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MARCO ANTONIO TORRES

OS SIGNIFICADOS DA HOMOSSEXUALIDADE NO DISCURSO DA IGREJA CATÓLICA ROMANA PÓS-CONCÍLIO VATICANO II: PADRES HOMOSSEXUAIS, TOLERÂNCIA E FORMAÇÃO HEGEMÔNICA CATÓLICA.

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG Belo Horizonte

2005

2

2

3

MARCO ANTONIO TORRES

OS SIGNIFICADOS DA HOMOSSEXUALIDADE NO DISCURSO DA IGREJA CATÓLICA ROMANA PÓS-CONCÍLIO VATICANO II: PADRES HOMOSSEXUAIS, TOLERÂNCIA E FORMAÇÃO HEGEMÔNICA CATÓLICA.

Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de mestre em Psicologia. Área de concentração: Psicologia Social Orientador: Professor Dr. Marco Aurélio Máximo Prado.

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG Belo Horizonte

2005

4

150

Torres, Marco Antonio Os significados da homossexualidade no discurso da Igreja /

T693s

2005 Católica Romana pós Concílio Vaticano II : padres homos- sexuais, tolerância e formação hegemônica católica / Marco Antônio Torres. – 2005.

200 f. Orientador: Marco Aurélio Máximo Prado. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Psicologia.

.

1. Concilio Vaticano (2 : 1962-1965) - Teses 2. Psicologia – Teses 3.Homossexualismo – Teses 3. Movimentos sociais - Teses I. Prado, Marco Aurélio Máximo II. Universidade Federal de Minas Gerais. Departamento de Psicologia. III.Título

5

Dedico aos meus familiares e aos meus irmãos capuchinhos.

Dedico especialmente a todas as pessoas que, apesar de sua condição sui generis, como

ser um padre homossexual, não desistem desse mundo hostil que queremos mudar.

Agradeço a generosidade das pessoas que compartilharam nesses quase três anos a

elaboração deste trabalho. Agradeço especialmente a dedicação de meu orientador de

pesquisa, professor Marco Aurélio Máximo Prado, com o qual pude redefinir minha

visão da pesquisa e ter entusiasmo com o conhecimento.

6

Os

significados

da

homossexualidade

no

discurso

da

Igreja

Católica

Romana pós-concílio Vaticano II. Padres homossexuais, tolerância e formação

hegemônica católica

Resumo

A

presente

dissertação

analisa

como

diferentes

opiniões

acerca

da

homossexualidade se formaram no interior da Igreja Católica Romana. Essa análise

parte de nossa pesquisa realizada através de entrevistas com padres homossexuais,

documentos da Igreja Católica, observação participante e alguns estudos acerca da

homossexualidade na Igreja Católica e no cristianismo. Discutimos como uma certa

noção

de

tolerância

aos

homossexuais

é

engendrada

no

discurso

católico,

compreendendo a noção de discurso a partir da Teoria do Discurso de Ernesto Laclau e

Chantal Mouffe. Através da constituição dessa tolerância na moral sexual católica

buscamos compreender como alguns padres homossexuais negociam com diferentes

setores do catolicismo. Também localizamos algumas relações entre esfera civil e

religiosa procurando compreender como diferentes discursos a favor ou contra os

direitos homossexuais podem constituir formações discursivas de diversas ordens. Por

fim, retomamos a noção de tolerância aos homossexuais, no modo como é definida nos

processos sociais, como possível obstáculo para a efetivação dos direitos das pessoas

homossexuais, através da cidadania, na comunidade política da qual eles participam.

Palavras-chave:

Teoria

do

Discurso,

Homossexualidade, Tolerância e Identidade.

Igreja

Católica

Romana,

7

The Meaning of the Homosexuality inside the Roman Catholic Church

Discourse after Council Vatican II. Homosexual priests, tolerance, and Catholic

hegemonic formation

Abstract

This dissertation analyzes the different opinions about how homosexuality has

developed inside the Roman Catholic Church. This analysis is originated from a

research based on interviews with homosexual priests, Church documents, in situ

observations, and some studies about homosexuality in the Catholic Church and among

Christians. The Catholic Church discourse has treated this issue with a certain tolerance.

The term discourse is used here as defined by Ernesto Laclau and Chantal Mouffle in

their Theory of Discourse. It is important to understand how this tolerance has allowed

that homosexual priests deal their own homosexual orientation with different sectors of

the Catholic Church. Links between the civil sphere and the religious one are discussed

as we try to understand the relationship among different discourses, either in favor or

against homosexual rights. Eventually, that notion of tolerance as referred to above is

considered to be a possible obstacle to the effectiveness of homosexual rights, which is

related to the idea of citizenship.

Key-words: Theory of Discourse, Roman Catholic Church, Homosexuality, Tolerance

and Identity.

8

Sumário.

1

- A construção da pesquisa e as perspectivas teóricas utilizadas

10

1.1 - Introdução com uma breve análise do contexto socioistórico da pesquisa

10

1.2 - Emergência da pesquisa

17

1.3 - Objetivo e objeto da pesquisa

25

1.4 - A especificidade da abordagem da análise de discurso e as proposições da

Teoria do Discurso

26

 

1.5

- Justificativa e relevância

43

2

- A delimitação de informações no campo de pesquisa e os caminhos da

investigação

53

 

2.1

- Abordagem do campo de pesquisa

53

2.1.1 - Os documentos

54

2.1.2 - As entrevistas

61

2.1.3 - Descrição das entrevistas

64

2.1.4 - Observação participante

71

 

2.2

- O caderno de dados

72

3

- Variações do discurso da Igreja Católica acerca da homossexualidade em

condições históricas e contextuais específicas

76

 

3.1

- A constituição de posições diferenciais acerca da homossexualidade no

discurso moral-religioso da Igreja Católica

76

3.2 - A noção de família como ponto nodal do discurso da Igreja Católica

87

3.3 - A homossexualidade na constituição da hegemonia católica

108

3.4 - O Magistério Católico como instância mantenedora e articuladora da

hegemonia católica posterior ao Concílio Vaticano II

128

 

3.5

- Padres e Magistério Católico

133

4

- Constituição e delimitação das noções de tolerância pela formação

hegemônica e posições contra-hegemônicas

140

 

4.1

- A porosidade do discurso moral religioso da Igreja Católica no processo

social

140

4.1.1

- A hegemonização da tolerância aos homossexuais no discurso da Igreja

Católica

150

4.1.2 - A insuficiência da tolerância no discurso católico diante do alargamento

9

Considerações finais. Algumas ponderações sobre o silêncio acerca dos padres homossexuais no discurso católico

180

Referências bibliográficas

192

Anexo I

198

Anexo

199

Anexo III

200

10

OS SIGNIFICADOS DA HOMOSSEXUALIDADE NO DISCURSO DA IGREJA CATÓLICA PÓS-CONCÍLIO VATICANO II: PADRES HOMOSSEXUAIS E TOLERÂNCIA NA FORMAÇÃO HEGEMÔNICA CATÓLICA

1 - A construção da pesquisa e as perspectivas teóricas utilizadas

1.1 - Introdução com uma breve análise do contexto socioistórico da pesquisa

Desde as últimas décadas do século XX ocorreram debates no âmbito interno da

Igreja Católica em relação à sexualidade, entre outras questões. No contexto brasileiro

começavam de forma mais intensa debates sobre sexualidade, poder e dinheiro dentro

da Igreja através da análise institucional proposta por padres e freiras que pesquisavam

os institutos católicos de vida religiosa consagrada 1 . Havia uma constatação da opressão

que restringia um discurso livre e a discussão aberta dos problemas internos da Igreja 2

(ALMEIDA et al.,1999), como parte de um debate que seria redimensionado pelas

denúncias de padres pedófilos nos Estados Unidos da América que repercutiram em

toda Igreja (COZZENS, 2001/2000 3 ), entre outros desvios de conduta dos padres

(NASINI, 2001).

No Brasil, setores da Igreja alinhados à Teologia da Libertação se confrontaram

com

movimentos

religiosos

católicos

tradicionais,

ao

mesmo

tempo

em que

se

verificava um aumento quantitativo das igrejas evangélicas pelo país (NOVAES, 2001;

PAIVA, 2003). O ápice da citada corrente teológica aconteceu no período de 1970 a

1980 no Brasil, com o apelo da "opção preferencial pelos pobres". Já a década de 90

representou o momento de fortificação do poder dos bispos e o avanço de movimentos

1 Vida religiosa consagrada refere-se a grupos de católicos que vivem sob os votos de castidade, pobreza e obediência, no interior da Igreja Católica. Exemplo: Franciscanos, Franciscanas, Jesuítas, Beneditinos, Beneditinas, etc.

2 Nesta pesquisa o termo Igreja, grafado desse modo, refere-se à Igreja Católica Romana.

3 Quando a referência possuir dois anos citados, o primeiro se refere a primeira edição da obra e o segundo se refere à edição utilizada nesta dissertação (o que será feito quando as referências da obra trazerem o ano da primeira edição).

11

religiosos contrários à Teologia da Libertação (NOVAES, 2001; PAIVA, 2003).

Contudo, a crítica social e as reflexões da Teologia da Libertação permaneceram um

marco referencial ao lado de outros modelos teológicos (BOFF, 1981/2005). A partir de

1990 ocorreu o predomínio dos movimentos religiosos contrários à Teologia da

Libertação

dentro

do

catolicismo

brasileiro

(MARTINS,

2002) e

essas

posições

consideradas mais conservadoras se opuseram a qualquer discussão que não se alinhasse

às diretrizes do Vaticano 4 . Nesse cenário, o autor da presente dissertação esteve

próximo aos setores de uma "Igreja Católica" preocupada com a participação social,

com a organização das comunidades eclesiais de base, com os movimentos em defesa

do

meio

ambiente,

Libertação.

entre

outras

questões

que

foram pautadas pela

Teologia

da

Nesse período constituíram-se várias tendências entre estudiosos da moral dentro

da Igreja Católica. Em uma das vertentes permaneceram as condenações aos atos

homossexuais (Catecismo da Igreja Católica, 1993); em outra, as novas posições

reconhecendo aspectos nocivos do discurso religioso em relação à homossexualidade

(LEERS e TRANFERETTI, 2002; KOSNIK, 1977/1982) e a penetração desses aspectos

no processo social brasileiro.

O clima adverso e hostil que os homossexuais enfrentam no Brasil não é formado simplesmente pelas atitudes individuais de outras pessoas, mas encontra seu apoio no sistema moral com sua legitimação religiosa, que domina a sociedade (LEERS e TRANSFERETTI, 2002, p. 99).

Ao mesmo tempo em que o debate da Igreja sobre sexualidade aumentava, as

posições do papado recrudesciam nos terrenos da moral (SESBOÜÉ, 2001/2004; BOFF,

1981/2005; COZZENS, 2002/2004). Nessa época apareceram as primeiras notícias de

4 Vaticano como sede do governo papal e ratificador da doutrina católica.

12

padres vitimados em decorrência da AIDS e em seguida esta questão apareceu

publicamente em todo mundo.

No final de janeiro de 2000, a jornalista Judy L. Thomas abalou a Igreja Católica norte-americana com uma reportagem de primeira página em três partes no Kansas City Star relatando que centenas de padres haviam morrido de doenças relacionadas à Aids e que centenas de outros estavam infectados com o vírus que causa a síndrome (COZZENS, 2002/2004, p.

156).

Isso aconteceu sob a influência e expansão dos estudos gays e lésbicos na década

de 90 (PARKER, 2002, p. 25) e a preocupação com o HIV/AIDS desde os meados da

década de 80 (PARKER, 2002, p. 22). O reconhecimento das questões relacionadas à

sexualidade foi discutido no interior da Igreja pela Associação Teológica Norte-

Americana já em 1977 (KOSNIK, 1977/1982), sendo problematizada a questão dos

padres homossexuais na década de 80 (COZZENS, 2002/2004). No Brasil, uma

discussão

geral

sobre

ética

cristã

e

homossexualidade

partiu

principalmente

do

reconhecimento dos direitos homossexuais pelos teólogos moralistas Bernardino Leers e

José Transferetti, além de posicionamento do teólogo Jaime Snoek nos anos 60, como

veremos mais adiante. Nos documentos e notas oficiais da Igreja, o homossexualismo

era focado como comportamento a ser combatido e a orientação homossexual começava

a ser associada à pedofilia (COZZENS, 2002/2004, p. 158-160). A homossexualidade

era vista como portadora de um caráter nocivo, patológico e desordenado. Nesse

contexto, os padres homossexuais evitavam manifestar sua orientação sexual, como

reconhece o teólogo Donald B. Cozzens.

Na Igreja de hoje é prudente que os padres homossexuais permaneçam escondidos. Eles ouvem convidados de talk shows e lêem pessoas na página de opiniões dos jornais levantarem a questão dos homossexuais no sacerdócio e lembrarem a preferência dos padres molestadores por vítimas adolescentes do sexo masculino. Muitos padres homossexuais celibatários sentem-se como bodes expiatórios. (COZZENS, 2002/2004, p. 156).

