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CESE Ministério da Justiça CECRIA Fundo Cristão Para Criança Indicadores de Violência Intra-Familiar e

CESE Ministério da Justiça CECRIA Fundo Cristão Para Criança

da Justiça CECRIA Fundo Cristão Para Criança Indicadores de Violência Intra-Familiar e Exploração

Indicadores de Violência Intra-Familiar e Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes

de Violência Intra-Familiar e Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes Fundo Cristão Para Crianças

Fundo Cristão Para Crianças

de Violência Intra-Familiar e Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes Fundo Cristão Para Crianças

CESE Coordenadoria Ecumênica de Serviço MINISTÉRIO DA JUSTIÇA Secretaria Nacional dos Direitos Humanos Departamento da Criança e do Adolescente FUNDO CRISTÃO PARA CRIANÇAS

Indicadores de Violência Intra- Familiar e Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes

(Relatório Final da Oficina)

Maria de Fátima Pinto Leal Maria Auxiliadora César (Org.)

CECRIA - Centro de Referência, Estudos e Ações Sobre Crianças e Adolescentes

Maria Auxiliadora César (Org.) CECRIA - Centro de Referência, Estudos e Ações Sobre Crianças e Adolescentes

1998

Oficina de Indicadores de Violência Intra-Familiar e Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes

Realização Centro de Referência, Estudos e Ações Sobre Crianças e Adolescentes - CECRIA

Coordenadora da Oficina Eva T. Silveira Faleiros

Equipe Técnica Frassinete Galvão Maria de Fátima Pinto Leal Maria Lúcia Pinto Leal Maria da Penha de Oliveira Vicente de Paula Faleiros Karina Figueiredo

Relatório dos Grupos Versão Preliminar:

Mário Volpi Redação final:

Vicente de Paula Faleiros Eva T. Silveira Faleiros

Digitação Versão preliminar: Marina Malagó Pontes Versão final: Isabel Cristina Valadares Lins

Patrocinadores retirar os :

Oficina: Secretaria de Saúde/GDF - Ministério da Previdência e Assistência Social/Secretaria de Assistência Social - EMBRATUR/Instituto Brasileiro de Turismo - Fundação CDL de Amparo ao Menor/DF – UNICEF/Fundo das Nações Unidas para a Infância - Visão Mundial. Publicação: CESE - Coordenadoria Ecumênica de Serviço - Ministério da Justiça/SNDH/DCA- Fundo Cristão Para Crianças

Data:

Brasília, 01 e 02 de dezembro de 1997.

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

I – PALESTRAS

1 - A violência sexual contra crianças e adolescentes e a construção de indicadores: a crítica do poder, da desigualdade e do imaginário Vicente de Paula Faleiros

 

06

2 - Violência intra-familiar: um estudo preliminar Maria Lúcia Pinto Leal

 

18

3 - Definir e medir o que são abusos sexuais Renato Zamora Flores

23

4 - Exploração Pará Marcel Hazeu Simone Fonseca

e

violência

sexual

contra

crianças

e

adolescentes

no

33

5 - Conceitos e indicadores de violência Simone Gonçalves de Assis

 

44

6 - A experiência da produção de indicadores no IBGE Ana Lúcia Saboia

 

53

7 - Escolhas e caminhos metodológicos na construção dos instrumentos do SIPIA - Sistema de Informação para a Infância e a Adolescência Luigi Battaglia

 

58

8 - Informação e indicadores Orlando José Leite de Castro

 

63

II RESULTADO DOS TRABALHOS EM GRUPO

 

1 - Grupos de trabalho sobre exploração sexual comercial e violência intra-familiar

 

69

2 - Plenária final:

resultados, questões e encaminhamentos

 

75

ANEXO

Relação dos participantes da Oficina de Indicadores

 

79

APRESENTAÇÃO

A presente publicação tem por objetivo registrar os trabalhos desenvolvidos na Oficina de

Indicadores sobre Violência Intra-Familiar e Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes, promovida pelo CECRIA, que constituiu-se num fórum de discussão reunindo pesquisadores, educadores, assistentes sociais, juristas, psicólogos e sociólogos, entre outros profissionais. Durante dois dias foram apresentados e discutidos trabalhos e experiências sobre o tema, buscando aprofundar a reflexão sobre os principais conceitos e metodologias, visando a construção de indicadores, avaliar políticas e contribuir para a organização de bancos de

É notória a falta de precisão e clareza entre pesquisadores e profissionais na definição de

conceitos e indicadores de violência sexual, que se reflete nos bancos de dados e nas ações desenvolvidas. Havia consenso da necessidade de um fórum que reunisse especialistas e interessados no aprofundamento do tema, visando o redimensionamento de estratégias para o enfrentamento do fenômeno.

Esforços de construção do conhecimento e de intervenção foram apresentados e discutidos

na Oficina, proporcionando um intercâmbio fecundo de pesquisas, instrumentos de análise,

acompanhamento e avaliação de políticas públicas, ações profissionais e de pesquisas, contribuindo para a elaboração de uma base conceitual/operacional articulada e minimamente consensual para o avanço do conhecimento sobre o problema e das intervenções por parte do Estado e da sociedade.

A Oficina foi realizada em dois dias, com apresentação de trabalhos, discussão em grupos e

em plenárias. Na organização do temário buscou-se visualizar conceitos e indicadores de violência (Simone Gonçalves de Assis e Ana Lúcia Sabóia), de abuso sexual (Renato Zamora Flores) e exploração sexual (Marcel Hazeu), Maria Lúcia Pinto Leal e Vicente de Paula Faleiros trouxeram uma reflexão conceitual e metodológica sobre a questão, e as contribuições de Luigi Battaglia e Orlando José Leite de Castro propiciaram uma reflexão sobre a metodologia de construção de indicadores.

O trabalho dos grupos,

embora limitado pelo tempo, trouxe contribuições bastante

significativas , como se pode observar na última parte desta publicação.

O CECRIA, que articulou contribuições de diversos órgãos locais e federais para a

realização deste trabalho, agradece os patrocínios, o esforço de sua equipe, a contribuição

dos apresentadores e a participação de todos aqueles que colaboraram para a realização do evento.

Eva T. Silveira Faleiros Coordenadora da Oficina

I - PALESTRAS

1 - A violência sexual contra crianças e adolescentes e a construção de indicadores: a crítica do poder, da desigualdade e do imaginário 1

VICENTE DE PAULA FALEIROS 2

A construção de indicadores sociais da violência intra-familiar e sexual contra crianças e adolescentes é um processo que está ganhando visibilidade no conjunto da sociedade, assim como nos trabalhos científicos e técnicos.

As questões do abuso sexual intra-familiar e da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes vêm se tornando objeto da mídia, com reportagens, entrevistas, mas ainda não assumiram o lugar que ocupam na Europa, no espaço televisivo, com entrevistas pungentes a vitimizados e abusadores. 3 No Brasil são os jornais e revistas que trazem o assunto à baila, mas podemos certamente prever algum programa do tipo “Aqui Agora” que explorará o tema.

Há, no entanto, trabalhos sérios, como a reportagem de “O Estado de São Paulo” de 23 e 24 de novembro de 1997 sobre “abuso sexual doméstico”, trazendo dados e resultados de entrevistas com pesquisadores e vitimizados. Estudos do IML de São Paulo, presentes na reportagem, feitos por Carlos Alberto Diêgoli mostram que das “2.043 queixas de abuso sexual feitas em 1995, 69,77% envolvem garotas menores de 18 anos. O pesquisador, segundo a reportagem, avalia que possam existir 17.000 casos de violência desse tipo em São Paulo, supondo que apenas de 10 a 15% dos casos sejam revelados. O mesmo pesquisador coordena o setor de atendimento do PAVAS (Programa de Atendimento às Vítimas de Abuso Sexual da Faculdade de Saúde Pública da USP). Das 150 meninas atendidas entre agosto de 1996 e setembro de 1997 57, 4% tinham de 11 a 15 anos. Dos casos, 55,9% eram estupros, 14,9% atentado violento ao pudor, 10,9% tentativa de conjunção, 5,8% sedução, e 6,6% suspeitas. Dessas 150, 5 estavam grávidas e 1,6% tinha o HIV positivo. Segundo o pesquisador, 7,94% dos atendimentos são de meninos.

Os depoimentos referidos confirmam vários estudos e pesquisas sobre o tema que vamos citar ao longo do texto. Deles destacamos nove dimensões, interligadas entre si, que sintetizam, de maneira genérica e geral, o conhecimento produzido sobre a questão da violência intra-familiar. Trata-se de uma síntese provisória, expressa em uma série de pontos para facilitar sua apreensão.

a) Segredo familiar. O problema da violência intra-familiar está envolto em relações complexas da família, pois os abusadores são parentes ou próximos das vítimas, vinculando sua ação, ao mesmo tempo, à sedução e à ameaça. A violência se manifesta pelo envolvimento dos atores na relação consangüínea, para proteção da “honra” do abusador, para preservação do provedor e tem contado, muitas vezes, com a complacência de outros membros da família, que nesse caso, funciona como clã, isto é, fechada e articulada.

1 Trabalho apresentado na Oficina de Indicadores da Violência Intra-Familiar e da Exploração Sexual de crianças adolescentes, promovida pelo CECRIA, em Brasília de 01 a 02/12/97.

2 Professor Titular aposentado da UnB. PhD em Sociologia. Coordenador do CECRIA – Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes. 3 Ver MASUY, Christine. “Dire l’indicible, montrer l’immontrable: comment la télévision évoque l’abus sexuel” in Les Politiques Sociales 55( 1&2):24-35, Mons, 1996.

e

b) As pessoas vitimizadas 4 são traumatizadas pelo medo, pela vergonha, pelo terror. Elas reprimem falar do assunto, mas sofrem de depressão, descontrole, anorexia, dificuldades nos estudos, problemas de concentração, digestivos, fobias, sensação de estar sujo. Há tentativas de suicídio ligadas ao trauma. Segundo a citada reportagem, um menino foi proibido de usar o sobrenome da família, devido ao estigma de homossexual, após ter sido abusado pelo pai e pelo tio. A pessoa vitimizada é que sofre a punição.

c) Reincidência. Os abusadores são reincidentes; não se restringem à vitimização de apenas uma pessoa, seja da família ou fora dela. Exemplo disso são os pedófilos.

d) Repetição da violência. As pessoas vitimizadas tendem também a repetir a violência com outras pessoas da mesma forma em que foram vitimizadas.

e) Presença da violência em todas as classes sociais. Na pesquisa de Diêgoli há maior presença de garotas da cor branca, mas pode apenas indicar as que comparecem mais ao atendimento. No Núcleo de Referência às Vítimas de Violência, segundo dados revelados à reportagem, há mais denúncias de famílias pobres. A pobreza não pode ser considerada causa de abuso, mas constitui uma situação de risco ao propiciar a promiscuidade, a falta de alojamento, as frustrações da miséria e do desemprego, o analfabetismo, o alcoolismo, a falta de cultura do diálogo com as crianças.

f) As crianças e adolescentes podem ser vitimizadas em qualquer idade, mas as reações e traumas são diferenciadas de acordo com a idade, assim como a capacidade da criança ou adolescente em reagir, contar, resistir e do apoio que venha a receber. Não se pode definir um padrão único de abuso. 5

g) Impunidade do abusador. O abusador é, muitas vezes, “perdoado” pela família e pela sociedade por razões culturais e autoritárias.

h) Fuga da casa. É freqüente, em depoimentos de meninos e meninas de rua, a constatação de que a fuga da casa foi motivada por agressões físicas e/ou sexuais.

i) Necessidade de terapia e acompanhamento de forma multiprofissional ou interdisciplinar, tendo em vista a complexidade do problema.

Não só as pesquisas 6 e reportagens têm contribuído para dar visibilidade à questão da violência, mas o movimento da sociedade e do Estado na construção dos direitos da criança

e do adolescente, através de discussões, fóruns, debates e mais fundamentalmente pela

aprovação de leis ancoradas no paradigma da proteção integral, como o Estatuto da Criança

e do Adolescente. De acordo com esse paradigma, crianças e adolescentes são sujeitos de

direitos e de desenvolvimento e não seres incapazes, adultos em miniatura ou objetos de obediência e controle. 7 Esta discussão se inscreve no contexto da promoção dos direitos

humanos, usado durante a guerra fria para atacar os regimes da órbita soviética, mas que devem significar um padrão civilizatório de respeito e dignidade do ser humano.

A sociedade vem adquirindo mais consciência do problema. Muitas pessoas têm utilizado

com mais freqüência o número telefônico oferecido pelo Estado destinado às denúncias, porque a ligação permite –lhes o anonimato. É um canal aberto, mas precisa estar articulado a uma rede. A denúncia pode trazer mais visibilidade ao que é contado,

4 Usamos a expressão vitimizado ao invés de vítima por reconhecer no sujeito capacidade de compreensão e reação de uma ou outra forma. Trata-se de um sujeito vitimizado e não de um objeto-vítima.

Les

5 Ver, por exemplo, HAESEVOETS, Yves-Hiram. “Symptomatologie particulière des enfants victimes d’inceste”

in

Politiques Sociales 55(1&2):51-57, Mons, 1996.

6 Pryor traz o resumo de 10 estudos recentes sobre o abuso sexual. In PRYOR, Douglas. Unspeakable acts. Why men sexually abuse children. New York, New York University Press, 1996.

7 Ver nosso texto “Violência contra a Infância” in Sociedade e Estado X(2):475-492, Brasília, UnB, 1995.

contabilizado, mas é ponta de um iceberg e segue as variações das campanhas, aumentando no momento forte dos apelos e diminuindo em seguida. As informações sobre exploração sexual podem oportunizar blitzes de repressão, com repercussão em marketing político, mas também não produzem efeitos profundos e sistemáticos para erradicar (ir às raízes) de questões vinculadas à cultura, à economia e aos padrões de convivência social.

A discussão e o trabalho de desvelamento do imaginário social e as ideologias são tão

fundamentais como a das condições econômicas e de desigualdade social no enfrentamento dessa questão, na qual articula-se estrutura e superestrutura. As ideologias se referem ao processo de fabricação e incorporação de crenças e valores como forma de justificação do mundo em que se vive e das relações do cotidiano e são veiculadas pela comunicação dominante que reforça a ordem vigente. Assim, fazem com que as ações

humanas pareçam fenômenos naturais não produzidas, portanto, pelo próprio homem.

O imaginário social faz parte de uma estrutura de valores, normas, símbolos historicamente

constituída. Enriquez 8 chama de sistema simbólico os mitos unificadores, os ritos de

iniciação, os heróis tutelares, cuja função é sedimentar a ação dos membros da organização. Serve-lhe também para legitimar ações e conferir significados às suas práticas. O sistema imaginário, para Enriquez, é, ao mesmo tempo, enganador e motor.

Pelo primeiro os sujeitos são considerados em seus próprios desejos de afirmação narcísica

e de proteção. O imaginário motor permite dar rédeas à criação, ao diferido, autorizando

uma experiência com os outros, num espaço transicional. O sistema cultural é que estrutura valores, distribui lugares, forma e socializa diferentes atores.

Os sistemas culturais, imaginários e simbólicos são processos históricos, produto das relações sociais vigentes num período determinado das relações de classe e interclasses sociais. A construção da infância se inscreve nesses sistemas. Nem sempre a infância foi vista como uma fase específica e própria da vida, e nem a criança sempre foi considerada um sujeito de direitos. Até recentemente, no limiar deste século, ela foi definida, inclusive juridicamente, como fase da incapacidade, da tutela, da menoridade, com as obrigações de obediência e submissão.

As crianças são vistas também como herdeiros, continuadores do patrimônio financeiro e econômico das famílias, arrimo dos mais idosos. São consideradas, na sociedade de consumo, como consumidoras, objeto de marketing, futuros investidores, poupadores. A própria família se inscreve nessa dinâmica comercial de formar desde cedo “o futuro capitalista”, o “homem de sucesso”, ”a mulher de negócios”.

As crianças podem ser representadas como figuras divinas, anjinhos, objeto de afeição e gracinhas e/ou diabinhos, objeto de disciplinas e rancores. Para entender esse processo é preciso penetrar nos sistemas imaginário, cultural e simbólico de cada sociedade e de cada época. São processos contraditórios. À representação da criança e do adolescente, hoje, dentro do padrão consumista, se opõe aquela que a considera num paradigma de proteção integral e de respeito a seus direitos como ser humano. Esse paradigma dos direitos humanos, implica, ao mesmo tempo, consideração da criança na sua condição de pessoa em desenvolvimento e, portanto, como sujeito de aprendizagem. É nesse processo de aprender vivendo e pensando que se constrói o desenvolvimento da pessoa e de sua formação identitária, a expressão de sua autonomia e a consciência de sua integridade corporal. A família e a escola são redes fundamentais de articulação desse processo de formação da identidade, de proteção, de socialização da criança.

8 In ENRIQUEZ, Eugène. L’organisation en analyse. Paris, PUF, 1992.

É nessa relação de aprendizagem/ensino/aprendizagem 9 que os adultos se responsabilizam

pela formação das capacidades de decisão, de discernimento e de sobrevivência da criança, em oposição a uma perspectiva de subalternização, inferiorização e naturalização da infância. A compreensão da infância como produto das relações e, portanto, das representações sociais é pressuposto para a construção da infância, hoje, na perspectiva de direitos a ter direitos e não de objeto de decisões dos adultos.

É num processo complexo de produção de relações desiguais pela exploração e pelo poder,

assim como de produção de significados, identidades e de construção de direitos que os profissionais de diversas áreas intervêm em casos de violência intra-familiar e de exploração sexual.

A violência: abuso de crianças e adolescentes

A violência, que, no cotidiano, é apresentada como abuso sexual, psicológico ou físico de

crianças e adolescentes, é, pois, uma articulação de relações sociais gerais e específicas, ou seja, de exploração e de forças desiguais nas situações concretas, não podendo, assim, ser vista como se fosse resultante de forças da natureza humana ou extranaturais - por

exemplo, obra do demônio - ou um mecanismo autônomo e independente de determinadas relações sociais. Esta violência, manifesta, concretamente, uma relação de poder que se exerce pelo adulto ou mesmo não adulto, porém mais forte, sobre a criança e o adolescente num processo de apropriação e dominação não só do destino, do discernimento e da decisão livre destes, mas de sua pessoa enquanto outro. Esse uso (chamado abuso) do poder da força é, de fato, uma profunda desestruturação de uma relação de poder legitimado pelo direito e pelo diálogo, pela autoridade da maiêutica na dinâmica de ensino/ aprendizagem mútua vivida no questionamento comum do mundo e na construção da autoridade legítima.

A desestruturação do poder legítimo é a expressão da repressão e do autoritarismo, é a

escravidão do outro a si, manifestação da relação de domínio do outro, presente tanto na esfera familiar e doméstica como em diferentes contextos institucionais de poder (escola, polícia, comércio, mídia, igreja). É a desestruturação do poder simbólico da proteção do adulto e do adulto pai/parente, desestruturação dos referenciais culturais da família como formadora da identidade, da socialização e mesmo da ideologia da convivência familiar. Ressalta os valores do machismo, do patriarcalismo, da inferioridade de gênero, da idade do patrimonialismo do outro e a ausência de superego, controle de si, que podem ser mesmo predominantes em áreas de garimpo ou em grupos de “turistas sexuais”.

Num processo contraditório, a luta pela implementação do direito, da proteção às crianças e adolescentes e do incentivo a sua autonomia e aprendizagem é uma luta ideológica, cultural, simbólica contra esses valores citados e uma luta pela mudança das condições de vida. Essa luta implica também a construção da “cultura do castigo e da punição” aos agressores e o fim da impunidade dos abusadores. A figura de parente, pai, chefe de família não deve ser motivo para escusas e tolerâncias com o abuso ou a exploração sexual de crianças e adolescentes. A lei deve criminalizar as agressões, os assédios, os abusos, a exploração e criar mecanismos para que sejam responsabilizados os pais, padrastos e agentes do Estado, no exercício ou não de suas funções que venham a praticar essas violações. O poder de pai não anula o outro como poder ser e ser de poder. Ao contrário, só se legitima ao construí-lo nos limites dos padrões civilizatórios dos direitos humanos, incluindo a sexualidade responsável.

