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AULA

O operador momento angular

19

Meta da aula

Introduzir o operador momento angular quântico.

• escrever a expressão para o operador momento angular em coordenadas esféricas;

ˆ

• identificar os autovalores e autofunções dos operadores

• identificar e manipular matematicamente os harmônicos esféricos.

L 2 e

ˆ

L

z

;

Pré-requisito

Para melhor compreender esta aula, é preciso que você reveja a Aula 18 desta disciplina.

Introdução à Mecânica Quântica | O operador momento angular

PARTÍCULA SOBRE UM CÍRCULO (ROTOR RÍGIDO): VISÃO SEMICLÁSSICA DO MOMENTO ANGULAR

Para abordar os problemas físicos desta aula e da próxima, precisaremos utilizar alguns resultados matemáticos sem demonstrá- los. Na maioria das vezes, isso não prejudicará o entendimento físico dos problemas, no qual iremos focalizar nossa atenção. A derivação completa desses resultados pode ser encontrada em livros-texto mais avançados de Mecânica Quântica. Nas últimas aulas, estudamos alguns sistemas quânticos em três dimensões pelo método de separação de variáveis em coordenadas cartesianas. Esse método, apesar de bastante útil em algumas situações,

não é o mais conveniente para se utilizar quando o potencial tem simetria esférica (potencial central), ou seja, quando podemos escrever V = V(r),

x

2

+ y

2

+ z

2

em que . Nesse caso, o uso de coordenadas esféricas

r =

é mais adequado. Vale destacar que esse tipo de situação é bastante comum em Física. Em particular, sistemas atômicos, que constituem

uma das aplicações mais antigas e importantes da Mecânica Quântica, têm simetria esférica. Na Mecânica Clássica, vimos que uma partícula sob a ação de um potencial tem seu momento angular conservado. O mesmo ocorrerá na Mecânica Quântica. Sendo assim, é importante introduzir

o operador momento angular, que terá um papel fundamental em nossa abordagem:

r

L ˆ = r r ˆ × p ˆ

r

,

(19.1)

onde os operadores posição e momento linear são vetores em três dimensões. Estes podem ser obtidos por uma generalização imediata de suas definições em uma dimensão:

r

r

r

ˆ

p

ˆ

r

=

xi

+

i

=− h

r

yj

 ∂

 ∂ x

+

r

zk

r

i +

r

r

+ k z

y j

=−

r

i h .

(19.2)

Antes de abordarmos o problema do operador momento angular em sua forma completa, é instrutivo fazer uma análise mais simplificada, usando uma abordagem semiclássica. Vamos considerar o problema de uma partícula quântica em movimento circular no plano xy, com

110 C E D E R J

MÓDULO 1

19

AULA

raio constante r e momento linear de módulo p, como mostrado na Figura 19.1. Este problema também é conhecido como o rotor rígido, ou

seja, imagina-se a partícula presa a uma haste rígida de massa desprezível

e comprimento r. A partícula movimenta-se livremente ao longo do

círculo (em outras palavras, a energia potencial não depende do ângulo ϕ, também mostrado na figura). Este problema é bastante parecido com

o de uma partícula livre em 1D e, portanto, é consideravelmente mais

simples que o problema de uma partícula em 3D sob ação de um potencial central. No entanto, veremos que é possível obter alguns resultados interessantes e que serão úteis em nossa análise posterior.

y r p r r ϕ x
y
r
p
r
r
ϕ
x
 

r

Figura 19.1: Partícula em movimento circular de raio r e momento linear tracejada indica a onda de de Broglie associada ao movimento.

p

. A linha

Usando a hipótese de de Broglie, vemos que a onda associada ao

λ= h p

movimento da partícula tem comprimento de onda . Esta onda

está indicada, de forma pictórica, por uma linha tracejada na figura. Vimos que, na teoria de Schrödinger, esta onda é, na verdade, uma função de onda Φ, que determina a dinâmica quântica da partícula. Como a distância da partícula à origem é fixa, podemos usar o ângulo ϕ como variável de movimento. Assim, utilizaremos a função de onda Φ(ϕ) para descrever esse sistema.

