Sunteți pe pagina 1din 12

O ESTADO LIBERAL: ENTRE O LIBERALISMO ECONÔMICO E A NECESSIDADE DE REGULAÇÃO JURÍDICA

André Felipe Canuto Coelho*

Resumo: O estudo averigua como a ideologia do liberalismo econômico modelou o Estado e como o direito foi apropriado por essa ideologia. Por fim, abordaremos uma realidade que hoje é considerada óbvia, mas que foi obscurecida no Estado liberal: a de que o mercado só existe em razão do Estado.

Palavras-chave: Estado – liberalismo - mercado

Resumé: On examine comment l’idéologie du liberalisme économique a modelé l’État et comment le droit a été approprié par cette idéologie. Enfin, on aborde une réalité considerée évidente aujourd’hui, obscurcie, néanmoins, pendant l’État liberal: celle de que le marché n’existe qu’en raison de l’État.

Mots-clé: État – libéralisme - marché

1 Considerações iniciais

Se han ocupado de propagar la ideología del laissez faire y de los efectos beneficiosos de la libre actuación de las fuerzas del mercado; han hecho más para desviar la atención de los verdaderos mecanismos de la economía capitalista que para aclararlos.

Joan Robinson

Existe uma relação inevitável entre os modelos de Estado, sua forma de intervenção na ordem econômica e o pensamento econômico prevalecente. Partilhamos aqui do posicionamento de Heller quando observa que a economia não é o único elemento da realidade social que afeta a estrutura e a normatização estatal, mas “em uma sociedade capitalista, certamente é decisiva, e sem o seu conhecimento não é possível

é decisiva, e sem o seu conhecimento não é possível *O autor é economista, bacharel em
é decisiva, e sem o seu conhecimento não é possível *O autor é economista, bacharel em
é decisiva, e sem o seu conhecimento não é possível *O autor é economista, bacharel em
é decisiva, e sem o seu conhecimento não é possível *O autor é economista, bacharel em
é decisiva, e sem o seu conhecimento não é possível *O autor é economista, bacharel em
é decisiva, e sem o seu conhecimento não é possível *O autor é economista, bacharel em
é decisiva, e sem o seu conhecimento não é possível *O autor é economista, bacharel em
é decisiva, e sem o seu conhecimento não é possível *O autor é economista, bacharel em

*O autor é economista, bacharel em Direito, mestre em Direito pela UFPE e doutorando em Ciência Política pela UFPE. Exerce atualmente o cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal e é professor de Direito Administrativo e Econômico.

Revista Jurídica UNIGRAN. Dourados, MS | v. 8 | n. 15 | Jan./Jun. 2006.

179179179179179

levar a cabo uma frutífera investigação sobre o Estado.” 1 No Estado liberal típico dos países capitalistas centrais o que se esperava, de acordo com a ideologia econômica preponderante, era um Estado que devia ser mínimo, apenas intervindo na vida social e no mercado para assegurar as condições estritamente necessárias

para que a sociedade e a economia atuassem por si sós; que era justamente a ordem da autoregulação própria da lógica racionalista,

e que coincidia com a lógica da autoregulação do mercado. Na

prática, inobstante, o que se observou nesses mesmos países foi que

o Estado liberal, através do direito, estimulou e criou mecanismos

para o progresso da atividade econômica. 2 Trataremos, por conseguinte, nesse estudo, da modelagem do Estado liberal consoante a ideologia do liberalismo econômico (II) e revelaremos como o direito, no campo teórico, foi apropriado por essa ideologia (III). Por fim, abordaremos uma realidade que hoje é considerada óbvia, mas que foi obscurecida no Estado liberal: a de que o mercado só existe em razão do Estado (IV).

2 O liberalismo econômico a moldar a estrutura estatal

Com o acentuado desenvolvimento comercial iniciado nos estertores do século XV, uma nova personagem começa a atrair e exigir cada vez mais atenção: o mercado. Este se configura como um sistema de confronto e harmonização de interesses individuais baseados em regras próprias, impermeáveis à vontade do Estado. Nesse sentido podemos dizer que do ponto de vista do liberalismo econômico, o mercado é uma barreira ao Estado, uma zona livre de sua intervenção e, assim, um critério visível da liberdade individual. 3 Hobbes e sua filosofia individualista amoldam-se com perfeição ao