13

Nas três últimas décadas do século XX e início do novo século, observamos o

aumento do número de serviços destinados ao público denominado GLS (LIMA, 2000)

e o debate de leis específicas contra a discriminação de pessoas homossexuais. Ao

mesmo tempo questionava-se o uso do termo homossexualismo por alguns estudiosos

do tema, como demonstra Lima (2000, p. 9-11). Cabe-nos notar que os espaços de

socialização das pessoas homossexuais no Brasil começaram a surgir anteriormente ao

século XX, porém os atos homossexuais permaneceram, e em parte permanecem, numa

certa "clandestinidade" (GREEN, 1999/2000).

Em

dois

reconhecimento

autores,

Parker

da

socialização

(2002)

e

Cozzens

(2002/2004),

encontramos

o

homossexual

circunscrita

dentro

de

guetos,

compreendida assim como subcultura homossexual. Esse aspecto é problemático para

estudos que reconhecem a necessidade de tornar visíveis as lutas dos homossexuais.

Richard Parker, ao estudar essa questão na sociedade brasileira, identifica articulações

com estruturas sociais e processos globais mais amplos, constituindo subculturas gays,

como é comum ocorrer nas grandes cidades do Brasil (2002, p. 235). Donald B.

Cozzens constata que o reconhecimento de uma subcultura homossexual quebra o

silêncio da Igreja e provoca fortes reações na comunidade católica.

Ao mesmo tempo, nenhum tópico do livro recebeu mais críticas e negações - estridentes, duras, às vezes histéricas - do que a questão da existência de uma forte subcultura homossexual em nossos seminários, chancelarias e casas paroquiais. (2002/2004, p. 149).

Mesmo

servindo

para

uma possível visualização institucional do

tema,

a

abordagem da homossexualidade pode ser reconhecida em processos socioculturais

muito além dos guetos (GREEN, 1999/2000; SPENCER, 1995/1999), em processos de

invisibilidade ou negociações identitárias como se buscou desenvolver na presente

pesquisa. Na Igreja Anglicana esse processo foi observado através de uma rede de

14

padres, ou vigários, realizando celebrações clandestinas de casamento gay, constituindo

uma célula ativa de solidariedade gay que culminou em avanços do reconhecimento

dessas pessoas naquela Igreja (SPENCER, 1995/1999, p. 385). A permanência de

padres com orientação homossexual não é explícita e nem pacífica de aceitação na

Igreja, pois o voto de castidade traz implícita a questão do celibato, enquanto os

homossexuais

são

explicitamente

considerados,

por

setores

da

Igreja,

pessoas

"desordenadas" e incapazes de viver o celibato. Consideramos não ser conveniente

circunscrever aos guetos a questão homossexual, no caso dos padres, e de um modo

geral

para

os

demais

homossexuais,

esta

circunscrição

precisa

ser

questionada.

Percebemos que os padres entrevistados nesta pesquisa vivem sua sexualidade nos mais

diversos lugares e não somente num grupo e/ou lugar específico, ou seja, o gueto. Padre

Emanuel 5 , um de nossos entrevistados, narra seu diálogo com o seu sobrinho, também

homossexual,

e

com

outras

pessoas

não

homossexuais.

Ubaldo,

outro

padre

entrevistado, para dois sobrinhos também homossexuais, é considerado uma referência,

e conversa com eles sobre a orientação homossexual comum aos três. Todos os padres

entrevistados disseram que possuem amigos e pessoas com quem se sentem tranqüilos

para dialogar e se mostrar como homossexuais. A clandestinidade e/ou invisibilidade

nem sempre indicam a formação de subcultura, mas podem configurar uma forma de

exercício do poder.

A afirmação de que os homossexuais não são aptos para o celibato pode estar

equivocada. O celibato é um problema para a imensa maioria dos padres e quando se

coloca que a castidade é menos observada por padres com orientação homossexual,

incorre-se no risco de alimentar perfis psicológicos que desqualificam os homossexuais.

Em alguns países, os padres sexualmente ativos são claramente a maioria do clero. Esses mesmos líderes eclesiais, desconfio, negam abundantes evidências de que o celibato não está sendo praticado, porque reconhecer

5 Lembramos que os nomes foram pseudônimos usados nas entrevistas.

15

esse fato poderia levar a questionamentos sobre a sabedoria e a viabilidade do celibato obrigatório para o rito latino. É melhor, pensa-se, negar a ampla não-observância do que admitir que simplesmente não está funcionando (COZZENS, 2002/2004, p. 149).

O trecho citado se insere dentro da discussão sobre a problemática do celibato,

pois a abstinência sexual imposta pela Igreja a seus membros solteiros é taxativa,

especialmente para padres, frades e freiras. No entanto, é clara a não coincidência dessa

norma com a vida dos católicos e católicas solteiros. Uma pesquisa sobre sexualidade

realizada no Brasil com padres, freiras e frades revela que uma porcentagem mantém

relações sexuais (MARTINEZ, 2000, p. 30), sendo que alguns sujeitos daquela pesquisa

declararam terem mantido relações com pessoas do mesmo sexo. Os índices da pesquisa

apresentam um dado revelador. Nas questões sobre sexualidade havia um número

significativo de respostas em branco, confirmando uma tendência ao silêncio quando o

assunto

é

sexualidade

e

especialmente

sobre

padres

homossexuais

(COZZENS,

2002/2004). A orientação homossexual provoca uma crescente tensão na relação entre

os padres e setores da Igreja Católica, pois questiona as posições de documentos da

Igreja sobre homossexualidade e mesmo as concepções morais do discurso católico.

Esta questão que buscamos desenvolver na presente dissertação.

No capítulo 1 apresentamos a pesquisa como um todo, descrevemos com um

cuidado maior a emergência da pesquisa para demonstrar como se deu a constituição de

nossos objetivos e a construção de nosso objeto. A localização do pesquisador, dos

entrevistados e das fontes da pesquisa é considerada por nós como fundamental, pois

revela uma complexidade própria da pesquisa social.

Ainda no primeiro capítulo elaboramos a relação entre as perspectivas teóricas e

seu uso na pesquisa; buscamos formular um aporte teórico que pudesse fornecer

elementos para a construção e relacionamento com os dados da pesquisa. A abordagem

16

que norteou nossa pesquisa foi tomada de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe (que

chamarei nesta pesquisa Teoria do Discurso) para a identificação do discurso da Igreja

Católica como uma hegemonia específica. Para a relação entre discurso e a mudança

social,

como também alguns elementos para a análise dos dados, partimos das

proposições de Norman Fairclough.

O capítulo 2 foi dedicado exclusivamente para definir a inserção do pesquisador

no campo de pesquisa, a seleção das fontes de pesquisa e os procedimentos usados na

análise dos dados como pontes para compreender o discurso da Igreja Católica e o

posicionamento de alguns padres com orientação homossexual.

No capítulo 3 expusemos nossas análises numa caracterização do discurso em

questão, identificando elementos na sua constituição histórica, suas mudanças e os

significados construídos ao redor da homossexualidade na relação com o atual contexto

socioistórico. A partir dessa contextualização demonstramos a interação entre padres e o

magistério católico, localizando processos de "negociação" daqueles sobre o significado

da homossexualidade.

No capítulo 4 procuramos identificar a complexidade dessas "negociações" a

partir da porosidade que detectamos no discurso católico, buscando problematizar as

noções de tolerância defendidas pela Igreja Católica e desenvolvemos a hipótese da

insuficiência que essas noções apresentam para uma integração dos homossexuais no

processo social. Com essa discussão sugerimos que o modo de articulação da tolerância

acaba justificando posturas anti-homossexuais dentro e fora da Igreja Católica.

17

1.2 - Emergência da pesquisa

A elaboração formal da pesquisa foi apresentada como anteprojeto no início de

2003 para o mestrado em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG.

Para caracterizar melhor a emergência da pesquisa, optei pela narrativa desta parte do

texto em primeira pessoa e neste trecho tentei descrever algumas características de

minha relação com o campo de pesquisa.

Anteriormente ao anteprojeto eu formulara algumas questões. Como podemos

compreender a permanência de sujeitos em uma instituição na qual são perseguidos

devido sua orientação sexual? Ou não haveria a perseguição como supomos? Ou ainda,

não seria a Igreja, entre outras instituições sociais, a que reserva em suas fileiras um

local para esses sujeitos? A pesquisa surgiu como tentativa para melhor elaborar essas

questões.

No

período

de

2002

até

2005

trabalhei,

como

frade 6

e

psicólogo,

especificamente na área da formação nos quadros da Igreja, quando também elaborei,

nas disciplinas metodológicas do mestrado, a observação participante como uma

condição do meu trabalho. Passei, então, a reconhecer-me como um pesquisador que

participava do campo investigado e esse aspecto não era uma escolha, mas sim uma

condição.

O propósito para observação é uma descrição do que é observado, as atividades

em seu contexto, as pessoas que participam dessas atividades e o modo que são

constituídos os significados das atividades pelas pessoas (PATTON, 1980/1990, p.

202). Patton faz algumas considerações sobre as estratégias de campo e os métodos de

observação

na

pesquisa

qualitativa,

nomeando

a

necessidade

de

treinamento

e

6 Membro de um instituto de vida religiosa consagrada que pode ou não ser padre. O frade está ligado a um instituto de vida consagrada, porém não celebra missas, não atende confissões e não pode ascender ao posto de bispo. Eu sou um frade não padre.

18

conhecimento do campo a ser investigado (1980/1990, p. 202). Parte desse treinamento

ocorreu através de minhas atividades nos estágios da graduação 7 , como formador no

seminário, em trabalhos que realizei por dois anos numa comunidade terapêutica de

toxicômanos e durante o próprio mestrado, principalmente nas discussões sobre a

pesquisa com o orientador da presente dissertação. Ele serviu como um contraponto, por

não participar da Igreja Católica e questionar a direção de meu olhar durante a pesquisa.

Através do planejamento foi preciso definir as questões da observação e registrar

as

alterações

ocorridas

no

transcorrer

da

investigação.

Isso

foi

fundamental

na

construção do objeto e na eleição dos elementos (dados, autores, conceitos, etc.) para

análise. O registro das observações para uma posterior análise ou mesmo na construção

e definição de um programa de pesquisa é fundamental. O papel do observador, sua

relação com o campo deve ser muito bem explicitada. É diferente a perspectiva de um

pesquisador que participa de seu campo em momentos específicos de um outro que nele

vive e trabalha. Minha perspectiva como psicólogo e membro dos quadros da hierarquia

na Igreja é diferenciada de outro pesquisador que investiga as mesmas questões de outra

perspectiva. Existe uma gradação peculiar entre um observador espectador e um

observador participante nas estratégias para apreender os dados, considerando que a

forma de participação pode mudar com o tempo (PATTON, 1980/1990, p. 206).

Certamente a posição institucional que ocupo permitiu-me o acesso a lugares e

informações possivelmente não disponibilizadas a outros pesquisadores. Os membros da

Igreja, como de outras corporações, possuem seus próprios códigos para identificar os

graus de pertença aos quadros institucionais. Minha história pessoal ajudou-me a

7 Considero fundamentais o Estágio na Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher, supervisionado pela professora Sandra Maria da Mata Azeredo; um estágio em Psicologia do Trabalho, entrevistando mães sociais, supervisionado pela professora Maria Elizabeth Antunes Lima e um trabalho de graduação em Antropologia, no qual juntamente com um grupo de alunos observamos e entrevistamos durante um mês os garotos de programa da região central de Belo Horizonte.

19

estabelecer um diálogo com o campo, pois já fui demitido do instituto por ingressar no

curso de Psicologia e retornei ao mesmo, atuando como psicólogo nos quadros da

Igreja. De algum modo meu retorno parece ter validado minhas posturas entre meus

pares na Igreja. Percebi que vários padres, frades e freiras depositam muita confiança

em minha pessoa, compartilhando comigo momentos de crise e dificuldades em suas

vidas, mesmo não sendo meu trabalho com Psicologia Clínica. Esses momentos

acontecem durante cursos, palestras, entre outros trabalhos que desenvolvo. Nos últimos

quatro anos ocupo um cargo eletivo no conselho do instituto religioso de que faço parte,

o que parece endossar uma certa confiança em meu trabalho e na minha postura como

religioso. A função dos conselheiros é avaliar políticas institucionais, propor e executar

transferências de outros frades e/ou padres, entre outras funções. Minha posição nesse

lugar foi um referencial de credibilidade para meus entrevistados e interlocutores. Digo

isso principalmente em relação às entrevistas com padres homossexuais, o que será

detalhado à frente. Contudo, imerso no discurso da Igreja Católica posso, por isso, não

perceber certas sutilezas desse contexto, tendo se destacado duas questões nesse sentido.

A primeira se revelou na própria construção do objeto, quando meu foco

oscilava entre focar apenas a dimensão institucional e noutras vezes apenas os aspectos

psicológicos dos sujeitos individuais. Somente no final do primeiro ano da pesquisa

consegui focalizar o objeto na relação entre padres homossexuais e Igreja Católica.