9 Notar que a aprendizagem é um processo que envolve também os adultos.

A sexualidade humana é ao mesmo tempo, estímulo sexual, orientação sexual, o prazer

sexual que se constróem na relação entre as pessoas num processo simbólico, cultural, político 10 , ideológico. O amor é inerente a esse processo. Não pretendemos comentar todo peso que esta pequena palavra representa. Bruckener e Finkrielkaut 11 salientam que o

discurso da liberação sexual culpabilizou o amor enquanto vivência e o tornou fora de moda enquanto escrita. O amor implica, mas não se confunde com a libido, articulando a relação sexual num gesto humano civilizatório. Para alguns é até mesmo, divino. As relações amorosas entre adultos visam à expressão mútua de seus desejos sexuais, mas as entre adulto e criança não visam à libido do adulto e respeitam a da criança. A relação da sexualidade do adulto com a da criança está perpassada pelo imaginário e pelo projeto civilizatório da relação adulto/criança, pais e filhos. É pois fundamental a discussão da sexualidade e do amor na sociedade contemporânea para se saber escutar, entender e transformar as suas manifestações. A questão da violência intra-familiar e comercial envolve, pois, a discussão do discurso e da prática da sexualidade na sociedade contemporânea, para passarmos do debate do abuso à do uso da sexualidade e assim discutir violência intra-familiar e não violência doméstica.

A chamada violência doméstica é equivocadamente definida pelo “locus” onde se realiza: a

casa. Em realidade ela é resultado de relações de poder, de “podres poderes”, empregando uma expressão de Caetano Veloso. Esse poder não se expressa somente no uso da força de adulto, de mais velho, mas também pelas artimanhas da sedução, da persuasão e do uso do imaginário, de tal forma que a criança vitimizada pareça uma preferida. Ela é convidada a dormir com o pai, quando assim é o caso, o que se lhe afigura como protetor, socializador. A vitimização inverte a relação de proteção em relação de prejuízo para o outro, causando-lhe trauma.

O desmonte dessa violência e a construção de uma cultura amorosa da criança e de

garantia de seus direitos à sociedade implica denunciar permanentemente a quebra do respeito, da proteção e da construção das relações de trocas afetivas e de aprendizagem e

também implica coibir os abusos, enfrentar as ameaças e os segredos, proteger as vítimas e

as testemunhas. Estas ações, no entanto, não se inscrevem na crítica do imaginário do

segredo. Reforçam a cultura de que existem apenas alguns desvios individuais de conduta

de acordo ao paradigma da patologia sexual causadora do abuso. O paradigma da crítica

cultural, que aqui estamos preconizando, aliada à critica da desigualdade, significa a crítica

de um modo de viver a relação social e a relação sexual pela dominação, pela discriminação

e pela exploração.

As políticas sociais, como já ficou evidenciado no Seminário de Políticas Públicas, realizado pelo CECRIA com apoio do Ministério da Justiça, em setembro de 1997 12 , as políticas de intervenção não se restringem ao binômio denúncia-repressão. Precisam estar garantidas em lei e em serviços do Estado para proteger as pessoas vitimizadas, punir os agressores, prevenir os abusos, discutir a sexualidade, assegurando à criança seu direito à autonomia, à aprendizagem, a desenvolver a apropriação do seu próprio corpo, numa sociedade e num Estado de direitos, com acesso a todas as políticas sociais básicas como educação, saúde, habitação, lazer e renda mínima. Criança é cidadão. O Estado deve ainda, assegurar facilidades para a denúncia e a punição dos agressores.

As organizações não - governamentais podem participar dos serviços prestados, se articularem como canais de denúncias, em defesa de direitos das crianças e adolescentes,

10 Aliás, bem demarcado por Reich.

11 Ver BRUCKNER, Pascal e FINKRIELKAUT, Alain. Le nouveau désordre amoureux. Paris, Seuil, 1977.

12 O relatório do Seminário está em fase de redação final.

desenvolvendo, principalmente, um trabalho educativo da própria sociedade na informação

e prevenção da violência intra-familiar. O apoio e a realização de pesquisas sobre as incidências e as particularidades da questão são indispensáveis para aumentar o conhecimento sobre esta temática.

A violência intra-familiar não é, em si, determinante do ingresso da criança e da adolescente

na rede de prostituição, 13 mas é uma das mais importantes dimensões de vulnerabilização.

A rede de exploração comercial está articulada à rede familiar fragilizada pela pobreza e

pela violência e por outras formas diferentes de “ruptura da trajetória familiar e social” 14 como desemprego, separação, migração, mortes, disputas. A exploração sexual é uma violência sistemática que se apropria comercialmente do corpo como mercadoria para auferir lucro. Mesmo inscrito como “autônomo” sem intermediários, o uso (abuso) do corpo em troca de dinheiro configura uma mercantilização do sexo e reforço dos processos simbólicos, imaginários e culturais machistas, patriarcais, discriminatórios, autoritários aqui analisados. Essa “imagem de marca”, parafraseando o moderno marketing, não é só característica das zonas de garimpo, mas de modernas redes que oferecem nos anúncios “corpinho de adolescente”, “cara de criança”, “loirinha”, “moreninha”.

A exploração sexual comercial de crianças e adolescentes pelas redes organizadas

O combate e o desmonte 15 da exploração sexual de crianças e adolescentes pelas redes e

pelo crime organizado não pode estar, assim, dissociado, do combate e desmonte da

violência intra-familiar (física, psicológica, sexual, social), na maioria, praticado dentro dos lares. A exploração sexual comercial de crianças e adolescentes não se configura, em geral, como uma relação individual de um agressor ou explorador. Ela se constitui em rede,

na

busca de clientes para um mercado do corpo, sem a opção de quem é usado, na busca

do

lucro, com a sedução do prazer. Ela desconstrói e destrói as relações de proteção, de

direito e aprendizagem da autonomia, pela intermediação do corpo e mercantilização da infância. O corpo da criança e do adolescente se transforma em valor de uso e em valor de troca em âmbito nacional ou internacional.

O mercado não é, pois, comandado por uma mão invisível. Aí se formam redes,

organizações, agentes de exploração do corpo para se obter lucro ou dinheiro sob diferentes formas: compra e venda de crianças, leilões de virgindade, pornoturismo, bordéis, tráfico, pornografia. Usam-se hotéis, motéis, agências de turismo, rede de tráfico, Internet, “agentes

da noite”, centros de diversão, comércio de saunas e massagens, pontos de bares e restaurantes, funcionários de empresas, policiais. As redes envolvem grupos de aficionados

ou viciados, de pedófilos, não raro de altas camadas sociais.

As pessoas vitimizadas pela exploração, mesmo obtendo algum dinheiro, perdem a autonomia, o direito sobre si, a decisão sobre seu corpo e seu destino, com conseqüências sobre seu equilíbrio psicossocial, sua saúde, sua educação. A prostituição, para alguns especialistas, não é vista como trabalho e sim como escravidão até mesmo para adultos. Para as crianças e adolescentes, representa, de fato, uma forma de escravidão, pois estão envolvidas numa relação de opressão da qual é difícil escapar. Um dos mecanismos é o constante aumento de sua dívida para com o explorador.

13 Ver, por exemplo, a pesquisa feita no Pará por SILVA, Anaclan; DIAS, Luís Carlos de C; HAZEU, Theodoor e

NASCIMENTO, Maria Antônia. Prostituição e adolescência - prostituição juvenil no interior do Pará - Trombetas e os garimpos do Vale dos Tapajós. Belém, CEJUP, 1997.

Política, Sociedade, Família e Criança. Relatório de Pesquisa, Brasília, UnB,

14 Ver FALEIROS, Vicente de Paula (coord).

Deptº de Serviço Social, 1988. 15 Conceitos mais adiante explicitados.

O combate à violência e seu desmonte

À violência, em geral, se responde com mais violência, à violência considerada ilegítima,

opomos a violência fundadora, ligada, como assinala Girard, ao sacrifício da vítima expiatória 16 ou a violência legitimada do Estado, consubstanciada no aparelho repressivo da polícia, da justiça, da ordem, do castigo. Esta prática está presente no dia a dia das escolas, das organizações empresariais, das prisões, dos hospitais para reprimir “o desviado”, “o anormal”, “o errado”, “o anômalo”.

O combate à violência intra-familiar e da exploração sexual de crianças e adolescentes

implica responsabilização legal dos envolvidos, a denúncia, a declaração formal, a instauração do devido processo e o julgamento. Os aparelhos policial e judiciário precisam atuar, pois, na construção de uma cultura cívica da punição legal em oposição à cultura da impunidade, da chacota e desmoralização das denunciantes, do descrédito dos depoimentos de crianças e adolescentes e das pessoas pobres. A cultura da cidadania precisa se inculcar no aparato policial e judiciário, segundo a fórmula: lei igual para todos. Essa construção cultural da cidadania não significa a troca da prisão do acusado por uma

paz de consciência, ao menos por duas razões: as prisões pouco têm contribuído para recuperar infratores e, em segundo lugar, porque não foram modificadas as raízes da problemática, sem romper o ciclo de produção do mesmo tipo de situação. O binômio denúncia/repressão de casos exemplares “deixa como dantes o quartel de Abrantes”, isto é, sem questionar as raízes da desigualdade social e do autoritarismo das relações sociais.

A pobreza, como vimos anteriormente, e é bom reforçá-la, não é o determinante da

violência, mas em suas entranhas gesta-se um processo cumulativo de fragilização social 17 que condiciona a trajetória de grande número de crianças e adolescentes privados de comida, de casa, de proteção, de escola, com acentuação das relações violentas intrafamiliares, também facilitadas pelo alcoolismo e pela promiscuidade, pelo desemprego e pela frustração social.

A violência, segundo Wiewiorka 18 “não é a mesma de um período a outro”, assinalando que

a violência contemporânea situa-se no cruzamento do social, do político e do cultural, do

qual ela exprime correntemente as transformações e a eventual desestruturação. Ela parece constituir o avesso do político enfraquecido, a marca da pane do Estado. Além da violência política, segundo o autor, vivemos violências da mutação da sociedade, que trazem a marca do individualismo moderno, com a decomposição dos princípios de ordem.

A violência infrapolítica cresce como instrumento de solução de conflitos, mas é também

“uma forma da perda, de déficit ou ausência de conflito, ou seja, a impossibilidade para o ator de estruturar sua prática em uma relação de troca mais ou menos conflitiva”. (p.37)

Desta forma, a violência, hoje, se situa num processo de transformação dos referenciais de vida de obediência à tradição, aos mais velhos, aos costumes estabelecidos pela aceitação

da ordem. Novos referenciais são construídos pelos apelos de marketing, de consumo, de

expressão da libido e do prazer, do indivíduo, da competitividade, da solução do conflito pela

força do “herói”, principalmente através da TV, como assinalamos alhures 19 . Essas referências apelam a um agir massificado, substituindo a imagem de si, a construção de sua

16 Ver GIRARD, René. A violência e o sagrado. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1990.

17 Ver meu texto “Desigualdades sociais e a questão da exploração sexual de crianças e adolescentes”,

in

“Anais do

Seminário contra a Exploração Sexual de crianças e adolescentes nas Américas”. Brasília, CECRIA/MJ, 1997.

18 WIEWIORKA, Michel. “O novo paradigma da violência” in Tempo Social 9(1):5-41, São Paulo, USP, 1997.

19 Ver FALEIROS, Vicente de Paula. “As crises, as sociedades e os grupos” in Anais do IIIº Congresso Nacional da SOBRAP, Brasília, outubro de 1993, p. 12-15.

identidade de sujeito, pela imagem de marca. Ao invés de se colocar como sujeito de relações sociais significativas afetiva, familiar ou socialmente, as pessoas se colocam como portadoras de uma marca, seja Nike, Benetton, Mercedes,Coca-Cola ou outra qualquer.

A perda de identidade própria, coletiva e individual, se enraíza na perda de poder sobre si.

O poder de formar referenciais não pode ser atribuído somente à TV, mas à religião, à

difusão e aceitação do mundo mágico de anjos, demônios, forças ocultas (assuntos abordados em livros denominados de “auto-ajuda” e muito vendidos atualmente), como também à força dos grupos, entre eles as gangues. Os “novos” referenciais refletem uma descrença na “civilização do progresso” assim como no Estado, na solidariedade, com valorização do mercado e da competição, embora se saiba que o mercado esteja acentuando a polarização da sociedade em dois grupos: poderosos, com recursos de dinheiro, informação, segurança, educação e despossuídos com pobreza, desemprego,

desinformação, desqualificação.

As formas instituídas de se resolver os conflitos como a polícia, a Justiça, os tribunais, os juizados de paz, as reuniões familiares, as normas de vizinhança, a ação dos pastores e padres estão ficando desacreditadas. A violência é o meio mais explícito, imediato de se impor. O controle dessa violência pelo Estado está sendo feito com o inchaço das prisões, a implantação da “tolerância zero” em zonas centrais das cidades, policiamento ostensivo, controle ótico, aumento de multas. Assim se dá o “bom combate” à violência pela ordem estabelecida que se reforça.

O desmonte da violência desagregadora é um processo mais complexo que implica

rediscutir valores, o processo civilizatório, o papel da mídia, a relação entre adultos e crianças, para afirmação da relação eu-outro, identidade-alteridade na dinâmica de um pacto de ética e dignidade. A construção da identidade de sujeito da história implica participação na vida familiar e coletiva para definir projetos comuns e projetos sociais, para exercer sua voz, buscar saídas, trabalhar alianças.

A atitude crítica, que significa desconstrução do consenso estabelecido, do imaginário

autoritário, do silêncio sobre a sexualidade, precisa ser construída na destruição do poder simbólico da TV, do consumo exacerbado, da naturalização da sociedade. A TV é um poderoso instrumento de criar consensos momentâneos, de estilo de campanhas, como também de formar a razão entre o bem e o mal. Seus programas interativos do tipo “você decide” muitas vezes reforçam a opinião dominante ou de quem usa o gatilho rápido do telefone para responder. A contraposição de posições ao que se considera consenso, ou seja, a construção do dissenso deve ser articulada à discussão de um padrão ético para as emissoras e para vida política. Se os códigos implícitos perderam vigência, é preciso formalizar códigos de conduta em cada escola ou local de trabalho, como estão fazendo movimentos de mulheres para combater o assédio sexual e os movimentos negros para lutar contra a discriminação. A produção da sociedade é obra do próprio sujeito, o que define a constituição da modernidade, em oposição à visão do homem como obra exclusiva do destino. A naturalização da sociedade, tal como está, convém ao bloco dominante e à manutenção da cultura autoritária, discriminatória e machista.

Desmontar a violência intra-familiar acarreta, não apenas, contar o número de vítimas e encaminhar vitimizados, numa circulação “pingue-pongue” de um lugar para outro, de um profissional para outro. A mudança de paradigma do tratamento para o paradigma de redes tem como conseqüência a construção da integração estratégica de atores na

implementação da garantia de direitos. Pesquisa citada por Hoefnagels e Baartman 20 nos Estados Unidos em 1987 junto a 3352 famílias com problemas de maus-tratos ou abuso sexual e referente a 79 programas mostra que, numa proporção de 30 a 47%, os abusos continuavam a existir durante o tratamento. Numa proporção de 20 a 58% das famílias, os abusos poderiam continuar mesmo depois do tratamento. A eficácia dos tratamentos realizados tem seus limites podendo chegar, no máximo a 53%. Também não basta apenas responsabilizar o abusador como criminoso, pois a reincidência pode acontecer.

A prevenção primária, secundária e terciária são imprescindíveis, necessitando ser

consideradas de acordo ao paradigma de redes. A prevenção primária está ligada ao impedimento de um determinado ato, e passa pela informação e fortalecimento dos sujeitos em situações de vulnerabilidade e atuação junto aos abusadores pela responsabilização e terapia. A prevenção secundária, na ótica de redes, implica atuação junto à família,

profissionais, instituições como escolas e hospitais para mudar relações de poder no desmonte da violência. A formação de equipes, a discussão de situações, a articulação de organizações fazem parte desse processo. A prevenção terciária implica articulação de redes de influência estratégica na sociedade como grandes empresas, sindicatos, agências governamentais de alto nível para ação junto à cultura, às redes poderosas do tráfico de

drogas e de pessoas, à mídia para se questionar o poder cultural, simbólico, imaginário e econômico. A legislação precisa encaminhar novas propostas, como a Lei do deputado Cafu, em Brasília, que exige ser estampado na página de anúncios de “acompanhantes” que

é crime a exploração sexual de crianças e adolescentes. O respeito ao corpo do outro e a

questão da sexualidade precisam ser trabalhadas na mídia, proibindo o uso da pornografia

com crianças e adolescentes e combatendo o turismo sexual de forma radical.

Nesse contexto a formação e a metodologia do trabalho profissional precisa ser repensada.

A formação deve incluir a temática da sexualidade, como consideramos acima. Inclui-se

ainda a discussão da sexualidade na cultura brasileira e a análise da relação entre violência

e sexualidade. A metodologia de trabalho profissional implica uma crítica dos paradigmas

do

isolamento de problemas, da patologização do indivíduo, e a articulação dos paradigmas

de

redes, de proteção integral e de trabalho cultural, conforme situamos nesse trabalho. 21 A

informação, a discussão do problema na mídia, na escola, e o desenvolvimento de trabalho

comunitário, formando-se redes de proteção à criança e ao adolescente (ao invés de redes

de exploração) precisam ser articuladas pelo poder público com a participação efetiva das

ONG’s e da sociedade em vários níveis de intervenção, global e particular, federal, estadual

e municipal.

Ao Estado, à família, à sociedade cabem discutir e trabalhar contra a exploração sexual de

crianças e adolescentes, não aceitando espaços onde ela se pratique. Ao Estado cabe punir os traficantes e intermediadores da exploração sexual de crianças e adolescentes. Ao Estado cabe, inclusive, uma articulação internacional para demolição das redes de

exploração. A proteção às pessoas vitimizadas, seu atendimento resolutivo e inserção profissional e social é tarefa da sociedade, do Estado e das organizações não- governamentais.

Os diferentes atores envolvidos na questão, como juizes, policiais, técnicos, burocratas precisam colocá-la em sua agenda pública. A violência intra-familiar e a exploração sexual

de crianças e adolescentes não são apenas uma questão policial, mas, fundamentalmente,

20 HOEFNAGELS, Cees e BAARTMAN, Herman.

55(1&2):61-64, Mons, 1996. 21 Ver também FALEIROS, Vicente de Paula. Estratégias em Serviço Social. São Paulo, Cortez, 1997.

“Réflexions sur la prévention au Pays Bas”

in Les Politiques Sociales,

uma questão social, política, econômica, cultural, ideológica, como vimos considerando nesse texto. Para isso, é preciso que a garantia dos direitos da criança e do adolescente entrem na agenda pública como uma questão maior, de cidadania, deixando de ser uma questão “menor”, afeta a sujeitos incapazes e de “correção de abusos”. Nesse sentido a construção de indicadores de situações, processos e resultados pode vir a ser uma contribuição significativa no combate e no desmonte da violência intra-familiar e da exploração sexual de crianças e adolescentes.

A construção de indicadores sobre a violência

A construção de indicadores é uma tarefa transdisciplinar, como aliás a própria intervenção

na questão que estamos analisando. Esta construção não está isolada de uma determinada concepção da questão e do processo de articulação em que será inscrita.

Cliche define indicador como “a medida estatística de um conceito ou de uma dimensão de um conceito ou de uma parte deste, fundada numa prévia análise teórica e integrada a um sistema de medidas semelhantes, servindo para descrever o estado da sociedade e a eficácia das políticas sociais”. 22 Pierre Cliche acentua o caráter quantitativo da construção de indicadores, mas articulada a uma determinada concepção teórica, o que a distingue de uma simples estatística social. Esta construção, portanto, não é neutra, implica aceitação de um determinado paradigma.

O autor opõe, na construção de indicadores, a escola normativa que parte de valores, à escola objetiva que se baseia na observação física da situação e à escola subjetiva ligada à percepção da situação pelos sujeitos. Lembra também que os indicadores podem servir para a descrição de situações, contabilidade social, definição de prioridades, avaliação de políticas e planificação de ações.

É importante, no entanto, ressaltar que a construção de indicadores é um processo teórico-

prático complexo. Não basta levantar características isoladas de uma temática qualquer, sem os devidos fundamentos e articulações.

A construção de indicadores a partir da garantia de direitos da criança e adolescente, como

propõe o sistema SIPIA do Ministério da Justiça, parte do paradigma da proteção integral e considera violência qualquer violação dos direitos previstos no Estatuto da Criança e do

Adolescente. O registro das violações descritas servirá de meio de contabilidade estatística

e de diagnóstico da situação da criança e de parâmetro para se avaliar o paradigma

civilizatório de garantia de direitos. Não leva em conta, entretanto, os processos de trabalho, as políticas, os projetos, os orçamentos. A proteção integral é, ao mesmo tempo, um processo e um resultado. Necessita, pois, de indicadores.

