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O Sociólogo na Intervenção Social

O Sociólogo na Intervenção Social Atribuição ‒ Uso Não-Comercial ‒ Proibição de realização de Obras

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INDÍCE

INDÍCE

1

- QUADRO RESUMO DAS ENTREVISTAS

1

1 - ENQUADRAMENTO TEÓRICO

1

1.1 O Conceito de profissão

2

1.2 A profissão de sociólogo

4

1.3 Cultura profissional dos sociólogos

6

2 – PROBLEMÁTICA E MODELO DE ANÁLISE

7

2.1 Sociólogos na Intervenção social em Portugal

8

2.2 Operacionalização de conceitos

10

3 – METODOLOGIA

11

3.1

Caracterização da Amostra

11

3.1

Técnicas de recolha de dados

12

3.2

Técnicas de tratamento da informação

13

4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS

4.1. Dimensão Cognitiva

13

13

4.1.1. Conhecimentos teóricos

14

4.1.2. Capacidades técnicas

16

4.2. Dimensão Ética e Reflexiva

21

4.2.1. Preocupações Deontológicas, Associativismo e

Interdisciplinaridade

21

4.2.2.

Papel do Sociólogo e Identidade Profissional

22

4.3 Cultura profissional

24

5 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

25

BIBLIOGRAFIA

27

ANEXOS

30

- Quadro resumo das entrevistas

- Guião das entrevistas

- Transcrição integral das entrevistas

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1 - Enquadramento Teórico

1.1 O Conceito de profissão

Pretende-se com este trabalho analisar as práticas, papeis e culturas profissionais dos sociólogos, nomeadamente dos sociólogos ligados mais directamente à intervenção social, ou seja, que estejam inseridos profissionalmente nos sectores da administração pública e de políticas sociais ou inseridos em instituições não governamentais de solidariedade social. Contudo, para se abordar convenientemente este tema, e embora não esgotando de forma alguma todas os paradigmas teóricos nem todas as dimensões analisadas na história da sociologia das profissões, considerámos importante fazer primeiro um enquadramento da disciplina no quadro mais geral da sociologia das profissões.

Assim, torna-se crucial antes de tudo, considerar uma definição do conceito de profissão. Este foi um conceito bastante trabalhado por diversos autores sendo um dos primeiros a realizar estudos sobre o tema, Carr-Saunders (1928). Para este autor “uma profissão pode talvez ser definida como uma ocupação baseada num estudo e num treino intelectuais especializados, cujo objectivo é fornecer a outrém serviços ou conselhos altamente qualificados a troco de determinados horários ou salários”. 1 Para Parsons, as profissões baseiam-se mais em valores altruístas do que em motivações económicas e pressupõem uma aquisição formal de conhecimentos técnicos e científicos. Será a relação assimétrica de conhecimento/ignorância entre o profissional e o seu cliente que permite a institucionalização e a legitimação da profissão.

Para estes autores e para a perspectiva funcionalista em geral, são os atributos ou características dos grupos profissionais, a estrutura e formas de organização e a função social das próprias profissões que permite analisar e definir o conceito de profissão. As profissões apresentam-se como blocos homogéneos de indivíduos que partilham os mesmos valores e conhecimentos (tidos como intrínsecos à própria profissão) e assentam em três pressupostos básicos: (1) o estatuto profissional resultante do saber científico e prático e do ideal de

(2) o reconhecimento social da competência adquirida através de uma longa

serviço (

formação e, (3) a resposta a necessidades sociais 2 (fazer o «bem» possível pela sociedade), portanto, pressupostos cuja articulação (entre motivações, valores e sistema), se torna a base do funcionamento e legitimidade social da profissão.

),

1 CARR-SAUNDERS, A ., (1928), “Professions: Their Organization and Place in Society”, Oxford, Clarendon Press, in Costa, António Firmino, (1988), Cultura Profissional dos Sociólogos, Sociologia – Problemas e Práticas nº5, Mem Martins, Publicações Europa-América, Lda, p.108.

2 RODRIGUES, Maria de Lurdes, (2002), “Sociologia das Profissões”, Oeiras, Celta Editora, p.13

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Segundo a perspectiva interaccionista, mais importante que o conceito de profissão em si, são os processos de profissionalização, de transformação das ocupações, de conflito e interacções deles decorrentes, ou seja, os processos de “emergência, consolidação e desenvolvimento de cada grupo profissional”. 3 Estes grupos profissionais são aqui vistos não como grupos homogéneos mas sim como grupos constituídos a partir da diversidade das instituições de formação e recrutamento, das actividades desenvolvidas, pelo uso de diferentes técnicas e metodologias, em suma, grupos que obtiveram, por estratégias diversas, uma posição de força sobre o mercado de trabalho.

Neste sentido, podem referir-se por exemplo autores como Bucher e Strauss que procuram uma complementaridade das abordagens funcionalistas e interaccionistas, assim como, Wilenski (1964) que define profissão como “uma ocupação que exerce autoridade e jurisdição exclusiva simultaneamente sobre uma área de actividade e de formação ou conhecimento, tendo convencido o público que os seus serviços são os únicos aceitáveis”. 4 Aliás, a este respeito, também Gyarmati (1975), vê as profissões em termos de autoridade e poder. Isto é, considera-as como sistemas de mandarinato baseados em duas premissas – a autonomia com que organizam e regulam as suas actividades e, - o monopólio profissional, a capacidade de restringir a respectiva actividade apenas aos oficialmente acreditados para o efeito, garantindo assim a legitimidade social e a perpetuação do status quo das profissões. Assim, é o conhecimento que assegura às profissões a autonomia, o monopólio profissional e, logo, o poder que caracteriza os profissionais na sociedade.

Dingwall (1976) e na linha do interaccionismo, considera que as profissões não podem ser definidas como um conceito estático, racional e científico, mas “devem sim ser abordadas a

fazem do conceito de

profissão (

«outros»”. 5 Para outros autores a profissão deve ser definida através do número de anos de formação, portanto, através de critérios mais quantitativos do que qualitativos. Outros ainda incluíram nos seus estudos o papel do Estado, das Associações Profissionais, da Imagem Pública da profissão, etc.

partir das representações que os membros de dadas ocupações, (

isto é, que interpretação fazem do seu trabalho e do trabalho desenvolvido por

)

)

Desta vasta quantidade de perspectivas sobre o que define uma profissão, ficamos com a nítida certeza de que este é um conceito há bastante tempo trabalhado, mas ainda e continuamente em construção, ainda para mais, tendo em conta que continuam na sociedade moderna a emergir novas ocupações que aspiram ao ‘estatuto’ de profissão e a desaparecer outras que aparentemente já se tinham constituído como tal, que se assiste a uma intensa e dinâmica reconfiguração profissional (e social) nas sociedades contemporâneas.

3 COSTA, António Firmino, (1988), “Cultura Profissional dos Sociólogos”, in Sociologia – Problemas e Práticas, nº5, Mem Martins, Publicações Europa-América, Lda, p.109.

4 RODRIGUES, Maria de Lurdes, (2002), op. cit., p.20

5 RODRIGUES, Maria de Lurdes, (2002), op. cit., p.36

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Em Portugal, a profissão de sociólogo é precisamente uma das profissões que só recentemente se consolidou e desenvolveu como tal. Processo, aliás, que está longe de ter terminado, dado que continuamente surgem novas aplicações do conhecimento sociológico, novas áreas de intervenção e consequentemente novas necessidades de criação e definição de novos papeis profissionais.

1.2 A profissão de sociólogo

De facto, a sociologia é uma ciência relativamente recente mas assiste-se hoje no nosso país,

a uma crescente consolidação e diversificação das práticas profissionais em sociologia, desde

a pioneira criação oficial da licenciatura de Sociologia, em 1974, no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. A queda do regime de ditadura e a instauração de um regime democrático criaram as condições necessárias para uma nova economia mais dinâmica, para um alargamento e diversificação dos mercados de trabalho, para uma maior movimentação nas recomposições da estrutura sócio-profissional que favoreceram sem dúvida a “hospitalidade institucional e pública perante uma forma de saber que traz instrumentos, teóricos e metodológicos, que parecem responder à ávida curiosidade de uma

cidadania em construção (

sociedade (

que procura intervir, informar-se e se interroga sobre a

6 , num processo cada vez mais intenso de reflexividade social. A partir dessa

altura, multiplicam-se as criações dos cursos de licenciatura em diversas Universidades de

Portugal. Em 1983, surge o primeiro Mestrado em Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A sociedade começa cada vez mais a mostrar-se curiosa e aberta aos contributos que a sociologia pode trazer.

)

)”

Começou deste modo a verificar-se um impressionante crescimento quantitativo e qualitativo do campo profissional dos sociólogos em Portugal, e nos últimos anos assiste-se a um cada vez maior número de sociólogos a exercerem profissão noutros sectores que não apenas a investigação e o ensino universitário, como em empresas e organizações privadas desenvolvendo funções de gestão de recursos humanos, de formação, gestão de qualidade, em autarquias, no planeamento urbanístico, na reabilitação urbana e ambiental, na animação cultural, ligados aos sectores da cultura e comunicação ou ainda e é o sector sobre o qual se debruça este trabalho, na administração pública e políticas sociais, participando em projectos de luta contra a pobreza e a exclusão social, na reinserção social, na avaliação de projectos e políticas sociais de emprego, de saúde, de educação, etc. A evolução das categorias profissionais dos sociólogos inscritos na APS ilustra toda esta crescente diversidade. Quando foi criada, em 1985, a associação englobava quase exclusivamente, professores e investigadores universitários, mas depois, foi ocorrendo

6 CARREIRAS, Helena, FREITAS, Fátima e VALENTE, Isabel, (1999), “Profissão Sociólogo”, Oeiras, Celta Editora, p.3.

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gradualmente uma feminização, um rejuvenescimento e uma diversificação do corpo associativo da APS.

Nos dados mais recentes (2001) verificamos que 67% dos membros são do sexo feminino e que a distribuição destes em termos de idades tem vindo nos últimos anos a sofrer um rejuvenescimento o que conduziu também a um maior equilíbrio etário. Quanto às actividades profissionais são (ainda) mais frequentemente exercidas na área do ensino e investigação. Em 2001, 41% dos associados da APS tinham como actividade profissional a docência e a Investigação no Ensino Superior Público e Privado (contra 67% em 1988), seguidos pelos Quadros e Especialistas da Administração Pública e das Empresas com 37% dos sociólogos, sendo por isso o Estado o principal empregador de Sociólogos até à altura. Contudo, começa já a assistir-se a uma gradual recomposição nos diversos tipos de actividade profissional dos sociólogos. Para esta, têm contribuído não só o aumento da oferta e procura de ensino universitário nesta área, como o financiamento público da investigação universitária e os muitos pedidos, tanto da administração pública como de instituições privadas, meios de comunicação, etc. Inerente a todo este processo de recomposição na prática profissional da sociologia está a capacidade das sociedades modernas de uma cada vez maior reflexividade social.

