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Viianny 1

♥ Sólo déjate
déjate amar ♥

Teresina, Theresina Shopping, 20/08/08, 15h21

Mayté: ai eu disse “mas é claro que eu fiquei chateada”. Ai ele disse “mas não
tem motivo”. Ai eu disse “passar o dia com a ex realmente não é motivo”. Ai ele
disse “se vai ficar chateada é melhor eu ir embora”. Ai eu, burra, disse “ta bom!
Não tô tão chateada assim”. Ai a gente falou da Gaby, irmã dele, que teve o
filho agora, do Carlão que viajou, do Manuel que foi demitido… Anny, tá me
ouvindo?

Anahí: claro que tô!

Anny e Mayté eram amigas desde a universidade. Sempre saíam pra


fazer compras, pra shows ou só pra conversar. Elas estavam na praça de
alimentação do shopping. Anny havia horas estava grudada no notebook, não
tirava os olhos pra nada.

Mayté: não tá não!

Anahí: tô sim… eu ouvi tudo. Do Carlão que teve um filho…

Mayté: Anny, Carlão é meu primo de dez anos!

Anahí: ah, é! Então, alguém teve um filho e… e… — pensativa

Mayté: eu disse! Tu não ouviu nada!

Anahí: tá, tá… mas é que eu tô numa transação muito importante!

Mayté: o que é agora?

Anahí: uma autêntica alfombra indiana de fios de lã de cordeiro da região do


Cáucaso!

Mayté: al… al… o que?

Anahí: alfombra! Um tapete!

Mayté: ah, sim… isso é que é gostar de tapete…

Anahí: você não entende. É uma peça rara no mercado!

Mayté: e é seguro?

Anahí: claro! Já comprei muito nesse site! Lembra do vaso Ming?


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♥ Sólo déjate
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Mayté: lembro… Que nome tá usando?

Anahí: ameixa seca.

Mayté: quê?! — caiu na risada

Anahí: ah, pára, May! Tá me atrapalhando! — voltou a olhar pro notebook —


Quê?!?! Maldito galo campina!

Mayté: galo o que? — querendo sorrir

Anahí: é meu adversário. Galo campina… Se eu não ganhar vou arrancar suas
penas, seu desgraçado! Quero ver agora o que dizer…

Mayté: oh, Anny…

Anahí: quê!? — ficou calada por algum tempo — eu… eu… perdi…

Mayté: o galo ganhou foi? — sorrindo

Anahí: não, foi um tal de fada azul… Eu não tô acreditando!

Mayté: fada azul… — segurando o riso

Anahí: entrou agora, ofereceu US$ 200 mil e levou… assim… de primeira… —
assustada

Mayté: bom porque ia ser outra briga com tua mama… Esqueceu por que não
está em Cancún agora?

Anahí: eu tinha esquecido, mas tu me fez o favor de lembrar… Que horas são?
— olhou pra tela — 4h? Tenho que ir! — apressada

Elas se despediram e Anny saiu correndo pra promotoria. Tinha uma


reunião com um futuro corregedor da cidade. Não gostava de atrasos, mas
como desta vez ela era a atrasada, procuraria reverter a situação. Chegando
lá, a secretária a advertiu que o cara já a esperara há meia hora. Ela entrou
calmamente e o avistou sentado no sofá lendo revistas. No instante em que o
olhou, ele também levantou o olhar. Foram segundos eternos com os dois se
encarando. Anny tinha olhos magnéticos e sedutores, mas o tal também os
tinha. Quando acordou do transe, caminhou até sua confortável poltrona e se
acomodou, esperando que ele se sentasse à sua frente. E foi exatamente o
que fez. Ficaram mais algum tempo até que ele se pronunciou:

X: tem idéia do que pode acontecer em meia hora? Criminosos são soltos.
Ladrões roubam milhões em bancos. Crianças são seqüestradas. Carros são
roubados. Estupros são praticados. Aliciadores de menores se tornam mais
freqüentes. Pessoas são mortas. A vida de todos está em risco. Sabe agora a
importância do nosso trabalho?
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Anahí: quem solta criminosos é o próprio sistema deficiente. Não tenho


controle sobre a vida de todo mundo, assim como não sou a responsável se
um indivíduo resolve matar outro só pra aumentar seu currículo. — já alterada
— Se bem que o senhor agora vai ser juiz, pode muito bem fazer tudo isso que
tanto almeja. Ah, e mais uma coisa, meu trabalho não é punir, é denunciar…
(pensando) 1 a 0, Anny! Começamos bem.

Seguiram-se mais segundos eternos. X simplesmente estava atordoado.


Nunca fora tão rígido assim com um companheiro de trabalho, e nem recebido
pior dose de rigidez de troco. Pensara antes em dispensar reclamações, afinal
qualquer um pode se atrasar. Mas, ao avistar o sujeito, ou melhor, a sujeita
referente, pensou se tratar daquelas clássicas princesas de cristal que
ganhavam altos cargos de presente do papai. Estava enganado. Além de linda,
atraente, sedutora, elegante e angelical, a promotora em questão parecia
merecer cada segundo de profissão obtido. Desta vez, Anny iniciou:

Anahí: é, acho que já fizemos nossas devidas apresentações. Só resta algo.

X: o que? — voando

Anahí — levantou-se: prazer, Anahí Giovanna Puente Portillo.

X — também se levantou: prazer, Alfonso Herrera Rodríguez. — os dois se


sentaram de novo

Anahí: não entendi o porquê dessa reunião.

Alfonso: a corregedoria está passando por reformas mais que urgentes. Ao


que parece, o presidente anterior não poupou gastos e agora só temos o
suficiente para a reforma.

Anahí: ah, muito comovente, senhor Herrera, mas não sou banco. Se quiser
tem um a dois quarteirões daqui.

Alfonso — ignorando o comentário dela: como eu dizia, resolvi antecipar


alguns dias de recesso a alguns funcionários, revezando com outros e,
analisando alguns documentos, conclui que a promotoria poderia muito bem
nos abrigar durante o tempo necessário.

Anahí: quê?!?! — abismada — Me perdoe, mas não temos nada a ver com as
irresponsabilidades da corregedoria.

Alfonso: pense como se fosse um favor de colegas… — bem calmo

Anahí: ah, com certeza! Tendo vocês aqui sob nossas custas…

Alfonso: não, isso não. Vamos colaborar com os gastos.


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Anahí: não disse que só tinha dinheiro pra reforma? (pensando) 2 a 0!

Alfonso: foi uma forma de dizer! Temos um pouco a mais que dá pra ajudar
nas despesas. O que não temos é pra alugar algo decente pra ficarmos.

Anahí: conheço várias pensões decentes! Se quiser posso indicar alguma e


ainda consigo um desconto, já que vocês são muito gente boa, não é mesmo?
— irônica

Alfonso: senhora… — foi interrompido

Anahí: senhorita! Se quiser pode me chamar de Anahí.

Alfonso: (pensando) Lógico que não é casada. Com um temperamento


desses, ninguém agüenta! (falando) Anahí, vamos levar isso a sério? —
tentando ficar calmo

Anahí: mas eu tô falando sério! Assim como é sério que a minha resposta é
não!

Alfonso: e se eu tivesse uma ordem de um juiz?

Anahí — sem se intimidar: me mostre. — ele abriu sua maleta e deu um


documento a ela, que riu na mesma hora — Raciocine comigo. Você está
articulando tudo já na corregedoria, da qual será presidente. Certo?

Alfonso: certo.

Anahí: só que seu contrato só começa a vigorar em 3 semanas. Certo?

Alfonso: sim.

Anahí: então só pode comandar tudo daqui a 3 semanas. Certo?

Alfonso: ora, aonde quer chegar?

Anahí: calma que já tô quase lá. O juiz dessa procuração encerra contrato em
1 semana, ou seja, quando o senhor puder se mudar, esse papel não vale mais
que uma nota de R$ 3,00.

Alfonso: por que torna tudo tão complicado? Ou quer tornar tudo tão
complicado?

Anahí: mas está tudo tão claro! Eu disse “não”, o senhor sai e vai caçar outro
lugar. Ponto final. (pensando) 3 a 0! Goleada!

Alfonso: por que não quer aceitar minha proposta?


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Anahí: quer saber mesmo? — alterada — Porque não quero ver meu trabalho
de dias e noites de exaustão ser transformado num caos!

Alfonso: escute minha oferta, sim? Não vou ocupar e dominar a promotoria.
Só vou querer uma sala e pronto! — começando a se alterar

Quando Anny ia responder, o telefone tocou. Ela ficou alguns minutos


falando com a secretária e desligou.

Anahí: senhor Herrera, vamos ter que adiar o resto dessa reunião. Tenho outro
compromisso agora.

Alfonso: não entende que tenho pressa?

Anahí: eu sei, senhor Herrera. Que tal nos encontrarmos em 3h?

Alfonso: aqui?

Anahí: não, já será muito tarde. Aceita um jantar de negócios?

Alfonso: tudo bem. Aonde será então?

Anahí: amanhã tenho que levantar cedo então… onde está morando?

Alfonso: estou no Metropolitan Hotel enquanto não recebo meu apartamento.

Anahí: pode ser lá no seu quarto? (pensando) eu só posso estar é louca…

Alfonso: por mim não tem problema. (pensando) pelo contrário…

Anahí: então nos encontramos lá. Qual sua suíte?

Alfonso: 342, no 6º andar. Tem alguma preferência pro jantar?

Anahí: vou lhe deixar essa dúvida.

Alfonso: só mais uma coisinha. Não me chame mais de senhor, tudo bem?
Não sou tão velho assim… — sorrindo

Anahí: jura? Já ia perguntar se conhecia o meu bisavô… — irônica — Tudo


bem, Alfonso.

Alfonso: Poncho.

Anahí: quê?

Alfonso: me chame de Poncho.

Anahí: Poncho? O que é isso? Ah, já sei! É a fusão de potro com rancho!
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Alfonso: muito engraçada você… — irônico — Poncho é como todos me


chamam desde sempre. Não tinha um compromisso agora?

Anahí: ah, é! Tá querendo me expulsar do meu escritório?

Alfonso: vai se atrasar… — com cara de travesso

Teresina, Metropolitan Hotel, 20/08/08, 20h16

Poncho já estava impaciente. Pelo temperamento de Anny, não


duvidava que seria capaz de não ir. Mas também podia ser um simples atraso.
O que ele não entendia era por que estava tão ansioso. Nunca ficara antes
assim por mulher alguma. Tinha que ser logo por essa? Era o que se
perguntava. Suas angústias foram interrompidas pelo toque da campainha. Ele
abriu a porta e então pôde compreender claramente o porquê de toda essa
aflição. No mínimo, o que sentia era atração. Não tinha como não se sentir
assim. Anny, mesmo em momentos informais, conseguia ser elegante. Usava
um vestido rosa bebê tomara-que-caia até os joelhos e uma rasteira simples.
Só não sabia que compartilhava dessa mesma confusão com ela.

Anahí: vamos jantar aqui na porta?

Alfonso: nada delicada! Entre.

Anahí: muito bonito o quarto.

Alfonso: obrigado, apesar de que não fui eu que arrumei assim.

Anahí: eu sei, por isso estou elogiando. — sorriu

Alfonso: vou fingir que não ouvi isso. Quer discutir o acordo primeiro?

Anahí: não há o que discutir. — sentou no sofá e começou a mexer na sua


maleta — Aqui está o contrato. — entregou-lhe — Só aceito sob essas
condições.

Alfonso: posso ficar com essa cópia pra analisar com calma? — começou a
folhear o documento

Anahí: sim.

Alfonso: ah, mas aqui consta que sou o presidente. O que acontece se eu
assinar e não quiser cumprir? Afinal só serei presidente em 3 semanas…

Anahí: não fará isso… — sorrindo docemente


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Alfonso: quem garante?

Anahí: eu sei que não o fará.

Alfonso: confia tanto assim em mim?

Anahí: na verdade não.

Alfonso: então? — ela lhe entregou outro papel

Anahí: consegui uma autorização pra você seguir com seu trabalho.

Alfonso: por que está fazendo isso?

Anahí: hum, acho que isso não te interessa…

Alfonso: pelo contrário! Interessa bastante…

Anahí: pois vai ficar só no interesse. Depois passa na promotoria pra assinar e
conhecer a sala.

Alfonso: vou amanhã mesmo. Que tal jantarmos agora?

Anahí: aceito.

O jantar transcorreu normalmente, exceto por um detalhe. Passaram


todo o tempo comentando questões de trabalho. Isso porque Poncho
percebera que, se levasse a conversa pro lado pessoal, com certeza Anny só
criaria uma impressão dele pior do que imaginava que já tinha. O ápice dessa
conversa foi quando foram falar em violações de propriedades particulares.
Anny, na verdade, tinha o mesmo, ou pelo menos semelhante, ponto de vista
de Poncho, mas, só para não ter que concordar com ele, resolveu ir contra sua
linha de raciocínio.

Alfonso: esses pichadores tinham que ser duramente penalizados!

