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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

ÉTICA

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA PRÁTICA:

temas, conceitos, problemas e teorias.

PORTO ALEGRE / 2012

Prof. Dr. Luís Evandro Hinrichsen

INTRODUÇÃO

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O que é isto Filosofia? Encontramos na língua grega o sentido original e originário da palavra

Filosofia. Trata-se de termo composto por Filos (amizade) e Sofia (sabedoria). Designa a atitude de amor de quem busca tornar-se amigo da Sabedoria. Segundo estudiosos, foi o pré-socrático Heráclito de Éfeso quem inventou a palavra Filosofia, inaugurando nova atitude, teórica e ética. Para Heráclito, tornar-se amigo daquilo que é Sábio [O ‘Um que é tudo’ Realidade Ser] exigia atitude inusitada:

ver além das aparências, desconfiar dos sentidos e operar com a razão. Para além do fenômeno, se encontraria o lógos, a razão daquilo que se mostra à consciência 1 . A teoria [o ver da razão sobre os

fenômenos] exigiria postura ética consequente, pois o conhecer implicaria em transformação pessoal. Nos seus primórdios, a Filosofia foi concebida, enfim, como teoria e atitude ética, envolvendo e comprometendo a totalidade da vida. Se a Filosofia é tentativa permanente de indagar e compreender o sentido abrangente da realidade, portanto, compete ao filósofo a permanente crítica das convicções ou crenças silenciosas que sustentam nossas compreensões de mundo. É tarefa de quem ingressa na Filosofia, indagar pelo sentido de todas as coisas. Cada ser humano é convidado a perguntar pelo significado de tudo aquilo que é na tentativa de ultrapassar a ingenuidade e chegar à visão judicativa ou crítica. Afirmamos, por isso, que a Filosofia é uma ciência de rigor, enquanto crítica radical de teorias, conceitos e práticas. A ciência de rigor, exercício radical, dirige seu olhar para as raízes dos fenômenos, descobrindo ou desvelando sua verdade [não permanece na superfície, mas se dirige aos fundamentos] 2 .

O filósofo sabe que indaga o incontornável, que suas respostas são provisórias. Todavia, no

meditar, reflete sobre o sentido pensa , pois é capaz de, no silêncio, acolher o Ser. No filosofar,

permanecendo junto às coisas, exercendo a reverência do pensamento, no processo de revelação- ocultamento, acolhe o que é decifrando e testemunhando o significado das coisas, de si mesmo, do outro, do sagrado, da existência.

O que é isto Filosofia? Podemos, preliminarmente, afirmar que Filosofia é visão responsável

ou crítica, na medita em que, renunciando à parcialidade, é abrangente e criteriosa 3 . Se a Filosofia é visão abrangente ou crítica, quais são os momentos de quem ingressa ou realiza o filosofar? Podemos caracterizar, didaticamente, em três momentos [interligados] o processo do filosofar 4 .

1 Ver HEIDEGGER, Martin. O que é isto Filosofia [Qu’est-ce La Philosophie]. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979. p.13-31.

2 Cf. HUSSERL, Edmund. A Filosofia como ciência de rigor. Coimbra: Atlântida.

3 Cf. MARÍAS, Julián. A Visão Responsável. In: Antropologia Metafísica. São Paulo: Duas Cidades, 1971. p.9-14. 4 Ibidem.

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1º Momento Des-orientação: para filosofar é preciso romper com as nossas ingenuidades, por mais difícil que seja. É necessário experimentar a crise originada de nossa despreocupação para com o mundo. Quando nos damos conta de que as coisas não são bem assim como pensávamos, quando questionamos nossas crenças silenciosas [pré-conceitos ou pré-juízos] entramos em crise. Quem vive a crise, a des-instalação, pode, finalmente, perguntar. No perguntar se encontra a gênese do exercício da Filosofia. Somente quem pergunta radicalmente pelo sentido de todas as coisas, pode conceber as razões que sustentam nossa visão de realidade. 2º Momento Des-cobrimento: mas, não basta perguntar, é necessário patentear a verdade, ver aquilo que se mostra/ocultando. Des-cobrir ou des-velar é retirar o véu que impossibilita perceber as coisas na transparência delas mesmas, é vencer os impedimentos que barram nosso contato com a realidade, é superar as amarras das crenças silenciosas. O momento do des- cobrimento é ocasião de retirar o velo que oculta e encobre a realidade. Implica em sair da caverna, desvelando o ser que se manifesta, revelando-o como verdade ou sentido. 3º Momento Dar razão: contudo, não basta ver, dar-se conta, des-cobrir o ser como verdade. É necessário assegurar a posse efetiva da descoberta. A Filosofia exige, além do dar-se conta, dar-conta, fornecer as razões da visão adquirida. O pensamento é convidado a justificar, demonstrar o descoberto, garantindo a posse da verdade conquistada. Nenhuma afirmação, em Filosofia, é gratuita. O ser, compreendido como verdade [no mostrar-se e velar-se das coisas], exige a elaboração teórica. Se nenhuma afirmação é gratuita em Filosofia, cumpre definir conceitos articulando-os, é importante justificar com argumentos a visão conquistada. Na ágora dos debates, somos convocados a dar razões de nossa descoberta. A teoria, portanto, procura, através de sólida argumentação, convencer nossos pares [ou interlocutores] da validade de nossa descoberta. Desejamos, nos debates de Ética, indagar sobre importantes questões, exercitando nossa capacidade investigativa, perguntando radicalmente e justificando nossas posições. Os problemas éticos, por sua importância e complexidade, exigem atenção, estudo rigoroso, capacidade de acolher, aptidão em argumentar. Auguramos, especialmente, reaprender a perguntar, a dialogar, a esclarecer nossos conceitos. Aspiramos argumentar em favor de nossa posição através das sínteses teóricas formuladas, provisórias, mas possíveis. Intencionamos, sobretudo, ligar teoria e vida através de atitude hermenêutica que possa qualificar nossas existências.

Texto Complementar

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4 SERENIDADE
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SERENIDADE

[Gelassenheit]

Sobre o uso prudente dos utensílios técnicos

Martin Heidegger no texto Serenidade, publicado em 1959 5 , discute o impacto da técnica moderna

sobre nossas vidas. Através do pensar, exercício humano por excelência, visitamos o mundo e significamos

nossas existências. Entretanto, vivemos época na qual, somos, muitas vezes, pobres-em-pensamento, ficamos,

facilmente, sem-pensamentos 6 . Qual é a causa da indigência de pensamento? Tomamos conhecimento de tudo

pelo caminho mais rápido e mais econômico, mas, rapidamente tudo é olvidado 7 .

Na aurora do século XXI, cidadãos de um mundo globalizado em vias de mundialização, deslumbrados

com as conquistas das ciências aplicadas, saturados de informação, entretanto, usualmente, pobres de

conhecimento 8 , transitamos fascinados pelo hipertexto e, encantados por imagens contidas em milhões de

megapixels já não habitamos o mundo, mas sua representação virtual 9 .

O homem atual está, pois, em fuga do pensamento 10 , entrementes, paradoxalmente, nega essa fuga.

Dirá, com plena razão, que vivemos num período de realizações formidáveis, avanços sequer sonhados pelos

homens que nos antecederam. São tantas as pesquisas em andamento, são tantas as descobertas e aplicações

que, apaixonadamente, somos tentados a negar a fuga do pensamento. Sem dúvida, esse dispêndio de

sagacidade e reflexão, foi muito útil. Entretanto, não é o pensamento operativo que negamos. O pensamento

que calcula, capaz de medir e projetar, apto em dominar preditivamente as forças ocultas da natureza

transformando todas as coisas em objetos úteis e mercantilizáveis é cotidianamente louvado. Todavia, não é

a única forma de pensar. Existe outro tipo de pensamento, o pensamento que medita e indaga pelo sentido das

5 Ver HEIDEGGER, Martin. Serenidade. Lisboa: Instituo Piaget, 2000 (Verlag,Günter Neske Pfullingen, 1959). Trata-se de oração proferida pelo filósofo suevo por ocasião de homenagem ao seu conterrâneo, o músico Conradin Kreutzer. No referido texto Heidegger avalia o impacto da Técnica moderna sobre nossas vidas, denunciando uma fuga do pensamento, mas, ao mesmo tempo, indicando caminhos para lidarmos adequadamente com os ‘utensílios técnicos’.

6 Cf. ibidem, p.11.

7 Ibidem, p.11. 8 Todos os dias somos estimulados por informações veiculadas por diferentes mídias e, até mesmo, nos exercícios escolares. Entrementes, incontáveis vezes, não analisamos essas informações, não indagamos sobre sua origem, não realizamos a crítica dos conceitos, não investigamos como os fenômenos veiculados são interpretados. Ora, é preciso destacar: informação não é conhecimento. O conhecimento é exercício crítico de investigação, exigente, reflexivo. Exercício que convida ao estudo, à solidão, ao trabalho interpretativo e ao debate intersubjetivo segundo argumentos validados coerentemente. Necessitamos, portanto, transitar da sociedade da informação à sociedade do conhecimento. A revolução informática nos garantiu acesso à informação, mas como trabalhá-la, como torná-la conhecimento significativo, operativo, transformador? Nessa tarefa, contamos, apenas, com o esforço pessoal e intersubjetivo do pensamento reflexivo, sem o qual estaremos caminhando na direção da automação e não da autonomia, da autarquia e da comum responsabilidade.

9 Num tempo acelerado pelas mediações tecnológicas, de admiráveis avanços informáticos, já não vivemos no tempo da presença [kairós] e na gratuita acolhida do mundo e dos outros [ser-no-mundo-com]. A partir dessa constatação, legitimamente, podemos indagar: quem, de fato, somos? O resultado da adição dos papéis sociais que representamos num tempo que nos consome? Por que executamos tantas tarefas? Vivemos no tempo acelerado do relógio eletrônico ou no tempo da presença? O que significa habitar o mundo? Por que a habitação do mundo reivindica o cuidado e o cultivo desse mesmo mundo? Por que a técnica impede o contato com o mundo e, desse modo, a responsabilidade? 10 Cf. Op. Cit. , 2000, p. 12.

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teorias, conceitos e práticas. O pensamento negligenciado, portanto, não é o pensamento que calcula, mas o pensamento que medita. Existem, pois, duas formas de pensamento, igualmente importantes: o pensamento que medita e o pensamento que calcula. Contudo, o pensamento que calcula, efetivamente, não exerce a atividade do pensamento em caráter estrito, pois não pergunta pelo sentido, não permanece junto às coisas, acolhendo-as em sua manifestação originária. O pensamento que calcula, ao representar esquematicamente as coisas, as esvazia de conteúdo, obstaculizando, assim, a relação do homem com o mundo. Esse pensamento útil e operativo, sobretudo, é incapaz de pensar a si mesmo, de indagar a si mesmo. Lá, onde o pensamento que calcula encontra seus limites e contradições, brota o pensamento que medita. O pensamento que medita é um pensamento que reflete, que busca dar conta das razões do existir. O pensamento que medita habita o mundo, acolhe o significado e pergunta, incessantemente, pelo significado de todas as coisas. Experimentamos um des-enraizamento, pois, destituídos da capacidade de pensar autenticamente, transferimos à técnica a tarefa de habitar o mundo responsavelmente. Na era atômica, acreditamos que a

ciência [ou seja, a moderna ciência da natureza] é um caminho para uma vida mais feliz do homem 11 . Mas, onde se assenta tal afirmação? Na pretensão de que, através do domínio de todas as regiões do ser pela ciência, controlaremos a vida e criaremos condições para resolver todos os enigmas e males que afligem o ser humano. Nesse sentido, o poder oculto da técnica moderna, determina a relação do homem com tudo aquilo que existe. A natureza, transformada num único posto de abastecimento gigantesco, está a serviço da técnica e

indústria moderna 12 . Exemplo da operatividade e capacidade de intervenção do pensamento que calcula, é o

domínio da energia atômica 13 . Mas, o que realmente nos preocupa? Diante da bomba atômica, que poderia um dia varrer a vida humana da face da terra, é motivo de atenção nosso despreparo para lidar com a quantidade gigantesca de informações e possibilidades proporcionada pelos avanços tecnológicos. No entanto, o que é mais inquietante, não é o fato de o mundo se tornar cada vez mais técnico. Extremamente preocupante é o fato de o homem não estar preparado para essa transformação do mundo, é o

fato de ainda não conseguirmos, através do pensamento que medita, lidar com aquilo que está a emergir 14 . O pensamento que medita exige que não permaneçamos presos [unilateralmente] a uma representação; que não continuemos a correr em sentido único na direção dessa representação [do mundo e do homem] justificadora do poder do pensamento instrumental. O pensamento que medida exige que perguntemos pelo sentido da técnica e sobre a legitimidade de sua onipresença em nossas vidas. Afinal, se não podemos viver com a técnica e, paradoxalmente, não podemos viver sem ela, como devemos pensar um modo de relação adequado com os objetos técnicos?

11 Cf. HEIDEGER, 2000, p. 18.

12 Ibidem, p.19.

13 Lembremos da utilização da Bomba atômica sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, ato que encerrou a segunda guerra mundial.

14 Op. Cit., p.21.

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Podemos utilizar os objetos técnicos, mas, ao utilizá-los, permanecer livres deles. Podemos utilizar os objetos técnicos tal como devem ser utilizados. Podemos utilizá-los com liberdade, sem nos tornarmos seus

escravos. Podemos dizer sim e não aos objetos técnicos, impedindo que nos absorvam 15 e desconstituam nossa relação responsável com o mundo. Se dissermos sim e não aos objetos técnicos, usando-os prudentemente, nossa relação com o mundo tornar-se-á tranquila. Deixemos os objetos técnicos entrarem em nosso mundo cotidiano e, ao mesmo tempo, os deixemos fora, ou seja, permitamos repousarem em si mesmos.

A atitude frente os objetos técnicos [dizer sim e não] denominemos serenidade para com as coisas 16 . Todavia, se ainda não compreendemos o poder oculto da técnica, é necessário indagar pelo sentido do fazer

técnico e aprender a lidar inteligentemente com os utensílios técnicos 17 . A serenidade em relação às coisas e a abertura ao mistério asseguram perspectiva de novo enraizamento, que permitirá existir com responsabilidade, que evitará transferirmos à técnica nossa comum tarefa habitar o mundo. Permanece, entretanto, um perigo. No que consiste tal perigo? De acreditarmos que o único pensamento legítimo, capaz de responder às questões humanas, é o pensamento que calcula. Contudo, em todos os lugares, convidemos à reflexão, pois somente o pensamento que medita é capaz de dar conta do sentido, inclusive do significado, implicitamente aceito, de que a técnica moderna é o único lenitivo aos problemas do homem. Exerçamos, então, o pensamento na sua essência, insistindo e pergunta pelo sentido radical de todas as coisas.

APLICAÇÃO

1 O desenvolvimento tecnológico alterou a percepção de nós mesmos, nossa compreensão do mundo e o modo de nos relacionarmos com as outras pessoas? 2 Somos capazes de utilizar os objetos técnicos adequadamente ou nos deixamos dominar por eles? 3 Quais são os sinais positivos e os sinais negativos da onipresença da técnica em nossas vidas?

15 HEIDEGGER, 2000, p. 23-24.

16 Ibidem, p.24.

17 Cumpre destacar que Heidegger, gradativamente, percebe que o poder da técnica é superior ao poder do Dasein histórico [homem] em desconstituí-lo. Mas, é tarefa intransferível realizar o ato de pensar, insistir e renovadamente perguntar.

1 NOTAS INTRODUTÓRIAS À ÉTICA

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Ao iniciarmos nosso curso de Ética, é conveniente estabelecer os conceitos fundamentais da disciplina, realizando distinções e oportunizando esclarecimentos básicos. Afinal, o que é Ética? Que relações há entre Ética e Moral? Quais são as diferenças entre os problemas éticos e os problemas morais? O que são dilemas éticos? De que modo os dilemas éticos incidem sobre a vida profissional? Existe progresso moral? Como a reflexão ética compreende a tensão entre autonomia e heteronomia moral? Por que é importante refletir sobre os problemas éticos fundamentais? A reflexão ética é, de fato, exercício rigoroso, intransferível e enriquecedor, capaz de doar significados à existência humana. Especialmente em nosso tempo, quando indagamos pelo mínimo valorativo, quando perguntamos pela possibilidade de convivência penetrada pela paz e justiça, tal exercício reflexivo se revela vital.

1.1 O que é Ética?

A Ética, situada no plano da Filosofia prática 18 , examina o agir humano. Poderíamos definir Ética, em consequência, como a ciência do agir humano. À Ética, segundo Aristóteles, competiria pensar o agir humano e o sentido ou finalidades da existência do homem. Ética deriva de Ethos, indicando o caráter de uma pessoa ou de um povo. Cada povo, assim como cada pessoa, teria seu ethos, seu modo próprio de ser. Aristóteles, no entanto, define Ética como ciência, ou seja, define-a como exercício rigoroso que investiga o agir humano [Episteme]. De que agir [ações] estamos falando? De agir específico, qualificado, nascido da reflexão e da deliberação, capaz de afetar a vida do agente e, sobretudo, a vida de outras pessoas. Determinar a natureza de tal agir confrontando-o com os fins da vida humana, seria a tarefa da Ética.

18 Segundo Aristóteles (Metafísica I, 1,2 e Ética a Nicomâco VI), as ciências podem ser classificadas considerando seu objeto e grau de universalidade. Às ciências poéticas [arte ou técnica] é reservada a tarefa da produção dos bens necessários à vida humana [abrigo, alimento, saúde, bens culturais, etc.]. À Filosofia Prática [que examina

o agir humano: práxis] compete refletir sobre a vida individual [Ética] e a vida na cidade [Política], indicando os critérios pelos quais atingiremos o máximo de realização humana, consideradas todas as possibilidades de vida feliz na perspectiva da realização do bem individual e do bem comum. As Ciências Teóricas, gratuitas, dividem- se em particulares [aquelas que examinam aspectos particulares do ser: como a biologia, a física, a psicologia e

a matemática] e a Filosofia Primeira, saber abrangente que investiga os primeiros princípios da realidade. Se as

Ciências Poéticas e a Filosofia Prática são conhecimentos aplicados, entretanto, as Ciências Teóricas são exercício gratuito de investigação. As Ciências Teóricas, destacamos, tratariam de aspectos particulares do ser [Ciências Particulares] ou do ser enquanto ser [Filosofia Primeira]. Segundo Aristóteles, participam em maior grau da natureza da Sabedoria objeto da investigação das Ciências os conhecimentos mais universais e gratuitos. Assim, teríamos a seguinte classificação, ascendente, quanto ao grau de dignidade e importância das ciências: Ciências Poéticas, Filosofia Prática, Ciências teórico-particulares e Filosofia Primeira [Metafísica]. Em nossa concepção, a Filosofia Prática [Política e Ética] enquanto conhecimento aplicado é exercício filosófico pleno, ação reflexiva de primeira grandeza. A Ética, reflexão prática, consequentemente, é pleno exercício filosófico, reflexão indispensável, Filosofia em sentido maior.

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1.2 Ética e Moral: aproximações e definições

Podemos, igualmente, definir Ética como ciência da moral, ou melhor, como teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade 19 . A Ética, enquanto teoria, pretende ser conhecimento rigoroso sobre o comportamento qualificável como moral. Moral 20 , por sua vez, deriva de mos, mores: costume, costumes [uso, caráter, comportamento]. Por moral, entendemos o conjunto de normas aceito e vivido por indivíduos concretos em determinada sociedade. O objeto da Ética é, por conseguinte, o comportamento caracterizado como moral 21 , ou seja, nascido da reflexão e da consciência, orientado por normas admitidas e realizadas livremente por indivíduos que compartilham suas vidas em determinada sociedade. É conveniente recordar: esse comportamento, caracterizado por moral, afeta a vida de outras pessoas. Na realização da moral, salientamos, o grau de autonomia e liberdade varia entre indivíduos, culturas e épocas da história. Entretanto, quanto maior o grau de autonomia presente na vida moral dos indivíduos e sociedades, tanto mais qualificada e plena será essa dimensão da existência.

19 Cf. VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. 22. ed. RJ: Civilização Brasileira, 2002. p. 23.

20 Mos, mores é a tentativa dos latinos traduzirem ethos, daí as palavras ethikós e moralis [Cf. SARAIVA, F.R. dos Santos. Novíssimo Dicionário Latino-Português. Rio de Janeiro: Garnier, 1993. p.435/754]. Aquilo que a tradição grega denominava

ética, portanto, passou a ser designado pelos latinos por moral. Ética [do grego ethos] indica: costume, condução de vida, regras de comportamento, caráter de uma pessoa ou de um povo. Moral [do latim mos, mores] designa: costumes, conduta

de vida, regras de comportamento, remete ao agir humano. Ética e Moral, portanto, numa primeira compreensão, podem

ser consideradas sinônimas, pois as palavras coincidem na indicação de comportamento justificado por normas. Entrementes, embora as línguas ocidentais tenham usado esses vocábulos como sinônimos, é interessante diferenciá-los. Nessa perspectiva, convencionamos, considerando a evolução do uso das palavras, indicar por Ética a dimensão teórica, reservando a palavra Moral para sinalizar a instância dos costumes e normas. Em nosso estudo, destacamos, por questões metodológicas e epistemológicas [em acordo com a tradição inaugurada por Aristóteles], por Ética indicaremos o momento teórico e por Moral a dimensão normativa e os costumes.

21 Se o objeto da Ética é o comportamento moral, é conveniente entendê-lo. a) Em primeiro lugar, os animais, altamente especializados, estão rigidamente ligados ao meio ambiente. O ser humano, ao contrário, plástico [moldável] recebe da cultura uma segunda natureza que permitirá sua sobrevivência. Essa segunda natureza, a cultura, situa o homem no mundo, destacando-o do cosmo. Ser gregário, racional e portador de linguagem, o homem buscará na cultura respostas às diferentes necessidades. Nessa direção, precisará descobrir interiorizar e realizar normas, pois sua plasticidade, seu comportamento não-fixado instintivamente, ao mesmo tempo que lhe abre ao mundo, exige novo suporte. Esse processo

de interiorização das normas é mediado pela educação, realizando as várias etapas de socialização incorporadoras do indivíduo ao tecido social. Os animais, destacamos, recebem do rígido aparato instintivo a direção do seu comportamento.

O homem, frisamos, encontrará na moral [nas normas] efetiva orientação e adequada compensação cultural. b) Em

segundo lugar, somente poderá ser caracterizável como moral, o ato que, tendo realizado ou não a norma, afeta positiva

ou negativamente a vida de outras pessoas. c) Em terceiro lugar, a ação moral supõe a capacidade de antecipar os resultados, nascendo de livre deliberação, sendo avaliável segundo suas conseqüências. d) Em quarto lugar, o comportamento moral supõe a capacidade de resistir à coerção externa ou interna na direção do agir voluntário. e) Em

quinto lugar, à voluntariedade segue-se racionalidade compartilhável intersubjetivamente, capaz de conceber e reivindicar

a norma, adequando-a, realizando-a, avaliando-a. A Ética procurará compreender e significar o comportamento que denominamos como moral.

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1.3 Problemas éticos e problemas morais

Efetuada a distinção entre Ética e Moral, podemos esclarecer e diferenciar o âmbito dos problemas morais e dos problemas éticos. Enquanto os problemas morais são factuais, práticos, concretos; os problemas éticos são gerais e teóricos. O indivíduo, agente moral, procura auxílio nas normas morais, pois, cotidianamente vê-se desafiado pelos dilemas do dever e de sua realização. O agente ético precisará indagar sobre o modo de aplicação da norma em cada situação. Se a norma, em sua universalidade, é precioso auxílio, todavia, como aplicá-la nos casos singulares e nos diferentes contextos? Como realizá-la, salvaguardando o bem dos indivíduos envolvidos em cada situação? A norma, em sua generalidade, em conclusão, precisa ser adequada às singulares exigências que a reivindicam. Destarte, poderá orientar a ação na direção do bem visado, permitindo posterior avaliação das conseqüências positivas ou negativas alcançadas através da ação. Os problemas morais, assim sendo, tratam dos conflitos inerentes à vida moral, essencialmente práxica. Dizíamos que os problemas éticos são gerais e teóricos. Então, quais são os problemas tratados pela Ética? Competirá à Ética estudar o comportamento moral, indicando seus elementos constituintes, explicitando as teorias que podem garantir sua racionalidade, justificando sua possibilidade. Cumprirá a Ética julgar os códigos morais e suas normas, indagando sobre sua aplicabilidade, questionando sua realização. A Ética perguntará pelos critérios da avaliação moral, investigando a contribuição das diversas escolas éticas. Estudará a relação entre a vida moral e seus fundamentos antropológicos, questionando a ligação entre valor e norma, indagando sobre a dialética entre indivíduo 22 e sociedade 23 . Questionará a relação entre liberdade e obrigatoriedade 24 . Sobretudo, a Ética avaliará o conteúdo de racionalidade da norma, sua exequibilidade e alcance. A norma [em seu caráter incondicional] realmente se justifica? Através de quais procedimentos a norma poderá ser convenientemente adequada e prudentemente realizada? Cabe à Ética, finalmente, a tarefa de fornecer, argumentativamente, as razões de possibilidade do mínimo ético 25 ,

22 Dimensão subjetiva da vida moral.

23 Dimensão objetiva da vida moral.

24 Quais são as condições e os pressupostos da livre adesão do agente moral ao obrigatório [ao dever]? Por que e como o agente ético livremente realiza o obrigatório proposto pelo dever?

25 O que é o Mínimo Ético? Através de um exercício racional-comunicativo podemos indagar: quais são os valores e princípios que permitiriam a convivência entre os humanos em sociedade? Esses valores e princípios, por sua validade intersubjetiva, por seu caráter transcultural, por seu conteúdo de racionalidade, forneceriam as bases dessa convivência num mundo em crescente globalização e mundialização. O respeito à vida em geral e às pessoas, o exercício da solidariedade, a promoção dos direitos e liberdades fundamentais, encontrariam no Mínimo Ético sua referência e fundamento. Nesse sentido: quais são as coisas mais importantes em minha vida? Quais são os valores pelos quais oriento minha existência? Incluo as outras pessoas e seres vivos no meu projeto de vida? Como minhas escolhas axiológicas são, de fato, vividas?

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capaz de orientar a vida em sociedade. À Ética, em resumo, é indicada a tarefa de validar racional e intersubjetivamente o horizonte sobre o qual se estabelece a vida em comum.

1.4 Relações entre Ética e Moral

Do exposto, é conveniente, em termos didáticos e metodológicos, diferenciar Ética de Moral, pois, comumente, usamos os dois termos como sinônimos. Assim, não agimos eticamente, mas agimos segundo normas morais, procurando realizá-las. A Ética, em conseqüência, avalia o conteúdo da ação moral, reflete sobre essas ações, indaga, teoricamente, sobre o significado dessas ações. Agimos moralmente e avaliamos o conteúdo dessa ação observando suas conseqüências. Através da reflexão ética poder-se-á averiguar se, atendendo as normas de determinada moral vigente, indagando sobre as conseqüências da ação, atuamos com correção, se afetamos positiva ou negativamente outras pessoas. Agimos moralmente e refletimos sobre o significado de nossas ações. Ética, enquanto ciência do comportamento moral, enquanto exercício teórico compete examinar o conteúdo dessa ação, na busca de compreendê-la. Ética, compreendida como ciência da moral, inquirirá sobre a relação entre o normativo e o factual, entre a norma [ou lei moral] e as ações morais, entre moral [geral] e moralidade [realização do geral]. Interrogará sobre a correspondência entre o Ideal [normativo] e a vida moral concreta. E, se as normas morais procuram expressar aqueles valores que a humanidade vem descobrindo como fundamentais, a Ética examinará como tais valores são traduzidos nas normas vigentes e, sobretudo, como são vividos 26 . Refletiremos, a seguir, brevemente, sobre os dilemas éticos vivenciados pelos profissionais nas suas diversas áreas de atuação.

1.5 Os dilemas éticos e os desafios profissionais

Os dilemas éticos acompanham os seres humanos ao longo da história e encontram sua raiz nas ações morais. O que caracteriza uma ação moral? Uma ação moral, recordamos, realiza uma norma, apresentando conseqüências constatáveis, positivas ou negativas, não somente para o agente, mas para outras pessoas. Ora, como a norma é prescritiva e anunciadora do dever ser,

26 Como devemos compreender a instância normativa moral na sua relação com a lei? As normas morais traduzem valores e princípios que orientam a vida em sociedade. Ligam-se ao costume, se enraízam na consciência do indivíduo e são livremente cumpridas ou violadas. Essas normas podem, com o tempo, receber explicitação em forma de lei positiva [escrita]. A lei, em sua positividade, traduz, antecipa ou contraria a norma moral, exercendo sob as pessoas poder coercitivo. Se as normas morais regulam, com certo grau de espontaneidade a vida dos indivíduos, a lei ordena por seu caráter coercitivo. Daí as diferenças entre o moral e o legal, e os consequentes conflitos. Cumpre à Ética indagar se determinado dispositivo legal é, de fato, moralmente válido e eticamente justificável.