Distribuição segundo Sexo

   

Distribuição segundo o Grupo Etário

   
 

N

%

 

1988

1996

 

2001

Feminino

 

1204

67,7

Até 29 anos

14

 

32

 

28,3

Masculino

 

574

32,3

30- 39 anos

44

 

38

 

33,9

Total

 

1778

100,0

40-49 anos

30

 

21

 

21,8

 

50 e + anos

12

 

9

 

16

Condição perante o trabalho

 

Distribuição segundo a actividade profissional

 
   

N

 

%

Activos

 

1325

 

81,6

 

1988

1996

 

2001

Estudantes

   

206

 

12,7

N 193

N 763

N 1325

       

Desempregados

 

17

 

1,0

Docentes Ens. Sup. e Invest. de Inst. Pub. e Privadas

 

67

43

 

41

Outras situações

 

75

 

4,6

Docentes do Ensino Secundário

   

5

6

 

5

Total

 

1623

 

100,0

Formadores e outros docentes

   

0

3

 

3

 

Quadros e Esp. da Admin. Pública e das Empresas

 

23

34

 

35

Quadros e Dirigentes da Admin. Pública e das Empresas

 

1

2

 

3

Outras Profissões

 

4

11

 

13

Total

100

100

 

100

Tabelas 1 – Sócios da AssociaçãoPortuguesa de Sociologia em 2001

1.3 Cultura profissional dos sociólogos

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No entanto, e como já referimos, as novas áreas profissionais não estão totalmente delineadas à partida, pelo que os papeis profissionais dos sociólogos se vão construindo gradualmente, à medida que os profissionais vão descobrindo e definindo as suas funções e vão assim enfrentando os desafios de afirmação e construção de novas profissões e identidades. Neste sentido, torna-se de extrema importância a cultura profissional do grupo, isto é, o “conjunto de valores, normas e representações de que são portadores, sobre a sociologia enquanto

7 dado que são factores que

influenciarão grandemente a forma como os sociólogos vão desempenhar as suas funções, desenvolver as suas competências e o modo como se vão implantar no mercado. A cultura profissional tem ainda influência no modo como estes profissionais se vêem a si próprios e aos outros sociólogos o que se reflecte também no ensino e aprendizagem da Sociologia e na sua imagem pública. Pois, e, segundo Fernando Luis Machado, “só assim se compreende que licenciados da mesma escola, com a mesma formação e da mesma geração sigam percursos profissionais completamente diferentes em instituições do mesmo tipo ou até, por vezes, dentro da mesma instituição, afirmando-se uns, perante os seus interlocutores e

perante si próprios, como sociólogos e outros não”. 8

disciplina científica e enquanto actividade profissional (

)”

Neste sentido, a Associação Portuguesa de Sociologia tem um papel decisivo na articulação, inclusão e na homogeneização do prestígio da pluralidade dos papeis profissionais dos sociólogos, quer pertençam ao universo universitário quer não, recusando assim uma “ética profissional dissociativa” que opõe "ciência e profissão”, “teóricos” e “práticos”, e privilegia antes a conjugação entre saber e acção e a promoção de uma “cultura profissional de associação entre ciência e profissão” 9 . Rege-se por um código deontológico que permite precisamente a prática da sociologia em diferentes domínios da sociedade da mesma forma rigorosa, exigente e que honre a legitimidade que adquiriu no decorrer do processo em que se constituiu perante a sociedade como saber científico, prático e autónomo. Aliás, pode ler- se no Código deontológico que: “Quaisquer que sejam os papeis profissionais dos sociólogos – de investigador, professor, técnico, consultor, quadro dirigente ou outros – o trabalho sociológico é uma actividade de base científica, assente em competências próprias de elevada qualificação, decorrentes de uma preparação específica em sociologia, nos planos teórico, metodológico, técnico e relacional”. 10

De facto, parecem ser dimensões constitutivas fundamentais da sociologia enquanto profissão, a dimensão cognitiva e a dimensão ética, assim como, e não menos importante, toda uma série de factores endógenos e exógenos ao campo da sociologia que vão socializando os profissionais “tanto nos padrões cognitivos de conhecimentos teóricos e

7 COSTA, António Firmino, (1988), op. Cit., p.107

“Profissionalização

recomposições e implicações”, Sociologia, Problemas e Práticas, nº 20, Publicações Europa-América, p.45.

9 CARREIRAS, Helena, FREITAS, Fátima e VALENTE, Isabel, (1999), op. cit., p.91.

10 APS, Código Deontológico, p.2.

8

MACHADO,

Fernando

Luís,

(1996),

dos

Sociólogos

em

Portugal:

contextos,

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capacidades técnicas como nos padrões morais de valores e normas da profissão”. 11 Segundo António Firmino da Costa, esta cultura profissional dos sociólogos influencia, em grande parte, o pleno desenvolvimento da sociologia enquanto profissão. Um sociólogo cuja cultura profissional seja uma cultura de menos valia e de incapacidade profissional, terá decerto bastantes dificuldades em desenvolver plenamente o exercício da sua actividade.

Este autor, apresenta dois modelos de cultura profissional – (1) o modelo de dissociação entre ciência e profissão e (2) o modelo de associação entre ciência e profissão.

Cada cultura é definida através do modo como os indivíduos concebem a profissionalização,

o uso dos saberes adquiridos e a inserção no mercado de trabalho mas também, com base nas

suas preocupações deontológicas e relações estabelecidas com outros profissionais. O ideal tipo da cultura de dissociação caracteriza-se por uma visão que separa a teoria e a prática cientifica, uma concepção essencialista dos papeis profissionais ligados ao ensino e à investigação e uma noção de teoria rígida e paradigmática. Já na cultura de associação

entende-se a teoria numa interacção constante com as práticas, recorrendo-se à reformulação

e a teorias pluriparadigmáticas, concebendo a possibilidade de exercer vários tipos de papeis

profissionais. No que diz respeito às preocupações deontológicas, privilegia-se na cultura de dissociação quase exclusivamente a qualidade cientifica, enquanto na cultura de associação há ainda a preocupação pelas técnicas usadas e pelos efeitos desencadeados pela intervenção social na sociedade. Outra distinção marcante entre os dois modelos, refere-se à distinção entre problemas sociais e problemas sociológicos. Na cultura de dissociação tende-se a considerar que apenas os problemas sociológicos, equacionados pelos sociólogos, são passíveis de estudo e análise. Firmino da Costa, salienta a este respeito a necessidade da “reformulação do problema social em problema sociológico, em vez de traçar entre eles um qualquer muro intransponível” 12 e a existência de um grau autonomia suficiente para que o sociólogo possa levar a cabo este processo de reformulação. De acordo com o mesmo autor, o modelo de dissociação tem tendência a tornar-se cada vez menos visível na nossa sociedade, por oposição ao crescente fortalecimento do modelo de associação.

11 COSTA, António Firmino, (1988), op. cit., p.110.

12 COSTA, António Firmino, (1988), op. cit., p.113.

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2 – Problemática e Modelo de análise

2.1 Sociólogos na Intervenção social em Portugal

Tal como já referimos, a existência de uma cultura de dissociação entre conhecimentos científicos adquiridos e o processo de profissionalização tende a dificultar a inserção dos profissionais em sociologia no mercado de trabalho. Para além desta limitação acresce o facto da sociologia ser uma disciplina relativamente recente em Portugal, estando ainda a ser gradualmente conhecida tanto por empregadores como pela sociedade em geral.

Sobre este facto, António Firmino da Costa refere que “tem sido preponderante na cultura profissional dos sociólogos no nosso País a noção de que quem faz sociologia não exerce uma profissão, e que quem exerce uma profissão não faz sociologia”. 13

Apesar disso, Sociólogos têm vindo a criar espaços dentro das organizações e desempenhado vários papeis profissionais. Segundo Maria de Fátima Toscano é possível constatar que na área da Intervenção social os sociólogos têm desempenhando vários papeis desde:

“Investigadores; Agentes de desenvolvimento local e Técnicos de intervenção; Peritos na análise de indicadores sociais; Formadores de competências até a Profissionais preocupados com questões corporativas e deontológicas decorrentes da dupla produção «pesquisa –

acção»”. 14 Ao contrário de outras áreas onde existe uma relação mais estreita entre formação

e profissão (como a medicina ou a arquitectura), a Sociologia permite vários e diferentes percursos profissionais, que se podem distanciar da formação inicial.

A importância dos sociólogos nesta área, está na sua capacidade de problematizar a realidade

social e construir objectos susceptíveis de serem estudados e sujeitos a intervenção, ou seja,

de proceder à reformulação do problema social em problema sociológico. Para além de identificarem os problemas sociais e elaborarem diagnósticos, têm ainda como funções a selecção de técnicas e acções a implementar assim como proceder à avaliação dos resultados

e impactos dessas medidas. A mesma autora salienta alguns requisitos científicos no processo de investigação: o rigor; o uso de métodos e técnicas sociológicas; o questionamento sistemático; a sensibilidade para correlacionar factos, entre outros.