C E D E R J

111

Introdução à Mecânica Quântica | O operador momento angular

Como o movimento é livre ao longo de ϕ, a função de onda será uma onda plana, semelhante à de uma partícula livre em 1D, discutida na Aula 7:

iks

Φ(ϕ) = Ne = Ne

ikr

ϕ

,

(19.3)

s = rϕ

é a coordena-

em que o comprimento de arco de circunferência

da tangencial e N é uma constante de normalização. Como a função de onda deve ser unívoca, temos

Φ(ϕ + 2π) (ϕ)

,

(19.4)

o que nos leva à quantização do número de onda

kr = m,

m = 0, ±1, ±2,

(19.5)

A quantização do número de onda k nos leva, pela condição de de Broglie,

à quantização do momento linear

p

=

h

λ=h = h .

k

m

r

(19.6)

Na geometria considerada na Figura 19.1, o momento angular tem

apenas a componente z, dada pela relação . Isso nos leva, pela

L

z =

rp

Equação (19.6), à quantização da componente z do momento angular:

L

z =

m

h

(19.7)

Portanto, vemos que, ao contrário do que acontece na Mecânica Clássica, a componente z do momento angular não pode ter qualquer

112 C E D E R J

valor, mas apenas múltiplos inteiros de . O número inteiro m é conhe-

cido como número quântico magnético. Valores positivos de m correspondem à partícula (ou sua onda associada) se movimentando no sentido anti-horário, enquanto que valores negativos de m estão associados

à propagação no sentido horário. O resultado obtido na Equação (19.7), apesar de ter sido obtido por uma abordagem semiclássica, permanece correto na descrição puramente quântica, como veremos mais adiante, devendo apenas ser reinterpretado da seguinte forma: os autovalores do operador

h

MÓDULO 1

19

AULA

ˆ

momento angular

funções (19.3) que podem ser escritas como

L

z

são iguais a

mh

, em que m é inteiro, com as auto-

Φ

m

(ϕ) e

=

im

ϕ

,

(19.8)

em que omitimos a constante de normalização. Vamos obter uma expressão para o operador

ˆ

L

z

. Sabemos que

o operador momento linear em 1D é dado por . Em nosso

p

=−

i h

x

caso, a coordenada “linear” do movimento é a coordenada tangencial s, de modo que podemos adaptar a expressão para o momento linear tangencial:

ˆ

$

p =−h i

s

(19.9)

Sabendo

operador

que

ˆ

L

z

:

s=rϕ

e

L

z =

rp

,

obtemos

µ

Lz =−h i

ϕ

a

expressão

para

o

(19.10)

Como veremos, essa expressão permanece válida na descrição

puramente quântica. É fácil verificar que as funções (19.8) são

h

autofunções deste operador com autovalores m :

ˆ

L Φ

z

m

()=−

ϕ

i h

Φ

(

e

im

ϕ

)

m

=− i

h

ϕ

ϕ

= m h

ATIVIDADE

()

Φ ϕ

m

(19.11)

1. Obtenha os autovalores da energia para uma partícula de massa µ sobre um círculo.
1. Obtenha os autovalores da energia para uma partícula de massa µ
sobre um círculo.
.

C E D E R J

113

Introdução à Mecânica Quântica | O operador momento angular

RESPOSTA COMENTADA A energia é puramente cinética, com o Hamiltoniano 2 2 p ˆ 2
RESPOSTA COMENTADA
A energia é puramente cinética, com o Hamiltoniano
2
2
p
ˆ 2 h
ˆ
H =
=−
Aplicando o Hamiltoniano à função de onda da Equação (19.3), obtemos
a equação:
2
2
2
∂ Φ
h k 
ˆ h 2
H
ψ
=−
=
Φ .
2
2
µ
∂ ϕ
2
µ 
h 2
k 2
Portanto, vemos que o autovalor da energia vale
E =
. Usando a
h 2
m 2
relação de quantização (19.5), obtemos
r
h 2
m 2
às vezes, escrita como
é o momento de inércia
2
I
da partícula em relação à origem.

