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EDITORIAL

SUMÁRIO
a verdade Nos libertará setembro 2005/07

D
iante da corrupção sistêmica em que se encontra mergu-
lhado o atual sistema político-eleitoral brasileiro, o que mais
se ouve são clamores por uma urgente e radical reforma.
Um dos fatores que contribuiu para a crise dos partidos e a Cartaz oficial do
descabida forma como são feitas as campanhas eleitorais Grito dos Excluídos 2005.
foi, sem dúvida, a supervalorização do marqueteiro na Foto1: Secretaria Nacional do Grito
política. Não é por menos que entre tantas outras propostas para
resgatar a dignidade da política se encontra a de acabar com o papel Acólitos: dia de Corpus Christi
do profissional de marketing nas campanhas eleitorais. Os partidos 2005 na Praça da Sé, SP.
Foto2: Jaime C. Patias
sabem que ele é fundamental para, no atual sistema eleitoral, fabricar
a imagem dos candidatos e vender a ilusão de resolver todos os
problemas, atraindo os votos dos eleitores. Acontece que, na corri-  MURAL DO LEITOR--------------------------------------04
da pelo poder, o marketing político leva os partidos a gastar somas Cartas
milionárias fomentando práticas ilícitas. A publicidade transforma os  OPINIÃO--------------------------------------------------05
candidatos em produtos de consumo que dificilmente vão realizar CEBs fazendo história
aquilo que prometem. Neste triste cenário, ao longo dos anos, vimos Luciano Mendes de Almeida
desaparecer aos poucos os políticos que debatem idéias e apresen-  PRÓ-VOCAÇÕES----------------------------------------07
tam programas viáveis O lamentável imediatismo
para bem governar a Rosa Clara Franzoi
coisa pública. No seu  VOLTA AO MUNDO-------------------------------------08
lugar, assessorados Notícias do Mundo
Adital / Fides
por agências de pu-
blicidade crescem os  ESPIRITUALIDADE----------------------------------------10
políticos que buscam Espiritualidade libertadora, legado das CEBs
Jaime Carlos Patias
poder e vantagens pes-
soais a qualquer custo.  CIDADANIA-----------------------------------------------12
O que se vende são Os gritos dentro do Grito
Alfredo J. Gonçalves
aparências, uma das
características mais  testemunho-------------------------------------------13
Alargando horizontes e o coração
marcantes da socie- Anair Voltolini
dade contemporânea. Nela o que de fato parece importar não é quem
somos, o que temos ou fazemos, mas o que parecemos ser, ter ou  testemunho-------------------------------------------14
A força da fé
fazer... Essa inversão de sentido é visível na política e em outras Bento Eugênio Muhita
dimensões da sociedade. Vivemos no mundo das aparências.
Preocupados com a situação do país, os bispos, reunidos na  FORMAÇÃO MISSIONÁRIA----------------------------15
A Missão Ad Gentes hoje
43ª Assembléia Geral da CNBB, de 9 a 17 de agosto, em Itaici, Ramón Cazallas Serrano
Indaiatuba, SP, em uma declaração sobre a atual crise política
afirmaram que “o uso de fontes escusas para o financiamento de  MISSÃO HOJE-------------------------------------------19
Jovem evangelizando Jovem
campanhas eleitorais, o desvio de recursos públicos, a manipulação Júlio César Caldeira
de empresas estatais em benefício de partidos, e tantas outras
 DESTAQUE DO MÊS------------------------------------20
denúncias de corrupção que vêm acontecendo de longa data, e Em nossas mãos a mudança
que nos últimos dias emergiram de forma escandalosa, provocam, Alfredo J. Gonçalves
em todos nós, a indignação ética”. Em sua declaração os bispos
 ATUALIDADE----------------------------------------------22
afirmam ser “indispensável, por isto, renovar a convicção de que Vencer o fracasso através da alfabetização
a política é uma forma sublime de praticar a caridade, quando Dalgi e Orestes Asprino
colocada a serviço da justiça e do bem comum”. Apesar de tudo,  INFÂNCIA MISSIONÁRIA-------------------------------24
devemos acreditar que estamos diante de uma oportunidade para Em comum-união com nossos indígenas
realizar uma profunda reforma política. “Urge assegurar a lisura Roseane de Araújo Silva
nas campanhas eleitorais pela aplicação mais rápida e severa da  CONEXÃO JOVEM--------------------------------------25
lei 9.840 contra a corrupção eleitoral”, conclamam os bispos. Tipo assim, para que serve a TV?
Setembro é tradicionalmente o mês da Bíblia e nos momentos Diniz Giuseppi
difíceis a Palavra de Deus ilumina os nossos passos e nos assegura  ENTREVISTA-----------------------------------------------26
que “a Verdade nos libertará” (Jo 8, 32). Ancorado nos valores do A dimensão profética da evangelização
Joaquim Gonçalves
Evangelho e nas convicções éticas e cristãs, o povo brasileiro não vai
desistir do projeto de construir um país justo, pacífico e democrático.  AMAZÔNIA-----------------------------------------------28
No espírito da 4ª Semana Social Brasileira, nos unimos ao mutirão Mutirão pela e com a Amazônia
Cecília Tada
por um novo Brasil e juntando todos os gritos, acreditamos que a
mudança se encontra em nossas mãos.   Volta ao Brasil---------------------------------------30
Notícias do Brasil
CIMI / CIR / Desarme

Missões - Setembro 2005 3


Mural do Leitor
Ano XXXII - no 07 Setembro 2005 Nossa vida é missão!

Diretor: Jaime Carlos Patias É com muita alegria e entusiasmo


que eu partilho um pouco da minha ex-
Editor: Maria Emerenciana Raia periência de vida com os missionários
da Consolata em Manaus. Somos quatro
Equipe de Redação: Joaquim F. jovens no Propedêutico e cada um vem de
Gonçalves, Cristina Ribeiro Silva e Rosa uma realidade bem diferente, mas juntos
Clara Franzoi aprendemos a viver cada dia essa mistura
cultural, transformando tudo em fraterni-
Colaboradores: Alfredo J. Gonçalves, dade. Sinto-me feliz por esta experiência,
Vitor Hugo Gerhard, Lírio Girardi, Luiz e, apesar das dificuldades e desafios,
Balsan, Júlio César, Marinei Ferrari, percebo que estou indo pelo caminho
Roseane de Araújo Silva certo. Somos gratos pela presença dos
missionários da Consolata aqui na Região
Agências: Adital, Adista, CIMI, CNBB, Amazônica e por isso neste mês que é
Dom Hélder, IPS, MISNA, Pulsar, Va- dedicado às missões, quero manifestar o
ticano meu agradecimento, de modo particular
ao padre César e ao Irmão Tarcísio, que
Diagramação e Arte: Cleber P. Pires este ano nos acompanham na formação.
A todos, um abraço de paz.
Jornalista responsável:
Maria Emerenciana Raia (MTB 17532) Francisco Maya
Manaus, AM.
Administração: Eugênio Butti

Sociedade responsável:
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4 Setembro 2005 - Missões


CEBs fazendo história

OPINIÃO
de Luciano Mendes de Almeida

O
tema do 11º Intereclesial para algo que vai além da nossa razão,

Jaime C. Patias
das CEBs “espiritualidade e da experiência pessoal, que vem como
libertadora” se inseriu em dádiva de Deus. Jesus Cristo entra na
um enquadramento maior humanidade para oferecer a ela não só
de nossa sociedade, que não uma esperança de vida eterna feliz, mas
podemos perder de vista. A também um caminho de vida agora, no
primeira característica do nosso mundo, é tempo e, portanto, de conversão pessoal
o escândalo da desigualdade social. Nós e de Reino de Deus. Conversão pessoal
vemos que a miséria, a fome e a doença dessas estruturas que asfixiam a vida
fazem parte da vida concreta de pelo menos e levam à morte, para uma atitude de
dois bilhões de seres humanos que vivem enfrentamento dessa situação e de afir-
essas experiências negativas. A segunda mação da vida. Não se trata apenas de
característica dos nossos dias é a violência uma promessa de esperança, mas de
enquanto um desregramento da pessoa uma semente que leve a uma vivência
que apela para o uso da força. Em terceiro de valores. Dentro dessa perspectiva,
lugar, resultante desses dois fatos, e aí o Intereclesial se articulou em forma de
se inseriu o Intereclesial, há uma série de "Locomotivas" e "Vagões" que proporcio-
separações, divisões, segregações que naram uma ramificação do pensamento.
nascem de rivalidades, mas que ficam Os quatro blocos de temas desenvolvidos
depois entre os povos. Em quarto lugar, nas Locomotivas: a) evangelização liber-
a ação do Intereclesial se inseriu também tadora é um programa de vida; b) como
em algo que é muito forte e crescente, isso dignifica todo o conceito de pessoa
mas, que ao mesmo tempo descortina humana e de cidadania; c) como é que
um horizonte pesado: a perda de sentido isso faz com que a pessoa tenha que se agrária e agrícola, o esforço para que as
da vida. Foi dentro desse contexto maior habilitar e se capacitar para exercer a sua barragens não se multipliquem de modo
que aconteceu o Intereclesial como uma ação de sujeito; d) como a pessoa vai se exagerado, a emancipação, a autonomia
reunião de igrejas e, portanto, de vida de organizar para termos políticas públicas das populações indígenas, dos quilom-
comunidades com o olhar voltado para e termos também ações de conjunto que bolas etc.;
Jesus Cristo. têm um efeito maior porque o bem é tanto 2. Finalmente a última Locomotiva
mais divino quanto mais universal. dizia o seguinte: esse espírito a ser ob-
Queremos Ver Jesus Tivemos ainda os dois tipos de apli- tido, essa modificação para melhorar na
O 11º Intereclesial nasceu de uma cação: com­preensão da pessoa humana e da
vontade de sintonizar com um programa 1. O campo: com tudo o que significa cidadania, aquilo que é para nós a ela-
maior da CNBB, o Projeto Queremos hoje para nós a terra, passando pela boração de um projeto aonde a pessoa
Ver Jesus... mas que é voltar os olhos ecologia, pela água, pela luta da reforma vai se tornando capaz de ser um sujeito
de transformação; as ações coletivas que
José Roberto Garcia

devem levar o país a um salto qualitativo


na promoção humana. Aplicando isso ao
campo, vamos nos solidarizar mais rapida-
mente com um projeto de educação que
elimina as formas de ensino atuais, mas
que pode ter também uma concentração
maior sobre a família, sobre as escolas
que estão ligadas com a família, sobre as
iniciativas locais de educação bem como
sobre aquelas mais localizadas, como a
indígena, por exemplo. Como capacitar o
povo, que ficou muito tempo analfabeto
no exercício da cidadania, para a partici-
pação de conselhos, para a consulta de
plebiscitos, num ensino que passa também
por uma educação popular. 

Grupo de trabalho (Vagões) no 11º Intereclesial.


Dom Luciano Mendes de Almeida é bispo de Mariana, MG.

Missões - Setembro 2005 5


Instituto Mariama
Mensagem final da XVII Assembléia

R
eunido com os seus membros na cidade de

Foros: Joaquim Kamau


Salvador, entre os dias 25 e 29 de julho, o
Instituto Mariama (IMA), que congrega bispos,
padres e diáconos negros, propôs, através
de sua XVII Assembléia, a reflexão sobre o
diálogo inter-religioso para a construção de
uma cultura de vida e de paz. Comungando as suas
discussões com os padres, leigos e leigas norte-ameri-
canos e identificados com a situação de exclusão social
e religiosa, a que ainda continuam submetidos milhões
de afro-brasileiros, todos os participantes declararam
para as igrejas e para a sociedade que:
1. A atual conjuntura brasileira, em que pese as
políticas afirmativas, exige urgentemente uma nova
mobilização dos movimentos sociais e da sociedade
civil para que assumam a sua responsabilidade política
de serem os sujeitos privilegiados das transformações
exigidas pelos mais atingidos por este sistema perverso Celebração de encerramento e posse da nova diretoria do IMA.
e opressivo, dos anseios legítimos dos que constróem “Acaso não temos o mesmo Pai para todos nós? Não nos criou
a nação brasileira; um mesmo Deus? Por que trabalhamos tão perfidamente uns
2. Convidamos a comunidade negra do Brasil e todos aqueles contra os outros?" (Mal 2,10);
que se identificam com as suas causas históricas, para que se 6. Hipotecamos a nossa irrestrita solidariedade a todas as
comprometam com o debate político. Este precisa ser reinstau- casas religiosas de tradição africana. Estas vêm sofrendo, sem
rado no conjunto da população brasileira e dos seus movimentos cessar, a violência física e moral dos que, em nome de sua reli-
sociais representativos e organizados; gião, procuram impor a sua mentalidade autoritária. Esquecem
3. Neste contexto, julgamos ser de muita importância a que Paulo, apóstolo dos gentios, ele mesmo, tinha um coração
participação na Marcha Zumbi + 10, que será realizada no dia judeu, uma mentalidade grega e uma existência romana;
16 de novembro de 2005, em Brasília; 7. Lembramos as palavras de Cristo: “Chegará um momen-
4. Reafirmamos que o diálogo inter-religioso só será fecundo, to em que aquele que vos matar pensará estar prestando um
se acompanhado de ações comuns pela justiça, pela defesa serviço a Deus”. Queremos colocar esta palavra, exigida pela
dos direitos humanos e pela construção da paz alicerçada na Boa Nova de Jesus Cristo, nos nossos corações e atitudes, em
liberdade religiosa, pois “ninguém deve ser levado a crer contra solidariedade fraterna à Igreja de Nova Iguaçu, covardemente
a vontade. Ninguém pode aderir a Deus senão quando atraído atingida pelo assassinato do Pe. Paulo Henrique Keller, no
por Ele. Por si mesma, a fé exclui, em matéria religiosa, todo exercício pleno da missão profética;
gênero de coação por parte dos seres humanos” (DH 10); 8. Anunciamos que nada deterá o nosso empenho para
5. Somente a verdade, o respeito mútuo e a tolerância são os concretizar o diálogo inter-religioso, como foi e é exigido pelos
caminhos seguros que levarão a superar e aniquilar as guerras documentos do Concílio Vaticano II, testemunhado pelo Papa
de religiões, nas quais os mais atingidos são os mais pobres; João Paulo II na cidade de Assis, em outubro de 1986;
9. Finalmente, nos empenharemos no aprofundamento do
diálogo com as tradições religiosas africanas, conscientes da
exortação de que “há um só povo de Deus na diversidade das cul-
turas e isto é uma realidade inscrita no plano de Deus” (PC);
Pedimos as bênçãos do Senhor do Bonfim e a proteção
de todos os Santos e Santas, para que possamos, com todos
os homens e mulheres de boa vontade, anunciar e concretizar
em toda a terra, a utopia do profeta: “Quem fizer casas, nelas
vai morar; quem plantar vinhedos, dos seus frutos vai comer.
Todos vão gozar do fruto do seu trabalho e ninguém fará mal
ou pensará em prejudicar alguém” (Is 65, 21-22). 