Entretanto, essa consideração não pode ser tomada como a garantia de uma análise

dentro de padrões de uma objetividade absoluta. A segunda questão se deu na

redefinição da observação participante no segundo ano de pesquisa, quando a noção de

tolerância, usada ostensivamente por setores da Igreja, foi questionada no Núcleo de

Psicologia

Política,

da

UFMG,

do

qual

participo.

Comecei

a

estranhar

minha

naturalização da tolerância e isso se tornou uma elaboração importante na dissertação.

20

Faço essas colocações por entender a metodologia como um caminho no qual o

pesquisador não pode ocultar-se ao definir a legitimidade do que será incluído na

análise a ser elaborada (MENDES, 2003, p. 2). Essa opção metodológica possui

implicações próprias na construção do objeto.

A opção metodológica adotada não permite que me subtraia, como analista, aos enviesamentos e opções pessoais, nem dá acesso a um qualquer lugar transcendente e omnisciente. Complexifica só os resultados e as conclusões, e permite estabelecer ligações, embora provisórias, entre os fenômenos em análise e descobrir similitudes e diferenças inesperadas (MENDES, 2003, p. 2).

A percepção da questão metodológica só foi possível a partir da reflexão no

mestrado, no qual sempre me foi exigido esclarecer a emergência do anteprojeto de

pesquisa. Meu interesse se guia pelo questionamento das colocações feitas por muitos

padres e autoridades da Igreja que, condenando os atos homossexuais, compartilham e

fortificam atitudes anti-homossexuais no processo social.

Espero também me situar e descrever a constituição da pesquisa dentro de uma

linguagem inteligível e pertinente a meu campo de investigação. Minayo (2004) coloca

os conhecimentos presentes nas teorias como construções com as quais a pesquisa irá

dialogar, buscando orientação para obtenção, análise dos dados e discussão de conceitos

dentro do processo de investigação. Por isso, métodos, técnicas e metodologia que

fundamentam uma pesquisa são construídos e/ou aprimorados dentro dela e não de

antemão. Para isso nomeio alguns pressupostos que busquei respeitar na investigação.

As

concepções

de

Patton

(1980/1990)

ajudaram-me

a

compreender

a

complexidade dos fenômenos, considerando a interconexão de vários temas que

perpassam a pesquisa, dos quais realço dois que considerei pertinentes ao meu trabalho:

1) Análise indutiva: analisa as múltiplas relações de um fenômeno evitando

impor expectativas preexistentes a ele. Categorias ou dimensões de análise emergem de

21

um grande número de observações para entender um padrão existente no mundo

empírico observado. Com isso podem-se elaborar hipóteses antes da coleta dos dados,

que serão definidas pelas observações feitas do fenômeno investigado. O claro contraste

entre questionários fechados e entrevistas abertas ilustram bem a diferença entre

aproximação dedutiva e indutiva nas pesquisas (PATTON, 1980/1990, p. 44-45).

Procurei, nas entrevistas, manter uma abertura para os relatos emergentes, porém era

claro para os padres entrevistados o que eu pesquisava. Eles tinham consciência que a

escolha deles como sujeitos era devido a sua orientação homossexual. Na descrição das

entrevistas farei o relato do modo como me aproximei de cada um dos padres, como

transcorreram as entrevistas e como as analisei. Essa postura indutiva no campo de

pesquisa não deve ser compreendida na elaboração da discussão temática que dialoga

com teorias específicas. Em relação às hipóteses do trabalho, devo admitir que elas

foram os frutos da pesquisa, não suas sementes, as quais eu identifico no relato dos

objetivos da pesquisa.

2) Visão holística. O autor define que a visão do todo possibilita observar a

complexidade do fenômeno a partir de um contato pessoal e direto com o campo

investigado. A partir disso, o pesquisador será capaz de precisar melhor suas conclusões

posicionando-se desta maneira, mesmo reconhecendo que isso possa provocar a reação

daqueles pesquisadores entrincheirados nas crenças da quantificação, como único

critério de ciência (PATTON, 1980/1990, p. 46-52). Minha história pessoal, de algum

modo, permitiu-me esse posicionamento, principalmente meus anos de suspensão da

Igreja 8 e o modo favorável como retornei a ela, passando a ocupar cargos hierárquicos e

a desenvolver trabalhos com certa visibilidade na Igreja, o que descrevo a seguir.

8 Em 1994 fui expulso do seminário por cursar Psicologia, curso que contrariou a vontade dos superiores da época. Eu retornei ao convento em 1999, quando terminava a graduação e haviam ocorrido mudanças no grupo que dirigia o instituto religioso em questão.

22

Nessa dinâmica fui amadurecendo minha relação com o campo de investigação.

Desde 2002 eu participava de uma equipe ligada à Conferência dos Religiosos do

Brasil 9 - CRB composta por profissionais da Psicologia. A equipe possuía nove

integrantes, provenientes de vários estados do país e representando várias tendências 10

da Psicologia na Igreja. Sua função é orientar os trabalhos de outros profissionais

ligados às várias organizações eclesiais do Brasil. Os membros da equipe prestam

assessorias e atendimentos, além de ministrarem cursos e lecionarem em faculdades.

Nessa

equipe

compartilhamos

observações,

debatemos

temas

diversos

e

produzimos publicações na área da Psicologia específica às organizações eclesiais.

Temos uma audição na Igreja do Brasil devido a nossa ligação com a CRB. Ocupar

lugares como esse traz vários questionamentos, pois endossamos políticas institucionais

nem

sempre

coerentes

com

nossas

convicções

pessoais.

Muitas

decisões

são

encaminhadas por discussões que acabam sendo deliberadas por um processo de

votação, o qual produz decisões que todos, de algum modo, precisamos acatar. Um fator

importante é o clima de liberdade que a conferência tem sustentado nas discussões

críticas dos problemas internos da Igreja, dentro de uma dinâmica, com estatutos e

ações alinhadas aos modelos teológicos elaborados a partir da Teologia da Libertação 11 .

A pesquisa acadêmica serviu como contraponto para minha reflexão na CRB, pois me

fez perceber as possibilidades de levar ao campo religioso outras discussões sobre a

homossexualidade masculina, discutindo as posições anti-homossexuais na Igreja. A

discussão relacionada à homossexualidade dentro da Igreja Católica é um tema sempre

9 Essa conferência tem cinqüenta anos de atuação e busca congregar os diversos institutos de vida consagrada (franciscanos, jesuítas, dorotéias, paulinas, etc.) não ligados diretamente às dioceses, promovendo cursos, debates e assessorias diversas para esses institutos.

10 Com uma predominância das orientações psicanalíticas.

11 Pela primeira vez em cinqüenta anos de existência a CRB é presidida por uma mulher, como fruto da luta pela participação das mulheres na hierarquia da Igreja. Essa conquista deriva de ações e reflexões da Teologia da Libertação e da penetração das questões de gênero na Igreja.

23

retomado dentro da equipe da CRB e eu o tenho desenvolvido com liberdade, colocando

questões constituídas no caminho entre a Igreja e a pesquisa na universidade.

Durante esta pesquisa produzi três textos que foram divulgados pela CRB entre

grupos católicos. Em julho de 2004 fui convidado para ser um dos sete palestrantes da

XX Assembléia Geral Ordinária da CRB ocorrida em São Paulo, capital, com a

presença de aproximadamente 600 participantes, entre superiores e superioras maiores

do

Brasil,

ou

seja,

pessoas

que

estão

na

liderança

de

um

contingente

de

aproximadamente 40.000 pessoas, entre padres, freiras e frades (CERIS 12 , 2005).

Assinalei as tensões entre pessoal e coletivo tomando como exemplo a questão das

mulheres e dos homossexuais, na Igreja Católica e no Brasil, diante das conquistas da

democracia no mundo contemporâneo (TORRES, 2004a). No mês de outubro de 2004,

em Juiz de Fora, Minas Gerais, participei de uma mesa redonda e da coordenação de um

congresso para profissionais da Psicologia que atuam na Igreja. Na ocasião desenvolvi o

tema "Por uma nova discussão da homossexualidade no campo religioso", procurando

localizar as mudanças na abordagem da homossexualidade na Igreja Católica a partir

dos alargamentos dos direitos sexuais na esfera civil (TORRES, 2004b). Houve vários

convites para que eu pudesse debater esse assunto com diversos institutos e grupos

religiosos. Meu lugar como membro de um instituto religioso e da CRB também

endossou a pertinência de minha discussão. Em 2005 redigi um capítulo de livro

trabalhando a hipótese de que as noções de cidadania pressionam a Igreja Católica

através da porosidade entre a esfera religiosa católica e a esfera civil. Focalizei essa

porosidade nos avanços e recuos da Igreja acerca dos direitos sexuais das mulheres e

12 O Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais - CERIS é um instituto de pesquisa ligado à Igreja e que presta um serviço reconhecidamente válido para a comunidade católica do Brasil.

24

das pessoas com orientação homossexual (TORRES, 2005). Esse texto foi apresentado

em outubro de 2005 no II Congresso de Psicólogos e Psicólogas da CRB. Em todas

essas situações recebi apoio e incentivo na CRB, fora da conferência tenho recebido

críticas, e vez por outra, hostilidades que me ajudam a entender algumas implicações

em ser um participante do campo de pesquisa. Tenho percebido que debater um assunto

provocador de tensão no campo de pesquisa gera hostilidades por parte de alguns e

grande cooperação de outros que questionam determinadas posições da Igreja em

relação à sexualidade.

No

programa

de pós-graduação consegui definir um projeto de pesquisa,

delimitando um objeto, uma metodologia e uma discussão teórica. O processo de

orientação foi decisivo para essa definição provocando muitas revisões, redefinições e

reelaborações

no

anteprojeto.

O

mestrado

me

fez

questionar

profundamente

as

concepções de pesquisa e a reflexão metodológica que eu possuía, questionamentos que

se tornaram um norte nesse entrelugar no qual pesquiso. Dentro do Núcleo de

Psicologia Política, do programa de pós-graduação que faço parte, fui questionado e

deslocado de certas posições; devo ao núcleo minha reflexão acerca da tolerância, como

já mencionei, a qual desenvolvi na discussão dos dados e enriqueceu a análise do objeto.

Considero que grande parte da reflexão de minha dissertação é também dos diferentes

grupos que participo.

Construí esta pesquisa num entrelugar, compartilhando as conquistas e derrotas

no avanço dos direitos sexuais com as pessoas que encontrei na caminhada, discutindo

políticas institucionais na formação da Igreja Católica e como pesquisador na Psicologia

em um programa de pós-graduação.

25

1.3 - Objetivo e objeto da pesquisa

O objetivo geral da pesquisa foi analisar o discurso da Igreja Católica sobre

homossexualidade, realçando as negociações identitárias dos padres homossexuais com

o discurso em questão. Tomamos a noção de discurso como princípio articulador das

subversões dos conteúdos discursivos, formulada por Laclau e Mouffe (1985). Através

da abordagem teórica buscamos localizar as subversões de conteúdo do discurso

católico sobre homossexualidade na relação dos padres homossexuais com a Igreja.

Analisamos as negociações identitárias dos padres com orientação homossexual como

algo relacionado aos lugares de poder ocupados por esses sujeitos (PRADO, 2002),

compreendendo como as mudanças discursivas estão relacionadas a mudança social

(FAIRCLOUGH, 1992/2001). Esta investigação deseja se mostrar útil à luta contra

posturas discriminatórias nas instituições e grupos, principalmente na Igreja Católica.

Nesse sentido, analisamos as articulações discursivas nas entrevistas e nos

documentos enquanto aprofundamos o conceito de articulação nos posicionamentos de

sujeito, as interpretações e uso que fazem do discurso em diferentes lugares dentro da

Igreja

Católica.

A

articulação

refere-se

às

conexões

contextuais

e

históricas

contingentes, por isso não prévias, que os sujeitos fazem entre sentidos que podem ser

até mesmo opostos no discurso.

Toda posição de sujeito é assim organizada no âmbito de uma estrutura discursiva essencialmente instável, já que está sujeita a práticas articulatórias as quais, de pontos diferentes de partida, a subvertem e a transformam (LACLAU, 1986, p. 43).

Desse modo, torna-se possível discutir os posicionamentos até contraditórios,

nas entrevistas e nos documentos, acerca da homossexualidade no discurso da Igreja

Católica.

26

A pesquisa teve como objeto a relação dos padres com orientação homossexual e

o discurso da Igreja Católica acerca da homossexualidade. O período delimitado é a

partir do Concílio Vaticano II (1962-1965) até os dias atuais. Esse período foi

caracterizado na discussão temática, recorrendo-se a épocas anteriores quando a análise

exigia esse procedimento. A partir da Psicologia Social, focalizando a relação entre

individual

e

coletivo,

construímos

o

objeto

da

pesquisa

através de

documentos

específicos,

entrevistas

com

padres

homossexuais

e

observação

participante.