2µ

2µ

s

2

E =

2

. Esta expressão é,

E =

, em que

I = µr 2

O OPERADOR MOMENTO ANGULAR EM COORDENADAS ESFÉRICAS E HARMÔNICOS ESFÉRICOS

114 C E D E R J

Vamos agora iniciar a abordagem quântica do problema do momento angular. Como dissemos, o uso de coordenadas esféricas é mais adequado para esse propósito. O sistema de coordenadas esféricas está ilustrado na Figura 19.2. A partir desta figura, podemos obter a correspondência entre as coordenadas esféricas r, θ e ϕ e as coordenadas cartesianas x, y e z:

z rˆ ϕˆ r ˆ θ θ y ϕ x
z rˆ
ϕˆ
r
ˆ
θ θ
y
ϕ
x

x = r sen

θ

cos

ϕ

y =

r sen

θ

sen

ϕ

z = r cos

θ

Figura 19.2: Sistema de coordenadas esféricas. Na figura, estão também definidos

ˆ

os vetores unitários , e .

θ

rˆ

ϕˆ

MÓDULO 1

19

AULA

Sendo assim, será necessário expressar o operador gradiente em coordenadas esféricas:

ˆ

1

 

1

θ

+ ˆ

 

ϕ

r

r

θ

r sen

θ ϕ

r

ˆ

∇= r +

. (19.13)

Esta relação pode ser encontrada em livros de Cálculo, Mecânica

ou Eletromagnetismo. Em particular, você deve tê-la visto na Aula 2 da

disciplina Introdução ao Eletromagnetismo. Notando ainda que ,

podemos usar a Equação (19.1) para obter a expressão para o operador momento angular em coordenadas esféricas:

r

r=rrˆ

r

ˆ

ϕ

∂ 

L=−i h ˆ

ˆ

θ

1

θ

sen

θ ϕ

,

(19.14)

ˆ

ˆ

. Tais relações

podem ser verificadas a partir da Figura (19.2). Note que o operador momento angular depende apenas das coordenadas angulares θ e ϕ. A partir da Equação (19.14), podemos escrever as componentes

cartesianas

em que usamos as relações

r×r=0 ˆ ˆ

r×θ=ϕ r×ϕ=−θ

ˆ,ˆ ˆ

ˆ

ˆ

ˆ

L x L y L z

,

e

em coordenadas esféricas:

∂ 

ˆ

L

= i h sen

h

ϕ

ϕ

cos

ϕ

L i



L =− i h

ˆ

x

ˆ

y

z

=

.

ϕ
θ

+ cot cos

θ

+ cot sen

ϕ

θ

ϕ

∂ 

ϕ

θ

(19.15)

ˆ

L

z =−

i h

ϕ

na descrição puramente

quântica, confirmando a Equação (19.10), com autofunções

Em particular, note que

Φ m

(ϕ)=e

im

ϕ

e autovalores

mh

.

note que Φ m ( ϕ ) = e im ϕ e autovalores m h .

ATIVIDADE

2. Obtenha as Equações (19.15) a partir da Equação (19.14).

C E D E R J

115

Introdução à Mecânica Quântica | O operador momento angular

RESPOSTA COMENTADA É preciso projetar as componentes esféricas nas componentes cartesianas. Para isso, observando a

RESPOSTA COMENTADA

É preciso projetar as componentes esféricas nas componentes

cartesianas. Para isso, observando a Figura (19.2), vemos que

 

ˆ

ϕˆ xˆ = −senϕ

, ϕˆ yˆ = cosϕ

, ϕˆ zˆ = 0

e θ xˆ = cosθ cosϕ

,

ˆ

ˆ

θ yˆ = cosθ senϕ

, θ zˆ = −senθ

. Logo,

 ∂ cos θ cos ϕ ∂  ˆ =− i h − sen ϕ
cos
θ cos ϕ
∂ 
ˆ
=−
i h
− sen
ϕ
L x
θ
sen
θ
ϕ
cos
θ
se
nn
ϕ
∂ 
ˆ
=−
i h
cos
ϕ
,
L y
θ
sen
θ
ϕ
1
ˆ
L
(−
sen
θ
)
z = i h
sen
θ
ϕ

ou seja,

  θ

∂ 

ˆ

L

sen ϕ


x = i h

+ cot cos ϕ ∂ θ ∂ ϕ ∂ + cot θ sen
+ cot
cos
ϕ
θ
ϕ
+
cot
θ
sen

∂ 

 − cos

ˆ

L y

= i h

 

ϕ

∂ θ

ϕ

ϕ


,

ˆ

L

z =− i h

ϕ

,

como queríamos demonstrar.

