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Universidade do Algarve Escola Superior de Saúde de Faro

Disciplina de Psicologia Social 2006-2007

SEBENTA DE TEXTOS: PSICOLOGIA SOCIAL

(Textos seleccionados, traduzidos ou escritos por Celeste Duque; revistos em Out. 2006)

Índice

Conhecimento: sua relação com a Ciência

1

Atitudes

4

1. Atitudes

4

1.1. Definição de atitude

4

1.2. Componente tripartida das atitudes

4

 

1.2.1. Crenças

4

1.2.2. Afectos ou Sentimentos

5

1.2.3. Tendência para a acção

5

2. Intenções

5

2.1.

Definição de intenção

5

3. Teoria da Acção Reflectida

5

4. Teoria do Comportamento Planeado

7

5. Atitudes em Relação ao Trabalho

7

6. Envolvimento no Trabalho

8

7. Comprometimento Organizacional

9

8. Mudança de Atitudes

9

9. Bibliografia

11

Les théories de la Dissonance Cognitive

12

1. Introduction

12

2. La théorie de la dissonance de Festinger

12

2.1. Quelques illustrations empiriques de la théorie de Festinger

3. Bibliographie

Introdução ao Estudo da Influência Social: Paradigmas de Sherif, Asch e Moscovici

13

14

15

1. Breve introdução

15

2. Formação de Normas

16

2.1. Função das normas

16

2.2. Definição de norma

16

2.3. Como se formam as normas

17

3. Conformismo social

3.1. Submissão a uma maioria quantitativa: Dependência informativa e dependência normativa

18

18

3.1.1. Submissão a uma maioria quantitativa

18

3.1.2. Dependência informativa e Dependência normativa

20

a) Dependência informativa

20

b) Dependência normativa

21

3.2. Submissão a uma maioria qualitativa Efeito de Milgram

22

3.3. O conformismo, será uma norma social?

25

3.4. Comportamento desviado

25

4. A mudança adaptativa

4.1. Normas arbitrárias e desajustadas

26

26

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5. Inovação

28

5.1. Dependência vs Negociação de conflitos

29

5.2. Factores que determinam a eficácia das minorias activas

30

5.2.1. O comportamento consistente

30

5.2.2. Estilo de negociação

31

5.2. Modelo funcionalista versus modelo genético

32

5.2.1. Modelo funcionalista

32

5.2.2. Modelo genético

33

5.2.3. Diferenças entre os Modelos Funcionalista e Genético

34

6.

Bibliografia

Influência dos Grupos: Formação de Normas e Atitudes

34

36

Hipóteses

36

O efeito autocinético: o seu interesse em relação ao nosso problema

36

Procedimento

37

Experiências individuais

38

Experiências de grupo

39

Discussão dos resultados

43

Uma aproximação experimental do estudo das atitudes

45

Estilo de Comportamento de uma minoria e a sua Influência sobre as Respostas de uma Maioria

1. Inovação, enquanto Processo de Influência Social

1.1. As três modalidades de influência social

47

47

47

1.1.1. Normalização

47

1.1.2. Conformismo

48

1.1.3. Inovação

49

1.2. Controlo social e Mudança social

2. Dependência e Consistência do Comportamento

2.1. Uma nova fonte de influência

50

54

54

2.1.1. Dependência interna

54

2.1.2. Dependência externa

54

2.1.3. Dependência: Uma fonte de influência na normalização e no conformismo

55

2.1.4. Estilo de comportamento

55

2.2. Maioria, minoria e estilo de comportamento

58

2.2.1. A influência do juízo individual

58

2.2.2. Tamanho da maioria e pressão do conformismo

59

2.3. A reinterpretação do efeito de Asch

61

2.4. Hipóteses e conclusões

63

3. Atracção exercida pela Resposta Consistente de uma minoria

63

3.1. Descrição do paradigma experimental

63

3.2. Primeira experiência

64

3.2.1. Procedimento experimental

64

3.2.2. Resultados experimentais

65

3.3. Segunda experiência

65

3.3.1. Procedimento experimental

65

3.3.2. Resultados experimentais

66

4. Conclusão

67

5. Bibliografia

68

Conhecimento: sua relação com a Ciência

© Celeste Duque (Setembro, 2004)

O ser humano, desde que se “conhece” ainda não cessou procurar resposta para as suas dúvidas, incertezas, receios ou medos e esta permanente busca tem vindo, ao longo das gerações, a fornecer um maior “conhecimento” de si e do mundo.

Tentando dar resposta a perguntas do género:

O que conhecemos?

Como, quando, onde, para quê, e porquê, conhecemos?

O que há, de facto, para conhecer?

Assim, conhecer implica uma relação de um indivíduo com um objecto (pessoa ou acontecimento) exterior a si.

E é através do processo do conhecimento que o indivíduo apreende a natureza, a essência, e a estrutura, função ou finalidade de um determinado objecto de conhecimento (um qualquer fenómeno da natureza ou social).

O processo de conhecimento pode ser imediato (por exemplo, da apreensão por parte dos órgãos dos sentidos (logo, a um nível físico) ou, pode ser mediato (quando se efectua através da representação e construção mental na ausência dos objectos, i.e., sem que possam ser processados através dos órgãos dos sentidos).

Os fenómenos e objectos que “compreendemos” podem ser simples ou complexos, exibindo intrincadas teias de relações com outros objectos. Logo, as formas que estes processos de conhecimento assumem serão, forçosamente, diferentes (múltiplas) e produzirão níveis de apreensão e apropriação também eles distintos.

Amílcar Amorim propõe a seguinte “arrumação” tradicional das formas de saber:

Conhecimento empírico

Conhecimento científico

Conhecimento filosófico

Conhecimento teológico

O conhecimento empírico, segundo este autor, resultaria da experiência vulgar, quotidiana, de observações e racionalizações pessoais ou transmitidas socialmente, de doutrinas e preceitos ancestrais. E é caracterizado como um conhecimento não metódico e não sistemático, que apenas “fornece” o domínio instrumental necessário ao Homem para a sua sobrevivência e adaptação ao meio físico e social. Não possuindo regras de validação ou de aferição, do grau de verdade que encerra.

O

conhecimento, científico, por seu lado, procura desenvolver a apreensão dos fenómenos, para além

da sua constatação e descrição, das causas e leis que o regem, determinam ou influenciam. O saber deverá ser demonstrável, verificável e passível de se replicar. O método de apreensão é sistemático, controlado (seguindo um guião ou protocolo) e assenta na noção de prova e de verdade objectiva. O saber científico distingue-se do empírico pela noção de possibilidade de verificação, não se limitando à percepção dos fenómenos pelos órgãos dos sentidos ou através dos instrumentos desenvolvidos pelo homem com o objectivo de alcançar uma maior acuidade (como que uma espécie de refinamento ou extensão dos sentidos), dirigindo-se ao fulcro do problema, comprovando o mesmo através da experimentação controlada.

O

conhecimento filosófico, possui como objecto de reflexão e de investigação que são as realidades

mediatas. Pelo que os objectos são, regra geral, grandes abstracções e generalizações de problemas

que o método científico investiga de modo experimental mas que, nesta área do conhecimento, são interpretados como objectos mentais para os quais se estabelecem relações lógicas e dedutivas.

A filosofia problematiza, a verdade em filosofia é uma busca constante não um fim em si mesmo. O

saber em filosofia, ao invés da ciência, não reclama um grau de acumulação.

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O conhecimento teológico é, de acordo com Amorim, um conhecimento que não se demonstra nem se comprova porque o objecto Deus, Buda, ou como se queira chamar, é incomensurável, (não se mede, não se compara, é absoluto), assenta na noção de revelação divina, saber ø, que não é alcançável por experiência ou experimentação mas por que o “divino” o revela.

João Caraça, situa-se numa vertente mais dinâmica, processual e contextualizada, indo mais longe que esta visão estruturalista, aparentemente lógica, estática e imutável do conhecimento, proposta por Amorim.

A interpretação da realidade exterior ao ser humano constitui-se como um imperativo de

sobrevivência, primeiramente fisiológico, mas também de identidade.

A “esquematização ou mapeamento”do meio físico e social que nos rodeia transforma-se, assim, numa actividade instrumental da capacidade de sobrevivência e perpetuação da espécie. Estes mapas (conjuntos de representações e registos de sequências viáveis de comportamentos) funcionam como repositórios básicos dos saberes que são necessários para interagir num dado meio físico envolvente.

O conhecimento emerge, assim, como uma acção necessária e viável de sobrevivência do

Homem. A narrativa (memória, repositório) da acção, mantida num primeiro momento em conversas “silenciosas” consigo mesmo, irá permitir a abertura de uma outra dimensão (de comunicação e social) do conhecimento como instrumento de identidade e de interacção com

os outros (seus semelhantes), com os quais e, através dos quais, descobre formas mais robustas

de sobrevivência colectiva. Mas, no seio desta interacção social imaterial, para além da acção de carácter físico e material, descobrem-se as diferenças que constituem a raiz da identidade que posteriormente, o ser humano, procura preservar.

Este é o nível de conhecimento que emerge em comunidades simples e primitivas cuja necessidade básica é, literalmente, a sobrevivência. Comunidades que (re)produzem acções simples e semelhantes sobre o meio físico, tais como: recolha de frutos, pastorícia, pesca, etc.

Numa escalada de complexidade assinala-se a dimensão de grupo e comunitária cuja identidade se exprime nas primeiras interacções simbólicas de representação artística e ritualista ou dramática, da vida em conjunto, e da identidade individual dos seus membros, que resulta no densificar da comunicação e que passa a ultrapassar uma dimensão imediata de relação com o meio físico e atinge o nível de explicações sobre a totalidade do que os cerca. Surgem, então, as dimensões religiosas e mágicas de explicação do mundo.

Caraça, utilizando uma visão mais geométrica, define dois planos de acção sobre o meio ao nível da actividade material: o espaço que uma comunidade ocupa e no seio do qual interage e o comportamento que os indivíduos adoptam na relação com o contexto concreto do espaço que ocupam.

Definindo, igualmente, dois níveis no que respeita à acção comunicacional (imaterial): a persistência (associada à capacidade de escolha e de preservação da comunidade no sentido físico) e a coesão (no sentido de maior robustez da comunidade, em termos sociais).

Deste modo no cruzamento dos planos:

Espaço/persistência os seres humanos começam a dominar conhecimentos de natureza técnica;

Espaço/coesão os seres humanos começam a desenvolver conhecimentos de natureza política;

Comportamento/coesão os seres humanos começam a desenvolver conhecimentos de natureza artística; e

Comportamento/persistência os seres humanos começam a desenvolver conhecimentos de natureza religiosa.

A este nível de conhecimento, João Caraça, irá chamar “saber tácito”, porque:

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Construído a partir da acção material e imaterial primitiva imediatista e quotidiana; e

Corresponde a um grau simples de relação do homem com o meio físico e social.

A agregação do homem em comunidades maiores (as cidades) caracterizadas pela pluralidade

dos tipos de relação do homem com o seu meio físico (agricultores, pescadores, artesãos, pastores) conduz a um reforço da coesão de cada comunidade em particular, nomeadamente no esforço de replicação dos seus saberes, e de inter-relação com os outros, num espaço que, doravante, passaria a ser comum e partilhado. A necessidade de novas formas de coesão (pela presença de outras comunidades), e a amplificação das possibilidades (materiais) de sobrevivência conduzem à crescente explicitação dos saberes. Evoluindo estas para formas mais organizadas, como por exemplo: da técnica para a tecnologia; da política para o direito; da mágica e arte primitiva para a estética e belas artes, da coesão básica para a moral.

A diversidade de grupos que estabelecem uma relação inter-subjectiva ao nível da dimensão

imaterial (comunicacional) associada às mudanças substantivas nos planos de persistência e coesão (os grupos terem de negociar entre si e basear a sua relação na diferença e na acção material) conduz à aceleração do conhecimento, originada pela concentração de recursos materiais e imateriais num mesmo espaço.

Deste modo, as cidades motivaram e facilitaram a emergência da necessidade de abordar a relação inter-subjectiva. Respondendo-lhe e solucionando-a pela explicitação dos saberes o que, simultaneamente, facilitará a partilha e o uso e, mas também, a multiplicação do saber.

As cidades possibilitaram a emergência de uma outra forma de complexidade material e imaterial o comércio, que de novo numa cadeia de influências mútuas reforçou a capacidade de se gerar riqueza material, assim como um maior adensamento ao nível da comunicação, e circulação de saber.

A intensificação da escrita e o surgimento da acção puramente intelectual, já não associada

directamente ao meio físico, irá, então, possibilitar a emergência do saber mais organizado de

carácter disciplinar constituindo a natureza a base da temática e depois numa aproximação auto-reflexiva o próprio acto de saber e o ser humano.

A partir daqui está aberta a porta para a reflexão sobre o método de saber, os critérios de

verdade e a demonstração abstracta que conduzirão à ciência moderna 1 .

1 Complementar esta leitura com os Textos de Apoio da disciplina de Introdução à Psicologia, 1º Ciclo 1º Ano 1º Semestre 2003-2004, nomeadamente a introdução ao Texto: “Emergência da Ciência Moderna”.

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Atitudes

Texto da autoria de Prof. Doutor Pedro Zany Caldeira e Dra. Celeste Duque, Lisboa, Maio 1999; revisto por Celeste Duque, Faro: Outubro de 2006

1. ATITUDES

1.1. Definição de atitude

As atitudes são disposições favoráveis ou desfavoráveis relativamente a objectos, pessoas e acontecimentos, ou em relação a alguns dos seus respectivos atributos. “Eu gosto de maçãsexpressa uma atitude; tal como gosto de negociar consigo”, “os jantares de turma são divertidos” e “fazer a contabilidade é aborrecido”.

1.2. Componente tripartida das atitudes

Uma forma de conceptualizar uma atitude é através da tripla composição das atitudes. As atitudes são compostas por crenças, sentimentos (ou afectos) e tendências de acção. A figura que se segue mostra a relação entre estes factores; eles sobrepõem-se mas não são idênticos.

Crenças Afectos Tendência para a Acção Figura 1. Tripla componente das atitudes
Crenças
Afectos
Tendência para a
Acção
Figura 1. Tripla componente das atitudes

1.2.1. Crenças

Como componentes de atitudes, as crenças são de dois tipos: o que a pessoa acredita sobre os factos de uma situação crenças informacionais; e crenças avaliativas, que consistem naquilo que a pessoa acredita sobre os méritos, deméritos, bem, mal, justo, injusto, benefícios ou custos de diferentes situações.

Por exemplo, o Gestor A pode possuir uma crença informacional de que apenas metade dos membros do seu departamento possuem a formação necessária para utilizarem eficientemente o computador e uma crença avaliativa de que é importante para a eficiência do departamento que todos os seus membros possuam formação em informática. A combinação destas duas crenças deverá influenciar a atitude do Gestor A sobre a melhor forma de gerir o orçamento de formação do departamento.

O Gestor B pode ter uma atitude diferente da do Gestor A, em consequência de uma crença informacional diferente, como por exemplo, todos os membros do departamento já possuem formação suficiente em informática ou uma crença avaliativa diferente, como por exemplo, à

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excepção de alguns especialistas, os conhecimentos de informática dos membros do departamento não acrescentariam valor à sua eficiência.

1.2.2. Afectos ou Sentimentos

O termo afecto refere-se aos sentimentos gerais de um indivíduo ou à avaliação de uma

situação. Ao contrário da componente cognitiva (as crenças), que é geralmente multidimensional porque se relaciona com todos os diferentes aspectos da situação que um indivíduo percepciona, a componente afectiva é unidimensional: relaciona-se com a forma como o indivíduo sente ou vivencia a situação como um todo.

Por exemplo, o Gestor A pode sentir que a situação é “insatisfatória” enquanto o Gestor B sente que é “aceitável”. O elemento principal que distingue uma atitude de uma crença ou opinião é, assim, o afecto positivo ou negativo que a pessoa tem sobre uma determinada situação.

Algumas atitudes consistem quase inteiramente do seu elemento afectivo. Afirmações simples como: “Eu gosto de maçãs” geralmente expressam atitudes que são compostas quase inteiramente de afecto. Contudo as crenças ou opiniões fazem parte de quase todas as atitudes. Felizmente que assim é, segundo o ponto de vista de alguém que está a tentar mudar as atitudes de outras pessoas, porque a investigação já demonstrou que o elemento crença de uma atitude é mais fácil de mudar que o elemento afectivo.

1.2.3. Tendência para a acção

A última componente das atitudes, segundo a teoria da tripla componente, é a tendência para agir de forma consistente com a atitude. Prosseguindo com o nosso exemplo, ficamos à espera que o Gestor A, comparativamente como o Gestor B, vá, provavelmente, gastar grande parte do orçamento da formação do departamento com os indivíduos que ele considera possuirem reduzidos conhecimentos de informática.

2. INTENÇÕES

2.1. Definição de intenção

As intenções, são planos de acção. Quando podem ser medidas com acuidade, as intenções geralmente predizem muito bem o que alguém irá fazer (melhor que as atitudes) mas, mesmo assim, há sempre muitas oportunidades que impedem as pessoas de prosseguir com as suas intenções. Por exemplo, uma pessoa pode ter a intenção de se manter calma durante uma reunião (que antecipa como) difícil mas durante a mesma pode ser provocada de tal modo que perca a serenidade, ou pode sinceramente pretender chegar a horas para uma reunião, mas

chegar atrasada devido a problemas com o seu transporte (por exemplo, pode ter um furo, um

acidente, perder o autocarro

A consciência individual das intenções é elevada em

comparação, por exemplo, com a consciência dos motivos ou mesmo das atitudes.