Os

critérios para a seleção dos dados e dos sujeitos serão explicitados na apresentação e

discussão dos dados. Na pesquisa, o uso dos termos homossexual, homossexuais e

homossexualidade é preferido por serem eles correntes nos documentos, nas entrevistas

e na literatura de pesquisadores da Igreja, tornando, assim, mais fácil o contato entre

pesquisador e campo, na divulgação da pesquisa. A definição de padre homossexual ou

padre com orientação homossexual não foi diferenciada na pesquisa, considerando-se

que as definições indicam uma única informação.

1.4 - A especificidade da abordagem da análise de discurso e as proposições da Teoria do Discurso

Podemos fazer algumas reflexões gerais sobre análise do discurso a partir do

texto de Gill (2000/2003), que afirma que se podem encontrar mais de 57 modalidades

da análise de discurso. Quase todas se caracterizam por uma crítica às concepções

fechadas, prontas acerca do mundo e do conhecimento, afirmando que este representa

uma

construção

social

e

não

um

conjunto

de

"descobertas

científicas".

Essas

modalidades possuem posições epistemológicas diferentes, desde as tradições mais

próximas à lingüística até uma ampla tradição que acentua o discurso como uma

orientação para a ação. Ainda, segundo a autora, os analistas do discurso condenam

generalizações e é comum não conseguirem clareza na objetivação do tratamento dos

27

dados. Um marco referencial dos analistas é a concepção do discurso como uma forma

de ação, "até mesmo a descrição sonora aparentemente mais direta e neutra pode estar

implicada em um conjunto completo de diferentes atividades, dependendo do contexto

interpretativo" (GILL, 2000/2003, p. 249).

Consideramos que os modos de análise não são estanques e, ao lidar com um

texto, seja ele entrevista ou documento, existirão níveis de análise mais dependentes de

um bom programa de pesquisa, de uma construção sistemática bem descrita dos dados

do que de uma pureza metodológica. Na análise dos dados da pesquisa fizemos uso de

algumas

considerações

da

análise

de

conteúdo,

para

focalizarmos

os

diferentes

posicionamentos de sujeitos através das entrevistas e documentos.

O reconhecimento dos conteúdos, através dos documentos e das entrevistas, na

constituição dos significados no discurso não quer indicar uma análise de conteúdo,

como normalmente utilizada na pesquisa social. No entanto, a leitura dos dados se deu

através da análise de cada trecho das entrevistas e documentos em relação ao objeto da

pesquisa sem pretender a objetividade defendida pela análise de conteúdo. Essa forma

de

análise, a partir da descrição de Martin W. Bauer (2000/2003, p. 189-217), foi

desenvolvida nas ciências sociais empíricas analisando relações de um texto focal e seu

contexto social de forma objetiva. Essa forma de análise possui uma longa tradição em

reconstruir representações em duas dimensões principais: uma sintática, focalizando as

palavras em sua ordenação, características gramaticais e estilísticas; outra semântica,

focalizando os sentidos conotativos e denotativos em um texto, permitindo reconhecer o

seu arcabouço. Esse tipo de análise pode lidar com grande quantidade de materiais

brutos, especialmente materiais impressos. Segundo o autor, a fraqueza da análise de

conteúdo é que a divisão de unidades do texto para análise pode gerar interpretações

inexatas, por estarem fora de contexto.

28

Os dados de nossa pesquisa serviram para elaborarmos uma análise que

reconheça o discurso como revelador das negociações entre sujeitos (individuais e

coletivos) em um determinado contexto de relações sociais. Desse modo, parece-nos

que o uso da análise de discurso tem uma especificidade relacionada ao contexto de

elaboração da presente pesquisa, principalmente diante do conceito de hegemonia e das

proposições da Teoria do Discurso que discutiremos a seguir.

Em nossa elaboração tomamos a noção de discurso como uma seqüência de

elementos numa constante renegociação de seus significados num conjunto de discursos

específicos, noção esta formulada na Teoria do Discurso de Laclau e Mouffe (PINTO,

1999; TORFING, 1999 BARRET, 1994/1999). Os dados e as referências bibliográficas

sobre a Igreja Católica, selecionados para esta pesquisa, serviram como marcadores do

discurso, o qual foi analisado através dos conceitos de hegemonia e articulação da teoria

em questão. Para construirmos um aporte às entrevistas e aos documentos da pesquisa

servimo-nos da definição de texto, intertextualidade e interdiscursividade, definições

que discutiremos à frente, a partir de Norman Fairclough (1992/2001). Assim, para

nossas análises, as entrevistas, os documentos e referências bibliográficas sobre Igreja

Católica serviram-nos para construirmos o objeto desta pesquisa.

Nesta dissertação utilizamos outros autores e textos, que não tratam sobre a

questão da Igreja, mas que se fizeram pertinentes às discussões da temática proposta na

investigação.

A

compreensão

de

discurso

nesta

pesquisa

não

prescindiu

do

reconhecimento dos conteúdos lingüísticos, como já dito anteriormente, pois eles foram

fundamentais na investigação das subversões dos significados da homossexualidade no

discurso da Igreja Católica. Os termos elaborados por Fairclough (1992/2001), na

pesquisa que fizemos, não querem indicar o uso de uma técnica formal da lingüística

nos estudos dos dados da pesquisa, mas sim uma leitura atenta que busque identificar

29

correlações de termos nos dados e sua relação com outras análises sobre a Igreja para

elaborar

uma

demarcação

do

objeto

investigado.

A

partir

dessas

colocações

caracterizamos o discurso da Igreja Católica como um discurso moral e religioso, com a

presença

de

determinados

dispositivos

para

constituir-se

numa

"verdade",

como

veremos no uso do significante família no discurso católico. Vejamos mais sobre a

metodologia utilizada na presente dissertação.

Para esclarecermos nosso recorte metodológico colocamos alguns pontos sobre a

concepção de discurso especificamente nas perspectivas teóricas que incidiram na

dissertação. Uma advertência inicial no uso destas duas perspectivas teóricas é que as

proposições de Laclau e

Mouffe

partem de

uma

análise teórico-política e suas

elaborações não se prestam à formulação de uma teoria stricto sensu e nem ao teste de

hipóteses empíricas ou métodos instrumentais de aporte a um campo de pesquisa

(TORFING, 1999, p. 12). O desenvolvimento teórico dos autores em questão trabalha

conceitos já

existentes,

como o

conceito de

hegemonia,

elaborando

proposições

razoavelmente consistentes na renovação do vocabulário de suas discussões dentro da

Filosofia Política. Contudo eles não definiram "conceitos, categorias e argumentos com

as características de um sistema teórico unificado para ser usado como manual de

estudos empíricos" (TORFING, 1999, p. 13, tradução nossa). Diferentemente desses

autores, Fairclough (1992/2001) elabora uma discussão da análise do discurso, e não

uma teoria do discurso, justamente para orientar metodologicamente pesquisadores na

área social e propõe modos de análise que não desprezam a análise lingüística formal,

reconhecendo

a

análise

social

como

um complemento

fundamental daquela

nas

investigações da mudança no processo social. Em nossa pesquisa a Teoria do Discurso

nos serviu para situar nossas investigações numa análise social mais ampla. Marcadas

essas diferenças iniciais, retomemos alguns pontos das perspectivas teóricas em questão.

30

Laclau e Mouffe partem da crítica ao marxismo estrutural, da expansão do

conceito de hegemonia em Antonio Gramsci e de algumas noções de identidade e

sujeito provenientes da Psicanálise lacaniana (TORFING, 1999, p. 15-77). Esses autores

analisam o processo sociopolítico nas democracias ocidentais diante dos chamados

"novos movimentos sociais" 13 . A compreensão de discurso, desses autores, como uma

totalidade estruturada, deriva da filiação ao pensamento de Gramsci, pois “a reflexão

gramsciana sobre o social e o político é [

]

atravessada pelo princípio da totalidade”

(SIMIONATTO, 1998, p. 38). Esse princípio não trata de forma desvinculada o fator

econômico

das

esferas

do

social

e

do

político.

No

pensamento

gramsciano

as

articulações de sentidos se dão na esfera da cultura, não como esfera autônoma, mas

como lugar onde acontece a vida social. Por sua vez, a vida social é produto da ação dos

homens, em que consciência e vontade aparecem como elementos fundamentais na

transformação

social

(SIMIONATTO,

1998,

p.

44-45).

Portanto,

o

conceito

de

hegemonia refere-se ao político, ou seja, a ações do homem na distribuição do poder

entre os sujeitos coletivos.

Para os autores da Teoria do Discurso quem mais longe foi na teoria Marxista é

Antonio Gramsci, porém, em última análise, eles consideram-no ainda essencialista,

devido a sua localização do conflito no locus do econômico. Para eles, a categoria

sociedade, na análise social, surge como uma impossibilidade e toda teoria que

elaboram da ação política se localiza numa época em que o essencialismo foi

questionado pelas demandas pluralistas dos “novos movimentos sociais”. Essa posição

anti-essencialista foi corroborada pela aproximação de algumas noções da Psicanálise

lacaniana através das colaborações teóricas de Slavoj Zizek (MOUFFE, 1990, p. 98).

13 Para uma discussão da noção de "novos movimentos sociais" ver Michèle BARRET, 1994/1999.

31

Assim, a noção de discurso e hegemonia toma configurações específicas nos autores em

questão e, a partir de 1985, temos a elaboração das noções que orientaram seus

trabalhos

posteriores

(PINTO,

1999,

p.

75).

Segundo

Barret

(1994/1999),

as

proposições gerais dos autores citados poderiam ser reduzidas em duas: primeiramente

o não reconhecimento da categoria sociedade como objeto válido no discurso, rejeitando

um modelo de sociedade como totalidade, o que indica uma reação a abordagens mais

microssociológicas e fenomenológicas; como segunda proposição temos a elaboração

de uma teoria da política democrática radical diante da constituição dos "novos

movimentos sociais", feminismo, anti-racismo, movimentos gays e lésbicos, entre

outros,

que

questionam

posições

essencialistas

(BARRET,

1994/1999).

Podemos

entender que uma análise que focasse somente a vida dos padres homossexuais

(microssociologia) ou o sentido da homossexualidade no cristianismo (fenomenologia)

poderia ficar distante do objeto construído nesta pesquisa, ou seja, o conjunto de

significados

que

são

constantemente

renegociados

no

discurso

da

Igreja.

Essa

renegociação parece ser própria das sociedades complexas, perpassadas pelas demandas

dos "novos movimentos sociais". Pinto (1999) irá descrever essas proposições gerais

como "o rompimento com o essencialismo e a manutenção de uma perspectiva

libertária" (p. 72). Antes de entrarmos no conceito de hegemonia e articulação é

importante notar a posição sobre o discursivo e não discursivo nesses autores, pois ela é

causa de debate entre muitos teóricos (BARRET, 1994/1999).

Nossa análise rejeita a distinção entre práticas discursivas e não discursivas. a) todo o objeto é constituído como objeto de discurso, na medida em que nenhum objeto é dado fora das suas condições de emergência; b) toda distinção entre os usualmente chamados aspectos lingüísticos ou comportamentais da prática social é, ou uma distinção não correta, ou necessita achar seu lugar como diferenciação dentro da produção social de sentido, que é estruturada sob a forma de totalidades discursivas" (LACLAU e MOUFFE,1985, p. 107, tradução nossa).

32

Não se deve confundir tal posição com uma defesa da existência dos objetos

somente a partir do discurso, mas compreender que o objeto só adquire sentido dentro

de uma cadeia de significados lingüísticos. Um exemplo da articulação dos significados

nos processos sociais é a própria constituição do significado da homossexualidade na

história ocidental. Homens que fazem sexo com homens, mulheres que fazem sexo com

mulheres existem na história da humanidade, mas em culturas e localidades diferentes o

sentido do sexo entre homens é constituído por diferentes significados. No discurso

católico o sexo entre homens variou na denominação (sodomia e homossexualidade) e

no significado (pecado e patologia), ou seja, é a partir de um determinado conjunto de

significados

que

a

homossexualidade

se

constitui

como

algo

demoníaco,

patológico/tolerado ou até aceitável, como veremos na discussão posterior.

A distinção entre discursivo e não discursivo deve ser bem entendida, pois é

importante para a compreensão das considerações construídas no presente texto.

Enquanto o discurso é definido como um conjunto de significados fixados parcialmente

numa totalidade discursiva, o discursivo nos remete àquilo que escapa do discurso

devido o excesso de significados articulados a um determinado significante (TORFING,

1999, p. 91-92). "O discursivo provê, neste caso, a condição de possibilidade e

impossibilidade da significação parcial de um sentido", como um horizonte teórico para

a constituição de todo objeto (TORFING, 1999, p. 92). A articulação de vários

discursos ao estabelecer uma relativa unidade de sentido constitui uma formação

discursiva (TORFING, 1999, p. 300). Fairclough faz uma descrição do termo a partir de

Michel Pêcheux.

