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POBREZA E EXCLUSÃO EM GRACILIANO RAMOS

Silvania Núbia Chagas (UPE)

Muitos estudos tem se realizado sobre a obra de Graciliano Ramos. A maioria aponta a “economia da linguagem” como um dado inovador na década de 1930, e como uma das singularidades dessa escritura.

Longe de querer afirmar que a obra desse escritor é regionalista, pois já foi comprovado que tem caráter universal, pode-se afirmar que, sem sombra de dúvida, essa característica – a “economia da linguagem” – expressa, com muita acuidade, as condições precárias a que muitas vezes o povo pertencente às camadas mais baixas da população nordestina, é submetido.

A maneira que Graciliano utiliza para relatar as mazelas do povo nordestino, marcado pela pobreza e consequentemente pela exclusão tem uma certa singularidade, ou seja, é diferente de escritores como Machado de Assis ou Guimarães Rosa trata essa questão. São olhares que se cruzam, mas a abordagem é feita de acordo com o local em que está sendo feita, ou seja, como bem diz Homi Bhabha,

Essa localidade está mais em torno da temporalidade do que sobre a historicidade: uma forma de vida que é mais complexa que “comunidade”, mais simbólica que “sociedade”, mais conotativa que “país”, menos patriótica que patrie, mais retórica que a razão de Estado, mais mitológica que a ideologia, menos homogênea que a hegemonia, menos centrada que o cidadão, mais coletiva que “o sujeito”, mais psíquica do que a civilidade, mais híbrida na articulação de diferenças e identificações culturais do que pode ser representado em qualquer estruturação hierárquica ou binária do antagonismo social. (1998, p. 199)

A pobreza e a exclusão decorrente desta, ainda é preponderante no Nordeste e a primeira coisa que se nega a essa camada da população é o direito à palavra. Pobre não tem voz, assim como Fabiano de Vidas secas e, isso é um fato tão arraigado à cultura nordestina, que seus componentes acabam assimilando. A desigualdade social nessa região ainda é muito acentuada, por isso, a relação entre pobreza e esperança é meio paradoxal, uma vez que, para

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se sair dela a pobreza - não há muita opção e, na maioria das vezes, é mais fácil a resignação, pois quem tenta, precisa transpor seus próprios limites. O nordestino pobre, quando não sofre os desmandos da sociedade, é dizimado pela natureza e a diferença entre este e um habitante de outro Estado é que a sua condição social não lhe propicia meios para se defender. Veja-se, por exemplo, recentemente, as enchentes da região canavieira: Palmares, Água Preta e outros municípios, que mal haviam se recuperado da primeira enchente, seis meses depois, já se encontram na mesma situação. Diante disso, muitos ainda migram para os grandes centros em busca de uma vida digna e chegando lá, aí sim, precisam mesmo superar os seus limites. Outros superam esses limites se transformando em Paulo Honório, de São Bernardo.

São Bernardo, publicado em 1934, além de primar por essa questão, traz em seu bojo uma grande inovação, a preocupação com a linguagem. Paulo Honório, personagem principal, quer escrever um livro, contando a sua história, no entanto, não se acha capaz e convida várias pessoas, mas não aprova a linguagem literária, pois segundo ele, não expressa aquilo que pretende contar e nem a “vida agreste” que o meio lhe propiciou. Depois de muitas idas e vindas, ele próprio resolve escrever. Ele chega a dizer que “a linguagem de Camões não serve” e, realmente, “a vida severina” que ele quer contar não combina com essa linguagem, pois aqui o que se pode perceber é que o narrador-personagem está buscando uma maneira de escrever a oralidade, uma vez que “a palavra escrita sofre um processo que lhe movem a economia e a moral da pobreza.” (Bosi, 1983, p. 151)

Já em Angústia, publicado em 1936, apesar do autor, também, continuar com sua objetividade através da linguagem, a pobreza e a exclusão se dá de uma maneira diferente, que explicaremos adiante, porém em Vidas secas (1938), Fabiano é a expressão pura do nordestino desvalido, sem amparo, tanto dos homens quanto da natureza.

Voltemos a São Bernardo, a personagem Paulo Honório prima pela impossibilidade em se relacionar com o outro, para ele só existe a relação de poder, ou seja, as pessoas e as coisas tem o mesmo valor, ou seja, é o sentimento de posse que lhe dar segurança. Diante disso, para ele, é preciso ter para ser. E essa convicção é tão forte que para se ressaltar enquanto ser ele não mede esforços e perde o senso de ética, de justiça, de compaixão,

A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que deram

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lucro. E como sempre tive a intenção de possuir as terras de S. Bernardo, considerei legítimas as ações que me levaram a obtê-las. (Ramos, 1984, p. 39)

No entanto, o que vai abalar essa convicção de Paulo Honório, é o seu relacionamento com a esposa, Madalena, uma vez que ele vai querer aplicar suas leis no campo das relações afetivas. Madalena pensa completamente diferente dele, para ela é o oposto, ou melhor, para ela, precisa ser para ter. Mas, a falta de compreensão por parte do marido, pois, pode-se constatar que ele tem dificuldade em assimilar a maneira de ser da esposa, irá destruí-la, levando-a ao suicídio. Veja-se:

Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste. (Ramos, 1984, p. 101) (Grifos nossos)

E após este fato, Paulo

Honório

vai se

dar

conta de que nada valeu

à pena,

principalmente, quando fica só, pois as pessoas vão todas embora:

Cinqüenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Como um quê! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo? (Ramos, 1984, p. 181)

Apesar dessa conscientização que o narrador-personagem adquire após a morte de Madalena, não consegue modificar a sua maneira de ser, pois a sua personalidade parece cristalizada:

- Estraguei a minha vida estupidamente.