).

3. TEORIA DA ACÇÃO REFLECTIDA

O modelo mais comummente aceite da relação atitude/comportamento é conhecido por

Teoria da acção reflectida e foi desenvolvido em 1967, por Fishbein e Ajzen.

A principal diferença, em comparação com outros modelos, é que lida com atitudes não em

relação a pessoas, objectos e instituições, mas somente com acções, sendo melhor na predição

do comportamento que os modelos que o antecederam. Desta forma, esta teoria, em vez de

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tentar prever como é que os indivíduos votarão a partir das suas atitudes em relação a partidos políticos, às políticas e às personalidades políticas, tenta antes prever o sentido de voto dos indivíduos a partir da sua atitude relativamente a esse mesmo sentido de voto.

A teoria da acção reflectida sofreu um grande desenvolvimento em 1991, passando a designar-

se por Teoria do Comportamento Planeado e a incluir um conjunto de novas variáveis (ver
se por Teoria do Comportamento Planeado e a incluir um conjunto de novas variáveis (ver
figura 2).
Atitude
Norma
Intenção
Comportamento
subjectiva
Controlo
percebido

Figura 2. Teoria do comportamento planeado (Fishbein & Ajzen, 1991)

Na sua forma inicial, a teoria postula que o comportamento é determinado directamente pela intenção de o realizar, sendo esta, por seu turno, influenciada pela atitude (isto é, pela avaliação positiva ou negativa que o indivíduo efectua sobre o comportamento a desempenhar) e pela norma subjectiva (ou seja, a pressão social percebida para desempenhar ou não desempenhar o comportamento). A norma subjectiva forma-se a partir da percepção que cada indivíduo tem sobre os comportamentos que são “lícitos” ou “ilícitos” segundo os grupos sociais de referência.

Finalmente, as consequências antecipadas do desempenho ou não desempenho do comportamento afectam tanto a atitude como a norma subjectiva. Para a atitude, as crenças em que o desempenho de determinado comportamento originará resultados específicos relaciona-

se directamente com as avaliações desses resultados. Para as normas subjectivas, as crenças que temos sobre o que indivíduos específicos esperam que seja o nosso comportamento relaciona-se directamente com a nossa motivação para agir de acordo com a opinião desses mesmos indivíduos específicos.

Desta forma, a teoria sugere que, se a Manuela é não fumadora, é porque ela tenciona não fumar e as suas intenções são influenciadas pelas suas atitudes positivas em relação a uma vida saudável (ou atitudes negativas em relação ao fumo) e pela sua consciência da pressão social para não fumar.

Por outro lado, as suas atitudes são influenciadas pelas suas crenças sobre os resultados de não fumar por exemplo, uma crença sobre o fumo fazer mal à saúde e pela sua avaliação dessas crenças ela valoriza muito a sua saúde. A susceptibilidade da Manuela à pressão social também é influenciada pelas suas crenças ela persistirá com o seu comportamento de não fumadora se acreditar que as pessoas que ela quer que a aceitem esperam que ela não fume.

A teoria da acção reflectida é extremamente intuitiva e parcimoniosa, com grande valor

explicativo, e já foi aplicada com grande sucesso na previsão de comportamentos de consumo,

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saúde, voto, recreativos e organizacionais. Contudo, apenas se aplica ao comportamento “voluntário”, onde a pessoa possui controlo total sobre o seu comportamento. Infelizmente, a esmagadora maioria dos nossos comportamentos encaixam-se noutra categoria, pois apenas possuímos controlo parcial sobre o que fazemos: a nossa intenção é apanharmos o comboio, mas a composição é cancelada; temos a intenção de aparecermos numa reunião marcada, mas esquecemo-nos.

4. TEORIA DO COMPORTAMENTO PLANEADO

Fishbein e Ajzen elaboraram, posteriormente, novas versões da teoria da acção reflectida, incluindo os comportamentos que não estão completamente sob a alçada do controlo voluntário onde as acções estão sujeitas a interferências por parte de forças externas e internas. A esta nova versão designaram de Teoria do Comportamento Planeado.

A evolução relativamente à teoria anterior é a adição de uma variável, o controlo

comportamental percebido, que é a crença que o indivíduo possui sobre a facilidade ou

dificuldade de desempenhar o comportamento.

O controlo comportamental percebido influencia a intenção tal como a atitude e a norma

subjectiva, mas também pode influenciar directamente o comportamento (quando o indivíduo percepciona que possui controlo real sobre o desempenho do comportamento caso raro, segundo muitos investigadores).

Desta forma, a teoria sugere que, se a Manuela é não fumadora, é porque ela tenciona não fumar e as suas intenções são influenciadas pelas suas atitudes positivas em relação a uma vida saudável (ou atitudes negativas em relação ao fumo) e pela sua consciência da pressão social para não fumar. Por outro lado, as suas atitudes são influenciadas pelas suas crenças sobre os resultados de não fumar, pela sua avaliação dessas crenças, mas também a sua estimativa que, por exemplo, fumar entrará em conflito com o seu desejo de não fumar e a sua reacção emocional de nojo, que por sua vez agirá directamente sobre as suas intenções relativas ao fumo. A susceptibilidade da Manuela à pressão social também é influenciada pelas suas crenças ela persistirá com o seu comportamento de não fumadora se acreditar que as pessoas que ela quer que a aceitem esperam que ela não fume.

5. ATITUDES EM RELAÇÃO AO TRABALHO

As atitudes representam uma parte importante na vida das pessoas, particularmente no trabalho. As nossas atitudes face ao trabalho ou à organização podem ter efeitos profundos não só na forma como realizamos o trabalho e produzimos, mas também na qualidade de vida que experimentamos no trabalho.

Apesar de, na linguagem corrente, usarmos frequentemente a palavra atitude, esta utilização falha em captar a riqueza do conceito tal como é aplicado pelos investigadores da Psicossociologia.

As atitudes são relativamente instáveis, por isso são facilmente alteradas.

Como já vimos, as atitudes são compostas por três componentes:

Cognição (a Crença)

Afecto

Comportamento (a Tendência para a Acção)

A componente avaliativa ou afectiva refere-se aos julgamentos avaliativos (favoráveis ou

desfavoráveis) relativamente a objectos, pessoas ou acontecimentos que, genericamente, são

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designados de objectos atitudinais. Elas reflectem o que a pessoa sente sobre algo. Quando, por exemplo, diz “gosto do meu trabalho!”, está a expressar a sua atitude face ao trabalho.

Mas as atitudes envolvem mais do que sentimento, envolvem também conhecimento isto é, aquilo em que a pessoa acredita sobre um determinado objecto atitudinal. Por exemplo, pode estar convencido que, o seu colega de trabalho, ganha muito mais do que deveria ganhar quando compara as suas recompensas com as dele. Estas crenças, quer sejam, totalmente fundamentadas ou totalmente falsas, compreendem a componente cognitiva das atitudes.

Aquilo em que acredita sobre algo e aquilo que pode sentir sobre isso (por exemplo, é

insuportável trabalhar neste ambiente!”) podem ter algum efeito na forma como está predisposto

a comportar-se (por exemplo, “Vou procurar outro emprego”). Por outras palavras, as atitudes têm uma componente comportamental, isto é, uma predisposição para agir de determinada forma.

É importante salientar que esta predisposição pode não servir como predição do comportamento. Por exemplo, apesar de poder estar interessado num novo emprego, pode não o aceitar se não existir uma posição melhor disponível ou se existirem outros aspectos do trabalho de que gosta suficientemente para compensar os seus sentimentos negativos. Por outras palavras, a sua intenção para se comportar de determinada forma pode ditar a forma como irá agir.

Estas três componentes da atitude estão intimamente relacionadas. A crença que, por exemplo,

a discriminação sexual no local de trabalho é errada, é um julgamento avaliativo, que espelha a

componente cognitiva da atitude. Esta, por sua vez, estabelece o palco para a parte mais crítica da atitude a sua componente afectiva. O afecto é o segmento emocional ou sentimento de

uma atitude e está reflectido em afirmações do género: “Gosto do Francisco porque ele é perfeitamente imparcial no tratamento e gestão dos colaboradores masculinos e femininos”. Por último,

o afecto pode conduzir a resultados comportamentais. A componente comportamental da

atitude refere-se a uma intenção para o indivíduo agir de determinada forma face a objectos

atitudinais. Por exemplo, posso escolher aproximar-me do Manuel por causa dos meus sentimentos por ele.

Combinando estas três componentes podemos definir o conceito.

Atitude: um conjunto relativamente estável de sentimentos e predisposições/intenções comportamentais face a um “objecto atitudinal” específico.

Quando se fala de atitudes em relação ao trabalho, referimo-nos àqueles sentimentos, crenças e tendências comportamentais, relativamente duradouros, face aos vários aspectos do próprio trabalho, do local onde é desempenhado e das pessoas envolvidas. As atitudes em relação ao trabalho estão ligadas a muitos aspectos do comportamento organizacional, incluindo o desempenho, o absentismo e a rotatividade voluntária.

As atitudes mais estudadas em Psicossociologia são:

A satisfação no trabalho;

O envolvimento no trabalho; e

O comprometimento organizacional.

6. ENVOLVIMENTO NO TRABALHO

O envolvimento no trabalho mede o grau em que uma pessoa se identifica psicologicamente com o seu trabalho e considera o seu nível percebido de desempenho importante para a sua própria valorização.

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Os trabalhadores com um nível elevado de envolvimento no trabalho identificam-se fortemente com, e interessam-se pelo tipo de trabalho que realizam.

Elevados níveis de envolvimento no trabalho estão relacionados com baixos níveis de absentismo e rotatividade voluntária.

7. COMPROMETIMENTO ORGANIZACIONAL

Se o envolvimento no trabalho se pode relacionar com o trabalho específico desenvolvido por um indivíduo, o comprometimento organizacional relaciona-se com a identificação do indivíduo com a organização empregadora.

O comprometimento organizacional é o grau em que o colaborador se identifica com uma determinada organização e com os seus objectivos e deseja permanecer na organização.

Podemos então afirmar que o comprometimento organizacional é uma atitude dos trabalhadores face à organização, relacionando-se com várias características do trabalho, com a natureza das recompensas recebidas, com o acolhimento e outras variáveis. Elevados níveis de comprometimento estão associados com baixos níveis de absentismo e rotatividade voluntária, elevados níveis de vontade para partilhar e fazer sacrifícios e várias consequências pessoais positivas.

O comprometimento organizacional inclui três factores:

1. Uma crença forte nos objectivos e valores da organização;

2. Disponibilidade para exercer esforço considerável em benefício da organização;

3. Um forte desejo de continuar como membro organizacional.

Deste modo, o comprometimento organizacional não é simplesmente lealdade para com a organização. É antes um processo contínuo através do qual os actores organizacionais expressam a sua preocupação com a organização e o seu sucesso e bem-estar contínuos.

8. MUDANÇA DE ATITUDES

Já alguma vez reparou na forma como as pessoas mudam aquilo que dizem, para que não contradiga aquilo que fazem?

Suponha que ao terminar este curso lhe são apresentadas duas propostas de emprego. Depois de muito pensar, escolhe finalmente um. Se for como a maior parte das pessoas, as suas atitudes em relação às duas organizações irão modificar-se, radicalmente. A sua atitude face ao trabalho que aceitou tornar-se-á mais positiva e a sua atitude face ao trabalho que rejeitou será mais negativa. Isto significa que procuramos reconciliar atitudes divergentes e alinhar as atitudes e comportamentos para que o nosso comportamento pareça racional e consistente. Isto ocorre devido a um processo designado por dissonância cognitiva.

A Teoria da Dissonância cognitiva, proposta por Festinger, pretende explicar a ligação entre

atitude e comportamento.

De um modo geral as pessoas não gostam de inconsistências e toleram mal a ambiguidade. Quando existe inconsistência, iniciam-se forças para que o indivíduo retorne a um estado de equilíbrio onde as atitudes e os comportamentos sejam de novo consistentes.

Sempre que dizemos uma coisa e fazemos outra ou quando descobrimos que uma atitude que temos é inconsistente com outra, estamos em dissonância cognitiva.

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Dissonância cognitiva refere-se a qualquer incompatibilidade que a pessoa pode perceber entre duas ou mais das suas atitudes, ou entre o seu comportamento e as suas atitudes. O desejo de reduzir a dissonância é determinado pela importância dos elementos criadores de dissonância, pelo grau de influência que a pessoa acredita que tem sobre os elementos e pelas recompensas que podem estar envolvidas na discrepância.

Existem várias vias para reduzir a dissonância: mudar o comportamento; concluir que o comportamento dissonante não é assim tão importante; mudar de atitude ou, ainda, procurar elementos mais consonantes para pesarem contra a dissonância

Para justificar a decisão e evitar a dissonância cognitiva podemos mudar a forma como sentimos, alinhando as nossas atitudes com os nossos sentimentos.

Como foi sugerido, as pessoas por vezes mudam as atitudes para que sejam consistentes com outras. Pode haver interesse em melhorar as atitudes relacionadas com o trabalho porque as atitudes negativas podem estar associadas com comportamentos não desejáveis (por exemplo, elevado absentismo e rotatividade voluntária). Claro que podemos também estar interessados em mudar atitudes sem mais, isto é criar atitudes mais positivas face ao trabalho devido aos sentimentos positivos daí resultantes que, por seu turno, ajudam as pessoas a sentir uma maior qualidade de vida no trabalho.

Mas quais são as implicações organizacionais da dissonância cognitiva?

Pode ajudar a prever a propensão para mudar de atitude e de comportamento. Para além disso, quanto maior for a dissonância depois de esta ter sido moderada pela importância, pela escolha e pelos factores de recompensa tanto maiores serão as pressões para a reduzir.

Suponha que o seu superior hierárquico lhe pede para trabalhar até mais tarde para terminar um relatório. Relatório esse que é necessário para uma reunião que terá lugar no dia seguinte, logo pela manhã. Agora, imagine que está a ver na TV um anúncio sobre cereais saudáveis para o pequeno-almoço. Apesar de parecer que estas duas situações não têm nada em comum, elas partilham um elemento fundamental: ambas são dirigidas para a mudança das suas atitudes ter mais vontade de trabalhar até tarde, no primeiro caso, e interessar-se por cereais, no segundo.

Apesar de na maior parte dos casos não estar consciente, é altamente provável que esteja a ser constantemente bombardeado por tentativas de mudar as suas atitudes um processo conhecido por persuasão.

Neste processo, a uma pessoa alvo (o indivíduo a quem queremos mudar a atitude) é dada uma mensagem na qual a informação apresentada é concebida para mudar as suas atitudes. Este processo envolve dois elementos básicos o emissor e a comunicação (o conteúdo específico da própria mensagem).

Existem vários factores que tornam a fonte e a comunicação mais persuasivos. Por exemplo, persuadimos com maior facilidade aqueles que têm uma atitude favorável face a nós ou somos muito mais facilmente persuadidos por oradores eloquentes que falam sem hesitar. Mas o determinante mais poderoso na persuasão é provavelmente a credibilidade da fonte, ou seja o grau em que o indivíduo é merecedor de confiança (confiável). Quanto mais se acredita que um indivíduo seja credível, tanto mais eficaz ele é na mudança de atitudes. Factores como a experiência, a perícia e os motivos do emissor fazem aumentar a credibilidade da fonte. Relativamente à mensagem, factores como a clareza e intelegibilidade ou a dimensão da discrepância da atitude (isto é, grau de diferença entre as atitudes expressas na comunicação e as da pessoa alvo) contribuem para a sua eficácia persuasiva.

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9. BIBLIOGRAFIA

Fishbein, M. & Ajzen, (1974). Attitudes toward objects as predictors of a single and multiplibehavioral criteria. Psychological Review, 81 59-74.

Fishbein, M. & Ajzen, (1975). Belief, attitude, intention and behaviour: An introduction to theory research. Reading MA: Addison-Wesley.

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Les théories de la Dissonance Cognitive

Alain Clémence, Université de Genève 2

1. INTRODUCTION

En 1957, Festinger proposait une théorie qui évoquait un moyen redoutable d'amener les individus à changer d'attitude. La théorie de la dissonance cognitive expliquait, en effet, comment un sujet induit à réaliser un comportement contraire à ses convictions transforme ses opinions en direction de ce comportement. Ce phénomène de persuasion n'est qu'une illustration de la théorie de Festinger qui vise à rendre compte de façon plus générale des effets de l'inconsistence cognitive. La théorie de la dissonance a généré un nombre considérable de recherches dont les résultats sont souvent étonnants (cf. Wicklund & Brehm, 1976; Beauvois & Joule, 1981). Par ailleurs, elle a provoqué des débats théoriques et méthodologiques qui ont longtemps occupé une place de choix en psychologie sociale sans compter le fait qu'elle a suscité des modèles d'analyse dans d'autres disciplines (par exemple, dans l'étude des effets de la mobilité sociale, cf. Jackman, 1972) et même certaines applications thérapeuthiques. L'objectif de cet article est de présenter brièvement les propositions initiales de la théorie ainsi que les développements et les interprétations alternatives auxquels elle a donné lieu.