No trabalho desenvolvido no Gabinete técnico local de Alfama, Manuel João Ribeiro reconhece como competências dos sociólogos: (1) “A capacidade de actuação relacional e interactiva; (2) A capacidade de recolher informações e interpretá-las; e (3) A capacidade de

13 COSTA, António Firmino, (1988), op. cit., p.110. 14 TOSCANO, Maria de Fátima, “A sociologia, Prática de investigação e acção” in Valente, Isabel, Fernando Luis Machado e António Firmino da Costa (orgs), (1995,1990), Experiências e papéis profissionais de Sociólogos, Lisboa, APS, p. 92

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ponderar os efeitos de uma dada acção no tecido social”. 15 Segundo Luís Capucha, estas competências são de 4 tipos: Cientificas – relacionadas com o uso de métodos e técnicas e os conhecimentos teóricos adquiridos; Pedagógicas - que consistem no estimular de uma atitude crítica perante a realidade social; Relacional - Capacidade de trabalhar em grupo; e Organizacional - Relacionada com a perícia de negociação e capacidade de atender às necessidades da organização empregadora. 16

Para António Firmino da Costa as competências sociológicas podem-se dividir também em 4 tipos, referindo igualmente competências do tipo Relacional, e correspondendo de certa forma as competências Metodológicas às já referidas competências Cientificas. Acrescenta ainda as competências Teóricas – que dizem respeito à capacidade de interpretar e aplicar teorias sociológicas; e Operatórias – que correspondem à capacidade de organizar e planear acções. 17

No entanto estas competências não são, muitas vezes, reconhecidas facilmente pelos empregadores, nem mesmo por sociólogos no início da sua inserção no mercado de trabalho, que sentem dificuldades em integrar conhecimentos teóricos da sua formação a um trabalho prático, tal como revela Duarte Vilar (licenciado em sociologia no ISCTE em 1981): “As dificuldades que tive em encontrar a sociologia foram decerto extensivas a muitos colegas cuja natureza eminentemente prática da actividade profissional em que estavam envolvidos, contrastava com o perfil quase exclusivamente teórico da saída da licenciatura”. 18

Em Portugal predominava a ideia que só eram científicos os resultados quantitativos. Daí que, os métodos da sociologia eram questionados na sua validade. Além disso, dominava ainda a ilusão da “transparência do social” que leva a explicações de factos sociais pouco exploradas e baseadas em noções de senso comum.

No entanto, e segundo Luís Capucha 19 , a tendência actual parece ser a evolução de um cada vez maior mercado para a prática sociológica decorrente principalmente da evolução das políticas sociais, de desenvolvimento e de formação; das transformações nas culturas de gestão das instituições; devido ao impacto de políticas europeias que favorecem pesquisas científicas e ainda considerando o desempenho profissional dos sociólogos. Todos estes factores podem, em maior ou menor grau, representar uma abertura do mercado de trabalho à sociologia.

15 RIBEIRO, Manuel João, “Papel do sociólogo num departamento camarário” in Valente, Isabel, Fernando Luis Machado e António Firmino da Costa (orgs), (1995,1990), Experiências e papéis profissionais de Sociólogos, Lisboa, APS, p.73

16 CAPUCHA, Luis, (1999), “O sociólogo na avaliação”, in Carreiras, Helena, Freitas, Fátima e Valente, Isabel, Profissão Sociólogo, Oeiras, Celta Editora, p.170.

17 COSTA, António Firmino, (2003),” Será a sociologia profissionalizável?”, no prelo, p.16.

18 VILAR, Duarte, (1999), “À procura da sociologia” in Carreiras, Helena, op. cit., p.122.

19 CAPUCHA, Luis, (1999), op. cit., p. 172.

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2.2 Operacionalização de conceitos

Tal como já acima constatámos, são várias as abordagens que poderíamos adoptar neste estudo: poderiam ser centradas em critérios de legitimação ou estratégias de fechamento social; privilegiando a divisão do trabalho e fenómenos de poder e dominação; ou ainda focando a diversidade e os conflitos entre profissões e profissionais.

Nesta breve investigação e por estarmos obrigadas a prazos de entrega da mesma, iremos olhar a profissão do sociólogo como o resultando de um processo que é influenciado tanto por factores exógenos, que se traduzem em contextos institucionais, como por factores endógenos inerentes aos conhecimentos e éticas próprias dos sociólogos.

Para isso utilizaremos o conceito de “culturas profissionais” na análise dos processos de profissionalização e das práticas profissionais dos sociólogos em áreas de intervenção social.

As questões que colocamos na nossa pesquisa são as seguintes:

“Será que podemos aproximar tendencialmente os nossos inquiridos a uma das culturas supracitadas, de Dissociação ou de Associação entre ciência e profissão? E até que medida o tipo de cultura para a qual mais se aproximam têm e/ou tiveram influências nas práticas destes profissionais?”

As culturas profissionais serão aqui divididas em 2 dimensões principais: uma que designamos como “cognitiva” e que pretende dar conta da articulação formação/profissão. Para isso usaremos como indicadores o modo como viveram a sua formação académica e o seu percurso profissional e também a capacidade de mobilizar saberes de base, contextuais e complementares. A outra dimensão que designamos como “ética e reflexiva” servirá para abarcar os sentimentos e representações que os sociólogos têm sobre a sua identidade e papeis profissionais que exercem.

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Conceito

Dimensões

Indicadores

Cultura

profissional

dos

sociólogos

Cognitiva

Conhecimentos

Teóricos

- Trajectória académica

- Actualização conhecimentos

Capacidades

Técnicas

- Estratégias Profissionalização

- Trajectória profissional

- Mobilização Saberes

Ética e Reflexiva

- Preocupações deontológicas

- Associativismo

- Interdisciplinaridade

- Identidade Profissional

- Papel do Sociólogo

3 – Metodologia

3.1 Caracterização da Amostra

Dado que não conhecíamos sociólogos a exercerem actividade na área da intervenção social, o primeiro passo foi recorrer às novas tecnologias da comunicação e através de uma pesquisa na Internet obtivemos uma lista das Institutos de Solidariedade Social, Ipss, Ong’s, etc, que poderiam empregar sociólogos. Após alguns contactos telefónicos com algumas destas instituições ficámos a saber que para conseguir chegar à fala com um sociólogo, necessitaríamos de n pedidos de autorização a diversos serviços e pessoas diferentes, ficando enredadas numa teia de burocracia durante mais tempo do que o disponível para a realização do presente trabalho. No entanto acedemos a um sociólogo no Departamento de Acção Social da AMI. Considerámos depois que seria também produtivo recorrer às nossas competências relacionais. Assim, agradecemos desde já a colaboração do Prof. Luis Capucha, de Joana Vann, colega do ISCTE e da socióloga Marta Ferreira, que nos forneceram vários contactos. Deste modo, conseguimos o contacto de duas sociólogas a exercerem em Vialonga, uma na ADE e outra no Centro Comunitário, outra socióloga colocada na Linha SOS Deixar de Fumar, e, por fim outro do Departamento de Acção Social da Câmara Municipal de Loures. Tentámos diversificar os sociólogos que inquirimos pelo tipo de instituição de trabalho por forma a obtermos um leque o mais alargado possível de experiências e papeis profissionais.

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As entrevistas foram realizadas nos locais de trabalho dos entrevistados. Estes, são na sua maioria sociólogos jovens, que rondam os trinta anos de idade e este é consoante os casos, o primeiro ou segundo emprego. Conforme se pode verificar pelo quadro seguinte, temos mais entrevistados do sexo feminino do que do masculino. Podemos afirmar ainda que entre os sociólogos dos outros locais que contactámos (sem sucesso) a maioria eram mulheres o que vem corroborar os dados da APS sobre a crescente feminização nos profissionais de sociologia (ver p.5). Todos os nossos entrevistados estão profissionalmente ligados à intervenção social e especificamente, com a excepção de uma socióloga (Linha SOS Deixar de Fumar), à área da exclusão. Queremos ainda alertar para o facto de um dos sociólogos entrevistados (entrevistado nº 2), não ter propriamente uma licenciatura em sociologia, mas sim em Investigação Social Aplicada. Incluímo-lo, no entanto, no nosso estudo, por nos ter sido indicado como sociólogo e por considerarmos que se trata mais de uma designação diferente da licenciatura do que propriamente de uma área totalmente diferente, já que o seu curso é constituído maioritariamente por cadeiras e matérias habitualmente pertencentes às licenciaturas de Sociologia das outras faculdades.

Inquirido

Sexo

Universidade

Ano em

Local de

Cargo que

e

que se

trabalho

desempenha

Licenciatura

licenciou

 

1 Feminino

Autónoma

1996

ADE –

Directora de escola de formação profissional

Associação p/

Sociologia

Desenvolv. e

 

Emprego

 

2 Masculino

Moderna

2001

AMI –

Técnico de investigação social (equipa de rua e jornal da AMI)

Inv. Social

Assistência

Aplicada

Médica Int.

 

3 Feminino

ISCTE

1999

Centro

Coordenadora do centro comunitário de Vialonga

comunitário de

Sociologia

Vialonga

 

4 Feminino

ISCTE

1998

INCP - SOS Deixar de Fumar

Promotora de saúde (linha SOS Deixar de Fumar + acções sensibilização escolas)

Sociologia

 

5 Masculino

Autónoma

1999

Seg. Social – Dptº. Acção Social (C.M. Loures)

Técnico Superior 2ª classe (Prog.Comunitário, prog. ajuda alimentar, estatísticas)

Sociologia

Práticas Profissionais em Sociologia

15

ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

3.1 Técnicas de recolha de dados

Face ao nosso objecto de estudo, a cultura profissional dos sociólogos da intervenção, considerámos mais adequado para a recolha de informação o uso da entrevista semi- directiva, por forma a permitir obter resposta às nossas questões chave sem no entanto excluir as informações inesperadas ou paralelas que pudessem surgir no decorrer do processo de comunicação. Ou seja, pretende-se assim deixar caminho livre às interpretações e expressão de sentimentos dos entrevistados pelas suas próprias palavras.

As técnicas intensivas de recolha de informação apesar de não permitirem inquirir o número de pessoas que se inquirem com os inquéritos por questionário e deste modo não se colocar sequer a questão da representatividade estatística, permitem alcançar uma profundidade sobre o tema que seria impensável com outros métodos, ou seja, uma informação muito mais rica, detalhada e, por vezes até, inesperada.

3.2 Técnicas de tratamento da informação

Relativamente à análise de conteúdo das entrevistas surgiram algumas dificuldades como, por exemplo, o facto do tratamento da informação demorar muito tempo devido à necessidade de interpretação de muitas que por vezes possuem diversos sentidos implícitos. Embora tenhamos optado por analisar as entrevistas na íntegra e não proceder a um resumo, não tomámos em conta na nossa análise determinados factores como erros de sintaxe, hesitações ou a ordem de aparecimento das preposições. Procedemos a uma análise temática vertical, ou seja, analisámos aprofundadamente cada entrevista de cada sociólogo per si procurando a explicação para as nossas questões a um nível singular, isto é, procurando perceber as representações e práticas de cada um e a aproximação maior ou menor de cada sociólogo a um dos dois modelos de cultura profissional já enunciados, para depois se aplicar então uma análise de conteúdo horizontal na expectativa de se poderem estabelecer comparações, relações e agrupamentos entre os entrevistados.