Nesse momento, poderíamos tentar buscar as autofunções das

componentes e do operador momento angular. No entanto, não

x

y

ˆ

L

ˆ

L

é possível obter autofunções simultâneas das três componentes do momento angular. Este resultado, que enunciamos sem demonstrar, é, de fato, semelhante ao Princípio de Incerteza, segundo o qual não é possível determinar simultaneamente a posição e o momento de uma partícula. Se conhecemos perfeitamente a componente z do momento angular, não podemos conhecer com certeza as componentes x e y.

!

É importante enfatizar que, em um potencial central, não há nada que privilegie a direção z em relação às demais. Por convenção e por conveniências matemáticas, escolhe-

se trabalhar com autofunções de em detrimento das

z

demais componentes. Diz-se então que o eixo z é o eixo de quantização do sistema. Mas, em termos físicos, seria igualmente válido usar os eixos x, y, ou qualquer outro, como eixo de quantização.

ˆ

L

116 C E D E R J

MÓDULO 1

19

AULA

No entanto, é possível ter autofunções simultâneas de

operador

ˆ

L 2

, definido por

L ˆ

2

=

L ˆ

2

x

+

L ˆ

2

y

+

L ˆ

2

z

=− h

2

1

∂ 

 

θ

∂ 

+

1

2

sen

θ

θ

sen

θ

 

sen

2

θ

ϕ

2



.

ˆ

L z

e do

(19.16)

Essa expressão pode ser obtida a partir das definições (19.15),

o que deixamos como exercício opcional. Perceba que este operador está associado à magnitude do momento angular. Vamos buscar as

autofunções deste operador usando o método de separação de variáveis,

Y lm (θ,ϕ)

ou seja, buscamos funções que possam ser escritas na forma:

Y lm

(θ,ϕ)(θ )Φ (ϕ)

lm

m

,

(19.17)

ˆ

im

em que são as autofunções de apresentadas anterior-

Φ

m

(ϕ)

=

e

ϕ

L

z

mente e l é um novo número quântico, chamado número quântico

azimutal, do qual falaremos a seguir. Obviamente, as funções

Y lm (θ,ϕ)

também são autofunções de com os mesmos autovalores:

ˆ

L

z

ˆ

L Y

z

lm

(θ

,

ϕ)=

m

h

Aplicando agora o operador

Y

lm

L ˆ 2

,

(θ ϕ)

.

(19.18)

nas funções

Y lm (θ,ϕ)

na forma

(19.17), chegamos a uma equação de autovalores para

as funções

ser escritos como

ˆ

L 2

envolvendo

ˆ

L 2

Θ lm (θ )

. Pode-se mostrar que os autovalores de podem

h 2 l(l +1)

, de modo que

ˆ 2

L Y

lm

(θ

,

ϕ)=h

2

l(l

+1

o que nos leva à equação para

Θ lm (θ )

:

)Y

lm

m

2

Θ

(

)

θ

lm

2 +

1

d

θ

d

Θ

lm

(

θ

)

=

sen

d

θ

d

θ

sen

θ θ

sen

(θ ϕ)

,

,

l ( l

+

)

1 Θ

lm

(

θ )

.