Momento de oração durante a Assembléia. Todos os participantes da XVII Assembléia do IMA.

6 Setembro 2005 - Missões


pró-vocações
O LAMENTÁVEL imediatismo
O importante nos dias de hoje é correr, atingiu a região e a maioria das árvores do pomar morreu de
sede. Em seguida, um ciclone passou pelo sítio e arrancou,
competir, ganhar tempo... sem dó nem piedade, as poucas que ainda haviam sobrado
da seca. A figueira também foi atingida, mas foi a única que se
manteve de pé para consolo do proprietário e para oferecer a
de Rosa Clara Franzoi todos perfumadas flores e saborosos frutos”.

"E
Destruição dos caminhos de realização
ra uma vez um belo pomar. Havia abundância naquela Deixando de lado a parte trágica da história, apliquemos a
região. Por isso, aquelas plantas frutíferas não se preo­ lição da figueira à vocação, que é o nosso tema. Vivemos na era
cupavam em aprofundar as raízes. Uma delas, porém do imediatismo. Tudo ao nosso redor tem que ser rápido, tudo
– era uma figueira – resolveu não seguir o comportamento em cima da hora. A paciente espera não tem espaço em nossa
das amigas pois poderia ser arriscado para o seu futu­ agenda. Tudo o que exige um pouco mais de esforço, de reflexão
ro. Cada vez que e de discernimento, é
José Roberto Garcia

chovia, ela tratava de ir deixado de lado, porque


mergulhando o mais que o importante, hoje, é
podia nas raízes da terra. correr, competir, ganhar
Por causa desse esforço, tempo... Com isso, até
o seu crescimento acon­ aquelas decisões sérias
tecia um pouco mais lento e comprometedoras que
que o das demais. Pas­ envolvem o futuro, mui-
saram-se alguns anos, tas vezes são tomadas
as árvores floresceram de repente, num abrir
e começaram a dar os e fechar de olhos, sem
primeiros frutos... menos medir as conseqüên-
a figueira. As outras árvo­ cias. Depois, quando
res olhavam com desdém “a ficha cai” já é tarde.
e até debochavam dela E daí, o que fazer? Cor-
por perder em altura e rer desesperadamente
sobretudo, por não ter atrás dos prejuízos – o
ainda frutos nos seus que não deixa de ser
ramos. Mas, a figueira muito triste... Todos,
aguentava os risos sar­ Participantes do Acampamento da Juventude no 11º Intereclesial. mas especialmente os
cásticos das colegas. Dizia consigo mesma: “quem ri por último, adolescentes, os jovens, vivem uma pressão muito grande, da
ri melhor...” e convicta, continuava seguindo o seu ritmo. Um dia sociedade, do grupo, e quando querem “remar contra a corrente”,
o dono da propriedade passou para visitar o pomar e vendo a muitas vezes são marginalizados. É a hora certa de lembrar a
figueira, pequena e sem frutos, ficou um tanto intrigado. Mas, história da “figueira”. Se ela tivesse sido “maria-vai-com-as-ou-
examinando-a melhor se convenceu que estava forte e sadia; tras”, teria tido o mesmo fim das demais árvores.
e também a ela dispensou um belo elogio. Passado mais um
tempo, eis que o não esperado aconteceu. Uma grande seca A vida é uma só
Devemos olhar para a vida com mais seriedade, interesse e
responsabilidade. É preciso começar cedo a construir a própria
Quer ser um missionário/a? identidade, a própria personalidade. Nunca devemos deixar
que as novelas, a moda, o dinheiro, a fama, a droga, as más
Irmãs Missionárias da Consolata - Ir. Dinalva Moratelli companhias... ditem as regras nas nossas decisões.
Av. Parada Pinto, 3002 - Mandaqui Jovem! Não podemos fazer as coisas só porque todo mundo
02611-011 - São Paulo - SP faz. Não devemos ir porque todo mundo vai... Cuidado, “podemos
Tel. (11) 6231-0500 - E-mail: rebra@uol.com.br nos dar mal” e aquele projeto de felicidade que idealizamos para
o futuro, pode desmoronar num só instante. A busca, o conheci-
Centro Missionário “José Allamano” - Pe. Joaquim Gonçalves mento, a valorizaçãoe o cultivo de sólidos princípios, humanos,
Rua Itá, 381 - Pedra Branca
02636-030 - São Paulo - SP sociais e cristãos são indispensáveis nessa etapa da vida. Eles
Tel. (11) 6232-2383 - E-mail: secretariamissao@imconsolata.org.br deverão ser os indicadores daquele caminho que nos levará à
realização de um futuro consistente que possa dar saborosos
Missionários da Consolata - Pe. César Avellaneda frutos, à família, à sociedade, à Igreja... Continue a reflexão com
Rua da Igreja, 70-A - CXP 3253 o texto de Lucas 13, 6-9. 
69072-970 - Manaus - AM
Tel. (92) 624-3044 - E-mail: imcmanaus@manausnet.com.br Rosa Clara Franzoi é irmã missionária e animadora vocacional.

Missões - Setembro 2005 7


International”, realizada em Roma, em 2003, o movi-
mento pediu o reconhecimento oficial da Santa Sé,
através do Pontifício Conselho para os Leigos. Uma
grande delegação do JYI participou do Dia Mundial da
Juventude este ano, em Colônia, na Alemanha.

Portugal
Jornadas Missionárias
Neste Ano da Eucaristia, às portas do outubro
missionário, de 16 a 18 de setembro, o Centro Paulo
VI, em Fátima, vai hospedar as Jornadas Missionárias
América Latina e Caribe nacionais sobre o tema “Eucaristia e Missão”. O even-
O drama da violência sexual to eclesial é promovido pela Conferência Episcopal
A violência sexual e o tráfico de pessoas na América Portuguesa, através da Comissão Episcopal das
VOLTA AO MUNDO

Latina e Caribe ganharam destaque numa recente Missões, com a colaboração da Conferência Nacio-
reunião internacional da Organização Panamericana nal dos Institutos Religiosos (CNIR) e da Federação
de Saúde (OPS). Mirta Roses Periago, diretora da Or- Nacional dos Institutos Religiosos Femininos (FNIRF).
ganização, disse que estas são duas das expressões Os objetivos das Jornadas são substancialmente dois:
mais cruéis, dramáticas e inaceitáveis da situação avaliar o percurso missionário realizado e impregnar
atual da mulher em nossas sociedades. Na reunião de espírito missionário o ano pastoral que se inicia.
foram debatidos os planos integrados de atenção às
mulheres sobreviventes da violência sexual na Região. Colômbia
Não obstante os avanços conquistados nos últimos O espírito missionário dos seminaristas
10 anos, estudos sobre violência sexual na infância, “Despertar e dar vida ao espírito missionário nos
realizados pela OPS e pela Organização Mundial da seminaristas maiores, destacando cada vez mais a
Saúde em 2003, revelam que 36% das meninas e importância da missionariedade e do testemunho do
29% dos meninos sofreram abuso sexual. grupo missionário no âmbito do Seminário, a fim de
que, durante a formação sacerdotal, se crie a cons-
Índia ciência da universalidade, de maneira que os futuros
Jovens engajados na oração e na missão sacerdotes sejam abertos e disponíveis a sair para
Um movimento missionário a serviço da Igreja, que anunciar o Evangelho em locais onde a Igreja mais
quer levar Jesus Cristo aos jovens com instrumentos precisa”. Com este objetivo, realizou-se, na sede do
característicos da juventude: é o “Jesus Youth Interna- Seminário Maior de Tunja-Boyacá, de 8 a 11 de julho
tional” (JYI), movimento carismático católico nascido passado, o IV Encontro Nacional Missionário dos
no estado indiano de Querala, que está envolvendo Seminaristas Maiores, que teve como tema “Forme-
um número cada vez maior de jovens em encontros mo-nos como Missionários da consciência universal!”.
de oração e iniciativas de missão. O movimento O evento reuniu 132 seminaristas, delegados de 30
tem sede na Índia, mas já está presente em outros Seminários de 24 Dioceses e Vicariatos Apostólicos da
países da Ásia, da América e da Europa, com mais Colômbia, para relevar a necessidade de animação e
de 30 mil participantes. O movimento é organizado de experiências missionárias do Povo de Deus.
com a lógica de rede, dividido em pequenas células
espalhadas pelo mundo, que se encontram periodi- Quênia
camente. Nascido na década de 70, o movimento Encontro anual da Infância Missionária
se caracterizou como Cristocêntrico, dirigindo uma No dia 24 de julho realizou-se o encontro anual
atenção específica e missionária aos adolescentes, da Infância Missionária da Diocese de Muranga, com
jovens de universidades, do território das paróquias, participação de cerca de oito mil crianças, provenientes
e, sobretudo, àqueles que não conhecem Jesus das 34 paróquias da diocese, com os seus animadores.
Cristo. As cinco pilastras do estilo de vida do “Jesus Muitas delas vieram a pé. Também a diocese de Kisu-
Youth International” são: a oração pessoal, a palavra mu realizou o encontro anual das crianças da Infância
de Deus, os Sacramentos, a seqüela de Cristo e o Missionária em 23 de julho. A responsável diocesana,
empenho pela evangelização, pedra fundamental do Ir. Grace Kombo, disse que as crianças responderam
movimento. Os responsáveis explicam: “A realidade à iniciativa e tiveram uma bela celebração, que durou
do JYI é marcada pela missão. Em todos os nossos algumas horas entre danças e cantos animados por um
encontros, seminários e programas de formação, forte espírito eucarístico. No passado, esses encontros
exortamos os jovens a dedicar suas vidas à missão, eram organizados pela Direção Nacional das POM,
ao dever de levar o amor de Deus a todos os homens. e hoje são organizados inteiramente pelos diretores
De fato, está aumentando no movimento o número de missionários diocesanos. 
jovens voluntários missionários que decidem passar
um ano de suas vidas dedicando-se totalmente ao
serviço missionário”. Na assembléia do “Jesus Youth Fontes: Adital, Fides.
8 Setembro 2005 - Missões
INTENÇÃO MISSIONÁRIA
Para que o anúncio do Evangelho pelas tes e oportunas

Jaime C. Patias
para o tema da
Igrejas jovens facilite sua inserção inculturação do
Evangelho, no
profunda nas culturas dos povos. número 52:
“Desenvol-
vendo sua ativida-
de missionária no
de Vitor Hugo Gerhard meio dos povos,
a Igreja encontra

S
várias culturas,
e dividirmos os dois mil anos de história do cristianismo vendo-se envol-
a cada 500 anos, poderíamos resumi-la da seguinte vida no processo
forma: nos primeiros 500 anos assistimos sua expansão de inculturação.
no mundo greco-romano. Foi o período das Igrejas Pa- Esta constitui
triarcais, marcadas pelo descentralismo e pela comunhão uma exigência
entre as Igrejas locais. O período entre os séculos VI que marcou todo
e XV (501 a 1490) foi marcado pelo desenvolvimento e con- o seu caminho his-
solidação do cristianismo naquela parte do mundo conhecido tórico, mas hoje
de então, chamada de Europa Ocidental. Foi o tempo da vida é particularmente
monacal, do florescimento das dioceses, do surto de evange- aguda e urgente.
lização dos povos que lá viviam. Foi também a consolidação O processo de
dos Estados modernos, assim como os conhecemos até os inserção da Igreja, nas culturas dos povos, requer, um tempo
dias de hoje. Foram tempos de revoluções, conquistas, vitórias longo: é que não se trata de uma mera adaptação exterior, já
e derrotas, no grande cenário dos conflitos humanos. Nos 500 que a inculturação significa a íntima transformação dos valores
anos seguintes, a humanidade e o cristianismo descobriram os culturais autênticos, pela sua integração no cristianismo e o
continentes americano e africano, fazendo deles a nova seara da enraizamento do cristianismo nas várias culturas. Trata-se pois,
evangelização. Hoje temos um continente americano marcado de um processo profundo e globalizante que integra tanto a
profundamente pelo cristianismo e o continente africano, o negro mensagem cristã como a reflexão e a práxis da Igreja. Mas é,
e o pardo, o islâmico e o cristão, com sua luta corajosa contra também um processo difícil, porque não pode comprometer de
a pobreza e seu esforço de reorganização interna, no imenso e modo algum, a especificidade e a integridade da fé cristã. Pela
belo mosaico das etnias. inculturação, a Igreja encarna o Evangelho nas diversas culturas
Com isso se passaram dois mil anos. É bem verdade que e, simultaneamente, introduz os povos, com suas culturas, na
algumas tentativas corajosas foram feitas na Ásia e na Ocea- sua própria comunidade, transmitindo-lhes seus próprios valores,
nia, todavia, sem os mesmos resultados. Assim que, o terceiro assumindo o que de bom nelas existe, e renovando-as a partir
milênio se descortina como o tempo do sol nascente, o tempo de dentro. Por sua vez, a Igreja, com a inculturação, torna-se
da Ásia, lá onde vive a metade da população. Nesta direção, há um sinal mais transparente daquilo que realmente ela é, e um
duas perguntas a serem respondidas: a) o que temos a oferecer instrumento mais apto para a missão”.
a estas culturas milenares, inclusive com seu mundo religioso Esta via de mão dupla será o caminho preferencial a ser
forte e também milenar?; b) o que temos a receber desta parcela percorrido pelos cristãos, até que o Evangelho chegue aos
significativa da humanidade, com suas riquezas imensas, com confins do mundo. 
seu modo original de viver e encarar a vida?
A Carta Encíclica Redemptoris Missio, do papa João Paulo Vitor Hugo Gerhard é sacerdote e coordenador de pastoral
II, publicada em 1991, nos traz algumas indicações importan- da Diocese de Novo Hamburgo, RS.