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cotidianamente, diante de exigências práxicas, o agente moral precisa decidir pelo cumprimento, adequação e realização dessa norma. Como conciliar a pretensão de universalidade da norma e cada situação? Motivado pela realização do fim, decidido em alcançá-lo, o agente ético elege os meios e atua na direção do bem visado. Norma realizada, ação concluída, o agente e pessoas envolvidas avaliam o resultado alcançado. Nessa avaliação, perguntam pelo bem ou possível prejuízo resultante da ação. Nesse jogo, que envolve decisão e escolhas, destacamos, é importante eleger mediações adequadas e eticamente justificáveis, pois os meios se fazem presentes nos fins alcançados denunciando o agente, tornando-o merecedor de mérito ou reprovação. No exercício profissional somos, igualmente, cotidianamente desafiados pelos dilemas éticos, convocados a refletir, dialogar e decidir, em cada caso, pelo modo da aplicação da norma segundo o bem visado na ação. O enfrentamento dos dilemas éticos no âmbito do cumprimento do dever, a interpretação, adequação e aplicação das normas, códigos deontológicos e prescrições legais é, portanto, tarefa reflexiva intransferível, considerando os resultados de nossas ações e a responsabilidade consequente 27 .

1.6 A pergunta pela existência do progresso moral

As transformações histórico-sociais implicam, necessariamente, em progresso moral? Existe progresso moral? Quais são as evidências desse progresso? As transformações econômico-sociais e o desenvolvimento técnico-científico não implicam em efetivo progresso moral. Todavia, tais transformações geram crises capazes de estimular a reflexão ética e impulsionar modificações enriquecedoras da vida moral. A razão ética, diante do novo e frente a inusitados dilemas, encontra motivos capazes de impulsionar e enriquecer a vida moral. Mas quais são os sinais ou evidências do progresso moral?

27 As ações humanas são passíveis de avaliação moral e jurídica. Julgamos e somos julgados segundo valores, princípios e normas socialmente compartilhados. Julgamos, inclusive, a nós mesmos. No campo legal, o descumprimento voluntário da lei implica em penalização, conforme culpa ou dolo. Nessa direção, na vida profissional, a negligência ou imperícia compromete o agente. A diferenciação entre ignorância voluntária e ignorância involuntária [existem coisas que não posso não saber e coisas que não poderia prever], a observância das prescrições legais, o cumprimento das normas dos códigos profissionais, a cotidiana reflexão, o empenho em realizar eticamente as tarefas determinadas: possibilita segurança, satisfação e realização na vida profissional. Em conseqüência, a reflexão ética, a justificativa do cumprimento da norma, o atento desempenho das obrigações [deveres] envia o profissional à dimensão dos seus direitos, permitindo alcançar realização profissional e humana. Nessa direção, os valores e princípios, os códigos, leis e reflexão ética tornam-se indispensável auxílio, revelando vital significado, pois em cada ação o profissional é convocado a justificar suas escolhas e partilhar racionalmente suas decisões. Os profissionais de todas as áreas, enquanto seres humanos e agentes éticos, enquanto responsáveis, precisam decidir prudentemente e na direção do bem das pessoas afetadas por suas decisões e escolhas.

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As evidências de progresso moral, segundo Vázquez 28 , poderão ser encontradas: a) pela ampliação da esfera moral na vida social 29 ; b) pela elevação do comportamento consciente e livre dos indivíduos e grupos 30 ; c) pelo grau de articulação e coordenação existente entre os interesses pessoais e coletivos; d) pelo progresso ascensional na direção da afirmação e preservação de valores considerados fundamentais, ao longo da história, à convivência e continuidade da vida humana 31 . Embora as morais se transformem ao longo do tempo, segundo Adolfo Sánchez Vázquez, importa destacar, não estamos diante de relativismo moral extremo, pois valores fundamentais têm sido descobertos e preservados. Esses valores, consagrados ao longo da história por sua relevância, podem ajudar-nos no enfrentamento dos desafios contemporâneos. Frente a desafios planetários, num mundo globalizado e multiculturalizado, valores, como paz e solidariedade estimulam reflexão e ação. O conceito de responsabilidade planetária, nascido no contexto de mundialização, procura efetivar a paz através da solidariedade, vinculando os seres humanos nessa empreitada tão importante. Em resumo, valores preservados ao longo da História humana, por seu significado e importância, podem auxiliar-nos diante dos desafios planetários, nos vinculando aos outros seres humanos, às outras espécies, ao planeta. Vázquez argumenta em favor do progresso moral, descrevendo a substituição de paradigmas morais ao longo da história do Ocidente. Assim, se a vingança de sangue, presente nas comunidades primais foi substituída pela moral aristocrática da polis grega; se a moral aristocrática grega deu lugar à afirmação da dignidade formal e universal da pessoa na idade média, se na modernidade, descobrimos o trabalho como fonte de riqueza e percebemos no trabalhador papel fundamental na constituição da sociedade; em nossos dias, nossa contribuição [acréscimo], no conceito de Responsabilidade Planetária, na gradativa aproximação dos interesses pessoais e coletivos, há novo ponto de partida à vida moral. Orientados pela Responsabilidade Planetária e por princípios éticos racionalmente compartilhados, poderemos inspirar nossas ações na procura da superação da exclusão, da discriminação, do uso predatório do meio-ambiente, enfim, de todas as formas geradoras de conflitos e violência. Há, em nossos dias, inúmeras declarações [formais] promotoras e defensoras da pessoa, da liberdade, da vida em geral, evidente sinal de progresso ético e moral. Qual é o desafio que tais declarações despertam? É preciso, gradativamente, atualizar os princípios enunciados. Não basta, portanto, propugnar os direitos da pessoa, do Idoso, das crianças, defender o meio ambiente, etc.

28 VÁZQUEZ, 2002, p.50-52. 29 A vida moral orientada por normas exteriores ligadas ao direito e ao costume torna-se vida moral interiorizada, vivida desde convicções íntimas e partilhadas com outros membros da sociedade.

30 Ou seja, pelo crescimento da responsabilidade desses indivíduos e grupos em seu comportamento moral.

31 Valores como: solidariedade, amizade, lealdade, honradez, veracidade, senso de justiça.

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Não é suficiente haver declarações consignadas pelas nações. É prioritário transitar do plano formal dessas declarações à vida e suas reivindicações; é urgente realizá-las, dar-lhes sentido práxico.

1.7 Ética: entre a autonomia e a heteronomia

Finalmente, se a vida moral implica numa relação livre e consciente com a norma e sua realização, é preciso pensar o problema da autonomia e heteronomia moral. Quando agimos, recebemos, de fato, influências da sociedade, da cultura e da época da qual fazemos parte. Entretanto, sempre agimos com algum grau de liberdade. O contexto, ao incidir sobre nossas ações, salientamos, não elimina nossa capacidade de escolher e decidir. Escolhemos, decidimos e agimos num mundo que, ao nos acolher, condiciona e possibilita nossas existências. Logo, se valores e normas sempre traduzem o ambiente donde brotam, ainda assim, podemos interpretá-los e decidir realizá-los segundo grau de autonomia capaz de fundar a responsabilidade. Do exposto, porque capazes de autonomia, somos responsáveis. Dizendo de outra maneira: se, quando agimos, atuamos segundo os valores e normas recebidos de nossa sociedade, cultura, época, entrementes, ainda assim, agimos com algum grau de liberdade. Verificando que a pessoa é liberdade finita, o agir humano implica num grau de heteronomia ou determinação exterior. Entretanto, o conteúdo recebido [norma] precisa ser interiorizado, refletido, avaliado, assumindo como meu. Assim, o agir humano torna o heterônomo [a lei recebida do exterior] norma assumida autonomamente [aceita interior e livremente]. E, frisamos, tanto mais consciente a realização da norma, tanto mais autêntica a vida moral. Seria oportuno, em conseqüência, investigar o processo de amadurecimento para a vida moral 32 .

32 Ver, nesse sentido, o resumo de Bárbara Freitag (cf. “Moralidade e educação Moral”. In:

de Antígona. A questão da moralidade. SP, Campinas: Papirus, 1997. p.192-207) referente ao estudo

transcultural realizada pelo psicólogo norte-americano Lawrence Kohlberg sobre os estágios do desenvolvimento da moralidade [descrição das seis etapas do desenvolvimento moral ou da gradativa passagem da heteronomia à autonomia na esfera da vida moral].

Itinerário

Conclusão Preliminar

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A vida moral implica numa relação livre e consciente entre os indivíduos e entre esses e a sociedade, visando o bem de cada um e de todos. A reflexão ética, ao estudar o comportamento moral, poderá, efetivamente, contribuir ao enriquecimento da existência humana. Para além dos condicionamentos, na esfera da intimidade, na descoberta do si mesmo e na afirmação da responsabilidade, descobriremos no outro um parceiro na edificação e cuidado do mundo. A reflexão ética estudando o comportamento moral, indagando sobre os elementos constitutivos da ação moral, discorrendo sobre responsabilidade e dispensa moral, refletindo sobre a dialética entre liberdade e obrigatoriedade, indagando sobre os modos efetivos de realização da moral, inquirindo sobre os estágios do desenvolvimento moral, e examinado as principais escolas éticas contribuirá ao despertar, desejado por cada ser humano, de vida sempre mais autárquica e autêntica. Finalmente, se visar à vida boa em sociedades justas supõe a práxis, a reflexão ética é condição dessa ação transformadora. Desejamos, em nossos encontros de Ética, pesquisar e refletir sobre os assuntos, indicados na presente introdução, caminhando para a aplicação dos temas de Ética geral em nossos estudos de Ética aplicada e de Ética profissional.

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2 A ESSÊNCIA DA MORAL [Investigação da natureza da moral: O que é a moral?]

Se a Ética é a ciência do comportamento moral ou Filosofia Moral [enquanto Moral pensada] é importante indagar pelo significado dessa dimensão da existência humana. Admitida a historicidade da moral, cumpre, também, indagar pelos elementos que, ao longo do tempo, unem as diversas morais. Estamos, ao realizar tal questionamento, tratando da essência da moral. Como referir o normativo e o fatual, moral e moralidade? Como pensar a relação entre o pólo subjetivo [indivíduo] e o pólo objetivo [sociedade cultura] da moral? Quais são as tarefas que a moral efetiva? No que consiste um ato moral? Quais são os critérios caracterizadores de uma ação moral? Quais são os elementos constitutivos de um ato moral? Por que o ato moral é singular? Partiremos, nessa empreitada, de preliminar definição que afirma: “a moral é um conjunto de normas, aceitas livre e conscientemente, que regulam o comportamento individual e social dos homens 33 ”. Três são as referências presentes na definição: normatividade (a), liberdade e consciência (b), comportamento individual e social (c). A definição nos convida a pensar na moral enquanto empreendimento pessoal e coletivo, baseado no cumprimento de normas ou deveres por um sujeito livre e capaz de refletir. No transcorrer do estudo, procuraremos aprofundar essas constatações inicialmente propostas.

2.1 O normativo e o fatual

O comportamento moral gira em torno de duas regiões: entre o conjunto de normas e regras

de ação [a] e o plano constituído por certos atos humanos realizadores dessas regras [b]. Os valores precisam ser traduzidos em princípios ou regras de ação. Essas regras de ação, por outro lado,

oferecem o horizonte de orientação e se efetivam no plano das ações. As normas referem-se ao dever ser, já o fatual refere-se à realização da norma. Cotidianamente, somos convocados à efetivação de normas, tais quais: ama teu próximo, respeita teus pais, diga a verdade. Em cada situação, na efetuação de cada ato, realizamos ou rejeitamos a norma orientadora. O plano normativo se refere ao dever ser, encontrando correspondência positiva ou negativa nos atos realizados.

A Ética avalia como atos morais positivos, os que ao realizarem a norma se apresentam como

valiosos e capazes de produzir consequências afirmativas em favor das pessoas envolvidas. Os atos moralmente negativos, de outro lado, implicam em violação ou não cumprimento da norma, e importam em conseqüências prejudiciais aos indivíduos implicados. Entretanto, o não cumprimento da norma não destitui a norma de valor, não esvazia ou anula seu conteúdo. Se o normativo exige,

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nas situações correspondentes, a realização da norma segundo o dever ser reclamado, entrementes, o descumprimento da norma, não anula sua positividade: a norma continua valendo 34 . Embora possamos diferenciar o normativo do fatual, importa destacar, esses planos estão inevitavelmente intrincados, nunca se encontram totalmente separados, devem ser pensados, assim, em sua mútua implicação.

2.1.1 Moral e moralidade

A distinção entre moral e moralidade corresponde à diferenciação entre o normativo e o fatual. Assim como a norma ganha concreção nos atos humanos, a moral, devido inerentes exigências de realização, tende a tornar-se moralidade, vida efetiva, dimensão concreta da vida humana. Deparamo-nos, simultaneamente, com o normativo ou prescritivo e com o prático-efetivo, dois aspectos presentes na vida moral. A existência moral, em conseqüência, movimenta-se entre o normativo ou prescritivo e o prático-efetivo, procurando integrar essas dimensões nas diversas circunstâncias e atos correspondentes.

2.2 Caráter social da moral

Na realização da vida moral, encontramos interação dialética entre indivíduo e sociedade. A vida moral nasce das relações estabelecidas entre pessoas, na sociedade, e encontra-se implicada em cada ato de todo indivíduo humano. Não devemos, todavia, substantivar a sociedade, ou seja, pensá- la como entidade autônoma, independente dos seres humanos. Os indivíduos em relação ao criarem instituições, ao estabelecerem conexões econômicas, ao justificarem suas visões de mundo fazem a sociedade acontecer. Entretanto, também é incorreto pensar indivíduos concretos ignorando sua pertença temporal, cultural e social.

34 Resume Vázquez (A essência da moral, cap. III, p. 65): “As normas existem e valem independentemente da medida em que se cumpram ou se violem. O normativo e o fatual não coincidem; todavia, como já assinalamos, encontram-se em relação mútua: o normativo exige ser realizado e, por isso, orienta-se no sentido do fatual; o realizado (o fatual) só ganha significado moral na medida em que pode ser referido (positiva ou negativamente) a uma norma. Não há normas que sejam indiferentes à sua realização; nem há, tampouco, fatos na esfera moral (ou da realização da moral) que não se vinculem com normas. Assim, portanto, o normativo e o fatual no terreno moral (a norma e o fato) são dois planos que podem ser distinguidos, mas não completamente separados”.

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O comportamento moral, assim, implica na dialética interação entre os indivíduos e a

sociedade da qual fazem parte 35 . Nessa direção, três aspectos regulam a vida moral 36 :

I) O indivíduo não inventa princípios ou normas de acordo com suas exigências pessoais, pois nasce inserido num tempo, numa cultura, em determinada sociedade; II) O comportamento moral é tanto comportamento de indivíduos como de grupos sociais humanos, cujas ações têm caráter coletivo, mas deliberado, livre e consciente; III) As idéias, normas e relações sociais nascem e se desenvolvem em correspondência às necessidades sociais.

Quais são, então, os atos que podem ser caracterizados ou classificados como morais? São aqueles que apresentam consequências, não apenas para o agente, mas para outras pessoas. Dessa

maneira, ir ou não ir ao cinema numa tarde de sábado não implica em conseqüências para a vida de outras pessoas. Mas, descumprir promessa, romper a palavra empenhada injustificadamente, resulta em ação moral e responsabilidade consequente.

A moral, ao regular a vida dos membros de uma sociedade, importa num caráter social,

supõe a intervenção dessa sociedade no comportamento de seus participantes, pois fornece quadro normativo apto a orientar a vida das pessoas. Todavia, quanto mais consciente seja o individuo, quanto mais presente se faça nas suas ações, quanto mais aja por reflexão e menos por imposição, tanto mais plena e livre será sua existência moral 37 . Na consciência, finalmente, decide-se a vida moral na direção do cumprimento ou desobediência da norma, observadas as circunstâncias e dilemas presentes em cada situação.

35 Importa perguntar: até que ponto nós somos agentes ou pacientes da cultura, enquanto membros de determinada sociedade. É inegável a existência de condicionamentos que envolvem nossas vidas e limitam a liberdade em assumir regras orientadoras de nosso comportamento. Entretanto, há instância de reflexão e liberdade segundo a qual agimos e pela qual nos tornamos responsáveis por nossos atos, por nossa vida. Não importa o que fizeram de nós, o importante é saber o que fazer com o que fizeram de nós. A afirmação precedente indica: somos responsáveis, apesar dos condicionamentos

existentes, por nossas ações. A vida moral, assim, em sua maturidade, consiste na capacidade de assumir as conseqüências de nossas ações, considerada a conquista dessa esfera de reflexão e liberdade capaz de nos tornar mais plenos porque responsáveis.

36 Cf. VÁZQUEZ, A essência da moral (cap. III), 2002, p. 67-69.

é uma pessoa

singular. Por mais fortes que sejam os elementos objetivos e coletivos, a decisão e o ato respectivo emanam de um indivíduo que age livre e conscientemente e, portanto, assumindo uma responsabilidade social. O peso dos fatores objetivos costumes, tradição, sistema de normas já estabelecidas, função social deste sistema etc. não nos pode fazer esquecer o papel dos fatores subjetivos, dos elementos individuais (decisão e responsabilidade pessoal), ainda que a importância deste papel varie historicamente de acordo com a estrutura social existente. Mas, inclusive quando o indivíduo pensa que age em obediência exclusiva à sua consciência, uma suposta voz interior, que em cada caso lhe indica o que fazer, isto é, inclusive quando pensa que decide sozinho no santo recesso de sua consciência, o individuo não deixa de acusar a influência do meio social de que é parte e, a partir de sua interioridade, tampouco deixa de falar à comunidade social à qual pertence”. Vázquez insiste na dialética entre o individual e o coletivo, indicando, na instância interior, a

37 Afirma Adolfo Vázquez (A essência da moral, cap. III, 2002, p. 73): “O sujeito do comportamento moral [

]

presença das vozes da sociedade; mas, ao mesmo tempo, reconhece que, em última instância, contra os condicionamentos ou, até, a favor das normas recebidas, quem decide é o indivíduo, portador da possibilidade da reflexão, agente livre e consciente.

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O homem; ser-de-cultura, animal não-especializado, herdeiro de características somáticas,

mas, sobremaneira, de traços culturais, portador de comportamento não-programado, encontra na moral resposta às exigências de convivência. Ser gregário, busca nas normas socialmente estabelecidas e intimamente validadas, solução aos dilemas da convivência. Se nem sempre é fácil viver com [conviver], pois o ser humano não existe isolado, precisa de seus semelhantes, necessita trabalhar, cultivar o mundo, torná-lo habitável, entretanto, é preciso encontrar modo inteligente de responder às necessidades desse existir gregário. Na comum tarefa de coabitar o mundo, o homem, ser-de-cultura, encontra nas morais historicamente estabelecidas possibilidade de continuação da vida individual, familiar, social e temporal na compartilhada casa planetária. A moral, ao regular a vida dos indivíduos na família e na sociedade, responde, por conseguinte, aos dilemas da sobrevivência e manutenção da vida da espécie humana. Ao articular e aprofundar os interesses de indivíduos, grupos e sociedades, permite, igualmente, o aperfeiçoamento espiritual dos seres humanos. Aperfeiçoamento revelado nos diversos graus de solidariedade e realização material e espiritual dos homens no espaço e no tempo.

2.3 O individual e o coletivo na moral

O indivíduo pode agir moralmente somente em sociedade. Ao crescer, a pessoa interioriza

normas, percebe-se envolvida numa atmosfera moral na qual lhe são oferecidas regras de ação. Em parte, a vida moral manifesta-se através de hábitos e costumes 38 . O costume manifesta o dever ser, mesclando o normativo e o fatual. A vida moral sempre mais autêntica e autônoma, entretanto,

encaminha o ser humano, via reflexão ética, à compreensão e crítica das normas e de suas exigências.

O sujeito de comportamento propriamente moral, entrementes, quanto mais aumente sua

capacidade de reflexão e liberdade, é pessoa singular capaz de decidir pelo cumprimento da norma proposta. As decisões morais, portanto, supõem um sujeito singular e consciente, situado num determinado contexto histórico e social e capaz de decidir e realizar a norma. Esse contexto não anula, mas, ao contrário, possibilita o acontecer da vida moral. Dito de outra maneira: se o mundo é o conteúdo concreto da consciência, sou livre, porque sou capaz de atos morais nascidos nesse mundo ao qual estou integrado. Mundo que acolhi, questiono e modifico através de minhas ações. Mundo do qual participo. Seria interessante investigar o processo de amadurecimento da vida moral,

38 Não devemos confundir vida moral com etiqueta. Se, de fato, nas relações cotidianas necessitamos de orientação à convivência [regras de postura], todavia, a vida moral traduz em normas e comportamentos valores vitais à sobrevivência, bem-estar, progresso social e espiritual dos membros de uma sociedade.

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da vida infantil à vida adulta, verificando os respectivos graus de heteronomia e autonomia em cada etapa da existência do homem 39 .

2.4 A estrutura do ato 40 moral

A moral envolve dois planos: o normativo e o fatual. A realização da moral supõe individuo capaz de interiorizar e realizá-la em cada situação específica. Portanto, encontramos normas que regulam a conduta humana e um conjunto de ações realizadas por indivíduos concretos. Mas, como podemos caracterizar o ato moral? O ato moral é ato de indivíduo humano concreto (a), nascido na consciência, com reflexão e liberdade (b), capaz de afetar a vida de outras pessoas (c), e apto de aprovação ou reprovação (d), consideradas as consequências (e). O ato moral, desse modo, afeta não apenas o agente, mas outros indivíduos e a comunidade na qual estão inseridos. Um ato moral é passível de responsabilização (f), pois o agente é capaz de antecipar idealmente as consequências de sua ação (h), verificadas as circunstâncias, os dilemas humanos presentes, as escolhas realizadas, os meios escolhidos e os resultados decorrentes. Quais são, nessa perspectiva, os elementos constitutivos de um ato moral? Primeiramente, uma ação moral presume um motivo (a) capaz de impulsionar o agir na direção de determinado fim (b). Um mesmo ato pode ser iluminado por diversos motivos. Por que denunciar uma injustiça? Pela comoção gerada, pelo senso de justiça ferido, pela indignação diante de ação prejudicial a outrem ou pelo desejo de projeção pessoal? Denunciar uma injustiça, logo, poderá ter como motivo o altruísmo ou egoísmo conforme possibilidades listadas. Não estamos falando, aqui, de motivos inconscientes, mas de motivações derivadas de reflexão e fundadas em grau mínimo de distanciamento e liberdade. É preciso, entretanto, existir a consciência do fim visado. A consciência do fim visado é garantida pela antecipação reflexiva e ideal do resultado da ação. Antecipado idealmente o resultado da ação, a seguir, é preciso decidir na direção do fim visado. Encontramos na decisão necessário elemento constituinte de uma ação moral (c). A consciência do fim e a decisão em alcançá-lo, enfim, dão ao ato moral o qualificativo de voluntário. Efetuada a decisão na direção do fim visado, é preciso escolher os meios capazes de fazê-lo acontecer (d). Se as mediações devem adequar-se aos fins, destaquemos, que nem todos os meios são legítimos. Meios ilegítimos, questionáveis e instrumentalizadores da vida humana, contaminam e comprometem os resultados, alterando o caráter dos atos e dos fins. Os fins, assim, não justificam os meios. Os meios precisam ser justificados e penetrados pela vida ética. Após decisão em favor do fim (ou fins), eleitos

39 Ver FREITAG, Barbara. “Moralidade e educação moral”. In:

moralidade. SP Campinas: Papirus, 1997. p.192-207. 40 Ato [de actus no latim] é o mesmo que Ação.

Itinerário de Antígona. A questão da

20

os meios adequado, cumpre realizar o ato (e). A realização efetiva a decisão de realizar os fins segundo mediações adequadas e eticamente aceitáveis. Realizado o ato [executada a ação], acontece a avaliação, pois ele afeta outros sujeitos, sendo motivo de elogio ou reprovação (f). Essa avaliação tem dimensão social e individual, é necessária à vida moral da pessoa e da coletividade. No dizer de Vázquez:

o ato moral supõe um sujeito real dotado de consciência moral, isto é, da capacidade de interiorizar normas ou regras de ação estabelecidas pela comunidade e de atuar de acordo com elas. A consciência moral é, por outro lado, consciência do fim desejado, dos meios adequados para realizá-lo e do resultado possível; mas é, ao mesmo tempo, decisão de realizar o fim escolhido, pois sua realização se apresenta como uma exigência ou dever 41

O ato moral, enquanto totalidade ou unidade indissolúvel de aspectos, em resumo, compreende: motivo, fim, decisão, eleição dos meios, resultados, conseqüências objetivamente avaliáveis. A ação moral é penetrada tanto pela dimensão subjetiva quanto pela face objetiva da vida moral. Os atos morais, em sua positividade promotora da vida humana, incorporados à vida de cada pessoa e das sociedades, qualificam relações interpessoais, indivíduos e sociedades. Esses atos não consistem, apenas, na intenção e não dependem, em sua positividade, exclusivamente dos meios, mas, sobretudo, da antecipação e efetivação de resultados promotores da vida dos envolvidos, e tal na direção de vida moral sempre mais plena e autêntica.

2.5 Breve conclusão: a singularidade dos atos morais

A norma é um auxílio precioso, pois diante de conflitos morais, necessitamos decidir na direção de bons resultados. Entretanto, refletindo eticamente, constatamos que a norma é universal, e cada ato efetivado responde a questões e circunstâncias irrepetíveis. Por que a ação moral, indagamos, é singular? Porque é irrepetível. Realizada a decisão pelo cumprimento da norma, adequada às circunstâncias, consumada a norma no ato, esse não tornará a acontecer, por ser único (completo). Cumpre somente avaliar o ato na consideração dos resultados alcançados e objetivamente verificáveis. A Ética, enquanto analisa o comportamento moral, não deve confundir-se com tratado de casuística, como se fosse possível antecipar descritiva e prescritivamente as inúmeras situações que envolvem a regra em sua universalidade e a vida em sua concretude. A Ética oferece critérios para pensar a norma, para justificá-la e adequá-la aos diversos casos que poderá orientar. Através da

21

prudência, essa capacidade racional prática, o ser humano intencionará a melhor resposta, adequando o preceito [a norma] 42 em cada ato, observados desafios e dilemas morais enfrentados. Cada ação moral, conseqüentemente, em sua singularidade não repetível, é ocasião de assumir a vida como tarefa intransferível. Cada ato de cada ser humano, visto na unidade da totalidade dos atos que o formam, é oportunidade de realização, plenificação, sentido. Por isso, refletir e imprimir positividade ética aos atos é tarefa inalienável de personalização, realização e enriquecimento da vida de cada pessoa e de todos os seres humanos, pois nos tornamos donos de nós mesmos, autônomos e autárquicos, através da totalidade positiva de nossas ações.

42 A norma [ou preceito] é uma regra de ação que atualiza valores e princípios.

Texto-Complementar 02

22

TEORIA DA AÇÃO

A ação humana inaugura o novo. Supõe engajamento da inteligência e da liberdade, pois é série

temporal planejada na qual o agente é capaz de prever as consequências. Diante do possível, no aberto da

existência, a Pessoa pensa naquilo que realizará. Dentre as opções, elegerá o conveniente, a mediação

adequada que ultimará [concretizará] o bem. No presente contexto, bem deve ser compreendido como aquilo

que convém, respondendo às exigências de realização do indivíduo humano. A ação acontece no mundo, em

meio à teia de relações: envolvendo mediações e outras pessoas. Sendo consequente, não afetará apenas o

executante, mas outros indivíduos humanos. A ação realiza valores que, traduzidos em princípios éticos ou

preceitos morais, importam em interpretação e adequação. A ação é irrepetível, pois encontra termo no tempo

(a) e as circunstâncias e pessoas envolvidas são únicas (b). Poderá ser objeto de avaliação e reparação, mas,

como já aconteceu, é irrepetível. As mediações escolhidas estão presentes no resultado, sendo avaliáveis

[aprovação ou reprovação ética e moral]. Mediações injustas, por exemplo, tornam a ação injusta e seus

resultados reprováveis. Pessoas [seres relacionais / ser-com], efetivamos nossa natureza na ação 43 .