(19.19)

(19.20)

Mais uma vez, não nos preocupamos com os detalhes da solução da Equação (19.20), que podem ser encontrados em livros-texto ou em cursos mais avançados de Mecânica Quântica. Vamos apenas enunciar algumas características das soluções. A Equação (19.20) tem soluções para valores de l inteiros, tais que, para cada valor de l, os valores possíveis de m são:

m = –l, –l +1, –l + 2,

–2, –1, 0, 1, 2,

, l –2, l –1, l

(19.21)

C E D E R J

117

Introdução à Mecânica Quântica | O operador momento angular

Além disso, para cada par de valores aceitáveis de l e m, chamados

números quânticos l e m, as funções têm a forma:

Θ lm (θ )

Θ lm

(

θ

)

=(

sen

θ

m ) F l m
m
)
F
l
m

(

cos

θ )

,

(19.22)

onde as funções F l|m| são polinômios em (cos θ).

As funções são conhecidas como har-

lm

m

Y lm

(θ,ϕ)(θ )Φ (ϕ)

mônicos esféricos e também aparecem em outras áreas da Física (por exemplo, na expansão do campo elétrico em multipolos). Após serem normalizadas, a forma explícita destas funções Y lm para os primeiros valores dos números quânticos l e m está mostrada na Tabela 19.1. A normalização é dada pela condição

2

π

π

* * ∫ d ϕ ∫ sen θ Y ( θ ϕ , ) Y
*
*
d
ϕ
∫ sen
θ
Y
(
θ ϕ
,
)
Y
(
θ ϕ
,
)
d
θ
= 1
.
(19.23)
lm
lm
0
0
Tabela 19.1: Fórmulas de alguns harmônicos esféricos
l
m
Y
θ )
lm (
1
/
2
1
0 0
Y
=
00
4
π
1
/
2
3
1 0
Y
=
cos
θ
10
4
π
1
/
2
3
± i
ϕ
1
± 1
Y
=
m
sen
θ
e
1
± 1
88
π
1
/
2
5
2 0
Y
= 
(
3 cos
2 1
θ −
)
20
16
π
1
/
2
 115 
± i ϕ
2
± 1
Y
=
sen
θ
cos
θ
e
± m
2
1
8
π
1
/
2
15
e ± 2 i
ϕ
2
± 2
Y
=
sen 2
θ
2
± 2
32
π
1
/
2
7
33 0
Y
=
(
5 cos
3 θ
− 3
cos
θ
)
30
16
π
1
/ 2
21
± i
ϕ
3
± 1
Y
=
m
seen
θ
(
5
cos
2 θ
1
)
e
3
± 1
64
π
1
/ 2
±  105 
± 2 i
ϕ
3
2
Y
=
sen
2 θ
cos θ
e
3
± 2
 
32
π
 
1
/ 2
35 
± 3 i
ϕ
3
± YY
3
= m
sen 3
θ e
3
± 3
 
64
π 

118 C E D E R J

MÓDULO 1

19

AULA

Vamos agora analisar a distribuição angular da densidade de probabilidade associada a estas funções. Esta pode ser obtida pela seguinte equação em coordenadas esféricas:

r

lm

(

θ ϕ

,

)

=

*

lm

Y

(

θ ϕ

,

)

Y

lm

(

θ ϕ

,

)

=

2 Y ( θ ϕ , ) lm
2
Y
(
θ ϕ
,
)
lm

.

(19.24)

Note que esta é a equação de uma superfície em coordenadas

esféricas, onde a coordenada radial r lm é proporcional ao módulo ao quadrado do harmônico esférico correspondente. Em outras palavras, a magnitude de r lm ao longo de uma certa direção (θ, ϕ) será proporcional à proba- bilidade de encontrarmos a partícula quântica ao longo dessa direção. Começamos nossa análise pelo harmônico esférico Y 00 . Pela

fórmula da Tabela 19.1, obtemos

, ou seja, uma cons-

tante independente de θ e ϕ. O gráfico da superfície correspondente, definida pela Equação (19.24), está mostrado na Figura 19.3 como um corte no plano yz (à esquerda) e como uma superfície em 3D (à direita). Perceba que o harmônico esférico Y 00 é esfericamente simétrico.

2 (θ,ϕ) Y 00
2
(θ,ϕ)
Y 00

=

1 4

π

|Y 00 | 2

z y
z
y

Figura 19.3: Harmônico esférico Y 00 .