Outubro: mês missionário


O mês de outubro é, para a Igreja Católica em todo o mundo, o Como acontece há mais de 30 anos, as POM (Pontifícias Obras
período no qual são intensificadas as iniciativas de informação, forma- Missionárias), em colaboração com a Comissão para a Ação Missio-
ção, animação e cooperação em prol da Missão universal. O objetivo nária e Cooperação Intereclesial da CNBB, oferecem às comunidades
é promover e despertar a consciência e a vida missionária cristã, as cristãs, grupos, famílias, jovens, crianças e adultos de todo o Brasil,
vocações missionárias, bem como promover uma Coleta Mundial para as Celebrações Missionárias 2005, com o Rosário Missionário. Neste
as Missões, para o sustento de atividades de promoção humana e ano, a Campanha da Fraternidade Ecumênica, promovida pelo Con-
evangelização nos cinco continentes. selho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), faz um forte apelo
Campanha Missionária 2005 e lança um desafio a todos: convoca-nos à promoção e à defesa da
Tema: A Missão a Serviço da Paz paz. Também as POM abraçam esta causa. A Missão está a serviço da
Lema: Felizes os que Promovem a Paz (Mt 5, 9) paz. “Felizes os que promovem a paz” (Mt 5,9).
Dia Mundial das Missões: 23 de outubro Informações: www.pom.org.br - e-mail: pom@pom.org.br

Missões - Setembro 2005 9


Espiritualidade libertado
espiritualidade

legado das CEBs

Jaime C. Patias
de Jaime Carlos Patias

A
s Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) foram se
organizando a partir de 1960 no Brasil para tornar
possível uma experiência cristã integral. Elas são fruto
do anseio por uma maior fraternidade, que nasce da
fé em Cristo, se fortalece pela palavra de Deus, nos
sacramentos e assume o compromisso de conversão pessoal
e transformação da sociedade à luz dos valores do Evangelho.
A trajetória das CEBs é bem conhecida: formaram redes de co-
munidades no interior das paróquias e enraizaram-se mais nas
áreas das periferias das cidades e nas zonas rurais.
O tema e o lema que motivaram o 11º Intereclesial das CEBs,
realizado na Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano, de 19 a 23
de julho de 2005, foram “CEBs, espiritualidade libertadora: seguir
Jesus no compromisso com os excluídos”. Trata-se de um tema
muito importante para a sociedade contemporânea, embalada
pela globalização, pelo neoliberalismo e pelo individualismo,
que influenciam profundamente a vida de nossa sociedade e
de nossas igrejas. A situação em que vivemos nos convida a
refletir e aprofundar o sentido da espiritualidade, enquanto força
do Espírito que liberta, transforma e faz novas todas as coisas
(cf. Ap 21,5).
Na opinião de Dom Luciano Mendes de Almeida, grande in-
centivador das CEBs, “o tema ‘espiritualidade libertadora’ procura
aprofundar o projeto divino de salvação que oferece a remissão
dos pecados e vida nova à humanidade ainda mergulhada nas
injustiças, na violência e na perda do sentido da existência”. Geraldo Thobias Sá Silva, diocese de Uberlândia, MG.
Os 50 bispos presentes ao 11º Intereclesial, em sua men-
sagem final, avaliaram que o tema e o lema “estão em perfeita na Bíblia. Tanto em hebraico (ruah), como em grego (πνεθμα), a
sintonia com o Projeto de Evangelização Queremos Ver Jesus, palavra é feminina, o que nos recorda “o rosto materno de Deus”,
Caminho, Verdade e Vida”. Tendo sentido o clima de fé viven- Pai e Mãe também. Um Deus que ama e cuida com carinho e
ciada, respeito e valorização da diversidade, de encarnação do ternura, que é parceiro dos pobres e excluídos, que intervém e
Evangelho e presença missionária das CEBs, os bispos lançaram entra na história humana para libertar os oprimidos e defendê-
um apelo: “Pedimos aos irmãos no episcopado que apóiem as los dos opressores (cf. Ex 3,7ss). Na sua origem etimológica, a
CEBs de maneira corajosa; orientem os padres, seminaristas palavra significa “ar em movimento”, hálito, sopro, vento. Como
e agentes de pastoral para que assumam sua caminhada”. E vemos, o Espírito de Deus é fascinado pelo novo; é “criador e
esse caminho é guiado por uma espiritualidade própria que criativo”. Na origem da história já está presente antes mesmo
apresentamos a seguir. da criação (cf. Gn 1,1-2), ansioso para manifestar toda a sua
força, beleza e vitalidade.
O que é espiritualidade? O teólogo Marcelo Barros, falando para cerca de 250 jovens
Padre Carlos C. Santos, assessor das CEBs explica que no Acampamento da Juventude, organizado junto ao 11º Inte-
espiritualidade vem de “espírito”, palavra que aparece 523 vezes reclesial, desenvolveu o tema da espiritualidade baseado em

10 Setembro 2005 - Missões


dora
As CEBs fundamentam-se Por que espiritualidade?
O mundo se desenvolveu de uma maneira extraordinária.
na Palavra de Deus, no Graças à capacidade da inteligência humana, as descobertas
científicas desvendam mistérios. Mas será que tudo isso nos
projeto de Jesus e nos torna mais humanos ou quanto mais a civilização avança, a
qualidade de vida diminui? Analistas apontam para uma crise
documentos da Igreja. de sentido da vida. Não estaríamos perdendo o essencial, a
nossa alma? (espiritualidade dentro de nós), indaga Marcelo
Barros. Isso não é só um problema individual de alguém que
perde a alma, mas é a sociedade toda que está perdendo a sua,
José Roberto Garcia

os valores que realmente dão sentido à vida. A espiritualidade


existe justamente para criar os meios para recuperar a alma
quando a perdemos. Ela assegura a construção de um mun-
do mais humano, mais solidário, mais justo, mais conforme a
vontade do Criador. Segundo Marcelo Barros, esse deveria ser
o projeto de espiritualidade de todos em qualquer condição: a
justiça, a paz e a defesa da Criação. Espiritualidade é a pessoa
desenvolver no conjunto, o todo em integridade (as dimensões
religiosa, econômica, política, social, técnica, a sensibilidade, a
afetividade), para evitar que uma dimensão da vida se desenvolva
enormemente e a outra fique atrofiada.
O pluralismo, a diversidade e o ecumenismo do Intereclesial,
com a presença de 32 povos indígenas, 48 pessoas de onze
Igrejas cristãs, grupos de culturas afro-brasileiras e 70 delegados
de outros países mostram que para problemas comuns a todos,
as soluções também devem ser comuns. Nas CEBs, a busca de
soluções é sempre orientada pelo método “ver, julgar, agir, avaliar
e celebrar”. Partindo de um ver a realidade da exclusão à luz da
Espiritualidade libertadora e de avaliar a prática à luz do exemplo
de Jesus no seu amor pelos pobres, os 3.806 participantes do
11º Intereclesial chegaram às definições de compromissos. Na
Igreja e na sociedade, as CEBs têm contribuído para a vivência
profunda do seguimento de Jesus, num “antigo e novo jeito de
ser Igreja”. É significativo o número dos militantes das CEBs
que deram prova de santidade na promoção da justiça e até na
Momento de celebração. coragem do martírio com plena fidelidade ao Evangelho.

quatro perguntas. O que é? Para que é? Por que é? Como é? Para que serve a espiritualidade?
Interagindo com a juventude, Barros lembrou que a grande sede A espiritualidade serve para assumir o nosso projeto como
da humanidade por espiritualidade leva o ser humano a buscar uma meta, uma finalidade. Aqui poderíamos nos perguntar se
as mais diversas formas de manifestações do espírito. Nessa estamos dispostos a cultivar a paz, a justiça e o cuidado com a
ávida busca, às vezes, criam-se confusões. A espiritualidade Criação como uma finalidade da espiritualidade que queremos.
é uma palavra ambígua e complicada, levando as pessoas a A Carta final do encontro resume o grande desejo transforma-
confundir espiritualidade com “espiritualismo”. Marcelo Barros do em compromisso de fé para as comunidades. Nela lemos:
esclareceu que espiritualidade é uma vida conduzida pelo Espírito “acreditamos na vocação profética das CEBs, contribuindo para
(na matéria, na realidade do cotidiano), enquanto que espiritua­ que a Igreja em suas estruturas se torne mais circular, colegia-
lismo é o contrário de materialismo (desligado da matéria). A da, acolhedora, inclusiva nas suas relações de gênero... toda
espiritualidade seria cultivar uma mística no dia-a-dia, garantir ministerial, missionária, uma Igreja mãe...”. Essa convicção é
a presença de Deus na vida concreta. perpassada por uma espiritualidade que dinamiza a vida das
comunidades que continuam vivas e atuantes.
Uma espiritualidade libertadora
Podemos concluir então que espiritualidade não desliga Como é que nós vivemos a espiritualidade?
a pessoa do que é material, mas a orienta a partir do espírito. Por fim, deixamos que cada um responda essa pergunta
Nela se estabelece um equilíbrio entre as várias dimensões da como um exercício para fortalecer a sua espiritualidade. 
vida, permitindo que nos preocupemos com tudo o que é da
vida (social, político, econômico, material etc) e cuidemos de Jaime Carlos Patias é missionário, diretor da revista Missões e mestre em Comunicação.
tudo o que é da Criação a partir do Espírito que está dentro de
nós. Temos um único Deus, mas Ele atua em cada pessoa e
nas várias realidades, de maneira infinita. Em cada pessoa o
Para Refletir
divino se manifesta de um jeito próprio. Trata-se de desenvolver 1. O que você entende por espiritualidade?
essa dimensão que palpita dentro de nós. Um coração cheio de
Deus é incapaz de fazer algo que contrarie sua vontade. Para 2. Que conseqüências podemos tirar da ação criadora e criativa do Espírito para a nossa
São João, espiritualidade é “a vida conduzida pelo Espírito”, o espiritualidade hoje?
Espírito de Deus, energia, força, sopro, vida... 3. Como viver, à luz do Espírito, uma espiritualidade libertadora?

Missões - Setembro 2005 11


Os gritos
O Grito dos Excluídos, no Sete de
cidadania

Setembro, é a expressão de vários


gritos contidos dos menos favorecidos.

dentro do Grito
Br ato_A
ampan
Valter C

origem nas longínquas matas da mãe África, em vozes de ataba-


ques que fazem tremer o ventre da terra; gritos dos migrantes e
imigrantes clandestinos nas oficinas de costura, no corte de cana
e nos serviços mais sujos e pesados, mais perigosos e mal pagos;
gritos do trabalho escravo, degradante ou infantil. Há os gritos que
atravessam toda a nossa história, pré ou pós colombiana, de povos
indígenas arrancados da terra em que nasceram e sepultaram
seus mortos e condenados a uma lenta agonia.
Há, ainda, os gritos ocultos dos olhos ou do coração. Uns
encobertos pela inviolabilidade do lar, em que são vítimas as
mulheres e as crianças; outros controlados pelo crime organizado,
como o tráfico de seres humanos para fins de exploração sexual.
Uns que sofrem preconceito, discriminação e até perseguição, por
suas opções sexuais mais diversas; outros que estão impedidos
de locomover-se como as pessoas com deficiências físicas e
mentais. Uns ofuscados pela própria luz do sol, nas esquinas e
praças da cidade, onde crianças, jovens e adolescentes caem
vítimas da droga e da violência; outros, que pela idade avançada,
vivem na penúria de uma aposentadoria irrisória. Há, por fim,
o grito da terra, do ar e da água, como também daqueles que
vivem das águas e que, no mar e nos mangues, nos lagos e nos
de Alfredo J. Gonçalves
rios, lutam por uma sobrevivência cada vez mais difícil.

M
Direito à cidadania
uitos gritos convergem para as manifestações do Desses inúmeros gritos, alguns sairão às ruas no Sete
dia Sete de Setembro. Há gritos com elevado grau de Setembro, outros não dispõem de pernas, de energias ou
de organização, como é o caso dos movimentos de consciência para isso. Mas todos, de forma implícita ou
sociais ligados às lutas do campo, e há gritos com explícita, reclamam pelo direito a uma cidadania digna e real.
menor grau de organização, mas com grande Todos anseiam por uma pátria livre e soberana, que dê a seus
consciência de seus direitos, como os catadores cidadãos o chão e o pão, a vida e o sonho. Todos buscam o
de material reciclável e o movimento dos sem-teto em sua luta sol da justiça e da paz, embora com os pés presos numa terra
pela moradia. Há gritos que dão testemunho de uma resistência de profundas desigualdades socioeconômicas. Consciente ou
teimosa e tenaz, como o dos camelôs em seus embates contra inconscientemente, todos repetem uma vez mais o grito pela
as forças do Estado, e há gritos de uma resistência passiva, independência. Pois, como já insistia a primeira edição do Grito
mas inquebrantável, como os remanescentes dos quilombos. dos Excluídos, em 1995, a vida de uma pessoa ou de um povo
Há gritos visíveis a olho nu, como o desemprego e subemprego, está acima das dívidas de sua nação, acima dos compromissos
a fome e a miséria; e há os gritos estridentes das chacinas, que firmados de forma unilateral e injusta.
ceifam centenas de vidas na flor da idade, além das balas ditas Entretanto, uma característica mais profunda unifica a todos
“perdidas”, mas assassinas. Há os gritos de milhões de pés em os gritos: a energia indomável em meio às maiores adversidades.
êxodo, que batem as estradas do país em busca de trabalho Uma força inata e vital, fermento de uma miscigenação secular,
e futuro, muitas vezes frustrados por condições de vida cres- a qual leva a concluir que a chamada “revolução brasileira” só se
centemente precárias; e há os gritos daqueles que sequer têm fará ao ritmo da música e da dança, ao som de tambores e violas
forças para sair do lugar. e sob olhares e sorrisos da mais viva esperança. Por isso é que
Mas há também os gritos subterrâneos, ignorados e esque- as mobilizações do Grito dos Excluídos são revestidas, em geral,
cidos, silenciosos ou silenciados. São os gritos que se levantam de ricas e criativas expressões culturais, onde o riso e a lágrima,
dos porões e dos lixões, dos grotões e dos sertões; gritos que o pranto e o canto caminham sempre de mãos dadas. 
emergem dos becos mais sórdidos, dos cortiços e favelas, das
zonas rurais mais abandonadas, das ruas, dos prostíbulos, das Alfredo J. Gonçalves é sacerdote carlista e assessor da Comissão para o Serviço da Caridade,
delegacias e prisões, do inferno da tortura. Há gritos que têm Justiça e Paz – CNBB.