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Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos

que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige. (Ramos, 1984, p.

Para

187)

E, por fim, reconhece a diferença que havia entre ele e Madalena e a sua dificuldade em se relacionar com as pessoas, veja-se:

Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.

Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.

E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte! (Ramos, 1984, p. 187)

Dessa forma, se processa a exclusão em São Bernardo, ou seja, é um modo de vida escolhido pela própria personagem que, como já foi dito, tem dificuldade em se relacionar com o outro.

Em Angústia, Luís da Silva é oriundo de uma família decadente do Nordeste, e a pobreza e a exclusão já tem início no sobrenome da família, pois, enquanto seu avô chamava- se Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, ele diz que seu pai foi reduzido a Camilo Pereira da Silva e ele, como já foi dito, Luís da Silva. Personagem tão cheio de conflitos quanto Paulo Honório, que também detesta a pobreza, mas ao contrário deste, nada faz para se livrar dela, apenas cultiva o ódio e um ódio imenso pelas classes dominantes, que nessa narrativa é representada por Julião Tavares, para quem ele Luís da Silva perde Marina, por conta de sua situação financeira. Quanto à pobreza, ele afirma:

Há criaturas que não suporto. Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito, e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me alguma coisa. (Ramos, 1984, p. 19)

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Em Vidas secas, homens e animais se confundem, tanto que os meninos, em detrimento da cachorra, não tem nomes. Porém, aqui há uma dicotomia entre este e os outros dois romances, não há conflitos, há resignação, aquilo que foi falado no início desse texto, esse é o romance que melhor representa uma parcela da população nordestina, pois a pobreza não é apenas material e a exclusão em decorrência desta se dá pela negação do direito à palavra. Fabiano não tem voz, mas admira quem tem o dom da palavra: seu Tomás da bolandeira e sinhá Terta. No entanto, pode-se perceber que não há revolta, mas sim, assimilação dessa condição, pois,

Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. (Ramos, 1984, p. 19)

Aliás, mesmo entre eles, não há conversa, somente sons guturais, que tantas vezes o narrador dar conta,

Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos exclamações, onomatopéias. (Ramos, 1984, p. 20)

A solidão propiciada pelo desamparo, nessa narrativa, é muito enfática. As personagens, mesmo não sendo egoístas, são seres desgarrados da sociedade a que pertencem, ou melhor, “o que temos em Fabiano e em sua família é o homem bruto apartado da sociedade, u nido ao Outro apenas pela implacável contingência de enfrentar o meio natural hostil.” (Coelho, 1978, p. 68), Veja-se:

Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram suas desgraças e os seus pavores. O coração de Fabiano bateu junto ao coração de Sinhá Vitória, um abraço cansado aproximou os farrapos que os cobriam. Resistiram à fraqueza, afastaram-se envergonhados, sem ânimo de afrontar de novo a luz dura, receosos de perder a esperança que os alentava. (Ramos, 1982, p. 13)

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Pode-se perceber aí que a demonstração de solidariedade é vista como “algo reprovável ou

transgressão de alguma norma.” (Coelho, 1978, p.69) e, com isso, fica claro o que Homi

Bhaba afirma é “uma forma de vida que é mais complexa que “comunidade”, mais simbólica

que “sociedade”.’

A pobreza e a exclusão na obra Graciliana, não é apenas algo que se concretiza no dia-

a-dia das personagens, mas sim, algo psíquico, entranhado no interior de cada uma delas.

REFERÊNCIAS

BASTIDE, Roger. O mundo trágico de Graciliano Ramos. In: Teresa revista de Literatura Brasileira. Depto. de Letras Clássicas e Vernáculas. FFLCH/USP, nº. 2. São Paulo: Ed. 34,

2001.

BASTOS, Hermenegildo José. Destroços da modernidade. In: CULT. Revista brasileira de literatura. São Paulo; ano IV , p. 52-55.

BOSI, Alfredo. Céu, inferno In:

Céu, inferno. São Paulo: Ática, 1988.

Sobre Vidas Secas. In: SCHWARZ, Roberto. (Org.). Os pobres na literatura brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983.

CANDIDO, Antonio. Os bichos do subterrâneo. In: Tese e antítese: ensaios. São Paulo: T. A . Queiroz, 2000.

Ficção e confissão. Ensaios sobre Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Ed. 34,

1992.

CARPEAUX, Otto Maria. Visão de Graciliano Ramos. In: BRAYNER, Sônia. (Org.). Graciliano Ramos: fortuna crítica, vl. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

COELHO, Nelly Novaes. Solidão e Luta em Graciliano Ramos. In: COUTINHO, Afrânio. (Org.). Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. Col. Fortuna crítica.

COUTINHO, Carlos Nelson. Graciliano Ramos. In: Brayner, Sônia. (Org.). Graciliano Ramos: fortuna crítica, Vl. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2006.

Angústia. São Paulo: Martins Fontes, 1972.

Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2006.

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ROSENFELD, Anatol. Graciliano Ramos como poeta da seca. In: Letras e leituras. São Paulo: Perpectiva, 1994.

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