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Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em História Contemporânea, realizada sob a orientação científica de Maria Fernanda Fernandes Garcia Rollo

AGRADECIMENTOS

«As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpas. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.

E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do Disse ou Tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão – e por essa via entram na imortalidade do Verbo. Ao lado de Sócrates, o presidente da junta afixa o discurso que abriu a torneira do marco fontanário. E as palavras escorrem tão fluidas como o "precioso líquido". Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envoltos também num murmúrio manso, represo e conciliador. Há de tudo no orfeão: tenores e tenorinos, baixos cantantes, sopranos de dó de peito fácil, barítonos enchumaçados, contraltos de voz surpresa. Nos intervalos, ouve-se o ponto. E tudo isso atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares.

Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que não se oiça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça.

Daí que seja urgente mondar as palavras para que a sementeira se mude em seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte – ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do acto.

Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão.»

(Saramago, José, in Deste Mundo e do Outro. Lisboa: Editorial Caminho, 1997)

Porque as palavras simples não atraiçoam:

um singelo obrigado a todos os aqui se encontram presentes.

A nacionalização que se deseja”

Notas para uma breve História da indústria cervejeira nacional:

do Estado Novo às nacionalizações revolucionárias

Filipe Guimarães da Silva

RESUMO

PALAVRAS-CHAVE:

indústria

cervejeira,

nacionalizações, revolução portuguesa.

desenvolvimento

industrial,

A presente dissertação enquadra teoricamente a análise da história da indústria cervejeira portuguesa numa visão sistémica das políticas de desenvolvimento à escala nacional, tendo em conta os contornos políticos e as opções essenciais. Esta indústria assume um papel de relevo, desde logo pela componente tecnológica e pelo tecido modernizador que lhe é conferido no contexto da indústria portuguesa de dimensão mais reduzida.

Os impactos da industrialização tardia, insertos num quadro internacional no qual Portugal progredia a contraciclo, tiveram certamente o pendão contraproducente de exacerbar alguns problemas estruturais da economia portuguesa, sendo que o sector cervejeiro, apesar de se encontrar parcialmente desenquadrado desta realidade, carece de uma visão estratégica global. O papel do Estado enquanto agente económico merece uma atenção especial, tendo em conta os dois grandes períodos em análise – o Estado Novo e o PREC.

A nacionalização que se deseja”

Notes for a brief history of the portuguese brewing industry: from “Estado Novo” to the revolutionary nationalizations

KEYWORDS:

brewing

portuguese revolution.

ABSTRACT

Industry,

industrial

development,

nationalizations,

This dissertation fits theoretically the analysis of the portuguese brewing industry’s history in a systemic view of the development policies at national level, taking into account the political contours and the main options. This industry plays a major role for its technological component and modernizing industrial fabric which is given by the portuguese industry, although on an smaller scale.

The impacts of late industrialization, inserted in an international framework in which Portugal counter-cyclically progressed, certainly had the counterproductive effect to exacerbate structural problems of the portuguese economy. The brewing industry, despite being partially unframed from this reality, lacks a strategic global vision. The role of the State as an economic agent deserves special attention, regarding the two great periods under review – “Estado Novo” and “PREC”.

Índice

Introdução

1

1. As “cervejas de Salazar e Caetano”

6

1.1. O longo “século XIX”

6

1.2. Da concentração aos anos 50

9

1.2.1. A II Guerra Mundial, a abertura de mercados externos e o problema da

 

cevada

11

1.3.

Reapetrechamento sectorial, actualização técnica e expansão dos anos 50

15

1.3.1. A indústria cervejeira e a lavoura nacional

18

1.3.2. O potencial produtivo vs. consumo

19

1.3.3. Industrialização ou surto industrial. O II Congresso da Indústria Portuguesa e

o sector cervejeiro em equação

1.4. A reorganização forçada por um convite inesperado: o sector cervejeiro e a

21

abertura externa

24

1.4.1. Na senda da investigação. As novas unidades industriais

27

1.4.2. Balanço da indústria cervejeira no final da década e a nova abertura do

condicionamento industrial

29

1.5.

Uma estabilidade relativa: os efeitos de um crescimento ilusório

33

1.5.1. Diagnóstico sectorial de 1974. O IV Plano de Fomento

34

1.5.2. Redes de interesses, grupos e monopolismo

35

1.5.3. O sector cervejeiro e a economia portuguesa nas vésperas da Revolução

37

2. Economia da Revolução: contextualização

42

2.1. Revolução e transformações

42

2.2. Conclusões e indicadores económicos

52

3. As nacionalizações

55

3.1. Que plano de nacionalizações?

56

3.2. As fases das nacionalizações

59

3.2.1. Setembro de 1974

59

3.2.2. Março de 1975

60

3.2.3. Abril de 1975

63

4. A nacionalização da indústria cervejeira

66

4.1.1.

Do movimento reivindicativo de 31 de Janeiro ao pedido de nacionalização

 

68

4.1.2. Guerra de comunicados

72

4.1.3. As sequelas do 11 de Março

76

4.2. Sobre o controlo operário na SCC

80

4.3. A Comissão Administrativa

83

4.4. Comissão de Análise e Inquérito

85

4.4.1. Congelamento das contas bancárias – a primeira grande medida da Comissão

de Análise e Inquérito

87

4.4.2. As cervejas na hora da nacionalização. Os resultados do inquérito oficial

89

4.4.3. “Um capitalismo bem tirado”. A Sociedade Central de Cervejas como cabeça

do grupo

91

4.4.4. “Receita para um monopólio”. Os meandros das “operações”

94

4.5.5. Outras situações

100

4.5. Os trabalhos do Ministério da Indústria e Tecnologia

104

4.6. Os processos nas restantes empresas

107

4.7. A “nacionalização que se deseja” sempre se realiza

110

4.8. Breve síntese do processo de reestruturação do sector

112

Conclusão

118

Fontes e bibliografia

120

Fontes Primárias e Secundárias

120

1. Arquivos e bibliotecas

120

2. Publicações periódicas – boletins, jornais e revistas

120

3. Documentação

dos

órgãos

de soberania, da Administração Central e de

departamentos governamentais

122

4. Congressos

124

5. Documentação empresarial

124

6. Relatórios, balanços e contas

125

7. Memórias, entrevistas, intervenções e livros de militares e políticos civis

125

8. Outras fontes

127

 

Fontes Orais

128

Bibliografia

128

1.

Bibliografias, cronologias, dicionários e estatísticas

128

3.

A indústria/industrialização portuguesa durante o Estado Novo

129

4. Obras e estudos sobre o Processo Revolucionário Português

131

5. Economia da Revolução

133

6. Nacionalizações

136

7. Movimentos sociais, sindicalismo e partidos

138

8. Questões jurídicas e constitucionais

138

9. Outra bibliografia

138

10. Vídeo

139

LISTA DE ABREVIATURAS

AICP – Associação da Indústria Cervejeira Portuguesa

BdP – Banco de Portugal

BESCL / BES – Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa / Banco Espírito Santo

BIRD – Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento / Banco Mundial

BPA – Banco Português do Atlântico

BTC – Balança de Transacções Corrente

CDS – Centro Democrático e Social

CERCOPIM – junção da Cergal, Copeja e Imperial

CIP – Confederação da Indústria Portuguesa

COPCON – Comando Operacional do Continente

CP – Caminhos de Ferro Portugueses

CRP – Constituição da República Portuguesa

CRSC – Comissão de Reestruturação do Sector Cervejeiro

CT – Comissão de Trabalhadores

CUCA – Companhia União de Cervejas de Angola

CUF – Companhia União Fabril

CUFP – Companhia União Fabril Portuense

D.L. – Decreto-Lei

DGCI – Direcção-Geral do Comércio Interno

EBC – European Brewery Convention

EBIC – EFTA Brewery Industry Council

EBWP – EFTA Brewers Working Party

EFTA – Associação Europeia de Livre Comércio

EKA – Empresa Angolana de Cervejas

FMI – Fundo Monetário Internacional

GATT – Acordo Geral de Tarifas e Comércio

GP – Grupo Cervejeiro Português

JSN – Junta de Salvação Nacional

MCI – Ministério do Comércio Interno

MDE/S – Movimento Dinamizador Empresa/Sociedade

MDP – Movimento Democrático Português

MES – Movimento Esquerda Socialista

MFA – Movimento das Forças Armadas

MIT – Ministério da Indústria e Tecnologia

MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola

MRPP – Movimento Reorganizativo do Partido Proletário

NOCAL – Nova Empresa de Cervejas de Angola

OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico

PCP – Partido Comunista Português

PIB – Produto Interno Bruto

PPD – Partido Popular Democrático

PREC – Processo Revolucionário em Curso

PRP – Partido Revolucionário do Proletariado

PS – Partido Socialista

SCC

– Sociedade Central de Cervejas / Central de Cervejas

SEE

– Sector Empresarial do Estado

SIL – Skol International

SIPSA – Skol International de Participações

TAP

– Transportes Aéreos Portugueses

TLP

– Empresa Pública de Telefones de Lisboa e Porto

TVR

– Taxa de Variação Real

UDP

– União Democrática Popular

VAB – Valor Acrescentado Bruto

FBCF – Formação Bruta de Capital Fixo

Introdução

Como as investigações são feitas de avanços e recuos, de constantes amadurecimentos intelectuais, com honestidade assumo o irrealismo operacional do estudo que me propus fazer na etapa inicial. De facto, a primeira hipótese levantada para o início dos trabalhos procurava analisar o processo das nacionalizações enquanto um todo, na óptica das relações, com um único sujeito colectivo – o Conselho da Revolução.

Iniciado o primeiro contacto com as fontes disponíveis, caí abruptamente numa realidade que me parecia imensa e ainda por desbravar no campo historiográfico. O que seria mais importante? Uma análise superficial das nacionalizações, que fizesse o levantamento da literatura existente complementada pela análise do Arquivo do Conselho da Revolução? Talvez não passasse de uma síntese, por muito conveniente que pudesse ser. Uma análise do impacto das nacionalizações nas estruturas laborais portuguesas da época, sob o prisma da História Social? Seria um desafio interessante, mas certamente inoperante para uma tese de mestrado. Ora, decidimos pela análise de um sector que fosse fortemente representativo da estrutura capitalista portuguesa num duplo sentido: primeiro, necessitava de estar imbuído das idiossincrasias do regime salazarista. E se o estava! A indústria cervejeira – objecto de estudo – era um dos principais potentados industriais do Estado Novo, na sua vertente monopolista e na sua relação com o poder político. Em segundo lugar, era ponto obrigatório constituir-se como fidedigno representante do processo nacionalizador de 1974-76. E aqui, também o era, fazendo uma ponte interessante entre o Estado Novo e a revolução que eclodiu no pós-25 de Abril, numa escala que o associava aos principais sectores nacionalizados, ainda que a sua nacionalização ocorresse apenas a 30 de Agosto de 1975.

Curioso, porém, é que a indústria cervejeira portuguesa terá sido a única indústria deste tipo a ser nacionalizada em todo o mundo até aos dias de hoje. Qual a racionalidade económica? Quais as razões por detrás desta decisão? Estas são algumas das perguntas que orientaram a investigação, mas que só podiam ser compreendidas se se realizasse uma contextualização estruturada do Estado Novo e do Processo Revolucionário em Curso.

O Estado da Arte, relevando as questões relacionadas com o desenvolvimento económico (estruturação industrial, ciência, tecnologia e inovação, internacionalização,

papel do Estado e modelos económicos) organiza-se em três grandes temáticas: (i) a industrialização durante o Estado Novo; (ii) as nacionalizações no contexto social, político e económico do período revolucionário português; (iii) a evolução/história do sector cervejeiro em Portugal.

A historiografia em torno do Estado Novo encontra-se, actualmente, bastante desenvolvida, ainda que na vertente económica escasseiem estudos sólidos de cariz sectorial, apesar dos excelentes trabalhos realizados sobre a industrialização e os seus mecanismos (Francisco Pereira de Moura 1 , José Maria Freire Brandão de Brito 2 , Maria Fernanda Rollo 3 ), e no que diz respeito à génese e evolução dos grupos económico- financeiros (Américo Ramos dos Santos e outros 4 ).

Para o período revolucionário, a literatura subdivide-se em quatro níveis: um primeiro, que comporta os textos de enquadramento, onde se incluem as secções relativas às nacionalizações, dos quais destacam-se a obras de António Reis (Portugal Contemporâneo e História de Portugal Contemporâneo) e José Mattoso (volume Portugal em Transe, de José Medeiros Ferreira), bem como o livro coordenado por Fernando Rosas sobre a transição portuguesa (Portugal e a transição para a democracia, 1974-1976), e outro coordenado por José Maria Brandão de Brito (O País em Revolução); de um segundo nível, consta a historiografia de contextualização político-social que examina as relações de natureza institucional, destacando-se as

1 MOURA, Francisco Pereira de et al. Estrutura da economia portuguesa. Sep. da Revista do Centro de Estudos Económicos, n. o 14. Lisboa: INE - Centro de Estudos Económicos, 1954; MOURA, Francisco Pereira de et al., Estudo Sobre a Indústria Portuguesa. II Congresso da Indústria Portuguesa. Lisboa:

Bertrand, 1957; MOURA, Francisco Pereira de. Reorganização das Indústrias, Estudos de economia aplicada 14. Lisboa: Associação Industrial Portuguesa, 1960; MOURA, Francisco Pereira de. Planeamento Industrial e Desenvolvimento Regional, 2 vols. Lisboa: A.E. ISCEF, 1967; MOURA, Francisco Pereira de. Por onde vai a economia portuguesa? Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1969. 2 BRITO, José Maria Brandão de. Industrialização portuguesa no pós-guerra (1948-1965): o condicionamento industrial. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989; BRITO, José Maria Brandão de (coord). Do marcelismo ao fim do império. Lisboa: Editorial Notícias, 1999; BRITO, José Maria Brandão de (coord.). Engenho e Obra. Uma abordagem à História da Engenharia em Portugal do século XX. Lisboa: Dom Quixote, 2002). 3 ROLLO, Maria Fernanda. “A Indústria Nacional”, in História de Portugal: o Estado Novo (1926-1974), ed. José MATTOSO, vol. 7, 8 vols. Lisboa: Estampa, 1998; ROLLO, Maria Fernanda. “A industrialização e os seus impasses”, in História de Portugal: o Estado Novo (1926-1974), ed. José MATTOSO, vol. 7, 8 vols. Lisboa: Estampa, 1998; BRITO, José Maria Brandão de e ROLLO, Maria Fernanda. “Ferreira Dias e a Constituição Da Companhia Nacional De Electricidade”, in Análise Social xxxi, n.º 130–137 (1996): 343–354. 4 SANTOS, Américo Ramos dos. “Abertura e bloqueamento da economia portuguesa”, in Portugal Contemporâneo, 1958-1974, ed. REIS, António, vol. V. Lisboa: Publicações Alfa, 1989; SANTOS, Américo Ramos dos. “Desenvolvimento monopolista em Portugal: estruturas fundamentais”, in Análise Social XIII, n.º 49 (1977): 69–95; RIBEIRO, José Félix et al. “Grande indústria, banca e grupos financeiros”, in Análise Social XXIII, n.º 99 (1987): 945–1018; LISBOA, Manuel. A Indústria Portuguesa e os seus dirigentes. Lisboa: Educa, 2002.

excelentes investigações de Kenneth Maxwell 5 e, mais recentemente, de Maria Inácia Rezola 6 ; no domínio económico, salientam-se Augusto Mateus 7 , José da Silva Lopes 8 e Ernâni Rodrigues Lopes 9 , com trabalhos de dimensão temporal alargados e, numa perspectiva de compreensão da estrutura capitalista portuguesa, surgem necessariamente os trabalhos de Maria Belmira Martins 10 ; por fim, a questão das nacionalizações encontra-se ainda por explorar na sua multitude de domínios (história social 11 , história empresarial, história dos organismos ministeriais), o que se comprova pela escassa produção historiográfica neste sentido (apenas secções de livros em obras gerais 12 , e uma obra de natureza sociológica de José Manuel Leite Viegas 13 ). Só a recente tese de doutoramento de Ricardo Noronha (2011), sobre a nacionalização da banca, veio reabrir as linhas de investigação neste domínio.

A existência de diversas obras de memórias e depoimentos enriquece a historiografia em torno da revolução portuguesa. No entanto, há que distingui-las em dois grupos: memórias e/ou depoimentos de participantes ou observadores primários do

5 MAXWELL, Kenneth. A construção da democracia em Portugal. Lisboa: Presença, 1999.

6 REZOLA, Maria Inácia. Os militares na revolução de Abril: o Conselho da Revolução e a transição para a democracia em Portugal, 1974-1976. Lisboa: Campo da Comunicação, 2006.

7 MATEUS, Augusto. “O 25 de Abril, a transição política e as transformações económicas”, in O País em Revolução. Lisboa: Editorial Notícias, 2001.

8 LOPES, José da Silva. A economia portuguesa desde 1960. Lisboa: Gradiva, 1996; LOPES, José da Silva. “Portugal e a transição para a democracia: que modelo económico?”, in Portugal e a Transição para a Democracia (1974-1976). Lisboa: Colibri, 1999.

9 LOPES, Ernâni Rodrigues. “O desenvolvimento económico-social desde o pós-guerra 45 e a integração europeia. Dilemas portugueses”, in Portugal e a Europa: 50 anos de integração. Lisboa: Verbo, 1996.

10 MARTINS, Maria Belmira. Sociedades e grupos em Portugal. Lisboa: Estampa, 1973; MARTINS, Maria Belmira e ROSA, José Chaves. O grupo Estado: análise e listagem completa das sociedades do sector público empresarial. Lisboa: Edições Jornal Expresso, 1979.

11 SANTOS, Maria de Lourdes Lima dos, LIMA, Marinús Pires de e FERREIRA, Vítor Matias. O 25 de Abril e as lutas sociais nas empresas. Lisboa: Afrontamento, 1977; LIMA, Marinús Pires de et al. “Controlo operário em Portugal (I)”, in Análise Social, n.º 47, 1999: 765–817; LIMA, Marinús Pires de et al. “Controlo operário em Portugal (II)”, in Análise Social, n.º 48, 1999: 10491146; PATRIARCA, Fátima. “Que justiça social’”, in Portugal e a Transição para a Democracia (1974-1976). Lisboa:

Colibri, 1999. Resurgiu, recentemente, o interesse por estas linhas de investigação, como provam as teses de Miguel Ángel Pérez Suárez (Contra a exploração capitalista. Comissões de trabalhadores e luta operária na revolução portuguesa, 1974-1975) e de Diego Palacio Cerezales (O poder caiu na rua: crise de Estado e acções colectivas na revolução portuguesa).

12 LEÃO, Emanuel Reis. “Das transformações revolucionárias à dinâmica europeia”, in Portugal Contemporâneo, 1974-1992, vol. 6, ed. REIS, António. Lisboa: Publicações Alfa, 1990, pp. 173183; FERREIRA, José Medeiros. Portugal em Transe, vol. VIII História de Portugal, dir. José Mattoso. Lisboa: Editorial Estampa, 1994; FRANCO, António de Sousa. “Economia,” in Portugal, 20 anos de Democracia, ed. REIS, António. Lisboa: Círculo de Leitores, 1994.