Para a elaboração de pesquisas sobre violência existem conceitos ancorados nas relações de poder que poderão ser detalhados a partir dos estudos em profundidade das situações intrafamiliares e de exploração. Combina-se, ao mesmo tempo a análise da situação e a manifestação da subjetividade dos abusadores e vitimizados. Logo, contribui-se, de forma indispensável, para o trabalho profissional. Hoje pode-se dispor de trabalhos, como, por exemplo o de John Sebold 23 , que trazem, do ponto de vista subjetivo, as manifestações do comportamento e dos sonhos e tensões psicológicas das crianças e adolescentes vitimizados do sexo masculino. O trabalho clínico trouxe contribuições importantes para a

22 CLICHE, Pierre. Indicateurs sociaux: conception et élaboration. Québec, Ministère des Affaires Sociales, 1975. 23 SEBOLD, John. Indicators of child sexual abuse in males. Social Casework, 68 (2):75-80, fev. 1987.

identificação do vitimizado, o acompanhamento de sua trajetória e seu processo de superação do trauma.

Numa perspectiva de interação sujeito, meio familiar (meso ambiente) e sociedade (macroambiente), Sílvia Koller 24 tem uma contribuição à construção de indicadores de situação de risco, que podem ser considerados objetivos e subjetivos. As situações de risco incluem a informação da família, seu grau de cultura, a forma de relacionamento com a criança (repressão/negociação), de acordo ao nível em que se coloque a questão. Em referência ao nível do sujeito, a criança, a autora considera como “fatores de risco”, a capacidade de reação da criança, seu nível de entendimento, sua educação. Trata-se de uma concepção sistêmica integrada.

A pesquisa de Pryor, aqui citada, contribui para uma “caracterização” do abusador, não

analisando, contudo as relações intrafamiliares. O surpreendente é que esse abusador pode ser qualquer um, pois se parece com o homem comum: são, na maioria, casados, com religião, empregados, de várias profissões. Tem, no entanto, idade maior que a da vítima, é reincidente, tem preferência por meninas, tem envolvimento há mais de dois anos (40%), e, na maioria, é próximo, por parentesco, à pessoa vitimizada.

Para a elaboração de políticas sociais nessa área é preciso caminhar no sentido de articular

o combate à violência com o desmonte da violência. O combate pode ser medido pelo

número de abusadores responsabilizados, pela diminuição das denúncias, pelo número de

casas de prostituição fechadas, pelo número de vitimizados atendidos com resolutividade.

O desmonte da violência é um processo complexo que envolve pessoal formado, equipes

articuladas, redes construídas, cultura autoritária modificada, crianças e jovens realizados e

felizes, sexualidade responsável, famílias responsáveis no cumprimento de suas funções de formação da identidade, de proteção e socialização.

Os indicadores devem, enfim, permitir o acompanhamento profissional e político da presença da violência, bem como do processo e dos resultados do combate e do desmonte da violência, enquanto atendimento, garantia de direitos, responsabilização, prevenção primária, secundária e terciária no paradigma de direitos, de redes e de mudança cultural, do imaginário e da ideologia, e com índices claros da resolutividade do trabalho.

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2 - Violência intra-familiar:

um estudo preliminar

MARIA LÚCIA PINTO LEAL 25

Farei uma breve análise da violência intra-familiar e os seus impactos na construção do sujeito criança, a partir das relações intra e extra familiar.

A violência no contexto familiar não é uma questão nova, ela atravessa os tempos e se

constitui em uma relação historicamente construída a partir das relações de poder, gênero,

etnia e de classe social.

Em outras palavras, a violência intra-familiar é uma expressão extrema de distribuição desigual de poder entre homens e mulheres, de distribuição desigual de renda, de discriminação, de raça e de religião.

Como a violência intra-familiar é um fenômeno que perpassa todas as classes sociais, é importante usar o conceito de classe social para identificar as diferenças e particularidades que existem no trato da questão. Por exemplo, citando Brandão (l997), nas famílias de classes trabalhadoras urbanas, a violência física é predominantemente masculina e o enfrentamento dessa questão pelas mulheres, isto é, a resolução do conflito no âmbito familiar se dá via notificação no juizado, a partir do pedido de ajuda à polícia. Entretanto, somente uma minoria manifesta concordância com a possibilidade de prisão do acusado.

A denúncia do parceiro à polícia parece significar para as vítimas, um certo rompimento, de

sua parte, com a reciprocidade familiar. Quando as mulheres procuram ajuda da polícia não buscam uma proteção específica àquele delito denunciado, mas a restauração de toda uma

ordem que confere sentido, não só naquela relação, mas à sua existência social.

Em função da desordem familiar provocada pela violência masculina emerge na família um conjunto de práticas violentas com novos atores, isto é, o pai/padrasto, que desencadeou o processo, agora não é o único a cometer atos de violência, mas outros elementos da família, exemplo: mãe, filhos e outros, criando-se um clima de violência.

A repercussão dos conflitos conjugais, “ganha relevo nas narrativas femininas: a

reprodução doméstica ameaçada, filhos traumatizados, revoltados ou com dificuldades no desempenho escolar dificuldades no exercício das atividades profissionais ou na obtenção

de empregos”. (Brandão 1997)

Baseado nessa análise, a violência intra-familiar constitui-se historicamente em fator desencadeador de outros tipos de violência, tais como: física, psicológica, sexual e etc., a qual tem sido corroborada por estudos apresentados na literatura médica, pela pediatria e psicanálise, quando identificavam o abuso sexual e maus-tratos de crianças e adolescentes

na família.

De acordo com Donzelot, no século XVIII, os médicos já identificavam a violência intra- familiar através de sua intervenção junto às crianças de famílias burguesas, orientando as mães sobre os casos de epidemiologia e maus-tratos.

25 Professora de Serviço Social da UnB, Mestre em Comunicação e Doutoranda em Serviço Social/PUC/SP.

Essa relação médico/mãe, nas famílias burguesas, transformou a hegemonia da medicina popular das comadres e das nutrizes, em uma intervenção clínico/comportamental o que propiciou o fortalecimento da relação mãe/filho.

A violência contra crianças no âmbito familiar, se amplia para a esfera pública no final do

século XIX e início do século XX, através da institucionalização da “disciplina” na educação, sendo o conceito de disciplina entendido como repressão, controle e punição das crianças. Dessa forma, a violência perpassa as relações familiares e sócio-institucionais.

Nessa perspectiva, a política de educação, assistência, saúde pública (higienista) e segurança, tornam-se instrumentos de controle, punição e disciplina, favorecendo o desenvolvimento de práticas violentas ou fortalecendo a violência já existente no âmbito familiar e/ou institucional.

A cultura do silêncio é uma estratégia utilizada para manter o clima de violência intra e extra-

familiar, a qual é fortalecida pelas práticas coercitivas, por pressões psicológicas, físicas, morais e religiosas.

Foi o discurso médico/social/legal que apontou a quebra do silêncio, como estratégia fundamental para desmobilizar as práticas de violência cometidas contra crianças e adolescentes, ao fazer uma releitura do conceito de maus-tratos (a proteção e a criminalização).

De acordo com Marceline Gabel, a questão fundamental abordada pela psiquiatria foi a descoberta de que a ocorrência do abuso sexual na família estava relacionada com a questão da sedução, da culpa e do segredo.

A psicanálise investiu no estudo da sedução, através da teoria edipiana, em que a vítima de

incesto e de abuso sexual, em algumas circunstâncias, se identifica com o pai criminoso e não ousa denunciar o que ela mesma não sabe que é crime.

Ela é também condenada ao silêncio pela mulher do pai incestuoso, uma mulher que na maioria das vezes é cúmplice. Isso fez com que os autores relacionassem o segredo e a culpa que giram em torno da violência sexual, e, sobretudo da violência intra-familiar, com a dificuldade de revelação e de retratação.

Do ponto de vista clínico/comportamental, quando a criança abusada sexualmente rompe o silêncio e transforma sua fala intima em fala social/médica/jurídica, muita vezes sua fala é vista como uma fantasia ou mentira.

Por outro lado, quando ela é ouvida, o processo de intervenção é dificultado, em função das relações adultocêntricas, questões burocráticas, cultura conservadora das instituições, e de suas práticas preconceituosas, discriminatórias e de controle em relação à sexualidade, gênero, facilitando a retratação da figura materna, em relação à denúncia feita contra o agente violador.

Como a retratação é fortalecida dentro e fora da família, por tratar-se de uma questão de foro intimo e privado, prevalece a mentalidade conservadora na qual a criança é punida duplamente.

Desta forma, apesar de a intervenção ser feita de forma interdisciplinar, ela se reduz a uma ação assistencialista, particularizada no indivíduo e no máximo na família, em contraposição

com a noção de direitos. Torna-se necessário portanto, ampliar essa visão a partir dos aspectos culturais e estruturais, para melhor compreender o fenômeno e viabilizar novas formas de intervenção.

Isso permitirá repensar o conceito de maus-tratos e ampliá-lo, considerando-se a criança

sujeito de direitos, garantindo não apenas o direito individual, mas o direito coletivo, no qual

se constrói uma concepção de proteção e defesa, onde o sujeito, a sociedade, a família e as

instituições são co-partícipes do processo de transformação das relações que geram a

violência.

A partir da metade do século XX as considerações sobre a violência contra mulheres,

crianças e adolescentes sofreram substanciais modificações em função das transformações que ocorreram nas relações da família com a sociedade, no que diz respeito às questões econômicas, culturais, sociais, políticas, do papel da mulher na sociedade contemporânea, especialmente na organização das mulheres através dos movimentos feministas, na luta pela igualdade com os homens; na questão da sexualidade, nas relações de trabalho e na luta contra a violência.

Essas transformações refletiram na reorganização das funções, dos papéis e dos valores dentro da família, a partir das questões de poder, gênero, etnia, sexualidade e de direitos, o que contribuiu para o redimensionamento dos conceitos sobre abuso, exploração e maus- tratos de crianças e adolescentes.

Nesse contexto, a violência doméstica de natureza física e sexual contra crianças e adolescentes passou a ser contemplada a partir da Constituição Federal de 1988 - e no ECA-1990. Art. 227 da Constituição Paulista de 1989 e Art. 5 - ECA nos Artigos 3 e 5 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1988) e reproduz em frente do 9º Princípio da II Declaração Universal dos Direitos da Criança (1989) a qual contempla explicitamente”

todas as formas de violência física ou mental, abuso ou tratamento negligente, maus-tratos

ou Exploração, inclusive abuso sexual (

(Art. 19.1) como práticas que podem ocorrer no

próprio lar e contra as quais a criança deve ser protegida. (Azevedo, 1997)

)

ECA:

A vitimização doméstica (física, sexual, psicológica) é uma forma de negligência ( exploração, violência, crueldade e opressão contra crianças e adolescentes.

)

Para uma melhor compreensão da violência intra-familiar é necessário um estudo aprofundado do tema, a partir das questões abaixo relacionadas, a fim de permitir a construção de indicadores.

Estruturais:

pobreza, desemprego, exclusão, novas formas de pobreza, globalização e diversidade, dentre outros e outros;

Culturais:

gênero, sexualidade, etnia, ordem/desordem, controle e poder;

Psicossociais:

aspectos comportamentais: alcoolismo, drogadição e outros;

Valores:

morais, religiosos e éticos;

Legais:

proteção - políticas públicas; defesa - mecanismos legais.

O conjunto de indicadores que tem sido utilizado para diagnóstico ou para a investigação da

violência cometida contra criança, (abuso/violência física e etc.), foi elaborado a partir de notificações clínicas e comportamentais, fornecidas pelas instituições médicas, de assistência e pela justiça.

Nesta direção, os indicadores devem ser construídos com base na relação sujeito/família/sociedade, considerando-se as questões estruturais, culturais, psicossociais, legais e de valores, estabelecendo uma relação entre os macros e micros indicadores, para ampliar a compreensão do fenômeno da violência, visando a prevenção, intervenção e defesa, a partir das experiências, das pesquisas dos instrumentais e da bibliografia existentes.

Para se construir os indicadores de violência intra-familiar faz-se necessário uma reflexão sobre algumas dificuldades encontradas na prática da intervenção, proteção e defesa, por exemplo:

como identificar crianças que são abusadas sexualmente e também aquelas que apenas presenciam o abuso?

como estabelecer uma relação entre a violência que ocorre dentro de casa e fora dela?

o conceito de violência intra-familiar permite entender a relação existente entre a violência doméstica e a sócio-institucional?

como identificar as várias formas de violência que ocorrem intra e extra-familiar?

como trabalhar com os diferentes tipos de agressores dentro da família? (Ex. Coriac)

identificar o perfil da família (quem são os agressores).

identificar o território onde está situada a família e os fatores sócio-institucionais que legitimam a violência;

quais as estratégias que devemos utilizar para facilitar a denúncia e proteger as vítimas?

Na tentativa de responder essas questões, sugerimos a construção de alguns macro- indicadores, os quais relacionamos abaixo, para compreensão, explicação e enfrentamento da violência intra-familiar e sócio-institucional.

análise de situação (violência)

perfil da criança violada, do violador, da família e do território

políticas sociais

capacitação

avaliação

mobilização

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3 - Definir e medir o que são abusos sexuais

1. Alguns pontos a ponderar

RENATO ZAMORA FLORES 26

A cultura a que pertencemos, de tradições judáico-cristãs, é uma das mais sexualmente proibitivas conhecidas, em especial, em termos legislativos. Por exemplo, o incestus jure civile, que regulava, no império romano, as regras de relacionamento sexual entre membros fora da família nuclear, chegou a incluir proibições entre parentes do 6º grau (Thornhill,1990a). O Quarto Concílio de Latrão, realizado em Roma em 1215, apenas aboliu proibições de casamento para parentes do quarto grau em diante devido à dificuldade de identificá-los no cotidiano, já que poucos indivíduos conseguiam identificar seus bisavós e, pior ainda, detalhes de sua vida reprodutiva. (Renshaw, 1984; Cohen, 1991)

Não é, certamente, a cultura mais restritiva. No Vietnã imperial, por exemplo, eram

proibidos casamentos entre pessoas de mesmo sobrenome, com primos descendentes dos tios paternos da mãe, com primos descendentes do avô materno, com descendentes em 1º

e 2º graus de sua mulher, com as irmãs do cunhado, e qualquer um da linhagem paterna,

por consangüinidade ou afinidade. O concubinato era proibido ainda com a concubina do pai ou do avô e com a mulher de tios ou irmãos ou com qualquer parente da mãe. (Thornhill, 1990a)

Concomitantemente, nossa mesma cultura foi capaz de ignorar, por séculos, a existência de fenômenos como o abuso e violência sexuais contra crianças e adolescentes, extremamente danosos ao desenvolvimento psicossocial e que geralmente ocorrem no ambiente doméstico, mesmo quando este atingia cerca de 20% das mulheres com menos de 18 anos. Ainda hoje, as dimensões deste fenômeno são desconhecidas da maioria.

“Para quem imaginava que a conversa sobre abuso sexual de crianças era assunto de americano indignado diante de megaescândalos como o que envolveu Michael Jackson, uma notícia: começam a despontar sinais de que o problema é sério também no Brasil.” 27

Esta classe de fenômenos, abusos sexuais contra crianças, produz, em muitos membros da comunidade, sentimentos de raiva e desprezo que fazem com que diversos agressores sexuais quando descobertos, sejam agredidos de maneira estremada, linchados, induzidos

a suicídio e, já quase uma lenda urbana, currados nos presídios. Com freqüência, vítimas, testemunhas e familiares referem-se aos agressores sexuais como pessoas que perderam a sua humanidade, transformados, por seus atos, em espécimes de monstros apavorantes como os que povoavam nossos pesadelos infantis.

Indivíduos acusados de violência sexual, especialmente contra crianças, quando são presos, precisam, muitas vezes, de celas isoladas para que não sejam linchados na prisão. Um estuprador de uma menina de seis anos, Romildo Doqueiro, foi atirado do 5º andar da

26 Professor de Genética Médica e membro da Comissão de Graduação do Curso de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Texto elaborado com Christian H. Kristensen (Inst. Psicologia - UFGRS) e Francisco M. Salzano (Deptº de Genética - UFRGS). 27 A carícia que destrói a inocência. Veja, 29(5):76-82, 31/01/96.

casa de detenção do complexo penitenciário de Pedra d’Água, em Vila Velha (ES), pelos outros presos, durante uma rebelião em maio de 1997.

Faz alguns anos, um músico de Porto Alegre foi acusado de abuso sexual de crianças e

recolhido ao Presídio Central. Não havia cometido os crimes de que era suspeito. Durante

a noite, com a participação ativa de policiais, foi obrigado a fazer sexo oral com outros

presos (sob a mira das armas dos carcereiros) teve suas roupas arrancadas e foi depilado, estuprado e espancado por vários colegas de “quarto”. O estresse foi tão grande que o músico, Diógenes de Lima, desenvolveu um surto psicótico e suicidou-se no Instituto Psiquiátrico Forense Maurício Cardoso, em Porto Alegre, graças a negligência da instituição, enforcando-se com sua cueca. 28

A mãe de uma de nossas pacientes, ao descobrir que o companheiro havia abusado de sua

filha de seis anos, simplesmente aqueceu água em uma chaleira e, enquanto este dormia, escaldou seu genitais com água fervendo. Outra agrediu o namorado, munida de uma grande frigideira, com tal violência que por pouco não foi processada por lesões corporais graves.

Mesmo entre profissionais, supostamente habilitados, podemos encontrar bastante emocionais:

considerações

Até

os animais irracionais defendem, não raro com a própria vida os seus filhotes,

sua prole. Aliás, é bom que se diga: dentre os animais, o único que pratica abusos

sexuais é o ser humano

No meu entender a

solução mais racional, até mais humana, [para o abuso sexual de crianças] é a

emasculação ou a castração. A sede de sua [do agressor] deformidade mental está nos seus órgãos viris. Uma vez extirpados, é capaz de voltar a ser uma pessoa útil e

O réu seria conduzido a um

não representar qualquer perigo para seus semelhantes

Ocorre que o indivíduo que vive na miséria e na ignorância

se converte num ser embrutecido, animalesco, selvagem

hospital e, dentro das técnicas cirúrgicas adequadas, seria emasculado. O processo ocorreria em segredo de justiça

29

Não é verdade que apenas na espécie Homo sapiens ocorram abusos sexuais. Eles ocorrem desde insetos até nossos primos primatas, como orangotangos e chimpanzés.

Veja-se, também, esta interessante definição encontrada em uma revista supostamente

científica:

"La agresión sexual en niñas, es un asqueroso y repulsivo delito cometido por familiares, amigos y vecinos de la victima en 75% de los casos y por desconocidos en 25% de los mismos, constituye un insulto y ultraje al recato de nuestra sociedad." (Ortega, 1986)

2. Conceitos de abuso sexual

Várias abordagens deste fenômeno são possíveis e, mais do que isso, necessárias, conforme finalidades específicas: sociais, médicas, psicológicas, jurídicas, antropológicas, etc. Por isso, os estudos e pesquisas foram tantos que, examinando-se exclusivamente a literatura científica do último século sobre o assunto, conta-se com uma quantidade de publicações técnicas da ordem de 10 3 a 10 4 .

28 Zero Hora, 16/03/95, pag 75. 29Entrevista de um juiz de direito da comarca de Cruz Alta (RS) ao jornal Correio Serrano, 16/09/90.

Um aspecto relevante a ser considerado na definição de abuso sexual refere-se a questão da relatividade cultural. Embora alguns tipos de contatos físicos mais íntimos possam ser aceitáveis em grupos com diferentes culturas e concepções acerca da sexualidade, para outros grupos, no entanto, o mesmo comportamento pode ser percebido como algo inadequado. Para um avaliador proveniente de diferente contexto social ou grupo étnico das pessoas envolvidas no caso avaliado, pode ser particularmente difícil identificar e compreender as interações abusivas (Fontes, 1993), pois a percepção do que seja um comportamento abusivo é algo definido pela sociedade, e varia tanto no espaço geográfico quanto na dimensão temporal. (Friedman, 1990)

Abuso é um termo usado para definir uma forma de maus-tratos de crianças e adolescentes, com violência física e psicológica associada, geralmente repetitivo e intencional e, por isso, praticado, mais freqüentemente, por familiares ou responsáveis pelo(a) jovem (Chistoffel e cols., 1992; Council on Ethical and Juridical Affairs - AMA, 1992). A origem deste conceito remonta a meados do século passado, com a descoberta da violência contra crianças e adolescentes nas grandes cidades. (Gordon, 1988)

Chistoffel e cols. (1992), em uma orientação técnica do National Institute of Child Health & Human Development (USA) para pesquisas de injúrias infantis, incluem o abuso sexual dentro do item violência, subcategoria de maus-tratos físicos. Dentre 17 meios de injúrias definidos (incluindo desde lesões causadas por veículos automotivos à síndrome de Munchausen infantil), encontra-se a agressão sexual.

