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I Seminário de Pós-Graduandos em Ciências Sociais do estado do Rio de Janeiro Rio de

I Seminário de Pós-Graduandos em Ciências Sociais do estado do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro, 28 de novembro a 2 de dezembro de 2011.

SABOR DA FALA: POSSIBILIDADES DE LEITURA DO AGENCIAMENTO QUILOMBOLA

Resumo

Alexandra Santos 1

A questão da agência das chamadas comunidades remanescentes quilombolas é o fio condutor do presente ensaio. Neste sentido, pretendemos, a partir de um diálogo com as proposições apresentadas por Gayatri Spivak, em seu artigo intitulado Pode o Subalterno Falar, pensar sobre o poder de ação desses grupos, considerando a forma pela qual são inseridos no cenário social nacional e as muitas implicações e demandas do processo de efetivação dessa inserção.

Palavras-chave: quilombolas, agência, subalternos, alimentação, relações étnicas

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Pensar no poder de agência das chamadas comunidades remanescentes quilombola s

demanda uma ação reflexiva sobre o processo de inserção desses grupos no cenário social

nacional, o que ocorre a partir das proposições constitucionais, em 1988.

Muitas são as implicações oriundas das determinações legais, as quais reorientam - ao

assumir a nação como pluriétnica - a ideologia que amparava a homogeneidade e a harmonia

no processo de miscigenação cultural do país. Diversos são, também, os percalços e os

impasses enfrentados pelos quilombolas, a fim de se tornarem, de fato, beneficiários dos

direitos a eles outorgados.

1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Doutoranda e Ciências Sociais. Bolsista FAPERJ. E-mail.

alesantos0032@gmail.com

Anais do I Seminário dos Estudantes de Pós-Graduação em Ciências Sociais do Estado do Rio de Janeiro

http://sepocs.blogspot.com

sepocsrio@gmail.com

Dentre as inúmeras dificuldades pelas quais perpassa a questão, apresentaremos o problema de bricolagem conceitual

Dentre as inúmeras dificuldades pelas quais perpassa a questão, apresentaremos o problema de bricolagem conceitual e a tramitação no processo de titulação de terras como fatores que interferem na agência dos quilombolas, que passam a (re)construir uma identidade étnica, assentada na questão fundiária. A partir dessas considerações, e amparados pelos pressupostos de Sherry Ortner, nos propomos a pensar sobre a agência dos remanescentes quilombolas. Consideramos não somente o fato de esses grupos se configurarem como uma categoria social criada com propósito político, mas também a necessidade de, a todo o momento, se autoafirmarem como quilombolas, tendo como referência para esta ação um conceito criado e rearticulado, com intuito de que os pressupostos legais fossem bem sucedidos. Com a intenção de localizar a questão nos debates prementes das sobre os estudos culturais e de grupos subalternos, estabelecemos um diálogo com Gayatri Spivak, ao afirmar, que “não há nenhum espaço a partir do qual o sujeito subalterno sexuado possa falar” (SPIVAK, 2010, p. 121). Nossa análise, todavia, não se pauta na temática de gênero e busca desconstruir as proposições de Spivak. Conduzimos, dessa forma, nossas conclusões a outros caminhos, na medida em que cremos que os quilombolas não apenas falam, mas estabelecem, a partir do conteúdo de seus discursos, limites bem estabelecidos nos jogos de interação entre os próprios quilombolas e os múltiplos outros envolvidos no processo de busca pela titulação de terras, bandeira maior desses grupos. Servem-nos de grupo de referência, três comunidades de remanescentes quilombolas do município de Piranga, localizado na Zona da Mata Mineira. São essas as comunidades de Santo Antônio de Pinheiros Altos, Bordões e Castro. As três se encontram em momentos diferentes no que tange ao processo de titulação de terras: Pinheiros Altos foi certificada no ano de 2008, Bordões, no ano de 2010, e Castro ainda não possui certidão de autoreconhecimento.

