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PORTUGAL

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Ensaios de critica, Historia e Geographla

POR

J. P. OLIVEIRA MARTINS

fa.• EDl:Q.Ã:O

LISBOA

PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA

UVRARL\•&DITORA

'l{ua ellugusta-So~ 52 e 54

1902

LISBOA;.· t

Typ. da Paroerla Antonio lttarta Pereira

Rua dos Correeiros, 70, '12

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1902

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INtRODUCÇÃO

I

LIVRO que agora entra a correr mun- do é uma collecção de ensaios, em parte ineditos, e que n'outra parte andavam dispersos pelas publicações perio- dicas (1). Revi-os, completei-os, desenvol- vi-os, de modo a torna-los o menos indignos

possivel de ganharem esta fórma mais du ;
I radoura de publicidade. Parece-me que a collecção não será intei- . ramente destituída de interesse. Acham-se n'estas p~ginas esmerilhados varias pontos ainde obscuros da nossa historia ; e o con- juncto d'ellas fórma o nucleo otl a summa

( 1) Só o ensaio sobre a historia do commercio mariti- mo prirtuguez se reemprime hoje em segunda edição am- pliada, depois de ter sido incluido no volume publicado em t885, sob o titulo Polatica e economia nacional. Pareceu ao A. conveniente faze-lo, alem de outros motivos porqu~ sem esse estudo ficaria incompleto o thema d'este volum

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tf1Í

INTRODUCÇAO

de uma das faces mais características, senão a mais caracteristica da vida do povo por- tuguez. O titulo que dei a este livro parece-me pois corresponder bem ao pensamento da sua composição. Juntando-se á Historia da ci- vilisação iberica, onde procurei desenhar o quadro· do desenvolvimento das instituições

nacionaes, ao qjra{il e colonias portugue1_as

onde ficott .esboçada a historia dos nossos fastos de povo colonisador, á Historz·a de Portu8al, finalmente, onde procurei delinear por uma fórma viva e colorida a successão:

e o encadeamento dos motivos moraes, po-· liticos e economicos determinantes da vida nacional portugueza: juntando· se a esses tres livros, o Portugal nos mares, e completan- do-os com~ notas ou documentos, estuda parth.;ular e monographicamente a feição mais original, mais sympathica e mais fe- cunda do povo portuguez, collaborador na obra da civilisação moderna.

Portugal é Lisboa, escrevi eu algures. De-. via ter dito antes que Lisboa absorveu ·Por- tugal, pois esta expressão corresponde me- lhor á verdade historica·. Lisboa não foi Por- tugal até ao rneiado do seculo x1v; mas desde que avida maritima e·ultramarina nos absor- veu de todo, a capital e o seu porto, como

INTRODUCÇAO

7

um cerebro congestionado, mirraram as pro- vincias. ·Portugal passou a ser Lisboa: uma . cabeça de gigante n'um corpo de pigmeu Guardadas as proporções devidas, feitas as reservas necessarias, a historia portugue- za reproduz a historia da In'glaterra que é posterior e a de Roma, nos tempos antigos, quando esta surge dramatitamente doduello epico de Catão e Scipião-um personalisan, do o pensamento da velha Italia rural, outro o do imperio que tinha por auroras o cerco:

de Carthagena e a victoria deslumbrante de Zama. Nos dois infantes irmãos, braços pujantes. da frond·osa arvore de Aviz, em D. Henrique e em D. Pedro, tivemos nós tambem o nosso Catão e o nosso Scipião- um pugnando pela politica tradicional portugueza do fo- mento da população, da lavoura, da pesca e do commercio maritimo, olhando amora- velmente para o fortalecimento d'esta zona occidental destacada á força d'armas do cor- po politico da Hespanha; outro allucinado pelo mar, fervendo-lhe no cerebro, com as / lendas obscuras da geographia medieval, as ambições heroicas de saber, de imperio e de riqueza proprias da Renascença. Sei pião vencetl. Venceu o infante D. Hen-

r1que.

Desde logo a vida portugueza· se tornou

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INTRODlJCÇÁO

para outro norte. A metropole lusitana fez- se a arce ou cidadella, uma Roma, do vas- tissimo imperio dos mares, para além dos quaes, ligados pela esteira dos navios, pa- trias fluctuantes, nos ficavam as cidades, a-s províncias, os imperios, na Africa, na Ame- rica, na Asia, e como estações intermedias, especie de ganglios d'este systema, um mi- lhar de ilhas ·erguidas na vasta can1pina de um Oceano, mare clausum inteiramente nos- so. Tambem a metropole portugueza, como velho Lacio, arruinado pelo abandono das granjas, curvava a cabeça, onde os sonhos de ambição indefinida se misturavam como sempre aos delírios do mysticismo ardente. Só são claramente equilibrados os periodos de mediania pacifica. A ambição foi sem- pre superstiCiosa. Não existiria no espirita contemporaneo da grande epocha um sentimento de pro- testo contra a aventura? Existiu, sem duvi- da. A dois seculos de distancia, na aurora ~ e no occaso d'esse dia deslumbrante em que a civilisação encarnou em nós, o infante D~ Pedro e Camões, um commentando o que succedera, o outro prevendo o que viria ·a acontecer, teem para a viagem epica dos portuguezes o senttmento que tnsptrava os velhos lavradores do Lacio qttando falta- vam pela bocca rude de Catão.

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JNTRODUCQAO

9

Preferir as emprezas ultramarinas ao fo•

mento

da

metropole

er:a para

o infante

D. Pedro trocar uma boa capa por um mau

Càpello; e quando nos Lu{iadas se canta a partida de Vasco da Gama para a India

. • . hum velho d'aspecto venerando

• • • •

• •

• •

D'hum saber só d'experiencias feito Taes palavras tirou do expert.o peito :

Oh gloria de n1andar ! Oh cobiça

' D'esta vaidade a quem chamamos fama !

A que novos desastres determinas De levar estes reinos e esta gente ? Que perigos, que mortes lhe destinas DebaiXo d'algum nome preeminente ? · Que promessas de reinos e de minas D'ouro, que lhe farás tão facilmente? Que famas lhe prometterás ? que historias ? Que triumphos? que palmas? que victorias?

Nunca, em tempo algua1, a prudencia e

juiz~ dirigiram as sociedades arrebatadas por uma mtragem ou por uma tentaçao, mormente quando miragem e tentação veem, como vinham a Portugal, das profundas at- trações da natureza, porventura do vibrar de algum echo remoto na alma celtica do paiz, e sobrétttdo do deslumbramento que sobre as imaginações exercia, ao sair-se do regi- men duro e da pobreza forte da Edade-me- dia, a fascinação do ouro· ultramarino. E' com a Renascença que se abre a eda-

o

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lO

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INTRODUCÇAO

de fulva do capitalismo e, salvo o devido respeito aos tempos, o seculo xv1 parece-se com o XIX. As modernas artes da agiotagem lembram as emprezas das cavallarias anti-. gas, e os syndicatos dos navegadores por- tuguezes, 11em por terem um principe á tes- ta d'elles, deixam de acudir á memoria pe- rante as aventuras de hoje. Não ha pois dif~ · ferença entre os fastos do seculo xv1 e os da finança contemporanea? Ha; ha toda a diffe- rença, nos motivos Ninguem pensa que os armadores de Diep- pe, de Liverpool ou de Amsterdam, gente crassamente instigada pela cubiça, equipas- sem as suas frotas de piratas movidos por ne- nhum pensamento analogo ao que Ievava- Colombo para Oeste; ou ao que germinava nebulosamente no cerebro preclarissimo de

) D. João de Castro. A honra e a gloria dos

! povos meridionaes é esta: que são capazes~ 1 de heroismo no pensamento. Os outros só i. o demonstram obscuramente na acção. E a 1 differença entre o seculo xv1 e o seculo XIX é tambem esta: que então eram os meridio- naes quem levava o mundo comsigo e com o seu pensatnento, ao passo que l1oje levam- no os povos do norte com o seu utilitarismo,. desde que tornaram em doutrina moral o instincto da ganancia. Colombo ia atraz do ouro salomonico,

INTRODUCÇAO

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Vasêo da Gama atraz do commercio do Oriente, e o infante D Henrique na em pre- za de Ceuta, prologo da nossa epopea mari- tima, esperara encontrar a chave dos reinos doirados do Preste Joham das Indias. Tudo- isto é assitn; mas a ·cubiça não era o moti- vo exclusivo, ·nem o dominante. Dilatar uma- ardentemente sentida, conqt1istar todo o mundo para o Deus verdadeiro, satisfazer fit1almente os instinctos naturalistas e acal- mar a curiosidade provocada pelo enygma absorvente de um n1ar desenrolado diante da vista e que á imaginação apparecia como· th~souro encantado, eis o que no fundo, bem no fundo, arrastava os portuguezes para a navegaçao. Arrebatava-os o murtnurio das sereias do mar, cantando na vaga espumosa que se par- te contra as rocas de Arr~bida c de Cintra, dançando na areia loura ao sopro do ven-

,.,

to

Sente e comprehende essa ant~ga attrac- ção do Oceano, quem alguma vez, do alto· dos dois montes que são as scntinellas de Lisboa, se deixou hypnotisar pela infinita vastidão azul que a luz e o vento animam, dando-lhe móvimento e côr. O mar parece então um sêr vivo no seu dorso azul de es- · camas douradas, um ser meigo e doce no

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lNTRODUCÇlO;

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gemido constante das ondas que veem tan- . guidamente desenrolar-se com delicia, bei-

jando a praia, dormentes de amor. ·Ainda hoje, apesar de tudo, somos capa- zes de evocar, n'um esforço de imaginaç~o essas allucinações de outras·edades, e cer- rando os ouvidos aos rumores proximos, fe- chando os olhos para ver bem, resuscitar na phantasia um outro Adamastor com a face heroica banhada em sol e a barba solta ao vento em anneis ondulantes que tremem. no ceu como nuvens, como chimeras, como

sonhos, como relampagos

que sorveu a vontade de um povo, tem u.m pé fincado em Cintra até ao cabo da Roca

e outro na Arrabida até ao Espichei, for~~

mando o arco triumphal por onde entra no Tejo a multidão das frotas abarrotadas de ouro. Com a cabeça coroada de nuvens que

o sol trespassa nos seus raios, outro Moisés

n'este Sinai da praia occidental da Europa, recebe as taboas da lei para conduzir o povo eleito á terra da Protnissão, abrindo os bra- ços herculeos de norte a sul de Portugal in- teiro, cava com as ·suas garras aduncas todo o· solo da patria, despedaça-lhe as entra-

nhas, arrasta a si e lança ao vortice rasgado

a seus pés, os homens, as cazas, as villas, a

riqueza, a força, a energia, a virtude antiga,

Esse monstro

todo o sangue e toda a seiva de um povo que.