13 VIEGAS, José Manuel Leite. Nacionalizações e privatizações, Elites e cultura política na história recente de Portugal. Oeiras: Celta, 1996.

25 de Abril de teor ensaístico; e a recolha de testemunhos de natureza historiográfica, nomeadamente a que foi conduzida por Maria Manuela Cruzeiro 14 .

A presente investigação segue uma estratégia multidisciplinar (porque o objecto assim o compele) de utilização sistemática de fontes primárias em várias frentes e que interceptam segmentos analíticos de várias ordens – história industrial/empresarial, história do movimento operário e dos conflitos sociais, história dos organismos oficiais estatais e militares, história da ciência, inovação e tecnologia e história das relações internacionais/política internacional –, naquilo que pretende ser uma história de dinâmicas, não tão preocupada com as correntes interpretativas teleológicas. Feita esta declaração de princípios, não significa, naturalmente, que a análise e interpretação do objecto em questão não esteja marcada por factores inerentes à evolução intelectual do investigador no decorrer deste período.

Uma breve referência para os arquivos consultados, que foram da maior relevância no intuito de obter informações sobre o processo de nacionalização. Cita-se aqui o Arquivo do Conselho da Revolução, essencial para a recolha de documentação associada às Comissões de Trabalhadores e à Comissão de Análise e Inquérito; também

o Arquivo Central da Secretaria da Presidência do Conselho de Ministros e o Arquivo

Contemporâneo do Ministério das Finanças. Outros fundos documentais existentes na Associação Industrial Portuguesa, na Direcção-Geral das Actividades Económicas e no Departamento de Prospectiva e Planeamento, foram proveitosos para a realização da tese.

Realizado, de forma sucinta, o estado da questão, é perfeitamente observável a carência de investigações científicas sobre a temática no domínio da História. Este trabalho procura constituir, declaradamente, um ponto de partida e uma proposta teórica de pesquisa (em aberto) para a realização, a longo prazo, de uma História das nacionalizações em Portugal durante o PREC, que carece ainda de investigações

científicas estruturadas, num projecto que defendo ser urgente realizar ao nível sectorial

e numa dialéctica não autocentrada nas nacionalizações.

***

14 CRUZEIRO, Maria Manuela. Costa Gomes: o último marechal. Lisboa: Editorial Notícias, 1998; CRUZEIRO, Maria Manuela. Vasco Gonçalves: um general na Revolução. Lisboa: Notícias editorial, 2002; CRUZEIRO, Maria Manuela. Melo Antunes: o sonhador pragmático. Lisboa: Notícias, 2004; CRUZEIRO, Maria Manuela. Vasco Lourenço: do interior da Revolução. Lisboa: Âncora Editora, 2009.

A estrutura da tese é necessariamente cronológica, dividida em quatro capítulos temáticos. O primeiro faz uma retrospectiva que, dadas as limitações da tese, é incompleta, da indústria cervejeira durante o Estado (entre 1934, data da concentração industrial, e 1974). Aqui será abordada a génese desta indústria em Portugal e o seu desenvolvimento no contexto da evolução da economia nacional. A análise radica em quatro pontos-chave: (i) concentração industrial; (ii) investimento/reapetrechamento; (iii) reorganização sectorial e (iv) expansão.

No segundo capítulo é apresentada, num formato de síntese, a evolução dos acontecimentos fundamentais do período revolucionário português e os movimentos de continuidade e de ruptura, suportados pela utilização de dados estatísticos. Entretanto, no capítulo 3, entramos num campo de análise mais exclusivo – nacionalizações –, antecâmara do 4º capítulo, onde se analisa de forma mais particularizada o objecto de estudo, através da exposição do processo reivindicativo na Sociedade Central de Cervejas e das suas consequências imediatas – intervenção estatal e processos análogos – e a longo prazo – nacionalização e reestruturação do sector cervejeiro.

1. As “cervejas de Salazar e Caetano”

1.1. O longo “século XIX”

A indústria cervejeira em Portugal – em moldes modernos – remonta ao início

do século XIX, sendo indicada a Real Fábrica de Cerveja e Genebra do Valle Pereiro, pertencente a Claude Sauvinet, como a primeira digna de registo. As primeiras unidades de fabrico de cerveja caracterizavam-se pela sua reduzida dimensão, descapitalização, produção local e pelo uso de equipamento rudimentar e obsoleto, cujas propriedades pertenciam, de forma geral, a cidadãos estrangeiros. Reconhecem-se as seguintes fábricas no século XIX 15 :

i. Fábrica pertencente a Jacques Maillard: rua Flor da Murta (1833);

ii. Fábrica da Cerveja Trindade, de Manuel Moreira Garcia: Lisboa (1834);

iii. Michael Gerards & C.ª: rua do Tesouro Velho (1855). Mais tarde transferida para terreno da Casa de Bragança, alugada a John Henri Jansen, sócio de Michael Gerards, passando a denominar-se Fábrica de Cerveja Jansen;

iv. Fábrica de Cerveja Leão, propriedade de José Varela e Jacinto Franco (ex- empregados da Jansen) e de António Monteiro: interior de um pátio de Arroios (1878);

v. Fábrica da Piedade, de Maximiliano Schreck e Frederico Vintchel: rua da Piedade, Porto (1883).

A situação de concorrência verificada era prejudicial para as empresas, daí que

algumas fábricas da zona do Porto tenham concordado a concentração das mesmas, formando a Companhia União Fabril Portuense, SARL a 7 de Março de 1890, com um capital inicial de 125 contos de réis. A sociedade é o resultado da fusão de seis fábricas

cervejeiras da região do Porto – Fábrica Piedade (fábrica central), Fábrica do Melo, M. Achvek & C.ª, J.J. Chentrino & C.ª, J.J. Persival & C.ª, M. Schreck – e a Fábrica de Ponte da Barca. Em 1889, o inquérito industrial registava um capital fixo de sete contos de réis, treze trabalhadores, com produção anual de cerveja e gasosa de 90 mil dúzias e 4 mil litros de licores e outras bebidas. A facturação seria cerca de 9 contos e 200 mil réis, sendo que os salários oscilavam entre os 240 e os 400 réis por dia, com o número

15 II CONGRESSO DA INDÚSTRIA PORTUGUESA. II Congresso da Indústria Portuguesa, Relatórios de Sectores Industriais 0/3, vol. 4, 9 vols. Lisboa: s.n, 1957.

médio de 200 dias/ano de trabalho e cerca de 13 horas/dia no Verão e 10 horas/dia no Inverno. Há que destacar, ainda, a existência de duas fábricas de cerveja nas ilhas: uma na Madeira, Empresa de Cervejas da Madeira, que surgiu em 1872 pela mão de Henry Price Miles; e a Fábrica de Cervejas e Refrigerantes João de Melo Abreu, criada em 4 de Maio de 1892, nos Açores.

Logo no início do século é fundada a Companhia de Cervejas (1903), para onde entra a Fábrica Leão que, em 1912, passa a denominar-se Germânia e, em 1916, Portugália (já nas instalações da Almirante Reis). Em 1921, após a construção de uma malteria destinada à produção de malte a partir de cevadas nacionais, adopta o nome de Companhia Produtora de Malte e Cerveja Portugália, com capital social de 3 500 contos. Em 1922, a própria Portugália decide a criação da Empresa Produtora de Garrafas, preconizando já o tipo de política que mais adiante encontraremos.

A CUFP vai, entretanto, reorganizando o seu funcionamento, nomeadamente através do encerramento de algumas fábricas, como a da Ponte da Barca e sobretudo com a incorporação de técnicos alemães na empresa. Já no regime republicano, a Fábrica da Piedade e a Fábrica do Leão acordam a repartição do capital social, passando a CUFP a possuir duas fábricas em regime de concorrência, ainda que a última estivesse destinada a produzir para Marrocos. Por esta altura, os lucros com a exportação para as colónias representavam cerca de 20 865$00.

Em 1919, forma-se a Sociedade de Cervejas (capital social de 100 contos), sucedida posteriormente pela Companhia de Cervejas Estrela (capital social de 720 contos). A fabricação de cerveja fica a cargo de um anterior técnico da Portugália, Richard Eisen. Em 1923, a Companhia de Cervejas Estrela coloca na rua, de forma inédita, os novos carros de distribuição que são puxados por três muares 16 .

No campo social, realça-se a admissão da mão-de-obra feminina no rescaldo da I Guerra Mundial, em 1920, embora ainda a título experimental, num contexto de expansão da CUFP, que acabará por entrar em concorrência na zona norte do país com o sector cervejeiro de Lisboa a partir de 1926. Noutro âmbito, esta data marca a distinção internacional da indústria cervejeira, pela vitória do Grand Prix, e a conquista de três medalhas de ouro. Segue-se, em 1927, o lançamento da Super Bock. Finalmente, em Março de 1922, é formada a Companhia de Cervejas de Coimbra (capital social de 300

16 MARTINS, Américo. Central de Cervejas: 50 Anos de actividade. Lisboa: Central de Cervejas, 1985.

contos), na avenida Navarro, que inicia a laboração dois anos mais tarde. Contabilizam- se as seguintes unidades fabris no ano de 1925:

i. Companhia Produtora de Malte e Cerveja Portugália

ii. Companhia de Cervejas Estrela

iii. Fábrica de Cervejas Trindade

iv. Fábrica de Cerveja Jansen

v. Companhia de Cervejas de Coimbra

vi. Companhia União Fabril Portuense

Através de um relatório apresentado ao II Congresso da Indústria Portuguesa em 1957 por Sebastião José de Oliveira – engenheiro da SCC –, ficamos a conhecer as principais dificuldades que o sector enfrentava no início dos anos 30:

“[O] mercado português era demasiado pequeno para tanta fábrica, e baixas as possibilidades de

todos os produtores de cerveja para a poderem exportar, tendo-se tornado, por isso, muito forte a

concorrência entre eles”, sendo que os clientes aproveitavam-se exigindo descontos sobre

descontos sem que o consumidor ganhasse algo. Além do mais, “a diferença entre o preço do

custo da cerveja e o da venda ao público era absorvido, quase por completo, pelos

intermediários”, daí a necessidade urgente de crédito por parte das empresas 17 .

Parece, no entanto, que esta afirmação acaba por absorver desde o seu início a explicação dogmática dos benefícios da concentração, ainda para mais veiculada por alguém que representava os interesses da maior e principal produtora de cervejas nacional. Os problemas não se cingiam apenas a questões concorrenciais conjunturais, mas sim a uma questão estrutural mais complexa, explicada também pelo atraso tecnológico das fábricas em questão e da não articulação com sectores agrícolas essenciais à produção, aliada ao problema crónico do mercado nacional e à falta de consumidores (até pela novidade do produto e pela preferência por bebidas vinícolas). A própria depressão económica destes anos agravou a situação, daí que se tivesse estabelecido um convénio, em 1930, para evitar a concorrência desleal, cuja duração foi muito fugaz. Assim, em 1933, as fábricas estavam às portas da falência, com excepção da Portugália que havia realizado uma série de negócios durante a I Guerra Mundial, granjeando-lhe algumas reservas financeiras.

17 II CONGRESSO DA INDÚSTRIA PORTUGUESA. II Congresso da Indústria Portuguesa, Relatórios de Sectores Industriais 0/3,4. Lisboa: s.n, 1957, pp. 5-6.

1.2. Da concentração aos anos 50

É a imagem de uma guerra suicida que é necessário ter em conta e que explica, por um lado, a necessidade de concentração empresarial que ocorre a 21 de Junho de 1934, marcando um ponto de viragem no seio do sector cervejeiro português. Da lista de fábricas anteriormente apresentada, só a Companhia União Fabril Portuense recusava este cenário, sendo que todas as outras se associaram na Sociedade Central de Cervejas (onde se impõem os interesses da família Vinhas, detentora da Portugália), apesar de a Fábrica Trindade ser desmantelada e a Jansen cessar o fabrico, encerrando em 1936. No fundo, o tipo de funcionamento é um modelo aperfeiçoado das várias tentativas de convénios que haviam sido testadas e que assentavam na divisão regional do mercado e fixação de preços, numa espécie de regime cartelizado ou até monopolista.

O primeiro Conselho de Administração da Sociedade Central de Cervejas é

eleito em Julho do mesmo ano, com a seguinte composição: António Marques de Freitas (Portugália), Camilo Infante de la Cerda (Jansen), Cândido Sotto Mayor (Coimbra), Estolano Dias Ribeiro, José Maria Dias Ferrão e M. H. de Carvalho Ltd.ª (Estrela). O capital inicial perfilhava os 100 000 escudos, divido do seguinte modo:

Portugália e Estrela com 40,9%, Jansen com 10,2% e Coimbra com 8% 18 .

O mesmo Sebastião José de Oliveira, seguindo a lógica do seu discurso,

vangloria o tipo de concentração efectuado, por ter sido consumado livremente e sem a intervenção do Estado, “numa época em que poucas pessoas consideravam necessário o condicionamento da indústria e muito menos a concentração” 19 . De facto, o grau de concentração na indústria transformadora no final da década de 30 era insignificante, constituindo o sector cervejeiro uma das excepções – juntamente com as indústrias de base e tabacos, que por sinal registavam os valores de formação bruta de capital fixo mais elevados –, servindo, inclusive, como exemplo a seguir para futuras concentrações industriais (cf. tabelas seguintes).

 

Grau de concentração da indústria cervejeira (1937-1939)

N.º

de

N.º

de

N.º

de

operários

por

Valor do equipamento industrial (1938; 10 3 escudos)

fábricas

operários

fábrica

 

5

707

141

7 000

18 MARTINS, Américo. Central de Cervejas: 50 Anos de actividade. Lisboa: Central de Cervejas, 1985, p 27. 19 II CONGRESSO DA INDÚSTRIA PORTUGUESA, II Congresso da Indústria Portuguesa, Relatórios de Sectores Industriais 0/3,4. Lisboa: s.n, 1957, p. 7.

 

Grau de concentração da indústria transformadora (1937-1939)

Grupos

segundo

o

n.º

de

operários

por

N.º

de

Percentagem do n.º de fábricas no total

fábrica

fábricas

Mais de 400

 

6

0,14

De 200 a 399

 

28

 

0,65

De 100 a 199

 

598

 

13,86

De 50 a 99

 

156

 

3,62

De 20 a 49

 

1

299

30,11

De 10 a 19

 

1.599

 

37,07

Menos de 10

 

628

 

14,56

Totais

4

314

100

Nota: Tabelas adaptadas de ROLLO, Maria Fernanda. “A indústria nacional”, in História de Portugal: o Estado Novo (1926-1974), ed. José Mattoso, vol. 7, 8 vols. Lisboa: Estampa, 1998

Curiosamente, a indústria da cerveja, à semelhança de outros sectores que caminhavam na direcção da monopolização industrial, não tinham, de todo, a chancela de organismos corporativos, sendo justificado, de acordo com Fernanda Rollo, pelo facto de a organização corporativa apresentar-se como um “instrumento fundamental para a cartelização da «infantaria empresarial»” 20 , onde o Estado teria urgência de tratar dos vários conflitos nas indústrias menos concentradas.

As informações sobre o sector cervejeiro nesta fase inicial são ainda muito escassas, tal como a existência de dados estatísticos. Ainda assim, no tocante à produção é possível observar os números relativos aos anos de 1932-1934 e de 1938, percebendo, desde logo, a natureza incipiente da produção no início da década e a grande alteração que o ano de 1938 nos dá a conhecer.

Ano

Produção continental (litros)

1932

203

957

1933

184

800

1934

176

402

1938

6 528 381

Nota: Tabela construída com base nos dados da Indústria Portuguesa (n.º 85, VIII, Março de 1935, p. 60; n.º 143, XIII, Janeiro de 1940, pp. 51-53)

A Lei n.º 1956 do Condicionamento Industrial, de 1937, veio reforçar a política de concentração e a limitação da concorrência, pela capacidade do poder estatal autorizar ou recusar a implantação de novas indústrias e a introdução ou substituição de maquinaria, fazendo notar a corporatização como produto do Estado. Não negligenciando as suas lógicas diferenciadas, nos sectores industriais com maior grau de

20 ROLLO, Maria Fernanda. “A Indústria Nacional,” in História de Portugal: o Estado Novo (1926- 1974), ed. António Reis, vol. 7, 8 vols. Lisboa: Estampa, 1998.

concentração, a política de condicionamento industrial constituiu, segundo Fernanda Rollo, “um estímulo real à implementação ou defesa da concentração” 21 . O grau de consensualidade é geral neste período, apenas surgindo uma ou outra voz de fundo, que se insurge em algumas matérias. A validação destes argumentos é perfeitamente justificada pela análise do condicionamento industrial na indústria cervejeira portuguesa, seguindo de perto a evolução que Brandão de Brito propõe 22 . Assim, para o final do decénio de 30, surge apenas um pedido de instalação, prontamente recusado pela Direcção-Geral da Indústria:

Ano

Empresa

Motivo

Informações

Boletim

 

António Vahia de Castro (representante de grupo financeiro)

Pedido

de

Fabrica de cerveja e refrigerantes

 

instalação

15-09-1937

Portugália, Estrela, Coimbra, Jansen e

Reclamação

Contra António Vahia de Castro

20-10-1937

1937-

CUFP

1938

António Vahia de Castro (representante de grupo financeiro)

Despacho

Indeferido

29-06-1938

ministerial

Portugália

Despacho

Deferido (laboração na Almirante Reis)

29-06-1938

ministerial

Nota: tabela construída com base nos dados do Boletim da Direcção-Geral da Indústria

Contudo, a luta pelo mercado interno continuou entre a Sociedade Central de Cervejas e a Companhia União Fabril Portuense, a primeira situada a Norte e a segunda no Centro e Sul do país, não impedindo, porém, que estabelecessem um acordo comercial sobre os preços e condições de venda, bem como o regime de permuta de informações técnicas.