Dependemos em nosso ser de um agir que, positivamente, consolide a dimensão relacional do existir pela

atualização do bem comum. O bem do indivíduo, perseguido na ação, é, pois, inseparável do bem comunitário.

Escolhidas, segundo orientação valorativa, as mediações adequadas o agente ético decidirá. Decisão, ação

consumada, avaliará e será avaliado segundo as consequências positivas [bem do indivíduo e da comunidade] e

negativas [prejuízos para o indivíduo e comunidade]. As consequências da ação, assim, constituem o objeto

avaliado. A razão prática [prudência] é a faculdade que, atuada e educada pelo hábito, assegurará

racionalidade à ação. Ação eticamente valiosa é ação prudente, racional e moderada na qual escolhas,

mediações e decisões alcançam o bem individual e coletivo. Na ação prudente a previsão [antevisão] dos

possíveis resultados permite traçar caminhos pelos quais nos humanizamos. O hábito não deve ser

compreendido como resposta mecânica, isto sim, como disposição de um sujeito racional em agir conforme a

prudência [racional e moderadamente]. O hábito atualiza a faculdade [capacidade] da prudência,

encaminhando o indivíduo humano à vida excelente. Não nascemos, por exemplo, temperantes ou justos, nos

tornamos temperantes ou justos pela repetição consciente de atos de temperança e justiça. Aprendemos, logo,

desde pequenos pelo exercício da razão prática a incorporar racionalidade às nossas ações. Nessa

perspectiva, somos a soma de todas as nossas ações, ou seja, de nossas escolhas, decisões e realizações.

Deveríamos, assim, reavalizar constantemente ‘o projeto de vida’, indicando adequação entre o horizonte

visado e nossas ações cotidianas. Num mundo no qual a reflexão perde espaço à automatização dos processos

vitais, é preciso estar presente, desenvolver a atenção profunda, estar consciente do que esperamos e de como

agimos na concretização de nossas aspirações. E como somos finitos, portanto, capazes falhar, rever escolhas,

reafirmar decisões vitais, repensar nossos atos cotidianos é condição da vida boa com os outros em

comunidades justas [Paul Ricouer]. A atenção profunda, estar presente efetivamente em tudo aquilo

43 Nascemos potencialmente pessoas, mas, nossa natureza racional e livre é atualizada nas relações que estabelecemos na vida em comum.

23

fazemos confere à ação humanidade. A ação, enfim, diferencia o ser humano de outros animais, tornando-o responsável. Aliás, racionalidade e liberdade encontram expressão na responsabilidade. Responsabilidade, aqui e agora, de cada pessoa, em cada um de seus atos, por tudo e por todos. Somos responsáveis, através de nossas ações, por cada pessoa e por todos os seres vivos. Em cada ação acontecida no tempo, através de nossa escolha e realização, todos os seres humanos e todas as expressões da vida estão presentes. Num mundo em transformações aceleradas, responderemos positivamente à possibilidade de futuro testemunhando responsabilidade. A responsabilidade é, ressaltamos, a qualidade positiva da ação humana pela qual nos tornamos pessoas e justificamos nossa esperança.

Destaque:

A AÇÃO 44

Nas reflexões anteriores tratamos da relação da conduta ética com as faculdades de conhecer e decidir livremente e vimos que aquela não pode dissociar-se destas. Quando não existe o verdadeiro conhecimento, isto é, quando não se chega a captar a essência e sentido do existente em sua autentica vigência, independentemente de sua importância para determinados fins físico-psíquicos do conhecente , não há conduta ética. Tampouco quando não há liberdade: em outras palavras, quando falta possibilidade de comandar no início da ação e, conseguintemente, de que o próprio eu se reconheça nela. Agora vamos dar um passo a mais. A conduta ética tem uma relação também necessária com a ação, já que, por natureza, tem que passar pela realidade. Esquematicamente: com o conhecimento atraio a realidade ao âmbito da consciência e me aproprio de seu significado. Com o ato da vontade livre tomo postura interiormente frente ao conhecido e me decido por uma conduta. O terceiro ato do esquema da ação, ou seja: sobre a base do conhecimento e da decisão retorno a realidade, a capto, disponho dela e lhe dou forma. Também esse ato é essencial na conduta ética. É verdade que o centro se encontra no que chamamos de consciência. É interior; mas desemboca na realidade exterior. Entretanto, a consciência ética permanece no âmbito da interioridade, está em estado de suspensão. É revogável. Não passou, ainda, pela prova que consiste em ver-se objetivada através da ação. O simples ato de consciência pode redefinir-se sempre. Mas, enquanto diz <<está é minha ideia>>, o sentido muda. E, quando passa a ação, se converte em <<coisa de fato>>: então adquire o caráter daquilo que não se pode mais anular-se e passa a prova objetiva das coisas. A ação pode apelar retroativamente à consciência (<<é que eu não pensava isto ou aquilo>>), mas, a coisa de fato é um testemunho dificilmente refutável. Nela (na coisa de fato) se revela a consciência. O observador pode decifrá-la. É certo que pode equivocar-se, e com facilidade. De outra parte, a consciência também pode errar e inclusive enganar a si mesma; e é possível que a ação, com sua completude e sua expressividade, traduza a consciência melhor do que ela mesma seria capaz. Na ação, a consciência se converte em história. A interioridade é trans-histórica ou pré-histórica, ainda que ela decida-se na história. É na ação que a consciência submete-se a esse juízo que chamamos história [

Ação, pois, significa sair do âmbito interior do conhecimento e da decisão, e passar ao realmente existente. Suas formas básicas são as seguintes: a) a expressão: uma opinião, uma impressão, um propósito abandonam o reservado da intimidade e saltam a luz pública, nos gestos e resultados observáveis. Então, já aqui podemos interpretá-la, cobra eficácia, tem consequências e provoca reações. b) A palavra: por ela não apenas se expressa uma opinião ou um sentimento, isto sim que se abre outro significado que antes era conhecido, mas mantinha-se oculto, no interior. A palavra é por fim o que define, direciona, toma postura. E, ademais, reclama a palavra do outro: palavra e palavra-resposta [diálogo]. c) A elaboração: eu capto coisas, materiais, energias, e as dou uma forma determinada: uma comida, um vestuário, um dispositivo de segurança, uma ferramenta, etc.

Também, por outro lado, a instauração e ordenação das reações humanas. As diferentes maneiras através das quais os homens se relacionam uns com os outros sobre a base do conhecimento e da decisão: desde uma simples

saudação, passando por diferentes tipos de encontro, a comunidade [

leis. A obra, o produto: nela a ideia fica plasmada e dura [permanece], o configurar, o criar.]

até formas mais complicadas de unidades sociais,

]

44 Cf. Roma Guardini. Ética. Lecciones en La Universidad de Múnich. Trad. Daniel Romero e Carlos Dias. Madrid: BAC, 2010.

p.121-122.

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APLICAÇÃO 1 O que é uma ação humana? 2 Estou efetivamente presente em cada uma de minhas ações? 3 Quais são as relações existentes entre hábito, educação e personalização? 4 O que é responsabilidade no contexto de uma teoria da ação? 5 O que caracteriza uma ação [humana]? 6 O que aprendemos com o texto de Romano Guardini? 7 Que exemplos poderiam ser dados para melhor compreendermos a descrição da Ação realizada por Guardini?

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3 RESPONSABILIDADE, DETERMINISMO E LIBERDADE

O ser humano, ser racional e livre, realiza a si mesmo através de seus atos. Atos precedidos

de reflexão, deliberados, decididos, realizados livremente e, portanto, capazes de responsabilização.

As ações morais, especificamente, não afetam, sublinhamos, somente a vida do agente, mas, também, a vida de outras pessoas. Quando as ações morais são avaliadas, é possível averiguar consequências positivas ou negativas resultantes, seu impacto sobre a vida individual, familiar e social. Desejamos, presentemente, entender o significado do que seja responsabilidade moral, cotejando a relação entre liberdade e responsabilidade, indicando as situações nas quais o agente é dispensado de responsabilização e, finalmente, analisaremos algumas teorias sobre a liberdade.

3.1 Condições da responsabilidade moral

O enriquecimento da vida moral, segundo Vázquez, supõe a conciliação entre os interesses

individuais e coletivos, bem como, a consequente ampliação da responsabilização pessoal 45 . Nessa perspectiva, atos propriamente morais não implicam, apenas, na intenção, mas nas consequências verificáveis através de sua efetivação. O agente, circunstancialmente situado, livremente decide pelo

cumprimento ou desconsideração da norma, assumindo as conseqüências de sua escolha e decisão presentes na ação efetuada. Quando julgamos uma ação moral, entretanto, verificadas as circunstâncias que a envolveram, devemos inquirir também sobre a existência de fatores capazes de inibir ou anular a liberdade do agente. Quais são, então, as condições suficientes capazes de caracterizar um ato como moral e, portanto, capaz de responsabilização? O indivíduo, primeiramente, não pode ignorar as circunstâncias motivadoras de sua ação ou as possíveis consequências decorrentes. Seu comportamento, em suma, precisa ser consciente. O ato deve encontrar, em segundo lugar, sua causa principal no próprio indivíduo, na sua vontade, e não noutro agente ou, até mesmo, em fatores internos perturbadores do seu estado consciente e livre 46 .

45 Cf. VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética (Responsabilidade Moral, determinismo e liberdade). 22. ed. RJ: Civilização Brasileira, 2002. Cap. III. p.109.

46 Se circunstâncias podem inibir ou possibilitar atos livres, é importante, pois, indagar: em que situações o indivíduo é responsável por seus atos? Ou, quando o indivíduo é isento [dispensado] de responsabilização? Declara Vázquez (2002, p.110) que, já desde os tempos de Aristóteles, contamos com uma velha resposta a essas perguntas, observadas duas condições fundamentais: “a) que o sujeito não ignore nem as circunstâncias nem as conseqüências de sua ação; ou seja, que seu comportamento possua um caráter consciente. b) que a causa dos seus atos esteja nele próprio (ou causa interior), e não em outro agente (exterior) que o force a agir de certa maneira, contrariando a sua vontade; ou seja, que a sua conduta seja livre”.

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Se o conhecimento e a liberdade, em resumo, fundamentam a responsabilidade moral, entretanto, a ignorância involuntária (a) e a privação da liberdade (c) eximem o sujeito ético de responsabilidade 47 . Estudaremos, tendo em vista o exposto, as possíveis situações nas quais o agente é isento de responsabilidade: a ignorância involuntária [a], a coação externa [b] e a coação interna [c]. Todavia, antecipamos, na maioria dos casos, o agente é responsável, pois é capaz de superar tanto a ignorância involuntária, quanto a coação interna e externa.

3.1.1 A Ignorância e a responsabilidade moral

O sujeito ético, apto a escolher, decidir e atualizar a norma ao agir conscientemente é responsável pelas consequências advindas dos seus atos. Entrementes, a ignorância das circunstâncias, da natureza e das conseqüências de uma ação isenta [ou dispensa] o indivíduo de responsabilidade moral 48 . Mas, que tipo de ignorância dispensa o agente de responsabilização? Se um motorista pretende, conduzindo seu automóvel, realizar viagem de Porto Alegre a Caxias, deve checar as condições do seu veículo. No caso de os faróis apresentarem defeito, é preciso consertá-los. Existem, logo, fatores que devem ser conhecidos e não podem ser ignorados. Há, igualmente, possíveis acontecimentos ligados a esses fatores [estado do veículo] 49 que podem ser antecipados e precisam ser previstos. Consequência negativa resultante de imprevisão, no caso examinado, é de exclusiva responsabilidade do proprietário e condutor do veículo. Devemos, também, indagar sobre a existência de fatores imponderáveis e imprevisíveis, incapazes de antecipação. Uma criança, em precoce fase de desenvolvimento cognitivo e moral 50 , poderá, eventualmente, machucar um cachorrinho [ser vivo] confundindo-o com um bichinho de pelúcia [ente inanimado / brinquedo]. Ela aprenderá, paulatinamente, que o animalzinho é um ser vivo, pois sente e reage aos possíveis maus tratos sofridos. No primeiro caso, estamos diante da ignorância voluntária, passível de

47 Afirma Vázquez (2002, p.110): “Tão-somente o conhecimento, de um lado, e a liberdade de outro permitem falar legitimamente de responsabilidade. Pelo contrário, a ignorância, de uma parte, e a falta de liberdade de outra (coerção) permite eximir o sujeito da responsabilidade moral”.

48 Conforme Vázquez (2002, p.111), “a ignorância neste sentido amplo se apresenta, portanto, como uma condição que exime da responsabilidade moral”.

49 Conhecidos os fatores [condição do carro: estado dos pneus, faróis, amortecedores, equipamentos de seguranças, freios, etc.] fatos [ou acontecimentos] podem e devem ser antecipados e evitados. Um motorista é ciente de que dirigir um veículo em condições precárias é imprudente. A capacidade de previsão, no referido exemplo, permite antecipar consequências [positivas ou negativas], bem como, prevenir acidentes.

50 Uma criança, em fase precoce de desenvolvimento cognitivo e moral, é incapaz de entender o real significado de suas ações. É preciso explicar o significado de seus atos para que possa, então, avaliar o alcance desses atos.

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responsabilização. Já, no segundo caso, estamos diante da ignorância involuntária 51 . Somente a ignorância involuntária, que envolve fatores ignorados e desencadeadores de fatos negativos imprevisíveis, isenta o agente ético de responsabilidade 52 . Existem, em conseqüência, coisas que devo prever e não posso ignorar. De outro lado, existem coisas que não posso prever e estou impossibilitado de antecipadamente conhecer. Somente a ignorância involuntária, frisamos, dispensa o sujeito moral de responsabilização 53 .

3.1.2 Coação externa e responsabilidade moral

Uma pessoa pode ser responsabilizada por um ato se, e somente se, a causa desse ato esteja dentro dela e não provenha de fora, ou seja, não tenha sua origem em algo ou alguém que a force contra a sua vontade. A coação externa, por conseguinte, anula a responsabilidade, pois, se o agente sofre coação ou pressão externa, perde controle sobre si mesmo e seus atos. A causa, estando fora do agente, em conclusão, isenta-o de responsabilidade 54 . Um condutor que, dirigindo sóbria e prudentemente, para evitar acidente vê-se, ocasionalmente, envolvido numa colisão com um terceiro veículo, pelo imponderável da situação, é isento de responsabilidade. Se num regime de exceção, uma pessoa premida pela tortura denuncia companheiros inocentes, igualmente, pela forte coação [violência física e psicológica] é isenta de responsabilidade. Quando a coação é tão forte e irresistível, quando a violência perpetrada inibe a capacidade de reação do indivíduo, nesse caso, ocorre dispensa de responsabilidade 55 . Adolfo Sánchez Vázquez, entrementes, ressalva:

51 A ignorância involuntária [ou não voluntária] supõe que o indivíduo não apenas desconhecia as circunstâncias e natureza de seu ato, mas, sobretudo, não tinha obrigação de conhecê-las. Uma pessoa que ignorando a situação clínica de um amigo portador de uma neurose lhe oferece objeto capaz de desencadear reação patológica [por exemplo: cólera], está dispensada de responsabilidade. Já, os parentes do ‘neurótico’ deveriam ter prevenido a pessoa em questão sobre o problema de seu familiar. O estado de desenvolvimento intelectual e emocional de cada pessoa, destacamos, corresponderá à proporcional responsabilidade correspondente.

52 Vázquez (2002, p.113) esclarece: “Em resumo: a ignorância das circunstâncias, da natureza ou das conseqüências dos atos humanos autoriza eximir um indivíduo de sua responsabilidade pessoal, mas essa isenção estará justificada somente, quando, por sua vez, o indivíduo em questão não for responsável por sua ignorância; ou seja, quando se encontra na impossibilidade subjetiva (por motivos pessoais) ou objetiva (por motivos históricos e sociais) de ser consciente do seu ato pessoal”. Aproveitando a explicação de Vázquez, ampliando reflexão, o nível de desenvolvimento espiritual de determinada sociedade, por exemplo, exime o individuo de responsabilização. Aristóteles, v. g., envolvido no clima espiritual de seu tempo, considerava a escravidão expediente aceitável. Entre os gregos a escravidão, ligada à guerra, era amplamente legitimada. Entretanto, embora a matriz cultural de Aristóteles o dispense de responsabilidade sobre sua posição frente à escravidão; tal isenção não nos autoriza a concordar com esse costume. A escravidão, ou qualquer forma de violação da dignidade humana, em qualquer cultura ou época, é reprovável.

53 O direito examina a responsabilidade [legal] segundo o dolo ou culpa. Um delito doloso, por exemplo, acarreta grau maior de responsabilização do que infração culposa.

54 De outro modo: se a causa foge ao poder e controle do indivíduo, elimina sua capacidade de escolha e decisão. 55 Lembramos, por exemplo, que confissões colhidas através de tortura não têm valor jurídico, devendo ser contestadas.

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vemos, portanto, que a coação externa pode anular a vontade do agente moral e eximi-lo de sua responsabilidade pessoal, mas isso não pode ser tomado em sentido absoluto, porque há casos em que, apesar de suas formas extremas, sobra-lhe certa margem de opção e, por conseguinte, de responsabilidade moral. Quando, portanto, Aristóteles assinala a falta de coação externa como condição necessária de responsabilidade moral, isso não significa que o agente não possa resistir, em nenhum caso, a esta coação e que não seja responsável pelo que faz, todas as vezes que está sob o seu poder. Se esta condição se postulasse em termos absolutos, chegar-se-ia em muitos casos a reduzir enormemente a área da responsabilidade moral. E esta redução seria menos legitima tratando-se de atos cujas consequências afetam profundamente a amplos setores da população ou à sociedade inteira 56 .

Somente coação irresistível, capaz de anular a capacidade de reação da pessoa, consequentemente, isenta o indivíduo de responsabilização. Ações criminosas, ainda que num contexto de guerra, deduzimos, são responsabilizáveis. Altas patentes do 3º Reich, no julgamento de Nüremberg, alegaram em sua defesa cumprimento de ordens superiores. A defesa de atos criminosos em nome do dever, como neste caso, é injustificável 57 . No caso exemplificado, não se verifica a ignorância involuntária ou a coação externa. Nüremberg evidencia, paradigmaticamente, situações nas quais os agentes não estão dispensados de responsabilidade moral ou legal. Poderíamos ampliar e referir outros atos que implicam em responsabilidade. Cientistas, militares e autoridades que, por exemplo, incentivaram, pesquisaram e construíram as bombas-atômicas que vitimaram as cidades de Hiroshima e Nagasaki perpetraram, igualmente, atos contra a humanidade 58 . Fica evidente que a ignorância, em certos casos, e a coação em noutros, dispensa o agente de responsabilidade moral. Cada caso, destacamos, precisa ser adequadamente analisado. Todavia, na maioria das situações de nosso cotidiano, podemos conhecer as causas e circunstâncias que envolvem nossos atos, bem como, somos capazes de superar a ignorância e resistir à pressão externa.

56 VÁSQUEZ, 2002, p.115.

57 Alegações dos expoentes nazistas estão nos anais do Julgamento de Nüremberg.

58 Hiroshima foi bombardeada em 06 de Agosto de 1945 e Nagasaki a 09 de Agosto de 1945. As duas cidades do Japão, as primeiras arrasadas pelo poderio atômico e bélico, são símbolo da irracionalidade e horror da guerra, da utilização dos recursos da ciência e da técnica segundo fins militares. Até agora, sobreviventes e seus descendentes sofrem as conseqüências da bomba atômica. Pablo Picasso, em seu imenso painel Guernica, também registrou o horror da guerra. O pueblo de Guernica foi bombardeado em 26 de Abril de 1937 pela Legião Condor da aviação alemã, em apoio ao general Franco e suas tropas, durante a guerra civil espanhola. Recursos técnicos modernos foram utilizados, ali, pela primeira vez na história. No painel, hoje em Espanha, no Museu Reina Sofia, as figuras fragmentadas e espalhadas na tela formam estranha totalidade. Para sentirmos o horror registrado por Picasso, recordamos a mãe que, tal qual nova pietà, chorando, carrega o filho desacordado em seus braços. Nüremberg, Hiroshima, Nagasaki e Guernica retratam a responsabilidade de autoridades civis e militares, pesquisadores e outros agentes diante de ações criminosas das quais não estão isentos.

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3.1.3 Coação interna e responsabilidade moral

Poderão existir atos, cuja causa esteja dentro do sujeito, e sobre os quais não poderá ser responsabilizado moralmente? Atos movidos por coação interna irresistível dispensam o agente de responsabilidade. Mas, no que consiste a coação interna? Quando o sujeito, premido por pulsão interna incontrolável, realiza ações de caráter patológico, está caracterizada a coação interna. A cleptomania, desajustes sexuais profundos e algumas neuroses, por exemplo, dispensam o agente de responsabilidade moral 59 . Nos referidos casos, o sujeito não tem consciência das motivações e da natureza dos seus atos, pois premido internamente, não pode resistir aos estímulos externos desencadeadores de pulsões internas e consequentes ações doentias. Ao que, acrescentamos, existem graus distintos para diferentes patologias. Somente profissionais capacitados, experientes e treinados 60 , após detalhado exame, podem diagnosticar a incapacidade de uma pessoa sobre seus atos. Ademais, muitas patologias são controláveis terapêutica e medicamentosamente. Situações patológicas extremas, diagnosticadas com prudência, podem, inclusive, indicar a interdição do sujeito afetado e consequente afastamento do convívio social 61 . Nas situações comentadas “a coação interna é tão forte, que o sujeito não pode agir de maneira diferente daquela que operou, e não tendo realizado o que livre e conscientemente teria querido 62 ” está dispensado de responsabilidade. Os exemplos discutidos, destacamos, ilustram situações extremas, ou seja, situações de coação interna irresistíveis por parte da pessoa afetada. Salientamos que, embora seja difícil traçar a linha divisória entre o normal e o anormal [doentio] no comportamento dos seres humanos, na maioria das vezes podemos resistir à coação interna 63 . As pessoas, cotidianamente, são afetadas por coerções internas relativas, capazes de controle racional e voluntário. A coação interna, em conclusão, não é tão forte ao ponto de se tornar incontrolável, anulando, desse modo, a vontade e a responsabilidade do agente.

59 Cf. VÁZQUEZ, 2002, p.116-7.

60 Como psiquiatras e psicólogos, por exemplo.

61 As situações de interdição de pessoas portadoras de síndromes impeditivas do convívio social são exceções, pois as patologias mentais, se adequadamente tratadas [por terapia ou medicação], podem regredir ou encontrar controle. Situações extremas, como as patologias envolvendo desajustes sexuais, podem exigir permanente interdição e privação de liberdade. Esses casos, muitas vezes, implicam na internação em institutos psiquiátricos forenses. Mas, destacamos, as patologias mentais oferecem, normalmente, maior perigo para os seus portadores do que para outras pessoas. Lembramos, ainda, que essas patologias devem ser adequadamente diagnosticadas e tratadas, pois esse é um direito de toda pessoa:

receber adequado tratamento médico. Recordamos: a discriminação de pessoas com doenças mentais é reprovável, pois se receberem a devida atenção médica, familiar e social, elas tornam-se produtivas e ativas participantes do seu núcleo social. A pessoa, enfim, não é a doença da qual padece, podendo, se receber terapêutica correta, recuperar sua saúde mental ou orgânica.

62 VÁZQUEZ, 2002, p.117.

63 Cf. VÁZQUEZ, 2002, p.117-118.

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3.1.4 Responsabilidade e situações de isenção

Responsabilidade moral, primeiramente, afirma a reflexão ética: é a capacidade de responder pelas conseqüências das próprias ações, avaliando o impacto dessas ações sobre a própria existência e, mais ainda, sobre a vida de outras pessoas. Consciência e liberdade, exercício racional preditivo dos resultados dos próprios atos 64 fundamentam a responsabilidade moral. Afinal, existimos com outras pessoas, portadoras de direitos e de respectivos deveres. A convivência familiar, laboral, acadêmica, comunitária e social supõe a partilha de responsabilidades, a comum construção de projetos nos quais objetivos pessoais e coletivos estejam conciliados. É possível discorrer sobre direitos sem relacioná-los com deveres? É viável viver com [conviver] desconhecendo nossas responsabilidades, transferindo-as? Se viver é conviver, a responsabilidade para consigo mesmo é, igualmente, responsabilidade para com o outro. Ser responsável, em segundo lugar, implica numa atitude ativa na direção do cultivo de um mundo habitável e compartilhado, no qual o cuidado para consigo mesmo aconteça, concomitantemente, com o cuidado do outro. A responsabilidade ética, enfim, deveria ser a base da responsabilidade legal, pois nela se encontra empenhada a liberdade, a capacidade de autonomia e autarquia de cada pessoa. As situações de isenção ou dispensa da responsabilidade moral, anteriormente caracterizadas [ignorância involuntária, coação externa e interna], precisam ser bem caracterizadas. Reafirmamos que, comumente, as pessoas podem conhecer aquilo que deveriam não ignorar, bem como, são capazes de resistir à coação externa e interna. Educarmo-nos à responsabilidade é, portanto, tarefa fundamental que envolve o todo de uma vida. Os seres humanos estão aptos, reafirmamos, a lidar com pressões midiáticas, a reagir contra apelos de consumo predatório, a trabalhar positivamente seus sentimentos, a resistir a pressões externas ou internas. A resistência à coação, o desenvolvimento da autonomia, a capacidade de assumir a vida como tarefa intransferível, supõe o reconhecimento das fragilidades e limites da existência humana, mas, sobretudo, o sincero desejo de autoconhecimento, a crença nas próprias qualidades e cotidiano trabalho de qualificação da existência. Na tarefa de realizar a própria vida, finalmente, estão em jogo valores traduzidos em atitudes responsáveis para consigo mesmo, para com os outros e para com o mundo que nos possibilita e acolhe.

64 Atos verificados ou avaliados segundo sua positividade ou negatividade [promovem ou prejudicam a vida individual e a vida em comum realizando, concretamente, as noções de bem e mal].

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3.2 Responsabilidade moral e liberdade

Se a responsabilidade presume possibilidade de decidir e agir contra a coação externa e interna, como devemos compreender a liberdade humana? O que é a liberdade? Como devemos pensar a relação entre liberdade e responsabilidade? É possível conciliar liberdade e determinação? Por que a liberdade não deve ser confundida com arbitrariedade? Por que a liberdade reivindica um conteúdo? No que consiste o conteúdo reivindicado pela liberdade? Examinaremos, inicialmente, três posições sobre a liberdade: o determinismo absoluto, o libertarismo e a dialética entre liberdade e necessidade 65 . A par desse estudo preliminar, trabalharemos nossa concepção de liberdade.

2.2.1 Determinismo absoluto

O determinismo absoluto propõe a tese do encadeamento universal de causas, eliminando, dessa forma, não apenas o espaço para a espontaneidade, mas, igualmente, a possibilidade da liberdade. Todo efeito reivindica uma causa anterior e, assim, sucessiva e universalmente. A tese determinista ganhou força com o advento da física mecanicista, pois essa concebia o universo como grande máquina formada por engrenagens ligadas através de complexa rede de causa-efeito, tal qual um relógio mecânico 66 . Segundo o físico Laplace “um calculador divino, que conhecesse a velocidade e posição de cada partícula do universo, poderia predizer todo o curso futuro dos acontecimentos na infinidade do tempo 67 ”. Se a concepção mecanicista é insatisfatória para explicar os fenômenos das ciências da natureza, é, sobretudo, insuficiente à compreensão do comportamento humano 68 . Não obstante, tentativas da psicologia comportamentalista 69 chegar às leis do comportamento humano, seja pelo exame laboratorial das reações de animais ou através de experiências envolvendo seres humanos;

65 Cf. VÁZQUEZ, 2002, p.119.

66 Para a física mecanicista, o universo e todos os entes e fenômenos nele contidos estariam submetidos à lei universal de causa-efeito. As regularidades existentes, representáveis matematicamente, expressariam a rede de conexões estabelecidas dentro desse mundo-máquina, revelando as regras pelas quais ‘as coisas funcionariam’. Competiria ao cientista, ao examinar esse mundo-máquina, extrair seus segredos para, então, a par do desenvolvimento da previsibilidade científica, dominar os fenômenos naturais. A denominada física quântica, aceitando a existência dessas regularidades, no entanto, demonstra que no universo há espontaneidade. No campo da Biologia, o modelo mundo-máquina é visto como inadequado, pois seres vivos não são máquinas. As máquinas, artificiais, são montáveis e desmontáveis. Os seres vivos nascem, crescem, se reproduzem e morrem. Adaptam-se criativamente aos diversos ambientes. O Princípio Gaya, ao conceber a Terra como um ser vivo, é tentativa de superação, no campo da Biologia [e da Ecologia profunda], do determinismo mecanicista proposto pela física dos modernos, pois inadequado à compreensão dos fenômenos ligados à vida.

