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Lauren Mendinueta (Barranquilla, Colombia, 1977). Poeta e ensaísta. Autora de cinco livros de poemas, os mais recentes: La Vocación Suspen- dida (Sevilla, 2008; Barranquilla, 2009), VI Premio Internacional de Poesía Martín García Ramos (España, 2007), e Del tiempo, un paso (Va- lencia, 2011), VIII Premio Internacional Cesar Simón da Universidade de Valência. Em português publicou o livro Vistas sobre o Tejo (Lisboa, 2011), com ilustrações da pintora portuguesa Luísa Bomba. Ganhou três prémios nacionais de poesia no seu país e em 2011 o Premio Nacio- nal de Ensaio y Crítica de Arte (Min. Cultura, Univ. Andes) por um tra- balho sobre a artista plástica colombiana Doris Salcedo. O seu nome apa- rece em importantes antologias na América e na Europa. Poemas seus foram traduzidos para inglês, italiano, alemão, russo, português e francês. É considerada uma das mais importantes poetas jovens da América La- tina. Viveu no México e em Espanha, e desde há 5 anos vive em Lisboa.

www.laurenmendinueta.com

UM PAÍS QUE SONHA

cem anos de poesia colombiana

(1865-1965)

UM PAÍS QUE SONHA

cem anos de poesia colombiana

(1865-1965)

selecção e prólogo

Lauren Mendinueta

tradução

Nuno Júdice

ASS ÍR IO & ALV IM

ESTE LIVRO FOI PUBLICADO COM O APOIO DA EMBAIXADA DA COLÔMBIA EM PORTUGAL

© ASSÍRIO & ALVIM (2012) RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA © AUTORES E HERDEIROS DOS AUTORES

NA CAPA: DESENHO DA EXPEDICIÓN BOTÁNICA (1783-1817). ARCHIVO DEL REAL JARDÍN BOTÁNICO, CSIC, MADRID. DIV. III A-609 HELICONIA (DETALHE)

EDIÇÃO 1512, MARÇO DE 2012 ISBN 978-972-37-1639-9

apresentação

UM PAÍS QUE SONHA

Germán Santamaría Barragán

Embaixador da Colômbia em Portugal

A poesia é a única prova concreta da existência do homem e a única força capaz de derrotar todos os surdos poderes do mundo, inclusive a morte. Esta sentença memorável lembrou-a o maior escritor colom- biano de toda a história, Gabriel García Márquez, ao brindar à poesia quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura. É então a poesia a única prova de que Colômbia e Portugal existiram no passado e que terão um lugar no futuro da história humana. É a poesia que recolheu como ves- tígio a marca desses dois povos, tão distantes mas talvez tão parecidos, com a sua épica mas também com as suas tragédias, e sobretudo o que registou da história individual, pessoal, do homem colombiano e por- tuguês, estes sim carregados sempre, como todos os seres humanos, de achamentos e desencantos. O português é sem dúvida um dos idiomas mais certeiros e belos do mundo para se expressar em poesia e contém algumas das palavras mais formosas de todas as línguas da Terra. O Castelhano literário da Colômbia, filho de Cervantes, de Góngora ou Quevedo, alcançou na poesia uma certeza e uma estética de dimensão universal. Camões e Pessoa são em português os cumes da sua poética, e José Asunción Silva, Porfirio Barba-Jacob ou Álvaro Mutis, constituem a maior expressão da poesia colombiana. Não obstante, para o leitor português desta área, não existia um conjunto da poesia colombiana, porque nunca se tinha traduzido e pu- blicado uma antologia da nossa poesia. Esta, que tem como título o belo verso de Aurelio Arturo, Um País que Sonha, aborda cem anos de poesia colombiana e é uma excelente amostra do trabalho do homem

apresentação

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colombiano frente ao género maior da literatura universal. Mais de ses- senta poetas, entre eles 13 mulheres, traçam neste livro uma viagem muito profunda à alma do homem colombiano, chegando até ao mais inescrutável do espírito de um povo que vive a sua aventura humana ali na América do Sul, olhando o mar Caribe e entre as montanhas dos An- des e as selvas da Amazónia. A pesquisa, a selecção final e a responsabilidade, foi trabalho da jo- vem e reconhecida e laureada poeta colombiana residente em Portugal Lauren Mendinueta. A tradução é de Nuno Júdice, talvez o mais im- portante poeta português contemporâneo. Como qualquer outra anto- logia, é uma selecção e uma exclusão e não faz justiça mas antes assinala o caminho de toda uma literatura. O leitor é quem como sempre terá a última palavra. Um País que Sonha foi possível graças ao Plano de Pro- moção da Colômbia no Estrangeiro do governo do actual Presidente Juan Manuel Santos e da sua Ministra María Ángela Holguín.

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Lisboa, Março de 2012

prólogo

AS VOZES DE UM PAÍS QUE SONHA

Lauren mendinueta

Quando cheguei para viver em Lisboa nada me faria adivinhar o grande amor que acabei por sentir por esta cidade, por este país. Para mim Portugal resumia-se a um punhado de referências literárias. Tinha-o en- contrado em Os Maias de Eça de Queirós, nalguns dos romances de José Saramago e, como não podia deixar de ser, em Fernando Pessoa, esse grande poeta do século XX tão lido e apreciado na Colômbia. Estes e ou- tros autores portugueses fizeram-me sonhar com esta luz perfeita e exacta 1 , mas nenhum me preparou para o que significaria o meu encontro com o país. Cinco anos depois posso dizer que mudar a minha residência de Es- panha para Portugal foi a decisão mais importante da minha vida adulta. Em conversas com amigos costumamos dizer que Portugal é o se- gredo mais bem guardado da Europa. Um país rico arquitectónica e cul- turalmente, possuidor de uma geografia sugestiva e um clima invejável, em que o visitante sempre se sentirá bem acolhido. A língua de Camões é doce e melódica. Para nós, estrangeiros, soa como o murmúrio de um ribeiro e possui a irresistível atracção do canto das sereias. Aprender português não é fácil, mas logo que entramos na sua corrente, seduzidos pelos seus encantos, sentimo-nos desejosos de ancorar para sempre nos seus portos. A simples menção do canto das sereias lembra-me que Ulis- ses é o fundador mítico de Lisboa. Que outro poderia ter fundado este porto senão o navegante de Ítaca? Com excepção da poesia brasileira, a lírica latino-americana é pouco conhecida em Portugal. Não abundam as traduções em portu-

1 No poema «Em dias de luz perfeita e exacta» de Alberto Caeiro.

prólogo

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guês europeu e as antologias são inexistentes. Com esta edição, a Co- lômbia é o primeiro país da América Hispânica que apresenta um con- junto significativo dos seus poetas ao público lusitano. Esta antologia chamou-se durante quase todo o seu processo cria- tivo Cem anos de poesia colombiana (1865-1965). Já entrados na etapa da edição pareceu-nos que o verso de Aurelio Arturo «este poema é um país que sonha» resumia melhor o espírito do livro, e então decidimos mudar o título para Um país que sonha 2 . Com isso desejamos também prestar homenagem a um dos nossos maiores poetas. Dois critérios segui para a realização desta antologia. O primeiro foi o tempo que mo impôs. Todos os autores aqui reunidos nasceram entre 1865 e 1965. A primeira data não é em nada arbitrária, e coincide com o nascimento de José Asunción Silva, o mais importante dos poe- tas colombianos. O limite impô-lo-ia a medida de um século. Este lapso de cem anos permitiu-me apresentar um panorama bastante extenso que inclui poemas publicados desde finais do século XIX até à actuali- dade. O segundo critério foi o meu gosto pessoal. A Colômbia, como Portugal, é um país de poetas. Esta não é uma antologia crítica nem exaustiva. A ter sido crítica teria contido menos autores, a ter sido exaustiva teria necessariamente que incluir muitos mais. O meu objectivo foi desde o princípio reunir num só volume aquelas que considero as mais belas poesias colombianas. Esta é, assim, uma antologia de poemas e não de poetas. Estão aqui reunidos traba- lhos de autores muito díspares entre si, grandes poetas e poetas meno- res, poetas cultíssimos e poetas populares. Nos seus versos encontra-se representada boa parte da memória lírica do meu país. Só lamento que o critério imposto pelas datas me tenha impedido de mostrar o trabalho