C E D E R J

119

Introdução à Mecânica Quântica | O operador momento angular

120 C E D E R J

Vamos analisar agora os harmônicos esféricos correspon-

dentes a l = 1, ou seja, Y 11 , Y 10 e Y 1-1 . Pela Tabela 19.1, temos

.

Os gráficos correspondentes estão mostrados na Figura 19.4, novamente como um corte no plano yz (à esquerda) e como uma superfície em 3D (à direita). Perceba que o harmônico esférico Y 10 é alongado na direção z:

a partícula tem probabilidade máxima de ser encontrada naquela direção. Note ainda que a probabilidade de que a partícula seja encontrada no plano xy é nula. Em contrapartida, os harmônicos esféricos Y 11 e Y 1-1 fornecem probabilidade máxima no plano xy e probabilidade nula ao longo de z. Perceba que a densidade de probabilidade não depende de ϕ. Com efeito, isso vale para qualquer harmônico esférico Y lm .

2 ( θ ϕ , ) Y 10
2
(
θ ϕ
,
)
Y 10

=( π )

3 4

2 θ

e

2 Y ( θ ϕ , ) = Y 1 ( θ ϕ , )
2
Y
(
θ ϕ
,
)
= Y 1
(
θ ϕ
,
)
11
− 1

2 =(

3 8

π

cos

) sen

2 θ

|Y 10 | 2

z y
z
y

|Y 11 | 2 = |Y 11 | 2

z y
z
y

Figura 19.4: Harmônicos esféricos com l = 1.

MÓDULO 1

19

AULA

Como último exemplo, vamos apresentar a densidade de proba-

bilidade associada aos harmônicos esféricos com l = 2: Y 22 , Y 21 , Y 20 ,

Y 2-1 e Y 2-2 . Pela Tabela 19.1, temos

2 Y ( θ ϕ , ) = Y 2 ( θ ϕ , )
2
Y
(
θ ϕ
,
)
= Y 2
(
θ ϕ
,
)
21
− 1
2
(θ,ϕ)
=(
15 32
.
π )
Y 2 2

2

=(

sen

( θ ϕ , ) Y 20 2 π ) sen θ
(
θ ϕ
,
)
Y 20
2
π
) sen
θ

2

cos

=(

5 16

2

θ

e

π )

2 ( 3 cos 2 θ − 1 ) , 2 (θ,ϕ) = Y 22
2
(
3
cos
2 θ −
1
)
,
2
(θ,ϕ)
=
Y 22

15 8

4 θ . Os gráficos correspondentes estão mos-

trados na Figura 19.5. Perceba que a dependência angular da densidade se torna cada vez mais complexa à medida que aumentamos o valor de l.

|Y 20 | 2

|Y 21 | 2 = |Y 21 | 2

z y
z
y
z y
z
y

|Y 22 | 2 = |Y 22 | 2

z y
z
y

Figura 19.5: Harmônicos esféricos com l = 2.

C E D E R J

121

Introdução à Mecânica Quântica | O operador momento angular

Finalmente, vamos fazer uma nova análise semiclássica do

Y lm (θ,ϕ)

momento angular. Vimos que os harmônicos esféricos são

ˆ

autofunções dos operadores e com autovalores m e ,

L

z

h

ˆ

L 2

h 2 l(l +1)

respectivamente. Vimos ainda que m pode ter qualquer valor inteiro

entre –l e l, em que l também é inteiro. A analogia clássica que podemos fazer deste sistema está mostrada na Figura 19.6. A figura mostra um

vetor momento angular de módulo igual a (correspondendo portan-

to a l = 2) que pode ter apenas cinco valores possíveis para a componente

, mas nunca valores intermediários. Pode-se

mostrar que os valores esperados das componentes x e y do momento

os valores esperados das componentes x e y do momento 6 h z ( − 2

6h

z(2h,h,0, h e2h)

ˆ

L

angular são nulos em qualquer autoestado de . Assim, o análogo clás-

z

sico desse resultado corresponderia ao vetor momento angular em movimento de precessão em torno do eixo z, com a componente z fixa, mas com as componentes x e y oscilando em torno de um valor médio nulo.