e sua filosofia individualista amoldam-se com perfeição ao 1 HELLER, Hermann. Teoría del Estado . Trad.
e sua filosofia individualista amoldam-se com perfeição ao 1 HELLER, Hermann. Teoría del Estado . Trad.
e sua filosofia individualista amoldam-se com perfeição ao 1 HELLER, Hermann. Teoría del Estado . Trad.
e sua filosofia individualista amoldam-se com perfeição ao 1 HELLER, Hermann. Teoría del Estado . Trad.
e sua filosofia individualista amoldam-se com perfeição ao 1 HELLER, Hermann. Teoría del Estado . Trad.
e sua filosofia individualista amoldam-se com perfeição ao 1 HELLER, Hermann. Teoría del Estado . Trad.
e sua filosofia individualista amoldam-se com perfeição ao 1 HELLER, Hermann. Teoría del Estado . Trad.
e sua filosofia individualista amoldam-se com perfeição ao 1 HELLER, Hermann. Teoría del Estado . Trad.

1 HELLER, Hermann. Teoría del Estado. Trad. L. Tobio. México: Fundo de Cultura Econômica, 1998, p. 143. Entre nós W. P. A. SOUZA observa que não é possível estudar os problemas econômicos sem analisar a organização do Estado, nem a estrutura e o funcionamento dos órgãos deste, sem se debruçar sobre os problemas econômicos (FRANÇA, Rubens Limonge (coord.) Enciclopédia Saraiva de Direito. Saraiva: São Paulo, 1977-1982, v. 31, p. 250).

2 Alberto VENÂNCIO FILHO mostra que o laissez-faire foi bastante atenuado tanto nas relações externas dos países, com a adoção do protecionismo, quanto nas relações internas por intermeio de políticas fiscais, sociais e monetárias (A intervenção do Estado no domínio econômico. Rio de Janeiro: Renovar, 1998, p. 6)

3 Nesse sentido se poderá afirmar que é da atividade individual que decorrem as explicações para os fatos sociais. Estamos no domínio do individualismo epistemológico. A expressão é de KOLM, Serge Christophe. Le liberalisme moderne. Paris: PUF, 1984, p. 185.

180180180180180

Revista Jurídica UNIGRAN. Dourados, MS | v. 8 | n. 15| Jan./Jun. 2006.

modo de vida dos capitalistas produtores que começavam a entrar no ramo do comércio: os interesses pessoais e egoístas seriam os motivos básicos, senão os únicos, que levariam os homens a agir. 4 Cada um se relacionaria com o seu próximo tendo em vista algum interesse e não por conta de uma integração social com base em normas e valores. 5 Trata-se de um tipo específico de individualismo possessivo, segundo

o qual o homem seria um ser independente, que agiria de acordo com

o seu próprio interesse e nada deveria à sociedade. 6 Weber vem ressaltar que com o estabelecimento do protestantismo em muitos países europeus, a sua ética permitiu que os homens se lançassem, sem culpa, nesse desejo desenfreado pelo material, como se o impulso para a aquisição fosse uma representação do próprio desejo de Deus refletido nos homens. 7

A grande repercussão da famosa FábulaFábulaFábulaFábulaFábula dasdasdasdasdas AbelhasAbelhasAbelhasAbelhasAbelhas de Mandeville, editada no início do século XVIII, é bastante indicativa ao propor uma verdadeira reviravolta nos valores: o vício privado, ou seja, o egoísmo e ganância, seriam as molas propulsoras para o progresso da humanidade, ao impulsionar a busca desenfreada pelo material. Eram justamente essa combinação de esforços mesquinhos

e individualistas que garantiriam a harmonia na sociedade. 8 Defende-se, a partir de então, a teoria segundo a qual a economia está sujeita a leis naturais que a levam fatalmente a uma situação de equilíbrio entre os integrantes do mercado, com frutos positivos para toda a sociedade, que será rica se os seus integrantes o forem. A economia começa a se separar progressivamente não somente da política como também da moralidade: ela impõe uma moralidade própria, segundo a qual a atividade econômica seria naturalmente orientada para o bem, de modo que não poderia ser julgada segundo critérios morais vigentes em uma sociedade. 9

segundo critérios morais vigentes em uma sociedade. 9 4 HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. Alex Marins. São
segundo critérios morais vigentes em uma sociedade. 9 4 HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. Alex Marins. São
segundo critérios morais vigentes em uma sociedade. 9 4 HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. Alex Marins. São
segundo critérios morais vigentes em uma sociedade. 9 4 HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. Alex Marins. São
segundo critérios morais vigentes em uma sociedade. 9 4 HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. Alex Marins. São
segundo critérios morais vigentes em uma sociedade. 9 4 HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. Alex Marins. São
segundo critérios morais vigentes em uma sociedade. 9 4 HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. Alex Marins. São
segundo critérios morais vigentes em uma sociedade. 9 4 HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. Alex Marins. São

4 HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2002, passim.

5 DUMONT, Louis. O individualismo. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Trad. A. Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p. 99.