1988- O DIVISOR DE ÁGUAS PARA AS COMUNIDADES NEGRAS DO BRASIL

1988 é um ano emblemático na história das comunidades negras brasileiras, não somente pelo centenário da abolição da escravatura, mas também, por marcar uma nova era,

em face da qual esses atores sociais passaram a ser vistos legalmente no país. Isso

em face da qual esses atores sociais passaram a ser vistos legalmente no país. Isso ocorreu devido ao fato de, a partir das disposições dos artigos 215 e 216 2 da Constituição Federal, o país assumir a nação como pluriétnica e garantir a preservação do patrimônio material e imaterial de grupos populares participantes do processo civilizatório brasileiro. As determinações legais, entretanto, imprimiram à questão implicações de cunho histórico, social e econômico. A concretização do cumprimento dos direitos outorgados às comunidades tradicionais passou a representar um impasse não somente para a sociedade civil, mas para o próprio governo, que se viu diante de uma série de desafios empíricos, os quais demandaram a criação de algumas estratégias legais, para que os dispositivos constitucionais alcançassem um contingente significativo de cidadãos. Os desafios aos quais nos referimos dizem respeito, em sua maioria, à realidade das então chamadas comunidades remanescentes quilombolas em 1988, e muitos deles se estendem como barreiras ainda nos dias de hoje. Dentre as complexidades pelas quais perpassa o tema, a questão conceitual talvez se configure como a de maior representatividade. O fato de o termo quilombolas ter sido empregado no texto legal, tal como era utilizado no período escravagista, ou seja, semanticamente impregnado de estigmas 3 , requisitou a criação de algumas manobras, a fim de que os quilombolas da atualidade não fossem encapsulados em um passado histórico que já não correspondia a sua dinâmica social.

2- Lê-se, nos referidos artigos: Art. 215. o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. 1º. O Estado protegerá as manifestações das culturas populares do processo civilizatório nacional. 2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemoráveis de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais. Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos fundadores da sociedade brasileira nos quais incluem: I- as formas de expressão; II- os modos de criar, fazer e viver; III- as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV- as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V- os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. (BRASIL,1988) 3 O fenômeno do aquilombamento era, tradicionalmente, relacionado ao binômio fuga-resistência. No século XVIII, foi definido pelo Conselho Ultramarino como “toda habitação de negros fugidos, que passe de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões” (apud SUNDFIELD, 2002, p. 77). Essa definição prevaleceu, por muitos anos, como clássica no meio acadêmico e foi base referencial para pesquisadores e ações governamentais a respeito do tema, até meados dos anos de 1970 (SANTOS, 2009, p.

76).

Para solucionar o problema, que refletia diretamente na forma como as comunidades beneficiárias passariam a

Para solucionar o problema, que refletia diretamente na forma como as comunidades beneficiárias passariam a ser compreendidas a partir de 1988, foi necessário um investimento de ressemantização do signo quilombola. Esse empreendimento exigiu a participação não somente de organismos governamentais, mas também da academia, especificamente de pesquisadores da Associação Brasileira de Antropologia, através do Grupo de Trabalho sobre Comunidades Negras Rurais. A essa equipe de pesquisadores, coube a tarefa de remodelar o termo quilombola, a fim de que o mesmo conseguisse abarcar um contingente significativo de comunidades, e não somente aquelas que mantivessem uma lógica organizacional como a dos quilombolas do século XIX, o que era algo ilógico, considerando o hiato de um século entre a abolição e as determinações constitucionais. O Grupo de Trabalhos sobre Comunidades Negras Rurais compreendia a necessidade de “os fatos serem percebidos a partir de uma outra dimensão que venha a incorporar o ponto de vista dos grupos sociais que pretendem, em suas ações, a vigência do direito atribuído pela Constituição Federal” (O’DWYER, 2002: 94). Neste sentido, como quilombolas, passou a ser considerada “toda comunidade negra rural que agrupe descendentes de escravos vivendo da cultura de subsistência, e onde as manifestações culturais têm forte vínculo com o passado” (Fiabani, 2005:421). Na atualidade, o conceito oficial de quilombo é o apresentado no Art. 2 do Decreto Federal n° 4.887, de novembro de 2003. Esse mesmo conceito é reproduzido na Normativa n° 49, de 29 de setembro de 2008, do INCRA, documento de referência para os trâmites do processo de titulação de terras. Lê-se, no Art 3º da normativa:

Art. 3º- Considera-se remanescentes das comunidades dos quilombos os grupos étnicos-raciais, segundo critérios de auto-afirmação, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. (INCRA, 2008)