Anahí: como é que é? — fingindo estar indignada

Alfonso: alguns se aproveitam que são menores e fazem a maior


esculhambação no que não é nem deles…

Anahí: o que me revolta é que só os pobres picham, o resto grafita…

Alfonso: mas é porque esse resto faz quando é contratado. Os delinqüentes a


que me refiro invadem propriedades alheias e simplesmente destroem!

Anahí: sim, e por que então não contratam esses “delinqüentes” — fez as
aspas com as mãos — pra trabalhar? Um verdadeiro artista não consegue
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comprimir seu talento! Pode ler sobre isso em várias obras de Duquet! —
segurando o riso

Alfonso: de quem?

Anahí: nunca ouviu falar em Duquet? (pensando) acho que faria uma bela
carreira de atriz…

Alfonso: deveria?

Anahí: mas é lógico? Jean Duquet van Lorsch. Psicólogo muito renomado do
século XIX. De mãe francesa e pai alemão, ele escreveu vários livros sobre
esse assunto. Vous peut s'exprimer en français? (Você sabe falar em francês?)

Alfonso: Ce que vous en pensez? (O que você acha?)

Anahí: então não vai ter problema…

Alfonso: sim, mas a opinião de um psicólogo de dois séculos atrás não tem
nada a ver com o que acontece na realidade. Se eles fazem isso porque não
conseguem ficar sem esconder seus talentos, por que então não o fazem em
público?

Anahí: será que é porque seriam presos?

Alfonso: aí está a questão. Se forem presos é porque estão fazendo algo


ilegal, no caso, violação de propriedade alheia.

Anahí: por Deus, Alfonso! Eles não têm nem uma parede pra formar uma casa,
imagine uma pra pichar!

Alfonso: e deveriam então fazer o que? Pichar a dos outros?

Anahí: infelizmente, essa foi a solução encontrada. Não percebe que é uma
forma de revolta contra autoridades que nada fazem por eles?

Alfonso: e o que as pessoas têm com isso?

Anahí: ah, então você acha que se um deles for falar com essa autoridade, ela
vai ouvir? No mínimo será barrado um quilômetro antes…

Alfonso: e então as pessoas que têm que fazer isso?

Anahí: foi o meio encontrado. É só pensar nas manifestações divulgadas.


Quando é a população civil digamos normal que se revolta, o apresentador diz
“manifestantes exigem bla bla bla”. Quando são esses “delinqüentes” — fez
aspas com os dedos — que vão pras ruas, o âncora diz “marginais invadem bla
bla bla”. Percebe a realidade, senhor juiz? — irônica
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Alfonso: confesso que nunca tinha pensado por esse ponto de vista, mas
mesmo assim um erro não justifica outro…

Anahí: e você queria o que então? Que eles se calassem e ficassem à parte na
sociedade? Belo juiz você vai ser… — irônica

Alfonso: epa, epa, epa… Você não me conhece, não conhece meu trabalho e
já fica tirando conclusões?

Anahí: não tenho culpa de falar o que penso. Melhor isso a esconder meus
pensamentos. — piscou pra ele

Alfonso: (pensando) O que será que ela quis dizer? (falando) Por favor, não dá
pra ter uma conversa contigo sem brigar?

Anahí: conserte a frase, meu querido. Não dá pra ter conversa sem brigas
entre nós dois. — se levantou — Agora tenho que ir.

Alfonso: certo.

Anahí: uma pessoa educada me pediria pra ficar mais um pouco e até diria que
está cedo, sendo que são quase 23h.

Alfonso: incompetente, mal-educado… Não quer logo me bater?

Anahí: (pensando) bem que eu gostaria… (falando) Até mais, Alfonso. Só mais
uma coisa antes que eu me esqueça. Eu cometi um erro e agora quero repará-
lo.

Alfonso: promotora Anahí cometeu um erro… Pensei que não errava nunca…
— irônico

Anahí: quando nos apresentamos disse que foi um prazer te conhecer.


Acredite, não é um prazer… — saiu batendo a porta

Alfonso: não tome decisões precipitadas, promotora. O prazer ainda vai


começar… isso eu garanto!

Anny chegou a seu apartamento voando. Estava descontrolada apesar


de não parecer. Nesses momentos, só se acalmava com um banho de água
bem fria. Não sabia o que acontecia consigo mesma quando estava próxima
àquele homem. Agia daquela forma espontaneamente, como se sua mente
quisesse se defender de seu próprio corpo que clamava pela masculinidade
daquele desconhecido. Não estava em seus planos passar por tudo isso, assim
como nada que presumia. Tinha objetivos bem claros para sua vida. Nada e,
principalmente, ninguém iriam lhe atrapalhar.
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Teresina, promotoria, 22/08/08, 10h29

Quando alguém disse que amanhã é outro dia, esqueceu de dizer que
nada impede os dois se parecerem. Anny se sentia forte novamente, mas ao
mesmo tempo fraca, porque não sabia como reagiria ao revê-lo. Tentou evitá-lo
o máximo que pôde, deixando até o assunto do contrato nas mãos de Dulce,
seu braço direito na promotoria, com a qual estava numa reunião esta manhã.
Anny e Dulce diziam-se a força feminina do estado. Apesar de aparência
totalmente diferente, as duas tinham a mesma visão de mundo, talvez isso foi o
que as aproximou e também as afastou de boa parte dos funcionários. Mayté
era a amiga que lhe dava tranqüilidade, paz, segurança e proteção. Já Dulce…
quando queria confusão, Dulce era a amiga certa. Em resumo, Mayté era a
amiga de passear no shopping, Dulce a de se acabar numa pista de dança.

Dulce: acabamos cedo hoje, né? — guardou uma papelada num envelope —
Muito bem, pode começar…

Anahí: começar o que?

Dulce: te conheço, gatinha! Dá pra ver que tem um furacão aí nessa cabecinha
de alfinete…

Anahí: isso é uma afronta à minha inteligência?

Dulce: se isso fizer me contar o que tá acontecendo…

Anahí: não tenho nada, Dul…

Dulce: e eu sou a Chapeuzinho Vermelho…

Anahí: quer dizer que esse vermelho da sua cabeça que me cega às vezes
não é cabelo? — assustada

Dulce: cala a boca, Barbie! Quer dizer, cala não, fala o que tem.

Anahí: mas eu não tenho nada!

Dulce: desisto… por enquanto! — começou a mexer no notebook — Pensei


que isso tinha a ver com a vinda do gostosão…

Anahí: que gostosão? — fingindo

Dulce: Anny, por que não enterra esses neurônios?

Anahí: quer apanhar, Chuck?

Dulce: faz isso que leva uma bifa bem no meio da cara!
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Anahí: tá assistindo muito ao Chris… desse jeito vai acabar morando no
Brooklyn, tendo 11 filhos e um marido com 2 empregos… — rindo

Dulce: ri, pode rir… mas na próxima festa eu fico com o Edu! — fez cara de
travessa

Anahí: não vale, Dul! O combinado era eu!

Dulce: é, mais agora o gato é meu! Se bem que o gostosão é muito melhor…
— pensativa

Anahí: lá vem a história de novo…

Dulce: Anny, acorda! Já tá parecendo um lixo de tanta mosca que tá circulando


naquela sala…

Anahí: eu sabia que isso não ia dar certo… Vamos já resolver essa situação…
— levantando da cadeira e guardando uns documentos

Dulce: barraco à vista! — toda empolgada — E minha mãe queria que eu


fizesse Direito pensando que ia me acalmar…

As duas saíram em direção à sala de Poncho. Anny, de propósito,


escolhera uma bem longe da sua. Além disso, a distância servia pra
transformar possíveis raivas em friezas incalculáveis. Enfim chegaram lá. Elas
entraram de repente, assustando Poncho, seus funcionários e as moscas ali
presentes. Aquele conhecido olhar maquiavélico foi o suficiente para Raquel,
Fabíola, Julieta e Cláudia saírem.

Anahí: entende agora a que caos estava me referindo? — irritada

Dulce: boa, Anny! — Poncho olhou pra ela — Desculpa, gatão! Pode sempre
contar comigo, mas a Anny é minha sister…

Anahí: eu fiz uma pergunta…

Alfonso: e por que você não controla suas funcionárias?

Dulce: ih, gatão! Mexeu no ponto frágil…

Anahí: ah, claro! Porque seu ego masculino é intocável… — irônica

Dulce: tá indo bem, Anny!

Anahí: oh, Dulce, cala a boca! — gritando

Dulce: calei, calei…


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Dulce se acomodou confortavelmente num sofá assistindo a um
programa enquanto Anny e Poncho brigavam insistentemente. Até os
funcionários se cansaram da cena e saíram. Somente um grito de espanto de
Dulce os tirou daquela atmosfera particular.

Anahí: quer me matar do coração, Dul?! — assustada

Dulce: desculpa, mas é que não consegui me controlar! Um doido aqui


comprou um tapete por US$ 200 mil, vocês acreditam?

Na mesma hora, Anny e Poncho olharam pra televisão.

Anahí / Alfonso: fada azul…

Eles se olharam assustados após pronunciarem essas palavras. Ficaram


um tempo se encarando como que tentando encontrar outra saída para aquela
infeliz possível coincidência.

Alfonso: ameixa seca? — perplexo

Anahí: galo campina? — assustada

Dulce: Anny, miga, então esse da TV é o cara que te ganhou numa disputa por
um pedaço de pano?

Anahí / Alfonso: é uma alfombra indiana de fios de lã de cordeiro da região do


Cáucaso. — se olharam assustados de novo

Dulce: gente, tô me sentindo burra…

Alfonso: quer dizer que você é que tava disputando comigo…

Anahí: pelo jeito… — com cara de tédio

Dulce: e os dois perderam, no caso… — fuzilaram ela com o olhar — calei,


calei…

Alfonso: foi melhor, não queria mesmo…

Anahí: claro que não queria… — irônica — ficou horas na disputa comigo e
não queria…

Alfonso: não era tão grande coisa e também não era pra mim…

Anahí: não era grande coisa?

Alfonso: na verdade não. E era pro meu cachorro, que adora ficar deitado
nesses tapetes… — mentindo
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Anahí: ah, sim… meu cachorro é o nome do seu heterônimo? — Dulce
começou a rir

As brigas recomeçaram. E agora com mais combustível por conta do


tapete. Dulce só ria dos argumentos que os dois usavam. Agora entendia o
porquê de Anny não achar Poncho um gostosão, como ela mesma afirmara.
Qualquer mulher poderia chamá-lo assim, a não ser que já estivesse desperta
pelas faíscas de uma nova paixão.

Dulce: (pensando) é, Anny, tá ferrada!

Teresina, apartamento de Anny, 23/08/08, 9h25

Desde as sete horas, Anny estava trabalhando em seu notebook. Não


gostava de estar vulnerável assim a um ser tão prepotente como era Poncho,
mas lhe agradava a gana que adquiria para trabalhar em busca de um refúgio.
Estava tão concentrada que nem se importava com as propagandas políticas
musicais que este dia teimavam em percorrer a Marechal Castelo Branco. Só
foi surpreendida pela presença inusitada de Dulce. Sua plena concentração a
impediu de ver a amiga entrando, resultando num susto quase infinito.

Anahí: quer me matar de susto, sua louca!

Dulce — rindo: calma, Barbie! Tá mal mesmo, hein? Ainda bem que tu tem
uma sister como yo!

Anahí: ah, sim, com certeza! Uma sister que quase me matou…

Dulce: vim te informar que temos festa hoje.

Anahí: sei não, Dul…

Dulce: what?!?! Abduziram minha amiga, só pode… Mas seja lá o que tu for,
um ET, um fantasma, uma múmia, vai comigo sim!

Anahí: tá, Dul… — desanimada

Dulce: vai, Anny! A festa vai ser boa! Vai ser na casa dos pais do Chris…

Anahí: oh, Dul, Chris não foi o que tu traiu?

Dulce: foi… — sem entender

Anahí: e ele que te convidou?

Dulce: não… foi a Mel…


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Anahí: qual Mel?

Dulce: irmã dele…

Anahí: Dulce Maria, o que tu vai aprontar agora?

Dulce: eu nada… a Mel que me convidou. Nós ficamos amigas quando eu


namorava o Chris. E não tem nada de mais! Ele já tá até ficando com outra
chica!

Anahí: tá bom, Chuck…

Dulce: vai ser a festa dos solteiros de 2008. E pra ficar mais emocionante… —
fazendo suspense — todos de máscaras!

Anahí: deixa só eu adivinhar… foi você quem sugeriu?

Dulce: cheque mate, loira… então, já vou indo!

Anahí: espera aí, Dul! As máscaras vão ter lá ou são pra comprar?

Dulce: vão ter lá… Tchau, amore! — saiu — Agora, parte 2 do plano. — discou
um número — Senhor Joaquim? Aqui é a Cláudia. É que eu tô precisando de
um número da minha agenda que eu esqueci aí na minha sala… dava pro
senhor ir olhar pra mim? (pensando) vai… vai…

Joaquim: claro… já estou indo pra lá… De quem é?

Dulce: Alfonso Herrera…

Joaquim: certo. Achei. É 94330971.