O abuso sexual pode ser definido, de maneira bastante generalista, como o envolvimento de crianças e adolescentes — logo, em processo de desenvolvimento — em atividades sexuais que não compreendem em sua totalidade, para quais não estão aptos a concordarem e que violam as regras sociais e familiares de nossa cultura. (Glaser, 1991)

Esta caracterização inclui basicamente três conjuntos de situações:

a) história de agressão sexual com violência física na qual o (a) jovem é a vítima.

b) interação ou contato sexual (como toques, relações sexuais, exibicionismo, voyerismo, etc.) entre uma criança e outra pessoa de qualquer idade em que a participação tenha sido obtida por meios desonestos, como ameaças, coerção moral, mentiras, deturpações de padres morais e táticas similares.

c) contato ou interação sexual entre criança ou adolescente e adulto, mesmo com a cooperação voluntária, em situações definidas por lei ou costumes como crime, devido à presunção de imaturidade do (a) jovem e de responsabilidade do adulto. (Simrel e cols., 1979) Neste grupo estão incluídos os casos de exploração sexual.

Poderíamos acrescentar uma quarta situação, um pouco mais complexa e menos freqüente:

d) falsas denúncias, pois no Brasil, como nos EUA, por exemplo, as conseqüências de uma investigação de abuso sexual, especialmente aqueles ocorridos no lar, são, para a família, devastadoras, com perda de emprego, divulgação pública, processos criminais e conseqüente abandono por parte de amigos e familiares (Tyler e Brassard, 1984). Este fenômeno foi denominado de "trauma secundário induzido pelo sistema". (Orten e Rick,

1988)

2.1.

Variações sobre o tema

Praticamente todos os autores nesta área do conhecimento possuem definições próprias do que seja abuso sexual. Algumas, como a do Nacional Center of Child Abuse & Neglect (USA), dão mais ênfase ao comportamento do abusador:

Abuso sexual envolve contatos ou interações entre crianças ou adolescentes e adultos, quando a criança é usada para a estimulação deste ou de outros adultos. Também pode ser cometido por adolescente ou crianças, quando estes são significativamente mais velhos que a vítima, ou quando o abusador está em posição de poder ou controle sobre a criança. (Marchiori, 1990)

Para a ASAR, uma associação de vítimas de abusos sexuais localizada no Canadá, abuso sexual é qualquer incidente de contato sexual entre crianças com menos de 16 anos e adultos em posição de autoridade (indivíduo com poder ou controle sobre a criança por qualquer período de tempo). Inclui, mas não se limita a: solicitação de contato físico, estupro oral ou genital, forçar a assistir ou participar de ato sexual, a assistir a vídeos pornográficos, a posar para fotos eróticas, manipulação, exibicionismo, sodomia e incesto.

Esta variação nos critérios utilizados tem profunda influência nos indicadores. Ernst e cols. (1993) compararam pesquisas que se utilizaram de diferentes critérios de abuso sexual para estimar sua ocorrência populacional. Entre aquelas que se utilizavam de critérios amplos (incluir adolescentes como abusadores, assédios sem contato físico, observar fotos e vídeos) de abuso sexual, as freqüências variaram entre 51% e 16% (freqüência populacional estimada em 20%). Já entre as que optaram por critérios mais restritos (pelo menos três anos de diferença entre vítima e agressor, limites de idade abaixo de 18 anos para as vítimas ou uso de coerção física) o intervalo foi de 22% a 1 % (média estimada em 11%).

Na medida em que o conhecimento científico sobre maus-tratos na infância aumentou nas duas últimas décadas, tornou-se claro que tratava-se de mais de um fenômeno sob o mesmo rótulo (Jones & McCurdy, 1992). Progressivamente foram sendo construídas árvores cladísticas cada vez mais complexas subdividindo os tipos de ocorrências. A tabela abaixo apresenta uma proposta de classificação.

Tabela 1. 1. Negligência 2. Abuso emocional ou psicológico 3. Abuso físico 3.1.1. Intra-familiar (incesto)
Tabela 1.
1. Negligência
2. Abuso emocional ou psicológico
3. Abuso físico
3.1.1. Intra-familiar (incesto)
4. Abuso sexual
3.1.2. Extrafamiliar
3.1.3. Exploração sexual
3.1.4. Falsas denúncias

Por outro lado, estima-se que não menos de 90% dos jovens vitimizados apresentem formas múltiplas de maus-tratos. (Belsky, 1993)

Conforme salienta Flores (1997), os modelos teóricos prevêem, e as pesquisas confirmam, que a solicitude dos pais em relação aos seus filhotes seja modulada pela percepção do valor reprodutivo de cada um deles. Ou seja, o amor que os pais sentirão por seus filhos

depende de várias circunstâncias ecológicas: quanto o filhote prejudicará, eventualmente, a própria sobrevivência dos pais ou quanto a possibilidade de que leve seus genes, esperança

e sonhos adiante seja pequena ou grande e até mesmo de quanta energia e tempo já foi investido neste filho e qual é o retorno esperado.

Os principais fatores de risco para o homicídio de crianças muito pequenas são:

prematuridade, dificuldades alimentares, choro freqüente, malformações congênitas e doença crônica, todos indicadores de que talvez aquela criança não seja um investimento viável. Em relação aos genitores, pobreza, ausência de companheiro e pouca idade são igualmente fatores predisponentes. Estas características indicam que as dificuldades para criar seus filhos podem ser grandes demais para a capacidade dos pais. (Silva & Oates,

1993)

Caminha (1997) propõe, por exemplo, que a negligência e a vitimização psicológica sejam cenários constantes nas ocorrências de abusos físicos e sexuais.

Quanto aos abusos intrafamiliares quase todos os conceitos são vagos e imprecisos a começar por sua definição. Por exemplo, Henderson (1983) sugere que, em termos gerais, incesto poderia ser definido como as relações sexuais entre pessoas aparentadas o suficiente para não poderem casar-se!! Ou ainda: incesto é o crime de casar ou ter relações sexuais com pessoas que são biológicamente muito aparentadas ou consangüíneas. (Russel, 1984)

Alternativamente, podemos encontrar algumas definições mais matemáticas: incesto é o contato sexual entre indivíduos cujo coeficiente de parentesco 30 (F) seja igual ou maior que 0,25 (Moore e Ali, 1984). O National Center on Child Abuse and Neglect (USA) chama de incesto o abuso sexual intrafamiliar que é perpetrado contra uma criança por um membro do seu grupo familiar, e inclui não somente a relação sexual, mas também qualquer ato que tenha por finalidade estimular sexualmente uma criança ou usar uma criança para estimulação sexual do perpetrador ou outra pessoa. (Ranshaw, 1984)

Porém, a definição mais próxima da realidade cultural de nossa sociedade, por considerar os papéis sociais dos envolvidos, é dada por Forward e Buck (1989):

“Incesto é qualquer contato abertamente sexual entre pessoas que tenham um grau de parentesco ou que acreditem tê-lo. Esta definição inclui padrasto e madrasta, meio-irmãos, avós por afinidade e até mesmo amantes que morem junto com o pai ou a mãe, caso eles assumam o papel de pais. Se a confiança especial entre uma criança e um parente ou figura de pai e mãe foi violada por qualquer ato de

exploração sexual, trata-se de incesto

Muitas vezes me perguntam se um beijo

de língua ou uma carícia no seio de uma criança ou adolescente também é incesto. Respondo que sim, porque estes atos, embora não envolvam os órgãos genitais da

criança, ainda assim são violações de seus direitos, de seus limites e de sua dignidade."

O abuso sexual extra-familiar é um evento menos freqüente. No Rio Grande do Sul, apenas

15% dos casos de abusos sexuais denunciados nos Conselhos Tutelares estão nesta categoria (Brum, 1997). Flores e cols.(1997) encontraram prevalências deste tipo de violência inferiores a 20% em Porto Alegre. Segundo uma comissária da Delegacia para a Mulher da capital, “o estupro cometido por estranhos é quase uma lenda no Rio Grande do

30 Corresponde a percentagem do genoma que é idêntica entre dois indivíduos, por sua origem comum.

Sul”. 31 Usualmente suas definições são mais extringentes, pois é necessário uma distinção entre abuso e situações de corte ou paquera, especialmente quando envolvem adolescentes. Russel (1983) o define entre tentativas de toque nos seios ou genitais até o estupro ou sua tentativa.

A exploração sexual está discutida em texto anexo neste volume.

abordada aqui.

Por isso não será

O problema das denúncias sem fundamentos pode ser ilustrado pela seguinte ocorrência.

Uma mãe denunciou, na delegacia do bairro e no Conselho Tutelar de sua região, que sua filha, de 13 anos, fora vítima de abuso sexual e de seqüestro perpetrados por um jovem de 19 anos. Motivados pela veemência do discurso e pela ansiedade da mãe, tanto os policiais como os conselheiros se apressaram em tomar providências. Os envolvidos foram trazidos para avaliação médico-psicológica na qual se constatou que a adolescente mantinha um relacionamento conjugal estável com o jovem, morava na casa dos pais deste e estava em

final de gestação. Havia fugido da casa materna devido à instabilidade psicológica da mãe

e à constante falta de comida. Sua nova família havia providenciado sua volta à escola e o atendimento médico pré-natal.

A descoberta e exploração da sexualidade entre irmãos e crianças e adolescentes com

idades próximas não deve ser confundida com situações abusivas, nas quais um jovem mantém uma relação de controle sobre outro, utilizando-o como fonte de estimulação sexual.

Problemas envolvendo denúncias fantasiosas aumentaram consideravelmente nesta década com o advendo de uma forma de tratamento psicológico pseudo-científico denominada “terapia de memórias reprimidas”, que se propõe a trazer à consciência memórias de abusos sexuais que estariam escondidas no inconsciente, mas que, de fato criam pseudo- memórias de fatos que, verdadeiramente, não ocorreram. (Lotfus, 1993; Ofshe, 1993). Tanto no Brasil, como em outros países, ocorreram episódios de falsas acusações de abuso sexual contra proprietários e funcionários de creches, que posteriormente se provaram inverídicas, com conseqüências negativas não só para os acusados como para as crianças envolvidas.

3. Tentar medir

Até o presente não foi possível desenvolver-se algoritmos capazes de estimar a incidência de abusos sexuais em uma população. A prevalência, entretanto pode ser estimada. Diferentes tentativas com métodos diversos levam a resultados de difícil comparação. Em sua maioria trata-se de levantamento de um tipo específico de ocorrência em relação a um conjunto maior de casos atendidos ou identificados.

A tabela 2 mostra, como exemplo, três pesquisas bastante relevantes realizadas no Brasil

que estimaram a freqüência de incestos na população do estado de São Paulo, em relação

ao número de ocorrências. Como se pode ver, os resultados são díspares e não permitem,

a priori, uma estimativa da prevalência na população.

31 Zero Hora, 09/11/97, pag.48.

Tabela 2

Fonte

Amostra

Incestos

N

Freq.

Azevedo &

Documentos legais (FEBEM, Juizado de Menores, Polícia, etc.) da cidade de S. Paulo(SP)

     

Guerra, 1988

168

309.313

0,05

Cohen, 1993

IML-SP (casos enviados para exame de corpo de delito)

238

1104

21,55

Stycer, 1993

Casos atendidos no CRAMI (organização não governamental que atende as cidades do ABC paulista)

55

1218

4,56

Convenções: Freq.freqüência em %. IMLInstituto Médico Legal. CRAMCentro Regional de Atenção aos maus-tratos na Infância.

A tabela 3, por sua vez, apresenta resultados de pesquisas realizadas exclusivamente na cidade de Porto Alegre. (Flores e cols,1997)

Tabela 3

Local (período)

incestos

Nº total

N*

%*

Juizado de Menores**(1983-90)

24

2873

1244

1,9

SOS Criança**(1991-1992) 32

37

2086

1008

3,7

Esc. Mun. Décio M. Costa ***(1993)

18

273

143

12,6

* ocorrências com pacientes do sexo feminino. Não houveram ocorrências com meninos. ** ocorrências registradas ***questionário aplicados como parte de um programa informativo sobre abusos.

Parte das diferenças pode ser causada pela maneira como os casos são localizados. Assim, locais onde denúncias são recebidas apresentam freqüências mais baixas do que aquelas encontradas em levantamentos mais minuciosos, como o que identificou um valor de 12,6% em uma amostra com idade média de 12 anos e sete meses. Estes número permitem uma projeção de cerca de 18% de vitimização sexual intra-familiar até os 18 anos.

Para lidar com estas variações, decorrentes das maneiras de estudar o problema, Flores e cols. (1995), estudando quatro amostras de vítimas de maus-tratos, referentes à cidade de Porto Alegre durante os anos 1990 e 1991, propuseram que a relação entre denúncias de violência doméstica e denúncias de violência ocorridas fora de casa poderiam servir de parâmetro de eficiência: quanto maior a proporção de abusos domésticos entre os casos atendidos por uma instituição, melhor a sua eficiência em localizá-los, já que a violência ocorrida na rua tente a ser muito mais explícita, e por isso identificável, do que a doméstica. Até o presente as maiores proporções de abusos físicos e sexuais domésticos encontradas em diversas amostras comparadas foram entre 80% a 85% (Flores e cols, 1995 e 1997). Assim, na tabela 3, a proporção mais próxima da realidade deve ser a 12,6%, já que, nesta escola, duas tentativas de medir a quantidade de violência doméstica versus a ocorrida nas ruas resultou, respectivamente, em 82% e 86%.

32 Em 1991, a atribuição de receber denúncias passou a esta instituição, até a criação dos Conselhos Tutelares em 1993.

4.

Fatores intervenientes

A violência física extrema é a principal variável associada a casos de incesto em Porto

Alegre, presente em 74% dos casos estudados por Flores e cols. (1997). Em seguida está a

presença de doença mental do abusador (62%).

Outra variável relevante é o uso excessivo de bebidas alcoólicas. Caminha (1997) a impontou com a ocorrência mais freqüentemente identificada (22,2 %) em maus-tratos na cidade de Caxias do Sul. Em uma amostra de 143 alcoolistas, 11 (7,7%) informaram ter cometido abusos sexual de crianças e adolescentes, cerca da metade enquanto alcoolizados. (Baú,1997)

A pobreza é, sem dúvida, um fator de risco não só para a violência como também para a

morte puerperal, injúrias acidentais, queimaduras, infeções respiratórias, abandono escolar, gestação na adolescência e, como conseqüência, a perpétua permanência em situação de pobreza (Kliegman,1992). Ao estudar pessoas desabrigadas na Califórnia, Winkleby &

White (1992), identificaram 46% da amostra como portadora de doenças mentais. Destes, 20 % haviam sofrido abusos físicos ou sexuais, cerca de 30% a mais do que naqueles sem doença mental.(P< 0,01, χ 2 para tabelas de contingência). Na presente amostra não foi possível correlacionar pobreza quer com doenças do agressor, quer com doenças da mãe da vítima.

Em uma gigantesca amostra incluindo todas as ocorrências americanas de abusos sexuais e físicos em 1986, Jones & McCurdy (1992) identificaram que 55% das famílias nas quais ocorreram abusos sexuais estavam abaixo da linha de pobreza 33 e que 31% delas recebiam ajuda do governo para a manutenção das crianças. Baseados na mesma amostra, Cappelleti e cols. (1993) mostraram que o risco de abuso sexual aumenta de 0,81/1000 habitantes para 4,49 quando a renda familiar cai abaixo do limiar citado. Mostram ainda que os abusos sexuais aumentam mais do que os abusos físicos, nas famílias mais pobres.

Flore e cols. (1997) identificaram a pobreza extrema como um fator importante em 38% dos casos de incesto estudados. De um modo geral, porém, no Brasil, haveria uma descrença quanto ao efeito da pobreza que atribui estas freqüências desiguais ao mascaramento do fenômeno, o qual "ficaria camuflado, da classe média para cima". (Lucena, 1990)

Azevedo e Guerra (1984) têm a mesma opinião:

"Quanto aos desempregados, nossos dados mostram um reduzido número deles. Isso conflita com o senso comum que aponta um predomínio de agressores desempregados que, por força de sua situação, permaneceriam no lar, vitimizando sexualmente crianças e adolescentes."

Pois é, também na Suíça, não há diferenças entre classe sócio-econômica ou estresse financeiro entre vítimas de abuso sexual e controles. (Ernst e cols., 1993)

Por fim, considerando a alta complexidade dos fatores intervenientes, é altamente recomendável, para a interpretação dos dados, a utilização de métodos estatísticos multivariados, como as regressões logísticas, as análises de cluster e análises de fatores ou componentes principais.

33 Menos de US$ 15.000 de rendimentos anuais.

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4 - Exploração e violência sexual contra crianças e adolescentes no Pará

MARCEL HAZEU 34 SIMONE FONSECA 35

A análise conceitual do tema violência e exploração sexual requer uma abordagem histórica

da questão, oriunda de toda uma estrutura desigual da sociedade brasileira, pautada não só pela dominação de classes, como também pela imperante dominação de gênero e raça e ainda nas relações de autoritarismo estabelecidas entre adulto/criança. Em nossa sociedade constroem-se, ao longo do tempo, barreiras físicas, culturais, sociais e morais, que resultam na exclusão em massa de grande parte da população. Esta exclusão constitui-se na base da violência.

O papel do Estado nesta trama de relações desiguais acaba sendo o de reforçar a situação

imposta, uma vez que nega os problemas, propostas e direitos desta população marginalizada. A sociedade neoliberal dissemina o individualismo. Dentro deste sistema, os chamados excluídos são considerados impotentes, incapazes e objetos de intervenção.

No bojo destas relações encontram-se a “criança e o adolescente que não têm sido considerados sujeitos, mas objetos da dominação dos adultos, tanto através da exploração de seu corpo no trabalho, quanto de seu sexo e de sua submissão” (Cecria/97). Isto significa dizer que a relação vem sendo marcada pelo uso e abuso de poder.

Estas crianças e adolescentes, ora por estarem dependentes dos adultos, ora em processo de construção de identidade e em busca de experiências, acabam sendo levados a traumáticas e violentas experiências sexuais. Ao evidenciar as relações de gênero e raça constata-se que “grande maioria das vítimas de abuso e exploração sexual é do sexo

feminino e um grande número é de negras e mulatas” (Cecria/97). Esta constatação reforça

a análise de que as mulheres, os negros e as crianças são os mais excluídos entre os excluídos, uma vez que vivemos em uma sociedade moldada no modelo patriarcal, com

características profundamente racistas, no qual o exercício do poder é o prazer em dominar

e possuir o outro.

Qualquer relação estabelecida nesse contexto de imposição de poder refletirá as desigualdades sociais que regem nossa sociedade. As relações sexuais também não fogem desta regra. Logo, o indivíduo acaba sofrendo os impactos deste processo, e é ferido no que este tem de mais íntimo que é sua sexualidade.

1 - Relações sexuais e sexualidade

Para análise das relações sexuais, no âmbito da criança e do adolescente, faz-se necessário o enfoque de três eixos fundamentais:

Diferenças sociais (gênero, raça, idade e classe) não chegam a violar a integridade da pessoa envolvida, quando a relação é estabelecida de forma responsável, igual, consciente e prazerosa para ambos. É necessário que se garanta a liberdade em opinar pelo momento mais adequado para a efetivação da relação e que sejam respeitados os limites e desejos do outro. Os direitos sexuais da criança garantem a esta o exercício de

34 Centro de Defesa do menor – Movimento República de Emaús.

35 Centro de Defesa do menor – Movimento República de Emaús.

sua sexualidade: processo gradual de descoberta do corpo, auto-exploração que propiciará a descoberta do prazer. Além disso, ela tem direito ao afago e carinho dos pais, de obter destes respostas sinceras as suas indagações, de se relacionar com outras crianças. O adolescente pode estar desenvolvendo sua sexualidade junto a outros adolescentes ou até mesmo junto a adultos, desde que seja respeitado o momento que este está vivendo e sua fase de desenvolvimento. Neste tipo de relação, o adulto exerce papel importante, uma vez que ele deve sentir-se responsável pelo outro.