67 LAPLACE apud VÁZQUEZ, 2002, p.121.

68 Se o modelo positivista de ciência é insuficiente para compreender a cultura, pois essa situa o ser humano no mundo, abrindo-lhe novos horizontes; tampouco é adequado à tematização das questões existenciais [como a liberdade], sendo incapaz de conceber resposta suficiente ou satisfatória.

69 Também denominada behaviorista.

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sabemos que o homem, ente biológico, é um ser-de-cultura. O estágio super-orgânico 70 situa-o no mundo, abrindo horizontes amplos e inusitados. A conquista desse estágio ou modo de ser, com as decorrentes implicações positivas e negativas, deve ser considerada no exame da liberdade. Entretanto, mesmo reconhecidas determinações impostas pela necessidade 71 , podemos reconhecer que, entre a causa e o efeito, o ser humano é causa de si mesmo. Assim, o homem não é um simples joguete do destino, sendo capaz de, na relação causa-efeito, atuar como causa de si mesmo. Sendo causa de si mesmo, salientamos, deixa de ser mero produto, para, conscientemente, responder e superar o estado de necessidade 72 . Ao descartarmos o determinismo absoluto, todavia, admitimos algum grau de determinação. A chamada determinação relativa, não apenas viabiliza a vida humana, como se faz presente no concreto exercício da liberdade. Se é preciso responder aos apelos inerentes à existência humana 73 ; verificamos, igualmente, que a liberdade é exercitada frente a escolhas possíveis, pois o homem é liberdade finita. O ser humano, enfim, finito e capaz de compreender tal condição, pode projetar-se para além de si mesmo, ultrapassar-se, vencer a necessidade e inaugurar novo estágio na sua existência individual e social.

3.2.2 O libertarismo

Segundo essa posição, ser livre significa decidir e agir como se quer ou, de outro modo, poderíamos agir de maneira diferente do realizado se assim quiséssemos e decidíssemos 74 . Explicitando: poderíamos ter decidido e agido arbitrariamente, pois o comportamento humano é, absolutamente, incausado. Contudo, se a causa da ação se encontra, exclusivamente, no indivíduo, somente poderia ter acontecido, paradoxalmente, aquilo que, de fato, sucedeu. O libertarismo e o determinismo, sublinhamos, coincidem em suas afirmações, negando o autêntico sentido da liberdade humana. A pessoa é livre, ou seja, é capaz de escolher, decidir e atuar porque, simultaneamente, é causa de si mesma segundo os limites e possibilidades existentes no seu mundo ou contexto histórico-social. A pessoa é livre, salientamos, decidindo e realizando sua existência com outros seres humanos no mundo que a acolhe e possibilita 75 .

70 Ou para além do orgânico.

71 O ser humano é finito, mortal, dotado de exigências biológicas, culturais, afetivas e espirituais a que necessita responder.

72 Cf. VÁZQUEZ, 2002, p.122.

73 O homem, segundo Martin Heidegger, é um Dasein [um ser-aí-no-mundo]. E, situado no mundo, precisa dar conta da existência, respondendo aos apelos da vida fática, correspondendo às circunstâncias e necessidades que o envolvem.

74 Op. Cit., p.123. 75 O libertarismo, ao conceber abstratamente a liberdades, ao des-mundanizar o homem, ao desconsiderar as circunstâncias culturais e históricas que possibilitam a existência, nega, tal qual o determinismo absoluto, a liberdade humana em sentido autêntico. Somos, diariamente, desafiados por inúmeros problemas que exigem reflexão, escolha, decisão e ação. Toda decisão livre implica em condicionamentos que não inibem escolha, decisão e ação. No exemplo de Vázquez (2002, p.124-5), Pedro pode associar-se ou não no protesto contra o desemprego. Pedro, desde suas

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O sujeito, no ato moral, não age arbitrariamente, estando condicionado por sua história,

caráter e circunstâncias culturais. O reconhecimento desses fatores condicionantes, presentes no comportamento humano, todavia, não elimina a liberdade de agir nessa ou naquela direção. Ao contrário, ausência de limitações e inexistência de alternativas práxicas anula a liberdade. Se tudo é possível, em conseqüência, a liberdade também é inexequível 76 . A liberdade humana, como já vimos, supõe algum grau de determinação compatível com escolhas e decisões transformadas em atos. Do exposto, verifica-se a necessidade de estudar a relação entre liberdade e necessidade 77 .

3.2.3 Dialética da liberdade e necessidade

O determinismo absoluto e o libertarismo, concordamos com Adolfo Vázquez, isentam o ser

humano de responsabilidade, seja anulando a liberdade, seja desconsiderando o conteúdo dessa liberdade 78 . Na primeira posição, submetido, inexoravelmente, às leis de causa e efeito, o ser humano é um simples joguete do destino. Na segunda concepção, predominando o acaso, novamente a liberdade é impedida. Importa verificar como, na História da Filosofia, o problema da liberdade versus necessidade foi pensado. Kant situou ou ser humano em dois mundos distintos: o mundo da necessidade e o mundo da liberdade [noumeno ou reino dos fins alcansáveis pela razão] 79 . Enquanto ente corpóreo, o ser humano estaria submetido às leis de causa e efeito, reguladoras da grande máquina do mundo. Entretanto, dotado de razão, o homem pertenceria ao reino dos fins, mundo ideal e lócus da vida moral. Imerso no reino da natureza, ente empírico, estaria submetido ao vigoroso nexo causal que governa o mundo. Mas, ente racional, capaz de intuir princípios e por eles pautar seu

circunstâncias, pode agir numa ou noutra direção. Nós, igualmente, mesmo que pressionados pela mídia e outros mecanismos, podemos, por exemplo, decidir pelo consumo responsável e não predatório. Os limites à liberdade não impedem seu acontecimento, mas facultam seu concreto exercício. Decidimos, em resumo, a partir de nós mesmos, desde nossa interioridade, mas segundo o possível.

76 Cf. VÁZQUEZ (2002, p.125-6).

77 O que é a liberdade? Por que ela inclui ou supõe algum grau de determinação? O problema proposto nas questões solicita breve reflexão sobre o sentido das expressões: necessidade, contingência e determinação. A Filosofia clássica propôs dois conceitos reivindicadores de nossa atenção: necessidade e contingência. Por necessidade entendemos aquilo que sendo não pode deixar de ser [ou não poderia não ser]. Já, por contingência, compreendemos aquilo que sendo, poderia não ser. O indivíduo humano, contingente, poderia não ter vindo à existência e um dia não mais será. Ao mesmo tempo, está submetido à necessidade, pois, enquanto existente, é um ente racional e social, capaz de indagar sobre o sentido de suas ações. A liberdade, considerados os dois conceitos, é exercício de um ser contingente que, diante do necessário [limites e possibilidades] é capaz de escolher, decidir e agir. Noutra perspectiva, o comportamento humano inclui determinado grau de determinação advindo da história de cada pessoa, da constituição do seu caráter, dos limites e possibilidade ligados à cultura ou à situação histórico-social. Todavia, esse grau de determinação não é absoluto, mas relativo. Tal grau relativo de determinação apresenta horizonte e contexto a escolhas possíveis e factíveis realizáveis pelo agente moral. Liberdade implica, concluindo, certo jogo entre contingência e necessidade, certa dialética entre liberdade e determinação relativa. A liberdade acontece, em síntese, porque um ente finito e contingente é capaz de deliberar, segundo possibilidades abertas pelo mundo que o acolhe.

78 A tese do determinismo absoluto defende: se tudo é causado, não há liberdade. Já, a proposta do libertarismo supõe o caráter arbitrário [ou inconsequente] da liberdade humana.

79 Cf. VÁZQUEZ, 2002, p.127.

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comportamento moral, estaria desvinculado da necessidade e, portanto, seria livre no reino dos fins 80 [no âmbito da razão]. O problema da tese kantiana se encontra na dicotomia entre vida empírica e vida racional. A concepção kantiana, não obstante sua insistência na autonomia moral, no entanto, ao situar a liberdade no reino dos fins e por não incidir satisfatoriamente sobre a vida concreta, se revela insuficiente. O ser humano, segundo o filósofo holandês Baruc Spinoza, sendo parte integrante da natureza, estaria sujeito às suas leis 81 . A ação do mundo externo provocaria ‘paixões e afetos’ irresistíveis. De que maneira, então, é possível desvincular-se da escravidão das pressões externas ou da necessidade? A libertação se daria pelo conhecimento e livre adesão às leis que regulam os processos cósmicos. Livre, de conseqüência, é quem se submete voluntariamente à necessidade 82 . A resposta de Spinoza é interessante, mas deficiente. A liberdade não consiste, pura e simplesmente, em sujeição consciente à natureza, mas, ao contrário, precisa ser entendida como superação gradativa da necessidade. O filósofo alemão Hegel 83 , diferentemente de Spinoza, compreendia a liberdade como gradativo processo de afirmação da liberdade, seja no plano da vida individual ou no âmbito das sociedades. A liberdade, frisamos, não é apenas consciência da necessidade, mas superação histórica dessa necessidade. Na tradição crítica inaugurada por Marx, progredindo em nossa reflexão, encontraremos importante contribuição. Para Max, a liberdade é, prioritariamente, acontecimento práxico. Liberdade não coincide, simplesmente, com a consciência da necessidade ou com sua superação histórica. Liberdade é processo consciente de transformação das relações humanas. As contradições econômicas, a separação entre pobres e ricos, o individualismo, a depredação dos recursos naturais são fatos indicativos de crise planetária 84 e submissão à necessidade. Entrementes, é possível pela ação de cada um e de todos, através da redescoberta do real significado do trabalho 85 , mediante revolução espiritual e práxica, edificar um mundo habitável a ser compartilhado por todos os seres humanos e com os outros seres vivos.

80 Ou seja: a liberdade encontraria seu lugar no âmbito formal da razão.

81 Op. Cit., p.128.

82 Ou, quem conhecendo as leis que regulam os processos naturais [a necessidade], submete-se livremente à necessidade.

83 Op. Cit., p.129.

84 Os fatos descriminados indicam a existência de crise planetária e explicitam cega submissão à necessidade. Em nossos dias, sobretudo, é preciso pensar o impacto das ciências e da técnica sobre nossas vidas, bem como, indicar a relação das tecnologias com interesses mercantis, frequentemente, inaceitáveis. Logo, se não podemos viver sem a técnica moderna, necessitamos, entretanto, perguntar: como proceder diante de suas exigências? Como conciliar os interesses das diversas populações com a preservação da casa planetária? Libertar-se da necessidade exige, contemporaneamente, repensar nossa aliança com a técnica e nossa concepção de mercado. Somos capazes de empreender mecanismos sociais capazes de gerir os mecanismos de mercado? Até que ponto, usamos, prudentemente, os objetos técnicos? Até que ponto esses objetos nos dominam? São questões que nos convidam ao exercício do pensamento.

85 O trabalho, não transforma, apenas, a natureza alheia em cultura, mas é ação criativa que, ao inserir o homem no mundo, o realiza e humaniza.

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A liberdade, em conclusão, não é, apenas, um assunto teórico: é práxis [ação consciente e transformadora] 86 . Liberdade é acontecimento da paz e justiça pelo efetivo respeito à vida nas suas diversas expressões. As diferentes instituições 87 necessitam, através de ações consequentes, adquirir sentido humano na direção de um mundo habitável. Nos dias da onipotência da técnica, de fato, a crítica marxista às diversas alienações e sua concepção de liberdade como práxis 88 nos convida à reflexão. A tensão 89 entre liberdade e necessidade nos permite entender o acontecimento fático da liberdade. No entanto, cumpre, ainda, aproximar as descobertas efetivadas com nossa existência, suas exigências e urgências.

Conclusão: Liberdade é realização do ético

Ao homem é delegada a tarefa de, no mundo e com os outros, realizar a si mesmo. Essa intransferível tarefa solicita permanente reflexão, capacidade de assumir, responsavelmente, a existência como projeto e compromisso de destinação. A liberdade, portanto, acontece no mundo, na cooperativa edificação de sua habitabilidade. Nesse contexto, distancia-se da arbitrariedade e aproxima-se da ética. Qual é, nessa perspectiva, o conteúdo da liberdade? Podemos afirmar, claramente, que o conteúdo da liberdade é a ética. A liberdade, por isso, é evento realizador do humano porque concretiza valores, assume compromissos, encontra horizonte e sentido no intransferível cultivo e cuidado do mundo. A solidariedade inalienável, capaz de congregar os humanos e demais seres planetários é, portanto, o horizonte efetivo do evento liberdade. Se a liberdade não coincide com a arbitrariedade, pois solicita conteúdo que a atualize, entretanto, é possível concebê-la, apenas, em sentido restritivo. Em ótica meramente jurídica, é permitido afirmar: ‘minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro’ ou ‘minha liberdade termina na fronteira dos direitos alheios’. Essa concepção, restritiva, aponta, tão-somente, aspectos

86 Declara Vázquez (2002, p.129-30): “Marx e Engels aceitam as duas características antes assinaladas: a de Spinoza [liberdade como consciência da necessidade] e a de Hegel [sua historicidade]. A liberdade é, por conseguinte, a consciência histórica da necessidade. Mas, para eles, a liberdade não se reduz a isto; ou seja, a um conhecimento da necessidade que deixa intacto o mundo sujeito a essa necessidade. A liberdade do homem com relação à necessidade e particularmente com relação à que vigora no mundo social não se reduz a transformar a escravidão espontânea e cega numa escravidão consciente. A liberdade não é apenas assunto teórico, porque o conhecimento, por si só, não impede que o homem esteja sujeito passivamente à necessidade natural e social. A liberdade acarreta um poder, um domínio do homem sobre a natureza e, por sua vez, sobre a sua própria natureza. Esta dupla afirmação do homem que está na própria essência da liberdade traz consigo uma transformação do mundo sobre a base de sua interpretação; ou seja, sobre a base do conhecimento de seus nexos causais, da necessidade que o rege. O desenvolvimento da liberdade está, pois, ligado ao desenvolvimento do homem como ser prático, transformador ou criador, isto é, está vinculado ao processo de produção de um mundo humano ou humanizado, que transcende o mundo dado, natural, bem como ao processo de autoprodução do ser humano que constitui precisamente a sua história”.

87 Como, por exemplo: conhecimento, estruturas políticas e econômicas, ciência e tecnologia, arte, tradições religiosas, mídias, etc.

88 Práxis: ação transformadora [individual e social].

89 Ou dialética relação.

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negativos da liberdade. Mas, antropologicamente, é viável dizer: ‘sou livre porque os outros são livres’ ou, positivando a afirmação jurídica, ‘tenho direitos porque o outro é portador de direitos e merecedor de respeito’. A segunda asserção, pensamos, colhe o sentido original e originário da liberdade e oferece perspectiva pedagógica revolucionária, pois convida ao exercício da liberdade pela efetivação do ético. Somente o apelo que brota do rosto do outro é capaz de nos desinstalar, pois, quebrando nossas possíveis resistências e atuando sobre nossa sensibilidade profunda, nos encaminha ao autêntico sentido da liberdade. Pessoas livres, portanto, capazes de compartilhar direitos e deveres, estão aptas a assumir responsabilidades decorrentes de suas escolhas, decisões e atos. A promoção da autonomia e da autarquia na direção do cooperativo cultivo e cuidado do mundo indica, em suma, o significado originário da liberdade humana. Repensar nossas concepções de liberdade segundo a responsabilidade correspondente solicita, em conclusão, que ultrapassemos interesses individualistas e corporativos, que sejamos capazes de incluir em nossas preocupações o destino dos outros e do mundo. Se existimos com os outros no mundo, a liberdade humana reivindica conteúdo ético e implica em práxis promotora da vida.

existimos com os outros no mundo, a liberdade humana reivindica conteúdo ético e implica em práxis

Texto-Complementar 03

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Texto-Complementar 03 37 Destaque Liberdade é realização do Ético “O homem é livre, mas não é

Destaque

Liberdade é realização do Ético

“O homem é livre, mas não é absolutamente livre. A liberdade é limitada por fatores biológicos, psicológicos e sócio-culturais. Quem tem saúde frágil não é livre para tornar-se um campeão de Box. Quem foi educado em São Paulo, não

é livre para pensar e sentir como um indígena da Amazônia. [ humano.

<<Mas, há ainda um outro fenômeno, que designamos de obrigação (ligação ) da liberdade. Com isto visamos um fenômeno, que não suprime e nem diminui a liberdade, antes a pressupõe e chama ao engajamento, mas lhe impõe obrigações. Experimentamos que nos vem ao encontro um valor, que exige consentimento e realização, que nos apela um dever incondicional, que talvez requer a renuncia de outras coisas, dum comportamento cômodo e habitual. Talvez desviemos dele nosso olhar e procuramos recalcá-lo, afastá-lo do campo da consciência, que requer nossa decisão livre, que impõe à liberdade um dever obrigatório. Esse fenômeno pertence às exigências fundamentais da existência humana. Por isso, ocupou sempre de novo a atenção dos filósofos de todas as épocas. É o fenômeno da moralidade >> (Emerich CORETH. Was ist der mensch? P.115].

A moralidade supõe a liberdade. Onde não há liberdade, não há moralidade. Onde se nega a liberdade individual,

Em suma, a liberdade é limitada como é limitado o ser

]

também não há espaço para uma autêntica compreensão da Ética. Bem e mal são qualidades que, em sentido primeiro, pertencem à ação livre do indivíduo, e somente em sentido análogo podem ser predicados de ambientes e contextos de estruturas socioculturais. Pode-se falar em ‘culpar coletiva’, mas somente no sentido de uma situação social que provém de culpas pessoais e que favorecem outras culpas pessoais. Com efeito, é difícil para alguém praticar o bem, quando vê continuamente o outro agir de modo imoral.

A liberdade atinge seu pleno sentido na moralidade. Este sentido ainda não está na escolha entre possibilidades

objetivas. Em cada escolha realizamos conjuntamente uma decisão sobre nós mesmos. Cada determinação é também uma autodeterminação. Optando por valores, optamos por possibilidade de nossa realização humana. E valores morais são aqueles valores que dizem respeito à realização do homem como tal. Realizando valores morais, a liberdade dá um conteúdo plenificante. <<Verdadeira liberdade é a Ética>> (Hegel, Enciclopédia das Ciências Filosóficas, §469).

Liberdade e lei não se excluem, mas se complementam. A liberdade que rejeita qualquer conteúdo normativo permanece abstrata, vazia, mera possibilidade. Doutro lado, a lei deve ser compreendida como formulação de um valor para mim e não imposição de fora. A formulação como tal é algo externo, possui a objetividade de toda realidade sociocultural. É tarefa de cada indivíduo descobrir nas normas morais um valor para ele, uma chance de participar da realidade e de encontrar-se com outras pessoas no nível da verdadeira racionalidade.

Prof. Edvino Rabuske. Antropologia Filosófica. Porto Alegre: EST, 1982. p.171-172.

DESTAQUE A dimensão social da liberdade

A possibilidade de escolha seria insuficiente, se não fosse orientada por valores fundamentais da pessoa humana, revelados e definidos através dos séculos. Um desses valores é a liberdade, sem dúvida nenhuma. Entretanto, é indispensável que haja coerência na concepção de liberdade. Com efeito, as doutrinas individualistas exaltam a liberdade individual, mas concebendo cada indivíduo isoladamente. Ora, se todos reconhecem que o homem é por natureza um ser social, é evidente que se deve conceber sua liberdade tendo em vista o homem social, o homem situado, que não existe isolado na sociedade. A Liberdade humana, portanto, é uma liberdade social, liberdade situada, que deve ser concebida tendo em conta o relacionamento de cada indivíduo com todos os demais, o que implica deveres e responsabilidade.

O problema, como se vê, não é de maior ou menor quantidade de liberdade, mas de qualidade de liberdade. A

concepção individualista da sociedade, ignorando o homem como ser social, foi fundamentalmente egoísta, pois desligou o indivíduo de compromissos sociais e, por isso mesmo, deu margem à mais desenfreada exploração do homem pelo homem, porque compreende cada indivíduo isolado na sua liberdade, procurando obter o máximo proveito para si. Assim, é inaceitável a afirmação de que a liberdade de cada um termina onde começa a do outro, pois as liberdades dos indivíduos

não podem ser isoladas e colocadas uma ao lado da outra, uma vez que as realidades estão entrelaçadas e necessariamente inseridas num meio social”.

Prof. Dalmo de Abreu Dallari. Elementos de Teoria Geral do Estado. 30. Ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

O que há em comum entre as duas posições? Qual é a específica contribuição de cada pensador?

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4 SER HUMANO: ANIMAL RACIONAL VALORATIVO

O homem é realizador de valores. Mas, o que são valores? No que consiste o juízo

valorativo? Quais são os polos e elementos presentes na ação avaliativa? Vivemos crise de valores? Em consiste essa crise? Podemos falar numa educação para os valores? O que isso significa? São questionamentos importantes e solicitadores de nosso empenho reflexivo.

4.1 Os juízos avaliativos: estéticos e morais

No que consiste avaliar? Avaliar significa: estimar, julgar, atribuir determinado valor a um objeto. No juízo valorativo está em jogo a totalidade da vida humana, mente e corpo, razão e sensibilidade profunda, liberdade e contexto cultural. No ato valorativo encontramos: o sujeito que avalia, o objeto avaliado e valor atribuído ou negado ao referido objeto. Os juízos lógico- matemáticos, por exemplo, em sua objetividade [formais], ao envolverem, predominantemente, as faculdades racionais, não implicam maiores debates. Os juízos estéticos e morais, entretanto, por abrangerem e solicitarem a totalidade da vida humana, por implicarem em posturas existenciais, por articularem complexa amalgama de elementos intersubjetivamente compartilháveis merecem nossa atenção.

Os juízos estéticos, emitidos pelo sujeito que aprecia o belo, examinam se o objeto é

agradável ou desagradável. O julgamento estético, enquanto julgamento de gosto, supõe critérios

relativos à beleza, proporção, harmonia e mensagem presentes no objeto causador da vivência estética. Se a dimensão estética é inerente à vida humana, precisa ser cultivada. Mas, é importante indagar: quais são os critérios do juízo estético? O juízo de gosto pode ser enriquecido, no percurso

da vida de uma pessoa, pelo cultivo da dimensão estética da vida? Pela aquisição de conhecimentos?

Pela elaboração de critérios avaliativos? O cultivo da dimensão estética da vida é possível, pois, assim como aprendemos a falar, escrever e a conviver com outras pessoas, também aprendemos a apreciar

o belo presente na natureza e nas obras de arte, atualizando nossa capacidade apreciadora,

buscando critérios de interpretação, realizando vivências estéticas, abrindo-nos às diversas

possibilidades de experimentar as manifestações do belo 90 .

Os juízos morais consideram os atos humanos e suas consequências. A avaliação moral,

assim, implica em julgar uma ação examinando os efeitos positivos ou negativos dessa ação sobre a vida de outras pessoas. Num juízo moral, em suma, encontramos (a) um sujeito que avalia [ou ajuíza], (b) um objeto avaliado [a ação examinada] e (c) um valor atribuível ao referido objeto

90 Belo manifestado na cultura popular, nas artes plásticas, na música, no teatro e cinema, na natureza. Há que abrir-se, conhecer e cultivar essas distintas possibilidades.

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[critério de julgamento]. No processo avaliativo entra em jogo a dialética entre o polo subjetivo da avaliação [o sujeito] e o polo objetivo dessa avaliação [a sociedade ou cultura da qual faz parte o sujeito]. A avaliação moral não é ajuizamento neutro, pois o avaliador está comprometido com o seu juízo e os critérios desse julgamento. Entretanto, quanto mais universais ou racionalmente compartilháveis os critérios dessa avaliação, tanto mais realizará o ideal da justiça, respeitando os sujeitos envolvidos nesse processo. Nos processos avaliativos, os valores são a fonte dos critérios de julgamento. Então, no que consistem os valores? Como podemos descrevê-los?

4.2 O que são valores?

Quando falamos de valores, pensamos, por exemplo, na utilidade, na bondade, na beleza, na justiça e nos seus polos negativos: inutilidade, maldade, fealdade, injustiça, etc. Os valores, é lícito dizer, se encarnam em coisas naturais, artificiais e em atos humanos. No entanto, onde encontraremos o valor especificamente moral? Para melhor compreender a gênese dos valores, examinemos o minério de prata. Se oculto na natureza, não poderá despertar nenhum sentimento ou compreensão de valor. Entrementes, quando um geólogo o encontrar, após estudá-lo, atualizará o valor potencial nele presente. No caso do geólogo, o minério revelará sua importância enquanto objeto de estudo, possibilitando aquisição de novos conhecimentos: sua idade, textura, composição química, etc. Mapeada a região, constituído um campo de mineração, após garimpo e venda, a prata denunciará seu valor econômico. O ourives perceberá na prata possibilidades estéticas. Transformada em joia, comprada e oferecida a uma pessoa, poderá ser utilizada como objeto de adorno e, com o tempo, permitirá recordar uma situação feliz. Assim, a prata, em seu percurso de inclusão no mundo, tendo sido descoberta e trabalhada, transformada e comercializada, ganha na relação com os seres humanos dimensões valorativas: cognitiva, econômica, estética e afetiva. Quem, por consequência, descobre valores? O ser humano indivíduo dotado de razão e afetos, ser social é quem descobre e atualiza o valor presente potencialmente na natureza, nas coisas, nas ações humanas. O ser humano, portanto, é um animal racional social e valorativo. É alguém que descobre e realiza valores. O que são valores? São noções racionalmente compartilháveis baseadas em descobertas efetuadas pelos seres humanos, potencialmente presentes nas realidades naturais e humanas e atualizáveis nas relações sociais. O ser humano, assim, ao descobrir, conceber e atualizar valores justifica sua existência, dá sentido ao seu estar aí no mundo. Esses valores descobertos, concebidos e

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atualizado tornam-se princípios 91 de ação e julgamento das coisas naturais, das ações e obras humanas.

4.2.1 O que são valores morais?

Nos processos valorativos julgamos coisas e ações humanas empenhando, nessa tarefa, nossa inteligência, afetividade, aquilo que aprendemos no convívio com a família e participando de outras instituições: escola, comunidade religiosa, nosso lugar de trabalho, etc. Na realização de um julgamento de valor, negamos ou atribuímos uma qualidade específica percebida no objeto avaliado. Um anel de prata poderá ser avaliado segundo seu valor comercial, segundo sua beleza, segundo as recordações que desperta ou, talvez, considerando todas essas dimensões juntas. Mas, quando um valor adquire especificamente densidade moral? O que caracteriza um valor moral? Um relógio efetiva sua natureza ao funcionar com precisão e regularidade, indicando horas, minutos e segundos. Se ele realiza suas funções com adequação, em conseqüência, o consideramos bom. Bom, assim, significa: funciona adequadamente. Da mesma forma, a energia nuclear pode ser usada radioterapeuticamente, ajudando na cura de enfermidades. No que difere, então, a bondade de um relógio da bondade de uma ação moral? A bondade moral difere da bondade atribuída a um objeto 92 , pois se encarna em ações humanas tradutoras ou reveladoras de conseqüências positivas ou negativas. O valor moral, assim, aparece nas decisões tornadas ações humanas e que manifestam conteúdo moral negativo ou positivo. A energia nuclear, como no exemplo, permite tanto sua aplicação para uso terapêutico, como a criação de bombas altamente destruidoras. A vida moral como já visto no decorrer de nosso estudo, supõe consciência e liberdade, reivindicando capacidade especifica do ser humano em antecipar idealmente o resultado de suas ações 93 . Em conseqüência, toda ação nascida da consciência e liberdade, isenta de coerção ou ignorância involuntária, realizadora da responsabilidade, capaz de afetar outras pessoas pode ser caracterizada como moral. Os valores morais, em suma, se encarnam 94 nessas ações, conscientes e livres, capazes de afetar a vida de um individuo, de um grupo de pessoas, ou de uma sociedade inteira. Quando avaliamos moralmente uma ação, por conseguinte, consideramos a capacidade de responsabilidade do agente em realizar a norma, julgando o valor realizado naquela ação, valor traduzido em conseqüências observáveis.