6 MACPHERSON, Crawford Brough. Teoria política do individualismo possessivo de Hobbes até Locke. Rio de Janeiro:

Paz e Terra, 1979.

7 Se Deus vos aponta um meio pelo qual legalmente obtiverdes mais do que por outro (sem perigo para a vossa alma ou para a de outro), e se o recusardes e escolherdes um dos fins de vossa vocação, e recusareis a ser o servo de Deus, aceitando suas dádivas e usando-as para Ele, quando ele assim o quis. Deveis trabalhar para serdes ricos para Deus e, evidentemente, não para a carne ou para o pecado. Aqui cita Max WEBER parte do sermão do pastor lusitano Richard Baxter em Works of puritan divines. Dublin: Stretch, 2001, p. 27.

8 REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia. São Paulo: Paulinas, 1999, v. 11, pp. 799-804.

9 DUMONT, Louis. Op. cit., p. 95.

Revista Jurídica UNIGRAN. Dourados, MS | v. 8 | n. 15 | Jan./Jun. 2006.

181181181181181

Adam Smith foi decisivo na consolidação de um pensamento segundo o qual a busca pelo auto-interesse egoísta conduziria inevitavelmente ao progresso social. Sua mão invisível, que atuaria harmonizando os interesses sociais, apesar de não passar de uma crença, passou a ser aceita como verdade absoluta, constituindo-se a base do liberalismo econômico. Ora, dado que os interesses privados levavam ao interesse coletivo, não havia porque não se garantir aos agentes econômicos a maior liberdade possível:

Portanto, sem qualquer intervenção da lei, os interesses privados e as paixões dos homens levam-nos, naturalmente, a dividirem e a distribuírem o capital de qualquer sociedade entre os diferentes empregos com ele realizados, tanto quanto possível, na proporção mais vantajosa para o interesse de toda a sociedade. As várias regulamentações do sistema mercantil vêm, necessariamente, perturbar esta distribuição natural e muito vantajosa do capital. 10

A teoria econômica do Estado liberal se completa com o utilitarismo de Bentham: 11 o objetivo principal de uma sociedade seria a maximização da felicidade individual, dos apetites de cada um, colocando assim os direitos naturais num segundo plano. A própria moralidade e a ética se tornaram um cálculo de felicidades. 12 O utilitarismo propõe um modelo de racionalidade que posteriormente fica conhecido como homo oeconomicus: um homem que é um maximizador racional e egoísta de prazer, capaz de determinar suas ações de forma estratégica e por meio de cálculos racionais de utilidade, pouco importando suas emoções, seus hábitos, sua cultura e suas contingências. Outros postulados se afirmaram a partir do homo oeconomicus, cuja influência persiste até os dias atuais: (i) a idéia de que o mercado tende sempre ao equilíbrio, numa confirmação da mão invisível de Smith e (ii) o entendimento de que a economia seria uma ciência decorrente da observação, cujas leis seriam naturais. Nesse sentido, o mercado se torna uma força incontrolável a que todos devem submissão. 13 Haveria uma perfeita harmonia no sistema capitalista já que todos

uma perfeita harmonia no sistema capitalista já que todos 1 0 SMITH, Adam. A Riqueza das
uma perfeita harmonia no sistema capitalista já que todos 1 0 SMITH, Adam. A Riqueza das
uma perfeita harmonia no sistema capitalista já que todos 1 0 SMITH, Adam. A Riqueza das
uma perfeita harmonia no sistema capitalista já que todos 1 0 SMITH, Adam. A Riqueza das
uma perfeita harmonia no sistema capitalista já que todos 1 0 SMITH, Adam. A Riqueza das
uma perfeita harmonia no sistema capitalista já que todos 1 0 SMITH, Adam. A Riqueza das
uma perfeita harmonia no sistema capitalista já que todos 1 0 SMITH, Adam. A Riqueza das
uma perfeita harmonia no sistema capitalista já que todos 1 0 SMITH, Adam. A Riqueza das

10 SMITH, Adam. A Riqueza das nações. Trad. A. S. Lima. São Paulo: Martins Fontes, 2003, v. 2, p. 443.

11 VILLEY, Michel. Leçons d’histoire de la philosophie du droit. Paris: Dalloz, 2002, p. 73.

12 DUMONT, Louis. Homo aequalis. Trad. José Leonardo Nascimento. BAURU: EDUSC, 2000, p. 115.

13 Segundo LOPES, Ana Frazão de Azevedo. O abuso do poder econômico no Estado Democrático de Direito. Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Direito e Estado pela Faculdade de Direito da UNB. Brasília, 2003, p. 51.