1.2.1. A II Guerra Mundial, a abertura de mercados externos e o problema da cevada

A II Guerra Mundial veio pôr a nu as dificuldades que se faziam sentir na indústria nacional, e o sector cervejeiro não escapou. Por outro lado, abriu um novo horizonte aos industriais do sector no que diz respeito às novas possibilidades de exportação. A Guerra obrigou a indústria da cerveja a recorrer a sucedâneos, como a farinha de pau, trinca e o mosto de vinho, que exigiam vários tratamentos correctivos, sendo para esse efeito criada a marca Nevália, com o intuito de proteger as outras

21 Ibid. 22 BRITO, José Maria Brandão de BRITO. Industrialização portuguesa no pós-guerra (1948-1965): o condicionamento industrial. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989.

marcas relativamente à fraca qualidade das matérias-primas. Os efeitos da guerra foram também visíveis na indústria vidreira nacional, arrastando consigo o sector das cervejas, dada a sua ligação. No campo legislativo promulgaram-se, durante o período, despachos que autorizaram a exportação temporária de garrafas de vidro normais acondicionando cerveja (D. L. n.º 31.983, de 27-4-1942; n.º 32.601, de 30-12-1942; n.º 33.449, de 27- 12-1943, n.º 33.740, de 28.06.1944; n.º 34.341, de 28-12-1944). As cevadas nacionais, quando usadas, eram irregulares e de má qualidade e a importação das mesmas sofreu restrições muito fortes durante o período balizado pela guerra, como comprova o estudo de alguns documentos da época. É o que nos mostra uma carta enviada pela direcção da Associação Industrial Portuguesa ao ministro das Finanças, após a análise de um pedido da Portugália:

“Carece aquela Empresa para a laboração da sua fábrica, de cerca de 1.000 toneladas de malte que habitualmente importava da Checoslováquia e da Dinamarca, em períodos normais ( Dadas as dificuldades presentes em consequência do estado de guerra na Europa, contava aquela empresa, no corrente ano, proceder à maltagem na sua fábrica, de cerca de 1.000 toneladas de cevada nacional. Acontece, porém, que chegada agora a época das colheitas se verifica que a produção de cevada no país foi insignificante, não chegando sequer para as necessidades mais urgentes da lavoura e da pecuária (

“[Solicitou a interferência da AIP junto do Governo] no sentido de vir a ser permitida em face das circunstâncias apontadas, e ter de adquirir aquele produto em países muito distantes, o que muito o onera, em virtude do agravamento dos preços dos fretes marítimos e seguros de guerra, visto não poder importá-lo de onde habitualmente o fazia – a sua importação isenta de direito ou, na impossibilidade de ser obtida essa concessão, apenas com a aplicação de um simples direito estatístico mínimo”. 23

Esta carta remete ainda para um velho problema da indústria cervejeira – a produção nacional de cevada –, problema este que começa já a ser pensado nesta época, mas cujos avanços só se darão após o término da guerra e, de forma mais vincada, na década de 60. Já em 1936, os representantes das fábricas de cervejas tinham refutado as alegações de uma comissão de agricultores que exigia a adopção de medidas que obrigassem a indústria da cerveja a consumir cevada nacional, justificando a rejeição pelo simples facto de que a qualidade das cevadas nacionais era muito baixa devido ao excesso de matérias azotadas e que, consequentemente, a importação de maltes

23 Indústria Portuguesa, n.º 150, XIII, Agosto de 1940, p. 34.

estrangeiros era necessária, apesar de economicamente ser menos rentável. Fazia-se referência à necessidade de estudo do clima, do terreno e de outros factores para a produção de cevada de boa qualidade para a indústria cervejeira, mas eram apenas ideias não materializadas 24 .

Quanto à produção de cerveja, ela quase triplicou desde 1938 a 1945, passando de 6 500 000 litros em 1938 para cerca de 15 milhões, em 1945, consequência natural da exportação durante o período de guerra. Os destinos das exportações variavam geograficamente, mas tinham como ponto convergente as zonas onde se encontravam operações militares. Surge, deste modo, Gibraltar, onde a frota inglesa se abastecia, Marrocos, pela importância das suas bases e, claro está, as colónias portuguesas. Os valores detalhados da exportação da Sociedade Central de Cervejas para este período podem ser observados na tabela 1 do anexo A. Salienta-se, por mera curiosidade, que a Sociedade Central de Cervejas criou uma marca especial – Victory – cujo destino era Gibraltar.

Os números recolhidos sobre as vendas da cerveja para o continente e para o exterior (ver tabela 2, anexo A) permitem comprovar a novidade dos mercados estrangeiros e o impacto nas estratégias das empresas mas, ao mesmo tempo, deixam transparecer a ideia de que esta ilusão assentava em bases muito volúveis e pouco estruturadas. O próprio Araújo Correia, entre 1946 e 1949, em artigos publicados na Revista do Centro de Estudos Económicos, afirma que a produção de cerveja iria certamente diminuir, ora pela falta de mercados importadores de cevada, ora pelo desaparecimento dos mercados exportadores, regressando “à proximidade dos números antigos” 25 . A verdade é que, até ao final da década, a produção e a exportação vão crescendo a um ritmo constante, notando-se, no entanto, em 1949 uma descida de ambos os níveis. O início dos anos 50 reflecte aquilo que Araújo Correia vinha anunciando, mas a situação não permaneceu assim durante muito tempo, como teremos oportunidade de ver. Uma análise para o período de 1943-1952 indica-nos mais claramente a realidade que os números anteriores trouxeram, concluindo-se que o valor absoluto da exportação cervejeira portuguesa é insignificante comparativamente ao consumo nacional:

24 cf. Indústria Portuguesa, n.º 98, IX, Abril de 1936, p. 26. 25 Araújo Correia, in Revista do Centro de Estudos Económicos, n.º 3, 1946.

Vendas anos 1943-1952

Vendas anos 1943-1952

Vendas anos 1943-1952

Continente

127 920 705

Exportação

8 070 528

Total

135 991 233

Nota: tabela construída com base nos dados de MARTINS, Américo. Central de Cervejas: 50 anos de actividades. Lisboa: Central de Cervejas, 1985

Outro dos pontos centrais é o fosso que divide o volume de produção da Sociedade Central de Cervejas e a Companhia União Fabril Portuense, com a primeira a produzir cerca de quatro vezes mais do que a segunda. O poder hegemónico da Sociedade Central de Cervejas aglutina praticamente todos os interesses da indústria cervejeira nacional, dominando o mercado interno.

Assinala-se, para concluir, o início da presença da indústria cervejeira em África, em 1947, através da criação da Companhia União de Cervejas de Angola (Cuca), fruto da parceria entre a Sociedade Central de Cervejas e a Companhia União Fabril Portuense, que surge como resultado da compra de 51% de capital da CUFP pela SCC. A partir desta data, a empresa sedeada no Porto dá início a um novo ciclo de expansão, com a entrada do engenheiro João Talone (que criará, mais tarde, uma equipa de projectos de novas instalações em Portugal e nas colónias), nomeadamente com o plano de renovação tecnológica iniciado nos anos 50.

1.3. Reapetrechamento sectorial, actualização técnica e expansão dos anos 50

Entramos em 1950 e uma das grandes preocupações do sector cervejeiro era a defesa do condicionamento industrial contra qualquer possível entrada no ramo. É interessante observar o comportamento dos vários actores neste complexo processo e a forma como foi evoluindo ao longo dos anos, nomeadamente através da pressão constante e do desmontar de argumentos daqueles que pretendiam instalar novas unidades fabris de produção de cerveja. Através da tabela 1 do anexo B torna-se perceptível esta evolução. Importa, para que a análise seja coerente com o contexto do Estado Novo, definir dois grandes marcos temporais: um primeiro que decorre desde 1937 a 1956, marcado pela rejeição de qualquer nova fábrica; o segundo período inicia- se, simbolicamente, em 1956, data da autorização concedida a José Joaquim Gonçalves de Oliveira para a construção de uma fábrica de cerveja, refrigerantes e gelo no distrito do Porto.

De 1937 a 1956 dão entrada na Direcção-Geral da Indústria/Serviços Industriais um total de 22 pedidos de instalação de fábricas de cerveja (com ou sem variante de

refrigerantes e gelo). Todos obtêm a mesma resposta por parte das autoridades oficiais:

Pelo contrário, os pedidos das empresas já existentes recebem,

na sua maioria, despachos favoráveis, ainda que incidam essencialmente sobre introdução ou substituição de maquinaria. Porém, o processo não se fica por aqui, uma vez que os argumentos utilizados pelas várias empresas a laborar merecem um tratamento especial neste campo, pois reflectem as ambições, as pressões existentes e a estratégia, que, por vezes, é concertada em várias frentes (interempresarial e até com o próprio Estado). Destaco, de seguida, as principais conclusões:

“negada autorização

”.

i. “Capacidade de produção existente é suficiente para as necessidades de consumo nacional e para a exportação;

ii. Esforço de investimento/reapetrechamento exigido ao sector não deve ser perturbado pela concorrência indisciplinada e ambiciosa;

iii. Características de indústria supercapitalizada, com unidades a mais e dimensões desproporcionadas para a capacidade de consumo;

iv. Inexistência de monopólio no sector;

v. Sazonalidade do consumo;

vi.

Variação climatérica” 26 .

Existem, decerto, outros argumentos, mais específicos, designadamente os que surgiram por reacção aos pedidos de instalações no final da guerra, com a justificação da abundância do mercado externo. A estes, por exemplo, a CUFP afirmava que tais mercados não “oferecem possibilidades de futuro por serem destituídos de condições de estabilidade” e porque em situação de normalidade económica não iriam “querer mais a cerveja portuguesa” 27 .

Relativamente à modernização tecnológica, os anos 50 significaram o início da mudança de paradigma neste sector, com o lançamento de planos de reapetrechamento – resposta final à notificação que o governo havia dado em 1948 no sentido da indústria se “equipar para o fabrico de todo o malte que ela necessitasse” 28 – que, no caso, da Sociedade Central de Cervejas atingiram os 100 000 contos (ver tabela 1 do anexo C), alterando profundamente o panorama das instalações industriais no ramo da cerveja, com grande destaque para a malteria da Portugália. Na SCC coloca-se como objectivo a renovação da fábrica Estrela, a criação de uma nova fábrica em Coimbra (1959), na zona de Loreto, e uma nova fábrica da Portugália para a produção de malte e outra para cerveja, realizada por fases, entre 1954-1959. Considerada umas das mais modernas instalações de maltagem da Europa, a malteria da Portugália, obra de técnicos portugueses liderados pelo engenheiro Sebastião de Oliveira e com a colaboração do subsecretário de Estado da Agricultura, Vitória Pires, ficou com uma capacidade de produção suficiente para satisfazer “todas as necessidades impostas pelo desenvolvimento industrial da cerveja”, ainda que na dependência daquilo que a lavoura nacional conseguisse produzir 29 . Este último ponto será fruto de uma abordagem pormenorizada mais adiante por se tratar de um assunto essencial na construção desta

26 INDÚSTRIA CONTINENTAL DE CERVEJA, Memorial: 1953. Lisboa: Bertrand, 1953; SCC,

ao pedido de Manuel

António Flor Alves da Silva e outros para a instalação de uma nova Fábrica de Cervejas. Lisboa: s.n,

1966; PELÁGIO, Humberto José Pereira, Vinculação e discricionariedade no exercício dos poderes de

condicionamento industrial: a propósito do despacho de autorização de uma nova fábrica de cerveja.

ao

pedido da Companhia de Cervejas e Refrigerantes Mac-Mahon para a instalação de uma nova Fábrica de Cerveja. Lisboa: s.n, 1967; SCC. Condicionamento industrial: oposição da Sociedade Central de Cervejas… ao pedido da Empresas Garrafeiras para a instalação de uma nova Fábrica de Cerveja. Lisboa: s.n, 1966.

27 CUFP. Da Indústria nacional de cerveja. Reclamações apresentadas pela Companhia União Fabril Portuense. Porto: s.n, 1946.

Condicionamento Industrial: oposição da Sociedade Central de Cervejas S.A.R.L

Lisboa: s.n, 1958; SCC, Condicionamento industrial: oposição da Sociedade Central de Cervejas

28 Cerveja, n.º 3, II, Março de 1956.

29 Indústria Portuguesa, n.º 335, XXIX, Janeiro de 1956, p. 25.

nova estratégia industrial, assente na nacionalização da cerveja portuguesa e na política de substituição de importações. Fica no ar a frase que, lançada na inauguração da malteria da Portugália, espelhava o novo olhar sobre a indústria e sobre o papel da tecnologia e da modernização:

“a clássica letargia nacional foi forçada a dobrar a cerviz; ou, por outras palavras, a ceder perante

uma vontade que ignora o desfalecimento e a tibieza de ânimo” 30 .

Mudou-se o paradigma, porque também se alteraram algumas coisas ao nível dos mercados tradicionais, como era o caso das colónias. Uma nova unidade fabril começa a ser montada em Luanda no ano de 1951 e já existiam outras fábricas em Lourenço Marques, locais onde a concorrência das marcas estrangeiras começava a fortalecer-se. Resulta daqui uma das principais críticas dos industrias (papel relevante de Humberto Pelágio, presidente do Conselho de Administração da SCC), que consideravam que a indústria cervejeira nacional não possuía protecção suficiente por forma a defender-se contra a concorrência externa nos mercados ultramarinos 31 .

Por outro lado, paralelamente à renovação das instalações e do equipamento, empreendeu-se um forte incentivo à formação técnica e ao recrutamento de técnicos cervejeiros qualificados (ver tabela de mestres cervejeiros, n.º 2, do anexo C), promovendo-se o estágio de especialistas portugueses em universidades estrangeiras, como a de Lovaina, a École de Brasserie de Nancy e a Versuchts und Lehrenstalt für Brauereu (Berlim). A lista de todos os técnicos portugueses que frequentaram estes cursos encontra-se ordenada cronologicamente na tabela 3 (anexo C). Assiste-se, consequentemente, à modificação da estruturação das empresas no sentido da intensificação em capital e redução da mão-de-obra.

Iniciou-se, em 1954, o primeiro Curso de Tiradores de Cerveja, sucessor da Escola de Tiradores de Cerveja da SCC (1951), dirigido pelo engenheiro António Alberto Martins da Fonseca, que se ampliou a todo o país (cf. tabela 4, anexo C); criaram-se circulares informativas; formou-se a Equipa Técnica Externa, composta por duas unidades automóveis que visitavam diariamente os estabelecimentos de Lisboa, realizando ainda deslocações periódicas à Província para fazer a revisão e a afinação da aparelhagem e prestar ensinamentos básicos; organizou-se a primeira reunião de agentes

30 Cerveja, n.º 3, II, Março de 1956, p. 2. 31 Relatório da Direcção e das Secções da AIP, 1955, p. 105.

e sub-agentes da SCC, em Junho de 1955, estrutura fundamental, mas também motivo de algumas confrontações com a própria companhia; por último, saiu o boletim/jornal da Sociedade Central de Cervejas, que se destinava aos agentes, sub-agentes e revendedores da mesma, órgão essencial e um dos muitos meios de propaganda que se intensificaram na altura 32 . Já em 1956, a Sociedade Central de Cervejas organizou o I Congresso da Cerveja, realizado entre 14 a 21 de Maio no salão nobre da Câmara do Comércio – Associação Comercial de Lisboa, contando com a presença de 310 congressistas e assistentes, com o objectivo de discutir formas de aumentar o consumo de cerveja.

1.3.1. A indústria cervejeira e a lavoura nacional

A questão da inovação, ciência e tecnologia é uma das pedras angulares deste arranque, da renovação da indústria de maltagem de cevadas, com o principal objectivo de criar em Portugal a espécie de cereal própria para o consumo de cerveja, à imagem do que já acontecia noutros países, numa óptica de colaboração com os Serviços Oficiais do Estado (Direcção-Geral dos Serviços Agrícolas do Ministério da Economia, Federação Nacional do Trigo e Comissão de Cevadas, nomeada oficiosamente), destacando-se o papel de Vitória Pires com o programa de valorização da cultura cerealífera. Esta ideia não era nova, remontava, aliás, a 1944/45, aos trabalhos de melhoramentos de cevadas realizados pelos engenheiros agrónomos Domingos Rosado Vitória Pires e Luís Aníbal Valente Almeida, na Revista Agronómica. Começava a ganhar terreno a concepção de que a subida do consumo só poderia ser conseguida através da melhoria da qualidade dos produtos.

Na prática, com o apoio do Comité de Cevadas da European Brewery Convention (Barley Committee), foram criados campos experimentais pelo país, onde eram testadas várias qualidades de sementes de acordo com a terra e o clima. Para tal, foi contratado um técnico de renome, Pierre Bergal, pioneiro do mesmo projecto em França. Os resultados dos testes permitiram recolher informações sobre as zonas com as características mais indicadas, bem como o tipo de semente dística ideal para a produção de cerveja, regulamentando-se a sua produção, com o controlo dos Serviços Oficiais (D. L. n.º 38.153) e com a estreita colaboração, material e financeira, da

32 Cerveja, n.º 1, I, Outubro de 1955

Sociedade Central de Cervejas 33 . Em 1961 existiam as seguintes infra-estruturas e brigadas:

Campos de ensaio permanentes

Brigadas Técnicas Agrícolas

Elvas – Estação de Melhoramento de Plantas

Brigada de Santarém – 2 campos

Tapada da Ajuda – Estação de Ensaio de Sementes

Brigadas de Elvas – 2 campos

Vila Franca de Xira – Sociedade Central de Cervejas

Brigada de Évora – 1 campo

 

Brigada de Beja – 3 campos

Os excelentes desenvolvimentos nesta área acabaram por se traduzir em resultados concretos e satisfatórios: obtenção de prémios internacionais – da European Brewery Convention – nas cevadas portuguesas ensaiadas Aurore e Beka em 1957, 1958 e em 1960. Outra das amostras com bom resultado foi a Lima Monteiro 34 . O aumento da qualidade reflectiu-se, igualmente no aumento da produção, da superfície cultivada e no aumento do número de produtores 35 , contribuindo para a obtenção da primeira classificação da cerveja Sagres na classe de cervejas Dortmund no Concurso Internacional de Gand, em 16 de Maio 1958. No entanto, este investimento vem tarde para a indústria cervejeira colonial que, em 1961, não laborava com qualquer tipo de malte nacional, contrariamente à situação de quase auto-suficiência na produção da metrópole.

No que diz respeito à produção de lúpulo, foi criado um plano semelhante ao das cevadas, mas apenas na década de 60, sob o impulso da Sociedade Central de Cervejas, que constituiu, para estes efeitos, a Lupulex.

1.3.2. O potencial produtivo vs. consumo

Com a melhoria das instalações, agudiza-se nestes anos a questão da relação entre o potencial produtivo da indústria cervejeira e o consumo no mercado continental, bem como as potencialidades de exportação. É claro para este período, como também pode ser para outras fases, que esta indústria possui uma capacidade de produção muito superior ao que são os dados do consumo, chegando a ser cerca de três vezes mais.

33 Relatório da Direcção e das Secções da AIP, 1958, p. 165.

34 BANCO NACIONAL ULTRAMARINO. “Da indústria cervejeira em Portugal,” Boletim trimestral dos Serviços de Estudos Económicos do B.N.U, 31 de Dezembro de 1961.

35 Ibid.

Numa perspectiva comparada, com base na produção mundial e no consumo, os números indicam-nos que o consumo anual per capita é muito mais reduzido em Portugal do que na maioria dos países da Europa, com a excepção da Grécia (ver tabela 3, anexo A). O mesmo panorama pode ser observado na produção, dado o valor absoluto reduzido da produção portuguesa em termos comparativos, apesar de aqui a produção metropolitana ter aumentado 160,3% entre 1951-1959, enquanto a produção mundial aumentou cerca de 28,8% 36 . Neste cenário, há que colocar, para contrabalançar, os dados sobre o consumo de vinho, que, contrariamente aos da cerveja, só são batidos por países como a França e a Itália. A capitação portuguesa de cerveja seria, no final da década de 50, de 3,51, de acordo com Humberto Pelágio 37 , mas mantinha-se a mais baixa do mundo.