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INl"RODUCÇAO

parte para a viagem cailta'ndo, e volta d'ella· coberto de pedrarias, esvaído em podri-

dões.

E'~que a onda é falsa.

Em baixQ as sereias do mar, dançando·

na areia branca de ·espum·a, chamavam a si·

para as nupcias, as naus que de velas soltas se balouçavam, espreguiçando-se amorosas· á espera que- o nordeste lhes enfunas~e·os pannos, atirando-as para longe na derrota·

da aventura_ temeraria.

A viagem terminou. O regresso, desgra~

çado, deu cemnosco em Alcacerquibir. Tro- cára-se a- capa pelo capello, e sem capello, e sem capa, nú, calvo, ankylosado, Portugal

caduco, arrastando-se, com a face carregada:-

de afHicçóes e a barba esqualida, passou a

amargurar uma vida· de miserias, esbofe-

teado pelo mundo, escarnecido pelas. na~ çóes formigas que, de celleiros cheios e mão~ na ilharga, diziam com petulancia a esta na~

ção cigarra, como se diz na fabula : Can-

taste? pois dança agora 1

·

E fomos dançando uma dança macabra.

E tanto nos meneámos que nos convence- mos de ter voltado á mocidade. Navegação, industria; lavoura, são ruínas; mas que im- portaP.se, como no tempo da ln-dia em qu·e

o dinheiro chegava para D. Manuel borrifar

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INTRODUCÇAO

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com aromas a côr_te de Roma, fazendo h)'SO- pes das trombas de elephantes, se como no tempo de D. João V, em que o Brazil dava para fazer de Portugal uma opera divina, hoje tambem o dinheiro do m~ndo nos para· t> luxo profano com que nos enfeitB:- mos á moderna, janoteando como pimpões, arremedando os ricos, outra vez cigarras, matando-nos a cantar os hymnos do pro- gresso ao compasso do batuque da agiota- gem De façto, no seculo xtx voltámos á situa- ção antiga dos primeiros tempos, do seculo x-1·1 ao seculo x1v, mas aggravada. · , Porque então, na ingenuidade da infan-

·

tis~ regia,

nos· apenas

a vontade instinctiva,

mandando-nos viver independentes, sobre nós, e sómente cuidavamos praticamente de nos fortalecer. Cuidavamos e sabiamos co.n- seg·uil-o. A prova encontra-se em qua_si to- das às paginas d'este livro; a prova está no progresso da riqueza e da população, na for- ça portugueza que levantou o throno _do Mestre de Aviz. · E· porque hoje, nas complicações· e_xte- nuantes da velhice,:.com o cerebr9 ava~s~­ lado por tradições. de. muitos seculos, com o sangue envenenado por drogas de varias orige.ns, com as lembranças do provid~ncia- 1ismo absolutista, com as basofias da gran-

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INTRODUCÇAO

deza antiga, com o bafio das sachristias a perverter-nos o olfacto e o vicio do milagre a entorpecer-nos a acção, desmoralisados pelos desenganos, vergando sob o peso es- magador d~ um passado que nos deixou nos caruncho.sos guarda-roupas bistoricos velhos mantos gloriosos roidos pela traça: por- que h0je falta-nos aquelle viço da pujança \ 'antiga desabrochando nos actos d'essa ener- gia simples com que as nações affirmam a vontade irreductivel de existirem. O .nosso querer é apenas platonico, inca- paz de nenhuma especie de sacrificio. Não somos tão simples que o não sintamos: o portuguez é intelligente. O que nos falta é a mola intima, rija de aço, que se partiu. Por isso buscBmos illudir-nos como os doentes desenganados~ Deitamo-nos aos anesthesi- cos. Com o· ether da finança esquecemos a anemia econo.mica e com o chloroformio da jogatina supprimos a fraqueza do trabalho; a morphina dos melhoramentos vae-nos dan- do horas regaladas, e o laudano do orçamen- to o pão-nosso de cada dia. O chloral da emig_ração affasta ·a necessidade cruel dos tratamentos anti-phlogisticos; e a cocaína do transito, pretendendo em _vão tornar esta faxa littor~l da Peninsula uma .terra de pas- sagem, estalagem brunida e secia para uso do mundo que-se diverte, procura pôr o sol

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INTIODUCÇAO

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em acções:-e quem sabe se a propria lua das nossas noutes encantadoras, ella que desen~

rola o seu meigo velario de prata para tam-

bem nos illudir com perspectivas phantaSti- cas sobre a nudez da terra que habitamos!

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I

O. M.

I

Commercto larltlmo Portuguez (1)

MEUS

St:JaHORES:

Principio por lhes pedir que me desculpem o infringir a regra seguida até hoje de escrevermos e lerrnos as nossas dissertações. Faltou-me o tempo indispensavel para redigir o meu traba· lho, e sou por isso forçado a expol·o, correndo as notas que colligi e trago comtgo - Basta lançar os olhos sobre o mappa de Por- tugal para ver que, pelo desenvolvimento das costas, pelo numero dos portos, pela qualidade de alguns, finalmente pela locali- sação geographica que faz da nossa praia oc- cidcntal o baluarte avançado da Europa sobre o Atlantico: para ver digo, que particulares condições naturaes nos chamam á vida mari ttma. Esbocemos- pois a historia do desenvolvi- mento d'esta Industria essencialmente portu- gu~za, a navegação; observemos·lhes o nascer, veJamos de que modo e por que meios cresce, acompanhemol-a no seu apogeu, e não hesi-

(1) Conferencia, feita na scc. de Geo. com. do Porto,

em f~vereiro, 1881.

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PORTUGAL NOS

MARES

temos em a acompanhar tambem na sua deca- dencia melancolica, até chegarmos aos dias de hoje, espectadores do seu definhamento total. Te_mos o exemplo completo da vida inteira de um orgão economico, desde o nascer até ao . A n1arinha portugueza surge com a indepen· dencia nacional : é uma creação da primeira epocha da dynastia affonsina. Desde que a re- accão contra o dominio musulmano determi- nára a fundação dos estados néo-godos da pe- ninsula hispanica, e entre elles do estado occi-:- dental de Leão de que se destacou Portugal, cessou, póde affirmar-se, a navegação regular de cabotagem que os mouros de Marrocos fa- ziam na costa atlantica da Peninsuta, emquanto ella toda pertencia a musulmanos. A cabo- tagem tornou-se pirataria mai~ ou menos re- gular, logo que os portos da Galliza e os por- tuguezes, até ao Mondego, foram christãos. Por seu_ lado, os principes da linhagem asturiana, d~masiado occupados com a organisação in- terna e com a defeza dos seus estados, não sentiam a conveniencia, nem a necessidade, de olhar por um movimento maritimo ainda então por nascer. Com effeitQ, a importanci~ internacional dos portos occidentaes, como Vigo, o Porto e Lis- boa, só podia reconhecer-se quando as cousas permittissem o restabelecimento da navegação desde o mar do Norte até ao Mediterraneo, e vice versa : navegação que na Antiguidade ti- nham iniciado os phenicios e os romanos. Esse restabelecimento veio com o movimento das Cruzadas, cujas armadas torneando a Hespa- nha no seu caminho para a Syria, passavam

~orrer.

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COM~tERCIO 1\-IARITIMO

PORTUGUEZ

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em frente de Lisboa sem ahi poderem refres- c.ar,.-pois Lisboa era ainda musulmana. A acção ~ombinada das forçàs maritimas dos Cruzados e das terrestres do nosso pri- meiro rei, Afionso Henriques, eftectuou, como se sabe, a conquista de Lisboa; e os portos do Tejo Sado ficaram, salvo episodios breves, portuguezes para sempre. Desde então a mo- narchla portugueza estendia-se até ao Alem- tejo de hoje; e christãos os dois portos aus· traes do nosso paiz, ficavam francos ás visitas das ~squadras que iam á Syria conquistar o Sepulchro Santo- e r.apinar tambem, movidas

pelo anzor· auri et a1·ge11ti et pulclter·rimarunz t~­

miltarunz voluptas, de que falia S. Bernardo.

4ssim

principiou a definir se o

caracter ma-

\

ritimo da nação portugueza. no tempo de Af- fonso Henrique~, as chronicas re~am das faç.a- nhas de D. Fuas Roupinho que bateu os mouros no cabo .de Espichei, correndo a costa até ao Algarve, e indo aportar a Ceuta. Logo no se- gundo reinado se insiste pela creação de uma marinha militar, pois se reconhece a difficul- dade de investir só por terra, e atravez dos de- - sertos adustos do Alemtejo, com esse jardim extremo do Algarve ainda na posse do mau- ritano. Tradição, pessoal, não existiam. D. San- cho I manda á conquista de Silves quarenta galés portuguezas, de conserva com as cincoenta de Cruzados inglezes, flamengos, allemães e dinamarquezes ( 118o) ; em 12So D. Aflonso III ~õe cerco a ft,aro. A fallada expedicão naval de _ Sevilha é de 1266.

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Eram ao tempo os gcnovezes os mestres da arte de navegar, e os nossos reis appellaram para Genova pedindo· um almírante, conforme

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'20

PORTUGAL

NOS

MARES·

se denominava á moda arabe o ~ue á moda feudal, ou godà, se dizia conde-do-mar. Veio o genovez Pezzagna (1), equip1ram-se navios, começaram a construir-se barcos similhantes aos de pesca, ainda hoj~ visíveis nas praias de Ovar e da Povoa. D. ~ancho I mandou collo- car debadoy1·as nas praias para encalhar os na- vios. D. Affonso III deu uma propriedade de casas ao constructor João de Miona por lhe hàver construido un1a nau. D. Diniz mandou abrir o porto de J:>aredes (2) e plantar o pinhal de Leiria. Eis ahi os primordiQs da marinha nacional que já, ao tempD de D. Diniz. contava na sua breve historia a façanha da conquista do Algarve, e cujo berço foram as Taracenas de Lisboa, junto á Alfama ou Judiaria, funda-- das antes de Sancho II. Existia uma marinha mercante e um com-- mercio maritimo? Sem duvida; pois não se concebe o facto de ·esquadras relativamente importantes, sem_ o facto correlativo de tripu- lações que só podiam ser recrutadas nas colo- nias de pescadores da costa e no pessoal dos navios de commercio: já em 12S4 eram adju- dicadas ao mosteiro de Alcobaça, para o ser- viço de uma divida, as rendas provenientes do a'{eite de baleia ·noi portos de Scliz e Athouguia. Sem duvida existia, porque do tempo de D. Fer- nando temos documentos authenticos de um trafego maritimo importantissimo que não pod~­ ria, decerto, ter surgido de uma hora para outra.

