, tratores, pulverizadores, etc), seja das indústrias para
transformar os resultados desta produção- as agroindústrias.
Nas áreas agrícolas que mais têm calcado seu desenvolvimento de forma
integrada aos demais setores e em bases científico-técnicas, é comum o processo de
substituição das culturas voltadas ao mercado interno(arroz, feijão, milho), pelas
voltadas à exportação (soja, cana-de-açúcar), com preços mais competitivos. Estas
passam a ocupar parte significativa da pauta de exportações e caracterizam-se por
serem produzidas em grandes propriedades; por terem acesso ao capital financeiro e às
inovações científicas; por contarem com um sistema de transporte e armazenamento
modernos e por todos os demais signos da produção agrícola brasileira moderna.
O desenvolvimento da agroindústria introduziu novos hábitos de consumo
alimentar, como alimentos instantâneos, semi-prontos, refrigerantes, óleo de soja, entre
outros. Os tradicionais produtos de exportação, como o café e o algodão se apresentam
em desvantagem perante as novas culturas voltadas à indústria e à exportação.
Foram muitos e complexos os impactos no território brasileiro. Lambert afirma
a organização de dois Brasis: um, o que produz alimentos para o mercado interno e de
outro o que produz matéria-prima para as modernas agroindústrias, principalmente as
exportadoras. Destaca-se a Região Concentrada como a que mais adotou inovações
científico-técnicas e especificamente aquelas associadas à agricultura, metamorfoseando
esta atividade, reorganizando toda sua produção agrícola e seu espaço rural. É na
'Região Concentrada', formada pelos Estados que compõem as Regiões Sudeste, Sul e
partes da Região Centro-Oeste, que mais se produzem os produtos para a exportação.

AS MODIFICAÇÕES NO CAMPO EM FACE À MODERNIZAÇÃO:


• Atividades econômicas – Sofre mudança radical em algumas regiões do Brasil. As
atividades ainda têm como base a agricultura e pecuária, porém houve
transformação. É o caso da cana e laranja, ou as ligadas ao turismo;
• Natureza – Com a modernização tecnológica nas atividades agropecuárias a
dependência em relação à natureza diminui. O processo obedece ao ritmo do
planejamento humano. A produtividade aumenta, áreas previamente consideradas
impróprias são aproveitadas, rompe-se a sazonalidade de algumas culturas e a
produção está cada vez mais próxima da indústria;
• Demografia – continua de baixa densidade. Mas o trabalho em algumas áreas
aproxima-se do fabril e os empregados não residem no local de trabalho. Muitas
vezes moram na cidade e vivem no seu tempo livre um modo de vida urbano. Em
torno da prosperidade de algumas regiões agrícolas há um adensamento urbano
associado. É, portanto, difícil distinguir o campo da cidade;
• Homogeneidade social – Está sendo quebrada pela mobilidade espacial de
trabalhadores que procuram atividades sazonais, ou mesmo moradia definitiva em
áreas distantes. Assim a diversidade social aumenta com a fluidez do território;

64
• Mobilidade social – A modernização favorece a mobilidade social pela
multiplicação das profissões técnicas (operários, operadores de máquinas,
técnicos agrícolas e informática), necessárias para mover uma agropecuária com
alto conteúdo técnico-científico. O assalariamento também representa uma nova
relação, que produz diferentes rendimentos e diferentes oportunidades; e
• Interações sociais – Os contatos ampliam-se e diversificam-se, a começar pelo
fato de que muitos foram morar na cidade. Aumentaram as ligações com as
cidades, facilitadas pela maior fluidez do espaço. O telefone e a circulação de
jornais e revistas especializados são elementos que expandem o universo de
relações do homem do campo, inserindo-o no mundo moderno.

BIOTECNOLOGIA E AGROINDÚSTRIA
A biotecnologia tem importância crucial para o aumento da produtividade
agrícola e abre a possibilidade de melhoramento genético da qualidade e variedade de
espécies. Diferentemente do padrão internacional, em que as aplicações biotecnológicas
no campo farmacêutico superam as voltadas para a agroindústria, no Brasil o panorama
se inverte. Grande parte das atividades em biotecnologia se referem a insumos para a
agricultura (inoculantes, sementes), para a agroindústria (papel e celulose, produção de
enzimas) e, para aumentar o conhecimento sobre as variedades cultivadas no país
visando melhor eficiência no combate a doenças e aumento de produtividade.
As oportunidades tecnológicas abertas pela biotecnologia vão desde o
processo de obtenção de novas variedades até a melhor exploração da biodiversidade.
Através das ferramentas da análise genômica podem-se identificar novos princípios
ativos ou plantas com níveis mais elevados de determinadas proteínas de uso na
indústria de alimentos, cosméticos e farmacêutica.
Assim, tanto é possível obter importante variedade rica em ácido graxo, ou
ácido lúrico, utilizado na fabricação de sorvetes, e variedades "tropicalizadas" de trigo. A
biotecnologia permite o desenvolvimento de kits-diagnóstico para a identificação de
doenças e a escolha do melhor método de propagação de mudas para torná-las imunes a
doenças, dois aspectos cruciais para a competitividade brasileira no setor de sucos.
Entretanto, vários estudos comprovam que a biotecnologia no Brasil está
ainda limitada a atividades realizadas nas universidades e em certas instituições públicas
de pesquisa, como a Embrapa e o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), e algumas
parcerias com instituições de pesquisa na área da saúde, como a Fundação Osvaldo Cruz.
As pequenas empresas biotecnológicas têm número reduzido e atuam
pontualmente. Apenas alguns segmentos de grandes empresas, como papel e celulose,
utilizam a biotecnologia no melhoramento e na produção de mudas. Torna-se necessário
o aprimoramento institucional (Lei de Patentes, Leis de biosegurança).
Um resultado da chegada ao mercado dos cultivares transgênicos foi a brutal
concentração na indústria de sementes, que passa agora a efetivar-se como uma divisão
das líderes agroquímicas mundiais: Monsanto, Agrevo, Zêneca, Novartis e Dupont, o que
contribui para tornar o debate cada vez mais uma questão de regulação multilateral.

O CENÁRIO DE COOPERAÇÃO EM BIOTECNOLOGIA


A preocupação internacional com a conservação do meio ambiente e o debate
sobre a biotecnologia têm sido acompanhados pelos cientistas brasileiros, Congresso e

65
agências do governo para saúde, meio ambiente e ciência. Essa discussão alcançou a
sociedade brasileira, embora a maioria dos modernos produtos biotecnológicos ainda não
tenha alcançado as maiores cadeias de alimentação ou as farmácias.
As organizações não-governamentais preocupadas com o meio ambiente no
Brasil, orientadas por suas contrapartes européias, têm tentado impedir os produtos
biotecnológicos de chegarem ao mercado e continuam a agir dessa maneira. Muitas
tentativas têm sido feitas para prejudicar a introdução de organismos geneticamente
modificados na prática agrícola. Até o momento, tanto o Governo quanto a iniciativa
privada têm sido capazes de bloquear com eficiência essas tentativas.

GESTÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO


GEOGRAFIA ECONÔMICA DO BRASIL
Com o foco na organização das atividades econômicas, alguns processos são
essenciais para entender o processo: modernização e o desenvolvimento sócio-
econômico. No Brasil, desde o fim da IIGM, esse processo vem superando estruturas
sociais tradicionais e a produção industrial ganhou importância, o mercado atingiu escala
nacional e o território foi integrado. No entanto, desigualdades podem ser percebidas e
explicadas pela distribuição diferenciada de infra-estrutura econômica moderna; e
distribuição territorial do crédito e dos investimentos.
O desenvolvimento pode ser entendido como o crescimento econômico no
âmbito de um país, acompanhado pela melhoria do padrão de vida da população. A
desigualdade entre os paises, deu ensejo sobre o que seria desenvolvimento:
• o desenvolvimento resultaria das características próprias de cada país (situações
geográficas, históricas e territoriais);
• as mudanças seriam o avanço da atividade industrial, migração de mão-de-obra e
menor dependência externa, redução das exportações de produtos primários, o
que indicava que o desenvolvimento deveria ser industrial e urbano; e
• Deveriam ser ampliados e integrados geograficamente os mercados nacionais,
buscando-se superar o isolamento social, cultural ou econômico entre diferentes
setores da população.
ESPAÇO ECONÔMICO BRASILEIRO
O espaço econômico não é a totalidade de um país, como com freqüência se
pensa, mas a dimensão do espaço geográfico geral de uma sociedade que expressa o
conjunto das relações econômicas. No Brasil, pode ser descrito como:
• O espaço econômico brasileiro tem a dimensão de que a economia brasileira, tal
como é, precisa para se realizar, pois as relações econômicas apresentam alto
grau de inserção mundial, envolvendo o território e estendendo-se além dele;
• É interpenetrado por outros espaços econômicos nacionais , pois a indústria de
calçados que produz para os EUA somente completa seu ciclo nos EUA. Assim, as
relações econômicas dos EUA também compõem o espaço brasileiro;
• É interpenetrado por relações econômicas das transnacionais , as corporações
alargaram seus interesses e não atuam mais tendo como referência qualquer pais.
Não criam território, mas criam seus espaços econômicos usando o território dos
países e interagem com o mercado de mão-de-obra e de mercadorias;
• O tamanho e a força do espaço econômico não depende só da vontade nacional –
A modernização tardia e dependente de capitais externos, moldou um espaço

66
econômico arrastado para um conjunto de relações que, muitas vezes, não se
encaixam com as necessidades reais do país;
• As fronteiras que demarcam o espaço econômico são frágeis – A interpenetração
e a sobreposição das relações econômicas ocorre de forma desigual. Em mundo
envolvido por intensas relações entre os povos, outros elementos criam fronteiras,
como câmbio, impostos, barreiras alfandegárias e políticas protecionistas.

REGIÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS


A Sudene(1959) foi o primeiro organismo permanente de planejamento
regional brasileiro. Além do nordeste, incluía a região semi-árida do norte de Minas
Gerais. A criação da Sudam (1966) definiu a Amazônia legal, que atualmente engloba os
estados do Acre, Rondônia, Amazonas, Pará, Amapá, Mato Grosso, Tocantins e Roraima,
além do oeste do estado do Maranhão. No ano seguinte, foram criadas a Sudeco e a
Sudesul. Estratégia que revela a centralização do poder político desse período.
A divisão regional, definida nos anos 60, apresenta como particularidades:
− O Sudeste do Brasil, região que emergira com o crescimento cafeeiro e com a
industrialização, representava a área core do país naquela década.
− O Sul era região rica e populosa em razão do desenvolvimento da agricultura
voltada para a exportação e de matérias-primas para outras regiões do Brasil.
− O Nordeste pertencia às chamadas áreas deprimidas, embora apresentasse
estrutura industrial incipiente, não lhe assegurava autonomia econômica.
− No Centro-Oeste, na vegetação do bioma cerrado, iniciava-se processo de
desmatamento, resultante da abertura da fronteira agrícola e da urbanização.

REGIÃO NORTE
A diversidade ambiental, sócio-econômica, tecnológica e cultural é sua
principal característica. Dominada em grande parte por floresta densa de mata alta. A
mais importante riqueza da Região Norte reside na diversidade de seus ecossistemas. É
hoje considerada uma das últimas fronteiras de recursos do mundo.

REGIÃO NORDESTE
Apresenta uma crescente heterogeneidade de suas estruturas econômicas.
Pólo petroquímico de Camaçari: produção de bens intermediários, viabilizado
com a participação de capitais privados nacionais e multinacionais e com o suporte
estatal (Petrobrás). A aumentou o peso do setor secundário na economia baiana e
contribuiu para a elevação das exportações desse estado. Representa hoje uma possível
base para a esperada verticalização da matriz industrial da petroquímica regional.
Pólo têxtil e de confecções de Fortaleza: é competitivo nacionalmente e, no
caso da fiação, internacionalmente, em virtude de sua atualização tecnológica. O
encadeamento do pólo cearense com a base agrícola da região é reduzido, devido à
devastação promovida pelo bicudo na produção de algodão no Nordeste.
Complexo minero-metalúrgico do Maranhão: Desdobramentos de Carajás e ao
interesse multinacional em diversificar suas fontes de matérias-primas. A CVRD
implantou infra-estrutura para a exploração e exportação de ferro. A Estrada de Ferro
Carajás contribuiu para dinamizar o pólo agrícola do sul do Maranhão, ajudou a
dinamizar e a instalação de usinas de ferro-gusa e de ferroliga ao longo de sua extensão.
O projeto da ALUMAR tem peso na indústria maranhense. As articulações pelo uso do
alumínio são reduzidas, já que são exportados 95% do produto.
Complexo agroindustrial de Petrolina e Juazeiro: surgiu nos anos 70, com

67
apoio Estatal, com base na implantação de grandes projetos de irrigação.
Áreas de moderna agricultura de grãos: estendem-se dos cerrados do oeste
baiano ao sul do Maranhão e Piauí. Oeste da Bahia: expansão da soja, implantada por
agricultores do sul do país. É que despontou atividades como avicultura, suinocultura,
indústria de carnes, atividade de produção de insumos próprios para a agricultura.
Pólo de fruticultura do Vale Açu: empresas especializadas na exportação.
Permanência de velhas estruturas. As zonas cacaueiras, canavieiras e o
sertão semi-árido são áreas resistentes à mudança. No semi-árido, a crise do algodão
contribui para tornar ainda mais difícil e frágil a sobrevivência do contingente
populacional. O acesso a terra é precário, com relações como a parceria, caracteriza
maior instabilidade. Na Zona da Mata, o processo de concentração fundiária tem
aumentado e o monopólio da cana sobre as áreas cultiváveis se ampliou.A questão
fundiária permanece praticamente intocada. Segundo o Mapa da Fome feito pelo IPEA,
dois terços dos indigentes rurais do país estão no Nordeste.

REGIÃO CENTRO-OESTE
A partir da década de 40, o Estado passou a intervir no processo de ocupação.
A industrialização por substituição de importações passou a requerer da agricultura dupla
atribuição: produzir excedentes de alimentos a custos razoáveis e fornecer recursos para
financiar o desenvolvimento urbano-industrial. A partir de 1970 e nos anos 80, a
agricultura passa a se inserir e em um processo de verticalização, como fornecedora de
matérias-primas para a indústria. Na viabilização econômica dos cerrados, foram
decisivos os estímulos do Polocentro, do Prodecer, do Provárzea e do Profir. No Mato
Grosso houve grandes projetos de colonização pública e privada com incentivos fiscais.
O processo de ocupação fundiária verificado tem componentes especulativos,
associando capital fundiário e financeiro, o que acirra os conflitos. Os instrumentos de
incentivos fiscais, administrados pela Sudam, foram criados no fim da década de 1960
com objetivos de favorecer a inserção de grandes investimentos. Mas, apresentaram
grau reduzido de operacionalização, com reduzido impacto no volume de produção e
vendas. O Mato Grosso do Sul e o sul de Goiás tem vigorosas frentes de agricultura
moderna, enquanto o Mato Grosso e norte de Goiás possuem frentes especulativas.

ORGANIZAÇÃO REGIONAL DO ESPAÇO BRASILEIRO


MODIFICAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO
Os processos sociais e econômicos a partir de 1950 modificaram o espaço
brasileiro dividindo-o em Centro-Sul, Amazônia (mais MG, TO e MA) e Nordeste. O
desaparecimento da região Centro-Oeste foi viabilizado pela fragmentação político-
administrativa que se verificou na década de 80, por processos de diferenciação sócio-
econômica do território. A Amazônia teve seu território ampliado para os limites da
Amazônia Legal. O Nordeste avança pelo Norte inteiro. As chapadas sedimentares do
oeste-baiano passam pela modernização agrícola, pode ser incluído na Centro-Sul.
As três grandes regiões podem ser reconhecidas como expressão de uma
nova divisão territorial do trabalho vinculada à dinâmica da acumulação capitalista
internacional e brasileira, e diferenciam-se por apresentar distintas:
• especializações produtivas, envolvendo produtos, meios e relações de produção;
• modos e intensidades como se verifica a circulação e gestão das atividades;
• natureza e densidade dos fixos criados pelo homem;e
• níveis de articulação interna, inter-regional e internacional.
II – Centro-Sul - É a área core do país, com as seguintes características:

68
• Concentra centros de gestão econômica e política, concentram as redes sociais das
corporações privadas vinculadas à produção, circulação e distribuição.
• Centros metropolitanos importantes como BH, Porto Alegre e Curitiba, cidades
importantes como Campinas, Blumenau e Caxias do Sul.
• Produção industrial organizada em 4 regiões. 1- epicentro em São Paulo, estende-se
à Baixada Santista, Sorocaba, Vale do Paraíba até Rio de Janeiro. 2– Zona
Metalúrgica de BH. 3– Nordeste de Santa Catarina. 4– Porto Alegre à Caxias do Sul.
• Urbanização decorrente da magnitude industrial.
• Densa rede de circulação, com os principais portos, aeroportos, rede ferroviária mais
densa e de telecomunicações.
• Principal área agropecuária do país, enorme variedade de produção. Foi a mais
afetada pelo processo de modernização da agricultura, e onde se percebe a mais
nítida divisão territorial do trabalho, originando áreas especializadas.
• Principal área em termos de mobilidade demográfica, SP como pólo de atração.
• Principal área política do país e de concentração de capital, e possui as relações que
conferem maior valor, complexidade e densidade ao espaço.
III – Nordeste, a região das perdas, características:
• Importância declinante da agropecuária, menor relevância das culturas canavieira,
algodão, cacau; compensados por boa produtividade, mas não de caráter nacional
expressivo, como mamona e frutas produzidas sob moderna tecnologia;
• Perda demográfica, tanto para o Centro-Sul, como, a partir dos anos 70, para a
Amazônia. Mobilidade intra-regional também acentuada.
• As perdas são explicadas pelo fato de suas atividades serem voltadas para fora. A
ação da sudene contrabalançou o processo.
• Pequeno grau de articulação interna e de divisão intra-regional de trabalho, aliada a
integração com o Centro-Sul. Menor variedade e densidade das formas espaciais.
• Baixo nível de renda e escolaridade, alta desigualdade social, e alto poder político.
IV – Amazônia – definida como a fronteira do capital, uma nova integração
regional ao sistema capitalista, pós 1970, em processo diferente do ciclo da borracha.
• Apropriação dos recursos naturais, para exploração mineral ou pastoril.
• Dizimação física e cultural dos índios e da população afeita às especificidades locais.
• Correntes migratórias para a região.
• Investimentos em hidroelétricas, portos e aeroportos, mineração e Manaus.
• Integração ao mercado do centro sul, com a construção de rodovias, como a Belém-
Brasília-São Paulo, Porto-Velho-Manaus.
• Diferentes tipos de conflitos sociais, envolvidos empresas, latifúndios, índios,
pequenos produtores, peões, seringueiros, etc, tem a terra no centro do conflito.

PERSPECTIVAS DE INTEGRAÇÃO DA BACIA AMAZÔNICA


A Amazônia Internacional é constituída em sua maior parte por terras
baixas florestadas equatoriais drenadas pela bacia do Rio Amazonas. Compreende Brasil
(cerca de 69% da área total), Bolívia, Peru, Equador, Venezuela e Guianas. É objeto de
diferentes estratégias nacionais de desenvolvimento. No caso brasileiro, a Sudam, a
Suframa e os eixos viários de integração: rodovias Belém-Brasília, Cuiabá-Porto Velho,
Cuiabá-Santarém e Transamazônica. A abertura de rota viária amazônica para o pacífico
de forma a ligar Rio Branco até Pucallpa (Peru) é um projeto polêmico, que começa a se
concretizar no final de 2005. O Projeto Calha Norte (1985) prevê a instalação de uma
rede integrada de bases militares do Exército e da Marinha acompanhado as fronteiras

69
setentrionais do Brasil com a Colômbia, a Venezuela, a Guiana, o Suriname e a Guiana
Francesa. Dentre os esforços, destaca-se o Tratado de Cooperação Amazônica (1978).