12 Setembro 2005 - Missões


Alargando horizontes

Testemunho
e o coração
Recém eleita Vice-superiora Geral da
Congregação das Missionárias da Consolata,
A Missão entre os mais pobres
Irmã Anair Voltolini relata sua escolha Fui enviada para a Missão em Moçambique. O meu primeiro
esforço foi o de inserir-me na nova cultura: conhecer a língua
vocacional e missão em Moçambique. local, os usos e costumes, a vida na localidade para onde fui
enviada. O povo moçambicano se tornou, bem depressa, a
minha gente, o meu povo, o meu espaço de vida e de Missão.
de Anair Voltolini Moçambique é uma nação que está se reconstruindo de um
longo período de guerra – mais de 20 anos de luta, massacres,

N
destruição e medo. Primeiramente, a guerra pela independência
asci e vivi minha infância numa família numerosa da colonização portuguesa, que conseguiu em 1975. Depois, pela
e feliz no sítio de meus pais, num recanto perdido libertação do regime comunista leninista que estava esvaziando
deste país, em Baguaçú, Santa Catarina. Ao com- o país dos valores culturais, cristãos e materiais. Hoje, Moçam-
pletar meus oito anos bique é um dos países mais pobres e
de idade, nos transfe- mais doentes do mundo. Por isso, o
Jaime C. Patias

rimos para Cafelândia, combate é contra a pobreza absoluta


Paraná. Nessa pequena cidade, a e a pandemia do vírus HIV. Há um
presença dos padres e das irmãs da grande esforço a nível internacional,
Consolata difundiu um estilo de vida grandes investimentos, para melho-
missionário nas famílias, nos jovens rar a situação e a qualidade de vida
e nas crianças. Assim, se criou uma da população, mas como acontece
cultura vocacional, ajudando as pes- em quase toda a parte, para o povo
soas a encontrarem o próprio lugar sobram as “migalhas” da mesa do
na comunidade cristã e na Igreja. Na patrão bem saciado.
minha adolescência, idade em que a
gente começa a sonhar o futuro e onde Espaço de Missão
a vida se abre a novos horizontes, me Meu primeiro trabalho missioná-
senti cativada pelo modo de ser das rio foi com os adolescentes e jovens,
missionárias da Consolata, em cujo acompanhando-os na educação
Colégio eu estudava. Gradualmente escolar, na formação humana e
fui conhecendo o seu Carisma e fui cristã. A Missão é fundamentalmen-
me enamorando pela vida religiosa te partilha de fé e encontro vivo e
e me deixando cativar. dinâmico com o Deus de Jesus
Cristo, de algum modo já presente
A escolha vocacional na vida de todos os seus filhos. A
Na oração e na meditação da minha preocupação era que todos
Palavra de Deus, com sempre maior O pudessem encontrar. Nestes últi-
clareza e convicção fui entendendo a mos anos, ao assumir o serviço de
direção de minha vida: consagrar-me Superiora Regional, precisei alargar
a Deus para a Missão nesta família horizontes e coração para abraçar
religiosa. Assim, com a força do e zelar pela vida e pelas obras das
Espírito de Deus, fonte de toda vocação, acolhi a proposta que missionárias da Consolata em Moçambique. Agora estou para
vinha inquietando o meu coração e deixei que o Senhor me deixar este país para desempenhar um novo ministério que me
consagrasse a si, para o serviço do seu Reino. Fiz a minha Pro- foi confiado. Mas estou convencida que todo o lugar é espaço
fissão Religiosa em 1975, aos 22 anos. Depois de algum tempo de Missão para quem acolhe com disponibilidade a proposta
de experiência apostólica no Brasil, fui a Roma para completar de Jesus: “Ide por todo o mundo e anunciai a Boa Nova da
os estudos acadêmicos na Pontifícia Faculdade Auxilium, onde Salvação”, tornando-se fiel instrumento nas mãos de Deus,
consegui a licenciatura em Ciências da Educação com a espe- pelo qual Ele faz passar a sua mensagem de amor. 
cialização em Catequética. Em seguida, prestei alguns anos de
serviço na Animação Missionária Vocacional na Itália. Anair Voltolini é Vice-superiora Geral das missionárias da Consolata.

Missões - Setembro 2005 13


A força da fé
Testemunho

de Bento Eugênio Muhita


Bento Eugênio nasceu

A
minha caminhada vocacional começou em casa, no
seio familiar. Meu pai era portador de um carisma
em Moçambique, aos 20
educacional e promocional excepcional. Sua atividade
como educador começou nas missões do Niassa, norte
de abril de 1976. É o
de Moçambique, onde os missionários da Consolata primogênito dos cinco filhos
chegaram em 1926, permaneceram durante a guerra
civil e trabalham até hoje. Carrego na memória a marca do zelo do casal Eugênio Muhita e
que meu pai sempre teve pelos filhos e alunos aos quais dedicou
sua vida não apenas na formação, mas também no discernimento Maria Rosa Matucho.
vocacional. Quando projetava minha vida para seguir os passos
de meu pai como professor, um serviço que sempre admirei e
que considerava ser um dos mais importantes para servir o povo Depois de um tempo de discernimento, em 1995, acabei
e a nação, minha atenção se deslocou para outro horizonte: ser entrando no Seminário Propedêutico em Nampula. Fiz Filosofia e
missionário. Estava terminando o ensino secundário e o país o Noviciado em Maputo, sempre longe da terra natal. E em 2002
entrara numa guerra civil desastrosa, que dizimou incontáveis veio a surpresa: estudar Teologia no Brasil, longe da família, fora
vidas. Envolvi-me em ações em favor das vítimas da guerra, da própria cultura, embora a língua fosse a mesma. A experiên-
cujos clamores se erguiam de todos os cantos. cia acaba sendo de uma riqueza muito grande. A inculturação
exige calma, paciência e dedicação. Na minha língua, o macua,
A decisão de ser missionário dizemos que “correr não é chegar”.
Os missionários e missionárias da Consolata, apesar das
dificuldades que o país enfrentava, não cessavam de lutar pe- O desapego
los direitos humanos. Seus projetos humanitários (assistência Em menos de um ano, quando ainda estava tentando pôr
hospitalar, educação, meios de comunicação...) desenvolvidos os “pés no chão” na minha caminhada formativa no Brasil,
à luz da Palavra e por amor ao povo. Eu observava atentamente enfrentando as primeiras divergências, chegou a notícia do
aqueles homens e mulheres que tinham deixado suas terras falecimento de meu pai. Foi o desalento total para mim. Parecia
longínquas e se colocavam à disposição com tanto amor. Foi que nada mais valia a pena. Colegas e amigos me estenderam
isso que me tocou e me entusiasmou. O sonho que tinha pela a mão em apoio naquele momento difícil de minha vida. Tudo
profissão de educador desde pequeno ganhava uma amplitude me parecia perdido. Contudo, a vida comunitária de coirmãos
maior à luz do chamado que ressoava aos meus ouvidos pela foi me dando alento e aos poucos fui entendendo que a morte
Palavra de Deus e pelo exemplo dos missionários. do meu pai podia ser uma oportunidade para me fazer crescer
e avançar no processo formativo. O desapego se tornou virtude
para mim. Compreendi que é nos momentos difíceis que a fé
José Roberto Garcia

passa pela prova e é na dimensão espiritual que encontramos


a força necessária para continuar a responder ao chamado de
Deus na vocação missionária.
No estudo da Teologia encontro muitos instrumentos para
fundamentar o dom da vocação e entendê-lo cada vez mais. A
vida missionária é uma caminhada que exige respostas no dia-
a-dia, seja na comunidade, ou através do serviço pastoral nos
bairros de São Paulo, de maneira particular, na paróquia Santa
Cândida, Ipiranga. Neste ano fui ordenado diácono e em breve
serei ordenado sacerdote. E logo em seguida o primeiro envio de
Missão Ad Gentes. Para mim foi um momento de extraordinária
felicidade o que experimentei no dia 18 de junho último, quando
recebi o ministério do diaconato na Igreja. Minha primeira expe-
riência missionária como sacerdote será na Espanha, para onde
irei em breve. Novos desafios a serem enfrentados. O missionário
não escolhe. Deixa-se escolher. Certamente o aprendizado de
inserção nestes quatro anos de Brasil, me ajudarão também a
abraçar a nova missão que o Senhor me concede. 

Bento com seus padrinhos na ordenação diaconal. Bento Eugênio Muhita é diácono missionário da Consolata.

14 Setembro 2005 - Missões


AAdMissão
Gentes hoje

José Luis Ponce de Léon


Padres William Otieno e Joseph Mang’ongo (IMC), diocese de Dundee, África do Sul.

Em continuação à reflexão publicada na edição de Ramón Cazallas Serrano

anterior, procuramos entender a Missão

D
Ad Gentes na sociedade contemporânea.
epois do Concílio Vaticano II encontramos situações
na sociedade e na Igreja que mudam o rosto da
Missão. A eclesiologia e a missiologia caminham
juntas nas suas reflexões, de fato a Igreja não pode
caminhar sem a Missão e a Missão não pode se
O missionário é o homem das bem-aventuranças. Na realizar senão num contexto de Igreja.
verdade, no “discurso apostólico” (cf. Mt 10), Jesus dá Dois documentos marcam os caminhos da Missão: “O Anúncio
instruções aos doze, antes de os enviar a evangelizar, do Evangelho”, de Paulo VI e a “Missão do Redentor”, de João
indicando-lhes os caminhos da missão: pobreza, humil- Paulo II. Ambas se complementam mesmo sendo diferentes.
dade, desejo de justiça e paz, aceitação do sofrimento e Paulo VI apresenta a evangelização como eixo de toda a vida
perseguição e caridade, que são precisamente as bem- eclesial, conserva ainda todo o seu valor na atividade pastoral
aventuranças concretizadas na vida apostólica (Mt 5,1-12). da Igreja, que deve ser sempre evangelizada e evangelizadora.
Vivendo as bem-aventuranças, o missionário experimenta João Paulo II abre os horizontes da Missão às novas exigências
e demonstra concretamente que o Reino de Deus já che- que as culturas atuais apresentam, sublinhando o “ir mais longe”
gou, e ele já o acolheu. A característica de qualquer vida que tanto nos lembra as suas viagens por todo o mundo.
missionária autêntica é a alegria interior que vem da fé. “A Missão está ainda no começo” afirma João Paulo II,
Num mundo angustiado e oprimido por tantos problemas, contemplando o conjunto da humanidade. E passaram 15 anos
que tende ao pessimismo, o proclamador da “Boa Nova” desde esse grito do papa. Hoje a situação é muito mais complexa,
deve ser um homem que encontrou, em Cristo, a verdadeira de maneira que podemos dizer que a Missão Ad Gentes, em
esperança. (RMi 91) muitas ocasiões, a encontramos na porta de casa.
Missão Ad Gentes é traduzida como Missão “além-fronteiras”.
Ir mais para lá, sair ao encontro de outros povos e de outras

Missões - Setembro 2005 15


Orestes Asprino
situações que não estão perto do normal das nossas vidas, muitas
vezes acomodadas num cristianismo fácil e formalista. Mudou o
conceito geográfico como elemento constituinte da Missão mesmo
se ela implica muitas vezes numa geografia longe dos nossos
lugares comuns, onde Cristo não é conhecido.
Uma das definições mais belas da Missão Ad Gentes que
sempre me inspirou para explicar brevemente o que é a Missão,
é que ela se encontra:
- na fronteira da fé: os missionários devem estar onde maiores
são os riscos e a possibilidade de experimentar, de ser criativos,
como criativos são os que moram nas “fronteiras” geográficas
ou sociológicas;
- na periferia da fé: os missionários não devem estar no centro
do poder, mas onde reina a impotência, as muitas pobrezas que
nas “periferias” se encontram;
Os catequistas Tomás e Malan dirigem a celebração da
- no deserto da fé: os missionários devem ir onde não vai
palavra na capela de Inturse, Guiné Bissau.
ninguém, onde não tem ninguém nem como presença ou vida
de Igreja. ainda não conheciam ou nunca escutaram falar de Jesus, essa
quantidade, depois de 40 anos, quase está duplicada: povos,

Orestes Asprino
grupos humanos e contextos socioculturais onde Cristo e o seu
Evangelho não são conhecidos, onde faltam comunidades cristãs
suficientemente amadurecidas para poder encarnar a fé no próprio
ambiente. O Oriente das grandes religiões milenárias e o Sul das
grandes pobrezas e dependências econômicas são situações
missionárias que a Igreja não pode absolutamente esquecer na
sua Missão. Nestes lugares se encontram as grandes cidades ou
megalópolis com milhões de pessoas à procura de sobrevivência,
gerando uma nova cultura distante das tradicionais.
Tantos missionários de hoje querem, através do Evangelho,
defender a dignidade e a integridade das pessoas e dos povos,
as culturas e sistemas de vida, liberando-os do imperialismo
econômico, político, militar e cultural do Ocidente. A Igreja será
instrumento e sinal de salvação para todos estes povos na me-
dida em que se comprometa com estes desafios.
Padre Darci (Pime) celebra missa em Empada, Guiné Bissau.
O anúncio tem a prioridade permanente na Missão, a procla-
Faleceu no dia 1º de junho de 2005, vítima da malária.
mação clara da vida e da obra de Jesus e deste compromisso a
O Sul e o Oriente Igreja não pode esquivar-se. O primeiro anúncio tem um papel
O anúncio de Cristo não atingiu ainda as grandes massas central e insubstituível na Missão Ad Gentes. Onde o anúncio
do Oriente e do Sul. Se o Concílio Vaticano II constatava que ainda não chegou, a Igreja deve estar como “com dores de parto”
dois bilhões de seres humanos (dois terços da humanidade) até alcançar a todos.
Jaime C. Patias

Celebração penitencial durante 11º Intereclesial, Ipatinga, MG.

16 Setembro 2005 - Missões


Jaime C. Patias

Celebração de abertura do 11º Intereclesial, Ipatinga, MG.