2 Santiago Mutis preparou uma edição de 10 poemas de Aurelio Arturo com este mesmo título em 1982.

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de criadores mais jovens como Yirama Castaño, Luis Felipe Robledo, Fredy Yazzed López, Marta Carolina Dávila, Rodolfo García, Federico Díaz-Granados, Andrea Cote, Larry Mejía, Giovanni Gómez, John Better, Adirián Pino Varón, John Jairo Junieles, Saúl Gómez Mantilla e Lucía Estrada, entre outros. Espero que num futuro próximo se possa publicar um segundo volume que permita completar o panorama da poesia colombiana actual. A poesia poderia definir-se como um espelho em que se reflecte a sociedade. Por esse motivo, como sociedade nem sempre nos reconhe- cemos na imagem reflectida. O rosto que aparece sobre a superfície po- lida pode surgir-nos mais belo ou mais feio que o original, mas miste- riosamente sempre será fiel. As relações entre história e literatura são complexas. Das épocas mais obscuras podem nascer as mais luminosas obras de arte. Este livro é a constatação desse estranho fenómeno. A grande maioria dos poetas aqui antologiados foi afectada nas suas vidas, e portanto nas suas obras, por dois séculos de guerras civis e conflito ar- mado 3 . No entanto, longe de agonizar, a poesia colombiana é reconhe- cida como uma das mais ricas e vitais da América Latina. A nossa tradição poética é muito forte e está arreigada na própria base da sociedade. Como testemunho desta verdade basta ressaltar o parentesco que existe entre 10 dos 66 poetas reunidos neste livro: Ma- ría Mercedes Carranza, Ramón Cote Baraibar e Santiago Mutis, são fi- lhos respectivamente de Eduardo Carranza, Eduardo Cote Lamus e Ál- varo Mutis. Por outro lado, Juan Manuel Roca é sobrino de Luis Vidales e Guillermo Martínez González é neto de Matilde Espinosa.

3 Um dos episódios que mais marcou a história do país foi o assassinato do caudilho libe- ral e candidato à presidência da república, Jorge Eliécer Gaitán em 1948. Como consequência deste trágico facto desenrolou-se um dos mais desafortunados períodos da nossa história, o que ficou conhecido como a época da «Violência». Algumas das referências biográficas que acom- panham esta antologia aludem a este lamentável acontecimento.

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Outros dois, José Luis Díaz-Granados e Pedro Arturo Estrada, têm res- pectivamente um filho e uma irmã poetas que por razões de idade não foi possível incluir nesta antologia. Ao longo do livro cada poeta é apresentado com uma pequena nota biográfica. Por vezes, inclusive, com uma pequena apreciação crí- tica. Porfirio Barba Jacob, León de Greiff, Laura Victoria, Meira Del- mar, Jotamario Arbeláez, Julián Malatesta e Vito Apushana, assinam as suas obras com pseudónimos literários. Em qualquer caso, optámos pelo nome artístico sem mencionar o civil. A realização deste livro não foi tarefa fácil, mas valeu a pena. O tra- balho de selecção obrigou-me a ler as obras completas de muitos dos au- tores e, quando isto não foi possível, amplas compilações. Isto sem con- tar as antologias da poesia colombiana e os trabalhos críticos que consultei. O acesso a tão importante material não teria sido possível sem a ajuda dos poetas ou seus herdeiros, dos amigos que de diferentes partes do planeta me enviaram livros e da Internet onde hoje em dia é possível consultar boa parte da poesia do meu país em formato digital. A tradução de Nuno Júdice é extraordinária, não podia ser de ou- tro modo tratando-se de um poeta da sua importância. Nestas páginas Júdice conseguiu trasladar de uma língua a outra o que em princípio parecia impossível: a música. Foi uma verdadeira honra o ter trabalhado a seu lado e estou certa de que os poetas colombianos, e os leitores por- tugueses, lhe estarão em igual medida agradecidos. Finalmente quero prestar o meu agradecimento a Germán Santa- maría, embaixador da Colômbia em Portugal, pelo apoio e entusiasmo que pôs neste projecto desde a primeira vez que a ele o mencionei. Quando lhe disse que nunca se tinha publicado em Portugal uma anto- logia da poesia colombiana disse-me de imediato: «mãos à obra». Este li- vro simboliza para mim a expressão de um duplo amor. O amor pela mi- nha pátria e pela sua poesia, e o meu amor por Portugal e pela sua língua.

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Durante um tempo praticamente vivi dentro dele e cheguei a sentir que era meu. Com a sua publicação regressa às mãos desses a quem na ver- dade pertence: aos seus autores e, sobretudo, aos seus leitores. A Colômbia é um país em que se cria, se ama e se sonha. Um país em que se escreve uma grande literatura. Estou contente por poder con- tribuir para a divulgação desta outra faceta da sua realidade. Bem-vindos à Colômbia. Entrem, desfrutem a poesia de um país que sonha.

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Lisboa, Março de 2012

JOSÉ ASUNCIÓN SILVA

(1865-1896)

Nasceu em Bogotá (Cundinamarca). Para alguns estudiosos, Silva é o grande iniciador do modernismo na América Latina, para outros é um dos maiores escritores da primeira geração modernista ao lado do nicaraguense Rubén Darío. A sua obra é breve, compreende cerca de 150 poemas, alguns ensaios e notas jornalísticas e uma novela. Em 24 de Maio de 1896 pediu a um amigo médico que lhe desenhasse uma cruz no lugar exacto do coração. Nessa mesma noite suicidou-se dis- parando um tiro no lugar marcado. Tinha 30 anos. É respeitado como um dos maiores poetas de todos os tempos.

NOCTURNO

Uma noite,

uma noite toda cheia de perfumes, de murmúrios e de músicas de asas, Uma noite em que ardiam na sombra nupcial e húmida, pirilampos fantásticos, ao meu lado, lentamente, contra mim cingida toda, muda e pálida como se um pressentimento de amarguras infinitas, até ao fundo mais secreto das tuas fibras te agitasse, pelo atalho que atravessa a campina em flor

caminhavas

e a lua cheia

pelos céus azúleos, infinitos e profundos espargia a sua luz branca,

e a tua sombra

fina e lânguida,

e a minha sombra

pelos raios da lua projectadas, sobre as areias tristes

da vereda se juntavam

e

eram uma

e

eram uma

E

eram uma única longa sombra!

E

eram uma única longa sombra!