EM BUSCA DE UM PROJETO PAN-AMAZÔNICO


A maior dificuldade para soldar um pacto supranacional reside na ausência de
projetos capazes de compatibilizar projetos internacional e regional. Só recentemente se
desencadeou a rápida ocupação da Amazônia sul-americanas. Entre 1930 e 1960, a
industrialização por substituição de importações e o forte crescimento demográfico
valorizaram a Amazônia como fronteiras agrícolas nacionais.
Tem como elementos comuns a visão latino-americana que alia
desenvolvimento à segurança; práticas governamentais inadequadas; projetos de
colonização e redes viárias precárias, instaladas com desconhecimento das condições
locais; o fortalecimento das elites regionais; e problemas de soberania. No plano interno,
a soberania contestada pela ocupação conflitiva e descontrolada. No externo, é
contestada pela imbricação de empresas e organismos internacionais no processo de
ocupação, pela pressão ecológica e financeira internacional e pelo narcotráfico.
Os países da Amazônia sul-americana são heterogêneos com relação a
alguns fatores como no nível de desenvolvimento econômico-social; na diversidade de
condições geológicas, de revestimento florestal e de extensão das diversas amazônias; e
no grau de governabilidade e poder de traficantes

POSSIBILIDADE DE COOPERAÇÃO E A QUESTÃO FRONTEIRIÇA


A partir da década de 1970, as fronteiras vêm experimentando processo de
ocupação desordenada, com atividades ilegais (ouro e droga). Movimentos migratórios
tendem a ultrapassar os limites políticos de cada país, segundo as oportunidades.
Fronteiras não devem ser confundidas com limites, que são as linhas divisórias
entre soberanias. Fronteiras são áreas, faixas, com uma realidade sócio-econômica e
psicológica diferente da do restante de cada território nacional, que lhes imprime uma
identidade própria, comum aos dois lados da linha divisória.
Fluxo de mão-de-obra brasileira para a Guiana francesa: ocorre entre
Oiapoque (AP) e Saint Georges. A Guiana francesa é tida como terra prometida para
muitos brasileiros que lá vivem, devido aos investimentos franceses em infra-estrutura.
Comércio legal e ilegal em torno de Boa Vista (RR), quando comerciantes guianeses
compram mercadorias em Boa Vista e revendem em Lethem (Guiana).Brasileiros
revendem em Boa Vista dólares e combustível adquiridos na Venezuela.
Rio Catrimani (entre Roraima e Venezuela) - Área Yanomami como área
clandestina de garimpeiros brasileiros na Venezuela. Narcotráfico na fronteira ocidental.
Tabatinga (AM)/Letícia (Colômbia). Por conta da guerra do narcotráfico na
Colômbia, colombianos e peruanos fogem para Tabatinga e Villa Bittencourt, cidades que
vivem em função de Letícia, muito maior e mais desenvolvida. Brasiléia, Guajará-Mirim e
Costa Marques (RO) / Peru e Bolívia. Grande porta de entrada do narcotráfico no Brasil.
Palmarito (MT)/Bolívia. Os traficantes operam livremente, sendo muito mais bem
equipados do que o exército. Estravazamento da exploração da borracha brasileira: fluxo
de seringueiros brasileiros para as matas bolivianas, onde vivem isolados num regime
semi-escravagista nas colônias bolivianas ou em seringais de próprios brasileiros.
A Amazônia é selva organizada, na medida em que a maior parte da
população e suas atividades regionais se concentra nos núcleos urbanos, que são o lugar
dos problemas e também da sua solução.

70
PROGRAMA AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL
Iniciativa de 2003. Adota fundamentos da Teoria de Desenvolvimento Local,
procura valorizar o capital social e natural e adota o princípio da diversidade como vetor
de desenvolvimento sustentável. Prevê a sub-regionalização da Amazônia, com políticas
de desenvolvimento para três mesoregiões (arco do povoamento adensado, Amazônia
Central e Amazônia Ocidental) e sub-áreas específicas, dentro de cada mesoregião.
Opera com a formação de consensos para os conflitos; a integração das 3 esferas de
governo, a descentralização e transversalidade das ações federais, e ações organizadas
em eixos temáticos (gestão territorial e ordenamento territorial; produção sustentável
com inovação e competitividade; inclusão social e cidadania; infra estrutura para o
desenvolvimento; novo padrão de financiamento).
Inovação como ferramenta básica à integração competitiva do setor produtivo
local (criar vínculos entre a agenda regional e a estrutura produtiva local); Ampliação das
escalas de comercialização dos produtos da floresta; “entrega” de serviços às populações
locais (nos núcleos urbanos), como forma de produzir bem-estar, riqueza com menor
pressão ambiental e diminuição do êxodo para as capitais; e iniciativas de pagamento
pelos serviços ambientais como forma de remunerar os amazonenses por estes serviços.

TERRITORIALIZAÇÃO: ESTRATÉGIA DE RECONHECIMENTO


DA SOCIOBIODIVERSIDADE DA REGIÃO
A estratégia se articula a partir de uma nova proposta de divisão territorial da
Amazônia para o planejamento dos projetos e políticas, reconhecendo e considerando a
diversidade e heterogeneidade que caracterizam a região. Macrorregiões:
ARCO DO POVOAMENTO ADENSADO - Arco povoado do sul e leste da
Amazônia, com extensões de cerrado do MG, TO e MA e áreas fortemente antropisadas
do sudeste do Pará, Rondônia e sul do Acre. Tem como pontos estratégicos:
• Estimular ocupação de áreas abandonadas, opções do biodiesel e consórcio;
• Disseminar práticas produtivas sustentáveis na atividade madeireira;
• Gerenciamento costeiro para controle dos recursos do arco da embocadura;
• Manejo sustentável de recursos hídricos, corredor do Araguaia-Tocantins; e
• Ampliar o acesso ao crédito e a capacitação para empreendimentos agroflorestais.
AMAZÔNIA CENTRAL - Tendência à expansão do povoamento em algumas
sub-regiões, principalmente pelas rodovias, indo do centro do Pará e norte do Mato
Grosso à estrada Porto Velho–Manaus e Hidrovia do Madeira, concentrando 3 frentes de
expansão –Cunha do Tapajós, Terra do Meio e Corredor do Madeira. Estratégias:
• Regularização fundiária de frentes de expansão, utilização de ZEE;
• Nas áreas vulneráveis (concentração florestal e de reservas),elaboração de ZEE,
em especial ao longo dos eixos de ocupação familiar (aumento da fiscalização e
possibilidade de demarcação de terras indígenas e novas UCs);
• Controle da expansão da soja e apoio aos agricultores na diversificação produtiva;
• Apoio e fortalecimento aos APLs potenciais com agregação de valor (em especial
no Vale do Amazonas e Frentes de Ocupação);
• Consolidação de iniciativas de conservação (Fronteira de Preservação).
AMAZÔNIA OCIDENTAL - Área com vastas extensões de floresta e baixos
índices de perturbação dos ecossistemas naturais, distante das grandes obras de infra-
estrutura, que engloba os estados do Amazonas, Roraima e parte do Acre, além do
enclave do Pólo Industrial de Manaus / Zona Franca de Manaus. Suas estratégias:
• Apoio e fortalecimento da indústria sustentável da madeira (certificação);

71
• Apoio à mudança de escala da produção extrativista;
• Apoio ao Pólo gás-químico e de informática do PIM;
• Estímulo ao ecoturismo (Entorno de Manaus e Alto Rio Negro, em paralelo à
necessidade de aumento da vigilância e controle);
• Utilização do instrumento de ZEE nas regiões de fronteira, bem como estímulo à
implantação de corredores ecológicos no AM;
• Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento de novos produtos florestais(como fármacos,
extratos vegetais, fragrâncias, etc.) e apoio ao extrativismo florestal (Manaus); e
• Integração a partir do fortalecimento das cidades gêmeas(Letícia-Tabatinga, etc.).

A Política Brasileira de Combate ao Narcotráfico


A Secretária Nacional Antidrogas ressalta a importância da cooperação
internacional para a superação da questão das drogas. Segundo o princípio da
responsabilidade compartilhada, adotado na ONU, já não se estabelece diferenças entre
países produtores, consumidores e de trânsito, cabendo a todos engajarem-se no
combate ao tráfico e uso indevido de drogas.
O Brasil tem adotado política no controle de drogas e combate ao tráfico. As
prioridades têm sido coibir o abuso e a demanda dentro das fronteiras e praticar política

72
de cooperação com outros países. Neste sentido, o Brasil é parte contratante dos
tratados mais relevantes relacionados ao controle de drogas. Da mesma forma, em nível
regional, o País participa ativamente do trabalho da Comissão Interamericana para o
Controle do Abuso de Drogas da OEA. No plano bilateral, o Brasil é signatário de vários
acordos de cooperação para a prevenção do uso abusivo, para a reabilitação e para a
troca de informações sobre legislação e jurisprudência.
O País desenvolve série de programas visando combater o narcotráfico ao
longo das fronteiras e vem tomando medidas para atualizar e melhorar sua legislação,
visando reduzir a demanda por narcóticos. A Secretaria Nacional Antidrogas é o órgão
encarregado de planejar, coordenar, supervisionar e controlar as atividades de prevenção
e repressão ao tráfico ilícito, uso indevido e produção não autorizada de entorpecentes,
bem como as atividades de recuperação de dependentes. O Conselho de Controle de
Atividades Financeiras coordena esforços com vistas a lavagem de dinheiro, cujo trabalho
está em consonância com as orientações internacionais.

AQÜÍFERO GUARANI

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O Aqüífero Guarani é o maior manancial de água doce subterrânea
transfronteiriço do mundo. Está localizado na região centro-leste da América do Sul, e
ocupa uma área de 1,2 milhões de Km², estendendo-se pelo Brasil, Paraguai, Uruguai e
Argentina. Sua maior ocorrência se dá em território brasileiro (2/3 da área total),
abrangendo os Estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná,
Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Esse reservatório foi formado por derrames de
basalto ocorridos no Triássico, Jurássico e Cretáceo.
É constituído pelos sedimentos arenosos na Base e
arenitos no topo. A espessura total varia em até
800 metros. Estima-se que as reservas
permanentes sejam da ordem de 45.000 Km.
Sua recarga natural anual (principalmente chuvas)
é de 160 Km³/ano, sendo que 40 Km³/ano constitui
o potencial explorável sem riscos. As águas são de
boa qualidade para o abastecimento público e
podem produzir vazões superiores a 700 m³/h.
A combinação de boa qualidade da água, boa
proteção contra poluição, possibilidade de captação
nos locais onde ocorrem demandas, faz com que do
Aqüífero o manancial mais econômico e flexível para
abastecimento do consumo humano. Por ter extensão continental com característica
confinada, muitas vezes jorrante, sua dinâmica ainda é pouco conhecida, necessitando
maiores estudos, de forma a possibilitar uma utilização mais racional.
A água é "commodity" preciosa e cada vez mais escassa. Já foi causa de
guerras. O uso de recursos compartilhados de rios é motivo de rivalidades e de discórdias
entre países. Nos dias de hoje, sabe-se que a escassez de água começa a ser um real e
problema em algumas regiões, como a Califórnia, e em países como China e Israel.
A quantidade de água no sistema equivale ao total do volume de água que
corre pelo Rio Paraná durante 20 anos. Considerando-se como sendo de 300 litros por
dia o consumo de água per capita, o Aqüífero pode atender à demanda de 360 milhões
de pessoas em base sustentável. A partir de poços profundos, por unidade, ocorreria
retirada de até 1 milhão de litros por hora. Num período de cem anos, apenas cerca de
10% do total das reversas de água terão sido utilizadas.
Inexistem até aqui mecanismos legais e regulatórios para o uso adequado
desses recursos subterrâneos. Tanto no âmbito da ONU quanto no Mercosul, o que está
sendo discutido é como regulamentar a exploração e a preservação dos reservatórios. As
tratativas para um acordo se encontram em fase final no âmbito do Mercosul, com dois
pontos pendentes: a possibilidade de um dos Estados poder paralisar uma ação de
exploração do recurso aqüífero, caso entenda que possa prejudicar os interesses dos
demais, e como resolver esses conflitos potenciais.
O Projeto para a Proteção Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do
Sistema Aqüífero Guarani, em discussão no Banco Mundial, permiti aumentar o
conhecimento técnico sobre o recurso e propor marco técnico, legal e institucional para
sua gestão coordenada, visando à sua preservação. A sua grandeza e a coincidência de
estender-se exatamente abaixo do território do Mercosul torna-o importante manancial
hídrico, verdadeira reserva estratégica para o abastecimento da população e para o
desenvolvimento socioeconômico da região.

74
PROJEÇÕES DO BRASIL PARA 2020.
(Antonio Robert Moraes)
O Autor salienta a centralidade da dimensão espacial na formação histórica do
Brasil que foi gerado no processo de constituição da economia-mundo capitalista, e
conhece uma via colonial de estruturação, o país se constrói sob o signo da expansão
territorial. Trata-se de uma sociedade que sempre teve na conquista de espaço um forte
elemento de identidade e coesão. A idéia de "construir o país", recorrente em nossa
história política, está associada à ocupação de novas áreas e à montagem do território.
Assim, não raro se definiu a arte de governar como a capacidade de produzir e ordenar o
espaço. E de fato, a existência de grandes fundos territoriais cumpriu múltiplas funções -
econômicas, políticas e ideológicas - ao longo de nossa formação.
Questiona o momento na qual estarão esgotadas as reservas de espaço, uma
vez que o padrão extensivo do povoamento e das estruturas produtivas, dominante em
nossa formação, não poderá mais se reproduzir. Como resultado, novos padrões de
avaliação da terra, e o nível de desperdício de recursos que imperam até hoje (trato das
florestas, dos solos ou dos recursos hídricos), passarão a operar num universo de
estoques cada vez mais restritos. Nesse sentido, sugere revalorização no uso dos
recursos ambientais e naturais disponíveis. Nesse sentido, duas macrozonas emergem
como grandes reservas potenciais de valor: a região amazônica e a área marítima sob
jurisdição brasileira.
Quanto à região amazônica mantida a atual diretriz de ocupação, ocorrerá um
avanço do povoamento e um adensamento populacional, porém seletiva e concentrada,
induzida pelos zoneamentos em curso e pelas demais legislações restritivas. A existência
de extensas áreas protegidas e de um grande número de unidades de conservação na
região atuará na acentuação do marcado padrão urbano, já observável na ocupação
hodierna da Amazônia. Nas localidades amazônicas associadas à exploração de recursos
minerais de alto valor, quando próximas a eixos de povoamento/circulação, induzem à
formação de uma área de adensamento, ou mesmo redirecionam o sentido dos fluxos.
Quando localizadas em zonas isoladas, tendem a constituir enclaves extrativistas, com
baixa internalização local de valor.
Quanto ao mar brasileiro, pode-se prever um uso mais intenso de seus
recursos. O projeto REVIZEE que objetiva a definição dos estoques de recursos vivos da
ZEE e dos níveis de captura sustentáveis, os quais serão efetivamente explorados, o que
resultaria numa expansão do setor pesqueiro. O desenvolvimento da maricultura, que
apenas inicia-se no país, e a formação de viveiros artificiais no mar completariam o
quadro de intensificação do uso dos recursos vivos marinhos.
Em termos da exploração mineral da zona marítima, o projeto REMIZEE visa
identificar as jazidas existentes e seu potencial econômico. Vale lembrar que, quanto ao
domínio do subsolo marinho, a conclusão do projeto LEPLAC, com o estabelecimento da
dimensão da plataforma "jurídica" brasileira, jogará a fronteira leste do Brasil para 350
milhas náuticas da linha da costa, fato de extrema importância geopolítica para o
Atlântico Sul. A exploração de petróleo off shore também deverá ter expandida sua área
de exercício, seja pela prospecção na Baía de Santos ou em áreas setentrionais do país.
A importância dos meios marinhos, como fonte de recursos, e em função da
intensificação dos fluxos mercantis oceânicos, decorrente da globalização, coloca a
questão do controle da sua degradação. Sabe-se que mais de 90% da poluição marinha
origina-se de fontes terrestres, o olhar planejador deve se voltar para as zonas litorâneas
e para as atividades ali desenvolvidas, notadamente, aqueles ecossistemas que cumprem
papéis vitais na reprodução da vida marítima, como os manguezais.

75
O litoral brasileiro está se urbanizado progressivamente. A orla
nordestina que ainda conhece setores de baixa densidade populacional vivenciará um
maior povoamento dessas áreas, com avanço de residências e a instalação ou ampliação
de atividades litorâneas, como a portuária. O binômio de urbanização e industrialização,
incorpora no primeiro processo as atividades turísticas e de veraneio, e comporá também
o perfil generalizado da ocupação do litoral das regiões Sul e Sudeste do país.
A preocupação com o ordenamento da ocupação da zona costeira não pode se
restringir apenas ao planejamento preventivo, mas a atuações corretivas, no que tange
ao saneamento básico e ao tratamento de efluentes domésticos e fabris. O padrão de
urbanização conhecerá nódulos de adensamento muito em razão das relações que se
estabeleçam entre as localidades litorâneas e a hinterlândia. A função portuária se
destaca nesse particular, com a malha ferroviária que demanda o complexo de Carajás e
os arredores de Brasília. Também deverá aumentar o movimento dos portos de Rio
Grande e de Paranaguá em virtude da intensificação dos fluxos no âmbito do Mercosul.
O litoral de São Paulo e Rio de Janeiro definirão porção contínua de múltiplos
usos que deverá constituir elo de ligação, estruturando parte da primeira megalópole
nacional. A velocidade de constituição dessa estrutura espacial - que terá a zona costeira
como um dos eixos de conurbação, estando o outro correndo pelo Vale do Paraíba -
dependerá sobremaneira da redinamização da metrópole carioca, o que poderá ocorrer
com a instalação do teleporto no Rio de Janeiro e do porto de Sepetiba no eixo litorâneo.
Vale mencionar que no movimento da área core brasileira, observa-se
uma competição locacional envolvendo duas direções possíveis: uma é exatamente a
fusão das manchas metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, através do litoral e do
macroeixo do Vale do Paraíba; a outra é a expansão areolar paulistana num sentido
concêntrico, que levaria à consolidação de uma macrometrópole, incorporando a Baixada
Santista, as regiões de Campinas (já conurbada) e de Sorocaba, e o Vale do Paraíba
paulista. Essa segunda opção apresenta hoje uma tendência no sentido norte-noroeste,
para o triângulo mineiro, pelo eixo da rodovia Anhanguera.
Estas duas aglomerações representam as porções mais adensadas do
chamado "polígono industrial" brasileiro, o qual envolveria também as regiões
metropolitanas de BH, Curitiba, e seus entornos. Pode-se prever adensamento no interior
desse espaço, com o crescimento da rede de cidades, até conformar padrão, que teria
como similar a costa leste dos EUA. Nesse padrão, não se pode falar mais em atividades
agrárias, nem mesmo nas zonas rurais remanescentes.
As demais metrópoles regionais crescerão em ritmos mais lento, em função
do desempenho das economias regionais que presidem. Estas, hoje, dependentes de sua
articulação com os circuitos globalizados, caracteriza suas performances.
O papel das estradas, em particular das rodovias, na estruturação dos eixos
de povoamento. A carta de densidade demográfica do Brasil apresenta com clareza o
adensamento existente no curso da Belém-Brasília ou da Cuiabá-Porto Velho, por
exemplo. Enfim, as estradas cumprem uma função clara de vetor de ocupação num país
formado num processo de expansão territorial e, atuam como importantes fatores na
definição do sentido geográfico desse movimento.
As estradas que interligam espaços transnacionais possuem uma
importância ainda maior para a reflexão geoestratégica. No momento atual esboçam-se
algumas iniciativas nesse sentido: a relação de Manaus com a Venezuela e com o Caribe
(via Paramaribo), a ligação da malha rodoviária nacional com porto peruano no Pacífico
(via Acre) e a construção da ponte Buenos Aires/Colonia (importante elo da articulação
da capital portenha com a área core do Brasil). Cabe comentar que estas iniciativas

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contemplam saídas pelos distintos quadrantes terrestres do país, nos sentidos sul, oeste
e norte, podem vir a constituir futuros eixos de povoamento, dependendo da circulação
praticada em cada um. É possível antever que o traçado da ligação Buenos Aires-São
Paulo influirá bastante na dinâmica territorial das regiões atravessadas.
Nível de integração, hoje, apesar do Brasil configurar uma economia
efetivamente "nacional" (superando a mera somatória das economias "regionais"), a
disparidade entre as diversas unidades da federação é alto e se repete na capacidade
produtiva, na geração de renda, no consumo de energia e em várias matérias.