O diálogo ecumênico “Fui enviado para evangelizar os pobres”, proclamou Jesus
Por ecumenismo ou diálogo ecumênico entende-se o rela- na sinagoga de Nazaré. A nossa sociedade globalizada, neo-
cionamento entre cristãos, aqueles que confessam que Jesus liberal e capitalista deixa à beira do caminho tantas pessoas
Cristo é o Senhor e Salvador. O papa João Paulo II escreveu que esperam uma “boa e nova notícia”. Enumeramos algumas
uma importante Carta Encíclica intitulada Ut unum sint, “Que que entram perfeitamente dentro das prioridades missionárias
todos sejam um”. A unidade entre os cristãos, diz ele, não é um da Igreja:
elemento acessório, mas situa-se no centro mesmo da sua obra. - as minorias étnicas sem os próprios direitos reconhecidos, pen-
A unidade pertence à própria essência da comunidade. Buscar a semos no nosso Brasil, o mundo indígena e afro-descendentes;
verdade junto com o desejo de sermos todos cada vez mais fiéis
a Jesus. A oração, o estudo e a ação social são meios que podem

Francisco López
facilitar o testemunho dos cristãos perante a sociedade.

O diálogo inter-religioso
O diálogo inter-religioso é o conjunto de relações inter-re-
ligiosas com todos os que admitem Deus e que guardam, em
suas tradições, preciosos elementos religiosos e humanos. Um
grande evento, nos anos 80 do século passado, abriu o caminho
oficial para este diálogo: o encontro em Assis de um bom número
de líderes religiosos cristãos de todas as outras denominações.
A unidade de todas as religiões começava a ser construída em
torno da oração e em favor da paz.
Os últimos eventos do terrorismo internacional indicam
que a paz exige o diálogo entre todas as religiões porque cada
uma delas leva sementes de paz e de convivência pacífica. Os
fundamentalismos religiosos, sejam quais forem, não ajudam
a criar um mundo mais fraterno e solidário. Os cristãos, por
sua parte, devem continuar anunciando Jesus Cristo e o seu
Evangelho, o mistério pascal na sua integridade, mas ao mes-
mo tempo devem acolher a verdade que conserva as outras Padre Aquileo Fiorentini, Coréia do Sul.
religiões, e todos juntos devemos viver a verdade do amor, - as minorias dos trabalhadores rurais em permanente situação
esta a todos nos compromete e nos anima a construirmos de injustiça institucionalizada;
um mundo mais humano, a oikumene. Trabalhar pela paz, a - os sem-terra e sem-água que habitam os nossos sertões;
justiça e a integração da Criação fará deste mundo uma casa - os meninos de rua, as mulheres marginalizadas e crianças
habitável para todos. exploradas pelo trabalho infantil ou pelo comércio sexual;
- os refugiados que as guerras ou ódios tribais criam;
A Missão e o hoje de Deus - os milhões de migrantes à procura de melhor vida;
As rápidas transformações sociais, econômicas e políticas - os portadores do vírus HIV e outras situações que margeiam
criam situações novas que penetram na Missão Ad Gentes. nossa sociedade.

Missões - Setembro 2005 17


Francisco López

Ao anunciar Cristo aos não-cristãos, o missionário está


convencido de que existe já, nas pessoas e nos povos,
pela ação do Espírito, uma ânsia – mesmo se inconsciente
– de conhecer a verdade acerca de Deus, do homem, do
caminho que conduz à libertação do pecado e da morte. O
entusiasmo posto no anúncio de Cristo deriva da convicção
de responder a tal ânsia, pelo que o missionário não perde
a coragem nem desiste do seu testemunho, mesmo quando
é chamado a manifestar a sua fé num ambiente hostil ou
indiferente. Ele sabe que o Espírito do Pai fala nele (cf. Mt
10,17-20; Lc 12,11-12), podendo repetir com os apóstolos:
“Nós somos testemunhas destas coisas, juntamente com o
Espírito Santo” (At 5,32). Está ciente de que não anuncia
uma verdade humana, mas “a Palavra de Deus”, dotada de
intrínseca e misteriosa força (cf. Rm 1,16). (RMi 44)
Caligrafia, um dos aspectos da cultura coreana.
Tudo o que é exclusão, marginalização e esquecimento faz
parte prioritária da Missão da Igreja. Pensemos em tantos “porões”

Orestes Asprino
humanos que existem nas nossas sociedades de bem-estar e de
injustiça institucionalizada. Quem perante todas estas situações
responde com amor livre e libertador, torna-se Evangelho vivo,
Palavra escrita pelo Espírito não em tábuas de pedra, mas na
carne dos seres humanos (cf. 2 Cor 3,3).
Na encíclica “A missão do Redentor” o papa João Paulo II
fala de “mundos e fenômenos sociais novos” e “áreas culturais
ou modernos areópagos”, que continuam válidos na atividade
missionária.

O verdadeiro missionário é o santo


Esta afirmação do papa João Paulo II diz relação ao tema
da Missão Ad Gentes porque ela exige missionários e missio-
nárias santos, fortes, radicais. Uma percepção verdadeira da
Missão passa através duma redescoberta da escuta da Palavra
de Deus. Uma imagem verdadeira da Missão passa através
Orestes Asprino

Comunidade de São José de Madina, Empada, Guiné Bissau,


após a celebração da palavra feita pelo líder comunitário.

de uma necessária e permanente reforma da Igreja, que seja


também auto-reforma de cada uma das nossas comunidades
e de cada um de nós.
A Missão hoje é, antes de tudo, uma exigência de radicali-
dade evangélica, viver o Evangelho perante o mundo e contra o
espírito do mundo. Se isto acontecer mesmo só em pequenas,
pobres e dispersas comunidades no mundo, a Igreja retomará o
entusiasmo e a expansão dos primeiros séculos. Julgando tantos
sinais, que só quem tem fé pode ver, isto está acontecendo.

Terminamos com uma oração missionária, do século XIV:


“Cristo não tem mãos, somente as nossas mãos para
realizar o seu trabalho, hoje; Cristo não tem pés, tem so-
mente os nossos pés para ir ao encontro dos homens, hoje;
Cristo não tem lábios, tem somente os nossos lábios para
anunciar o seu Evangelho, hoje. Nós somos a única Bíblia:
que todas as pessoas possam ler ainda! Nós, o último apelo
de Deus, escrito em palavras e em obras”. 

Missionários do Pime durante celebração da Semana Santa Ramón Cazallas Serrano é missionário e diretor do
de 2005 na Missão de Bubaque, Guiné Bissau. Instituto Superior de Teologia e Pastoral de Bonfim, BA (ISTEPAB).

18 Setembro 2005 - Missões


missão
daHoje
Jovem
A Juventude Missionária (JM)

Missão
história
dá continuidade ao trabalho
realizado pela Infância e
Adolescência Missionária (IAM).

evangelizando
Jovem
de Júlio César Caldeira

A
articulação da juventude na dimensão missionária
é mais uma iniciativa das POM - Pontifícias Obras
Missionárias, visando a conscientização de todos
para o fato de que a Igreja, na sua essência, é mis-

F/POM
sionária. Não se trata de um novo movimento, mas
de dinamizar e apoiar os jovens que desejam atuar na
Equipe de reflexão da Juventude missionária do Brasil.
Missão com destaque para o Ad Gentes. O trabalho baseia-se
em experiências de grupos de jovens missionários no Brasil, na “Jovem Evangelizando Jovem”, lema “Vinde, Vede e Anunciai”
reflexão e elaboração de subsídios de formação a nível nacional, (Jo 1,19) e saudação “Jovens missionários, sempre solidários”.
coordenado pelas POM. A iniciativa tem a colaboração direta da Do encontro foram elaboradas algumas conclusões Ad Expe-
Pontifícia Obra da Propagação da Fé. Luiz Gustavo Fernandes, rimentum: o grupo deverá ter clareza e consciência do seu
jovem leigo de Curitiba, Paraná, é colaborador da equipe de carisma e protagonismo missionário, especialmente da Missão
reflexão da Juventude Missionária do Brasil. Em entrevista à além-fronteiras e Ad Gentes. Foram elaborados 12 passos, que
revista Missões fala sobre esta iniciativa. favorecem o jovem no conhecer e aceitar o perfil de membro dos
grupos da JM (que podem ser encontrados no site das POM:
Como surgiu a Juventude Missionária (JM)? www.pom.org.br).
Surgiu de dois âmbitos: primeiro, das crianças da IAM
(Infância e Adolescência Missionária) que cresciam e queriam Qual a metodologia utilizada?
dar continuidade ao processo formativo e informativo no que A metodologia de trabalho é semelhante àquela utilizada pela
se refere à Missão, e, também, das experiências de pequenas Infância Missionária, sobretudo na reflexão de um tema de quatro
delegações do Brasil em Encontros Americanos de Jovens maneiras diferentes (áreas integradas): Realidade Missionária
Missionários (Canadá, Equador 2002, Venezuela 2004), tendo (ver), Espiritualidade Missionária (iluminar), Compromisso Mis-
participado uma delegação também nesta XX Jornada Mundial sionário (agir) e Testemunho Missionário (celebrar e avaliar).
da Juventude, em Colônia, na Alemanha. Na América Latina já
é bastante difundida, começando agora a dar seus primeiros Qual a mensagem que você deixa para os jovens que dese-
passos no Brasil, nascendo com a cara do país, com sua plurali- jam conhecer e participar da JM?
dade cultural. Neste ano de 2005 foram feitos dois encontros em Muita coragem e disposição. A Missão é um chamado cons­
Brasília. O primeiro, de 27 a 29 de maio, com a participação de tante no mundo atual. São necessários jovens dispostos a assumir
21 pessoas, onde foi feita uma primeira radiografia dos grupos esse compromisso e levar a Boa Nova de Jesus a todos aqueles
de Juventude Missionária já existentes no Brasil; e o segundo que não o conhecem, principalmente os que estão distantes de
dias 17 e 18 de julho, com a participação de uma equipe mais nossa terra. A Juventude Missionária com identidade das POM
restrita que teve como objetivo elaborar subsídios para a utilização já é uma realidade e conta com todos aqueles que desejam
nos grupos, como já acontece com a Infância e Adolescência assumir o seu compromisso e a sua Missão. 
Missionária. Espera-se que até o final do ano estejam todos
firmados e publicados. Maiores informações:
POM (www.pom.org.br/juventude.htm)
Qual a “identidade” da JM? E-mail: luiz.gustavo@voe.com.br.
A JM tem a cara das POM: ir além-fronteiras, orações,
sacrifícios, prática de gestos concretos etc. Tem como tema Júlio César Caldeira é seminarista, cursando Filosofia em Curitiba, PR.

Missões - Setembro 2005 19


Em nossas mãos
Destaque do mês

a mudança

Fotos de Jaime C. Patias


Participante do
11º Intereclesial

O momento político que atravessamos requer to de vista das dívidas sociais? Podemos aplicar aqui a chave
que o falecido papa João Paulo II usa na encíclica Centesimus
uma articulação geral de todas as forças vivas Annus, mas aplicando-a à história recente do Brasil. O esquema
constitui-se de três momentos: um olhar para trás, um olhar ao
e ativas da sociedade organizada. redor e um olhar para frente.

de Alfredo J. Gonçalves
O olhar para trás
Um vôo de pássaro sobre os últimos 50 anos mostra que, no
Brasil, implícita ou explicitamente, dois projetos disputam espaço

O
no cenário político. O primeiro é o que poderíamos chamar de
Grito dos Excluídos de 2005 reveste-se de uma projeto nacional popular. Tem suas raízes na resistência negra,
relevância especial. Em meio ao tiroteio político que indígena e popular ao longo de toda a história brasileira. Mas
vimos assistindo há alguns meses, o que significa começa a ganhar maior consistência nos anos 50 e 60 do sé-
repensar profundamente os entraves históricos e culo passado. As Ligas Camponesas, o sistema de educação
estruturais da nação brasileira? Como utilizar as proposto por Paulo Freire, os debates na universidade, a música
manifestações do Sete de Setembro para colocar e a arte, entre outras manifestações, dão conta que nessas
em pauta, uma vez mais, a necessidade imperiosa de mudanças décadas emergia um embrião de um projeto voltado para as
nos rumos do país, seja do ponto de vista da macroeconomia, necessidades fundamentais de nossa população. Esse projeto
seja do ponto de vista das práticas políticas, seja, enfim do pon- emergente, porém, sofre um aborto com o golpe militar de 1964.