182182182182182

Revista Jurídica UNIGRAN. Dourados, MS | v. 8 | n. 15| Jan./Jun. 2006.

os detentores dos meios de produção – o capitalista, o trabalhador e o

proprietário de terras – teriam seus insumos, capital, terra e força de trabalho, remunerados de acordo com sua utilidade para a produção. Ademais, como a avaliação dessas utilidades seriam subjetivas, não poderia haver discussão ética alguma acerca das mesmas.

Já no último quartel do século XIX, alguns dos postulados da teoria

econômica tiveram que ser revistos uma vez que o sistema começava

a apresentar distorções. A grande prosperidade econômica da

Inglaterra durante os vinte anos anteriores (1850-1870) gerando uma expressiva acumulação de capital e um conflito social entre patrões e empregados destacou o problema da má alocação de recursos 14 . O que a teoria econômica tinha a dizer? A resposta veio ainda na década de 1870 na roupagem da teoria neoclássica. A teoria neoclássica apenas se distinguia de sua antecessora pela ênfase no conceito de utilidade marginal 15 e na idéia de consumidor em

substituição ao capitalista individual, persistindo no utilitarismo e na crença no equilíbrio do mercado, no laissez-faire, na racionalidade absoluta do homem e na suposta neutralidade valorativa da ciência econômica. Como a teoria neoclássica tinha como objetivo buscar a melhor eficiência alocativa dos recursos econômicos escassos, sua grande questão era encontrar o ponto ótimo de equilíbrio, em que consumidores

e produtores maximizam respectivamente a satisfação e o lucro. 16

O modelo de equilíbrio neoclássico apresenta, inobstante, uma

grande deficiência: ele é estático, toma a situação dos consumidores e da empresa como dados não questionados, não fazendo qualquer reflexão sobre os mesmos. Estão, assim, abstraídas da análise questões cruciais como as diferenças e as classes sociais 17 , as relações de poder

e

as desigualdades de riqueza. A proposta neoclássica é a de

maximizar riquezas a partir de uma visão completamente abstrata dos agentes econômicos envolvidos. Não é por acaso que a análise econômica neoclássica estruturou-se

acaso que a análise econômica neoclássica estruturou-se 1 4 Ibid ., p. 54. 1 5 A
acaso que a análise econômica neoclássica estruturou-se 1 4 Ibid ., p. 54. 1 5 A
acaso que a análise econômica neoclássica estruturou-se 1 4 Ibid ., p. 54. 1 5 A
acaso que a análise econômica neoclássica estruturou-se 1 4 Ibid ., p. 54. 1 5 A
acaso que a análise econômica neoclássica estruturou-se 1 4 Ibid ., p. 54. 1 5 A
acaso que a análise econômica neoclássica estruturou-se 1 4 Ibid ., p. 54. 1 5 A
acaso que a análise econômica neoclássica estruturou-se 1 4 Ibid ., p. 54. 1 5 A
acaso que a análise econômica neoclássica estruturou-se 1 4 Ibid ., p. 54. 1 5 A

14 Ibid., p. 54.

15 A utilidade marginal depende não apenas da quantidade do bem, como também da intensidade do efeito produzido sobre o consumidor: o grau de utilidade varia com a quantidade de um bem mas fatalmente diminui na medida em que a quantidade aumenta. (JEVONS, William Stanley. A teoria da economia política. Trad. C. L. Morais. São Paulo: Abril Cultural, 1983, pp. 53-54).

16 FEIJÓ, Ricardo. História do pensamento econômico. São Paulo: Atlas, 2001, p. 273.

17 A questão das classes sociais estava muito presente na economia clássica, tanto que esta era conhecida como Economia Política. De forma contrária, a nova Economia marginalista abstrai as classes sociais e, com elas, as relações sociais, estando voltada, estando voltada para a relação psicológica entre indivíduos e bens de consumo. (Ibid., p. 270).

Revista Jurídica UNIGRAN. Dourados, MS | v. 8 | n. 15 | Jan./Jun. 2006.