( 1) V: o contracto de 1 de fevereiro de 12.22, na Hist.

Geneal., Provas, I, g5.

(2) VilJa que estava ~ituada proximo da actual Peder-

neira: este porto foi in'Jtili~aJ.o pelas dunas no seculo xv1.

lt1on. lusit., 5. 0 , liv. xvr, cap.

Lt.

COMMERClO

MARITIMO

PORTUGUEZ

2l

Permitta-se me agora esboçar rapidamente a phisionomia commercial-maritima Lisboa, no tempo d'esse rei que tem um papel tão emi- mente na historia do nosso desenvolvimento coiDo povo navegador. A fonte d'estas infor- mações fidedignas é Fernão Lopes, o nosso pittor~co chronista e o primeiro historiador de Portugal (1). A alfandega de Lisboa rendia no tempo de

D Fernando, diz elle, de 3~ a 40 m1l dobras,

()U, proximamente, 8'o contos da nossa moe- · da (2). Não admire a exiguidade da son1ma:

veja-se antes n'ella a expressão do caracter de porto-franco da Lisboa d'então. Com effeito, o mesmo chronistn nos diz que um anno se

carregaram c 12ooo toneis de vinho, afora os que levaram os navios da segunda carregação em março.)) Muitas vezes, ante a cidade flavia 400

e Soo navios de carregação; e mais too ou I 5o

em Sacavem e no Montijo á carga de sal e de vinho. Em frente de Lisboa, nota o chronista, a selva dos navios era tamanha que as barcas da outra banda não podiam cruzar por entre elles e iam tomar terra em Santos. . Eram ainda estes navios as barcas da ma- rinha primitiva? Não ; eram navios de coberta, da lotação media de 100 to11cis, como então se

( 1) Chro11ica de D. Fernando, dos lneditos da Acad.,

IV, i21 e se~g.

• (2) A dobra de-terra tinha o peso de 92 8f 50 ~rãos

de ouro, entrando 5o dobras em cada marco. (V. Ara~ão, De~cripção g~ral e lzistorica das moedas, etc. I, p. 187.) O valor actual da doura tm ouro reguJa por 3$ooo réis; mas como da primeira metade do seculo xtv para agora o va- lor efficaz da moeda se multiplica sete vezes (V. Leber, Essaa sur l'apreciat de la jort. publ. au 1noyen age, o. to3) o equivalente actual da dobra são 20 ou 21 mll reis.

22

POR1UGAL

NOS

MARES

dizia; e_ perante os nu meros anteriormente· ex- postos, parece-me não ser exaggerado elevar o movimento maritimo annual do porto de 2So a 3oo mil toneladas. Es.scs navios iam e vinham de. Lisboa para Inglaterra, para a ltalia, cru· zllndo no mar do Norte e no Mediterraneo, le-

vando os productos agrícolas nacionae§

e tra-

zendo·nos tecidos e ·manufacturas. ·~· Quem girava com. este commercio maritimo? Estrangeiros, principalmente. Já desde então se denunciava o caracter cosmopolita da nossa historia. Lisboa, diz Fernão Lopes, grande cidade de muitas e. desvairadas gentes». Havia ahi esta11tes (residentes) de muitas terras .e mui- tas casas de cad·a ·nação : genovezes, lombat- ·dos, aragonezes, marroquinos, milanezes, cor- sos, biscainhos, fruindo privilegias e isenções de que os soberanos não eram aváros. <<Faziam vir e enviavam do reino grandes e grossas mercadorias•. Lisboa era, como disse; um porto-franco; o regímen sob que a capital vivia isolava-a por barreiras do resto do reino. para dentro d'ellas podian1 os forasteiros comprar e vender os generos importados e ex.- portados : para fóra <<só podiam paver os ge- neros comesinhos». Por outro lado, como na ltalia, onde as classes commerciantes e ope rarias Jimitavam o poder dos grandes e guer- reiros, tambem em Lisboa o commercio era defeso aos fidalgos e senhores. O rei, porém,. não se incluia no numero d'es- tes, sendo pessoalmente armador e negociante; mas nem comprava nem vendia, os_generos em que outros commercJavam, para nao concor- rer com e1les. Negociante, a Corôa parecia ter mais em vista incitar, fomentar o desenvolvi-·

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COMMERCIO

MARITIMO

PORTUGUEZ

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mente do trafego mercantil, abrir as estradas commerciaes e explorar especies novas. Havia, sem a minima duvida, nos governos o pensa- mento claro da protecção, pois o chronista diz que ·«não vos maravilheis d isto e de ser muito mais, pois os reis tinham tal geito com o povo, sentindo-o por seu serviço c proveito, que em- prestavam sob fiança dinheiro aos que queriam , carrega,· e cobravam dizima duas vezes no anno do retorno que lhes vinha, e visto o que cada um ganhava, do ganho deixava logo a

dizima•. Eis ahi Lisboa no meiado do seculo XIV. Ve- mos, nas rudes instituições da Edade-média, o thesouro, que era então o thesouro regio, ac- cumular funcções tidas hojes por incompativeis . com o principio do I-e:stado na economia politica livre cambista. Vemos que o thcsouro era. ver- dadeiramente um banco, sendo o rei banqueiro, armador e negociante, O rei, porém, não com- merciava senão em determinados objectos de que o comQ1um dos mercadores se não occu- .

pava. Será temerario descortinar n'este facto o principio dos monopolios posteriores da pi- menta, do pau brazil, quando as descobertas deram a Portugal o Oriente e a America 1 Pa- rece-me que não. O que em epochas mais pro- xirnas de nós se denominou monopolio, era na Edadt-média a regra de todas as instituições :

a sociedade consistia n'uma cadeia de privile- gias locaes, pessoaes, e de corporação. Se em Lisboa os burguezes não podiam expulsar do seu gremio os indignos com essa pena singu- lar do degredo para a aristocracia, tra li gran- di, como succedia na ltalia, na nossa capital a

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PORTUGAL NOS HARES

burguezia tinha o privilegio da armação dos nav1os e do commercio maritimo, conforme observámos. Ouso esperar que este rapido esboço terá dado á assefnbléa uma tal ou qual idéa do d~s envolvimento do commercio maritimo, nacio- nal na segunda metade do seculo xtv. Resta- nos porém ainda observar outra face do qua- dro: vimos os factos, vejamos agora as leis que os determinam, ou pelo menos os fomentam

_Fer-

nando e dtgna de toda a attençao por ma1s de um titulo, e, embora receie fatigar 05 meus ou- vintes, entendo que não devo eximir-me á obri-

gação de a expôr.

«Vendo J?. Fernando, diz Fernão Lopes, que o proveito que havian1 (os mercadores) das mercadorias, muitas que do reino eram levadas e trazidas outras em navios estrangeiros, era melhor para os seus nlturaes; e que v1nha muito maior honra á terra havendo n'ella muitas naus, as quaes o rei podia ter mais prestes quando cumprisse ao seu serviço, do que as das pro •

vincias (paizes, reinos) d'elle alongadas

Permitta-se-me uma interrupção. Este pream- bulo denuncia o conhecimento de um facto in- contestavel e muito mais grave então do que hoje: o facto de ser indispensa vel á existencia de un1a marinha n1ititar a existencia de uma marinha mercante. ~~ntão e hoje. os navios de commercio eram e são o viveiro das guarni- ções. Então e quasi até nossos dias, os navios mercantes transformavam-se na hora da crise em navios de guerra. Ainda no primeiro quar

Essa le~isl~ção commercial·marit~ma de

D.

COMI\!ERClO l.IARITIMO PORTUGUEZ

25

tel

do nosso seculo, vimos os celebres brigues

dos

des

de

das ilhas serem o instrumento

acaso mais efficaz da guerra da independencia

da Grecia. Ainda na guerra CriQ'léa os gran-

.serviram como

No seculo ;tv, porém, os typos dos navios combate e de commercio eram quasi

transpor-tes-.

armadores

vapores-correios

-.inglezes

identicos: ainda não havia artilheria grossa, e os meios de guerrear~eram muito mais sim-

ples (1).

(a) Anteriormente á invenção da polvora, os verdadei- ros navios de guerra eram as galés e galeotas que se ma· nobravam com remos e velas triangulares ou latinas. A construccão d'estas embarcações parece bem apropriada para o u'so das armas que então se praticava. Como os remeiros estavam descobertos aos tiros do inimigo, ima- ginaram-se dois castellos nos extremos da galé (as galeo- tas não os tinham) : no castello de pôpa acommodavan1-se os primeiros officiaes e os segundos no de prôa, que era

o mais forte. Em acção de ·combate, ambos se guarneciam de soldados, os melhores no castello d'ávante, para ar· rem·essarem sobre o inimigo as armas missivas d'aquelle tempo : dardos, !ancas, setas, pedras, e materias incendia- rias para pegarem fogo no vefame e enxarcias do inin1igo. Na construccão do casco, a prôa era tambem a parte mais forte, e 'armava·se o beque (mais baixo, á proporcão da altura do castello) com um talhamar ou esporão·de metal rijo. A galé tinha dois mastros que se abatiam e uma vela latina em cada um, a que se ·dava o nome de bastardos; e era commummente de vinte e cinco a trinta bancos, cada um com dois ou tres remos, e dois ou tres homl'ns a cada remo. Tinha 200 a 2So palmos de comprimento, 3o de boca e 10 de pontal. A galeota levava um só mastro e dezeseis bancos· de remeiros. As equipagens das galés compunham-se de soldados (que se chamavam homens d'armas), de poucos. marinhei- ros e dos remeiros neces_sarios: estes foram de principio tirados da classe dos pescadores e barqueiros, para o que t:stavam todos matriculados com seus officiaea a que cha·

PORTUGAL NOS MARES

Prosegue. o chronista:

c ••• ordenou para os homens haverem mór vontade de as fazerem de novo ou comprar feitas, qual 1nais sentissem por seu proveito, que aquelles que fizessem .naus de J oo toneis (toneladas) para cima, podessem talhar e tra- zer para a cidade, de quaesquer matas· que ·d'el-rei fossem; quanta. madeira e mastros para ella houvessem mister sem pagar cousa a!guma por elia; e mais que não dessem dizima do ferro, nem do fullame, nem de outras cousas que de fóra do reino trouxessem para ellas, e quitava todo o direito· que havia d'haver aos que as compravam e vendiam feitas. •