91 Ponto de partida: o que vem em primeiro lugar.

92 No caso da bondade de um objeto, essa bondade é indicada por seu bom funcionamento.

93 O ser humano é capaz de antecipar idealmente o resultado de suas ações, fazendo escolhas valorativas, optando por meios adequados e realizadores do fim visado. Assim, é capaz, igualmente, de responder pelas conseqüências positivas ou negativas, moralmente valiosas ou reprováveis de suas ações.

94 Os valores se encarnam, isto é, se concretizam, se realizam, acontecem.

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4.3 Os valores e o mínimo ético

Adolfo Sánchez Vázquez, no capítulo Moral e História de sua Ética, indica critérios do progresso moral. Assim, do grau de interação entre os interesses individuais e coletivos, da presença de uma vida moral nascida da vida subjetiva que venha substituir formas coercitivas de pressão comportamental, resultará maior ou menor progresso moral naquela sociedade. Vázquez enuncia a descoberta de valores autenticamente humanos ocorrida, gradativamente, ao longo da história. Amizade, veracidade, lealdade, cooperação, justiça e solidariedade são exemplos de valores revelados nos processos históricos e indispensáveis à convivência e aperfeiçoamento das sociedades. Competiria, a cada um e a todos a tarefa de compreender e traduzir em ações esses valores, contribuindo à comum construção de sociedades, nas quais, todos os seres humanos encontrem espaço de realização pessoal através de vida criativa e satisfatória. Somos capazes, de fato, de compreender e traduzir esses valores em normas? Somos capazes de instituir normas subjetiva e publicamente aceitas, aptas a responder aos problemas e exigências surgidos ao longo dos tempos? Se, de fato, esses valores descobertos ao longo da história, pela sua importância e conteúdo se impõem, como poderemos vivê-los? Como deveremos traduzi- los nas complexas relações que estabelecemos no dia-a-dia, envolvidos por conflitos econômicos, familiares e laborais? Como apresentá-los através de normas adequadas aos nossos tempos? São questões importantes, dão o que pensar. Junto dessas indagações, surge a pergunta pelo mínimo ético. Considerando que a vida em geral [e a vida humana em especial] é o valor fundamental [o maior bem], como respeitá-la? Como encontrar e viver esse mínimo ético, num mundo globalizado em processo de mundialização? 95 Onde as trocas culturais, em inúmeros casos, são superficiais? O autêntico diálogo intercultural 96 pode levar à distensão política, permitindo, dessa maneira, a descoberta de um núcleo valorativo transcultural, presente de modo implícito em todas as culturas, e capaz de estimular convivência baseada no respeito, na paz e na comum prosperidade.

95 A globalização econômica e tecnológica permitiu a mundialização, mundialização caracterizada pelas trocas culturais. Entretanto, essas trocas culturais têm sido realizadas superficialmente, levando, inúmeras vezes, ao desenraizamento, à fragmentação das identidades. A pluralidade cultural, de fato, é um bem. Mas, precisa ser cultivada a partir de autêntico e profundo diálogo intercultural, promotor da tolerância, da descoberta de elementos comuns. Entretanto, esse diálogo deverá assegurar o respeito ao específico de cada cultura. Caso contrário, vencerá a homogeneidade redutora e inibidora das diferenças, impedindo a troca de valores significativos, capazes de enriquecer a cultura humana como um todo.

96 Intercultural e inclusive, inter-religioso.

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Em nossos dias, há muitas declarações formais em defesa da vida 97 , todavia raramente elas se transformam em práxis: ação que torne habitável nosso planeta. A noção de responsabilidade planetária, em consequência, se compartilhada pelo maior número de pessoas possível, pode gerar práticas em defesa da vida, assegurando, desse modo, a possibilidade de existência humana satisfatória e, também, de futuro. Essa compreensão, da comum responsabilidade, implica em profunda mudança de concepções e atitudes: é preciso reaprender, continuamente, a escutar o outro. Precisamos nos educar e capacitar ao acolhimento do outro. Assim, aquele que visa uma vida boa com o outro, buscaria essa vida boa através da práxis 98 em instituições justas. E, se o valor da vida é inegociável, se o outro, através do apelo do seu rosto, é o ponto de partida da ética, ainda é possível aceitar a exclusão e a instrumentalização de pessoas? Perguntamos: no que consistiria uma educação para valores? Ela partiria, pensamos, da promoção e respeito da inviolabilidade da vida, nos convidando ao diálogo, despertando compromisso, preenchendo, assim, nossas ações de conteúdo moralmente valioso. Conviver implica na busca de um mínimo ético capaz de orientar nossas ações. Esse mínimo ético supõe o princípio de justiça. O princípio de justiça daria acesso aos bens mínimos indispensáveis à vida humana, como, saúde, moradia, emprego, educação e lazer. Mas, ao mesmo tempo, gradativamente, nos engajaria no cumprimento autônomo das normas. Precisamos transitar da heteronomia ética à autonomia, tornando-nos co-responsáveis pela realização da norma. Destacamos, logo, a importância de uma educação para valores ou para o mínimo ético, capaz de nos encaminhar à realização autônoma da norma, ligando direitos e deveres segundo o princípio de justiça.

4.4 O saber instrumental e o sentido: os desafios da racionalidade (uma das faces da crise de valores)

Jean Ladrière, em Desafios da Racionalidade, examina o impacto das tecnologias sobre as culturas indicando outro problema importante. A tecnologia 99 não é neutra, pois traz consigo uma gama considerável de valores capazes de alterar nossa visão de mundo, nossa práxis, nossas relações. Segundo ele, o Polo da Tradição ou do Sentido [a Filosofia, as Artes, Ciências Humanas e as Tradições religiosas] não consegue acompanhar a marcha triunfante do Polo da Tecnologia. Assim, se ao Polo da Tradição compete descobrir e propor o significado das conquistas humanas, refletindo

97 Exemplos: declaração dos direitos do homem, das crianças, dos idosos, do meio ambiente. Dessas declarações são signatários inúmeros países, entretanto, pouco se faz para que elas aconteçam, regulando, efetivamente, a vida das pessoas. 98 Através de ações orientadas por valores positivos, que considerem o outro e o princípio da justiça.

99 Variante que resulta da aliança da ciência com a técnica.

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sobre nossas possibilidades e limites; se observarmos a velocidade da incorporação de recursos tecnológicos em nossas vidas; é fácil constatar a incapacidade do Polo da Tradição de justificar os usos possibilitados pelo segundo setor da cultura. Não sabemos o que fazer com aquilo que podemos fazer, eis nosso dilema. A razão instrumental acredita que em nome do progresso 100 , todos os procedimentos seriam lícitos ou legítimos, desconsiderando os danos humanos e ambientais decorrentes. Ao perdermos o poder crítico originado no Polo da Tradição, caminhamos rumo a uma vida cada vez mais autômata e menos autônoma e autárquica, vivendo, não a partir de nós mesmos, mas segundo as leis ditadas pela tecnologia segundo os interesses do mercado. Exigências traduzíveis pela aceleração de nossas vidas, pela hiperatividade funcional, pela irrefletida adesão às exigências da sociedade de consumo. Consuma-se, assim, o divórcio entre ética [agir bem] e técnica [fazer bem] com suas conseqüências negativas sobre a vida de todos nós. E nossa cultura, não tendo mais encontrado satisfatória relação entre a razão reflexiva [Pólo da Tradição] e a razão instrumental [Pólo da Tecnologia] não mais nos oferece sentido de pertença e possibilidade de futuro.

4.5 A Tarefa dos Valores Morais [Éticos]: penetrar e significar os outros valores

Podemos, também, falar de hierarquia de valores, pois existem várias espécies de valor, que entre si são heterogêneos, ou seja, não são diretamente comparáveis. Max Scheler, na sua teoria material dos valores, lembra-nos que a valoração implica em apreensão afetiva de qualidades presentes nas coisas, produtos e ações humanas. Segundo Coreth 101 podemos estabelecer uma hierarquia de valores, partindo dos menos perfeitos aos mais perfeitos. Descobriríamos a existência de I) Valores vitais [saúde, beleza, prazer, etc], II) Valores especificamente humanos, não-morais [econômicos, estéticos, intelectuais], III) Valores morais [éticos]. Para além do debate sobre a objetividade ou subjetividade dos valores afirmávamos que os valores são percebidos afetiva e intelectualmente pelo indivíduo humano [ente social] e são a fonte dos critérios dos juízos éticos e morais. O que acrescenta Coreth? Os valores éticos, presentes nas escolhas e ações, imprimem direção e orientação aos demais valores. Todos os demais valores precisam, portanto, da orientação dos valores morais [éticos]. A inteligência instrumental pode, por exemplo, produzir tanto a bomba atômica quanto aparelhos de radioterapia. Os valores éticos orientarão a inteligência na direção da aplicação humana e solidária das possibilidades inauguradas pela pesquisa científica. À dimensão ético-valorativa da vida humana compete em cada decisão e escolha orientar a práxis na direção do outro, salvaguardando e promovendo a vida. Necessitamos, assim, de educação para valores éticos [morais] que possam ser vividos e efetivamente

100 Progresso, aqui, é sinônimo de avanço tecnológico. 101 Cf. RABUSKE, Edvino. Antropologia Filosófica. Porto Alegre: EST, 1981. P. 172-173.

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testemunhados nas múltiplas relações que constituem a existência dos seres humanos num mundo a ser habitado e edificado.

Breve conclusão

Ao individualismo crescente, entretanto, surge possibilidade de autêntico cultivo da subjetividade, considerando valores promotores da vida em geral e do ser humano. É-nos oferecida oportunidade de, em nossas ações, realizarmos valores. O acontecimento da justiça, da verdade, da solidariedade e da cooperação é vital para o ser humano. Educação para valores permitirá, transitarmos de uma cultura do individualismo e da violência à cultura de paz e respeito. Somos, assim, convidados a realizar valores em nossa vida pessoal e social, valores que, penetrando a dimensão tecnológica da vida, sejam capazes de questionar automatismos e alienações, despertando a reflexão e o compromisso para com o outro. Educação para valores, cultivo de uma cultura da paz é condição indispensável para visarmos, conforme Aristóteles, a vida boa com o outro em instituições justas. Nossa práxis [o conjunto de nossas ações individuais e coletivas] poderá alcançar a justiça na direção da vida boa com o outro. Nessa direção, importa indagar: Quem é o outro? O que é a justiça? Como tecer, através de nossas práticas, instituições justas? No que consiste a educação para valores? Por que essa educação supõe a superação da heteronomia e dos automatismos? Se oscilamos em nossa existência entre heteronomia e autonomia, porque a autonomia é o horizonte de nossas buscas, realizações e orientação ética? Estudaremos a seguir, nessa perspectiva, a contribuição de Lawrence Kohlberg à compreensão dos estágios do desenvolvimento moral.

Texto Complementar 04 A Pesquisa de Kohlberg

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A PESQUISA DE LAWRENCE KOHLBERG SOBRE OS ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO DA MORALIDADE

Barbara Freitag 102

O nome de Lawrence Kohlberg (1927-1987) ficou de tal modo associado aos estudos da moralidade

que muitos autores lhe atribuem, equivocadamente, o papel de formulador da teoria da psicogênese da moral.

Poucos sabem ou admitem que Kohlberg construiu seu trabalho teórico, metodológico e até mesmo educacional sobre os alicerces lançados por Piaget. Poucos sabem ou admitem que Kohlberg foi um aluno lato

e stricto sensu de Piaget. Verdade é que foi um excelente aluno. Examinou os pressupostos da teoria moral de

Piaget e desenvolveu a teoria e a metodologia, dando à pesquisa científica sobre a moralidade um peso e uma estatura sem precedentes. Kohlberg confirmou e consolidou a tese do paralelismo entre lógica e moral, a teoria dos estágios, a universalidade dos processos cognitivos e morais, reformulou a metodologia e a teoria, reforçou a pesquisa intercultural no campo da moralidade e desenvolveu programas de educação moral nos coleges e nas universidades americanas.

A pesquisa sobre a moralidade do adolescente e do adulto realizada no Centro de Harvard pode hoje,

equiparar-se em volume e seriedade, à pesquisa sobre o pensamento lógico-matemático desenvolvido pelo Centre d’Epistémologie Génétique de Genebra. Por isso mesmo, vale a pena dedicar um tópico especial aos

trabalhos de Lawrence Kohlberg, sua equipe e seus seguidores.

As inovações metodológicas de Kohlberg

Kohlberg concentrou sua atividade de pesquisa em adolescentes e adultos e não em crianças (como Piaget). Por trás dessa opção, havia uma crítica, facilmente comprovada pelos estudos empíricos. A psicogênese da moralidade infantil não estava concluída aos 12-13 anos, como imaginava Piaget. A maturidade moral possivelmente só é atingida (se tanto) 10 anos depois, pelo adulto. Essa constatação levou Kohlherg a reformular a teoria dos estágios e a elaborar uma metodologia de levantamento e codificação dos dados sobre

a moralidade bem mas sotisticada que a desenvolvida por Piaget no julgamento moral na criança (1932).

Para estudar com maior precisão a passagem de um estágio psicogenético a outro, Kohlberg realizou uma série de estudos longitudinais. O mais conhecido é sobre a psicogênese da moral de 75 meninos e rapazes (idade inicial: de 10 a 16 anos) de Chicago, cujo desenvolvimento foi acompanhado durante 15 anos. Os meninos/rapazes eram entrevistados de três em três anos, permitindo, assim, a reconstrução (nos mesmos sujeitos) dos diferentes estágios do julgamento moral. No final da pesquisa, esses sujeitos tinham atingido a

102 Texto de FREITAG, Barbara. “Moralidade e educação moral”. In:

moralidade. SP Campinas: Papirus, 1997. p.192-207.

Itinerário de Antígona. A questão da

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idade entre 25 e 30 anos. O mesmo procedimento foi aplicado durante 6 anos a um grupo de adolescentes

turcos e a jovens judeus que viviam em um kibutz em Israel (cf. Kohlberg, 1976).

Kohlberg também resolveu substituir as historietas paralelas usadas por Piaget para analisar o

julgamento moral da criança, suas noções de justiça e punição por histórias contendo sérios conflitos ou

dilemas morais, de cunho existencial. Os sujeitos entrevistados eram solicitados a julgar a ação dos

protagonistas da história, conforme sua opção por uma ou outra alternativa, dentro da situação de conflito.

Um dos conflitos mais usados, debatidos, analisados e codificados foi o “dilema de Heinz”. A historieta

tomada como ponto de partida para a entrevista clínica posterior (no sentido piagetiano já explicitado) é a

seguinte:

<<A mulher de Heinz estava à morte, pois tinha câncer. Somente un remédio, que o farmacêutico da cidade tinha descoberto, poderia salvá-la. Mas o farmacêutico estava cobrando uma fortuna pelo remédio, que estava dez vezes acima do seu preço de custo. Heinz, o marido da mulher enferma, pediu dinheiro a todos os amigos, mas só conseguiu juntar a metade do que solicitava o farmacêutico pelo remédio. Explicou então a este a situação. Contou-lhe que a mulher estava morrendo e pediu que vendesse o remédio pela quantia que obtivera ou que permitisse pagar o restante mais tarde. Mas o farmacêutico foi implacável, não se dispondo a vender o remédio senão pelo preço inicialmente estipulado. Heinz, desesperado, resolveu arrombar a farmácia

e

levar o remédio para a mulher. Heinz estaria agindo corretamente? Justifique seu ponto de vista>> (cf. Colby

e

Kohlberg, 1987, vol. 2, p. 1).

Outros dilemas ou conflitos são apresentados e estudados, como o caso de um navio que afunda. No

escaler encontram-se três sobreviventes: o capitão, um marinheiro jovem e inexperiente e um cientista velho.

O equipamento e as reservas de combustível e alimentação para assegurar o salvamento efetivo dariam para

somente duas pessoas. Um dos três sobreviventes teria de saltar ao mar. Quem deveria tomar a decisão? Qual

deles? Quais seriam os argumentos a favor e contra em Cada um dos casos.

Um dilema envolvendo mentira, autoridade e lealdade é o “dilema de Louise”. Judy, de 12 anos,

queria ir a um concerto de rock. A mãe já tinha dado autorização, desde que Judy pagasse a entrada com seu

dinheiro. Judy trabalhou como babá e conseguiu juntar a soma necessária. Nesse meio-tempo, a mãe havia

mudado de idéia, esperando que Judy gastasse o dinheiro ganho em roupas de que necessitava. Alegando

visitar uma amiga, Judy foi ao concerto. Uma semana depois, confessa para Louise, sua irmã mais vella, que

mentiu para a mãe. Louise deve silenciar ou comunicar o incidente à mãe? Como poderia justificar uma ou

outra decisão? (cf. Colby e Kohlberg, 1987, vol. 2, p. 281).

Como Piaget, Kohlberg e suas equipes utilizaram-se da entrevista clínica, do diálogo com

argumentação e contra-argumentação, mas também de discussões em grupo sobre os dilemas acima relatados,

gravados em teipe e vídeo, a fim de permitir o estudo, em detalhe, da fala, da mímica, dos gestos de cada

interlocutor. Esse material serviria de base para determinar o estágio moral atingido pelos entrevistados ou

membros do grupo.

47

À medida que os estudos avançavam, Kohlberg passou a explorar simultaneamente três perspectivas

para classificar e codificar o riquíssimo material colhido. Na primeira, foi considerado o valor moral defendido,

ou seja, o conteúdo intrínseco dos argumentos apresentados. Nessa perspectiva, foram diferenciados os

conteúdos: punição, propriedade, papéis (afetivos ou de autoridade) assumidos, lei, vida, liberdade,justiça

(punitiva ou distributiva), verdade e sexo. Na segunda ótica, a atenção foi concentrada nas justificativas dadas

pelos interlocutores para sustentar um julgamento, ou seja, foram examinadas a estrutura e a coerência da

argumentação apresentada. E, finalmente, na terceira ótica, procurou considerar a orientação sociomoral tal

como conscientizada pelo sujeito (cf. Colby e Kohlberg, 1987, vols. 1 e 2).

A teoria psicológica da moralidade desenvolvida por Kohlberg e suas equipes emerge de uma

reformulação metodológica e teórica permanente, em que fica difícil dizer de qual dos pólos partiu o impulso

para a renovação. Mas visto que os procedimentos metodológicos definem os limites, o grau de diferenciação e

abstração adotado para captar os dados da realidade, as opções metodológicas implicam recortes de uma

suposta realidade empírica que fornece material que impõe reformulações teóricas e vice-versa.

Reformulações teóricas de Kohlberg

Em sua tese de doutorado (1958), Kohlberg defende a necessidade de reformular os estágios da

moralidade sugeridos por Piaget, introduzindo um modelo mais diferenciado de seis estágios que substituiriam

os três estágios piagetianos: da heteronomia, da semi-autonomia e da autonomia moral. Essa reformulação

decorria da evidência empírica e da opção metodológica de ampliar o limite de idade dos sujeitos observados.

Piaget se havia contentado com o estudo do julgamento e da consciência moral de crianças pequenas, até o

início da adolescência. Kohlberg resolveu concentrar a atenção em adolescentes e adultos, cuja consciência,

julgamento e comportrnnento moral apresentavam diferenças substantivas em relação às crianças menores de

12 a 13 anos.

A teoria dos seis estágios lançada em 1958 por Kohlberg e defendida até o final da década de 1960 (cf.

Kohlberg, 1969) estava longe do grau de diferenciação, reflexão e consolidação da teoria apresentada na

década de 1980 (cf. Kohlberg et al. 1983, Colby e Kohlberg, 1987, vol. 1), mas já introduzia reflexões teóricas

importantes, como a distinção clara entre forma e conteúdo da argumentação e a diferenciação em seis

estágios, compreendidos como totalidades estruturadas, seguindo uma seqüência invariável e ordenando-se

em patamares hierárquicos.

Os estágios originariamente discriminados com auxílio da entrevista clínica ou discussão de grupo em

tomo do “dilema de Heinz” eram os seguintes:

estágio Orientação para a punição e a obediência. Respeito diante da autoridade ou do prestígio de superiores, tentativa de evitar conflitos. Responsabilidade objetiva.

estágio Orientação ingênua e egoística. A ação correta é a que atende às necessidades do Eu e

possivelmente do outro, instrumentalmente. Consciência da relatividade do valor de uma necessidade e da

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perspectiva dos demais, envolvidos na ação. Igualitarismo ingênuo e orientação para a troca e a reciprocidade.

estágio Orientação para o ideal do bom menino, preocupado em obter a aceitação e o reconhecimento dos outros. Conformidade com as representações estereotipadas do comportamento coletivo. Julgamento de acordo com as intenções.

estágio Orientação para a preservação da autoridade e da ordem social. Preocupação de cumprir o dever, demonstrar respeito à autoridade e à ordem como tais. Consideração pelas expectativas dos outros.

5º estágio Orientação legalista-contratual. Reconhecimento de um componente aleatório das regras. Expectativas como ponto de partida para o consenso. Dever é definido como contrato. Busca evitar a violação dos direitos e das intenções dos outros. Defesa da vontade e do bem-estar da maioria.

estágio Orientação por princípios. Transcende as ações contidas em papéis sociais e inclui a orientação segundo princípios universais. Ação conforme à própria consciência, com base na confiança e no respeito pelos outros (Kohlberg, 1969, p. 376).

Os dois primeiros estágios são típicos de uma consciência moral para a qual o valor moral reside em

acontecimentos externos: quase físicos (as xícaras quebradas etc) e não em pessoas e princípios. Nos dois

estágios subseqüentes, a consciência moral atribui valor moral à conformidade da ação em relação às

expectativas e aos papéis socialmente definidos pelos outros (grupo). Somente nos últimos dois estágios a

consciência moral passa a atribuir um valor moral à coerência interna do ator e aos padrões, direitos e deveres

que ele próprio define para orientar sua ação.

Nas publicações posteriores, Kohlberg integra em sua cognitive-developmental theory of moralization

elementos novos provenientes de três fontes: suas pesquisas empíricas (incluindo programas de educação

moral), seus estudos teóricos (abarcando a filosofia clássica e contemporânea) e as críticas de seus

comentadores e opositores (cf. Kohlberg, 1983; Colby e Kohlberg, 1987, vol. 1).

Sua teoria mantém a tese central de que há uma seqüência de estágios morais invariantes, assim

como existe essa seqüência para o pensamento lógico-matemático. Como neste, a estruturação da consciência

moral também ocorre em patamares cada vez mais elevados e mais bem equilibrados, decorrentes da

interação do organismo com seu meio. Kohlberg acredita que sua teoria é mais abrangente do que a de Piaget,

porque pressupõe as estruturas lógico-matemáticas para construir os novos patamares da consciência moral,

produzindo uma transformação da relação do sujeito com a sociedade em cada patamar, impondo

reformulação dos próprios conceitos de eu e sociedade.

Por isso a teoria do desenvolvimento cognitivo de Kohlherg postula que o julgamento moral coincide

com um processo de role taking (assunção de papéis), em que emerge uma nova estrutura lógica em cada

estágio, paralelamente aos estágios do pensamento desenvolvidos por Piaget. Essa estrutura pode ser

formulada como noção de justiça. Em cada patamar, essa estrutura é mais abrangente, diferenciada e

equilibrada que no anterior. Por isso urna estrutura subseqüente é capaz de julgamentos e argumentações

para os quais a estrutura anterior ainda não tinha competência (Kohlberg, 1976 pp. 163 e 195).

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A segunda versão da Teoria da Moralidade de kolhberg (1983)

Em sua nova formulação da teoria dos seis estágios morais, Kohlberg distingue três grandes níveis da

moralidade: o pré-convencional, o convencional e o pós-convencional. No nível pré-convencional, são

diferenciados dois estágios: o estágio 1 [a moralidade heterônoma] e o estágio 2 [individualismo, intenção

instrumental e troca]. Neste nível, a criança é sensível às regras sociais, distingue o bem e o mal, o certo e o

errado, mas interpreta essas caracterizações ou como conseqüências físicas ou hedonísticas da ação (punição,

recompensa, troca de favores), ou como poder físico dos que formulam as leis que definem o bem, o mal, o

certo, o errado.

No nível convencional, Kohlberg diferencia o estágio 3 (expectativas interpessoais, relações e

conformidade interpessoal) e o estágio 4 (sistema social e consciência). Neste nível é considerado valioso em si

preservar as expectativas da família, do grupo ou da nação a que pertence o sujeito. Trata-se não de mera

conformidade mas de lealdade para com as expectativas pessoais e a ordem social. Trata-se de preservar,

apoiar e justificar essa ordem, identificando-se com as pessoas e os grupos que a compõem.

No nível pós-convencional ou nível regulado por princípios, são distinguidos os estágios 5 (contrato

social ou utilidade e direitos individuais) e 6 (princípios éticos universais). Neste nível, há o esforço visível de

definir valores e princípios morais que tenham validade independentemente da autoridade de grupos ou

pessoas que os sustentem e independentemente da identificação do sujeito com essas pessoas ou grupos.

Cada um dos seis estágios é caracterizado, nessa nova versão, conforme três óticas: o conteúdo do que é

considerado correto/certo, as razões apresentadas para agir corretamente e, finalmente, a perspectiva

sociomoral (egocentrismo-descentração).

Estágio 1 Moralidade heterônoma. (a) É considerado correto (moralmente certo) abster-se de violar regras que acarretem punições, obedecer por obedecer (for its own sake) e evitar danos físicos em pessoas e em bens (propriedades). (b) A razão dada para defender esses valores consiste em evitar as punições e as sanções da autoridade. (e) A perspectiva sociomoral adotada é o ponto de vista egocêntrico. O sujeito não considera o interesse dos outros ou não reconhece que o ponto de vista deles difere do seu. O sujeito percebe os aspectos físicos da ação e não sua dimensão psicológica. Não distingue entre a própria perspectiva e a perspectiva da autoridade.

Estágio 2 Individualismo, intenção instrumental e troca. (a) É considerado correto seguir as regras somente quando é do interesse imediato próprio, agir para atender às próprias necessidades, deixando os outros agir da mesma maneira. Também é considerado correto ser leal com os colegas, manter um trato ou um acordo. (b) As justificativas dadas consistem em servir ao próprio interesse, atender a uma necessidade pessoal em um mundo em que os outros também têm seus interesses e necessidades próprias. (c) A perspectiva sociomoral é individualista e concreta, O sujeito está consciente de que cada um procura realizar seus próprios interesses e estes podem conflitar entre si. O correto é relativo e depende da perspectiva adotada pelo indivíduo concreto.

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É

considerado correto comportar-se conforme o que as pessoas que nos são próximas esperam, atender às suas expectativas em papéis como o de filho, irmão, amigo etc. Ser bom é importante e significa ter bons motivos, preocupar-se com os outros. Significa, ainda, manter relações mútuas (confiança, lealdade, respeito, gratidão). (b) A razão ou justificativa apresentada para agir corretamente é a necessidade de ser uma boa pessoa a seus próprios olhos e aos olhos dos demais. Há um desejo de manter as regras e a autoridade que apóia o comportamento bom estereotipado. (c) A perspectiva adotada é a do indivíduo em relação com outros indivíduos. Sentimentos, acordos e expectativas coletivas têm prioridade em relação aos interesses individuais. O sujeito relaciona os pontos de vista valendo-se da regra de ouro, pondo-se no lugar do outro. Ainda não considera uma perspectiva generalizada do sistema.

Estágio

3

Expectativas

interpessoais

mútuas,

relações,

e

conformidade

interpessoal.

(a)

Estágio 4 Sistema social e consciência. (a) Está certo cumprir com as obrigações assumidas. As leis precisam ser respeitadas e seguidas, exceto em casos extremos em que elas entram em conflito com outras normas sociais. Também está certo empenhar-se pela sociedade, pelo grupo ou pela instituição. (b) As razões apresentadas para justificar tais ações são manter as instituições como um todo, evitar o desmoronamento do sistema se cada um fizesse o que bem entendesse, ou, ainda, cumprir as obrigações conforme nos foi ensinado. (c) O sujeito adota uma perspectiva sociomoral que diferencia o ponto de vista da sociedade do ponto de vista dos acordos ou motivos interpessoais. O sujeito assume o ponto de vista do sistema que define os papéis e as regras. As relações individuais são percebidas na perspectiva do lugar no sistema.