Dessa forma, a auto-afirmação, a relação territorial e a comprovação de ancestralidade passam a se configurar como os elementos basilares para que uma comunidade negra (rural ou urbana) seja reconhecida como remanescente quilombola. Essa comprovação de ancestralidade pode ser realizada através de formas diversas, com a preservação de toda sorte de patrimônio material e/ou imaterial. Esses dados devem ser copilados e fazer parte de

um relatório técnico, que compõe a documentação do processo de pedido de titulação. E esta

um relatório técnico, que compõe a documentação do processo de pedido de titulação. E esta tramitação é iniciada pela aquisição da certidão de autorreconhecimento. Além da questão conceitual, afirmamos que o fato de as comunidades terem que se assumir- ou autorreconhecer- como remanescentes quilombolas se caracteriza como outro forte ponto de debate no processo de titulação, que, em certa medida, está ligado diretamente ao agenciamento desses grupos. A certidão de autorreconhecimento, que deve ser emitida pela Fundação Palmares, precisa ser solicitada pela comunidade, ou por um representante legal da mesma. A comunidade requerente deve estar organizada por meio de uma associação de moradores e o pedido pela certidão deve ser assinado pelo presidente ou representante dessa associação. A organização da associação de moradores, o pedido da certidão de autorreconhecimento e o levantamento de material comprobatório da ancestralidade africana, entretanto, são realizados, em grande parte dos casos, e não foi diferente com as comunidades que estudamos, por agentes externos às comunidades: ONG’s, representantes técnicos de empresas, acadêmicos, políticos, enfim, uma gama extensa de atores que, por motivos diversos, se dispõem a tirar os quilombolas do anonimato e da invisibilidade. É preciso observar, contudo, que nem sempre há, nesse trabalho, um empreendimento sério, sistemático e detalhado, de pesquisa consistente. Tal fator tem incidido em recorrentes processos frágeis, questionáveis e prejudiciais às comunidades. Geram documentações embasadas em teatralização e, como afirma Leite (2000), espetacularização da cultura quilombola. Isso porque os recursos empregados para “marcar” esses grupos culturalmente, para atendimento da demanda legal, têm sido, frequentemente, o de reforçar elementos artísticos e religiosos de matriz africana, muitos deles já dissolvidos, reinventados e/ou reinterpretados dentro da própria cultura quilombola. 4 Presenciamos, nas comunidades em que realizamos o trabalho de campo, na condição de pesquisador de pós-graduação, quilombolas se “apresentando” como quilombolas, em celebrações e festas da localidade. Caricaturas de si mesmos, assimetria: roupas de chita e

4 Uma interessante análise sobre as implicações de se tentar reproduzir características religiosas de matriz africana em comunidades quilombolas é realizada por Véronique Boyer em Quilombolas et évangéliques: une incompatibilité identitaire: (Reflexions à partir dúne étude de cas em Amazonie Brésilienne)”.

“comidas típicas” faziam parte da performance , que em nada se relacionava com o cotidiano

“comidas típicas” faziam parte da performance, que em nada se relacionava com o cotidiano da comunidade. Vimos quilombolas sendo ensinados a ser quilombolas 5 . A partir dessas considerações, nos perguntamos sobre a questão da agência dos quilombolas. Ela é possível? Os quilombolas falam ou permanecem em silêncio, tendo seu discurso lido e traduzido por agentes externos? E, se falam, como o fazem? O que dizem? Para mapear um quadro de possíveis respostas para essas questões estabelecemos um diálogo com Gayatri Spivak, no sentido de perceber os quilombolas como subalternos e, desta forma, construir nossa proposta quanto ao poder de fala desses grupos.

O PODER DE FALA DOS SUBALTERNOS

Minorias, excluídos, subalternos. Muitas são as categorias criadas para se pensar nas classes sociais marginalizadas. O termo subalterno, como formulado por Gramsci para determinar as categorias alijadas do poder, é a referência utilizada pelo grupo de estudiosos que se dedicam à discussão sobre os sujeitos subalternos no contexto do sul asiático (ALMEIDA, in SPIVAK, 2010:11). Filiada ao grupo de estudos subalternos, Spivak questiona o uso do conceito e defende o resgate à significação atribuída por Gramsci, caracterizando, como subalternos, as “camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política legal, e da possibilidade de se tornarem plenos no estado social dominante” (SPIVAK, 2010:12). Quando afirma que o subalterno não pode falar, Spivak não o faz literalmente, mas sim, se utiliza da lógica operacional da ação discursiva, que pode ser simplificada com o esquema jakobsoniano:

5 Não entramos na questão sobre ser ou não legítima a participação de agentes externos no processo inicial de conscientização social dos quilombolas, e a forma como realizam esse processo. Apenas chamamos a atenção para a responsabilidade desses agentes pois, para que os quilombolas tenham acesso às políticas públicas a eles destinadas, precisam se enquadrar em um conceito que demanda especificidades sócio-culturais.