L z 2h h L 0 −−h 2h l = 2
L
z
2h
h
L
0
−−h
2h
l = 2

Figura 19.6: Analogia clássica dos cinco estados quânticos com l = 2.

Como dissemos no início desta aula, o estudo do momento angular quântico é de fundamental importância para os problemas que envolvem potenciais centrais. Veremos isso detalhadamente na próxima aula, quando estudarmos o átomo de hidrogênio.

122 C E D E R J

MÓDULO 1

19

AULA

ATIVIDADES FINAIS

1. Mostre que os harmônicos esféricos Y 00 , Y 11 , Y 10 e Y 11 são autofunções dos

operadores e com autovalores e

z

ˆ

L

ˆ

L 2

mh

h 2 l(l +1)

, respectivamente.

z ˆ L ˆ L 2 m h h 2 l ( l + 1) ,

RESPOSTA COMENTADA

Vamos aplicar as expressões (19.15) e (19.16) para os operadores

L ˆ 2

aos diferentes harmônicos esféricos:

ˆ

L z

e

l = 0 e m = 0:

ˆ

L

z

Y

00

L Y

00

ˆ

2


2

i h

=

=− h

1

sen

ϕ


θ

 

 

1

θ

 

 

4 π

∂ 

1 2

=

sen

0

θ

=

0

∂∂ 

× h

+

1

2

 

1

θ

sen

2

θ

ϕ

2

4

π

1 2

2

= 0 = h ×

0

l = 1 e m = 1:

ˆ

L

z Y

11

ˆ

L

2

Y

11

=


i h

 

 

3

ϕ

8

π

1 2

sen

θ e

i ϕ

 = h

3

π

11 2

sen

8

θ e

i ϕ


= h

=− h

2

1

∂ 

θ ∂ 

1

+

se nn

2


 

3

sen

θ

θ

θ

sen

2 θ

ϕ

8 π

2  

1 2


sen

θ

e

i ϕ

Y

11

1 2 2 i ϕ   3   1 d  d sen
1
2
2
i
ϕ
3
1
d
d sen
θ 
sen
θ
d e
2
i
ϕϕ
= h
e
sen
θ
 +
2
8
π
 
sen
θ
d
θ
d
θ
sen
2 θ
d ϕ
2
1 2
2
3
 1
1
d
1
 3 
θ
− sen
θ
− 1 
2
e iϕ
= h
(
sen
θ cos θ
)−
e iϕ
= h
2
 ccos 2
 
8
π
 
sen
θ
d θ
sen
θ
8 π
 
sen
θ
1 2
3
2
= h − 
ϕ
22
2
sen
θ
e i
 
8
π
= 2
h Y
11
C E D E R J
123

Introdução à Mecânica Quântica | O operador momento angular

l = 1 e m = 0:

ˆ

L

ˆ

L

z

2

Y

10

Y

=

=− hh

i

2

h

∂  

 

 

ϕ

1

3

4

π

∂ 

1 2

cos

θ

θ

∂ 

=

0

1

=

0 ×

Y

10

2

 

3

 

1 2

θ

10

=− h

2

1

3

2

sen

θ

1

θ

d

sen

θ

+

sen

2

θ

d

cos

θ

 

θ

ϕ

2

=−h

  

2

 

4

33

π

1 2

cos

1

d

2

θ

 

=

h

2

4

3

π

1 2

sen

2 sen

θ

d

θ

θ

cos

sen

θ

d

θ

2

4

π

 

sen

θ

d

θ

(

sen

 

)

4

π

 

s

eenθ

l = 1 e m = -1:

ˆ

L

z

ˆ

L

2

Y

1

1

Y

=

i h

=− h

2

∂  

 

 

ϕ

1

3

8

π

∂ 

1 2

= 2 h Y

10

sen

θ

e

θ

∂ 

i

ϕ

= h

1

2

8

3

π

1 2

 

 

3

sen

θ

1 2

e

i

ϕ

θ

=− h

i

ϕ

Y

1

1

=−

1

1

h

2

1

3

2

θ

sen

i

ϕ

θ

1

sen

d

θ

 +

θ

sen

d sen

2

θ

θ

ϕ

+

 