2. LA THEORIE DE LA DISSONANCE DE FESTINGER

Pur Festinger, la dissonance désigne d'abord un théorème psychologique qui motive l'individu à modifier son univers cognitif. “L'existence de dissonance est psychologiquement inconfortable; de ce fait, elle va modifier la personne à essayer de réduire la dissonance pour atteindre la consonance Tout en essayant de réduire la dissonance présente, la personne évitera activement des situations et de l'information qui pourraient augmenter la dissonance.”(1957, p. 3). La source de la dissonance est interne à l'individu; elle prend son origine dans son économie cognitive. Plus précisément, elle découle d'un certain type de relation entre deux cognitions, entre deux “connaissances ou opinions ou croyances relatives à l'environnement, à soi ou à son comportement” (p. 3) ou plus généralement entre des éléments de connaissance du réel. Lorsque deux éléments de pensée sont pertinents l'un vis-à-vis de l'autre, c'est-à-dire lorsque l'un (appelons-le X) implique psychologiquement l'autre, (appelons-le Y), ils seront dans une relation dissonante si “en les considérant isolément, l'inverse de l'un va découler de l'autre.” (p. 5). Autrement dit, un individu éprouvera de dissonance lorsqu'une cognition non-Y apparaîtra après une cognition

X.

La relation entre deux cognitions peut être consonante ou encore non pertinente. Festinger donne peu d'indications pour spécifier la formation d'une de ces relations psychologiques. Il envisage simplement quatre sources principales de dissonance: logique (incongruence entre deux pensées ou deux croyances), culturelle (incongruence entre un comportement et une norme), rapport entre spécifique et général (incongruence entre une opinion ou un comportement particuliers et une série d'opinions ou de comportements), rapport entre expérience passée et expérience présente (incongruence entre une attente et un fait). L'individu, qui se trouve dans l'une de ces situations, doit donc, pour Festinger, se sentir dans un état désagréable, dans un état de dissonance, et, par conséquent, il va tenter de les éviter.

2 Retirado de um Site de Internet, em 2002, cuja referência se perdeu. Este texto está incompleto, como se pode facilmente observar, no entanto, é aqui inserido já que o fundamental da teoria de Festinger está resumida, nestas duas páginas.

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Dans certaines conditions, il ne pourra y échapper; il devrait alors essayer de supprimer, ou du moins de réduire la dissonance créée.

L'amplitude de latencya dissonance va dépendre de l'importance des cognitions en présence, de la valeur qu'elles représentent pour le sujet, et du nombre de cognition et de difficulté 3 ?

2.1. Quelques illustrations empiriques de la théorie de Festinger

De par leur forme, à la fois simple et générale, les propositions de Festinger vont rapidement donner lieu à un grand nombre de recherches empiriques. En 1960, Festinger et Aronson insistent sur l'apport de la théorie de la dissonance cognitive à l'explication d'un certain nombre de processus sociaux. La plupart des travaux recensés sont des expériences conduites dans un laboratoire ou en milieu naturel. Il est bien évident que certaines limites sont inhérentes à ce genre de recherches: le plus souvent, les sujets sont des étudiants universitaires et les mises en scène expérimentales souffrent parfois d'une extrême simplification de situations sociales complexes. En revanche, elles permettent d'étudier précisément les effets spécifiques de diverses variables en comparant les réactions des individus insérés dans des places contrastés (par exemple, comme on le verra, dans une position de “libre choix” ou au contraire “d'absence de choix”). Présentons rapidement trois ensembles d'illustrations expérimentales du phénomène de dissonance.

Le premier concerne les conséquences liées à une prise de décision. Brehm (1956) en avait donnée une illustration expérimentale dans le cadre du choix entre deux termes d'une alternative d'importance similaire. Dans cette expérience, qui montre que lorsqu'un sujet choisit un objet parmi deux qu'ils trouvent très attrayants, il valorise l'objet choisi au détriment de l'autre, Brehm aborde un élément important des conditions de création de la dissonance, celui qui se réfère à la liberté de choisir. Il revient plus longuement sur cette question dans la revue de travaux qu'il publie avec Cohen en 1962, en introduisant la notion de volition pour spécifier la fonction d'implication du libre choix dans la réalisation d'une tâche. La définition de ce terme reste floue; selon Zajong (1968, p. 367) il désignerait “le sentiment individuel de responsabilité, de contrôle et de choix qui intervient lorsqu'un individu prend une décision”. Même si la formulation de Brehm et Cohen, en ce qui concerne le choix et l'engagement, reste intuitive, descriptive, elle permet de mettre en évidence la fonction essentielle de la prise de décision dans la production du phénomène de dissonance. Elle permet aussi d'interpréter de façon plus convaincante des expériences manipulant la justification ou même l'incitation à accomplir une tâche désagréable. Dans les situations de faible justification (Rabbie, Brehm, & Cohen, 1959) ou d'incitation financière légère (Festinger & Carlsmith, 1959; Cohen, 1962), l'individu ne peut rejeter sur l'extérieur la source de sa décision, ce qui l'oblige à la justifier.

La seconde illustration concerne un ensemble d'expériences que Festinger et Aronson qualifient “d'interaction de groupe”. Aronson et Mills (1959), par exemple, étudient l'effet de l'initiation pour entrer dans un groupe (pratique qui était courante dans les milieux universitaires américains), effet qui va dans le sens d'une meilleure évaluation du groupe à mesure que l'initiation devient plus rigoureuse. Un autre exemple de ces travaux est donné par Zimbardo (1960). Cet auteur montre, d'une part, que plus un sujet est impliqué par une opinion, plus il aura tendance à la modifier en direction de celle d'une personne qu'il aime bien et, d'autre part, que plus l'opinion sera éloignée de cette personne, plus le changement sera grand.

3 Il sagit bien évidemment d'une caractérisation rapide du contexte dans lequel sont produits plusieurs modèles centrés sur l'équilibre.

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Comme illustration du troisième ensemble de recherches, il faut citer l'expérience de Festinger et Carlsmith (1971) qui inaugure toute une série de travaux sur ce qu'il est convenu d'appeler l'accord forcée4 . Les hypothèses de cette recherche étaient que: “si une personne est induite à faire ou à dire quelque chose qui est contraire à son opinion privée, elle aura tendance à changer son opinion de manière à la faire correspondre avec ce qu'elle a fait ou dit” et “plus la pression utilisée pour susciter le comportement effectif est forte, plus cette tendance et faible.” (1971, p. 148). Pour le tester, les auteurs ont mené une expérience dans laquelle, les sujets étaient invités à décrire de façon positive une tâche longue et ennuyeuse qu'ils venaient de réaliser. Pour ce faire, ils se voyaient offrir une rémunération faible, dans une condition, et une rémunération importante, dans une autre.

3. BIBLIOGRAPHIE

Brehm, J. W. (1956). Postdecision changes in the desirability of alternatives. Journal of Abnormal and Social Psychology, 52, 384-389.

Zimbardo, P. G. (1970). The human choice: Individuation, reason, and order versus deindividuation, impulse and chaos. In W. J. Arnold & D. Levine (Orgs.), Nebraska Symposium on Motivation 1969, 17, pp. 237-307. Lincoln: University of Nebraska Press.

Wicklund, R. A., & Brehm, J. W. (1976). Perspectives on cognitive dissonance. Hillsdale, NJ: Erlbaum.

Aronson, E., & Mills, J. (1959). The effect of severity of initiation on linking for a group. Journal of Abnormal and Social Psychology, 59, 177-181.

Festinger, L. (1957). A theory of cognitive dissonance. Stanford, CA: Stanford University Press.

Festinger, L., & Carlsmith, J. (1959). Cognitive consequences of forced compliance. Journal of Abnormal and Social Psychology, 58, 203-210.

Zajong, R. B. (1968). Attitudinal effects of more exposure. Journal of Personality and Social Psychology Monograph Supplement, 9 1-27.

4 Produit ses effets.

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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA INFLUÊNCIA SOCIAL: PARADIGMAS

DE SHERIF, ASCH E MOSCOVICI

Texto da autoria de Dra. Celeste Duque e Prof. Doutor Pedro Zany Caldeira, Lisboa: Maio de 1999; revisto por Celeste Duque, Faro: Outubro, 2006.

1. BREVE INTRODUÇÃO

“Quando reflectimos utilizamos uma linguagem, conceitos, ideias, que nos foram fornecidos

pela sociedade e pelos grupos onde crescemos e vivemos, o nosso diálogo interior é sempre um

troca com um Eu tomado como Alter e esse Eu constitui-se a partir de muitos outros (

pela sua referência a uma estrutura de regras ou de normas colectivas que toda a conduta humana é significativa e coerente, tanto aos olhos do próprio sujeito como aos olhos dos outros

É

)

com quem, ou no meio de quem o sujeito age” (Rocher, 1971).

“Todos nós ficamos fascinados quando vemos pessoas aceitarem ideias ou opiniões que não

Ficamos igualmente

admirados com a força emocional que se encontra associada ao estabelecimento ou abolição de normas, no funcionamento social, e nas vivências sociais ou individuais quando se respeitam

ou se cometem infracções” (Moscovici & Ricateau, 1972).

partilhavam, imitar gestos ou adoptar expressões que não eram seus (

)

Os fenómenos psicossociológicos anteriormente descritos, nas citações apresentadas, são estudados em Psicologia Social e designados de processos de influência social.

O estudo destes processos procura analisar os efeitos de um indivíduo ou grupo, enquanto

aliado, modelo ou adversário, nas respostas de um outro (indivíduo ou grupo) a um objecto ou situação social.

De uma forma geral, procura-se responder a questões do tipo:

Como e porquê se formam as normas?

Como e porquê um grupo ou um indivíduo procura impor as suas normas a outro?

Como e porquê os indivíduos adoptam as normas que lhe são impostas?

Mas a Psicologia Social também procura responder a outro tipo de questões, que se podem considerar como opostasdas primeiras:

Como e porquê os indivíduos propõem e introduzem novas normas? Como e porquê mudam as normas?

Os psicólogos sociais estiveram durante longo tempo convictos que os processos de influência social eram os responsáveis (ou estavam na origem) da normalização e do conformismo social.

A

normalização refere-se à formação das normas situação que ocorre quando os indivíduos

se

influenciam mutuamente para criarem e adoptarem uma norma aceitável por todos.

O

conformismo, por seu turno, refere-se à adaptação a uma norma dominante; esta norma

seria imposta por um sujeito ou entidade de estatuto superior (maioria qualitativa) ou imposta por um grupo (maioria quantitativa).

Subjacente à reflexão destes dois processos está o princípio ideológico de que a adaptação é a única fonte de preservação do sistema individual e social. Considerando-se o comportamento desviante como representando um risco para o sistema e que, embora seja um ruído inevitável, o sistema deve procurar absorvê-lo ou eliminá-lo. A mudança deve, então, ser encarada como existente e sendo necessária mas apenas na medida em que torna o sentido ainda mais adaptado e adaptativo.

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Serge Moscovici, em 1967, liderou um movimento europeu, seguido por muitos investigadores, em que tentava ultrapassar a ideia de que a normalização e o conformismo seriam as únicas manifestações do processo da influência social, chamando a atenção para os fenómenos de inovação. Esta última, refere-se à adopção, por parte de um grupo maioritário, de novas normas propostas por uma minoria desprovida de poder (Faucheaux & Moscovici,

1971).

De seguida, tentaremos mostrar e analisar como a Psicologia Social Experimental tem procurado responder a todas as questões até aqui apresentadas. E vamos começar pela análise do processo de 1) Formação de Normas, passando depois ao estudo do 2) Conformismo Social, ao estudo do 3) Comportamento Desviante, abordando a seguir a 4) Mudança Adaptativa e por último, mas não menos importante, o processo de 5) Inovação.

2. FORMAÇÃO DE NORMAS

As normas mostram-se essenciais na nossa vida. É através delas que conseguimos a estabilidade do meio em que vivemos (regemos o nosso comportamento em função das normas quando interagimos com os outros e, porque estas se aplicam também aos outros, o inverso também é verdade surge assim o equilíbrio).

O nosso comportamento, como facilmente se pode inferir do anteriormente exposto, obedece a regras e esquemas de conduta dos quais temos mais ou menos consciência, e através dos quais se manifesta a nossa pertença a uma cultura e se torna óbvia a nossa inserção neste ou naquele grupo social.

2.1. Função das normas

De uma forma muito resumida podemos afirmar que as normas têm como função:

Estabilizar o meio, simplificando a aprendizagem e a adaptação do indivíduo à sociedade;

Facilitar a relação interpessoal, regulando e tornando previsíveis os comportamentos dos outros, permitindo, ainda, a sua descodificação; Ser sinal da pertença a um grupo ou grupos, facilitando a interacção dos indivíduos no(s) grupo(s), isto é, pertencer a um grupo é adoptar as suas normas.

2.2. Definição de norma

Para melhor compreender o conceito de norma, apresentamos de seguida as definições de vários autores:

“Regras e esquemas de comportamento largamente seguidas numa sociedade ou num grupo social, cujo não cumprimento implica sanções explícitas ou implícitas e a que os membros do grupo, como tal, conferem valor” (Maisonneuve, 1973).

Constituem-se como “Uma escala de referência ou avaliação, que define uma margem de comportamentos, atitudes e opiniões, permitidas e repreensíveis” (Sherif, 1965; op. cit. Leyens, 1988, p. 67)

São “a aceitação partilhada de uma regra que é uma prescrição no que se refere à maneira de perceber, pensar, sentir e agir” (Newbomb, Turner, & Converse, 1970; op. cit. Leyens, 1988, pp. 67-68).

são essenciais para as nossas interacções

Segundo Jacques-Philippe Leyens (1988), elas “

fornecendo-lhes ordem, estabilidade e previsibilidade” (p. 68).

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E, então, de acordo com as definições aqui apresentadas as normas são extensíveis a todo o

tipo de comportamento (isto é, pensar, sentir, agir), são imperativas (obrigam a são relativas (porque, variam de grupo para grupo e de época para época).

Quanto à sua extensão, temos a considerar duas categorias de normas:

As que são comuns a todos os indivíduos de uma dada cultura ou grupo; As que são específicas dos diferentes papéis sociais. Definindo-se papel social como um conjunto de atitudes e comportamentos esperados de um indivíduo que ocupa determinada posição ou estatuto social.

2.3. Como se formam as normas

Em 1936, Muzafer Sherif, tentando demonstrar experimentalmente como se formam as normas, baseou-se no efeito autocinético bem conhecido dos astrónomos, e à muito estudado, o qual consiste no facto de um ponto luminoso imóvel, apresentado em completa escuridão e a uma certa distância, dar a impressão de se mover de forma irregular, aos olhos de um observador que não tem outros pontos de referência na situação e colocou as seguintes hipóteses:

a) Numa situação marcada pela incerteza, um indivíduo procura estabelecer uma norma que lhe permita estabilizar a situação;

b) Numa situação marcada pela incerteza, vários indivíduos que possuem estatutos equivalentes, procurarão influenciar-se mutuamente para produzir normas aceitáveis por todos;

c) As normas estabelecidas numa situação de grupo manter-se-ão aquando de posterior inserção de cada indivíduo isolado na mesma situação.

Em termos práticos, na primeira situação experimental de Sherif, os sujeitos tinham que avaliar, numa sala completamente às escuras, a deslocação de um ponto luminoso (o qual era efectivamente fixo). Em tal situação, e ao fim de alguns segundos, as pessoas acabam por ver o ponto luminoso a deslocar-se efeito autocinético.

Os resultados obtidos por Sherif demonstraram que os sujeitos são progressivamente levados a estabelecer uma norma, em torno da qual elaboram as suas avaliações sobre a deslocação do ponto luminosos, e que esta norma varia de indivíduo para indivíduo.

Numa segunda experiência, face à mesma situação, e começando com a experiência individualmente passando posteriormente a uma situação de grupo com mais um ou dois outros sujeitos, Sherif, verificou que da situação de grupo emergia a produção de uma norma de grupo.

Leyens (1988) considera que esta norma representa ou uma convergência média das normas anteriormente estabelecidas, ou uma norma original ou, ainda, a influência preponderante de um sujeito.

Numa terceira experiência, os indivíduos começam por ser colocados em grupo e, uma vez formada a norma de grupo, são colocados em situação individual. Verificou-se, nesse momento, que os indivíduos têm tendência para interiorizar a norma de grupo (ver Figura 1 A e B , gráficos do lado direito).

) mas também

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A

de Faro Disciplina de Psicologia Social – 2006-2007 A B Figura 1 . Mediana das estimativas

B

Faro Disciplina de Psicologia Social – 2006-2007 A B Figura 1 . Mediana das estimativas dos

Figura 1. Mediana das estimativas dos sujeitos, em polegadas (Faucheux et al., 1971, pp. 216-217)

Podemos, então, concluir que, tal como Sherif (1936) advoga, “o fundamento psicológico do estabelecimento de normas sociais, tais como os estereótipos, as modas, as convenções, os costumes e os valores, é a formação de quadros de referência comuns enquanto produtos do contacto dos indivíduos entre si”.

3. CONFORMISMO SOCIAL

Como já referimos, o conformismo refere-se ao processo que ocorre quando confrontado com uma situação assimétrica, quantitativa ou qualitativa, um sujeito ou um grupo adere ou se submete à norma de um outro sujeito ou grupo.

Para se melhor compreender este conceito, iremos recorrer: 1) ao paradigma experimental clássico de Asch, 2) ao estudo que a partir desse paradigma Deutsch e Gerard realizaram, bem como 3) às experiências de Milgram sobre a submissão a uma maioria qualitativa.

a dependência normativa

3.1.1. Submissão a uma maioria quantitativa

Solomon Asch, em 1951, que seguia uma orientação da Gestalt, falava em efeitos da pressão implícita do grupo na distorção da percepção.