A partir de dados recolhidos no boletim Cerveja, da SCC, foi possível construir uma tabela com os dados relativos à capitação de consumo de cerveja em Portugal, por distritos, para o ano de 1955, apesar da inexistência de informação para algumas regiões:

Capitação de cerveja por distritos em 1955

Distrito

Habitantes

Capitação de consumo de cerveja

Beja

278

215

1,172

Portalegre

189

044

1,156

Setúbal

260

328

3,3

Faro

284

993

1,744

Leiria

358

015

1,682

Santarém

421

450

2,583

Porto

   

Braga

Viana do Castelo

2 194 603

0,577 (p/ cervejas do Sul e Centro) 1,065 (p/ cervejas da concorrência)

Vila Real

Bragança

 

Viseu

441

579

-

Guarda

295

664

-

Castelo branco

 

-

-

Aveiro

433

395

0,656

Coimbra

415

827

1,729

Fonte: SOCIEDADE CENTRAL DE CERVEJAS. Cerveja. Ano I, n.º 1, 31 de Outubro de 1955

36 Ibid. 37 PELÁGIO, Humberto José Pereira. A Indústria da Cerveja e o Agro Nacional. Lisboa: s.n, 1961.

Este quadro torna evidente as assimetrias existentes e os números fornecem uma visão realista das dificuldades de penetração em algumas regiões. Ao mesmo tempo, com base neles, a Sociedade Central de Cervejas iniciou um processo de expansão para o Norte do país, através de um trabalho muito forte com os seus agentes e sub-agentes, reorganizando a distribuição comercial e estabelecendo acordos com a CP e outras transportadoras para baixar o custo e expandir o produto para locais mais distantes. Uma das realidades que poderia vir a ser importante para o aumento do consumo era a questão do preço da cerveja, que permanecia inalterável desde 1947.

No II Congresso da Indústria Portuguesa foi apresentada uma tabela sobre a indústria portuguesa, fruto do trabalho de Francisco Pereira de Moura. Para o sector cervejeiro, mostra-nos o seguinte quadro, que elucida sinteticamente o que aqui foi anteriormente exposto (talvez com base nos números de 1954):

Número de unidades

4

Número de operários

739

Capacidade produtiva em 300 dias de 24 horas

33

420 000 1

Consumo

18

361 000 1

Relação entre capacidade produtiva e consumo

1,8

Percentagem de maquinismo antiquado

25

Fonte: II CONGRESSO DA INDÚSTRIA PORTUGUESA. Comunicação 1 a 74. Volume 1. Lisboa: s.n, 1957 Dados com base previsível no ano de 1954

1.3.3. Industrialização ou surto industrial. O II Congresso da Indústria Portuguesa e o sector cervejeiro em equação

É de fulcral importância ligar estas últimas alterações no sector cervejeiro com a realidade industrial portuguesa e com as acções políticas que foram adoptadas, desde logo com o surgimento do planeamento económico, através dos planos de fomento, e com a necessidade de uma estruturação industrial mais séria e mais profunda, que alguns sectores da sociedade vinham proclamando há algum tempo, mas que o regime havia negligenciado na sua ânsia gritante de assegurar estabilidade em pontos-chave da área financeira, mas sobretudo no campo social (veja-se a estratégia do I Plano de Fomento e a aposta em sectores-motores, mas a imprudência para com algumas condições a montante). O sector cervejeiro absorvia todos estes “vícios”. Veja-se:

preparava a modernização das infra-estruturas e dos equipamentos, mas a origem de tais máquinas era estrangeira, dada a inexistência de uma indústria de bens de equipamentos em Portugal. De certa forma, podemos concluir que, pela análise efectuada, a indústria

cervejeira assume-se como um sector que, em certo sentido, vai remando contra algumas marés, chamando a si o processo de inovação e modernização tecnológica, ainda que sem os pressupostos necessários à competitividade internacional. Mas, não seriam já os reflexos das novidades de cooperação europeia a ditar algumas das posições?

É no II Congresso da Indústria Portuguesa e dos Economistas que todas estas questões vão ganhar forma e respostas concretas e coerentes, aparecendo em cima da mesa, pelo próprio Marcello Caetano, a questão da integração europeia, a preocupação com a competitividade internacional e o papel da iniciativa privada. Uma série de conclusões vai depois ganhar corpo na economia e na sociedade portuguesa, com especial relevância no II Plano de Fomento (industrialização e reorganização industrial), se bem que a sua forma não constituísse ainda o projecto mais elaborado relativamente à indústria, vendo-se ultrapassado pelos acontecimentos na cena internacional e pela adesão de Portugal à EFTA, colocando um ponto final, uma ruptura, não total, dos comportamentos e práticas que subsistiam do passado.

Os dois primeiros planos de fomento nada indicam quanto à situação do sector cervejeiro, negligenciando por completo uma indústria que estava numa fase importante de modernização. Existe apenas uma pequena menção – num relatório preparatório do II Plano de Fomento para as indústrias transformadoras – à relação entre a capacidade produtiva e o consumo que é bastante baixa – 1,8 38 . Nesta posição de falta de informação não se encontra apenas a indústria da cerveja, mas todo o sector das bebidas, não esquecendo, naturalmente, a pouca informação estatística existente, que segue os traços daquilo que foi desenhado por altura do II Congresso da Indústria, cujo papel de Pereira de Moura foi fundamental, como arauto da reorganização industrial, da interdependência industrial e do efeito motor sobre as regiões 39 .

Após a autorização concedida, em 1956, para a instalação de uma fábrica de cerveja no Porto, vão surgindo as primeiras grandes críticas ao condicionamento industrial, expressas de forma vincada no II Congresso da Indústria, mais precisamente na sessão 32, sobre a indústria de cerveja, presidida por Manuel Vinhas. Apresentaram-

38 PRESIDÊNCIA DO CONSELHO. INSPECÇÃO SUPERIOR DO PLANO DE FOMENTO, Relatório final preparatório do II Plano de Fomento. III) Pesca IV) Minas. V) Indústrias transformadoras. VI) Electricidade. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1958. 39 c.f Estrutura da Economia Portuguesa, 1954; Estudo sobre a Indústria Portuguesa, 1957; Reorganização das Indústrias, 1960.

se algumas conclusões que representam com bastante nitidez a dupla concepção que existia em torno do condicionamento industrial, que mais não é do que um simples instrumento de interesses, variando conforme as acções que se vão tomando. Assim, percebe-se a defesa quase incessante do condicionamento industrial, como factor-chave da modernização da indústria cervejeira, resultante da concentração, mas também a discordância para com o “poder discricionário ministerial, por poder quebrar uma determinada linha de rumo e progresso”, por ter criado uma “vida difícil com o licenciamento de novas fábricas” 40 a um sector que estaria bem considerado na própria proposta de Lei de Fomento e Reorganização Industrial, e que até concedeu assistência “voluntária ao seu pessoal, mais do dobro do que lhe foi exigido” 41 , ou pela falsa questão da concorrência que o governo entendeu introduzir, entre outros argumentos.

O despacho ministerial de 20 de Fevereiro de 1956 ao pedido de José Joaquim Gonçalves de Oliveira (de 13 de Maio de 1952) surge numa altura em que, aparentemente, nada fazia prever a sua autorização, até pela situação em que se encontravam as fábricas do sector. As razões invocadas prendem-se com a necessidade de se “alcançar, outra vez, um nível mínimo de saudável concorrência de que a respectiva indústria parece ter-se afastado”, nunca colocando em causa a sua crescente importância para a economia portuguesa 42 . O despacho indicava ainda uma série de condições a que a instalação estava sujeita e que traduziam as evoluções recentes na área científica, como a obrigatoriedade de possuir um laboratório e técnicos devidamente qualificados. A empresa, posteriormente denominada de Nacerel – Sociedade Nacional de Cerveja e Refrigerantes, nunca chegou a entrar em funcionamento, acabando por se concentrar na CUFP em 1960.

40 II CONGRESSO DA INDÚSTRIA PORTUGUESA. II Congresso da Indústria Portuguesa. Actas das sessões, vol. 3, 9 vols. Lisboa: s.n, 1957.

41 Cerveja, n.º 3, II, Março de 1956.

42 Boletim n.º 375 da Direcção-Geral dos Serviços Industriais, Ano VIII, 7 de Março de 1956.

1.4. A reorganização forçada por um convite inesperado: o sector cervejeiro e a abertura externa

Os anos 60 caracterizam-se pela continuidade das renovações industriais – veja- se, a título de exemplo, a fábrica da Leça do Balio (CUFP) e a de Vialonga (SCC) –, mas também pelo arranque do consumo e da exportação da cerveja portuguesa, apenas possível num contexto recente de abertura ao exterior, consubstanciado na integração de Portugal na EFTA, em 1960, e noutros organismos de cooperação internacional (BIRD, FMI, GATT), que alteraram substancialmente a política económica portuguesa, com a inserção de um novo elemento na política económica e industrial – a exportação –, concluindo que o caminho da substituição de importações, per si, não tinha presenteado bons resultados à economia. Será esta uma das principais linhas condutoras que guiará a estratégia da indústria cervejeira a partir do início da década, mas agora com a preocupação acrescida da mudança de orientação da política de condicionamento industrial para o sector, pautada nos despachos ministeriais de 8 de Setembro de 1960 e de 19 de Março de 1968, inaugurando uma fase de entrada de novas empresas, sob o pressuposto da regularização da concorrência, ainda que continuassem os esforços no sentido de fomentar o crescimento das empresas já existentes.

Este crescimento, associado ao todo nacional, é possível, para além de razões internas, porque todos os países da OCDE vivem nesta altura os anos de ouro da economia, num balizamento temporal mais alargado que ficou conhecido como os 30 anos gloriosos. No entanto, o desenvolvimento da década de 60 acontece simultaneamente com uma verdadeira quebra ou crise na agricultura, evidenciada no êxodo rural, bem como no aumento da emigração para países europeus. Como refere Sousa Franco, “o crescimento económico destes anos 60, produzindo inegáveis efeitos no domínio da riqueza e do próprio bem-estar social, acusa, para além das limitações apontadas, deficiências e limites evidentes” 43 .

A iniciativa do despacho de 8 de Setembro de 1960 – reorganização sectorial da indústria cervejeira – coube a Ferreira Dias, então ministro da Economia, e surge como consequência previsível das alterações que o sector vinha sofrendo no final da década de 50, nomeadamente com a questão da produção de cevada. No entanto, revela já uma noção cuidada da importância que os mercados externos poderão ter para o sector, desde

43 FRANCO, António de Sousa. “Economia,” in Portugal, 20 anos de Democracia, ed. António REIS. Lisboa: Círculo de Leitores, 1994, p. 173.

que haja uma correcta análise dos custos de produção e uma consequente estruturação do sector no sentido de o tornar competitivo à escala internacional:

“A indústria portuguesa da cerveja, apesar das aparências, que levam tanta gente a conclusões

erradas, não atingiu ainda entre nós o nível de concentração industrial que lhe permita chegar a

custos de concorrência internacional” 44 .

Desta forma, os serviços industriais viram-se na necessidade de traçar a curva de variação do custo de produção das fábricas existentes no continente, concluindo que o custo de produção baixaria automaticamente com o aumento da mesma. O despacho chega mesmo a referir a possibilidade de encerrar todas as fábricas com capacidade produtiva abaixo dos 100 000 000 litros. As indicações recolhidas mostram que existiam quatro fábricas em Portugal, cuja capacidade anual, em milhões de litros seria a seguinte: “Coimbra com 4,5; Porto com 7,2; Lisboa (duas fábricas) com 18 e 21” 45 . Objectivamente, o despacho ministerial traçou os seguintes objectivos:

i. Remodelação das fábricas com vista à colocação de cerveja nos mercados internacionais;

ii. Potenciar a cevada nacional através da criação de meios de transformação;

iii. Dar garantias aos capitais a investir na remodelação;

iv. Impedir a venda de cervejas que pudessem fomentar a concorrência com o vinho.

De forma a atingir estes objectivos, seguindo um parecer da Sociedade Central de Cervejas, o despacho propõe a promoção da concentração das duas fábricas de Lisboa numa unidade, com capacidade de 110 000 000 litros/ano; montagem de uma fábrica no Porto com capacidade anual de 25 000 000 litros; cooperação entre produtores de cerveja e produtores de cevada para a instalação de fábricas de malte; e re-equipamento das unidades fabris com vista à diversificação da produção. A ideia por detrás deste plano assentava no parecer da SCC, que estabelecia a meta de 110 milhões de litros/ano como pré-requisito de entrada nos mercados externos em concorrência igual, enquanto a capacidade anual de 25 milhões de litros asseguraria condições marginais de exportação. O despacho encerrou com a afirmação de que o Governo não

44 SECRETARIA DE ESTADO DA INDÚSTRIA. Reorganização das Indústrias de Cerveja e Malte. Lisboa: Direcção-Geral Serviços Industriais, 1969. 45 Ibid.

iria permitir a instalação de novas unidades se estas metas fossem cumpridas. Veremos, mais à frente, que este ponto será vital no desenvolvimento do sector no final da década.

Por outro lado, as reacções dos industriais cervejeiros com interesses instalados foram naturalmente positivas e reveladoras da nova disposição portuguesa face aos movimentos de integração europeia, até porque, como refere Kenneth Maxwel, “os industriais sabiam que o isolamento de Portugal era mais um estado de espírito do que uma realidade económica” 46 . Humberto Pelágio, administrador da SCC, atesta a lucidez e a actualidade do despacho, porque alerta a indústria para a “compreensão dos problemas e realidades que a economia dum Ocidente em perigo nos impõe considerar resolver” 47 . Interessante é também o seguinte excerto de um discurso de Humberto Pelágio no lançamento da primeira pedra da fábrica de Leça do Balio, em Abril de 1962, pois permite observar, por um lado, o elogio da abertura à Europa realizado pelo Governo mas, por outro, não deixa de lançar criticas severas à essência da política económica salazarista:

“(

estão irremediavelmente condenadas pelo próprio isolacionismo a que se remeterem. O auto-

é uma figura de retórica económica que o ultrapassado dirigismo cultivou, e

abastecimento (

na base do qual está, afinal, a razão de ser do seu aparatoso malogro” 48 .

as economias nacionais que se encerram hermeticamente nas suas fronteiras geográficas

)

)

João Salgado, também da SCC, partilha a mesma opinião, tocando no problema da exportação como uma questão que urge ser resolvida, só possível de ser concretizada através da dilatação do mercado cervejeiro para além do Continente e das Províncias Ultramarinas 49 .

Estas duas problemáticas não podem ser analisadas separadamente, pois esta aparente vaga de entusiasmo com a “integração” esconde a bipolaridade que então se fazia sentir e que opunha os mercados coloniais aos mercados ocidentais/europeus, como espelha o relatório do Conselho de Administração da SCC no balanço de 1960:

“O Mercado Nacional (Continente e Ultramar), tem que deixar de ser uma aspiração política, para se transformar em curto prazo numa realidade económica tangível”. Creio que, pela investigação efectuada, a nata do sector cervejeiro fosse tendencialmente

46 MAXWELL, Kenneth. A construção da democracia em Portugal. Lisboa: Presença, 1999, p. 44.

47 PELÁGIO, Humberto. A Indústria da Cerveja e o Agro Nacional. Lisboa: s.n, 1961, p. 11.

48 Indústria Portuguesa, n.º 441, XXXV, Maio de 1962, p. 155.

49 Cerveja, n.º 23, VII, Março de 1961.

favorável à nova abertura ao exterior, até porque a situação do sector nas colónias não era propriamente favorável. Todavia, estes sinais de entusiasmo não anulam por completo, nem extravasam o discurso oficial do regime, como se depreende pelas declarações de Humberto Pelágio no rescaldo a Conferência dos Sete, em Novembro de 1960: “se é à integração que devemos ir buscar a certeza duma continuidade, - há necessariamente, que a cultivar em toda a sua plenitude e extensão” 50 . No fundo, são discursos que representam posições de interesses e luta pela hegemonia, e que se coadunam facilmente em contextos, por vezes, contraditórios.

A adaptação do tecido empresarial português face ao novo paradigma espelha-se

primorosamente na criação da Associação da Indústria Cervejeira Portuguesa (AICP), em 1961, e na participação portuguesa na fundação da EFTA – Brewers Working Party (EBWP) e na EFTA Brewery Industry Council (EBIC), cujos fabricantes de cerveja haviam reunido a 3 e 4 de Maio de 1961 em Lisboa. No entanto, esta não era a primeira experiência de cooperação do sector, já que a Sociedade Central de Cervejas era membro do European Brewery Convention (EBC) desde 1954, braço científico e tecnológico da Brewers of Europe. Da primeira associação nacional, cuja promoção coube à Sociedade Central de Cervejas, faziam parte as empresas licenciadas do continente, das ilhas e das colónias, que reuniam mensalmente.

1.4.1. Na senda da investigação. As novas unidades industriais

A aproximação à Europa contribuiu decisivamente para quebrar os resquícios de

amadorismo da indústria cervejeira portuguesa, apostando de forma brutal na investigação tecnológica, no marketing – a título de exemplo, a SCC inicia a prática de campanhas publicitárias em 1963, em parte como consequência das quedas das vendas originada pelo aumento de imposto de consumo em 1961, e funda em 1967 a Cinevoz (empresa de publicidade) –, na prospecção de mercados, ou seja, numa panóplia de

recursos indispensáveis à integração económica. Humberto Pelágio, no fragmento sequente, relata de forma transparente esta realidade:

“[A investigação científica] tomou então o seu lugar; os métodos da organização passaram a viver em paralelo com a programação económica; o conhecimento universitário iluminou a Empresa; a tecnologia aumentou a sua rentabilidade qualitativa e quantitativa; as previsões

50 Cerveja, n.º 23, VII, Março de 1961.

tornaram-se possíveis, e a identificação dos custos marginais operaram o resto que se impunha

atingir para bussolar e orientar com consciência e eficiência os destinos da indústria, dotando-a

de crédito e de indispensável segurança”. 51

As duas grandes obras que resultam do diploma da reorganização industrial nascem nesta década, sustentadas pelo aumento da produção (ver tabela 4, anexo A) e do consumo, ainda que no final da década a capitação seja inferior a 10 litros por pessoa, enquanto na Espanha, com características análogas, os valores cifravam-se na ordem dos 30 litros. A CUFP muda as suas instalações para a Via Norte, na Leça do Balio, em 28 de Setembro de 1964, cuja produção anual passa a 25 milhões de litros. Na inauguração da fábrica, que contou com a presença do Presidente da República, o presidente da AICP – Humberto Pelágio – exaltou a jornada da integração europeia e o papel da empresa no desenvolvimento económico. Elogiou a CUFP e o tecido empresarial português por se adaptar a esta nova etapa, mas também por “vontade e programação expressa do Governo da Nação” 52 .