2

sen

 

θ

8

d e

2

π

sen

i

ϕ

e

=− h

2

8

π



1

3

2

e

i

ϕ

sen

1

θ

d

θ

d

sen

θ

d

θ

θ

sen

2

1

θ

d

ϕ

h

2



 3

2

1 2

i

ϕ

cos

2

θ

sen

2

θ

1

=

h

2

8

π

1

3

2

e

2 sen

sen

θ

θ

e

i

ϕϕ

d

θ

=

(

sen

2

2

h Y

cos

)

sen

θ

=−

 

8

π

e

sen

θ

 

8

π

 

 

1

1

 

124 C E D E R J

MÓDULO 1

19

AULA

2. Vimos que o harmônico esférico Y 10 é orientado ao longo do eixo z. Neste exercício, veremos que é possível construir funções análogas orientadas ao longo dos eixos x e y.

(a) Mostre que o harmônico esférico Y 10 pode ser escrito como

Y

10

= Y

1z

=(3 4π )

z 1 2
z
1 2

r

.

(b) Usando combinações lineares dos demais harmônicos esféricos com l = 1, construa as funções Y 1x e Y 1y , orientadas ao longo de x e y, respectivamente.

1 y , orientadas ao longo de x e y , respectivamente. RESPOSTA COMENTADA (a) Basta

RESPOSTA COMENTADA

(a)

Basta notar que

z = r cosθ

, portanto,

Y

10

= (3 4π ) cosθ = (3 4π )

1 2

z 1 2 .
z
1 2
.

r

x 1 2 =(3 4π ) (b) Por analogia com a função Y 1z ,
x
1 2
=(3 4π )
(b)
Por analogia com a função Y 1z , buscamos as funções
Y 1x
r e
=(3 4π )
. Usando as expressões da Tabela 19.1, as Equações (19.12)
Y 1y
r
i ϕ
− i
ϕ
i ϕ
− i
ϕ
e
+ e
e
− e
e as identidades
cosϕ =
e
senϕ =
, chegamos aos resultados
2
2 i
i
ϕ
− i
ϕ
e
+ e
1 2
1 2
Y
=(
3
4
π
)
=(
3 4
π
)
sen
θ
cos
ϕ
=(
3 4
π
)
sen
θ
1
x
r
2
Y
− Y
= 1−1
11
Y
1
xx
2
i ϕ
−− i
ϕ
e
− e
1 2
1 2
Y
=(
3
)
=(
3 4 π
)
sen
θ
sen
ϕ
=(
3 4π
)
sen
θ 
1
y
r
2 i
Y
Y
1 − 1
11
Y
= −
1
y
2
i

Portanto, podemos construir harmônicos esféricos com l = 1 orientados nas direções x e y a partir de combinações lineares dos harmônicos esféricos originais. Na verdade, podemos construir, com essa metodologia, funções orientadas espacialmente em qualquer direção do espaço. Este conceito é bastante útil em Química, pois está associado à idéia de valência dirigida: os estados quânticos orientados em certas direções podem ser usados em moléculas ou sólidos para construir ligações químicas naquelas direções.

C E D E R J

125

Introdução à Mecânica Quântica | O operador momento angular

à Mecânica Quântica | O operador momento angular R E S U M O No caso

R E S U M O

No caso de uma partícula que se movimenta sob o efeito de um potencial central, é importante estudar o operador momento angular, cujas componentes podem ser escritas em coordenadas esféricas. Podemos encontrar autofunções simultâneas

dos operadores e : são os harmônicos esféricos . Essas funções são

z

ˆ

L

ˆ

L 2

Y lm (θ,ϕ)

caracterizadas por dois números quânticos, l e m, que podem ser associados ao módulo e à projeção sobre o eixo z do momento angular orbital da partícula.

INFORMAÇÃO SOBRE A PRÓXIMA AULA

Na próxima aula, vamos aplicar o método de separação da equação de Schrödinger tridimensional em coordenadas esféricas ao caso de um átomo com um único elétron, como o átomo de hidrogênio.

126 C E D E R J