Commmentemos estas disposições ·protecto-

mavam vintaneiros; e quando as galés se armavam, de cada vinte homens tomava-se um para o remo. Depois empregavam-se tambem n'este servico os criminosos con- demnados por sentenca e os prisioneiros de guerra que

n'aquelles seculos e 'nos posteriores se chamavam cati- vos e na realidade o eram, pois se resgatavam por dinhei- ro, ou dando outros cati\·os em seu Iogar. Tambem succedia ás vezes armarem-se em guerra os navios redondos (de commercio) conhecidos pelo nome generico de naus, fossem srandes ou pequenos. A con-

d' estas era a ma1s torpe e defeituosa : o casco

mui curto e alteroso, e o tombadilho e castello de prôa de bastante elevacão; o mastro de mezena pouco· maior que o mastro de uma lancha com uma velinha triangular ;

o mastro grande e o traquete teriam sufficiente altura, se

levassem mastareus de gavea, que n' esses tempos ainda se não conheciam. O gurupés quasi tão alto como o mas- tro do traquete e fazendo com a quilha um angulo de mais de 4;o sustentava uma verga pouco menor do que

a d' este. Assim, o velame d' estes navios reduzia-se a tres velas redondas e uma latina.- V. Quintella, A1tnaes da

Mar. ·Port., I, 6 e segg.

strucção

COMMERCJO MARITJMO PORTUGUEZ

27

O Estado dá gratuitamente as madeiras,

dos

direitos

de

entrada

as matcrias

ras.

e isenta

primas da construcção: assim se traduzem em linguagem moderna estas phrases antigas. Atais

de u~ condemnará di_~posições d'esta orde1n,

attribuindo· as

um terá

por

mais de

muito superior o abandono e o

á

rudeza

dos tempos;

definhamento a que a famosa liberdade ~oste­

Como

agora não tr11tamos, porem, de economia po- litica, mas sim ·de historia, continuemos. A

d'esses tempos- não para va aqui: a

protecção ia mais longe. Comtudo, ao lado das disposições proteccionistas, ven1os no texto

que agora commentamos, uma disposição emi-

nentemente liberal- a da franquia de emban- deiramento de navios estrangeiros. Ainda no seculo XIV a mania das doutrinas dogmaticas não. tinha vindo conturbar, como, sem a mi· nima duvida, conturbou depois a espontaneidade

cegueira

rior condemnou os nossos estaleiros

d~ pensamento. I!r~tico. Ain~a protecção. n~o

signtficava prohtb1çao, nem liberdade equ1vaha a abandono: a razão simples dizia que a liber-

ser

prohibição era em regra inconveniente. · Pedindo venia para esta divagação? co.ntinúo :·

•Üutrosim dava aos senhores dos ditos na- vios, da primeira viagem que partiam do seu reino carregados, todos os di~eitos das mer· cadorias que levavam, assim de sal, como de

dade_ tambem

podia

protectora,

e

que

a

quaesquer

outras

cousas,

tambcm

de

porta·

·

gem, como de siza, como d'outras imposições, assim das mercadorias que seus donos nas naus carregassem, como dos outros mercado- res. D.ava mais aos donos das naus a metade

PORTUGAL NOS MARES

da dizilna de todos os pannos e quaesquer ou-

tras mercadorias qua de primeira viagem trou-

xessem de

assim das cousas que elles carregassem. como-

das que outros carregas~em em ellas.•

Flandres

outros

lugares,

ou

de

Sob esta fôrma de isenção de direitos, a le- gislação da nossa Edade-média realisava o ·que em tempos de hoje se faz sob a fórma de pre-

mios de construcção e

a série de beneficios concedtdos? Não. la mais.

longe. Fazia dos armadores uma classe á parte

naveBação. ·Parava aqui

cA1anda\'a que não tivessem cavai/os, nem ser- vissem por mar, nem por terra, com concelho- nem sem elle, salvo com seu corpo; e que não pa- gasseln fintas, nem talhas, nem sizas que fossem lançadas para elle (rei),. nem para o concelho,. nen1 em.outra nenhuma cousa, salvo nas obras dos muros onde fossem moradores e das herda. des que ahi tivessem, c de outras nenhumas não.,,.

Para avaliar bem o alcance d'estas disposi· çoes ser1a mtster entrar na expostçao minu- ciosa e longa dos serviços ou impostos, bra- çaes e pessoaes, fiscaes e militares, da Edade- media- assumpto que, nem cabe no espaço de que disponho, nem talvez na paciencia dos que me escutam. Direi apenas o que talvez se torne ocioso· por ser sabido, isto é, que as mi· licias do tempo eram formadas pelos contin gentes dos concelhos e dos senhores; que não havia ainda excrcitos permanentes assoldadas ; que o peão era obrigad(} a ter a sua bésta, o cavalleiro a sustentar um cavallo de guerra, para o dia em que fosse convocado. Talvez,.

,.,

.

.

.

,.

.

I

COMMI!RCIO MARITIMO PORTUG1JEZ

29

ponanto, não -erremos muito traduzindo as disposições antigas n'esta expressão moderna:

isenção do recrutamer.to. Diz, para terminar, o chroni-sta :

cE acontecendo que os navios assim feitos ou comprados perecessem da primeira viagem,

mandava (o rei) que estes privilegias durassem

aos que . os

fazendo ou comprando outros, e assim por quantas vezes os fizessem ou comprassem ; e

se dois em companhia faziam ou compravam alguma nau, ambos haviam estas mesmas gra- ças.;,

Ha numerosos seculos que alguem disse nada· haver de novo ~ob o sol. Se encaramos as cousas sob um certo ponto de vista, assim é

com effeito. Os homens e os seus actos repe·

reproduzindo-se. Hoje, com cinco se-

tem se,

perdessem tres annos seguintes,

cuJos de tirocinio, a Europa nada descubriu de novo; hoje ainda, as nações que entendem justo e util fomentar o progresso da sua ma- rinha, ainda !loje põem em pratica as disposi- çõ-es sabias do ultimo monarcha da nossa pri- meira dynastia. N·ão faltaria porém, entre nós, quem condem- nasse aquelle que hoje- por um aca~o imprc· visto e at~ inverosimil -pensasse ou preten· desse restaurar a nossa marinha caduca pelos meios qt.re no seculo XIV a crearam. Entre- tanto, se ·ha ponto incontestavel é este: que a não ter sido o ·fomento maritimo do seculo Itv, jámais Portugal teria ganho a honra· e o proveito historico das suas grandiosas nave- gações, das suas conquistas mal fadadas, e da

3o

PORTUGAL NOS MARES

brilhante empreza da sua c.olonisação atlantica .e. amertcana.••

~ Perdoem-me os meus ouvintes, mas temos que esmiuçar ainda n·a legislação fernandina. A iniciativa do governo, como se diria se se estivesse no seculo actual, não parava no ponto·

em que a deixámos la mais além, muito mais

além: creava instituições superiores no principio, embora rudes no seu desenho, su- periores ao que hoje: voga entre as nações cul-

~as. Diz Fernão Lopes:

cTrabalhando·se muitos de fazerem naus e outros de as comprarem por azo de taes pri-

vilegias, e vendo el-rei como por esta cousa sua terra era melhor manteuda e mais honrada

e os naturaes d'ella mais ricos e abastados,

por azo .das muitas carregações que se faziam; e querendo prover com algum remedio de cada vez ser mais accrescentado o conto de taes navios, e os· desvairados caxões .do mar não

deitarem em perdição aquelles que suas naus de tal guiza perdessem: ordenou em concelho de uma companhia de todos, pela qual se re- mediasse todo o contrario porque seus donC\s não cahissem em aspera pobreza, publicando

a todos que fosse por esta guiza: - Mandou que se inscrevessem por homens idoneos e pertencentes todos os navios telhados (cober- tos) que em seu reino houvesse desde 5o to- neis para cima, assim os que então havia, como os outros que depois houvesse; e isto e:n Lisboa e Porto e nos outros logares onde os houvesse. E posto assim em livro o dia e preço porque foram comprados ou feitos·. de novo e a valia d'elles, e quando foram detta-

seu

COMMERCIO MARITIMO POttTUGUEZ

3 I

dos á agua, e tu~o aq·uUlo que esses navios ganhassem,· .fosse de seus. donos e mercan- tes, como sempre se usou; e de tudo quanto esses navios percalçassem de idas ·e vindas, assim de fretes como de quaesquer outras cousas, pagassem para a bolsa dllessa compa· nhia .duas corôas por cento; e que fossem duas bolsas, uma em Lisboa, outra :-no Porto; e terem encargo de manter estas bolsas .aquel- les a quem o rei ·dava o. cuidado de taes esti- mações e avaliamento, para do dinheiro d'ellas se comprarem outros navios .em Jogar d'aquel- les que se perdessem e para outros quaesquer cdeargos que -cumprissem em prol de todos. •

Até aqui, achamo! a instituição de um re- gistro marítimo estatistica naval, de uma caix-a de seguros, organisada cooperativa ou n1utualistamente, e a fixação do premio de 2 por IOJ, não do valor dos navios, como hoje é uso para os seguros, mas sim da importan- cia dos rendimentos dos fretes. Dado o caso, perém, de sinistros imprevistos, para attender aos quaes não chegassem os recursos das boi· sas, como se procederia ? D'este modo :

.

