Sunteți pe pagina 1din 19

DESPROVINCIALIZANDO A

SOCIOLOGIA
A contribuição pós-colonial
Sérgio Costa

Os estudos pós-coloniais não constituem dos trabalhos de autores como Homi Bhabha,
propriamente uma matriz teórica única. Trata-se Edward Said, Gayatri Chakravorty Spivak ou
de uma variedade de contribuições com orienta- Stuart Hall e Paul Gilroy referências recorrentes
ções distintas, mas que apresentam como caracte- em outros países dentro e fora da Europa.
rística comum o esforço de esboçar, pelo método A abordagem pós-colonial constrói, sobre a
da desconstrução dos essencialismos, uma refe- evidência – diga-se, trivializada pelos debates
rência epistemológica crítica às concepções domi- entre estruturalistas e pós-estruturalistas – de
nantes de modernidade. Iniciada por aqueles que toda enunciação vem de algum lugar, sua
autores qualificados como intelectuais da diáspo- crítica ao processo de produção do conhecimen-
ra negra ou migratória – fundamentalmente imi- to científico que, ao privilegiar modelos e con-
teúdos próprios ao que se definiu como a cultu-
grantes oriundos de países pobres que vivem na
ra nacional nos países europeus, reproduziria,
Europa Ocidental e na América do Norte –, a
em outros termos, a lógica da relação colonial.
perspectiva pós-colonial teve, primeiro na crítica
Tanto as experiências de minorias sociais como
literária, sobretudo na Inglaterra e nos Estados
os processos de transformação ocorridos nas
Unidos, a partir dos anos de 1980, suas áreas pio-
sociedades “não ocidentais” continuariam sendo
neiras de difusão. Depois disso, expande-se geo- tratados a partir de suas relações de funcionali-
graficamente e para outras disciplinas, fazendo dade, semelhança ou divergência com o que se
denominou centro. Assim, o prefixo “pós” na
Artigo recebido em abril/2005 expressão pós-colonial não indica simplesmente
Aprovado em Agosto/2005 um “depois” no sentido cronológico linear; trata-

RBCS Vol. 21 nº. 60 fevereiro/2006


118 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 21 Nº. 60

se de uma operação de reconfiguração do cam- O objetivo deste ensaio não é traçar uma
po discursivo, no qual as relações hierárquicas genealogia dos estudos pós-coloniais, mas discu-
ganham significado (Hall, 1997a). Colonial, por tir a importância de sua contribuição para as ciên-
sua vez, vai além do colonialismo e alude a si- cias sociais e para a sociologia, em particular.
tuações de opressão diversas, definidas a partir Trata-se de discutir, em primeiro lugar, o caráter
de fronteiras de gênero, étnicas ou raciais. da crítica que os estudos pós-coloniais endereçam
Delimitar o campo teórico preciso no qual às ciências sociais. Em seguida, discute-se as alter-
se inserem os estudos pós-coloniais não é tarefa nativas epistemológicas que apresentam, conside-
fácil. Talvez não seja nem mesmo uma tarefa con- rando-se três blocos interrelacionados de ques-
cretizável, uma vez que os estudos pós-coloniais tões, a saber: a crítica ao modernismo como
buscam precisamente explorar as fronteiras, pro- teleologia da história, a busca de um lugar de
duzir, conforme quer Bhabha (1994), uma refle- enunciação “híbrido” pós-colonial e a crítica à
xão para além da teoria. Não obstante, não é difí- concepção de sujeito das ciências sociais. A con-
cil reconhecer a relação próxima entre os estudos clusão a que se chega é de que, a despeito de sua
pós-coloniais e pelo menos três correntes ou contundência e da suspeita de autores como
escolas contemporâneas. A primeira é o pós- McLennan (2003) de que a teoria pós-colonial
estruturalismo e, sobretudo, os trabalhos de Der- implode a base epistemológica das ciências
rida e Foucault, com quem os estudos pós-colo- sociais, boa parte da crítica pós-colonial tem
niais aprenderam a reconhecer o caráter como destinatário não o conjunto da teoria social,
discursivo do social. A recepção do pós-estrutura- mas uma escola teórica particular, qual seja, a teo-
lismo, contudo, não é a mesma que fazem auto- ria da modernização, e se assemelha a objeções
res como Lyotard e outros expoentes da corrente levantadas por cientistas sociais que nada têm a
pós-moderna, segunda referência importante para ver com o pós-colonialismo. Outros problemas
os estudos pós-coloniais que se quer destacar levantados pelos estudos pós-coloniais não deses-
aqui. A rigor, a abertura para o pós-modernismo tabilizam, necessariamente, as ciências sociais,
varia muito, conforme a abordagem que se tome. podendo mesmo enriquecê-las.
De forma geral, aceita-se falar da pós-modernida-
de, como condição, isto é, como categoria empí-
rica que descreve o descentramento das narrativas As ciências sociais e seus binarismos
e dos sujeitos contemporâneos. Recusa-se, contu-
do, o pós-modernismo como programa teórico e Não é sem razão que o livro clássico
político, visto que, para o pós-colonialismo, a Orientalism do crítico literário palestino Edward
transformação social e o combate à opressão Said (1978) é considerado o “manifesto de funda-
devem ocupar lugar central na agenda de investi- ção” do pós-colonialismo (Conrad e Randeria,
gação (Appiah, 1992; Gilroy, 1993, p. 107). Por 2002, p. 22). No livro, Said dá contornos a uma
último, cabe a alusão aos estudos culturais, sobre- perspectiva que começara a ser delineada nos
tudo em sua versão britânica desenvolvida princi- esforços pioneiros desenvolvidos pelo psiquiatra
palmente no Birmingham University’s Centre for de Martinica Frantz Fanon (1965 [1952]), quando
Contemporary Studies. Talvez seja razoável dizer buscou descrever o mundo moderno visto pela
que a distinção entre estudos culturais, na versão perspectiva do negro e do colonizado.
britânica, e estudos pós-coloniais seja apenas cro- O orientalismo de que fala Said caracteriza
nológica. Afinal, desde que Stuart Hall, figura cen- uma maneira particular de percepção da história
tral dos estudos culturais britânicos, desloca sua moderna e tem como ponto de partida o estabe-
atenção, a partir de meados dos anos de 1980, de lecimento a priori de uma distinção binária entre
questões ligadas à classe e ao marxismo para Ocidente e Oriente, segundo a qual cabe àquela
temas como racismo, etnicidades, gênero e iden- parte que se auto-representa como Ocidente a
tidades culturais, verifica-se uma convergência tarefa de definir o que se entende por Oriente. O
plena entre estudos pós-coloniais e estudos cultu- orientalismo constitui, assim, uma maneira de
rais (Morley e Chen, 1996). apreender o mundo, ao mesmo tempo que se
DESPROVINCIALIZANDO A SOCIOLOGIA 119

consolida, historicamente, a partir da produção de Valendo-se da idéia de Said de que os dis-


conhecimentos pautados por aquela distinção cursos se servem de “arquivos” ou fontes de
binária original. conhecimento comum para se constituir, Hall
A inspiração que anima Said – e, como se enumera os principais recursos que, ao longo do
mostra mais adiante, boa parte dos autores pós- processo de expansão colonial, vão nutrindo e
coloniais – é a crítica foucaultiana à “episteme” constituindo o discurso West/Rest, a saber: os
das ciências humanas (Foucault, 1972, pp. 418ss.). conhecimentos clássicos, as fontes bíblicas e reli-
Trata-se de mostrar que a produção de conheci- giosas, as mitologias (Eldorado, lendas sexuais
mento atende a um princípio circular e auto-refe- etc.), além dos relatos de viajantes. A partir des-
renciado, de sorte que “novos” conhecimentos sas fontes constituem-se as polaridades entre o
construídos sobre uma base de representação Ocidente – civilizado, adiantado, desenvolvido,
determinada reafirmam, ad infinitum, as premis- bom – e o resto – selvagem, atrasado, subdesen-
sas inscritas nesse sistema de representações. O volvido, ruim. Uma vez constituídos, tais binaris-
orientalismo caracteriza, assim, um modo estabe- mos tornam-se ferramentas para pensar e analisar
lecido e institucionalizado de produção de repre- a realidade. Hall investiga obras de autores fun-
sentações sobre uma determinada região do dadores das ciências humanas em meados do
mundo, o qual se alimenta, se confirma e se atua- século XVIII (basicamente Adam Smith, Henry
liza por meio das próprias imagens e dos conhe- Kame, John Millar e Adam Ferguson), mostrando
cimentos que (re)cria.1 O Oriente de Orientalism, como a polaridade West/Rest, contemporânea do
ainda que remeta, vagamente, a um lugar geográ- Iluminismo, se instala no interior destas.
fico, expressa mais propriamente uma fronteira O discurso West/Rest, conforme Hall, não é
cultural e definidora de sentido entre um nós e dominante apenas no âmbito desses primeiros tra-
um eles, no interior de uma relação que produz e balhos das ciências humanas, ele se torna um dos
reproduz o outro como inferior, ao mesmo tempo fundamentos da sociologia moderna que toma as
em que permite definir o nós, o si mesmo, em normas sociais, as estruturas e os valores encontra-
oposição a este outro, ora representado como dos nas sociedades denominadas ocidentais como
caricatura, ora como estereótipo e sempre como o parâmetro universal que define o que são socie-
uma síntese aglutinadora de tudo aquilo que o dades modernas. Assim, sob a lente da sociologia,
nós não é e nem quer ser. as especificidades das sociedades “não ocidentais”
Stuart Hall (1996a) busca generalizar o caso passam a figurar como ausência e incompletude,
do orientalismo, mostrando que a polaridade em face do padrão moderno, depreendido exclusi-
entre o Ocidente e o resto do mundo (West/Rest) vamente das “sociedades ocidentais”. Bons exem-
encontra-se na base de constituição das ciências plos da incorporação pela sociologia moderna do
sociais. O ponto de partida de Hall é igualmente binarismo West/Rest seriam, para Hall, categorias
a noção de formação discursiva, derivada de como patrimonialismo, em Weber, e modo de pro-
Foucault. Tratado nesses termos, discurso não se dução asiático, em Marx, que, de formas distintas,
confunde com ideologia, entendida como repre- fraseam o movimento interno de sociedades defi-
sentação falseada ou falsificada do mundo. Não nidas como não ocidentais na gramática implicita-
cabe, por isso, discutir o teor de verdade dos dis- mente comparativa que toma as sociedades euro-
cursos, mas o contexto no qual eles são produzi- péias como padrão.
dos, qual seja, o “regime de verdade” dentro do A polaridade West/Rest encontra-se também
qual o discurso adquire significação, se constitui na base da narrativa histórica adotada pelas ciên-
como plausível e assume eficácia prática. Esses cias sociais modernas e pela sociologia, em parti-
regimes de verdade, ou na variação preferida por cular. Trata-se de uma grande narrativa centrada
Hall, “regimes de representação”, não são fecha- no Estado-nação “ocidental” e que reduz a histó-
dos e mostram-se aptos a incorporar novos ele- ria moderna a uma ocidentalização paulatina e
mentos à rede de significados em questão, man- heróica do mundo, sem levar em conta que, pelo
tendo um núcleo original de sentidos, contudo, menos desde a expansão colonial no século XVI,
inalterado (Idem, pp. 201ss.).2 diferentes “temporalidades e historicidades foram
120 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 21 Nº. 60

irreversível e violentamente juntadas” (Hall, rioridade que não é circunstancial, histórica e