“Esta unidade denuncia o grau de desenvolvimento atingido pelo produto nacional, mercê da

assimilação crescente das técnicas mais evoluídas que se está felizmente operando no nosso País,

concretizada numa saudável e criadora confiança do investimento nacional no capital técnico

utilizado e a aproximação progressiva, portanto, do nível ideal daquilo que a ciência económica

chama relação capital-produto53

“Esta nova unidade traduz uma marcada e salutar viragem da mentalidade empresarial no nosso

País, uma vez que a sua implantação se está a dever ao financiamento interno, expresso no

concurso da poupança portuguesa e do crédito concedido pelas instituições bancárias

portuguesas, uma e, outras, apostadas em revelar espírito de iniciativa, e mostrar presença e

confiança.” 54

“É, com efeito, na diversificação de mercados que está a chave da sua [Estado] política

económica e dos seus destinos.” 55

A produção da Sociedade Central de Cervejas transfere-se para as novas instalações de Vialonga a 22 de Junho de 1968, data da inauguração da maior unidade

51 PELÁGIO, Humberto. A Indústria da Cerveja e o Agro Nacional. Lisboa: s.n, 1961, p. 11.

52 PELÁGIO, Humberto José Pereira. A Fábrica de Cerveja de Leça do Balio da Companhia União Fabril Portuense. Lisboa: s.n, 1964, p. 8.

53 Ibid, p. 13.

54 Ibid, p. 14.

55 Ibid, p. 18.

fabril cervejeira do país, garantindo, desde logo, a cobertura dos mercados interno e externo, dada a totalidade de produção de 110 milhões de litros de cerveja por ano,

acrescida de 21 milhões de litros de refrigerantes e 50 mil toneladas de malte. No global, o total dos investimentos relativos às novas fábricas não deveriam ser inferiores

a 600 000 contos, como nos indica o despacho ministerial de 19 de Março de 1968, e

contam com o financiamento, em grande escala, da banca nacional (Banco Espírito Santo, Banco Português do Atlântico, etc.), que fará parte do capital social das empresas. Ambas as obras foram levadas a cabo por corpos técnicos portugueses, a primeira dirigida pelo engenheiro João Talone.

1.4.2. Balanço da indústria cervejeira no final da década e a nova abertura do condicionamento industrial

Importa, para contextualizar esta realidade, transmitir as dificuldades que o tecido empresarial do sector cervejeiro diagnosticava. Para tal, foi imprescindível a leitura de um relatório sobre a indústria das bebidas, realizado por uma comissão composta por Bernardo Lancastre Mendes de Almeida (conde de Caria), Humberto Pelágio e Abilino Vicente, com o apoio da Corporação da Indústria e da Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos, que fez parte de um relatório preparatório do Plano de Investimentos para 1965-67 56 . É um dos poucos documentos em que é realizada uma análise mais detalhada da evolução deste sector, com apreciação crítica dos problemas das indústrias em questão, propondo, inclusive, caminhos a seguir. Incompreensível é, no entanto, a quase nulidade de informações sobre a indústria cervejeira no Plano Intercalar de Fomento, apesar do despacho de 1960 se incorporar nele, sobretudo por este ter sido, de todos os planos, aquele que verdadeiramente ensaiou o planeamento económico global, com estruturação sectorial. São, sobretudo, os relatórios preparatórios – da corporação da indústria e o do Ministério da Economia – que nos

elucidam acerca das matérias dominantes em torno do debate sobre o sector: a questão da promoção da cultura de cevada dística e lúpulo face à necessidade urgente de reduzir

o seu custo; o regime de aplicação do imposto de consumo, que havia subido em 1961

para 2$10/litro com o início da guerra em Angola, “verdadeiro travão à expansão dos

56 O Plano de Investimentos para 1965-67 constitui um dos vários relatórios preparatórios para o III Plano de Fomento (1968-1973), que compunha estudos elaborados por diversos grupos de trabalho da Comissão Interministerial do Planeamento e Integração Económica, nos vários sectores da economia portuguesa.

consumos continentais e possibilidades de exportação” 57 ; bem como o problema da indústria de embalagens e garrafas, visto como um “sério embaraço para a Indústria Portuguesa” 58 , mas cuja solução estava já em andamento, com a montagem de uma nova fábrica de garrafas (constituição da Cive – Companhia Industrial Vidreira que agrupava a Empresa Produtora de Garrafas, a Guilherme Pereira Roldão, a Ivima e a Crisal), resultado da política de diversificação iniciada pela SCC com base em dois

eixos: «o mercado da sede», que a levara aos refrigerantes, ao vinho comum e às águas minerais, e a indústria de embalagens, nomeadamente de vidro” 59 . Falava-se, de igual modo, da carência de uma regulamentação dos preços praticados pelo comércio retalhista, que “estrangulava a indústria”, e da abolição dos direitos de exportação para a cerveja, “1,5% do valor médio por grosso” 60 . Afigurava-se já um novo receio: a provável concorrência do produto estrangeiro, então expresso nas conclusões do relatório preparatório do plano de investimentos para 1965-67, onde se rejeitavam as alternativas do crescimento lento, pois as únicas vias que se poderiam percorrer eram a do “crescimento rápido que aproveite eficazmente os factores até agora sub-empregados

ou a crescente absorção desses factores pelas economias estrangeiras” 61 .

) (

Consequentemente, vemos do lado dos industriais o desejo de serem estabelecidos prémios de exportação, bónus à navegação nacional para fretes internacionais e seguros,

como já se observava em alguns países. Ainda assim, há que considerar a existência do anexo G da Convenção de Estocolmo, que salvaguardava a indústria portuguesa no que tocava às pautas aduaneiras.

As direcções que a indústria apontou remetem para dois conjuntos de ideias, que confluem nos seus propósitos, isto é, o cumprimento do despacho ministerial de 1960, que asseguraria a não concessão de novos alvarás e o papel da Associação de Cervejeiros, que seria o esteio desta mesma luta, como grupo de pressão, ainda que justificando tais opções pelo projecto animador da exportação e do desarmamento

57 PORTUGAL. CORPORAÇÃO DA INDÚSTRIA. Plano Intercalar de Fomento 1965-1967. Acções de política industrial na indústria transformadora. Lisboa: s.n, 1964, p. 29.

58 MINISTÉRIO DA ECONOMIA. Indústria da Alimentação e das Bebidas (classes 20 a 21): Relatório Preparatório do Plano de Investimentos para 1965-67. Lisboa: Ministério da Economia, 1964, p. 4.

59 RIBEIRO, José Félix et al. “Grande indústria, banca e grupos financeiros,” Análise Social XXIII, n.º 99 (1987): 945-1018, p. 1004.

60 MINISTÉRIO DA ECONOMIA. Indústria da Alimentação e das Bebidas (classes 20 a 21): Relatório Preparatório do Plano de Investimentos para 1965-67. Lisboa: Ministério da Economia, 1964.

61 PORTUGAL. PRESIDÊNCIA DO CONSELHO. SECRETARIADO TÉCNICO DA PRESIDÊNCIA DO CONSELHO, Relatório preparatório do plano de investimentos para 1965-1967. Estudos gerais (Metrópole), 2 a parte. Caracterização presente da economia portuguesa e projecções do seu desenvolvimento no período de 1965-1973. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1964, p. 382.

aduaneiro. Como era referido no final deste relatório, não se esperavam obstáculos. “A indústria arrancou já para o objectivo Exportação. E não pode voltar atrás” 62 .

Para mais rapidamente atingir os mercados externos, a SCC e a CUFP criaram, em 1966, um Gabinete Comum de Exportação, cuja estratégia inicial passava pela entrada em mercados específicos, nomeadamente onde existiam grandes comunidades de emigrantes portugueses. Nos moldes da cooperação, acreditavam que resolveriam eficazmente os problemas que assolavam a indústria com acções concertadas no campo da publicidade, da investigação de novos produtos e da prospecção e estudo de mercados. Iniciaram, no mesmo ano, a exportação para Gibraltar e para os Estados Unidos. O relatório do Conselho de Administração da CUFP relativo a 1970 referia que “a concorrência pela inovação é mais importante do que a concorrência de preços e quantidades”.

O quadro que se segue dá-nos uma panorâmica comparativa do sector em 1953 e em 1962:

Sector cervejeiro em 1953 e 1962

 

1953

1962

Estabelecimentos em actividade

4

4

Valor da produção em contos (preços de venda ao retalhista)

79

750

203

500

Pessoal operário remunerado

716

848

Materiais consumidos (contos)

35

216

68

961

Valor acrescentado (contos) = valor da produção aos preços de venda (custo industria - mão-de-obra)

66

075

161

406

Capital fixo (contos)

172 000

320

000

 

Lisboa

49

198

123

641

Distribuição regional da produção a preços de venda ao retalhista (contos)

Coimbra

11

000

33

000

Porto

19

552

46

859

Fonte: Tabela retirada de MINISTÉRIO DA ECONOMIA, Indústria da Alimentação e das Bebidas (classes 20 a 21):

Relatório Preparatório do Plano de Investimentos para 1965-67 (Lisboa: Ministério da Economia, 1964), p. 8.

O balanço desta década não pode ficar concluído sem que se decomponha detalhadamente o despacho de 1968, a confirmação final da mudança de estratégia governamental no que toca ao sector cervejeiro, isto é, “utilizar o condicionamento industrial, [através da autorização de instalação de novas empresas], para romper os

62 MINISTÉRIO DA ECONOMIA. Indústria da Alimentação e das Bebidas (classes 20 a 21): Relatório Preparatório do Plano de Investimentos para 1965-67. Lisboa: Ministério da Economia, 1964, p. 8.

equilíbrios estabelecidos há décadas em sectores fortemente concentrados” 63 . Desde a orientação de Ferreira Dias, em 1960, até à data de promulgação deste novo despacho, não há uma evolução unívoca quanto aos pedidos de instalações. Em 1963, Lúcio Tomé Feteira requer a autorização para instalação de uma unidade fabril de cerveja, mas esta é rejeitada. A partir daqui, só em 1966/67, como mostra a tabela 1 do anexo B, se dá uma renovada afluência de pedidos, com o argumentário comum da existência de posições monopolistas no sector, que estarão na base de discussão do referido documento.

O despacho parece, na sua essência, sofrer de um problema de coerência, uma vez que desconsidera as críticas encetadas por alguns industriais acerca do monopolismo, dizendo que esta situação pode ser corrigida por ajustes pautais, não implicando necessariamente o licenciamento de novas fábricas, cujos investimentos poderiam ser nefastos para o sector. Mas, simultaneamente, com base na capacidade nominal de produção do sector, estabelecida em 170 milhões de litros/ano, e dadas as previsões de alcance desse número em 1972, no que toca ao consumo, considera-se proveitosa a entrada de uma ou várias empresas no mercado cervejeiro, desde que obedeçam às exigências emanadas do anterior despacho e que produzam refrigerantes e garrafas (apenas um dos requerentes cumpria estes objectivos – Supersumos). No entanto, a entrada em laboração da nova fábrica só estaria prevista para o ano de 1972, face às recentes previsões da produção e do consumo. No fundo, este despacho reflecte uma certa abertura à iniciativa privada, através de uma tentativa de liberalização económica, que pretendia enfrentar os problemas decorrentes da concorrência externa.

Entretanto, em 1969, a Supersumos, juntamente com outros accionistas, incluindo a Mahou, sociedade espanhola de assistência técnica, e a influência do Conde de Caria com o apoio do Banco Pinto e Sotto Mayor, constitui, a 27 de Março de 1969, a Cergal – Cervejas de Portugal (capital social de 60 000 contos), que fixa a localização da sua fábrica no distrito de Lisboa (Venda Seca, Belas), com uma produção anual de 25 000 000 litros.

63 RIBEIRO, José Félix et al. “Grande indústria, banca e grupos financeiros,” Análise Social XXIII, n.º 99 (1987): 945-1018, p. 1002.

1.5. Uma estabilidade relativa: os efeitos de um crescimento ilusório

Nos anos 70 prosseguem os esforços no sentido de incrementar a internacionalização das cervejas portuguesas, já num quadro sectorial nacional mais alargado, com o início da comercialização da cerveja Cergal em 1972, após ter obtido a aprovação do plano de expansão da empresa. Os dados sobre as vendas do sector em 1970 revelam uma diminuta importância dos mercados externos, como se pode comprovar seguidamente:

Destino das vendas do sector cervejeiro em 1970

Metrópole

94%

Ultramar

5,75%

Estrangeiro

0,25%

Total

100%

Nota: Tabela retirada da Indústria Portuguesa, n.º 523, XVLIV, Setembro de 1971

Apesar das anteriores indicações pessimistas no segmento da exportação, as recentes programações para o sector previam a alteração deste quadro num espaço temporal curto, daí a concessão de alvarás a duas novas empresas nos primeiros anos deste decénio (ver tabela 1, anexo B). Em 1972, face aos resultados do consumo de cerveja, os serviços industriais respondem positivamente aos pedidos de António Vítor de Almeida Saraiva, da Refriplás e de José Nunes Rodrigues. Na Guiné, a SCC e a CUFP participam na fundação da Cicer – Companhia Industrial de Cervejas e refrigerantes da Guiné, oficialmente inaugurada em Janeiro de 1974.

António Vítor de Almeida Saraiva, com o apoio da Interbrew e da Heineken, constitui a Copeja – Companhia Portuguesa de Cervejas, em 2 de Agosto de 1972, tendo a unidade fabril uma capacidade de laboração anual de 30 000 000 litros. Idêntica autorização foi concedida a José Nunes Rodrigues e à Refriplás – Indústrias Reunidas de Refrigerantes e Plásticos. Através de um novo despacho ministerial, em Maio de 1973, é autorizada a junção, numa única unidade (Imperial), localizada no distrito de Faro (Loulé), com uma capacidade de laboração anual de 60 000 000 litros, podendo, no entanto, arrancar com 30 000 000 de litros de capacidade.

É este o cenário da indústria cervejeira nas vésperas da revolução:

Continente e Ilhas Adjacentes

 

Províncias Ultramarinas

Sociedade Central de Cervejas

 

Cuca – Companhia União de Cervejas de Angola

Companhia União Fabril Portuense

 

Nocal – Nova Empresa de Cervejas de Angola

Cergal – Cervejas de Portugal

 

Sogere – Sociedade Geral de Cervejas e Refrigerantes de Moçambique

 

! Companhia da Fábrica de Cerveja Reunidas de Moçambique

! Fábrica de Cerveja da Beira

! Companhia de Cervejas e Refrigerantes Mac-Mahon – Moçambique

Copeja

Companhia

Portuguesa

de

Cicer – Companhia Industrial de Cervejas e Refrigerantes da Guiné

Cervejas

Imperial – União Cervejeira Portuguesa

 

Empresa de Cervejas da Madeira

   

Fábrica de Cervejas e Refrigerantes João de Melo Abreu

 

1.5.1. Diagnóstico sectorial de 1974. O IV Plano de Fomento

Com a preparação do IV Plano de Fomento, diagnosticou-se um conjunto de problemas que subsistiam no sector. Trata-se fundamentalmente do aumento do custo da mão-de-obra, das matérias-primas, do problema dos combustíveis e da água, tal como a constante necessidade de modernização tecnológica. Quanto ao primeiro problema, aconselha-se o “estudo da evolução para efectivos de pessoal proporcionalmente mais reduzidos embora de maior qualificação, pelo recurso à automatização e pela adopção de métodos de trabalho mais evoluídos” 64 . Através do relatório e contas da SCC de 1972 e 1973, a questão do proteccionismo e da legislação aplicada à cevada é alvo de fortes críticas, uma vez que obriga a indústria cervejeira a “adquirir, em curto espaço de tempo, no final de cada campanha agrícola, a um preço oficialmente fixado, todas as quantidades que lhe sejam entregues pela Lavoura”, tendo que “pagar preços que se distanciam dos que são praticados internacionalmente”, o que coloca sérios problemas em situações de excedente na produção de cevada. Por outro lado, a subida do imposto de transacções de 2$10 para 2$80/litro reflecte-se num coro de protestos por parte dos industriais, que esperavam medidas de fomento do consumo e da exportação.

Num relatório preparatório do IV Plano de Fomento, elaborado pela Corporação da Indústria, a Companhia União Fabril Portuense dá conta dos problemas que se lhe colocam: o abastecimento de água na zona de Matosinhos, que causa graves perturbações ao funcionamento da empresa; a necessidade de redução do custo das

64 Boletim da Sociedade Central de Cervejas, n.º 1, 1974.

cevadas nacionais, uma vez que as cevadas importadas acabam por ser menos dispendiosas; as deficiências dos meios de comunicação na zona Norte; critica aos novos licenciamentos que poderão arrastar a indústria cervejeira para o caos, pois o total da capacidade produtiva – 225 milhões de litros/ano (com estimativa de capitação de 28,1 litros/pessoa) – ultrapassa em larga escala o consumo nacional – capitação de 14,1 litros/pessoa 65 .

1.5.2. Redes de interesses, grupos e monopolismo

O sector cervejeiro, tal como os principais sectores concentrados em Portugal, constituía um autêntico jogo de relações e interesses, por vezes difícil de destrinçar. Através do diagrama e da tabela presentes no anexo D, é realizada uma viagem desde 1934 até 1974, onde procuramos encontrar e relacionar os principais actores entre si, tornando visível aquilo que poderia parecer um jogo de sombras. Veremos, à medida que avançamos temporalmente, a entrada de interesses e capitais financeiros no sector, através de “participações cruzadas entre os bancos e as grandes empresas, cujos principais accionistas eram accionistas minoritários dos bancos” 66 , que ajudam a prolongar o monopólio existente, assente sobretudo entre a Sociedade Central de Cervejas e a Companhia União Fabril Portuense, ainda que com uma relevância muito maior da primeira, até porque, como já foi referido, a SCC vai tomar parte de 51% do capital social da CUFP, em 1947.

Um dos protagonistas fulcral neste enredo é Manuel Vinhas, cervejeiro e vidreiro, industrial-banqueiro (um dos representantes do Banco Português do Atlântico) e um dos donos da Portugália. É através desta empresa que, em 1934, procede à concentração da indústria cervejeira na Sociedade Central de Cervejas, com excepção da Companhia União Fabril Portuense. Importante nestas relações era a ligação do sector cervejeiro à indústria de vidro e garrafas, onde a Portugália detinha a Empresa Produtora de Garrafas. A família Lancastre de Freitas e Carvalho Martins assumem um papel de igual respeito no seio da Sociedade Central de Cervejas. Surgem recorrentemente, numa espécie de evolução hereditária, apelidos familiares similares

65 PORTUGAL. CORPORAÇÃO DA INDÚSTRIA. IV Plano de Fomento. Anexo: Questões sectoriais. Lisboa: s.n, 1972, pp. 44-48. 66 RIBEIRO, José Félix et al. “Grande indústria, banca e grupos financeiros,” Análise Social XXIII, n.º 99 (1987): 945-1018, p. 1015.

nos cargos mais importantes – Lancastre de Freitas, Sttau Monteiro, Moniz Galvão, Carvalho Martins, Homem de Mello, Miles (na Madeira), Beirão da Veiga etc. – indicando a estrutura fechada, característica do patronato português.