Dulce: (pensando) sabia que aquela baranga não ia deixar o gatão passar…
(falando) Ah, senhor Joaquim, esse assunto morre aqui. A Anny vive brigando
comigo dizendo que eu esqueço as coisas e tal…

Joaquim — rindo: tudo bem. Até segunda.

Dulce: até! — desligou e discou o número de Poncho — Oi, gostosão!

Alfonso: Dulce?

Dulce: lógico! Tem alguém mais que te chama assim? — interessada em saber

Alfonso: deixa eu ver… tô brincando! — rindo

Dulce: bom saber…

Alfonso: o que?
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Dulce: esquece… (pensando) Tá falando demais, Dulce Maria. (falando) Olha,


tô ligando pra te convidar pra uma festa hoje.

Alfonso: festa?

Dulce: é! Vai dizer que não sabe o que é uma festa?

Alfonso: claro que sei! Mas não sei se tô a fim de ir…

Dulce: outra mula!

Alfonso: que?

Dulce: nada, nada… Vamos, Poncho! Vai ser legal! Todo mundo que eu
convido não quer ir! Até a Anny que é a maior festeira de Teresina não quis ir!

Alfonso: a Anny não vai é? Por quê?

Dulce: (pensando) num é que o gatão tá mesmo interessado na Barbie!


(falando) Pensei que não gostasse da Anny…

Alfonso: e quem disse que eu gosto? Só falei isso porque vocês só andam
juntas… e depois tu disse que ela não perde nenhuma festa…

Dulce: mas e então? Vai ou não?

Alfonso: sabe o que é Dulce, é que… você e eu… eu… assim… como eu
posso dizer?

Dulce: já entendi, gatão! Tá se achando muito, sabia? Eu não pensei em nada


disso, tá certo? Só pensei em te convidar pra te entrosar na galera daqui, já
que tu chegou agora…

Alfonso: então tudo bem, eu aceito! — sorrindo aliviado

Dulce: vai ser às 22h, então quando for mais ou menos essa hora, eu te ligo e
digo o meu endereço pra tu vim me buscar. Pode ser?

Alfonso: tá bom. Então até lá… — desligaram

Dulce: ótimo! Parte 2 concluída! Agora a parte 3. Também mereço ser feliz. —
discou outro número — Alô! Bruno! Saudade, meu amor! Chegou que dia?

Teresina, casa de Chris, 23/08/08, 22h42


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Dulce chegou com Poncho um pouco depois de dez e meia; apresentou-
o a vários amigos (também do ramo jurídico), mas não contava com um
pequeno detalhe: Cláudia e Fabíola estavam lá.

Cláudia: e aí, Poncho… — toda oferecida — Vamos dançar, você tá muito


paradinho… — agarrou a mão dele e o levou pra pista

Dulce: sem vergonha sua amiga, hein?

Fabíola: é, hoje ela tá que tá… e depois que viu o Poncho…

Dulce: que tem? — fingindo desinteresse

Fabíola: ela tá a fim dele e vai partir pra cima.

Dulce: como? — surpresa

Fabíola: ele veio com quem? Foi contigo?

Dulce: foi, mas… — foi interrompida

Fabíola: tá rolando alguma coisa entre vocês?

Dulce: não, somos só amigos!

Fabíola: ah, ainda bem! Porque a Cláudia vai investir pesado nele…

Dulce: (pensando) inventa alguma coisa, Dulce Maria! Senão essa bruaca vai
estragar os planos! (falando) Pois é bom ela ir desgrudando dele porque a
namorada vai já chegar…

Fabíola: namorada? Mas ele não disse nada!

Dulce: é porque é segredo! Não era nem pra mim te contar…

Havia uma hora desde a chegada de Dulce, que já estava mais que
inquieta, e nada de Anny aparecer. Ela conversava com uns, dançava com
outros, bebia aqui, bebia ali…

Dulce: (pensando) essa hora eu podia estar curtindo o meu amorzinho, mas
aquela velha não chega! Ah, até que enfim! A loira caprichou no visual
mesmo…

Finalmente Anny chegou. Não estava com ânimo pra ir a festa alguma. A
única solução então era ousar no look, arranjando assim uma motivação,
porque, no mínimo, iria causar deslocamento de mandíbula nos homens e
suicídio nas mulheres. Usava um short bem curto e bem apertado preto
(realçando os quadris e revelando as pernas bem torneadas), um top que
amarra atrás do pescoço preto (dando um toque sensual aos seios) e uma
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blusa folgada e caída em um ombro rosa transparente (evidenciando a barriga
sarada). Para completar, calçou botas cano longo e salto agulha pretas. Quem
não a conhecesse diria que era uma prostituta. Pelo menos, uma prostituta
cara e refinada. Estava adorando se sentir nesse personagem. A maquiagem,
apesar de um pouco ocultada pela máscara, dava certa evidência aos olhos,
particularmente mais azuis nesta noite. O prático cabelo liso que usava no
escritório deu lugar a cachos, que ficaram com um toque especial devido às
pontas serem mais claras.

Dulce: Anny! Você tá uma diva!

Anny: oi, miga! Você também tá muito linda! E aí, vamos dançar? — animada

Dulce: assim que eu gosto de ver… vai indo na frente que eu tô esperando o
Bruno.

Anny: tá bom!

Poncho já estava de saco cheio de dançar com Cláudia. Usou a velha


desculpa do celular tocando pra se afastar. Estava decidido a ir embora.
Pensava que se ficasse mais um segundo ao lado dela ia ser contaminado pela
sua tolice. Só não imaginava que no trajeto fosse avistar a mais linda de todas
as mulheres dançando sensualmente bem no centro da pista. E como não
podia deixar de ser, por perto já tinha vários homens a ponto de dar o bote. A
primeira expressão que lhe veio à mente foi “bando de urubus”, mas não ousou
prosseguir tal raciocínio porque implicava aquela princesa ser uma carniça, o
que era um sacrilégio. Respirou fundo, tomou coragem e caminhou rumo a ela.
Ao chegar perto, começou a dançar e se aproximar cada vez mais. Foi
chegando por trás e, como a dança era muito sensual, ficaram dançando
coladinhos. Anny a princípio se assustou, mas continuou sua dança e passou a
gostar da nova companhia. Adorava homens com iniciativa. Esse não era
nenhum dos que estavam por lá há tempos só tentando impressioná-la com
reboladas baratas. Numa mudança de passe, Anny virou e ficou dançando de
frente pra Poncho. Eles se afastaram um pouco pra dançar se encarando.

Anny: (pensando) Que gato! Mas espera aí… eu só posso estar é louca! Eu
sabia que estava começando a me interessar pelo besta, mas isso é demais…
Como é que pode? Eu olho pra ele e vejo o idiota direitinho… Se bem que… se
eu der uns pegas nele não tem nada. É melhor do que ser com o energúmeno.

Alfonso: (pensando) O que tanto a Anny fez pra mexer assim comigo? Não
posso mais nem olhar com interesse pra outra que já vejo aquele rostinho doce
que ela tem… Eu tenho que descobrir se é loucura minha mesmo… vai ver
elas são só parecidas, ou até parentes… Mas de todo jeito, pega mal eu
perguntar alguma coisa. E se eu falar desses cachos dourados e ela nem for
loira? É melhor eu ficar quieto e só curtir…

Anny e Poncho não se largaram mais. Ficaram dançando o tempo todo.


Nesse tempo, Cláudia sentiu a falta dele e resolveu ir atrás. Quem procura,
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acha. Sábio provérbio. Ela encontrou-o dançando com outra e correu de
encontro à amiga Fabíola.

Cláudia: que raiva que eu tô!

Fabíola: que foi?

Cláudia: o Poncho me deixou pra ir dançar com uma fulana aí…

Fabíola: então é verdade…

Cláudia: o que?

Fabíola: Dulce me disse que ele tinha namorada.

Cláudia: quê?!?!

Fabíola: e que ela estava pra chegar…

Cláudia: será? Não se beijaram nem nada.

Fabíola: vamos lá ver.

Cláudia e Fabíola foram espionar Poncho e sua acompanhante. Só não


imaginavam ver o que viram… Anny e Poncho estavam dançando muito
sensualmente e, mesmo sem “conhecer” um ao outro, já se davam certa
liberdade e segurança. Foi assim que ocorreram chupões nos pescoços e
beliscões nas pompas de Poncho. Eles já estavam extasiados com tudo aquilo,
até que não agüentaram mais e se entregaram num beijo, arrebatados. O
rápido movimento dos lábios foi o resultado desse turbilhão de carícias. Aos
poucos, quando sentimentos mais profundos foram tomando espaço, o beijo se
tornou mais lento e apaixonado. Sentiam-se aturdidos pela necessidade que
demonstravam em estar sob aquela circunstância. Como se estivessem
esperando por aquilo a vida toda. Só não sabiam que essa onda de sensações
correspondia fielmente à realidade. Ambos sempre estiveram em busca de
alguém especial e, nesse caso, especial no sentido de ser o único com
potencial para dominar, compreender e satisfazer o outro.

Cláudia: olha! Eles tão se agarrando ali! — indignada

Fabíola: então era mesmo verdade… espera aí? Ali não é a Anahí?

Cláudia: Anahí? Impossível, meu bem… eles se odeiam…

Fabíola: mas olha bem!

Cláudia: deixa eu ver… — ficaram um tempo vendo o casal se beijando —


Parece mas não creio…
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Fabíola: eles tão dando muitos chupões, vão deixar marcas com certeza…
Segunda a gente vê…

Cláudia: hello! Existe maquiagem!

Fabíola: hello! A gente dá um jeito! Já sei, quando ela for ao banheiro a gente
vai atrás!

Cláudia: certo. Fica de olho.

Fabíola: tu também…

As duas ficaram horas esperando Anny ir ao toalete, até que a


oportunidade apareceu. Seguiram-na até a porta, onde a claridade do interior
foi suficiente para desvendar o mistério. Sim, era Anny.

Teresina, promotoria, 25/08/08, 06h11

Segunda-feira. Por uma infeliz coincidência, o dia de maior propensão


para não trabalhar correspondia ao de mais trabalho. Dia em que Anny
chegava com mais satisfação ao seu escritório; até porque sempre adiantava
algo no sábado, ficando com certo horário livre, enquanto os outros se
atropelavam pelos corredores. Reuniões com Dulce, apesar de freqüentes,
eram sagradas nesse dia. Era uma forma de trabalhar e conversar sobre o final
de semana ao mesmo tempo.

Dulce: como vai o caso de Luís Correia?

Anahí: mandei o Vagner, mas acho que terei de assumir.

Dulce: beleza! — empolgada — Quando viajamos?

Anahí: sinto muito, cabeça de fogo. Vou sozinha…

Dulce: ah, não, Anny! — indignada

Anahí: ah, sim, gatinha! Pensa positivo. Vai ficar aqui no meu lugar e poder
mandar em tudo…

Dulce: é! Mandar nas bruacas… — rindo maliciosamente — Agora fala do gato


da festa!

Anahí: trocamos telefone e e-mail.

Dulce: e como é o nome dele?

Anahí: acho que é Rodrigo.


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Dulce: (pensando) Rodrigo? O Poncho tava bêbado? (falando) E por que


acha?

Anahí: porque não perguntei. Simplesmente deduzi.

Dulce: deduziu como? (pensando) Vamos ver o que a Anny Winehouse fez
agora…

Anahí: o e-mail dele é rodrig_a_h@hotmail.com.

Dulce: e ele? Sabe teu nome?

Anahí: ele me chama de hadita.

Dulce: por que?

Anahí: por causa do e-mail que dei pra ele. Aquele com id hadita.

Dulce: ele te chama de hadita e tu chama ele de que?

Anahí: de gatão, príncipe…

Dulce: realmente tu foi abduzida. Minha amiga nunca chamaria um homem de


príncipe.

Anahí: ah, sei lá… ele foi super atencioso comigo, muito carinhoso… um
romantismo convincente. Então resolvi tratá-lo do jeito que ele me trata. Até
porque nunca fiz isso, quis experimentar.

Dulce: e vocês conversaram depois de sábado?

Anahí: passei a noite no MSN ontem conversando com ele.

Dulce: vão se encontrar?

Anahí: talvez não dê agora. Vou viajar no sábado pra Luís Correia.

Dulce: volto já, bebê! Vou ali pegar uns documentos.

Outra vantagem das reuniões de segunda era a calma e a rara paciência


de Anny. Como se no final de semana ela recarregasse as pilhas. Além disso,
excepcionalmente agora tinha outro motivo: “Rodrigo”. Poncho também estava
assim. Sabia que sua atração por Anny era muito forte e especial, mas também
sabia que sua hadita poderia resolver isso. Desde cedo estava evitando
Cláudia. Gostava de enfrentar problemas de cabeça erguida, mas hoje seu
racionalismo estava mais aguçado. Temia chatear ainda mais a colega, até
porque tinha como certo que ela o vira com sua outra acompanhante. Tentara
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adiar esse encontro ao máximo, até que teve de sair da sala rumo ao
estacionamento. Logo na entrada, viu-a.

Cláudia: e aí, Poncho… — irônica

Alfonso: oi, Cláudia. — bem calmo

Cláudia: por que não me disse que estava namorando a Anahí? — séria

Alfonso — rindo: eu? Com a Anahí?