Nos seus estudos, Asch, utilizou a seguinte experiência: apresentou a três grupos estudantes (constituídos por um mínimo de seis e um máximo de oito indivíduos) de três Universidades diferentes, dois cartões um deles, sempre apresentado à esquerda, continha uma linha considerada padrão; e o outro continha três linhas, das quais apenas uma era igual à padrão;

e

3.1.

Submissão

uma

maioria

quantitativa:

Dependência

informativa

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esta prova era repetida num total de dezoito ensaios. Os cartões eram colocados num quadro a um metro de distância dos sujeitos.

E foi dada a instrução aos sujeitos de que deveriam comparar as linhas dos dois cartões, após o que deveriam indicar qual era, das três, a linha padrão (cartão apresentado à direita) (ver Figura 2).

S

A B C
A
B
C

Figura 2. Exemplo de cartões de estímulo utilizados por Asch (Moscovici, 1976, p. 163)

Nestes grupos, apenas um indivíduo é um verdadeiro sujeito experimental e que será, de ora em diante, designado de sujeito ingénuo os restantes 5 ou 7 membros do grupo são cúmplices do experimentador.

Cada um dos sujeitos é convidado a fazer a sua avaliação, em voz alta e, propositadamente, o sujeito ingénuo é o último a falar. A experiência consiste, como já referimos, num total de 18 ensaios e os cúmplices foram instruídos para darem unanimemente respostas erradas, em 12 cartões específicos. O sujeito ingénuo encontra-se numa posição minoritária, isolado face a uma maioria unânime, que contradiz de forma consistente a evidência perceptiva, cometendo erros que chegam a atingir os 5 cm. Embora não haja qualquer pressão explícita do grupo o sujeito ingénuo é confrontado, implicitamente, com a unanimidade dos membros do grupo.

Quais foram, então, os resultados obtido por Asch?

Antes de respondermos a esta questão, convém referir que Asch convencionou, por questão de critério, chamar prova crítica a qualquer juízo para o qual a maioria dá uma resposta errada e prova neutra a qualquer juízo crítico.

Verificou-se que nas doze provas críticas, a média de erros, isto é, de conformismo, situava-se entre quatro e cinco e apenas um em cada quatro sujeitos permanecia independente da maioria no conjunto da experiência.

Assim, Asch, esperava com esta experiência que os sujeitos realizassem um trabalho cognitivo substancial, consistindo em reorganizar as suas percepções em função das respostas da maioria. Para tentar saber quais eram as razões que levavam ao comportamento independente ou ao conformista, Asch, optou por, após a experiência, entrevistar os sujeitos.

E chegou à conclusão que: os sujeitos independentes se distinguiam pela confiança que demonstravam na sua própria percepção; pelo seu afastamento psicológico relativamente aos outros participantes que prejudicavam a sua qualidade de indivíduo único; e, por fim, por uma dúvida que prevalece sobre o seu próprio juízo.

Asch, interessou-se, mais pelos indivíduos conformistas, uma vez que são os mais susceptíveis de modificar o objecto do seu juízo. Apuradas as causas do comportamento de conformismo, verificou-se que alguns sujeitos aderiram à maioria por receio das represálias que uma desobediência poderia implicar.

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A maior parte dos sujeitos, no entanto, reconhece ter seguido os juízos da maioria porque a

unanimidade destes abonava em favor da exactidão. E, só uma pequena minoria de sujeitos deformou a sua percepção, por se ter submetido inconscientemente à influência da maioria que, segundo eles, emitia juízos correctos. Era esta última categoria de sujeitos que Asch esperava encontrar desde o início, pelo que, o escasso número de sujeitos, que dela fazem parte, invalidou a sua tese gestaltista.

A explicação para que tal tenha sucedido pode residir no tipo de material utilizado material

estruturado; mais objectivo se, por exemplo, tivesse sido utilizado material menos estruturado mais subjectivo , tal como juízos de valor, opiniões, atitudes, talvez então se obtivessem reacções mais conformes à perspectiva da Gestalt.

3.1.2. Dependência informativa e Dependência normativa

Jones e Gerard (1967), após a entrevista e a introspecção dos sujeitos ingénuos, chegaram à conclusão que se gera nos indivíduos um duplo conflito. Por um lado, têm, espontaneamente, tendência para confiar nas suas próprias capacidades perceptivas, que raramente falharam até então, mas hesitam devido às informações que lhes vêm dos outros membros (dos pares) do grupo. Por outro, estão sozinhos face a um grupo unânime que irá talvez julgá-los severamente.

De facto, no que diz respeito às capacidades perceptivas exigidas em provas como as de Asch, cada sujeito teve, obrigatoriamente, uma dupla aprendizagem antes de se apresentar nas provas: conhecer as suas próprias capacidades e ter confiança nos outros (Leyens, 1988, p. 87).

Para não falar daquilo que, neste momento, é para nós óbvio, cada um de nós foi igualmente treinado para obedecer às normas de grupo.

O sujeito de uma experiência de Asch sabe que a desobediência, voluntária ou não, pode e tem

seguramente consequências tais como: ser ridicularizado pelos restantes membros do grupo; perder o seu estatuto no seio do grupo a que, momentaneamente, pertence.

A propósito deste duplo conflito, Deutsch e Gerard (1955), posteriormente à experiência de

Asch, realizaram uma série de outras experiências que evidenciam dois tipos de influência, ou

dependência, que conduzem ao conformismo: a dependência informativa e a dependência normativa.

a) Dependência informativa

A dependência informativa refere-se à importância que as avaliações e opiniões dos outros

representam para nós é este, aliás, o princípio evidenciado pela Teoria da Comparação Social

de Festinger (1954) desde muito cedo que aprendemos a ter em atenção e a respeitar os juízos

e opiniões dos outros e a compararmo-nos com os outros (referentes sociais); aliás, é do

conhecimento geral que os primeiros comportamentos socializados da criança são feitos por

imitação.

Leyens (1988) defende que a dependência informativa gera-se devido a é o conflito cognitivo, em que o indivíduo procura reunir as informações pertinentes que posteriormente lhe irão permitir solucionar o problema com o qual foi confrontado” (p. 88, grifo dos autores).

Vejamos

conformismo.

então

como

e

quando

surge

a

dependência

informativa,

como

factor

de

O conformismo aumenta à medida que aumenta a importância numérica da maioria (Asch e, posteriormente, Deutsch et al., chegaram à conclusão de que é necessário um mínimo de três

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sujeitos no grupo maioritário para que se obtenha conformismo). Isto sucede porque todos nós acreditamos haver mais verdades na cabeça de vários indivíduos do que na de um só.

De acordo com este raciocínio, o número crescente da maioria, mais do que exercer uma pressão moral, acentuaria um conflito de informações. Deste modo, o sujeito ingénuo terá cada vez mais dificuldade em admitir que todos os outros estão equivocados, excepto ele; a sua educação não o preparou para recusar massivamente a opinião dos outros que não têm qualquer motivo para o induzir sistematicamente em erro. Os resultados das experiências de Asch (1951) e de Gerard

et al. (1968) confirmam, segundo Leyens (1988), este raciocínio. Assim, por exemplo, nos grupos

de controlo que não incluem qualquer cúmplice, os erros são quase inexistentes, quando é um

único indivíduo a emitir juízos incorrectos, a influência é mínima; pelo contrário, o conformismo aumenta consideravelmente quando são três ou mais sujeitos cúmplices do experimentador.

Quando aumenta a ambiguidade do estímulo (por exemplo, voltando às investigações de Asch, quando não há grandes diferenças nas linhas a comparar com a linha padrão) ou, ainda, quando os sujeitos devem responder fazendo apelo à sua memória (o ter que recorrer à memória aumenta o conformismo) (Asch, 1951, Deutsch & Gerard, 1955).

Leyens (1988) refere que quanto mais ambíguo for o estímulo mais o sujeito estará indeciso sobre a resposta a dar, mais tendência terá para tomar a maioria como referência e mais se conformará (p. 90).

A

ambiguidade do estímulo tem ainda um efeito sobre outra dimensão da conformidade, a que

se

chamou aceitação pública (consiste em concordar, em voz alta, publicamente, com a norma

do grupo) e aceitação privada (consiste em concordar dentro de si; em adoptar como sua a norma do grupo, em comportamentos futuros). A propósito destas aceitações, Leyens (1988) defende que não é porque o sujeito ingénuo se deixa influenciar pela maioria que ele vai interiorizar os seus juízos.

Em 1965, Vernon Allen dedicou um ensaio às condições de coincidência mais ou menos estreita entre aceitações pública e privada. A ambiguidade do estímulo é uma dessas condições. Assim, quanto mais elevada for a ambiguidade mais a maioria, mesmo não unânime, provoca no sujeito uma verdadeira adesão.

“O hiato entre a aceitação pública e a aceitação privada confirma o aspecto de dependência normativa, presente na experiência de Asch. Parece evidente que um maior conformismo em situação pública, identificável, resulta de uma dependência relativamente às regras do grupo de referência; cede-se à maioria que não pode detectar-nos porque se teme o ridículo, porque há o medo de se ser rejeitado, etc.” (Leyens, 1988, p. 91).

Quando na situação experimental há mais do que um sujeito ingénuo, ou a maioria não responde de forma unânime e consistente unanimidade da maioria , baixa o conformismo (Asch).

Allen (1975) chegou à conclusão, após inúmeras experiências, que é a unanimidade (e o consenso) que interessa e não o apoio social (representado pelo cúmplice “diferente”). De facto, um cúmplice que emite juízos ainda mais incorrectos que a maioria reduz também ele o conformismo – dado que, havendo desacordo entre os “referentes sociais”, estes perdem o seu valor informativo.

b) Dependência normativa

No que se refere à dependência normativa, ela diz respeito aos riscos que o sujeito corre quando não segue as normas do grupo. Estes riscos podem ser de dois tipos: não-aceitação ou mesmo exclusão do grupo.

Festinger (1950) preconizou, numa segunda teoria, algo que se aproxima muito desta problemática e que designou de “pressões para a uniformidade”. Este autor defende que os grupos exercem, voluntariamente ou não, pressões para a uniformidade: agindo de tal forma que os grupos sejam capazes de atingir os objectivos estipulados ou que os seus membros,

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momentaneamente afastados, sejam obrigados a reconhecer a sua culpa aquando da sua reintegração nos mesmos.

Leyens (1988) defende que a dependência normativa se refere ao “ conflito motivacional na medida em que a presença real ou simbólica no grupo está subordinada à adesão às normas, e às regras do grupo” (p. 88, grifo dos autores).

Já em 1952, Kelley, tinha evidenciado esses dois tipos de dependência ao enunciar a dupla função dos grupos de: pertença/referência a função comparativa e a função normativa/prescritiva.

Deutsch et al. (1955), no que concerne à dependência normativa, verificaram que:

O conformismo baixa quando as respostas do sujeito ingénuo não são conhecidas da maioria

(por exemplo, quando escritas) e aumenta quando este dá respostas em voz alta, em situações de face a face.

O conformismo aumenta quando é induzida no sujeito ingénuo a ideia de que ele faz parte de

um grupo, e que os resultados do seu grupo serão comparados com os de outros grupos.

Numa outra experiência, Linde e Patterson (1964) verificaram que o conformismo se manifestava com maior intensidade quando o grupo era homogéneo, sendo a maioria e a minoria constituída por paraplégicos, em cadeira de rodas, ou “normais” (entenda-se: sem handicaps físicos, isto é, não deficientes); pelo contrário, quando o grupo era heterogéneo (um paraplégico para vários indivíduos não deficientes, ou vice-versa) o conformismo manifestava- se menos. Isto é, se o grupo se constitui como grupo de referência adequada, ou, quando se quiser, como referente social, então, o conformismo aumenta (é mais elevado).

Podemos, deste modo, afirmar, resumidamente, que os factores que levam a uma maior dependência informativa ou normativa contribuem, seguramente, para um reforço do conformismo. Destes factores foram citados: a importância numérica da maioria; a unanimidade da maioria; a ambiguidade do estímulo a percepcionar e, nesta, foi analisada a situação pública não anónima.

A acrescentar a estes factores há ainda mais dois, que se apresentam de seguida.

Temos que considerar que a natureza das relações entre o indivíduo susceptível de ser influenciado e o grupo de pressão tem uma importância capital isto é, constituir-se como referente social para o sujeito. Logo, quanto mais o grupo representar as características de uma referência adequada, maiores são as probabilidades de êxito ao nível da influência.

E, por fim, sabe-se que a atracção pelo grupo desempenha, igualmente, um papel importante. O

sujeito não ousa arriscar-se a perder o seu estatuto de membro resistindo ou opondo-se às pressões de que é alvo. Por exemplo, quando um sujeito é inserido num grupo que ele considera ser o “máximo” e com o qual partilha muitas das principais regras, a probabilidade da sua aceitação pública (de que tinha um parecer diferente) se transformar numa verdadeira adesão é extremamente elevada. Pelo contrário, um indivíduo que se sinta profundamente atraído por um grupo, mas que não concorda com muitas das suas regras fundamentais, só muito dificilmente poderia assumir a aceitação pública como verdadeira adesão ele estaria a vivenciar uma situação que designamos de dissonância cognitiva.

3.2. Submissão a uma maioria qualitativa Efeito de Milgram

Ao contrário do que sucedeu nas experiências de Asch, Deutsh e Gerard em que o indivíduo se submetia ao grupo sem que se verificasse uma pressão explícita, nas experiências que Milgram iniciou a partir de 1961, sobre o conceito de submissão ao grupo, observou-se uma pressão explícita sobre o sujeito com a finalidade de o levar a obedecer à norma (Milgram, 1974).

Milgram desenvolveu um conjunto alargado de estudos sobre a obediência, procurando saber se os indivíduos obedeceriam a ordens de um estranho com relativamente pouco poder, que

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lhes exigia que produzissem o que lhes parecia uma boa dose de dor a outra pessoa um completo desconhecido.

Para poder analisar os comportamentos de obediência, Milgram concebeu uma engenhosa simulação laboratorial, realizada nos laboratórios de Psicologia da Universidade de Yale.

Vejamos então quais os cenários apresentados, bem como os resultados obtidos nas experiências de Milgram sobre a submissão.

O autor colocou um anúncio num jornal local, oferecendo 4 dólares, bem como o pagamento dos transportes, aos indivíduos, do sexo masculino, que estivessem na disposição de participar num estudo sobre memória, a decorrer no laboratório de psicologia da Universidade de Yale.

Posteriormente, os sujeitos são informados que se trata de facto de um estudo para avaliar a intensidade da punição (no caso concreto, a aplicação de um choque eléctrico) necessária para alcançar uma maior aprendizagem.

Quando o sujeito chega ao laboratório é confrontado com a presença de um indivíduo que ronda os 50 anos, que aí aguardava o início da experiência. Na presença de ambos, o experimentador tira, aparentemente, à sorte (aleatoriamente) qual dos dois indivíduos irá desempenhar o papel de “estudante” e qual será o “professor”.

O aparelho que, supostamente, daria os electrochoques possuía trinta alavancas, a primeiro com a etiqueta “15 volts”, a segunda “30 volts”, até à última “450 volts”.

A tarefa consiste no seguinte: o “professor” (sujeito ingénuo) dirá séries de quatro palavras às quais associa outras quatro (por exemplo: azul/céu, dia/quente, álcool/fogo, etc.). O “estudante” (sujeito cúmplice) terá que repetir as associações e completá-las, à medida que o “professor” for lendo as séries. Cada vez que errar ou não responder será punido com um choque eléctrico que pode variar entre os 15 e os 450 volts. Iniciando-se a punição pelo choque de mais baixa intensidade (15 volts) e sendo acrescido, a cada novo erro, de mais 15 volts, e assim sucessivamente, até se atingirem os 450 volts.

Isto significava que se um “estudante” desse muitos erros apanhava choques de grande intensidade. É óbvio que o “estudante” nunca apanhava choques eléctricos durante a experiência. E, o único choque eléctrico alguma vez usado era de muito fraca intensidade (45 volts, o equivalente a uma picadela de um insecto) e servia apenas para que o ““professor”” se convencesse que o aparelho era real.

Antes de se iniciar a experiência, era dito aos participantes verdadeiros que a responsabilidade pela saúde do “estudante” era exclusivamente do investigador.

Após as instruções, o “estudante” dirige-se para uma sala ao lado. O “professor” receberá a resposta e o feedback ao tratamento que aplicará ao “estudante” através de um altifalante. O feedback é realista dado que se trata das supostas reacções do “estudante” aos choques, as quais foram previamente gravadas e em que: aos 75 volts ele geme, aos 135 volts ele grita ainda mais alto, aos 150 volts diz que não pode continuar, aos 270 volts ouve-se um grito de agonia, e a partir dos 300 volts deixa de haver qualquer resposta audível.

Como já deve ter percebido, apesar da simplicidade da tarefa, o “estudante”, seguindo instruções prévias ao contexto da experiência, cometia muitos erros. Desta forma, os participantes depararam-se rapidamente com um dilema: deveriam continuar a castigar esta pessoa dando-lhe o que pareciam electrochoques dolorosos? Deveriam recusar-se a continuar? Se eles hesitavam, o experimentador pressionava-os a continuarem, apresentando-lhes gradativamente as seguintes instruções:

“Continue, por favor”;

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“A experiência exige que continue”;

“É, absolutamente, indispensável que continue”;

Não tem alternativa, continue”.