4 – Análise dos resultados

Conforme se pode verificar pela nossa amostra, a maioria dos entrevistados acabaram os seus cursos à relativamente pouco tempo, portanto já num contexto de consolidação da sociologia enquanto disciplina científica, o que teve decerto influências decisivas quer na escolha do curso, quer nas suas estratégias de profissionalização e nas suas representações sobre a sociologia.

Práticas Profissionais em Sociologia

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ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

4.1. Dimensão Cognitiva

Neste primeiro ponto vamos incidir sobre aspectos práticos que caracterizam a cultura profissional dos nossos inquiridos, relacionados com a aquisição e a posterior utilização das suas diversas competências.

4.1.1. Conhecimentos teóricos

No que diz respeito à trajectória académica dos sociólogos entrevistados e à aquisição de conhecimentos verificámos que os interesses temáticos destes profissionais durante a sua formação já estavam ligados à área da exclusão social e políticas sociais. Exemplo disso são os casos das sociólogas de Vialonga. A Directora da Escola de Formação Profissional da ADE, fez a sua tese em Políticas Culturais para os jovens e a Coordenadora do CCV cuja área de interesse já se enquadrava na exclusão social fez a sua tese de licenciatura Realojamento e desenvolvimento social. Apenas o sociólogo da AMI não expressou interesse numa área especifica, o que pode talvez ser consequência das características particulares do seu curso 20 .

As expectativas que tinham, durante a sua formação, em relação à inserção no mercado de trabalho não eram as mais positivas para todos os inquiridos. Contudo esta situação não lhes retirava a motivação como podemos constatar pelo seguinte relato:

“ lembro-me

que nós abríamos o jornal e não, ninguém pedia sociólogos! E eu pensava

assim: Bem isto há-de dar uma grande volta, isto em 5 anos, vai custar a passar, isto é muito ano, isto até lá muita coisa muda, vou é gozar estes anos.” Socióloga do CCV (ent.3, p.8)

Apesar do pessimismo que antecedia a entrada na vida activa, a transição para o mercado de trabalho foi rápida para a maioria dos casos. Foi adoptada como estratégia de profissionalização por três deles a inscrição no gabinete de estágios da sua universidade. O voluntariado em instituições de solidariedade foi outra das estratégias utilizadas assim como candidaturas expontâneas a instituições e o recurso a amizades e docentes.

Apenas duas sociólogas acabaram de facto por efectuar estágio académico, conseguidos, uma através de um docente (socióloga do CCV) e outra através de candidatura expontânea a um Colégio da Casa Pia (Socióloga da Linha SOS D.F.). O estágio é considerado por ambas como uma estratégia da extrema importância para a profissionalização, uma “porta” para o

20 Licenciatura em Investigação social aplicada

Práticas Profissionais em Sociologia

17

ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

mercado de trabalho; uma delas chega a afirmar que o estágio deveria ser obrigatório nas licenciaturas, pois acredita que foi através do estágio que todo o seu percurso profissional se desencadeou, além de facilitar a percepção de como funcionam de facto as coisas na prática profissional:

“Sim, porque se eu pensar e se fizer o encadeamento das coisas

(

)

Quer dizer, depois foi

) Foi

pelo estágio que se lembraram de mim para o Projecto de Luta Contra a Pobreza.(

tudo um encadeamento, não é. Tudo vindo do estágio. Se a gente pensar que

o estágio abre, abre muitas portas e pelo menos é mais uma coisinha que a gente tem no

currículo e já sabemos mais ou menos como é que as coisas funcionam.” Socióloga do CCV (ent.3, p.10)

é por isso que

O caso excepção foi o sociólogo do Dptº Acção social da Seg. Social que demorou um ano até conseguir um emprego na área da sociologia, tendo contudo realizado algumas actividades para “sobreviver”:

“ia fazendo uns biscates, umas coisas, para se ganhar algum dinheiro, não é, para se sobreviver”.

Sociólogo do Dptº. Acção social - CM Loures (ent.5, p.2)

Ainda sobre a aquisição de conhecimentos teóricos, considerámos também necessário analisar a procura da actualização de saberes e a importância que os sociólogos lhe conferem. Constatámos que o interesse pela sociologia permanece na maioria dos casos, mas que a actualização dos conhecimentos é dificultada pelas rotinas profissionais, falta de tempo e meios económicos:

estudar mais para quê? Qual é o teu objectivo?

Só que o estudo não mata a

fome. Não paga uma casa que ainda não tenho mas quero vir a ter, não me paga as

prestações do meu carro esses custos.”

temos que ter alguma estabilidade financeira para suportar

“A minha mãe farta-se de dizer

mas

Queres ficar a vida inteira a estudar? Eu não me importava (

e

)

Sociólogo do Dptº Acção social - CM Loures (ent.5, p.11)

Parece-nos importante notar que a actualização de saberes referida por alguns destes profissionais não é realizada por iniciativa própria mas sim através dos institutos aos quais estão vinculados e que organizam cursos de formação destinados aos funcionários ou divulgam seminários e congressos sobre assuntos normalmente relacionados com o serviço.

Práticas Profissionais em Sociologia

18

ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

Nós aqui temos

também a funcionar o projecto EQUAL e uma das acções do projecto são workshops destinados aos técnicos da entidade. E pronto, algumas visitas a outras entidades para também ter conhecimento da forma como funcionam.”

Socióloga da ADE (ent.1, p.7)

“Ás vezes assisto a workshops, mas exactamente na área especifica

)sei de algumas coisas principalmente por correio interno, que são enviados por fax e

por cartas, propostas para congressos e para coisas do género, quer para assistentes

(

sociais quer para sociólogos(

)”

Sociólogo do Dptº Acção social - CM Loures (ent.5, p.7)

O sociólogo da AMI, apesar de considerar a actualização de saberes importante em termos profissionais e de valorização pessoal, confessa que para além de, por vezes, assistir a congressos ou seminários ou de consultar os apontamentos da faculdade quando sente necessidade, não se tenta actualizar de mais nenhuma forma:

“Agora em termos de procurar informação para ler de sociologia, não tenho tido tempo, tempo e vontade”

Sociólogo da AMI (ent.2, p. 4)

Contudo o panorama não é todo o mesmo. Duas sociólogas além de atribuírem uma grande importância ao factor actualização de conhecimentos, procuram de facto, manter-se actualizadas. Desde a realização de pós-graduações, diversos cursos de formação, assistir e participar em congressos e seminários, até ao procurar manter-se a par de novas publicações em sociologia, estas duas sociólogas mostram-se bastante activas na efectiva actualização de conhecimentos, para além dos saberes contextuais que vão adquirindo naturalmente durante o exercício da sua actividade:

“Ah, isso, eu passo a vida a fazer cursos (

)

estou sempre a tirar cursos para continuar a ”

manter-me informada e há sempre livros que saem

Socióloga do SOS Deixar de Fumar (ent.4, p.5)

A outra socióloga, além de tudo isto é também assinante da revista Sociologia, Problemas e Práticas. Sente contudo que a actualização que faz, ainda não é o suficiente:

Práticas Profissionais em Sociologia

19

ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

“Há (

)

investigações novas e por mais que a gente queira

eu,

pelo menos, não consigo

estar assim muito, actualizada, sou sincera pronto”

4.1.2. Capacidades técnicas

Socióloga do CCV (ent.3, p.11)

Passamos agora para outro aspecto fundamental na identificação do tipo de relação entre formação/profissão e consequentemente no tipo de cultura profissional destes sociólogos. Segundo António Firmino da Costa “Não basta ter conhecimentos discursivos acerca da sociologia para ser capaz de transportar eficazmente esses conhecimentos para a prática sociológica, nomeadamente para a esfera profissional”. 21 Assim, daremos aqui especial atenção à avaliação das capacidades técnicas e, nomeadamente da capacidade que estes profissionais demonstram, na mobilização dos seus conhecimentos para a prática profissional actual concreta em que estão inseridos.

Quase todos os nossos inquiridos, em virtude da sua jovem idade, encontram-se no primeiro ou segundo emprego, tendo uns realizado alguns trabalhos pontuais e por vezes em simultâneo com as suas ocupações profissionais principais.

Mobilização de saberes

As competências sociológicas que estes profissionais reconhecem usar no desempenho das suas funções são sobretudo de cariz metodológico e operatório: a elaboração de relatórios e diagnósticos, caracterização sociográfica das populações e o tratamento dos consequentes dados estatísticos. O SPSS é usado apenas por três dos nossos entrevistados. Duas sociólogas que tiraram a licenciatura no Iscte (entrevistadas 3 e 4) e uma terceira que aprendeu a trabalhar em SPSS durante o tempo em que foi colaboradora do CIES (entrevistada 1). Os outros dois entrevistados, (Moderna e UAL) apesar de trabalharem com estatísticas, não sabem usar este programa.

Apesar da aplicação destes conhecimentos metodológicos, no que se refere a conhecimentos mais teóricos e conceptuais, três dos nossos entrevistados mesmo reconhecendo nos seus conhecimentos base, um pano de fundo ou uma rede de apoio para as suas práticas profissionais e de referirem um ganho de sensibilidade acrescida para todos os fenómenos da vida social, deixam transparecer alguma dificuldade na aplicação prática desses conhecimentos de base. Apesar de sentirem que estes conhecimentos teóricos estão sempre presentes, não são usados no quotidiano ou então que são usados mas de uma forma indirecta, quase inconsciente:

21 COSTA, António Firmino da, (2003), op. Cit, p. 15

Práticas Profissionais em Sociologia

20

ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

“Eu acho que isso tudo acabou por ficar um bocado intrínseco a nós próprios ( depois nós no dia a dia usamos sem nos apercebermos.”

)

que

Socióloga do CCV (ent.3, p.11-12)

“Conhecimentos

estou

a aplicá-los, se calhar, intrinsecamente porque em termos

acho que os vou inserindo

sociológicos e tudo isso não preciso de utilizar muito, não é? ( na minha actividade”

)

Socióloga do SOS deixar de Fumar (ent.4, p.7)

Esta dificuldade pode estar ligada ao facto destes sociólogos se enquadrarem em áreas de actividade (a exclusão e a intervenção social) que requerem ou que lhes parece requerer respostas e acções muito imediatas e operatórias.

Os outros dois entrevistados referem um grande hiato na relação formação/profissão já que não vêem qualquer aplicabilidade do que aprenderam na sua prática profissional:

“Realmente há questões, que só mesmo aqui, estando aqui no terreno ( isso na faculdade, não é?”