Cláudia: finge muito bem. Deveria ser ator. Eu vi vocês na festa sábado.

Alfonso: só que eu não estava com a Anahí na festa. Aliás, ela nem foi. —
Dulce apareceu — Dulce, vem aqui. Diga pra nós. A Anahí foi ou não àquela
festa de sábado?

Dulce: (pensando) eu e minhas mentiras. (falando) Não, por quê?

Cláudia: porque eu vi ela e o Poncho no maior agarramento nessa festa.

Dulce: só se for outra Anahí, porque a minha amiga odeia o Ponchito. — Anny
apareceu — (pensando) ah, não! Tinha que aparecer bem agora!

Anahí: quem odeia o Ponchito? Fala porque serei a maior fã… — rindo
docemente

Dulce: você, Anny.

Anahí: faz sentido porque sou minha maior fã…

Alfonso: maior e única… — Cláudia riu

Anahí: não preciso de outras, prefiro outros… — falou com cara de safada

Dulce: isso aí, Barbie! Ponchito, sinto lhe dizer mas tem um monte de cara
caidinho por ela, o último é um tal de Rodrigo.

Alfonso: só pode ser é louco. — falou disfarçando o ciúme

Cláudia: não sei quem tá louco, só sei que eu não tô louca e vi perfeitamente
vocês dois juntos! — irritada

Anahí: vocês dois quem? — sem entender

Cláudia: ora quem? Tu e o Poncho!

Anahí: eu com ele? — soltou uma gargalhada — Impossível!


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Dulce: (pensando) vai sobrar pra mim… (falando) Chega! — gritando — Cada
um pra sua sala e você, Cláudia, tá mesmo louca! — tentando levar Anny

Cláudia: Dulce Maria, eu não estou louca! Eu vi sim eles na festa do Chris!

Anahí: na festa do Chris eu estava com o meu gato! E não com esse chinelo
velho!

Alfonso: então tu foi à festa do Chris no sábado?

Anahí: neda, Poncho…

Alfonso: neda?

Cláudia: né da tua conta, Poncho.

Alfonso: dá pra responder à minha pergunta?

Anahí: fui, por quê?

Alfonso: Dulce falou que não tinha ido. Dulce!?!? — tarde demais, ela já tinha
saído — Por que ela mentiu? Ah, sabe de uma coisa, eu vou ligar pra minha
gata da festa e resolver isso tudo.

Anahí: (pensando) gata da festa… será se ele tá ficando com alguém? Deve
ser uma vadia de quinta… Cala a boca, Anahí! Você não está nem aí pra vida
desse idiota…

Poncho discou o número de hadita e, conseqüentemente, na mesma


hora o celular de Anny começou a tocar.

Cláudia: eu disse!

Anahí: é só coincidência! É meu gostosão que tá me ligando. — colocou no


viva-voz e atendeu — Oi, amor…

Alfonso: Anahí? — assustado

As ações seguintes transcorreram em câmera lenta. Anny deixou o


celular cair e ficou encarando Poncho, que permanecia imóvel. Caminhou
lentamente até ele, afastou a gola de sua camisa e comprovou o que temia. As
marcas de sábado estavam lá pra confirmar tudo. Sem se deixar abalar, pegou
o celular no chão e saiu pra sua sala sem falar nada.

Cláudia: pelo jeito vocês não sabiam mesmo… Então não são namorados? —
feliz

Alfonso — sério: não.


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Cláudia: que bom… Então podemos sair mais vezes, Ponchito!

Alfonso: esqueça isso… não vou sair com você. — saiu

Poncho estava atordoado. Era apaixonado por Anny. Disso não tinha
dúvida. Sentia-se sem chão porque a única esperança que criara em talvez
esquecê-la era hadita, ou seja, ela mesma. Passou um tempo dirigindo até que
resolver parar pra caminhar na orla do Rio Poti. Ficou mais de meia hora
andando entre os teresinenses que ali se exercitavam. Exausto, parou num
trailer pra se refrescar com água de coco. Os minutos seguintes se reduziram a
olhares vagos, distantes e totalmente perdidos. Apesar de hoje estar mais
racional que nunca, Anny conseguiu tocá-lo em seu íntimo, algo que o
desconsertara. Seus pensamentos foram surpreendidos por um homem que se
sentou à sua frente meio preocupado.

X: você está bem?

Alfonso: acho que sim… — respirou fundo

X: sei que posso ser um estranho, mas se quiser conversar…

Alfonso: teresinenses são sempre assim?

X: não é daqui?

Alfonso: não.

X: na verdade, brasileiros são assim, então a resposta é sim, e mesmo que não
fôssemos, diria que sim só pela propaganda… — os dois riram

Alfonso: tudo bem. Digamos que me apaixonei pela pessoa que nem em
pensamento poderia fazê-lo.

X: conheceu agora? Já ficaram?

Alfonso: conheci agora dia 20 e ficamos numa festa sábado na casa de um tal
de Chris.

X: e pelo jeito não conhece esse tal de Chris.

Alfonso: não.

X: então, prazer. Sou eu, Christopher ou Chris, como quiser chamar.

Alfonso: sério?! Nossa! — impressionado

Christopher: e você? Quem é?

Alfonso: Alfonso Herrera. Mas me chame de Poncho.


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Christopher: ah, eu li sobre você no jornal. Vai ser corregedor, né?

Alfonso: isso mesmo.

Christopher: e deve tá trabalhando com a Dul e a Anny… — na hora que ele


falou “Anny”, Poncho fechou a cara de novo — Não me diga que é da Anny que
tá falando?

Alfonso: exatamente.

Christopher: boa sorte… — rindo

Alfonso: tá ajudando muito… — irônico

Christopher: desculpa, mas é que já me acostumei a ouvir isso.

Alfonso: quê?

Christopher: cara, quem não se apaixonaria por ela? É simplesmente uma


deusa! Eu mesmo já tentei, mas ela me cortou feio…

Alfonso: ela é muito geniosa…

Christopher: e como… mas é uma pessoa maravilhosa!

Alfonso: tenho minhas dúvidas…

Christopher: pois não tenha! Ela não construiu essa fama que tem à toa…

Alfonso: se conhecem há muito tempo?

Christopher: estudamos juntos no ensino médio, quando ela veio do México.

Alfonso: ela é do México?

Christopher: aham. Aprontou alguma por lá aí a mãe castigou mandando ela


pra cá, pra morar na casa de uma amiga, que por acaso é a mãe de Dul.
Vieram as três do México.

Alfonso: então Dulce também é do México?

Christopher: não, mas é uma história mais complicada que não posso te
contar. E tu? Acho que não é daqui, né?

Alfonso: sou dos Estados Unidos.

Christopher: mas eu sobrenome é bem hispânico…


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Alfonso: sou de uma família tradicional da Califórnia, desde quando ainda era
território mexicano. Era tradição casamentos somente com descendentes
latinos, pra manter a linhagem de sobrenomes. Mas não pretendo seguir isso.

Christopher: depende. Se conseguir domar a fera… — rindo — e pelo que


entendi, as famílias iam se dar muito bem. Os pais dela respiram dinheiro.

Alfonso: então sustentam ela?

Christopher: não. Todo mês a mãe dela manda uma pequena fortuna que vai
se acumulando no banco. Depois que começou a trabalhar, só usou pra
comprar e decorar o apartamento, sendo que não gastou nem 5% de tudo e
ainda mora no edifício mais caro e luxuoso de Teresina.

Alfonso: tá bem informado, hein…

Christopher: somos muito amigos, principalmente quando comecei a namorar


a Dul.

Alfonso: vocês namoraram?

Christopher: aham.

Alfonso: quando?

Christopher: terminamos uns meses atrás. — triste

Alfonso: ainda gosta dela?

Christopher: pior que sim.

Alfonso: então por que não pede outra chance?

Christopher: eu que teria que dar outra chance pra ela. Ela me traiu…

Alfonso: ah, entendi o problema. Se gosta dela, por que então não dá outra
chance pra ela? Ou melhor, outra chance pra vocês?

Christopher: eu bem que queria, mas Dul não curte algo sério, tanto que
quando teve, não agüentou… Digo isso não porque seja o que eu acho, mas
porque foi o que ela mesma me disse.

Alfonso: vou conversar com ela.

Christopher: e eu tentar tirar algo da Barbie.

Alfonso: então, vou indo.

Christopher: rola aí uma carona?


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Alfonso: claro! Vamos!

Poncho foi deixar Chris em seu apartamento. Por insistência, ele acabou
entrando pra tomar alguma coisa. Chris ficou enrolando Poncho, sempre
olhando pro relógio. Quando finalmente chegou a hora que queria, Chris o
deixou “livre” pra sair ou não. Na porta, ainda puxou um pouco mais de
assunto.

Christopher: (pensando) droga! Tá atrasada! Ou será se já chegou? Ah, o


elevador tá subindo, deve ser ela.

Quando o elevador se abriu, Anny saiu. Na hora, Poncho viu e olhou pra
Chris, que devolveu o olhar com uma piscada discreta. Ela estava carregando
muitos papéis, por isso só se deu conta da presença de Poncho quando já
estava bem perto deles.

Anahí: o que faz aqui? — séria

Alfonso: vim visitar meu amigo, Chris.

Christopher: oi, minha lindinha! — deu um beijo no rosto dela

Anahí: oi, Chris… depois quero falar contigo… E você, Alfonso, me avise
quando vier aqui, pra eu não vir. — saiu rapidamente

Christopher: ela tá caidinha por ti!

Alfonso: e como tá… faltou me matar congelado de tanta frieza e ainda diz
que ela tá caidinha por mim…

Christopher: pode acreditar… se ela não estivesse, não ia nem te dar


importância, ia simplesmente te ignorar… No entanto, ela se incomodou em te
ver aqui, porque é sinal que além da promotoria, pode te encontrar aqui…

Alfonso: se tá dizendo… então vou indo…

Christopher: ah, ia esquecendo… Lição número um: parte pra cima e se ela
disser que não, tampa a boca dela com um beijo.

Alfonso: tá certo… — rindo — Tchau! — saiu

Teresina, promotoria, 26/08/08, 07h27

Anny estava organizando uns arquivos no notebook. Desde ontem não


tinha notícias de Dulce, apesar de morarem no mesmo edifício. Sabia que a
amiga estava se escondendo de propósito, mas não por medo, e sim porque a
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conhecia tão bem que esperava que ela se acalmasse pra poderem conversar
melhor. Nunca se sabe ou se tem a certeza de qual o melhor momento pra
agir. A única convicção é que uma hora tudo tem que acontecer…

Dulce: Barbie? — ela entrou receosa no escritório de Anny

Anahí: já tava preocupada, lamparina!

Dulce: como tá minha ficha? — fazendo bico

Anahí: manchada mas eu tenho corretivo… — rindo — Quero falar contigo…

Dulce: agora?

Anahí: uhum… Senta aí… — Dulce sentou — Sinceridade, cabeça de fogo… A


festa… você sabia de tudo?

Dulce: tudo, tudo, tudo e tudo?

Anahí: não me enrola…

Dulce: sabia… Fui eu que armei quase tudo.

Anahí: como? — incrédula

Dulce: eu fiz os dois irem à festa… mas o resto foi com vocês…

Anahí: como assim “com vocês”?

Dulce: Anny, eu não tenho culpa se vocês se gostam de verdade e se


reconhecem até no escuro com o rosto escondido. — falou na lata

Anahí: mudei minha viagem pra próxima semana.

Dulce: (pensando) mudando de assunto… sinal de que estou perdoada…


(falando) Por que?

Anahí: falei com Vagner. Na próxima semana vai ter um evento de alguma
coisa que não lembro. Seria legal mais uma figura pública por lá por iniciativa
própria. Aí ele arrumou o convite… Ou seja, fama x + par de pernas 2y = …

Dulce: verbas! — sorrindo

Anahí: acho que final de ano lanço umas dez vagas.

Dulce: tudo isso?

Anahí: aham. Isso aqui tá muito sobrecarregado.


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Depois de conversar quase 2h com Anny, Dulce foi procurar Poncho. Se
a amiga não ia baixar a guarda e seguir o coração, tinha que dar um
empurrãozinho, ou melhor, fazer alguém dá-lo.

Dulce: Poncho, temos que discutir uma causa. — foram deixados a sós após
um sinal dele

Alfonso: idem, Dulce Maria. — sério

Dulce: vocês se merecem mesmo… Eu faço um favor e é assim que me


agradecem…

Alfonso: grande favor… — irônico

Dulce: grande favor sim! Vai dizer que não gostou dos beijos? E esses
chupões aí no teu pescoço? Eu vi a empolgação de vocês! Minta o quanto
quiser, pra quem quiser, só não pra si mesmo!

Alfonso: aonde quer chegar com essa discussão de competências?

Dulce: vou ser direta. Quero saber se gosta de verdade da Anny.

Alfonso: quê?

Dulce: vai à Clínica Flávio Santos. Lá tem os mais renomados otorrinos de


Teresina. Agora se quiser posso gritar pra escutar melhor enquanto não
resolve isso.

Alfonso: eu escutei.

Dulce: e então?