A experiência termina se, e após o quarto incitamento, o “professor” (sujeito ingénuo) se recusar a continuar.

Como os sujeitos eram pagos adiantadamente e eram todos voluntários, poderíamos prever que a maioria iria rapidamente recusar-se a cumprir as ordens do experimentador. Milgram verificou que 65% dos sujeitos mostrou obediência total prosseguindo até ao choque final de 450 volts e que o choque médio, a partir do qual os sujeitos se recusam a continuar, é de 360 volts.

Em comparação, as pessoas num grupo de controlo, a quem não eram dadas estas ordens, geralmente usavam apenas os choques de reduzida intensidade.

É claro que muitos sujeitos protestaram e queriam que a sessão terminasse, mas quando lhes era ordenado que continuassem, contudo, a maioria submetia-se à influência do experimentador e continuava a obedecer.

Eles continuavam a obedecer mesmo quando a vítima batia na parede como se protestasse com os electrochoques (quando chegava ao nível dos 300 volts) e, após esse nível, deixassem de responder.

Milgram demonstrou que poderiam ser gerados resultados semelhantes, mesmo sob condições em que se esperava uma redução da obediência.

Quando o estudo passou a realizar-se num escritório localizado num edifício pouco agradável, os níveis de obediência mantiveram-se elevados (47,5% dos sujeitos vão até aos 450 volts);

Quando o experimentador não pode continuar e é substituído por um terceiro participante (cúmplice) na condução da experiência, 20% dos sujeitos vão até ao fim;

A autoridade do experimentador não é abalada no primeiro caso, mas é-o no segundo. De facto, nesta última série de experiências, quem faz o controlo não é o experimentador, que justamente se ausentou, mas um outro indivíduo cúmplice do experimentar, mas que é visto pelo sujeito ingénuo como um par (com o mesmo estatuto que ele próprio).

Quando é o experimentador o “estudante”, todos os sujeitos param aos 150 volts (máximo!!!), isto é, quando o experimentador pede pela primeira vez;

Quando ““professor”” e “estudante” estão na mesma sala, não podendo o primeiro ignorar as reacções de dor do segundo, 40% dos sujeitos mostra obediência total. Mais surpreendentemente, cerca de 30% dos sujeitos obedeceu mesmo quando tinha de pegar na mão da vítima e pressioná-la contra um disco de metal;

Quando se afasta o ““professor”” do experimentador (agora num terceiro compartimento e dá as suas ordens pelo telefone) muitos sujeitos fingem obedecer mas, de facto, não aplicam choques eléctricos ou aplicam um muito mais fraco do que aquilo que lhe era exigido. Parece que a autoridade reduzida do experimentador pode explicar uma redução da obediência. Mas isso não impede que 20,5% dos sujeitos executem escrupulosamente a tarefa até aos 450 volts;

A tarefa do “professor” é agora partilhada por três sujeitos: o primeiro sujeito (“estudante” – cúmplice) lê os pares de palavras, o segundo sujeito (cúmplice) informa o terceiro sujeito (ingénuo) da resposta dada pelo “estudante”, por forma a que este aplique, ou não, a punição. Quando o segundo colaborador (cúmplice) se recusa a prosseguir após os 150 volts, o sujeito ingénuo, se ainda não parou, pára nos 210 volts ou, então, segue até ao fim (10% dos sujeitos);

Numa das variantes deste estudo, a autoridade é representada por dois experimentadores que entram em desacordo um não quer que a experiência prossiga após a aplicação de um choque de 150 volts, o outro quer continuar em vinte casos dezoito não continuam;

Quando não estão envolvidos directamente com a aplicação dos electrochoques, 92,5% dos sujeitos segue até ao fim.

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Segundo Milgram, o que justifica a submissão ou obediência é o facto de os indivíduos deixarem de se considerar autónomos e responsáveis a partir do momento em que entram numa estrutura social hierarquizada. Milgram fala em estado do sujeito agente. Tal estado caracteriza-se pelo facto de o sujeito se considerar como um agente que executa uma ordem dada por uma autoridade (no caso, dada a natureza da experiência, conotada como científica) que admite e que é vista como inquestionável.

Por outro lado, na entrevista pós-experimental, os sujeitos não se consideravam pessoalmente

o

responsáveis

experimentador quem a tal os obrigava. Estaríamos, assim, em presença do chamado e tão conhecido efeito de diluição de responsabilidades.

Por outras palavras, os estudos de Milgram sugerem que pessoas vulgares estão dispostas, embora com alguma relutância, a fazer mal a um desconhecido inocente, se tal lhe for ordenado por alguém com autoridade.

Devemos agora colocar uma pergunta: porque é que ocorre esta obediência destrutiva?

Em primeiro lugar, as pessoas que detêm a autoridade retiram a quem obedece a responsabilidade das suas acções (“Estava só a cumprir ordens”);

Em segundo lugar, as pessoas que detêm a autoridade muitas vezes possuem dísticos visíveis ou símbolos do seu estatuto;

pelo

sofrimento

infligido

aos

supostos

“estudantes”,

visto

que

era

Uma terceira razão para a obediência é que, em muitas situações em que os alvos dessa influência possam resistir, envolve a escalada gradual das ordens da figura autoritária;

Finalmente e em quarto lugar, os acontecimentos em muitas situações que envolvem a obediência destrutiva ocorrem muito rapidamente: as manifestações transformam-se subitamente em motins ou as prisões em espancamentos em massa.

Mas como é que se processa a resistência à influência social? Vejamos algumas estratégias:

Em primeiro lugar, os indivíduos expostos às ordens de figuras autoritárias podem ser recordadas que são elas e não as autoridades os responsáveis pelos danos produzidos;

Em segundo lugar, aos indivíduos podem ser dadas indicações claras que, a partir de determinado ponto, a submissão total às ordens destrutivas é inadequada (exposição a modelos de desobediência);

Em terceiro lugar, os indivíduos podem considerar mais fácil resistir à influência de figuras autoritárias se elas questionarem a perícia e os motivos dessas figuras;

Finalmente e em quarto lugar, o simples conhecimento sobre o poder das figuras autoritárias para ordenar a obediência cega pode ser útil em si mesmo.

3.3. O conformismo será uma norma social?

Berry realizou, em 1967, uma experiência que consistia na apresentação de uma folha de papel, a sujeitos adultos, onde estavam desenhadas uma linha padrão e oito outras linhas. Os sujeitos experimentais pertenciam a três culturas distintas: esquimós, Temne da Serra Leo e escoceses. Todos os indivíduos eram informados de que a maioria das pessoas da cultura a que pertenciam designavam uma linha particular como a correcta. Obviamente que esta indicação era falsa três vezes em quatro. Berry verificou que os esquimós quase não apresentam conformismo, o povo Temne é altamente conformista e os escoceses apresentam um score (resultado) que se situa entre os das duas culturas anteriores. Estes resultados indicam que, em certas culturas, mais numas que noutras, o conformismo é uma norma social.

3.4. Comportamento desviado

Que sucede aos indivíduos que não se conformam às normas socialmente impostas ou estabelecidas? Aos que se desviam das normas do grupo?

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Sendo as inter-relações sociais vincadamente marcadas pela assimetria dos diversos agentes sociais, pela assimetria numérica, de poder ou de competência, o respectivo equilíbrio social será mantido por aqueles que detêm o poder (mais poder), ou competência, ou, ainda, são mais numerosos. Facilmente nos apercebemos que aos desviados apenas lhes resta a marginalidade um exemplo, bem actual, da nossa sociedade é-nos fornecido pelo grupo de sujeitos apelidados de “sem abrigo”, já para não falar daqueles que super-populacionam as nossas prisões, aí detidos por terem cometido os mais diversos crimes dos mais diversos graus.

Vejamos como este processo é evidenciado numa experiência de Schachter (1951) que apresentamos, resumidamente, de seguida.

Os sujeitos experimentais são distribuídos por diferentes grupos constituídos por oito a dez membros cada, e deverão chegar a acordo sobre a pena a atribuir a um jovem delinquente, Johnny Rocco, cuja história é inventada e construída de tal forma que faz apelo a uma pena leve. Em cada grupo há três cúmplices: um que defende a norma do grupo, uma pena leve (que representa o sujeito conformista); um outro que se opõe ao grupo propondo um tratamento muito severo (que representa o sujeito desviado); um outro, ainda, que inicialmente preconiza um tratamento severo, mas que, a pouco e pouco, vai aderindo à opinião da maioria (que representa o sujeito convertido).

Os resultados mais salientes, e que de momento mais nos interessam, dizem respeito ao grau de popularidade que cada um destes três sujeitos (cúmplices) conquistou dentro do grupo. Perante a necessidade de ter que se excluir alguém do grupo, os sujeitos propõem significativamente a exclusão do indivíduo desviado, enquanto que o conformista e o convertido obtêm resultados médios de popularidade.

Schachter controlou ainda o número de vezes que o grupo dirige a palavra a cada um dos sujeitos, e verificou que: esse número é constante, ao longo da interacção, no que respeita ao sujeito conformista, diminui em relação ao convertido e, no que concerne ao sujeito desviado, o grupo vai, progressivamente, deixando de se lhe dirigir. O que pode, em termos simbólicos, ser interpretado como ter sido rejeitado pelos restantes elementos do grupo.

Esta experiência coloca-nos face ao problema da mudança das normas sociais. Pelo que devemos interrogarmo-nos: Se os indivíduos que não se submetem às normas sociais são excluídos e, como tal, perdem a capacidade de intervenção, então: Como explicar a mudança? E como considerá-la?

4. A MUDANÇA ADAPTATIVA

A psicologia social tem considerado, tradicionalmente, dois processos através dos quais as

normas mudam. De facto, as normas mudam quando: a) se mostram desajustadas, arbitrárias

e/ou caducas, em relação à realidade social; e b) os líderes actuam de uma forma inovadora, através de uma acção social renovadora.

4.1. Normas arbitrárias e desajustadas

McNeil e Sherif realizaram uma experiência, em 1976, na qual se apresentava a hipótese de que uma norma será tanto mais fácil de ser colocada em causa, quanto mais inútil for para grupo,

ou quanto mais desajustada se verifique ser.

Nesta experiência, são utilizados grupos “colonizados” (por terem sujeitos ingénuos e sujeitos cúmplices). Numa primeira fase o grupo, é constituído por um sujeito ingénuo e três sujeitos cúmplices, que são confrontados com o efeito autocinético (já anteriormente explicado). Após a apresentação das trinta estimativas, de cada um dos quatro elementos do grupo, sobre a deslocação do ponto luminoso, inicia-se a segunda fase da experiência, em que um dos

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cúmplices é substituído por outro sujeito ingénuo, ficando, deste modo, o grupo formado por dois sujeitos ingénuos e dois sujeitos cúmplices, os quais, uma vez mais, respondem a uma série de trinta estimulações. Um terceiro sujeito cúmplice é substituído por um sujeito ingénuo, na terceira fase da experiência, ficando, agora, o grupo constituído por três sujeitos ingénuos e um sujeito cúmplice, que respondem, apresentando as suas trinta estimativas do deslocamento. Após o que, e finalmente na quarta e última fase, é substituído o último cúmplice por mais um sujeito ingénuo, ficando o grupo a ser constituído apenas por sujeitos ingénuos, os quais são submetidos a uma quarta, e última, série de trinta estimulações.

Os cúmplices induziram no grupo uma certa “cultura”, de acordo, aliás, com as instruções do experimentador (no que respeita ao cálculo das deslocações do ponto luminoso). À medida que os cúmplices são substituídos, por outros sujeitos ingénuos, verifica-se a substituição da norma induzida pelos cúmplices, por uma nova norma.

Verificou-se nesta experiência que as respostas dos sujeitos, relativamente às estimativas de deslocação do ponto luminoso (efeito autocinético), se situavam entre os 5 e os 18 cm.

Esta situação experimental, em laboratório, tentava reproduzir o processo de substituição de normas culturais através das diferentes gerações, de resto este processo pode ser observador em sociedade com alguma facilidade.

Mas, no que respeita ao processo de substituição de uma norma devido ao seu carácter arbitrário, esta experiência que acabámos de enunciar não era a mais adequada, pelo que, McNeil e Sherif formaram, mais uma vez, grupos “colonizados”, aos quais apresentaram a mesma sequência de trinta estimulações (provocando o efeito autocinético) numa outra situação experimental, que seguiu o procedimento seguinte:

Formaram dois grupos. Num grupo introduziram cúmplices que deveriam induzir uma norma arbitrária, isto é, em completo desacordo (30 a 53 cm) com aquela que os sujeitos em média referiam (5-18 cm). No outro grupo, introduziram cúmplices que deveriam induzir uma norma moderadamente arbitrária (22 a 38 cm), porque mais próxima da norma dos sujeitos.

Estes dois grupos foram, depois, comparados, com um grupo “natural”, porque composto apenas por sujeitos ingénuos.

Verificou-se que, este último grupo se manteve estável, com resultados evoluindo à volta da norma; e que, os grupos colonizados, e apesar disso, evoluem para uma norma menos arbitrária.

Observou-se que a norma moderadamente arbitrária tem maior impacto (influência) e é mais facilmente interiorizada do que a norma exageradamente arbitrária. Estes resultados levam- nos a concluir que, quanto mais arbitrária é uma norma maior será a predisposição para a mudança, logo mais facilmente ela será substituída por uma nova norma.

Apesar de podermos tirar estas conclusões (em teoria), na prática as coisas não são tão lineares, pelo que temos que ter algumas reservas nesta transposição para a vida quotidiana, até porque na nossa vida assistimos com frequência a uma enorme resistência à mudança por parte dos indivíduos mesmo quando consideram que as normas são arbitrárias, o que indicia que, na vida real, outros factores estão em jogo para além da arbitrariedade e, esses sim, bem mais influentes.

4.2. Acção de líderes

Merei (1949) observou durante duas semanas dois grupos de crianças, com idades compreendidas entre os quatro e os onze anos, com o objectivo de determinar quais as crianças que nesses grupos desempenhavam o papel de chefe, de líder. Posteriormente constituiu doze

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grupos de crianças formados apenas por crianças não-líderes e estimulou-as para que se organizassem e estabelecessem um conjunto de normas estáveis tradição do grupo. Após o que, Merei, introduziu em cada um desses grupos uma criança previamente classificada como líder, e que não estava a par dessas tradições.

Em consequência desse procedimento, Merei constatou que, em cada um dos grupos, a criança líder desenvolveu uma acção que se compõe das seguintes fases:

1. Tenta introduzir alterações na organização do grupo por exemplo, tenta suprimir as tradições do grupo para as substituir por outras essas alterações não são aceites pelos outros membros do grupo;

2. É rejeitado pelo grupo;

3. Aceita e integra as normas do grupo aceita as tradições aprendendo-as depressa;

4. Assume a liderança do grupo no quadro dessas tradições, depressa assume a liderança e o grupo, apesar de relutante, segue-o, porque ele faz um bom papel;

5. Introduz alterações (variantes) insignificantes, mas que abalam a tradição do grupo;

6. Introduz então novas variantes no ritual que surgiu como consequência das primeiras variantes introduzidas.

Hollander (1985) tentou sistematizar a concepção segundo a qual é na medida em o líder adopta completamente as normas do grupo (adquirindo assim “crédito idiossincrático”) que ele se pode impor como autoridade e a partir daí introduzir mudanças.

Assim, e segundo esta perspectiva, a mudança surge como sendo fruto da acção de líderes conformistas. E é, precisamente, ao introduzir mudanças que o líder salvaguarda o seu prestígio no grupo, já que facilita a sua adaptação a novos contextos e realidades.

A mudança é aqui entendida como ajustamento, e é um produto do poder.

Faucheux et al. (1971) colocam este problema da seguinte forma “São evidentes as consequências paradoxais duma tal concepção: toda a inovação é o resultado de um compromisso, e os grandes inovadores são também os conformistas mais hábeis. A história ensina-nos o contrário. A intransigência mais estrita é característica dos indivíduos que tiveram um grande impacto nas novas ideias e nos novos comportamentos” (p. 32).

5. INOVAÇÃO

Deve-se a Moscovici (1971) a introdução de um novo olhar sobre processo de mudança no contexto da psicologia social e sua respectiva análise.

A mudança deverá ser encarada, segundo este autor, como inovação, e esta é o resultado da

acção de minorias desprovidas de poder.

Moscovici (1979) vai falar de minorias anómicas e de maiorias nómicas heterodoxas. Estas diferenciam-se da seguinte forma:

indivíduos e grupos desviados, aceitando definir, como tal, aqueles que não se conformam às normas estabelecidas, mas que, por outro lado, não desenvolvem uma acção constante e explícita para transformar essas normas minorias anómicas;

indivíduos e grupos inovadores, cujo propósito é o de propor novas normas; maiorias nómicas heterodoxas.

Até ao momento, a psicologia social estudou sobretudo a relação entre as minorias anómicas e as maiorias, que se caracterizam pela sua adesão às normas estabelecidas (vide, por exemplo, experiência de Schachter).

Moscovici propõe a necessidade de se estudar a influência das minorias nómicas heterodoxas sobre as maiorias nómicas, como forma de explicar a dependência.