Estágio 5 Contrato social ou utilidade e direitos individuais. (a) É correto estar atento ao fato de que as pessoas defendem uma variedade de valores e opiniões e a maioria desses valores e regras é relativa ao grupo. Geralmente, essas regras relativas devem ser respeitadas simplesmente porque fazem parte do contrato social, e isso insere-se no interesse da imparcialidade. Alguns valores universais, como vida e liberdade, precisam ser defendidos, independentemente da opinião da maioria. (b) Como razões para agir de maneira moralmente correta são apontadas a obrigação com a lei, a necessidade de respeitá-la para o bem- estar de todos e o contrato social. Há uma preocupação com a fundamentação racional das leis e dos deveres segundo o princípio “o maior bem para o maior número de pessoas”. Existe o sentimento de um compromisso contratual no qual se entrou por livre e espontânea vontade com relação a família, amigos, companheiros de trabalho. (c) A perspectiva adotada pelo sujeito é a da prioridade relativa do indivíduo em relação ao social. O indivíduo racional dá-se conta de valores e direitos prioritários em relação aos vínculos sociais e aos contratos. Integra as perspectivas por mecanismos formais de acordo, contrato, imparcialidade objetiva. Considera os pontos de vista moral e legal, reconhece que eles às vezes chocam-se e considera difícil integrá-los.

Estágio 6 Princípios éticos universais. (a) É considerado correto seguir princípios éticos auto- selecionados. Leis particulares e acordos sociais são válidos, porque eles apóiam-se em tais princípios. Quando as leis violam esses princípios, age-se de acordo com o princípio. Trata-se de princípios universais de justiça: a igualdade dos direitos humanos e o respeito à dignidade dos seres humanos como pessoas individuais. (b) As justificativas para agir de modo moralmente correto fundamentam-se na validade de princípios morais universais e na convicção de haver um compromisso com esses princípios. (e) A perspectiva adotada é a de um ponto de vista moral, isto é, a de qualquer ser racional que reconhece como natureza da moralidade o fato de que as pessoas são fins em si mesmos e precisam ser tratadas como tais (cf. Kohlberg et ai., 1983, vol. 1, pp.

18-19).

Comum à antiga e à nova versão da teoria dos seis estágios é o caráter de teoria dura: uma seqüência

invariante de estágios, organizados segundo uma hierarquia, em que cada um forma uma totalidade integrada

que absorve o anterior, mostrando-se esse novo estágio mais equilibrado, integrado e competente que os

precedentes. Isso significa, como significava para Piaget no caso do pensamento lógico, que crianças,

adolescentes ou adultos que atingiram os níveis superiores da escala de Kohlberg (isto é, da consciência moral

pós-convencional) apresentam estruturas cognitivo-morais mais equilibradas que crianças ou adolescentes em

níveis inferiores (da moralidade pré- ou convencional).

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Isso significa, por sua vez, que aquelas têm mais competência intelectual e moral para resolver conflitos morais que essas, simplesmente porque são capazes de recorrer a todos os argumentos cognitivamente necessários para optar por uma das alternativas, procurando assumir o ponto de vista de todos os envolvidos (role taking) e reduzindo danos e efeitos colaterais.

Dessa argumentação teórica resulta uma argumentação moral e prática: não é somente desejável como é também recomendável atingir o último nível da moralidade (pós-convencional). Alcançá-lo passa a ser um objetivo e uma exigência que decorre da própria teoria e impõe-se por um moral point of view. Segundo Kohlberg, essa exigência tem uma dupla fundamentação: a psicológica e a filosófica (cf. Kohlberg, 1981, pp.

219-220).

Do ponto de vista psicológico, amparado pela pesquisa empírica, pode-se afirmar que os indivíduos procuram alcançar os estágios mais elevados da argumentação racional e da justificativa moral. Valendo-se do mecanismo da abstraction réfléchissante, sublinhado nos trabalhos do Piaget maduro, o indivíduo transcende, por necessidade e por impulsos internos, os patamares da organização mental e moral, atingidos graças à sua interação com o mundo da natureza e da sociedade. Assim como a criança abstrai de suas experiências com os objetos do mundo externo as categorias quantidade, qualidade, modalidade ou relação, ela também abstrai das experiências com o mundo social princípios de ação (moral) que transcendem a experiência da regra social vivida. Por isso mesmo, Kohlberg pode afirmar que as propriedades de uma regra moral social divergem de um princípio moral. O princípio moral é o único que pode garantir uma consciência moral integrada, ao contrário da regra moral social, simplesmente porque as regras morais (como no caso do dilema de Heinz: “não roubes” e “não deixes um ser humano morrer gratuitaniente”) podem existir e ter legitimidade social, mesmo estando em conflito entre si ou sendo mutuamente excludentes. Esse não é o caso do princípio moral. O princípio moral fornece uma regra ou um método que permite priorizar as regras morais sociais, justificando a opção por uma em detrimento de outra.

A exigência e a necessidade de atingir o nível da moralidade pós-convencional ainda se legitimam e impõem do ponto de vista filosófico, porque os últimos dois estágios implicam a defesa de princípios morais universais ou universalizáveis, segundo os princípios da filosofia moral de Kant ou Rawls. Esse ponto de vista insiste na decisão racional e justificada de reduzir ao mínimo o conflito entre duas regras morais, procurando pôr em prática a mais desejável e consistente (isto é, a menos conflitante) para todos, segundo o princípio universal de justiça.

Há, portanto, na visão de Kohlberg, uma convergência entre a teoria psicológica da moralidade e a filosofia da moralidade de tradição kantiana. A psicologia é capaz de comprovar empiricamente a existência de diferentes estágios da consciência moral que seguem numa seqüência invariável, apresentam uma estrutura integrada em cada estágio, os quais ordenam-se hierarquicamente. A psicologia ainda fornece uma explicação para essa gênese: trata-se de fatores biológicos (de hereditariedade e maturação), de fatores sociais (de

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socialização e transmissão cultural) e, finalmente, de mecanismos de auto-regulação e equilibração interna que conjuntamente promovem a psicogênese das estruturas cognitivas e da consciência moral.

Paralelamente à explicação psicológica, Kohlberg admite a justificativa filosófica que converge com as tendências (empíricas) apontadas pela psicologia. Kohlberg fala de um isomorfismo da psicologia e da filosofia moral. Enquanto a psicologia estaria descobrindo os pontos de vista morais, a filosofia ocupar-se-ia dos contextos de justificativas desses pontos de vista. “Isso implica que a justificativa do filósofo em favor de um estágio do raciocínio moral mais elevado integra-se com a explicação do psicólogo do movimento em direção a esse estágio, e vice-versa. A hipótese de isomorfismo é plausível se acreditarmos que o ser humano em desenvolvimento e o filósofo moral estão empenhados, fundamentalmente, na mesma tarefa moral” (Kohlberg, 1981, p. 195).

Piaget admite um paralelismo entre a psicogênese do pensamento lógico e a psicogênese da moralidade, conforme nossa exposição no tópico sobre Piaget, ao passo que Kohlberg não se contenta com esse mero paralelismo. O atingimento do pensamento lógico-formal é uma condição necessária mas não suficiente para o atingimento do nível da moralidade pós-convencional. O equilíbrio moral nesse nível pressupõe duas condições ou processos ausentes no campo do pensamento lógico-formal. “Primeiro, o julgamento moral impõe a necessidade do role taking, isto é, da tomada do ponto de vista dos outros, concebidos como sujeitos, e da coordenação desses pontos de vista.” E, segundo, “os julgamentos morais equilibrados envolvem princípios de justiça ou fairness” (Kohlberg, 1981, p. 194). Dessas duas condições decorre uma nova qualidade para as estruturas da consciência moral que pressupõem estruturas lógicas novas e mais complexas que as estruturas do pensamento formal.).

Fiel a Kant, Rawls, Dewey, Mead e outros, Kohlberg atribui à razão prática, ou seja, à consciência moral pós-convencional, orientada pelo princípio da justiça, um valor moral superior à razão téorica, ou seja, à estrutura do pensamento lógico-formal, porque trata-se de um raciocínio (moral) mais complexo e diferenciado do que o raciocínio lógico. Não há nem paralelismo nem equivalência; há diferença de grau e qualidade. O raciocínio moral é um raciocínio mais rico, pois envolve, além dos objetos e de suas coordenações, os sujeitos, seus pontos de vista e suas relações entre si e a consideração dos efeitos de um ação sobre todos os participantes da situação.

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Quadro Resumo dos estágios de Kohlberg 103

α) No nível pré-convencional temos:

estádio 1: “a orientação de castigo e de obediência”;

estádio 2: “orientação instrumental e relativista”;

β) No nível convencional:

estádio 3: “a concordância interpessoal ou orientação a ser bom menino ou boa menina”;

estádio 4: “a orientação da lei e da ordem”;

γ) No nível pós-convencional:

estádio 5: “a orientação legalista do contrato social”;

estádio 6: “a orientação por princípios universais e éticos”.

54
54

5 CRITÉRIOS DA AVALIAÇÃO MORAL [O que é o Bom?]

O ser humano, animal racional social e valorativo, cotidianamente julga fatos, produtos e

ações. Avaliar, assim, consiste em atribuir determinado valor a atos ou produtos humanos 104 . No processo avaliativo, encontramos três elementos: a) o valor atribuível, b) o objeto avaliado, c) o sujeito que avalia 105 . O sujeito que avalia atos ou produtos humanos é, sempre, indivíduo concreto, inserido num determinado mundo ou contexto cultural, capaz de conceber e hierarquizar valores. Ao experimentarmos contentamento estético, recompensados, atribuímos determinado grau de beleza a uma obra de arte. O elogio, dirigido a um relógio pelo seu eficiente funcionamento, implica num julgamento de valor. Nos dois casos foram realizadas avaliações valorativas, pois atribuímos qualidades aos objetos analisados. Mas, o que caracteriza uma avaliação moral? Quais são os critérios através dos quais realizamos uma avaliação moral?

5.1 O caráter concreto da avaliação moral

Se a avaliação é ato de atribuir, por um sujeito humano, valor a atos ou produtos humanos, quais são as condições concretas dessa avaliação? O que caracteriza essa avaliação como moral?

O valor, critério do julgamento, em primeiro lugar, não é concebido abstratamente, como se

existisse num mundo à parte, mas brota da vida vivida, nasce das descobertas de um sujeito em relações, capaz de reflexão e ação. O sujeito avaliador inserido no mundo, envolvido por estruturas econômicas e simbólicas é, ao mesmo tempo, condicionado por sua pertença e capaz de pensá-la e

transcendê-la. Os valores são descobertos e realizados pelo homem, ser racional e práxico, capaz de realizá-los. A objetividade dos valores, que os torna pensáveis e compartilháveis, encontrará, na capacidade humana de percebê-los, concebê-los e enunciá-los, seu vetor subjetivo e nas coisas e ações situadas no mundo ou sociedade, seu vetor objetivo. A objetividade, finalmente, histórica e socialmente construída, poderá ser caracterizada como social. Os objetos avaliados, portadores de qualidades morais, em segundo lugar, são atos propriamente humanos, capazes de afetar positiva ou negativamente outras pessoas. O comportamento animal e os objetos inanimados não podem ser objeto de avaliação moral. Ao mesmo tempo, aqueles atos que não implicam em consequências para outras pessoas, também estão isentos de avaliação moral.

104 Cf. VÁZQUEZ, A avaliação moral, 2002, p. 153.

105 Ibidem.

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Somente são avaliáveis, do ponto de vista moral, em breve conclusão, ações humanas realizadas livre e conscientemente, orientadas por valores e realizadoras de valores, capazes de responsabilização, ou seja, isentas de coação externa ou interna e livres de ignorância involuntária. A avaliação moral é, portanto, ação pela qual se atribui ou nega positividade a um objeto. O objeto da avaliação moral são os atos humanos e suas consequências benéficas (positivas) ou maléficas (negativas), elogiáveis ou condenáveis. A avaliação moral supõe um contexto histórico e cultural que a possibilita, tornando-a concreta e práxica 106 . Os conceitos de bom ou mau, nesse processo judicativo, se implicam: bom é o que promove a vida humana na direção da realização da vida, de suas dimensões e possibilidades; mau é aquilo que impede a vida humana, obstaculizando-a, prejudicando-a. Bom e mau são, por isso, conceitos auto-referidos e empiricamente verificáveis. Enquanto o bom é traduzível em conquistas, crescimento, plenitude, vida; o mau é percebido pelos prejuízos verificados. Bom e mau, assim, são conceitos axiologicamente 107 referidos, inseparáveis e opostos.

5.2 O Bom como Valor

Avaliamos atos ou produtos humanos segundo determinada concepção do que seja o bom. Mas, no que consiste o bom? Compete, agora, visitar a história da Filosofia e analisar as respostas de algumas escolas éticas sobre o conteúdo do bom.

5.2.1 O Bom como felicidade [Eudemonismo]

O bom, segundo Aristóteles [384/383 a.C 322 a.C], é a felicidade ou eudaimonia 108 . A felicidade dependeria da plena realização de todas as capacidades humanas, ou seja, da atualização máxima de nossas faculdades sensitivas, racionais e sociais. Aqueles seres humanos que, tendo suas necessidades básicas atendidas, poderiam dedicar-se ao exercício da ciência e Filosofia, bem como, estariam aptos a atuar no campo político. A felicidade seria exercício de autodomínio: vida segundo a justa medida e realizadora da excelência somática, intelectual, espiritual e política. Quando a razão governa o corpo, quando a temperança, a justiça, a coragem via prudência [razão prática / frônesis] orientam o agir, nascem condições à vida intelectual e política. O anthropos, ao realizar sua natureza

106 Sobre o caráter concreto e histórico da avaliação moral, Vázquez (2002, A avaliação moral, p. 154) indaga: qual é o conteúdo atribuído ao trabalho? Nas sociedades eminentemente mercantis, o trabalho é compreendido, apenas, como mercadoria. Noutras sociedade, onde as contradições entre trabalhador e propriedade privada dos meios de produção já foram enfrentadas, o trabalho passa a ser visto como fonte de criatividade e constituição do humano. Nessas sociedades, o trabalho já não é mais um peso, porém modo de ser do homem, ganhando, desse modo, conteúdo positivamente moral.

107 Axiologicamente: concebíveis do ponto de vista de uma teoria do valor.

108 Cf. VÁZQUEZ, 2002, A avaliação moral, p. 158-160.

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[essência], enquanto animal racional e político alcançaria a felicidade. A eudaimonia [felicidade], como já referimos, corresponde à vida segunda justa medida, vivida na posse de si mesmo através de atos moderados [autarquia] e na direção da atualização das dimensões éticas [virtudes morais], dianoéticas [virtudes intelectuais] e política [participação na vida da polis / cidade estado ou comunidade política]. O filósofo grego, de fato, compreendeu que a realização do bom implica em condições econômicas capazes de atender nossas necessidades básicas, pois ninguém é feliz quando oprimido pela necessidade. Tendo as condições básicas de vida resolvidas, o ser humano poderia dedicar-se ao estudo e à vida em sociedade, atualizando, assim, sua natureza. Entretanto, preso ao horizonte de seu tempo, acabou Aristóteles por excluir da plena realização [eudaimonia], mulheres, estrangeiros e escravos. Em nossos dias, surge outro problema: como determinar o conteúdo da felicidade? Numa sociedade marcada pelo individualismo, em que domina a noção de propriedade privada 109 , onde o individualismo é traço de caráter social, como devemos pensar a felicidade? Diante dessas indagações, a tese de que a felicidade é o único bom fica prejudicada por sua excessiva generalidade. Todavia, a contribuição de Aristóteles se encontra na afirmação de que a satisfação das condições materiais é indispensável à realização da vida humana (a), a justa medida deve ser alcançada no agir (b), a vida humana compreende três dimensões integradas, ou seja, a vida ética é condição à vida teórica e completa-se na participação política (c). Realizar o bom ou alcançar a felicidade em cada ato humano e durante a totalidade de uma vida, sublinhamos, supõe gozar de direitos econômicos mínimos sem os quais a liberdade se torna inviável e a vida humana acontece diminuída.

5.2.2 O bom como prazer [Hedonismo]

O sentido da vida ou o bom se identificaria com o prazer 110 . O que é o bom? Aquilo que causa prazer. O que seria o prazer? a) um sentimento ou estado afetivo agradável que acompanha nossas experiências, por exemplo, o encontro com um amigo, a visão de uma obra de arte. b) Sensação agradável provocada por certos estímulos corpóreos e sensoriais, como, a causada pelo consumo de um copo de vinho.

109 Muitas vezes esquecemos o primado do social sobre o privado, pois domina a compreensão da propriedade privada em sentido absoluto. Lembremos: sobre cada propriedade privada pesa uma hipoteca social. Assim, tanto o público como o privado estão a serviço do bem comum.

110 Cf. VÁZQUEZ, 2002, A avaliação moral, p.160-164.

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Ao identificarem o prazer com o bom, os hedonistas se referem ao primeiro sentido. O Filósofo grego Epicuro (341 a.C 270 a. C) 111 , fundador da Escola do Jardim, afirmava que deveríamos cultivar os prazeres mais elevados, causadores de resultados mais permanentes e duradouros, como, verbi gratia, ler um livro, estudar Filosofia. Os prazeres intelectuais e estéticos, de fato, são mais amplos, profundos e duradouros que os prazeres ligados ao comer, ao beber, às práticas sexuais. Buscar o prazer e evitar a dor, procurar nos prazeres elevados o bom, eis a máxima hedonista. A tese dos epicuristas antigos foi defendida, na modernidade, por filósofos empiristas 112 . Quatro teses são por eles defendidas 113 : a) todo prazer é intrinsecamente bom; b) somente o prazer é intrinsecamente bom; c) a quantidade da experiência do prazer define o bom; d) a qualidade da experiência do prazer determina o bom.

a) Todo o prazer é intrinsecamente 114 bom.

A tese geral de que todos os seres humanos procuram o prazer e buscam evitar a dor está correta. Entretanto, ao separar o prazer das consequências [todo prazer é intrinsecamente bom], os novos hedonistas erram, pois não podemos salvar o prazer isolando os resultados alcançados. Assim, o prazer causado pela vingança não pode, pois, ser separado da própria vingança. O prazer, do ponto de vista moral, somente terá sentido, se o julgarmos não intrinsecamente [a partir de si mesmo], mas extrinsecamente, indagando por suas conseqüências.

b) Somente o prazer é intrinsecamente bom

111 Ao classificar os prazeres (cf. REALLE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia. 3. ed. São Paulo:

Paulus, 1990. v. I. p.247), Epicuro propõe a seguinte discriminação: 1) prazeres naturais e necessários à conservação da vida (comer quando se tem fome, beber quando se tem sede, etc.); 2) prazeres supérfluos [comer bem, beber comidas refinadas, vestir-se com sofisticação, etc.]; 3) prazeres não naturais e não necessários ou vãos (ligados à riqueza, fama, poder, honras, etc.). Os prazeres responderiam aos desejos surgidos no interior do homem. Os primeiros prazeres, segundo Epicuro, são os únicos habitualmente

satisfeitos, pois têm por natureza um preciso limite: eliminado o desconforto, suprida a necessidade, o prazer cessa de crescer. Os desejos do segundo grupo, por não terem limite preciso, por não cessarem com a supressão da dor do corpo, por continuarem a existir, poderiam provocar danos. Os prazeres do terceiro grupo [voltados à alma e não ao corpo] são causa de enormes desajustes e perturbações. Epicuro recomenda, enfim,

o cultivo regrado dos prazeres, descrevendo os perigos apresentados pelo cultivo dos prazeres supérfluos e não-naturais. O filósofo do Jardim recomenda vida moderada, cultivada segundo a ordem da natureza e na

direção das autênticas necessidades da alma. O filósofo do Jardim, justamente por isso, elogia o exercício filosófico e a contemplação estética, pois essas atividades seriam fonte de tranqüilidade, ordenamento, prazer

e felicidade duradouros.

112 Notadamente os filósofos ingleses modernos, para os quais o processo do conhecimento encontraria seu ponto de partida no exercício perceptivo sensorial ou empírico. O empirismo moderno releu as teses antigas adaptando-as, dando-lhes novo sentido.

113 Encontramos duas teses fundamentais (a e b) e outras duas teses derivadas (c e d).

114 Em si mesmo.

58

A segunda tese dos novos hedonistas procura eliminar a linha divisória entre o bom e mau

em sentido moral. Bondade e maldade teriam significado meramente instrumental 115 . É deveras complicado sustentar essa versão. Dois exemplos podem ajudar no entendimento da inconsistência dessa posição: i) é possível atribuir positividade ao prazer experimentado por um assaltante desconsiderando a dor da vítima? ii) é consequente separar o prazer de uma noite de boêmia da ressaca do dia seguinte?

c) Hedonismo quantitativo e d) Hedonismo qualitativo

Os hedonistas quantitativos, ao defenderem a duração do prazer ou os hedonistas qualitativos, ao postularem a intensidade do prazer também se equivocam. Como é possível mensurar a duração ou intensidade de um prazer? Quais seriam os critérios objetivos dessa mensuração? Verificamos, a partir dos questionamentos precedentes, a impossibilidade em sustentar a asserção de que a bondade de um ato ou vivência seja proporcional à quantidade de prazer que possa causar. Tampouco é possível realizar mensuração qualitativa. Como medir estímulos qualitativamente agradáveis que resultem de experiências morais, políticas ou estéticas? 116

O hedonismo ético, ao reduzir o bom às reações psíquicas ou vivências subjetivas, revela a

impossibilidade moral de avaliar esse bom. A escola hedonista, partindo do fato de que todos os

seres humanos buscam o prazer e evitam a dor, incide na falácia reducionista de que somente o prazer é bom 117 . O prazer somente é bom, assim inferimos, examinadas as consequências e verificadas as implicações pessoais e sociais de suas experiências de prazer.

5.2.3 O Bom como boa vontade (Formalismo kantiano)

O filósofo alemão de Königsberg, Immanuel Kant (1724 1804), pretendia fundar uma moral

exclusivamente racional, desconsiderando pressupostos metafísicos ou religiosos, pensada a partir da autonomia do sujeito racional 118 .

115 Bom e mau seriam, apenas, noções operatórias e desvinculadas da vida real, na qual ações apresentam conseqüências.

116 É inviável, por exemplo, comparar a intensidade e duração dos prazeres usufruídos num concerto sinfônico e num show de música popular. Quais critérios e índices permitiriam tal mensuração e comparação? 117 Ou seja: de um fato [todos os seres humanos procuram o prazer e evitam a dor] deduz-se um juízo de valor que ganha foro de exclusividade e universalidade [na totalidade da vida, somente o prazer é o bom]. considerada a totalidade da vida, somente o prazer é o bom]. 118 Cf. Guy Durant (Introdução geral à bioética. 2. ed. São Paulo: São Camilo / Loyola, 2007. p. 276-7): segundo Kant, todo ser humano, enquanto ser racional, poderia viver a dimensão moral da existência autonomamente. Os seres humanos seriam capazes de conceber postulados pelos quais orientariam suas existências. Destacamos: 1) age somente segundo a

59

O bom deve ser algo incondicionado, sem restrição alguma, que não dependa de circunstâncias ou condições que nos escapem 119 . O único bom, sem restrições e incondicionado é a boa vontade. Mas, no que consiste a boa vontade? Ela não é um desejo, não consiste em mera intenção, não é uma inclinação. A boa vontade é a decisão de agir conforme as exigências incondicionais da razão. Se empiricamente estamos submetidos às leis da natureza, entretanto seres racionais pertencemos ao reino dos fins [alcançáveis pela razão]. Por conseguinte, não basta agir em acordo com o dever [ex., cumprir o prometido], mas é preciso agir por dever. Uma pessoa pode cumprir o prometido visando vantagens, por temer as consequências. Aquele que age racionalmente, somente considera o dever e age por e pelo dever, desconsiderando inclinações [afetos, sentimentos] ou outras variáveis que poderiam contaminar a decisão de agir racionalmente. O bom, somente se concretizará, quando agirmos não por inclinação, mas pelos ditados da razão: por, com e pelo dever. Quando a vontade decide cumprir o dever que se apresenta imperativa e categoricamente, acontece a vida moral. A vontade [boa], logo, livremente cumpre a ordem [imperativa] que se apresenta como categórica [evidente: racionalmente capaz de ser aceita por todo e cada ente racional, sem reservas]. O único que é moralmente bom é, portanto, a boa vontade: a vontade que age não só de acordo com o dever, mas pelo dever 120 . Dever determinado unicamente pela razão. Por seu caráter excessivamente formal, pela separação entre vida concreta e vida racional, observa Adolfo Vázquez, essa concepção do bom [identificada com a boa vontade] é, muitas vezes, contraditória. Um mesmo ato, segundo Vázquez, paradoxalmente, se motivado pelo dever ou por uma inclinação afetiva, seria, ao mesmo tempo, moral e imoral. Por que ajudamos uma pessoa? Movidos pelo sentido do dever? Por um sentimento? Por ambos os motivos? Segundo Kant, moralmente válida [e boa] seria a ação causada pelo dever [por uma decisão racional]. Uma ação motivada por um sentimento não apresentaria, assim, positividade moral. Concordamos em parte com Vázquez, pois as normas precisam ser adequadas às situações nas quais se aplicam. De outro lado, entretanto, Kant contribui decisivamente à proposição do mínimo ético, pois devemos reconhecer que seres racionais podem compartilhar princípios éticos autonomamente concebidos. Immanuel Kant, superada a dicotomia vida empírica e vida racional, contribui à demonstração do mínimo ético, tão importante na vida em sociedades plurais.

60

5.2.4 O Bom como o útil [Utilitarismo]

No que consiste o útil? Útil para quem? Para além do egoísmo ético e do altruísmo ético, encontramos o utilitarismo [pragmatismo ou consequencialismo] 121 . O bom ou o útil seria encontrado no útil e vantajoso para maior número de pessoas 122 . Mas, como conciliar os meus interesses com os interesses dos demais, quando esses interesses são conflitivos? O utilitarismo aceita a tese do sacrifício pessoal, da própria felicidade em favor de uma comunidade inteira. O utilitarismo avalia as consequências, por isso pode ser chamado de consequencialismo. Um ato será bom (ou útil), portanto, consideradas as consequências, independentemente do motivo ou intenção que levou a concretizá-lo. Mas, como e com quais critérios podemos antecipar e avaliar as conseqüências de um ato moral? O que é o útil? É a felicidade? O prazer? Consiste na satisfação das necessidades básicas? Na realização de direitos mínimos capacitadores da liberdade? Como calcular e determinar esse útil? Como pensar a relação entre meios e fins? Se para Jeremy Bentham (1748 1832) 123 o prazer é o unicamente bom, se para Stuart Mill (1806 -1873) 124 a felicidade é o unicamente bom [felicidade para o maior número de pessoas], se para G. E. Moore 125 o bom é uma combinação de prazer e felicidade como determinar, qualificar e quantificar o que é o prazer, a felicidade ou uma pluralidade de bens [para maior número de pessoas]? Que fatores entrariam no cálculo utilitarista? O bom é uma questão de cálculo? Ademais, quando pensamos a felicidade para maior número, não deveríamos pensá-la para todas as pessoas? O útil ou bom permite exclusões? Podemos conceber a felicidade de alguns negligenciando a felicidade dos outros? Quais são as condições antropológicas e sociais da felicidade? Contemporaneamente, quando, através de leitura equivocada, reduzimos as teses utilitaristas ao egoísmo ético: é possível sustentar a proposição de que a felicidade é resultado do consumo? A leitura reducionista da máxima utilitarista, transmutada em maior felicidade possível para um maior número de pessoas através do consumo irresponsável, predatório e excludente pode ser eticamente justificada? Tal tradução cotidiana da máxima utilitarista é moral e eticamente

121 Segundo o Utilitarismo, podemos e devemos buscar a conciliação entre os interesses pessoais e os interesses da sociedade. Se o altruísta sacrifica a si mesmo, considerando as necessidades da comunidade; se o egoísta visa, apenas, satisfizer seus desejos; o utilitarismo propõe interessante conciliação entre os legítimos interesses do individuo e os legítimos interesses da coletividade. Buscar o bom, assim, implica em conciliar os interesses do individuo e os interesses do grupo social ao qual ele pertence. O sacrifício pessoal, nessa perspectiva, somente se justifica, quando as conseqüências dessa ação altruísta se revelam benéficas à totalidade social. Salientamos: o utilitarismo está longe do egoísmo ético, situação psicológica que contempla, apenas, a satisfação desmedida dos desejos e ambições de um indivíduo narcisisticamente descomprometido e abstratamente separado da sociedade.

122 Ibid. p.168-171.

123 Cf. VÁZQUEZ, 2002, A avaliação moral, p. 168-171.

124 Ibidem.

125 Para Moore, segundo Vázquez (2002, p.170), o útil resulta de uma pluralidade de bens intrínsecos que nossos atos podem causar, dentre eles, o prazer e a felicidade. Moore, portanto, pertence a escola do utilitarismo pluralista.

61

justificável? Reconhecemos, entretanto, que os utilitaristas não concordam com a redução do útil a critérios exclusivamente mercadológicos, bem como, o utilitarismo clássico rejeita a tese que confunde a felicidade com o consumo irresponsável.