1997a, p. 233).3 Tal não significa, obviamente, que referida a um campo específico – material, tecno-
o autor acredite na simetria de poder e em iguais lógico etc. Trata-se da atribuição de uma condição
possibilidades de influência mútua entre o de superioridade que é ontológica e total, imutá-
“Ocidente” e o “resto do mundo”, implica, contu- vel, essencializada, uma vez que ela faz parte da
do, que as partes representadas como opostas e própria constituição lógica e semântica dos ter-
separadas, vale dizer, antinômicas, na verdade se mos da relação. O segundo passo é mostrar que
completam histórica e semanticamente. a polaridade West/Rest é inócua do ponto de vista
A metodologia da comparação implícita e o cognitivo, uma vez que ofusca aquilo que supos-
tipo de narrativa histórica da sociologia moderna tamente busca elucidar, a saber, as diferenças
fazem com que tudo o que é diverso no “resto do internas dessa multiplicidade de fenômenos
mundo” seja decodificado como um ainda não sociais subsumidos nesse outro genérico, bem
existente, uma falta a ser compensada por meio da como as relações efetivas entre o Ocidente imagi-
intervenção social cabível em cada contexto e em nado e o resto do mundo.
cada época histórica: dominação colonial, ajuda Tal esforço de desconstrução dos binaris-
ao desenvolvimento, intervenção humanitária etc. mos (coloniais) vem seguindo percursos diversos
Com isso, Hall não pretende naturalmente atribuir no âmbito dos estudos pós-coloniais e, pelo
a responsabilidade pelos colonialismos e imperia- menos desde o importante ensaio de Spivak
lismos às ciências sociais modernas. Mostra, con- (1988), desfez-se a expectativa de que uma pers-
tudo, como as disciplinas desse campo reprodu- pectiva epistemológica nova surgiria, dando-se
zem a perspectiva colonial, ao alimentar e voz ao (pós-)colonizado. A autora mostra que é
legitimar o modelo dominante de representação ilusória a referência a um sujeito subalterno que
das relações entre a Europa e o resto do mundo.4 pudesse falar. O que ela constata, valendo-se do
exemplo da Índia, é uma heterogeneidade de
subalternos, os quais não são possuidores de
As alternativas epistemológicas pós-coloniais uma consciência autêntica pré- ou pós-colonial,
trata-se de “subjetividades precárias” construídas
A “desconstrução” da polaridade West/Rest no marco da “violência epistêmica” colonial. Tal
constitui o termo comum que une os diferentes violência tem um sentido correlato àquele cunha-
autores identificados com o marco pós-colonial. É do por Foucault para referir-se à redefinição da
precisamente essa identificação do viés colonialis- idéia de sanidade na Europa de finais do século
ta no processo de produção do conhecimento XVIII, na medida em que desclassifica os conhe-
que, como se afirmou mais acima, melhor define cimentos e as formas de apreensão do mundo do
o prefixo “pós” do termo pós-colonial. Afinal, do colonizado, roubando-lhe, por assim dizer, a
ponto de vista cronológico, esse prefixo refere-se faculdade da enunciação. Assim, no lugar de rei-
a ex-colônias com condições pós-coloniais radi- vindicar a posição de representante dos subalter-
calmente distintas.5 Interessa, por isso, abordar nos que “ouve” a voz desses, ecoada nas insur-
aqui o pós-colonial, a forma de “descontrução” da gências heróicas contra a opressão, o intelectual
polaridade West/Rest que se constitui, historica- pós-colonial busca entender a dominação colo-
mente, no âmbito da relação colonial, mas que se nial como cerceamento da resistência mediante a
perpetua mesmo depois de extinto o colonialismo, imposição de uma episteme que torna a fala do
como modo de orientar a produção do conheci- subalterno, de antemão, “silenciosa”, vale dizer,
mento e a intervenção política. desqualificada.
A tarefa que os autores pós-coloniais atri- Cientes da impossibilidade constatada por
buem a si é imodesta. Cabe, primeiro, mostrar Spivak, os estudos pós-coloniais buscam alternati-
que a polaridade Rest/West constrói, no plano dis- vas para a desconstrução da antinomia West/Rest
cursivo, e legitima, no âmbito político, uma rela- que sejam distintas da simples inversão do lugar da
ção assimétrica irreversível entre o Ocidente e seu enunciação colonial. Trata-se, portanto, não de dar
outro, conferindo ao primeiro um tipo de supe- voz ao oprimido, mas como definem Pieterse e
DESPROVINCIALIZANDO A SOCIOLOGIA 121

Parekh (1995, p. 12), de uma descolonização da deiro sujeito moderno, do qual mesmo os socia-
imaginação o que implica uma crítica que não seja listas e os nacionalistas mais combativos buscam
simplesmente anticolonialista,6 uma vez que, histo- construir, pela imitação, um similar nacional (para
ricamente, o combate ao colonialismo teria se uma crítica, ver Santos, 2004).
dado ainda no marco epistemológico colonial, por A tentativa de dar plausibilidade à idéia de
meio da reificação e do congelamento da suposta histórias que, a despeito de serem narradas como
diferença do colonizado em construções nativistas histórias nacionais, apresentam interpenetrações e
e nacionalistas. O pós-colonialismo deve promover se determinam mutuamente, toma corpo nos con-
precisamente a desconstrução desses essencialis- ceitos de “histórias partilhadas” e “modernidade
mos, diluindo as fronteiras culturais legadas tanto entrelaçada”, cunhados por Randeria (2000),
pelo colonialismo como pelas lutas anticoloniais. socióloga indiana da Universidade de Zurique.
Com os conceitos, a autora busca, de um lado,
expressar a interdependência e a simultaneidade
Histórias entrelaçadas dos processos de constituição das sociedades con-
temporâneas e, de outro, destacar a representação
A desconstrução da dicotomia Rest/West dicotômica, cingida, das intersecções históricas
passa, primeiramente, pela reinterpretação da his- nas representações modernas. O termo “partilha-
tória moderna. Com efeito, a releitura pós-colo- do” carrega duplamente o sentido das expressões
nial da história moderna busca reinserir, reinscre- shared e divided, isto é, trata-se de histórias com-
ver o colonizado na modernidade, não como o partilhadas em seu desenrolar, mas divididas em
sua apresentação e representação. É importante
outro do Ocidente, sinônimo do atraso, do tradi-
destacar que, ao enfatizar as interpenetrações das
cional, da falta, mas como parte constitutiva
histórias modernas, a autora não busca ofuscar as
essencial daquilo que foi construído, discursiva-
assimetrias de poder que marcam tal relação, tam-
mente, como moderno. Isso implica descontruir a
pouco significa afirmar que tudo está entrelaçado
história hegemônica da modernidade, evidencian-
na mesma medida e na mesma proporção. Trata-
do as relações materiais e simbólicas entre o
se de contextualizar as transformações observadas
“Ocidente” e o “resto” do mundo, de sorte a mos-
num feixe de relações interdependentes entre as
trar que tais termos correspondem a construções
diferentes regiões do mundo, de forma a dar sen-
mentais sem correspondência empírica imediata.
tido às assimetrias e às desigualdades construídas
Esse é o projeto perseguido pelo historiador no interior da história moderna comum.
indiano da Universidade de Chicago, Dipesh A insistência na idéia de uma constituição
Chakrabarty (2000). Sob a divisa “provincializar a entrelaçada da modernidade carrega uma intenção
Europa”, o autor busca radicalizar e transcender o dupla. Inicialmente, busca-se mostrar a cegueira
universalismo liberal, mostrando que o racionalis- epistemológica que o binarismo West/Rest lega às
mo e a ciência, antes de serem marcas culturais diferentes disciplinas. Ou seja, ao tratar esse “outro”
européias, são parte de uma história global, no do Ocidente, de forma evolucionista e hierárquica,
interior da qual o monopólio “ocidental” na defi- como um vácuo de sociabilidade, “pré-estágio do
nição do moderno foi construído tanto com o si mesmo europeu”, disciplinas como a sociologia
auxílio do imperialismo europeu, como com a acabam tomando por novos e decorrentes da glo-
participação direta do mundo “não ocidental”. balização contemporânea processos como “a debi-
Isto é, as histórias nacionais de países não euro- litação da soberania nacional, informalização e fle-
peus se apresentam como narrativas de constru- xibilizaçao do trabalho, dependência de
ção de instituições – cidadania, sociedade civil acontecimentos remotos, hibridicidade cultural”
etc. –, que só encerram sentido se projetadas no (Idem, p. 45) – todos eles, na verdade, velhos
espelho de uma “Europa hiperreal”, na medida conhecidos das sociedades (pós-)coloniais.
em que ignoram as experiências efetivas das Ao mesmo tempo, a ênfase na constituição
populações de tais países. Nessas histórias nacio- entrecruzada da modernidade busca lançar luz
nais, a Europa imaginada é a morada do verda- sobre o papel das colônias como campo de expe-
122 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 21 Nº. 60