20 Setembro 2005 - Missões


Com os militares instala-se o que poderíamos chamar de “projeto
liberal/neoliberal”. Trata-se aqui de atrelar a economia brasileira
ao mercado internacional, mas na qualidade de um país periférico
e tradicional fornecedor de matéria-prima para os países centrais.
A dívida externa constitui uma espécie de cordão umbilical que
irá prender o Brasil à economia crescentemente globalizada. Não
um cordão umbilical que seja símbolo de nascimento e vida, e
sim de dependência e miséria, violência e morte. Com a crise
dos anos 70, aprofunda-se o neoliberalismo e agravam-se suas
conseqüências nocivas, especialmente para os países pobres
ou emergentes.
O projeto popular, entretanto, volta a levantar a cabeça em
meados dos anos 70. A prática das Comunidades Eclesiais de
Base (CEBs), o movimento estudantil, o sindicalismo combati-
vo, os movimentos sociais e algumas dezenas de intelectuais
Grito dos Excluídos 2004, Ipiranga, SP.
orgânicos dão novo vigor às organizações populares. Ao longo
dos anos 80 nascem a CUT, o PT, o MST e uma série de outras pontos contraditórios: uma retórica de mudanças, acompanha-
instâncias do gênero. Tais forças, fermentadas na década de da de uma prática de reformismo; implementação de políticas
90 pelas reflexões das Semanas Sociais Brasileiras e de outros compensatórias, no lugar de políticas públicas; expectativas
espaços de discussão e aprofundamento, acabam sendo canali- sociais crescentes, diante de entraves estruturais reacionários,
zadas para as eleições de 2002 e a vitória do presidente Lula. uma herança maldita de concentração de renda e riqueza, em
benefício das classes dominantes, diante das dívidas sociais
Olhar ao redor cada vez mais acentuadas. Tudo isso criou um terreno fértil
A eleição de Lula representa a chegada do projeto popular para a corrupção, o “toma lá dá cá” no Congresso Nacional,
ao Palácio do Planalto. Mas isso não significa o domínio sobre o o “mensalão” e outras práticas comuns na política tradicional
Estado brasileiro. O Estado é muito mais amplo do que o governo. brasileira. Nunca ficou tão evidente a tese de Raymundo Faoro
Inclui toda a estrutura de manutenção do status quo. Grandes sobre o conceito de patrimonialismo, isto é, apropriação privada
impasses se ergueram no caminho do novo presidente. De um da rex publica.
lado, forças tradicionais e extremamente retrógradas exigem Se é verdade que os tradicionais “donos do poder” têm interes-
do PT a chamada aliança pela governabilidade e o continuísmo se em desautorizar qualquer projeto popular, também é verdade
da política econômica. De outro lado, a organização das forças que o PT tem hoje seu patrimônio ético fortemente arranhado. A
sociais estava muito aquém das expectativas levantadas pela prática de alguns dirigentes contribuiu decisivamente para isso.
eleição de um presidente popular. Numa palavra, embora o pro- O fato é que nos quadros do PT tende a prevalecer um projeto
jeto popular tenha chegado ao governo, o Estado permanecia de poder, e não um projeto de nação. A impressão é de que o
sob domínio do projeto liberal/neoliberal. P ganhou primazia sobre o T, ao passo que, na sua origem, as
O resultado foi que, desde o início do seu mandato, o pre- energias do partido estavam a serviço dos trabalhadores.
sidente teve de administrar uma enorme contradição: como
conciliar o cumprimento dos acordos estabelecidos com o Olhar para frente
mercado financeiro internacional (FMI) e, ao mesmo tempo, a Neste cenário conturbado, o olhar para frente significa levar
necessidade de transformações profundas e radicais? São duas o debate sobre os rumos do país às ruas, praças e campos. Daí
coisas absolutamente incompatíveis. Daí a emergência dos a importância do Grito dos Excluídos deste ano, com o lema
“Brasil, em nossas mãos a mudança”. Trata-se de criar e/ou
fortalecer novos canais de participação popular, avançar de uma
democracia representativa viciada para uma democracia direta e
pensar os partidos políticos não tanto em termos de instituciona-
lidade, mas como serviço à população. Ganham particular relevo
os pré-gritos, o palanque do povo, as expressões variadas da
cultura popular, os gritos locais e regionais, a música e o teatro,
a simbologia e a criatividade – enfim, tudo aquilo que tem dado
ao Grito dos Excluídos um rosto próprio e já conhecido.
O Dia da Independência – Sete de Setembro – constitui uma
data privilegiada para superar o patriotismo inconsciente por uma
cidadania consciente e ativa. Sair à rua, levantar a voz, desfral-
dar a bandeira, cantar o hino nacional, mas, ao mesmo tempo,
lutar pela construção do Brasil que queremos. Ao lado do Grito
dos Excluídos, é necessário somar esforços com a 4ª Semana
Social Brasileira, a Campanha Jubileu Sul, a Consulta Popular,
os Encontros de CEBs, as Pastorais Sociais, o ecumenismo das
Igrejas Cristãs. Os desafios exigem uma grande Assembléia
Popular que possa refletir e fortalecer o “Mutirão por um Novo
Brasil”, a realizar-se em outubro de 2005, em Brasília. 

Alfredo J. Gonçalves é sacerdote carlista e assessor da


Grito dos Excluídos 2004, Ipiranga, SP. Comissão para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz – CNBB.

Missões - Setembro 2005 21


Vencer o fraca
atualidade

através da alfabetização
de Dalgi e Orestes Asprino

O
convite chegou a nós como um grande presente,
aguardado há trinta anos pela Dalgi, mas, para
mim foi questionador: o que comportava para minha
vocação de LMC (Leigo Missionário da Consolata)
aquela proposta? Ir. Maria Inocência, coordenadora
das Irmãs da Consolata na África Ocidental, nos
convidou para trabalhar por três meses na formação dos pro-
fessores de Empada, na Guiné Bissau. Ela lançou a semente e
foi embora: voltou para a Libéria.
Dalgi ficou muito entusiasmada, pois há muitos anos, já por
duas ou três vezes havia ensaiado uma partida como esta. Ainda
não havia chegado sua hora? Mas, e agora? Daria certo? Saúde,
compromissos, família etc... As preocupações e incertezas pare-
ciam pequenas demais diante da vontade de partir. E realmente,
Fotos: Orestes Asprino

todas foram sendo superadas. Até mesmo um problema de saúde,


que parecia ser o grande impedimento na ocasião, foi resolvido
às vésperas. O questionamento permanecia... Aí apareceu o
padre Salvador Medina, que num encontro dos LMC em São
Paulo disse: “quem faz a história não tem tempo para questionar
o sentido e o significado dela. Os que vêm depois o farão. Vão Alunos da Escola de Empada, Guiné Bissau.
e depois vejam se valeu a pena ou não...” É nós fomos. outro, voltamos com a convicção de que as sementes lançadas
continuarão sendo cultivadas pelo esforço da Ir. Lourdes, que
Ler e escrever – vencer o fracasso tem muita experiência de trabalho na África.
De início, ficamos observando a realidade e escutando
as Irmãs, sobretudo Ir. Ema, uma das fundadoras e grande A Missão cativa
entusiasta da Missão católica de Empada. Foi ela que, com as Percebemos lá a presença de inúmeras Organizações
outras Irmãs e a comunidade, organizara a construção do Liceu Não-Governamentais (ONGs), todas trabalhando em projetos
e solicitara o trabalho de formação para os professores. Após humanitários com os guineenses. O professor Camboda, um
duas semanas de convivência e contato com alunos, professores dos nossos alunos, por exemplo, levou-nos a dois grupos para
e escolas, montamos um programa de trabalho pedagógico: “Ler conhecer o trabalho que realiza com alfabetização de mulheres:
e escrever – vencer o fracasso”. Foram três meses de intenso na “tabanca” do Buducu e na Associação Feminina de Empada. Ali
trabalho: manhã e tarde com reforço de alfabetização para os as mulheres, além de serem alfabetizadas, aprendem a trabalhar
alunos mais fracos. À noite com os professores de Empada e em hortas comunitárias visando uma complementação alimen-
das “tabancas” (vilas) vizinhas e aos sábados à tarde, com os tar, num processo de auto-sustento financeiro. Chamou nossa
professores das “tabancas” mais distantes. atenção a presença de portugueses e italianos, que nas próprias
Nestes encontros de formação, recebemos a colaboração férias, se organizam em grupos, a partir de suas paróquias e lá
dos professores, que num crescendo intenso de participação, desenvolvem trabalhos de apoio aos missionários.
nos surpreenderam. Tivemos o grande apoio da Ir. Lourdes Nas horas vagas, acompanhávamos as Ir. Ema (italiana), Ir.
Bonapaz que, com sua presença, perspicácia e senso crítico ia Rita (moçambicana) e jovens catequistas nos trabalhos pastorais
nos apontando os diversos elementos culturais a serem levados das “tabancas”, sobretudo em Kudon, Mui, Inturse e Madina. Aos
em conta. Se por um lado, três meses nos deram a sensação sábados, presenciávamos a Missão cheia de jovens e crianças
de pouco tempo, diante de tantos problemas detectados, por que vinham para participar dos numerosos grupos de catequese.

22 Setembro 2005 - Missões


asso
Objetivo da Missão
Constatamos que o objetivo e o esforço primordial da Missão
é a recuperação da dignidade do ser humano caído debaixo de
tantas opressões estrangeiras e mesmo da própria cultura. Além
da colonização e às vezes até da Missão, que trazem subprodutos
que esmagam o amor próprio dos locais à sua própria cultura,
também eles possuem elementos que dificultam a valorização
do indivíduo. Percebemos concretamente, que toda a reta inten-

o
ção e bondade não justificam o ímpeto de “dar coisas” àqueles
que pedem. Notamos também, que certas crenças populares
nativas mantêm crianças, jovens e adultos subjugados pelo
medo e pela ignorância. Entendemos claramente que, planejar
Casal de leigos missionários da Consolata e traçar a ação missionária é muito mais que ensinar “outras

relata sua experiência na Guiné Bissau.


verdades de fé” ou doar com abundância recursos que podem
melhorar momentaneamente a qualidade de vida dos assistidos
pela Missão. O esforço deverá ser sobretudo o de melhorar a
auto-estima das pessoas, proporcionar e desenvolver, ainda
que de forma lenta, mas firme, instrumentos culturais e técnicos
que possibilitem a autogestão, a autodeterminação e a auto-
sustentação econômica e cultural. Neste sentido, as Irmãs da
Foi muito bom conviver por uma semana com o bispo de Bafatá, Consolata nos repetiam: na Missão, muito mais importante do
o brasileiro Dom Pedro Zilli. que o fazer, é “o ser”.
Ficou evidente para nós que este último tipo de Missão é
O risco de matar a semente do Evangelho muito mais difícil, penoso, demorado e até impopular. Pudemos
Muito enriquecedor foi o nosso dia-a-dia em contato com as colher um depoimento, segundo o qual o padre diocesano tem
pessoas da cidade, crianças e adolescentes. Porém, a pureza e muita dificuldade de administrar uma paróquia, antes comandada
ingenuidade dos guineenses de Empada nos impressionaram, por missionários. Estes contam com o apoio e a colaboração
assim como seu alto grau de dependência do exterior e de suas dos amigos e de grupos de outros países, ao passo que os
tecnologias. Um povo que teria tudo para ser feliz, a partir dos padres diocesanos normalmente contam só com os recursos
elementos naturais e culturais que possui, mas sente-se inferiori- da comunidade local.
zado, incapacitado de enfrentar as dificuldades mais elementares
da alimentação, da saúde, porque vive se confrontando com as A verdadeira Missão zela pela vida
tecnologias e “máquinas” vindas do exterior. Corre-se o risco Ressalte-se neste sentido a intensa atividade missionária das
de matar as “sementes do Evangelho” presentes nas diversas Irmãs da Consolata: Lourdes (brasileira), Anistalda (portuguesa)
culturas, quer com a colonização, quer com um tipo de missão e Floralda (colombiana) que trabalham no Liceu Dom Settimio
que engendra uma atividade dependente da cultura e das Ferrazzetto e no Centro de Saúde. No Liceu, elas acompanham
tecnologias estrangeiras. Com muita tristeza constatamos um a formação dos professores e alunos, não só propondo valores,
certo complexo de inferioridade e supervalorização da cultura mas também sugerindo e vivenciando uma rotina disciplinar em
ocidental. Esse conceito provoca muitas vezes uma tendência suas atividades profissionais. No Centro de Saúde, elas dedi-
à resignação e dependência. cam uma atenção carinhosa e constante, um zelo admirável na
orientação das mães e responsáveis das crianças
subnutridas e órfãs, proporcionando-lhes uma ali-
mentação saudável, regular e adequada vinda do
P.A.M. (Programa de Alimentação Mundial). Elas
lutam para que as pessoas consigam os recursos
necessários para pagar, ao menos, o custo dos
medicamentos que recebem.

Lições que a missão nos


ofereceu
Trabalhamos muito, mas também fizemos ami-
zades muito fortes e profundas. Deixamos amigos
queridos na Guiné Bissau. Aprendemos a admirar o
ritmo de vida do guineense. Aprendemos a admirar
sua simplicidade, elegância e acolhida. E tem mais:
pensávamos que “saudades da Missão” fosse
apenas uma figura de linguagem de missionários
idealistas e poetas. Não é. Estamos “morrendo” de
saudades da África e em especial dos guineenses
que lá deixamos. Talvez sejamos nós também
missionários idealistas e poetas!!! 

O professor Paulino, Inspetor de Ensino, entrega presente aos professores Dalgi e Orestes Asprino são professores e Leigos
Orestes e Dalgi. Missionários da Consolata de São Paulo, SP.

Missões - Setembro 2005 23


em comum-união
com nossos indígenas
“Sou Pancararu, Carijó, A terra é de todos, dada pelo Criador
Infância Tupinajé, Potiguar, Hoje alguns povos indígenas possuem suas terras demar-
cadas à custa de muita luta e de sangue derramado. Depois
Missionária
Sou Caeté, Ful-ni-ô, de terem seus recursos naturais depredados, como é possível
ainda explorar estes recursos? Como é possível sobreviver sem
Tupinambá.” o desenvolvimento de projetos sustentáveis em terras indíge-
nas? Na relação com os não-índios, os povos indígenas são
Antônio Nóbrega e Wilson Freire freqüentemente contaminados por doenças antes não existentes
dedicado à pequena kaigang Aline em suas comunidades. Na educação, as crianças são muitas
vezes privadas de manter sua língua materna e suas tradições,
consideradas inferiores.
A missão de Jesus clama por justiça para todos: ‘(...) Vim para
anunciar a Boa Notícia aos pobres; para proclamar a libertação
aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar
os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor’ (Lc
4,18-21). Aos povos indígenas a terra que lhes pertence por
direito e as condições necessárias para sobreviver nestas terras
em que viveram também os seus antepassados!
Ainda hoje repetimos o preconceito com os nossos ir-
mãos indígenas. Desde pequenos aprendemos a vê-los como
Jovem preguiçosos, incapazes, sem cultura ou como aqueles que
Ceusimara, usam uma “peninha” na cabeça. Desconhecemos toda sua
senhora experiência cultural, seu respeito e cuidado com a natureza,
Vitória de enfim, vivemos um preconceito generalizado. No cotidiano das
Oliveira com crianças missionárias sentimos a necessidade de apresentar
menino estas diferenças, demonstrando sempre que o diferente não
Rogério
é inferior, nem superior. É simplesmente diferente! Uma nova
Peixoto, povo
mentalidade é feita de gestos novos, de atitudes novas, come-
kaiowá,
Dourados, MS çando do nosso lugar. Jesus nos propõe: ‘o que vocês desejam
que os outros lhes façam, também vocês devem fazer a eles.
de Roseane de Araújo Silva Se vocês amam somente àqueles que os amam, que gratuidade
é essa? (...) amem, façam o bem e emprestem, sem esperar

U
nada em troca’ (Lc 6,31-33 e 35). O Evangelho nos mostra que
m fato nestes dias mexeu comigo: o contato com a as relações entre as pessoas devem ser semelhantes ao amor
pequena Aline e a sua forma de encarar a vida no do Deus Pai-Mãe. O testemunho missionário nos chama a amar
seu mundo de criança. Essa pequena kaigang do incondicionalmente todas as pessoas, sejam elas iguais ou
norte do Paraná me apresentou uma visão diferente diferentes. Dessa maneira, poderemos tornar o nosso mundo
na relação entre a criança e o adulto. Segundo me plural mais próximo do sonhado por Deus para todos nós. Das
contaram, ao nascer, a criança kaigang não pertence crianças do mundo – sempre amigas! 
ao casal, pertence à comunidade, no sentido da divisão de res-
ponsabilidades, ou seja todos “olham” aquela criança como sua. Roseane de Araújo Silva é missionária leiga e pedagoga da rede pública do Paraná.
A comunidade concede à criança a possibilidade de experimen-
tar, de ser sujeito, de avançar sem medo para o desconhecido.
Agindo dessa maneira, Aline mostrou-me uma diferença que eu Conhecendo de perto!!!
ainda não conhecia: ela é uma criança livre. Sugestão de atividade entre os animadores e as
crianças missionárias:
Cuidem do meu futuro!
O que temos a oferecer às crianças das várias nações in- a) Através de um contato com as instituições que atuam
dígenas existentes em nosso país? Que futuro terão os nossos junto às nações indígenas de sua região, proporcione uma visita
curumins e as nossas cunhatãs? Na época da chegada dos a uma comunidade indígena com as crianças missionárias.
primeiros portugueses por aqui eles eram cerca de cinco milhões b) Após a visita, analise com elas as diferenças entre a vida
e hoje são cerca de 400 mil. A história nos relata verdadeiras das crianças indígenas da nação visitada e a delas (observar
atrocidades de norte a sul do Brasil, a exploração das riquezas ainda a tradição cultural, religiosidade, as brincadeiras e outros
naturais, a violação das mulheres indígenas e o extermínio de aspectos preservados pela comunidade).
várias nações.