E

eram uma única longa sombra! Esta noite sozinho, a alma

josé asunción silva

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cheia das infinitas amarguras e agonias da tua morte,

separado de ti mesma, pela sombra, pelo tempo e a distância, pelo infinito negro, que a nossa voz não alcança, só e mudo pelo atalho caminhava, e ouvia-se o ladrar dos cães à lua,

à

lua pálida,

e

o coaxar

das rãs… Tive frio, era o frio que sentiam no quarto

as tuas faces e a tua testa e as tuas mãos adoradas, entre as brancuras níveas das brancas mortalhas! Era o frio do sepulcro, era o frio da morte, era o frio do nada…

e a minha sombra

pelos raios da lua projectada, ia sozinha, ia sozinha,

ia sozinha pela estepe solitária!

e a tua sombra esbelta e ágil

fina e lânguida, como nessa noite tíbia da morta primavera, Como nessa noite cheia de perfumes, de murmúrios e de músicas de asas,

abeirou-se e caminhou com ela, abeirou-se e caminhou com ela, abeirou-se e caminhou com ela… Oh as sombras enlaçadas! Oh as sombras que se procuram e se juntam nas noites de negruras e de lágrimas!

22 um país que sonha

POETA, DIZ BAIXINHO

Poeta, diz baixinho os beijos furtivos!

A sombra! As recordações! A lua não lançava

ali um único raio… Tremias e eras minha.

Tremias e eras minha sob a espessa folhagem, um pirilampo errante alumiou-nos o beijo,

o contacto furtivo dos teus lábios de seda…

A selva negra e mística foi o quarto sombrio…

Naquele sítio o musgo tem um odor de reseda… Passou luz pelos ramos como se o dia chegasse, entre as névoas pálidas a lua aparecia…

Poeta, diz baixinho os íntimos beijos!

Ah, lembro-me ainda das noites doces! No quarto senhorial, onde a tapeçaria abafava o ruído com os seus fios espessos nua nos meus braços foram meus teus beijos; teu corpo de vinte anos entre a vermelha seda, teus cabelos dourados e a tua melancolia tuas frescuras de virgem e teu perfume de reseda… Só alumiava a sombria lâmpada os esbatidos fios da tapeçaria.

Poeta, diz baixinho o último beijo

Ah, lembro-me ainda da noite trágica! O caixão heráldico no salão jazia,

o meu ouvido fatigado por vigílias e excessos, sentiu como à distância as monótonas preces!

Tu, triste, hirta e pálida entre a seda negra,

a chama das velas tremia e movia-se,

perfumava a atmosfera um odor de reseda, um crucifixo pálido os braços estendia

e gelada e violácea tua boca que foi minha!

ASSOMA-TE À MINHA ALMA…

De G.A. Bécquer

Assoma-te à minha alma em momentos de calma, e verás a tua imagem, sonho divino, tremer ali como no fundo obscuro de um lago cristalino.

AO OUVIDO DO LEITOR

Não foi paixão aquilo, foi uma ternura vaga o que inspiram as crianças doentes os tempos idos e as noites pálidas.

Só o espírito ao comover-se canta:

quando o amor o agita poderoso treme, medita, recolhe-se e cala.

Paixão teria sido na verdade; estas páginas noutro tempo mais feliz escritas não tiveram estrofes mas sim lágrimas.

O MAL DO SÉCULO

o doente:

Doutor, um desalento da vida que no meu íntimo se enraíza e nasce,

o mal do século… o mesmo mal de Werther,

de Rolla, de Manfredo e de Leopardi.

Um cansaço de tudo, um absoluto desprezo pelo humano… um incessante renegar do vil da existência digno do meu mestre Schopenhauer; um mal-estar profundo que vai crescendo com todas as torturas da análise…

o médico:

— Isso é uma questão de regime: caminhe pela manhãzinha; durma bem; tome banho;

beba à vontade; coma melhor; muito cuidado consigo:

O que você tem é fome…!

josé asunción silva 27

JULIO FLOREZ

(1867-1923)

Nasceu em Chiquinquirá (Boyacá). Aos 7 anos de idade escreveu os seus primeiros versos conhecidos. Em 1881 iniciou estudos de litera- tura em Bogotá, a capital do país, mas teve de interrompê-los por causa da guerra civil de 1885. Em 1905 foi forçado ao exílio pelo ditador Ra- fael Reyes. Viveu em vários países latino-americanos, entre eles Vene- zuela e México. Em 1909 regressou à Colômbia e retirou-se para Usia- curí, um pequeno povoado da costa norte. Ali se apaixonou por uma jovem de 14 anos com quem casou e teve cincos filhos. Florez é consi- derado um dos maiores poetas populares da América Latina.

FLORES NEGRAS

Ouve: sob as ruínas das minhas paixões, e no fundo desta alma que já não alegras, entre a poeira de sonhos e de ilusões jazem intumescidas as minhas flores negras.

Elas são a lembrança daquelas horas em que presa nos meus braços adormecias, enquanto eu suspirava pelas auroras dos teus olhos, auroras que não eram minhas.

Elas são as minhas dores, feitas botão; as dores intensas que nas minhas entranhas sepultam as suas raízes, qual fetos nas húmidas fendas das montanhas.

Elas são os teus desdéns e censuras ocultos nesta alma que já não alegras; são, por isso, tão negras como as noites dos gélidos pólos, minhas flores negras.

Guarda, pois, este triste, débil ramo, que te ofereço daquelas flores sombrias:

guarda-o, nada temas, é um despojo do jardim das minhas fundas melancolias.

julio florez

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TUDO NOS CHEGA TARDE

Tudo nos chega tarde… até a morte! Nunca se satisfaz nem alcança

a doce possessão de uma esperança

quando o desejo nos assalta mais forte.

Tudo pode chegar: mas também se adverte que tudo chega tarde: a quietação depois da tragédia: a ovação quando já a inspiração está inerte.

A justiça mostra-nos a sua balança

quando os seus séculos na História verte

o Tempo mudo que no orbe avança;

E a glória, essa ninfa da sorte, só sobre as sepulturas dança. Tudo nos chega tarde… até a morte!

GUILLERMO VALENCIA

(1873-1943)

Nasceu em Popayán (Cauca). Foi poeta, diplomata e político. Duas vezes candidato à Presidência da República. Considerado entre os me- lhores representantes do modernismo na América. Bem conhecido pelas traduções para espanhol de Goethe, Victor Hugo, Baudelaire, Mallarmé, Oscar Wilde, D’Anunzio, Flaubert e Maerterlinck, entre outros. Teve cinco filhos entre eles Josefina que chegou a ser a primeira mulher a exercer o cargo de Governadora e Ministra. O seu filho Guillermo León foi eleito presidente da Colômbia.

À MEMÓRIA DE JOSEFINA

I

Do que foi um amor, uma doçura sem par, feita de sonho e de alegria, ficou apenas a cinza fria que retém esta pálida cobertura.

A orquídea de fantástica formosura,

a borboleta na sua policromia

entregaram a sua fragrância e galhardia

ao fado que fixou a minha desventura.

Sobre o olvido minha lembrança impera; do seu sepulcro minha dor a arranca; minha fé a reclama, minha paixão a espera,

e devolvo-a à luz, com essa franca

alegria matinal de primavera:

Nobre, modesta, carinhosa e branca!

II

Que te amei, sem rival, tu o soubeste

e o sabe o Senhor; nunca se liga

a erradia hera à floresta amiga

como se uniu teu ser à minha alma triste.

Na minha memória teu viver persiste com o doce rumor de uma cantiga,

e a nostalgia do teu amor mitiga

minha pena, que ao olvido resiste.