Relações sexuais forçadas (violência sexual) - quando nas relações estabelecidas, o parceiro viola a liberdade sexual do outro. Pode ocorrer sem contato físico (exibicionismo, linguagem sexualizada, exibição de filmes pornográficos), por estimulação (toques e caricias inapropriadas, insinuantes), por realização de atos sexuais (sexo anal, oral, vaginal). Vale ressaltar que, quando trabalhamos com a categoria criança, sempre presume-se violência, em qualquer forma de relação sexual, um vez que a criança depende totalmente do adulto e não tem condições de definir sobre sua vontade sexual. Com relação a adolescentes, estes são imaturos e curiosos sexualmente e podem até provocar o adulto com o intuito de definir sua identidade sexual. Pode-se questionar a origem dessa procura de crianças por adultos para realizar suas fantasias sexuais. A erotização da criança na mídia desperta, precocemente, um exercício de sexualidade inapropriada para sua fase de vida e provoca o interesse sexual de adultos que começam considerá-las como objetos de desejo. O poder (quase) absoluto que um homem adulto exerce sobre uma criança, o prazer de dominar/possuir alguém no que tem de mais íntima: sua vida sexual, leva- nos a acreditar que os motivos da violência sexual ultrapassam o prazer sexual, para se constituir como forma de abuso de poder. Isto poderia explicar também a dominância masculina entre os agressores, principalmente, na conjuntura atual, na qual sua superioridade está sendo questionada (tanto no mercado de trabalho quanto em casa) e contra a qual esses estão resistindo numa forma violenta.

Relações sexuais envolvendo exploração - quando na relação se tira proveito indevido do trabalho sexual do outro, o que ocorre no chamado mercado do sexo. Diversas atividades são desenvolvidas, como: prostituição (estabelece-se a troca de favores sexuais por bens materiais ou sociais); shows eróticos (imagem de atos sexuais é vendida ao vivo); pornografia (venda de imagens de relações sexuais e do corpo filmado ou fotografado); tráfico (promover a saída ou entrada do território nacional de crianças e adolescentes para fins de prostituição). No mercado do sexo, milhares de pessoas trabalham à margem da sociedade, por não terem suas profissões reconhecidas. Desta forma, ficam sujeitos a várias formas de exploração.

Há muitas dúvidas de como são estabelecidas as relações no mercado do sexo. O que significa o fato de separar o sexo do amor para poder comercializá-lo? Existe prazer no sexo sem afeição? Como não se sentir violentado no mercado do sexo? Sexo sem afeto, sem amor, sem carinho. Relação na qual um não considera o outro como sujeito, mas somente como objeto? Qual é o prazer que os clientes e as pessoas que trabalham neste mercado de sexo encontram ali?

Porém, não resta dúvida de que a exploração sexual de crianças e adolescentes é crime previsto na Constituição Brasileira, artigo 27, parágrafo 4º. Assim como o trabalho infanto- juvenil. Este tem suas normas definidas pelo artigo 68 do ECA. Neste sentido, entendemos que crianças não devem trabalhar em lugar nenhum, pois prejudica seu desenvolvimento psicossocial e físico. No caso de adolescentes, estes só devem trabalhar em locais que propiciem-se sua profissionalização, durante o dia, sem correr quaisquer perigo.

Contudo, adolescentes podem, segundo uma leitura liberal, até viver sua sexualidade no mercado do sexo, mas as características deste mercado propiciam grande possibilidade que essas sejam exploradas. Porém, na adolescência ocorre a desorientação temporal, a manifestação da evolução sexual, a atitude anti-social e separação progressiva dos pais e muitas outras mudanças, além do jovem buscar a construção de uma nova identidade. Nesta fase do indivíduo, o mercado do sexo parece um lugar de aventura, liberdade, autonomia, sedução e conquista.

Mas, o que significa viver a adolescência no mercado do sexo numa fase de mudança do corpo, sem conhecimento sobre o mesmo, cheio de mitos e fantasias? Viver este momento como um simples objeto, num espaço que, muitas vezes, não se encontra afeição? Como valorizar este novo corpo na prostituição que, na verdade, o desvaloriza? Ou será que recebe uma importância que fora dela não encontra? Será que o corpo é o único “instrumento” da mulher pobre que é visto pelo mercado moderno? O adulto em vez de ser referencial, dar apoio, aproveita-se deste momento de fragilidade e de busca do adolescente. Os riscos deste mercado de sexo são muitos como a gravidez precoce, abortos, doenças sexualmente transmissíveis, assim como a dupla exclusão social, quando não atendem mais as exigências do mercado do sexo.

Numa cultura machista, na qual a primeira relação sexual é tão valorizada, a perda da virgindade desvaloriza a menina. A saída encontrada é casar com o autor ou ser vista como perdida (para o casamento). O casamento precoce e a separação em seguida ou a nova identidade de perdida são alguns dos fatores que influenciam na entrada no mercado do sexo. Falta de lazer e opções de sobrevivência, vivência de abuso sexual na família e repressão sexual são alguns outros.

A exploração sexual, mesmo a de crianças e adolescentes, refere-se ao comércio das

relações sexuais. Aqui entram no palco a figura de explorador, do rufião, da dona de boate,

do aliciador. Crianças em situação de exploração sexual são duplamente vitimizadas:

violentadas sexualmente pelos “clientes” e exploradas por quem tira proveito dessas relações, como o dono de boate ou, às vezes, os próprios pais.

2 - Pará: história de ocupação

A exploração sexual nesta região do Pará não foge de uma lógica econômica, pois certas

atividades geram atividades de caráter de serviço sexual, como a prostituição, shows eróticos e a produção de filmes e revistas pornográficas. Precisa-se conhecer, então, um pouco da história de ocupação da Amazônia. Pereira E.O. (1997) descreve no livro Prostituição e Adolescência este processo:

“Com o objetivo de promover e integrar a Amazônia, foi elaborado o I Plano Nacional de Desenvolvimento da Amazônia (1972-1974) que tinha como fins específicos, além da integração da região, a ocupação humana (especialmente pelos sem-terra nordestinos) das terras não exploradas da Amazônia e do desenvolvimento regional. A prioridade, nesse momento, era a construção de rodovias para propiciar a integração da área com o resto do País”. (Idesp, 1991)

O enorme contigente populacional que foi atraído pelas propagandas governamentais,

embora em busca de uma vida melhor, não encontrou as condições prometidas e acabou formando um enorme bolsão de pobreza, não só nas áreas colonizadas, como também nos centros urbanos próximos a essas áreas.

Seguindo os passos desse desordenado movimento de ocupação e desenvolvimento, percebe-se que há toda uma articulação nacional e internacional que, nos anos 70, estava sofrendo grandes choques com a crise do petróleo de 1973. Como o Brasil até então importava em grande escala combustíveis e com o aumento do preço do petróleo poderia entrar num processo de recessão, o governo Geisel decidiu implantar o II Plano de Desenvolvimento Nacional, que desta vez se preocuparia em produzir bens de capital, industrializar o País e, principalmente, aumentar a oferta de energia elétrica. A Amazônia com seu imenso potencial mineral e energético, obviamente virou o centro das atenções por parte do governo e dos interesses internacionais.

Foi implantado no período de 1975-1979 o II Plano de Desenvolvimento da Amazônia com uma roupagem diferente do primeiro. Priorizou-se, desta vez, a formação de grandes investimentos empresariais e os chamados “Grandes Projetos” (qualificação esta que justifica-se, na verdade, pela dominância do grande capital estrangeiro sobre a Amazônia), que começaram a ser elaborados e postos em prática como o Projeto Carajás (exploração de ferro), Trombetas (exploração de bauxita) e Albrás / Alunorte (produção de alumínio).

O III Plano de Desenvolvimento da Amazônia (1980-1985) e o Plano Nova República (1986-

1990) enfatizou o tipo de exploração já realizada na Amazônia através de grandes empreendimentos com vistas à produção de minérios 36 .

Percebe-se que o processo de ocupação da região apresenta uma conotação exploratória muito proeminente e não se considerou o impacto causado no local. Tal postura, segundo D’Incao (1995) é típica da sociedade de fronteira na qual “podemos reter que, ao conceber o local de expansão ou exploração de algum bem como vazio, não considera outras formas já existentes nas localidades como algo a ser respeitado”. (pág. 177)

A partir dos anos 60, o Brasil passou a ser visto como uma “grande fronteira”. Esta

ideologia de fronteira (segundo D’Incao) ressurge como a possibilidade de desenvolvimento nacional e, especialmente, da Amazônia. Contudo, o preço e as conseqüências desses avanços não são pensados em nível da população já existente. A chamada sociedade de fronteira traz consigo as marcas da desigualdade e da desorganização social e, sobretudo, a quase inexistência do Estado, o que abre espaço para a ausência da lei (D’Incao, 1995, p.179). Quem possui direito e tem a voz são os detentores do poder econômico. 37

O indivíduo que parte para estas zonas de fronteiras pode ser considerado um aventureiro,

explorador, o homem ou a mulher que arriscam tudo para um dia voltar a seu lugar de origem glorioso (a), rico (a) e admirado (a) por ter vivido desafios. O garimpeiro, a prostituta,

os donos de garimpo, os funcionários dos grandes projetos, das empreiteiras, os

marinheiros dos navios em Porto Trombetas, todos podem ser considerados aventureiros.

O importante é obter êxito nesta aventura, que pode significar: acumular bens, casar-se,

desfrutar prazer, dentre outras possibilidades. 38

3 - Exploração sexual no Pará

A exploração sexual, particularmente, não é conseqüência direta da formação da sociedade

de fronteira, mas é inegável que as áreas de garimpo e grandes projetos se constituem em zonas de fronteira e que alguns fatores abrem caminhos para a prostituição como o pobreza

36Prostituição Juvenil no Interior do Pará: Trombetas e os Garimpos no Vale do Tapajós.

37Idem.

38 Idem

econômica, a busca de aventura, dentre outros. A fronteira, ao desconsiderar a organização local, desestrutura as relações sociais já estabelecidas, causando profundos abalos em sua dinâmica. Ocasiona, ainda, novas alternativas de produção e reprodução mais adequadas a nova conformidade social. É neste bojo de rearranjos sociais que surge a exploração sexual de crianças e adolescentes.” (Silva, 1997)

O Levantamento sobre Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes no Pará, executado pelo CDM, procurou conhecer a situação em onze municípios que representam mais ou menos a diversidade do Estado. São eles: Altamira, Barcarena, Belém, Castanhal, Itaituba, Marabá, Óbidos, Paragominas, Paraupebas, Redenção e Santarém.

Belém, capital do Estado, centro político e de serviços com dimensões metropolitanas, oferece uma grande variedade de serviços sexuais. O Ministério Público, numa

investigação em 1993 levantou 73 pontos de prostituição. Em 1996 os conselhos tutelares, a DATA e o Juizado da Infância e Juventude registraram mais de 200 casos de prostituição infanto-juvenil, 06 casos de pornografia juvenil e um grande número de adolescentes presentes em boates. Há diversidade no nível de lugares (boates, zonas, residências,

portos, navios, barcos, praças, postos de gasolina, shoppings

crianças e adolescentes que se encontram no mercado sexual. As meninas de rua quase sempre são levadas pela trajetória de vida familiar a vender serviços sexuais, forçada ainda mais pela miséria, constatado pela FUNPAPA e em uma pesquisa realizada com meninas atendidas pelo Movimento República de Emaús. Os jornais locais chamam regularmente a atenção para a problemática. Relatam casos de prostituição juvenil nos shoppings ou casas de luxo, como também da existência da prostituição juvenil masculina. Os turistas e comerciantes que passam em Belém constituem-se em um grupo especial de clientes, pois, despertam a fantasia de possibilidades para fugir desta vida e morar na Europa, Estados Unidos ou o Sul do Brasil, atrás de um sonho que, muitas vezes, termina no mercado do sexo no exterior. Bares e hotéis freqüentados por estrangeiros são lugares de encontro; empresas de casamento e de viagens fornecem os papéis para saírem do País.

e nas características das

)

Os garimpos do Vale do Tapajós têm atraído, desde os anos oitenta, desordenadamente, um grande contingente de homens atrás do sonho do eldorado, acompanhado por mulheres de todas as idades que tentavam se empregar nos serviços que surgiram com esta migração: cozinheira e prostituta. O tráfico e o aliciamento de menores estavam em alta na época que os garimpos produziam muito ouro. Mulheres do Brasil inteiro, mas, principalmente, do Maranhão e do interior do Pará saíram para os garimpos. Com a decadência dos garimpos o fluxo de mulheres e meninas diminuiu, mas não acabou. Hoje, Santarém é a cidade de origem da maioria das meninas e mulheres que estão já no garimpo ou que estão indo. Entre elas sempre há adolescentes, que por sua fase de vida e fatores econômicos, culturais e sociais, estão entre as mais procuradas e entre as que mais

procuram a prostituição. Existem muitos mitos sobre a prostituição nos garimpos (escravidão, engano), que para umas são verdadeiros, e para outras não. A dívida, a ida, as

regras, os sonhos

,

tudo tem sua leitura.

Uma outra atração nesta região é o Porto Trombetas, um pedaço do primeiro mundo plantado no meio da floresta, no qual um grande número de homens trabalha na extração de bauxita. Na época da sua implantação, com a grande quantidade de mão de obra masculina, a prostituição e shows eróticos tiveram sua maior expressão. Mas, hoje ainda muitas adolescentes de Monte Alegre, Alenquer, Óbidos, Santarém e Ôriximina saem para o Porto para tentar sua sorte como empregada doméstica na Vila dos Operários ou na prostituição na Vila Paraíso, como é chamado um pedaço de terra onde se localizam os prostíbulos.

Situação parecida vê-se em Barcarena, onde parte da bauxita explorada em Trombetas é utilizada na produção de alumínio. Os navios responsáveis pelo transporte deste produto estimulam com a presença das suas tripulações a oferta de serviços sexuais, atraindo tanto adultas quanto menores, normalmente residentes em Belém, que ainda encontram nos funcionários de Albras/Alunorte uma outra clientela.

Serviços sexuais são oferecidos, também, para os caminhoneiros e marinheiros que trazem produtos industrializados do sul do País e levam materiais primas. Castanhal é um município que é caracterizado por este tipo de atividade, pois por lá passa a maior parte do transporte rodoviário rumo a Belém. Em decorrência disso, existem inúmeros casos de jovens se prostituindo nos postos de gasolina e pagando caronas com serviços sexuais.

Tem que haver procura para ter oferta, diz a lei do mercado. Às vezes a oferta vem primeiro, quando a situação de miséria obriga a vender serviços sexuais, quando as opções econômicas ou de ascensão social são mínimas; quando a cultura local desvaloriza a mulher e, principalmente, aquela deflorada; quando a comunidade não oferece a aventura, a liberdade e o dinheiro que os adolescentes buscam para fazerem parte do século 20.

4 - Considerações finais

Os donos da área (fazendeiros, donos de garimpos, políticos) ainda têm um poder de rei, que permite a submissão do povo. A migração trouxe uma cultura de fronteira, onde normas e regras não existem ou são negados. E a população? Colabora, aproveita-se, submete-se ou prefere ficar calada. São poucas, ainda, as que se manifestam, e estas poucas se concentram, muitas vezes,nos conselhos tutelares ou nos grupos populares. E o Estado? Continua respondendo aos problemas sociais com políticas de repressão, sem considerar a necessidade de outras intervenções a nível de prevenção, mobilização e atendimento. Quando o Estado formulou uma política integrada de combate à exploração e violência sexual de crianças e adolescentes? Precisa-se reconhecer que este problema não é acidental, mas sim, estrutural e deve ser tratado como tal.

5 - Bibliografia

COSTA, J. de J. da (org.): Rompendo o Silêncio - Seminário Multiprofissional de Capacitação Sobre Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes; UNICEF, São Luís, 1997.

DIAS, L.C. de C.; HAZEU, M.T.; NASCIMENTO, M.A.C. de;, SILVA, A.P.L. da. Prostituição e Adolescência - Prostituição Juvenil no Interior do Pará. Movimento República de Emaús/CEJUP, Belém, 1997.

D’INCAO, M.A.; ALVARES, M.L. (org.): A mulher Existe? Uma contribuição ao estudo da mulher de gênero na Amazônia. CEJUP/GEPEM, Belém, 1995.

FONSECA, S.F.; HAZEU, M.T.; PEREIRA, M.M. de O. Levantamento da situação de exploração sexual infanto-juvenil no estado do Pará. TXAI/Movimento República de Emaús, Belém, maio 1997 – relatório.

HAZEU, M.T. Direitos Sexuais da Criança e do Adolescente - Leitura social e jurídica:

“Exploração Sexual” e “Violência Sexual”. Movimento República de Emaús/Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua/TXAI, 2º edição, Belém, 1997 – cartilha.

EXPLORAÇÃO E VIOLÊNCIA SEXUAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES NO PARÁ

ANEXO I

ABUSO SEXUAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES O envolvimento de crianças e adolescentes em atividades sexuais impróprias à sua idade cronológica ou seu desenvolvimento psico-sexual e as quais não têm capacidade de compreender ou dar consentimento

VIOLÊNCIA SEXUAL DE CRIANÇA E ADOLESCENTE

ato de violência contra a liberdade sexual de criança e adolescente

SENSORIAL (ECA 252-257 CP 233, 234) exibir performance sexualizada de forma a constranger/ofender c/a pornografia; exibicionismo linguagem/imagem sexualizada, assédio

POR ESTIMULAÇÃO CP decreto lei n.º 3688: art. 61, 65 carícias inapropriadas em partes consideradas íntimas ou de forma insinuante assédio

POR REALIZAÇÃO CP 213-226 relações sexuais com contatos físicos genitais

estupro (qualquer mulher)

atentado violento ao pudor (qualquer pessoa)

fraude (mulher honesta)

rapto (mulher honesta)

sedução (mulher virgem entre 14 e 18 anos)

corrupção (qualquer pessoa entre 14 e 18 anos)

(presunção - 0 - 13 anos)

EXPLORAÇÃO SEXUAL DE CRIANÇA E ADOLESCENTE

tirar proveito do trabalho Sexual de criança e adolescente

PROSTITUIÇÃO (CP 227-230 par1º,ECA 82) a troca de favores sexuais por bens materiais ou sociais

SHOWS ERÓTICOS (ECA 240) exibição ao vivo de atos sexuais envolvendo menores de idade para estimular o libido da platéia

PORNOGRAFIA (ECA 240, 241) filmagem ou fotografia de atos libidinosos envolvendo menores de idade

TRÁFICO (CP 231, ECA 83, 84, 85, 251) promover a saída ou entrada, do território nacional de crianças/adolescentes para exercer a prostituição

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL

ART. 27 par 4º.

A lei punirá severamente o abuso, a violência e a exploração sexual da

criança e do adolescente

EXPLORAÇÃO E VIOLÊNCIA SEXUAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES NO PARÁ

ANEXO II

VIOLÊNCIA SEXUAL DE CRIANÇA E ADOLESCENTE

ato de violência contra a liberdade sexual de c/a

SENSORIAL (ECA 252-257 CP 233, 234)

exibir performance sexualizada de forma a constranger/ofender c/a

(pornografia; exibicionismo/linguagem/imagem sexualizada)

ECA 252: Deixar o responsável por diversão ou espetáculo de afixar em lugar visível e de fácil acesso, à entrada do local de exibição, informação destacada sobre a natureza da diversão ou espetáculo e a faixa etária especificada no certificado de classificação.

ECA 253: Anunciar-se peças teatrais, filmes ou quaisquer representações ou espetáculos, sem indicar os limites de idade a que não se recomendem.

ECA 254: Transmitir, através de rádio ou televisão, espetáculo em horário diverso do autorizado ou sem aviso de sua classificação.

ECA 255: Exibir filme, trailer, peça, amostra ou congênere classificado pelo órgão competente como inadequado às crianças ou adolescentes admitidos ao espetáculo

ECA 256: Vender ou locar a criança ou adolescente fita de programação em vídeo; em desacordo com a classificação atribuída pelo órgão competente.

ECA 257 (ref. art. 78 e 79):

Comercializar revistas e publicações contendo material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes sem embalagem lacrada, advertência de seu conteúdo.

Revistas e publicações destinadas ao público infanto-juvenil contendo ilustrações, fotografias, legendas, crônicas ou anúncios de bebidas alcóolicas, tabaco, armas e munições ou desvalorizando os valores éticos e sociais da pessoa e da família.

CP 233: Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público.

Fazer, importar, adquirir ou ter sob sua guarda, para fim de comércio, de

CP 234:

distribuição ou de exposição pública, escrito, desenho, pintura, estampa ou qualquer objeto obsceno.

POR ESTIMULAÇÃO (CP 214, decreto lei n.º 3688: art. 61, 65)

carícias inapropriadas em partes consideradas íntimas ou de forma insinuante (assédio - atentado violento ao pudor)

Assédio (proposta Suplecy): Assediar alguém com propostas, gestos ou atos libidinosos prevalecendo a autoridade ou antecedência sobre a vítima (relações familiares, hierárquicas no âmbito profissional e em caso de internação ou prisão).

CP 214: Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal - art. 224:

presume-se a violência, se a vítima não é maior de 14 (catorze) anos.

CP Decreto lei n.º 3688: art. 61: Importunar alguém, em lugar público ou acessível ao público, de modo ofensivo ao pudor.