rimentação da modernidade. Se, pelo menos construída, no processo mesmo de sua manifesta-
desde a publicação d’O capital de Karl Marx, a ção, ela não é uma entidade ou expressão de um
importância da expansão colonial na formação do estoque cultural acumulado, é um fluxo de repre-
capitalismo é conhecida, a ênfase pós-colonial na sentações, articuladas ad hoc, nas entrelinhas das
história partilhada busca chamar a atenção para identidades externas totalizantes e essencialistas –
outras dimensões dessa interdependência. Conrad a nação, a classe operária, os negros, os migrantes
e Randeria (2002, p. 26) nomeiam estudos diver- etc. Nesses termos, mesmo a remissão a uma
sos que, dentro desta perspectiva, mostram como suposta legitimidade legada por uma tradição
a idéia (moderna) de reformar a ordem social por “autêntica” e “original” deve ser tratada como
meio da “intervenção orientada estrategicamente” parte da performatização da diferença – no senti-
é gestada na segunda metade do século XIX, pri- do lingüístico do ato enunciativo e no sentido dra-
meiro nas colônias e só depois é importada, como matúrgico da encenação. Assim, tal reivindicação
possibilidade de “modernização”, da Europa. de legitimidade precisa ser entendida a partir da
Exemplos de tal processo são os projetos de rees- contextualidade discursiva em que se insere:
truturação urbana experimentados primeiro no
norte da África e depois aplicados na França, bem Termos do engajamento cultural, sejam eles anta-
como a técnica de verificação da identidade pela gonistas sejam de filiação, são produzidos perfor-
impressão digital, inicialmente posta em prática mativamente. A representação da diferença não
tem de ser interpretada apressadamente como um
em Bengala.
conjunto pré-fornecido de caracteres étnicos ou
culturais no âmbito de um corpo fixo da tradição.
Da perspectiva da minoria, a articulação social da
O lugar de enunciação pós-colonial: diferença representa uma complexa negociação
elogio do híbrido em curso que busca autorizar os hibridismos que
aparecem nos momentos de transformação histó-
Em vez de buscar os fatos e as conexões que rica. O “direito” de significar a partir da periferia
possam reposicionar o (pós-) colonizado na his- do poder autorizado e privilegiado não depende
tória moderna, outros autores, mais convictos das da persistência da tradição; tal direito está funda-
possibilidades do pós-estruturalismo, concentram do no poder da tradição de ser reinscrita por
seu esforço (pós-colonial) na relação entre dis- meio das condições de contingência e contradi-
ção que respondem às vidas daqueles que “estão
curso e poder, buscando encontrar um lugar de
em minoria”. O reconhecimento que a tradição
enunciação que possa escapar às adscrições
louva é uma forma parcial de identificação.
essencialistas e transgredir as fronteiras culturais Retomando o passado, tal reconhecimento intro-
traçadas pelo pensamento colonial. O crítico lite- duz outras temporalidades culturais na invenção
rário indiano Homi Bhabha (1994) é quem perse- da tradição. Esse processo torna estranho qual-
gue essa estratégia com mais pertinácia. Seu inte- quer acesso imediato a uma identidade original
resse está voltado para os espaços de enunciação ou tradição “recebida” (Bhabha, 1994, p. 2)
que não sejam definidos pela polaridade den-
tro/fora, mas se situem entre as divisões, no A afirmação da diferença, conforme descrita
entremeio das fronteiras que definem qualquer por Bhabha, não pode ser entendida como ação
identidade coletiva. social, nos termos utilizados normalmente pelas
Em contraposição às construções identitárias teorias sociológicas da ação, uma vez que a ação
homogeneizadoras que buscam aprisionar e loca- não pode ser inscrita numa narrativa teórica. Isto
lizar a cultura, apresenta-se a idéia da diferença, é, não se verifica em Bhabha uma relação deci-
articulada contextualmente, nas lacunas de sentido frável entre ação e estrutura, nem um alinhamen-
entre as fronteiras culturais. Diferença aqui não to entre self e sociedade que pudesse ser decodi-
tem o sentido de herança biológica ou cultural, ficado num modelo sociológico generalizante:
nem de reprodução de uma pertença simbólica “não pode haver qualquer fechamento discursivo
conferida pelo local de nascimento, de moradia ou da teoria” (Idem, p. 30; ver também McLennan,
pela inserção social, cultural etc. A diferença é 2000, p. 77). Mesmo a idéia de sujeito precisa ser
DESPROVINCIALIZANDO A SOCIOLOGIA 123

compreendida fora dos cânones das ciências caracteriza o momento de “hibridação” do signo
sociais. A rigor, Bhabha evita a remissão à idéia e, embora operado com a participação do sujeito
de um sujeito que seja definido pelo vínculo a um é, como mencionado, fortuito, aleatório, é uma
lugar na estrutura social ou que seja caracterizado interação contingente (Bhabha, 1994, pp. 185ss.).
pela defesa de um conjunto determinado de A idéia de hibridismo adotada por Bhabha
idéias. O sujeito é sempre um sujeito provisório, tem sua origem na análise do lingüista e teórico
circunstancial e cingido entre um sujeito falante e da cultura Mikhail Bakhtin, o qual distingue uma
um sujeito “falado”, reflexivo. O segundo nunca involuntária “mistura de duas linguagens sociais
alcança o primeiro, só pode sucedê-lo. Isso, con- dentro de uma mesma afirmação” e a “confronta-
tudo, não implica a impossibilidade da resistência çao dialógica” de duas linguagens na forma de
à dominação. um “hibridismo intencional” (Grimm, 1997, p. 53).
A subversão possível está relacionada com o Bhabha nega o traço intencional, mostrando que
deslizamento do sentido dos signos. A idéia, como o fenômeno da hibridação independe da vontade
se mostra adiante, tomada emprestada do pós- do sujeito. Além disso, a hibridação se presta, na
estruturalismo, é de que os signos possuem possi- relação colonial, não apenas à reação à domina-
bilidades inesgotáveis de significação e só podem ção, mas também à afirmação do próprio poder
ganhar um sentido particular, ainda assim provisó- do colonizador. Conforme o autor, diferentemen-
rio e incompleto, num contexto significativo deter- te do que postularam os “pós-estruturalistas oci-
minado. Nenhum contexto discursivo particular dentais”, “puristas da diferença”, o poder não se
esgota plenamente o repertório de significações produz unicamente por meio da transparência –
atribuíveis a um signo; a ação criativa é aquela das regras de classificação, de inclusão e exclu-
que subverte, redefine o signo, a partir de um são, da identidade do colonial e do colonizado
lugar enunciatório deslocado dos sistemas de etc. Na relação colonial, fundem-se cadeias de
representação fechados. Não se trata, portanto, significações que hibridizam a reivindicada iden-
conforme Bhabha, de uma intervenção informada tidade pura do colonizador, ao mesmo tempo em
por um sistema de representação concorrente, que o colonizado se, de um lado, apenas imita o
mas de um lugar fronteiriço, de alguma maneira colonizador, também desloca, hibridiza signos da
fora dos sistemas de significações totalizantes e dominação colonial, esvaziando-os da simbologia
que é capaz, por isso, de introduzir inquietação e da dominação (Bhabha, 1995 [1985], p. 34).
revelar o caráter fragmentário e ambivalente de A partir do uso cunhado por Bhabha, os
qualquer sistema de representação. A eficácia da conceitos “hibridismo” (e “hibridação”) generali-
intervenção é também sempre contingente, aberta, zam-se nos estudos pós-coloniais, ainda que
indefinida, trata-se de uma ação dentro da área de ganhem em cada autor matizes distintos (para
influência do sujeito, mas fora de seu controle. uma comparação, ver Papastergiadis, 1997).7 A
O lugar de enunciação entre os sistemas de despeito dos diferentes usos, o conceito permite
representação é definido por Bhabha como um operar dois movimentos fundamentais. O primei-
“terceiro espaço” e corresponde ao contexto “no ro é descontrutivista: ao revelar o traço híbrido de
qual a contingência espacial das fronteiras nacio- toda construção cultural, busca-se desmontar a
nais e raciais é combinada com o que ele descre- possibilidade de um lugar de enunciação homo-
ve como a contingência temporal do indecifrável” gêneo. Qualquer lugar da enunciação é, de saída,
(Philips, 1999, p. 68). Isto é, o terceiro espaço não um lugar heterogêneo, de modo que a pretensão
se refere a um locus fixo na tessitura social, mas de homogeneidade é sempre arbitrariamente hie-
sim ao instante no qual o caráter construído e rarquizadora. O segundo movimento é, se assim
arbitrário das fronteiras culturais fica evidenciado. se pode dizer, normativo: o hibridismo define
Tal acontece quando signos são deslocados de uma condição global cosmopolita. Trata-se da
seu referenciamento espacial e temporal e ainda referência a uma cultura e a um mundo híbrido
se encontram, por assim dizer, em movimento, ou como alusão a uma ecumene mundial acima das
seja, não foram inscritos num outro sistema de barreiras raciais, nacionais, étnicas etc.: “uma cul-
representação totalizante. Esse deslocamento tura internacional, baseada não no exotismo do
124 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 21 Nº. 60

multiculturalismo ou na diversidade de culturas, O autor postula que a globalização deve ser