FONTES DE ENERGIA
Através dos tempos, a utilização das fontes de energia pelo homem passou
por várias fases: inicialmente a energia humana e animal; Depois a calorífica produzida
pela madeira e carvão vegetal; Em seguida, a força dos ventos; a máquina a vapor
utilizando a hulha; o motor a explosão com o uso do petróleo; aproveitamento das
quedas d’água (hidroeletricidade); energia do sol e, recentemente, a energia atômica.
Toda evolução de uso das fontes de energia provocou modificações na vida do
homem. Diversas atividades beneficiaram-se das novas formas de energia, a produção
industrial aumentou e o homem dispõe de mais conforto. A análise do consumo
energético é um dos critérios para medir o nível de desenvolvimento econômico.
Cenário Energético Mundial.
Atualmente, estima-se que aproximadamente 1/3 da população mundial não
tem acesso à energia elétrica e, mesmo em sociedades industrializadas ainda coexistem
formas rudimentares de transformação e uso da energia. A Ásia é a maior produtora de
energia (34%), seguida da América (31,1%) e da Europa (25,6%). A América do Norte é
o maior consumidor, principalmente os EUA.
A produção mundial de energia, em 1997, segundo os dados da Agência
Internacional de Energia, somou o equivalente a 9,5 mil megatoneladas de petróleo, dos
quais 86,2% são de fontes não renováveis. As reservas conhecidas de petróleo, de gás
natural e de carvão têm prazo limitado. Embora de uso crescente, as fontes renováveis,
aquelas que podem se renovar espontaneamente (água, ar) ou por medidas de
conservação (vegetação), são responsáveis por apenas 13,8% do total produzido.
Petróleo - Principal fonte primária de energia, contribui com 35,8% na
produção total. As perspectivas de especialistas apontam que a predominância desta
sobre outras fontes ainda deverá perdurar durante as próximas décadas, embora possa
haver redução do consumo em decorrência do aproveitamento de outros insumos.
Carvão - Segundo os dados da AIE, até 1997, era a segunda principal fonte
de energia mundial. China (33,8%), EUA (25,6%) e Índia (8,3%) são os maiores
produtores mundiais. Motivos ambientais e econômicos, que relacionam a queima desse
combustível com a acidificação das chuvas e a formação do smog urbano, no entanto,
contribuíram para a redução no consumo.
Gás Natural - Por seu teor menor de poluição, apesar da queima resultar em
CO2, apresenta atualmente o maior crescimento de consumo. Rússia (24,8%), EUA
(22,6%) e Canadá (7,3%) são os maiores produtores mundiais. É alternativa de energia
para automóveis, termoelétricas e nas indústrias, por isso é apontado pelo Departamento
de Energia dos EUA como a fonte primária que terá maior crescimento no uso até 2.020.
Energia Nuclear – Contribui com 6,6% da produção total. Atualmente, estão
em operação cerca de 400 reatores. A maior desvantagem é o risco de vazamento do
material radioativo. Vários acidentes reforçaram a posição antinuclear. Depois do boom
da construção de centrais nas décadas de 1960 e 1970, os acidentes em Tree Mile

77
Island, Chernobyl (86) tiveram forte impacto na opinião pública. Por faltar tecnologia
adequada para o tratamento dos resíduos nucleares, esse material costuma ser
encapsulado em tambores de aço e enterrado. A escolha dos locais para depósito envolve
uma série de questões técnicas e políticas, além de obedecer a rígidos critérios de
segurança. A Convenção sobre Segurança Nuclear (1994), trata do transporte de lixo
radioativo e estabelece normas para construção e funcionamento de usinas, foi assinada
na ocasião por 65 países, mas somente 38 ratificaram o compromisso até 2.000.
Os altos custos de construção e a pressão de ambientalistas fizeram vários
países, como a Itália e a Espanha, desistirem ou cancelarem indefinidamente seus
programas nucleares. A Alemanha, a Suíça e a França, que produz 75% de sua energia
elétrica por meio de 56 reatores nucleares, estão organizando cronogramas para
fechamento das instalações existentes.Para alguns países a energia nuclear é a única
alternativa disponível. É o caso do Japão, que não tem petróleo, carvão ou recursos
hídricos capazes de gerar energia. A produção nuclear japonesa que gerava 0,6% de
toda eletricidade consumida saltou para 30% em 1996. Atualmente, o Japão tem o
terceiro maior parque nuclear instalado do mundo, com 51 reatores.

NO BRASIL
PETRÓLEO
Da mesma forma que o carvão mineral, é encontrado em áreas sedimentares.
É formado por uma mistura natural, fluida e oleosa de hidrocarbonetos, de cor pardo-
negra ou amarelada. Encontrado na forma líquida (petróleo), gasosa (gás natural) e
sólida (betume – do qual o asfalto é derivado).
No Brasil, o interesse pela pesquisa de petróleo começou no século XIX. As
primeiras concessões foram registradas em 1858, para pesquisa e lavra nas
proximidades de Ilhéus - Bahia. Até 1907, foram registradas concessões na região
costeira dos estados da Bahia e do Maranhão, e em São Paulo.
A primeira sondagem oficial ocorreu em 1919. Perfurado na região de
Marechal Mallet, Paraná, o poço chegou aos 84 metros de profundidade, mas foi
abandonado no ano seguinte. Até o final dos anos 30, uma série de pesquisas na Bahia,
Sergipe, Alagoas e Amazonas, obtiveram resultados desanimadores.
LOBATO, A PRIMEIRA DESCOBERTA.
A partir de 1938, toda a atividade petrolífera passou, por lei, a ser
obrigatoriamente realizada por brasileiros. Nesse ano, foi criado o CNP, para avaliar os
pedidos de pesquisa e lavra de jazidas. Declarou de utilidade pública o abastecimento de
petróleo e regulou as atividades relacionadas. Além disso, as jazidas de petróleo, embora
ainda não localizadas, passaram a ser consideradas patrimônio da União.
A descoberta de petróleo em Lobato, na Bahia, em 1939, mesmo sendo
considerada subcomercial, incentivou novas pesquisas do CNP na região do Recôncavo
baiano. Em 1941, um dos poços perfurados deu origem ao campo de Candeias, o
primeiro a produzir petróleo no Brasil. As descobertas prosseguiram na Bahia, enquanto
o CNP estendia seus trabalhos a outros estados.
A CRIAÇÃO DA PETROBRÁS
No final da década de 40, cresceu a polêmica sobre a melhor política a ser
adotada pelo Brasil em relação à exploração do petróleo. As opiniões divergiam: grupos
defendiam o regime do monopólio estatal, enquanto outros eram favoráveis à
participação da iniciativa privada. Depois de intensa campanha popular, o presidente
Getúlio Vargas assinou, em outubro de 1953, a lei que instituiu o monopólio estatal da
pesquisa e lavra, refino e transporte do petróleo e seus derivados e criou a Petrobras.

78
Em 1963, o monopólio foi ampliado, abrangendo também as atividades de
importação e exportação de petróleo e seus derivados. Em agosto de 1997, em função
da Lei 9.478, o Brasil passou a admitir a presença de outras empresas para competir
com a Petrobras em todos os ramos da atividade petrolífera.
Na época da criação da Petrobras, a produção nacional era de 2.700 barris por
dia (consumo de 170 mil barris diários). A partir de então, intensificaram-se atividades
exploratórias e formaram seu corpo técnico. O esforço permitiu o constante aumento das
reservas, primeiro nas bacias terrestres e, a partir de 1968, também no mar (a primeira
descoberta, o campo de Guaricema, litoral de Sergipe, em 1969).
Em 1974, um marco foi a localização do campo de Garoupa, a primeira
descoberta na Bacia de Campos, Rio de Janeiro. Posteriormente, a partir de meados da
década de 80, a Petrobras dirigiu suas atividades de exploração, sobretudo para as
regiões de águas profundas da Bacia de Campos, culminando com descobertas de
campos gigantes, como Marlim, Albacora, Barracuda e Roncador. Hoje, a Bacia de
Campos é a maior província produtora de petróleo do país e uma das maiores províncias
produtoras de petróleo em águas profundas do mundo.

MUDANÇA NO PAPEL DO ESTADO


O fim do monopólio, determinado pela Lei do Petróleo (n. 9.478) em agosto
1997, instituiu não apenas um conjunto de mudanças de caráter técnico-administrativo,
mas uma redefinição no papel do Estado. De produtor e provedor o Estado passa para
regulador e fiscalizador. Para alguns especialistas está é uma tendência natural do
mercado internacional. Para atuar nesse novo papel foi criada a Agência Nacional do
Petróleo, vinculada ao Ministério de Minas e Energia, que passou a regular e fiscalizar a
indústria de petróleo no Brasil. Uma das ocupações da ANP é promover licitações para a
concessão de áreas ou blocos destinados à exploração de petróleo e de gás natural. Até o
momento, as licitações realizadas, resultaram na concessão de blocos exploratórios à
Petrobras e a várias outras empresas internacionais.
Nesses anos de atuação da ANP, a quebra do monopólio atingiu o setor de
exploração e produção (upstream). Entretanto, no refino, distribuição e transporte
(downstream), o setor permanece praticamente inalterado, vez que existem apenas duas
refinarias privadas e a Petrobras continua responsável por cerca de 95% das atividades.

BACIA SEDIMENTAR DO AMAZONAS


Cerca de uma dezena de bacias sedimentares estão situadas na Amazônia
Legal Brasileira, perfazendo quase 2/3 dessa área. Três delas: Solimões, Amazonas e
Paranaíba - são as mais importantes, não só pelo tamanho, mas principalmente pelo seu
potencial. Solimões é a terceira bacia sedimentar em produção de óleo no Brasil. No
entanto, a principal vocação da Amazônia é o gás natural. O estado do Amazonas tem a
segunda maior reserva brasileira de gás natural, com 44,5 bilhões de metros cúbicos.
Nas outras duas bacias também têm sido encontradas acumulações de gás.
Em 1986, a prospecção petrolífera na Amazônia tornou-se realidade com a
descoberta da província do Urucu, a 600 km de Manaus. O petróleo de Urucu é
considerado o de melhor qualidade no país e dele são produzidos, principalmente,
derivados mais nobres (de alto valor agregado) como diesel e nafta. A região Amazônica
já é auto-suficiente em petróleo e parte de sua produção é exportada para outras
refinarias da Petrobras, localizadas em diferentes regiões do país.

79
História dos fluxos de petróleo

PROÁLCOOL
Os choques do petróleo e crise no mercado internacional de açúcar levaram à
criação do Proálcool, com o objetivo de diminuir a dependência externa de energia,
melhorar o balanço de pagamentos, reduzir disparidades regionais de renda, expandir a
produção de bens de capital e gerar empregos.
Os esforços para superar os choques do petróleo fizeram os setores agrícola e
industrial da cana-de-açúcar experimentarem grande desenvolvimento tecnológico. O
êxito do Proálcool foi o de promover sinergias, aliando indústrias e instituições de
pesquisa, sempre com o apoio continuado de organismos governamentais em diversas
áreas – tecnologia, política industrial, planejamento energético, agricultura - para realizar
uma das poucas iniciativas de inovação de alcance global já ocorridas no Brasil.
As perspectivas para o álcool no Brasil indicam que produção mundial de
petróleo deve atingir seu pico em menos de 20 anos, podendo causar crise de escassez
com efeitos que podem superar as rupturas decorrentes dos choques dos anos 1970.
Os preços dos combustíveis fósseis crescem significativamente. Devido aos
ganhos de eficiência obtidos pelo sistema agroindustrial da cana-de-açúcar, é possível
hoje se produzir álcool a custo inferior ao da gasolina. Já se pode perceber os efeitos
disso. Os veículos leves bi-combustíveis tiveram, em junho de 2005, o percentual de
51,9% do total de vendas internas; estima-se que em 2010 possa chegar a 80%.
Para atender ao aumento esperado no consumo, o Brasil deve se preparar
para produzir algo como 100 bilhões de litros de etanol combustível em 20 anos. Tal
meta irá exigir desafios tecnológicos e a formulação de políticas governamentais.

BIODIESEL
O país tem em sua geografia grandes vantagens agrônomas: situa-se em
região tropical, com altas taxas de luminosidade e temperaturas médias anuais,
disponibilidade hídrica, regularidade de chuvas e a fronteira para expansão agrícola. O
programa Biodiesel visa utilizar terras inadequadas para gêneros alimentícios.

80
Há grande diversidade de opções para produção de biodiesel, como palma e
babaçu no Norte; soja, girassol e amendoim no Sul, Sudeste e Centro-Oeste; e mamona
para o semi-árido nordestino. A sinergia entre o complexo oleaginoso e o setor de álcool
combustível traz a necessidade de aumento de produção de álcool, o que gera demanda
pelo produto, e conseqüentemente, o desenvolvimento do setor sucroalcooleiro.
Na definição da legislação brasileira, o biocombustivel é derivado de biomassa
renovável para uso em motores a combustão interna, ou para geração de outro tipo de
energia, que possa substituir parcial ou totalmente combustíveis de origem fóssil.
É combustível alternativo de queima limpa, que não contem petróleo, mas a
ele pode ser adicionado em qualquer proporção. Por ser biodegradável, não tóxico e
praticamente livre de enxofre e aromáticos é considerado combustível ecológico.

GÁS NATURAL
A utilização do Gás Natural no Brasil começou por volta de 1940, com as
descobertas na Bahia, atendendo ao Recôncavo Baiano. As bacias do Recôncavo, Sergipe
e Alagoas eram destinadas quase em sua totalidade a fabricação de insumos industriais e
combustíveis para a refinaria Landulfo Alves e o Pólo Petroquímico de Camaçari.
O marco é a Bacia de Campos. Seu desenvolvimento proporcionou aumento
no uso da matéria-prima, elevando a participação do GN na matriz energética nacional. O
Governo tem como meta elevar a participação do GN. Para isso, esforços como a
privatização e a lei 9.478 redefiniu a política energética nacional e instituiu a ANP.
O gasoduto Bolívia-Brasil representou grande avanço no fornecimento de gás
natural no país, com capacidade de transportar até 30 milhões m³ dia. A implantação de
usinas de Termeletricidade contribuiu para o crescimento da oferta de energia. Alguns
projetos estão em estudo para exploração da Bacia do Solimões, região Norte do país.
O projeto do gasoduto Venezuela-Brasil-Argentina poderá assegurar a
interligação energética de quase todo o subcontinente. Estimado em U$20 bi, o gasoduto
tem extensão prevista de 8.000 km, o que o tornaria o segundo do mundo. A primeira
etapa prevê a ligação das bacias de Puerto Ordaz e Carajás (PA), viabilizando a produção
local de aço e alumínio. De Carajás, seguiria para São Luiz, interconectando-se à rede do
Nordeste, Uberaba (MG), interligando-se à malha do Sudeste e ao gasoduto Bolívia-
Brasil, e daí até Montevidéu e Buenos Aires.
Projetos de Gás na Europa

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81
CARVÃO MINERAL
A região sul é a principal produtora. A bacia sedimentar do Paraná é
caracterizada por sedimentos continentais e nela destacam-se os terrenos permo-
carboníferos. Apresenta a forma de S, que se estende do Sul de São Paulo até Bagé, na
fronteira com a Argentina. Não é carvão destinado ao beneficiamento para produzir
carvão metalúrgico, à exceção do produzido em Santa Catarina (em Tubarão). O maior
produtor é Santa Catarina, seguido do Rio Grande do Sul, e modestamente pelo Paraná.
Na região Norte e Nordeste (bacia sedimentar da Amazônia) e no Meio Norte
(Maranhão e Piauí) descobriram-se reservas, mas sem valor econômico.

GEOPOLÍTICA
A globalização econômica não ajudou a manter a unidade dos territórios
nacionais rompida durante a Guerra Fria e marcada pelo esgotamento do padrão de
acumulação e de relações de poder calcado tanto na centralização quanto na produção
em larga escala. Entre as causas de instabilidades no mundo atual, estão a revolução
científico-tecnológica e a crise ambiental. O Estado deixou de ser a principal
representação política, e o território nacional tampouco é a única escala de referência de
poder, lacunas que foram preenchidas pelo poder técnico-econômico.

GEOPOLÍTICA DO BRASIL
O projeto geopolítico de modernização brasileira, iniciado no pós-guerra, não
atendia prioritariamente ao plano de ação das Forças Armadas. A integração territorial
brasileira, na perspectiva da modernização conservadora, foi um recurso ideológico
utilizado para ampliar o controle do território nacional e encobrir as políticas seletivas
espaciais e sociais. A modernização conservadora reconheceu que eram necessárias a
autonomia tecnológica e a instrumentalização do espaço como bases para a acumulação
de riqueza e a legitimação do Estado; por isso, o espaço foi dotado de operacionalidade.

INTEGRAÇÃO NACIONAL
Sempre houve, no Brasil, indecisão quanto à forma do Estado: central ou
federal. Durante a colonização, o território foi dividido em capitanias hereditárias,
dependentes da metrópole e sem qualquer vínculo entre elas. Em 1549, criou-se um
governo-geral com sede em Salvador. Os desafios conjunturais levaram Portugal, em
três ocasiões, a dividir o Brasil em áreas administrativas:
Nas primeiras, dividido no Norte, com sede em Salvador, e outra com governo
no Sul no Rio de Janeiro, de 1573 a 1578 e de 1608 a 1613; e na terceira, o Brasil com
governos, inicialmente, em Salvador e, após 1763, no Rio de Janeiro; Maranhão, com
sede em São Luis, transferida para Belém. Perdurou de 1621 a 1774.
A transferência da corte portuguesa para o Brasil e a elevação da Colônia à
condição de Reino fez que o processo de independência tomasse forma sui generis,
mantendo as mesmas instituições coloniais. Os republicanos foram contidos e as
capitanias foram obrigadas a submeter-se. O Maranhão, com contato mais fácil com
Lisboa, devido as correntes marinhas e ventos, demorou a submeter-se.
O Império recém criado prometia ser liberal e constitucional, mas D. Pedro
dissolveu a assembléia. Não havia oposição organizada e os proprietários de terra
temiam revolta. José Bonifácio levantou problemas com os da necessidade de abolição
gradual da escravidão, integração indígena e transferência da capital para o interior. O
império era conservador e centralizador; reprimiu com energia os movimentos regionais.