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5.1. Dependência vs Negociação de conflitos

Segundo Moscovici, experiências como as de Asch, Deutsh e Gerard, de Milgram, etc., obedecem ao que ele designou de modelo de redução das incertezas ou da dependência.

Segundo este modelo, a influência social ocorre sempre em na sequência de situações marcadas pela assimetria dos intervenientes (assimetria numérica, de poder ou competência), e tem como finalidade assegurar o controlo social (estabelecer o equilíbrio, absorver os desviados).

Assim, à necessidade dos sujeito conservarem o seu sistema de comportamentos e as suas evidências perceptivas, opor-se-ia a necessidade, mais intensa ainda, de se confrontarem com os outros (dependência informativa) e de serem aceites pelos outros (terem a sua aprovação dependência normativa).

Moscovici, em 1971, propõe um novo modelo de análise da influência social, o qual é sensível aos processos de estabelecimento de normas, de conformismo e de inovação: o modelo de negociação de conflitos.

Segundo este modelo:

todos os sujeitos devem ser considerados como fontes potenciais e receptores eventuais de influência;

o processo de influência não tem apenas como função o controlo social mas também a mudança;

o estilo de comportamento da fonte de influência, ou seja, a sua consistência e a significação que reveste para o receptor, é o factor determinante no processo;

o processo de influência deve ser visto enquanto produção e reabsorção de conflitos. As pessoas levam para a interacção (inter-relação) um sistema de valores e reacções que lhe são próprios; a confrontação entre os diferentes sistemas provoca conflito e consequente bloqueamento; segue- se um processo de negociação, processo cuja evolução será marcada pela consistência do comportamento de uma das partes.

Vejamos, de seguida, na figura 3, como Moscovici (1971) esquematiza o seu modelo:

Processos de Atribuição de Propriedades Estáveis

Conflito Inter-individual

Sistemas de

Comportamento

Internos

Sistemas de

Comportamento

Maioritários

Consistentes

Sistemas de

Comportamento

Minoritários

Consistentes

Sistemas de Comportamento Minoritários Consistentes Norma Conformismo Inovação Consenso Inter-individual
Sistemas de Comportamento Minoritários Consistentes Norma Conformismo Inovação Consenso Inter-individual
Sistemas de Comportamento Minoritários Consistentes Norma Conformismo Inovação Consenso Inter-individual

Norma

Conformismo

Inovação

Consenso Inter-individual

Figura 3. Processo de atribuição de propriedades estáveis

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Norma (que leva à normalização), conformismo e inovação serão, assim, três das modalidades que a influência social pode assumir.

De seguida vamos tentar demonstrar, experimentalmente como, surge a inovação (a sua

ilustração experimental), tomando como ponto de referência a análise dos factores que

o

comportamento consistente e o estilo de negociação. E, por fim, iremos descrever o modelo de análise mais amplo, apresentado por Faucheux et al. (1971), à luz do qual a inovação se torna mais compreensível: o modelo genético.

5.2. Factores que determinam a eficácia das minorias activas 5.2.1. O comportamento consistente

Peguemos, de novo na experiência de Asch, anteriormente analisada, e vamos interpretá- la de outra forma. Suponhamos que o efeito obtido por Asch se deve, não à pressão da maioria mas, sim, à consistência das suas respostas, e que a influência a que assistimos tem por função a mudança de uma norma dominante.

De facto, o sujeito ingénuo pode representar, não uma minoria, mas uma maioria. Ele é o representante de uma norma perceptiva comummente aceite, enquanto que os cúmplices representam uma minoria que propõe uma nova norma perceptiva.

Como vimos, é a consistência das respostas dos cúmplices que mexe com o sujeito ingénuo e o induz a adoptar a “nova norma”. Pode, então, colocar-se a hipótese que: uma minoria coerente e consistente é capaz de, em certas circunstâncias, transformar uma norma maioritária.

Com base nesta hipótese, Moscovici et al. (1967) realizaram toda uma série de experiências. Apresentamos de seguida a primeira delas.

determinam

a

eficácia

das

minorias

activas,

os

quais

são,

segundo

Moscovici:

Os sujeitos, em número de quatro ou cinco, devem escolher a característica que torna mais salientes uma série de desenhos, no sentido de serem utilizados como sinais em situações que exigem uma tomada de decisão rápida.

As características consideradas são:

a cor;

a forma;

o contorno; e

o tamanho.

Entre os sujeitos que participam nos grupos experimentais há um, e um só, que é cúmplice do experimentador e dá sistematicamente a resposta cor. Este sujeito responde sistematicamente que a característica que torna mais saliente qualquer das figuras é sempre a cor. Como reagem os restantes sujeitos? Adoptam a norma proposta pelo cúmplice?

Os resultados obtidos dão uma orientação positiva a esta questão e são apresentados no quadro que se segue:

Quadro 1

Médias das respostas do grupo experimental e de controlo às características cor, contorno, tamanho e forma

Grupos

Médias das respostas

 

Cor

Contorno

Tamanho

Forma

Experimental

20.82

16.18

16.09

10.88

Controlo

15.28

18.93

14.20

15.59

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Para uma melhor visualização, estes resultados são colocados sob a forma de gráfico de barrras (ver Figura 4).

Estes resultados foram confirmados em outras experiências. Segundo Moscovici é a consistência da minoria que lhe confere influência.

25

20

15

10

5

0

da minoria que lhe confere influência. 25 20 15 10 5 0 Cor Contorno Tamanho Forma
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da minoria que lhe confere influência. 25 20 15 10 5 0 Cor Contorno Tamanho Forma

Cor

Contorno

Tamanho

Forma

Experimental Controlo
Experimental
Controlo

Figura 4. Médias das respostas do grupo experimental e de controlo às características cor, contorno, tamanho e forma

A minoria é geradora de um conflito que atinge o seu expoente máximo através da intransigência, a qual caracteriza o comportamento consistente, e rompe com o consenso a dois níveis: por um lado, a minoria propõe uma nova norma, por outro, mostra que nem só a maioria ou a autoridade pode definir as normas.

A consistência significa que a minoria resiste às pressões sociais e pode, por isso, constituir-se como uma alternativa. Trata-se de uma minoria nómica. Produzido o conflito, em que direcção se processará a reabsorção ou equilíbrio? De acordo com Moscovici, será a consistência do comportamento de uma das partes que marcará a evolução da situação a seu favor.

5.2.2. Estilo de negociação

Mas o problema não termina aqui, se olharmos um pouco mais atentamente verificamos que ele é bem mais complexo. Com efeito, o comportamento consistente pode levar os sujeitos a recusarem a influência, tal como se evidencia na experiência de Schachter, descrita anteriormente. Uma segunda condição para a eficácia da acção das minorias nómicas foi, então, proposta o estilo de negociação. Um estilo de negociação rígido é contraproducente, enquanto que um estilo flexível é facilitador da acção das minorias.

Mugny, em 1975, realizou uma experiência bem ilustrativa do que acabamos de expressar.

Trata-se de uma experiência realizada sobre a modificação das atitudes face à objecção de consciência. Esta experiência incide, pois, sobre conteúdos de natureza ideológica, e não já sobre simples normas perceptivas como a maioria dos estudos até agora referidos.

Numa primeira fase, os sujeitos, todos eles a favor da objecção de consciência, responderam a uma escala de atitudes apresentando, assim, a sua opinião face ao exército suiço.

Numa segunda fase, são expostos à influência de uma fonte minoritária, cujos pontos de vista são contra a objecção de consciência, como condição de uma acção eficaz contra as forças armadas.

Numa terceira, e última, fase, os sujeitos manifestam de novo a sua atitude face ao exército.

A manipulação experimental incidiu sobre o estilo do discurso da fonte minoritária: este era flexível num caso, rígido no outro, mas consistente nas duas condições experimentais.

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No que respeita à condição consistência + flexibilidade, a fonte toma em consideração o ponto

de vista dos sujeitos: “ a objecção de consciência é um meio válido de lutar contra as forças armadas,

mas insuficiente; é preciso lutar no interior das forças armadas

Em relação à condição consistência + rigidez, a fonte entra em ruptura total com a audiência:

meios como a objecção de consciência são falsos, pequenos burgueses, quase reaccionários

Os resultados da experiência são bem elucidativos e mostram uma significativa influência, da condição flexibilidade, enquanto que o discurso rígido não produz efeitos.

Muitos são os estudos que posteriormente foram feitos com o objectivo de se fazer o levantamento dos factores que determinam a eficácia das minorias activas. Nesta linha de pensamento, vejamos algumas das orientações que esses estudos têm tomado (Mugny e col.,

1982):

”.

”.

A influência minoritária é em grande parte determinada pelo modo de apreensão da minoria pela maioria. É a imagem que a maioria constrói da minoria, mais do que as suas características objectivas, que explicam a influência positiva ou o fracasso da persuasão (um discurso flexível, se apreendido como rígido, não é fonte de influência).

Adoptar o ponto de vista da minoria não é apenas adoptar uma nova norma, mas auto-atribuir- se o conjunto das características com que são rotuladas as minorias.

O processo de influência decorre num contexto social definido e envolve não apenas dois actores mas três a minoria, a maioria e o poder.

O poder constitui o grupo dominante, ou a entidade que estabelece as normas;

A maioria será a população constituída por uma constelação de grupos sociais dominados, ou, dentro de um mesmo grupo, pelos sujeitos dependentes do líder;

A minoria refere um sujeito, sujeitos ou grupos, sem poder formal, que se propõem alterar o tipo de relações sociais estabelecidas.

O poder constrói e difunde regulações (normas) ideológicas que, no essencial, consistem em esconder as relações de:

domínio entre o poder e a população;

antagonismo entre a minoria e o poder.

Procura-se, assim, que a minoria não apareça como uma alternativa válida e coerente ao poder. Uma das formas de induzir a resistência da população face à minoria consiste em “informar dos mecanismos psicológicos subjacentes” esta minoria (mostrando, por exemplo, que o seu discurso não é mais do que a manifestação de problemas psicológicos ou de taras caracteriais).

A análise do processo de influência social implica ultrapassar os níveis de análise intra- individual e relacional, introduzindo-se problemáticas que relevam dos processos de regulação inter-grupos e dos processos de regulação ideológica.

5.2. Modelo funcionalista versus modelo genético

A perspectiva introduzida por Moscovici para analisar numa nova óptica os processos de

influência social, tem subjacente um modelo mais geral de análise dos processos psicossociológicos, modelo que ele próprio designou de genético, em oposição ao modelo

funcionalista.

De seguida apresenta-se de forma sucinta como Moscovici (1979) descreve os traços distintivos

de cada um destes dois modelos.

5.2.1. Modelo funcionalista

O modelo funcionalista defende que:

os dados pré-determinados para o indivíduo ou para o grupo são, por um lado, os sistemas sociais formais, ou informais e, por outro, o meio. São eles que nos fornecem, antes mesmo da interacção social, um papel, um estatuto e os recursos psicológicos.

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O comportamento do indivíduo, ou do grupo, terá como objectivo e por função assegurar a sua inserção no sistema ou no meio. Por conseguinte, e uma vez que as condições às quais o indivíduo se deve adaptar são dadas, a realidade é descrita como uniforme e as normas a observar aplicam-se igualmente a cada um.

Com base neste modelo, a normalidade, por sua vez, deverá ser encarada como um estado de adaptação ao sistema, um equilíbrio com o meio e uma coordenação entre os dois. Tendo por base este ponto de vista algo “dourado”, o processo de influência visaria a redução do comportamento desviante, a estabilização das relações entre os indivíduos, bem como das trocas com o mundo exterior (inter-relação com o meio físico).

De acordo com este tipo de raciocínio, somos levados a concluir que as acções daqueles que seguem a norma são, forçosamente, funcionais e adaptativas, enquanto que os que optam por lhes fazer frente, afastando-se das normas são considerados como disfuncionais e não adaptados, resta, para estes últimos, a condição de excluído, rejeitado, em suma, a marginalidade (em relação ao grupo).

O conformismo é então visto como uma exigência obrigatória do sistema social e conduz ao consenso e ao equilíbrio. Como tal, nada deve mudar ou, a acontecerem mudanças, será sempre no sentido de estas permitirem ao sistema uma maior funcionalidade, adequação, adaptação.

Para se alcançarem estes objectivos, as mudanças deverão ser conduzidas por aqueles que detêm a informação, ou recursos, que detêm o poder ou competência, logo, terão que ser indivíduos que ocupam posições chave tais como: líderes, a maioria, os especialistas, etc. E, quanto maior for a integração e o controlo social (do estrato, normalmente, elevado), maior será a sua eficácia.

5.2.2. Modelo genético

O modelo genético, por seu lado, considera que:

o sistema social formal, ou informal, e o meio são definidos e produzidos por aqueles que neles participam e lhe fazem frente. Deste modo, os papéis, estatuto social e recursos psicológicos são tornados activos e apenas recebem significação aquando da interacção social.

A adaptação, por parte dos indivíduos e dos grupos, ao sistema e ao meio, é encarada como sendo apenas a contrapartida da adaptação do sistema e do meio aos indivíduos e aos grupos.

As normas que determinam o sentido da adaptação resultam, então, das inter-relações, passadas e presentes, entre os indivíduos e os grupos. Tanto os indivíduos, quanto os grupos, não se apercebem que aquelas (normas) se lhes impõem da mesma forma, ou em igual grau.

Vejamos, então, como é encarado o conceito de normalidade, neste modelo. Aqui o “normal” e o desviado são definidos relativamente ao tempo, ao espaço e à situação particular, que vivem, na sociedade.

O comportamento desviante não pode ser apenas interpretado como um acidente de percurso, que sucede à organização social uma manifestação de patologia social, individual pois ele é um produto desta organização, é o sinal de uma antinomia que é, simultaneamente, criação e fruto dessa criação, isto é, a organização cria o desvio mas também é criada por ele.

Por exemplo, se os artistas, os jovens, as mulheres, os negros, etc., estão à margem da sociedade, esta define-se de forma a mantê-los nessa situação e esta tomada de posição, por sua vez, enforma (no caso, deforma) a orientação futura da sociedade.

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5.2.3. Diferenças entre os Modelos Funcionalista e Genético

Assim, se há talentos que são, eternamente, inexplorados, se se percepciona determinada camada da população como excessivamente densa, geram-se as condições ideais para o surgimento de: movimentos de contestação, contra-cultura, dissidências, etc., e isso sucede porque a organização não foi concebida de modo a satisfazer todas as necessidades que suscita, nem a tratar todos os efeitos que produz.

De uma forma breve, podemos então afirmar que:

o modelo funcionalista olha a realidade social como um dado, o modelo genético como uma construção; o primeiro sublinha a dependência dos indivíduos relativamente ao grupo e a sua reacção a este, enquanto o segundo sublinha a interdependência do indivíduo e do grupo e a interacção no seio do grupo; aquele estuda os fenómenos do ponto de vista do equilíbrio, este do ponto de vista do conflito. Finalmente, para um, os indivíduos e os grupos procuram adaptar-se; enquanto para o outro tentam crescer, o que quer dizer que procuram e tendem a transformar a sua condição e a transformarem-se assim sucede com as minorias desviadas que se tornam minorias activas , ou ainda, a criar novas formas de pensar e de agir” (Faucheux et al., 1971, p. 61).

Quadro 2

Principais diferenças entre o modelo funcional e o modelo genético

Modelo

Funcionalista

Genético

A realidade social é

A relação do indivíduo com o grupo é

Os fenómenos de influência provocam

Indivíduos e grupos procuram

Um dado Dependência e reacção Equilíbrio Adaptação

Uma construção Interdependência e interacção Conflito Crescimento

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INFLUÊNCIA DOS GRUPOS: FORMAÇÃO DE NORMAS E ATITUDES

Texto da autoria de: Sherif (1965 5 ) parcialmente traduzido e adaptado por Celeste Duque, Lisboa: Maio de 1999

Vimos que se um ponto de referência falha ao nível do campo de estimulação externa, ele se estabelece internamente enquanto que a sequência temporal da apresentação dos estímulos prossegue.

1. Hipóteses

Que fará um indivíduo colocado face a uma situação objectiva indefinida na qual não têm qualquer base de comparação no que diz respeito ao campo externo de estimulação?

Por outras palavras:

Que fará ele logo que o quadro externo de referência, em relação ao aspecto que nos interessa seja eliminado?

Primeiro temos que estudar as tendências do indivíduo. Precisamos começar pelo indivíduo a fim de suprimir o dualismo da “psicologia individual” e da “psicologia social”. Desta forma, podemos ver as diferenças entre as respostas individuais, na situação individual e na situação de grupo.

Ao abordar o nível social, podemos ir um pouco mais longe na nossa análise. Que fará um grupo de pessoas colocadas na mesma situação indefinida?

Os diferentes membros do grupo emitirão uma amálgama de juízos? Ou, então, estabelecerão um quadro de referência colectivo?

) (

norma dos outros membros do grupo? Ou, então, estabelecerão uma norma comum, adequada à situação particular do grupo e que dependerá da presença destes indivíduos em conjunto e da sua influência recíproca sobre os outros?

Se eles conseguem, em tempo útil no tempo pretendido a situação incerta e indefinida à qual têm que fazer face em comum, e de tal forma que lhe atribuam uma certa ordem isto é, se a percepcionam como ordenada segundo um quadro de referência eleborado conjuntamente durante o decorrer da experiência , e se este quadro de referência é próprio ao grupo, podemos dizer que temos, pelo menos, um protótipo do procedimento psicológico na formação de uma norma num grupo.

se cada indivíduo estabelece uma norma, tratar-se-á de uma norma pessoal, diferente da

2. O efeito autocinético: o seu interesse em relação ao nosso problema

A nossa primeira tarefa foi a de encontrar situações objectivamente definidas, que se prestariam

a ser estruturadas de múltiplas formas de acordo com o carácter dos pontos de referência

estabelecidos subjectivamente.