.

cVêr-se a valia de todos os navios que aquelle tempo ahi (no Porto ou em Lisboa, sédes das bolsas) houvesse, e outrosim o valor d'aquelle navio ou navios que se perdessem, ou fossem tomados, ~ contar-se tudo quanto montasse soldo por libra aos milheiros ou centos, que cada navio valesse, e tanto pagar cada um se- nhor de cada navio. •

Nem todas as avarias eram attendidas pelas

pORTUGAL NOS MARES

bolsas de s.eBuros: só dava direito a indemni·

sação

o

pre)uizo

superior ao terço

do

valor

da embarcação: •E se porventura alguns na-

vios por fórtuna (acaso) de tormenta ou por

por·

outro

algum

cajom

(motivo)

seguindo

acto de mertado·ri.a abrissem ou peorassem, chegando a logar onde se podessem correger por menos do terço d'aquillo que valeria Cle- pois que fosse adubado (reparado) - qu.e'"' senhor do navio foss.e tbeudo (obrigado) de o adubar (concertar) a suas despezas {custa), e não o querendo assim fazer ·que os outros se- nhores de navios não fossefll theudos de lh~o

adubar nem pagar outro.• Ao contrario, po• rém, «acontecendo que fosse em esse navio ta- manho damno feito que se não podesse emen- dar senão por mais do que valeria depois de adubado ou por tanto (quanto valesse), e acon-· tecendo este cajom. (accidente) sem culpa dos mareantes d'elle e sem outra malicia, que entio os senhores (da bolsa) cobrassem d'elle e dos apparelhos aquillo que podessem· haver á boa

fé e sem malicia; e então que se visse o que

aquelle navio valia ao tempo que lhe acontec~u aquelle cajom (sinistro) e fosse pagado Jogo a seu dono para comprar ou fazer outro, des· contando-se-lhe o que houvesse dos apparelhos que salvasse. •

o

De tal modo funccionavam os seguros mu-

tuos. As

lor eram indemnisadas ; as avarias que impor- tassem reparação superior ao valor não se abo- navam: vendiam-se os salvados e pagava·se

avarias de mais de um terço do va-

o

deficit.

porém as perdas

de

qualquer

natureza,

provocadas

por

te·

COMMERCIO MAIITIMO POJtTUGUEZ

33

meridade,

Nio.

ou

por

incuria

dos

amador~s l

.•E se alguns mestres ou senhores de navios fretassem para terra de inimigos sem receber primeiro segurança e sendo tomados por elles ou perecéndo ep1 taes viagens, que os donos dos outros navios não· fo5sem theudós de (obri-

E porque alguns mes-

tres e senhores de navios, sob esperança que

lhe haviam ser pagados, ainda que se perdes- sem, não curariam de os fornecer de ancoras,

gados a) lh'os

cabos

e outros fullames

e

isso

mesmo (tam-

bem) de armas e gentes e de outras cousas que pertencem para defensão do mar e dos inimigos : mandava El-rei que os \·édores e es- c.rivães chegassem ás naus e se· escrevessem todos os apparelhos e gentes que levavam para se ver se se perdiam por mingua das cousas

que. lhe eram cumpridoiras par·a seguirem sua

viagem,

e

assim

lhé serem pagadas ou não. •

Esta série de extractos, por venturc.t fatigan- tes, exprimem, comtudo, a meu ver, com uma

nitidez · absoluta,

o

systema

e

o

regimcn

do

comme·rcio maritimo nacianal na segunda me-

seculo XIV. Para completar o nosso

tade do

esboço, falta porém notar um ponto:

as rela-

ções da marinha mercante para com o Estado, segundo hoje nos exprimimos, ou pa.ra com

Et rei,

ao ternpa, o Rei éra o Estado, e o seu thesouro

conforme

se

dizia

então -pois

ainda

o thesouro Qacional.

·

Os haveres e riquezas pessoaes dos monar-

chas eram

Fernando

o haver e a riqueza collectiva. D.

succedera

ao

rei

D.

Pedro, perso.

PORTUGAL NO~

MARES

nagem singular da nossa historia, mixto de lou- cura e genio, de justiça e de capricho, de hon- dade e de crueza, de liberalidade e de cobiça. A sua avareza celebrada tornara-o riquissimo,

e o thesouro que legou ao filho era de tal or~

dem que csómente na torre do ave,. do castello. de Lisboa foram achadas 8oo mil peças de ou- ro, 400 míl n1arcos de prata, afora moedas e ou- tras cousas de grande valor que ali estavam e mais todo o outro ave1· em grande quantidade que pelo reino era posto., ,

Demasiado se sabe porque meios se forma-

!

vàm esses thesouros. Reinar e combater eram

um

negocio

: ou talvez antes uma cousa a

que, para não offender ao imos _susceptiveis~ eu não chamarei rapina. E não se deve chamar

assim desde que pretendemos avaliar as cou- sas sob um _ponto de vista moral : as ideas ~·os ~ costumes mudam, desenvolvendo-se e depu- rando-se

Voltando ao nosso thema, digamos portanto que os . armadores eram obrigados a armar em . guerra os seus navios, quando o prol comuual assim o reclamas~e, correndo então de conta do thesouro regio todas as avarias ou naufra- gios. Da mesma forma que os contingentes dos conselhos e as mesnadas dos fidalgos ti- nham de ir á hoste ou appellido, quando, decla- rada uma· guerra, o rei os convocava: assim tambem as frotas dos armadores tinham de accorrer ao chamamento do soberano na hora do perigo. Todavia, não é este o caracter mais grave nas relações da marinha mercante com a Co-

\
i

!

.

rô a. Muito mais grave é o da partilha das pre-

zas feitas no mar. No mar e. na terra, o ban-

COMMERCIO MARITIMO PORIUGUEZ

35

----------------------

didismo e- a pirataria eram communs; e se no campo o rei era o primeiro dos barões bra- vios, no mar era tambem o primeiro dos arma- ·

dores.

cE quando os navios, diz o chronista, hou- vessem alguns percalços (presas) assim de ini- migos como por qualquer outra guiza, que taes percalços fossem entregues aos senhores e ma- reantes dos navios que os assim ganharam, e do que acontecesse aos senhores dos navios

houvessem elles a metade e a ·Outra fosse posta

na bolsa para prol de todos-

, E mandou el-

re1 que as suas naus que eram 1 2 entrassem

n'esta companhia e que não fossem de maior condição que as outras do seu senhorio

etc. •

-Eis ahi, no seu conjuncto, o systema da le- gislação maritima fernandina. E digno de atten- ção, meus senhores, o facto· de que, a cinco se- culos de distancia, essas leis contéem já em si o embryão de tudo o que hoje a França, a lta- lia, os Estados-Unidos legislan1 ou reclamam em favor próprio: contéem a franquia de em- bandeiramento, os premios de construcção, os premios de navegação, os seguros mutuas, -a estatistica naval e a inspecção technica. Em casos, como estes, a historia tem· um valor:

.

propõe-nos um exemplo e, infelizmente para nós este exemplo é completo e perfeito, por- que vemos o desenvolvimento extraordinario da nossa vida marítima nos seculos xv e xv1, po· dendo vêr tambem a decadencia miseravel dos seculos seguihtes até ao estado de morte aca- bada no nosso.

36

PORT1JGAL NOS MARES

Eu, meus senhores, sou dos· que attribuem á legislação protectora de D. Fernando um pa- pel eminente na historia do nosso desenvolvi- mento como nação commercial-maritima ; e já que n'esta casa §e tem fallado tanto em liber· dade e protecção, cm productor e consumidor, direi tambcm que julgo terem sido os co1lsumi- dores do seculo XIV quem pagou a protecção maritima- devendo dizer eguatmente que os consumido1·es dos seguintes seculos lucraram muito com o sacrificio feito por seu,s avós Pro- teger é semear. Nem sempre colhe o fructo aquelle que espalhou a semente; mas uma na- ção não é um dia: é a successão das gerações

dos seus filhos. O sacrificio d'hoje (quando sa- crificio exista) é o penhor da fortuna de ámanhã,

mal dos povos que chegaram a conservar ape- nas o sentimento do interesse do seu dia

• Meus senhores, vamos entrar n'outra epo- cha; vamos assistir ao desenvolvimento pleno d'essa semente lançada ao mar pelos re1s da nossa primeira dynastia : são os da segunda quem ~recolhe a seára. Tereis ouvido dizer que esse esplendor maritimo e commercial portu- guez na Renascença vem das- condições geo· graphicas e mais causas naturaes-fataes , do nosso solo e do nosso povo, e que para a nossa grandeza não contribuiu nenhuma pro- tecção, no sentido theorico actual da pala- vra. A essa opinião temos de objectar o se- guinte : como é que taes condiçõf!s fataes de- ram á marinha portugueza o esplendor d.o se- culo XVI e a miseria do seculo XIX? Se são fa- taes, como deixam de ser constantes ?

e

I

COMMERCIO MARITIMO PORTUGUEZ

37

--------------------------------------

Somos chegados· á epocha das emprezas fa- mosas dos portuguezes que foram os iniciadores da colonisação ultramarina nos tempos mo- dernos, e o~ primeiros ~randes navegadores do mundo; porque os navtos dos antigo~, phe- nicios, gregos e romanos, se abalançaram a fugir das costas, que trilhavam, para atra- vessar o 1\{edit~rraneo. A~ viagens lendariaS' dos phenicios ás Cassiterides e ás Fortunadas, essas incursões no vasto pelago atlantico, foram sem· pre viagens coste;ras, como a principio o foram as nossas ao longo da Africa occidental. A costa lusitana da Península, extremo li- mite do mundo antigo sobre o Oceano, coube· ra-nos a nós, fadando-nos para partirmos em demanda dos segredos dos vastos mares mys- ~ teriosos, esse campo largo a que os ara&es chamavam o Mar Tenebroso. Um movimento, como foi o das navegações, embora determinado em ultima instancia pelas condiç6es geographicas, tinha de ser provocado por causas historicas. A primeira d'ellas deve achar·se nas Cruzadas, facto a que alludi· mos. As Cruzadas, conforme é sabido, inspi- radas por u1n fervor religioso, tendo como motivo ou como pretexto a rcdcmpção do tu· mulo de Christo, determinaram na Europa christã um movimento de navegações e de commercio, que é uma especie d~ renascença de- pois das epochas n'este sentido apathicas dos primeiros seculos da Edade-média. A Hespa-

nha experimentou mentos.

movi-

. Continuar a guerra aos mouros para além

a

influencia

d'estes

38

PORTUGAL NOS MARES

do Algarve,· do outro lado do Estreito, era

tambem uma Cruzada; e, se pela Syria se tra- vavam relações com o Oriente mysterioso, tambem nós esperav:1mos chamar a Portugal ~or via de Ceuta o commercio das lndias. Correra durante toda a Eda-de-média pela Eu- ropa a lenda de um principe christão asiatico, o Preste João, cujo imperio se não sabia ao certo onde ficava. Deseobril-o seria duplamente proveitoso para a e para o interesse. Eis o que moveu á empreza de Ceuta. A Ceuta vinham, com effeito, em caravanas atravez do Sudão ·as mer~adorias do Oriente; mas a conquista d'esse emporio co·mmercial

não produziu o resultado que se

esperava, pois as caravanas desviaram o seu

rumo para Tunis desde que Ceuta pas~ou a ser christã. Não se descobriu, pois, o Preste João pelo caminho de As emprezas marroquinas, comtudo, tinham sido o inicio de um movimento de outra or- dem: o da navegação exploradora, indagadora do l\'lar Tenebroso. Os navios iam descendo

e visitando a costa d' A frica, ao mesmo tempo

que, alongando-se no Oceano, descobriram os archipelagos atlanticos. Por este caminho veio a dobrar-se o Cabo; por este modo veiu a che- gar-se á India. Estava descoberto o Preste João. Não é possível, meus senhores, nem até ne- cessario ao· plano da minha conferencia, histo-

riar as viagens de descoberta: bastam as breves palavras que proferi, para esbàçar os motivos creadores da no\·a epocha cm que o .nosso com- mercio maritimo entra com a. descoberta do caminho da India. A descoberta seguiu-se a

marroquino

,

COMMERCIO AtARITIMO PORTUGUEZ

39

exploração ou occupação d'essa parte da Asia. e, como é sabido, foram diversos as politicas seguidas n'essa empreza. D. Francisco de AI·· meida, o primeiro vice· rei, queria que todo o nosso poder fosse no mar: isto é, que manti• vessemos o monopolio da navegação e do commercio marítimo, reduzindo a occupação territorial ás fortalezas necessarias para o abastecimento das esquadras e para a defeza dos pontos estrategicos. As tradições milita• res e religiosas da nação oppunhom se a isto, e póde dizer-se que o genio portuguez encar- nou na pessoa do grande Albuquerque, dando aos negocias da India um rumo inteiramente

difterente- o de uma

conquista. O Oriente

seria um imperio, como hoje o é para os in- glezes, se o tempo, os nossos meios e outras causas o tivessem permittido. Como o não consentiram, o nosso domínio, sollicitado por duas tendencias oppostas, e o governo despro- vido de estadistas superiores, fizeram com que a lndia fosse para nós uma aventura ephemera, e~bora ficasse como padrão summario e corôa das nossas obras e da nossa historia meritoria ·

dos seculos xv e x vi. Como existiu·, pois, de facto o dominio sobre

a· India ?