Diáfano manancial que não se esgota, vives em mim, e à minha aridez austera tua frescura se mistura, gota a gota.

Foste no meu deserto palmeira a crescer, no meu pélago amargo, voo de gaivota,

e só morrerás quando eu morrer.

HÁ UM INSTANTE

Há um instante do crepúsculo

em que as coisas brilham mais, fugaz momento palpitante

de uma morosa intensidade.

Aveludam-se as ramagens, lustram as torres o seu perfil, burila uma ave a sua silhueta sobre a alta luz de safira.

Muda a tarde, concentra-se para o esquecimento do dia, e penetra-a um dom suave

de melancólica quietude,

como se o orbe recolhesse todo o seu bem e sua beleza, toda a sua fé, toda a sua graça, contra a sombra que virá…

O

meu ser desponta nessa hora

de

misterioso florescer;

levo um crepúsculo na alma,

de sonhadora placidez.

Nele rebentam os botões da ilusão primaveril, e nele embriago-me com aromas de algum jardim que há mais além!

LUIS CARLOS LÓPEZ

(1879-1950)

Nasceu em Cartagena de Índias, Bolívar. Iniciou estudos de medicina mas foi forçado a abandoná-los quando se deu a Guerra dos Mil Dias (1899-1902). Este conflito bélico teve como resultado uma das piores crises económicas do país que se agravaria quando o Panamá, com o apoio militar e político dos Estados Unidos, se declarou independente da Colômbia em 3 de Novembro de 1903. Além de poeta foi jornalista e exerceu a diplomacia em Munique e Baltimore. Os seus contemporâ- neos chamaram-lhe «O Zarolho», por causa de um olho pelo qual asse- gurava não ver nada, embora se saiba que na realidade era simplesmente estrábico. Em 1957 Cartagena de Índias dedicou-lhe uma escultura intitulada Os Sapatos Velhos, inspirada no seu poema «À minha cidade natal». O monumento é considerado um símbolo da cidade.

À MINHA CIDADE NATAL

Cidade triste, ontem rainha do mar. J.M. de Heredia

Nobre rincão dos meus avós: nada como evocar, cruzando ruelas, os tempos da cruz e da espada, da candeia fumegante e da palha…

Pois já passou, cidade amuralhada, a tua idade de folhetim… As caravelas deixaram para sempre a tua enseada… Já não vem o azeite em bilhas! Foste heróica nos tempos coloniais, quando os teus filhos, águias caudais, não eram uma caterva de gaviões.

Mas hoje, cheia de rançoso desalinho, bem podes inspirar o mesmo carinho que se pode ter por uns sapatos velhos…

RAPAR IGAS SOLTE IRONAS

Susana, vem:

teu amor quero gozar.

(Lehar: opereta «A casta Susana»)

Raparigas solteironas de província, que os anos alinhavam lendo folhetins

e espreitando em varandas e janelas… Raparigas de província,

as de agulha e dedal, que não fazem nada,

a não ser tomar à noite

café com leite e doce de papaia… Raparigas de província, que saem — as que saem — da casa muito cedo para a igreja, com um andar doméstico de gansas. Raparigas de província, já maduras, etc., que cantam

melancolicamente

de sol a sol: «Susana vem»… «Susana»… Pobres raparigas, pobres raparigas tão inúteis e castas, que fazem dizer ao Diabo, com os braços em cruz: — Pobres raparigas!…

42 um país que sonha

PORFIRIO BARBA JACOB

(1883-1942)

Nasceu em Santa Rosa de Osos (Antioquia). Poeta de origem hu- milde, nunca ocultou a sua homossexualidade. Em 1907, depois de ter vivido em várias cidades colombianas, abandonou o país. Viveu na Guatemala, Honduras, Costa Rica, El Salvador, Cuba, Peru e México e em vários desses países fundou revistas e jornais. »Canção da vida profunda» é o seu poema mais conhecido. A sua poesia consiste numa escassa centena de poemas e sabe-se que os corrigiu incansavelmente até à sua morte. Homem contraditório e extravagante, forjou a sua lenda com a criação de uma obra extremamente honesta e passional. Morreu no México de tuberculose, álcool e marijuana, num aparta- mento sem móveis.

CANÇÃO DA VIDA PROFUNDA

Há dias em que somos tão móveis, tão móveis, como os leves fios que o vento faz voar… Talvez sob outro céu a Glória nos sorrisse…

A

vida é clara, ondulante e aberta como um mar…

E

há dias em que somos tão férteis, tão férteis,

como em Abril o campo, que treme de paixão; sob o influxo propício de espirituais chuvas, da alma vão brotando florestas de ilusão.

E há dias em que somos tão sórdidos, tão sórdidos,

como a entranha obscura de obscura pederneira; a noite surpreende-nos, com as suas profusas lâmpadas,

em rútilas moedas taxando o Bem e o Mal.

E há dias em que somos tão plácidos, tão plácidos…

— meninice no crepúsculo! lagoas de safira! — que um verso, um trinado, um monte, ave que cruza, e até as próprias penas! nos fazem sorrir…

E há dias em que somos tão lúbricos, tão lúbricos,

que nos oferece em vão a sua carne a mulher; depois de enlear uma cintura e acariciar um seio,

o redondo de um fruto nos faz estremecer.

porfirio barba jacob 45

E há dias em que somos tão lúgubres, tão lúgubres,

como nas noites lúgubres o lamento do pinhal:

a

alma geme então sob a dor do mundo,

e

acaso nem o próprio Deus nos pode consolar.

Mas há também ó Terra! um dia… um dia… um dia em que erguemos âncoras para nunca voltar; um dia em que sopram ventos inelutáveis… Um dia em que nada nos pode segurar!

46 um país que sonha

O ESPELHO

O meu nome? Tenho muitos: canção, loucura, anelo.

A minha acção? Vi uma ave fender a tarde, fender o céu…

Procurei o seu rasto e sorri chorando, e o tempo meus ímpetos foi domando.

A síntese? Não se soube: um dia fecundarei a leira

onde me irão semear. Dom Ninguém. Um homem. Um louco. Nada.

Uma sombra inquietante e passageira. Um ódio. Um grito. Nada. Nada.

Ó desprezo, ó rancor, ó fúria, ó raiva!

A vida está de sóis diademada…

porfirio barba jacob 47

LAMENTAÇÃO DE OUTUBRO

Eu não sabia que o azul amanhã

é vago espectro do brumoso ontem;

que agitado por sopros de centúrias

o coração anseia arder, arder.

Sinto seu influxo, sua latência, e quando quer as suas luminárias acender. Mas a vida está chamando,

e já não é tempo de aprender.

Eu não sabia que teu sol, ternura,

dá ao céu das crianças a cor rosada,

e que, sob o loureiro, o herói rude algo de criança tem de ter.

Oh, quem pudesse num tremor de criança

a uma alvorada de inocência renascer! Mas a vida está a passar,

e já não é tempo de aprender.

Eu não sabia que a paz profunda

do afecto, os lírios do prazer,

a magnólia de luz da energia,

leva no seu brando seio a mulher.

Minha fronte rendida nesse seio brando, um homem de verdade poderia ser… Mas a vida está a acabar, e já não é tempo de aprender!