Estas relações íntimas entre o industrial e o financeiro ganham relevo a partir da década de 60, até pela necessidade de investimento necessário para se proceder à modernização das instalações na indústria. Esta realidade é facilmente percepcionada na leitura dos relatórios e contas, por exemplo, da CUFP, ao encontrar o Banco Português do Atlântico no Conselho de Administração em 1961, representado por Alberto Pires de Lima (e depois Cupertino de Miranda), ou descobrir a presença de Manuel Ricardo Espírito Santo Silva no mesmo Conselho de Administração, como delegado da Companhia de Cervejas Estrela. O próprio engenheiro João Talone, responsável pelo projecto de desenvolvimento da empresa neste período e, mais tarde, administrador da Cuca, exerceu as funções de administrador executivo do Banco Português do Atlântico entre 1972 e a nacionalização do mesmo. Na Sociedade Central de Cervejas, o Banco Português do Atlântico e o Banco Espírito Santo (através da Estrela) surgem igualmente pelas mesmas razões, enquanto o Banco Borges & Irmão ganha força mais tardiamente, apesar de deter o capital da Fábrica de Coimbra (participação com a SCC na formação da Sogere – Sociedade Geral de Cervejas e Refrigerantes de Moçambique). Encontram- se ainda na SCC nomes como Fernando Moniz Galvão, Manuel Ricardo Espírito Santo, entre outros com ligações a grupos financeiros.

Os trusts não se encerram à indústria cervejeira. Criam, por seu turno, uma teia complexa de participações financeiras que merecem ser cuidadosamente examinadas. No vidro, a Empresa Produtora de Garrafas, da SCC, dá lugar, em 1968, à Cive, que engloba, para além daquela empresa, a Guilherme Pereira Roldão e duas empresas de cristalaria, a Ivima e a Crisal. A SCC empreende ainda integrações verticais nos plásticos – Síntex (1972) –, nas águas, no vinho e nos refrigerantes – Adegas Camillo Alves, Sociedade de Água de Luso, por exemplo – e até em empresas de publicidade, como a Cinevoz (1967) e supermercados (Nutripol). A CUFP detinha algumas participações financeiras relevantes e diversas, que iam desde as empresas cervejeiras nas colónias, a empresas de alimentação, como a Gelex, e águas – Empresa das Águas Medicinais Castelo de Vide –, passando pelo sector agrícola, mormente na Lupulex – Sociedade Portuguesa de Cultura de Lúpulo, entre muitas outras.

Todavia, a década de 70 vai inaugurar uma nova fase da monopolização através do sector financeiro e de sociedades de investimento. É o que acontece na Portugália onde, através da Sociedade de Investimentos São Ciro, os interesses da família Vinhas vão-se estendendo 67 (na Estrela sucede-se o mesmo com a Progredior, controlada pela família Carvalho Martins). Em 1973, os principais accionistas da SCC constituem uma sociedade de controlo, a Parfil – Sociedade de gestão de Participações Financeiras, cujo objectivo “é a gestão de participações noutras sociedades” 68 .

O grupo do Conde de Caria está também ligado à indústria de bebidas, sempre numa relação estreita com o grupo Champalimaud e o grupo CUF, bem como ao sector financeiro, através do Banco Pinto e Sotto Mayor. Destacam-se aqui as empresas Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas e Supersumos, sendo esta última a fundadora da Cergal, empresa que concentra os interesses dos grandes industriais vidreiros (Santos Galo e Santos Barosa). Na Copeja, assiste-se, da mesma forma, à presença da banca, com o Banco Espírito Santo, aliado à família Guedes de Sousa e ao grupo Comundo – “sociedade mãe de muitas sociedades luso-estrangeiras” 69 (um dos representantes do BPA). Os accionistas da Imperial, segundo Maria Belmira Martins, não diferem muito dos da Copeja. O Banco Espírito Santo participava ainda na Nocal, em Angola.

1.5.3.

Revolução

O

sector

cervejeiro

e

a

economia

portuguesa

nas

vésperas

da

Compreender a economia da Revolução pressupõe um conhecimento enquadrado dos sinais, das características, das mudanças que marcaram o período pré- revolucionário. A evolução dos acontecimentos nos mais variados domínios permite- nos identificar alguns traços que considero marcantes, e que, na área económica, se podem dividir em duas fases, com um ponto de ruptura em 1957, após a realização do II Congresso da Indústria Portuguesa. Se na primeira fase tínhamos um modelo económico assente na estabilidade financeira, no planeamento a médio prazo, privilegiando o sector agrícola e algumas indústrias complementares e que sacrificava a modernização pela estabilidade social, o final da década de 50 vai significar uma recusa deste modelo de transição, fundando as bases do crescimento e desenvolvimento

67 MARTNS, Maria Belmira. Sociedades e grupos em Portugal. Lisboa: Estampa, 1973.

68 MARTINS, Américo Central De Cervejas: 50 anos de actividade. Lisboa: Central de Cervejas, 1985.

69 MARTNS, Maria Belmira. Sociedades e grupos em Portugal. Lisboa: Estampa, 1973, p. 45.

económico numa nova política industrial, que remetia para a exportação os novos horizontes, procurando contrariar a política de substituição de importações. Entre as variáveis em jogo podem ainda destacar-se a guerra colonial que marcou os anos 60 e 70, bem como os ventos de mudança que se faziam sentir no contexto internacional relativamente à descolonização; a adesão a estruturas internacionais e de cooperação, como a NATO, a ONU e a EFTA, não negligenciando os motivos de tais adesões; a crise petrolífera de 1973, entre uma série de outros leitmotivs.

A importância destas questões, por vezes aparentemente residuais, só é correctamente formulada quando analisadas a longo prazo, enquadradas no contexto mais abrangente da situação económica que assinalou todo o período revolucionário português, até porque muitos destes pontos estarão presentes e constituirão focos de tensões e discussões económico-políticas durante o PREC (cf. dicotomias: estabilidade- desenvolvimento, intervencionismo-liberalismo, isolamento-abertura, africanismo- europeísmo, agricultura-indústria, etc.). Assim sendo, a questão da estabilidade financeira, que se insere num campo de debate maior entre finanças (percepcionada como conservadora) e economia (numa óptica de transformação), tornou-se peça-chave da política económica salazarista, que se foi alicerçando e transformando “em algo para além do campo da opção política circunstancial, adquirindo um estatuto virtualmente mítico” 70 , conduzindo ao atraso do desenvolvimento económico e industrial do país.

Augusto Mateus fala da importância das relações entre as dinâmicas interna e externa para se perceber a evolução estrutural da economia portuguesa. Deste modo, a internacionalização da economia portuguesa neste período de análise pode ser descrita como limitada, pois era dominada por “movimentos de mercadorias com base em vantagens comparativas limitadas”, no quadro da EFTA. Esta situação coexistia com a “manutenção da relevância do comércio colonial”, num sistema fechado ao investimento estrangeiro 71 . No plano interno, à manutenção de salários reais baixos, somou-se a debilidade da estrutura económica e a pouca apetência para assumir riscos, podendo ser observado pelo peso das várias actividades industriais. O bloqueamento a estratégias e planos de desenvolvimento económicos ousados é das questões mais

70 LOPES, Ernâni Rodrigues. “O desenvolvimento económico-social desde o pós-guerra 45 e a integração

europeia. Dilemas portugueses.”, in Portugal e a Europa: 50 anos de integração. Lisboa: Verbo, 1996, p.

27.

71 MATEUS, Augusto. “O 25 de Abril, a transição política e as transformações económicas", in O País

em Revolução. Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p. 263.

interessantes, que terá consequências não só nesse período, mas também durante o processo revolucionário em curso. Ainda assim, e contrariamente ao discurso ruralista de Salazar nos anos 50, houve uma tendência, que Silva Lopes considera natural, para a industrialização, mas nos moldes que os capítulos anteriores foram demonstrando.

O crescimento económico português na década de 60 foi notável em termos absolutos, mas em termos relativos a espectacularidade do mesmo é minimizada. Na realidade, o desenvolvimento da década de 60 acontece simultaneamente com uma verdadeira quebra ou crise na agricultura, evidenciada no êxodo rural, bem como no aumento da emigração para países europeus (ex. França), caso único por toda a Europa devido à quebra de população na metrópole, que baixa de “8,89 para 8,61 milhões (- 3,1%) nos anos 60” 72 . António de Sousa Franco, de forma bastante sistemática, aponta os sinais de crise que se começam a evidenciar a partir de 1967 (com base em dados do Banco de Portugal), e se podem representar do seguinte modo:

i. “Atenuação das taxas de crescimento das exportações e dificuldades de continuar a

tradicional política de substituição de importações;

ii. Incremento do défice comercial, compensado, na balança de pagamentos correntes, pelas

remessas de emigrantes;

iii. Afrouxamento do ritmo de crescimento do investimento industrial;

iv. Aparecimento de taxas de inflação progressivamente mais fortes;

v. Dificuldade de o Estado suportar os gastos de infra-estrutura, devido ao peso das despesas

da guerra, com deterioração da qualidade e eficiência do aparelho do Estado;

vi. Diminuição dos salários reais em 1971, 1972 e 1973” 73 .

Os indícios de uma crise complexa do modelo económico do Estado Novo também não surgem isoladamente. Pelo contrário, eclodem acompanhando a evolução europeia, já se fazendo sentir algumas mudança sociais em Portugal, nomeadamente com a emergência de uma nova classe média, que rejeitava o carácter rural do Estado e

“não desejava mais do que ser « europeia» 74 . Apesar deste “período glorioso” em

termos económicos, José da Silva Lopes diz-nos que Portugal encontrava-se na cauda da Europa 75 . Todas as alterações no tecido económico que aqui tenho dado conta, estão

72 LOFF, Manuel. “Fim do colonialismo, ruptura política e transformação social em Portugal nos anos setenta", in Portugal: 30 anos de democracia (1974-2004). Porto: Editora UP, 2006, p. 155.

73 FRANCO, António de Sousa. “Economia", in Portugal, 20 anos de Democracia, ed. António Reis. Lisboa: Círculos de Leitores, 1994, pp. 173-174).

74 MAXWELL, Kenneth. A construção da democracia em Portugal. Lisboa: Presença, 1999, p. 40.

75 LOPES, José da Silva. A economia portuguesa desde 1960. Lisboa: Gradiva, 1996, p. 15.

bem perceptíveis no quadro relativo à evolução do emprego em Portugal elaborado por Américo Ramos dos Santos 76 :

 

1960

1973

Emprego Total

3 112 000

3 124 300

 

Emprego

PIB

Emprego

PIB

Sector primário

43,6%

25,1%

26%

12,2%

Sector secundário

28,7%

36,5%

36,7%

51,7%

Sector terciário

27,7%

38,4%

37,3%

36,1%

A crise petrolífera de 1973, que conduziu ao aumento exponencial do preço do

crude (quadruplicou, aumentando de três para doze dólares/barril), a par da contracção

económica, da pressão inflacionista e da desregulamentação do sistema monetário internacional, colocou um ponto final na época áurea do crescimento económico europeu, com implicações para a economia portuguesa.

As sucessivas tentativas dos elementos tecnocratas 77 do governo de Marcello Caetano não conseguiram suster a degradação do regime e do modelo económico subjacente, sobretudo pela acção da velha guarda salazarista, os ultras do regime. As palavras que se seguem, de Fernando Rosas, traduzem na perfeição o fracasso da mudança política – a última evolução na continuidade, a última transição falhada:

“o marcelismo era, na realidade, a expressão do triunfo tardio de uma corrente reformista dentro

do Estado Novo, surgida no rescaldo da II Guerra Mundial, e que, em 1968, após acidentes

vários e algumas oportunidades ingloriamente perdidas, chegava finalmente ao poder. Iria deixar

fugir, também, desta feita, como veremos, a última chance de conduzir o regime por um

processo de transição” 78 .

O processo de industrialização que ocorreu nos anos 60 acabou por se tornar, de

certa forma, disfuncional e desarticulado da realidade, por não conseguir ultrapassar

alguns obstáculos e imobilismos que se mantinham do passado, não querendo com isto negligenciar todas as transformações essenciais que gerou na sociedade portuguesa. Mas, que industrialização seria esta que vivia de mãos dadas com o condicionamento industrial? Como modernizar com um processo de industrialização que parece rejeitar a competitividade interna e externa, num sistema fechado e com condições de produção

76 SANTOS, Américo Ramos dos. “Abertura e bloqueamento da economia portuguesa", in Portugal Contemporâneo, 1958-1974, ed. António Reis, vol. V. Lisboa: Publicações Alfa, 1989, p. 131. 77 Tais como Rogério Martins, Xavier Pintado, João Salgueiro e Vasco Leónidas. 78 ROSAS, Fernando. “O Marcelismo ou a falência da política de transição no Estado Novo", in Do Marcelismo ao Fim do Império, ed. José Maria Brandão de Brito. Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p. 16.

artificiais? Nesta conjuntura global, realça-se o surgimento de um número reduzido de grupos económico-financeiros hegemónicos que, fazendo uso das palavras de Ernâni Rodrigues Lopes, “[constituem] a base organizacional dos segmentos dinâmicos da economia portuguesa” 79 – são os chamados sete magníficos, que controlavam os sectores industriais de maior produtividade, taxa de lucro e capacidade tecnológica, bem como os sectores básicos e a banca 80 .

Enquadrada neste cenário, a indústria cervejeira portuguesa, sendo um sector com forte contribuição para o crescimento industrial do país 81 , sobretudo a partir dos anos 60, em que engrossa os cofres do Estado com largos montantes de capital provenientes do imposto sobre o produto, parece representar minimamente as aparentes contradições da(s) política(s) económica(s) do Estado Novo, apesar de se encontrar, não raras vezes, em posições de vanguarda em vários domínios – veja-se a investigação científica, o marketing, a formação técnica, etc. No fundo, tal como a economia portuguesa, o crescimento deste sector, em termos absolutos é relevante, mas em termos comparativos acaba por ficar aquém da evolução da indústria cervejeira mundial, sobretudo no que diz respeito ao volume de produção e à exportação. No plano do crescimento, contrariamente à situação de outros sectores, a indústria da cerveja não conheceu uma situação de real declínio ou desaceleração no final da década de 60 / início de 70, mas na vertente financeira a situação não é a mesma, como teremos oportunidade ver. O sector cervejeiro – e praticamente toda a indústria de processos – constitui-se como um dos principais núcleos de desenvolvimento industrial, não ultrapassando alguns vícios e problemas estruturais da indústria portuguesa, nomeadamente a exploração de mão-de-obra pouco qualificada e a recusa da tecnologia e inovação.

79 LOPES, Ernâni Rodrigues. “O desenvolvimento económico-social desde o pós-guerra 45 e a integração europeia. Dilemas portugueses,” Portugal e a Europa - 50 Anos de Integração (1995): 25-45, p. 32.

80 ROLLO, Maria Fernanda. “A industrialização e os seus impasses,” in História de Portugal: o Estado Novo (1926-1974), ed. José Mattoso, vol. 7, 8 vols. Lisboa: Estampa, 1998, p. 421.

81 LISBOA, Manuel. A Indústria Portuguesa e os seus dirigentes. Lisboa: Educa, 2002.

2. Economia da Revolução: contextualização

2.1. Revolução e transformações

A revolução que eclodiu na madrugada de 25 de Abril de 1974 e que pôs fim a

48 anos de ditadura deve ser analisada sob várias perspectivas, sobretudo relacionadas com a crise definitiva do paradigma colonial e todas as questões envolventes (desde o cansaço acumulado, às demissões de altas patentes e a percepção militar da derrota na Guiné, bem como a entrada de oficiais milicianos no quadro). O golpe militar que fez cair o regime, não implicou o colapsar imediato do Estado, mas sim “das características fascistas do velho regime: partido único, a polícia política, as milícias paramilitares, o tribunal plenário, os presos políticos, a repressão da liberdade de expressão e de associação” 82 . Considero que o processo revolucionário que se seguiu foi o dínamo das transformações destes anos (1974-1976), com grande participação social, ainda que num movimento amplamente assimétrico e multipolar, com linhas temporais razoavelmente demarcadas.

Descrever a economia da revolução, os seus indicadores económicos, as linhas de orientação, as transformações operadas e as especificidades desta época é um trabalho aliciante, maciço e, acima de tudo, ainda muito mitificado. Deste modo, procurarei analisar e explicitar os objectivos económicos iniciais e toda a sua evolução num quadro político-militar governamental, mas também na esfera não-governamental. Consequentemente, sublinharei as tensões existentes e as principais políticas aplicadas, com particular enfoque para a questão das nacionalizações (sobretudo no capítulo 3 e 4).

O programa do Movimento das Forças Armadas (MFA), sobre a égide dos três

D’s – descolonizar, democratizar e desenvolver – é aparentemente muito vago no que diz respeito aos seus fundamentos económicos e sociais:

“a) Uma nova política económica, posta ao serviço do Povo Português, em particular das

camadas da população até agora mais desfavorecidas, tendo como preocupação imediata a

luta contra a inflação e a alta excessiva do custo de vida, o que necessariamente implicará

uma estratégia antimonopolista”.

82 SANTOS, Boaventura de Sousa. O Estado e a Sociedade em Portugal (1974-1988). Porto:

Afrontamento, 1998, p. 27.

“b) Uma política social que, em todos os domínios, terá essencialmente como objectivo a defesa

dos interesses das classes trabalhadoras e o aumento progressivo, mas acelerado, da

qualidade da vida de todos os Portugueses” 83 .

Não deixa, no entanto, de ser relevante a preocupação com a crise que se fazia sentir, especialmente o receio da inflação. Por outro lado, estabelece-se formalmente o inimigo da revolução – classe capitalista, financeira, e outros ramos de actividades análogos –, surgindo o interesse dos trabalhadores como uma das referências capitais.

A Junta de Salvação Nacional, com Spínola como principal figura, vai promover uma série de acções conducentes à desestruturação do antigo regime, nomeadamente ilegalizar a Acção Nacional Popular, permitir a liberdade sindical e destituir a Assembleia Nacional. Em 14 de Maio de 1974, a Junta de Salvação Nacional decreta a estrutura constitucional transitória (Lei n.º 3/74), que revoga a Constituição de 1933 naquilo que era contrário às disposições constitucionais anteriores – Leis n. os 1/74 e 2/74 – e estabelece as principais normas, medidas e órgãos que devem vigorar até à concretização de uma nova Constituição. António de Spínola é o militar escolhido para a Presidência da República, que coexistirá com um conjunto de organismos 84 .