mas na inscrição e na articulação de culturas da entendida como hibridação, o que implica um
hibridez (Bhabha, 1994, p. 38). Esse ideal cosmo- processo de multiplicação e interpenetração dos
polita confere uma conotação positiva à multipli- modos disponíveis de organização – transnacio-
cação das possibilidades de percepção do mundo nal, internacional, macrorregional, nacional,
a partir de um lugar fora do contexto espacial e microrregional, municipal –, uma combinação,
simbólico das comunidades imaginadas que nas diferentes esferas sociais, de lógicas de coor-
acompanha a globalização. Esse “convite” à hibri- denação variadas, além do surgimento, no âmbi-
dação é inerente às biografias contemporâneas, to cultural, de uma mélange global. Esta idéia cor-
de forma geral, e encontra na figura do migrante responde a uma generalização dos processos de
“pós-colonial” sua representação emblemática. O interpenetração cultural, descritos, como casos
cosmopolitismo como hibridação inscreve-se particulares, em expressões como creolização,
assim no horizonte de possibilidades, como alter- mestizaje, orientalização, cross over culture e que
nativa ao universalismo modernista: destacam a hibridação das partes envolvidas e o
surgimento permanente de novas misturas. Tal
O modernismo combate a etnicidade em nome não implica assumir que as partes que se juntam
do universalismo, da identidade de todas as pes- na mélange sejam puras, originárias. Nesse senti-
soas com seus direitos individuais. O pós-colo- do, a hibridação que tem lugar na globalização
nialismo faz o mesmo em nome da mistura e da corresponde a uma mistura de misturas.
hibridez, reivindicando uma humanidade de tal Para tornar seu argumento plausível,
maneira fundida em suas características culturais Pieterse contrapõe à idéia de cultura como um
que não há chances para qualquer absolutismo conjunto de propriedades ortogenéticas e endô-
étnico. A isso que eu me refiro como cosmopoli- genas de uma comunidade orgânica e homogê-
tismo sem modernismo (Fridman, 1995, p. 76).
nea, em geral, associada a um local geográfico
determinado, o conceito de cultura translocal,
Para além de seu papel como remissão a um heterogenética e heterogênea, desenvolvida em
lugar de enunciação que se impõe entre as fron- redes difusas. Enquanto, no primeiro caso, os
teiras culturais e como ideal cosmopolita, o termo intercâmbios culturais são vistos como um fenô-
hibridismo ganhou, no campo da sociologia, com meno estático e que sempre faz referência a um
um ensaio de Nederveen Pieterse (1995, 2003), uso centro, no segundo, os intercâmbios são fluidos,
macroanalítico como categoria de estudo da glo- descentrados, transculturais. A globalização repre-
balização. O autor considera que as análises cor- sentaria o processo, obviamente não linear, que
rentes nesse campo buscam, em geral, associar conduz à generalização desse segundo tipo de
globalização e modernidade e acabam se tornando relação cultural, levando, assim, não à homoge-
um anexo da teoria da modernização, traduzindo a neização, mas à diversificação, não à hegemonia
globalização como uma ocidentalização do mundo cultural, mas à interpenetração cultural, não à oci-
(westernization). Os autores que pretendem fugir dentalização, mas à mélange global, ou seja, à
a essa visão da globalização, como Therborn, hibridação (Idem, pp. 61ss.).
Amin, Pred e Watts, indicam que cada sociedade Mesmo que inovador, o uso feito por Pieterse
“retrabalha” a modernidade, definindo suas pró- da idéia de hibridação como categoria de análise
prias trilhas modernizantes. Recaem, contudo, da globalização apresenta problemas graves, parte
invariavelmente, num policentrismo que continua dos quais ele próprio reconhece: “o que falta é o
oferecendo uma representação estática e unidi- reconhecimento do atual desnível, assimetria e
mensional da globalização: “a multiplicação dos desigualdade nas relações globais” (Idem, p. 54). A
centros que continua, contudo, ainda amparada no inexatidão do conceito não me parece, contudo,
centrismo” (Pieterse, 1995, p. 48). Todas essas um problema de refinamento teórico, como se
abordagens desconsideram, segundo Pieterse, algo fosse possível, como parece acreditar Pieterse, pre-
fundamental no processo de globalização, que é cisá-lo, por meio de novas pesquisas. O problema
precisamente a gobalização da diversidade. é metodológico. Na operação desenvolvida por
DESPROVINCIALIZANDO A SOCIOLOGIA 125

Pieterse, o conceito hibridação vai acumulando ções encontra-se, contudo, assente na própria lin-
tantas funções e definições que acaba se tornando guagem, visto que significantes e significados
o sinônimo do que deveria explicar, como mostra nunca se correspondem inteiramente. A différan-
o próprio título do ensaio do autor: “Globalization ce remete ao excedente de sentido que não foi,
as hybridation”. Ao final, o autor descentra tanto o nem pode ser significado e representado nas dife-
conceito de modernidade como o de cultura, mas renciações binárias.
não descentra, ao contrário unifica, a lógica de Tal não deve sugerir um novo binarismo
produção e reprodução da modernidade e da cul- entre, de um lado, uma realidade completa ante-
tura: trata-se de um lógica híbrida. Ainda que rior, como o ser anterior pré-lingüístico e, de
entenda o sentido crítico que o apelo à idéia de outro, sua representação lingüística, parcial, redu-
hibridação possa ter para autores como Bhabha ou zida. Não há uma realidade anterior ao discurso;
Pieterse, seu uso como categoria analítica é, a meu a realidade social é construída pela linguagem e,
juízo, um equívoco. O conceito multi-uso funciona nesse sentido, a différance só pode se constituir
como um moinho que primeiro quebra para na órbita do discurso. A noção de différance
depois fundir as nuanças e as diferenciações que rompe, precisamente, com a idéia da diferença
devem precisamente despontar na análise. Quando pré-existente, ontológica, essencial, que pode ser
parte da idéia de hibridação, o analista é levado ao apresentada e representada discursivamente. A
raciocínio circular: parte da premissa de que a(s) différance constitui-se no ato de sua manifesta-
modernidade(s), as culturas, as pessoas, a globali- ção, no âmbito da trama mesma de representa-
zação, ele próprio são híbridos, para concluir, ções, diferenças e diferenciações. Também o
triunfalmente, depois de um enorme esforço de sujeito se descentra. Ele se forma nas cadeias
desconstrução e metonimização, que a(s) moder- móveis de significação, a rigor é parte delas: não
nidade(s), as culturas, as pessoas, a globalização, é anterior à linguagem, nem constitui uma enti-
ele próprio são, Eureka!… híbridos. dade e uma identidade independente, tampouco
é aquele que, como se poderia pensar, age sobre
a différance, buscando preencher as “sobras” de
Da diferença ao sujeito sentido que ela expressa, (re)constituindo as tota-
lidades. Não se trata de sujeitos inseridos numa
A concepção de diferença formulada, tanto estrutura, mas de cadeias de significações nas
por Bhabha como por Stuart Hall e Paul Gilroy, quais sujeitos e estruturas tem o status similar de
decorre do pós-estruturalismo e, mais particular- sinais flutuantes que ganham e perdem sua signi-
mente, da noção de différance, conforme a acep- ficação – sempre incompleta – no jogo semântico
ção de Derrida. Sem poder me estender aqui num da diferenciação (ver Dietrich, 2000).
debate ainda muito vivo e com desdobramentos Em seu debate com Lévi-Strauss, Derrida
para campos tão diversos quanto a teoria feminis- (1972) mostra que o fato de atribuir um caráter
ta, o direito internacional e a teoria cultural, regis- aberto, arbitrário, indefinido, aos jogos lingüísti-
tra-se que, ao cunhar o neologismo différance, cos caracteriza sua ruptura com o estruturalismo.
como corruptela do vocábulo francês différence, Para o autor, a idéia de jogo em Lévi-Strauss é
Derrida indica a existência de uma diferença que perpassada por certa “ética da presença”, como se
não é traduzível no processo de significação dos houvesse uma origem última, uma essência por
signos, nem organizável nas polaridades identitá- trás do signo que, em algum momento, pudesse
rias – eu/outro, nós/eles, sujeito/objeto, ser atualizada, feita presente na linguagem. Aqui
mulher/homem, preto/branco, significante/signifi- definem-se, para Derrida, duas formas de conce-
cado. Tais distinções e classificações binárias cons- ber as ciências humanas: a primeira busca a ori-
tituem o modo ocidental, logocêntrico de apreen- gem última, a verdade por trás das ilusões da
der o mundo e constituem a base das estruturas de representação, a segunda aceita a participação no
dominação modernas. Criam, ainda, a ilusão de jogo incerto, a partir de uma posição flutuante.
representações completas, totalizantes, que não Esta segunda, a qual ele se filia, é desconstruti-
deixam resíduos. A incompletude das representa- vista, busca sempre o resíduo metafísico presente
126 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 21 Nº. 60