CP Decreto lei n.º 3688: art. 65: Molestar alguém ou perturbar-lhe a tranqüilidade, por acinte ou por motivo reprovável.

POR REALIZAÇÃO (CP 213-226)

Relações sexuais com contatos físicos-genitais

estupro:

CP 213:

Constranger mulher a conjunção carnal, mediante violência ou

presume-se a violência, se a vítima não é maior de 14

grave ameaça - art. 224:

(catorze) anos;

atentado violento ao pudor: CP 214: Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal - art. 224: presume-se a violência, se a vítima não é maior de 14 (catorze) anos.

fraude: CP 215: Ter conjunção carnal com mulher honesta, mediante fraude;

rapto: CP 219: Raptar mulher honesta, mediante violência, grave ameaça ou fraude, para fim libidinoso;

sedução: CP 217: Seduzir mulher virgem, menor de 18 anos e maior de 14 e ter com ela conjunção carnal, aproveitando de sua inexperiência ou justificável confiança;

corrupção: CP 218: Corromper ou facilitar a corrupção de pessoa maior de 14 anos e menor de 18 anos, com ela praticando ato de libidinagem ou induzindo-a a praticá-lo ou presenciá-lo;

CP 224: Presume-se a violência, se a vítima não é maior de 14 (catorze) anos.

EXPLORAÇÃO SEXUAL DE CRIANÇA E ADOLESCENTE

Tirar proveito do trabalho sexual de criança/adolescente

PROSTITUIÇÃO (CP 227-230 par1º,ECA 82, 258) a troca de favores sexuais por bens materiais ou sociais

CP 227: Induzir alguém a satisfazer a lascívia de outrem - #1º Se a vítima é maior de 14 e menor de 18 anos.

CP 228: Induzir ou atrair alguém para a prostituição, facilitá-la ou impedir que alguém a abandone - #1º Se a vítima é maior de 14 e menor de 18 anos.

CP 229: Manter, por conta própria ou de terceiro, casa de prostituição ou lugar destinado a encontros para fim libidinoso, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação do proprietário ou gerente.

CP 230: Tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente dos seus lucros ou fazendo-se sustentar, no todo ou em parte, por quem a exerça - #1º Se a vítima é maior de 14 e menor de 18 anos.

ECA 82: É proibido a hospedagem de criança ou adolescente em hotel, motel, pensão ou estabelecimento congênero, salvo se autorizado ou acompanhado pelos pais ou responsável.

ECA 258: Deixar o responsável pelo estabelecimento ou o empresário de observar o que dispõe esta lei sobre acesso de criança ou adolescente aos locais de diversão, ou sobre sua participação no espetáculo.

SHOWS ERÓTICOS (ECA 240) exibição ao vivo de atos sexuais envolvendo menores de idade para estimular o libido da platéia

ECA 240: Produzir ou dirigir representação teatral, televisiva ou película cinematográfica, utilizando-se de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica.

ECA 258: Deixar o responsável pelo estabelecimento ou o empresário de observar o que dispõe esta lei sobre acesso de criança ou adolescente aos locais de diversão, ou sobre sua participação no espetáculo.

PORNOGRAFIA (ECA 240, 241) filmagem ou fotografia de atos libidinosos envolvendo menores de idade

ECA 240: Produzir ou dirigir representação teatral, televisiva ou película cinematográfica, utilizando-se de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica.

ECA 241: Fotografar ou publicar cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente.

ECA 258: Deixar o responsável pelo estabelecimento ou o empresário de observar o que dispõe esta lei sobre acesso de criança ou adolescente aos locais de diversão, ou sobre sua participação no espetáculo.

TRÁFICO (CP 231, ECA 83, 84, 85, 251)

promover a saída ou entrada, do território nacional, estadual ou municipal de crianças/adolescentes para exercer a prostituição

CP 231: Promover ou facilitar a entrada, no território nacional, de mulher que nela venha exercer a prostituição, ou a saída de mulher que vá exercer no estrangeiro - - #1º Se a vítima é maior de 14 e menor de 18 anos.

ECA 83: Nenhuma criança poderá viajar para fora da comarca onde reside, desacompanhada dos pais ou responsável, sem expressa autorização judicial.

ECA 84: Quando se tratar de viagem ao exterior, a autorização é dispensável se a criança ou adolescente estiver acompanhado de ambos os pais ou responsável, ou na companhia de um dos pais, autorizado expressamente pelo outro através de documento com firma reconhecida.

ECA 85: Sem prévia e expressa autorização judicial, nenhuma criança ou adolescente nascido em território nacional poderá sair do pais em companhia de estrangeiro ou domiciliado no exterior.

5 - Conceitos e indicadores de violência

SIMONE GONÇALVES DE ASSIS 39

Eu sou médica epidemiologista e trabalho num centro interdisciplinar que estuda violência (CLAVES), em conjunto com psicólogos, antropólogos e sociólogos, que trazem o aporte das Ciências Sociais para o grupo. Em todas as nossas pesquisas e trabalhos a gente sempre busca integrar, e acho que efetivamente estamos integrando a área da epidemiologia, esta área mais quantitativa, com as Ciências Sociais. Vou tentar falar um pouco das dificuldades desse processo.

Creio que, em vez de clarear essa questão sobre os indicadores, vou complexificar ainda mais, pois é um tema muito importante, especialmente para quem trabalha em pesquisa e que tem, a todo momento, que definir critérios rígidos que possam ser comparados aos de outros pesquisadores. Enfim, é um problema com que nos deparamos a todo momento, qualquer que seja a ótica do investigador, sendo necessário explicitar “com que óculos que estamos olhando”.

Como trabalhar com indicadores? Vou tentar traçar aqui as dificuldades que a gente enfrenta. A primeira delas é a conceituação de violência. Como é que se está conceituando violência; o que é a violência para você?. Quer dizer, dependendo dessa sua conceituação, você vai nomear ou acessar eventos de formas diferentes. Quanto mais ampliado for o conceito utilizado, mais complicado fica para se trabalhar com ele empiricamente, operacionalizá-lo.

A segunda questão é a da fonte que coleta os dados, cujas informações vou mostrar mais à

frente. Se a gente está trabalhando com dados de violência da Secretaria de Saúde ou da Segurança Pública, por exemplo, os tipos de violência registrados são, geralmente diferentes, tanto no que se refere aos tipos quanto a freqüência dos registros. Variam mais ainda se a gente vai trabalhar com os dados fornecidos pela Secretaria de Educação ou por algumas outras instituições.

O terceiro ponto se refere a como categorizar os tipos de violência. Se é intra-familiar, interpessoal, exploração econômica e aí vai um leque de possibilidades que está muito relacionado à conceituação mais geral de violência. São muito variadas as categorizações descritas na literatura e utilizadas em nosso meio.

A quarta questão tem a ver com a posição de vítima ou agente da violência. Estamos

atualmente trabalhando com adolescentes infratores, o que nos coloca frente à frente com o

fato de que não se pode encarar o adolescente apenas como vítima da violência social, mas também como o próprio agente da violência. As estatísticas oficiais reproduzem essa dualidade: ou se é vítima ou agente; o sujeito perde uma condição para obter um outro status. Sabemos que isso é uma simplificação da situação.

Enfim, o último ponto, depende da percepção da pessoa e de sua inserção cultural, possuindo, portanto, caráter muito subjetivo: se é a mãe que relata a violência, se é o pai, se é o irmão, se é a instituição x ou y, como e quais são os padrões culturais. Essa é uma

39 Pesquisadora adjunta do Centro Latino Americano de Estudos de Violência e Saúde “Jorge Careli” - CLAVES, da Escola Nacional de Saúde Pública / Fundação Oswaldo Cruz.

questão das mais complicadas ao se tentar comparar indicadores provenientes de pessoas e instituições tão distintas.

Retomando uma conceituação mais ampliada de violência, nos deparamos com uma relação que pode ser de força física, sexual, psicológica e moral. Fugindo um pouco de uma visão mais fechada da violência, concebida apenas como uma agressão física ou sexual, os indicadores passarão a refletir uma dificuldade muito maior de operacionalização. Quando uma pessoa é lesada emocionalmente, moralmente, por um ato violento, torna-se impossível medir esse dano quantitativamente, fugindo assim das estatísticas correntemente utilizadas, sendo portanto uma das sérias limitações dos indicadores. Por outro lado, uma definição de violência também não pode excluir a opressão social, a questão de gênero, raça, grupos etários, enfim, a estrutura sócio-econômica excludente e desigual que costuma estar refletida nos indicadores sócio-econômicos.

Utilizamos comumente a idéia de rede de violência, pois uma forma de violência não se manifesta isoladamente. Por trás de um abuso sexual, uma exploração no trabalho, existe uma rede de outras violências (estimuladas pela família, pela escola, por outras instituições ou a própria sociedade) e que possibilitam sua ocorrência. Observando o quadro a seguir, vemos que as estatísticas de saúde, por exemplo, mostram mais a mortalidade. Temos que os acidentes de trânsito e transportes são causas freqüentes e as quedas, queimaduras e outros acidentes são mortes menos comuns. Poderíamos falar também dos homicídios (causa mais freqüente entre os adolescentes do sexo masculino), suicídios e a categoria de “outras violências” (que tradicionalmente engloba tudo que não se sabe com exatidão a causa, se violência ou acidente).

Estatísticas de Saúde

MORTALIDADE = causas externas (atestados de óbitos)

Acidentes (trânsito, transporte, quedas, etc.) Suicídios Homicídios Outras violências (lesões ignoradas, intervenções legais, operações de guerra)

MORBIDADE (ambulatórios, emergências) acidentes tentativas de suicídio agressões físicas/tentativas de homicídio abuso emocional abuso sexual negligência/abandono outras possíveis formas

Estatísticas de Segurança Pública

Eventos não fatais - RJ 1990 0 a 19 Acidentes de trânsito/transporte Agressão física Roubo/furto/tentativa de roubo/furto Desaparecimento Abuso sexual Extorsão/seqüestro Ameaças Negligência/abandono Uso/tráfico de drogas Tentativa de homicídio Queimadura Tentativa de suicídio Queda

Eventos fatais - RJ 1990 0 a 19 Homicídio Remoção de cadáver Acidente de trânsito/transporte Encontro de cadáver Afogamento Esclarecer Queda Queimadura Agressão física Roubo/furto Suicídio Latrocínio Outros

Estatísticas de Educação

Distorção série/Idade Evasão escolar Agressões físicas entre alunos “Bullying” Abuso sexual Agressões professor/alunos Outras.

Além das estatísticas de mortalidade, o setor saúde tem começado a elaborar estatísticas de morbidade. Algumas unidades de saúde têm captado essas informações sistematicamente. Acabamos de dar um curso para profissionais de saúde de Recife-PE. Eles já têm uma ficha elaborada para os casos de violência que surgem na emergência, que foi reformulada após o curso, visando melhorar a captação desses eventos. A Secretaria Municipal do Rio de Janeiro estabeleceu uma ficha de notificação para casos de violência contra a criança e o adolescente, mostrando a importância do setor saúde investir neste caminho. Algumas formas de violência são mais facilmente registradas, como por exemplo a agressão física, em detrimento do abuso emocional, que só começa a ser registrado após treinamento continuado dos profissionais de saúde.

Se analisarmos as estatísticas de Segurança Pública, temos com maior freqüência os eventos não fatais, terminologia utilizada pela instituição. Pesquisa realizada no CLAVES mostra que, para crianças e adolescentes do Rio de Janeiro, os acidentes de trânsito e transporte são a principal causa registrada, no ano de 1990. Em seguida, temos a agressão física cometida contra crianças e adolescentes, os roubos, furtos e suas tentativas, os desaparecimentos e os abusos sexuais. A precária investigação policial foi constatada na maioria dos casos. Constatamos ser muito raro o relato de violência doméstica nestes

registros. Em relação aos eventos fatais temos os homicídios e a remoção de cadáveres como os fatos mais freqüentes no Rio, especialmente entre os adolescentes do Rio de Janeiro. Seguem os acidentes de trânsito e transporte, o encontro de cadáveres, os afogamentos e outras causas menos corriqueiras.

Falando das estatísticas de violência a partir do setor educação, poderíamos nos restringir a dados mais tradicionais, como a distorção série-idade e a evasão escolar, reflexo de toda a violência estrutural que se expressa no fracasso escolar das classes populares. Entretanto, novos indicadores de agressão física ou sexual no espaço escolar, ou mesmo de “bullying” (termo recentemente utilizado na literatura inglesa, referindo-se às ameaças e coações entre jovens no espaço escolar), começam a surgir, à medida em que a violência tem invadido o meio escolar.

Após apresentar as estatísticas destes três setores, gostaria de trazer, neste momento, uma pesquisa que fizemos em 1991/1992, para ilustrar um pouco das dificuldades operacionais enfrentadas ao se tratar o tema da violência contra crianças e adolescentes. Foi uma pesquisa sobre abuso físico intra-familiar de adolescentes em Caxias/RJ. Fizemos uma amostragem em escolas públicas e usamos os critérios de abuso físico de Straus, utilizado em pesquisa nacional norte-americana. É uma pesquisa de auto preenchimento, em que utilizamos os critérios de agressão verbal, violência (qualquer ato de agressão física, desde colocar objetos sobre o adolescente até ameaçar ou esmurrar o adolescente) e violência severa (esmurrar, ameaçar com armas ou facas ou realmente utilizá-las contra o adolescente). A partir desses critérios, entrevistamos cerca de 2000 alunos. Certamente, se trabalhássemos com outras definições de violência teríamos outros resultados. Estes dados podem ser vistos no gráfico a seguir.

Gráfico de abuso físico.

Prevalência de agressão verbal, violência e violência severa dos irmãos, Segundo escolas. D. Caxias, 1990/91.

100 80 60 40 20 0 Agressão verbal Violência Violência severa Escola Pública 98,4 76,1
100
80
60
40
20
0
Agressão verbal
Violência
Violência severa
Escola Pública
98,4
76,1
39,9
Escola Particular
96,1
75,2
41,9
Escola Pública
Escola Particular

Distribuição dos adolescentes por atos violentos dos irmãos Segundo escolas. D. Caxias, 1990/91.

Joga coisa em você

Empurra ou agarra

Dá um tapa, bofetada

Chuta, morde, murros

Bate ou tenta bater*

Espanca

Ameaça c/ arma, faca

Usa faca ou arma

0 10 20 30 40 50 60 Escola Particular Escola Pública
0
10
20
30
40
50
60
Escola Particular
Escola Pública

Neste gráfico podemos ver que a quase totalidade dos adolescentes de Caxias sofrem agressão verbal dos irmãos. Esse comportamento se mostrou freqüente não só entre os irmãos, mas também por parte do pai e da mãe sobre os adolescentes. Em relação a abuso físico, 46% das mães agridem seus filhos adolescentes e 34% dos pais. No total geral de entrevistados, cerca de metade deles sofria algum tipo de violência física na família. Pensando na questão dos indicadores e deixando de lado o dado empírico, sabemos que se tivéssemos usado outra escala, outros conceitos, provavelmente teríamos resultados diferentes. Outro problema técnico que pode existir ao trabalharmos com indicadores é o de comparar diferentes estudos, mesmos com a mesma medida. Esse exemplo pode ser visualizado no gráfico seguinte.

Gráfico de abuso físico: um estudo comparativo

Abuso Físico Sobre Adolescentes em Países Selecionados 80 60 Nota: * com objetos 40 20
Abuso Físico Sobre Adolescentes em Países Selecionados
80
60
Nota: * com
objetos
40
20
0
Pai
Mãe
Ambos
Irmãos
BR
39,2
45,6
31,6
75,5
Chile
41,6
58,5
62,9
EUA
57,9
67,8
63,5
75,5

Fonte: Strass, 1980, Assis, 1992 e Larrain e Veja, 1994.

Embora todos os três estudos apresentados tenham utilizado a mesma escala de Straus para abuso físico, o estudo americano foi coletado através de entrevistas por correio e quem

preenchia era a mãe, o pai ou o responsável pela criança. A nossa pesquisa, em Caxias, coletou dados entre os alunos de escolas públicas e particulares, com o adolescente respondendo anonimamente sobre sua situação na família. A investigação chilena foi feita através de uma amostragem domiciliar, em todo o país. Percebam as fontes de variação:

países distintos; diferentes pessoas relatando (a mãe relata mais que o adolescente? E o pai? O adolescente tende a minimizar este tipo de comportamento?).

No nosso trabalho cotidiano, seja com crianças de escola pública ou particular ou adolescente infrator, percebemos neles uma tendência de justificar a criação que receberam, mesmo na presença de violência. Essa constatação nos faz crer que, por trás desses números frios, dos indicadores, existe toda uma realidade social mais complexa do que nos diz as estatísticas.

Outra pesquisa, realizada em serviço de emergência médica no Rio de Janeiro, contribui para visualizarmos outro enfoque sobre o tema ora estudado. Trabalhamos com dois serviços de emergência: o do Hospital Salgado Filho e o do Hospital Miguel Couto. Durante um mês ficamos manhã, tarde, noite e madrugada nesses hospitais, registrando todos os casos que davam entrada por violência. Registramos os critérios definidos pelos médicos (estabelecidos através da Classificação Internacional de Doenças), embora em alguns casos questionássemos esses critérios. Vou apresentar apenas os resultados de crianças e adolescentes, entre zero a dezenove anos. Dos atendimentos que deram entrada nas emergências durante o período da pesquisa, cerca de 25% eram crianças e adolescentes. A principal causa de atendimento emergencial por violência se deveu as agressões interpessoais (na comunidade, na escola) e a violência doméstica. Constatamos fatos bem absurdos. Por exemplo, dentro das quedas registradas no hospital vimos uma criança de seis meses com fratura de crânio, que ficou registrada com uma “queda no berço”. Ora, isso é um diagnóstico absurdo, porque nenhum bebê morre, sozinho, batendo com a cabeça no berço. Ficou registrado no hospital e nas estatísticas oficiais do Ministério da Saúde como um acidente, devido a queda. Vemos aí, claramente, a falha do setor saúde e a falha da emergência, em registrar seu atendimento. Essas falhas são mais direcionadas à violência contra a mulher e contra a criança.

Outra constatação que tiramos desse trabalho na emergência é quanto ao registro do policial de plantão. Fizemos uma comparação entre o que foi registrado pelo hospital, pelo policial e pela equipe de pesquisa. Vimos que a violência doméstica não é registrada sistematicamente. O caso chega ao hospital, causa transtorno para a equipe, que atende e manda o paciente embora sem nenhum cuidado posterior no que se refere ao evento violento que provocou a hospitalização. A maioria dos agressores desses pacientes que deram entrada na emergência era composta por parentes, seguidos da mãe.

Mudando de enfoque, passando do serviço de emergência para o de atendimento básico, gostaria de apresentar, para finalizar, estatísticas de três instituições que atendem a crianças e adolescentes vítimas de violência: o CRAMI – Centro Regional de Atenção aos maus-tratos na Infância, de Campinas/SP, que é uma ONG, o Instituto de Pediatria e Puericultura Martagão Gesteira - IPPMG, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Secretaria Municipal de Saúde do RJ. Os gráficos que demonstram um pouco dos critérios utilizados por essas instituições estão dispostos a seguir.

Gráficos das instituições

Ambulatório de atendimento a família do Instituto de Pediatria e Puericultura Martagao Gesteira – UFRJ. Abr. 96 / Mar. 97 (N=64)

Tipos de abuso (N=79)

Negligência Sexual 19,2% 30,3% Psicológico 16,2% Físico
Negligência
Sexual
19,2%
30,3%
Psicológico
16,2%
Físico

34,3%

Agente agressor

Pais

substitutos

9,4%

Mãe Parente 31,3% 12,5% Pai Desconhecido 18,8% 3,1% Vizinho Outros 4,7%
Mãe
Parente
31,3%
12,5%
Pai
Desconhecido
18,8%
3,1%
Vizinho
Outros
4,7%

20,3%

Situação atual dos casos

Abandono 6,0% Acompanhamento 60,0%
Abandono
6,0%
Acompanhamento
60,0%

Alta

34,0%

Encaminhamento

S. informação

4,4%

Outros

13,1%
13,1%

Emergência

14,4%

Especialidades

26,0%

Amb. Geral

15,9%

Enfermarias

26,2%

Notificações de maus-tratos contra crianças e adolescentes. Secretaria Municipal do Rio de Janeiro. Jan. 96 / Jul. 97.