) não nos ensinam

Socióloga da ADE (ent.1, p.6)

“As teorias sociológicas não têm prática em termos concretos no trabalho.” Sociólogo da AMI (ent.2, p.3)

Este ultimo entrevistado aponta ainda para a grande discrepância existente entre os cursos de sociologia e a sua aplicação prática e considera serem mais importantes para o exercício da sua actividade, os saberes contextuais do que os da sua formação base.

“Os cursos de sociologia é tudo muito teórico e depois temos no final um trabalho complicadíssimo”

Sociólogo da AMI (ent.2, p.6)

No entanto, há outras opiniões quanto ás vantagens de se ter competências sociológicas. No relato da socióloga do CCV, verificamos que, ainda que não de um modo muito claro, esta valoriza e reconhece a existência de competências relacionais:

Práticas Profissionais em Sociologia

21

ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

que nós conseguimos

sinto, por exemplo, quando temos a reunião de

equipa, aí é, é sintomático e eu sei que consigo ter uma visão muito global das coisas, não

sei se por ser coordenadora, mas há coisas que acho que é mesmo pela formação que nós temos, não é.”

Socióloga do CCV (ent.3, p.7)

Eu acho que a vantagem do sociólogo, pelo menos o que eu sinto

casar muito bem todas essas sinergias (

é

)

Constrangimentos à profissão

De um modo geral todos reconhecem o contributo da sociologia como uma mais valia à sua actividade profissional. Há contudo aspectos que exercem uma certa limitação ao exercício das suas actividades.

Os constrangimentos mencionados são de dois tipos: Financeiros - que decorrem da dependência de fundos para a realização de projectos de intervenção; e Hierárquicos - consequência do facto de todos estes profissionais trabalharem por conta de outrém e por vezes em instituições altamente burocráticas e hierarquizadas, necessitando de aprovação constante das suas funções.

“(

)

dois.”

na última candidatura, candidatámos 11 cursos de formação e só nos aprovaram

Socióloga da ADE (ent.1, p.11)

o

principal é o financeiro (

)

a folhinha do dinheiro do fundo de actividades está sempre

na minha mesa, porque a gente tem que contar tostão a tostão”

Socióloga do CCV (ent.3, p.13)

“aquilo que a pessoa vai fazer, tem de passar por vários chefes, digamos assim, para serem aprovados. O que é uma limitação.”

Sociólogo da AMI (ent.2, p.5-6)

É curioso ainda, para nós, notar um conflito latente entre profissionais nesta área da intervenção social: sociólogos e assistentes sociais.

“Há muitas assistentes sociais com mais de cinquenta anos. Não sei se estão a perceber o

que eu estou a querer dizer. (

é que ela vem fazer? Vem-nos tirar o lugar!”

)

Eu nunca fui aceite por elas, porque: Uma socióloga, o que

Socióloga do SOS deixar de Fumar (ent.4, p.9)

Práticas Profissionais em Sociologia

22

ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

“E depois, também com as assistentes sociais, é difícil. Depois, diga-se que é uma

eu cheguei aqui, ainda por cima vinha coordenar

projectos

rapazinho novo. Quem é este rapazinho que chega aqui e ainda por cima vai coordenar projectos onde nós estamos? Eu que até já tenho trinta e tal anos e quarenta. E outras cinquenta e sessenta. Jamais!. Portanto, houve, houve algumas resistências” Sociólogo do Dptº Acção social - CM Loures (ent.5, p.6-7)

comunidade muito dura, muita dura. (

que

)

chatice, não é? Nós já estamos cá há mais tempo. Ainda por cima um

Autonomia

A ausência de autonomia poderia ser à partida considerada um constrangimento à actividade profissional. No entanto, é considerada “normal” por alguns dos nossos entrevistados no sentido em que consideram sempre útil uma certa orientação base por parte dos seus superiores hierárquicos. Exemplo disso é o sociólogo da AMI, que não tem qualquer poder de decisão (este provém do Director ou do departamento) mas que no entanto considera que:

“Eu acho que em qualquer trabalho as pessoas devem ter, pelo menos, uma orientação daquilo que estão a fazer”

Sociólogo da AMI (ent.2, p.3)

Também o entrevistado nº 5, goza de pouca autonomia profissional mas não se sente constrangido:

“A autonomia na função pública é sempre relativa (

exemplo, o programa comunitário, (

minha coordenadora (

)

)

tenho autonomia para gerir, por

mas há uma satisfação que eu tenho que dar à

tenho uma autonomia q.b.” Sociólogo do Dptº Acção social - CM Loures (ent.5, p.4-5)

)

Os mais privilegiados a este nível, ou seja, os que detêm um maior grau de autonomia são: a Promotora de Saúde, cuja boa relação com a sua superior hierárquica (também socióloga) lhe permite ter algum espaço de manobra, a nível de horários e na organização das acções de sensibilização que faz e em comunicações e campanhas que comunica à chefia apenas no final do ano:

“(

)

eu organizo o dia, faço os contactos, mobilizo as pessoas, portanto tenho toda a

O mesmo se passa com as minhas acções que ”

Socióloga do SOS deixar de Fumar (ent.4, p.6)

liberdade e depois comunico, certamente. (

)

eu faço nas escolas e tudo isso, faço relatórios no final do ano

e a coordenadora do Centro Comunitário de Vialonga que no fundo gere e coordena aquele

núcleo com quase total autonomia tendo apenas de prestar contas num relatório mensal;

Práticas Profissionais em Sociologia

23

ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

“Ah, aqui temos completa autonomia” (

“Olha, ok, avança (

)

Eu própria tenho autonomia para lhe dizer:

)

depois no relatório mensal vai lá

Socióloga do CCV (ent.3, p.12)

Esta socióloga refere que apesar de também existir o “reverso da medalha”, é sempre preferível ter autonomia:

"Por outro lado às vezes a gente trabalha (

)

sem rede” mas: “eu pessoalmente prefiro

trabalhar com autonomia e ter às vezes estes dilemas do que estar numa estrutura burocrática, fechada, muito pesada”;

Socióloga do CCV (ent.3, p.11-12)

4.2. Dimensão Ética e Reflexiva

4.2.1. Preocupações Deontológicas, Associativismo e Interdisciplinaridade

Dos nossos cinco entrevistados apenas um afirmou ter conhecimento da existência do Código deontológico, apesar de nunca o ter lido (entrevista 1) Todos os outros entrevistados nunca ouviram falar do Código. Todos salientam contudo, que observam “regras” de confidencialidade na recolha e tratamento dos dados:

“Na faculdade nunca me foi dado a conhecer ( ”

dizer, é bom senso, é uma questão moral

)

mas quer dizer, há coisas que são, quer

Socióloga do CCV (ent.3, p.14)

Verifica-se nos nossos entrevistados, um notório «distanciamento» relativamente à adesão a associações profissionais de Sociologia. Apesar de todos conhecerem pelo menos a Associação Portuguesa de Sociologia, só um dos nossos entrevistados pertence a uma associação – a APSIOT. Refere contudo, que não serve de nada por ser demasiado vocacionada para a Sociologia do Trabalho:

“Sim, pertenço a (

)

APSIOT

Mas

não aconselho”, “É só seminários vocacionados para

as áreas da sociologia do trabalho e as outras áreas são esquecidas”

Sociólogo do Dptº Acção social – CM Loures (ent.5, p.7)

Também no que concerne ao relacionamento com outros sociólogos, (exceptuando os profissionais ligados por razões profissionais) os contactos com colegas sociólogos são

Práticas Profissionais em Sociologia

24

ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

mantidos apenas por três dos nossos entrevistados. Em todos os casos tratam-se de ex- colegas de curso.

De qualquer forma, a interdisciplinaridade é sempre realçada como sendo importante e nalguns casos, até vital para o bom funcionamento dos serviços e actividades que lhes estão associados:

“Tem que haver uma complementaridade no fundo, entre as várias áreas” Socióloga da ADE (ent.1, p.10)

Apenas uma nas sociólogas entrevistadas afirma não se verificar grande interdisciplinaridade no seu local de trabalho por terem todos, funções muitos específicas e em áreas de actividade muito distanciadas e pouco complementares. Trata-se da entrevistada nº 4 que trabalha no Instituto Português de Cardiologia Preventiva ao lado de médicos, técnicos da saúde, nutricionistas, entre outros.

4.2.2. Papel do Sociólogo e Identidade Profissional

Este ponto trata essencialmente das representações que os nossos entrevistados têm da sociologia e do seu impacto em geral, e do seu papel profissional em particular, ou seja, falamos da Identidade Profissional destes sociólogos.

Relativamente ao papel do sociólogo e às representações sobre a sociologia, todos os sociólogos entrevistados são unânimes quanto à necessidade dos profissionais de sociologia e ao considerar bastante positivo o impacto que têm na sociedade. Uma das entrevistadas chega a dizer que deveria de existir um sociólogo em cada local de trabalho, independentemente da área de actividade, pois:

“a sociologia (

)

é muito importante. Para avaliar tudo!” Socióloga do SOS deixar de Fumar (ent.4, p.10)

Outro, em reposta à nossa pergunta: “Para que serve um sociólogo?”, reponde:

“É a mesma coisa que perguntar, por exemplo, para que é que servem as velas de um automóvel, não é?”