Por varios modos, Em certos pontos, como no ~1alabar, e em Malaka, onde a politica de Albuquerque levara á constituição de cidades portuguezas, havia propriamente governo e estado: uma colonia, no sentido çommum da ~ palavra. Mas taes exemplos eram excepções; J. a regra era a existencia de uma fortaleza do_• minando uma cidade indigena, cobrando as páreas dos sultões da terra, e abrigando os

~

PORTUGAL NOS P.tARES

navios que ahi iam commerciar. Alén1 d'esta4J

fortalezas havia outras cujo papel era exclusi- vamente maritimo; e estas e as precedentes emltttam os ca1·ta{eS ou passa-portes, sem os quaes era defezo aos navios não··portuguezes navegar nos mares em que nós dominavamos. Taes foram, em rc:sumo, &5 condições sob que ex1st1u o commercao martnmo portuguez durante a epocha da lndia. N'esse commercio ha.via duas especies:. os monopolios da Corôa, como a ptmenta, e os generos em que aos par- ticulares era licito traficar. Como Veneza, e se- gundo as tradições nacionaes que conhece- mos, a nossa monarchia era armadora e com- merciante. Era o Estado que armava as 11aus de viagem da carreira da India; e esses navios iam artilhados e armados, sem irem propria- mente para combater, porque o fim das suas viagens era o transpone das mercadorias e dos passage1 ros. Restam-nos numeroso• documentos coevos para nos mostrar a importancia d.o commercio

~rienta1. O Livro de Ioda a fatellda, de Figuei-

.

.

.

.

.

redo Falcão, inscreve no orçamento de receita para o anno de 1607 a verba de 3go contos proveniente de 2o:ooo quintaes de pimenta a 3o cruzados, e dos direitos de 5 naus a 3o con- tos. Cada uma d'essas naus, do typo orJinario, arqueava de Soo a 6oo toneladas, e tinha a tri- pulação de 123 pessoas, custando por via de regra 20 contos. Os direitos de importação das mercadorias da lndia eram, con1o disse, arrematados; e os numeros que conhecemos, mostram como estas arrematações, dadas a validos da corte, eram mais uma das desordens cOndemnaveis da administração d'esse tempo.

COMI\i!RCIO M~\RlTIMO PORTUGUEZ

Eis aqui~ uma

a J5g8: (1)

.

nota dos exercicios de

41

J586

Aaa.• ~

-

-

1586

.s

·~

•589

J5go

J5g2

tSg.)

159-f.

tSg5

tSg.;

15 d~

Direitos

Loc:aç'o

Lacro

3

2

5

6

4

l

2

1

3

I

-

67.4 3.~u6

45.666.6f.ô

21.747·250

~.368.3~11 45.666.666 23.zoa.~s

I

·~73.5 I I 14.166.665

136. 43·Ó02 t6 t.24

.081

46.:1So.283

124·166.665

gt.333.331

2.2.833.33;:

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6

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-

28.57+48o

21;744·~4Õ

8.468. o5

233.487.542

3 ~ I I 2.434.663

4

120.000.0 o 113.587.5~2

go.ooo.ooo 1

2~-434.6 3,

Perda

,6.31.670

O periodo a que estes algarismos se referem ~ um período de decadencia. Já o caste- lhano governa cm Portugal ; o concurso das causas que levaram á perda da autonomia mostravam os .seus resultados fun.estos. E' cos- tume attribuir á conquista castelhana a perda das nossas possessões ultramarinas, dizendo-se que das guerras de então, entre a Hespanha e as naçoes protestantes, guerras em que Invo- luntariamente nos achámos involvidos, resultou a perda do commercio marítimo portuguez. Não vim para aqui estudar a influencia que o domínio castelhano teve na nossa fortuna co- lonial; mas o facto é que a nossa marinha es- tava perdida ainda antes de se ter perdido a inde-

-

.

( 1) A equivalencia dos numeros, ou por outra, o valor eflicaz da moeda, duplicou do fim do seculo xv1, para o actual. V. Leher, Essai., etc. p. 104.

PORTUGAL NOS MARES

pendencia --e perdidas, meus senhores, porque se construia ma1, ~e navegava peior; porque se abarrotavam os navios de carga e se arvo- ravam em pilotos os ignorantes. Era o mar que tragava os nossos navios: não era o inglez,- nem o hollandez. Falcão diz-nos cjue de 1497 a 1692 foram de Portugal para a India 8o6 náos e que_ d'estas:

voltaram

42S

arribaram

20

arderar.n

6

naufragaram

66

ficarar.n na India 28S e foram tomadas

.

.

.

por tntmtgos

4

Naufragadas e queimadas são 72 sobre 8~6 :··

pois bem,

lndia 66 naus e

no periodo de 1S8S a 97 vão para

arribam

7

voltar.n

34

tomam inimigos

2

fica na lndia

t

naufragam

18

e ardem

4

·

São 22, _naufragadas e queimadas, sobre 66, isto á, a terça parte: apenas 2 são torr.adas por inimigos. E. pois necessario convir ém que

a principal causa da ruína da navegação da ln-

dia era interna. Já se não praticava aqueiJa ju.

di ciosa medida do tempo de D. Fernando: vis.

toriar os navios antes da partida.

. Vem a proposito citar n'este momento, meus

senhores,

a

lei

celebre de 3. de novembro de.

rS71 ( 1) pa1·a que os 11avios 11avegucm arn1ados,

( 1) Leis e Prov. d' E l-rei D. Sebastião (Coimbra, 1816) ·

p.

t66 e segg.

-

COliMERCIO MARITI)lO PORTUGUEZ

43

promulgada por El-rei D. Sebastião, e_CUJOS pre·

ceitos denunciam claramtnte que nos não per-

tencia n'essa epocha o dominio incontestado

dos mares inçados de corsarios A traz de

e

none da Europa que, nos tempos remotos da~

Cruzadas nos tinham ensinado a marear e con-

bater, vinham em chusma disputar-nos com vantagem o domínio d'esses va~tos campos de ago~ onde antes dominava absoluta e exclusi-

vamente a marinha portugueza.

1S71 abrange, pode dizer-se, toda

a economia da navegação commercial. Renova

a nos~o exemplo, os povos mar~tirr.os do

nós

A

lei

de

disposições de

as

vios

D.

João III para que os na-

vão e voltem cm conserva, c:legendo o ca-

pitão da frota, regulamentando a disciplina da viagem; prescrevendo que para ·S. Thon1é, para

o

Brazil, para Cabo Verde e para a Guiné, só

possam as naus sair desde agosto até março, e em numero minimo de quatro; e para a Ma· deira e Açores, para Flandres e para o Le· vante, em qualquer tempo, sendo ~ numero mi- nimo da frota de quatro naus para Flandres,

e de duas pata os outros pontos.

.

Alem dos navios terem de navegar em con·

prescreve mais a lei que todos vão ar-

mQdos, dos· maiores aos mais pequenos, sal·

menos de· trir.ta toneladas que car-

reguem sal, madeira, peixe, fructas e outros

serva,

vo ·os

de

somenos valor, incapazes de tentar

a cobiça dos corsarios. nau de mais de 200

toneladas armaria 3 roqueiras,

generos de

3 passamuros,

8 berços, 20 lanças, 20 piques e 12· arcabuzes,

devendo levar 3 quintaes de polvora. la verda- deiramente equipada em guerra. A lancha de 25 tcnelladas armaria 1 roqueira, 1 passamuro,

44

PORTUGAL NOS MARES

'

3 berços, 1o lanças, 4 arcabuzes, devendo Ie· var 1 quintal de polvora. ·no minimo ao ma- ximo, o armamento graduava-se pela arqueação, em series de 2) a 6o tonelladas, 6o a 1oo, 100 a J5o, 1 ~o a 200, e d'ahi para cima. Estas medidas defensivas traduziam-.se em onus para os armadorés e negociantes, e por isso a lei concedia a uns e outros favores e privilegias novos, que todavia provaram tão Jnefficazes como as proprias medidas defensivas. O primeiro d'esses privilegios era o regime da. grande cabotagem, para a Africa, para o Brazil, para as ilhas e para qualquer outra parte <<de- meus reino.s e senhorios)) prohibindo o car- regamento de fazendas em navios estrangeiros erríquanto houvesse nacionaes, e estabelecendo uma roda ou rateio das car~as entre os arma- dores. O seg~ndo eram os premios de cons- trucção a razão de Soo réis por tonelada para os navios de até J5o toneladas, e mais 2So reis pelo excesso de arqueação nos navios de 1So até 400 toneladas; -de 3o:ooo reis por cada galé de mais de quatorze bancos, e de 2o:oo:> reis por galeão de mais de 120 tone·tadas. O terceiro fi- nalmente era a liberdade do corso. cE querendo a)guns dos meus vassallos andar de armada em nàvios de alto bordo, ou de remos, ·á sua conta e despeza, hei por bem que o possam fazer e hajam para si todas as prezas que tomarem,

como são de corsarios, e to-

madas em boa guerra. • Nenhuma destas medidas, nenhuma das mui- tas outras ·leis protectoras e repressivas, pro· mu!gadas pelos ministros d'El-rei D. Sebastião,

apesar da opportunidade e da d1scrição de mui- tas d'ellas, conseguiram enfreiar o progressivo

justificando

COMMEitCIO MARITIMO ~RTU(iUEZ

45

desmantelamento da nação, da sua marinha, do

seu commercio. Vieram tarde. Os erros das ad-

ministrações precedentes tinham levado as cou·

sas áquelle ponto cm que não bastam para res- taurar os organismos sociaes depauperados e entoxicados, as decisões da boa razão, nem os actos dos governantes. A sorte da patria estava lançada: era supe· rior ás forças humanas desviai-a do seu des- tino fatal. Nós não podemos estudar agora as causas numerosas e complexas que concorreram para

a ruina da navegação portugueza na segunda

- metade do XVI seculo; mas devemos considerar

como a primeJra de todas o principio do corso estabelecido como resra nos mares do Oriente

e legalisado, como vtmos, nos do Occidente.