Pêcheux 14 sugere que cada posição incorpora uma "formação discursiva" (FD), um termo que tomou emprestado de Foucault. Uma FD é "aquilo

que em uma dada formação ideológica

Isso é compreendido em termos especificamente semânticos: as

determina "o que pode ser dito"

[ ]

14 Nesta citação o que está entre aspas refere-se a textos de Michel Pêcheux usados por Norman Fairclough.

33

palavras "mudam seu sentido de acordo com as posições de quem as usa." (FAIRCLOUGH, 1992/2001, p. 52)

O predomínio de uma formação discursiva pode ser definido como uma

hegemonia (TORFING, 1999, p. 102). Assim, enquanto o discurso da Igreja não

incorporou certos elementos da esfera civil, por volta dos anos 60, a homossexualidade

permaneceu definida como pecado numa determinada formação discursiva. Já a partir

desse período o discurso católico incorporou a tolerância aos homossexuais e a

homossexualidade passou a ser associada mais a uma patologia que a um pecado,

conforme a análise dos documentos nos demonstraram. Essa noção de hegemonia tem

um marcador importante nas discussões da Teoria do Discurso.

Em 1990 há uma radicalização no conceito de hegemonia no texto de Ernesto

Laclau, o qual rompe com a existência de um referente anterior ao processo de

articulação. A noção de contingência passa a predominar (PINTO, 1999, p. 89)

permanecendo as condições contextuais e históricas como referenciais na constituição

de novos sentidos (LACLAU, 2002, p. 29). O discurso buscará, através desse processo,

dominar o campo da discursividade, construindo um centro que controla a dispersão dos

significados. Esse centro estabelece pontos nodais, "numa referência ao point de capiton

(ponto de basta) de Lacan (os significantes privilegiados que fixam o sentido numa

cadeia)"

(BARRET,

1994/1999).

Contudo,

é

preciso

reconhecer

que

"o

caráter

discursivo do objeto não implica, de maneira alguma, questionar sua existência"

(BARRET, 1994/1999, p. 258). O significado da homossexualidade no discurso moral-

religioso católico é definido em uma disputa com significados constituídos também fora

dela, mas no interior da Igreja Católica outras disputas pelo significado também

acontecem. O discurso que revela as posições nessas disputas está tanto nos documentos

que tratam a homossexualidade como patológica ou tolerada, como no impedimento, às

34

vezes não explícito, de aceitar pessoas com orientação homossexual para a função de

padre. No entanto, apesar do silêncio sobre a questão dos padres homossexuais, homens

não heterossexuais foram uma presença constante no clero (RANKE-HEINEMANN,

1988/1999). Podemos considerar que existem formações discursivas específicas em

vários discursos articulados na Igreja Católica, vista como uma hegemonia específica.

Temos o discurso católico acerca da homossexualidade, o discurso católico sobre a

mulher, o discurso católico sobre a dignidade humana, etc. Dentro dos vários discursos

da Igreja Católica existe o predomínio de determinadas formações discursivas, mas

podemos pensar que determinadas articulações com elementos provenientes do mito

fundador cristão estão presentes nos vários discursos. Em nossas elaborações focamos

apenas os elementos do mito fundador quando eles nos parecerem pertinentes à temática

discutida nesta pesquisa.

Assim, o conceito de hegemonia não se refere a posições privilegiadas de

sujeitos, sejam eles coletivos ou não, mas à construção do predomínio de determinadas

formações

discursivas

(TORFING,

1999, p.

100).

As formações discursivas são

resultantes do entrelaçamento de vários discursos que resultam num determinado

significado. O discurso católico acerca da homossexualidade masculina é uma formação

discursiva que surge de diversas posições de dentro e de fora da Igreja Católica. O

avanço

dessas

posições

está

relacionado

à

idéia

gramsciana

dos

combates

em

trincheiras; cada soldado conquista uma nova posição, saindo, de vez em quando, de sua

posição para outra trincheira à frente, contudo não pode se expor demasiadamente ao

inimigo ou será alvejado. É nesse movimento de aparecer e se esconder que ocorrem as

conquistas de posições dos sujeitos. A cada momento, sua posição é diferente, e o

conjunto dessas diferentes posições pode ser compreendido como uma totalidade da sua

ação no campo de batalha. O campo de batalha seria o discurso, no qual diversas

35

posições de sujeitos irão articular sentidos e posições dentro da hegemonia. "Um

aspecto importante é que os sujeitos podem nem sempre se identificar totalmente com

uma FD" (FAIRCLOUGH, 1992/2001, p. 53). Para visualizar melhor alguns conceitos

podemos recorrer a uma explicação sobre o conceito de articulação.

[ ]

relação entre elementos tal que suas identidades sejam modificadas como um resultado da prática articulatória. À totalidade estruturada resultante da prática articulatória nós chamaremos de discurso. As posições diferenciais na medida em que elas aparecem articuladas dentro do discurso, nós chamaremos de momentos. Por contraste, nós chamaremos de elementos qualquer diferença que não seja discursivamente articulada" (LACLAU e MOUFFE,1985, p. 105, tradução nossa).

nós chamaremos de articulação qualquer prática que estabeleça a

Com esses esclarecimentos, podemos adentrar em outras questões. Na análise do

discurso moral-religioso da Igreja, o significante família pode ser considerado como um

ponto nodal, estabelecendo possibilidades e impedimentos para os homossexuais. O

significante família foi sendo articulado em diferentes contextos socioistóricos, e a

manutenção de sua positividade representou apenas um esforço do projeto hegemônico

católico, mas foi ao redor desse ponto nodal que se ergueu uma moral-sexual-católica.

Atualmente as reivindicações dos movimentos feministas, gays e lésbicos causaram

uma mobilização nessa moral,

pois criaram condições às novas articulações do

significante família, como se verá mais à frente na análise dos dados.

Podemos aqui adiantar algo da discussão sobre o termo família na questão das

lógicas do discurso nas reconfigurações dos discursos da Igreja. Até o século XVIII se

consolidou, através do dispositivo da sexualidade 15 , um modelo familiar heterossexual

monogâmico (FOUCAULT, 1988/2003a, p. 104). Com as demandas dos "novos

movimentos sociais", principalmente após as lutas da década de 60 (PINTO, 1999, p.

85), as discussões de gênero denunciando as assimetrias de poder entre homens e

15 Esse dispositivo é analisado na discussão histórica do termo família.

36

mulheres, os movimentos homossexuais reivindicando o direito do reconhecimento da

união civil entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por homossexuais, entre

outras questões, aumentou a complexidade do termo família, estabelecendo uma

demarcação entre diferentes modelos de família. Atualmente temos famílias constituídas

por casais homossexuais e heterossexuais (mesmo em países onde ainda não há uma

legislação que regule as uniões entre pessoas do mesmo sexo). Temos estabelecida a

lógica da diferença entre estes diferentes modelos de família, pois os grupos familiares

se constituem a partir de múltiplos pólos de dominação (grupos religiosos, Estado,

enfim, de todo ethos sociocultural). A lógica de equivalência se constitui na ampliação

do significado de família, quando o direito a constituir família passa a ser estendido

também aos homossexuais, diante da incorporação das noções de cidadania presentes

nos projetos democráticos do ocidente. Isso naqueles países onde os homossexuais

conquistam os mesmos direitos disponibilizados aos heterossexuais na arena pública.

Em vários contextos sociais se estabelece com isso, através da lógica acima apresentada,

uma relação antagônica entre aqueles que defendem a noção de família heterossexual

monogâmica e aqueles que defendem outros modelos de família. "A relação antagônica

se estabelece na medida em que a presença do "outro" não permite que o "eu" seja

completamente "eu"" (PINTO, 1999, p. 84). Na questão específica que elaboramos

neste parágrafo, a pessoa homossexual não consegue sua cidadania, na medida em que é

impedido de usufruir um direito disponibilizado aos heterossexuais numa determinada

comunidade. Esse processo de impedimento pode se dar numa hegemonia, como

veremos a seguir.

O discurso como articulador da hegemonia busca sempre um fechamento da

comunidade. A hegemonia pretende fornecer a sensação de positividade aos membros

da comunidade e rejeita qualquer afirmação que revele a contingência de seu discurso, o

37

que é elaborado pela redefinição do conceito de ideologia de forma específica na

perspectiva teórica em questão.

a ideologia é uma vã tentativa de impor um fechamento a um mundo

social cuja característica essencial é a articulação infinita das diferenças e

a impossibilidade de qualquer fixação última do sentido - expressa-se num quadro de referências em que a distinção tradicional do marxismo entre o conhecimento e o "descobrimento" ideológico é preservada (para alguns, paradoxalmente). (BARRET, 1994/1999).

O significante família, no discurso católico, ao ser rearticulado pela entrada de

valores e crenças em parte oriundos dos novos movimentos sociais, provoca um rasgo,

uma fenda no fechamento construído pela hegemonia. A hegemonia irá constantemente

lutar contra esses rasgos, ou fissuras, através do processo de sutura, conceito utilizado

por Laclau e Mouffe que indica uma apropriação teórica de partes da psicanálise

lacaniana,

cruzando

divisões

entre

os

campos psicanalítico,

filosófico e político

(BARRET, 1994/1999). A família passa a ter um significado paradoxal quando

formações

discursivas

que

perpassam

a

Igreja

Católica

provocam

processos

de

subversão de conteúdos do discurso católico. O termo família dentro da hegemonia

católica vai incorporando múltiplos significados que passam a indicar diferentes

sentidos, dependendo do momento do discurso no qual ele é articulado. Quando a

definição do significado da homossexualidade é feita dentro da moral sexual católica,

temos a proibição do sexo entre homens, pois a relação sexual "deve acontecer" apenas

dentro da família heterossexual, a partir dessa moral. Assim, os atos homossexuais são

hegemonizados no discurso como "desordenados e patológicos" a partir da moral sexual

católica que se organiza ao redor do significante família. "Hegemonizar um conteúdo

[ ]

suporia fixar seu significado ao redor de um ponto nodal" (PINTO, 1999, p. 89).

A

moral

sexual católica,

nesse

sentido,

é

algo que

não tem conseguido

incorporar as formações discursivas nas quais o modelo familiar foi redefinido, apesar

38

de alguns teólogos, entre outros católicos, constituírem um momento do discurso que

articulou a união civil e adoção de crianças por homossexuais como demanda legítima

(ROTTER, 2003; LEERS e TRANSFERETTI, 2002). Assim a moral sexual católica é

algo que se coloca como um "universal", mas o discurso católico traz em si formações

discursivas que revelam a precariedade desse universal, pois os "direitos homossexuais"

deixam de ser um elemento do discurso católico e esses direitos são articulados num

outro momento do discurso, ainda que as formulações doutrinais do Vaticano sejam

mais visíveis no discurso.

A articulação de um elemento indica que de algum modo ele foi incorporado no

discurso. Quando o significado do sexo entre homens permaneceu relacionado ao

pecado, o discurso católico o havia incorporado, ou seja, hegemonizado no discurso, a

homossexualidade como pecado e assim constituído um significado para o termo. Os

sujeitos individuais, como os grupos, serão suportes do discurso, ao mesmo tempo em

que podem transformá-los através de novas articulações dentro de uma determinada

hegemonia, dentro de uma contingência que terá seus limites traçados em alguns

momentos de estabilização, provisória, de cadeias discursivas. A noção de família

monogâmica heterossexual pode ser considerada um momento de estabilidade no

discurso católico.

Hegemonia poderia ser definida como “processos pelos quais se criam formas

subordinadas de consciência, sem recurso à violência ou à coerção”, podendo coexistir

posições contraditórias dentro de um mesmo grupo ou de um mesmo sujeito individual

(BARRET, 1994/1999, p. 238). Até mesmo um homem com orientação homossexual

pode condenar a si ou a outros por estar perpassado por uma formação discursiva anti-

homossexual. Também o contrário pode ser verdadeiro, uma pessoa heterossexual pode

ser perpassada por formações discursivas que não condenam práticas homossexuais, não

39

precisando

necessariamente

ter

tais

experiências

homossexuais

para

aceitá-las

moralmente como legítimas. Uma mesma pessoa ou grupo social pode trazer essas duas

experiências de forma até contraditória; são as posições de sujeito que vão sendo

constituídas através de formações discursivas.

As posições de sujeitos se referem a conquistas de lugares, aos avanços e recuos

dos indivíduos e grupos nas hegemonias (BARRET, 1994/1999, p. 235). "O agente

social é constituído por um conjunto de "posições subjetivas" que nunca podem ser

totalmente fixadas em um sistema fechado de diferenças" (MOUFFE, 1995, p. 33).

Aqui devemos ter claro que não se pode pensar na noção de uma estrutura como

determinante dos sujeitos. A noção de discurso se põe diferentemente da noção de

estrutura quando indica o desenvolvimento da ação dos sujeitos em processos sociais

num determinado contexto, no qual os valores e crenças são partes integrais da

hegemonia que constrói as identidades; desse modo o discurso pode ser compreendido

como o que nos informa o caminho da interação social (TORFING, 1999, p. 81-82).

Quando se articula aos atos homossexuais a destruição de Sodoma e Gomorra,

na antigüidade, ou a destruição da família, no presente, está se criando uma totalidade

estruturada

a

partir

de

articulações

no

discurso.