183183183183183

muitas vezes em equações matemáticas nas quais os agentes são analiticamente igualados. Era uma tentativa de aplicar à teoria econômica a igualdade formal que caracteriza o paradigma do Estado liberal, abordada sob uma perspectiva cada vez mais próxima da engenharia e cada vez menos sujeita à decisão. 18 Só que a utilização da linguagem matemática nos assuntos humanos gera um perigoso impasse, pois “tudo o que os homens fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido.” 19

3 O direito frente à teoria econômica

Em cada momento histórico, direito e economia se relacionaram de forma peculiar, como resultado do fenômeno cultural de que são expressão. A relação direito-economia foi expressa, ao longo dos tempos, através de uma linguagem própria, formando um discurso propiciador da imposição de princípios designados a reger a interação humana. 20 O século XIX foi um período de crise para o direito ao ter sua eficácia e normatividade contestadas por diferentes formas de positivismo, dentre as quais o positivismo econômico, que pretendia se impor ao direito a partir da premissa de que as leis econômicas derivavam de fatos objetivos e observáveis. 21 Na verdade, a teoria econômica, pretensamente justificada a partir de leis naturais foi impondo os seus postulados sobre o direito e toda a sociedade, especialmente no que se refere ao utilitarismo e à idéia de que as leis do mercado seriam naturais e incontroláveis. Nessa senda, o utilitarismo simplesmente impôs a regra do útil ao direito, à justiça, às liberdades individuais e mesmo ao contrato social 22 . A maximização de utilidade apresentou-se como o objetivo primordial da atividade econômica e mesmo dos demais âmbitos da vida civil. A questão do cumprimento ou não dos direitos e do atendimento ou não à justiça acabou tornando-se acessória.

ou não à justiça acabou tornando-se acessória. 1 8 SEN também destaca que especialmente a obra
ou não à justiça acabou tornando-se acessória. 1 8 SEN também destaca que especialmente a obra
ou não à justiça acabou tornando-se acessória. 1 8 SEN também destaca que especialmente a obra
ou não à justiça acabou tornando-se acessória. 1 8 SEN também destaca que especialmente a obra
ou não à justiça acabou tornando-se acessória. 1 8 SEN também destaca que especialmente a obra
ou não à justiça acabou tornando-se acessória. 1 8 SEN também destaca que especialmente a obra
ou não à justiça acabou tornando-se acessória. 1 8 SEN também destaca que especialmente a obra
ou não à justiça acabou tornando-se acessória. 1 8 SEN também destaca que especialmente a obra

18 SEN também destaca que especialmente a obra de Walras foi a grande responsável por uma abordagem engenheira da economia. (SEM, Amartya. Sobre ética e economia. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, pp. 20-21).

19 ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. R. Raposo. Lisboa: Relógio d’Água, 2001, pp. 14-15.

20 Uma interessante análise da relação o mercado da sociedade econômica burguesa e seu direito é feito por REICH, Norbert. Mercado y derecho. Trad. A. Font. Barcelona: Ariel, 1985.

21 VILLEY destaca que o direito foi assolado também pelo positivismo histórico e pelo positivismo sociológico de Comte. (VILLEY, Michel. Op. cit., pp. 69-84).

22 Ibid., p. 73.

184184184184184

Revista Jurídica UNIGRAN. Dourados, MS | v. 8 | n. 15| Jan./Jun. 2006.

O direito tornou-se um fenômeno de menor importância, na suposição de que seriam as relações econômicas, submetidas a leis naturais e imutáveis, que estruturariam e integrariam a sociedade 23 . Consolidou-se uma forte crença de que não havia espaço para uma ordem jurídica da economia, até porque toda intervenção estatal no mercado seria inócua ou mesmo nociva. O melhor a ser feito seria aceitar as leis de mercado, até porque as mesmas naturalmente levariam ao equilíbrio e à harmonia social. 24

4 A necessidade do direito e a intervenção estatal

A teoria econômica que se tornou o paradigma do Estado liberal

acreditava que as leis do mercado bastariam para propiciar o pleno desenvolvimento da atividade econômica. As ações individuais levariam a um auto-equilíbrio sustentável: a atuação do Estado na Economia seria ou desnecessária ou indiferente. O título de livro de Humboldt parece resumir a modelo ideal de Estado para a época:

“Idéias para um ensaio para determinar os limites da atividade do Estado” 25 , limites que não eram pertinentes apenas à liberdade moral e política dos indivíduos, mas principalmente no âmbito econômico.