24 Setembro 2005 - Missões


Tipo assim

conexão jovem
Os jovens de hoje
estão sabendo usar
o controle remoto

para que serve a TV?


mais do que os de
antigamente. Mas,
alguns ainda pensam
que estão num
show de realidade
e perdem sua
identidade.

interferem nas escolhas. Você nunca


conheceu ninguém viciado em TV,
que fica em pânico quando alguém
critica o que ele gosta? Mesmo que
seja a maior baixaria da emissora?
Aí é que a coisa pega!

O que podemos fazer?


Nosso papel é tentar criar na
mente dessa turma hipnotizada
pelo grunhido “ilarilariê” que a vida não
se resume numa caixa preta ou prata. Não
de Diniz Giuseppi
vamos descartar os benefícios que a televisão nos traz como
lazer, educação e cultura, mas também ela pode tornar o seu

Q
receptor apático e servil. A televisão tem serventia. O problema
ual o seu programa de televisão predileto? Todos está em se render ao encanto que nos passa a vida perfeita dos
nós jovens já tivemos que responder a este ques- comerciais. Os jovens de hoje estão sabendo usar o controle
tionamento, não é mesmo? Se uma parte da galera remoto mais do que os de antigamente. Mas, alguns pensam
gosta de cultura e informação, a outra quer ver a que estão num show de realidade em que para se ganhar o
realidade. Mas, sinceramente: as novelas, os filmes prêmio máximo, é preciso chamar a atenção, perdendo assim,
e os reality shows refletem o nosso cotidiano? Ou sua própria identidade.
o pior: o reflexo molda nossas atitudes? É difícil compreender. Quando você sai para a balada já percebeu como todo mundo
O que podemos responder de olhos fechados é que muitos são se parece? Isso mesmo, não em traços físicos, mas em modos
os “seguidores” da seita que invadiu nossas casas a partir de e maneiras de se vestir e se portar. Os produtos da chamada
1950: a TV. indústria cultural tornam todo mundo igual. Aliás, para que um
Tipo assim: quem nunca se deparou usando gírias que gru- celular com tantos recursos se ninguém quase usa? A protago-
dam na fala dos nossos amigos. Chega a ser engraçado “cara”, nista do filme ou da novela tem um, como não vou conseguir um
mas a situação sai do controle quando vemos um exército de igual? Eu sou chique, bem! Mas poucos percebem que somos
adolescentes vestindo roupas cor-de-rosa, para ficar na moda. manipulados continuamente a comprar, pedir, indicar e pagar.
As Tatis, Patrícias e Marianas imitam o que vêem na TV ou os Não vamos transformar os produtores dos meios de comuni-
meios de comunicação buscaram, na massa, o estereótipo perfeito cação de massa em vilões. Eles têm um papel importantíssimo
para causar identificação? É uma espécie de videogame, aonde nessa história, porém, se pararmos para refletir um pouco sobre
para se dar bem nas provas da vida, deve-se seguir o manual. tudo o que nos é imposto, já estaremos dando um grande passo
E para se ter acesso aos códigos, deve-se fazer exatamente o na nossa vida e quem sabe daremos um “empurrãozinho” na
que faz a mocinha da novela das 21h00. vida do nosso vizinho que passa horas e horas em frente a uma
O que não se pode esquecer é que tudo é realizado por tela, querendo saber se a mulher de fulano é fiel ou não. Somos
meio de pesquisas. Se vêem a necessidade do advento de um todos chamados, sem distinção de raça e credo a mudar o fim
produto vendável e rentável, ouve-se o boom e então a malhação dessa história que, assim como o controle remoto, está em
não pára, até ter um bom ibope. Mas e daí? Você pode estar nossas mãos. 
respondendo: “Eu tenho discernimento para escolher o que me
der na telha. Eu sei ‘meu’ o que é bom para mim”. Que bom seria Diniz Giuseppi é estudante de Jornalismo em Salvador, BA
se todos pensassem assim, entretanto inúmeras circunstâncias e editor-chefe do site Trem da Missão.

Missões - Setembro 2005 25


A dimensão profética da
entrevista
Arquivo Pessoal

Reunidos na 43ª Assembléia


da CNBB, em Itaici, São Paulo,
os bispos reafirmaram que
Jesus Cristo é a Esperança da
humanidade.

Lourenzo Baldisseri e os representantes maiores


dos organismos e pastorais ligados à Igreja. O tema
principal foi “Evangelização e Missão Profética
da Igreja: Novos Desafios” e a elaboração de um
documento que deve orientar e animar a Igreja
no Brasil a continuar a proclamar a Boa Nova da
Paz, a Palavra profética de Jesus Cristo. É uma
reflexão muito profunda sobre a situação pastoral
atual e um instrumento de orientação a todos os
membros da Igreja, a todos os batizados, com a finalidade de
de Joaquim Gonçalves
suscitar a esperança e alimentá-la na caminhada da vida e nas
ações pastorais. Aponta possíveis soluções para os problemas

A
atuais que tocam muito de perto a dignidade da pessoa humana,
43ª Assembléia Geral da CNBB, agendada para se a sacralidade da vida e as formas de viver a religião. Muitas pes-
realizar entre os dias 5 e 15 de maio, e da qual a soas estão sem pontos de referência, sem saber como conduzir
revista Missões deu notícia na edição de abril, foi a sua vida, sem saber como discernir o que é bom e o que é
adiada por causa do estado de saúde do papa João mau; experimentam a separação entre a fé e a vida; a falta de
Paulo II, que veio a falecer. A Assembléia se realizou ética na vida pessoal, nos relacionamentos comerciais, na política
entre os dias 9 e 17 de agosto, em Itaici, Indaiatuba, e na organização social da vida; o crescente individualismo, a
SP. Nesta edição voltamos ao tema “Evangelização e Missão falta de trabalho, de moradia, de saúde e de comida assolam o
Profética da Igreja: Novos Desafios”, desta vez para levar ao dia-a-dia de muitas pessoas, gerando exclusões e violência; a
conhecimento dos leitores o que de fato foi tratado e decidido ciência que tanto desenvolvimento e boas descobertas trouxe à
na reunião dos bispos. Entrevistamos Dom Joaquim Justino humanidade, quando mal conduzida, pode trazer grandes males,
Carreira, bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo para a violando a dignidade humana. A vida humana é sagrada desde a
Região Episcopal Santana. Dom Joaquim foi ordenado bispo sua concepção até à morte, de preferência, natural. O tema da
no dia 16 de maio p.p. em Jundiaí onde exercia seu ministério, Assembléia foi organizado em quatro capítulos: I. Evangelização e
e empossado em São Paulo no dia 29 do mesmo mês pelo Profetismo; II. O Testemunho de Fé Cristã e o Pluralismo Cultural
Arcebispo, Dom Cláudio Hummes. e Religioso; III. O Compromisso da Igreja em Favor da Inclusão
Social; IV. Dignidade Humana e Biotecnologias e a Conclusão:
Dom Joaquim, o senhor tem uma longa experiência na dio- Jesus Cristo, Esperança da Humanidade.
cese de Jundiaí. Como foi a sua primeira participação na
Assembléia da CNBB e qual sua opinião sobre o tema? Além do Profetismo, houve outros assuntos interessantes
na Assembléia?
Minha presença na Assembléia Geral da CNBB pela primeira
vez, foi uma experiência cheia de novidades e de um enrique- Sim. Muitos assuntos. Entre eles um de fundamental importância
cimento muito grande. Estar nove dias em convívio, oração foi a aprovação final do “Diretório Nacional de Catequese”, em
e estudos com praticamente todos os bispos do Brasil é algo elaboração há três anos. Um belíssimo instrumento de trabalho
muito bom e importante para a vida pessoal dos participantes, para orientar a missão de inúmeros irmãos e irmãs catequistas
para a missão episcopal e para as dioceses do Brasil. Além dos que se dedicam em nossas paróquias. A Catequese bem feita
bispos, participaram também o senhor Núncio Apostólico Dom dará a todos os cristãos a possibilidade de conhecer e viver o

26 Setembro 2005 - Missões


Assessoria de Imprensa da CNBB
evangelização
seu Batismo e todas as dimensões da vida e da missão cristã.
Pelo Batismo nos tornamos o Povo de Deus, a Igreja Viva, onde
Cristo é a cabeça e nós os membros. E como batizados somos
sacerdotes, profetas e reis. Portanto, a missão do profeta é
anunciar a Palavra de Deus e ajudar as pessoas a viver na Es-
perança sem nunca desanimar. Além desses dois documentos
foram feitos mais 22 declarações, comunicados, diretrizes. Tudo Celebração de abertura da 43ª Assembléia da CNBB.
isto com a participação e a aprovação de todos. Os documentos profunda de Deus, tem discernimento diante das propostas feitas
da CNBB são realmente fruto de um trabalho de conjunto. pelos MCS, pela propaganda que geralmente exploram apenas
um aspecto da realidade sem apresentar o todo. Conhecendo
O que fazer para que os presbíteros e os cristãos estejam o todo, saberemos avaliar as partes. Essa visão de conjunto,
preparados para lidar com as influências dos Meios de muitas vezes, falta; porém, quando existe é um grande auxílio
Comunicação Social? para o discernimento.

É preciso evangelizar, evangelizar, evangelizar sempre Como o senhor está assumindo a sua nova missão de bispo
para que cada pessoa tenha uma experiência pessoal de fé e o que espera dos presbíteros?
e uma adesão pessoal a Cristo: Caminho, Verdade e Vida. A
fé é uma experiência pessoal de encontro com a misericórdia A Igreja é formada por todos os batizados. Portanto eu espero
de Deus, que nos torna discípulos de Jesus. Essa fé é vivida que cada batizado assuma conscientemente o seu Batismo e
pessoalmente, mas inserida na família através do testemunho e seja um membro vivo e atuante do Corpo de Cristo, onde Ele
também vivida em comunidade. Pessoal, familiar, comunitária. é a cabeça e nós os membros. Todos nós somos responsáveis
Assim a fé adulta dá-nos uma sabedoria interna que nos faz pelo bem e pela missão da Igreja. No entanto os presbíteros
discernir as propostas que nos são apresentadas e nos ajuda a são pastores, têm uma missão de animar as comunidades e
rejeitar o mal e a seguir o bem. O que falta em muitos cristãos de evangelizá-las. Por isso, devem ser os primeiros a buscar
é essa experiência pessoal e a opção livre e profunda de querer a experiência pessoal de fé em Jesus Cristo, vivendo-a nas
ser um cristão de verdade. Devemos trabalhar em profundidade suas paróquias e vivendo-a também na diocese, no conjunto
essas questões. Quando se vive a fé, se tem esperança e se das paróquias. Estou feliz em minha missão, sabendo que é o
tem caridade. A vida é vivida em todas as suas dimensões, como Senhor o Bom Pastor que me conduz e quer conduzir a todos.
Jesus viveu a sua vida, crescendo em sabedoria, tamanho e Como Bom Pastor, Ele vai atrás da ovelha perdida para que
graça diante de Deus e dos homens. Quem tem experiência ninguém se perca. Assim, com o projeto missionário que es-
tamos desenvolvendo, todos podem e devem ser
Assessoria de Imprensa CNBB

missionários e todas as famílias poderão receber


a visita de Jesus, recebendo a visita de um cristão.
Entender e viver isto é a verdadeira solução para
todos: os missionários e os destinatários.

Como palavra final, o que deseja acrescentar?

Tenhamos alegria e desejo de ser verdadeiros


cristãos. Deus não nos tira nada, ao contrário, quer
acrescentar em nossa vida a experiência da vida
eterna. Quando temos a sabedoria de Deus, tudo
o que nos acontece na vida é bom. Se falarem mal
e for verdade é um chamado à conversão. Se for
mentira, o mal que falarem de nós, é um chamado
à vigilância, para que não nos aconteça aquele mal.
Depender de Deus e não das coisas ou das pessoas,
é a possibilidade de experimentar a liberdade dos
filhos de Deus, que nos ama sempre e deste Amor
nada e ninguém nos pode separar. 

Bispos participantes da 43ª Assembléia da CNBB. Joaquim Gonçalves é missionário e membro da Comissão Justiça e Paz.