Sociólogo do Dptº Acção social – CM Loures (ent.5, p.6)

Dois dos entrevistados atribuem aos sociólogos uma multiplicidade e abrangência de capacidades e papeis:

Práticas Profissionais em Sociologia

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ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

“(

)

nós temos um bocado essa visão global e acho que temos muito essa capacidade para

aproveitar um bocadinho de toda a gente”

Socióloga do CCV (ent.3, p.8)

“O papel dos sociólogos

eu

acho que os sociólogos se encaixam em tudo. ( ”

a sociologia ,insere-se em qualquer ramo

) Eu acho que

Socióloga do SOS deixar de Fumar (ent.4, p.8)

Por outro lado, os outros três sociólogos, apesar de começarem por atribuir também aos sociólogos uma multiplicidade de papeis e de afirmarem sempre essa «visão global e abrangente» da sociologia, acabam no seu discurso, por admitir implícita ou explicitamente, que concebem a sociologia mais ligada ao ensino e à investigação:

“(

)

a pessoa que está integrada no mercado de trabalho eu acho que se dispersa um ”

bocado daquilo que aprendeu e da própria sociologia

Sociólogo da AMI (ent.2, p.9)

Um deles vai mais longe ao atribuir ao sociólogo não-universitário funções muito específicas e de cariz mais metodológico e operacional:

“Acções que depois tenham que ser postas em prática, o trabalho do sociólogo aí é imprescindível, no diagnóstico, na preparação, na elaboração de grelhas de análise, na

elaboração depois dos relatórios

quer

dizer, faz sentido”

Sociólogo do Dptº Acção social – CM Loures (ent.5, p.6)

É com base neste contexto, e em torno das funções que exercem e das representações sobre a sociologia e sobre o papel dos sociólogos, que os entrevistados vão construindo a sua identidade. Desta forma, e na continuidade coerente dos seus discursos, estes três entrevistados que concebem um hiato na relação ciência/profissão, tanto ao nível dos papeis profissionais concebíveis e da mobilização de saberes, como ao nível da actualização de saberes ou da importância concedida ao grau de autonomia que detêm, como já vimos anteriormente, são também os que apresentam na generalidade apenas uma «Identificação Cultural» 22 com a sociologia, no sentido de experimentarem uma “sensibilidade sociológica” que não implicará contudo uma relação directa com as actividades que exercem. Alguns destes sociólogos chegam a afirmar peremptoriamente que não se identificam como sociólogos:

22 COSTA, António Firmino da, (2003), op. cit., p. 8

Práticas Profissionais em Sociologia

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O Sociólogo na Intervenção Social

“Digo que sou técnica responsável pela área de formação profissional da instituição em que trabalho”

Socióloga da ADE (ent.1, p.9)

“Não digo que sou sociólogo, sou «sociologista» (

)

é ser sociólogo, assim às vezes”

Sociólogo do Dptº Acção social – CM Loures (ent.5, p.8)

O entrevistado nº 2, apesar de afirmar que se identifica perante os outros como investigador social, técnico social ou sociólogo, admite depois que o faz, essencialmente, para dar a conhecer o seu curso (Investigação Social Aplicada) e para de alguma forma valorizar a sua formação e, não tanto por se identificar de facto como sociólogo, já que todo o seu discurso deixa claramente transparecer uma «Cultura de Dissociação»:

“Sou investigador social (

“Eu acho que devo valorizar aquilo que tirei, não é?”

)

Outras vezes digo que sou técnico social ou sociólogo” (

)

Sociólogo da AMI (ent.2, p.4)

Pelo contrário, as outras duas sociólogas (entrevistadas 3 e 4), além desta “sensibilidade sociológica”, possuem também uma «Identificação Profissional» já que pressupõem uma certa operatividade profissional dos conhecimentos de base que possuem e se identificam efectivamente como sociólogas:

“Sinto-me socióloga. Sempre, isso sempre.”

Socióloga do CCV (ent.3, p.16)

A entrevistada nº 4, não obstante responder que faz promoção da saúde e só referir que é socióloga, quando lhe perguntam sobre as suas habilitações, demonstra na globalidade do seu discurso uma identificação com a sociologia muito maior do que a dos entrevistados 1, 2 e 5, como se pode verificar, por exemplo, nesta sua afirmação:

“(

)

mas, para mim, o curso foi uma mais valia e tento aplicá-lo o máximo possível.” Socióloga do SOS deixar de Fumar (ent.4, p.7)

Práticas Profissionais em Sociologia

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ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

4.3 Cultura profissional

Tendo em consideração tudo o que atrás foi exposto, resta-nos tentar responder às perguntas iniciais que orientaram este estudo tentando perceber se os nossos entrevistados se aproximam tendencialmente de algum dos modelos de Cultura Profissional propostos por António Firmino da Costa. Dizemos tendencialmente, porque como ficou explícito através da análise das entrevistas, os nossos entrevistados não “preenchem” exaustivamente todas as premissas de cada modelo de cultura profissional. Cada um deles aproxima-se, no entanto, mais de um ou outro modelo.

De facto, se tivermos em conta a importância dada à autonomia que detêm no decorrer das suas funções, à actualização de saberes e neste ponto também à prática efectiva desta actualização, à concepção do papel do sociólogo, da relação entre a sociologia enquanto ciência e a sociologia enquanto profissão, e neste sentido, também à forma como procedem à mobilização de saberes e por ultimo, ao sentimento de identidade com a sociologia, podemos considerar que os sociólogos 1, da ADE, 2 da AMI e 5 do Dptº. Acção Social da S.S.Loures, se aproximam tendencialmente da Cultura de Dissociação enquanto que as sociólogas 3 do Centro C. Vialonga e 4 da Linha SOS Deixar de Fumar se aproximariam mais do modelo de Cultura de Associação entre ciência e profissão.

Vejamos. São estas as que apresentam uma maior identificação profissional com a sociologia, que conferem ao sociólogo uma maior abrangência de papeis profissionais, que mais valorizam a autonomia (e também que mais autonomia detêm), que mais preocupações demonstram com a actualização de conhecimentos e também que mais esforços fazem neste sentido, que melhor aproveitam e relacionam as diversas competências teóricas, metodológicas, relacionais e operatórias e que melhor estabelecem a ponte entre os diversos saberes de base, contextuais e complementares no exercício das suas actividades.

O sociólogo nº 2, da AMI, é o que, de todos, o que melhor se parece enquadrar na Cultura de Dissociação. Concebe a sociologia enquanto ciência totalmente separada da sociologia enquanto profissão; não possui nem dá importância à autonomia na actividade laboral; apesar de considerar a actualização de saberes importante, não demonstra praticamente nenhuma iniciativa (nem vontade) nesse sentido; concebe como importantes apenas as competências operatórias (e talvez também um pouco, as metodológicas), os saberes contextuais acima de tudo e por último, identifica-se como um investigador social apenas como forma de valorizar a licenciatura que tirou. Aliás, este é um dos factores que nos impedem de tecer uma conclusão peremptória em relação a este caso, pois devemos ter em conta que esta aproximação à cultura de dissociação pode estar relacionada com as particularidades do seu curso (ver nota de rodapé 19).

Práticas Profissionais em Sociologia

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ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

Não considerámos aqui os diversos aspectos relacionados com as preocupações deontológicas, de associativismo profissional e a importância dada à interdisciplinaridade, por todos os entrevistados apresentarem um paralelismo nas respostas a estas questões: Todos desconhecem o Código Deontológico e apresentam um certo distanciamento com o associativismo profissional. Consideram positiva a interdisciplinaridade, por considerarem que todas as áreas do saber são essenciais ao bom funcionamento das suas actividades e ao exercício de reflexividade característico da “sociedade do conhecimento” em que vivemos.

5 – Considerações finais

No decorrer da análise das entrevistas, optamos a cada ponto por ir tecendo as considerações que nos pareceram pertinentes. Assim, seria redundante retomar essas observações, pelo que salientamos apenas que as duas sociólogas que mais se aproximam do modelo de Cultura de Associação, se licenciaram no ISCTE. Estamos conscientes que a nossa amostra não é representativa. Contudo, julgamos que este facto poderia ser o ponto de partida para uma futura investigação, que visasse perceber a relação dos currículos das licenciaturas e do ambiente vivido em cada faculdade com as culturas profissionais dos seus licenciados. Isto porque o resultado da nossa pesquisa parece apontar no sentido de que a diferentes modelos de formação em sociologia 23 corresponderão diferentes culturas profissionais dos sociólogos o que vem corroborar a afirmação de João Ferreira de Almeida: “o modo como se trabalha em Sociologia, a variedade das suas inserções, as características da sua cultura profissional estão necessariamente presentes no ensino da disciplina, algum tipo de influência exercem sobre os conteúdos, as pedagogias, os objectivos desse ensino”. 24

Apesar de ser possível aproximar cada sociólogo a um modelo específico de Cultura profissional, importa referir que a divisão entre estes é cada vez menos rígida, dado que a Cultura de Associação é um modelo emergente, se não ainda nas práticas, pelo menos nas representações dos sociólogos no nosso país.

Salientamos ainda que os nossos entrevistados parecem não reconhecer a importância do papel das associações profissionais na consolidação do seu estatuto e do papel que poderão ter na integração e nos processos de profissionalização dos licenciados. Cabe a cada um de nós tentar fomentar o associativismo profissional e à APS continuar o seu trabalho de aproximação e unificação dos sociólogos.

23 COSTA, António Firmino da, (2003), op. cit., p. 10 24 ALMEIDA, João Ferreira de, (1992), Trabalhar em Sociologia, ensinar Sociologia, in Sociologia, problemas e Práticas, nº 12, Mem Martins, Publicações Europa-América, Lda, p.193.

Práticas Profissionais em Sociologia

29

ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

Por último, importa apontar algumas falhas que reconhecemos no nosso trabalho, nomeadamente na recolha dos dados. Temos consciência que algumas das questões que colocámos aos nossos entrevistados poderiam ter sido um pouco mais aprofundadas, nomeadamente, a questão da importância atribuída à autonomia e a questão das motivações que levaram à escolha da sociologia. Também teria sido importante averiguar sobre os vínculos e estabilidade profissional de cada um e as expectativas que estes sociólogos teriam em relação à sua profissão.

Práticas Profissionais em Sociologia

30

ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

Bibliografia

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31

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O Sociólogo na Intervenção Social

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que modernidade?, Oeiras, Celta Editora.

Práticas Profissionais em Sociologia

32

ISCTE, 2003

O Sociólogo na Intervenção Social

ANEXOS

Práticas Profissionais em Sociologia

33

ISCTE, 2003

QUADRO RESUMO DAS ENTREVISTAS

Instituição

                     

Ensino

Licenciatur

Áreas de

Institui

 

Trajectória

Actualizaçã

o saberes

Mobilização

saberes

Papel do

sociólogo

 

a

Ano fim

curso

maior

interesse

no curso

ção de

Empre

go

Cargo /

Funções

profissional e

Estratégias de

profissionalização

Autonomia

 

Constrangimento s à profissão

- Código deontológico

- Associativismo

- Interdisciplinaridade

Identidade

Profissional

Outras

       

formações

 

Culturas

ADE –

Directora da

Aplicação de

Pouca: o trabalho é feito em

Financeiros:

 

Assiste a workshops destinados aos técnicos da entidade, no âmbito do projecto EQUAL (ex:

Aplica alguns conhecimentos metodológicos (SPSS). Sente que não aplica os conhecimentos teóricos no

- “Eu sei que existe mas

Vê o sociólogo capaz de

 

Não se identifica como socióloga:

Juvenis

Associaç

escola de

questionários p/ a CMVFX; Participação num Projecto Câmara e IPJ, (6

equipa.