nos discursos generalizantes, sejam eles diferen- não pode ser um ato volitivo do sujeito; tal se dá
cialistas ou universalistas. nas interações. Na passagem a seguir, essa posi-
A radicalidade contida na idéia de différance ção é, uma vez mais, enfatizada:
e na diluição da oposição entre sujeito e estrutura
operada por Derrida é, conforme entendo, inter- O processo de reinscrição e negociação – a inser-
pretada, ou melhor talvez, operada, de maneira ção ou intervenção de algo que assume novo
distinta por Bhabha, de um lado, e por Hall e sentido – acontece no intervalo de tempo entre o
Gilroy, de outro. Ambos os usos se apóiam no signo, privado de subjetividade e no escopo da
pós-estruturalismo para escapar à idéia da diferen- intersubjetividade. Neste intervalo – a quebra
temporal na representação – emerge o processo
ça fixa, essencial, seja ela impingida, seja auto-atri-
da agência (Bhabha, 1994, p. 191).
buída. A diferença é aqui uma “categoria enuncia-
tória”. Com efeito, o pós-estruturalismo tem, nos
Papastergiadis (1997, p. 279) tem razão ao
dois casos, uma importância central na descons-
afirmar que a preocupação de Bhabha não é a sal-
trução de discursos polares que opõem um “eu” a
um “outro”, um “nós” a um “eles”. Isto vale tanto vação, a remissão, trata-se mais propriamente de
para o discurso colonial-imperialista, como para o uma crônica dos processos, “por meio da qual as
nacionalista, ou ainda para o discurso multicultu- táticas de sobrevivência e continuidade são articu-
ralista, malgrado suas boas intenções. Em todos os ladas”. Bhabha aposta, sim, na multiplicação das
casos, a diferença é celebrada como identidade diferenças, entendidas como processos de hibrida-
homogênea, semelhança (sameness) irredutível, ção que se articulam entre as fronteiras culturais,
posto que se estabelece aqui uma correspondên- e vê nelas a possibilidade de subverter os discur-
cia entre inserção sociocultural numa estrutura sos totalizantes, sejam eles hegemônicos ou não.
pré-discursiva e um lugar enunciatório determina- Isto é, a disseminação das situações híbridas – que
do no jogo lingüístico ou político. Com isso, a acompanham as migrações de pessoas e signos –
diferença é domesticada, homogeneizada, aprisio- tem um sentido positivo na medida em que cria
nada em uma nova fronteira, perdendo precisa- condições de possibilidade para a articulação de
mente seu caráter imprevisível, incerto, contingen- novas diferenças. Isso explica a atenção conferida
te, do qual decorre, para Bhabha, Hall e Gilroy, pelo autor aos imigrantes, às minorias nacionais
suas possibilidades subversivas. No lugar de iden- etc. A importância desses não é, contudo, a do
tidade, os autores preferem falar de identificação, ator reflexivo que confronta os discursos domi-
como posição circunstancial nas redes de signifi- nantes. Seu efeito transformador está relacionado
cação (Hall, 1996b, pp. 2ss.). com a abertura de possibilidades de construção de
Bhabha, contudo, parece levar até as últimas novos sentidos, proporcionadas pela presença do
conseqüências a contingência dos jogos lingüísti- imigrante. Ou seja, o deslocamento espacial e tem-
cos nos quais as diferenças são constituídas e poral dos signos hibridiza, potencialmente, os
negociadas. Não me parece autorizada a recepção contextos de significação, introduzindo a incerte-
que dele fazem intelectuais ligados aos movimen- za, a ambivalência, o ruído e a dúvida naquilo que
tos sociais (imigrantes, feministas), procurando parecia coerente, “puro”, preciso, ordenado. Tal
depreender do autor uma teoria da transformação aposta não implica, contudo, “re-centralizar” o
social, na qual se destaca um sujeito “negociador” sujeito, dando-lhe um papel de protagonista
de diferenças com o fim da resistência política e social, como fomentador da hibridação. Esse pro-
da subversão das relações de dominação. O con- cesso, reiterando, escapa ao controle do ator. Não
gelamento de um lugar enunciatório como sub- há uma teleologia do hibridismo, nem a reificação
versivo ignora o caráter contingente da agência, da consciência de um ator que pudesse concreti-
peça fundamental da argumentação de Bhabha. zá-la. O que o autor afirma é que as migrações de
Como já destaquei, a ressignificação das relações signos aumentam os contextos de produção de
de dominação, a possibilidade de resistência polí- cadeias de significação híbridas – apenas como
tica, para Bhabha, está subordinada, irremediavel- possibilidade! A presença de “signos estrangeiros”
mente, ao princípio da casualidade: a resistência também pode levar – e efetivamente leva – à petri-
DESPROVINCIALIZANDO A SOCIOLOGIA 127

ficação das fronteiras culturais, mediante a cons- desdobramento, na verdade um abrandamento,


trução da figura do “forasteiro” como o “outro” da do projeto teórico de Foucault a respeito da
própria identidade dominante – os chamados pro- subordinação dos sujeitos aos discursos. Para che-
cessos de othering. Em que medida a migração de gar à sua própria formulação, Hall (1997b, pp.
signos produzirá mais hibridação ou mais adscri- 41ss.) reconstrói a reflexão de Foucault com o
ções é algo que o sujeito migrante, como mencio- intuito de mostrar que os trabalhos mais tardios
nado, pode influenciar, mas não pode controlar. O do autor indicam dois sentidos diversos dessa
sujeito é um signo na cadeia de significações. subordinação. O primeiro está associado ao
Em contrapartida, Hall quer ir além dos momento de construção e institucionalização, nas
jogos textuais da inscrição e da reinscrição, bus- diferentes épocas, do discurso disciplinador que,
cando construir, com base na idéia de sujeitos ao enquadrar, constitui os diferentes sujeitos. Ao
descentrados, uma sociologia política das nego- mesmo tempo, contudo, os discursos produzem
ciações culturais. um “lugar para o sujeito”, na medida em que
Hall busca distinguir três concepções de abrem espaço para um posicionamento indivi-
sujeito: o cartesiano ou do iluminismo – auto-refe- dual. Ou seja, o discurso ganha sentido, uma vez
rido com uma identidade autocentrada e consti- que nós nos posicionamos e, dessa forma, nos
tuída pela razão –, o da sociologia e o sujeito des- tornamos sujeitos, em face do regime de verdade
centrado, denominado pós-moderno. O sujeito da que uma determinada formação discursiva esta-
sociologia constitui-se em suas relações com belece. Tal posicionamento não se confunde com
autonomia e intenção do sujeito; porém, ainda
[...] “outros com significação”, os quais transmi- assim, permite, conforme Hall, identificar um
tem ao sujeito valores, significados e símbolos – momento, no processo de produção do self, mar-
a cultura – dos mundos que ela/ele habita. [...] O cado pela autoconstituição, pela subjectification.
sujeito continua tendo uma essência interna Esse momento, no âmbito da produção dis-
nuclear, qual seja, um “eu verdadeiro”, mas for- cursiva do self, representa o fundamento da
mado e modificado em contínuo diálogo com
noção de sujeito descentrado postulada por Hall.
mundos culturais “externos” e com as identidades
Trata-se de analisar a relação entre sujeito e for-
que tais mundos oferecem (Hall, 1992, p. 275).
mação discursiva, de sorte a indicar os mecanis-
mos que levam os indivíduos a se identificar ou
G. H. Mead, C. H. Cooley e os interacionistas sim-
não com determinadas posições,
bólicos seriam as figuras centrais no desenvolvi-
mento dessa concepção de sujeito e identidade,
[...] bem como as maneiras como esses indivíduos
que se tornaram clássicas na sociologia. A con-
marcam, estilizam, produzem e desempenham
cepção de sujeito descentrado decorre de desen- tais posições [...] encontrando-se em constante e
volvimentos teóricos diversos que produzem, em agonístico processo de lutar contra, resistir, nego-
seu conjunto, a imagem de um indivíduo que não ciar e acomodar-se às ordens regulativas ou nor-
possui uma identidade permanente ou essencial. mativas com as quais eles estão confrontados e
A idéia de uma identidade completa e única reve- que os regula (Hall, 1996e, p. 13).
la-se uma fantasia ante a multiplicação dos siste-
mas de representação a nos confrontar com “uma O conceito-chave utilizado por Hall para des-
fervilhante variedade de identidades possíveis” crever o processo de posicionamento do sujeito
(Idem, p. 277). Nesse contexto, a sensação de que no interior de uma formação discursiva determi-
possuímos uma identidade unificada que nos nada é a idéia de articulação, analisada nos dois
acompanha por toda a vida nos é provida por sentidos que a palavra possui em inglês, qual seja,
uma “narrativa do self ”, por meio da qual se res- o de falar, se articular, ser articulado e o de cone-
significa o conjunto de nossas experiências a par- xão de dois elementos que podem constituir uma
tir de um fio de coerência e continuidade. unidade em determinadas circunstâncias, como o
A concepção de sujeito descentrado desen- “caminhão articulado”, no qual cabine e carreta
volvida por Hall pode ser entendida como um podem constituir uma unidade circunstancial.
128 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 21 Nº. 60

O princípio da articulação possível, mas não quando aplicados ao estudo de contextos concre-
necessária, pode ser observado tanto no processo tos, permitem não apenas descrever fenômenos,
de constituição dos sujeitos individuais que se mas também contextualizá-los política e normati-
reposicionam, permanentemente, em face da for- vamente. Por isso, para avaliar se a identificação
mação discursiva, como na produção dos sujeitos buscada reproduz as categorizações hegemônicas
coletivos. A tarefa teórica, que ainda não foi rea- ou se articula novas diferenças, Hall recorre a cate-
lizada, é precisamente mostrar sob quais circuns- gorias auxiliares que permitem, em alguma medi-
tâncias discursos e sujeitos se formam, isto é, se da, valorações no sentido político e normativo.
articulam. Nesse escopo, uma teoria da articula- Destaca-se aqui conceitos como política de repre-
ção representa sentação, transcodificação (trans-coding) e novas
etnicidades (new ethnicities), construídos, sobretu-
[...] tanto uma maneira de entender como os ele- do, à luz da experiência das lutas anti-racistas na
mentos ideológicos chegam, sob certas condi- Inglaterra nas últimas quatro décadas.
ções, a se condensar num discurso, quanto uma A rigor, Hall distingue dois momentos na
maneira de questionar como estes se articulam ou resistência cultural contra o racismo. O primeiro
não, em certas conjunturas, como determinados coincide com a fase em que o termo black foi
sujeitos políticos. Em outras palavras: a teoria da
cunhado como referência comum à experiência
articulação questiona como uma ideologia desco-
de marginalização e das práticas racistas domi-
bre seu sujeito e não como o sujeito encontra os
pensamentos que lhe pertencem necessária e ine-
nantes na Grã-Bretanha. A estratégia da resistên-
vitavelmente. Tal teoria permite pensar como cia combina, nesse período, a luta pelo acesso ao
uma ideologia confere poder às pessoas, possibi- direito de construção das próprias representações
litando-lhes dar sentido ou inteligibilidade à sua e a contestação “da marginalidade, a qualidade
situação histórica sem reduzir as formas de inteli- estereotipificada e a natureza fetichizada das ima-
gibilidade à situação social ou à posição de clas- gens dos negros, mediante a contraposição de um
ses das pessoas (Hall, 1996b, p. 141). conjunto ‘positivo’ de imagens do negro” (Hall,
1996c, p. 442; ver também 1996d). O foco da
A referência a sujeitos coletivos não deve resistência ao racismo, nessa primeira fase, é defi-
sugerir a idéia de grupos constituídos pré-discur- nido por Hall como o campo das relações de
sivamente, a partir de condições objetivas, mate- representação em oposição ao que predomina na
riais e que, por assim dizer, estejam à espera de segunda fase e que ele chama de políticas de
um discurso que decifre sua condição comum e representação. Essa idéia remete à constituição
os constitua como sujeitos. Sujeitos e discursos discursiva do social e implica entender represen-
formam-se de modo simultâneo, ou, em outras tação não como uma expressão e apresentação
palavras, sujeitos só podem se articular a partir de pública de realidades e relações pré-constituídas,
discursos. Articulação permanece, contudo, para mas como momento constitutivo das relações
Hall, um conceito estritamente analítico-descritivo sociais. A política de representações remete, por
e que se aplica a qualquer forma de relação entre isso, a uma intervenção voltada para influenciar
sujeito e formação discursiva, isto é, não qualifica os termos mesmos em que o social se constitui
a priori se determinada posição assumida pelo (Hall, 1997b, 1997c).
sujeito reproduz as relações de dominação ou se Essa segunda fase caracteriza o momento
tem o sentido de resignificar as relações sociais. em que a resistência anti-racista interage com os
Não há, no trabalho de Stuart Hall, um lugar discursos do pós-estruturalismo, do pós-moder-
normativo fora do discurso ou anterior ao jogo nismo, da psicanálise e do feminismo, observan-
político, a partir do qual se possa valorar as posi- do-se o que Hall define como “o fim da inocên-
ções assumidas pelo sujeito. Tampouco há cons- cia”, ou seja, o reconhecimento de que a
tantes normativas que funcionem como medidas categoria black é uma construção política e cultu-
de aferição daquilo que passa a ser “desejável”. ral, “a qual não pode ser fundada num conjunto
Ainda assim, ou talvez precisamente por isso, os de categorias raciais fixadas transcultural ou trans-
instrumentos analíticos desenvolvidos pelo autor, cendentalmente e que, por isso, não encontra
DESPROVINCIALIZANDO A SOCIOLOGIA 129

qualquer amparo na natureza” (Hall, 1996c, p. do que o posicionamento estrutural e as avalia-