A partir da concepção de Jakobson, compreendemos que a comunicação só ocorre quando remetente (falante)
A partir da concepção de Jakobson, compreendemos que a comunicação só ocorre quando remetente (falante)

A partir da concepção de Jakobson, compreendemos que a comunicação só ocorre

quando remetente (falante) e ouvinte (destinatário) conseguem interagir, através de uma mensagem inserida em contexto específico, transmitida por um código compreensível para ambos e interligada por uma forma de contato estabelecida pelos participantes do processo. No caso dos subalternos, assim como os concebe Spivak, o problema está na dinâmica desse funcionamento. A mensagem - pelo código, pelo contexto ou, pela condição de produção desses sujeitos (que repercute no contato) - não completa o processo discursivo. Não há dialogia, não há comunicação; o que ocorre é a tentativa de transmissão de uma mensagem que, para ser compreendida, segundo os pressupostos da autora, precisa ser traduzida para o discurso hegemônico, ou seja, precisa ser intermediada pela voz de quem tem acesso a essa linguagem isto é, o intelectual. A crítica da autora recai, nesta ótica, sobre intelectuais pós-coloniais, por se

considerarem aptos a falar pelos outros. Ela defende que o papel desses profissionais é o de criar condições para que o subalterno se faça ouvido e não o de continuar na função de tradutor de seus discursos. Por esse motivo, Spivak não considera a possibilidade de agenciamento do subalterno, sobretudo da mulher subalterna, de cujo contexto extrai exemplos para amparar sua argumentação. É partir essa perspectiva que Spivak defende que o subalterno não pode falar. Está sempre na dependência de quem fale por ele. Spivak afirma que “para o verdadeiro grupo subalterno, cuja identidade é a sua diferença, pode-se afirmar que não há nenhum sujeito subalterno irrepresentável que possa saber falar por si mesmo” (SPIVAK, 2010, p. 61). Compreendemos, assim, que o problema apontado por Spivak não é o poder falar, mas sim, o poder e conseguir ser ouvido, posto que a autora considera que só são ouvidos aqueles que “falam a língua” dos grupos dominantes, a língua hegemônica, Ocidental.

A fim de construir uma interlocução maior com o trabalho de Spivak, deslocamos a

proposta do grupo de subalternos para o contexto das comunidades negras brasileiras e nos

perguntamos se os quilombolas poderiam ser chamados de subalternos. Para tanto, estabelecemos o conceito de

perguntamos se os quilombolas poderiam ser chamados de subalternos. Para tanto, estabelecemos o conceito de subalterno apresentado anteriormente e partimos do princípio de que, embora inseridos no cenário social do país, os quilombolas estão excluídos de mercados específicos e, ainda, precisam do auxílio de uma gama considerável de atores sociais externos às comunidades para que possam acionar as políticas públicas a eles destinadas. Neste sentido, podemos entender que, embora não comunguemos com a idéia de que este fator os torna impossibilitados de falar, os quilombolas estão excluídos da possibilidade de se tornarem plenos no estado social dominante, ou seja, são subalternos. Será a partir desse contexto que pensaremos sobre o agenciamento dos quilombolas, e sobre sua possibilidade de falar.