LEÓN DE GREIFF

(1895-1976)

Nasceu em Medellín (Antioquia). Escreveu os seus primeiros poemas com 16 anos. Durante décadas trabalhou em escritórios públicos e foi professor na Universidade Nacional nas cátedras de Literatura, Re- dacção e História da Música. A sua obra caracteriza-se por assimilar os postulados do Cultismo ou Neo-Barroco. É reconhecido como um dos grandes mestres da rima e da musicalidade no verso. Em 1970 foi-lhe concedido o Premio Nacional de Poesía e foi candidato ao Pré- mio Nobel de Literatura.

RELATO DE SERGIO STEPANSKY

Jogo a minha vida! Bem pouco valia! Levo-a perdida sem remédio!

Erik Fjordson

Jogo a minha vida, troco a minha vida. De qualquer modo levo-a perdida…

E jogo-a ou troco-a pela mais infantil miragem,

vou doá-la em usufruto, ou oferecê-la…

Jogo-a contra um ou contra todos, jogo-a contra o zero ou contra o infinito, jogo-a num quarto, na praça, na távola, numa encruzilhada, numa barricada, num motim;

jogo-a definitivamente, do princípio até ao fim,

a toda a largura e até ao fundo — na periferia, no meio,

e no seu fundo… —

Jogo a minha vida, troco a minha vida, levo-a perdida sem remédio.

león de greiff

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E jogo-a, — ou troco-a pela mais infantil miragem,

vou doá-la em usufruto, ou oferecê-la… troco-a por um sorriso e quatro beijos:

tudo, tudo vai dar ao mesmo para mim:

o exímio e o ruim, o trivial, o perfeito, o mau…

Tudo, tudo vai dar ao mesmo para mim:

tudo me cabe no diminuto, hórrido abismo onde se atam serpentinos os meus miolos.

Troco a minha vida por lâmpadas velhas ou pelos dados com que se jogou a tónica inconsútil:

— pelo mais anódino, pelo mais óbvio, pelo mais fútil:

pelos penduricalhos que segura nas orelhas

a simiesca mulata,

a terracota núbia,

a pálida morena, a amarela oriental, ou a hiperbórea ruiva:

troco a minha vida por um anel de folha de lata ou pela espada de Sigismundo, ou pelo mundo que tinha nos dedos Carlos Magno: — para fazer rodar a bola…

Troco a minha vida pela cândida auréola do idiota ou do santo; troco-a pelo colar que pintaram ao gordo Capeto; ou pelo duche rígido que choveu na nuca de Carlos de Inglaterra; troco-a por um romance, troco-a por um soneto, por onze gatos de Angorá,

54 um país que sonha

por uma estrofe, por um responso, por um cantar; por um baralho incompleto; por uma faca, por um cachimbo, por uma harpa…

ou por essa boneca que chora como qualquer poeta.

Troco a minha vida — a fiado — por uma fábrica de crepúsculo (com tintas rosadas):

por um gorila de Bornéu; por duas panteras de Sumatra; pelas pérolas que bebeu a citrina Cleópatra ou pelo seu narizinho que está nalgum Museu; troco a minha vida por lâmpadas velhas, ou pela escada de Jacob, ou pelo seu prato de lentilhas…

ou por dois buraquinhos minúsculos — nas frontes — por onde me foge, em podres cãs, toda a fartura, todo o fastio, todo o horror que armazeno nos meus odres…!

Jogo a minha vida, troco a minha vida. De qualquer modo já a levo perdida…

león de greiff

55

RITORNELLO

«Esta rosa viu o momento», esse que, se amor não foi, nenhum outro amor seria. Esta rosa viu o momento, esse em que foste minha!

O dia, já não o sei

— sim sei, mas não o digo —

Esta rosa viu o momento.

Dos teus lábios ouvi

a mais doce melodia.

Esta rosa viu o momento em que tudo no teu ser sorria! Tudo quando sonhei

de ti, tive-o comigo…

Esta rosa viu o momento.

Nos teus olhos naufraguei,

e neles toda a noite cabia!

Esta rosa viu o momento em que nos braços te apertei,

em que nos teus braços me vi,

e nunca melhor abrigo achei… Esta rosa viu o momento.

Tua fresca boca beijei ouvindo ecoar a alegria! Esta rosa viu o momento

da tua amorosa agonia

quando o amor gozei pela primeira vez contigo! Esta rosa viu o momento.

«Esta rosa viu o momento»

esse que, se amor não foi, nenhum outro amor seria. Esta rosa viu o momento, esse em que foste minha!

O dia, já não o sei

— sim sei, mas não o digo — Esta rosa viu o momento.

LUIS VIDALES

(1900-1990)

Nasceu em Río Azul (Quindío). Foi o verdadeiro vanguardista e re- novador do grupo chamado Os Novos. Aos 22 anos publicou Suenan timbres, sua obra-prima. Este livro marcou o começo da chamada An- tipoesia na América Latina. Activista político foi um dos fundadores do Partido Comunista Colombiano. Sofreu perseguição, cárcere, e greves da fome. Em 1953, após a violência desencadeada na Colôm- bia com o assassinato do líder liberal Jorge Eliécer Gaitán, de quem foi colaborador, exilou-se por vários anos no Chile. Morreu em Bogotá.

ORAÇÃO DOS BOCEJADORES

Dedicado a Leo Le Gris-Bocejador

Senhor.

Estamos cansados dos teus dias

e das tuas noites.

A tua luz é demasiado barata

e cai com lamentável frequência.

Os mundos nocturnos produzem uma péssima iluminação

e nas nossas aldeias

vimo-nos na necessidade de semear à noite

um cosmos de lâmpadas eléctricas.

Senhor

Aborrecem-nos as tuas auroras

e estamos cansados

dos teus escandalosos crepúsculos.

Porquê um mesmo espectáculo todos os dias desde que deste corda ao mundo?

Senhor

Deixa que agora o mundo gire ao contrário para que as tardes sejam pela manhã

e as manhãs sejam pela tarde. Ou pelo menos

— Senhor —

se não nos podes satisfazer

então

— Senhor —

luis vidales 61

suplicamos-te nós todos os bocejadores que transfiras os teus crepúsculos para o meio-dia. Ámen.

QUADRINHO DE MOVIMENTO

Estou à janela.

Pequenino

a paisagem suporta por cima

todo o enorme peso da lonjura. Oh! sim dá vontade de domesticar a paisagem

e de a adestrar com docilidade

até que lhe possa pôr um marco

e assim

— completamente civilizada — tê-la pendurada na biblioteca. E então — enquanto lesse o livro novo sentado na cadeira giratória — seria sumamente agradável erguer os olhos de improviso

e ver que no quadrinho chovia

ou fazia sol — ou fazia vento — ou começavam a sair as primeiras estrelas.

CINEMATOGRAFIA NACIONAL

Pelo céu amarelado de lanterna

passam as nuvens colombianas.

E como se nota que não tinham ensaiado

antes.

As árvores

— por ser a primeira vez que trabalham no cinema —

aparecem

tesas

coibidas

amaneiradas.

Mas a cascata de Tequendama fá-lo com naturalidade como se tivesse uma grande prática de cinematógrafo.

Nos arredores de Bogotá vagueia a lua.

E que lua!

É uma lua envernizada de branco

e com instalação própria.

64 um país que sonha

Lá fora

o céu da noite

obscuro empolado

é um imenso gongorismo.

Logo vejo a lua. Oh! oh! Tira aos transeuntes as suas fichas antropométricas contra o muro!

São como clichés queimados que fogem!