Alfonso: o que ganharia sabendo disso?

Dulce: a cérebro de formiga não quer aceitar que tá louca pra te dar uns
pegas, então, dependendo da tua resposta, vou ver o que fazer.

Alfonso: espera aí? Então é sério que ela tá a fim de mim? — entusiasmado

Dulce: (pensando) boca grande essa minha… (falando) E pelo jeito tu também
tá… — rindo

Alfonso: preciso responder mesmo? — sorrindo

Dulce: então vamos trabalhar! Tu tem que saber que ela adora homem com
iniciativa. Então… — deu uma gargalhada

Alfonso: já entendi… — rindo


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Dulce: (pensando) ai, ai, ai, tô cavando minha cova… (falando) Vi no teu
contrato que teu niver é depois de amanhã… que tal cobrar o presente?

Alfonso: Dulce, tá me ajudando tanto com a Anny pra que a gente pelo menos
tente inventar uma nova história de amor… por que então não tentar criar uma
sendo a protagonista?

Dulce: Chris te contou?

Alfonso: foi. O que sente exatamente por ele?

Dulce: não sei…

Alfonso: e por que não tenta descobrir?

Dulce: não quero magoar ninguém com falsas esperanças e nem me


magoar… sei que um dia ele não vai agüentar a minha rotina…

Alfonso: tua rotina? — sem entender

Dulce: vou te contar a minha história pra poder entender. Segredo de justiça,
Alfonso Herrera! Só Anny e minha família sabem da história toda…

Alfonso: e o Chris?

Dulce: ele pensa que sabe, mas não sabe… não podia contar porque era uma
relação recente e é um assunto muito delicado.

Alfonso: obrigado pela confiança.

Dulce: vai ser meu cunhado, então posso confiar… — eles riram — Eu me
mudei pro México aos oito anos com minha mãe. Somos daqui, mas tivemos
que nos mudar porque sou filha de um magnata daqui. Minha mãe e ele
tiveram um caso, do qual eu sou a conseqüência. Ele é casado e ainda é uma
figura pública, com influência em todo o Nordeste e até em outras partes do
país. Minha mãe sempre foi uma besta e aceitou se mudar recebendo uma
pensão obesa todo mês. Quando fiz quinze anos, quase implorei pra voltar. Eu,
que nunca fui ingênua, ameacei espalhar a verdade caso ele impedisse. Mas
ele impôs uma condição. Que eu não aparecesse muito em público pra não
gerar desconfianças, já que nós somos um pouco parecidos e, na época,
houve rumores sobre essa possível traição. Por isso uso mais maquiagens
pesadas, saio mais à noite e compro sempre muitas roupas de uma vez só. Ele
continua dando dinheiro pra nós duas. Sei que é pelo silêncio, mas não me
importo. Não sou uma santa. Gasto mesmo. Apesar de tudo, ele é meu pai…

Alfonso: nossa! E os sobrenomes? Ele te registrou como filha?


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Dulce: fui registrada no México. Pra despistar, ele colocou sobrenomes
diferentes, um nada a ver com ele e o outro da minha avó que é descendente
de espanhóis.

Alfonso: e quem é ele?

Dulce: não sei se posso dizer… não por falta de confiança, e sim porque até
me envergonho de ter um pai que não se importa comigo. — triste

Alfonso: sinto muito… pode sempre contar com o meu apoio…

Dulce: eu sei disso. E aí? O que achou? — rindo pra afastar a tristeza

Alfonso: impressionante! E como conheceu Anny?

Dulce: estudamos juntas. De cara nos tornamos melhores amigas.


Aprontávamos todas! — rindo — Uma vez quase incendiamos a escola…

Alfonso — rindo: e como se safaram?

Dulce: não nos safamos! Fomos expulsas! — rindo muito

Alfonso: que coisa! E os pais? Não pensaram em separar vocês?

Dulce: não, porque sempre fomos como irmãs. Sabiam que separar a gente
era como separar duas irmãs gêmeas. Além disso, nossos pais são muito
amigos.

Alfonso: e quando vieram pra cá? Chris me disse que Anny tinha aprontado
uma…

Dulce: na verdade nós duas estamos envolvidas…

Alfonso: conta aí? — animado

Dulce: era dezembro. A Anny queria viajar pra Nova York pra ver um desfile,
só que a mãe dela não podia ir e não queria que ela fosse sozinha. Então,
armamos um plano pra parecer que ela estava lá em casa enquanto viajava.

Alfonso: ela foi sozinha? — assustado

Dulce: foi.

Alfonso: era menor de idade, como conseguiu?

Dulce: usou uma autorização que a tia tinha dado no meio do ano pra gente
viajar pra casa de uma tia dela também nos Estados Unidos. Mudamos alguns
detalhes aí deu certo.
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Alfonso: e onde ela ficou lá?

Dulce: na casa de uma amiga.

Alfonso: e quando a mãe ligava?

Dulce: temos nossos truques… — rindo

Alfonso: e quando descobriram? Como descobriram?

Dulce: a mãe dela foi lá em casa sem avisar… tentei enrolar mas ela me
pegou…

Alfonso: e se aprontaram tanto, por que deixaram morar juntas aqui?

Dulce: a minha mãe sabe botar as coisas na linha… — rindo — Sempre me


impôs limites e nem eu nem ninguém consegue enrolar ela. Como surgiu essa
idéia de vim pro Brasil, a tia Mary achou que seria castigo suficiente ela ficar
sob os cuidados da Bloody Blanca…

Alfonso: se ela é tão linha dura, como se deixou manipular pelo tal?

Dulce: ela aprendeu a ser assim quando se viu sozinha no México. Não
rejeitou a ajuda porque precisava e porque eu tinha direitos como filha. No
fundo, acho que ainda gosta dele…

Alfonso: não brinca?

Dulce: é o que eu acho. Tenho que ir, senão Anny vai me descobrir aqui.

Alfonso: certo. Até depois. — ela já estava pra sair, recuou e voltou a lhe falar

Dulce: está organizando teu apartamento, né?

Alfonso: tô.

Dulce: se quiser te consigo o desconto no Paraíba. Tenho que zelar pelo


patrimônio da família… — saiu

Teresina, promotoria, 27/08/08, 10h15

Poncho estava há horas estudando uns inquéritos a pedido de um


amigo. A autorização conseguida por Anny não dava plenos poderes como
corregedor, só o suficiente para prosseguir com a reforma e resolver situações
emergenciais. Já que estava sem muitos assuntos a resolver, aceitava numa
boa ajudar nas causas, relembrando seus tempos de advogado. Dessa vez,
era Cláudia quem pedira uma segunda opinião sobre um caso. Sabia que
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aquilo não passava de um pretexto pra conversarem, mas isso não o
importava. Cometer injustiças era o que considerava um ínfimo erro. Seu
celular, então, começou a tocar.

Alfonso: oi…

Dulce: Poncho, aqui é Dulce que tá falando. Quero que só venha amanhã à
tarde.

Alfonso: por que?

Dulce: amanhã vamos fazer uma festa surpresa pra ti.

Alfonso — rindo: tem certeza que é surpresa?

Dulce: tenho. Até porque tu não sabe de nada. Mas então, certo ou não?

Alfonso: ok, mamãe! Quem tá organizando?

Dulce: Cláudia.

Alfonso: não tinha outra pessoa não?

Dulce: oh, gatão, só assim pra Anny não desconfiar que eu tô armando!

Alfonso: tchau, Dulce! — desligou na cara dela

Dulce: mas olha a figura! Já se acha no direito de desligar sem deixar eu dizer
nada!

Teresina, promotoria, 27/08/08, 12h57

A hora do almoço transformava o ambiente do prédio numa angustiante


solidão. As únicas figuras vivas que se aventuravam pelas instalações eram os
seguranças, que mesmo assim só se limitavam ao térreo. Essa era a
oportunidade perfeita para qualquer espião se deleitar entre os corredores, já
que as salas eram devidamente trancadas. O mais interessante nesse caso é a
identidade do espião. Nome: Alfonso Herrera Rodríguez. Codinome: Poncho.
Idade: 29. Altura: 1,78m. Especialidade: seduzir mulheres indefesas (apesar de
que seu mais recente trabalho não se reportar à indefesa feminina). Para ele,
pouco importavam as outras salas, só lhe interessava a da promotora mor, que
por coincidência (ou talvez sorte, quem sabe…) estava aberta.

Alfonso: (pensando) não acredito que logo ela deixou a porta aberta…

Entrou e ficou mexendo cuidadosamente em tudo. Observou a elegante


decoração, os quadros, os objetos e ate alguns documentos que estavam
Viianny 33

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déjate amar ♥
sobre a mesa. Eram registros de presos envolvidos com tráfico de armas.
Tinha nomes até de estrangeiros. O que mais lhe chamou a atenção foi o caso
de Tony Monford, um estadunidense naturalizado brasileiro que, segundo os
arquivos, fora preso há seis meses e solto sob circunstâncias no mínimo
suspeitas. Resolveu anotar o nome para investigar melhor depois. Andou um
pouco mais pela sala, dava pra sentir em cada canto o cheiro dela. Isso era o
que mais lhe cativava naquele lugar. Parou defronte a um móvel repleto de
fotografias. Tinha de Anny com quem aparentava ser sua mãe, com
supostamente seu pai, com Dulce, com outras pessoas, sozinha… Enfim, tinha
muitas… Parecia que cada foto significava algo e já fazia parte daquele
ambiente. Concluiu isso porque até mesmo uma dela sozinha (que ele
carregara no dia em que se conheceram) foi substituída por uma cópia.
Naquele 20 de agosto, depois de quase expulsá-la do próprio escritório,
sutilmente lhe furtou um retrato.

Alfonso: mas aquela fica bem melhor no meu quarto…

Anny: ah… então foi você quem pegou, né… — estava parada na porta —
Quem lhe deu permissão pra entrar na minha sala e mexer nas minhas coisas?

Alfonso: permissão? — caminhou até ela — Não preciso de permissão.


Vamos nos casar mesmo…

Anny: como é que é? — incrédula — Tá louco ou bêbado?

Alfonso: só me deu duas opções. Vou provar a falsidade de uma e ao mesmo


tempo mostrar a veracidade da outra.

Anny: e como pretende fazer isso?

Alfonso: com um simples cálculo… — olhou pro relógio — Assim…

Sem perder tempo, ele a tomou em seus braços e a beijou sem


cerimônia. Ao contrário do que ele esperava, ela nem pensou em recusar o
beijo. Simplesmente enlaçou os braços no pescoço dele e o deixou sob o
controle. Poncho preferiu algo mais romântico, tendo mais fôlego pra
prossegui-lo. Em certos momentos, a movimentação de lábios era tão lenta que
chegavam a parar, sem desencostá-los. Ele sabia conquistar uma mulher,
mesmo as mais difíceis. Achava que o romantismo ia fazê-la abrir o coração.
Só não sabia que ela havia aceitado esse ritmo para não se afastarem tão
cedo. Assim como também não sabia que o coração dela já estava totalmente
aberto, só à espera do próximo passo. Foram mais de vinte minutos até se
separarem…

Alfonso — olhando pro relógio: realmente, acho que deu pra ver que não
estou bêbado e, pelo tempo, devemos os dois estar loucos… — rindo

Anny: tava precisando de uma massagem nos lábios… — seca


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déjate amar ♥
Alfonso: não precisa de massagem em outro lugar? Se quiser estou inteiro à
sua disposição… — fez cara de safado

Anny: é acho que estou precisando. Precisando de uma massagem na mão…


— deu um tapa nele

Alfonso: au! É magrinha mas tem a mão de ferro, só pode! — com a mão em
cima do lugar do tapa

Anny: experimenta pra ver quem é magrinha, aqui! — com raiva

Alfonso: não precisa, já tô vendo, ameixa seca.

Anny: olha, tu não me provoca porque ainda não conhece a minha ira!

Alfonso: ah, é? E vai fazer o que? Chamar o Chapolin Colorado? Aproveita e


chama também o doutor Chapatin porque tá ardendo, hein? Se duvidar vai ficar
roxo…

Anny: tá duvidando, né? Pois escuta só o que eu vou fazer, galo campina.
Primeiro, eu vou torcer o seu pescoço até escutar um belo “track”. Depois, vou
te colocar de cabeça pra baixo até o sangue descer todo pra cabeça. Se você
for um bom garoto, seus miolos vão estourar de tanta pressão, facilitando meu
trabalho. Em seguida, vou te colocar na água quente pra poder arrancar suas
penas uma por uma, até ficar todo depiladinho… Aí vem a melhor parte, vou
abrir sua barriga com uma faca cega e tirar todos os órgãos.