82
As províncias, apesar de possuírem assembléias, tinham pouca autonomia. As
reivindicações de autonomia local eram reprimidas ou esquecidas, tanto que em quase
sete décadas de império foram criadas apenas as províncias do Paraná e Amazonas.
Somente no fim do Império, políticos como Joaquim Nabuco defendia a
formação de federação e o direito de eleger os presidentes de província. A república
concedeu autonomia aos Estados, iniciando a política dos governadores. A federação foi
condenada por estudiosos. Após 1930, os Estados perderam autonomia, sendo
governados por interventores, até 1935, e após o período constitucional de 35 a 37,
voltaram ao sistema de intervencionista. O Estado Novo aplicou modelo corporativista,
extinguiu a autonomia estadual, fazendo desaparecer símbolos como a bandeira e o hino.
A CF/1946 restaurou a autonomia dos Estados, mas o sistema tributário os
colocava em dependência com a união. Com o golpe de 64, a autonomia dos Estados
desapareceu por razões políticas e tributárias. O Brasil, formalmente uma federação,
funcionava, de fato, como unitário.
O PROBLEMA DA CAPITAL
A transferência da capital já era debatido com CF/1891 que determinou a
mudança para o Planalto Central, para uma cidade a ser construída em área de formação
das 3 grandes bacias hidrográficas. Uma comissão chegou a ser nomeada para escolher
uma localização no planalto Goiano. Esquecidos até Marechal Dutra reativar os estudos,
que sugeriam uma localização no Triângulo Mineiro, área interior, mas com povoamento.
As razões de transferência mudaram (segurança e vulnerabilidade de capital
no litoral). A capital no interior provocaria a abertura de estradas e a valorização de
terras para a agricultura. A inauguração de Brasília possibilitou a abertura de uma série
de estradas de grande valor geopolítico que a ligaria aos mais diversos pontos
fronteiriços. A Estrada Belém-Brasília significou abertura do Norte a São Paulo, outras
foram projetadas como a Brasília-Acre e Brasília-Fortaleza. Durante o governo militar
estradas como a Transamazônica, a Perimetral Norte, a Cuiabá-Santarém, a Cuiabá-
Porto-Velho, Manaus-Boa-Vista e outras, visando integrar o território nacional e levar as
posições brasileiras às suas fronteiras com os países latino-americanos da Amazônia.
REDIVISÃO TERRITORIAL
É tema que vêm do império.Na primeira república, as províncias transformam-
se em Estados e o Território do Acre foi criado, apesar da pretensão do Amazonas na
anexação. Durante o Estado Novo foram criados os territórios Amapá (do Pará),
Guaporé, atual Rondônia (do Amazonas e Mato Grosso), Ponta Porã (Mato Grosso),
Iguaçu (do Paraná e Santa Catarina). Os dois últimos foram devolvidos aos Estados de
Origem pela CF/46. Durante a IIGM, Fernando de Noronha foi desmembrado de
Pernambuco, passando a território militar.
A criação de territórios atendia aos princípios dos geopolíticos mais exaltados
como Backhauser e Freitas, que defendiam a anulação de fronteiras estaduais existentes
e a divisão por linhas geométricas, a fim de que não se formassem grandes Estados ao
lado de pequenos. Vargas não interferiu com os grandes Estados, mas desmembrou
áreas subpovoadas e fronteiriças. O Mato Grosso foi dividido, e a transferência da capital
para Brasília criou o Estado da Guanabara, que os militares incorporaram ao Rio de
Janeiro. A CF/88 foi palco de pressões para concessão de autonomia a diversas regiões,
mas em razão dos custos, somente Tocantins foi criado.
O crescimento dos desníveis de desenvolvimento tem despertado rivalidades
regionais e levou o governo a criar superintendências como Sudam, Sudene, Sudeco,
Sudesul sem atribuições político-administrativas, mas com influência econômica.

83
GEOPOLÍTICA DA BACIA DO PRATA
Área de interesse e o Brasil continua a disputar influência, mesmo nos
momentos de integração econômica. Há disputa de influência sobre o Uruguai, Paraguai
e Bolívia. No Uruguai os interesses brasileiros se expandem além da linha de fronteira,
aonde estancieiros brasileiros possuem terras e o mercado é disputado com a Argentina.
No Paraguai, a questão é o escoamento da produção até o Atlântico. Enquanto
a Argentina oferece a navegação nos rios Paraná e Prata, o Brasil oferece a rodovia que
liga Assunção à Paranaguá e facilidades nesse porto. Partes do território Paraguaio são
ocupadas por brasileiros e argentinos que cultivam cereais e criam gado. A moeda de
ambos circula largamente no mercado. Enquanto Itaipu aumentou a dependência
paraguaia em relação ao Brasil, a Argentina continua a pressionar o Paraguai para
construir Corpus e Yaciretá.
Na Bolívia, a influência Argentina vem desde o século XX pelo sistema
ferroviário; a influência do Brasil aumentou nos últimos 60 anos com a construção da
ferrovia Brasil-Bolívia ligando Santa Cruz a Santos, devendo ser estendida até Arica no
Chile. O dinamismo de São Paulo vem fazendo que a influência brasileira no sul da
Bolívia venha se intensificando, dando margem à realização de acordos econômicos,
como os de Gás Natural das jazidas bolivianas.
As disputas militares entre Brasil e Argentina foram substituídas por uma
política de colaboração e integração econômica. As produções industriais e agrícolas
complementares possibilitam um intercâmbio vantajoso para ambos.

GEOPOLÍTICA NA VIRADA DO MILÊNIO: BERTHA BECKER


Há retomada de interesse pela Geopolítica que significa a revalorização da
prática do poder sobre o espaço geográfico. Entretanto, as mesmas condições negam o
Estado como única política do sistema internacional, e o território como fundamento do
poder. A queda do Muro de Berlim e o rompimento do sistema bipolar é um marco e
trouxe à luz as diferenciações espaciais, significando a recuperação do político e da
cultura expressos em conflitos pela definição dos territórios.
Para Becker, há a manifestação de rápidas e intensas transformações em
curso no planeta. Esgota-se o padrão de acumulação e de relações de poder calcados na
produção em grande escala e na centralização do poder, que gerou conflitos. As novas
tendências de globalização rompem as fronteiras dos Estados introduzindo diferenciações
nos territórios nacionais. Novas territorialidades surgem acima e abaixo da escala do
Estado e desafiam a possibilidade do desenvolvimento autárquico.
Os componentes que estão alterando a Geopolítica são a revolução científico-
tecnológica, que transforma a base produtiva, e a crise ambiental, que impõe novos
padrões com a natureza. Ambas redefinem os estilos de vida, á ética, a dinâmica político-
social e a organização do espaço global e dos territórios nacionais.

HERANÇA DA GEOPOLÍTICA
O paradigma da Geopolítica é o realismo. Para Morgenthau, o Realismo
pressupõe o Estado como unidade básica do sistema internacional, cujo atributo principal
é o poder, em suas dimensões militar e econômica; poder entendido como a capacidade
de alterar o comportamento de outro para o seu interesse; e as unidades se relacionam
para otimizar os interesses respectivos visando o equilíbrio de poder.
A herança da geopolítica possui dois pressupostos: excepcionalismo
nacional, centrado no Estado-Nação; e o determinismo geográfico, na qual o
poder advém do território, que garante o seu exercício.

84
Por sua vez, atribuir o poder à configuração das terras e mares ao contexto
do território é seguir o determinismo e omitir o homem na tomada de decisão política dos
Estados que moldam a geografia. Para Becker, o discurso do destino manifesto da
Geopolítica compreende a relação do poder hegemônico com o espaço fazem imperativos
estratégicos fundados na lógica militar; associação ao Estado, forma histórica de
organização da sociedade; e traduz a relação do Estado com guerra, religião e ideologia.
Como se observa, a relação do Estado com seu território resume-se, à
avaliação com fundamento do poder nacional em extensão, posição e recursos.

HIPÓTESES GEOPOLÍTICAS SOBRE O PODER MUNDIAL


No contexto da instrumentalização do espaço pelo Estado que se desenvolveu
a prática estratégica do poder. Para Lacoste, a prática estratégica de conquista e controle
do território é a raiz da Geografia. Enquanto a geografia informaria apenas sobre o
espaço, a Geopolítica utiliza essa informação para planejar a política do Estado, pois é do
espaço que se atribui poder, particularmente, o meio físico. O poder mundial decorreria
da superposição de variáveis que atribuem valor a certas partes do globo.
Inicialmente, o privilégio era dos portentores das terras férteis, em seguida
aos moradores dos climas temperados, privilegiado em relação aos trópicos. Com as
navegações, o mundo conhecido foi ampliado e passou a visão do mundo dividido em
dois hemisférios. A partir daí, ao espaço europeu temperado e posição marítima foi
atribuído valor estratégico. Nesse contexto o fator físico era determinante de poder.
A visão europeicêntrica só começa a se modificar na segunda metade do
século XIX em decorrência dos avanços tecnológicos introduzidos pela revolução
industrial e da afirmação gradativa do Estado Moderno. Mas, somente na primeira
metade do século XX que a expansão dos transportes e comunicação altera-se a visão.
A distribuição de terras e mares é simples. Terras emersas correspondem a
28% do globo, isoladas em mares contínuos. Há mais terras no Norte, que formam um
anel quase completo sobre o Ártico. A parte central e sudeste da Ásia é o coração das
terras do globo, de onde se estendem eixos montanhosos em três direções. Com base
neste fato foram elaboradas três teorias:
A primeira, do poder terrestre, de Mackinder, com o globo dividido em duas
grandes unidades, a ilha mundial – heartland, a massa continental Eurasiana, e por
regiões costeiras ou crescente marginal que o circulam. E o crescente marginal, que
corresponde às áreas insulares que circulam o heartland.
A segunda, das Pan-Regiões, de Hauschoffer, idealizou a formação de Pan-
Regiões, na qual haveria diversas regiões de poder fragmentadas pelo globo, como a
Pan-Americana, Pan-África, etc. Era uma ideologia para contrabalançar o poder Inglês.
A última, do Rimland, de Spykamn, que elegeu como área estratégica para o
poder o Rimland, as terras peninsulares da Eurásia onde se concentram a população, os
recursos e as linhas marítimas. Era uma ideologia para contrabalançar o poder Alemão.
Essa foi a teoria seguida, após a guerra, para conter a expansão do poder soviético.
O arsenal tecnológico desenvolvido após a IIGM tornou obsoleta as hipóteses
geoestratégicas. Reconhecendo que a tecnologia permite o ataque à distância, entende-
se que o poder é divisível e que o controle de uma via de movimento é inútil,
configurando-se uma geopolítica de equilíbrio de poder.

TECNOLOGIA ESPACIAL DO PODER DO ESTADO


Afirma que o Estado não é uma forma acabada, mas um processo, que se
vincula ao espaço por uma relação complexa. Alguns momentos cruciais foram a
produção de um espaço físico, que tem a cidade como centro; a produção de um espaço

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social, político, conjunto de instituições hierárquicas, leis, que é o próprio Estado.
O primeiro momento é analisado por Ratzel, ao teorizar a relação do Estado
com seu território, que conclui a Geografia Política como base de uma tecnologia espacial
de poder do Estado. A Geografia deveria ser um instrumento para os dirigentes que a
instrumentalizam. Para compreender a natureza de um império, é necessário passar pela
escola do espaço, isto é, como tomar o terreno e a concepção da situação geográfica
como um dispositivo militar. A busca de leis gerais sobre a relação Estado-espaço, busca
que reside na ligação estreita do Estado com o solo, considerado a única base material
da unidade do Estado, uma vez que a população pode ser diversificada.
A partir do desenvolvimento do capitalismo, que passa a se reproduzir nas
relações econômicas e sociais de produção, o valor estratégico do espaço não se resume
mais aos recursos e posições geográficas. São dois os elementos essenciais para a
relação Estado-espaço que se revelam a partir da produção do território nacional, o
Estado transforma sua condição histórica anterior e engendra relações produzindo seu
próprio espaço, complexo e regulador do território nacional.
A nova tecnologia espacial do poder estatal. O espaço produzido e gerido pelo
Estado é racional e social, no sentido de que é o conjunto de ligações e comunicações. É
também um espaço político, com características próprias e metas específicas. Tende a
controlar os fluxos e estoques econômicos, e impõe uma ordem espacial global,
contraditória à prática local, criando um espaço global fragmentado.

DA ESTRATÉGIA À LOGÍSTICA
A partir da IIGM, a ciência e a tecnologia constituem o fulcro do poder
valorizando as diferenças espaciais, vale dizer, o político, à cultura e o território.
Para Becker, a essência do vetor tecnológico é a velocidade, inovação
contínua, que se torna o elemento chave da transformação, capaz de alterar não só o
setor produtivo, como as relações sociais e de poder.
A inovação tecnológica representada pelas redes transnacionais de circulação
e comunicação permite a um só tempo a globalização como a diferenciação espacial. No
que tange à lógica instrumental de acumulação, criam-se condições para a
internacionalização da economia num mercado unificado, que tende a superarem
fronteiras, mas resgata a diferenciação do espaço.
A valorização da dimensão política do espaço também se relaciona à
redefinição da natureza e suas relações. Na medida que a crise ambiental estabelece
limites à exploração predatória de recursos naturais, o novo modelo industrial atribuiu
outro significado à natureza. Por um lado, tenta-se utilizar menos matérias primas e
energia, e por outro, as novas tecnologias valorizam os elementos da natureza num
outro patamar, como fonte de informação.
A reorganização do espaço não é apenas a expressão de processos
econômicos e tecnológicos que, na verdade, são resultado de decisões políticas e
estratégias organizacionais. As tendências de reestruturação tecnoeconômicas, do
espaço, de fluxos, devem ser confrontados com projetos vindos da sociedade.

LOGÍSTICA: INCLUSÃO E EXCLUSÃO


Questão crucial da Geopolítica é saber se existe nova racionalidade que
estabelece nexos sob a ordem global. Tem-se como hipótese que a logística é a nova
racionalidade capaz de explicar a simultaneidade da globalização e da questão
ambiental. Na base do poder: a inovação permanente aciona a economia e a guerra.
Afirma que a velocidade é a essência da tecnologia, e que a logística é a nova
fase da inteligência militar, superando a estratégia que a ela se torna subordinada.

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Logística entendida como preparação contínua dos meios para guerra ou competição. O
que conta é a seleção de vetores para o movimento perene. Ela avança sobre o setor
produtivo, viabilizado por técnicas e informação. O setor público, dada sua estrutura tem
mais dificuldade em operar a logística. Dependendo do nível de observação, identificam-
se sistemas logísticos sobre a reorganização conflitiva do território. Ou seja, empresas
terceirizam um espaço numa cidade, que se fragmenta do restante, de forma exclusiva.

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Emergindo como proposta de cooperação internacional com base em nova
relação sociedade-natureza, o desenvolvimento sustentável, tal como exposto no
relatório Bruntland, é uma feição da geopolítica atual. Trata-se de uma tentativa de
ajustar o sistema capitalista por meio de conciliação das tendências da lógica da
acumulação com as da lógica cultural e ambientalistas.
No contexto da revolução tecnológica, configura-se a questão com conflitos de
valores de existência como estoque de vida e condição de bem-estar. Simultaneamente,
alteram a noção de valor até então associada a bens obtidos através do trabalho e da
natureza que passa a ser visto como capital de realização futura.
Criou-se a ideologia ecológica, na medida em que todos os Estados tem
hoje problemas, a competição se acirra e a ecologia é também utilizada pelos interesses
dominantes atribuindo-lhe um papel na geopolítica mundial.
Assume-se que o desenvolvimento sustentável não se resume à harmonização
da relação economia ecologia, nem a uma questão técnica. Ele representa um
mecanismo de regulação do uso do território que, à semelhança de outros, tenta ordenar
a desordem global. E, como tal, é instrumento político. Enquanto a reconversão
produtiva se implementa na prática e na teoria econômicas para atender as exigências
do final do milênio, o desenvolvimento sustentável constitui a face da nova racionalidade
logística, a versão contemporânea dos modelos de ordenamento do território.
A noção de sustentabilidade é uma expressão da nova racionalidade, integra o
aproveitamento máximo dos recursos e o movimento perene, e é mais explícita ao nível
da firma, na qualidade do produto, e não apenas por ele mesmo, mas a sua reutilização
futura. Tem três princípios básicos:
a) Eficácia – no uso de recursos através da informação e novas tecnologias capazes
de consumir menos matéria-prima, energia, menor tempo e reutilização;
b) Diferença – professa a necessária inovação contínua pela diversidade de mercados
e recursos, gerando a valorização máxima e seletiva das potencialidades; e
c) Descentralização – parceria entre todos os atores do desenvolvimento.
A gestão é uma prática que visa superar a crise do planejamento centralizado
associada à crise do Estado. Ela expressa um fato novo: a incorporação do princípio das
relações de poder. Define-se a gestão do território como a prática estratégica do poder
que dirige, e expressa a nova racionalidade.

REDEFINIÇÃO DA ESTRUTURA DE PODER GLOBAL


O contexto de instabilidade e valorização da dimensão política do espaço e do
território afeta o cerne dos pressupostos geopolíticos. A globalização retira do Estado
controle sobre o conjunto do processo produtivo e afeta a soberania, questionados pelo
poder econômico e financeiro, quanto em sua face interna pela tendência em produzir
enclaves articulados com o espaço transnacional.
Entretanto, o modelo de acumulação não é o resultado do livre jogo das
forças de mercado e não está predeterminado pelo avanço tecnológico, mas por um

87
processo social e político, enquanto o Estado garante o direito de propriedade e realiza a
gestão da moeda e do mercado de trabalho. E por último, o sistema de Estados assegura
a distinção necessária entre Estados para a troca desigual. Trata-se, portanto, não do fim
do Estado, mas de mudança em sua natureza. A nova forma de produção e as demandas
por autonomia requerem organização social e política flexível que favoreça a competição.
A globalização tem seu preço. Além de conter a maior parcela da dívida do
sistema financeiro internacional, a semiperiferia contribui para acentuar a instabilidade
da ordem planetária, gerando condições de periferia, no centro, representados por
bolsões de pobreza, imigrantes não absorvidos, afetando a direção e a natureza da
transformação capitalista na historia.
QUESTÕES FINAIS
O Estado não é a unidade única representativa do poder nem o território
nacional a única escala de poder. O poder tecnoeconômico é efetivo. A reduzida
autonomia dos Estados exige uma geopolítica de negociação e arranjos políticos, e entre
os Estado e destes com a sociedade civil organizada. Atribuindo valor estratégico aos
territórios, segundo seu conteúdo científico-tecnológico e informacional, em que pese o
domínio e a posição das redes em termos da capacidade de organizar e de negociar.
O mesmo não acontece em relação aos movimentos sociais, em que somente
os ambientalistas obtiveram êxito, confirmando posições que os afirmavam como
efêmeros, com a exclusão de grandes massas populacionais.
O retrocesso das economias nacionais, substituídas por federações de
Estados, significa que o nacionalismo deixa de ser programa político global como vetor de
desenvolvimento, como no séc. XIX, e como vetor de emancipação no séc. XX. O Estado-
nação permanece no mundo contemporâneo, mas em papéis menores e subordinados.
A teoria do Choque de Civilizações afirma a importância da cultura na
reorganização do cenário internacional, vez que após a queda do Muro de Berlim os
conflitos internacionais não seriam mais de natureza militar, ideológica ou econômica,
mas de grupamentos unidos pela “civilização”. Não se trata de movimentos sociais, mas
de conflitos relacionados à cultura, valores e auto-identificação, gerando clivagem
civilizacional que substitui o nacionalismo. A política internacional deixa de ser ocidental
para tornar-se política entre ocidentais e não ocidentais. Apesar das criticas, é lícito o
reconhecimento da lógica cultural como um poder de resistência à lógica instrumental.
Apesar da concepção idealista do Relatório Bruntland, a questão de exclusão é
uma feição perversa gerada pelo poder tecno-econômico, que afeta dos os países, mas
de forma diferente, vez que são excluídos do sistema logístico países inteiros, como na
África, e massas populacionais nos países centrais e semi-periféricos, atingidos por
desemprego estrutural, imputando aos Estados os custos do sistema presente.