N=68

Tipos de abuso

Mais de 1

10,3%

Sexual 32,4% Negligência 23,5% Psicológico 1,5% Físico
Sexual
32,4%
Negligência
23,5%
Psicológico
1,5%
Físico

32,4%

Agente agressor Parente 23,3% Mãe 34,9% Outros Pai 4,7% 37,2%
Agente agressor
Parente
23,3%
Mãe
34,9%
Outros
Pai
4,7%
37,2%

Atendimentos do CRAMI – Campinas. Tipos de violência constatada 1985 – 1996

N=3446 Notificações = 3640 Ent.Domiciliar = 9960 (2,7/not.) Nº Vitimas = 4498 (1,2/not.) Improcedentes 16,2%
N=3446
Notificações = 3640
Ent.Domiciliar = 9960 (2,7/not.)
Nº Vitimas = 4498 (1,2/not.)
Improcedentes
16,2%
Mau trato
psicológico
Agressões físicas
10,8%
47,1%
Abuso sexual
5,5%

Negligência/

abandono

20,3%

Fonte: CRAMI/Campinas

Esses dados são facilmente comparáveis entre si, embora cada serviço apresente peculiaridades. O serviço do IPPMG atende a crianças indicadas pelo próprio hospital em que se encontram, portanto recebe pacientes de maior gravidade, especialmente abuso sexual. Os dados da Secretaria de Saúde refletem o treinamento inicial que foi dado aos profissionais da rede, que ainda resistem bastante em notificar.

Para finalizar, citaria um exemplo sobre o problema dos registros que utilizamos e a conseqüente subnotificação que eles provocam. O acompanhamento que fizemos dos casos que deram entrada na Secretaria de Polícia em 1990 nos mostrou que, em 1995, dos casos de violência intra-familiar acompanhados, nenhum agressor foi responsabilizado, nem mesmo o pai de uma criança de 6 meses (inocentado por falta de provas), cuja história deixa clara a violência doméstica, ocasionando sua morte. Não houve prosseguimento da denúncia em nenhum caso.

Estou me lembrando agora de uma estatística do IBGE, de 1988, que sistematizou, pela primeira vez em nível nacional, a criança vítima de agressão física, sendo que a maioria dos agressores foi um parente ou conhecido. São muitas as tentativas de construção de indicadores que vêm sendo feitas recentemente. É importante que um seminário como este sistematize melhor o tema e procure difundir, em nível nacional, medidas padronizadas e de fácil aplicação. A integração de entidades que já vêm tentando fazer este tipo de abordagem pode ajudar a sociedade como um todo, e também ao pesquisador que se depara com uma infinidade de problemas, na busca de um mínimo de comparabilidade entre os dados. Já é hora de se pensar o país como um todo. Temos informações sobre Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Recife, mas do país como um todo temos muito pouco. Precisamos nos organizar para verificar esta situação com indicadores comuns que possam ser difundidos pelo país.

6 - A Experiência de produção de indicadores no IBGE

ANA LÚCIA SABÓIA 40

Sobre a produção de indicadores sociais, as Nações Unidas e o IBGE 41 :

Para compreender melhor os objetos da produção de indicadores sociais, é necessário falar um pouco de origem e evolução do movimento de indicadores sociais, que teve seu início em meados dos anos 60, nos EUA, num esforço para organizar o pensamento sobre a demanda que começava a surgir por informações estatísticas, sobretudo por parte da área de planejamento governamental daquele país. Estas informações forneceriam subsídios para a apreensão da realidade social e permitiriam a definição de políticas sociais públicas.

O início de década de 70 marcaria a difusão dos indicadores sociais em um grande número

de países ocidentais, que passam a produzir regularmente Relatórios de Indicadores Sociais.

Assim, internacionalmente, a produção de indicadores sociais surge e passa a ser implementada em função do planejamento econômico-social e com referência a um processo de tomada de decisões. Com objetivo de formular políticas públicas sociais, passou-se a demandar, de maneira sistematizada, estatísticas que avaliassem os resultados do crescimento econômico e sua distribuição em função do bem-estar de suas populações.

A constatação de que o crescimento econômico, são provocada, por si só, uma melhora no

nível de qualidade de vida, levou à busca de informações sobre as condições de vida da população. Era importante identificar os “problemas sociais” e conhecer a realidade, para

melhor controlá-la e planejá-la.

O social estava associado a “problema”, passível de ser solucionado mediante a intervenção

do Estado, cabendo aos indicadores sociais a tarefa de revelar tais problemas e ao planejador definir as metas e programas prioritários.

Os primeiros trabalhos foram objetos de crítica por privilegiar os aspectos “mensuráveis”, posteriormente dando lugar à uma visão mais integrada da realidade social, que buscava a articulação de seus diversos aspectos. Outras metodologias, além da estatística, devem ser levadas em consideração na construção dos indicadores sociais.

A nova orientação ressaltava a ligação entre o nível econômico e o social, mas reafirmava a

autonomia de ambos, ao definir o social como “meta” e o econômico como “meio” para atingir tal objetivo ou meta. Os Indicadores Sociais perderiam o caráter meramente descritível, devendo contemplar uma visão teórica e integrada da realidade social.

A concepção de indicadores social como medida de bem-estar, também, foi alvo de críticas.

Esta noção poderia ser aceita desde que explicitados os valores que norteassem a definição

40 Socióloga do IBGE, da área de indicadores sociais desde 1987 e a partir de 1995, coordenadora da área de estudos sobre família e grupos específicos do Departamento de População e Indicadores Sociais da Diretoria de Pesquisa. 41 Estas notas foram preparadas a partir de textos internos elaborados por técnicos do IBGE desde 1974, em especial, “Considerações teóricas sobre o conceito de Indicador Social: uma proposta de Trabalho” e “Seminário de Indicadores Sociais” de Lúcia Helena Garcia e “Notas sobre o trabalho de Indicadores Sociais” de Jane Souto.

de bem-estar em questão, por tratar-se de uma definição cultural, histórica e especifica de

cada sociedade.

A premissa de que os Indicadores Sociais pudessem interferir diretamente na definição de

metas prioritárias foi outro objeto de questionamento. Na nova visão, os Indicadores Sociais deveriam assumir um papel mais modesto de contribuir para a análise da realidade e seus processos de mudança.

A

partir do final da década de 70, observou-se uma sensível redução na discussão teórica, e

o

movimento de indicadores sociais assumiu um caráter mais pragmático, orientando-se no

sentido do estudo de áreas específicas e ao exame da situação de determinados países, o

que resultou na atualização da produção de indicadores em relatórios periódicos.

Entre os relatórios internacionais pioneiros, destacam-se o norte-americano (Social Indicators), o inglês (Social Trends) o francês (Données Sociales) e o canadense (Perspective Canada). Todos estes relatórios procuram estudar os temas propostos pela ONU, abrangendo áreas como cultura, lazer, uso do tempo, meio-ambiente, transporte, participação social e nutrição, entre outros.

A partir da década de 80, vários países latino-americanos, assim como de outros

continentes, passaram a produzir, com maior regularidade, a produção de relatórios de

indicadores sociais.

Os Indicadores sociais e as Nações Unidas hoje:

As diversas conferências internacionais realizadas na década de 90 (HABITAT, POPULAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SOCIAL, MULHER entre outras) pela ONU enfatizaram a necessidade dos países membros montarem uma agenda de produção, disseminação e utilização de informações estatísticas no desenvolvimento das políticas sociais.

A Comissão de Estatística da ONU tem enfatizado a produção de informações e de

capacitação analítica sobre vários temas sobretudo aqueles referentes à população e desenvolvimento social.

As principais recomendações internacionais para a década de 90 têm como elenco de

Foram definidas 8

indicadores sociais os temas das conferências realizadas na década.

grandes metas que são avaliadas através dos indicadores e estatísticas produzidas para

este fim.

As metas são:

1. Redução das taxas de mortalidade, especialmente a infantil e a materna.

2. Acesso universal à saúde reprodutiva e sua utilização com inclusão do planejamento familiar.

3. Acesso universal à educação básica.

4. Promoção do emprego produtivo e diminuição do desemprego e da precarização do trabalho.

5. Erradicação da pobreza.

6. Eliminação da desigualdade de gênero.

7. Melhoria das condições econômicas, sociais e ambientais nos assentamentos humanos.

8. Promoção da integração social através de políticas públicas que visem a melhoria das condições de vida de todos, em especial dos grupos vulneráveis.

Indicadores Sociais no IBGE

No Brasil, o Departamento de Indicadores Sociais (DEISO) do IBGE, foi criado em 1973, atendendo diretamente à uma demanda governamental de informações que subsidiassem a elaboração e avaliação das políticas projetadas pelos Planos Nacionais de Desenvolvimento. Foram produzidos relatórios em 1975, 1977, 1979 e 1985. Estes documentos cobrem as áreas recomendadas pela ONU e apresentam uma preocupação conceitual e teórica. O conjunto das informações estatísticas é acompanhado por comentários de cunho analítico, visando um quadro explicativo da realidade brasileira.

O último RELATÓRIO DE INDICADORES SOCIAIS divulgado em 1994, apresenta um

conjunto de estatísticas acompanhados de análises que traçam um panorama da situação

sócio-econômica do Brasil na década de 80 levando em conta o contexto de crise econômica e aos efeitos desse processo sobre as condições de vida de grupos sociais específicos.

Uma característica singular do IBGE, que favorece a proposta de trabalho de indicadores sociais, é a coexistência numa mesma instituição de departamentos de elaboração, coleta e análise da informação estatística, possibilitando a participação de seus pesquisadores ao longo de todo o processo de geração de dados.

O que significa isto?

Por um lado, a produção de indicadores articula-se diretamente à maior parte da produção

de estatísticas primárias (Censos, PNADs, PME e Registros Administrativos) e derivadas, o

que propicia uma visão cada vez mais integrada do sistema de informações.

Por outro, o papel dos indicadores sociais não fica limitado à priori à análise dos resultados, podendo ser também estendido à formulação de quesitos, de suplementos, pesquisas especiais e à apresentação de resultados.

A produção de indicadores sobre um grupo populacional específico - Crianças e Adolescentes - através das estatísticas sociais do IBGE 42

Desde o início da década de 80, o IBGE vem organizando, sistematizando, analisando e divulgando informações sobre crianças e adolescentes. O interesse por parte do governo pela questão da infância intensificou-se com o agravamento da crise econômica nos primeiros anos da década. Iniciava-se, então, uma demanda crescente por informações que pudessem subsidiar políticas voltadas para a infância, sobretudo a infância pobre, que sofria mais diretamente os impactos da crise nos seus mais distintos aspectos: mortalidade infantil, desnutrição, acesso à escola e inserção no mundo do trabalho.

Nesta perspectiva, foram elaborados alguns trabalhos sobre temas específicos:

características sócio-econômicas e demográficas, situação nutricional, e acesso à serviços

de saúde. Os estudos foram realizados com dados de pesquisas desenvolvidas pelo IBGE -

Censo Demográfico de 1970, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio/PNAD 1977 e

42 Estas notas estão baseadas no texto “Crianças, Adolescentes e Famílias; um balanço da produção do Departamento de Estatísticas e Indicadores Sociais a partir da década de 80” apresentado por Rosa Ribeiro no Seminário Interno; Discutindo o IBGE, set. 94.

1981 e Estudo Nacional de Despesa Familiar - 1974/75. Estes primeiros trabalhos procuraram dar uma visão geral das questões levantadas e fornecer dados estatísticos sobre esta parcela da população, até então pouco conhecidos.

Em meados da década foi elaborado um suplemento especial para a PNAD 85 aplicado somente nas regiões metropolitanas visando aprofundar questões não pesquisadas usualmente pelo seu questionário básico como a guarda de crianças de 0 a 6 anos, o uso do tempo das crianças e adolescentes, trabalho das crianças de 5 a 9 anos e ainda questões relativas à escolarização.

A necessidade de criação de uma base de dados que pudesse ser atualizada anualmente

tornou-se cada vez mais urgente. Foi em 1987, que o IBGE organizou um conjunto de tabulações especiais com base nas PNADs 1981, 1983 e 1986 e processou para todos os níveis de agregação permitidos pela pesquisa. A partir daí, este conjunto de tabelas especiais intitulado “sistema contínuo de acompanhamento da situação sócio-econômica de crianças e adolescentes” passou a ser processado todos os anos sendo constantemente avaliado, acertado e acrescido de novos cruzamentos. Este conjunto de tabelas está hoje processado para os anos de 90, 92, 93 e 95.

Os temas abrangidos por estas tabulações foram divididos em cinco categorias: dados gerais, família e rendimento, educação, trabalho e condições de saneamento que foram alavancados por cinco variáveis de controle - situação de domicílio, rendimento familiar per capita, grupo de idade, gênero e cor, utilizadas para estabelecer os recortes fundamentais à compreensão das diferenciações de condições de vida entre grupos de crianças e adolescentes.

O tema “dados gerais” tem por objetivo mostrar o padrão demográfico do país por macro

regiões apresentando taxas de mortalidade e fecundidade e distribuição etária da população

infanto-juvenil.

No segundo tema - família e rendimento - apresenta-se a população infanto-juvenil em famílias segundo classes de rendimentos mensal enfocando principalmente os grupos considerados pobres. Explora-se também o tipo e tamanho da família levando em consideração as taxas de atividade dos diferentes membros da família e sua participação no orçamento doméstico.

O trabalho infanto-juvenil é apresentado somente para as pessoas de 10 a 17 anos por uma

limitação do próprio levantamento, que pesquisa sobre as atividades econômicas, apenas para as pessoas de 10 anos ou mais. Neste aspecto, procura-se explorar as informações que possam dar conta das condições onde e como ocorre o trabalho de crianças e adolescentes. A taxa de atividade dos dois grupos etários, 10 a 14 anos e 15 a 17 anos, proporção de ocupados, ramos da atividade em que estão inseridos, posse da carteira de trabalho, rendimento e horas trabalhadas são alguns dos indicadores que permitem traçar um quadro do trabalho infantil.

As condições de saneamento são consideradas fundamentais na análise das condições de vida deste grupo populacional. As características dos domicílios como abastecimento de água, esgotamento sanitário e coleta de lixo além da posse de filtro de água, luz elétrica, fogão e geladeira permitem qualificar as condições de adequação de saneamento básico dos domicílios onde vivem as crianças e adolescentes.

A divulgação destes dados tem sido principalmente feita através da série “CRIANÇAS E ADOLESCENTES - INDICADORES SOCIAIS” já publicada em 5 volumes, o último em

1995. Para os anos de 92, 93 e 95, este conjunto de tabulações especiais encontra-se

disponível no IBGE, em meio magnético, num software chamado PC-AXIS.

Produção do IBGE sobre população de 0 a 17 anos.

Perfil Estatístico de Crianças e Mães no Brasil - Características Sócio-Demográficas - 1970/1977 (publicado em 1981).

Perfil Estatístico de Crianças e Mães no Brasil - aspectos nutricionais - 1974/1975 (publicado em 1982).

Perfil Estatístico de Crianças e Mães no Brasil - situação de saúde - 1981 (publicado em 1984).

Perfil Estatístico de Crianças e Mães no Brasil – aspectos sócio-econômicos da mortalidade infantil em áreas urbanas (publicado em 1986).

- determinantes gerais e características da transição recente (publicado em 1986).

Perfil Estatístico de Crianças e Mães no Brasil - mortalidade infantil e saúde na década de 1980 (publicado em 1989).

Perfil Estatístico de Crianças e Mães no Brasil - Sistema de acompanhamentos da situação sócio-econômica de crianças e adolescentes - 1981 - 1983 - 1986, vol. 1, Brasil e Grandes Regiões; vol. 2, Região Norte; vol. 3, Região Nordeste; vol. 4, Região Sudeste; vol. 5, Região Sul; vol. 6, Região Centro Oeste (publicado em 1989).

a situação da fecundidade;

Perfil

Estatístico

de

Crianças e Mães

no Brasil

Perfil Estatístico de Crianças e Mães no Brasil - Sistema de acompanhamento da situação sócio-econômica de crianças e adolescentes - 1987, vol. 1, Brasil, Grandes Regiões e Regiões Metropolitanas (publicado em 1990).

“Crianças e adolescentes” - Indicadores Sociais - vol. 1 (publicado em 1989).

“Crianças e adolescentes” - Indicadores Sociais - vol. 2 (publicado em 1990).

“Crianças e adolescentes” - Indicadores Sociais - vol. 3 (publicado em 1991).

“Crianças e adolescentes” - Indicadores Sociais - vol. 4 (publicado em 1992).

“Crianças e adolescentes” - Indicadores Sociais - vol. 5 (publicado em 1995).

“Família, Criança e Trabalho na Década de 1980” - Capítulo do Relatório de Indicadores Sociais (publicado em 1995).

“Renda e Pobreza das Crianças no Brasil” Sabóia et alii, Cadernos de Políticas Sociais nº 5, UNICEF, Brasília, fevereiro de 1997.

“Indicadores

UNICEF-IBGE,

sobre

crianças

e

adolescentes”

Brasil

1991-96

-

dezembro de 1997.

7 - Escolhas e caminhos metodológicos na construção dos instrumentos de registro do SIPIA - Sistema de Informação para a Infância e a Adolescência

LUIGI BATTAGLIA

Os Instrumentos de Registro SIPIA nasceram como “porta de entrada” de um Sistema de Informação que fosse, ao mesmo tempo, um gerenciador do trabalho do Conselho Tutelar e uma ferramenta de gestão de políticas sociais para os Executivos e os Conselhos de Direitos, nos três níveis

O caminho percorrido em sua construção foi escolhido com base na combinação de

métodos e técnicas emprestados da “Análise de Sistemas”, “Ciência da Informação”, “Tecnologia de Bancos de Dados” e, outros, derivados da teoria de pesquisa das Ciências Sociais.

Todas as escolhas resultaram de um processo de discussão e deliberação, tendo sido a interação multidisciplinar a marca registrada nos quatro anos de trabalho (1991-1995), de tal maneira que cada decisão técnica era submetida a um coletivo de equipes (Coordenação Nacional do Projeto/Equipes contratadas nos Estados) para que o consenso da maioria definisse os rumos a serem seguidos.

Primeira Etapa: Definição dos DESTINATÁRIOS do Sistema, com base na pergunta: “Por que um sistema de informação?

A resposta foi debatida nacionalmente, através de Seminários nas UF com a presença dos principais atores institucionais e sociais envolvidos no processo de mudança e reordenamento preconizados pela Lei 8.069/1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente.

A etapa foi denominada de “Debate sobre a viabilidade político-institucional e sobre a

adequação ao Marco Legal”, e executada de Janeiro a Junho de 1991.

Em síntese, o Sistema estava a serviço:

de cada criança/adolescente que tivesse direitos individuais ameaçados ou violados;

de cada Conselho Tutelar, órgão local autônomo, criado para “zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente” (E.C.A,art.131);

da Rede de Conselhos de Direitos e dos Executivos, nos três níveis, responsáveis pela Política de Atendimento dos Direitos, enquanto “conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais”(E.C.A, art.86).

Segunda Etapa: Especificação do desenho lógico, para saber quem era quem para o Sistema:

Definição das Entidades externas de onde vem a informação (Crianças e Adolescentes ou outro solicitante) e para quem a informação gerada pelo Sistema seria encaminhada (Conselho Tutelar, C. de Direitos, Executivos);

Definição dos Processos do Sistema - ou das funções a partir das quais o Sistema agregaria nova informação à existente - toda informação que entra num processo tem que sair modificada.

Buscava-se resposta para a segunda pergunta metodológica: O que o Sistema deve fazer?

As funções escolhidas foram:

1. Identificar criança/adolescente;

2. identificar violação de direitos;

3. Ressarcir direitos violados;

4. Acompanhar a execução de “medidas de proteção” a cargo de um “prestador de serviços/ programas/projetos;

e

5. Agregar

dados

sobre

crianças/adolescentes,

violações,

retaguarda

de

serviços

funcionamento dos serviços/programas mobilizados no ressarcimento;

6. Atualizar tabelas utilizadas pelo Sistema.

Terceira Etapa: Definição dos Depósitos de Dados do Sistema. Tratava-se de responder à outra pergunta: O que o Sistema deve saber? ou seja quais as informações a serem guardadas - toda informação arquivada num deposito de dados não pode sair modificada: dados da criança/adolescente, categorias de violação de direitos, etc.

Quarta Etapa:

A:

Construção e definição dos itens de dados - Construção do Núcleo

Básico Brasil - NBB.

Nessa fase do trabalho - a mais demorada - foi necessário mobilizar todo conhecimento teórico e a criatividade técnica das equipes, no trabalho de escolha e definição de variáveis para:

1. caracterizar criança/adolescente;

2. caracterizar a violação de direitos e o agente violador, de acordo com o E.C.A;

3. identificar a medida de proteção e o prestador responsável por sua execução;

4. identificar os encaminhamentos para o Ministério Público ou a Justiça da Infância e da Juventude, de acordo com a lei;

5. registrar o acompanhamento e a terminalidade do atendimento prestado.