Neste mesmo mês, a 16 de Maio, é formado o I Governo Provisório, liderado pelo liberal independente Adelino da Palma Carlos, integrando representantes dos principais partidos políticos (Partido Comunista, Partido Socialista, Partido Popular Democrático, CDS e MDP) e militares. O programa do governo é uma peça de estudo fulcral, uma vez que esclarece as clivagens existentes, as esperanças e as linhas de rumo que se colocavam, mas demonstra as limitações que os próprios sentiam pela simples constatação de que o carácter transitório não permitia “grandes reformas de fundo, nem alterações que afectem o foro íntimo da consciência dos Portugueses, em particular das suas convicções morais e religiosas” (D. L. n.º 203/74, in S.a, 1975, p. 5/24). No quadro que se segue, adaptado do Programa do Governo Provisório, apresentarei as medidas centrais e os objectivos da política económica e financeira:

! “Combate à inflação, através de medidas de carácter global;

83 s.a, Programa do Movimento das Forças Armadas. E vários decretos e leis publicados pelo Governo Provisório. Lisboa: Rei dos Livros, 1975, p. 5/20. 84 A concepção de duplo poder emerge naturalmente: Governo Provisório, Junta de Salvação Nacional, Conselho de Estado.

! Revisão da orgânica e dos métodos de administração económica, de modo a dotá-los de eficiência e celeridade de decisão;

! Eliminação dos proteccionismos, condicionalismos e favoritismos que restrinjam a igualdade de oportunidades e afectem o desenvolvimento económico do País;

! Criação de estímulos à poupança e ao investimento privado – interno e externo –, com salvaguarda do interesse nacional;

! Adopção de novas providências de intervenção do Estado nos sectores básicos da vida económica, designadamente junto de actividades de interesse nacional, sem menosprezo dos legítimos interesses da iniciativa privada;

! Intensificação do investimento público, designadamente no domínio dos equipamentos colectivos de natureza económica, social e educativa;

! Liberalização – em conformidade com os interesses do País – das relações económicas internacionais, no domínio das trocas comerciais e dos movimentos de capitais;

! Apoio e fomento de sociedades cooperativas. Revisão dos circuitos de comercialização, de molde a libertá-los de intervenções e encargos não justificados;

! Reforma do sistema tributário, tendente à sua racionalização e à atenuação da carga fiscal sobre as classes desfavorecidas, com vista a uma equitativa distribuição do rendimento;

! Adopção de medidas excepcionais destinadas a combater a especulação e a fraude fiscal;

! Reforma do sistema de crédito e da estrutura bancária, visando, em especial, as exigências do desenvolvimento económico acelerado;

! Nacionalização dos bancos emissores;

! Dinamização da agricultura e reforma gradual da estrutura agrária;

! Auxílio às pequenas e médias empresas;

! Protecção das participações minoritárias no capital das sociedades” 85 .

Numa série de alterações a que se propõe, o I Governo Provisório não fecha as portas da intervenção estatal, pelo contrário, expande até a possibilidade de actuação em alguns sectores essenciais, falando da nacionalização dos bancos emissores e do eterno problema da questão agrícola. Note-se também a presença de um pensamento anti- monopolista e a importância concedida às pequenas e médias empresas. Deixo ainda um breve apontamento para a presença de Vasco Vieira de Almeida à frente do Ministério da Coordenação Económica, que se ocupa das seguintes áreas: finanças, planeamento económico, indústria e energia, agricultura, comércio externo e turismo e abastecimento e preços. Nos tempos iniciais, a actuação do Governo Provisório cingiu-se sobretudo a políticas de emergência, a

85 Ibid, pp. 5/26 e 5/27, sublinhado nosso.

“tentativas de articulação [

]

de medidas imediatas que evitassem as consequências negativas de

qualquer situação anárquica ou revolucionária (especulação, açambarcamento de bens, escassez

de abastecimentos, fuga de capitais ou de bens de património, incerteza, insegurança,

instabilidade social) com algumas providências que marcassem a propriedade de um certo

sentido social (em geral socializante ou mesmo socialista)” 86 .

Foi nesta óptica – sobretudo com o D.L. n.º 217/74 (27 Maio) – que se procedeu ao congelamento dos preços de bens essenciais, à fixação do Salário Mínimo Nacional (3 300$00), ao aumento do abono de família, ao congelamento das rendas urbanas, à criação da Comissão de Apoio às Pequenas e Médias Empresas, ao encerramento das Bolsas de Valores de Lisboa e do Porto e ao controlo das contas bancárias para evitar fugas de capitais (em parceria com o sindicato). Este período conheceu, de igual modo, um enorme movimento social espontâneo, fonte geradora de enormes conflitos sociais e laborais, começando a definir-se os vários pólos e agentes da revolução: destacam-se as ocupações de casas de habitação por vários pontos urbanos, mas em especial no centro e sul do país (Lisboa, Setúbal); a ocupação da Companhia das Águas de Lisboa (21 de Maio de 1974); a explosão de movimentos grevistas e a criação das comissões de trabalhadores e das comissões de moradores, com larga experiência acumulada antes do 25 de Abril 87 , bem como a emergência de sindicatos fortes e organizados. No fundo, a execução das medidas que estavam previstas no programa do Governo não foi realizada totalmente e é esta situação que permanece até ao 11 de Março de 1975, uma vez que num programa de feições socialista e liberais, num quadro revolucionário sem posições totalmente clarificadas, seria muito difícil o cumprimento destas linhas programáticas. Anexa-se a isto o facto de a prioridade política estar centrada na descolonização, na “desfascização” dos organismos estatais e das entidades públicas, e no controlo da situação social.

O I Governo Provisório vai acabar por ter uma vida curta, caindo a 11 de Julho de 1974, fruto das propostas de Palma Carlos de realizar, ao mesmo tempo, eleições presidenciais e um referendo para uma Constituição provisória. Como estas propostas contrariavam o programa do MFA e propunham o reforço do poder do Presidente da República, elas foram rejeitadas e Palma Carlos pede a demissão a 09 de Julho. A 12 de Julho, Vasco Gonçalves, da facção militar mais próxima do PCP, é indigitado por

86 FRANCO, António de. “Economia, in Portugal, 20 anos de Democracia, ed. António Reis. Lisboa:

Círculo de Leitores, 1994, p. 177. 87 cf. O 25 de Abril e as lutas sociais nas empresas

Spínola para ocupar o cargo de Primeiro-ministro. As posições começam a definir-se em torno de outro foco de tensão entre o MFA e Spínola: a questão da descolonização e da autodeterminação dos povos. Este problema será formalmente resolvido com o

] do direito dos

esclarecimento ao Programa do MFA, que afirma “o reconhecimento [ povos à autodeterminação” 88 .

Os traços definidores da política económica do novo governo não se encontram ordenados no programa do governo, mas estão, curiosamente, presentes no discurso da tomada de posse de Vasco Gonçalves. Este dá continuidade à concepção de uma economia ao serviço do povo e dos trabalhadores, num tempo de grandes dificuldades. Fala de um apoio à iniciativa privada desde que esta adira “sem ambiguidades ao esforço de reconstrução nacional” e coexista com as “potencialidades do Estado”, num caminho de modernização económica 89 . Mais importante que estas chamadas de atenção, é a explicação dada relativamente à questão das reformas de fundo:

o Programa do Movimento das Forças Armadas não permite a efectivação de

transformações radicais ou revolucionárias da estrutura sócio-económica da sociedade

portuguesa; contudo, nem da letra nem do espírito do referido Programa se pode concluir que

não possam desde já ser adoptadas as medidas que se julguem necessárias para acelerar o

“[

]

progresso económico-social, melhorar as condições de vida do Povo Português e aproximá-lo

dos níveis dos outros povos da Europa” 90 .

O Ministério da Coordenação Económica é extinto a 18 de Julho e em seu lugar é criado o Ministério da Economia, sob a orientação de Emílio Rui Vilar, e o Ministério das Finanças, cuja liderança coube a José da Silva Lopes.

Face aos conflitos latentes entre spínolistas e o MFA, não tardou a que começassem a surgir tentativas golpistas. Foi o que aconteceu a 28 de Setembro, com a manifestação da maioria silenciosa, que, contudo, acabou por fracassar e conduziu à demissão de Spínola. Costa Gomes é então nomeado Presidente da República e é formado o III Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves, com reforço da posição do MFA no governo. Nos quadros do MFA é reformulada a Junta de Salvação Nacional, com o afastamento dos spínolistas, e é criado o Conselho dos Vinte (Conselho

88 s.a, Programa do Movimento das Forças Armadas. E vários decretos e leis publicados pelo Governo Provisório. Lisboa: Reis dos Livros, 1975, p. 5/53.

89 GONÇALVES, Vasco. Programa do II Governo Provisório. S.l: s.n, 1974, p. 10.

90 Ibid.

Superior do MFA), um órgão que teria como objectivo “coordenar a actividade de todos

tendo em vista uma maior integração das hierarquias no processo

revolucionário e o estabelecimento real e eficaz de um fluxo de informação a todos os níveis militares” 91 . Foi ainda criada a Assembleia do MFA (ou Assembleia dos Duzentos), como espécie de órgão consultivo, que vai acentuar a predominância do MFA em relação aos demais.

os militares, [

]

O período que decorre de Outubro a Março de 1975 é especialmente um período de definição do modelo político e económico, com largo protagonismo para o MFA e para o crescimento das forças de esquerda. Os restantes partidos políticos encontram-se numa fase organizativa, de realização de congressos e divulgação dos programas. Como refere Inácia Rezola, o “tom geral é de moderação” 92 , e de subalternização do poder civil ao militar. Ao mesmo tempo, no interior do MFA fazem-se sentir algumas vozes dissonantes com o rumo dos acontecimentos, e isto é manifestado na divisão em três frentes: “a moderada, a gonçalvista e a populista” 93 . Inicia-se, apesar da fractura ideológica, o processo de institucionalização do MFA na vida política, que verá o seu auge na sequência dos acontecimentos de 11 de Março, mas que passou pelo beneplácito do espectro partidário em finais de 1974, e com a reunião de um relativo consenso quanto a uma via socialista ou socializante (a definir), anti-monopolista e mais activa, como se depreende pela prisão de alguns administradores da Torralta e de instituições bancárias, acusados de sabotagem económica (13 de Dezembro de 1975).

Quanto às intervenções do Estado, a 12 de Outubro é publicado o D. L. n.º 540- A/74, que garante a possibilidade de intervenção do Estado na banca “em situações específicas em relação a determinadas situações”, através de delegados e/ou administradores do Governo. Isto surge na sequência da nacionalização dos bancos emissores (Banco de Angola; Banco Nacional Ultramarino e Banco de Portugal) que ocorreu a 13 de Setembro, e que será tratada de forma mais cuidada no capítulo 3. O D. L. n.º 671/74 (21 de Novembro) reforça esta posição e a capacidade de coordenação do Banco Central junto das instituições de crédito. Já a 25 de Novembro, através do D. L. n.º 660/74, fica prevista a intervenção directa do Estado nas empresas privadas sempre

91 REZOLA, Maria Inácia. Os militares na revolução de Abril: o Conselho da Revolução e a transição para a democracia em Portugal, 1974-1976. Lisboa: Campo da Comunicação, 2006, p. 51.

92 Ibid, p. 54.

93 Cervelló, cit. por Ibid, p. 55.

que for necessária a regulação, nomeadamente por motivos de sabotagem económica, disciplinados pelo seguinte índice:

i. “Encerramento ou ameaça de despedimento total ou de secções significativas da empresa, ou

despedimentos efectivos ou eminentes da parte importante do pessoal sem justa causa;

ii. Abandono de instalações ou estabelecimentos;

iii. Descapitalização ou desinvestimento significativos e injustificados;

iv. Incumprimento ou mora no cumprimento, de forma reiterada, das obrigações da empresa;

v. Desvio de fundos da actividade corrente da empresa;

vi. Redução dos volumes de produção não justificada em termos de mercado;

vii. Empolamento injustificado das despesas gerais e de administração;

viii. Outras situações emergentes de conduta dolosa ou gravemente negligente na condução da

actividade económica” 94 .

Abre-se a possibilidade do Estado intervir directamente, mas ainda não se fala em nacionalização. Outros decretos importantes neste contexto são os D.L. n. os 1/75 e 51/75: o primeiro tem que ver com o financiamento bancário e as movimentações e créditos, enquanto o segundo se traduz na criação do Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas Industriais (IAPMEI).

O Plano de Melo Antunes (PPES) foi aprovado a 07 de Fevereiro pelo Conselho de Ministros, mas nunca chega a entrar em vigor. Elaborado pelo ministro sem pasta, Ernesto Melo Antunes, e por alguns especialistas como Rui Vilar, José da Silva Lopes, Maria de Lourdes Pintasilgo, Vítor Constâncio e outros, o PPES é, sem dúvida, o primeiro grande programa económico-social de fundo para a sociedade portuguesa, de definição das grandes opções e linhas programáticas, não apenas num sentido de colmatar a situação vigente, mas com perspectivas mais ambiciosas. Preparado desde Outubro de 1974, o Programa reflecte uma certa cisão entre os oficiais progressistas (atente-se às constantes alterações introduzidas), mas parece estar desenquadrado da realidade do momento, que conhece a ascensão de uma via mais revolucionária e socialista. Podem ser observadas algumas das suas medidas e objectivos no quadro sequente:

! “Melhoria do nível de vida da população;

! Criação de novos empregos e incentivo ao investimento;

94 s.a, Programa do Movimento das Forças Armadas. E vários decretos e leis publicados pelo Governo Provisório. Lisboa: Reis dos Livros, 1975, pp. 5/55 e 5/56.

! Controlo pelo Estado dos sectores-chave da economia, nomeadamente das indústrias

extractivas e transformadoras;

! Controlo do Crédito Predial Português pelo sector público;

! Criação de uma única empresa de transportes marítimos, na qual o Estado tomará 51% do

capital social;

! Criação de empresas públicas de comercialização interna de produtos de primeira

necessidade;

! Política de participação dos trabalhadores em órgãos de fiscalização e vigilância das

empresas;

! Criação de um instituto nacional de promoção industrial e de um Instituto de Gestão das

participações financeiras do Estado;

! Ampla reforma fiscal;

! Apoio ao investimento privado;

! Não ingerência do Estado na vida das empresas (a não ser em casos extremos)” 95 .

Apesar de não ter entrado em funcionamento, na minha perspectiva, o PPES inaugura uma nova etapa no que concerne às política económicas, particularmente no sentido de instaurar um socialismo de tipo único, que procura romper com “o sistema capitalista ou modelos neocapitalistas, ou modelos de social-democracia da Europa Ocidental, [ou] das chamadas democracias populares” 96 . O que se sucede após a tentativa golpista de Spínola e dos sectores conservadores no dia 11 de Março é a radicalização destas propostas, levando até aos limites possíveis os ideais presentes no quadro inicial do MFA e de algumas posições partidárias. Desta forma, extingue-se a Junta de Salvação Nacional, o Conselho dos Vinte e o Conselho de Estado, e é criado, por sua vez, o Conselho Superior da Revolução (12 de Março), o mega-órgão orientador/executivo de todo o processo, que contará, até às eleições para a Constituinte, com o apoio dos partidos, como o prova o Pacto MFA-Partidos, bem como o reconhecimento do poder legislativo para a reforma estrutural da economia portuguesa que lhe é concedido a 21 de Março. Nos dias imediatamente a seguir ao 11 de Março lançam-se as primeiras nacionalizações de fundo, nomeadamente sobre as instituições bancárias e as companhias de seguros. Outro caso que, por seu lado, trará grandes confrontações ideológicas e sociais é a problemática da unicidade sindical.

95 PPES, in REZOLA, Maria Inácia. Os militares na revolução de Abril: o Conselho da Revolução e a transição para a democracia em Portugal, 1974-1976. Lisboa: Campo da Comunicação, 2006, p. 74, sublinhado nosso. 96 Melo Antunes, cit. por Ibid, p. 76.

Nas ruas, nas fábricas e nos campos os movimentos sociais são constantes e diversificados, com ocupações de empresas pelos trabalhadores, estabelecimento de sistemas de autogestão, etc. Surge um novo governo na sequência destes acontecimentos, a 26 de Março, com Vasco Gonçalves como Primeiro-ministro, mas com a redução de sectores mais à direita. Assim, não são de estranhar as novas linhas de orientação da política económica, aprovadas a 10 de Abril e que se consubstanciam no D.L. n.º 203-C/75 de 15 de Abril, o qual define o modelo económico e as bases gerais do programa de medidas económicas de emergência (mais nacionalizações e reforma agrária). Mário Murteira é o elemento escolhido para a pasta do Planeamento e Coordenação Económica, José Joaquim Fragoso para a pasta das Finanças e João Cravinho fica responsável pelo Ministério da Indústria e Tecnologia. A política de nacionalizações está verdadeiramente em marcha, num processo de “construção de uma sociedade socialista”, como previa o Plano de Acção política (espécie de segundo Programa do MFA, apresentado em Junho), mas não deixa de contar com sucessivas crises, como as do 1º de Maio, o caso República e o caso Renascença, e até com a perda de poder da esquerda radical nas eleições para a Constituinte, nas quais o PS obtém a maioria (cerca de 38%), seguido do PPD (25%). No seio do MFA as divisões acentuam- se e parecem cristalizar num trinómio: extrema-esquerda-PCP-moderados. Este enredo permanece no chamado Verão Quente, levando inclusive à saída do PS e do PPD do governo, à consequente queda e remodelação do governo em Agosto, e também à tentativa de interferência dos Estados Unidos em Portugal – que, segundo Eugénio Rosa, fez parte de um esquema maior de “boicote [dos] países capitalistas à Revolução Portuguesa”, pelo menos até à queda do V Governo Provisório 97 . É esta a fase das campanhas de dinamização cultural promovidas pela 5ª Divisão – ou “processo de missionação cultural do povo” 98 – e do reforço de poder do COPCON, como braço armado do MFA. É, acima de tudo, um período que poder ser descrito como uma “epidemia de planos” 99 : Plano de Acção Política (Junho), Documento-Guia de Aliança Povo-MFA (Julho), Documento dos Nove (Agosto).

97 ROSA, Eugénio. Portugal, dois anos de revolução na economia. Lisboa: Diabril, 1976, p. 182.

98 ALMEIDA, Sónia Vespeira de. Camponeses, cultura e revolução: campanhas de dinamização cultural e acção cívica do MFA, 1974-1975. Lisboa: Edições Colibri, 2009, p. 21.

99 Vasco Gonçalves, cit. por REZOLA, Maria Inácia. Os militares na revolução de Abril: o Conselho da Revolução e a transição para a democracia em Portugal, 1974-1976. Lisboa: Campo da Comunicação, 2006, p. 253.