QUILOMBOLAS E AGÊNCIA: POSSIBILIDADES

“I see agency as a piece of both the power problematic and the meaning problematic. In the context of questions of power, agency is that which made or denied, expanded or contracted, in the power. It´s the (sense of) authority to act, or of authority and lack of empowerment.” (ORTNER, 2006:147)

Compreender a agência como poder, como autoridade para agir, como afirma Ortner, implica em pensar na possibilidade de agenciamento em toda e qualquer sociedade, visto que as relações sociais estão, sempre, em maior ou menor dimensão, organizadas a partir de relações de poder. A agência, afirma a autora “não é uma entidade que existe separadamente da

Toda cultura, toda sub-cultura, todo momento histórico constrói sua

própria forma de agência” (Ortner, 2006,p. 59). Neste sentido, não há sociedade sem agência, seja ela subalterna ou dominante. Além disso, as palavras da autora nos conduzem à compreensão de que o agenciamento está relacionado a particularidades culturais e históricas de um grupo, isto é, faz-se necessário um investimento de apreensão da dinâmica social dos grupos estudados, a fim de compreender seu poder de ação. A concepção de Ortner quanto ao agenciamento vai de encontro à teoria geertziana sobre a cultura como um texto, dotada de significados que se desenrolam nas ações cotidianas. A autora chama a atenção para a contribuição de Geertz, no que tange à

construção cultural(

)

compreensão do que seja a agência. E, ao adicionar à questão a noção de poder

compreensão do que seja a agência. E, ao adicionar à questão a noção de poder, tal como apresentada por Foucault e Said, contextualiza o agenciamento em duas instâncias: a primeira, como uma fonte e um efeito do poder e a segunda como uma fonte e um efeito de cultura (Ortner, s/d). Nesta perspectiva, Ortner constrói, para sua argumentação sobre o agenciamento, um amálgama entre a questão da significação da cultura e o poder. Estabelece um diálogo entre Geertz, Foucault e Said, solucionando uma das lacunas deixadas no trabalho de seu mestre: a questão do poder nos estudos sobre a cultura. E será a partir dessa proposta que executaremos nossa desconstrução do pensamento de Spivak. Ser subalterno, ser não Ocidental, não estar inserido nessa dinâmica não abstrai a possibilidade de agenciamento, dado que ela é construída em toda e qualquer forma de cultura. Embora o processo de comunicação dos subalternos não concretize uma interlocução no cenário hegemônico e dominante, ele se desenrola em outras dimensões, que não são menos desprovidas de relações de poder. Por isso, afirmamos, ao contrário do que faz Spivak, os subalternos falam. No caso das comunidades de remanescentes quilombolas nas quais realizamos trabalho de campo, podemos perceber um agenciamento que não ocorre a partir de marcas identitárias que, frequentemente, se buscam para confirmar a afrodescendência desses grupos. Não há terreiros ou outro espaço oficial para a realização de culto de religiões de matriz afro, as comunidades não possuem grupos de capoeira ou congado e não há vestimentas que os diferem de outras comunidades rurais do entorno. Mas, será que podemos dizer que, por isso, não há resistência? Em nosso trabalho, encontramos na cozinha, um espaço de agenciamento, de encontro com o passado histórico, de poder de ação, delimitação entre quilombolas e não quilombolas. Das panelas, das escolhas dos cardápios, dos valores atribuídos ao milho, alimento emblemático das comunidades, da lógica de utilização do moinho d’água, dos rituais de transformação do alimento em comida; de cada uma dessas ações, podemos perceber, à luz das concepções Ortner, o “ponto de vista do outro”; o que os quilombolas dizem de si mesmos. A cozinha se caracteriza como um espaço no qual e do qual uma série de estratégias são empregadas para a construção da identidade étnica, para o agenciamento.

Apresentamos, sinteticamente, um exemplo desse momento de fala e de poder, ou seja, de agenciamento,