A sociedade e o Estado eram apresentados como universos

separados, já que essa era a forma necessária para evitar a intervenção de um poder negativo na esfera dos indivíduos. Tratava-

se de um Estado supostamente mínimo, com funções e poderes limitados, até porque o Estado era justificado como o resultado de um acordo entre indivíduos livres que estabelecem um acordo apenas para garantir uma convivência duradoura e pacífica. 26 Todavia, uma investigação mais aprofundada do assunto denota que a intervenção estatal na economia foi maior do que normalmente se supõe, de forma que a atividade econômica não teria como prosperar se não fosse o arcabouço jurídico que foi propiciado pelo Estado. A idéia de uma economia que se desenvolveu e progrediu sem qualquer participação do Estado é uma fantasia. A concepção

participação do Estado é uma fantasia. A concepção 2 3 HABERMAS, Jürgen. Facticidad y validez .
participação do Estado é uma fantasia. A concepção 2 3 HABERMAS, Jürgen. Facticidad y validez .
participação do Estado é uma fantasia. A concepção 2 3 HABERMAS, Jürgen. Facticidad y validez .
participação do Estado é uma fantasia. A concepção 2 3 HABERMAS, Jürgen. Facticidad y validez .
participação do Estado é uma fantasia. A concepção 2 3 HABERMAS, Jürgen. Facticidad y validez .
participação do Estado é uma fantasia. A concepção 2 3 HABERMAS, Jürgen. Facticidad y validez .
participação do Estado é uma fantasia. A concepção 2 3 HABERMAS, Jürgen. Facticidad y validez .
participação do Estado é uma fantasia. A concepção 2 3 HABERMAS, Jürgen. Facticidad y validez .

23 HABERMAS, Jürgen. Facticidad y validez. Trad. M. J. Redondo. Madrid: Editorial Trota S/A, 2001, pp. 108-110.

24 LOPES, Ana Frazão de Azevedo. Op. cit., p. 60.

25 HUMBOLDT, Wilhem von. Ideen zu einem Versuch, die Gränzen der Wirksamkeit des Staats zu bestimmen. Breslau: E. Trewendt, 1851.

26 Nesse sentido ver a obra de BONETTO, Maria Susana; PIÑERO, Maria Teresa. Las transformaciones del Estado. De la modernidad a la globalización. 2. ed. Córdoba: Advocatus, 2003.

Revista Jurídica UNIGRAN. Dourados, MS | v. 8 | n. 15 | Jan./Jun. 2006.

185185185185185

do Estado do liberalismo como um Estado mínimo não pressupunha, muito pelo contrário, um Estado débil já que se constata ao longo do século XIX todo um aparelhamento e reorganização da estrutura estatal. A simples instituição do modelo do mercado já exigiria uma estrutura legal coercitiva mínima, a fim de assegurar a propriedade,

a vida e o cumprimento dos contratos 27 . As reformas internas realizadas pelos países capitalistas centrais, no marco das mudanças da técnica e do ambiente de transformação do século XIX, introduziram novas instituições úteis para o aumento de seu poder: a polícia, a administração central, o serviço militar obrigatório, os transportes, as comunicações. Quando tudo isso se associou com o crescimento econômico advindo da industrialização, surgiram Estados poderosos, centralizadores. No rastro do pensamento sociológico que acentuava o caráter social e histórico das instituições, surge Weber alertando que “o Estado capitalista depende completamente da organização burocrática para a continuação da sua existência.” 28 Ademais, procurou o autor comprovar que, tanto maior a expansão do mercado, mais amplo e eficiente precisava ser o crescimento da burocracia estatal, a fim de assegurar uma distribuição regular e coordenada de bens e de serviços, conferir previsibilidade às relações econômicas e proteger

o cumprimento dos contratos, dentre outras funções. 29 Ao adentrar nas razões que levaram ao surgimento da Revolução Francesa de 1789, o sociólogo alemão chama atenção para o fato da burguesia estar à procura de uma segurança e de uma

da burguesia estar à procura de uma segurança e de uma 2 7 MACPHERSON, Crawford Brough.
da burguesia estar à procura de uma segurança e de uma 2 7 MACPHERSON, Crawford Brough.
da burguesia estar à procura de uma segurança e de uma 2 7 MACPHERSON, Crawford Brough.
da burguesia estar à procura de uma segurança e de uma 2 7 MACPHERSON, Crawford Brough.
da burguesia estar à procura de uma segurança e de uma 2 7 MACPHERSON, Crawford Brough.
da burguesia estar à procura de uma segurança e de uma 2 7 MACPHERSON, Crawford Brough.
da burguesia estar à procura de uma segurança e de uma 2 7 MACPHERSON, Crawford Brough.
da burguesia estar à procura de uma segurança e de uma 2 7 MACPHERSON, Crawford Brough.