E no salão da noite

aplaudo os filmes incoerentes deste Pathé Baby.

luis vidales 65

LAURA VICTORIA

(1904-2004)

Nasceu em Soatá (Boyacá). Escreveu o seu primeiro poema aos 14 anos. A sua obra caracteriza-se por misturar o romântico com o sen- sual. Na década de 1930 o erotismo da sua poesia despertava polé- mica, mas também é certo que as edições dos seus livros costumavam esgotar-se rapidamente. Em 1939 mudou-se para o México, país em que exerceu o jornalismo e a diplomacia. Também viveu durante uma temporada em Itália e Espanha. No fim da sua vida, e depois de uma viagem pela Terra Santa, escreveu poemas de teor místico. Morreu no México meses antes de fazer 100 anos. Hoje em dia a sua poesia é pouco conhecida na Colômbia.

PROCUREI O AMOR

Procurei o amor, a sua humana forma gerada na matriz das idades por um eterno germe de amargura. Mas o amor não existe, digo eu com uma sede de boca calcinada, com uma angústia de pupila seca

ou de sangue impotente que não pode prolongar a península do filho.

E no entanto amei

uma vez, não sei quantas… Pode acaso a chama medir as suas azuladas vibrações com o seu pulso de ar, ou pode o sonho determinar a eternidade abstracta com o seu tacto de tempo retido?

Falo de amor como o entende minha sede, com o seu passo de água,

o seu clima de pombas

e o seu segredo de afiladas vozes; com o seu gozo gerado pelo pranto numa idade sem meridiano,

a

sua colheita de júbilos eternos

e

o seu doce silêncio de raízes.

Esse não existe. O homem nunca pode dar ao amor a sua verdadeira forma, como não pode o vento dizer a dimensão das cores nem a estrela a data em que nasceu.

Ah, se o pudesse encontrar! mas é tarde. Passou por mim a vida procurando o impossível

e agora não me fica senão o tempo exacto do esquecimento.

DUALIDADE

Eu própria não sei, mas vencida,

rendi ao seu orgulho minha virtude pagã,

e fui por um momento cortesã,

no sarcasmo da minha própria vida.

Com beijo ausente refresquei a sua ferida, absorta fingi ser-lhe distante,

a

sua vontade despedacei inconstante

e

a sua paixão encontrou-me arrependida.

Foi um instante não mais. Prazer não existiu. Mas a sua boca entre a minha boca sentiu amor e angústia, languidez e olvido.

Sobre o cansaço estendi-me cobarde

e fui para o seu desejo naquela tarde

tão grande e cruel como jamais tinha sido.

AURELIO ARTURO

(1906-1974)

Nasceu em La Unión (Nariño). Foi advogado, juiz, fiscal e magis- trado. Em 1928, sendo estudante de direito, publicou os seus primei- ros poemas numa revista universitária. Quando tinha 56 anos o Mi- nistério de Educação da Colômbia publicou-lhe Morada al sur, o seu único livro de poemas. Nesse mesmo ano obteve o Premio Nacional de Poesía Guillermo Valencia. O seu livro é reconhecido pelos estu- diosos como uma das obras cimeiras da literatura colombiana e latino- -americana. Sobre ele escreveram-se numerosos estudos pois deu ori- gem a uma verdadeira ruptura com as correntes estéticas reinantes na sua época. Morreu repentinamente um sábado 23 de Novembro de 1974 em Bogotá.

CHUVAS

Acontece assim

a chuva

começa num pausado silabar nas belas clareiras de bosque onde o sol rumoreja e vai juntando as lentas sílabas e então solta a cantilena

assim principiam essas chuvas imemoriais de voz queixosa que falam de idades primitivas

e

embalam gerações

e

continuam narrando catástrofes

e

glórias

e

poderosas germinações

cataclismos

dilúvios

afundamento de povos e raças de cidades chuvas que vêm do fundo de milénios com as suas insidiosas canções

a sua palavra germinal que enfeitiça e envolve

e as suas fluidas grades inumeráveis que podem ser prisões

ou harpas

ou liras

mas depressa se tornam risonhas e esbeltas

dançam povoam a terra de grandes folhas

luxuosas

de flores

e de uma alegria miúda e terna

com palavras húmidas

enganadoras

falam-nos de países maravilhosos

e de que os rios descem do céu

esquecemos o seu canto fúnebre

e

amamo-las então porque são dóceis

e

nos ajudam

e

fertilizam a vasta terra

a

terra negra e verde e dourada.

CLIMA

Este verde poema, folha a folha, agita-o um vento fértil, sudoeste; este poema é um país que sonha, nuvem de luz e brisa de folhas verdes.

Quedas de água, pedras, nuvens, folhas

e um sopro ágil em tudo, são o canto.

Havia palmeiras, palmeiras e as brisas

e uma luz como espadas à sua volta.

O vento fiel que agita o meu poema,

o vento fiel que a canção impele,

folhas moveu, nuvens empurrou, feliz por mover nuvens brancas e folhas verdes.

Eu sou a voz que ao vento deu canções puras no ocidente das minhas nuvens;

o meu coração em cada palmeira, aberta

tâmara, uniu os horizontes múltiplos.

E no meu país apascentando nuvens, pus no sul o meu coração, e ao norte, qual duas aves de rapina, perseguiram meus olhos o rebanho de horizontes.

A vida é bela, mão dura, dedos tímidos ao formar o frágil vaso da tua canção, vais enchê-lo com o teu gozo ou com os méis escondidos do teu pranto.

Este verde poema, folha a folha, agita-o um vento fértil, um esbelto vento que amou do sul ervas e céus, este poema é o país do vento.

Sob um céu de espadas, terra obscura, árvores verdes, verde algaravia das folhas pequenas e o moroso vento move as folhas e os dias.

Dance o vento e os verdes longes me chamem com recônditos rumores:

dócil mulher, seio repleto de mel, amou sob as palmeiras minhas canções.

INTERLÚDIO

Na cama pela manhã sonhando acordado, através das horas do dia, ouro ou névoa, errante pela cidade ou perante a mesa de trabalho, onde meus pensamentos em reverente curva?

Ouvindo-te de longe, ainda de extremo a extremo, ouvindo-te como uma chuva invisível, uma geada. Sentindo-se nas tuas últimas palavras, alta, sempre no fundo dos meus actos, dos meus signos cordiais, dos meus gestos, meus silêncios, minhas palavras e pausas.

Através das horas do dia, da noite — a noite avara pagando o dia cêntimo a cêntimo — nos dias que um após outro são a vida, a vida com as tuas palavras, alta, as tuas palavras, cheias de orvalho, ó tu que recolhes na tua mão a planura de borboletas.

Na cama pela manhã através das horas, melodia, quase uma luz que nunca é súbita, com o teu ademane gentil, com a tua graça amorosa, ó tu que recolhes nos teus ombros um céu de pombas.

aurelio arturo 79

MATILDE ESPINOSA

(1910-2008)

Nasceu em Tierradentro (Cauca). Numa ocasião declarou que tinha começado a escrever poesia em 1955 como uma maneira de reagir à violência desencadeada na Colômbia depois do assassinato do líder li- beral Jorge Eliécer Gaitán. Para ela a poesia não era um acto de rebel- dia mas de solidariedade. A violência, a injustiça, o ódio e a fome são temas constantes na sua obra. Para muitos, Espinosa é a maior repre- sentante da poesia social e de protesto na Colômbia. Quem a conhe- ceu descreve-a como uma mulher bondosa e sensível que viveu com intensidade. O poeta Guillermo Martínez González, também pre- sente nesta antologia, é seu neto. Morreu em Bogotá.