Essa

totalidade

não

pode

ser

considerada mais que um período de estabilização da própria contingência das práticas

articulatórias na hegemonia. Ao relacionar os atos homossexuais à destruição da

família, subverte-se o significado da orientação homossexual para algo maléfico e

perigoso. Assim, quem pratica tais atos torna-se perigoso, pervertido e condenável. Por

outro lado, quando se constitui uma ambiência na qual os atos homossexuais passam a

ser considerados como uma orientação possível da sexualidade humana, as posições de

condenação podem sofrer outras subversões, podendo tornar a homossexualidade como

uma orientação sexual aceita na hegemonia. São deslocamentos do significado que

40

podem ou não se integrar à história da identidade do sujeito, compreendido como

múltiplo e contraditório, uma identidade "contingente e precária, temporariamente

fixada na intersecção dessas posições subjetivas e dependente da forma específica da

identificação" (MOUFFE, 1995, p. 33). Esclarecidos alguns conceitos, passamos à

discussão

do

bibliográficas,

modo

como

as

questões

analisar,

até

aqui

perspectiva teórica da pesquisa.

nos

documentos,

entrevistas

apresentadas.

Entramos,

então,

e

referências

na

segunda

A elaboração do método de análise de discurso por Norman Fairclough traz as

noções de interdiscurso de Michel Pêcheux, a abordagem lingüística de Bakhtin, as

categorias de hegemonia e contra-hegemonia de Antonio Gramsci e os conceitos de

prática

e

de

ordem

discursiva

próximos

de

Michel

Foucault

(FAIRCLOUGH,

1992/2001). Fairclough defende o uso da análise do discurso, por ele denominada

Análise do Discurso Textualmente Orientada - ADTO, como um método na pesquisa

social. A definição de texto é tomada da lingüística e serve para definir qualquer

material escrito ou falado, como entrevistas ou conversas (1992/2001, p. 23).

Esse autor analisa diversas variantes da análise do discurso e reconhece que a

análise do discurso é "fortalecida pela adoção de pressupostos da linguagem e do

discurso na teoria social" (FAIRCLOUGH, 1992/2001, p. 57). Ainda, na elaboração

metodológica, ele considera a importância de elementos sociais e lingüísticos na análise

do discurso. Para o autor, sem essa consideração, não se consegue analisar as tensões

que caracterizam certos processos de produção e interpretação textual, provocando uma

insuficiência na investigação da linguagem em processos de mudança social. Nessa

compreensão, "nem a tradição crítica na análise de discurso orientada lingüisticamente

nem Michel Foucault lidam satisfatoriamente" com o conceito de discurso na mudança

social, pois é necessário reconhecer que "o discurso contribui tanto para a reprodução

41

como para a transformação das sociedades" (FAIRCLOUGH, 1992/2001, p. 59). Mas as

formulações de Fairclough se afastam da Teoria do Discurso na medida que faz uma

definição de sujeito como pré-constituído.

Minha reserva final sobre Foucault relaciona-se a sua percepção valiosa das propriedades constitutivas do discurso. Embora eu aceite que tanto os objetos quanto os sujeitos sejam moldados pelas práticas discursivas, eu desejaria insistir que essas práticas são constrangidas pelo fato de que são inevitavelmente localizadas dentro de uma realidade material, com objetos e sujeitos sociais pré-constituídos (FAIRCLOUGH, 1992/2001, p. 87).

A ADTO pretende reunir a análise lingüística e a teoria social a partir de uma

concepção tridimensional do discurso. "Qualquer ‘evento’ discursivo (isto é, qualquer

exemplo de discurso) é considerado como simultaneamente um texto, um exemplo de

prática discursiva e um exemplo de prática social" (FAIRCLOUGH, 1992/2001, p. 22).

Na concepção de Fairclough não reconhecemos a radicalização de contingência adotada

na Teoria do Discurso após 1990. Nas análises de nosso objeto de pesquisa a

radicalização da noção de contingência pareceu-nos mais adequada que a compreensão

de um sujeito pré-constituído na estrutura. Podemos dizer que entendemos o sujeito em

relações

contingentes

a

uma

certa

articulatórios no discurso.

estrutura,

a

qual

é

alterada

pelos

processos

Fairclough elabora uma concepção tríplice de discurso na qual os sujeitos

possuem um papel ativo na prática social, dentro do processo de articulação e

rearticulação de significados e no estabelecimento das ordens do discurso. Este autor

discute a compreensão dos textos e se detém na forma de análise e interpretação dos

mesmos. O texto, constituindo um modo particular do uso da linguagem e construindo

relações

sociais,

cumpre

a

função

de

apresentá-las

e

representá-las.

Diante

da

compreensão da ação do sujeito no processo social e de texto compreendemos a

pertinência de incorporá-la na metodologia da presente pesquisa.

42

O autor elabora um tipo de análise que segundo ele diferirá da abordagem mais

abstrata de Michel Foucault (FAIRCLOUGH, 1992/2001, p. 61). Porém, é preciso

reconhecer a contribuição ímpar de Michel Foucault numa teoria social do discurso ao

analisar as relações entre discurso e poder, a construção discursiva de sujeitos sociais,

do conhecimento e do funcionamento do discurso na mudança social. A preocupação

foucaultiana estava mais direcionada a discursos específicos e não se ocupava com a

centralidade da análise de textos propostas na ADTO, no entanto, a noção da dimensão

constitutiva do discurso deve ser observada na análise (FAIRCLOUGH, 1992/2001, p.

62).

Consideramos que essa posição permite uma certa objetivação na análise dos

processos de articulação através dos textos sem perder de vista a diferença na

compreensão de sujeito, discurso e estrutura das perspectivas teóricas em questão.

Temos consciência de que nossa análise não representa uma comparação exaustiva entre

os autores, porém procuramos explicitar os procedimentos e aportes teóricos presentes

nesta pesquisa.

Nas duas perspectivas teóricas adotadas há um reconhecimento da dimensão

política,

entendendo-a

como

um processo constante

de luta

de

desarticulação

e

rearticulação na constituição dos significados no processo social. A dimensão política

na Teoria do Discurso é definida como a própria hegemonia, na qual os valores e

crenças são fundamentais, não entendendo a dimensão política ligada a uma hierarquia

de preferências, onde valores e crenças são mais ou menos importantes (TORFING,

1999, p. 82). O discurso é fruto desse processo, da construção da hegemonia e ao

mesmo

tempo

das

formações

discursivas

que

se

desprendem

da

mesma

em

determinados contextos. Nesse processo temos novas significações, novas relações e

novas perspectivas constituindo as posições de sujeitos, portanto novas identidades.

43

Segundo Jacob Torfing, existe uma base de tensão nesse processo de desarticulação que

nos permite compreender "como os artefatos culturais são sobredeterminados por

determinadas ideologias políticas e ainda por determinadas identidades políticas e

sociais em termos de classe, raça, nacionalidade e gênero" (TORFING, 1999, p. 211-

tradução nossa).

As considerações de Laclau sobre o discurso religioso e sua semelhança com o

discurso político (LACLAU, 2002), indicam a possibilidade da construção desta forma

de análise do discurso religioso, como uma ideologia, localizando o conjunto de

posições diferenciais de sujeitos em diferentes locais do discurso (LACLAU, 2000, p.

104).

Desse

modo,

podemos observar como são constituídos os significados da

homossexualidade pelos que formulam a doutrina da Igreja Católica, por alguns padres

com orientação homossexual e

através das referências bibliográficas. Poderemos

identificar tanto a formação de um processo hegemônico como as possíveis posições

contra-hegemônicas no discurso católico.

Os pressupostos teóricos de uma pesquisa não permitem classificar os dados a

não ser como categorias de valores constituintes do processo social, construídas,

dinâmica

e

dialeticamente.

Na

presente

pesquisa

a

investigação

focalizou

especificamente como determinadas noções são associadas à homossexualidade na

esfera religiosa pela Igreja Católica. Sem estabelecer uma objetividade última através

dos dados da investigação, a pesquisa buscou uma desnaturalização de fenômenos e de

conceitos

usados

nos

homossexualidade.

discurso

religioso

que

1.5 - Justificativa e relevância

se

prestam

a

uma

objetivação

da

Pesquisar a relação entre padres com orientação homossexual e Igreja Católica é

questionar a não participação imposta a inúmeros homens não heterossexuais ao que é

44

disponibilizado aos homens heterossexuais na comunidade católica, bem como no

processo social. A Igreja, entre outras instituições com fortes manifestações anti-

homossexuais, promove a não participação dos homossexuais na esfera social quando

realiza uma desqualificação da pessoa homossexual. E essa participação é fundamental

na história das identificações dos sujeitos, da construção de sua cidadania, permitindo-

lhes desfrutar de um processo de identificação que não torne patológica sua percepção

de si. Por isso, na pesquisa social é importante a não absolutização de uma identidade

homossexual como patologia, como consideram alguns setores da Igreja.

Nesse sentido, pensamos que compreender as identidades como processos de identificações políticas que buscam "dar formas" ao significado do real (MELUCCI, 1996) e, a partir disto, articular pontos de fixação dos sujeitos, parece-nos um começo promissor de compreensão de uma possível articulação entre o particular e o universal que não seja uma "nova encarnação do absoluto" (PRADO e SOUZA, 2001, p. 108).

Em terrenos povoados por sentidos anti-homossexuais plasma-se uma identidade

homossexual impedida de expressar-se como legítima. Esse impedimento dá-se, de

forma explícita, nas ações contra pessoas homossexuais em suas demandas pelo

reconhecimento legal das uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, na negação da

possibilidade

de

homossexuais

adotarem

crianças,

na

violência

de

grupos

anti-

homossexuais e demais formas de segregação e humilhação pública. Essas situações são

impedimentos à própria cidadania dos não heterossexuais.

Tais impedimentos para a cidadania também estão presentes no preconceito

tácito em relação aos homossexuais manifestado numa ambiência ainda voltada para o

padrão heterossexual, como caracteriza a discussão sobre homoafetividade no judiciário

(MATOS,

2004);

na

exposição

midiática

preconceituosa

em

relação

à

pessoa

homossexual, enfim, nas diversas formas de preconceito no quotidiano. Essa maneira de

reprovar o comportamento social dos homossexuais parece configurar-se como o

45

exercício da coerção moral exercida sobre os homossexuais desde a meninice. Vejamos

o trecho seguinte, de uma entrevista de nossa pesquisa:

Pesquisador

Na

início dessa entrada aí, na vida, na percepção de si,

qual a percepção que você imagina ou lembra, ou até mesmo se percebeu alguma vez da sua família em relação a homossexualidade, não a você, mas a homossexualidade.

os meus irmãos já escutavam

voltando a questão do, da experiência do

Gaspar do Reis. 16 Humhum. Sim

É

piadas, né, e tudo, e os meios de comunicação trazem aí, quase sempre essas piadas são repetidas e diante delas as pessoas riem

Pesquisador Humhum.

Gaspar do Reis

Mas

comigo nun/nunca ouvi nada desrespeitoso,

mas também não ouvi nada de favorável ==, né

Pesquisador

Você lembra alguma coisa

//

Gaspar do Reis

//Onde a minha opção se/se

 

para eles era uma apenas uma desconfiança, eu

nunca ouvi nada deles

se/ é isso mesmo, como se

eu não tivesse nenhuma orientação sexual ====.

Pesquisador

===== É

Gaspar dos Reis

mas você lembra de

alguma

//

Gaspar do Reis

//Sim, me lembro!//

Pesquisador //pessoa

//

Gaspar do Reis

//E lembro e me lembro

Pesquisador

justamente porque foi doído isso, de/ saber que foi assim uma observação e mesclada aí de muita ironia, né, e é doído pra gente ouvir isso, né. E você lembra-se do que foi assim, que são experiências marcantes

Gaspar do Reis

Sim, me lembro! Eu devia estar nos meus catorze, quinze anos, né, o pessoal foi numa festa, e/e lá tinha uma bichinha né, na festa, declaradíssima, numa festa na roça.

Pesquisador Na roça!

Gaspar do Reis

Pesquisador No interior de Minas

Gaspar do Reis

Na roça.

Interior de Minas, uma festa na roça e lá pras tanta a

bichinha acho que

que mais movida pelo álcool,

ela se soltou mais ainda Pesquisador Hum

Gaspar do Reis

Ela tava cuidando um pouco das coisas, na copa, na cozinha, num determinado momento ela foi lavar os banheiros e a hora já tava adiantada, muita gente na festa, e lá ela dançava e requebrava né, aí depois

16 Ressaltamos que todos os nomes dos entrevistados são fictícios.

46

chegando em casa, eu não estava na festa não, houve um comentário do pessoal dizendo, com a/rremedo, da bichinha lá de uma forma muita desrespeitosa, com muita ironia.

Pesquisador Isso você sentiu assim quando escutou esse comentário?

Gaspar do Reis

Pesquisador Ela é engraçada porque

Não foi só um fato hilariante né

Pesquisador Humhum.