O V Governo Provisório encontra-se numa posição bastante fragilizada, como se constata pela sua curta duração (08 de Agosto a 19 de Setembro), e o MFA vai tentando, de várias formas, eliminar os diferendos internos, prova dada pela constituição de um Directório político-militar já em finais de Julho. Este governo é marcadamente de esquerda, expresso de forma incontestável no seu programa – talvez o programa mais radical de todos –, onde se assume

“a construção de uma sociedade socialista [

de produção, eliminando todas as formas de exploração do homem pelo homem e na qual serão

dadas a todos os indivíduos iguais oportunidade de educação, trabalho e promoção, sem distinção

de nascimento, sexo, credo religioso ou ideologia” 100 .

sem classes, obtida pela colectivização dos meios

]

Algumas medidas em jogo focam-se em torno da descentralização político- administrativa, da batalha da economia (ou produção), da socialização dos meios de produção, da imediata delimitação do sector privado e apoio ao movimento cooperativo, sempre com a política de austeridade como pano de fundo. O movimento autogestionário e cooperativista foi, de facto espantoso, ao ponto de se falar num número de aproximadamente 2666 cooperativas e 1200 empresas em regime de autogestão para o ano de 1976 101 .

Em Setembro, a correlação de forças dentro do Conselho da Revolução inverte- se, podendo-se falar de uma vitória “da linha dos Nove sobre os Gonçalvistas” 102 . Na formação do VI Governo, Vasco Gonçalves é substituído pelo almirante Pinheiro de Azevedo e a composição assinala já a recusa dos partidos de esquerda em assumir algumas responsabilidades governamentais. É a via eleitoralista que vence, contando com empréstimos no valor de 272 milhões de dólares por parte dos Estados Unidos e da CEE 103 . Resumindo o período até aos acontecimentos de 25 de Novembro, o que se observa é um verdadeiro estado de sítio, marcado pelos desentendimentos nas forças armadas, nos partidos políticos e o aproveitamento oportuno da extrema-esquerda, tal como a sua parcial ruptura com alguns movimentos sociais.

100 Programa do V Governo Provisório, 1975, p. 5. 101 LEÃO, Emanuel Reis. “Das transformações revolucionárias à dinâmica europeia,” in Portugal Contemporâneo, 1974-1992, vol. 6, ed. António Reis. Lisboa: Publicações Alfa, 1990, p. 176.

102 REZOLA, Maria Inácia. Os militares na revolução de Abril: o Conselho da Revolução e a transição para a democracia em Portugal. Lisboa: Campo da Comunicação, 2006, p. 393.

103 MAXWELL, Kenneth. A construção da democracia em Portugal. Lisboa: Presença, 1999, p. 174.

2.2. Conclusões e indicadores económicos

Concluindo a análise deste período, quero apenas salientar algumas das questões que considero estruturais, recorrendo para isso a alguns indicadores económicos que, certamente, espelharão melhor a realidade.

As transformações económicas conjunturais e estruturais portuguesas inserem-se numa panorâmica de rupturas mais alargada, como indica Augusto Mateus. Neste cenário é preciso não esquecer a ruptura energética, a ruptura monetária e financeira, a ruptura do tipo de crescimento industrial e a ruptura da estabilidade das formas e relações de dependência, dominação e interdependência 104 . Houve, portanto, uma degradação dos termos de troca e aumento da inflação com associações múltiplas e com consequências severas para as economias importadoras. Por outro lado, os sectores financeiros saíram prejudicados com a desagregação do sistema monetário internacional, com o aumento das taxas de juro e a sobrevalorização do dólar. Estas mutações afectaram as economias semi-periféricas, com características de dependência e com uma industrialização atrasada. Acrescente-se a isto a conjuntura político-social portuguesa, mergulhada no caos e na indefinição económica, que se vê de repente com um aumento de cerca de meio milhão de retornados e assiste à derrocada das trocas comerciais com as ex-colónias e a uma diminuição das exportações para o mercado europeu. Estar num limbo político-económico, que se vai assumindo progressivamente como socialista, mas que não se desliga dos mecanismos liberais da economia de mercado é, no mínimo, bastante exigente.

As transformações evidenciaram-se sobretudo no mercado de trabalho, nas políticas sociais, na distribuição dos rendimentos e na regulação económica. A alteração das relações de força entre os trabalhadores e os empregadores é um dos principais destaques e efeito dos movimentos sociais que irromperam logo após a revolução, com incidência nas empresas, mas também nos campos. Já aqui referi as vitórias conseguidas no domínio da liberdade sindical, da regulamentação da greve, dos aumentos salariais, ao que se pode agregar o “alargamento do direito a férias pagas, o subsídio de desemprego, a redução do máximo semanal do tempo de trabalho”, entre muitas outras

104 MATEUS, “O 25 de Abril, a transição política e as transformações económicas", in O País em Revolução, ed. José Maria Brandão de Brito, 2001, pp. 254-255.”

mudanças 105 . Não deve ser menorizado o alcance destas medidas e o trabalho de vários agentes sociais, como as comissões de trabalhadores e de moradores, os sindicatos, os partidos políticos e até o patronato. O melhoramento das políticas sociais na área da educação, da saúde e da segurança social estão estreitamente relacionados com estes aspectos, constituindo as bases da construção de um verdadeiro Estado-Providência. Quanto ao tema da distribuição dos rendimentos, podemos falar numa política de aumentos salariais até 1976, que ocorre simultaneamente com a imposição de um tecto salarial e com a introdução do salário mínimo.

No entanto, vários autores consideram que estas medidas, ligadas ao controlo dos preços, tiveram um efeito negativo para a competitividade das empresas no contexto de problemas que já aqui tratei (recessão, inflação, desemprego, mão-de-obra pouco qualificada, balança comercial negativa, juros elevados, diminuição de remessas). Reflecte-se neste ponto a velha questão das políticas orçamentais e monetárias expansionistas ou contraccionistas. Parece, neste caso, existir uma clara política orçamental expansionista – uma das principais inovações face ao regime anterior –, que pretendia impulsionar a procura interna, mas, ao mesmo tempo, convivia com a aplicação de uma certa política de austeridade, que procurava conter a inflação e proteger os consumidores através do controle dos preços. Os resultados estão longe de ser consensuais: se, por um lado, evitaram quedas mais acentuadas na actividade económica e uma maior igualdade económica e social, por outro, poderão ter conduzido a um ciclo vicioso de impedimento de competitividade 106 . A reforma agrária assentou particularmente numa base volúvel, com unidades colectivas de produção efémeras, já

para não falar da insustentabilidade de um clima verdadeiramente hostil nestas regiões.

Emanuel Reis Leão refere que “este movimento [

se desenvolveu à margem de

qualquer projecto delineado pelo poder político, tendo a sua cobertura surgido já na fase final do processo” 107 .

]

105 LOPES, José da Silva. “Portugal e a transição para a democracia: que modelo económico?", in Portugal e a Transição para a Democracia (1974-1976), ed. Fernando Rosas. Lisboa: Colibri, 1999, pp.

176-177.

106 Ibid, pp. 179-180.; LOPES, José da Silva Lopes. A economia portuguesa desde 1960. Lisboa: Gradiva, 1996, pp. 25-26. 107 LEÃO, Emanuel Reis. “Das transformações revolucionárias à dinâmica europeia", in Portugal Contemporâneo, 1976-1992, vol V. Lisboa: Publicações Alfa, 1990, p. 175.

A conjuntura macroeconómica do período em análise encontra-se resumida no

seguinte quadro 108 :

 

1973

1974

1975

1976

Consumo privado (taxa de variação real, em %)

10,5

6,2

3,7

4,3

Consumo público (tvr em %)

7,8

17,3

6,6

7

Investimento (tvr em %)

8,4

7,7

-12,3

0,1

Exportações (tvr em %)

11,7

-12

-14,1

-0,8

Importações (tvr em %)

11

6,2

-22,7

6,2

PIB (tvr em %)

11,2

1,1

-4,3

6,2

Taxa de inflação (em %)

7,8

27,9

20,5

18,2

Salários/rendimento (em %)

50,3

55,6

68,6

67,6

Défice do Orçamento Geral do Estado (% do PIB)

-0,9

2,1

3,8

6,2

Saldo da balança de transacções correntes - BTC (milhões de dólares)

349

-882

-817

-1289

Saldo da BTC (em % do PIB)

3

-6

-5,5

-8,2

Taxa de desemprego (em%)

-

2,2

5,6

6,7

Salários reais (tvr em %)

-

12

9

-1,5

Taxa de desvalorização do escudo (em %)

-

3,3

2,3

9,1

Taxa de crescimento M2 (em %)

-

13,7

12,3

16,7

Dívida externa (milhões de dólares)

-

 

- -

2892

Dívida externa (tvr em %)

-

 

- -

-

A maioria dos indicadores conhece maus resultados no ano de 1974 e 1975,

surgindo uma ligeira melhoria a partir de 1976. De facto, os números são impressionantes: a inflação dispara, acompanhada do decréscimo e até quebra no produto, motivada pela “desorganização na produção e pela quebra verificada na procura agregada” 109 ; há também um decréscimo das exportações, fruto de factor exógenos, como a recessão mundial, mas também consequência de fracos resultados em algumas áreas, nomeadamente no turismo e na relações comerciais com as ex-colónias; o investimento conhece, da mesma maneira, resultados negativos, explicados por várias

causas: “perda de confiança da classe empresarial; crise do sector exportador; aumento

dos custos de produção” 110 ; desequilíbrio da balança de transacções correntes, onde a fuga de capitais é um objecto a ter em conta; são evidentes ainda os deficits orçamentais e o aumento do desemprego.

[

]

108 Adaptados de Ibid, p. 177 e 182.

109 Ibid, p. 178.

110 Ibid.

3. As nacionalizações

O conceito de nacionalização pode ser caracterizado como um acto político – governamental –, fundado num diploma legislativo e que implica a transferência de empresas para a propriedade pública, pertencente exclusivamente ao Estado 111 . As nacionalizações podem ser efectuadas sobre explorações agrícolas, industriais, comerciais ou explorações de certos recursos naturais, fazendo-se valer de justificações tendencialmente nacionalistas, de melhoramento de alguns sectores/serviços ou para evitar constrangimentos maiores, como a falência. Estes processos podem modificar a estrutura do poder económico em níveis diferentes, desde intervenções pontuais com vista a regular algumas estruturas, até à transformação total do sistema económico e produtivo.

A Constituição da República Portuguesa de 1976 (CRP), redigida pela Assembleia Constituinte, entrou em vigor a 25 de Abril de 1976, consagrando juridicamente, na generalidade das matérias, as opções político-ideológicas referentes ao PREC, ainda que nesta fase se encontrasse numa situação de “arrefecimento”

revolucionário. Fruto do contexto, com especial incidência para o pós-11 de Março de 1975, a CRP previa já em 1976 a possibilidade de não indemnização aos grandes proprietários e empresários que viram os seus bens nacionalizados (artigo 82.º, n.º 1). Noutro artigo (83.º), estava presente a irreversibilidade das nacionalizações – “conquistas irreversíveis das classe trabalhadoras” 112 –, apenas abolido em 1989. Já a questão das indemnizações foi alterada em 1982, sendo revogado o n.º 2 do artigo 82.º.

É sobretudo a ideia de interesse público/interesse nacional que constitui a pedra angular

dos processos de nacionalização. No entanto, não deixa de ser curioso que este mesmo preceito abonou em favor das reprivatizações. É necessário deixar ainda uma nota para

o facto de o Estado ser o único actor com legitimidade para nacionalizar, sendo que aqui não é incluída qualquer entidade pública, como os municípios ou regiões autónomas.

111 SANTOS, António Carlos dos, GONÇALVES, Maria Eduarda e MARQUES, Maria Manuel Leitão. Direito económico. Coimbra: Almedina, 2001. 112 Constituição da República Portuguesa de 1976, in NEVES, Orlando . E agora que fazer? Lisboa:

Diabril, 1976, p. 202.

3.1. Que plano de nacionalizações?

O processo de nacionalizações de 1974-1976 não é fruto de uma política

planificada, parecendo até seguir alguns impulsos mais ou menos espontâneos, nomeadamente quanto à acção das comissões de trabalhadores e, mais tarde, das associações sindicais e alguns partidos políticos, ainda que nestes últimos nada esteja

completamente clarificado até aos acontecimentos de Março de 1975.

É a resposta política às revoltas sociais, laborais e sindicais que vai marcar toda a diferença, facilitada pela posição defensiva que o patronato inicialmente assume, com excepção de algumas intervenções pontuais, como o caso da formação do M.D.E/S. Há, nas fases iniciais deste processo um progressivo reconhecimento dos adversários, com realce para dois momentos importantes: Maio a Junho de 1974 – período de “descompressão política e ideológica” 113 ; Janeiro a Março de 1975 – período de luta ideológica radicalizada.

Compreender o porquê das nacionalizações implica um olhar atento sobre as pressões sociais, as formas de luta e os conteúdos das mesmas, bem como os interesses particulares e colectivos. É perceber que os trabalhadores reclamavam por melhores condições de vida, de trabalho e aumentos salariais, da mesma forma que exigiam o saneamento dos sabotadores económicos (sinónimo de patronato), que exerciam o controlo operário e ocupavam as empresas, numa “batalha pela produção”, dirigidos por partidos ou sindicatos, mas muitas vezes fugindo à tutela destes. Sendo a primeira fase marcadamente espontânea, a segunda já revela a luta pelo poder e a tentativa de presença hegemónica da Intersindical. Relativamente às formas de luta empregadas, José Medeiros Ferreira elenca algumas: manifestações de rua, sequestro de pessoas e bens, ameaça de greve, declaração parcial de greve, greve total e ocupação das empresas 114 .

O ideal anti-monopolista, principalmente dirigido contra os sete magníficos, –

CUF, Espírito Santo, Banco Português do Atlântico, Champalimaud, Banco Fonsecas & Burnay, Banco Nacional Ultramarino e Banco Borges & Irmão – reuniu um relativo consenso na sociedade, desde trabalhadores a alguns sectores industriais e comerciais.

113 SANTOS, Maria de Lourdes Lima dos, LIMA, Marinús Pires de e FERREIRA, Vítor Matias. O 25 de Abril e as lutas sociais nas empresas, 3 vols. Lisboa: Afrontamento, 1977, p. 56. 114 FERREIRA, José Medeiros. Portugal em Transe, vol. VIII História de Portugal, dir. José Mattoso. Lisboa: Editorial Estampa, 1994, p. 108.

No debate ininterrupto sobre modelos de modernização económica para o país, as diferenças sobressaem de forma muita complexa no interior das forças armadas, sendo certo que o apoio às nacionalizações ocorreu sobretudo por razões políticas. Órfão de qualquer orientação, o processo de nacionalizações não conhece “um mero plano a médio prazo ou de reformas sectoriais” 115 , podendo apenas ser detectadas algumas linhas de actuação, que serão esmiuçadas no capítulo posterior, numa abordagem trifásica.

O intervencionismo estatal nas empresas e toda a lógica que está por detrás não é completamente inovadora. Aliás, o sector empresarial do Estado (SEE) já existia antes da Revolução de Abril, com algumas empresas de capital púbico – a Caixa Geral de Depósitos, Águas de Lisboa, Carris, Gás de Lisboa, TLP e Correios 116 . Por outro lado, detinha ainda algumas participações em empresas mistas, como o Banco de Fomento Nacional, TAP, CP, Siderurgia Nacional, empresas de electricidade e de transportes marítimos. 117 Com o objectivo anti-monopolista e, mais tarde, de centralização da economia portuguesa nas mãos do Estado, era previsível que o sector financeiro e as indústrias de base (detidos pelos grandes grupos financeiros) fossem os principais alvos.

Seguindo os diplomas insertos no Diário da República, em 24 números do mesmo nacionalizaram-se 244 empresas, que se traduziram num “sem-número de participações indirectas. Directa ou indirectamente, o Estado nacionalizou, expropriou ou interveio em quase duas mil empresas” 118 . Com as nacionalizações, o sector empresarial do Estado conheceu uma larga expansão (cf. tabela 1, anexo E), próxima da média dos países da OCDE (cf. tabela 2, anexo E): o peso do sector público empresarial no VAB quase triplicou (7,8% para 22,9%), atingindo-se crescimento semelhante do peso público empresarial na FBCF (41,6% contra 15,8%) 119 , passando o sector público a

115 Ibid, p. 114.

116 LEÃO, Emanuel Reis. “Das transformações revolucionárias à dinâmica europeia", in Portugal Contemporâneo, 1974-1992, vol. 6, ed. António Reis, Lisboa: Publicações Alfa, 1990, p. 174.

117 ALPALHÃO, Rui Manuel Meireles dos Anjos. O toque da mão visível. Nacionalizações, indemnizações e privatizações em Portugal, 1975-2003. Lisboa: ISCTE, 2007.

118 GRUPO DE TRABALHO INTERMINISTERIAL PARA A ANÁLISE E AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO E DAS PERSPECTIVAS DE EVOLUÇÃO DO SECTOR EMPRESARIAL DO ESTADO, Livro branco do sector empresarial do Estado. Lisboa: Ministério das Finanças, 1998, p. 4. 119 ALPALHÃO, O toque da mão visível. Nacionalizações, indemnizações e privatizações em Portugal, 1975-2003, pp. 25-26.

ser composto por empresas que já eram do Estado antes do 25 de Abril, por empresas nacionalizadas, por empresas controladas e por empresas participadas 120 .

Como foi explicado no capítulo anterior, as nacionalizações foram efectuadas por Decretos-Lei, sem qualquer planeamento, empresa a empresa, com a sequente fusão em grandes empresas públicas por sector, sob três critérios básicos: aniquilação dos grande grupos económicos portugueses; cobertura de sectores básicos ou estratégicos e assegurar a sobrevivência de empresas em risco de falência ou abandonadas pelos patrões. Há, contudo, uma clara política de não nacionalizar os capitais estrangeiros, motivada pelo receio de perda de confiança dos investidores externos e para não prejudicar as relações económicas existentes. Outra singularidade tem que ver com a geografia das nacionalizações, uma vez que algumas empresas de grande dimensão que se localizavam no norte do país não foram sequer intervencionadas (têxteis, cortiça, vinho, refinação de açúcar, etc.), constituindo-se, algumas delas, nos grandes grupos económicos e financeiros do pós-25 de Abril.

A falta de quadros técnicos qualificados para ocupar os vários cargos inerentes à burocratização processual revelou-se um obstáculo à criação de equipas competentes: “a primeira linha [de quadros técnicos] foi quase toda para o Brasil; na segunda linha, uns ficaram, outros partiram, e foi a terceira linha que forneceu a matéria-prima e atingiu maior valorização” 121 . Por outro lado, a falta de uma estratégia única teve algumas consequências caricatas, por exemplo, o facto de a Sociedade Mineira de Santiago ter sido nacionalizada três vezes, primeiro directamente, depois por via da CUF e ulteriormente através da Sogefi. Como referia um quadro da CUF, esta situação advinha do plano de nacionalizações nacionalizar “as holdings, depois as sub-holdings e, nalguns casos, talvez por inércia, as próprias filiadas das sub-holdings” 122 .

120 PINHO, Ivo. “Sector Público Empresarial - antes e depois do 11 de Março”, in Análise Social XII, n.º 47, 1976: 733–747.

121 Ibid, p. 90.

122 Ibid, p. 90.

3.2. As fases das nacionalizações

3.2.1. Setembro