GLOBALIZAÇÃO
Milton Santos, na obra Por uma outra globalização, apresenta-a como fábula,
o mundo como nos fazem vê-lo. O mercado, avassalador, é apresentado como capaz de
homogeneizar o planeta, quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. Há
busca de uniformidade, de culto ao consumo, mas o mundo se torna cada vez mais
desunido. Apresenta-a como perversa, desemprego e baixos salários.
Defende a necessidade de uma outra globalização, o mundo como ele pode
ser. Globalização mais humana, por meio da unicidade da técnica, da convergência dos
momentos e do conhecimento do planeta. Tudo isso é possível se essas bases técnicas
forem postas a serviço do social e do político. Os indicativos da possibilidade de mudança

88
são a mistura de povos, raças; de gostos, em todos os continentes; mistura de filosofia;
e populações aglomeradas em áreas cada vez menores (sociodiversidade).
Aponta a Globalização como o ápice da internacionalização do mundo
capitalista, a existência de novo sistema de técnicas e resultado de ações que asseguram
a emergência do mercado global (responsável pelo processo político). O mercado global,
em conjunto com o sistema de técnicas, é o responsável pela globalização perversa.
Em nossa época, o que é representativo do sistema de técnicas é a
informação (meio científico-técnico-informacional). Enquanto novas técnicas são
utilizadas pelos atores hegemônicos, os não-hegemônicos continuam defasados.
A Convergência de momento (informações e técnicas) não é generalizada
porque é intermediada pelas grandes empresas da informação. O período atual do
capitalismo distingue-se dos demais porque ele é um período (as variáveis instalam-se
em toda a parte e a tudo influenciam) ao mesmo tempo é uma crise (no sentido de que
as variáveis construtoras do sistema estão continuamente se chocando, exigindo novas
definições e novos arranjos). Assim, a crise é estrutural. A soluções para ela parte
diretamente dos atores hegemônicos, tendendo a participar de sua própria natureza e de
sua própria característica, utilizando-a em seu benefício.
Reconhece uma violência no uso da informação, pois em função dos objetivos
particulares dos atores hegemônicos, o que é transmitido, em grande parte, é
manipulado. Por isso, a informação é ideologizada.
Elabora definições de pobreza:
− Incluída, que é acidental, residual ou sazonal, produzida em certos momentos do
ano. A elabora a partir do conceito de que ocorreria em um mundo não dominado
pelo consumo, e, portanto, os pobres não eram excluídos da sociedade.
− Marginal, produzida pelo processo econômico da divisão do trabalho,
internacional ou interna. Sua correção se dava por meio da ação governamental.
Nesse período da marginalidade o consumo tem importância. O pobre é
classificado segundo a sua capacidade de consumir.
− Estrutural, que decorre da dívida social. Não é local, mas globalizada. É resultado
da convergência de causas em diversos níveis. Os pobres são excluídos dos meios
produtivos, o que os impede de melhorarem a sua condição de vida.
A contrário dos ditames atuais, o Estado se fortalece com a globalização, pois
é ele que regula, por meio de suas normas e de suas instituições, o mercado financeiro e
a infra-estruturas para o aporte de recursos produtivos.
Identifica a funcionalidade da globalização, onde todo e qualquer território se
torna funcional às necessidades e usos dos Estados e das empresas. A competitividade
da globalização se dá por meio das empresas, que buscam maior fluidez em seus
contínuos processos de expansão. É da luta entre as empresas que os Estados se
associam ao círculo da competitividade (por meio da produção de condições favoráveis
àquelas dotadas de maior poder). Cada empresa, porém, utiliza o território em função
dos seus fins próprios, e exclusivamente em função desses fins.
Nas áreas onde a agricultura científica se instala, há uma demanda de bens e
de assistência técnica. Os produtos são escolhidos segundo os ditames do mercado de
consumo e da racionalização. Esse processo leva ao desemprego, gerando urbanização
ou abertura de novas áreas pioneiras.
A urbanização leva a um ambiente social onde se concentra em um só espaço
o conhecimento humano, possibilitando o desenvolvimento de uma maior capacidade de
agregar a informação ao uso científico e técnico. A urbanização crescente eleva a

89
qualidade do conhecimento. Para Milton Santos, na nova fase que está por vir do
capitalismo, as idéias e práticas políticas que fundamentarão o processo socioeconômico
não estaria centrado no dinheiro, mas sim no próprio homem.
O crescimento abrupto da classe média a partir do chamado milagre
econômico brasileiro, na década de 1970, decorre de um fenômeno com relação
estrutural com o aumento da produção industrial e agrícola, do comércio, do transporte e
da necessidade de informação. Foi a grande beneficiária do crescimento econômico, do
modelo político e dos projetos urbanísticos adotados no Brasil. Mas, o milagre econômico
também ensejou na informalidade, já que muitos não conseguiram se incluir no
crescimento urbano brasileiro. Com a globalização e o fim de certos privilégios fornecidos
pelo Estado (o fim do bem estar social), a classe média começa a perceber os problemas
decorrentes da escassez, cabendo à ela fomentar um novo modelo de gerenciamento.
As técnicas de informação fazem o elo entre as demais técnicas utilizadas pelo
homem (e essa é a diferença entre o atual período e os períodos anteriores do mundo).
Estado das técnicas se interliga com o estado da política. A história fornece o quadro
material e a política molda as condições que permitem a ação. Conseqüências da
evolução da globalização são a emergência das massas (período demográfico ou popular)
e nova significação da cultura popular, que procura rivalizar com a cultura de massas
(fruto da globalização com ensejo no econômico e no dinheiro)
Defende que as mudanças na maneira como se conduz a globalização surgirá
entre os países subdesenvolvidos (ao contrário das outras mudanças precedentes), já
que eles é que são os prejudicados pelo sistema baseado no dinheiro e na economia.

A AMÉRICA LATINA: HERANÇA COLONIAL, CONDIÇÃO


PERIFÉRICA E INDUSTRIALIZAÇÃO TARDIA.
Argentina, México, Chile e Brasil viveram acentuado processo de
industrialização, enquanto os demais permaneceram com economias primárias.
Na Argentina, as condições iniciais para a industrialização foram
estabelecidas pelo complexo rural exportador: capitais britânicos, imigrantes, ferrovias e
o porto de Buenos Aires. A I G.M. e a depressão de 1930 provocaram o surto em inicial
de substituição de importações, com ingresso de capitais norte-americanos. A moderna
Argentina industrial nasceu após a IIGM. A "década de Perón" foi marcada pelo
crescimento industrial do país (setor alimentício e exportador e de bens de consumo não
duráveis). Transformou-se em um país urbano e industrial, mas o lastro de sua economia
continua a repousar no complexo rural (processamento de alimentos). O comércio
exterior do país, direcionado principalmente para a Europa Ocidental e América latina,
exibe forte predominância dos produtos de origem primária.
No México, a modernização industrial baseou-se investimentos estatais e
transnacionais e em uma vasta oferta de recursos minerais. A PEMEX estabeleceu o
monopólio estatal da exploração das reservas de petróleo da região do Golfo do México.
Dispondo do vasto mercado consumidor norte-americano, o México optou por não
ingressar na Opep. Até hoje, a mineração (prata, zinco, chumbo e cobre) e a indústria de
transformação mineral representam parcela significativa das exportações nacionais. O
baixo custo da força de trabalho e a presença de uma base industrial erguida pelo Estado
contribuíram para o fluxo de investimentos externos.
No Chile, a economia mineradora transformou-se no centro da vida nacional
após a independência. O Chile conheceu uma urbanização rápida e precoce, fortemente
polarizada pela capital, Santiago. No pós-guerra, empresas transnacionais,
principalmente norte-americanas, multiplicaram seus investimentos tanto na mineração

90
como no parque industrial. Durante Allende, 1970, as minas norte-americanas de cobre,
o sistema bancário e muitas industriais foram nacionalizados. O programa de reforma
agrária foi acelerado e aprofundado. Em 1973, Augusto Pinochet pôs em prática amplo
programa de privatizações e de abertura da economia para o capital estrangeiro, que
prosseguiria com a democratização (1989). Atualmente, a forte integração com o
mercado mundial é a principal característica da economia chilena. O cobre responde por
cerca de 40% do total de vendas, sendo o maior exportador de cobre do mundo.
A industrialização da Venezuela assenta-se na base econômica propiciada
pela extração, comercialização e exportação do petróleo.
Os demais países que ficaram alijados da decolagem industrial seguem
dependendo de exportações de produtos agrícolas e minerais.

A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA E LATINO-AMERICANA


a) a teoria da Cepal, que popularizou a expressão "a industrialização por
substituição de importação", dominou o ambiente cultural de 1955 a 1964;
b) a teoria da dependência, que teve grande aceitação no período seguinte ao
golpe militar, enfatizou a subordinação da industrialização aos interesses do
centro do sistema capitalista;
c) a teoria dos ciclos econômicos, com grande aceitação recente, reconhece o
enorme dinamismo do processo de acumulação capitalista brasileiro.
GEOGRAFIA DO COMÉRCIO EXTERIOR
Representa uma das principais pontes entre o Brasil e o mundo e envolve
infra-estruturas que viabilizam o transporte de mercadorias de exportação e importação.
Essa infra-estrutura é fundamental ao centralizar as mercadorias produzidas na sua
interlândia para exportação ou iniciar o processo de distribuição das importações. Portos
e aeroportos concentram conjunto de atividades econômicas com despachantes
aduaneiros, cias de navegação, saídas rodoviárias e ferroviárias. São atividades que
dinamizam a vida econômica dos núcleos urbanos.
O Brasil pode ser considerado país marítimo, pela vastidão da costa, atividade
pesqueira, extrair 80% de seu petróleo e gás do mar, e que se comércio exterior ser
realizado basicamente pelo mar.
Deve-se destacar a navegação de cabotagem, realizada entre portos
brasileiros, com restrições a participação estrangeira e a qual se inclui os barcos de apoio
que tem o menor preço de combustível fornecido.
Os principais pontos de saída de exportações/importações estão concentrados
no Sudeste, o que reflete o predomínio dos centros industriais e urbanos dessa região
como fontes de mercadorias e de consumo.
No Sudeste, Santos e Rio de Janeiro são portos emissores e receptores,
principalmente de manufaturas. O primeiro, abrange os estados de São Paulo, Goiás,
Mato Grosso do Sul e do sul de Minas, com agropecuária e manufaturas. O sistema
Vitória/Tubarão funciona como porto exportador de minérios e produtos siderúrgicos. São
Sebastião e Angra dos Reis atuam como terminais importadores de carvão e petróleo.
No Sul, Rio Grande e Paranaguá destacam-se. O primeiro, em águas
profundas, com vantagens comparativas em relação a Buenos Aires, trabalha com couro,
agropecuária e calcados. O segundo, atua como importante exportador de produtos
agrícolas e agroindustriais. Desde 65, funciona como porto livre para o comércio exterior
paraguaio, através da Rodovia BR-277. Devem se beneficiar do aprofundamento do
Mercosul. Destacam-se ainda, os portos de Salvador, Belém, Manaus e São Luis. O

91
ultimo, atuando com Carajás, especializou-se com alumínio extraído no Maranhão.

Principais portos do mundo, em movimentação são: Cingapura, Roterdã,


Shangai, Chiba, Ulsan, Nagoya, Hong-Kong, Kwangiu, Anvers, Long Beach, Hamburgo.

PRINCIPAIS AEROPORTOS E CONEXÕES

Principais cidades de movimentação aeroportuária são: Londres (5


aeroportos), Nova Iorque (2), Chicago (2), Tokyo (2), Atlanta (1), Los Angeles (2), Paris
(2), Dallas (2), Frankfurt (1) e Houston(3).
Há perspectivas de mudanças nos quadros aeroportuários, pelo crescimento
da procura por aviões de grande capacidade de passageiros e cargas. A estrutura atual
de muitos aeroportos poderá não comportaria essa mudança estrutural. Segundo estudo
da Airbus, os principais aeroportos, notavelmente de grandes aeronaves em 2035

92
seriam:

ESTRUTURAÇÃO E OS OBJETIVOS DO MERCOSUL


O MERCOSUL nasceu da aproximação brasileiro-Argentina. Condição prévia
foi a redemocratização política. O passo inicial foi o Programa de Integração e
Cooperação Econômica Brasil-Argentina (PICE), em julho de 1986. Em 1991, o Tratado
de Assunção definiu os contornos do Mercosul. O núcleo geoeconômico do Mercosul é a
região platina, vertebrada pelos rios Paraná, Paraguai e Uruguai.
A estruturação do território da Argentina realizou-se sobre a hegemonia do
porto de Buenos Aires. O pampa concentra a maior parte da riqueza da população do
país. Lá se encontra o cinturão industrial do país (Buenos Aires, Córdoba, rosário).
Apesar de a economia do Uruguai fundamentar-se nas atividades primárias, a
taxa de urbanização é elevada, atingindo 85%. A estrutura fundiária é baseada no
domínio da grande propriedade com pecuária extensiva e culturas mecanizadas.
Montevidéu desenvolveu forte centro financeiro que passou a receber investimentos
especulativos provenientes da Argentina e do Brasil.
Na fronteira oriental do Paraguai estendem-se grandes regiões
agropecuárias. Junto ao Brasil, aparecem áreas de agricultura comercial, em grande
parte controladas por empresários rurais brasileiros.
A Amazônia brasileira e a Patagônia Argentina são frentes de expansão
do povoamento da área do Mercosul. São vastos espaços de baixas densidades
demográficas e elevada potencialidade econômica.
No transporte fluvial, a hidrovia do Mercosul é o projeto de maior
envergadura. A entrada em operação da hidrovia do Tietê-Paraná, viabilizada pelas
reclusas de Jupiá e Três Irmãos, interligou o Centro-Sul do Brasil aos mercados de
Argentina, Paraguai e Uruguai. O único obstáculo de porte é o desnível de Itaipu.
No campo dos transportes terrestres, um projeto de forte impacto é o da
auto-estrada São Paulo-Buenos Aires. O traçado dessa estrada é objeto de debate. O
traçado litorâneo, proposto pelas lideranças industriais, favoreceria o complexo industrial
nas capitais dos estados da região sul do Brasil. O projeto ser complementado com a

93
construção de uma ponte sobre o Rio da Prata, unindo Buenos Aires a Colônia. Os
empresários e políticos do interior dos Estados do Sul propõem a interiorização da
estrada, de forma a beneficiar os produtores rurais dos três estados.
Além da auto-estrada, planeja-se uma ligação rodoviária entre o porto de Rio
Grande e o porto de Antofagasta, no norte do Chile. Uma ligação ferroviária entre o porto
de Santos e esse mesmo porto chileno também está em projeto.

CIÊNCIA E TECNOLOGIA NO MERCOSUL


Em 1992 foi criada a Reunião Especializada de Ciência e Tecnologia (REC&T),
tendo como objetivo a integração das instituições regionais de pesquisa e a formulação
de linhas básicas para política científica e tecnológica do MERCOSUL. A REC&T reporta-se
diretamente ao GMC, e tem como temas a harmonização de redes de computação, infra-
estrutura de laboratórios, programas de formação e treinamento, exame das atividades
de cooperação bilateral em curso no Mercosul e cooperação com terceiros países. Os
conceitos básicos que os fundamentam as atividades constam do Tratado de Assunção,
explicita e implicitamente: "...esse objetivo deve ser alcançado mediante o
aproveitamento eficaz dos recursos disponíveis, a preservação do meio-ambiente, o
melhoramento das interconexões físicas, a coordenação de políticas macroeconômicas,
da complementação dos diferentes setores da economia, com base no princípio de
gradualidade, flexibilidade e equilíbrio...”, “...necessidade de promover o
desenvolvimento científico e tecnológico dos Estados e de modernizar suas economias,
para ampliar a oferta e a qualidade dos bens e serviços disponíveis, a fim de melhorar as
condições de vida de seus habitantes."
Política Tecnológica - Subgrupo trata da demanda tecnológica do setor
produtivo, em estreita articulação com a RECT. O incremento do nível de
desenvolvimento tecnológico das indústrias da região é condição fundamental para a
consecução dos objetivos expressos no Tratado de Assunção.
Política de Qualidade e Produtividade - A melhoria da qualidade de bens e
serviços é fundamental na busca da competitividade. A experiência brasileira tem
norteado suas ações, intimamente relacionadas com normatização técnica.

A NOVA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO


A Globalização tem como pressuposto nova divisão internacional do trabalho.
Já não bastava um mundo dividido em países produtores de bens industrializados e
produtores de matérias primas, quer agrícola, quer minerais. A mundialização da
economia pressupõe a descentralização e a difusão da atividade industrial.
Assim a indústria multinacional implanta-se em todos os mercados nacionais,
através de fusões ou filiais e cria bases para a produção industrial adaptada às
necessidades desses mercados nacionais. Esse processo de expansão sobrepôs a divisão
vertical à antiga divisão horizontal do trabalho. Agora, combina-se a antiga divisão por
setores (primário, secundário) em níveis de qualificação dentro de cada ramo industrial.
Para Lipietz há a formação de três tipos de áreas de concentração da força de
trabalho, caracterizados pela presença de engenharia e tecnologias avançadas; ou pela
presença de atividades produtivas padronizadas, com a produção qualificada; ou ainda
pela presença de atividades de execução e montagem desqualificadas. Dessa forma, a
divisão internacional do trabalho distinguiria três níveis de países: os altamente
industrializados; os de industrialização parcial e tardia e os que adotaram a chamada
economia de enclave, ou zonas francas.

94
A COOPERAÇÃO TÉCNICA INTERNACIONAL
A cooperação técnica internacional constitui importante instrumento de
promoção das relações externas do Brasil e de apoio ao desenvolvimento. Por meio dos
programas e projetos de cooperação técnica, países parceiros e organismos
internacionais transferem para o Brasil, em caráter não comercial, experiências e
conhecimentos técnicos. Da mesma forma, o Brasil transfere para outros países, com os
quais mantém Acordos, conhecimentos técnicos e suas experiências em diversas áreas.
A transferência e a absorção de conhecimentos técnicos específicos
constituem aspectos fundamentais da cooperação. O repasse desses conhecimentos pode
se dar por meio de trabalhos conjuntos de duas ou mais instituições, no caso da
cooperação bilateral, ou por meio de organismo internacional e uma ou mais instituições
nacionais, no caso da multilateral.
Os projetos são instrumentos de operacionalização da cooperação técnica.
São constituídos de conjunto complexo de atividades executadas visando alcançar
objetivos específicos, previamente definidos. A ABC fornece as instruções necessárias
para a formulação de projeto de cooperação técnica.
Em alguns casos, a cooperação é operacionalizada por meio de atividades.
Nestes casos, não existem projetos vez que se constituem de ações simples. Não
obstante a simplicidade, esclarecem o escopo do apoio pretendido. Podem ser
mencionados como exemplos: treinamentos e visitas técnicas.
Tendo em vista a disseminação dos conhecimentos técnicos, a instituição
executora nacional é geralmente entidade técnica, sem fins lucrativos, voltada para o
desenvolvimento de atividades de pesquisa, de ensino e/ou de apoio ao setor produtivo.
Os esforços da cooperação são desenvolvidos na expectativa de promover
salto qualitativo e duradouro nas instituições participantes, bem como impactos positivos
e relevantes nos segmentos beneficiários. Eles utilizam os seguintes mecanismos para
atingir seus objetivos: apoio de especialistas para consultorias; treinamento de pessoal;
complementação de infra-estrutura necessária para realizar os trabalhos previstos. Entre
as diretrizes de Governo podem ser destacadas:
• concentrar esforços em programas e projetos vinculados às prioridades nacionais
e dos países parceiros, enfatizando aqueles de maior impacto a nível nacional;
• priorizar os projetos que possibilitem a criação de efeitos multiplicadores e que
promovam mudanças duradouras;
• dar preferência a projetos que provoquem o adensamento das relações políticas,
econômicas e comerciais, inspirados nos conceitos de multilateralidade,
universalidade e neutralidade, no caso de organismos internacionais.