443). O fim do sujeito centrado – black people – ções racionais, oferecem uma discussão mais
como uma totalidade positiva força o movimento ampla e um sentido mais inclusivo da riqueza da
anti-racista a deparar-se com a questão da dife- experiência social do que a sociologia” (Idem, p.
rença e da différance, nos termos tratados acima. 82). Ao mesmo tempo, contudo, McLennan mos-
Isto é, se as formas de representação racistas tra que a teoria pós-colonial, caso tenha alguma
organizam o mundo em diferenças binárias, fixas pretensão analítica, será prisioneira do mesmo
e ontológicas – preto ou branco, black or british –, dilema imposto à sociologia. Afinal, teorizar
o anti-racismo não pode se resumir na busca pela implica, em algum momento, reduzir a experiên-
representação positiva daquele que é considera- cia às prioridades e às categorias conceituais do
do, nessas polaridades, inferior; é preciso des- marco analítico escolhido.
montar o próprio sistema de representações. Daí Gostaria de propor uma aproximação entre
advém a aposta na política de representações, o os estudos pós-coloniais e as ciências sociais um
que implica reconhecer e assumir plenamente a pouco distinta daquela que faz McLennan.
heterogeneidade e o descentramento do sujeito, Restringirei minhas observações ao campo da
buscar a différance múltipla no interior da dife- sociologia, deixando ao leitor que tenha maior
rença binária (branco/preto) e recuperar as inter- domínio das respectivas áreas de estudo a tarefa
seções entre raça, classe, gênero e etnia. É preci- de refletir sobre as relações entre a teoria pós-
samente na articulação dessas diferenças – todas colonial e os demais campos das ciências sociais,
elas móveis, cambiantes, construídas no momen- sobretudo a antropologia e a ciência política.
to de sua manifestação discursiva – que o sujeito Antes de tudo há que se abandonar a postu-
da resistência anti-racista se constitui como “nova ra reativa e defensiva freqüentemente assumida
etnicidade”.8 pela sociologia e tomar a radicalidade do discur-
so pós-colonial, antigeneralizante, anti-establis-
hment e “ameaçador” do modernismo sociológico
(Im-)possibilidades de uma sociologia não em seus termos, mas como estratégia perfor-
pós-colonial mática de construção de novos espaços institu-
cionais. Interessa atravessar a bruma retórica, de
Ao buscar traduzir em termos sociológicos a sorte a identificar quais são, efetivamente, os
reflexão pós-colonial – fundamentalmente a partir impulsos novos que os estudos pós-coloniais
dos trabalhos de Homi Bhabha – e avaliar seu podem trazer para a sociologia. Não é o caso,
impacto sobre a produção teórica no campo das aqui, portanto, de confrontar “estilos teóricos” ou
ciências sociais, McLennan (2003) chega a um epistemologias, mas de destacar alguns pontos de
resultado ambivalente. De um lado, mostra que tangenciamento e possibilidades de tradução.
os estudos pós-coloniais alvejam o calcanhar de Para tanto, retomo o roteiro de apresentação das
Aquiles da sociologia de três formas diferentes. alternativas epistemológicas pós-coloniais, a partir
Em primeiro lugar, deslegitimam uma certa socio- dos três momentos destacados anteriormente,
logia do subdesenvolvimento, mostrando que ela quais sejam, a crítica à leitura teleológica da his-
insiste, ainda, na representação de um “outro” tória moderna, a busca de um lugar híbrido de
inferior e carente de civilização. Em segundo, enunciação e, por fim, a “articulação” do sujeito
atingem a sociologia multiculturalista ou pluralis- descentrado.
ta, quando mostram que a idéia de um espaço A sociologia é, sem dúvida, vulnerável à crí-
imparcial de representação de diferenças culturais tica pós-colonial da visão teleológica da moderni-
pré-existentes é implausível. Em terceiro, recaem zação. Não obstante, parece-me que o alvo parti-
sobre o conjunto de disciplinas das ciências cular dessa crítica não é a sociologia, como tal,
sociais vinculadas ao estilo de teorização genera- mas um ramo particular dessa disciplina – a
lizante, inadequado para captar a dinâmica social: macrossociologia da modernização. Ora, a crítica
“[...] os estudos culturais pós-coloniais, ao subli- à teoria da modernização, escola de pensamento
nhar a ‘performatividade’ e a ‘liminalidade’ mais que vive sua fase áurea nos Estados Unidos, nos
130 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 21 Nº. 60

anos de 1950 e 1960, remonta pelo menos ao final acima e além das fronteiras culturais, ainda que
da década de 1960, quando atacava-se, precisa- possa ser construída como um instante no texto
mente, o caráter etnocêntrico, endogenista de tal literário (Bhabha oferece exemplos diversos nessa
corrente e a suposição de que da “modernização” direção), parece-me desprovida de qualquer rele-
da economia decorreria, automaticamente, trans- vância sociológica. Ou seja, não há, na topografia
formações em outras esferas, como a democrati- social, terceiros lugares; todos os lugares enun-
zação da política e a secularização cultural ciatórios definem imediatamente fronteiras. Nesse
(Knöbl, 2001). sentido, o elogio do híbrido é, como o naciona-
Projetada sobre a discussão em torno da teo- lismo, o vanguardismo ou o nativismo, um dis-
ria da modernização, a crítica pós-colonial genéri- curso que, ao ser enunciado, funda novas frontei-
ca à teleologia modernizante das ciências humanas ras identitárias. Esse discurso pode ter, em
e da sociologia, em particular, pode ser mais bem determinadas circunstâncias políticas e históricas,
focalizada e perde parte de sua contundência. um efeito de mostrar o caráter contingente das
Percebe-se que ela, ainda que permaneça justifica- unidades culturais construídas – a nação, a etnia,
da e importante, trata de problemas que dizem res- o movimento social. Isso, contudo, não é ineren-
peito mais diretamente a uma corrente teórica par- te à natureza mesma do discurso sobre o hibri-
ticular e refere-se a insuficiências que, dentro da dismo, mas às articulações que tal discurso per-
própria sociologia, já foram há muito identificadas mite ou fomenta sob condições específicas: o
e contornadas de alguma maneira. Nesse sentido, mesmo elogio do híbrido, que permite a uma elite
concepções como entangled modernity não ilumi- de imigrantes cultivados na Inglaterra construir
nam uma zona de sombra da sociologia, nem são, sua tribuna para criticar a arrogância da
por assim dizer, formuladas a partir de uma posi- Englishness ou para desconstruir a pretensão de
ção externa e imune ao “regime de verdade” da unidade e pureza do “povo alemão” (Ha, 1999),
sociologia. A despeito da radicalidade retórica, pode servir, como foi o caso no Brasil dos anos
concorrem, dentro da própria sociologia, com cate- de 1940, de cimento da ideologia da mestiçagem,
gorias macrossociológicas voltadas para uma des- nacionalista, homogeneizadora e heterofóbica.
crição não evolucionista da modernização e estão Como categoria analítica e, mais especifica-
submetidas aos critérios de validação próprios à mente, como categoria macrossociológica de
disciplina. Ou seja, na medida em que pleiteiam estudo da globalização, o conceito de hibridismo
alguma forma de ressonância acadêmica, os estu- é igualmente inadequado, uma vez que sempre é
dos pós-coloniais não têm como se furtar ao apro- reposto, num movimento circular, como sinônimo
fundamento da interlocução com marcos que dis- dos processos que pretendia explicar.
putam o mesmo terreno teórico, abandonando, Pode-se concluir que o termo hibridismo
assim, a postura anti-establishment. não apresenta qualquer interesse para a sociolo-
Essa tarefa permanece ainda irrealizada. gia. Esta pode investigar o hibridismo como dis-
Com efeito, até o momento, o interesse pós-colo- curso dos atores, na medida em que tal discurso,
nial pelas contribuições que, no campo da pró- sob determinadas circunstâncias, introduz a dúvi-
pria sociologia, buscam superar o marco macros- da onde pairam certezas essencialistas e empo-
sociológico da teoria da modernização, como é o wers minorias culturais. Como categoria normati-
caso de autores como S. Amin (1989), I. va ou analítica, contudo, a inépcia do conceito
Wallerstein (1997) ou G. Therborn (1995, 2000), salta aos olhos.
não passou de descarte sumário, numa ou noutra Cabe, por fim, retomar a importância da con-
referência marginal (Pieterse, 1995; Conrad e tribuição pós-colonial para a discussão entre sujei-
Randeria, 2002; para uma crítica um pouco mais to e diferença ou, mais precisamente, para funda-
circunstanciada, ver McLennan, 2000). mentar uma microssociologia das articulações
O segundo momento da crítica pós-colonial culturais. Como procurei mostrar, os estudos pós-
descrito acima trata da busca de um lugar de coloniais têm aqui uma importância teórica que
enunciação híbrido, vale dizer, no entremeio das vai além de áreas de pesquisa particulares, como
fronteiras culturais. A idéia de um terceiro espaço, os estudos de minorias nacionais, as relações étni-
DESPROVINCIALIZANDO A SOCIOLOGIA 131