Na construção dos itens de dados, além de empregar as regras derivadas da pesquisa social - definição operacional do conceito, clareza, etc.- havia que se respeitar as Regras de Normalização de Estruturas Relacionais de Dados (ex.: Primeira Forma Normal: Atributos atômicos e Não repetição de dados; etc.).

Mais ainda, tratando-se de um Sistema de âmbito nacional, devia-se garantir uma terminologia e linguagem compreendidas igualmente, por todos, em todo território brasileiro.

Para tanto foram contratadas equipes de pesquisa, em 12 Estados, para trabalharem nessa Etapa, todas assessoradas por consultores locais, garantindo que o seu conjunto incluísse especialistas nas áreas abrangidas pelos 5 Direitos especificados pelo E.C.A.

As principais fases foram:

1.

Formulação da proposta metodológica de trabalho pela Coordenação Nacional do Projeto (Junho/1992):

1.1. Articulação com instituições nos Estados para conveniamento;

1.2. Formalização de uma Coordenação de Projeto, por UF;

1.3. Contratação de consultores e estagiários, para trabalho de campo;

2. Construção das categorias de violação de direitos (Julho/1992):

2.1 Trabalho de campo, nos Estados, para coleta de dados sobre violação de direitos fazendo uma leitura dos fatos/situações do ponto de vista do Estatuto, nos lugares aonde crianças estavam sendo encaminhadas (Postos de Saúde, Casas de Triagem, S.O.S., Escolas, Postos de Assistência Social, etc.).

3. Agrupamento das “violações de direitos registradas em “listagens” (Jul-Set/1992):

3.1. Definição de categorias (indicadores) e subcategorias (variáveis);

3.2. Debate com especialistas por grupos de Estados, para refinamento do material;

4. Construção dos Instrumentos de Registro dos dados - Fichas SIPIA (Set./1992):

4.1. Elaboração de Ficha de Identificação da Criança/Adolescente;

4.2. Elaboração de Ficha sobre violação de Direitos;

4.3. Elaboração de Ficha de Ressarcimento de direitos;

4.4. Elaboração de Ficha de Acompanhamento.

5. Teste dos Instrumentos de Registro de dados (Set.-Dez/1992):

5.1. Validação dos conteúdos e definições operacionais nos lugares do trabalho de campo;

5.2. Teste de uso por Conselhos Tutelares;

5.3. Oficina nacional SIPIA para;

revisão de conceitos e seleção dos itens de dados,

revisão do lay out das Fichas .

6. Definição experimental das saídas de dados agregados, para compor a Base Estatística local, com a geração dos Relatórios de Situação (Abril/1993).

7. Manualização do SIPIA (Jan.-Maio/1994).

8. Desenvolvimento do software SIPIA em Clipper (Maio-Nov./1994).

9.

Implantação - Piloto do SIPIA em 6 Estados / 45 Conselhos Tutelares (Jun.-

Dez./1994).

10. Oficina Nacional SIPIA para avaliação de uso, revisão das Fichas (conteúdo e lay out) e do Manual do Usuário (Dez./1994).

O roteiro metodológico dos trabalhos, nessa etapa, foi:

trabalho de campo,

listagem dos dados necessários /suficientes para identificar:

crianças/adolescentes,

fato/situação de violação de direitos,

agressor (agente violador),

medidas de proteção e encaminhamentos,

acompanhamento da execução das medidas;

discussão de equipe em cada UF para agregar/desagregar e precisar conceitualmente o dado;

produção das listagens de categorias de violação;

da

conceituação

de

cada

categoria,

obedecendo

o

fluxo:

equipe/UF

-

equipe

Coordenação Nacional - Oficina Nacional SIPIA.

transposição dos dados para as Fichas;

definição da estrutura relacional dos dados;

manualização;

teste de validação (de consistência e de crítica);

revisão de conceitos e de instruções do manual

revisão e nova edição do Manual do Usuário (Março1995).

Exploração sexual de crianças e adolescentes: um exemplo de utilização da grade de violação de direitos SIPIA

O exercício de leitura da situação de exploração sexual de crianças/adolescente, foi feito,

em situação de treinamento, pelos Conselheiros Tutelares dos Horizonte, MG.

O resultado foi uma grade subsidiária que poderá ser utilizada no trabalho diário.

nove Conselhos de Belo

1.0.00.0.

VIDA E SAÚDE

1.6.00.0

ATOS ATENTATÓRIOS À VIDA

1.6.02.0

Tentativa de homicídio

2.0.00.0

LIBERDADE, RESPEITO, DIGNIDADE

2.1.00.0

APRISIONAMENTO

2.1.01.0

Confinamento de qualquer espécie

2.1.04.0

Prisão ilegal

2.1.05.0

Tráfico de crianças

2.2.00.0

VIOLÊNCIA FÍSICA

2.2.01.0

Violência física (surra, espancam., queimadura)

2.2.02.0

Agressões com objetos contundentes

2.3.00.0

VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA

2.3.01.0

Ameaça de morte

2.3.02.0

Humilhação pública ou privada

2.3.03.0

Tortura psicológica

2.4.00.0

VIOLÊNCIA SEXUAL

2.4.01.0

Sedução

2.4.02.0

Abuso Sexual

2.5.00.0

DISCRIMINAÇÃO

2.5.03.0

Isolamento e tratamento desigual no convivo familiar

2.5.04.0

Impedimento de acesso a logradouro público

2.7.00.0

ATOS ATENT. AO EXERCÍCIO DA CIDADANIA

2.7.01.0

Omissão de autoridade na apuração de queixa

2.7.04.0

Aliciamento de criança/adolescente p/ ativ.ilícitas/impróprias

2.7.05.0

Recusa de auxílio, refugio, orientação

2.7.06.0

Permanência de crianças e adolescentes em locais proibidos

3.0.00.0

CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA

3.3.00.0

INADEQUAÇÃO DO CONVÍVIO FAMILIAR

3.3.09.2

Utilização na prostituição

4.0.00.0

EDUCAÇÃO/CULTURA/ESPOR/LAZER

4.6.00.0

ATOS ATENT. AO EXERCÍCIO DA CIDADANIA.

4.6.02.0

Impedimento de acesso à escola

Para entendimento da grade, acima, torna-se necessário explicitar algumas premissas legais e metodológicas utilizadas na formulação do desenho lógico e do modelo de dados do SIPIA:

1. entende-se por "violação de direito individual" toda privação ou iminência de privação de bens e interesses protegidos por lei, no caso, dos 5 (cinco) direitos definidos pela Lei 8.069/1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente;

2. todo "fato/ação/situação" que se constitua em privação ou em ameaça de privação de um ou mais direitos individuais, encerra uma ou mais "violações" que devem ser "lidas/reconhecidas" pelo Conselheiro Tutelar;

3. o SIPIA incorporou ao seu modelo de dados, uma grade de violações de direitos para leitura de fatos/ações/situações no caso situações de "prostituição" em que crianças e adolescentes estavam envolvidos, apresentadas aos Conselheiros Tutelares de Belo Horizonte, foram "lidas" e relacionadas como: "violações de direitos" na grade subsidiária acima. Assim, exemplificando, uma situação de prostituição infantil se constitue em uma violação ao direito à VIDA E SAÚDE (1.0.00.0), enquanto ATO ATENTATÓRIO A VIDA (1.6.00.0), mais especificamente, enquanto TENTATIVA DE HOMICÍDIO (1.6.02.0) e /ou numa violação ao direito a LIBERDADE, RESPEITO, DIGNIDADE (2.0.00.0), enquanto APRISIONAMENTO (2.1.00.0) e mais especificamente, CONFINAMENTO DE QUALQUER ESPÉCIE (2.1.01.0) e assim por diante;

4. evidentemente, um único fato/situação de "prostituição" não encerra as mais de 20 violações relacionadas. A grade torna-se apenas, um facilitador na leitura de fato, por natureza complexo, no qual vários direitos individuais estão sendo violados.

9 - Informação e indicadores

Conceitos Fundamentais

ORLANDO JOSÉ LEITE DE CASTRO

- DADO: é o registro, em estado bruto, de uma ou mais características de um fato.

Por exemplo: 15 de novembro

- INFORMAÇÃO: é o dado qualificado, isto é, conceituado em seu significado, em suas formas sistemáticas de coleta e organização, em suas propriedades e em sua abrangência e fidedignidade.

Por exemplo: a data de nascimento é o conjunto composto do dia, mês e ano de

nascimento de uma pessoa, obtido confiavelmente a partir de registros cartorários, vinculado

a uma pessoa determinada, de caráter não exclusivo. Utilizado como critério de estratificação em avaliações que envolvam faixas etárias.

- INDICADOR: é a informação analisada, com objetivo fundamental de mensuração de um fato perfeitamente conceituado, normalmente para verificação, sob critérios de estratificação, dos resultados de ações modificadoras das condições de ocorrência do fato analisado.

Mortalidade infantil: é a razão entre o número de mortes no primeiro ano de vida e o número de milhares de nascimentos de bebês vivos, em uma população qualquer. Envolve

as informações de nascimento (quantidade, data e óbito natal) e de óbito infantil posterior

(data e causas). Normalmente, pretende-se uma avaliação do comportamento desse

indicador no tempo, bem como a comparação entre populações submetidas e não submetidas a uma ação preventiva determinada (motivo pelo qual se coletam as informações de causa do óbito).

- BANCO DE DADOS: é uma forma de organização sistemática de informações, atualmente vinculada (em sua expressiva maioria) a técnicas de tratamento informatizado, abrangendo a coleta da informação, a manutenção de sua atualidade e a sua disponibilidade para as mais diversas formas de pesquisa.

Exemplo:

O CPF é o cadastro brasileiro de pessoas físicas, para finalidades tributárias e

legais.

- IMPORTANTE: Não devem ser organizados bancos de dados de indicadores, pois

indicadores normalmente são informações derivadas e conjugadas. Os bancos de dados devem ser organizados com as informações primitivas e singulares que propiciam a formação de tais indicadores, pois essas informações são efetivamente coletadas e passíveis de avaliação de suas qualidades fundamentais de abrangência e fidedignidade.

Por exemplo, não há, na Secretaria da Receita Federal, um cadastro de indicadores de sinais de enriquecimento, e sim as informações de renda e variação patrimonial (obtidas das declarações do imposto de renda), cuja incompatibilidade propicia a estratificação de um

conjunto de contribuintes, para avaliação de suas histórias individuais, mediante auditoria específica.

CAMINHOS METODOLÓGICOS

- Conceituação do fato a ser mensurado

Uniformização e disseminação conceitual

A uniformidade conceitual, formalmente estabelecida e disseminada para todos os

envolvidos no processo de geração e avaliação de indicadores sobre tal fato, é requisito imprescindível para o uso eficiente e conseqüente de um indicador, para evitar que se “somem laranjas e bananas”.

Medidas qualitativas e quantitativas

A conceituação de um fato e das informações que permitem mensurá-lo envolve,

normalmente, medidas quantitativas e qualitativas, onde as primeiras são naturalmente identificadas enquanto as segundas demandam a formulação de questões objetivas a integrar o processo de levantamento de informações, sendo recomendável a priorização, nesses casos, de respostas tipo Sim/Não ou múltipla escolha entre conceitos universalmente aceitos de forma comum.

- Determinação do Universo

Abrangência espacial Para perfeita conceituação de um sistema de indicadores, é fundamental a definição da abrangência espacial do cenário a ser mensurado, normalmente vinculada a um espaço geográfico, setorial ou de característica determinada.

Abrangência temporal Igualmente, é fundamental a definição da abrangência temporal do cenário, estabelecendo-se a periodicidade das informações, a remissão ao passado e, eventualmente, um horizonte de projeções.

Restrições de observação Um dos fatores críticos na conceituação de um sistema de indicadores é a existência de restrição de observação, motivada pela inexistência de sistematização na geração, impossibilidade operacional de coleta, pela ocultação de informações e mesmo pelo falseamento das mesmas.

- Ferramentas de coleta

Registros formais As informações necessárias a um sistema de indicadores devem ter sua coleta sistematizada por registros formais, em meio físico ou mediante rotinas para captação direta em meio magnético, que garantam sua captação confiável, tempestiva e exaustiva, quando possível.

Pesquisas Quando não houver uma rotina de captação ou esta não for passível de ser estabelecida, devem ser criados instrumentos de pesquisa específica, que permitam retratar, em determinado momento, um cenário de informações, a partir do qual se possa decidir a melhor forma de coleta sistemática.

- Técnicas de processamento

Organização de informações

A organização de informações em bancos de dados representa um fator definitivo

em termos da qualidade de um sistema de indicadores, ressaltando-se a necessidade de uma arquitetura que garanta a integridade unitária e relacional das informações, bem como permita uma gama de saídas suficientemente versátil para responder as principais questões relativas ao fato mensurado.

Cálculos e conjugações Outro aspecto relevante no processamento das informações é a definição clara e logicamente precisa de todos os cálculos e conjugações entre informações distintas, para formação de cada um dos indicadores previstos. Trata-se de matéria de conteúdo em um sistema de indicadores, já que cada indicador deve ser confiável, como representativo de um conceito aplicado, para seu uso eficaz como agente de tomada de decisões.

Estratificações, excepcionalizações e sínteses

A estratificação, temporal e espacial, das informações obtidas é uma técnica básica

em sistemas de indicadores, buscando pela avaliação dos valores obtidos em cada um dos segmentos de extrato, de forma comparativa, inclusive pela ordenação dos resultados por critérios de qualidade.

A excepcionalização, entendida como a busca seletiva de cenários estratificados

cujo indicador de mensuração apresente valores distantes do comportamento esperado, é também uma técnica que deve ser permanentemente utilizada para avaliação em sistemas de indicadores.

Igualmente, a geração de indicadores, relativos a sínteses de extratos anteriormente estabelecidos, possui o importante papel de avaliação de médias, marcos de formulação de objetivos e metas operacionais de qualquer processo de intervenção em um fato sob mensuração.

Estimativas Finalmente, é importante salientar que a impossibilidade de coleta exaustiva de informações não deve ser entendida como impeditiva de geração de indicadores confiáveis, devendo-se, nesse caso, fazer uso de técnicas estatísticas de estimação, aplicadas às informações disponíveis, o que, sob limites de confiança também definíveis, pode conduzir a indicadores válidos e representativos.

O projeto REBIDIA

- Histórico

A Pastoral da Criança

O Projeto REBIDIA - Rede Brasileira de Informações sobre a Infância e

Adolescência é uma estrutura de coleta, sistematização e disseminação de

informações, associada aos trabalhos da Pastoral da Criança, movimento da Igreja Católica dedicado ao desenvolvimento de ações de saúde materno-infantil em comunidades de baixa renda.

A Pastoral da Criança iniciou seus trabalhos em 1983, no município paranaense de

Florestópolis, sob a coordenação da Dra. Zilda Arns Neumann, médica pediatra e especialista em saúde pública, que ainda hoje comanda os trabalhos dessa Pastoral.

A ação fundamental

A ação fundamental da Pastoral da Criança é a redução da mortalidade infantil, por

meio de ações preventivas e corretivas junto às gestantes e crianças de 0 a 6 anos,

que garantam a saúde do bebê desde antes de seu nascimento e seu desenvolvimento e manutenção de saúde até os 6 anos de idade.

As técnicas envolvidas

Dentre as técnicas utilizadas no acompanhamento de gestantes e crianças, estão a vigilância de vacinação, o combate à desnutrição da gestante e da criança, a ênfase no aleitamento materno exclusivo, a disseminação do uso do soro caseiro

no combate à diarréia e de outros remédios caseiros, o controle e prevenção de

doenças respiratórias, entre outras formas de atuação. Numa abordagem de resgate social das comunidades atendidas, são também coordenados projetos de geração de renda, alfabetização de jovens e adultos e de ajuda mútua sistemática e eventual entre integrantes das comunidades.

- Um sistema de indicadores

A origem da necessidade Por sua alta qualidade de intervenção e resultado, a Pastoral da Criança se expandiu rapidamente e se tornou impossível conhecer e controlar suas ações, de forma empírica, com base em anotações e memórias de seus participantes. Além disso, a expansão também veio requerer um novo nível de necessidade e disponibilidade de recursos financeiros, que demandavam uma contrapartida de prestação de contas, somente factível por meio do registro sistemático das ações e resultados. Em 1988, foi projetado e desenvolvido um sistema de informações e indicadores de atuação da Pastoral da Criança, com tratamento informatizado, que vem sendo mantido e aprimorado nesse decênio de existência, e que constitui o banco de dados fundamental disponibilizado pelo Projeto REBIDIA, sob as diversas formas de pesquisa, inclusive pela Internet.

A problemática de coleta

Nesse projeto, dois problemas relativos à coleta de informações foram identificados

e resolvidos: o baixo nível educacional dos líderes comunitários, aos quais caberia

a tarefa de preencher os registros formais de atuação do projeto; e a dificuldade de coletar e fazer chegar à sede da Pastoral da Criança, milhares de documentos preenchidos em todos os cantos do Brasil.

Um instrumento simples de coleta, com números e respostas tipo Sim/Não foi desenvolvido e testado, respondendo de forma satisfatória aos requisitos de fidedignidade das informações coletadas. Um sistema de estimação estatística foi desenvolvido para produzir, com as informações recebidas de uma parcela das comunidades, um conjunto confiável de indicadores que representasse a atuação global da Pastoral da Criança.

A estimação como ferramenta Os indicadores do projeto são calculados e apresentados em períodos trimestrais e, em função dos prazos de envio, concluiu-se pela utilização dos dados recebidos nos 45 dias subsequentes ao encerramento de cada trimestre civil, como uma base estatisticamente confiável para estimação dos indicadores. Os valores calculados com o conjunto completo dos dados (recebidos com até 3 ou 4 meses de atraso) não revelaram distorções significativas em relação aos dados estimados.

- O cenário atual

A arquitetura do sistema

O Sistema de Indicadores da Pastoral da Criança está atualmente instalado numa

rede de computadores, integrados a um provedor próprio de acesso à Internet, o que permitiu o lançamento do Projeto REBIDIA.

A abrangência do sistema

O Sistema de Indicadores atinge atualmente a mesma abrangência de atuação da

Pastoral da Criança no Brasil, qual seja um conjunto de mais de 2.650 municípios, em todos os Estados da Federação, coletando informações em mais de 23.000 comunidades atendidas sobre ações empreendidas junto a mais de 2.000.000 de famílias, onde existem cerca de 150.000 gestantes e 3.300.000 crianças.

Sugestões para o cenário em estudo

- Alguns casos discutidos no Seminário de 1996

Prostituição infanto-juvenil na Colômbia

A distribuição percentual das causas de abandono do lar é um indicador resultante

da contagem de incidência das respostas a uma pergunta de múltipla escolha, com

resposta única permitida entre as 4 causas relacionadas, em relação ao número total de entrevistadas.

Consumo de drogas no Equador

A constatação de que os consumidores de drogas de Quito são policonsumidores,

com número médio de drogas consumidas de 3,5 é um indicador composto resultante da contagem de incidência das respostas de uma pergunta de múltipla escolha, com resposta múltipla permitida entre diversos tipos de drogas.

Violência intra-familiar no Rio de Janeiro

A constatação de que a maioria dos menores agredidos atendidos no Hospital

Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, é de meninas, é um indicador resultante da compilação da informação de sexo do agredido, comparada ao total de agredidos.

- “The child well-being scales”

Uma escala conceituada A classificação da escala 30, que aborda as privações físicas deliberadas, permite o entendimento e enquadramento de um fato observado em alguma das hipóteses formalmente descritas, o que permite avaliar, quantitativa e qualitativamente, a ocorrência e o nível de privação a que uma criança tenha sido submetida.

Conclusões

I

-

Indicadores são medidas do cumprimento dos objetivos de uma intervenção e, por isso, serão tanto melhores quanto melhor forem definidos os objetivos e a forma de intervenção.

II - Informações confiáveis são indispensáveis para a formação de indicadores.

III -

Em cenários de fatos social ou criminalmente condenáveis, a pesquisa anônima é uma das formas mais eficazes de obtenção de informações.

IV - Um sistema de ótimos indicadores pode ser posto a perder se a arquitetura dos bancos de dados que o suportam for desenvolvida e implementada de forma inadequada.

V -

As técnicas estatísticas de estimação suprem, de forma rigorosa, a impossibilidade de obtenção de todas as informações de um universo de abrangência requerido.

VI - Bons indicadores apresentam resultados melhores ou piores, conforme a qualidade da intervenção efetuada. Em ambos os casos, sua avaliação deve ser um estímulo para a continuidade de ações nobres como as pretendidas por todos que estão nesta Oficina.

II - RESULTADO DOS TRABALHOS EM GRUPO

{Página impar)