95
EXTRATOS JORNALÍSTICOS DE RELEVÂNCIA

AMAZÔNIA AZUL
A Amazônia terrestre possui 3,2 milhões de km2, a Azul (marítima) 3,5
milhões, podendo passar a 4,5 milhões, equivalentes a metade do território terrestre
brasileiro. A possibilidade é aberta pela Convenção da ONU sobre o Direito do Mar que
permite, nos casos em que a plataforma continental se prolonga além dessa distância, à
extensão de até 350 milhas. Pedido com base nos 10 anos de estudo do Plano de
Levantamento da Plataforma Continental Brasileira. A proposta foi enviada a ONU em
2004 e aguarda uma recomendação final para abril de 2006. Caso o pleito seja acatado,
o Brasil acrescentará 900mil km2 ao território, definindo a leste a fronteira do País.
O Brasil marítimo está dividido em 3 categorias: Até 12 milhas é mar
territorial, dentro do qual o país tem soberania absoluta sobre os recursos e trânsito de
embarcação, é uma extensão da costa, como se fosse terra; De 12 até 200 milhas é
Zona Econômica Exclusiva, o trânsito de embarcações é livre, mas o Brasil é dono de
todos os recursos vivos e não vivos da água, do solo e subsolo; e até 350 milhas, o país
terá direito sobre tudo o que está no solo, subsolo e sobre as espécies marinhas.
A zona pretendida a norte, entende-se da ZEE do Amapá até a ZEE do Atol
das Rocas e Fernando de Noronha, que forma um oito inclinado à nordeste até o
arquipélago de São Pedro e São Paulo.
A zona pretendida a sul inicia no litoral do Rio Grande do Sul ate fazer uma
ponte de ligação com a ZEE continental e a ZEE das Ilhas de Trindade e Martin Vaz que
se localiza ao leste do Espírito Santo.
É trabalho difícil, tanto na superfície quanto nas diferentes profundidades. Há
preocupação com biopirataria, pois organismos marinhos, assim como os da floresta, são
repositórios de moléculas de interesse farmacológico e cosmético. Há grande quantidade
de esponjas, peixes como batata, namorado e cherne. Além de petróleo e gás, estudos
indicam possibilidades de jazidas minerais a serem exploradas com novas tecnologias.

FUNDO MUNDIAL PELA AMAZÔNIA


No final de novembro ocorreu a 11ª Conferência das partes da Convenção da
ONU sobre mudanças no Clima e negociar as responsabilidades e obrigações de cada pais
quanto ao futuro climático. A delegação brasileira levará proposta de valorização das
florestas no combate ao aquecimento, com suporte financeiro internacional.
Simultaneamente ocorre a Reunião do Protocolo de Kyoto (sem os EUA, não signatário).
O Brasil tem sofrido pressões para ampliar as metas de emissão de gases
estufa. A resposta tem sido que a colocação de metas seria uma limitação injusta ao
crescimento socioeconômico do país. Diante das estatísticas de que 75% das emissões
nacionais de carbono provêm do desmatamento, a lógica está em xeque.
A proposta brasileira é pela criação de fundo internacional, que reuniria
recursos para reforçar os programas de combate ao desmatamento. A proposta explora
premissas do acordo climático, que é o apoio financeiro e tecnológico a programas de
redução de emissões nos países em desenvolvimento. O que mais interessa ao Brasil é a
inclusão das florestas na pauta de discussões da Convenção sobre o Clima (Ausente em
Kyoto), centrada em combustíveis fósseis. A convenção fala apenas sobre a importância
da manutenção dos chamados “sumidouros” de carbono. Admite-se, internamente, a
negociação de metas nacionais de redução de desmatamento, sem significar assumir
novos compromissos quanto ao protocolo de Kyoto.

96
As metas de Kyoto, para 2012, são de que os países desenvolvidos tenham
reduzido as emissões 5,2% abaixo do que emitiam em 1990. Na segunda fase, caso os
desenvolvidos às cumpram, seria a integração dos países em desenvolvimento, cujas
metas teriam de ser negociadas. Os compromissos atuais são baseados no princípio da
responsabilidade comum, porém diferenciada. O país vem contribuindo por meios dos
MDL, incentivo ao uso de combustíveis renováveis, como álcool e biodiesel e programas
de combate ao desmatamento. A diplomacia brasileira espera estímulo e apoio financeiro
e transferência de tecnologia dos desenvolvidos para os em desenvolvimento.

CONSTRUÇÃO DE REDE LIGANDO SETE PAÍSES


Finalizou em Caracas os detalhes de um acordo para a construção de uma
rede de gasodutos ligando Brasil, Venezuela, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e
Uruguai. A rede terá 10 mil quilômetros de extensão e custará US$ 20 bilhões.
A construção da malha de gasodutos deverá levar cinco anos, e, depois de
pronta, terá uma vida econômica de 25 anos. Com exceção do Uruguai, a maioria dos
países é ao mesmo tempo consumidora e produtora de gás. Assim, a rede criará uma
espécie de "condomínio", no qual os países produtores poderão colocar o seu gás no
mercado comum, incentivando a sua comercialização.
A construção do "grid", como é chamada a malha de dutos, deverá modificar
a composição da matriz energética brasileira. "O gás é a segunda fonte mais barata de
energia elétrica. E é fonte de energia limpa, já que praticamente todo o gás é queimado,
causando menos problemas ambientais do que outras opções." A fonte mais barata, a
hidrelétrica, requer investimentos de longa maturação e tem forte impacto ambiental.
O gás venezuelano terá peso desproporcional. O país dispõe de 150 trilhões
de pés cúbicos de reservas provadas e estima-se que elas possam chegar a 200 trilhões.
A Bolívia tem reservas provadas de 27 trilhões, podendo chegar a 35 trilhões. No Brasil,
as reservas provadas são de 8,5 trilhões e a meta é 11 trilhões de pés cúbicos.

USINAS NO PANTANAL
Projeto Estadual visando a criação de empregos em usinas de álcool e açúcar,
autoriza a construção de usinas de álcool no Mato Grosso do Sul, em uma faixa chamada
pré-pantaneira contra uma Lei estadual de 82 e resolução do CONAMA. Apesar de não
ser ainda Pantanal, a área inclui a Bacia do Rio Paraguai, que alimenta boa parte dos rios
pantaneiros, acima do Aqüífero Guarani. O projeto permite a construção de usinas com
estudo de impacto ambiental. Afirma-se que o projeto fere o artigo 225 da CF que afirma
que o Pantanal é patrimônio nacional e, com isso a competência é federal.
O risco é a contaminação com vinhoto, pois a topografia favoreceria a
contaminação dos rios que nascem na região e deságuam no Pantanal. O manuseio
inadequado pode contaminar com vinhoto, que consome muito oxigênio, a qual a Bacia
do Paraguai não é rica por fluir lentamente, podendo contaminar o aqüífero Guarani. E
em várias regiões os rios acompanham o fluxo de cheias e secas, os quais invertem o
sentido de acordo com o regime de chuvas.

INTEGRAÇÃO DA INFRA-ESTRUTURA SUL-AMERICANA


Em setembro de 2000, o então presidente do Brasil lançou, durante reunião
presidentes dos países da América do Sul, um programa de integração física denominado
IIRSA - Iniciativa de Integração da Infra-estrutura Regional Sul-americana. A iniciativa
definida como processo multi-setorial para desenvolver e integrar as áreas de transporte,
energia e telecomunicações entre os 12 países, com os objetivos:

97
1. Apoiar a integração de mercados para melhorar o comércio intra-regional,
aproveitando primeiramente as oportunidades de integração física mais evidentes;
2. Apoiar a consolidação de cadeias produtivas para alcançar a competitividade nos
grandes mercados mundiais;
3. Reduzir o custo sul-américa através da criação de uma plataforma logística
vertebrada e inserida na economia global.
As bases do IIRSA foram "12 Eixos de Integração", tendo como prioridades a
conexão entre bacia Amazônica e bacia do Prata. Estes eixos foram considerados como
faixas geográficas, abrangendo vários países que "concentram ou que possuem potencial
para desenvolver fluxos comerciais, visando formar cadeias produtivas". No desenho
atual são desenvolvidos 9 eixos, sendo que 4 tem pelo menos uma parte na Amazônia, e
a cada eixo são integrados outros projetos.

1. Andino; Venezuela-Colômbia-Equador-Peru-Bolívia.
2. Eixo Central do Amazonas; Colômbia-Equador-Peru-Brasil, Pavimentar
rodovias para permitir o acesso da soja do Brasil; Potencial de constituir-se
em corredor bioceânico e intermodal entre portos do Pacífico e o Amazonas;
3. De Capricórnio; Antofogasta/Chile-Jujuy/Argentina-Assunção/Paraguai-Porto

98
Alegre/Brasil; Infra-estrutura consolidada, apesar das barreiras naturais que
deverão ser suplantados para acelerar a integração; O elemento articulador
será o transporte intermodal; Interconexão com a Hidrovia Paraná-Paraguai;
4. Escudo Guayanés; Venezuela-Suriname-Guiana-Brasil; Desenvolvimento
desse eixo envolve a utilização dos recursos naturais (minério de ferro,
bauxita, ouro, recursos florestais), aproveitamento do potencial de
hidroeletricidade; A infra-estrutura de integração necessita ser desenvolvida e
o fluxo de comércio é pequeno; Espaços com nível de desenvolvimento
diferentes e sem articulação entre si;
5. Sul; Talcahuano-Concepción/Chile-Neuquén-BahíaBlanca/Argentina);
6. Hidrovia Paraguai–Paraná; corta metade da América do Sul. Com 3.442
quilômetros, vai desde Cáceres, no Mato Grosso, até Buenos Aires, na
Argentina. Todo o percurso é em corrente livre, sem barragens ou obstáculos
para navegação. Por atravessar a região do Pantanal, a hidrovia tem seu
desenvolvimento vinculado a um compromisso do governo brasileiro com a
conservação do meio-ambiente.
7. Inter - oceânico Central; Peru-Chile-Bolívia-Paraguai-Brasil; Articula os
pólos industriais de BH, Rio e São Paulo, com Mato Grosso do Sul, Mato
Grosso (Brasil), a região petroleira e de soja (Bolívia) e o Oceano Atlântico;
Investimentos para resolver os obstáculos e finalizar as rotas que vão permitir
a conexão interoceânica; Explorar as sinergias de desenvolvimento de infra-
estrutura para o transporte de gás natural;
8. Mercosul /Chile; Brasil-Uruguai-Argentina-Chile; Possui o maior intercâmbio
comercial da América do Sul; Infra-estrutura consolidada, mas necessita
melhorias quanto à capacidade das rodovias e conservação; Necessidade de
novas opções de transporte entre o Rio da Prata e a Cordilheira dos Andes;
Facilitação do transporte fluvial nos rios Paraguai e Uruguai; Investimento nas
conexões elétricas entre os países da região; Modernização dos passos de
fronteira para aumentar a competitividade das indústrias da região;
9. Peru / Brasil / Bolívia; Potencial de desenvolvimento da competitividade
dos produtos da região, possibilidade de constituir-se em uma zona de trânsito
das exportações brasileiras para o Oceano Pacífico; Desenvolvimento da infra-
estrutura deve responder às necessidades da demanda, ao potencial produtivo
e às considerações sócio-ambientais; Construção de três rotas alternativas
para articular Iñapari (Peru -Brasil) e os portos marítimos de San Juan e Ilo ;
A coordenação operacional está a cargo da Corporación Andina de Fomento
(CAF), do BID e do Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata
(Fonplata). A partir do governo Lula, o BNDES passou a ter papel de destaque na
viabilização da Iniciativa, mesmo não participando da estrutura coordenadora.
Em 2005, foi lançada a Autoridade Sul-Americana de Infra-estrutura,
coordenadora geral do IIRSA que cuidaria de promover, captar empréstimos e fazer
investimentos sem necessariamente estar sob as restrições orçamentárias dos países.

OBRA LIGARÁ O BRASIL AO PACÍFICO.


O Corredor Viário Interoceânico Sul, nome oficial da rodovia, já começou a ser
construído, em parceria dos governos de Peru e Brasil. A rodovia ligará Inapari, cidade
peruana situada na fronteira com Assis Brasil, no Acre, aos portos marítimos peruanos de

99
Ilo, Matarani e San Juan. A conexão entre Brasil e Peru será feita pela ponte sobre o rio
Acre, que deve ser inaugurada ainda este ano.
A logística de integração, pelo lado brasileiro, inclui duas rotas fundamentais.
A primeira delas é pela BR 364, que interliga Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, a
Cuiabá, no Mato Grosso. De lá a Porto Velho, em Rondônia e, depois a Rio Branco, capital
do Acre. Depois, pela BR 317, segue de Rio Branco a Assis Brasil, na fronteira com o
Peru. A outra rota vai de Manaus, no Amazonas, até Porto Velho pela hidrovia do Rio
Madeira e segue o trajeto da BR 364 até Rio Braço e BR 317 até Assis Brasil.
O empreendimento prevê a construção, operação e manutenção de 1.009
quilômetros de estradas asfaltadas e o custo estimado é de US$ 700 milhões.

CONVENÇÃO QUADRO SOBRE MUDANÇA DO CLIMA


As correntes oceânicas e marítimas que cruzam o planeta, acionadas pela
energia solar, moldam o ambiente. Para os trópicos, carregam chuvas e calor o ano
inteiro e para os pólos levam o inverno. O clima altera-se por terra e mar. As montanhas
espalharem vento e umidade, criando chuvas localizadas, enquanto correntes frias
refrescam as terras quentes. Por esta troca, o planeta e seu clima criam um ao outro.
Qualquer alteração neste ciclo pode ocasionar sérias conseqüências. Hoje, os
fenômenos que mais ameaçam a atmosfera são a destruição da camada de ozônio e o
efeito estufa. A camada de ozônio absorve a maior parte da radiação ultravioleta que
atinge a superfície da Terra. A eliminação do ozônio está ocorrendo, conforme
observações e estudos científicos, em grande parte pela presença do CFC, além de outras
substâncias sintéticas como o metilclorofórmio, halons e compostos de bromo.
Alguns indícios de alteração do clima são o aumento de temperatura,
crescimento de áreas desérticas, o alto índice de chuvas provoca enchentes, maior
freqüência de tempestades violentas.
A convenção “Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima” foi
assinada durante a ECO-92. O objetivo: “alcançar a estabilização das concentrações de
gases de efeito estufa na atmosfera num nível que impeça interferência perigosa no
clima. Esse nível deverá ser alcançado num prazo suficiente que permita aos
ecossistemas adaptarem-se à mudança do clima, e assegure que a produção de
alimentos não seja ameaçada e permita ao desenvolvimento econômico sustentável.”
A convenção reconhece que a maior parcela das emissões globais, históricas e
atuais de gases de efeito estufa é originária dos países desenvolvidos, devendo estes
estabelecerem medidas de redução de suas emissões. Reconhece também que, embora
as emissões per capita dos países em desenvolvimento ainda sejam relativamente
baixas, a parcela de emissões globais originárias desses países crescerá uma vez que
eles tendem a satisfazer suas necessidades sociais e de desenvolvimento.

PROGRAMA ANTÁRTICO BRASILEIRO


Iniciado em 1982. As temperaturas geralmente positivas no verão renderam
ao arquipélago o apelido de "cinturão de bananas". A ilha Rei George, local da estação
Ferraz, é local estratégico, onde se encontra a maioria das estações científicas e bases
militares do continente. É considerada uma das melhores estações de pesquisa da
península. Com 63 módulos, abriga 45 pessoas no verão e 1/3 disso no inverno. Seu
gerenciamento ambiental causa impacto quase nulo e já recebeu elogios do Greenpeace.
Os estudos climáticos são um dos pontos-chave da nova política de ciência e
tecnologia da Antártida, vez que o clima do planeta é gerado nos pólos. Mais ainda o da
América do Sul, região climática vinculada à Antártida. É o oceano Austral que influencia

100
as correntes da costa brasileira. O manto de gelo é o maior sorvedouro de calor da Terra
e define as temperaturas no Brasil. Há, ainda, questão controversa entre
meteorologistas: a origem das massas de ar frio que atingem o país. Não fosse a grande
extensão do Oceano Pacifico livre de gelo entre Antártida e América do Sul, que modifica
rapidamente a massa polar, teríamos um clima glacial também na América do Sul.
O tratado assinado em 1958, influenciado pelo sucesso do Ano Geofísico
Internacional de 1957 e pelo temor dos EUA de que a Guerra Fria chegasse à Antártida.
Doze países firmaram o documento, inclusive a URSS. Hoje, o clube tem 47 membros.
Pelo acordo, a Antártida é dedicada a usos pacíficos, especialmente à pesquisa científica.
Qualquer manobra militar ou teste de armamento fica proibida.
O sucesso do tratado se deve à engenhosidade de seu artigo 4º, que
suspende, sem anular, todas as reivindicações territoriais sobre o continente.
Quando o governo federal criou o Proantar, em 1982, a Antártida era vista
como potencial mina de ouro. Os membros do tratado apostavam em ganhar dinheiro
com a futura exploração das jazidas de petróleo, carvão, gás natural e outros minérios
da região. No início dos anos 80, quando uma convenção que regulamentaria a
exploração mineral começou a ser negociada, o número de adesões ao tratado pulou de
24 para 39. Até a Petrobras realizou levantamentos no continente.
Em 1991 era assinado o Protocolo sobre Proteção Ambiental ao Tratado
Antártico, ou Protocolo de Madri. Pelas regras do acordo, que vigora até 2048, atividades
humanas no continente devem buscar impacto ambiental zero. Plantas e animais não
podem ser levados ao continente, todo o lixo produzido deve ser recolhido e devolvido
aos países de origem, e a frágil flora antártica deve ser preservada.
Se por um lado o Protocolo de Madri anulou o interesse econômico na
Antártida, por outro ele estimulou mais ainda a pesquisa ambiental.