 

Dependência de fundos comunitários para a execução dos projectos propostos; refere tb. constrangim. burocráticos

nunca li” Contudo, tem preocupações deontológicas no desenvolvimento de

desempenhar uma multiplicidade de

Tese:

ão para o Desenvol.

formação

 

papeis: “(

)

a sociologia dá para

   
 

Políticas

profissional -

Os conteúdos das formações

trabalhar em quase tudo.” (8)

 

“Digo que sou técnica responsável pela área da formação profissional da instituição em que trabalho” (9)

Culturais da

e

meses, durante a tese);

sãodefinidos pelo IFP.

 

conciliação entre vida familiar e profissional + gestão documental + marketing social).

quotidiano:

estudos.(7)

 

Juventude

Emprego

Formadora e

Deu formação profissional

   

mas

associa-o mais à área da

 

- UAL

em V.F.Xira

colaboradora

num curso p/ amas (através do Prof.

Os projectos estão sujeitos à aprovação da CMVFX

“Realmente há questões, que só mesmo aqui, estando aqui

-

“Conheço a APS, mas não

investigação e da docência.

num estudo

 

pertenço”(8)

 

- Sociologia

sobre

Capucha);

 

“(

)

na última

 

no terreno(

)não

nos ensinam

Considera positivo e necessário o

 

populações

Caract. Sócio-gráfica c/

candidatura, candidatámos 11 cursos de formação e só nos aprovaram dois.” (11)

Faz visitas a outras entidades para intercâmbio de conhecimentos (mas não por iniciativa pessoal, antes da entidade)

isso na faculdade, não é.”(6)

-

Realça a importância da

papel do sociólogo em sociedade

 

- 1996

emigrantes

duas pessoas do CIES +

interdisciplinaridade: “Tem que haver uma

principalmente para a consciencialização dos problemas.

Como resposta à pergunta se associava mais a sociologia à

investigação e à

avaliação de projecto na

mas

realça a sua importância

- Curso de

Access

Castanheira do Ribatejo

(Capucha); Colaboradora do CIES durante uns meses; Entrada no ADE em 2001 através de projecto da CMVFX.

e

necessidade:

complementaridade no fundo, entra as várias áreas” (10)

“É

assim, faz falta. Faz porque causa

 

“(

)trabalhamos

muito no

da

formação de base.(

)

Tem uma

 

docência, respondeu:

 

terreno, resolvemos questões

-

Não mantém contactos com

perspectiva, uma abrangência dos

“Sim” (9)

do dia-a-dia e se calhar precisávamos debruçar mais

outros sociólogos sem ser aqueles com que trabalha.

problemas sociais(

)Outras

áreas

não os focam da mesma forma”(10)

 

sobre questões teóricas.”(9) e,

 

“(

)

acho que falta um bocado

essa vertente teórica(

)”

(9)

 

Pretendia

AMI –

Técnico de

Depois do curso fez

O

poder de decisão depende

Constrangimentos a

Por vezes assiste a

 

“As teorias sociológicas não têm prática em termos concretos no trabalho.” (3)

-

Não conhece o código

“Esta é uma questão complicada. Não

“Sou investigador

fazer algo

Assistênc

investigação social no

voluntariado na linha 123 (apoio a

do

director ou do

nível das hierarquias. As decisões passam por várias pessoas:

seminários. “Agora em termos de procurar informação para ler de sociologia, não tenho tido tempo, tempo e vontade” (4)

deontológico mas tem cuidado

sei ao certo o que é que hei-de dizer.”

social.(

)

Outras vezes

ligado ao

ia Médica

departamento:

 

na recolha e tratamento dos dados.

(8)

 

digo que sou técnico social ou sociólogo” (4). Principalmente para valorizar a sua formação: “Eu acho que devo valorizar aquilo que tirei., não é?” (5)

Considera que faz investigação ao pesquisar p/ o jornal.

 

Social

Internaci

depart. de

toxicodependentes e sem-

“Portanto em termos

   

Considera a sociologia necessária à

(Sociologia

onal

acção social da AMI -

abrigo);

concretos não posso tomar decisões” (3) mas não vê

“aquilo que a pessoa vai fazer, tem de passar por vários chefes, digamos assim, para serem aprovados. O que é uma limitação.”

(5)

Considera mais importante os saberes contextuais do que os de formação base p/ o exercício da sua actividade.

 

sociedade mas acha que os cursos

ou

-

Relativamente à APS: “Já

são demasiadamente teóricos:

 

- Moderna

Antropologi

 

Integrou a AMI através de

isso como um

 

ouvi falar. Não editou um livro?” (7).

“Os cursos de sociologia é tudo muito teórico e depois temos no final um trabalho complicadíssimo” (6) e, como consequência:

“(

)a

pessoa que está integrada no

a)

Colabora na

candidatura espontânea

constrangimento:

 

- Investig.

Social

Aplicada

Tese em

Sociol. da

equipa de rua

e elabora o jornal da AMI:

“Eu acho que em qualquer trabalho as pessoas devem

ter, pelo menos, uma orientação daquilo que estão

Consulta os apontamentos da faculdade.

No entanto, acha que há uma ligação entre o que aprendeu no curso e a actividade profissional, nomeadamente na aplicação de saberes metodológicos: relatórios, estatística. (não trabalha com SPSS)

Mantém contactos com dois colegas de curso que não trabalham em sociologia.

Saúde

«AMI Social»

 

Não se actualiza mas

mercado de trabalho eu acho que se

- 2001

a

fazer” (3)

considera a actualização de saberes importante em termos profissionais e de valorização pessoal.

 

dispersa um bocado daquilo que

 
 

-

Contacta com psicólogos,

aprendeu e da própria sociologia

 

- não tem

assistentes sociais, contabilistas, prof. das relações internacionais, etc., no local de trabalho

enfim”(9)

 

O

sociólogo deve ser multifacetado,

 

um pouco de tudo

 
 

Área de

Centro

Coordenadora

Recusou um estágio p/ a

Gere e coordena o Centro

 

Os constrangimentos

-

É assinante da

Apesar de considerar que muito

-

Não conhece o código

Não concebe a sociol./ciência

 

Identifica-se como socióloga a pesar de perante os outros não dizer que é socióloga:

interesse:

Comunitá

do centro

Câm.Lx através do Gab. estágios do Iscte e fez

com quase total autonomia:

apontados são

 

Sociologia, Problemas e Práticas.

do que se aprende não se

deontológico mas respeita

separada da sociol./profissão:

Pobreza e

rio de

comunitário

“Ah, aqui temos completa

 

essencialmente

aplica:

“regras” de bom senso na sua

 
 

Exclusão

Vialonga

estág. Académico num gab.do PER, do Projecto Social de Realojamento,

autonomia”(12)

 

financeiros:

 

-

Fez uma pós-graduação,

actividade: “Na faculdade

“(

)a

formação que tenho dá-me,

 

social

   

(ainda falta defender)

“Há muita coisa que a gente

nunca me foi dado a conhecer”(14), “mas quer dizer, há coisas que são, quer

acho eu que dá-me, mais-valias para

 

Coordena todas as

Só dá conhecimento ao Director nos relatórios

 

o

principal é o

(direccionada para os funcionários Câmara e

aprende mas que depois não se ”

aplica, se bem que é assim

o

cargo que desempenho e isso está

“(

)quando

a pessoa

Tese em

(conseguido através do

financeiro(

)

a folhinha

sempre presente, quer dizer, eu acho

não se quer chatear muito e não está para falar muito diz que é

- ISCTE

Realojamen

actividades e serviços do

Prof.Capucha). De 2000 a

mensais. “Eu própria tenho autonomia para lhe dizer: “Olha, ok,

do dinheiro do fundo de actividades está sempre na minha

leccionada em V.F.X)

(11),

dizer, é bom senso, é uma ”

questão moral

(15)

que «sociólogos uma vez, sociólogos para sempre», aquela formação,

to e

2001

colaborou (durante 2

-

Assiste c/ frequência a

- Sociologia

desenvolvi

centro: um

anos) no Proj. Luta Contra

seminários diversos, tendo feito uma

os conhecimentos base estão sempre presentes:

 

aquela lavagem que a gente leva ,

 

coordenadora do centro ou é técnica do

mento

gabinete de

a

Pobreza na Póvoa Sta.

avança (

)

depois no

 

mesa, porque a gente

-

Conhece a APS e esteve

está sempre presente” (17)

 

- 1999

social

atendimento

Iria. Foi mediadora de

relatório mensal vai lá

(12)

tem que contar tostão a tostão” (13)

comunicação num, no âmbito do projecto EQUAL em Barcelona.

 

quase para se associar, mas deixou passar.

 

centro(

)

mas,

integrado com

formação na ADE durante

 

“Eu acho que isso tudo acabou

Considera que o impacto dos

   

- Pós

graduação em Políticas Sociais Locais da UAL (no âmbito de um projecto

apoio

5 meses em simultâneo c/

Apesar de ter o reverso da

 

por ficar um bocado intrínseco

 

sociólogos, se pudesse ser medido

 

“Sinto-me socióloga. Sempre, isso sempre.”

psicológico, visitas da Seg.Social e CPCJ, Univa, ATL + Clube de jovens, Biblioteca, Casa da Juventude e cursos de formação.

o

PLCP.

medalha:

 

“Outro constrangimento é estar dependente das comunicações e estar à espera dos despachos, são coisas muito demoradas” (14)

-

Tenta manter-se a par de

a

nós próprios (

)

que depois

-

Tem contactos com

seria bastante positivo.

 

Em Janeiro 2002 - Centro Comun. como técnica do Gab. Apoio Social. Em

"Por outro lado às vezes a

investigações e novas

nós no dia-a-dia usamos sem

sociólogos da área do Alentejo

 

(13)

gente trabalha (

)

sem rede”

publicações em livrarias.

nos apercebermos” e, “as

de onde é originária

A

vantagem do sociólogo é conseguir

(12),

-

Sente contudo que é

coisas estão cá, não é, e de

articular os vários saberes: “Eu acho

2003

passa a

 

insuficiente: “Há (

)

certeza que foi das aulas que se assistiu, do que se aprendeu, de leituras que se

-

Trabalha com diversos

que a vantagem do sociólogo(

que

coordenadora.

prefere ter autonomia: “eu

 

investigações novas e por mais que a gente

profissionais de diferentes áreas e acha que a

nós conseguimos casar muito bem

 

todas essas sinergias”(7), “(

)nós

   

interdisciplinaridade é essencial ao bom funcionamento do serviço.