Gaspar do Reis

Sim. Isso senti.

Gaspar do Reis

pode ter sido engraçado a bicha

lavando banheiro de madrugada e dançando, mas no

Atrás/atrás

fun/atrás não tava só essa, esse sentimento

hilariante, do riso, da graça, havia algo mais picante

foi o que percebi, não

sei se de fato havia

por trás

foi o que percebi

Pesquisador E nesse, você poderia dizer que de alguma forma

aquilo poderia acontecer com você, você

ocê

//

//Sim, claro, a gente/a gente fica muito despreparado, né,

sem ninguém

que pudesse orientar, a gente tinha orientação

sexual na escola mas a/as questões da gente não/ podiam ser nunca abordadas, né Pesquisador Humhum.

E se aquilo não é explicado, logo traz margens às interpretações, talvez as mais absurdas, né

Pesquisador Humhum.

Gaspar do Reis

por

viadagens, pra ser bicha mesmo, foi com o tempo que descobri que não! Pesquisador Humhum. (GASPAR DOS REIS, 2004, q. 34-35)

Gaspar do Reis

Gaspar do Reis

sem ninguém para poder falar da

De achar que essa orientação homossexual

necessariamente tinha que passar por

Essa forma implícita de preconceito acontece dentro das famílias e nos espaços

de convivência íntima desses sujeitos, ocorrendo desde a infância através dos processos

de socialização. Gaspar dos Reis, um de nossos entrevistados, identifica diversas

situações de preconceito, em festas, na família e escola, através de um imaginário

baseado em homossexuais estereotipados, com "viadagens" que são inerentes à pessoa

com orientação homossexual.

47

Dentro das inúmeras discussões sobre preconceito uma pesquisa nos Estados

Unidos demonstra que crescer como homossexual pode ser perigoso. Aquela pesquisa

demonstra como o suicídio, o abuso de substâncias tóxicas, entre outras situações

danosas à vida, estão mais presentes entre homossexuais pelo preconceito a que são

submetidos (HARDIN, 1999/2000).

A presente pesquisa parte tanto da indignação ao modo como são tratados os

homossexuais na Igreja, como da importância em se compreender a relação entre os

padres homossexuais e o discurso da Igreja, pois aí estão questões relacionadas às

formações identitárias do sujeito, para o campo da pesquisa, e ligadas à cidadania, para

a esfera do político. Discutir o lugar desses homens, enquanto cidadãos, exige que se

olhe mais detidamente para esse mesmo lugar, onde, não raro, existem pessoas

submetidas a sofrimentos e discriminações de várias ordens.

Na Igreja, esse sofrimento reside na necessidade de uma vida clandestina, em

uma ausência da discussão sobre sexo seguro, no desgaste de viver sob ameaças de

expulsão e humilhação ou ter a própria sexualidade taxada como doentia ou pervertida.

Tal situação surge como problemática por ser a Igreja Católica portadora de posturas,

por parte de alguns bispos e de certos documentos da Igreja, reconhecidamente anti-

homossexuais (MOTT,

1999; RICHARDS, 1990/1993; LEERS e TRANSFERETTI,

2002). Não afirmamos que todos os bispos e demais católicos e católicas são portadores

de posturas anti-homossexuais. Devemos considerar a complexidade dessa questão

nesse grupo específico, de padres com orientação homossexual, relacionado ao fato de

tais sujeitos viverem em uma organização que exige dos mesmos a abstinência de

relações sexuais, ou seja, o celibato. Para aqueles que possuem uma orientação

homossexual os conflitos não são apenas com o celibato, mas com a percepção que eles

desenvolvem da própria orientação sexual. Os padres homossexuais não estão livres dos

48

conflitos entre o desejo de ingressar na Igreja e o exercício da sexualidade, como um de

nossos entrevistados relatou ao narrar sobre a época em que esteve no seminário.

Ubaldo Agora, eu sempre fui muito tímido, muito retraído e às vezes tive mui/pouca oportunidade na sociedade, problema familiar, sem ir a passeio, ir a festa, sempre muito retraído, caseiro, sabe.

Pesquisador

Haha.

Ubaldo

Parecia assim a mocinha da casa, =========

Pesquisador

=========.

Ubaldo

Moça/ que toma conta da casa, moça velha ==//

Pesquisador

//=====

Moça velha.// Ubaldo =======//Beata, tomadora de conta de casa, sabe, foi isso assim, essas questõezinhas e, mas depois, né, fui bom aluno no colégio, sabe, era bom aluno, né, aplicado, muito estudioso, dedicado, estudaaava, assim, muita coisa, não perdi, não perdi meu tempo [ ]. Soube usar esse tempo, sabe, realmente eu queria estudar, né, meu desejo era estudar. É, depois voltando, né, volta/retornando a/ vida religiosa que eu entrei e fiquei quatro anos, sabe, e um dia pus na cabeça que tinha que ir embora, ==, procurei meu formador, falei que tava indo embora, era (data da festa do fundador do grupo religioso), foi só passar a festa de (fundador do instituto religioso) e eu ia embora, depois fui embora, fiquei um ano fora, fui/voltei morar com meus tios outra vez, sabe, fui morar com eles e estudando, né. Não tinha terminado o colégio ainda, e voltei, depois voltei, para voltar para eles. Quando foi para mim voltar, o formador da época, ele, né, se questionava muito com isso ====.

Pesquisador

Você ficou quanto tempo fora?

Ubaldo Fiquei um ano, um ano, um ano e dois meses mais

Pesquisador

ou menos.// //Hum.//

Ubaldo //Aí pedi para voltar, tinha muitos

questionamentos mesmo, sabe, inclusive sobre a questão de sexualidade e tal, porque eu cheguei e falei com ele que tinha descoberto, sabe, que eu era homossexual. Ah sim, você falou para o formador.

Ubaldo Falei/ pro formador, sabe/ Marco Antônio, eu

nunca/quando eu descobri que era homossexual, você falou identidade, né, e eu tive percepção, quando eu descobri que era homossexual, que eu, que não é questão de descoberta, falar. Ah, eu acho que eu sabia desde criança que eu era homossexual,

Pesquisador

49

Pesquisador

mas eu achava homem bonito, achava charmoso, gostava de ver certos rapazes, achava eles muito bonitos, gostava de ficar perto, sabe, eu digo quando descobri, olha, quando eu fui entender isso na minha vida, sabe, fui entender isto na minha vida, sabe, eu não entendia isso, eu não sabia o que era isso, porque, naquela época, nos anos setenta ainda, setenta e, no final dos anos setenta essas pessoas eram muito fechadas ainda, né, não se falava disto nas casas de formação, quando falava era para/com moralismo, para cortar, mandar embora, né. Hum.

Ubaldo

Certo, então, es//tas questões//

Pesquisador

//Nestes

primeiros

Ubaldo

quatro anos você sentiu isso! Senti! Senti.

Pesquisador

Que o moralismo. (UBALDO, 2004, q. 8-9)

No relato de Ubaldo percebemos os conflitos entre permanecer ou não no

seminário, conflito que parece se relacionar com a timidez, ficar em casa, sentir-se uma

"tomadora de conta de casa". De algum modo são concepções relacionadas à sua própria

formação familiar católica, que impõe a esses sujeitos concepções socioculturais, nas

quais não se reconhece a possibilidade de expressão da orientação homossexual

publicamente, mas reconhece um determinado lugar ao sujeito, dentro de casa, sem ir a

festas,

etc.

Esse

relato

refere-se

à

década

de

70,

conforme

esclarece

o

nosso

entrevistado, porém pelas análises que fizemos nos documentos recentes da Igreja, essa

posição da moral sexual católica está sendo cada vez mais fortificada.

Resta aos homossexuais o celibato obrigatório, sendo ou não padre, ou o

casamento heterossexual de forma compulsória aos não padres. Qual o preço pago por

esses

indivíduos

em

termos

de

seu

desenvolvimento

afetivo-sexual

e

de

sua

subjetividade: a abstinência sexual ou a experiência clandestina da sexualidade? Querer

fazer todas as perguntas pode tornar um problema mais insolvente do que o modo como

ele foi constituído, portanto buscamos focalizar apenas algumas questões.

50

As posições oficiais da Igreja Católica possuem uma doutrina hermética sobre

relações sexuais, estigmatizando e imputando culpa à vivência da sexualidade fora do

casamento, porém são notórias suas ambigüidades em relação ao trato da sexualidade

humana, o que será discutido mais adiante. Como a doutrina católica não reconhece a

união de pessoas do mesmo sexo, as pessoas católicas com orientação homossexual já

sofrem uma severa punição, pois a elas é negado um sacramento 17 , sinal da comunhão

com a comunidade católica.

Dois pontos podem ser considerados norteadores da relevância do presente

estudo: (a) a penetração da religiosidade no contexto brasileiro, com predominância do

catolicismo, onde se movem os brasileiros e (b) a discussão no campo das ciências

sociais acerca das novas configurações da homossexualidade no mundo contemporâneo,

suas demandas políticas e os lugares onde ainda se mantém sua submissão na

hegemonia.

O primeiro ponto é explicitado pelo contexto social brasileiro, no qual a Igreja

Católica se mostra como um agente social significativo. No Brasil, a Igreja Católica é

uma instituição social que consegue realizar a entrada contínua de informações no

campo social, afetando ações de indivíduos e grupos. Segundo o senso 2000 do IBGE,

uma amostragem em 12% de domicílios brasileiros indicava 125 milhões de católicos,

numa população estimada em 170 milhões (CUCOLO, 2002, p. 1), respondendo a

73,5% da população do país. Essas pessoas, na relação com a Igreja, em diferentes graus

de participação, sustentam certas "percepções católicas" sobre o homossexualismo,

independente se de forma mais ou menos preconceituosa.

17 O termo sacramento possui dois sentidos mais comuns, o primeiro é quando indica a presença de alguma coisa que recorda um fato ou pessoa significativa e o segundo relaciona-se aos sete sacramentos da igreja, são rituais que indicam o pertencimento da pessoa à igreja em questão.

51

Diretamente ligadas ao staff católico da Igreja temos duas conferências no

Brasil: a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB e a Conferência dos

Religiosos do Brasil - CRB. Somando o número de pessoas ligadas a essas conferências,

calculam-se 50.000 a 55.000 membros aproximadamente até o ano de 2005, distribuídos

entre padres, diáconos, freiras e frades, sendo que o grupo dos homens somam 22.000

membros

aproximadamente

(CERIS,

2005).

Este

staff

trabalha

na

formação

de

lideranças, conduz rituais e ajuda na orientação pastoral 18 das demais pessoas católicas.

No entanto, não se pode pensar em uma Igreja coesa, detentora de um fechamento e

transparência institucional apresentada pelos seus representantes. Ela se constitui

complexa e em transformação, como as demais instituições na modernidade, como

apresentado por várias reflexões dentro da própria Igreja (CERIS, 2000, p. 9). Por outro

lado, podemos considerar que a modernidade não foi capaz de eclipsar, de maneira

integral, a religião no Brasil. No entanto, a secularização provocou transformações e

uma reorganização do campo religioso, havendo um crescimento significativo dos

grupos

evangélicos

(CERIS,

2000,

p.

11).

Também

são

característicos

dessa

reorganização os novos espaços de comunicação através da mídia, haja vista as diversas

páginas eletrônicas sobre gays católicos e ligados a outros segmentos religiosos.

Também a mídia será um importante veículo de conteúdo religioso para as diversas

igrejas no Brasil (NOVAES, 2001).

O segundo ponto consiste em discutir a influência dos postulados religiosos no

campo social e na constituição das posturas anti-homossexuais. Essa influência é clara

em alguns campos específicos. Nas ciências médicas, a partir da Modernidade, a

sodomia apenas deu lugar à homossexualidade como uma patologia a ser tratada

18 O termo pastoral, na Igreja Católica, indica a administração da instituição, a orientação espiritual dos membros da Igreja e outras ações relacionadas à propagação dos valores e crenças da instituição católica.

52

(LEERS e TRANSFERETTI, 2000, p. 89). Trazer a presente discussão para dentro da

Psicologia Social é uma tentativa de corroboração do campo de pesquisa voltado às

questões dos comportamentos não heterossexuais.

Se, como afirma Geertz (1978), a religião é uma fonte de concepções gerais que ultrapassam o contexto religioso, fornecendo um arcabouço de idéias que dão forma significativa a uma experiência intelectual, moral e emocional dos agentes sociais, é preciso atentar especificamente para o lugar da Bíblia - com seus símbolos e grandes imagens motoras - na constante invenção de novas formas de religiosidade e participação social. (NOVAES, 2001, p. 80).

Assim,

as

percepções

do

sujeito

individual

ligado

a

uma

religião,

especificamente a católica (como todas as religiões cristãs, o relato do mito fundador

está na Bíblia), os diversos subgrupos dentro da Igreja Católica, ligados a Renovação

Carismática Católica, Teologia da Libertação, entre outros, tornam-se importantes na

construção de significados no campo social. O papel da pesquisa nesse cenário parece

ser fundamental, é preciso desenvolver estudos que discutam a sexualidade longe dos

preconceitos

e

fanatismos

de

doutrinas

científicas

e

religiosas,

principalmente

reconhecendo que existe uma postura anti-homossexual incorporada à cultura através da

tradição judaico-cristã da Igreja Católica (MOTT, 2001).