5.3 Breve reflexão

Definir o bom e descrever seu conteúdo é desafio permanente. Entretanto, para além dos limites existentes nas diversas teorias sobre o bom como valor, destacamos algumas descobertas.

Para Aristóteles, o bom é pensado na perspectiva da plena realização do humano e na direção da felicidade possível. Em seus aspectos positivos, a doutrina epicurista identifica o bom com

o prazer regrado e, sobretudo, com os prazeres elevados. Kant supõe a capacidade humana em viver

segundo princípios racionais compartilháveis e fundadores de contrato social exequível. Os utilitaristas pensam na conciliação entre os interesses individuais e coletivos. Ao abordarmos as diferentes teses, tendo explicitado suas contradições, acabamos, também, por encontrar diferentes contribuições que, se adequadamente pensadas, podem auxiliar-nos na tarefa cotidiana de determinar e avaliar o bom realizado e buscado em cada ação.

Conclusão

Rotineiramente avaliamos, sobretudo, ações alheias. Atribuímos ou negamos caráter positivo ou negativo a essas ações. Trabalhamos, muitas vezes, com conceitos pouco refletidos e, muitas vezes, julgamos pessoas e situações arbitrariamente. Quais são os critérios pelos quais avaliamos as pessoas e suas ações? Qual é a origem desses critérios? São racionalmente defensáveis? Avaliamos, com igual rigor, nossas próprias ações? Predomina, em nossos dias, concepção reducionista do útil, identificado com o prazer instantâneo. Vivemos tempos de irrefletido egoísmo ético, pois o individualismo exacerbado impede

a sadia convivência com outras pessoas e o autêntico cultivo da subjetividade. Entrementes, muitas

pessoas inquietas e preocupadas procuram entender nosso mundo, indagando pelo sentido e racionalidade de suas ações e vidas. Essas pessoas continuam a perguntar pela essência do bom, pois buscam realizá-lo em suas existências. Portanto, é importante indagar: em que consiste a essência do

bom, critério de nossos juízos morais? Onde encontraremos esse bom? A esfera do bom, segundo Vázquez 126 , deve ser procurada: a) numa relação peculiar entre o interesse pessoal e o interesse geral; b) na forma concreta que essa relação assume historicamente.

126 Cf. VÁZQUEZ, 2002, A avaliação moral, p.172-175.

62

É necessário, então, conciliar os interesses individuais com os interesses coletivos, percebendo que a afirmação da individualidade é um processo histórico e cultural. Em nossos dias, consequentemente, precisamos transcender a concepção mercantil de subjetividade, baseada em trocas interesseiras e na satisfação causada pelo consumo. Necessitamos reafirmar nossos compromissos com a totalidade social, redescobrindo a responsabilidade para com o outro, alimentando essa subjetividade com conteúdo ético.

A afirmação de autêntica subjetividade pressupõe, igualmente, ultrapassagem de concepção

abstrata e burocrática de sociedade, na qual o individual é absorvido pelo geral, em que a pessoa é

desconsiderada em sua história, expectativas e capacidades 127 .

O bom se efetiva, sobretudo, pela incorporação ativa de cada indivíduo na vida social, pela

sua real contribuição às transformações necessárias e capazes de assegurar os direitos básicos e inalienáveis de cada pessoa. O bom se efetiva pelo acontecimento da solidariedade, da cooperação, da ajuda mútua. O bom acontece quando, ao afirmar meus direitos individuais, descubro a relação entre meus direitos e os direitos do outro. Sou capaz de direitos, portanto, porque o outro é portador direitos. Trabalharei, consequentemente, pelo efetivo atendimento das necessidades fundamentais de cada pessoa. A compreensão de que direitos implicam em deveres, de fato, é ganho considerável. Realizamos o bom, portanto, quando ao nos distanciarmos de perspectiva egoísta, somos capazes de nos colocar no ‘lugar do outro’, desenvolvendo atitude de respeito e práticas promotoras da vida. Partindo dessa afirmação, seria interessante, ao avaliarmos ações alheias, perguntar pelo sentido de nossos próprios atos. Nossas ações consideram o outro, sua história, necessidades e expectativas? O outro é visto como fim em si mesmo ou instrumento de nossos interesses? Quais são os critérios que orientam nossas práticas? A satisfação imediata de interesses individuais é o critério exclusivo de nosso agir? Efetuar essas perguntas, questionar a si mesmo, indagar pela legitimidade das práticas sociais, considerar e avaliar a relação entre o individual e o social, criticar os conceitos que orientam nossa busca de realização ou felicidade, pensamos, é extremamente importante. A reflexão ética sobre nossas práticas morais cotidianas, e sobre nossos consequentes julgamentos,

contribuirá à educação da dimensão ética da existência e ao exercício de vida moral mais autônoma

e responsável.

e ao exercício de vida moral mais autônoma e responsável. 1 2 7 Nessa direção, o

127 Nessa direção, o público e o privado são expressões da vida em sociedade. O público e o privado devem, prioritariamente, buscar o bem comum. Assim, as instituições públicas não podem ser privatizadas segundo interesses corporativos; à iniciativa privada compete, igualmente, realização de suas finalidades sociais. Compreensão equivocada da relação entre o público e o privado, pensamos, é danosa aos indivíduos e à sociedade.

Texto-

Complementar 05

O QUE É O BOM?

63
63

Destaque (a) Aristóteles e a vida boa

Aristóteles define o bem como aquilo que convém ao indivíduo humano, realizando sua natureza nas dimensões orgânica, racional e política. O bem é atingido, em consequência, pela ação segundo a virtude [que atualiza a virtude]. Mas, no que consiste a virtude ou excelência? Na justa medida determinada pela Phronesis [razão prática] em cada circunstância. Afirma Aristóteles:

A virtude [ou excelência, grifo nosso], portanto, é disposição de caráter concernente à escolha que

consiste em um meio, isto é, o meio relativo a nós, sendo determinado por um princípio racional e por aquele princípio pelo qual o homem de Sabedoria prática a determina [Pronesis ou Prudência]. Não obstante trata-se de um meio entre dois vícios [extremos, g.n.]: um que depende do excesso e outro que depende da falta. Além disso, é um meio porque os vícios, respectivamente, ficam aquém ou excedem o que é correto tanto nas paixões quanto nas ações, enquanto a virtude tanto encontra

como escolhe aquilo que é meio termo [justo meio, g.n.]. Portanto, com respeito ao que ela é, isto é,

à definição que afirma a sua essência, a virtude é um meio e, com respeito ao que é melhor e

Com relação a sentimento de medo e confiança, a coragem é o meio;

dentre as pessoas que excedem, aquela que excede na ausência de medo não recebe nenhum nome

(muitos dos estados não têm nenhum nome), ao passo que aquele que excede em confiança é temerária e aquele que excede em medo e tem pouca confiança, é covarde. Com relação aos

prazeres e as dores nem todos dentre eles, e não tanto com respeito às dores o meio é a temperança, o excesso é a autoindulgência. Pessoas deficiente com relação aos prazeres são encontradas com frequência; portanto tais pessoas também não recebem nenhum nome, mas

chamemo-las de insensíveis. [

linhas gerais, a saber, que elas são meios e elas são disposições do caráter [ethos, nosso grifo],

tendem por sua própria natureza , à realização dos atos pelos quais são produzidas, estão em nosso poder e são voluntárias e agem como a regra correta prescreve. Porém, as ações e as disposições de caráter não são voluntárias da mesma maneira; afinal somos senhores de nossas ações desde o começo até o fim, se conhecemos os fatos particulares, mas, embora controlemos o início de nossas disposições de caráter, o progresso gradual não é obvio, não mais do que ele o é nas doenças;

Retornemos

chamamos

aquilo que é em si mesmo digno de ser buscado mais final do que aquilo que é buscado por causa de alguma outra coisa, e aquilo que jamais é desejável por coisa de algo mais final do que as coisas que são desejáveis tanto em si mesmas quanto por causa daquela outra coisa, portanto chamamos de final absolutamente aquilo que sempre é desejável em si mesmo e jamais por causa de outra coisa. Ora, tal coisa, acima de tudo o mais, é tida como sendo a felicidade; afinal, nos a escolhemos sempre por si mesma e jamais por causa de alguma outra coisa, enquanto a honra, o prazer, a razão

e toda a virtude escolhemos, de fato, por si mesmos (pois, se nada resultasse a partir deles, ainda

porque estava em nosso poder agir dessa maneira, as disposições são voluntárias. [ novamente ao bem que estávamos buscando e perguntemos o que ele pode ser [

Com relação às virtudes em geral afirmamos o seu gênero em

correto, ela é um extremo [

].

]

]

]

assim deveríamos escolher cada um deles), mas, também os escolhemos por causa da felicidade, julgando que, através deles, seremos felizes. A felicidade, por outro lado, ninguém escolhe por causa desses, nem, em geral, por qualquer coisa diferente dela mesma 128 .

A razão prática [phonesis] determina o justo meio [mediania]. A justa medida difere tanto do excesso quanto da carência. Se as paixões [de phatos / passividade] despertam sentimentos, cumpre a phronesis torná- las virtude ou excelência. No domínio de si [temperança, coragem, etc.], na relação com os outros [justiça] e na busca da Sabedoria o anthropos ambiciona atingir a felicidade. As virtudes, buscadas por si mesmas, entretanto, coincidem com a felicidade, fim último da existência. Há confusão, todavia, na determinação do que seja a felicidade, pois muitos identificam os meios [riqueza, fama, etc], com a própria felicidade. Mas, somente uso adequado dos meios [bens relativos], pensados na direção de vida autárquica, filosófica e política proporciona realização [atualização da essência humana = felicidade]. Quem cultiva amigos [somente] por causa de suas riquezas, fama, posição social, é interessante destacar, possivelmente os perderá quando tais bens transitórios caducarem / forem perdidos.

128 ARISTÓTELES. Ética a Nicomaco apud. BOUNJUR, Laurence e BAKER, Ann. Filosofia. Textos Fundamentais Comentados. 2. ed. Trad. Maria Carolina dos Santos Rocha e Roberto Hofmeister Pich. Porto Alegre: ARTMED, 2010. p. 481-492.

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A Sabedoria, todavia, parece coincidir em instância última ou final , com a felicidade, pois, buscada

por si mesma é o único bem que pode acompanhar-nos na totalidade de nossas vidas, sendo a medida de todas as coisas [a medida das medidas]. Nessa direção, a vida boa coincide com a gratuita, comunitária e ininterrupta

procura da Sabedoria. A busca da Sabedoria, pois, compromete o indivíduo com a realização do bem comum na comunidade política, já que a felicidade de cada um acontece no convívio com outros seres racionais. A amizade filosófica, finalmente, é a única capaz de durar e unir pessoas segundo a partilha do conhecimento e a construção da vida boa na polis.

DESTAQUE B Epicuro e os prazeres elevados

O filósofo do Jardim, Epicuro, não obstante creditar o bem somente ao prazer, constata que todos

os seres humanos buscam o prazer e procuram evitar a dor. Privilegia, salientamos, os prazeres elevados, como

vemos quando afirma

Chamamos ao prazer o princípio e fim da vida feliz. Com efeito, sabemos que é o primeiro bem, o bem inato e que dele deriva toda a escolha ou recusa e chegamos a ele valorizando todo o bem com critério do efeito que nos produz. Nem a posse das riquezas nem a abundância das coisas nem a

obtenção de cargos ou poder produzem a felicidade ou bem-aventurança; produzem-na a ausência de dores, moderação nos afetos e a disposição de espírito que se mantenham nos limites impostos pela natureza. A ausência de perturbação e de dor são prazeres estáveis; por seu turno, o gozo e a alegria são prazeres de movimento, pela sua vivacidade. Quando dizemos, então, que o prazer é o fim, não queremos referir-nos aos prazeres dos intemperantes ou aos produzidos pela sensualidade, como creem certos ignorantes, que se encontram em desacordo conosco ou não nos compreendem, mas ao prazer de nos acharmos livres de sofrimento do corpo e de perturbação da alma. Alguns dos desejos são naturais e necessários; outros são naturais e não necessários; outros nem naturais e nem necessários, mas nascidos de uma vã opinião. Aqueles desejos que não trazem dor se não são satisfeitos são necessários; o seu impulso pode ser facilmente posto de parte, quando parecem

trazer alguma perturbação. [

E considerando um grande bem bastar-se a si próprio, não com o fim

de possuir sempre pouco, mas para nos contentarmos com pouco no caso de não possuirmos muito, legitimamente persuadidos de que desfrutam da abundância do modo mais agradável aqueles que menos necessidades têm, e que é fácil tudo o que a natureza quer e difícil o que é a vaidade 129 .

]

O filósofo do jardim, Epicuro, concorda com Aristóteles de que o ser humano, naturalmente, foge da

dor e procura o prazer. Em nossos dias, todavia, estamos distantes da concepção hedonista clássica, pois confundimos, comumente, o prazer com estados de euforia e gozo, sobretudo, vividos no ato de consumir coisas. Ávidos que estamos em consumir, somos estimulados a transformar, inclusive, nossas relações interpessoais em experiências de consumo. Ao buscar no prazer causado pelo consumo [predatório] o horizonte de sua vida, o homem do contemporâneo distancia-se de Epicuro. Por quê? O filósofo do Jardim privilegiava os prazeres naturais e os prazeres elevados. Os prazeres intelectuais ou estéticos, prazeres elevados, não causam perturbação, são duráveis, permitem que cultivemos as coisas da alma. Se o erro de Epicuro consiste na afirmação de que somente o prazer é o bom, seu acerto está em descrever os prazeres que causam liberdade, serenidade e permitem que o ser humano desenvolva-se e viva com alegria.

129 Cf. Epicuro. Antologia de textos de Epicuro. Trad. Agostinho da Silva. In: Os Pensadores (Abril Cultural). Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio. São Paulo: Victor Civita. p.17-20.

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DESTAQUE C O bom é a Boa Vontade Immanuel Kant

Immanuel Kant, que desafiado pelo relativismo dos empiristas 130 e pelo formalismo dos racionalistas 131 , pergunta pelo que podemos conhecer [crítica da razão prática], pelo que podemos esperar [a religião diante dos limites da razão], pelo que devemos fazer [crítica da razão pura], acreditou na razão, mas, numa razão que se sabe finita. Kant é um criticista pois, rigorosamente, responde a cada uma das questões formuladas, afastando-se tanto do empirismo quanto do racionalismo. O tempo de Kant, período das luzes, enalteceu o poder da razão humana em conhecer os mecanismos naturais, crendo na possibilidade de edificação de um mundo no qual paz e fraternidade [entre os homens] pudesse ocorrer. Kant deu-se conta da finitude da razão. Examinando as morais de sua época, percebeu que diferenças culturais e submissão heterônoma a códigos eram impedimento à vida autônoma. Apostou na autonomia da razão, pensado-a guia da vida moral. Postulou vida moral baseada em Imperativos Categóricos, ou seja, em comandos da razão que podem ser concebidos e compartilhados por todos os seres humanos [entes racionais]. Deu-se conta de que, se vivermos não segundo os condicionamentos culturais ou a partir das armadilhas do sentimento, poderíamos atingir maturidade moral. Nosso agir, desse modo, nunca deveria ser orientado por inclinações [afetos, paixões, etc], tampouco por condicionamentos culturais, mas por comando da razão que se apresentem como autoevidentes, racionalmente compartilháveis, e não contraditórios. O que é o bom para Kant? Agir por e pelo dever, ou seja, agir segundo a reta decisão de cumprir os comandos da razão, ou, de viver segundo os Imperativos categóricos. Segundo Immanuel Kant:

Uma ação praticada por dever tem seu valor moral, não no propósito que com ela se quer atingir, mas na máxima que a determina; não depende portanto da realidade do objeto da ação, mas

somente do princípio do querer segundo o qual a ação, abstraindo de todos os objetos da faculdade de desejar, for praticada. Que os propósitos que possamos ter ao praticar certas ações e os seus efeitos, como fins e móbiles da vontade, não podem dar às ações nenhum valor incondicionado,

Dever é a necessidade de uma ação

por respeito à lei. [

ela se torne uma lei universal. [

vontade, em lei universal da natureza. [

Age de tal maneira que

A vontade é concebida como a faculdade de determinar a

Age como se a máxima da tua ação se devesse tornar, pela tua

Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que

nenhum valor moral, resulta claramente do que fica atrás. [

]

]

]

]

si mesma a agir em conformidade com a representação de certas leis. [

]

uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e

simultaneamente como fim e nunca // simplesmente como meio 132 .

A boa vontade não se confunde com inclinação, isso já sabemos. Mas, no que consiste a boa vontade? Se a vontade é a capacidade à autonomia [do querer aquilo que devemos almejar / liberdade], a boa vontade é a vontade transformada pela razão através de próprio movimento. A vontade decide querer e somente querer aquilo que é racional, escolhe agir segundo os Imperativos Categóricos, afastando-se, desse modo, das armadilhas das paixões ou dos condicionamentos, decidindo com autonomia pelo efetivamente moral [Bom = Boa Vontade]. Os imperativos citados, decorrentes da vontade penetrada pela razão, que permitem à vontade determinar a si mesma por leis propostas autonomamente, encontram na universalização e na defesa da não instrumentalização da vida humana, referência permanente. O rigorismo kantiano pode, indubitavelmente, ser repensado. Mas, em tempos de relativismo extremo, encontramos no pensador de Königsberg, o mínimo ético apto a ser compartilhado por todos os entes racionais.

130 A tese empirista afirma que somente a razão, somente, arbitra convencionalmente sobre os dados sensoriados. De fato, não chegamos a conhecer as coisas, mas, apenas a representá-las. 131 Para René Descartes a alma humana é portadora das ideias pelas quais a razão interpreta as coisas percebidas. Nascemos, logo, com as ideias fundamentais pelas quais interpretamos os dados sensoriais, aquilo que os cinco sentidos percebem. 132 KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Trad. Paulo Quintana. Lisboa: Edições 70, 2008.

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DESTAQUE D O Bom é o Útil Jeremy Bentham

Os utilitaristas ingleses, notadamente Jeremy Bentham, preocupados em fundamentar o acordo entre os membros da sociedade política, afirmavam que o bom é o útil. Mas, distantes do egoísmo ético, propunham conciliação entre os interesses do indivíduo e os interesses da sociedade. Se não é, de fato, possível, mensurar qualitativa ou quantitativamente o útil e tampouco determinar objetivamente seu conteúdo, entretanto, é viável caracterizá-lo. Escutemos Bentham:

O princípio da utilidade é o fundamento do presente trabalho: portanto será apropriado de início

apresentar um enfoque explícito e determinado do que é entendido por ele. Por princípio de utilidade entende-se aquele princípio que aprova ou desaprova cada ação de acordo com a tendência que ela parece ter em aumentar ou diminuir a felicidade da parte cujo interesse está em

questão: ou, o que é o mesmo dito em outras palavras, promover aquela felicidade ou opor-se a ela. Digo de cada ação de um indivíduo privado, mas de cada medida do governo. Por utilidade entende-

se a propriedade, em qualquer tipo de objeto, pela qual ela tende a produzir benefício, vantagem,

prazer, bem ou felicidade (todas eles aqui significam a mesma coisa) ou (o que novamente é a mesma coisa) prevenir o acontecimento ou dano, dor, mal ou infelicidade para a parte cujo interesse é considerado: se a parte é a comunidade em geral, então a felicidade da comunidade; se é o indivíduo em particular, então a felicidade daquele indivíduo. O interesse da comunidade é uma

das expressões mais gerais que pode ocorrer na linguagem moral. Não admira, então, que muitas vezes perca o seu significado. Quando ele tem um significado, então é esse: a comunidade é um corpo fictício, composto por pessoas individuais que são considerados como constituindo os seus membros. O que é então o interesse da comunidade? A soma dos interesses dos muitos membros que a compõem 133 .

O pragmatismo inglês, através de Bentham, nos ensina a necessidade de conciliar, na concepção do bom como útil, os interesses dos indivíduos com os interesses da comunidade [ente fictício] da qual cada um e todos fazem parte. O útil é aquilo que [propriedade / objeto] gera felicidade para o maior número de pessoas. Se podemos, através de normas e ações, alcançar a paz social, essa ocorrerá na medida em que os membros da comunidade política, nela incluídas pelo acordo, puderem gozar dos direitos sociais mínimos sem os quais a pessoa não goza, efetivamente, de liberdade e realização pessoal. Se a tese é ampla e difícil de explicitar, entretanto, o bom = útil, pensa na conciliação necessária entre os interesses de cada um e de todos.

133 Jeremy Bentham apud, 2010, p.397.

6 OBRIGATORIEDADE MORAL

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A pura concordância e discordância de uma ação com a lei, sem considerar o móvel da própria ação, chama-se legalidade, ao passo que, quando a idéia do dever, derivada da lei, é ao mesmo tempo móvel da ação, se tem a moralidade.

Immanuel Kant, Metafísica dos Costumes.

Na existência moral fática, paradoxalmente, obrigatoriedade e liberdade se reivindicam. Quando o indivíduo livremente escolhe, decide e realiza a norma, então, se efetiva a vida moral em sua expressão autêntica. O agente moral poderia não ter cumprido a norma, mas decidiu efetivá-la. A norma ou regra de ação, enfim, ao traduzir princípio racionalmente concebido e intersubjetivamente compartilhado, naquela circunstância específica e irrepetível, orientou e ultimou o bem visado na ação. Convêm, nessa direção, indagar: quais são os traços essenciais da obrigação moral? Qual é o conteúdo da obrigação moral? Nessa perspectiva, é importante investigar os traços caracterizadores da obrigatoriedade moral, procurando diferenciá-la de outras formas de obrigação 134 . Quais são os traços essenciais da obrigatoriedade moral, distinguindo-a de outras formas de obrigação? Qual é o conteúdo da obrigatoriedade moral? O que, de fato, somos obrigados realizar ou devemos fazer? É-nos solicitado, considerando indagações propostas, renovado esforço reflexivo. Acrescentamos, desde já, que a legalidade em sentido antropológico, embora privilegie o dado externo [lei e suas exigências], ponderamos, não dispensa, ainda assim, a reflexão, o trabalho consciente de compreensão daquilo que a lei em sua positividade e coercitividade supõe seja cumprido. Se a moralidade, portanto, privilegia a consciência, a internalidade, a autonomia, de outro lado, a autêntica legalidade nasce da compreensão do significado da lei. A normatividade jurídica, de fato, destacamos, privilegia o fato exterior [a lei positiva e suas exigências]. A normatividade moral privilegia a interioridade na direção da autonomia. Mas, sublinhamos, uma não exclui a outra. A normatividade moral, em conclusão, é condição da normatividade jurídica.

134 Cf. VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p.179.

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6.1 Liberdade e Obrigatoriedade Moral

Educação à liberdade, na direção da autonomia e da autarquia 135 , é conciliável com a obrigatoriedade moral? A norma moral, efetivamente, possui caráter prescritivo e obrigatório, mas supõe empenho da razão em compreendê-la e da vontade em realizá-la. A norma moral apela sempre à consciência do agente, solicitando seu empenho em compreendê-la, interpretá-la e atualizá-la nas circunstâncias que a acolhem. A privação da liberdade e violação da intimidade nas situações de ignorância involuntária,

coação interna e externa exime a pessoa de responsabilidade, pois é empecilho à justa persuasão da norma 136 . Ao obrigar, paradoxalmente, atua a norma sobre a consciência e liberdade, prescrevendo e orientando a ação, mas respeitando a possível recusa do agente. A obrigatoriedade moral acontece, em suma, quando o sujeito moral cumpre o preceito, por decisão voluntária, podendo ter-lhe

recusado a realização

raiz no termo latino obligatio, onis, sinalizando a ação de empenhar a palavra ou vontade no cumprimento de promessa ou norma livre e racionalmente compartilhada 137 . As normas morais, em conclusão, não podem ser respeitadas, simplesmente, por conformidade exterior, impessoal e forçada. Ao contrário, elas obrigam quando observadas a partir de convicção pessoal, isto é, quando se efetiva a liberdade de escolha do sujeito. Se, pois, a obrigatoriedade moral prescreve deveres ao sujeito, segundo as regras propostas, é-lhe solicitado excluir ou evitar atos proibidos. Ainda assim, a realização do preceito é voluntária. Já, a obrigatoriedade jurídica, por seu caráter positivo e coercitivo, exige o cumprimento do preceito legal, prevendo consequente punição quando do seu desrespeito. O cumprimento do preceito legal

A palavra obrigatoriedade, aprofundando nossa investigação, encontra sua

135 A pessoa autônoma dá a si mesma o conteúdo da norma [regra de ação ou lei moral] que obriga, pois é capaz de concebê-la e compreendê-la. O agente moral, assim, é dono de seus atos quando, consciente e livremente, atualiza a norma em cada ação efetuada. A pessoa, possuindo a si mesma em cada ato, em conseqüência, acaba por governar a si própria, ou seja, torna-se autárquica. O ser humano, concluímos, nunca é completamente autárquico e autônomo, entrementes, pode atingir graus distintos de autarquia e autonomia. A autonomia e a correspondente autarquia resultam da decisão de imprimir em cada ato racionalidade e humanidade , atualizando, desse modo, a liberdade, efetivando praxicamente a existência. Tanto mais plena a vida humana, quanto mais autônoma e autárquica, aberta ao mundo e ao outro. 136 Explica Vázquez (2002, p.181): “Impondo uma forma de comportamento moral não querida ou não escolhida livremente, a coação externa entra em conflito com a obrigação moral e acaba por substituí-la. Já vimos algo semelhante num capítulo anterior, com respeito aos casos de coação externa extrema (ameaça grave ou imposição brutal física) que provém de outro sujeito e que impede o agente moral de cumprir sua obrigação. Finalmente, a obrigação moral perde sua razão de ser, quando o agente opera sob uma coação interna, ou seja, sob a ação de um impulso, desejo ou paixão que forçam ou anulam por completo a vontade”. À coação interna e externa, acrescentamos a ignorância involuntária. A

ignorância involuntária acontece quando o sujeito não pode e, de fato, não prevê a situações danosas nas quais possa se encontrar envolvido. 137 Lemos em SARAIVA, F.R. (Novíssimo Dicionário Latino-Português. 10. ed. Rio de Janeiro / Belo Horizonte: Garnier, 1993.

P.799): “Obligatio, onis [

Prender-se, obrigar-se, tomar sobre

si uma obrigação”. A obrigação, deduzimos, nos une voluntariamente à palavra empenhada, à norma racionalmente

concebida e voluntariamente realizada.

]

ação de prender, de empenhar (a vontade, a palavra). [

].

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pode vir precedido da decisão moral de realizá-lo. Entretanto, se na obrigatoriedade moral prevalece intimidade e voluntariedade, na obrigação jurídica predomina a coercitividade 138 .

A obrigatoriedade moral, igualmente, não pode ser entendida segundo rígida necessidade

causal. Situado no tempo e no espaço, o ser humano, ser cultural e histórico, encontra no mundo do qual participa o horizonte de suas escolhas e realizações. A liberdade, de consequência, não consiste em exercício arbitrário, pois acontece no mundo e supõe conteúdo doado pela norma 139 .

6.2 Responsabilidade e Obrigatoriedade Moral

Ao empenhar a liberdade na efetivação da norma ou dever, considerado seu caráter obrigatório, sou responsável. A liberdade, portanto, não exclui, mas encontra seu conteúdo na obrigatoriedade moral. Eliminada a ignorância involuntária, a coação interna ou externa 140 , voluntariamente decido a favor da norma, orientando meu comportamento na direção por mim querida e efetivada. Para Vázquez

a obrigação moral apresenta-se, assim, como a determinação de meu comportamento; isto é, orientando-o numa determinada direção. Mas sou obrigado moralmente só na medida em que sou livre para seguir ou não esse caminho. Nesse sentido, a obrigação moral pressupõe necessariamente minha liberdade de escolha, mas supõe, ao mesmo tempo, uma limitação de minha liberdade. Comportando-me moralmente, eu era obrigado por minha promessa, pelo dever de cumpri-la, e também, deveria decidir de uma maneira ou outra 141 .