Missões - Setembro 2005 27


Mutirão pela e com a Amazônia
amazônia

A Missão da Igreja na
Amazônia foi o tema dos
debates de um Encontro
Nacional, realizado em Brasília.
de Cecília Tada

“A
mazônia, Desafios e Perspectivas para
a Missão”, foi o tema que norteou a
re­­a­li­­zação de um Encontro Nacional,
ocorrido de 9 a 11 de junho de 2005, em
Brasília, no Centro de Convenções Israel
Pinheiro, com o intuito de provocar um
grande mutirão missionário pela e com a Amazônia.
O Encontro teve também como objetivo divulgar o
trabalho da Comissão Episcopal para a Amazônia e
promover o avanço dos seus programas e projetos,
bem como tornar mais conhecidos os problemas
candentes da região e os passos que a Igreja vem
dando para evangelizar. Por isso, o evento não foi um
ponto de partida, mas a continuidade de um processo
desencadeado há décadas, que tomou consistência a
partir de 2003, com a constituição da Comissão Epis-
copal para a Amazônia e o projeto “Missão da Igreja
na Amazônia”. AAmazônia sempre chamou a atenção
do mundo, des­­per­­­­­tan­do nestes últimos anos enorme
interesse por ser um dos maiores reservatórios de água
doce do planeta, além de suas riquezas naturais e sua

Lançamento
biodiversidade. A região desperta preocupação com a
sua preservação, diante da ação predatória de grupos
com interesses econômicos. A Igreja não poderia ficar
fora do debate que essas questões provocam, pois ali
também está o maior tesouro, que constitui o centro das
preocupações pastorais: o amazonense, o habitante
nascido na região e membro dos povos da floresta.
O Encontro reuniu mais de 200 participantes, entre bispos,
presbíteros, religiosos e religiosas, agentes de pastoral vindos de
Conheça os desafios
todos os regionais da CNBB e representações de povos indígenas
da Amazônia. Essa representatividade foi muito significativa por
expressar a unidade da Igreja em torno de um apelo que veio do
e perspectivas para
Norte do Brasil e se consolidou com as presenças do presidente
da CNBB, Cardeal Geraldo Majella Agnelo, do Núncio Apostólico
no Brasil, Dom Lorenzo Baldisseri e da representante da Confe-
a Igreja do Brasil
rência dos Religiosos do Brasil, Irmã Zenilda Petry.
Dois estudos, apresentados no Encontro pelo padre Pos­sidônio
da Mata e pela professora Anaiza Vergolino traçaram um resgate
na Amazônia
histórico e um panorama religioso e cultural da Amazônia. O resgate

28 Setembro 2005 - Missões


histórico feito por Possidônio destacou três etapas da presença da Evangelização na Amazônia
Igreja na região, dando ênfase à missão dos religiosos no início Desafios e perspectivas para uma renovada evangelização
da evangelização, a institucionalização da Igreja e a participação na Amazônia foi o tema de outro painel, que teve a grande tarefa
dos leigos. A evangelização cristã não conseguiu extinguir as de apresentar novos pressupostos para a evangelização e abrir
tradições religiosas dos povos indígenas e africanos, originando horizontes diante de cenários tão complexos e desafiadores.
uma religião popular de caráter simbiótico que, em determinados Coordenado pelo padre Edson Damian, teve a participação do
momentos conflita com o catolicismo oficial. O compromisso e padre Zenildo Lima da Silva, que depois de apresentar um diag-
o profetismo do anúncio levou a Igreja amazônica a ter os seus nóstico sobre a situação da Igreja, propôs um grande encontro
mártires. A professora Anaiza destacou as matrizes culturais reli- das Igrejas para tratar regionalmente dos problemas e buscar
giosas da Amazônia tradicional: a indígena, a lusitana e a africana. soluções, garantindo uma maior unidade na Missão. O padre
Mas, esclareceu que há, ao lado dessas velhas matrizes, novos Luiz Pinto, partindo dos grandes eventos eclesiológicos propôs
credos, devido às grandes mudanças que a região vem sofrendo ações concretas para que se dê o devido valor à ministeriali-
nesses últimos anos. dade, destacando o papel da mulher, dos leigos e das CEBs,
enfatizando a necessidade de investimento na formação e de
Igreja na Amazônia autonomia desses atores eclesiais. Padre Fernando Lopez e Irmã
Houve um painel sobre a situação atual da Igreja na Ama- Arizete Miranda apresentaram o projeto da Equipe Itinerante,
zônia, com a participação de Dom Moacyr Grechi, Dom Regis uma proposta intercongregacional, voltada para a realidade
Gutemberg e padre Cláudio Perani, sj. A mesa foi coordenada pelo concreta dos povos da Amazônia, que busca e vai ao encontro,
padre João Sucarrats, sdb. Os três painelistas destacaram que a possibilitando uma maior presença e vivência do Evangelho.
Igreja na Amazônia é viva, animada, missionária e jovem, apesar Padre Thierry Linard de Guertechin apresentou o projeto do
das dificuldades e desafios das distâncias,
dos recursos e meios. É preciso valorizar
Rede Rua

o serviço dos leigos e leigas e renovar as


estruturas eclesiais para dar mais espaço
a quem trabalha na Missão. Alargando a
tenda, é preciso “amazonizar” o Brasil e dar
mais valor à diocesaneidade, mas também
à itinerância, às CEBs, aos ministérios e
serviços, principalmente ao da Palavra.

Situação atual da região


As necessidades e oportunidades nos
campos socioeconômico e político da região foi
o tema de outro painel, coordenado pela pro-
fessora Janira Sodré Miranda, com participação
da doutora Bertha Becker, do professor Jessé
Rodrigues dos Santos, do padre Luiz Ceppi
e do professor Guenter Francisco Loebens.
As colocações de alto nível proporcionaram
uma grande oportunidade para aprofundar os
conhecimentos dos problemas que aAmazônia
enfrenta e enfrentará no futuro bem próximo:
o revigoramento das frentes de expansão
(soja-boi) ligadas aos mercados globais, a
mercadologização da água e do ar, o fenômeno Padre Raimundo Possidônio, Irmã Cecília Tada e padre Carlos Alberto Chequim
da industrialização e a urbanização com todas durante a apresentação do projeto Missão da Igreja na Amazônia.
as mazelas sociais de abandono e violência,
a fragilidade das reações, o esgotamento de certos modelos, a Instituto de Estudos Superiores (IES), cuja missão é “formar
má gestão das políticas públicas, o autoritarismo, a atuação do uma inteligência católica para a Amazônia, capaz de gerar e
Poder Judiciário que agrava os problemas, favorecendo os que disseminar conhecimento científico e humanizado, engajado na
exploram, o risco do extermínio dos índios e o aproveitamento construção de uma sociedade pluricultural e no desenvolvimento
de suas terras para o mercado. Não obstante tudo isso, há sinais sustentável da região”. Destacou também os valores orientadores
de resistências históricas e vitoriosas, como a homologação da do Instituto e o andamento do projeto.
Raposa Terra do Sol, o fortalecimento das cooperativas e conse- Não se poderia sair de um Encontro tão rico como este de
lhos paritários participando na elaboração de políticas públicas e mãos abanando. Na medida em que as questões iam sendo
o plano de desenvolvimento sustentável, que mostram que uma levantadas, alguns grupos foram formados para sugerir propo-
outra Amazônia é possível. Foi proposto como saída para frear sições e perspectivas diante dos grandes desafios. Os grupos
o agravamento desses problemas, humanizar o modelo, fortale- temáticos que se formaram discutiram sobre: mundo indígena,
cendo fóruns de discussão sobre a região, criando mecanismos projeto Igrejas-Irmãs, comunicação, missão itinerante, presença
de gestão e acelerando o aprendizado social, capitalizando o religiosa, papel dos leigos e leigas na Igreja e na sociedade,
produtor rural e o extrativista. Completando este painel houve a CEBs e missões populares, saberes e produção da Amazônia,
palestra do delegado da Polícia Federal, Mauro Esposito, sobre desenvolvimento sustentável e solidário da região, ensino su-
o narcotráfico, a biopirataria e a militarização da Amazônia e a perior católico e ensino superior à distância na Amazônia. 
exposição da Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, sobre os
desafios e perspectivas para o desenvolvimento sustentável. Cecília Tada é secretária executiva da Comissão Episcopal para a Amazônia.

Missões - Setembro 2005 29


Frente Brasil sem Armas autores têm de que a impunidade reina”. Na Assem-
Lançado website oficial bléia Legislativa, Casa de Joaquim Nanico, como os
Foi lançado no dia 17 de agosto, o website da deputados se referem a ela, foi feito um discurso do
Frente Brasil sem Armas, que defende o SIM no re- deputado Isaltino Nascimento com um aparte do de-
ferendo, no qual será decidido se a venda de armas putado Roberto Leandro, onde homenagearam todas
de fogo será proibida ou não no Brasil. No dia 23 de as populações indígenas e denunciaram a omissão
outubro, a população deverá responder SIM ou NÃO e inoperância do atual governo estadual em não
à pergunta: “O comércio de armas de fogo e munição conseguir desenvolver políticas públicas adequadas
deve ser proibido no Brasil?” a essas populações e o fato mais grave, não punir
No “Referendo SIM” (www.referendosim.com.br), os agentes do Estado (policiais infratores) que, com
o usuário terá acesso às informações sobre o que é o poder que lhes é conferido, se acham no direito de
o referendo, as normas do Tribunal Superior Eleitoral decidir quem vive ou morre.
(TSE) para a consulta popular, as razões de se votar
SIM, o passo a passo de como montar um comitê de Roraima
campanha e dicas de como participar da campanha Indígenas sem assistência à saúde
pelo SIM. Além disso, estará disponível para download O Conselho Indígena de Roraima – CIR, protocolou
todo o material de divulgação da campanha e uma no dia 5 de agosto, na sede da Fundação Nacional
agenda com os principais eventos organizados pelos de Saúde – Funasa, em Brasília, o comunicado de
comitês e frentes pelo SIM formados em todo o país. suspensão das atividades de atenção básica à saúde
VOLTA AO BRASIL

O referendo está previsto na lei de controle de armas dos povos indígenas no Distrito Sanitário Leste de
brasileiras, o Estatuto do Desarmamento, aprovado Roraima, que compreende 252 aldeias e uma popu-
pelo Congresso Nacional em dezembro de 2003. A lação de 32 mil índios. O projeto mantém 218 postos
Frente Parlamentar por um Brasil
sem Armas é presidida pelo sena-

Jaime C. Patias
dor Renan Calheiros (PMDB-AL)
e tem como secretário executivo o
deputado federal Raul Jungmann
(PPS-PE). Também participam da
Frente cerca de 60 parlamentares
de nove diferentes partidos, além
do Conselho Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB), do Conselho
Nacional das Igrejas Cristãs (Co-
nic), e de ONGs como o Viva Rio,
o Comitê de Vítimas da Violência
(Convive), de Brasília e o Instituto
Sou da Paz (São Paulo), entre
várias outras entidades que lutam
pelo desarmamento. Pela primeira
vez na história, a população de
um país decidirá sobre a política
nacional de controle de armas.

Pernambuco
Aldeia de Maturuca, Roraima.
Os povos indígenas
O dia 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos de saúde e 74 laboratórios de microscopia, onde
Indígenas, instituído pela ONU, começou com uma atuam 420 agentes indígenas de saúde e endemias,
audiência pública no Sindicato dos Bancários, em além de agentes de saneamento e parteiras tradicio-
Recife, onde estiveram presentes 50 indígenas de nais, acompanhados por equipes multi-profissionais
5 etnias (pankará, atikum, xukuru, truká e kambiwá), responsáveis pelo trabalho. O motivo da suspensão
representantes de várias entidades de direitos huma- das atividades é a não confirmação de repasses do
nos, os deputados estaduais Isaltino Nascimento e Convênio firmado entre o CIR e a Funasa desde
Roberto Leandro, além do vereador Marcelo Santa junho passado, que já prejudica a continuidade da
Cruz. Os discursos enfatizaram a violência que os assistência, inclusive com a falta de alimentação
povos indígenas do Estado vêm sofrendo nos últimos para as equipes que atuam na área, manutenção de
anos e a impunidade dos agressores. À tarde houve veículos e aquisição de insumos. “A suspensão das
uma sessão especial na Assembléia Legislativa, atividades determina sérios riscos para a integridade
onde os deputados Isaltino Nascimento e Roberto das comunidades envolvidas, que já atravessam uma
Leandro defenderam em plenário o interesse dos difícil situação de saúde decorrente das epidemias
povos indígenas de Pernambuco. Os índios das 5 de malária e dengue que assolam o estado”, diz o
etnias distribuíram um texto pelas ruas de Recife, comunicado, assinado pelo coordenador do CIR,
onde denunciaram o descaso dos governos federal e Marinaldo Justino Trajano. 
estadual referente à violência a que estão submetidos
os povos indígenas naquela região. “Esse clima de
violência só tem crescido devido a certeza que os Fontes: CIMI, CIR, Desarme.
30 Setembro 2005 - Missões
4° MBC: o Mutirão realmente
brasileiro de comunicação

N
ão só os 500 participantes de todos os cantos do participantes e realizadores no que têm de melhor, o espírito
país estiveram presentes fisicamente no evento, mas da coletividade num tempo em que o individualismo se impõe e
os milhares de telespectadores, ouvintes de rádio e endurece os relacionamentos.
internautas, que por meio das 170 emissoras da Rede Durante a conferência de encerramento do 4° Muticom, no
Católica de Rádio, pelo sistema Canção Nova de dia 15 de julho, Porto Alegre foi lançada oficialmente como a
Comunicação (TV, Rádio e Internet), pela cobertura próxima cidade a sediar o 5° Mutirão Brasileiro de Comunicação,
da Rede Vida de Televisão e pela presença da Rádio América no ano de 2007. Após as falas do bispo do Setor de Comunicação
e do Jornal Vitória, veículos de comunicação da Arquidiocese Social da CNBB, Dom Orani Tempesta, e do arcebispo de Vitória,
de Vitória, se uniram ao 4º Mutirão Brasileiro de Comunicação. Dom Luiz Mancilha, os gaúchos subiram ao palco do auditório
Essa gente que interagiu telefonando, enviando e-mails, partici- principal do Sesc de Guarapari para receber a arte em cerâmica,
pando dos debates, ajudou a construir o 4° MBC, aumentando confeccionada pelo artesão capixaba Luiz Acélio de Araújo, que
a polifonia de vozes que desejam uma comunicação mais ética virou símbolo do Mutirão. A organização ficará por conta da Dio-
e socialmente responsável, de acordo com o tema do Mutirão, cese de Porto Alegre, em parceria com outras dioceses do Rio
“Comunicação e Responsabilidade Social”. Grande do Sul, juntamente com as demais entidades promotoras
O Mutirão, realizado em Guarapari de 10 a 15 de julho, do Mutirão Brasileiro de Comunicação. 
marcou a vida de muitos e deixou para os próximos encontros
um legado importante, que vai desde a organização do seu Reportagem de Warlen Soares, em entrevista com o coordenador do 4º MBC,
estatuto, à criação de um símbolo, feito pela Associação dos Carlos Magno Lovatti e publicada no jornal Vitória, da arquidiocese de Vitória - ES ano III
Ceramistas do Espírito Santo, que vai unir os próximos eventos, n.92, agosto de 2005.

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