De entre outras situações experimentais possíveis, escolhemos a situação onde se podem

produzir efeitos autocinéticos. (

fechadas sem luz, seja em céu aberto numa noite escura, em que nenhuma outra luz seja visível, uma única luz pequena parece deslocar-se e pode aparecer de forma errática em todas as direcções se, por diversas vezes, apresentarmos a uma pessoa o ponto luminoso, esta pode ver a

Este é facilmente obtido em completa escuridão, seja em salas

)

5 Ver referência de Sherif (1969) página anterior. Utilizei a versão francesa de 1965, na tradução.

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luz aparecer de cada vez em diferentes pontos da sala, sobretudo se ignora a distância entre si e

a luz. (

ponto luminoso, pois não existem pontos de referência em relação aos quais se possa situá-lo. O

efeito acontece mesmo quando o indivíduo que olha a luz sabe perfeitamente que a luz não se desloca.

) (

errática, como, também, por vezes, o sujeito, ele mesmo, se sente incerto quanto à sua própria orientação no espaço (alguns indivíduos relatam que a sua confusão não se limita à localização dos pontos luminosos mas se estende à estabilidade da sua própria posição) e isto sucede

tanto mais se se encontra sentado num banco sem espaldar e não está familiarizado com a localização da sala de experimentação dentro do edifício.

O efeito autocinético não é um fenómeno novo e artificial, inventado pelos psicólogos, pelo

contrário, ele é anterior à psicologia experimental. Como ele aparece algumas vezes na observação dos astros, os astrónomos 6 já o tinham observado e tentaram explicá-lo avançando para isso algumas teorias.

Estudámos a influência de factores sociais, tais como, sugestão e a situação do grupo do ponto de vista da amplitude e direccionamento do movimento experimental. O estudo da amplitude do movimento percepcionado permite um estudo quantitativo no que respeita à formação das normas. E é por isso que daremos conta da amplitude do movimento.

Nesta situação, não somente o estímulo luminoso surge ao indivíduo de forma irregular e

Numa sala completamente às escuras, é impossível localizar de forma precisa um único

)

3. Procedimento

Estudámos a amplitude do movimento em duas situações.

quando o indivíduo está só, à excepção da presença do experimentador (a fim de obter a reacção do indivíduo não influenciada por outros factores sociais introduzidos experimentalmente e, deste modo, adquirir um conhecimento de base no que diz respeito ao processo da percepção nestas circunstâncias) e

quando o indivíduo está numa situação de grupo (a fim de descobrir as modificações provocadas pela pertença a um grupo).

O sujeito foi introduzido numa situação de grupo de duas formas: 1) ele foi colocado em

situação de grupo depois de ter sido submetido à experimentação quando estava só. Procedeu-

se assim para descobrir qual a influência que a situação de grupo teve sobre ele, após ter tido

uma primeira ocasião de reagir a esta situação de acordo com as suas próprias tendências e, depois de, subjectivamente, a ter estruturado à sua maneira. 2) Ele foi, inicialmente colocado em

situação de grupo sem ter qualquer conhecimento prévio desta situação e depois submetido a uma experiência individual. Isto foi feito para descobrir se a ordem percepcionada ou a norma

que podia ser estabelecida numa situação de grupo continuaria a determinar a sua reacção face

à mesma situação quando ele a confrontasse sozinho. Este último ponto é crucial para o nosso problema. Os outros pontos desembocam aí e clarificam as suas implicações.

As experiências tiveram lugar em salas às escuras do laboratório de psicologia da Universidade de Columbia. Os sujeitos eram estudantes, do sexo masculino, ao nível de licenciatura ou abaixo. Eles não se especializavam no âmbito da psicologia. Desconheciam, por completo, a organização física da experiência e os seus objectivos. Dezanove sujeitos participaram nas experiências individuais; quarenta sujeitos participaram na experiência de grupo.

6 O facto relevante que devemos aqui recordar é que o efeito autocinético se produz sempre que um estímulo visual aparece sem quadro de referência específico.

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de Faro Disciplina de Psicologia Social – 2006-2007 Figura 1. Disposição da Sala das experiências de

Figura 1. Disposição da Sala das experiências de Sherif (in Faucheux & Moscovici, 1971, p. 210 7 )

4. Experiências individuais

O estímulo luminoso era um minúsculo ponto de luz proveniente de um pequeno buraco de

uma caixa metálica. A luz foi exposta aos sujeitos abrindo uma pequena persiana controlada

pelo experimentador.

A distância entre o sujeito e a luz era de cinco metros. O observador estava sentado numa mesa

sobre a qual se encontrava um manipulador. Foram dadas, por escrito, as seguintes instruções:

Quando a sala estiver completamente às escuras, dar-lhe-ei o sinal ‘pronto’; depois mostrar-lhe-ei um ponto luminoso. Após um curto momento a luz começará a deslocar-se. Logo que a veja a deslocar-se carregue sobre o manípulo. Alguns segundos mais tarde, a luz desaparecerá. Então, dir-me-á qual a

distância a que ela se deslocou. Tentará tornar a sua avaliação o mais exacta possível”.

Estas instruções resumem o procedimento geral da experiência. Pouco depois da exposição da luz, na sequência do sinal “pronto”, o sujeito carregava sobre o manípulo; este provocava um ligeiro disparo mas audível no cronómetro, indicando que o sujeito percepcionara o movimento (autocinético). A duração da exposição do ponto luminoso, depois que o sujeito tivesse carregado sobre o manípulo para indicar que começara a ter consciência do movimento, foi de dois segundos, em todos os casos. A luz esteve fisicamente imóvel durante todo o tempo e nunca foi deslocada no decorrer das experiências.

Após o desaparecimento da luz, o sujeito comunicava oralmente a distância que, segundo ele, ela se tinha deslocado. O experimentador aí registando de imediato, à medida que as avaliações feitas pelos sujeitos, anotando cada uma sobre uma folha separada de um pequeno bloco de papel. Foram obtidas cem avaliações de cada sujeito. Os sujeitos comunicaram as suas avaliações em centímetros ou em fracções de centímetro.

Os resultados quantitativos são apresentados noutro artigo (Sherif, 1935). Aqui apresentamos apenas as conclusões a que chegámos a partir desses resultados quantitativos, indicaremos algumas considerações subjectivas importantes feiras pelos sujeitos e que clarificam sobremaneira estas conclusões.

7 A referência desta obra encontra-se na Bibliografia do texto anterior.

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Os resultados indicam inequivocamente que, logo que os indivíduos percepcionam os movimentos que não têm qualquer outra base de comparação, eles estabelecem subjectivamente um intervalo de variação e um ponto de referência (ou norma) no interior desse intervalo, que é próprio ao indivíduo, e pode diferir do intervalo de variação e do ponto de referência estabelecidos por outros indivíduos.

Dito de outra forma, quando os indivíduos percepcionam, por diversas vezes, um movimento que não oferece qualquer base objectiva para se avaliar a amplitude, estabelece-se entre eles, ao longo de uma sucessão de apresentações, um ponto de referência. Este ponto ou esta norma subjectiva estabelece certamente pontos de referência em relação aos quais cada movimento sucessivo percepcionado é comparado e julgado como sendo curto, longo ou médio, no interior o intervalo de variação próprio ao sujeito.

Para nos exprimirmos de uma forma mais geral, concluímos que, a ausência de um intervalo objectivo de variação ou de escalonamento do estímulo e na ausência de uma norma ou ponto de referência fornecido pelo exterior, cada indivíduo estabelece um intervalo de variação pessoal e um ponto de referência interno (subjectivo), no interior deste intervalo, e cada

avaliação sucessiva é feita dentro dos limites desse intervalo de variação, e em relação ao ponto

de referência. O intervalo de variação e o ponto de referência estabelecidos por cada indivíduo

são pessoais, quando é submetido sozinho à experiência.

Numa segunda série de experiências individuais verificámos que, uma vez que um intervalo de variação e um ponto de referência no interior deste intervalo, seja estabelecido por um indivíduo, este último tem tendência a conservá-los ao longo de experiências dos dias seguintes.

Uma segunda e terceira série de cem avaliações dadas por um sujeito têm, cada uma, uma média que é muito semelhante à média da primeira série, mas com uma reduzida variabilidade.

Os comentários introspectivos escritos por cada observador, no final da experiência, corroboram sobremaneira estas conclusões baseadas sobre os resultados quantitativos. Os exemplos seguintes de observações introspectivas, e que são típicas, indicam que os sujeitos tiveram inicialmente dificuldade em avaliar a distância devido à falta de pontos de referência ou de norma fornecida pelo exterior:

A escuridão não permite qualquer sinal de referência para avaliar a distância

Foi difícil avaliar a que distância a luz se deslocou por causa da ausência de objectos visíveis na vizinhança

Não havia qualquer ponto fixo a partir do qual se podia calcular a distância

As observações introspectivas do tipo que se segue, indicam que os sujeitos criaram normas pessoais, quando não as há objectivamente:

1. “Comparei com a distância anterior”

2. “Utilizei a primeira estimativa com o ponto de referência”

Isto, revela, uma vez mais, a tendência psicológica geral em experimentar fenómenos, em relação com um quadro de referência. O que fizemos nas experiências de grupo, foi transpôr esta descoberta da psicologia experimental à psicologia social, e de examinar como ela opera quando o indivíduo está numa situação de grupo.

5. Experiências de grupo

Face aos resultados anteriores, o problema que devemos explorar na situação de grupo torna-se,

de

facto evidente.

O

indivíduo percepciona um campo externo de estimulação em relação com um quadro de

referência. Quando um quadro de referência é dado na situação objectiva, este determinará,

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geralmente, em grande parte, as relações estruturais da experiência; em tais casos, a organização de todas as outras partes será determinada ou modificada por este quadro de referências.

Mas, por vezes, um tal quadro objectivo de referência falha induz em erro o campo de estimulação é indefinido, vago e mal estruturado. Neste caso, o indivíduo percepciona a situação como formada pelo seu quadro de referências, de origem interna. As questões que surgem, em relação à experiência de grupo, são as seguintes:

Como é que um indivíduo colocado em situação de grupo percepcionará o campo de estimulação? Irá ele, de novo, elaborar por si mesmo um intervalo de variação e uma norma no interior desse intervalo que lhe serão pessoais, como aconteceu aquando das experiências em que os indivíduos estavam isolados?

Ou, pelo contrário, as influências do grupo impedirão de estabelecer qualquer ponto de referência dentro dos limites desse intervalo, desmoronando-se, assim, a sua capacidade de percepcionar a situação de incerteza de acordo com não importa que tipo de ordem?

Ou, então, os indivíduos no grupo estabelecerão juntos um intervalo de variação e um ponto de referência dentro dos limites desse intervalo próprios a o grupo?

Se um tal intervalo de variação e um tal ponto de referência são estabelecidos, qual será a influência deste produto do grupo sobre cada um dos seus membros, quando, de seguida, cada um se confrontar sozinho com a mesma situação de estimulação?

( )

Com estas questões, abordamos directamente a base psicológica das normas sociais. Devemos admitir que reduzimos o processo a uma forma muito simples. Mas, o problema fundamental, diz respeito à forma como um indivíduo percepciona uma situação de estimulação. O comportamento resulta mais desta percepção do que da simples presença física do estímulo. Não há qualquer correlação simples e directa entre o estímulo e o comportamento subsequente, sobretudo ao nível do comportamento que estudamos aqui. Uma situação simples é a primeira condição de uma análise experimental do problema.

Optámos aqui pelo projecto de uma situação de estimulação na qual os factores externos são suficientemente indefinidos, no interior de determinados limites, para permitir aos factores de ordem interna de desempenharem o papel dominante, para, assim, estabelecer as principais características da organização. Isto permite-nos afirmar que qualquer produto coerente da experiência dos sujeitos, enquanto membros de um grupo, difere da sua experiência, enquanto indivíduos isolados, é função da sua interacção no interior do grupo.

Não abordamos com indiferença as situações de estimulação que implicam outras pessoas, ou mesmo a natureza circundante; somo portadores de determinadas prédisposições, de determinadas normas estabelecidas que contribuem para modificar as nossas reacções. Esta importante consideração, determina a organização das nossas experiências de grupo. Estudámos as diferenças entre as reacções dos indivíduos:

quando confrontavam a nossa situação de estimulação inicial em grupo e

quando confrontavam esta situação em grupo depois de terem, previamente, estabelecido os seus próprios intervalo de variação e as suas normas na situação individual.

Como consequência, vinte sujeitos começaram pela situação individual e foram, depois, colocados no grupo aquando das sessões experimentais ulteriores.Os restantes vinte sujeitos começaram pelas sessões de grupo e terminaram em sessões individuais.

Esta técnica de alternância permite-nos tirar conclusões no que diz respeito às seguintes questões que consideramos importantes:

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Em que medida o indivíduo transfere a forma de agir que estabeleceu individualmente, quando

se confronta, posteriormente numa situação de grupo do mesmo estímulo?

Em que medida será ele influenciado pela sua pertença ao grupo depois de ter estabelecido individual e isoladamente o seu próprio intervalo de variação e a sua norma?

Como reagirá ele à situação um vez só, depois que um intervalo de variação e uma norma comum tenham sido estabelecidas pelo grupo do qual é membro?

Em resumo, o produto comum elaborado pelo grupo agirá ele como factor determinante quando ele se confrontar, de seguida, sózinho à mesma situação?

O dispositivo experimental era, em geral, o mesmo para as experiências anteriores. É claro que,

foram necessárias técnicas adicionais para se ocupar ao mesmo tempo de dois ou mais membros de um grupo. Nomeadamente, recorremos ao uso de sinais luminosos. Não sendo os sujeitos conhecidos do experimentador, este não poderia distinguir qual deles emitia a avaliação apenas pelo reconhecimento da voz. Pelo que, continuando a dizer em voz alta a sua avaliação, cada sujeito premia um botão que produzia um sinal luminoso fraco de uma determinada cor, permitindo, assim, ao experimentador saber de quem partia a voz.

Havia oito grupos de dois sujeitos cada e oito grupos de três sujeitos cada; quatro grupos de cada uma desta duas categorias começaram pela situação individual (uma sessão inteira por cada indivíduo) e depois participaram na experiência enquanto grupos. Quatro grupos de cada categoria começaram pela situação de grupo durante as três primeiras sessões escalonadas em três dias diferentes (estando presentes todos os sujeitos de cada grupo) e foram, depois, dissolvidos e estudados em situação individual.

Para tornar tão naturais, quanto possível, as relações dos membros individuais entre si, dentro dos limites do dispositivo experimental, os sujeitos puderam escolher livremente qual a ordem pela qual apresentariam a sua avaliação. Com efeito, foi-lhes dito, desde o início, que comunicassem as suas avaliações segundo a ordem do acaso ou do seu bel prazer. Se acontece que as avaliações da pessoa que fala em primeiro lugar têm mais influência que as outras, isto leva-nos a desembocar no estudo da liderança, que é um outro problema muito interessante.

Talvez que tais estudos nos forneçam as indicações sobre os efeitos da polarização, na produção de normas em situação de grupo. Mas, na sequência, da análise dos nosso resultados, podemos afirmar que a apresentação das avaliações tem um efeito cumulativo gradual; e mais, a influência, qualquer que seja, da primeira avaliação sobre a segunda ou a terceira, num determinado momento, não são sem efeito sobre as avaliações ulteriores do primeiro sujeito na continuação das apresentações. Deste modo, produz-se uma influência de grupo, sobretudo em função do tempo que vai passando e não na sequência desta ou daquela apresentação particular. Mais adianta retornaremos a esta questão.

Para além das avaliações quantitativas obtidas ao longo das experiências, pedimos aos sujeitos que, no final de cada sessão experimental, referissem as suas impressões subjectivas. Colocámos as questões tendo como objectivo descobrir se eles se tornavam conscientes do intervalo de variação e da norma que subjectivamente estavam a estabelecer. Estas pergunta foram:

Entre que máximo e mínimo variam as distâncias?

Qual foi o a distância de deslocamento da luz mais frequente?

Determinados factos sobressaem claramente dos nossos resultados. Podemos resumi-los em alguns parágrafos.

Quando um indivíduo é confrontado com esta situação de estimulação, que é indefinida e não estruturada por si mesma, ele estabelece um intervalo de variação e uma norma (um ponto de referência) dentro dos limites desse intervalo.

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O intervalo de variação e a norma que são elaborados por cada indivíduo são particulares. Elas podem diferir dos intervalo de variação e das normas estabelecidas por outros indivíduos, segundo diferentes graus, revelando as diferenças individuais reais e estáveis.

As causas destas diferenças individuais são os problemas difíceis em si mesmos, cuja elucidação pode revelar-se fundamental para uma compreensão razoável do nosso problema.

Mas, de momento, é preferível trabalhar sobre o nosso tema principal.

Quando o indivíduo que esteve, inicialmente, colocado em situação individual, onde elaborou o seu próprio intervalo de variação e a sua própria norma dentro dos limites deste intervalo é, de seguida, colocado numa situação de grupo, com outros indivíduos tendo, também eles, os seus próprios intervalos de variação e as suas próprias normas estabelecidos ao longo das suas próprias sessões individuais, os intervalos de variação e as normas tendem a convergir.