Concordamos com a percepção de que, com exceção da Antropologia, que usou

da sexualidade como instrumento para pensar o social e a sociedade “outras formas de

saber que se ocuparam mais de perto do tema foram aquelas de caráter ético ou

normativo/terapêutico: o pensamento religioso, a medicina e a psicanálise” (LOYOLA, ,

1999, p. 32). Se pensarmos que a dissociação entre sexo e reprodução biológica, nos

campos da ciência, se deu somente na década de 60 (HEILBORN, 1999, p. 7), o

discurso das ciências também ainda estava eivado do imaginário religioso, rechaçando a

pessoa homossexual. Dessa perspectiva, desenvolvemos nossa investigação do discurso

da Igreja Católica acerca da homossexualidade.

53

Ao entendermos melhor essa questão, buscamos o conhecimento que nos livra

temporariamente de algumas facetas da opressão e do desconhecimento, revelando as

fissuras dos discursos religiosos referentes à homossexualidade.

Talvez ainda exista uma pergunta a que é preciso responder: quando o discurso

religioso provoca a corrosão da Ética, adentra as universidades através de circuitos

religiosos, prejudicando a integridade da pessoa humana, qual a palavra possível de ser

articulada?

2 - A delimitação de informações no campo de pesquisa e os caminhos da investigação

2.1 - Abordagem do campo de pesquisa

A presente pesquisa situa-se na discussão metodológica própria da complexidade

e

do

status

da

sexualidade

nas

ciências

sociais.

Relaciona-se

às

questões

das

implicâncias da presença do pesquisador em seu campo de pesquisa, do trato ético das

informações, da reflexão sobre a constituição política dos objetos de pesquisa, enfim, de

pesquisar considerando as questões éticas e sociais da interação entre pesquisador e

objeto de pesquisa (PARKER, 2002; HEILBORN, 1999).

Dentro da perspectiva de nossa pesquisa, buscamos construir um corpus, o

conjunto de textos formado pelos documentos e entrevistas, para a pesquisa. A

observação participante e a pesquisa bibliográfica foram suplementares para estabelecer

uma problemática no processo de construção do objeto. Esse tipo de cruzamento se

mostrou útil quando as fontes não foram suficientes no processo de investigação. "Cada

tipo e fonte de dados tem suas forças e fraquezas" (PATTON, 1980/1990, p. 244,

tradução nossa). A observação no campo revelou como a necessidade do cruzamento

das fontes de nossa pesquisa. Escolhemos cruzar os documentos oficiais da doutrina

54

católica com as entrevistas em nossa análise das mudanças no discurso em questão. As

entrevistas foram um modo de perceber os graus de investimento ideológico dos padres

com orientação homossexual, levando em conta a proximidade institucional dos

mesmos com o discurso oficial da Igreja e, por fim, a observação participante que se

tornou uma condição da pesquisa.

2.1.1 - Os documentos

Muitos dos limites e possibilidades desta pesquisa devem-se ao fato de o objeto,

como construído aqui, ainda não ter sido investigado no Brasil, o que apresentou

maiores

dificuldades

em

sua

delimitação.

Um

levantamento

bibliográfico

inicial

permitiu-nos precisar algumas discussões que ajudaram a definir as fontes de dados e

localizar o período histórico no qual o objeto seria localizado. Delimitamos o período a

partir de 1960, ao redor do Concílio Vaticano II (1962/1965), quando a Igreja se pôs a

discutir

seus ritos,

sua

Teologia,

sua

visão

de

homem e de

sociedade (BOFF,

1981/2005), com redefinições no lugar de poder ocupado pelos prelados católicos

(SESBOÜÉ,

2001/2004),

com

algumas

mudanças

na

compreensão

da

homossexualidade

(KOSNIK,

1977/1982;

LEERS

e

TRANSFERETTI,

2002)

e

configurando um modo diferente da relação entre esfera religiosa e esfera civil por toda

Igreja Católica. Tais transformações não foram aceitas globalmente na comunidade

católica, constituindo posições resistentes ao próprio Concílio ao tentar e, em algumas

situações,

conseguir

neutralizar

seus

efeitos,

(LIBANIO, 1984; SESBOÜÉ, 2001/2004).

reconquistando

lugares

de

poder

A escolha dos documentos se deu a partir das discussões da Associação de

Teologia Norte-americana, que elaborou uma vasta análise acerca de mudanças na

moral sexual na doutrina e tradição da Igreja (KOSNIK, 1977/1982). Também foram

muito importantes alguns diálogos pessoais com Padre João Edênio Valle e o Padre

55

Dalton Barros de Almeida, pesquisadores da Igreja Católica, e algumas reflexões

elaboradas por eles (VALLE, 1999; VALLE, 2004) na definição das fontes de pesquisa.

Foi a partir dessas observações de campo e da intertextualidade entre os documentos

que estes se tornaram significativos à constituição do corpus da pesquisa.

O conceito de intertextualidade aponta para a produtividade dos textos, para como os textos podem transformar textos anteriores e reestruturar as convenções existentes (gêneros, discursos) para gerar novos textos. (FAIRCLOUGH, 1992/2001, p. 135)

No entanto, essa capacidade de gerar novos textos não é infinita, está restringida

pelas relações de poder nos contextos em que se encontram. A teoria da hegemonia

possibilita-nos reconhecer as relações de poder que moldam os textos (FAIRCLOUGH,

1992/2001, p. 135). A intertextualidade tem implicações na constituição de sujeitos no

texto, o que analisaremos através das entrevistas.

[ ]

mutáveis no discurso são centrais para a compreensão dos processos de constituição do sujeito. Isto é assim em uma mescla de tempo biográfica, durante a vida de um indivíduo, e para a constituição e reconstituição de grupos sociais e comunidades. (FAIRCLOUGH, 1992/2001, p. 170).

a intertextualidade e as relações intertextuais constantemente

As entrevistas serviram para a ampliação do corpus e localização da constituição

dos sujeitos no discurso. "O ponto a enfatizar é que entrevistas, painéis, etc. são

amostras adicionais de discurso, e uma maneira pela qual podem ampliar o corpus é

simplesmente acrescentá-las" (FAIRCLOUGH, 1992/2001, p. 278). Principalmente nas

entrevistas percebemos que nem sempre a intertextualidade é explícita, cabendo

distinguir duas de suas modalidades. A escola francesa de análise do discurso distingue

a intertextualidade manifesta, explicitando o uso de outros textos, da intertextualidade

constitutiva, que indica "a configuração de convenções discursivas que entram em sua

produção" (FAIRCLOUGH, 1992/2001, p. 136). No entanto, Norman Fairclough

prefere o termo interdiscursividade a intertextualidade constitutiva "sugerindo que as

56

ordens de discurso têm primazia sobre os tipos particulares de discursos e que os

últimos são constituídos como configurações de elementos diversos de ordens de

discurso" (19920/2001, p. 159). Aqui as ordens do discurso especificam as relações

entre os valores e crenças que são eleitos no discurso e sua primazia na reprodução e

transformação das próprias ordens do discurso. A noção de homossexualidade como

"patologia

incurável"

em

um

documento

de

1975

incorpora

a

tolerância

aos

homossexuais que vivem "numa sincera comunhão de vida e de amor análoga ao

matrimônio, na medida em que eles se sintam incapazes de suportar uma vida solitária"

(Declaração sobre alguns pontos de Ética Sexual, 1975, n. 8) 19 . Com o tempo essa

tolerância é restrita e não mais mencionada através das mudanças nas ordens do

discurso. A principal ligação entre os documentos é a forma que discutem a sexualidade

e/ou a homossexualidade, incorporando ou rechaçando elementos da esfera civil ao

discurso católico.

A partir dessas considerações, apresentamos os documentos que foram utilizados

na pesquisa. Os documentos são todos elaborados em Roma, onde se concentra o poder

institucional da Igreja Católica e disponibilizados ao domínio público.

1) Dignitatis Humanae (CONCÍLIO VATICANO II, 1965).

Esse documento conciliar trata da liberdade religiosa e foi escolhido pela sua

importância ao discutir essa liberdade, incorporando uma discussão política, defendendo

a dignidade da pessoa humana e a liberdade dos cidadãos. O uso do termo cidadão

indica uma incorporação de termos da esfera civil. O documento se posiciona contra os

países que recusavam conceder a liberdade religiosa em seus territórios, buscando

promover a liberdade religiosa dos católicos e de outras religiões cristãs. Representa o

19 Na dissertação usaremos para a citação de trechos a numeração presente contida nos documentos e a tradução feita pela revista SEDOC da Editora Vozes. Nas citações iremos constar apenas o nome da Congregação romana que elaborou o documento, pois geralmente a redação é fruto de vários autores.

57

momento de abertura aos discursos da "modernidade" e das ciências. Na pesquisa, esse

documento foi analisado no todo, realçando os termos que indicavam processos de

articulação na constituição da hegemonia católica.

2) Humanae Vitae (PAPA PAULO VI, 1968).

Nesse documento se encontra uma discussão que permanece até hoje no âmbito

interno da Igreja: a regulação da natalidade, a rejeição ao uso de métodos artificiais de

controle de natalidade e expressa bem a ambigüidade da abertura à ciência moderna.

Essa abertura somente é aceita quando a ciência se submete às crenças e valores da

Igreja. O documento foi analisado no todo, realçando os termos que indicavam os

limites da expansão da hegemonia.

3) Declaração sobre alguns pontos de Ética Sexual. (SEPER, Cardeal Franjo,

1975) 20 .

Elaborado pela Congregação da Doutrina da Fé, esse documento contém muitas

ambigüidades importantes para nossa análise. Identificamo-lo como um representante

da incorporação da tolerância no discurso católico, pois esse documento reconhece, em

seu número 8, que alguns homossexuais não deveriam ser condenados por viverem em

condições semelhantes ao matrimônio; traz elementos da Psicologia à discussão da

homossexualidade na Igreja e configura o ápice da abertura, nos documentos, sobre a

questão. No entanto, esse documento mantém a noção de patologia associada à

homossexualidade. É o último documento analisado que foi redigido antes do governo

do Papa João Paulo II. Esse documento foi divido e analisado através de trechos

temáticos devido a sua importância para a pesquisa.

20 Os documentos elaborados pelas congregações do Vaticano não podem ser considerados de autoria específica do cardeal citado, mas da congregação em questão. Aqui temos citados os cardeais que presidiam as congregações para localizar a presença maior do Cardeal Joseph Ratzinger, nas formulações recentes nas questões sobre os direitos homossexuais dentro e fora da Igreja.

58

4) Orientações educativas sobre o amor humano. Linhas gerais para uma

educação sexual. (Baum, Cardeal William, 1983).

A Congregação para a Educação Católica, buscando regular a abertura na moral-

sexual dos documentos anteriores, elabora esse documento fazendo uma reinterpretação

de questões morais do Concílio Vaticano II. Busca fundamentar a educação sexual,

incorporando noções da Educação, porém dentro de uma perspectiva da moral católica.

Sua

importância

é

menor

entre

os

demais

documentos,

entretanto

seus

pontos

importantes são a defesa que faz da família heterossexual monogâmica e um início da

rearticulação do significado da homossexualidade. Esta última é tomada apenas como

algo desordenado e a tolerância do documento de 1975 aos homossexuais já não é

reafirmada. Articula a homossexualidade como algo derivado de uma educação familiar

insuficiente. Também apresenta ordens do discurso que vão delimitando a noção e o

limite da tolerância. Representa uma retomada da condenação da homossexualidade no

discurso católico. Após lido na íntegra, apenas trechos desse documento foram tomados

na análise.

5) Carta aos bispos sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais.

(RATZINGER, Cardeal Joseph, 1986).

Esse documento é de grande importância na análise. Elaborado na Congregação

para a Doutrina da Fé, ele é claramente uma tentativa de fechamento na interpretação do

documento de 1975, e se dirige aos bispos da Igreja na tentativa de cercear as

interpretações locais que avançavam no reconhecimento da homossexualidade como

não patológica. As posições na teologia moral norte-americana (KOSNIK, 1977/1982)

se colocavam explicitamente contra as posições provenientes do Vaticano. O texto

mantém um discurso cuidadoso sobre a aceitação das pessoas homossexuais, porém é

59

contundente ao reforçar o caráter patológico da homossexualidade. Esse documento foi

analisado no todo, dividindo-o em trechos temáticos.

6) Orientações sobre a formação nos institutos religiosos. (HAMER, Cardeal

Jerôme, 1990).

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida

Apostólica, instância do governo da Igreja que se relaciona com os institutos de vida

consagrada, elabora o presente documento. Vários quesitos são mencionados e entre

eles surge a questão da homossexualidade, reconhecida como algo a ser considerado

com