Apresentamos, sinteticamente, um exemplo desse momento de fala e de poder, ou seja, de agenciamento, a partir de nossa leitura da utilização do milho na cozinha quilombola piranguense. Após a abolição, o cenário local de Ouro Preto e Mariana - berços do mercado escravista - era, o seguinte: de um lado, os senhores das fazendas sem escravos para a realização dos serviços na roça e nas casas. Do outro, escravos libertos, sem moradia, sem trabalho. A solução foi, então, contratar os ex- escravos, agora na categoria de trabalhadores. O milho foi, naquele período, a moeda de troca pelo trabalho. Nossos entrevistados nos informaram que seus pais e avós precisavam de um dia inteiro de labor nas plantações de milho, de café e de feijão para ganhar o suficiente para alimentar a família por um ou dois dias. O milho não era alimento para os negros, seu valor era o de ouro. Hoje, há plantações de milho em todos os quintais do quilombo. As comunidades comem milho todos os dias: a polenta, que acompanha o almoço e o jantar, o cuscuz de milho, preparado na panela de pedra especial (a cuscuzeira), o fubá suado, que acompanha o café forte na hora da “merenda”, o mingau de milho verde, servido a visitas e em dias especiais. Essas são apenas algumas das comidas que quilombolas preparam com esse alimento e se orgulham quando falam que hoje, não precisam trabalhar para ter milho em casa, possuem sua plantação, guardam os grãos em paióis próprios e os moem nos moinhos coletivos das comunidades. Em uma das entrevistas, uma moradora da comunidade de Santo Antônio de Pinheiros Altos nos disse “hoje nos temos milho, comemos igual aos brancos”. Ou seja, o milho representa não somente a fartura e a seguridade alimentar desses grupos, para além desta função, ele simboliza a efetivação da liberdade. Os quilombolas possuem liberdade e independência para produzir e consumir o milho. Assim como o milho, utensílios domésticos e a própria lógica atribuída a cozinha, enquanto espaço de socialização, muito dizem sobre o poder de fala dos quilombolas. Nesse sentido, compreendemos as práticas alimentares quilombolas como uma forma de agenciamento, capaz de nos dizer como e quando os quilombolas de Piranga falam. Suas escolhas à mesa nos dizem a forma a partir da qual mantêm algum vínculo de ancestralidade com seus antepassados, como ressignificam sua história, como se percebem como quilombolas e, sobretudo, como decidem se relacionar com o seu entorno.

Conclusões

Conclusões Este breve ensaio, que na verdade se configura como um exercício reflexivo acerca de possíveis

Este breve ensaio, que na verdade se configura como um exercício reflexivo acerca de possíveis formas de agenciamento das chamadas quilombolas, a partir da perspectiva dos estudos do subalterno, nos conduz ao pensamento de que a agência, tal como é apresentada por Ortner, se faz presente em toda e qualquer cultura, assumida, aqui, como textos que se constroem nas relações de poder as quais se desenrolam nas práticas cotidianas. Pensar na agência, tal como faz Ortner, no entanto, requer que se considere dois contextos, a partir dos quais ela deve ser concebida: o cultural e o de poder. O poder e o significado da construção de sentido são as bases a partir da qual a agência se desenrola. No caso específico das comunidades estudadas, ainda que enfrentem dificuldades diversas para o atendimento de exigências legais de afirmação de uma identidade étnica, pautada em pressupostos e determinações externas a esses grupos, percebemos que as práticas alimentares se configuram como noções culturais de agenciamento que os permitem desenhar as interações estabelecidas com seu passado histórico e com seu entorno. Nesse sentido, os hábitos alimentares delineiam possibilidades de como os quilombolas de Piranga podem ser inseridos nos múltiplos discursos necessários para o acionamento de políticas públicas a eles destinadas, dado que muito revelam sobre sua dinâmica cultural. Ainda, as práticas e as escolhas alimentares, revelam a relação que essas comunidades possuem com a terra que vivem, além de simbolizar fortes laços que mantêm com seu passado histórico, confirmando sua afrodescendência. Concluímos, a partir do que foi exposto, que os quilombolas falam e que possuem o poder de ação, ou seja, agenciamento, expresso a partir de sua prática alimentar. Esse agenciamento, por sua vez, é responsável por localizar os quilombolas socialmente, delinear a forma como se relacionam com seu passado histórico e com sua ancestralidade. Sem caricaturas, o agenciamento reconhecido na leitura da alimentação quilombola nos demonstra, saborosamente, como esses atores falam e, que, quando comem, revelam a leitura que eles mesmos fazem sobre o que é ser quilombola.

REFERÊNCIAS

REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado,

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF:

Senado, 1988.

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(Reflexions à partir dúne étude de cas em Amazonie Brésilienne). In. : Journal de la société

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NUER / UFSC, v. 7, p. 1-38, 2000.

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SANTOS, Alexandra. Entre a colher e a enxada: interfaces entre a alimentação e a cultura quilombola. 170 f. Dissertação (Mestrado em Extensão Rural), Departamento de Economia Rural, Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, Minas Gerais.

SPIVAK, Gayatri C. Pode o Subalterno Falar? Belo Horizonte: Editora da UFMG. 2010