Uma das primeiras, senão a primeira occupação das esquadras portúguezas na lndia, era dar caça

ás naus de romeiros que subiam ao mar Rôxo nas peregrinações á Santa-Kaaba de Meka. As

prezas pertenciam por metade ao rei e ás guar· nições, e a pirataria entr<;>u francamente nos usos do dominadores. Com o decair dos tem- pos, e particularment~ nos portos affastados, como Hormuz ou Malaka, chegaram a obser- var-se factos extravagantes. Bandos de piratas portuguezes iam estabelecer-se pelas costas da Indo-China: Macau nasceu assim. Quem ler as

Peres, do nosso Fernão Mendes Pinto

inaçóes

verá ahi o caso d'aquelle capitão de Malaka que na ilha de Aina·m lavrou escriptura com um pirata siamez ou malaio para irem ambos de sociedade roubar os tumulos imperiacs da

. Encerrada tristemente, com a perda da inde·

China no rio de Nankin.

.

\

\

.

\

I

POBTUG~\L NOS MARES

pendencia, a segunda epocha da nossa historia entramos n'uma éra nova com a dynastia de Bragança. A de Aviz, recebendo a herança af- fonsina, achou formaJa uma marinha e pôde . com ella levar a cabo emprez~s que tornaram immorredouro o nosso nome e a. nossa lingua. Que h<:rança recolhia a casa de Bragança ? Que restos ficavam do antigo imperio portu- guez ? Ficava o Brazil e Angola. O movimento maritimo da primeira epocha, a protecção dada. á marinna, fizeram de nós os descobridores da lndia que nos alimentou um seculo ou mais, e do ·Brazil que agora vem substituil-a durante um outro seculo.

Entretanto, meus senhores, antes que o Bra- . zil désse o dinheiro sobre que lançou alicerces · o verdadeiro throno do màrquez de Pom_bal ; antes que, restauradu a vida maritin1a ·colonial da metropole, se .accentuasse um novo typo de

protecção e se ganhasse uma tll ou qual in- iiependenciã de facto: antes d,isso, houve te11_1pos

deploraveis, politica e economicamente

A ·dy-

nastia de Bragança pagou a independencia com as colonias; e· para se livrar da Hespanha, su:_ jeitou·se e sujeitou-nos ao protectorado ex- plorador da Inglaterra -que e~tão- prégava o livre-cambio, essa doutrina excellente dos for- tes contra os fracos.

A série dos tratados inglezes principia relo

de 29 de janeiro de 1642, em que Carlos re- conhece D. João IV sob condição de manter o statu quo ultramarino, isto é, de sancccionar to· das as conquistas dos inglezes e hollandezes durante o periodo philippino. Cahiram · os

COMMERCIO MARITIMO PORTUGUEZ

47

.Stuarts em Inglaterra, veio Cromwell, e a repu- blica exigiu mais. O tratado de 10 de julho de

seu (lrt. 11 inicia o livre-cambio: os

_inglezes, sob a sua bandeira, poderão negociar e armar n~vios de Portugal para o Braztl, es· tabelecendo relações .directas com as posses- sões. portuguczas e entre ellas. Mas o inglez, livre·cambista em seu proveito, é proteccio- nista logo que se inverte o caso: por isso Por- .tugal não poderia fretar navios estran8eiros para o commercio do .Brazil, emquanto hou- vesse navios inglezes. Por outro lado, além d·estes favores á marinha, Cromwell não es- quecia as industrias, porque um artigo reser- .vado garantia ás manufacturas inglezns o di- reito maximo de 23 p. c. sobre o valor, ficando,

é claro! a Inglaterra com a liberdade de taxar as- mercadorias portuguezas como entendesse. Em 1661 casou a infanta D. Catharina com Car- los II, restaurados os Stuarts em Inglaterra, e em arrhas deu-se á Inglaterra Tanger em Africa; deu-se-lhe Bombaim •para que nos podesse defender melhor dos hollandezes na India.• Deu-se á Inglaterra Q direito sobre tudo o que

16S4 no

~desse hafer dos hollandezes, ·

a liberdade dos inglezes se estabelecerem livre-~ mente em todas as colonias nacionaes. Afinal o tratado de 27 de dezembro de 1703, o tra- tado chamado dé Methwen, do nome do em- baixador que o negociou, poz a claro a dou· · trina na sua pureza: Portugal faz vinho, a In- g~aterra pannos : trocam-se os vinhos pelos pannos e anefactos. Era o .livre-cambio abso· luto;-- era a theoria das aptidões naturaes na sua genuinidade ; e veio d'ahi, como era natural, o . ficar-mos nós sendo uma nação de vinhateiros

e

facultou-se

POITUGAL NOI MA.!I

obscuros, aente subaherna, colonos, ilotas, ou como se quizér dizer, dos in81ezes que nos ves- tiam, nos caJça!am e até nos Javam de comer- porque Ponugal deixou de ter pão. De toda esta historia, liberal em rxtremo, re- sultaria sem .duvida a ruina final, se o Brazil nio tivesse vindo com as suas minas em nosso auxilio. Veio o Brazil, v~io o marquez de Pom- bal : um thesouro e um estadista. Renasceu um commercio marítimo. Aboliu se o tratado

inglez, iniciou-se uma éra nova â navegação por- tugueza. não trilhavam o Atlantico as naus da India: agora iam navios de commercio em comboyos, defendidos por navios de guerra, ~ois os mares andavam infestados de piratas. O trafego marítimo portuguez consistia, de um lado, no transporte dos generos europeus para o Brazil e no retorno do assucar, e do outro no transporte de escravos de Angola e Mo· çambique para as minas, para as roças e para os engenhos americanos. Na lndia a pimenta era o estanco régio : no Brazil é o pau que de. nominou a terrJ, são os diamantes de Minas Geraes. O Brazil ó verdadeiramente uma {atenda por-

, tugueza

no Ultra~ar, e Portugal _explora~

como o proprietar1o faz a uma granJa sua. E prohibido no Brazil o estabelecimento de es- trangeiros, e toda a exportação tem de vir a Lisboa para d'ahi se distribuir pela Europa:

Lisboa é outra vez uma Liverpool peninsular. Se o imperio da India foi, porém, ephemero, não foi mais duradouro o do Brazil. Causas complexas determinavam a dissolução da so· ciedade portugueza; -e a politica pombalina fi. cou. como um episodio entre o protectorado

COMMERCIO · MA:RITIMO PORTUGUEZ

49

inglez de 1640 a ·I 703, e a sua restauração que se denuncia mais exigente logo que D. João VI foi forçado a emigrar ·para a America. Desem- barcaram ahi no mesmo dia, elle e os inglezes. Os portos abriram-se· logo ás bandeiras de to- das as nações- isto é, á bandeira ingleza ; .e dois annos depois, em 181o, assignou·se o fa· moso tratado que deu aos in~lezes o _direito de terem estaleiros seus em terrJtorio portuguez. Ora nós que, durante a guerra do Russi- lhão .(•793-S), tinhamos visto os francezes apre- zarem-nos cerca de 200 navios no valor de too:ooo contos, viamos na franquia dos portos brazileiros arruinado o nosso commercio ma· ritimo. Da sorte miseravel a que Portugal en- tão chegou vieram as revoluções posteriores,. a principiar pela de 1820. N'esse anno entra· ram no Rio 153 navios portuguezes. Querem os meus ouvintes saber quantos entravam antesl Em 18oS, 810; em 18o6, 642; em 1807, 777·;

em 18.o8, 777; em 181o, 121S. Alguns numeros

ácerca do valor do commercio esclarecerão ain· da mais este caso.

ExroRTAÇÃo D8 PoRTUGAL PARA o ULTRAMAR

Na decada de 17~6a a8o7 por anno, média. 3.7C:o contos

Na decada de 1Ho7 a 1817 por anno média

7S6 contos

ExPORTAÇÃO no ·Br.AZIL PARA PoRTUGAL

Na decada de 179fi a 1807 por anno, média. 14. 120 contos

7S6 contos

Na decada de 1go7 a 1817 por anno, média

REJGXPORTACÁO DE GENEROS DO BRAZlL POR LisBOA

,

Em

·I

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

5.6oo contos

Em

t8Ig

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

I .6oo contos

5o

PORTUGAL NOS KARES

· Se compararmos as i'mportações e exporta·

ções sommadas entre Portugal e Brazil na de- cada de 1796-18o7 e no anno recente de 1874 (ainia sem attender á diflerença do valor da moeda) vemos qüanto sotfreu com a separação .o nosso commercio maritimo. A média annual no primeiro periodo é de·17.8~o contos; a som-

ma de 1874 é de 7.46o- contos. A historia que temos. vindo estudando diz- nos, pois., meus senhores, varias verdades. Diz- nos que á sombra de forças nav~es creámos o commercio maritimo com o Oriente·. Diz-nos que,_ arruinado elle, achámos no s:.rstema mer_- catJlil pomb~lino e no Brazil nov~s fontes de prosperidade. Diz-nos finalmente que a lndia e

o Brazil nos vieram das viagens e descobertas

do seculo xv, e que essas viagens só foram pos- sivçis porque a primeira dynastia, e esl>ecial- mente o governo d'el-rei D. Fernando, ttnham .creado uma marinha á sombra de uma legisla- ção sábia. Dos fructos d'essa marinha resta-nos ainda a Africa, e ha em muitos a esperança de que ella possa por seu turno occupar o lugar que tiveram a India e o Brazil. Não toquemos esse

, ponto que nos levaria a divagações longas. Não

podemos discutil·o mas podemos affirmar que nos falta o primeiro elemento: os navios! Sem

marinha, não ha colonias. Colonias servidas por , marinhas estrangeiras são chimeras, não são ·

.

colonias. Não é difficil mostrar que não temos marinha digna d'esse nome, quando observamos que o trafego dos nossos portos só em um quinto é servido pela bandeira na:ional. Eis os numeros relativos ao anno de 1874:

COM1-fgRCIO ~M:\RlTIM() PORTUGUEZ

. 51

Jmportação, navios portugueze.s

5.251

·

-

Samma

»

»

estrangeiros 11.021 Portug.'.

ao.325

Expqrtação, navios portuguezês

S.oj7 Estrang.'.