Mas, a divergência não é tão marcada como quando eles trabalham pela primeira vez numa situação de grupo; eles tiveram, com efeito, neste caso, menos oportunidades de elaborar normas individuais estáveis (ver gráficos da esquerda da Figura 2 A e B).

A

(ver gráficos da esquerda da Figura 2 – A e B). A B Figura 2 .

B

(ver gráficos da esquerda da Figura 2 – A e B). A B Figura 2 .

Figura 2. Mediana das estimativas dos sujeitos, em polegadas (Faucheux & Moscovici, 1971, pp. 216-217)

Quando os indivíduos enfrentam pela primeira vez a mesma situação indefinida e não estruturada enquanto membros de um grupo, um intervalo de variação e um norma, dentros dos limites deste intervalo, são estabelecidos, os quais são característicos do grupo. Se, dentro do grupo, se verifica um aumento ou uma quebra nas normas estabelecidas durante as sucessivas sessões, é um efeito de grupo; as normas dos membros individuais crescem ou diminuem para se aproximarem de uma norma comum ao longo de cada sessão.

Podíamos, então, contrapôr que um indivíduo pode ser líder e não sofrer influências dos outros membros do grupo; a norma do grupo seria simplesmente a norma do líder. Assim, a única resposta empírica possível é que, nas experiências, observou-se constantemente, que os líderes

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apenas eram influenciados, por aqueles que os seguiam, no próprio momento, pelo menos mais tarde no decorrer da série e nas séries ulteriores.

Mesmo se, em certos casos, a objecção tem algum peso, a asserção com respeito às normas de grupo é geralmente verdadeira. Mesmo se a norma de grupo gravita à volta de uma pessoa cuja influência é dominante, o líder permanece o centro de polarização da situação, que contém as relações específicas com os outros que ele não pode voluntariamente mudar.

Se o líder modifica a norma depois que a norma de grupo foi fixada, os outros podem, então, deixar de o seguir, como sucedeu marcadamente, por diversas vezes, no decorrer das nossas experiências. Todavia estes casos de polarização são, normalmente, excepção (ver gráficos da direita, Figura 2 A e B).

O facto de uma norma, assim estabelecida, ser particular ao grupo, indica que existe uma base

psicológica real às afirmações dos psicólogos sociais e dos sociólogos que defendem que as

novas qualidades supraindividuais surgem nas situações de grupo. Isto está de acordo com outros factos, colocados em destaque na psicologia da percepção.

Quando um membro de um grupo encara, ulteriormente, sozinho a mesma situação, depois que

o intervalo de variação e a norma do seu grupo tenham sido estabelecidos, ele percepciona a

situação de acordo com o intervalo e a norma que ele transfere da situação de grupo. Este facto psicológico é importante já que fornece uma aproximação psicológica para a compreensão do produto social que tem um peso tão brutal sobre o problema da situação de estimulação.

6. Discussão dos resultados

As experiências constituem, então, um estudo da formação de uma norma em situação de laboratório. Elas mostram de forma simples e o processo psicológico fundamental implicado na elaboração das normas sociais. Elas são uma extensão, no âmbito social, de um fenómeno psicológico geral que se encontra na percepção e em muitas outras áreas psicológicas; a nossa experiência está organizada ou modificada pelos quadros de referência que são factores em qualquer situação de apresentação de estimulação.

Na base deste princípio geral, considerado em relação aos os resultados experimentais, permitimo-nos de generalizar.

O fundamento psicológico para o estabelecimento das normas sociais tais como: os estereótipos,

as modas, as convenções, os costumes e os valores, é a formação de quadros de referência

comuns enquanto que produtos do contrato dos indivíduos entre si.

Uma vez que tais quadros de referência estão estabelecidos e incorporados no indivíduo, eles contribuem, enquanto factores importantes na determinação ou modificação das reacções as suas reacções nas situações que terá que enfrentar no futuro situações sociais, ou mesmo, por vezes, não sociais, sobretudo se o campo de estimulação está mal estruturado. É claro que esta é uma afirmação geral. Ela forneceu-nos apenas o princípio geral de base à ajuda a partir da qual nós podemos abordar qualquer norma social específica. Em cada caso, devemos ter em consideração os factores particulares que participaram na sua elaboração.

As nossas experiências mostram apenas a formação de um quadro de referência específico numa situação de grupo. A nossa situação experimental, temos que o admitir, não representa uma situação social urgente, tal como as encontramos na realidade da vida quotidiana, com os factores de pressão tais como, a fome, a sexualidade e o eu. É simplesmente uma situação indefinida, não estruturada, que é nova para os sujeitos que participam nas experiências. Eles não têm qualquer norma estabelecida de reacção a esta situação. A situação, por consequência,

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bastante leve (souple) para ser estruturada pelo efeito dos factores sociais introduzidos experimentalmente, tais como: a sugestão o prestígio e outras influências de grupo.

Nesta situação, e em certos limites, não existem “bons” juízos de “bom” ou “mau”. Um sujeito fez, expontaneamente o comentário, no decurso da experiência, apesar de que ele não deveria falar: “Se me disser uma vez que seja de quanto eu me engano, todas as minhas avaliações serão melhores”.

O facto de haver dúvidas sobre a exactidão das suas avaliações deixa o sujeito pouco à vontade.

Isto nós soubémo-lo a partir dos relatórios introspectivos. Na situação individual, o sujeito estrutura a situação não estruturada determinando o seu próprio intervalo de variação e o seu

próprio ponto de referência. Na situação de grupo, os membros do grupo tendem a estruturar a situação fazendo convergir as suas avaliações no sentido de uma norma comum.

Se, no início da situação experimental, as suas avaliações são divergentes, no decurso da experiência eles se conformam uns com os outros, o que diverge sentindo-se na dúvida e mesmo pouco à vontade, dado o carácter desviante das suas avaliações. Esta convergência não é espontaneamente provocada pela influência directa de uma ou duas avaliações dos outros membros do grupo. Ela estabelece-se de acordo com um processo temporal. A seguinte impressão subjectiva de um membro de um dos grupos, escrita em resposta à questão: “Foi influenciado pelas avaliações das outras pessoas durante a experiência?” ilustra claramente o ponto em questão. O sujeito escreveu: “Sim, mas não em relação à mesma observação. A minha…”.

A minha avaliação, em cada caso, já estava estabelecida e não modificava para me conformar à

dos outros. Mas aquando de observações ulteriores, as minhas avaliações ajustavam-se às dos outros. Depois de um certo número de observações, o facto de antes ter estado de acordo ou em desacordo influenciava-me, na medida em que determinava a minha própria perspectiva.

Em detrimento do caso acima, não é necessário para cada indivíduo de estar consciente do facto de ser influenciado pela situação de grupo, nem do facto que ele e os outros membros convergem para uma norma comum. De facto, a maioria dos sujeitos relataram que não somente as avaliações que estavam prontos a apresentar eram fixas no seu pensamento antes de os falarem, mas também, que elas não foram influenciadas pelos outros membros do grupo. Este facto está de acordo com numerosas observações ao nível da psicologia da percepção; sabemos que o quadro geral no qual está incluído o estímulo influencia sobre as suas qualidades e que, a menos que se tenha uma atitude crítica e analítica em relação à situação, não é forçoso que tenhamos consciência que estas qualidades são, grandemente, determinadas pelo seu enquadramento. Este é o princípio geral que serve de base à psicologia das “ilusões”.

Devemos mencionar que, no nosso quadro experimental, os sujeitos não são movidos por um interesse ou uma motivação comum, semelhantes às que podemos encontrar num grupo que faz frente a um perigo comum, tal como: a fome ou a autoridade cruel de um tirano. Nestas situações vitais, existe uma certa lacuna que deve ser colmatada. Até que esta lacuna seja convenientemente preenchida (comblée), a situação continua instável.

Se as normas e as palavras de ordem que nascem da influência de um choque emocional não remedeiam, de forma adequada, à situação de tensão (tendue), e incerta e que requer uma solução, a instabilidade não é dissipada, e novas normas e novas palavras de ordem tendem a surgir até que a tensão desapareça. Por exemplo, numa multidão de pessoas com fome, que procuram alimento, um líder ou um pequeno grupo podem estandardizar determinadas normas ou determinadas palavras de ordem que servem de guia para se apreender a situação de conjunto e para agir. Se estas normas não desembocam no colmatar da fome, outros líderes, ou outros grupos podem surgir e estandardizar outras normas ou outras palavras de ordem.

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Este processo dialéctico dinâmico prossegue indefinidamente até que as normas ou palavras de ordem apropriadas, que melhor respondem à situação tenham sido encontradas. Por exemplo, nos E.U.A. muitos dos que se precipitaram com entusiasmo na acção durante a 1ª Guerra Mundial, tendo sido motivados pelo slogan uma guerra para meter fim à guerra” são agora totalmente surdos (indiferentes) a um tal slogan, tendo visto os resultados desta guerra.

Apesar da simplicidade da experiência de laboratório e da ausência de factores motivacionais vitais, o nosso quadro experimental comporta determinadas características importantes de situações de grupo reais.

7. Uma aproximação experimental do estudo das atitudes

No seguimento das experiências anteriores, concluímos que, logo que um indivíduo percepciona um movimento autocinético desprovido de pontos de referência objectivos e, quando lhe pedimos, no decurso de uma estimulação repetida de dar conta da amplitude do movimento, ele estabelece subjectivamente um intervalo de variação da amplitude e um ponto (uma norma) no interior desse intervalo que lhe são próprios e que são diferentes do intervalo e do ponto (norma) estabelecido por outros indivíduos.

Quando os indivíduos são confrontados juntos, pela primeira vez, com a situação indefinida e não estruturada enquanto membros de um grupo, um intervalo de variação e uma norma no interior desse intervalo são estabelecidos os quais são próprios ao grupo.

Quando um membro do grupo é, depois, confrontado a sós com a mesma situação, depois que um intervalo de variação e uma norma de grupo foram estabelecidos, ele percepciona a situação de acordo com esse intervalo e a norma que ele transfere da situação de grupo. Os intervalos de variação e as normas estabelecidas não são criadas arbitrariamente pelo experimentador ou por um qualquer outro agente.

Eles formam-se durante o tempo de duração da experiência e podem variar de um indivíduo para outro, ou de um grupo ao outro, no interior de determinados limites.

O nosso interesse está centrado sobre o estudo da influência social, podemos ir mais longe e colocar a seguinte questão: podemos nós experimentalmente levar um indivíduo a adoptar um intervalo de variação e uma norma prescrita que sejam ditadas pelas influências sociais específicas?

Diferentes tipos de influências sociais podem ser utilizadas experimentalmente para definir determinados intervalos e determinadas normas prescritas. De entre as muitas influências possíveis, escolhemos as seguintes:

A influência das situações de grupo sobre o indivíduo enquanto membro do grupo. Já mencionámos a principal conclusão deste trabalho anterior.

A influência directa da sugestão do experimentador para aumentar ou diminuir as avaliações da amplitude dos movimentos apresentados.

A influência de um membro do grupo que tem prestígio (cúmplice do experimentador) sobre um outro membro ingénuo.

A influência de um membro ingénuo sobre a avaliação de um outro. Neste último caso, não há qualquer efeito de prestígio, porque os sujeitos nunca se viram uns aos outros antes da experiência.

Apenas diremos algumas palavras sobre a experiência da alínea b). Se o indivíduo reparte as suas avaliações, por exemplo, à volta de 7 cm, sem a introdução de uma influência especial, o comentário do experimentador “estão a subestimar as distâncias” tende a elevar o ponto à volta do qual as avaliações são repartidas entre os 6 ou 7 cm.

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As experiências seguintes correspondem à alínea e) mostram de que modo o fenómeno autocinético pode ser utilizado como um índice sensível do efeito de prestígio de um indivíduo sobre outro. Apresentamos aqui o relato textual de uma experiência com efeito de prestígio:

a menina X… e eu (assistente em psicologia na Universidade de Colúmbia) éramos sujeitos para o doutor Sherif. Eu estava familiarizado com a experiência, mas a menina X… não sabia absolutamente nada da sua finalidade. Como ela era uma das minhas amigas e que eu tinha, aos seus olhos, um certo prestígio, o doutor Sherif sugeriu que seria interessante de determinarmos antecipadamente as suas avaliações. Foi previamente decidido que eu não devia emitir qualquer avaliação até que ela tivesse estabelecido o seu próprio ponto de referência.

Após algumas estimulações tornou-se evidente que as suas avaliações se iam situar à volta dos 12 cm. No decorrer da estimulação seguinte, como combinado, indiquei uma avaliação de 30 cm. A avaliação seguinte, da menina X… foi de 20 cm. Situei as minhas avaliações à volta de 30 cm, e ela fez o mesmo. Depois a minha avaliação foi de 7 cm, sugerindo ao doutor Sherif que tinha sido ele quem tinha feito a alteração. Gradualmente, a menina X… aproximou-se da minha norma de referência, mas não sem uma aparente resistência. Quando se tornou evidente que ela tinha aceite esta nova norma, o doutor Sherif sugeriu-me que não emitisse mais nenhuma avaliação, por forma a não a influenciar. Após o que, o doutor Sherif, no decurso de uma simulação ulterior, a informou que ela sub-avaliava a distância segundo a qual ponto se deslocava. Ela emitiu, de imediato, avaliações mais elevadas e estabeleceu um novo ponto de referência (norma). No entanto, ela começou, de algum modo, a sentir-se pouco à vontade e, pouco depois, ela sussurou-me ‘tira-me daqui’.

Quando voltámos ao meu gabinete, disse-lhe que o ponto luminoso, durante toda a experiência, nunca se tinha deslocado. Ela pareceu verdadeiramente perturbada, e ficou muito zangada por saber que a enganáramos. Face à sua perturbação mudei de tema de conversa. No entanto ao longo da nossa entrevista ela voltou ao assunto dizendo: ‘Não gosto deste homem’ (fazendo alusão ao doutor Sherif) e exprimindo outros sentimentos semelhantes que mostravam o seu descontentamento em relação ao assunto da experiência. E só, algumas semanas depois, quando ela voltou ao meu gabinete, é que me apercebi de facto da extensão real da sua aversão. Pedi-lhe que colaborasse comigo numa experiência, como sujeito da amostra, e ela de imediato exclamou que “não por baixo daquela sala” e apontou para a sala experimental do doutor Sherif.

A experiência que vamos citar trata da influência de um membro do grupo sobre a adopção de uma norma prescrita. 8

8 O ficheiro da tradução termina aqui, embora eu me recorde de ter ido um pouco mais longe

de informação deve-se ao facto de ao longo dos anos ter tido diversos computadores e também às sucessivas versões de Windows (inicialmente em programa DOS; posteriormente Window 95, 98, 2000, XP), pelo que peço desculpa!

A perda

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ESTILO DE COMPORTAMENTO DE UMA MINORIA E A SUA INFLUÊNCIA SOBRE AS RESPOSTAS DE UMA MAIORIA

Claude Faucheux & Serge Moscovici (1971) 9

(Tradução e adaptação de: Celeste Duque, Lisboa: Maio, 1999; revisão Outubro 2004)

1. INOVAÇÃO, ENQUANTO PROCESSO DE INFLUÊNCIA SOCIAL

1.1. As três modalidades de influência social

Do ponto de vista psicológico, o processo de influência diz respeito à transformação que sofrem

os mecanismos gerais de julgamento, de percepção, de memória, quando estes surgem como

resultado das interacções de dois sujeitos, dois grupos, etc., em relação a um objecto ou a um

estímulo comum.

Do ponto de vista sociológico, o processo trata do estabelecimento de relações no interior dos grupos e entre os grupos, à elaboração de normas comuns e à socialização dos indivíduos. Mas também diz respeito aos conflitos que se desenvolvem no quadro de um grupo e entre os grupos, ou a transformação das regras e das escalas colectivas de juízos.

Sucintamente, a influência representa uma das vias essenciais através das quais se estabelecem relações e códigos próprios num sistema social.

Para Faucheux e Moscovici (1967) existem três modalidades de influência social a normalização

(ou norma), o conformismo e a inovação.

1.1.1. Normalização

A normalização exprime a pressão que se exerce, no decurso de uma relação, com vista a

adoptar uma escala aceite por todos os indivíduos, ou a aceitar uma posição vizinha desta escala.

Pode-se afirmar que o objectivo desta pressão é, por um lado, a convergência de opiniões e, por outro, a adesão a um compromisso. As diferenças anteriores à interacção esbatem-se devido a um nivelamento, e o consenso ou o compromisso constituem, ulteriormente, o contexto ou o quadro de referência a partir do qual serão estimados, todos os estímulos inéditos, todas as figuras novas.

A condição necessária para que se exerça esta forma de influência é a equivalência dos

parceiros, do ponto de vista do estatuto ou dos recursos (poder, competência, etc.). A condição suficiente é a ausência por parte dos indivíduos ou dos subgrupos de uma preferência demasiado marcada por uma posição na escala de juízos ou de utilidade.

o estudo clássico de Sherif (1936) inspirou a maioria das investigações sobre a norma. Como

se sabe Sherif utilizou o efeito autocinético enquanto fonte de estimulação. O paradigma a ele subjacente apresenta os seguintes traços:

) (

9 As referências Bibliográficas citadas pelos autores não vão ser aqui apresentadas, por razões óbvias Pode-se sempre consultar o texto original!