27 MACPHERSON, Crawford Brough. Op. cit., p. 59.

28 WEBER, Max. Economia e sociedade. Trad. R. Barbosa e K. E. Barbosa. Brasília: Universidade de Brasília, 2000, p. 221. 29 WEBER precisa ser destacado nesse aspecto: Do ponto de vista puramente conceitual, portanto, o Estado não é necessário para a economia. Mas, sem dúvida, o funcionamento de uma ordem econômica do tipo moderno não é possível sem uma ordem jurídica de caráter muito especial, a qual, na prática, só pode ser uma ordem estatal. A economia moderna baseia-se em oportunidades adquiridas por contratos. Por mais longe que vá o interesse próprio na legalidade contratual, bem como também os interesses comuns dos proprietários na proteção mútua de sua propriedade, e por mais que a convenção e o costume determinem, ainda hoje, no mesmo sentido, as ações dos indivíduos, a influência desses poderes perdeu muito de sua importância em conseqüência do abalo da tradição – tanto das relações reguladas pela tradição quanto da crença na santidade destas. Por outro lado, os interesses das classes encontram-se, mais do que nunca, separados entre si; a velocidade das transações modernas exige um direito que funcione de maneira rápida e segura – isto é, que seja garantido por um poder coativo o mais forte possível – e, sobretudo, a economia moderna destruiu, em virtude de seu caráter peculiar, as outras associações que eram portadoras do direito e, portanto, da garantia do mesmo. Esta é a obra do desenvolvimento do mercado. O domínio universal da relação associativa de mercado exige, por um lado, um funcionamento do direito calculável segundo regras racionais. Por outro lado, a expansão do mercado, que ainda conheceremos como tendência característica dessa relação favorece, em virtude de suas conseqüências imanentes, a monopolização e a regulamentação de todo poder coativo legítimo por uma instituição coativa universal, mediante a destruição de todas as estruturas coativas particulares, as estamentais ou outras, baseadas, na maioria dos casos, em monopólios econômicos. (Ibid., pp. 226-227).

186186186186186

Revista Jurídica UNIGRAN. Dourados, MS | v. 8 | n. 15| Jan./Jun. 2006.

confiabilidade que só a ordem jurídica poderia oferecer: não havia

razão, então, para acreditar que não existiria uma ordem jurídica da economia no Estado liberal. Esse Estado necessitou criar as instituições

e

a infra-estrutura sem as quais a tão valorizada liberdade econômica

e

a autonomia da vontade não teriam como ser operacionalizadas:

“à estruturação econômica liberal era essencial a consagração e garantia de determinados institutos jurídicos.” 30 Analisando a evolução das instituições jurídicas na França, Ripert 31 nos mostra que o direito teve uma participação essencial no desenvolvimento da forma de produção capitalista naquele país: disciplinamento das sociedades comercias através de um Código Comercial; criação de uma infra-estrutura creditícia e financeira; estabelecimento dos tribunais de comércio; leis sobre a navegação marítima, a propriedade industrial e patentes de invenção; fornecimento de uma infra-estrutura através de serviços públicos de ferrovias, energia elétrica e fornecimento de água. Cumpre, então, concluir, diante do exposto, com o seguinte trecho memorável de Ripert: 32

] [

dia em que o legislador [

ou a indústria. Nesse dia já seria ele possível, mas não foi o de sua criação. A liberdade tudo permitia, mas nada dava.

O que falta ao capitalismo é um conjunto de instituições e regras que permitam

reunir e utilizar os capitais, que assegurem ao detentor de capitais a preponderância

na vida econômica e mesmo na vida política, que dêem à produção e à repartição das riquezas o primeiro lugar no espírito dos homens. [ ]

O capitalismo jacta-se de dizer que nada pede, que simplesmente lhe basta a

liberdade, apraz-se em repetir: deixai fazer; nada poderia fazer se o legislador não lhe tivesse dado ou permitido lançar mão dos meios próprios à concentração e à exploração de capitais.

deu aos homens a liberdade de praticar o comércio

não se deve imaginar que o capitalismo moderno nasceu todo armado no

]

5 Referências

ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. R. Raposo. Lisboa:

Relógio d’Água Editores, 2001.