 

37·936

»

»

estrangeiros J6.gt5

·

,

E verdade que a tonelagetn do movimento dos portos cresce; é verdade que em 1867 era de 1113 mil m. cu·b. e que em 1874 é de 3III

- quasi o triplo; mas olhe· qualquer para as

bandeiras nas pôpas dos ·vapores, olhe para a quarta pagina dos jornaes, e conclua. Lisboa é uma estação de refresco, um porto de escala. Eu pergunto se vem· ao ilheo de rocha, deno- minada S. Vicente, em Cabo Verde, ror pas· sarem ahi os milhares de toneladas cubicas · dos paquetes transatlanticos: se vem a esse ponto a riqueza commercial correspondente ? Não nos illudamos pois com o progresso dos movimentos dos portos, nem lhe exageremos

o ~lêance, porque: Lisboa é a muitos respeitos como S. Vicente. A meu vêr, achamo-nos, salva a difterença dos tempos, na situação do seculo x1v, quando os Cruzados tomavam Lisboa por porto de es- cala. Os Cruzados de hoje são os steanzers que conduzem os nossos generos, os nossos emi· grantes; porque nós não queremos, não sabe- mos, ou não podemos exercer esse trabalho. Pois não se dirá que sobra trabalho, quando a classe média appella para as secretarias por empregos, e as populações ruraes appellam para a emigração. Nem se dirá que, tendo gente, portos e uma localisação unica na Europa, não temos aptidões naturaes para marear. A legis· lação do seculo XIV fez o milagre : porque o não repetimos no seculo xtx- tanto mais, que re-

Ss

PORTUGAL NOS MARES

------------···-

-----

petil-o é o que estão fazendo as nações que pensam nos seus interesses? Meus senhores, nio ha u.tilidade melhor do que o commercio marítimo: o navio é o explo- rador do mundo. Não ha industria superior á da· construcção naval que alimenta todas as outras, porque ·o navio é uma casa, uma cidade. A nossa marinha agonisa, os nossos estaletros acabaram.

paciencia o permitte, cu citarei

Se

a

vossa

alguns numeros :

Annos

NaYlos

18,

I

o

.

21

1871

1872.

1873

Ih74

2.l

26

36

47

1875 5o

Capa~idade m. c.

~

2.8a3.66g

o

J•24J

5

3.20

·4•

3.ggl.412

3.475.;74

4.So3.774

Cap.

média

134 m.

122,5

123

I I

74

go

I

c.

»

))

»

»

Cresce o numero· de navios, não ha duyida; - mas diminue a capacidade média. Cada vez os navios que se fazem são menores. Porque? porque só se construem hiates de cabotagem

c barcos de descarga ou de pesca. Franqueie· se liberalmente- porque não ?- a cabotagem a todBs as bandeiras, e ver-se-ha como até esse fabrico desapparece !

Porque

morre

tudo ? Porque

tudo fica mi·

seravelmente abandonado á sorte de uma con· correncia com os mais fortes. Porque a marinha de vapor bate a de vela, e para crear estaleiros de navios de ferro seria necessario_ fazer, mu-

tatis mutandis, o mesmo que fez D. Fernando para crear os de navios de madeira. Porque

em vez de se fazer o que se devia, se prattca

o inverso do que é racional e justo. ,

CO~MERCIO MARITJMO PORfUGUEZ.

53

· Das varias tentativas para introduzir n~ nossa

. marinha navios de ferro a vap_0r 1 mencionarei um caso authentico : é o da U1zião Merca111il, companhia que installou a navegação a vapor

a com

7S contos de réis ao anno; os fretes não davam bastante; o capital nacional estava mal parado. Que ~e fez ? Obrigou-se a companhia a fallir :

para quê ? l~ara dar no dia seguinte o subsidio

de 200 contos por serviço egual a uma socie- dade ingleza que comprou em praça os vapo- res da companhia fallida.

. Comprehendeis, não é assim? que de tal modo as cousas tem de ir mal. Como haverá navios, se não ha dockas? Como haverá estaleiros se

ainda em Lisboa se visita ao domingo o fa·

moso dique d'~sse arsenal, que é uma secre- taria encravada em secretarias?

. Pensemos. pois bem : ou nos resignamos a

ser exclusivamente lavradores, conforme quer a theoria das aptidões naturaes, e conforme estabelecia o tratado de Methwen ; ou quere- mos ser mais alguma cousa, e em tal caso é necessario proteger a marinha - proteger tudo final ! Quereis saber que lugar occupamos, nós, a antiga nação da lnclia, no rol das nações maritimas? Eu vol-o digo. O penultimo lugar. Eis aqui a lista do Bureau Veritas para 1877 8:

para a Africa. O governo subsidiava

PORTUGAL NOS MARES

MARINHAS

Ingleza

Americana do norte Franceza Allemã Sueco-noruegueza Italiana

Russa

Hespanhola

Hollandeza

Austriaca

Dinarnarqueza.:

Grega

Americana do Sul Turca • •

Belga

A

s1at1ca . .

Libena e

·

I

I

TONELAGEM

de v-.:la

-

-

de vapor

BFFJCAGIA

TOTAL (G)

5 6g6 01M 3.m··78 4·004.38t

101

2.fJ7.).83~

5g5.933

814

1.;88 543

074

g63.625

33 .2hJ

253 667

J31.649 ~893sa

1.024-2~

454-~

416.

~

27" ·4

84421

 

413.g32.

104.';02

3:zg.2J5

365.367

1S27o8

218. 51

161.14Q

 
 
 

246 oo6

83 780

.

Ií8.363

t8.g63

I04.b35

4o6o18

7·721

88.924

 

5o.z79

 

53.

.,3

27.629

li 275

3M.5ga

40.84

 

IQJ8t

36.2í0

40.;46

Jo3.o5 16.678

1.067

642

37.2~~

~· 19

.

Eis ahi o miseravel estado a que chegámos. E nada parece que entendamos necesssrio fa- zer! E ao mesmo tempo, n'esta propria horaj os Estados Unidos, a Allemanha, a França, a ltalia, apezar de occuparem os primeiros lu- gares depois da Inglaterra, entendem indispen- savel-o que? Precisamente o que nós fizemos no seculo XIV. A este fomento da marinha devemos o que somos, e, quem sabe? talvez que, a não ter sido essa protecção, não esti- vesscmos hoje fallando aqui em portuguez.

(a) Calculando-se em um quinto a efficacia de trans- porte da capacidade dos navios de vela.perante os deva- . por, calculamos no total só por um quinto os numeros da primeira columna para os sommar com os da segunda.

COMMERCIO MARITIMO PORTUGlfEZ

55

Meus senhores, ~ue se pede, que se diz nos Estados Unidos? Clama se ahi contra. as Jtd· ,;-gation laws, que sacrificaram a navegação

á construcção naval, prohibindo o , embandei-

ramento de navios estrangeiros. Nós lembra· mo-nos, não é assim? como o nosso rei D. Fer- nando soube conciliar as cousas. Os clamores são grandes na America contra o stalu quo. Não comprehendem, nem admittem ahi, que as marinhas est-rangeiras possam disputar á na- cional o transporte dos productos. Em janeiro · de 1879 entraram em Nova York 544 navios:

d'esses eram 203 inglezes, de outras marinhas 1go, e americanos só 1S 1. Os americanos acham monstruoso que lhes ca!ba só a quarta parte do trafego: nós achamos natural ter apenas o quinto. Pedem se ahi providencias; orça-se em cento e dez milhó_es de dollars o frete pago em dez annos ás marinhas estrangeiras. E, no con- gresso, o senador Blairie propoz o estabeleci- mento de premios de navegação para os navios de vapor construidos nos estaleiros dos Estados- Unidos. Fallei dos Estados- Unidos; faltemos agora da ltalia. Em 1867 o pessoal da marinha mer- cante italiana era 170:816 individuos; em 1876 tinha &ubido a 2o8:o3r, isto é, augmentara 20 · por 100 O r:naterial correspondente é este:

t865-cap. (m.3) de vela

18;6

»

»

656.to2

l.020.488

de vapor 22.135

))

57.~81

As construcções navaes foram:

Em

t865 .•

•.••

•.

SS. 140 m.3

1866•••••••••••.••.•

70.022

»

t867 o

•••••••••••••••

gfi.o 10

»

1876••.•

•••••.•.•.

87.691

•.

---

.,.

56

PORTUGAL NOS MARES

. E apezar de todo este progresso os arma- dores italianos queixam·se; fazem se inqueritos, propoem se leis analogas áquclla que a França votou .recentemente. . Tambem a França se queixava de· vêr que

o seu trafego maritimo era em dois terç-os

por estrangeiros (1875- 29 °/o cm

navios francezes; 71 °/o em navios estrangei- ros) e os clamores foram taes e tantos que .se

tornou lei o projecto apresentado e que es- tabelece:

Os premios de construcção, que são de

facto um dr·aJvback dos direitos das materias

primas importadas. Ess~s premios são :

por ton. de arqueação bruta para

etfectuado

1. 0

6o

.

fr.

navios de ferro ou aço.

por ton. de arqueação bruta para

navios de madeira de mais de 200 ton. 10 fr. por ton. de arqueação bruta para navios de madeira de menos de 200 ton.

20

fr.

40

o

fr. por ton. de arqueação bruta para

DaVIOS mJXtOS.

·

12 fr. por ton. ·de machinas e apparelhos.

2.•

A

suppres!ão do

direito de importação

de

navios construidos fóra de França.

3.

0 Os premios de armamento ou nav~ação,

a

rasão de 1. So fr. por ton. e 1oo milhas de

percurso para os navios que saem do estaleiro, -

baixando o premio por anno, fr. o,o7S para os de madeira e mix~os, c o,o5 para os de ferro.

°/o sobre os premios

quando. os navios construidos forem previa-

mente. approvados pelo ministerio da marinha.

5. 0 Requisição para o serviço do Estado em

caso de guerra.

4.•

Augmento

de

t5

COMMERCIO MARITIMO PORTUGUEZ

57

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Abono de 2 o;odos premios ás tripulações.

0 Transporte gratuito das correspondencias.

6. 0<