 

da Câmara

Municip.)

Considera o estágio crucial para integração no mercado trabalho e acha que devia ser

obrigatório.(9)

pessoalmente prefiro trabalhar com autonomia e

ter

que estar numa estrutura burocrática, fechada, muito pesada.” (14)

às vezes estes dilemas do

pelo menos,

não consigo estar assim muito, actualizada, sou sincera pronto”(11)

queira

eu,

fez

(12)

temos um bocado essa visão global e acho que temos muito essa capacidade para aproveitar um bocadinho de toda a gente” (8)

34

QUADRO RESUMO DAS ENTREVISTAS

 

Sociologia

Instituto

Promotora de

Estágio académico na

Tem alguma autonomia a

Não refere constrangimentos tanto que a directora tb. é socióloga: “Eu dou-me muito bem com a Dra. Isabel Machado, ela também tem a mesma formação que nós e como tal entendemos as coisas mais ou menos da mesma maneira.” (6) Na Casa Pia, rejeitaram todos os projectos que apresentou. Encontrou uma grande resistência por parte das assist.sociais “Eu nunca fui aceite por elas” (7)

Tenta manter-se actualizada fazendo vários cursos (na área da saúde

Aplica conhecimentos metodológicos (SPSS) e conhecimentos teóricos de

-

Em relação ao Código

 

“O papel dos sociólogos

eu

acho

 

“O que eu faço. Faço promoção de saúde. ( Só quando me perguntam as habilitações ou

)

da família

Nacional

saúde

Casa Pia (durante a tese)

nível de horários e na

Deontológico: “Nunca ouvi falar! Tenho que ir saber

que os sociólogos se encaixam em

Tese:

de

através de candidatura

organização das acções de

tudo.(

)

Acho que devia de haver um

 

Representa

Cardiolog

Avaliadora do

espontânea onde ficou a

sensibilização que faz e em

e

outras):

base como «pano de fundo».

disso”(6)

 

sociólogo em todo o lado.(

)

E foi

 

- ISCTE

ções

ia

concurso ‘Quit

trabalhar mais um ano.

comunicações e campanhas

 

isso que me fascinou quando fui tirar

- Sociologia

familiares

Preventiv

&

Win’,

que comunica à chefia no

“Ah, isso, eu passo a vida

“Conhecimentos

estou

a

-

Conhece a APS mas não

o

curso

(8)

qualquer coisa assim é que digo que sou socióloga” (9/10)

de crianças

a

– Linha

Colabora na

Em 2000, entra no INCP

final do ano:

a

fazer cursos (

)

estou

aplicá-los, se calhar, intrinsecamente porque

pertence, nem a qualquer outra associação de sociologia.

   
 

em

SOS

Linha SOS

para avaliação do

sempre a tirar cursos para

 

em

Considera a sociologia bastante abrangente mas muito desaproveitada em Portugal.

 

- 1998

instituição

Deixar de

Deixar de

concurso Quit & Win

“O mesmo se passa com as

continuar a manter-me

termos sociológicos e tudo isso não preciso de utilizar muito,

 

de

Fumar

Fumar;

(através da Dra.Isabel

minhas acções que eu faço nas escolas e tudo isso, faço ”

relatórios no final do ano

 

- CAP –

Certificado

acolhimento

Organiza acções de promoção e

Machado, socióloga) Faz estágio profissional no INCP por proposta

informada e há sempre ”

livros que saem

(5)

não é? (

inserindo na minha actividade

)

acho que os vou

toda a gente

faz de tudo, mas não sei se o

-“aqui dentro(

)

Atribui aos sociólogos uma capacidade de papeis bastante abrangentes, e evidencia a

de Aptidão

(6)

e,

assistindo a congressos

“(

)

mas, para mim, o curso foi

conceito de

 

Pedagógica

sensibilização

deste ao IEFP, e fica lá a

e

seminários:

uma mais valia e tento aplicá-lo

interdisciplinaridade será

 

+

da saúde em escolas e empresas; Tem

trabalhar desde então.

Contudo, estas são definidas pelos seus superiores hierárquicos.

o

máximo possível.” (7)

 

muito adequado”(5) As funções de cada um são

muito específicas e não se cruzam

importância da reflexividade que resulta de um maior conhecimento

 

Diversos

“Tento ir. Sim. Tudo o que sei, vou.” (5)

cursos

No entanto refere que para aplicar directamente o curso teria de estar a dar aulas de Sociologia.

sobre a realidade fornecido pelos

 

formação

a

seu cargo a

   

sociólogos: “a sociologia (

muito

organização e

 

importante. Para avaliar tudo! (

)

Eu

arquivo da

acho que quanto mais conhecimento tivermos de todas as situações que nos rodeiam, de tudo, melhor conseguimos intervir e melhor agimos.” (10)

biblioteca do

   

instituto +

alguns

serviços

administrat.

 
 

Área de

Seguranç

Técnico

Inscrição gabinete

A

autonomia é relativa: Gere

Refere

 

Assiste a seminários

A

“teoria” tem aplicabilidade e

-

Não conhece o Código

 

Considera o sociólogo do

 

“Não digo que sou sociólogo, sou

 

interesse:

a

Social -

Superior 2ª

estágios da UAL:

o

Programa Comunitário mas

constrangimentos práticos (na relação com os utentes):

quando tem conhecimento através da instituição e quando considera que têm

não tem na prática. Concebe o

deontológico da APS mas rege-se pelo da Função

 

planeamento imprescindível ao

 

Exclusão

Departam

classe

entrevista na AMI – não

responde à coordenadora: “A autonomia na função pública

contributo da teoria como uma maior sensibilidade para as

diagnóstico, preparação e elaboração de grelhas de análise e de relatórios,

sociologista (

 

ser

 

Social

ento de

foi apurado.

Pública que pensa serem semelhantes

sociólogo assim às

 

- UAL

Acção

Elabora

é

sempre relativa (

)tenho

“Constrangimentos há

afinidade com o serviço:

questões sociais e não tanto a

e

para estudar as interacções entre

vezes” (8)

 

- Sociologia

Tese:

Social da

diagnósticos

Inscrição no Centro

autonomia para gerir, por

sempre, socialmente,

“sei de algumas coisas

nível operatório “(

)a

nossa

 

sujeitos.

   

Intercultural

CM

de caracteriz.

Emprego e após um ano

exemplo, o programa

há sempre

 

principalmente por correio

formação(

 

)

tem aplicabilidade

-

Pertence à Apsiot, mas

   

A sociologia está impregnada em todas

 

idade na

Loures

beneficiários

em casa, chamaram-no

comunitário, (

)

mas há uma

constrangimentos

interno (

)e

que, no caso

no sentido teórico, no sentido

considera que não serve para

“A vida em sociedade não acontece fora das nossas cabeças? Não acontece nas interacções entre

- 1999

Qta.Sapatei

RMI,

para uma entrevista na

satisfação que eu tenho que dar à minha coordenadora” (4) Sente-se satisfeito com o grau de autonomia que tem:

“tenho uma autonomia q.b.”

(5)

(

)Estamos

a trabalhar

de nós acharmos necessidade e termos alguma afinidade com aquele tipo de proposta que vai ser debatida, pedimos licença ao serviço e podemos ausentar-nos para essa formação” (7)

conceptual, no sentido em que nos dá uma destreza racional

nada (demasiado vocacionada p/ a Soc. Trabalho): “Sim,

as suas actividades:

 

ras

compilação de

Seg. Social: estágio

com pessoas “ (5) Sente-se subaproveitado:

“eu acho que estou subaproveitado, mas isso também tem a ver com o local onde estou” (6) Refere ainda que as relações com as assist. sociais foram conflituosas no início.

“Aliás na minha vida

- Mestrado

estatísticas,

profissional na Segurança Social durante 9 meses (renovado +3 meses).

Integração na F.pública

(

)ganha-se

uma destreza

pertenço a (

)Apsiot

(

)

Mas

pares?”(5)

 

até

privada

(

),

eu

em estudos

Africanos, no

Iscte (em

fase de

participa num

Projecto de

Intervenção

Comunitária e

intelectiva que eu considero

muito boa” (8)

Não usa o SPSS.

não aconselho.” “É só seminários vocacionados para as áreas da sociologia do trabalho e as outras áreas são esquecidas” (7)

Salienta a absoluta necessidade e importância dos sociólogos ao afirmar que: “É a mesma coisa que perguntar, por exemplo, para que é

não deixo de ser sociólogo, porque é algo que parece que se complementa a nós.”

conclusão)

é

responsável

através de edital.

 

(8)

+

pelo Progr.

 

que servem as velas de um

 

Diversos cursos formação (informática e ligados ao prog. comunitário

Comunitário de

 

-

Refere interdisciplinaridade

automóvel, não é?” (6)

Sente-se apaixonado

 

Ajuda

(essencialmente com assistentes sociais), fomentada pela CM.

   

pela área da sociol. e não se imagina a fazer outra coisa. No entanto

contradiz-se ao dizer

Alimentar

 

-

Mantém contactos com os

que: “Bem, eu se pudesse nem estava

 

colegas de curso

 
   

aqui (

)

e andava na

rua” (9)

 

35

Guião da Entrevista

1- Caracterização

1.1 Idade

1.2 Sexo

1.3 Cargo que desempenha

2- Trajectória Académica

2.1 Instituição

2.2 Ano em que acabou o curso

2.3 Áreas de interesse em sociologia

2.4 Expectativas em relação ao curso

2.5 Outras formações

3- Trajectória Profissional

3.1 Entrada no mercado de trabalho

3.2 Percurso profissional

3.3 Situação actual:

QUADRO RESUMO DAS ENTREVISTAS

Tarefas desempenhadas Autonomia (a quem atribui responsabilidade) Actualização e articulação profissão / formação Mobilização saberes Contactos com outros profissionais (pluridisciplin.)

4- Preocupações Deontológicas

4.1 Código deontológico (conhecimento e aplicação)

4.2 Associativismo (pertença e representações)

36

5- Reflexividade

QUADRO RESUMO DAS ENTREVISTAS

5.1 Papel dos sociólogos em Portugal

5.2 Identidade profissional: Como se vê como sociólogo

Como os outros o vêem

5.3 Impacto dos sociólogos de intervenção na sociedade

5.4 Constrangimentos à profissão

37