OS BIOCOMBUSTÍVEIS ENTRAM NO JOGO GLOBAL/OPINIÃO


Consolidou-se nova tendência, os biocombustíveis na matriz energética
global. A indústria do petróleo passou a incorporar etanol e biodiesel no seu portfólio. Até
2006, o setor de petróleo tratava como exóticos os produtos provenientes da agricultura.
Acredito que a combinação de altos preços do petróleo, com as evidências do
aquecimento global resultaram nesta modificação. Para nós, acostumados com o sucesso
do etanol (único combustível renovável, competitivo sem subsídios e que exige apenas
um barril de petróleo para economizar oito), a aceitação dos biocombustíveis parece
normal. Para o resto do mundo é revolução. Para a agricultura a grande modificação vai
se dar no mercado de grãos, pois a lógica da produção de alimentos se mistura com a
lógica do mercado de energia, afetando o equilíbrio de ambos.
Quando se lançou o Proálcool, nos anos setenta, os mercados de açúcar e de
álcool disputavam a mesma cana e logo nos demos conta que o preço de um dos
produtos poderia subir relativamente ao outro, produzindo abundância em um mercado e
escassez no outro. Foi o que aconteceu em 1989, quando a alta do preço do açúcar
resultou em desabastecimento de etanol; os consumidores reagiram deixando de
comprar carros a álcool e, na prática, o programa morreu.
A situação só foi resolvida de forma completa há pouco tempo, com a
inovação dos carros de motor flexível. Até então, as variáveis de ajuste consistiam na
variação do porcentual de mistura do anidro na gasolina, e alguma exportação de álcool,
instrumentos visivelmente insuficientes para ajustar o mercado. Longas discussões sobre
um estoque regulador nunca resultaram em algo aproveitável. No início deste ano a
reação do público à redução da disponibilidade de álcool na entressafra de cana foi

101
notável: rapidamente os motoristas aprenderam a mudar para a gasolina sempre que
houvesse diferencial de preços, o que levou ao ajuste dos mercados.
Além do equilíbrio álcool/açúcar, os primeiros anos do Proálcool foram
marcados pelo receio que a disputa por terras prejudicasse a produção de alimentos. Isto
só se dissipou com o pacote tecnológico que permitiu a incorporação ao processo
produtivo das terras, concomitante à contínua elevação da produtividade da cana.
Foram precisos quase 30 anos para que se encontrassem mecanismos de
convivência e equilíbrio na produção simultânea de alimentos e biocombustíveis. É por
desafio semelhante que passará a agricultura mundial. Entretanto, ao contrário do Brasil,
a maior parte dos biocombustíveis será produzida a partir de grãos, e é nestes mercados
que veremos a dificuldade de ajustar demanda de alimentos com a demanda de energia.
Um início deste processo já se tornou visível, quando uma quebra na safra de
trigo em vários países elevou seus preços e empurrou os fabricantes de rações a buscar
milho e soja. O mercado de milho nos EUA já vinha pressionado pela procura das novas
plantas de etanol, resultando em expectativas de baixos estoques e cotações em alta. A
demanda de soja para biodiesel se elevou, movimentando todo o complexo de grãos e
resultando em altas de nas cotações.
Quais deverão ser as principais conseqüências destas transformações?
A disputa por terras tende a aumentar, principalmente em regiões maduras, com
prováveis ganhos para o milho. Para o mundo como um todo, a pressão da demanda de
grãos implicará numa elevação do custo de produção de carnes, reforçada pela
incorporação de milhões de novos consumidores na Ásia. Exportações de milho e frango
nos Estados Unidos tendem a perder competitividade. No caso do milho, é altamente
provável uma queda das quantidades vendidas ao exterior em termos absolutos.
O Brasil será ganhador neste processo. As recentes altas de preços ocorreram
simultâneas ao plantio, revertendo o ânimo do agricultor. Muitos produtores venderam
futuro, aproveitando o bom momento; pela primeira vez lotes expressivos de milho
foram comercializados. Abrem-se possibilidades do país se tornar exportador regular de
milho, bem como soja, carnes e até de leite, sem detrimento da produção de cana e
biodiesel. Afinal, o país é dos poucos que tem condições de incorporar novas áreas ao
processo produtivo elevando simultaneamente a produção de alimentos e energia.
Finalmente, não é demais reafirmar que as atuais e renitentes deficiências na
área de logística e de defesa sanitária são cruciais. O agronegócio está começando a sair
de uma sucessão de anos difíceis e não pode continuar pagando estes custos.

O G-8 E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS


A reunião do G-8, em Gleneagles, foi preparada em ambiente de crescente
complexidade política. Este quadro exigiu, além de apreciação cuidadosa, ações que
façam do encontro oportunidade de afirmar valores e interesses convergentes.
Segurança, tensões no Oriente Médio, desenvolvimento da África e mudanças climáticas
foram aspectos priorizados. Os avanços e recuos sobre esses temas terão fortes
implicações, pois vão influir nas negociações sobre o regime pós-2012.
Com seus reflexos globais, as mudanças climáticas exigem três leituras
simultâneas, de tempos distintos e valores próprios. A leitura científica, de ciclo longo, a
leitura política, de ciclo médio, e a leitura empresarial, de ciclo relativamente curto. São
avaliações conflitantes, que apresentam janelas de complementaridade. É o caso do
Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, que oferece conciliação das visões mencionadas.
Este mecanismo permite uma opção de ganhos mútuos, na medida em que diminui os

102
custos da redução de emissões de gases de efeito estufa em países desenvolvidos e
estimula a sustentabilidade ambiental e social nos países em desenvolvimento.
A leitura científica é movida pela lógica do conhecimento e tem caráter
universalista em horizonte de longo prazo. Foi assim desde 1896, quando Svante
Arrenhuis fez os primeiros cálculos para sustentar sua hipótese de correlação entre as
emissões de CO2 e a temperatura do nosso planeta. Assim prossegue em nosso tempo,
com os resultados que indicam, por exemplo, mudanças significativas na distribuição dos
cardumes, em função do aquecimento da temperatura dos oceanos. Respaldando com
saber multidisciplinar a importância histórica de Kyoto, a leitura científica observa que,
mesmo atingidas as metas, terão elas impacto ainda insuficiente.
A leitura política, movida pela lógica do poder, dá prioridade a interesses
locais e regionais. É momento que fortalece "partidos verdes" e organizações dedicadas à
causa ambiental. Nos EUA, governadores e prefeitos têm respondido aos anseios dos
eleitores agindo em prol da redução de emissão de gases de efeito estufa. A negociação
política, assegurando a entrada em vigor do Esquema Europeu de Comércio de Emissões,
marca oportuna reconciliação da defesa da natureza com as leis do mercado.
A leitura empresarial é movida pela lógica dos resultados. Investidores
institucionais, no entanto, como fundos de pensão, privilegiam corporações voltadas para
políticas de sustentabilidade. Eis aí um dos motivos que levaram empresas a adotar
iniciativas voluntárias de redução das suas emissões de gases de efeito estufa, antes
mesmo da entrada de Kyoto. Outra motivação está no acesso a mercados que exigem
padrões de emissões ou a financiamentos por meio de agentes que aderiram ao
protocolo verde. Mercados e financiadores que, além do rigor econômico, impõem a
responsabilidade ambiental como parte do seu processo decisório.
As leituras estiveram presentes em 1997, quando foi aceito o princípio de
responsabilidade comum, porém diferenciada, em função da contribuição histórica de
cada país na acumulação de gases de efeito estufa na atmosfera. Desde então, o Brasil
tem empreendido ações nos setores sucroalcooleiro, siderúrgico e de saneamento. Foram
iniciativas que resultaram em avanços tecnológicos significativos para a redução de
emissões. Em algumas áreas já foram adotadas políticas públicas indutoras da inovação
para o desenvolvimento de tecnologias limpas e utilização de energias renováveis. É o
caso da bioenergia, que permitiu o lançamento dos automóveis de consumo híbrido.
Desde os anos 1990 o Brasil tem avançado na observação de suas condições
atmosféricas e na geração de dados sobre os seus ecossistemas. Estratégias têm sido
implementadas na educação ambiental, produção de energias alternativas, elaboração de
projetos para redução de emissões e gestão do lixo urbano. Infelizmente, esses esforços
não foram suficientes. Faltam avanços no conhecimento da realidade amazônica e no
combate ao desmatamento. Para os países que compartilham a responsabilidade pela
Bacia Amazônica, incluindo o Brasil, o principal desafio é compatibilizar a leitura
científica, política e empresarial para estratégia de desenvolvimento sustentável. Os
dirigentes mundiais, fiadores do cumprimento dos acordos e da verdade econômica,
respondem também pela garantia da paz, defesa da liberdade, consolidação democrática
e preservação da natureza como forma suprema de garantir o bem-estar das gerações
vindouras. A reunião foi oportunidade para as lideranças afirmarem sua missão.

O PROTOCOLO DE KYOTO
Em fevereiro de 2005, entrou em vigor o Protocolo de Kyoto. Anunciado como
divisor de águas na luta contra as mudanças climáticas. Sofreu o desgaste de sete anos

103
de debate, a ausência do maior poluidor do mundo(EUA) e sua quase derrocada, evitada
em 2004 pela ratificação de uma Rússia pressionada pela UE.
É o primeiro tratado global sobre ambiente que tem o poder legal de
estabelecer um limite diferenciado para a emissão de gases-estufa por países
industrializados. É um documento político com esqueleto científico, mas os cientistas
dizem que o efeito obtido pela redução total é insuficiente para estabilizar o clima.
O que Kyoto vai reduzir? Seis gases: dióxido de carbono, proveniente da
queima de combustíveis fósseis; metano, gerado na agricultura, pecuária e em aterros
sanitários; óxido nitroso, decorrente de veículos; e hidrofluorocarbonos,
perfluorocarbonos e hexafluoretos de enxofre, resultado de outros processos industriais.
Como surgiu? Em 1997, em Kyoto, foi negociado acréscimo à Convenção-
sobre Mudança do Clima para impedir a interferência da ação do homem. O protocolo só
entraria em vigor quando fosse ratificado por pelo menos 55 nações, incluindo os países
industrializados que respondiam por 55% das emissões de carbono em 1990. As
divergências criaram o princípio de responsabilidades iguais, porém diferenciadas. A
primeira diferença foi feita entre os países industrializados - que se beneficiaram por
mais tempo da Revolução Industrial. Os países industrializados formam o Anexo I e
possuem metas a serem cumpridas entre 2008 e 2012. As nações em desenvolvimento
participantes, como o Brasil, estão no Anexo II. Sua responsabilidade será discutida
durante o primeiro período e implementada a partir de 2013. Algumas nações
comunistas - "países em transição", escolheram outra data face seu colapso econômico.
Como funcionam as metas? As medições são geralmente feitas a partir de
1990. Cada país tem de informar anualmente ao secretariado da convenção quais são as
emissões e como caminha seu plano. Há anomalias, como meta única de 8%, em relação
aos níveis de 1990, para a União Européia, pois alguns países tinham economias mais
avançadas do que outros, mas não anula os objetivos de cada nação separadamente.
Quais são os instrumentos? Além das medidas domésticas, existem outras
formas. Envolve trabalhar com outros países para reduzir suas emissões. O raciocínio por
trás disso é que a atmosfera não se importa em que país essas reduções se originam.
Uma das ferramentas é a adoção de um método limpo de produzir eletricidade, como
energia solar. Outro método é o comércio de carbono, que beneficia países em
desenvolvimento e ex-comunistas.
Pode-se exigir cumprimento? Como tratado legal, há penalidades. Os
governos que não atingirem sua meta terão de prestar contas. Vistos como descuidados,
podem ser excluídos dos acordos comerciais ligados ao protocolo. Outra penalidade é
assumir uma meta multiplicada por 1,3 no segundo período.

KYOTO, O MUNDO E O BRASIL.


Há três reflexões a fazer, no momento em que entra em vigência o Protocolo
de Kyoto. A primeira, à própria iniciativa da comunidade internacional, da adoção de
controles e mecanismos de preservação ambiental.
A segunda reflexão a fazer concerne aos diferentes graus de responsabilidade
das nações do globo quanto ao volume de emissão de gases que tem produzido o "efeito
estufa". É evidente que as maiores emissões de gases poluentes na atmosfera ocorrem
em países que se industrializaram há mais tempo e com maior intensidade. O Brasil,
embora grande emissor de gases, tem contribuído há menos tempo para a formação do
"efeito estufa", vez que a maior parte da sua industrialização ocorreu depois de 1950, e
mesmo o grande desmatamento da Amazônia começou ainda mais recentemente, na

104
década de 1970. Pelo que foi acertado em Kyoto, só os países mais desenvolvidos
deverão reduzir suas emissões numa primeira etapa, entre 2008 e 2012. Está em aberto
a discussão internacional sobre o que deverá ocorrer a partir de 2013, visto que, de
acordo com estudos da ONU, entre os anos de 2015 e 2020 os países hoje em
desenvolvimento - como Brasil, China, Índia México, Nigéria deverão ultrapassar os
desenvolvidos, no tocante à emissão de gases de efeito estufa.
Também está em vigor, paralelamente ao Protocolo de Kyoto o MDL, pelas
quais países desenvolvidos que não tenham condições de reduzir suas emissões poderão
investir em projetos industriais de redução de emissão em países em desenvolvimento, o
que lhes conferiria "créditos de carbono" - ou aumento permitido de sua "cota poluidora".
Há no Brasil projetos pioneiros dentro desse mecanismo, como o destinado a transformar
gás em energia elétrica. Com investimentos do Banco Mundial e da Holanda, deve
resultar na redução de 14 milhões de toneladas de CO2 por 21 anos. E há a estimativa
de 30 outros projetos semelhantes a serem aprovados. Quer dizer, o MDL pode significar
um bom rol de oportunidades de investimentos, no País.
Apesar de não obrigar os países signatários "em desenvolvimento" a uma
redução de emissões na primeira fase (2008 a 2012), Kyoto trouxe outros
compromissos, dentro da Convenção. Assim, obrigamo-nos, por exemplo, a elaborar
nosso "inventário de emissões", a fazer planos de mitigação, proteger os estoques de
carbono e cooperar no desenvolvimento científico e tecnológico, nessa área.
Uma coisa é certa: estejamos ou não no compasso desejável - ou possível -
em relação aos compromissos assumidos pelas nações em Kyoto, inserido está o País
nesse processo fundamental de preservação da qualidade de vida e, em última instância,
de sobrevivência da espécie humana na superfície do globo terrestre.

NA ONDA DA BIOENERGIA
Com investimentos anunciados de US$ 16 bilhões até 2012, o Brasil tem a
chance de se tornar grande produtor mundial na área de combustíveis renováveis. Mas
precisa organizar melhor os estoques de álcool e a divisão de matérias-primas para o
biodiesel. Poucos países do mundo podem ser considerados potências dos agronegócios,
se pesarem nessa definição volume de produção, eficiência, diversificação de cadeias,
importância para a economia doméstica e influência no mercado externo.
Os EUA há décadas são a maior dessas potências, puxados por imbatível
gigantismo em trigo e milho, as duas principais commodities agrícolas globais. Mas o
Brasil também está entre elas, muitas vezes dividindo espaço, prestígio e liderança.
Portanto, é revolução de envergadura capaz de abalar os alicerces do setor, e
faça estardalhaço nas potências que têm no campo boa parte de seu PIB. Despertado
pela disparada dos preços do petróleo e pelo barulho de ambientalistas em torno das
ameaças à vida no planeta, os biocombustíveis transformaram-se em "febre". Planos
para a adoção de etanol e biodiesel pululam em diversos países, investimentos para a
fabricação dos energéticos são anunciados todos os dias em algum lugar, produções
agrícolas são deslocadas para alimentar a nova onda.
E o campo brasileiro fervilha. Em etanol e biocombustíveis, os aportes em curso
para expandir a oferta chegam perto de US$ 7 bilhões, a partir de matérias-primas como
soja, mamona, pinhão manso e até gorduras animais.
Até 2012, projetos já anunciados poderão absorver investimentos da ordem de
US$ 16 bilhões. Foi loucura da humanidade construir sua evolução sobre combustível
fóssil, finito e poluente. O Brasil, pode duplicar sua produção de álcool por hectare nos

105
próximos dez anos, tem condições de liderar a mudança rumo a outra matriz energética.
Os biocombustíveis podem ser a ponte para isso, sem concorrer com os alimentos.
É uma oportunidade. Para os mais ponderados, ela poderá se transformar em
decepção caso a falta de organização que predomina no mercado, envolvendo estoques e
a divisão de matérias-primas para biodiesel, se solidifique. Pouquíssimas áreas da
economia mantêm elevados níveis de remuneração o tempo todo, e na agroenergia não
será diferente. Incipiente em biodiesel, mas muito forte no álcool, a agroenergia já
provoca reflexos positivos sobre os macroresultados do setor no país.
A agroenergia já deixa reflexos positivos. O caso do milho é emblemático. Nos
EUA, bilhões estão sendo aplicados em usinas de etanol, o Brasil começa a ganhar
espaço no exterior e pode se transformar em exportador regular, apesar de ainda não
apresentar produtividade à altura de EUA e Argentina, os maiores exportadores.
Essa corrida levou exportadores brasileiros a acertar entregas no exterior em
janeiro de 2008 - de produção que sequer foi plantada - está sustentando as cotações
internacionais do milho e ajudando a puxar a soja. Junto com o trigo, com problemas de
quebra de safra em importantes produtores como Austrália, as commodities reagiram em
Chicago, e as perspectivas para os próximos anos mudaram para melhor.
A pujança da cana deixou efeitos positivos sobre as vendas de fertilizantes,
defensivos e máquinas agrícolas. Nos três segmentos, simples divisão geográfica das
vendas comprova que nas regiões canavieiras tradicionais do país houve aumento dos
negócios, enquanto nas áreas de grãos, em fase final de crise de liquidez e renda, o
mercado mostrou-se mais travado.
O papel do governo é zelar pela qualidade dos produtos brasileiros e nesse ponto
os investimentos em ações de defesa sanitária são fundamentais. "Sanidade é o novo
nome do protecionismo", repete Pratini de Moraes.
Apesar dos problemas, o Brasil tende a manter a liderança mundial nas
exportações de carnes bovina e de frango em 2006. No total, as exportações nacionais
de produtos de origem animal deverão alcançar US$ 9 bilhões no ano, ou 20% do total
previsto pelo Ministério da Agricultura para os embarques dos agronegócios.