A obrigação moral deve ser assumida livre e espontaneamente, diferenciando-se, como

havíamos referido, da obrigação jurídica e, até mesmo, de obrigação relativa ao trato social, quando

138 No primeiro caso [obrigatoriedade moral], cumpro a norma porque íntima e livremente decidi efetivá-la. No segundo caso [obrigatoriedade legal ou jurídica], cumpro a norma porque a lei, em sua positividade [texto legal], é coercitiva. Examinemos um exemplo de nosso cotidiano. Por que respeitamos as regras de trânsito? Por valorizarmos a vida e termos decidido livre e intimamente pelo cumprimento das normas legais? Por temer as punições decorrentes do seu descumprimento? Podemos respeitar as normas de trânsito, conforme exemplo, unindo decisão moral e respeito legal [cumpro voluntariamente a prescrição legal]. Segundo a reflexão ética, conclui-se, há empobrecimento da vida moral quando predomina a separação entre a dimensão moral e legal do preceito, quando deixamos de cumprir a regra por decisão livre, respeitando-a, simplesmente, devido a sua imposição compulsória. Processos educativos, aproximação dos interesses individuais e coletivos, maturidade jurídica são caminhos a percorrer na direção de sempre maior integração entre liberdade e legalidade.

139 Afirma Vázquez (Ética, 2002, p. 180): “Não há propriamente comportamento moral sem certa liberdade, mas esta, por sua vez, como se demonstrou oportunamente, supõe e se concilia com a necessidade, ao invés de excluí-la. E posto que não há comportamento moral sem liberdade embora não se trate de uma liberdade absoluta, irrestrita ou incondicionada a obrigatoriedade não pode ser entendida no sentido de uma rígida necessidade causal que não deixaria certa margem de liberdade. Se eu fosse casualmente determinado a fazer x até o ponto de não poder fazer outra coisa a não ser aquilo que fiz, sem que não me fosse possível optar por outra ação; isto é, se, agindo, não tivesse a possibilidade de intervir como causa especial na cadeia causal em que se inserem meus atos, o meu comportamento não teria um verdadeiro sentido moral. Tal tipo de determinação ou necessidade nada tem a ver com a obrigatoriedade moral”.

140 Como dizíamos em Responsabilidade e Liberdade, concordando com Vázquez, cotidianamente somos desafiados por pressões externas e internas, somos convocados ao exame das possíveis conseqüências de nossos atos. Entretanto, conseguimos, na maioria das vezes, vencer a coação externa, interna e a ignorância involuntária. Somente em situações extremas ou excepcionais a coação externa e interna é irresistível, a ignorância se apresenta como involuntária porque invencível.

141 VÁZQUEZ, 2002, p.182.

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baseada exclusivamente no costume. Quando o agente ético, optando entre várias alternativas, quer, escolhe, decide e realiza a norma, faz acontecer o sentido autentico da obrigatoriedade moral, revelando compreensão do que seja um agir responsável.

6.3 Consciência e Responsabilidade Moral

O homem, ser-aí-no-mundo [Dasein], realiza a si mesmo a partir do mundo que o acolhe e possibilita. Enredado com utensílios, coisas e objetos, nomeia o mundo, compartilhando-o com outros seres humanos. Existir é co-existir, partilhando simbolicamente através da linguagem o mundo do qual é parte integrante. A consciência, então, é sempre consciência de si mesmo nesse mundo. A decisão pessoal, segundo o exposto e em sintonia com Vázquez 142 , não opera num vácuo social. Podemos afirmar que, quando atua a voz da consciência, fala, concomitantemente, a cultura da qual faço parte, as impressões recebidas do mundo. Essa constatação não elimina a liberdade e, tampouco, esvazia a subjetividade, mas reafirma duas dimensões constitutivas do humano: de um lado o sujeito com sua história, convicções, preferências e escolhas; de outro, o mundo que o antecede acolhe e possibilita. Mas, o que se deve compreender por consciência moral? Consciência é um termo polissêmico [portador de muitos significados]. Primeiramente, consciência indica saber de, pois tenho ciência de alguma coisa, conheço um objeto ou pessoa. Dirijo, por exemplo, meu olhar à macieira florida no meu jardim. Consciência implica num saber sobre si mesmo: sei quem sou, estou ciente de que tenho um nome, uma história pessoal, etc. No campo ético, consciência é a capacidade de antecipar os resultados de determinada ação, tendo conhecimento de suas possíveis conseqüências. A consciência, portanto, não apenas registra ou compreende aquilo que se encontra diante dela, mas é capaz de antecipar na forma de projetos, fins ou planos, o que irá acontecer. A consciência moral supõe a ciência de si mesmo, do mundo, das coisas e das outras pessoas 143 . A consciência moral existe sobre essa base primária, ou seja, é expressão do ser consciente. O que caracteriza, todavia, a consciência moral? O conceito de consciência moral se encontra intimamente ligado ao conceito de obrigatoriedade. É a consciência que, tendo interiorizado normas 144 , informada das circunstâncias e fatores envolvidos num determinado dilema moral, aplica uma norma, com adequação, àquela situação singular e irrepetível. É a consciência que, portanto, livremente acolhe e realiza o obrigatório [a norma e o dever consequente], segundo a especificidade de cada caso.

142 VÁZQUEZ, 2002, p.183.

143 As observações que seguem acompanham, em grande parte, Vázquez (2002, p.184-189).

144 Normas, recordamos, são princípios traduzidos em regras de ação.

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A consciência moral é sempre compreensão de uma obrigação moral e avaliação de nosso

comportamento em acordo com as regras de ação livre e conscientemente aceitas. Se não existe nem autonomia e nem heteronomia absolutas, pois quando fala a voz da consciência, ‘falam os homens de meu tempo’, ‘com os quais convivo e compartilho o mundo’; entretanto, essa voz também é ‘a minha voz’. A pessoa, práxica e responsável, é capaz de tomar distância, pesar as influências e decidir pelo melhor para si e para os outros com os quais convive.

A consciência moral exprime, também, a culpa e o arrependimento. Quem, após exame de

consciência de determinada ação, alguma vez, ainda não se arrependeu? O arrependimento implica na revisão da ação na consideração das pessoas afetadas. Uma palavra infeliz, uma ação precipitada, um julgamento equivocado reivindicam revisão. Se não é possível realizar, novamente, o ato, pois esse já aconteceu [é passado]; entrementes, é viável, formalmente, revisá-lo e, se for o caso, desculpar-se, fazer algo para compensar os resultados negativos alcançados. O ato de desculpar-se, por exemplo, pode restabelecer vínculos fundados na justiça e na mútua abertura. Afinal de contas, se somos frágeis e finitos, porque responsáveis podemos rever e dar um sentido positivo às ações negativas que, eventualmente, realizamos. O homem é finito, frágil, perfectível. Quebras emocionais acompanham sua existência. Esses desconfortos podem ser administrados, cotidianamente, através da auto-análise, conversa, entre-ajuda e, até mesmo, através de terapia.

É conveniente diferenciar o remorso [ou culpa] resultante da avaliação das consequências

negativas de nossos atos sobre a vida de outras pessoas, do remorso [ou culpa] patológico. Quando o remorso, frisamos, se transmuta em escrúpulo excessivo, é preciso procurar corrigir esse desvio. Nessa direção, salientamos, é tão indesejável a culpa patológica quanto à indiferença moral. Se na

culpa patológica encontramos sentimento perturbador, igualmente, a indiferença moral impede o convívio entre os seres humanos. Revisar atitudes e ações negativas é necessário para o convívio em sociedade. No que consistiria, então, uma educação estimuladora da descoberta do outro e do sentido positivo da normatividade moral? Que estimulasse sempre maior autonomia e autarquia? Que desenvolvesse o senso da comum responsabilidade relativa ao existir no mundo? São indagações importantes que precisam ser meditadas e vividas.

Em breve conclusão

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O tema da obrigatoriedade moral precisa ser pensado na consideração do enigma da

liberdade. O que é a liberdade? Por que a liberdade é o fundamento, segundo a reflexão ética, da obrigatoriedade moral? Podemos, provisoriamente, tecer algumas considerações. A liberdade humana, primeiramente, em sua espontaneidade, não consiste em arbitrariedade inconsequente,

pois palavras, atitudes e ações podem afetar positiva ou negativamente outras pessoas. A liberdade solicita, enfim, conteúdo descoberto nos princípios e normas. O sujeito ético quer, decide e realiza a norma, considerando circunstâncias e pessoas envolvidas. Eliminada a coercitividade, conservada a razão e a liberdade, o sujeito ético encontrará na norma possibilidade de realização humana e crescimento.

As normas ou regras de ação traduzem princípios [ou valores] básicos à existência humana.

As normas, exemplificando, explicitam o respeito à vida, a inviolabilidade da intimidade, a premência da confiabilidade, a importância da verdade nas relações, a transparência requerida no trabalho, na vida acadêmica e nas atividades políticas, a justiça e suas exigências de equidade. As normas, corretamente entendidas e autenticamente cumpridas, fundam a vida em sociedade, despertam a confiança nas pessoas e instituições. A perda do sentido da norma e sua inobservância acarretam

fragilidade social e desconfiança, truncando a convivência, dificultando a vida. A reflexão ética, por ligar norma e liberdade pondo em destaque nossa comum pertença ao mundo convida ao exercício da permanente descoberta do significado de cada regra de ação, estimulando a ligação de cada norma com o valor por ela anunciado e explicitado. O estabelecimento do mínimo ético, básico para a convivência em sociedade, supõe diálogo ininterrupto, revisão e atualização de cada norma em consideração das circunstâncias que a acolhem. Acreditamos mais na educação para a liberdade responsável do que nas proibições, entretanto, a concretização dessa liberdade responsável implica na interiorização da norma e realização do dever correspondente. Educação para a responsabilidade é aprender, a cada momento, a dar sentido e mais plenitude à existência, dom e tarefa. O horizonte da liberdade responsável, finalmente, encontra no outro a origem e sentido de cada ação. Cada pessoa, finalmente, na continua e renovada descoberta da dignidade inviolável do outro, portador de direitos e deveres inalienáveis, simultaneamente, reivindicará e afirmará sua dignidade, seus direitos e o sentido de sua liberdade. Na vida profissional, orientada por leis, códigos, protocolos, regulamentados, somos permanentemente desafiados à interpretação e realização de princípios que, ao mesmo tempo, possibilitam, regram e estimulam o bom exercício das atividades profissionais. O estudo dos códigos normativos, acompanhado da reta intenção de cumpri-los, na direção do bem causado pelas ações e tendo em vista a promoção da profissão, para além do corporativismo, é prática indispensável. Quais

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são as capacidades requeridas no exercício de minha profissão? Quais são os direitos e deveres solicitados? Como devo me portar diante dos colegas e beneficiados de minhas ações profissionais? Por que devo ser veraz, honesto e correto, tanto com meus colegas quanto com meus clientes? As reflexões sobre o dever ligam-se, agora, com o exercício profissional. Quais são, então, os desafios éticos propostos no exercício de minha profissão? Nas atividades profissionais encontramos, privilegiadamente, oportunidade de enriquecimento da vida e crescimento pessoal. Estudando e fazendo as coisas de que, de fato, gostamos, buscando, enfim, aprimoramento técnico e humano, cada um, livre e racionalmente, movido pelo senso do dever, ultimará ações capazes de beneficiar inúmeras pessoas. Na vida profissional, concluindo provisoriamente, cada um de nós descobrirá oportunidade de imprimir sentido e significado à existência. Sentido e significado imensuráveis, intraduzíveis em prêmios ou conquistas pecuniárias, mas, apenas, vividos na gratuidade de ser plenamente pessoa. A normatividade jurídica, também, longe de afastar-se da normatividade moral, supõe, em grau diferente, a capacidade autônoma de cumprimento da lei. Nas sociedades nas quais a lei positiva é, apenas, obedecida pelos fatores coercitivos, de fato, a vida cívica, o exercício de cidadania ativa e participativa, não acontece. Nessa direção, pensar a obrigatoriedade jurídica na direção do consenso possível, vivendo-a a partir do mínimo ético conquistado e na autêntica compreensão da obrigatoriedade moral é, assim pensamos, desafio a todos juristas, legisladores, cidadãos. Considerando os desafios propostos à Ética Aplicada, após reflexão sobre assuntos de Ética Geral, a seguir, examinaremos o impacto da vida econômica sobre a existência moral concreta, pensaremos as questões propostas pela Ecologia profunda e, a seguir, estudaremos a relação entre Ética de Princípios com a Ética do Cuidado [Atitude]. Os assuntos tratados até aqui, tais quais os estudos de Kohlberg, o conceito de bom, o tema da obrigatoriedade moral, por exemplo, serão explicitados, portanto, nesses temas que sintetizam os desafios contemporâneos e que necessitamos, urgentemente, enfrentar.

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7 A REALIZAÇÃO DA MORAL [Acontecimento práxico ou efetivo da Moral]

Toda moral compreende um conjunto de princípios, valores e normas de comportamento. Entretanto, para cumprir suas finalidades ordenando a vida entre os indivíduos em determinada sociedade, precisa se efetivar através de atos, necessita tornar-se vida pela práxis 145 . Mas, no que consiste a realização da moral? Por realização da moral entendemos

a encarnação dos princípios, valores e normas numa dada sociedade, não só como tarefa individual, mas coletiva, ou seja, não apenas como moralização do individuo, mas como processo social no qual as diferentes relações, organizações e instituições sociais desempenham um papel decisivo 146 .

Nessa direção, procuraremos investigar como ocorre a moralização do indivíduo, examinaremos a relação entre caráter, valores e sociedade; dedicaremos nossa atenção ao estudo da relação entre estruturas sócio-econômicas e a vida moral; examinaremos como o caráter social [mentalidade] vigente em determinada sociedade pode afetar a vida de seus membros.

7.1 Vida econômica e realização da moral

As relações de produção, ou seja, o modo como acontece a produção e divisão das riquezas, condiciona a vida moral dos indivíduos. A vida econômica, inegavelmente, influencia a vida das pessoas. De que maneira o homem é afetado pelo seu trabalho? Por que trabalha? Como o fruto do trabalho, socialmente produzido [a riqueza], é distribuído? Qual é o significado do trabalho? Pelo trabalho, atividade individual e social, ao transformar a natureza alheia, o ser humano edifica a si mesmo, enquanto individuo e espécie. A especialização exagerada, entrementes, o uso das mais diversas tecnologias têm, gradativamente, tornado o processo do trabalho algo impessoal e enfadonho. As tecnologias da informação, especialmente, ao acelerarem os processos produtivos, alternaram nossa percepção do tempo. Somos, progressivamente, solicitados a novas rotinas e, dominados pelo tempo do relógio, realizamos número sem fim de tarefas. Paradoxalmente, ao final do dia, semana ou mês, descobrimos que falta tempo para nós mesmos. A revolução industrial, tendo prometido felicidade para maior número de pessoas através do consumo cedeu lugar à revolução da informática. Esta, ao possibilitar controle eficiente e crescente das nossas vidas produtivas, pela multiplicação de tarefas e responsabilidades, acentua-nos a alienação, pois nossas vidas [virtualizadas] já não se dão conta da existência. É-nos exigido responder, com urgência, aos

145 Cf. VÁZQUEZ, 2002 (a realização da moral), p. 209. 146 Ibidem, p.209.

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imperativos técnicos de um mundo em aceleradas transformações. Nesse contexto, quem, de fato,

somos? Quais são os desejos profundos que cultivamos? Por que executamos tantas tarefas e tantos papéis sociais? Como nos relacionamos com o mundo e com as outras pessoas?

A par do quadro descrito, sociologicamente explicitado, o número de excluídos da vida

econômica, do acesso aos direitos básicos é dado que não podemos deixar de perceber.

O fenômeno da alienação, portanto, diante do quadro brevemente exposto, vem se

acentuando. Os processos econômicos, nas sociedades pós-industriais, têm salientado o caráter alienante do existir humano. Existir alienadamente é perceber a vida pessoal desconstituída em conteúdo e significado, seja nos processos de trabalho, seja no acesso aos resultados da atividade laboral, seja nas relações interpessoais. Admitimos que, em todas as sociedades e, mesmo na vida humana, persistam diferentes graus de alienação. Entrementes, quando a alienação [resultado das relações econômicas] acaba por anular o gosto pela vida, reduzindo a existência humana ao cumprimento burocrático e impessoal de atividades enfadonhas, impedindo a constituição de relações éticas e estéticas promotoras de nossa comum humanidade, é preciso parar e pensar, revisar conceitos e práticas. Vázquez sentencia que os problemas morais da vida econômica

surgem necessariamente quando se transforma seu sujeito como produtor, consumidor e suporte de produção num simples homem econômico, isto é, numa simples peça de um mecanismo ou de um sistema econômico, deixando de lado por completo as conseqüências que para ele como ser humano concreto traz o seu modo de integrar-se no próprio sistema. Somente reduzindo o ser humano ao econômico ou fazendo o homem depender da economia como pretendiam os economistas clássicos ingleses a vida econômica deixa de ter implicações morais. Mas essa exclusão dos problemas morais do âmbito da vida econômica não é possível pela simples razão de que, na realidade, não existe tal homem econômico; esse é somente uma abstração, porque não pode ser isolado do homem concreto, real. Por conseguinte, o modo como o operário trabalha, o uso da máquina e a técnica e o tipo de relações sociais em que se efetuam a produção e o consumo não podem deixar de ter conseqüências para ele como homem real 147 .

O homem é o agente da economia enquanto criador, produtor, gerador de riquezas e não seu

passivo resultado. Nessa perspectiva, a objetificação da vida humana, a redução do humano ao econômico, é insustentável. As relações econômicas [relações de produção], ao promoverem o ser humano ou, reduzindo-o a objeto, precisam ser analisadas eticamente, pois apresentam dimensão moral inerente. Eticamente é preciso superar concepção antropológica e moral redutora do homem a agente econômico e mero consumidor 148 .

147 VÁZQUEZ, 2002 (a realização da moral), p. 219. 148 O denominado homem econômico, de fato, não existe. Há um ser humano multifacetado que, ser criativo, através do trabalho, busca responder às diversas necessidades: materiais e espirituais. O ser humano, agente econômico, é também ser político, ético, estético, etc. As múltiplas dimensões do homem, em sua complexidade, estão presentes nas inúmeras manifestações culturais. A expressão homem econômico denuncia, portanto, compreensão reducionista do humano. Essa concepção ou visão distorcida e reducionista, entretanto, é acriticamente assumida, seja no cotidiano, seja teoricamente. É preciso, então, ultrapassá-la teórica e praxicamente.

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7.2 Trabalho humano, moral e consumo

Admitida a importância da economia na vida das pessoas e das sociedades, verificamos, no homem concreto, o agente das relações econômicas. Não obstante, nas sociedades mercantis, o trabalho humano não é percebido como fonte de realização pessoal, de expressão de nossa comum humanidade, de cuidado e edificação do mundo. Do exposto, concluímos, o trabalho [alienado] é tarefa monótona, não criativa e repetitiva. Por que trabalhos? Para garantir nossa capacidade de comprar. O sacrifício diário devotado ao trabalho, então, encontra recompensa no consumo. Trabalhamos, fundamentalmente, para consumir. Se, para Vázquez 149 , o homem deve trabalhar para ser verdadeiramente homem, nas sociedades marcadamente mercantis, devemos trabalhar para consumir. Em todo caso, a alienação no processo do trabalho se prolonga na alienação do consumo:

todos que consomem seriam, hipoteticamente, felizes. Foi Erich Fromm quem diferenciou o ter existencial do ter caracteriológico 150 . Ter para existir ou existir para ter? Nosso caráter é formado pelas experiências que nos constituem. Nas sociedades industriais, no limiar do surgimento da ‘religião cibernética’, Fromm diferenciava comportamentos de consumo saudáveis dos comportamentos patológicos. É preciso comprar coisas e consumi-las para viver e não viver, apenas, para ter coisas. A primeira atitude, Fromm designa por ter existencial; a segunda, patológica, nomeia ter caracteriológico. Quem vive para ter coisas 151 , alienado, existe fora de si, não encontrando significado autêntico ao existir, sendo incapaz de criatividade e, conseqüentemente, privado de relações positivas com o mundo e outras pessoas; vê sua vida espiritual impedida ou empobrecida. O homem econômico, assim, não é apenas o produtor, mas o consumidor sujeito a nova e particular forma de alienação. Esse homem consumidor tem necessidades que não são propriamente as suas, e os produtos que compra não são, verdadeiramente, queridos por ele. O homem consumidor, condicionado, trabalha [?] para adquirir coisas que, de fato, não precisa, esquecendo-se de si e de relações amplas com o mundo e com as outras pessoas. Acreditando que a felicidade se encontra em consumir, o homem consumidor buscará seu espaço no mercado, competindo e procurando derrotar seus possíveis concorrentes, pois precisa garantir seu status quo para continuar consumindo. Nesse processo, terá tantas personalidades quantas forem exigidas, mercantilizando a si mesmo, procurando agradar àqueles que podem manter seu padrão de consumo. Existirá para consumir, olvidando a vocação humana em ser. Os reflexos, na moral, da ideologia do homem consumidor são bastante evidentes, pois confundimos

149 Cf. VÁZQUEZ, 2002 (a realização da moral), p. 220.

150 Cf. FROMM, Erich. Ter ou ser. 4. ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara,

151 Ou seja: Para perpetuar o ciclo de comprar, possuir e consumir coisas [mercadorias].

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individualidade com individualismo, competição moderada com a violenta, satisfação de necessidades com egoísta busca de satisfação de veleidades [supérfluos]. Incapazes, muitas vezes, de buscar a adequada medida em nossas vidas, justificamos quaisquer meios para satisfação dos fins desejados. Inabilitados em lidar com a frustração, acabamos por não desenvolver a resiliência, essa capacidade de positivar e integrar os aspectos negativos da vida, positivando-os.

7.3 Avaliação ética dos reflexos da moral do homem econômico [ou consumidor] na vida concreta

Vivemos numa sociedade violenta e excludente, incapaz de lidar com as suas deficiências e, paradoxalmente, acreditamos viver no ápice da historia humana. O exagerado acento mercantil, a crescente transferência de responsabilidades 152 , parece, inequivocamente, vigorar sem contestação. O dito, cada um por si e todos contra todos, estaria, efetivamente, vigorando? Na vida política profissional, confundimos a coisa pública com nossos interesses privados; na vida econômica privada, nem sempre recordamos que sobre toda propriedade privada pesa uma hipoteca social. A res publica, portanto, não pode estar submetida à interesses privatistas e corporativistas, bem como à iniciativa privada é assegurado indispensável papel na tessitura do bem comum.

Os meios de comunicação social, enquanto concessão pública [ou social] ao privado não podem, pura e simplesmente, reproduzir as ideologias dominantes: diminuidoras da dignidade das pessoas, reduzidas a consumidores, destituídas de capacidade crítica. Mais que informar ou divertir, as mídias necessitam assumir compromisso com a formação de um país multicultural e integrado, no qual, cada pessoa possa assumir as conseqüências de suas ações considerando o respeito aos outros 153 . A família, num mundo globalizado e fragmentado, não pode esquecer o compromisso com a totalidade de seus membros. À família, transformada pela gradativa superação do modelo polinuclear por outras formas de organização, cumpre a intransferível tarefa de formação básica, abrigo e cuidado. Assumir laços familiares sólidos, cultivá-los e situá-los na direção da construção de uma cultura da paz, eis desafio intransferível. Encontrando abrigo e carinho, somos capazes de cuidar, nos habilitamos ao cuidado atitude fundadora do humano.

152 A transferência de responsabilidades implica na perpetuação de comportamentos de matiz egoísta. Parece vigorar em nossos dias uma espécie de des-responsabilização generalizada. Em verdade, antes de transferir responsabilidades, cada pessoa deveria indagar: o que compete e o que posso fazer aqui e agora no lugar que ocupo no tecido social? Daí a máxima: pensar globalmente e agir localmente. 153 Não cabe, pensamos, quando destacamos a tarefa educativa das diversas mídias [no campo da indústria das informações e do lazer], propor tutela ou censura sobre os meios de comunicação social. A censura é tão nociva quanto a cega submissão, das empresas de comunicação social, aos interesses do mercado. Acreditamos, entretanto, que os diversos veículos da indústria cultural podem encontrar e propor critérios para o seu desempenho e, decorrente inserção na construção de um país mais solidário e responsável.

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Ao sistema educativo, em todas as suas esferas, não obstante os parcos recursos investidos, a valorização insuficiente dos seus agentes, é reservada a tarefa de preparação das gerações presentes e futuras aos desafios de uma sociedade em permanente transformação. Entretanto, os educadores, cientes de que conhecimento é muito mais que informação, sabedores de sua inequívoca contribuição à edificação de uma cultura da paz, percebem que os processos educativos não podem reduzir-se a atender às demandas do mercado. Educar para a vida ou educar para o mercado? Se optarmos em assumir compromisso com educação voltada à totalidade da existência, poderíamos indagar: no que consiste educar para a vida? Já vislumbramos um primeiro ensaio de resposta. Educar para a vida implica em responsabilização, em compromisso com uma cultura da paz, em superação de visões reducionistas que diminuem a pessoa, suas capacidades e perspectivas. Transportada, integralmente, a visão do homem mercantil ou econômico à vida do Estado, da família, da escola veremos impossibilitada a vida humana. Quando, por exemplo, na família predomina a competição e ocorrem relações de interesse exclusivamente econômico, sua existência vê-se impedida e diminuída. O mesmo vale para a vida na escola, na universidade, nas relações comunitárias, no interior do Estado. Interesses legítima e publicamente compartilháveis , num ambiente mercantil regulado, são eticamente aceitáveis. Mas, não é o que, cotidianamente, percebemos. É importante perguntar: é possível educação para vida ético-moral sempre mais autêntica, responsável, acolhedora e promotora do outro? Em que isso consistiria?

7.4 Educação da Pessoa é tarefa ética

Que é pessoa? Segundo Tomás de Aquino, pessoa é uma substância [ser que existe em si mesmo], dotada de intelecto e vontade, capaz de conhecer e querer, capaz de realizar a si mesma através de seus atos. Enquanto seres temporais, donos de nossos atos, eles nos formam. Já Aristóteles anunciava: o anthropos é um animal racional e político, portador de uma faculdade denominada prudência [ou sabedoria prática], capaz de decidir, em cada situação, pela justa medida. Essa justa medida não se encontraria nem no excesso, tampouco na falta, mas no justo meio, deliberado em cada circunstância. Aristóteles e Tomás de Aquino nos falam da importância do hábito: repetição espontânea de ações segundo a justa medida, incorporadoras, ao caráter, dessa disposição à vida moderada e excelente. Se nossos atos nos formam, é interessante destacar, nosso caráter será excelente ou vicioso em consonância com a justa medida realizada ou não em cada ato. Em conseqüência, nos tornamos justos, temperantes, prudentes, solidários, amigos, estudiosos, capazes de respeitar as outras pessoas, porque repetimos, cotidianamente, ações em harmonia com essas disposições do caráter. A formação do caráter, enquanto disposição à justa medida, supõe, para esses pensadores, disciplina e práxis.

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Através de Kohlberg, percorremos os estágios que conduzem da heteronomia à autonomia. Autônomo, propriamente, é a pessoa capaz de decidir-se pela realização do princípio em sua universalidade, sendo capaz de pôr-se no lugar do outro. Autônomo é aquele que cumpre a norma por decisão própria, realizando a justiça na direção da partilha racional de direitos e deveres. É preciso perguntar: até que ponto nos educamos, e oportunizamos em nossas famílias e escolas, vivências na direção da autonomia. Respeitamos os diversos processos nos quais as pessoas estão envolvidas? Estimulamos o exercício da autonomia? A descoberta e realização de valores? Educarmo-nos à cultura da paz, transitando da sociedade de informações à sociedade do conhecimento, não implica no estimulo à autonomia moral? O tema da autonomia moral nos encaminha à reflexão sobre a responsabilidade. A reflexão sobre a responsabilidade supõe consideração sobre o cuidado. Responsável não é, apenas, aquele que é capaz de assumir as conseqüências de suas ações. Responsável é, também, quem se empenha em promover sua existência na consideração da comum pertença ao mundo. Martin Heidegger nos lembra: o homem é um ser-aí-no-mundo [Dasein] 154 . O ser-, aberto ao mundo, precisa cultivá-lo, torná-lo habitável. Porque no aberto do mundo, tendo que destinar-se [realizar sua existência], o Dasein precisa cuidar. Cuidar implica em preocupar-se: construir abrigos, cultivar os campos, etc. Cuidar implica em solicitude: ser-com-os-outros-no-mundo. Cuidar é, pois, cultivar-com, tornando o mundo nossa casa planetária. Acontece que, nos tempos da onipresença da técnica, olvidamos o cuidado, renunciamos à responsabilidade para com o mundo: o Dasein não mais se destina, não mais se responsabiliza, pois transferiu à técnica essa tarefa. Em conseqüência, vive inautenticamente. Quais pistas Heidegger nos oferece para entender e agir no mundo da técnica? Se não podemos viver sem a técn