Nessa hora, Poncho já estava totalmente assombrado com as palavras


de Anny. Tinha em mente que ela não iria consumar tal ato, mas, mesmo
assim, ficou imaginando toda a cena. O que mais lhe impressionava era a
frieza com que descrevia cada feito. Chegou até a se esquecer que estava
falando com a promotora Anahí e não com uma homicida profissional. Pela
primeira vez, chegou a se questionar por que ela era tão odiada entre alguns
colegas da promotoria e conseguia tantas facilidades através de seu cargo.
Poderia ser sua eficiência, seus olhos provocantes, seu belo par de pernas ou
mesmo seu ar sedutor, mas também poderia muito bem ser por outros motivos
mais…

Alfonso: faca… ce-ce-cega? — aterrorizado

Anny: seja macho, homem! Já vai estar morto mesmo… não vai sentir nada…
É só pela emoção mesmo… Mas me deixa continuar. Depois de tirar todos os
órgãos, vou te jogar numa chapa quente, bem quente mesmo, pra ficar bem
torradinho e… — foi interrompida

Alfonso: chega! — gritando — Sabia que eu posso encarar isso como uma
ameaça de morte? Esqueceu quem eu sou?
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Anny — bem calma: não, não esqueci. Assim como não esqueço os vários
processos que existem contra mim. Esse só vai ser um a mais, até porque não
foi uma ameaça e vai ser a sua palavra contra a minha. Se quiser continuar vai
fundo! No final, só vamos descobrir quem tem mais dinheiro…

Alfonso: quer dizer que a promotora Anahí Giovanna Puente Portillo não
acredita na justiça? — com voz desafiante

Anny: acredito sim. Acredito fielmente na justiça. Só que tu esqueceu de


perguntar em qual justiça eu acredito. Se na real ou na ideal… Agora sai daqui
agora! — gritando

Dulce: dá pra parar de brigar?! — entrou gritando — Ou vou ter de dar voz de
prisão pra vocês dois?

Dulce há alguns instantes havia chego. Pra maior informação, chegou


quando Poncho gritou. Não se atreveu a interromper a conversa, mas a partir
do momento em que ouviu Anny gritando, resolveu interferir. Conhecia muito
bem a amiga, por isso sabia que quando começava a gritar naquela
intensidade significava que poderia perder o próprio controle a qualquer
momento. Elas duas já chegaram a brigar sério. Foi exatamente através
dessas brigas que aprenderam a controlar uma a outra. Tinha de entrar em
ação, antes que a discussão aumentasse de proporção, ou mesmo que
chamasse a atenção de mais gente. Seria um grande escândalo, com certeza.
Prejudicando não só a assunção de Poncho, como também a imagem
impecavelmente construída por Anny.

Dulce: Poncho, sai por favor!

Alfonso: Dulce, você sabe que espécie de amiga tem?

Dulce: eu conheço muito bem a minha amiga, agora sai por favor, senão a
briga vai ser outra… — começando a se alterar

Anny: é melhor escutar ela… nós somos muito parecidas! — soltou uma risada
maquiavélica

Alfonso: toma cuidado comigo… não sou a besta que tá pensando… — saiu
batendo a porta

Dulce — respirou fundo: agora me conta. O que foi que tu disse pra ele ficar
daquele jeito?

Anny: eu nada… só fiz dele um personagem de Jogos Mortais! — com voz


inocente

Dulce: jura? — admirada

Anny: pink promise! — as duas caíram na gargalhada


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Dulce: coitado dele, Anny! Ou devo dizer Jigsaw? — caíram no riso de novo

Anny: foi ele quem pediu! Acredita que roubou uma foto minha daqui? Aquela
que eu pensei ter perdido…

Dulce: mentira!

Anny: verdade! Ah, agradece sua mãe por ela ter me obrigado a ver como se
mata uma galinha… — com cara de nojo

Dulce: se ela souber disso vai te obrigar a matar uma de verdade…

Anny: Dulce, temos outro problema. Eu tinha saído pra pegar água, que a
minha tinha acabado. Quando saí, deixei uns papéis do caso Monford na
mesa…

Dulce: acha que ele viu?

Anny: acho não, tenho certeza. Principalmente depois que vi esse papelzinho
aqui — apanhou um pedaço de papel no chão — cair. Olha só. Não só viu,
como leu e anotou o nome do Tony pra investigar. Ele é obcecado por justiça.
Conheço esse perfil. É daqueles que se ver uma formiga atravessando a faixa
no sinal verde dá voz de prisão.

Dulce: e o que vamos fazer? — preocupada

Anny: não tem outra saída. O jeito é eliminar… — triste

Teresina, promotoria, 27/08/08, 13h21

Estudos e mais estudos analisam a forte ligação entre pais e filhos,


levando esse quadro tanto para o lado fisiológico como para o psicológico.
Com amigos ainda não existem pesquisas avançadas e nem respostas cem
por cento convictas. Especialmente amizades tão únicas como a que existe
entre Anny e Dulce. Elas próprias não entendiam o que acontecia. Uma
defendia plenamente a outra. Não conseguiam esconder nada. Era como se na
verdade fossem um espírito só, que por alguma questão metafísica fora
dividido em dois corpos. Essa é uma das razões que leva Dulce a fazer de tudo
pra Anny e Poncho se acertarem, porque sabe, ou sente, que está diante de
um grande laço de amor. Outra possível causa é o fato de Dulce tentar realizar
na amiga algo que sonha pra si mesma, mas que julga impossível. Alguém terá
de lhe dizer que nada é impossível quando há amor…

Dulce: alô, Chris? Aqui é Dul. — impaciente

Chris: oi , Dul! — alegre


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Dulce: é o seguinte. O Poncho tá fumaçando de raiva da loira. Se ele não te


procurar, liga com alguma desculpa. Te vira! Tenta reverter a situação. Se não
conseguir liga pra mim…

Chris: gostaria que tivesse tanta gana assim pra salvar o nosso namoro… —
melancólico

Dulce: com a gente é diferente! Há razões que estão fora do nosso alcance! Se
for pra ficarmos juntos, o destino vai nos unir… (pensando) Mas de onde eu tô
tirando isso? Pena que a gente ainda não pode ficar junto…

Chris: só espero não ter de esperar até a hora de morrer pra ouvir um “eu te
amo” de ti…

Dulce: deixa de besteira, Chris! Já sabe, né? Tchau… — desligou

Chris: ai, minha ruivinha! O que será que tanto nos separa?

Sem perder tempo, Chris ligou pra Poncho, que estava no bar do
Metropolitan Hotel. Aparentando surpresa, Chris fingiu preocupação com o jeito
dele e logo se prontificou a ir dar um ombro amigo, até porque concluiu que a
situação era mais grave do que pensara. Ao desligar, retornou pra Dulce,
afirmando achar que não dava conta do problema sozinho por não saber de
nada relacionado. Quando chegou ao bar, avistou a figura do amigo cabisbaixo
e sério numa das mesas. Dada a hora, o ambiente não estava nada lotado,
garantindo certa privacidade e desenvoltura.

Chris: e aí, cara!

Alfonso: oi… — sério

Chris: conta aí o que houve. A loirinha tá te deixando mal mesmo, hein? —


sorrindo

Alfonso: mal? Ela praticamente me matou hoje de manhã! — contou tudo o


que aconteceu

Chris: nossa! — abismado

Nesse momento, Dulce chegou no local. Pela cara de Chris, pensou que
o melhor foi ter ido mesmo.

Alfonso: o que ela faz aqui? — perguntou quando viu Dulce se aproximando

Chris: Dul? Não consegui esconder que tava contigo.

Alfonso: e ela manda em ti por acaso? — irônico


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Chris: não gosto de mentir pra minha namorada.

Dulce: namorada? (pensando) Essa tem troco!

Alfonso: algum problema? — desconfiando

Dulce: não, é porque pensei que não era oficial. — sentou ao lado de Chris

Alfonso: e por que não me contou, cara?

Chris: ia te contar quando te liguei, só que aí esqueci porque te achei mal…

Alfonso: certo… mas afinal, o que quer, Dulce?

Dulce: explicar o incidente de agora há pouco. — disse meio sem graça

Alfonso: explicar? Não precisa se dar ao trabalho. Eu entendi direitinho o


recado! — um pouco alterado

Dulce: ah, Poncho! Foi tudo de brincadeira! A Anny adora zoar com todo
mundo, principalmente com os homens…

Chris: isso é verdade. Já sofri bastante! — rindo

Alfonso: se fosse só zombaria não tinha nada, Dulce. Mas simplesmente ela
parecia uma serial killer contando sua biografia!

Dulce: que serial killer que nada! É porque tu não a conhece! Ela é um anjo!

Alfonso: anjo? Que Paraíso é esse? Ali nem reencarnação resolve!

Dulce — tentando manter a calma: não acha que tá caindo direitinho no jogo
dela?

Alfonso: jogo? Que jogo? — sem entender

Chris: é, que jogo? — também perdido

Dulce: (pensando) homens… (falando) Que ela quer te irritar pra tu ir embora
de uma vez e ela não ter de conviver mais contigo! Eu não menti que ela tava
apaixonada por ti…

Alfonso: não acredito. Devia ter me tocado desde o começo quando ela
defendeu os pichadores.

Dulce: a Anny defendendo pichadores? — caiu na risada

Chris: brother, ela te enganou direitinho!


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Alfonso: me enganou? — aéreo

Dulce: Poncho, meu querido, a Anny como toda boa materialista nunca
defendeu pichadores… jura que acreditou mesmo?

Alfonso: ah, sei lá!

Dulce: mano, sabia que ela desarmou a maior quadrilha de pichação de


Teresina?

Alfonso: então mais uma vez ela brincou comigo? — triste

Chris: pensa pelo lado positivo! Se ela fez isso é porque quer te assustar, pra
tu se afastar dela e ela tentar te esquecer.

Alfonso: e qual é o problema comigo? Por que ela não quer nos dar essa
chance?

Dulce: não é com você. É com ela. Vou te contar só pra te fazer entender o
lado dela.

Alfonso: é tão grave assim? — preocupado

Chris: deixa a Dul te contar.

Dulce: a Anny não era filha única.

Alfonso: não? E cadê a irmã dela? — surpreso

Dulce: ela não era. Agora é.

Alfonso: conta direito! — confuso

Dulce: ela era mais velha três anos. Nunca foram tão próximas. Eu era mais
irmã da Anny do que ela. Mas tinham o mesmo jeito alegre e a mesma cabeça
dura. Isso sem falar na aparência. Elas eram muito parecidas, só que ela tinha
os olhos verdes e o cabelo mais escuro.

Alfonso: e como era o nome dela?

Dulce: Sophie. Então, numa bela tarde quente de outubro aqui, a Anny
recebeu a notícia da fuga da irmã com um namorado.

Alfonso: e por que fugiram?

Dulce: Marichelo, mãe delas, não queria que a filha casasse tão cedo. Eles
fugiram e sofreram um grave acidente no dia seguinte à fuga. Segundo os
médicos, sem chances de sobrevivência.
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Alfonso: muito triste, mas o que o acidente da irmã tem a ver com isso?

Dulce: tem a ver que a Anny ficou com isso na cabeça de não se apaixonar pra
não ter o mesmo destino da irmã.

Alfonso: é só ela não se meter a besta de fugir de carro por aí… Além do
mais, ela já é bem grandinha pra entender que isso foi uma fatalidade…

Dulce: o trauma dela é se apaixonar e não conseguir mais controlar seus atos.
Ela é muito independente e dona de si, mas por conta desse fato, digamos que
não amadureceu totalmente as emoções, por isso age de maneira contraditória
e não expõe os verdadeiros sentimentos. Eu, se fosse tu, continuava com os
planos pra amanhã…

Alfonso: é muita informação na minha cabeça, eu preciso pensar…

Dulce: então pensa! Mas pensa também que vale a pena tentar… Tu tá
sofrendo com essas atitudes dela, mas pensa então como ela se sente com
essa autotortura… É por isso que tu que deve ter a iniciativa.

Chris: é, Poncho! A gente não ia te enganar assim à toa… Vai pro teu quarto,
esfria a cabeça e raciocina sobre toda essa história…

Alfonso: certo… Vou indo então. — cumprimentou os amigos e saiu

Chris: será que deu certo? Será que conseguimos?

Dulce: acho que sim, mas só que agora você é quem está lascadinho pela
surra que vai levar! Por que inventou isso de namorados? — zangada

Chris: pensa comigo, Dul! Assim nós vamos poder ajudá-los mais! Já pensou
numa saída nós quatro? Não ia ter desculpa pra não ir!

Dulce: eu sei que não é só por isso… mas tudo bem… (pensando) Assim
talvez eu até consiga dá uns pegas nele…

Chris: então tu inventa uma história pra Anny logo, pra ela não pensar que é
algo combinado…

Há algum tempo, havia chegado a atual ficante de Chris. Todos sabiam


que ele morria pela Dulce, só que também era um amante nato. Comprometido
era muito fiel, mas solteiro… não sobrava uma… Sol, a tal fulana, resolveu
esperar pra ver se suas suspeitas estavam certas. Quando Poncho saiu, foi
quase instantânea a sua reação, diante da proximidade dos dois.

Sol: olá, Chris! — irônica

Chris: oi, Sol… — nervoso


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Dulce — que entendeu na hora quem era a paraguaiana: oi, querida!