PORTAS FECHADAS

Os soldados choram de noite antes de morrer. Salvatore Quasímodo

As sombras repetem-se

e chegam trémulas

ao pé das cidades.

Ninguém quer abrir as portas

com medo da epidemia.

O sangue desce das montanhas

e interna-se nos hospitais.

Nos quartéis choram os cavalos

e não querem ouvir falar da guerra, têm más recordações, pensam nas pradarias

e nas suas companheiras de amor.

Os cavalos são ternos

e olham com dor para os torturados.

De noite ouvem os gemidos

e os seus cascos batem

para espantar os mortos.

Assim é agora a epidemia do sangue. Sobre os ombros dos vinte anos

a morte cruel caminha e é estrondo,

chama ou cinza arrastada pelo vento.

A CIDADE ENTRA NA NOITE

Cansada

e sedenta

a desposada

com o céu

acende as suas lâmpadas

e fechando as pálpebras

sonha com o túnel que guarda

a última luz dos agonizantes.

EDUARDO CARRANZA

(1913-1985)

Nasceu em Villavicencio (Meta). Foi jornalista, catedrático e diplomata. Durante muitos anos exerceu o cargo de director da Biblioteca Nacional da Colômbia. Encabeçou a fundação do movimento poético «Piedra y Cielo» em 1939. Em 1942 ingressou na Academia Colombiana da Lín- gua. A sua poesia trata quatro temas fundamentais: a pátria, a morte, o amor e a paisagem americana. Foi o pai da poetisa María Mercedes Carranza, também presente nesta antologia. Morreu em Bogotá.

SONETO COM UMA RESSALVA

Para Pedro Laín

Tudo está bem: o verde na pradaria,

o

ar com o seu silvo de diamante

e

no ar a ramagem que desenha

e

pela luz acima a palmeira.

Tudo está bem: o rosto que me espera,

a

água com o seu céu caminhante,

o

vermelho húmido na boca amante

e

o vento da pátria na bandeira.

É

bem que esteja entre sonhos o infante,

que seja janeiro azul e que eu cante. Bem a rosa no seu claro corcel.

Bem que se viva e que se morra. O Sol, a lua, a criação inteira, excepto o meu coração, tudo está bem.

DOMINGO

Um domingo sem ti, de ti perdido,

é como um túnel de paredes cinzentas onde vou iluminado pelo teu nome;

é uma noite clara sem o saber

ou uma segunda disfarçada de domingo;

é como um dia azul sem que o autorizes. Chove neste poema; tu o sentes

com a tua alma próxima do vidro; chove a tua ausência como uma alma triste

e azul sobre o meu rosto desterrado.

Compreendi como uma palavra pequena, igual a um alfinete de luar ou um leve coração de borboleta, erguer pode muralhas infinitas, matar uma manhã de repente, evaporar azuis e jardins, cortar um dia como se fosse um lírio, converter grãos de sal em luzeiros.

Compreendo como uma palavra da matéria azul das espadas

e com aguda vocação de espinho,

pode estar na luz como uma ferida que nos dói no centro da vida.

Chove neste poema, e o domingo gira como um longínquo carrossel; tão perto estás de mim que não te vejo feita das minhas palavras e do meu sonho.

Penso em ti por trás da distância, com a tua voz que me inventa os domingos e o sorriso como vaga pétala caindo do teu rosto para a minha alma.

Com a sua folha voando para a noite, riscado de chuvisco e desencanto, este domingo sem o teu visto certo chega como uma carta enganada.

A tarde, menina, tem essa tristeza do ar onde houve antes uma rosa; eu estou aqui rodeado pela tua ausência feito de amor e sozinho como um homem.

CARMELINA SOTO

(1916-1994)

Nasceu em Armenia (Quindío). Foi professora, jornalista e bibliote- cária. Publicou o seu primeiro livro Campanas al alba em 1942, no momento de maior esplendor do grupo poético «Piedra y Cielo». No entanto a sua voz era claramente rebelde, independente e afastada das modas da época. Distante em assuntos políticos, possuía um humor finíssimo e as suas críticas costumavam ser implacáveis. O tempo, a morte e a identidade são os temas fundamentais da sua poesia. Apesar de ser uma das melhores poetisas colombianas do século XX a sua obra é pouco conhecida. Morreu em Armenia, a cidade que a viu nas- cer e que tanto amou.

IMAGENS DA MORTE

Esse dourar do fruto por devolver à terra

é a morte.

Esse crescer constante como os verdes trigais; esse fechar de olhos quando a noite chega; esse tacto tremendo das líquidas heras; esse gesto terrível das papoilas…

é a morte.

É o sentir de súbito a solidão pesando como um tronco verde nos fracos ombros.

O ficar com o sangue e com a boca amargos

por não sei que giestas de passados outonos…

é a morte.

Ela está em toda a parte como Deus. Vai a sua força emurchecida renovando cidades. Quem pode defender-se dos seus olhos poliédricos! Quem conheceu o seu pulso de cinza no sangue!

As suas flutuantes anémonas. As suas roxas vigílias.

Os seus jasmins gelados. Os seus tácitos metais.

É a morte.

carmelina soto 93

É o vento enlouquecido que dança na pradaria.

É o vento robusto que agita os palmeirais.

É o vento que sopra a pequena lâmpada…

como uma boca ardente. … É a morte… É a morte…

OS AMANTES

Os que se amaram devem ficar cegos. Para que os seus gestos sejam sem sentido. Para que os seus barcos girem sem graça nem proveito. Como as tempestades… cegos.

Cegos como bandeiras depois da vitória ou como as espadas que estão sempre nuas e gloriosas.

Que rancor pelos cegos e pelas tempestades. E pelos que acreditam que o amor é a fartura. Ouvi-o bem: O amor é a fome.

carmelina soto 95

EMILIA AYARZA

(1916-1966)

Nasceu em Bogotá (Cundinamarca). Estudou Filosofia e Letras. Em 1957 mudou-se para o México onde exerceu o cargo de professora universitária. «A Cali chegou a morte» é um dos seus poemas mais lembrados. Nele reflecte-se a angústia de viver no contexto da violên- cia colombiana. Em 1997 a editorial Magisterio da Colômbia publi- cou um ampla antologia sua preparada pelo poeta Juan Manuel Roca, mas a sua poesia continua a ser desconhecida para os leitores colom- bianos. Morreu em Los Angeles, Califórnia.

A CALI CHEGOU A MORTE

Não. Nem o sangue de pó. Nem o rumor das veias subterrâneas. Nem os olhos de antigas traças vagabundas. Não. Nada. Nem o sexo que começa na língua das crianças. Nem os pastores de cobras. Nem as esquinas infiéis sobre as janelas. Não. Nada. Nem a candura das escolas que marca as faltas nos quadros negros. Nem os bêbedos que olham fixamente a taberneira e lhe derramam o coração por entre as tranças.

Nem os cortiços por trás das urtigas nem os bois de artificial melancolia. Não Nada pode deter a morte.

Chegou a Cali navegando e os corcéis do oceano pacífico saudaram-na derramando os seus beiços espumantes na praia. Chegou pelo assobio dos cascos pelas bandeiras dos guacamaios pelo olho das agulhas que remenda o pudor dos costureiros pela voz dos mortos nas árvores

emilia ayarza 99

pelas notas douradas pela alma incolor dos camionistas pela rosa ignorante pela paisagem de sapatos sem pegada.