Trad. R. Raposo. Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2001. 3 0 VAZ, Manuel Afonso. Direito Econômico. A
Trad. R. Raposo. Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2001. 3 0 VAZ, Manuel Afonso. Direito Econômico. A
Trad. R. Raposo. Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2001. 3 0 VAZ, Manuel Afonso. Direito Econômico. A
Trad. R. Raposo. Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2001. 3 0 VAZ, Manuel Afonso. Direito Econômico. A
Trad. R. Raposo. Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2001. 3 0 VAZ, Manuel Afonso. Direito Econômico. A
Trad. R. Raposo. Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2001. 3 0 VAZ, Manuel Afonso. Direito Econômico. A
Trad. R. Raposo. Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2001. 3 0 VAZ, Manuel Afonso. Direito Econômico. A
Trad. R. Raposo. Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2001. 3 0 VAZ, Manuel Afonso. Direito Econômico. A

30 VAZ, Manuel Afonso. Direito Econômico. A ordem econômica portuguesa. Coimbra: Coimbra, 1998, p. 46.

31 RIPERT, Georges. Aspectos jurídicos do capitalismo moderno. Trad. G. G. Azevedo. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1947, passim.

32 Ibid., pp. 31-32.

Revista Jurídica UNIGRAN. Dourados, MS | v. 8 | n. 15 | Jan./Jun. 2006.

187187187187187

BONETTO, Maria Susana; PIÑERO, Maria Teresa. Las transformaciones del Estado. De la modernidad a la globalización. 2. ed. Córdoba:

Advocatus, 2003. DUMONT, Louis. Homo aequalis. Trad. J. L. Nascimento. BAURU:

EDUSC, 2000. O individualismo. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Trad. A. Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. FEIJÓ, Ricardo. História do pensamento econômico. São Paulo: Atlas, 2001. HABERMAS, Jürgen. Facticidad y validez. Trad. M. J. Redondo. Madrid:

Editorial Trota, 2001. HELLER, Hermann. Teoría del Estado. Trad. L. Tobio. México: Fundo de Cultura Econômica, 1998. HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. A. Marins. São Paulo: Martin Claret,

2002.

HUMBOLDT, Wilhelm von. Ideen zu einem Versuch, die Gränzen der Wirksamkeit des Staats zu bestimmen. Breslau: E. Trewendt, 1851 JEVONS, William Stanley. A teoria da economia política. Trad. C. L. Morais. São Paulo: Abril Cultural, 1983. KOLM, Serge Christophe. Le liberalisme moderne. Paris: PUF, 1984. LOPES, Ana Frazão de Azevedo. O abuso do poder econômico no Estado Democrático de Direito. Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Direito e Estado pela Faculdade de Direito da UNB. Brasília, 2003. MACPHERSON, Crawford Brough. Teoria política do individualismo possessivo de Hobbes até Locke. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia. São Paulo:

Paulinas, 1999, v. 11. REICH, Norbert. Mercado y derecho. Trad. A. Font. Barcelona: Ariel, 1985. RIPERT, Georges. Aspectos jurídicos do capitalismo moderno. Trad. G. G. Azevedo. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1947. SEN, Amartya. Sobre ética e economia . Trad. L. T. Motta. São Paulo:

Companhia das Letras, 2002. SMITH, Adam. A Riqueza das nações. Trad. A. S. Lima. São Paulo:

Martins Fontes, 2003, v. 2. SOUZA, Washington Peluso Albino de. In: FRANÇA, Limonge Rubens (coord.) Enciclopédia Saraiva de Direito. Saraiva: São Paulo, 1977- 1982, v. 31, p. 250. VAZ, Manuel Afonso. Direito Econômico. A ordem econômica

188188188188188

Revista Jurídica UNIGRAN. Dourados, MS | v. 8 | n. 15| Jan./Jun. 2006.

portuguesa. Coimbra: Coimbra, 1998. VENÂNCIO FILHO, Alberto. A intervenção do Estado no domínio econômico. Rio de Janeiro: Renovar, 1998.

VILLEY, Michel. Leçons d’histoire de la philosophie du droit. Paris: Dalloz,

2002.

WEBER, Max. Economia e sociedade. Trad. R. Barbosa e K. E. Barbosa. Brasília: Universidade de Brasília, 2000. Works of puritan divines. Dublin: Stretch, 2001.

Revista Jurídica UNIGRAN. Dourados, MS | v. 8 | n. 15 | Jan./Jun. 2006.

189189189189189

190190190190190

Revista Jurídica UNIGRAN. Dourados, MS | v. 8 | n. 15| Jan./Jun. 2006.