Chris: Sol, essa é Dul… — gaguejando

Dulce: namorada dele… (pensando) Isso vai ser melhor que uma surra…

Sol: não me diga, fofa! Pois eu sinto lhe informar que nós estamos ficando já
há alguns dias…

Dulce: ele me disse. Eu sou a favor da diversidade de parcerias… Tá vendo


aquele gato ali no balcão? Fiquei com ele ontem… quer dizer… fizemos outras
coisinhas mais, se é que me entende… — rindo maliciosamente

Chris: então estamos quites, meu amor! Transei com a Clarinha domingo… —
rindo

Dulce: e aí, gostou? Eu acho a Clarinha uma pessoa maravilhosa…

Chris: muito fogosa! — rindo

Dulce: eu sabia! — rindo muito

Sol já estava cansada de ouvir aquela conversa. Além disso, se sentia


amargamente arrependida por ter ficado com Chris. Não entendia como uma
mulher poderia aceitar seu namorado por aí trepando com outra. Ofendida,
humilhada, suja, rejeitada… essas eram as características que se dava. Saiu
dali sem nem dizer nada. Tudo aquilo que ouvira já bastou pra saber que não
merecia ser apenas mais uma, afinal era a filha do governador… Merecia um
príncipe, mas como o Brasil não o tinha, teria de se contentar com um simples
plebeu. Pelo menos sendo rico… já bastava.

Dulce: parece que sua amiga não gostou de te dividir…

Chris: bom que assim não preciso inventar nada pra terminar.

Dulce: ela beija bem?

Chris: quê?!

Dulce: tô perguntando se ela beija bem…

Chris: tá querendo trocar de lado, é? — rindo

Dulce: claro que não!

Chris: ainda bem, gosto de ser homem…


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Dulce: (pensando) que fofo, ainda gosta de mim… Marte chamando Dulce…
Marte chamando Dulce… (falando) Não começa, Chris!

Chris: mas se foi tu que começou perguntando como ela beijava!

Dulce: é que eu queria saber! Pra agüentar uma insuportável do jeito dela, só
beijando muito bem…

Chris: então vou responder assim… os beijos dela nem chegam aos pés dos
seus…

Dulce: (pensando) desse jeito eu não resisto!

Chris: não estamos em greve, não precisa fazer resistência!

Sem mais uma palavra, Dulce colou seus lábios nos dele. Era um beijo
avassalador, sem intimidação, do jeito que os dois gostavam e precisavam.
Desde o início, toda essa situação de ajudar os amigos era um mero pretexto
pra cada vez chegar mais perto e conquistá-la sem volta. Pelo jeito, tava
começando a dar certo…

Teresina, promotoria, 28/08/08, 14h16

Estava dada a largada. Seria o começo de tudo ou o fim de nada…

Dulce — entrou correndo no escritório da amiga: Anny! Anny! Vem rápido! Vai
ter festa surpresa!

Anny — animada: de quem?

Dulce: não sei! Vamos que parece que vai ser bom! — disse puxando Anny

Anny: então, já tô lá! O que tanto tem?

Dulce: eu vi bolo, brigadeiro, salgadinhos, sorvete, gelatina, musse, raviólis,


canapés, sushi…

Anny: sushi? Quem foi que escolheu o cardápio?

Dulce: por que? Tu adora sushi, qual o problema?

Anny: eu sei que eu adoro, mas nada a ver…

Dulce: tá bom, senhora sabe tudo! Mas vamos senão já comeram tudo…

Chegaram lá. Tava tudo escuro. Quando Dulce acendeu a luz, pensaram
ser o aniversariante e já começaram a cantar parabéns. Anny caiu na
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gargalhada. Cláudia as chamou pra se misturarem na escuridão pela espera do
verdadeiro homenageado. Foi então que Poncho entrou. Todos cantaram
aquela velha musiquinha de parabéns, seguida do happy birthday e por último
las mañanitas. Quer dizer, todos com exceção de Anny. O máximo que ela fez
foi bater palmas no ritmo de marcha fúnebre. Com o término, um por um foi
cumprimentá-lo. Dulce arrastou Anny.

Dulce: parabéns, Poncho! — o abraçou

Alfonso — olhando pra Anny: e você? Não vai me cumprimentar também? —


disse com um sorriso encantador

Dulce: vai lá, loira! — empurrou-a pros braços de Poncho

Anny: parabéns… — sem graça

Alfonso: muito obrigado! — ainda abraçados

Anny: se esse abraço não for o seu presente pode ir me soltando…

Alfonso: tá, então vai ser o meu presente… — apertando-a ainda mais

Anny: vai matar o presente.

Alfonso: cala a boca, presente não fala… — começou a cheirar sensualmente


o cangote dela

Anny: (pensando) assim eu não agüento… Se fadas realmente existem, queria


pelo menos uma noite com ele…

Em certas ocasiões, se deixar levar pelas emoções é o maior erro do ser


humano. Cuidado com os desejos! Eles podem se tornar realidade…

Alfonso: (pensando) se eu pudesse… te atirava naquela mesa e te fazia minha


agora mesmo…

Anny: acho que já chega, né? — tentando se soltar

Alfonso: ainda falta a dança! Dulce, bota uma bem animada! — ela acenou
que sim

Dançar era a perdição de Anny. Quando o som começava e ela dava a


primeira rebolada, já era tarde demais. Foi assim que aconteceu. Dulce, muito
astuta, colocou “El rockton” (Don Omar feat. Los Rabanes). Alguns até se
assustaram. Nunca haviam visto a promotora dançando daquele jeito. Anny,
por seu cargo público de prestígio, só saía em festas particulares, mais um
motivo pra ser tão ligada a Dulce (por razões diferentes, não se permitiam
determinada liberdade). Cláudia fez menção em ir lá, mas Dulce foi mais rápida
e a segurou bem forte.
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♥ Sólo déjate
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Cláudia: me solta, Dulce!

Dulce: não mesmo! Não tá vendo que foi o Poncho que quis? Interromper não
vai adiantar nada! Acorda! Eles se gostam! Atrapalhar só adia… não acaba!

Cláudia: eu organizei tudo e ela que fica com ele? Mas não mesmo! —
tentando se soltar

Dulce: o Poncho vai ficar é chateado, não entende ou quer se fazer de burra?
Deixa pelo menos eles terminarem essa música!

Cláudia: tá bem… só essa… agora me solta! — foi solta

Cláudia tinha motivos suficientes para estar se cortando de ciúmes.


Anny e Poncho dançavam juntinhos de forma bastante sexy. Parecia que
estavam se amando bem ali no meio de todo mundo. Na verdade, já estavam
excitados. Se a música não acabasse logo, não responderiam por seus atos.
Foram os três minutos mais emocionantes desde aquela festa. Precisavam um
do outro. Isso era certo. Mas como aceitar esse sentimento tão avassalador
sem se assustar?

Teresina, promotoria, 28/08/08, 19h16

Anny — ligando pra secretária: Jay, chama a Dul aqui na minha sala.

Janete: ela saiu, Anny.

Anny: tudo bem. Pode ir também. Tchau. — desligaram e então Janete foi
mesmo embora — Não me disse nada quando saiu… tá aprontando alguma. O
pior é que agora tenho que ir sozinha à sala de arquivo.

Anny trancou sua sala e se dirigiu ao elevador. A sala de arquivo ficava


no último andar, junto com a sala de reuniões. Era enorme, dado que continha
a papelada de todos os processos. Lá ficavam trabalhando Emanuel e George,
mas nesse horário já haviam ido embora. Praticamente todos já tinham saído,
porém ela sempre ficava até mais tarde. Entrou na sala, acendeu todas as
luzes e começou a percorrer os corredores de armários. Estava sendo
concluído um trabalho de digitalização de todos aqueles documentos. Só que
ao acessar, através de uma senha exclusiva para cada funcionário autorizado,
ficavam registrados a entrada e o histórico no sistema, por questão de
segurança. Como não queria que ninguém desconfiasse de sua visita, teria de
ir procurar sozinha nos armários. Ainda bem que existia ordem alfabética, era o
que pensava. Estava bem no final de um corredor, prestes a entrar em outro,
quando sentiu um abraço por trás.

Alfonso: vim atrás do meu presente… — disse, beijando a nuca dela


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Anny — se recuperando do susto: pensei que já tivesse dado… — já um


pouco envolvida pelo clima de sedução

Alfonso: o de trinta anos sim. Mas falta o presente dos outros vinte e nove
anos… — virou-a de frente e a beijou

Dessa vez, não era o mesmo beijo de antes. Agora tinha uma dose a
mais de desejo e entrega. Sem perceber, Anny era conduzida para o lado mais
fundo da sala. Só notou onde estava quando sentiu a parede gelada através de
sua roupa. Sem deixar de beijá-la, Poncho tirou seu paletó e o blazer dela. A
sala era muito fria, mas isso só aumentava o calor que eles estavam sentindo.
Num sutil movimento, ela tirou o cinto dele e o jogou longe. Além disso, abriu a
camisa azul que usava, podendo assim sentir todos os músculos definidos de
seu tórax.

Alfonso: por que não admite que entre nós há algo muito forte?

Anny: nada que não passe depois disso…

Numa rapidez inexplicável, Anny inverteu o jogo. Agora era Poncho que
estava contra a parede. Ela terminou de arrancar-lhe a camisa, enquanto ele
tirava a dela, deixando-a só com o sutiã no busto. Bem devagar, Anny foi
abrindo e baixando a calça dele, sempre o olhando de forma bem sedutora.

Alfonso: tá querendo brincar com fogo… depois vai ser tarde demais… —
imaginando o que ela iria fazer

Anny: nada como o fogo para acalmar a alma…

Poncho tirou os próprios sapatos e o resto da calça enquanto ela fazia o


mesmo com o seu scarpin. Pra adiantar as coisas, se livrou da calça social que
ainda usava.

Alfonso: uau! Devia vim trabalhar assim…

Como resposta ao comentário, Anny começou a morder o membro dele


por cima da box branca que usava. Instantaneamente, Poncho começou a
gemer e chamar por ela, pedindo sempre mais. E ela obedecia. Num brusco
movimento, Anny tirou-lhe a cueca, revelando seu membro viril. Imaginava que
ele era muito bem dotado, mas mesmo assim se impressionou…

Anny: (pensando) pessoalmente é bem melhor…

Apesar desse lapso de pensamento, Anny não perdeu tempo e caiu de


boca naquele membro. Lambia, mordia, chupava, acariciava, “engolia”,
apertava, puxava… Poncho nem conseguia falar nada quão excitado estava.
Na verdade, excitado é pouco… Nunca imaginara se sentir assim. Já foi pra
cama com outras mulheres, logicamente, mas nenhuma se comparava a Anny.
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Não sabia se isso era resultado do amor que sentia por ela ou porque por
natureza ela era uma mulher ardente. O resultado não poderia ser outro.
Gozou bem na boca dela, que, com muita satisfação, engoliu tudo. Mas ele não
ia deixar por menos. Agarrou-a pela cintura, encostou-a na parede e tirou-lhe o
sutiã. Sem demora, devorou os seios um por um. Como resposta, Anny jogou o
busto pra frente, indicando que estava adorando e queria mais. Os homens
com quem ela saíra antes ficavam apreensivos por imaginarem o tanto que ela
era exigente entre quatro paredes. Realmente era. Nunca conseguiu chegar ao
que pensava ser seu ápice. Tinha orgasmos normalmente, só que sempre tinha
a sensação de que poderia ir mais além… A sensação de êxtase só foi
interrompida por um singelo gesto. Enquanto se deliciava com os seios dela,
Poncho começou a acariciar sua intimidade ainda escondida pela calcinha. Não
era algo muito brusco, até porque sabia que delicados movimentos poderiam
provocar sensações ainda mais impressionantes em determinadas mulheres.
Anny era uma. Começou a gemer descontroladamente e a se contorcer toda.

Anny: Poncho, por favor… — disse com voz falha — Não agüento mais…
Preciso de você! Isso é muita tortura!

Vendo os apelos da amada, Poncho só afastou um pouco a calcinha e a


penetrou de uma vez só. Ela sentiu como um alívio seguido de uma sensação
ainda mais angustiante. Como também estava mais do que excitado, ele partiu
logo pra movimentos mais rápidos, sem cerimônia. Se tivesse alguém no andar
de baixo, certamente estava ouvindo. Mas essa sensação de medo e dúvida só
aumentava ainda mais o prazer que ambos estavam sentindo. Os corpos dos
dois se encaixavam perfeitamente. O cansaço de um dia de trabalho parecia
aumentar a satisfação em cada toque. Talvez inclusive porque parte desse
esgotamento era causada pela necessidade reprimida de se entregarem de
uma vez por todas nesse novo horizonte desconhecido chamado “amor”. A
cada segundo, os movimentos mudavam de velocidade. Ora mais rápidos,
aumentando a tensão, ora mais devagar, possibilitando uma percepção maior
do contato entre eles. O suor unia ainda mais as musculaturas, misturando os
cheiros e evidenciando as impressões. Mal conseguiam se segurar,
impressionante não terem caído tamanha a agitação. Os gemidos
acompanhavam o ritmo das estocadas. Sempre que sentiam que o outro
estava pra alcançar o apogeu do prazer, alteravam a sucessão de
movimentações. Faziam isso pensando tanto em aumentar o orgasmo como
em adiar ao máximo o fim daquela situação indescritível. Pena uma hora não
ter como segurar. Foi então que os dois gozaram juntos. Foi um orgasmo
bastante prolongado. Abraçaram-se como que temendo o que viria pela frente,
por exemplo, a realidade em que viviam. Foram uns dez minutos só um
sentindo o outro. Coração acelerado. Respiração forte. Suspiros freqüentes.
Sensibilidade aguçada. Anny até sem querer soltou uma lágrima que se
mesclou entre o suor no rosto. Conseguira finalmente encontrar quem a
saciasse em todos os sentidos. Naqueles braços se sentia protegida como
nunca antes, amada como sempre quisera, feliz como nunca poderia
descrever, plena como sonhava estar por toda a eternidade. O silêncio passou
a reinar sobre aquela sala faraônica, criando certa barreira entre a realidade
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déjate amar ♥
iminente e a fantasia concluída. Mas esse reinado não durou muito. Foi
bruscamente corrompido pela entrada de um vigia, atônito pelas luzes acesas.