cas ou o racismo. Com efeito, naquele fraseamen- COSTA, Sérgio. (2002), As cores de Ercília. Belo
to, despido do “excesso retórico do pós-estrutura- Horizonte, Editora da UFMG.
lismo literário” (Gilroy, 1993, p. 110) e impulsio-
CONRAD, S. & RANDERIA, R. (orgs.). (2002),
nado pelo imperativo do posicionamento político,9
“Einleitung”, in _________, Jenseits des
como buscam autores como Hall e Gilroy, a dis-
Eurozentrismus, Frankfurt/M, Campus.
cussão sobre o sujeito descentrado leva a uma teo-
rização inovadora da relação entre diferença, DIETRICH, Anette. (2000), Differenz und Identität
sujeito e política. Os autores traçam um caminho im Kontext Postkolonialer Theorien – Eine
que evita tanto os equívocos das correntes pós- feministische Betrachtung. Berlim, Logos.
modernas que decretam a completa fragmentação DUSSEL, Enrique. (1998), La ética de la liberación
do sujeito, como o elogio reificador do “Sujeito ante el desafio de Apel, Taylor y Vattimo.
ocidental”, desenvolvido, por exemplo, por Alain México, Universidad Autónoma.
Touraine (1992) ou Habermas (2001).
Constróem, assim, um marco analítico que _________. (2000), “Europa, modernidad y euro-
permite ao mesmo estudar a relação entre sujeito centrismo”, in E. Lander (org.), La colo-
e discurso e identificar o espaço de criatividade do nialidad del saber: eurocentrismo y
sujeito. Essa contribuição dos estudos pós-colo- ciencias sociales, Caracas, Unesco/UCV.
niais permanece ímpar e, seguramente, ajuda as FANON, Frantz. (1965 [1952]), Peau noire, mas-
ciências sociais a, finalmente, reencontrar seu ques blancs. Paris, Éditions du Seuil.
vigor criativo.
FOUCAULT, Michel. (1972), Die Ordnung der
Dinge (orig. Les mots et les choses, 1966).
BIBLIOGRAFIA Frankfurt/M, Suhrkamp.
FRIDMAN, Jonathan. (1995), “Global system, glo-
AMIN, Samir. (1989), Eurocentrism. Londres, Zed balization and the parameters of moder-
Books. nity”, in M. Featherstone et. al., Global
APPIAH, Kwame Anthony. (1992), In my father’s modernities, Londres, Sage, pp. 69-90.
house: Africa in the philosophy of cultu- GARCIA CANCLINI, Nestor. (1990), Culturas
re. Londres, Methuen. hibridas: estrategias para entrar e salir
ASHCROFT, Bill & AHLUWALIA, Pal. (1999), de la modernidad. México, Grijalbo.
Edward Said: the paradox of identity. GILROY, Paul. (1993), The black atlantic: moderni-
Londres/Nova York, Routledge. ty and double consciousness. Cambridge,
BHABHA, Homi. (1994), The location of culture. Harvard.
Londres/Nova York, Routledge. GRIMM, Sabine. (1997), “Postkoloniale Kritik.
_________. (1995), “Cultural difference and cultu- Edward Said, Gayatri C. Spivak, H.
ral diversity, in B. Ashcroft, G. Griffiths Bhabha”. Die Beute, 14: 48-61.
e H. Tiffin (eds.), The postcolonial stu- HA, Kien Nghi. (1999), Ethnizität und Migration.
dies reader, Londres/Nova York, Münster, Westliches Dampfboot.
Routledge.
HABERMAS, Jürgen. (2001), Zeit der Übergänge.
_________. (1996), “Culture’s in-between”, in S.
Frankfurt/M, Suhrkamp.
Hall e Paul du Gay (eds.), Questions
of cultural identity, Londres, Sage, HALL, Stuart. (1992), “The question of cultural
pp. 53-60. identity”, in S. Hall, David Held e Tony
Mc Grew (eds.), Modernity and its futu-
CHAKRABARTY, Dispesh. (2000), Provicializing
res, Cambridge, Polity Press, pp. 273-326.
Europe: postcolonial thought and histo-
rical difference. Princeton, University of _________. (1996a), “The West and the rest: dis-
Princeton. course and power”, in Hall et al. (orgs.),
132 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 21 Nº. 60

Modernity: introduction to the modern ches Theorieprojekt. Ausgewählte


societies, Oxford, Blackwell, pp. 185- Schriften 3 (ed. por Nora Rähtzel).
227. Hamburg, Argument Verlag.
_________. (1996b), “On postmodernism and articu- KNÖBL, W. (2001), Spielräume der
lation”. Interview editada por Lawrence Modernisierung. Das Ende der
Grossberg, in D. Morley e Kuan-Hsing Eindeutigkeit. Weilerwist, Velbrück.
Chen (eds.), Stuart Hall: critical dialogues
KÜSTER, Sybille. (1998), “Wessen Postmoderne?
in cultural studies. Londres/Nova York,
Facetten postkolonialer Kritik”, in
Routledge, pp. 131-150.
Gudrun-Axeli Knapp (org.),
_________. (1996c), “New ethnicities”, in D. Kurskorrekturen: Feminismus zwischen
Morley e Kuan-Hsing Chen (eds.), kritischer Theorie und Postmoderne.
Stuart Hall: critical dialogues in cultu- Frankfurt/M., Campus.
ral studies. Londres/Nova York,
MCLENNAN, Gregor. (2000), “Sociology’s euro-
Routledge, pp. 441-450.
centrism and the ‘Rise of the West’ revi-
_________. (1996d), “What is this ‘black’ in black sited”. European Journal for Social
popular culture?”, in D. Morley e Kuan- Theory, 3 (3): 275-292.
Hsing Chen (eds.), Stuart Hall: critical dia-
_________. (2003), “Sociology, eurocentrism, and
logues in cultural studies. Londres/Nova
postcolonial theory”. European Journal
York, Routledge, pp. 465-475.
for Social Theory, 6 (1): 69-86.
_________. (1996e), “Introduction: who needs
MIGNOLO, Walter. (1996), “La razón pós-colo-
‘identity’?”, in S. Hall e Paul du Gay
nial”. Gragoatá, 1: 7-29, Niterói.
(eds.), Questions of cultural identity,
Londres, Sage, pp. 1-17. MORLEY, David & KUAN-HSING, Chen (eds.).
(1996), Stuart Hall: critical dialogues in
_________. (1997a), “Wann war der
cultural studies. Londres/Nova York,
Postkolonialismus?”, in E. Bronfen et al.
Routledge.
(orgs.), Hybride Kulturen. Beiträge zur
anglo-amerikanischen Multikulturalis- PAPASTERGIADIS, Nikos. (1997), “Trancing hybri-
musdebatte, Tübingen, Stauffenburg, dity in theory”, in P. Werbner e R.
pp. 218-246. Modood (orgs.), Debating cultural
hybridity: multi-cultural identities and
_________. (1997b), “The work of representation”,
the politics of anti-racism, Londres/Nova
in S. Hall (ed.), Representation: cultural
Jersey, Zed Books, pp. 257-281.
representations and signifying practices,
Londres, Sage/Open University, pp. PHILIPS, John. (1999), “Lagging behind: Bhabha,
13-74. post-colonial theory and the future”, in S.
Clark (org.), Travel writing & empire: post-
_________. (1997c), “The spetacle of the ‘Other’”,
colonial theory in transit, Londres/Nova
in S. Hall (ed.), Representation: cultural
Jersey, Zed Books, pp. 63-80.
representations and signifying practices,
Londres, Sage/Open University, pp. PIETERSE, Jan N. (1995), “Globalization as hybri-
223-290. dation”, in S. L. Featherstone e Roland
Robertson (orgs.), Global modernities,
_________. (1997d), “The local and the global:
Londres, Sage, pp. 45-68.
globalisation and ethnicity”, in A.
McClintock et al. (eds.), Dangerous lia- _________. (2003), Globalization and culture.
sions: gender, nation and postcolonial Lanham, Rowman & Littlefield Publishers.
perspectives, Mineapolis, University of
PIETERSE, Jan N. & PAREKH, Bhiku. (1995),
Minnesota, pp. 173-187.
“Shifting imaginaries: decolonization,
_________. (2000), Cultural Studies. Ein politis- internal decolonization, postcoloniality”, in
DESPROVINCIALIZANDO A SOCIOLOGIA 133