A ALTERNATIVA DOS BIOCOMBUSTÍVEIS


Em Bruxelas, abrirei(Lula), com o presidente da Comissão Européia, Conferência
Internacional sobre Biocombustíveis. Será oportunidade de chamar a atenção
internacional para tema prioritário da agenda global: as fontes alternativas de energia.
Multiplicam-se catástrofes naturais, conseqüência do aquecimento climático,
assim como as incertezas em torno do fornecimento dos combustíveis fósseis. O mundo
está confrontado com duplo desafio: como alcançar a segurança energética sem causar
desequilíbrios ambientais? Como reduzir padrões de consumo e atender às aspirações ao
bem-estar? O programa brasileiro de biocombustíveis mostra que temos à disposição
resposta promissora para essa questão.
Ao adicionar 25% de etanol à gasolina ou utilizar álcool puro em carros "flex-
fuel", reduzimos em 40% o consumo e a importação de combustíveis fósseis e deixamos
de emitir, desde 2003, mais de 120 milhões de toneladas de gás carbônico.
O potencial das biomassas vai além da geração de energia limpa e renovável. A
indústria do etanol já criou, diretamente, 1,5 milhão e, indiretamente, 4,5 milhões de
postos de trabalho no Brasil. O programa do biodiesel já emprega mais de 250 mil
pessoas, sobretudo pequenos agricultores em zonas semi-áridas, gerando renda e
ajudando a fixar a população à terra. Esses programas reduzem migrações

106
desordenadas. Diminui a pressão de garimpeiros e agricultores sobre florestas nativas.
Os biocombustíveis não ameaçam a segurança alimentar, pois sua produção
ocupa em torno de 2% das terras agriculturáveis. A expansão da cana tem contribuído
para recuperar áreas degradadas, de baixo ou nenhum potencial agrícola. Ocorre em
regiões distantes da Amazônia, cujo solo e clima são inadequados para o cultivo da cana.
O programa de biocombustíveis se soma assim às ações governamentais em
defesa da biodiversidade amazônica: repressão ao desmatamento e à grilagem de terras,
além da criação de 20 milhões de hectares em unidades de conservação. Juntamente
com a concessão de terras para a exploração sustentável de madeira, esse conjunto de
medidas permitiu reduzir em mais de 50%, nos últimos três anos, as taxas de
desmatamento e, portanto, de emissão de gases de efeito estufa.
Por meio de sistema nacional de certificação, vamos garantir que toda a cadeia
de produção dos biocombustíveis no país respeite critérios ambientais, sociais e
trabalhistas consagrados na legislação e exigidos pela sociedade.
Aí reside a grande força dos programas brasileiros de biocombustíveis: eles
fazem parte de estratégia ambiental, centrada no desenvolvimento sustentável em
termos econômicos, sociais e ambientais.
Os biocombustíveis devem ocupar lugar central em estratégia planetária de
preservação do meio ambiente. Por isso, o Brasil defende esforço para difundir essa
revolução das biomassas. Acordos que assinamos com EUA e que estamos estabelecendo
com países europeus prevêem a implantação de projetos triangulares na América
Central, Caribe e África unindo tecnologia brasileira a condições climáticas e de solo
favoráveis nessas regiões. Todos saem ganhando. Países em desenvolvimento gerarão
empregos e renda, e divisas para dinamizar suas economias. Países desenvolvidos
poderão acessar fontes de energia limpas a preço competitivo, ao invés de investir em
custosas inovações para tornar menos poluentes os combustíveis convencionais.
Nada disso diminui a responsabilidade dos países desenvolvidos de adotar sérias
normas de controle de emissões. Não diminuirá a disposição de países em
desenvolvimento em implementar políticas de redução de emissões, apoiadas por efetivo
fluxo internacional de recursos e tecnologia. É esse o sentido da proposta brasileira de
incentivos aos países em desenvolvimento que desacelerarem o desmatamento.
A resposta à ameaça do aquecimento global não está em restringir o acesso de
populações pobres a padrões mínimos de bem-estar. Não é necessário forçar os países
em desenvolvimento a escolha injusta: reduzir seu ritmo de crescimento ou adotar novas
tecnologias onerosas. Queremos desenvolver a próxima geração desses combustíveis,
que poderá ser extraída de praticamente qualquer dejeto orgânico, em qualquer parte do
mundo. E será a base de toda uma alternativa orgânica à petroquímica.
Além de vultosos recursos, esses avanços requererão tempo. E tempo é o que os
países mais pobres - e nosso planeta - não têm. Urge implementar políticas que ajudem
a garantir que a humanidade prosperará como um todo, sem deixar ninguém para trás,
nem hipotecar o futuro das novas gerações.
Essa é a mensagem que levo à Conferência de Bruxelas: estão ao nosso alcance
experiências testadas e comprovadas para responder a desafio que se avoluma a cada
dia. Por essa razão, o Brasil está organizando, em 2008, Conferência Mundial sobre
Biocombustíveis. Juntos, poderemos construir estratégia global, justa e duradoura.

ETANOL, GEOPOLÍTICA E NAÇÃO


A mídia esteve ocupada com o etanol. Considero correta a posição do governo de
exigir a redução do subsídio e recusar-se a disputar cota do mercado americano, pois

107
seria fácil atribuir resistências a manutenção do subsídio e propor ao Brasil cota bilateral.
Cuba pré-Castro era fornecedora de açúcar, detinha cota do mercado americano. A
maioria das usinas era de capitais estrangeiros. Fora do açúcar, Cuba tinha a manufatura
de charutos e era parque de diversões para adultos daquele país.
O Brasil sempre deteve alta produtividade canavieira. Nos tempos coloniais, a
produção de açúcar cresceu no Caribe porque prevaleceu reserva de mercado.
O sol é nosso aliado e permite a utilização das instalações agroindustriais quase
que o ano inteiro. Do ponto de vista energético, a atividade sucroalcooleira é notável pois
utiliza energia autoproduzida (bagaço e, proximamente, a palha). Tem balanço térmico
adequado para o meio-ambiente nacional e mundial. A produtividade energética do
etanol de cana é quatro vezes superior ao etanol de milho e seu custo é muito inferior.
Em resumo, sem subsídios haverá mais milho como alimento e o Brasil dominará, em
grande parte, o mercado mundial de bioenergia. Além do mais, historicamente estivemos
na ponta agronômica em pesquisa agrícola tropical.
Fortalecendo a Embrapa, manteremos esta posição. Em matéria industrial,
temos a Dedine, líder na produção e equipamentos para açúcar, etanol e bioenergia. Não
necessitamos de ajuda. Temos o melhor programa mundial de bioenergia.
Talvez seja possível combinar produção de cana e soja e libertar os
equipamentos mecânicos da lavoura do uso de combustível fóssil, substituindo-o por
biodiesel derivado da soja associada com a lavoura de cana.
É correta a decisão de constituir estoque regulador de álcool. A Petrobras terá
que investir R$ 4 bilhões para este estoque, que lhe conferirá uma posição empresarial
forte como empresa de energia. Sua presença é salvaguarda para o complexo
bioenergético que o Brasil desenvolverá. Ao longo do eixo da Ferrovia de Carajás e nas
mesopotâmias da Bacia do Rio Madeira, o Brasil poderá construir gigantesco campo de
energia renovável para ajudar Europa, EUA e Ásia na decisiva questão do evanescimento
progressivo da economia do petróleo.
Contudo, o mundo ainda assistirá conflitos na região petrolífera. Os povos do
Oriente Médio amaldiçoados pelo petróleo, se convertem em arena dos piores conflitos
geopolíticos. É correta a posição de preservar o potencial energético renovável brasileiro.
Abrir mão da presença nacional nesta questão estratégica abre janela para a
subordinação do Brasil ao apetite energético dos Estados Unidos. Dispondo o Brasil de
energia que substituirá as fontes fósseis, devemos desde logo não aceitar nenhum
Cavalo de Tróia de suposta boa vontade. Se algum deles quiser relação íntima (bilateral
via cota de acesso ao mercado norte-americano), que assuma o risco. Nós sinalizaremos
com nossa posição perspectiva nacional e poderemos, pelo processo de integração sul-
americana, evoluir para articulação continental.

CONTROLE DE DESMATE VAI INTEGRAR PÓS-KYOTO


Negociador do Brasil diz que novo pacto antiaquecimento incluirá oficialmente,
nas negociações da COP-13, o desmatamento evitado de florestas tropicais como forma
de reduzir a emissão de gases do efeito estufa já foi incluída no “mapa de Bali” -
conjunto de diretrizes que os países seguirão até 2009 para costurar um novo regime
internacional de controle do aquecimento global, substituto Kyoto, que expira em 2012.O
Brasil defende a criação de fundo voluntário, alimentado pelos ricos, para o país pobre
que demonstre resultados mensuráveis no controle do desmatamento.
O Brasil é o único país em desenvolvimento que mantém monitoramento periódico
por satélite do desmatamento de sua floresta tropical, o que permitiu a criação de

108
registro histórico.O grande desafio é a mudança na equação econômica que sustenta a
lógica do desmatamento. A queda parece ter sido conseqüência de situação econômica
mais ações de governança. A subida (recente) mostra que é preciso ajuda externa.

LULA E BACHELET ASSINAM ACORDO COM MORALES


Brasil, Bolívia e Chile anunciaram investimentos para a conclusão de corredor
rodoviário bioceânico, ligando o porto de Santos aos de Arica e Iquique, no Chile. O
projeto, orçado em US$ 500 milhões, faz parte de série de acordos que serão assinados.
O corredor bioceânico faz parte da IIRSA. São cerca de 4 mil km de estradas que
facilitarão o comércio. A Bolívia terá os maiores aportes, de US$ 373 milhões, para a
pavimentação de 611 km de estradas entre Puerto Suarez e Santa Cruz de la Sierra. No
Chile, os investimentos são de US$ 93 milhões, para pavimentação de 50 km de estradas
e construção de aduana.No Brasil, o trecho está pavimentado. São duas rotas: a primeira
chega à Bolívia por Corumbá; a segunda, por Cuiabá. Os investimentos no projeto serão
financiados por Corporação Andina de Fomento, BID e UE.“Não podemos conceber o
desenvolvimento da região dando as costas para os países vizinhos”, afirmou o
presidente Lula, dizendo que a Bolívia é “o coração da América do Sul” e, por isso,
qualquer obra de integração passará pelo país. “O projeto vai permitir que nosso
comércio flua e garantirá maior desenvolvimento”, avaliou Bachelet.
O presidente anunciará o retorno dos investimentos da Petrobrás, dois anos após
a nacionalização do setor no país. Lula afirmou que estatal tem condições de ampliar em
até 8 milhões de metros cúbicos por dia sua produção, com aportes nos campos de San
Alberto, San Antonio e Ingre. A Petrobrás e a YPFB devem constituir empresa conjunta
para explorar três novas áreas.A estatal brasileira pagará valor adicional de US$ 180
milhões por ano por frações nobres do gás, como o etano, o GLP e a gasolina natural. Na
Bolívia, espera-se que a companhia pague valores retroativos a abril.

O mercado nuclear brasileiro


A questão energética é crítica para o desenvolvimento de qualquer país e
nenhum pode se descuidar dela. No caso do Brasil, a possibilidade de escassez e suas
implicações no crescimento econômico é motivo de preocupações de acadêmicos,
empresários e de setores do governo.
Do ponto de vista da energético, petróleo, gás natural e minério de urânio
possuem importâncias similares. O setor de petróleo e gás já estão amadurecidos podem
representar alívio as necessidades de médio prazo. Por outro lado, o desenvolvimento de
tecnologia de reatores nucleares demanda tempo bem mais longo que o início de
produção de poço de petróleo e gás em águas profundas, além de requerer elevado
montante de recursos financeiros.
Com as preocupações com as mudanças climáticas, os países desenvolvidos
voltaram seus olhos para a energia nuclear como opção limpa. Isso provocou o
ressurgimento mundial da geração nucleoelétrica. Como conseqüência disto, os preços do
minério de urânio, concentrado e purificado (yellow cake), e de alguns serviços do ciclo
de combustível sofreram variações expressivas. No mercado internacional, em 5 anos, a
libra-massa de yellow cake saltou de US$ 9,50 para US$ 95,00; a conversão de 1 quilo
de óxido de urânio para hexafluoreto de urânio, de US$ 5,50 para US$ 12,50; o custo do
enriquecimento subiu de US$ 90,00 para US$ 135,00 por unidade de trabalho; e o custo
de fabricação dos elementos combustíveis, de US$ 275,00 para algo em torno de US$
500,00 por quilo de urânio (Fonte: UxC Nuclear Fuel Prices Indicators).

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Considerando-se as condições do Brasil, que possui reservas consideráveis
urânio e domínio do ciclo, poderíamos encarar a situação como oportunidade de negócios
e ser participante ativo deste mercado, gerando recursos para o nosso desenvolvimento.
Segundo a Indústrias Nucleares do Brasil, o país dispõe de 309 mil toneladas
de minério de urânio. O custo de exploração, concentração e beneficiamento deste
minério encontra-se estimado em US$ 22 bilhões e o valor de mercado do produto final,
hoje, é de US$ 64 bilhões, resultando em diferença líquida de US$ 42 bilhões. A
conversão das reservas em hexafluoreto de urânio resultaria em adicionais US$ 3,3
bilhões; o enriquecimento do urânio a 4%, típico de reatores PWR, outros US$ 32,1
bilhões; e a fabricação de elementos combustíveis, mais US$ 17,3 bi. Em números
aproximados, nossas reservas proporcionariam receita bruta de US$ 94 bi.
Obviamente, a comercialização total das reservas não seria recomendável e
poderia comprometer nossas necessidades de geração elétrica. Entretanto, se
considerarmos reatores nucleares típicos, nossas reservas poderiam gerar em torno de
11 bilhões de GWh, o que corresponde à geração contínua de 27.000 MW durante 50
anos. São números expressivos se observarmos que, juntas, as usinas nucleares Angra
1, 2 e 3 irão gerar apenas 3.300 MW.
Conclui-se que a comercialização de parte de nossas reservas poderia gerar
receitas para viabilizar o desenvolvimento do setor nuclear brasileiro sem comprometer
as reservas de urânio. Diante do esforço já realizado pelo país, com o acordo Brasil-
Alemanha e com o programa autônomo da Marinha, o Brasil poderia se transformar em
exportador de tecnologia de centrais nucleares e de serviços do ciclo do combustível.
Não podemos esquecer que estas reservas se encontram estagnadas há mais
de dez anos, tendo em vista a inexistência de mercado interno. Com a comercialização
controlada, a retomada da prospecção de urânio poderá ampliá-las, da mesma forma
como vem ocorrendo com as reservas de petróleo e gás.
Entretanto, o artigo 177 da CF, em seu inciso V, constitui a pesquisa, a lavra,
o enriquecimento, o reprocessamento, a industrialização e o comércio de minérios e
minerais nucleares e seus derivados em monopólios da União, impedindo a entrada de
novos atores. Porem, este mesmo artigo teve seus incisos I a IV, referentes a petróleo e
gás, alterados pela EC 9/95, resultando em dinamização e avanço tecnológico.
Decisões sobre nosso desenvolvimento nuclear são urgentes, sob pena de
perdermos as oportunidades geradas pelo mercado nuclear aquecido, correndo, ainda, o
risco de deteriorarmos ou tornarmos obsoleta nossa capacidade tecnológica do ciclo do
combustível e em alguns segmentos da tecnologia de reatores nucleares.
Diante do exposto, o setor pode gerar os recursos necessários para seu
próprio financiamento, dependendo apenas de um posicionamento político do governo e
o estabelecimento de um novo marco regulatório para este segmento estratégico.

Brasil critica idéia da UE de ligar clima e comércio


A UE defende acordos setoriais globais que abriguem as indústrias a reduzir o
uso de energia na produção e combatam as mudanças climáticas. A proposta, enfatizada
em Bali, serve para engavetar sugestão da França de taxar importações de produtos
industriais de países onde as normas ambientais são menos estritas.
Pela idéia francesa, a empresa poluente que exportasse para a UE teria de
comprar permissão de emissão, através do "Emissions Trading Scheme" (ETS). Esse
sistema permite que empresas incapazes de reduzir suas emissões comprem créditos
daquelas menos poluentes, contribuindo assim para a UE cumprir o Protocolo de Kyoto.

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A reação foi dura por parte de países emergentes como Brasil, Índia, México e
Argentina. "Toda vez que eles [EUA e UE] procuram estabelecer relação entre comércio e
meio ambiente é sempre para conseguir proteger seus mercados ou aumentar as vendas
de seus produtos", afirmou o subsecretário de assuntos econômicos do Itamaraty.
Celso Amorim, que participará de reunião em Bali, cobrará propostas que não
sejam discriminatórias contra países em desenvolvimento e que não sirvam só para os
ricos subsidiarem sua indústria e favorecer suas vendas.

Programa do biodiesel é exemplo para o mundo


O ano de 2008 marca o início da adição de 2% de biodiesel ao diesel. Em 2010,
deve subir para 5% e, dependendo do desempenho do setor, novos percentuais poderão
ser estabelecidos. O Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel completa 2 anos.
O viés mais importante é o fato de aliar a produção de combustível verde,
ambientalmente sustentável com inclusão social. Como é combustível que se planta, a
sua produção traz benefícios ao meio rural. O Programa inclui 100 mil famílias no cultivo
de oleaginosas em todo o país, que tiveram suas rendas complementadas. O que se vê,
hoje, são produtores que se capacitaram, aprenderam a plantar novas culturas e hoje
participam da cadeia de produção do biocombustível.
É importante assinalar que as oleaginosas para biodiesel não substituem a
produção de alimentos. As oleaginosas são cultivadas em consórcio com outras culturas.
Pela primeira vez, agricultores familiares, especialmente no semi-árido, experimentam
relações de produção que lhes dão segurança para seguir trabalhando e produzindo.
Nos últimos leilões realizados pela ANP a agricultura familiar participou com 162
mil hectares de oleaginosas (mamona, girassol, palma, amendoim, etc). O PNPB está
dando certo e poderá ser referência para países em desenvolvimento. O conhecimento e
a tecnologia acumulados pelo Brasil na produção de biodiesel representam grande
oportunidade para impulsionar o desenvolvimento do nosso país e ajudar o mundo a
encontrar alternativas energéticas ambientalmente sustentáveis.

A Amazônia não está à venda


COM FREQÜÊNCIA circulam notícias sobre interesses com relação à região
amazônica. E, surgem, no exterior, iniciativas com o objetivo de adquirir terras na
Amazônia para fins de conservação ligadas à preocupação com a mudança do clima e ao
possível papel do desmatamento nesse processo. São propostas que desconhecem a
realidade da floresta amazônica. Ignoram também importantes dados científicos.
O Brasil atribui importância a mudança no clima. Há consenso de que o
fenômeno está sendo acelerado pela ação humana. Assim, focar a atenção nas atuais
emissões é errado. Alguns dos atuais emissores, sobretudo países emergentes, têm
pouca responsabilidade pelo aquecimento global. A causa principal da mudança do clima
é conhecida: pelo menos 80% do problema tem origem na queima de combustíveis
fósseis a partir de meados do século 19. Apenas pequena parcela resulta das mudanças
no uso da terra, incluindo o desmatamento.
O desmatamento atual em escala global é preocupante, mas o foco deve ser a
alteração da matriz energética e o uso mais intensivo de energias limpas. A Convenção
do Clima e seu Protocolo de Kyoto são claros: àqueles que causaram o problema (países
industrializados) cabem metas de reduções e a obrigação de agir primeiro.
Embora não tenha metas mandatórias de redução, o Brasil está fazendo sua
parte. Possuímos matriz energética limpa. Nossos programas de biocombustível são

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exemplo. Contribuímos, dessa forma, para o desenvolvimento sustentável da sociedade
brasileira e para a redução global das emissões de gases de efeito estufa.
O Brasil está implementando política integrada de combate ao desmatamento.
É esforço multissetorial e de longo prazo, com ações de valorização da floresta em pé e
de apoio ao desenvolvimento socioeconômico das comunidades que dela dependem.
Nos últimos anos, conseguimos importante redução das taxas de
desmatamento. Em 04/05, a redução confirmada foi de 32%, ao que se somam mais
11% no período 05/06. O manejo sustentável de florestas é campo propício à
cooperação, por intercâmbio de experiências e capacitação técnica.
O Brasil participa ativamente dos debates internacionais sobre florestas. No
âmbito da Convenção do Clima, apresentaremos, em novembro próximo, na Conferência
de Nairóbi, proposta que visa promover incentivos aos esforços nacionais voluntários de
redução das taxas de desmatamento. Acreditamos que essa é forma adequada de os
países desenvolvidos apoiarem a conservação das florestas tropicais.
A proposta é contribuição do Brasil para o esforço comum de redução de
emissões de gases de efeito estufa. A sociedade brasileira não aceita mais os padrões
insustentáveis de desenvolvimento que levaram a perdas ambientais irreparáveis. O
Brasil espera que os países industrializados cumpram suas obrigações de redução de
emissões. Indivíduos bem-intencionados que se preocupam com o planeta devem
dedicar-se a influenciar seus governos no sentido da mudança de padrões insustentáveis
de produção e consumo e da utilização de energias renováveis. Nessa área, o Brasil tem
muito a oferecer em conhecimento e tecnologia.
Da Amazônia nós estamos cuidando de acordo com modelos de
desenvolvimento baseados em princípios de sustentabilidade definidos pela sociedade
brasileira. A Amazônia é um patrimônio do povo brasileiro, e não está à venda.

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