Rômulo: tem alguém aí? — perguntou gritando

Anny: (falando baixinho) só faltava isso… — escondeu o rosto no peito dele

Alfonso: (falando baixinho) calma! Não vai acontecer nada… — disfarçando o


nervosismo

Na falta de resposta, o senhor apagou as luzes e saiu, trancando a sala.

Anny: e agora? Ele trancou a porta! — assustada — Calma, Anahí! Deixa eu ir


ver isso… — tentou se soltar dos braços dele

Alfonso: espera! Temos que esperar um pouco! Deixa ele descer pra
podermos ir lá conferir isso. — disse beijando a nuca dela

Anny: pára, agora não! Tô muito nervosa!

Alfonso: tenta relaxar! Vai dar tudo certo!

Anny: vamos lá ver! Não agüento essa angústia!

Encaminharam-se até a porta. O alto das paredes era formado por


janelas de vidro, dando visibilidade entre dentro e fora da sala. Como era alto,
Anny arrastou uma cadeira, tentando ver alguma coisa, inutilmente.

Alfonso: acho que vi uma escada lá atrás. Vou lá pegar. — saiu e voltou com
uma escada própria pra pesquisar nas prateleiras mais altas dos armários —
Essa serve?

Anny: acho que sim. Coloca aqui. — Poncho atendeu ao pedido

Anny subiu, mas só conseguir ver o lado de fora ficando na ponta dos
pés.

Anny: Alfonso, segura aí senão vou cair… — ele não respondeu — Alfonso?

Com a falta de resposta, ela se virou pra ver o que estava acontecendo.
Simplesmente ele estava hipnotizado apreciando ela nua de costas. Estava
adorando a paisagem, tanto é que já apresentava uma leve ereção.

Anny: dá pra parar de olhar pra minha bunda e me ajudar? — irritada

Alfonso: tu tem a chave da porta?

Anny: não.
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Alfonso: então não vai adiantar nada. Agora se tu descer daí podemos
adiantar muita coisa… — falou com cara de safado

Anny: Alfonso, eu quero sair daqui! — disse pausadamente

Sem mais demora, Poncho a pegou pela cintura e deitou sobre uma
escrivaninha ali perto. Depois se deitou em cima dela e começou a beijá-la
descompassado. As línguas se mexiam com exaustão. Era um beijo muito
molhado e apaixonado. Ele foi descendo os beijos bem devagar. Passou pela
nuca, pelo pescoço, pelos seios, pela barriga, alcançou o umbigo e foi
baixando cada vez mais até atingir a intimidade dela. Foi beijando de leve a
entrada, enquanto roçava seu clitóris. Sem conseguir se segurar, Poncho
penetrou sua língua, fazendo movimentos semelhantes aos que estavam
fazendo há pouco. Anny não poupava nos gemidos. Estava se sentindo uma
total ninfomaníaca com tamanha satisfação. Ademais, sabia o quanto era
agradável para o homem saber que proporcionava descomunal prazer, por isso
demonstrava todas as perturbações sentidas. Se ficasse mais um instante
naquela situação não iria se conter, por isso, rapidamente o puxou pra cima de
si, beijando-o ardentemente. Poncho entendeu o recado e a penetrou. Não foi
igual à outra vez. Agora preferiram uma suavidade nos movimentos. A lentidão
só aumentava a excitação e aproximava o orgasmo, que aconteceu quase que
instantaneamente. Descansaram ainda unidos e mais suados do que nunca.

Alfonso: se soubesse que ia ser assim tinha te pegado antes… — rindo

Anny: então a culpa é tua… — também rindo

Alfonso: não sabe como é lindo esse sorriso, devia rir mais vezes… — a
beijou de leve

Anny: depois falamos sobre isso, precisamos agora arrumar um jeito de sair
daqui.

Alfonso: eu sei como. — com cara de quem aprontou

Anny: e como é?

Alfonso: simples. É só ligar pra alguém vir nos tirar daqui.

Anny: ligar? Tu tá com teu celular?

Alfonso: não.

Anny: então? — sem entender

Alfonso: deixa eu te mostrar. — saiu de cima dela e pegou um telefone dentro


de um armário

Anny: safado! Escondeu o telefone! — zangada


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Alfonso: mas é lógico! Imagina aí a gente lá no bem bom e o telefone toca?

Anny: tá, então liga logo pra alguém!

Alfonso: pra quem?

Anny: liga pra Dul. Ela é boa em inventar desculpas…

Alfonso: eu não sei o número dela.

Anny: me dá que eu ligo. — discou para o celular de Dul

Dulce: alô! É você, né, Jay! Olha, fala pra Anny que eu tô ocupadíssima na
minha sala…

Anny: muito bonito, hein, Dulce Maria! — se fingindo de zangada

Dulce: Anny? — nervosa

Anny: pode falar! Onde é que tu tá? Sei que não tá aqui na promotoria.

Dulce: eu tô num… é… num… no fórum! É, eu tô no fórum!

Anny: aham, sei… E o Chris tá fazendo o que nesse fórum?

Dulce: Chris? Que Chris?

Anny: Cristiano Ronaldo… Claro que tô falando do Chris, teu peguete…

Dulce: mas eu não tô pegando nada!

Anny: se tu não tá, ele tá… Anda, Dulce, fala logo!

Dulce: tá, eu tô com o Chris… — se dando por vencida — Mas como tu sabe?

Anny: digamos que sou boa em escutar sussurros… — os quatro riram

Dulce: tá bom, já que tu me interrompeu com o meu peguete, dá pelo menos


pra dizer por que tá ligando?

Anny: tô precisando da tua ajuda. Tô presa aqui na sala de arquivo…

Dulce: presa? Trancada?

Anny: isso…

Dulce: e como conseguiu essa proeza?


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Anny: o importante agora é tirar a gente daqui.

Dulce: a gente? Quem tá mais aí? — Anny não respondeu — Se não me


disser vai dormir no chão…

Anny: Alfonso.

Dulce: ah, o Alfonso… — se tocou quem era — Alfonso? O Poncho? —


surpresa

Anny: é.

Dulce: não acredito. Passa pra ele!

Anny: pega, ela quer falar contigo. — entregou o telefone e saiu pra se vestir

Dulce: Poncho?

Alfonso: oi, Dulce… — sorrindo

Dulce: é o que eu tô pensando?

Alfonso: ¡por supuesto! — Dulce deu um grito — calma!

Dulce: mas e aí, deu pra marcar quantos gols?

Alfonso: digamos que ganhei o campeonato…

Dulce: e ela? Resistiu muito?

Alfonso: sabe que não… e se resistisse não ia passar de um estupro


consentido…

Dulce: ih, a loira vai se dar bem… Finalmente encontrou um fogoso que nem
ela! Só uma coisa, aonde foi que aconteceu exatamente? Quero saber pra não
chegar nem perto e mangar de quem tiver lá… — rindo

Alfonso: na parede do fundo e numa mesa…

Anny — gritando: dá pra vocês pararem de dizer como é que foi transar
comigo na minha frente?

Dulce: diz aí pra estressadinha que já tô indo. Tchau. — desligou

Alfonso: não precisava ter se vestido! Ainda dá tempo pra uma rapidinha! —
abraçando ela

Anny: nada disso! Vai se vestir que daqui a pouco ela chega. Temos que nos
esconder caso o vigia venha com ela até aqui.
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Enquanto isso com Dulce…

Chris: ah, não, Dulce! A gente acabou de chegar aqui em casa!

Dulce: oh, Chris! A gente tem o resto da noite toda!

Chris: tá bom, então só mais um beijinho…

Dulce: só mais um…

Começaram com um selinho prolongado, mas este foi se estendendo


cada vez mais até se tornar um beijo de língua. Ele foi deitando ela no sofá,
com muito cuidado pra não machucá-la. Sem deixar de beijá-la, foi despindo-a
completamente, começando pelo terninho, passando pelos sapatos e
finalmente a roupa íntima. Ela também começou a tirar-lhe a roupa sutilmente.
Demorou um pouco pra conseguir tirar o cinto, mas, a partir daí, tudo se
sucedeu num piscar de olhos. Em segundos, lá estavam os dois mais unidos
que nunca. Os movimentos eram cada vez mais rápidos mas pareciam que
estavam era mais devagar. Foram cada vez precisando de mais e mais, até
que, banhados de suor, chegaram ao clímax do prazer. Foram se acalmando
através de delicados beijos lentos. A vida parecia tão bela agora. Uma
sensação de plenitude inundou os corações daqueles apaixonados. Ficaram
deitados abraçados naquele sofá, agora mais especial por marcar o retorno da
vida deles enquanto casal.

Chris: quer que eu te leve em casa agora?

Dulce: se não se lembra, eu moro no andar de baixo…

Chris: não custa nada ir até lá…

Dulce: já sei que deve tá com segundas intenções… — rindo — Mas não vai
dar… Tenho que estudar uns assuntos que a Anny me passou. Ai, meu Deus,
a Anny! — se levantou assustada e começou a se vestir

Chris: calma! Aposto que eles tavam fazendo o mesmo que a gente.

Dulce: tomara porque senão… vai ter que levar flores pro meu túmulo… isso
se ela devolver meu corpo… — deu um beijo nele e saiu

Em vinte minutos, lá estava Dulce na portaria da promotoria.

Dulce: oi, boa noite, senhor Joaquim!

Joaquim: boa noite, Dulce! Ainda por aqui?

Dulce: é, acredita que eu tava com o meu namorado quando lembrei de um


processo que eu tenho que separar pra estudar hoje mesmo?
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Joaquim: precisa da minha ajuda?

Dulce: não, só quero saber se a sala de arquivo tá aberta, pra eu poder caçar
lá o bendito processo.

Joaquim: não, o Alfredo trancou. Mas eu posso te dar a chave.

Dulce: eu agradeceria muito, senhor Joaquim.

Joaquim: só que eu acho melhor ir junto contigo.

Dulce: (pensando) era só o que faltava… (falando) Não precisa… conheço isso
aqui como a palma da minha mão…

Joaquim: eu insisto! O Alfredo disse que encontrou lá as luzes acesas… vai


que tem uma assombração lá?

Dulce — querendo rir: eu não acredito nisso… não se preocupe que vou ficar
muito bem! A Anny tá aqui ainda, né?

Joaquim: tá sim… O senhor Herrera também não saiu ainda.

Dulce: e como é que não destruíram isso aqui ainda? Nunca vi brigarem mais
que aqueles dois…

Joaquim: pela experiência de vida que eu tenho…

Dulce: (pensando) ou seja, desde os dinossauros…

Joaquim: pra mim, aquilo ali é paixão…

Dulce: o senhor acha?

Joaquim: quase que certeza. Deixa eu te dar a chave, não vou ficar mais te
segurando aqui com meu papo de velho.

Dulce: (pensando) quis dizer papo de fóssil, né?

Ao receber a chave, Dulce correu pro último pavimento. Tinham de agir


depressa antes que fossem descobertos.

Anny: Alfonso, tem alguém que chegou nesse andar. Vamos nos esconder! —
assim fizeram, até que Dulce entrou

Dulce: já podem sair, seus metromaníacos! — rindo, enquanto os amigos


saíam do esconderijo

Alfonso: ainda bem que já chegou, Dulce Maria. — irônico


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Anny: Não tinha outra hora pra tirar o atraso com o Chris, não?

Dulce: tá bom, expert em conchis… mas vamos sair logo daqui, porque criei
um nojo desse lugar…

Anny: vamos pra minha sala!

Dulce: pera aí! Eu vim até aqui socorrer vocês e não vejo nenhum beijinho
sequer?!

Poncho agarrou Anny e tascou-lhe um beijo bem molhado. Era um típico


beijo de língua, só que com certa moderação. Dulce mal podia acreditar que
finalmente as coisas pareciam ir ao rumo certo. Sua amiga estava
assumidamente apaixonada e aparentemente Chris queria enfrentar qualquer
barreira em seu nome. A felicidade reinava. Seria isso? Desejos perfeitamente
concretizados. Mas e agora? Na vida não precisamos de bruxas más e
horrendas pra enfeitiçar nosso glorioso caminho. Às vezes, fazemos o papel de
princesa e madrasta ao mesmo tempo.

Anny: (pensando) I do believe…