J. Nederveen Pieterse e B. Parekh (orgs.), Notas


The decolonization of imagination: cultu-
re, knowledge and power, Londres/Nova 1 Desde sua publicação, Orientalism mobilizou críti-
Jersey, Zed Books, pp. 1-20. cas importantes. Cabe destacar as objeções de
natureza metodológica que ressaltam a dificuldade
RANDERIA, Shalini. (2000), “Jenseits von de Said de construir um lugar crítico que seja
Soziologie und soziokultureller Anthro- imune aos problemas – circularidade, irrepresenta-
pologie: Zur Ortbestimmung der nicht- bilidade etc. – que ele identifica no orientalismo
westlichen Welt in einer zukünftigen (Ashcroft e Ahluwalia, 1999, pp. 80ss.). O próprio
Sozialtheorie”, in U. Beck e A. Said reformula e refina posições anteriores em suas
Kieserling (orgs.), Ortsbestimmung der obras subseqüentes, particularmente em sua dis-
Soziologie: Wie die kommenden cussão sobre o imperialismo cultural (Said, 1993).
Generation Gesellschaftswissenschaften
2 A ênfase na abertura do sistema de representações
betreiben will. Baden-Baden, Nomos,
West/Rest sugerida por Hall o diferencia de Said, já
pp. 41-50.
que para este último acentua o caráter monológico
SAID, Edward. (1978), Orientalism. Nova York, do discurso orientalista. Ambos os autores destacam,
Vintage. contudo, o caráter auto-referenciado do sistema de
representação criticado. Ou seja, também para Hall,
_________. (1993), Culture and imperialism.
a incorporação de novos elementos a uma formação
Londres, Chatto & Windus. discursiva determinada reproduz sempre a semânti-
SANTOS, Boaventura de Sousa. (2004), “Do pós- ca interna dominante em tal formação.
moderno ao pós-colonial e para além 3 Esta e todas as citações do alemão, inglês e espa-
de um e outro”. Coimbra, Conferência nhol foram traduzidas pelo autor, com alguma
de abertura ao VIII Congresso Luso- liberdade estilística, para o português.
Afro-Brasileiro de Ciências Sociais.
4 Ainda que sua alternativa ao eurocentrismo, apoia-
SHOHAT, Ella. (1992), “Notes on ‘post-colonial’”. da na teologia da libertação e no marxismo, o dis-
Social Text, 31-32: 99-113. tinga dos autores pós-coloniais, o teólogo Enrique
Dussel vem produzindo, na América Latina, um
SPIVAK, Gayatari Chakravorty. (1988), “Can the
tipo de crítica que se identifica com a perspectiva
subaltern speak?”, in C. Nelson e L.
pós-colonial. Conforme o teólogo, a modernidade
Grossberg (orgs.), Marxism and the
contém um núcleo ad intra racional que é univer-
interpretation of culture, Londres,
salista e cosmopolita. Ad extra alimenta uma repre-
Macmillan, pp. 67-111.
sentação mística de si mesmo que ele resume em
THERBORN, Göran. (1995), “Routes to/through sete elementos constitutivos, a saber: 1) a civiliza-
modernity”, in M. Featherstone et al. ção moderna autodefine-se como superior; 2) a
(eds.), Global modernities, Londres, superioridade obriga a desenvolver os rudes, como
Sage, pp. 124-140. exigência moral; 3) o caminho de tal processo edu-
cativo deve seguir o caminho europeu; 4) como o
_________. (2000), “At the birth of second century bárbaro se opõe ao processo civilizador, deve-se
sociology: times of reflexity, spaces of recorrer à violência, se tal for necessária para garan-
identity, and modes of knowledge”. tir a modernização; 5) a empreitada exige vítimas e,
British Journal of Sociology, 50 (1): 37-57. como num ritual de sacrifício, o herói moderniza-
TOURAINE, Alain. (1992), Podremos vivir juntos? dor investe suas vítimas da aura de participantes de
Iguales y diferentes. México, Fondo de um processo redentor; 6) “para o moderno, o bár-
baro tem uma ‘culpa’ (o opor-se ao processo civili-
Cultura Económica.
zador) que permite à ‘Modernidade’ apresentar-se
WALLERSTEIN, Immanuel. (1997), “Eurocentrism não só como inocente senão também como ‘eman-
and its avatars: the dilemmas of social cipadora’ da culpa de suas próprias vítimas”; 7) o
science”. New Left Review, 226: 93-108. caráter civilizador da modernidade impõe custos
134 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 21 Nº. 60

inevitáveis aos povos “atrasados” (Dussel, 2000, p. no interior de uma teoria da cultura, às vezes mais,
70). O vigor da crítica ao eurocentrismo feita por às vezes menos coerente, em Canclini, híbrido é
Dussel pode ser avaliado no âmbito das polêmicas uma expressão de uso genérico e desprovida de
entre o teólogo e a ética discursiva de Habermas e ambição e consistência teóricas.
Apel, o pós-modernismo de Vattimo e o comunita-
8 Construída, inicialmente, a partir da luta anti-racis-
rismo de Taylor (Dussel, 1998).
ta na Inglaterra, a idéia de novas etnicidades passa
5 Quando se trata do pós-colonial como cronologia, a ser utilizada por Hall para tratar de novas formas
como perspectiva que acompanha genericamente a de articulação cultural que acompanham os movi-
descolonização, um dos problemas é a condição mentos migratórios recentes e o deslocamento –
imperial da pós-colônia Estados Unidos. Mignolo pelo menos potencial – das fronteiras culturais cen-
(1996) procura sintetizar as discussões a respeito, tradas nos Estados nacionais. Isso não significa,
estabelecendo uma relação entre a produção teóri- naturalmente, que todas as novas identidades rei-
ca e as diferentes “condições” pós-coloniais. vindicadas tenham o caráter da nova etnicidade,
Entende que a pós-modernidade foi a forma parti- definida pelo reconhecimento da própria transito-
cular de crítica da modernidade que melhor pôde riedade, contingência e heterogeneidade. A vulne-
florescer nos Estados Unidos: “[...] se a modernida- rabilização das fronteiras culturais produz, igual-
de consiste tanto na consolidação da história euro- mente, movimentos de reivindicação de
péia, como na história silenciosa de colônias da identidades puras, estabilizadas pela definição de
periferia, a pós-modernidade e a pós-coloniadade uma fronteira simbólica “nós/eles” e pelo ofusca-
(como operação de construção literária) são lados mento de todos os demais eixos diferenciadores
distintos de um processo para se contrapor à (Hall, 1992, pp. 309ss.; 1997d).
modernidade desde diferentes heranças coloniais:
9 Tratando dos estudos culturais em conferência de
1. heranças a partir/no centro de impérios coloniais
1990, Hall (2000, p. 42) evidencia que sua postura
(ex.: Lyotard); 2. heranças coloniais em colônias de
não é, naturalmente, de desapreço pela teoria.
assentamento (ex.: Jameson nos Estados Unidos); e
Trata-se, segundo ele, de buscar conviver com a
3. heranças coloniais em colônias de assentamento
tensão irredutível entre teoria e política: “Não se
profundo (ex.: Said, Spivak, Glissant)” (p. 14).
trata de uma antiteoria, mas das condições e dos
6` Em ensaio pioneiro e influente, Shohat (1992) mostra problemas para o desenvolvimento de um trabalho
que o pós-colonial, se assume a forma de um “anti- teórico como projeto político”.
colonialismo terceiro-mundista”, corre o risco de rea-
firmar o binarismo centro/periferia, fortalecendo
aquilo que supostamente deveria combater, isto é, a
representação eurocêntrica da modernidade.
7 Simultaneamente aos autores pós-coloniais, Garcia
Canclini (1990) passa a utilizar o termo “culturas
híbridas” para referir-se à América Latina. Diferen-
temente da importância política atribuída pelos
pós-coloniais ao hibrdismo, para Garcia Canclini o
hibridismo contemporâneo na América Latina é
caracterizado pela ausência de sentido político: se
historicamente a combinação cultural foi utilizada
para a legitimação da dominação ou com fins
emancipatórios, hoje o hibridismo é apenas uma
mistura alegorizada e desordenada, expressão
antes estética que política. Outra distinção impor-
tante entre os estudos pós-coloniais e a contribui-
ção de Canclini encontra-se no grau de elaboração:
enquanto nos estudos pós-coloniais, hibridismo, a
despeito de seus problemas, é um conceito-chave
RESUMOS / ABSTRACTS / RÉSUMÉS 183

DESPROVINCIALIZANDO A “DEPROVINCIALIZING” SOCI- VERS UNE SOCIOLOGIE


SOCIOLOGIA: A CONTRIBUI- OLOGY: THE POST-COLONIAL MOINS PROVINCIALE : LA
ÇÃO PÓS-COLONIAL CONTRIBUTION CONTRIBUTION POSTCOLO-
NIALE

Sérgio Costa Sérgio Costa Sérgio Costa

Palavras-chave: Estudos pós- Keywords: Post-colonial Mots-clés: Études postcoloniales;


coloniais; Diferença; Teoria studies; Difference; Sociological Différence; Théorie Sociologique.
sociológica. theory.

Este ensaio discute as contribui- This essay discusses the contri- Cet article aborde les contribu-
ções dos estudos pós-coloniais butions of post-colonial studies tions des études postcoloniales à
para a renovação da teoria social for renewing the contemporary la rénovation de la théorie socia-
contemporânea. Considera-se, social theory. At first it considers le contemporaine. Nous abor-
em primeiro lugar, o caráter da the character of the critique dons, tout d’abord, le caractère
crítica que os estudos pós-colo- addressed by post-colonial stud- critique des études postcolo-
niais endereçam às ciências ies to social sciences. After that, niales par rapport aux sciences
sociais. Em seguida, discutem-se it analyses the post-colonial sociales. Nous analysons, ensui-
as alternativas epistemológicas epistemological alternatives, te, les alternatives épistémolo-
que apresentam, considerando- considering three interrelated giques présentées, suivant trois
se três concepções-chave – concepts: entangled modernity, concepts-clés : la modernité
modernidade entrelaçada, lugar “hybrid” site of enunciation, and entrelacée, le lieu d’énonciation
de enunciação “híbrido”, sujeito decentralized subject. The con- hybride et le sujet décentralisé.
descentrado. A conclusão é que, clusion is that, in spite of its Nous concluons que, malgré son
a despeito de sua contundência severity and suspicion among caractère contondant et la
e da suspeita de alguns autores some authors that post-colonial défiance de certains auteurs,
de que a teoria pós-colonial theory can destroy epistemolog- pour qui la théorie postcoloniale
implode a base epistemológica ical foundations of social sci- détruit la base épistémologique
das ciências sociais, boa parte da ences, an important part of post- des sciences sociales, une bonne
crítica pós-colonial tem como colonial critique is rather partie de la critique postcolonia-
destinatário a teoria da moderni- addressed to the theory of mod- le a, pour destinataire, la théorie
zação. Neste ponto, apresenta ernization. Here, post-colonial de la modernisation. En ce qui
afinidades com objeções trazidas positions present affinities with concerne cette question, nous
por cientistas sociais que nada objections, which have already présentons les affinités existantes
têm a ver com o pós-colonialis- been presented by “convention- face objections soulevées par les
mo. Outros aspectos levantados al” social scientists. Other scientistes sociaux, qui n’ont rien
pelos estudos pós-coloniais não aspects raised by post-colonial à voir avec le post colonialisme.
desestabilizam, necessariamente, authors do not destabilize, nec- D’autres aspects abordés par les
as ciências sociais, podendo essarily, social sciences; they can études postcoloniales ne déstabi-
mesmo enriquecê-las. even enrich them. lisent pas nécessairement les
sciences sociales. Ils peuvent, au
contraire, l’enrichir.