***

A história de Cali deixou de ser um rio deliberadamente puro. por cujas ondas os dias eram barcos de vidro. O vermelho foi uma chuva suspensa no ar e entre os montes de vidro o sangue desenhará para sempre vitrais na sombra.

Há que chorar desesperadamente!

100 um país que sonha

FERNANDO CHARRY LARA

(1920-2004)

Nasceu em Bogotá (Cundinamarca). Foi professor e advogado. Dirigiu a emissora radiofónica da Colômbia e a Extensão Cultural da Universi- dade Nacional. A sua obra caracteriza-se por ser breve e lúcida. O seu poema «Planície de Tuluá», antologiado neste livro, é um dos mais dila- cerados testemunhos da violência na Colômbia. Fundou em 1972 com os poetas Mario Rivero e Aurelio Arturo a revista poética Golpe de dados, uma das mais importantes publicações do país. Golpe de dados publi- cou-se durante 37 anos ininterruptos. Morreu em Washington.

PLANÍCIE DE TULUÁ

À beira do caminho, os dois corpos um junto ao outro. de longe parecem amar-se.

Um homem e uma rapariga, delgadas formas cálidas estendidas na erva, devorando-se.

Estreitamente abraçados nas cinturas aqueles braços jovens,

pensar-se-á:

sonharão entregues as suas duas bocas, os seus silêncios, as suas mãos, os seus olhares.

Mas não há beijo, a não ser o vento, a não ser o ar seco do verão sem movimento.

Um junto ao outro estão caídos, mortos, à beira do caminho, os dois corpos.

Deviam ter sido esbeltas as suas duas sombras de languidez quando se adoravam na tarde.

E deveriam ter sido terríveis os seus dois rostos frente às ameaças e relâmpagos.

Os seus corpos que são pedra, que são nada, os seus corpos de mentira, mutilados,

da sua sorte ignorantes, da sua morte, e agora, já de perto observados, dando azo a vorazes negras aves.

ESQUECIMENTO

Os dias que um após outro são a vida… Aurélio Arturo

A trémula sombra já te cobre.

Só existe o esquecimento,

nu,

frio coração desabitado.

E

já nada são em ti as horas

as

taciturnas horas que são a tua vida.

Nem sequer como cinza oculta que trouxeram os transparentes silêncios de uma recordação. Nada. Nem o crepúsculo te envolve, nem a tarde te enche de viagens, nem a noite comove a tua obstinada nostalgia do amor, quando uma tácita donzela surge da sombra. Ó coração, céu desabitado dos sonhos.

HÉCTOR ROJAS HERAZO

(1921-2002)

Nasceu em Santiago de Tolú (Sucre). Poeta, ficcionista, pintor e jor- nalista. A sua obra poética e novelística é amplamente conhecida na América Latina. Em ambos os géneros caracterizou-se pela sua explo- ração do grotesco. Rojas Herazo indagou o lado mais carnal dos seres humanos, as misérias do corpo, os estragos da doença. A maior parte da sua obra toca os aspectos negativos da existência, mas aborda-os do ponto de vista do destino universal e por aí capta facilmente o leitor. Morreu em Bogotá.

AS ÚLCERAS DE ADÃO

A bárbara inocência,

os olhos indecisos e as mãos,

o

horror de vaguear sem um delito.

E

batia-se no peito, dizia para si próprio,

suspiro por outra coisa, que eu queria, enquanto Deus, no vento, respirava. Inventou-o uma manhã

(consistiu nisto o privilégio) e farejou o seu terror, os seus crimes, o seu sonho. Então conheceu a alegria de não ser inocente.

E apiedou-se de Deus

e alojou-o nas suas úlceras sem céu.

OS GRANDES VERMES

Arrastamo-nos. Quem disse «esta multidão caminha»? Arrastamo-nos. Pesadamente o nosso fio de baba,

a

névoa do nosso bafo nos móveis e nos espelhos

e

o tempo espesso

enchendo os nossos órgãos de viscoso alimento.

Enchendo de madeiras, de folhas apodrecidas, de cal e de palavras

o insaciável labirinto dos nossos ossos. Chupamos com infinitas ventosas

a

cor das cadeiras e dos lençóis

e

o imundo das retretes

e

a pele do irmão que docemente

reconhece o som dos nossos órgãos.

A nossa boca multiplica-se,

os nossos dentes crescem,

no suplício do paladar perante os frutos. Com grandes dentadas descascamos a cor,

as

janelas e erguemos o olfacto,

o

terrível, o doloroso olfacto sobre os seres,

e conhecemos a mulher pelo apetite das nossas células

e o esplendor da nossa agonia.

SÚPLICA DE AMOR

Pela minha voz endurecida como uma velha ferida; pela luz que revela e destrói o meu rosto; pelo marulhar de uma solidão mais antiga que Deus; por mim atrás e à frente; por um ramo de avós que reunidos me pesam; pelo defunto que dorme na minha costela esquerda e pelo cão que lhe lambe as faces; pelo uivo da minha mãe quando molhei as suas coxas com um vómito escuro; pelos meus olhos culpados de tudo o que existe; pela deleitosa tortura da minha saliva quando apalpo a terra digerida no meu sangue; por saber que me apodreço. Ama-me.

MEIRA DELMAR

(1922-2009)

Naceu em Barranquilla (Atlántico). Estudou música na Colômbia e História de Arte e Literatura em Itália. Era filha de pais libaneses. Foi uma mulher discreta, que cativava pela sua fina sensibilidade e gene- rosidade de espírito. Toda a sua obra foi escrita na solidão e a maior presença da sua poesia é a do amado ausente. Em 1955 a Universi- dade de Antioquia concedeu-lhe o Premio Nacional de Poesía. Forma parte do reduzido grupo de mulheres que pertenceram à Academia Colombiana da Língua. Ainda em vida a biblioteca pública que diri- giu em Barranquilla durante 36 anos foi baptizada com o seu nome. Morreu na sua cidade natal.

DE PASSAGEM

Não é o tempo

o que passa. És tu

que te afastas

apressadamente para a sombra,

e vais deixando cair,

como quem se despoja dos seus bens,

tudo aquilo que amaste, as horas que te fizeram a sorte,

amigos

em quem teve um dia

refúgio a tua tristeza,

sonhos

inacabados. No final, quase

vazias as mãos,

perguntas-te

em que momento se foi de ti a vida, se te segue ao ir, como um fio de água por entre os dedos.

O CHAMAMENTO

Estarás longe. Deixar-te-ei a vida como um ramo de rosas que se abandona para prosseguir o caminho, e empreender a morte.

Atrás de mim, seguindo-me, irão todas as coisas amadas, o silêncio que nos unira, o árduo amor que nunca pôde vencer o tempo, o roçar das tuas mãos, as tardes junto ao mar, as tuas palavras.

Se onde estás ouvires que alguma voz te chama, serei eu que na viagem te lembro.

BREVE

Chegas quando menos te lembro, quando mais afastado pareces da minha vida. Inesperado como

essas tormentas que se inventa

o vento

um dia imensamente azul. Logo a chuva arrasta os seus despojos

e me apaga os teus passos.

MARUJA VIEIRA

(1922)

Nasceu em Manizales (Caldas). Destacou-se como escritora, profes- sora universitária, executiva e jornalista cultural. No princípio dos anos 50, na sequência dos acontecimentos violentos após o assassi- nato do líder liberal Jorge Eliécer Gaitán, decidiu sair da Colômbia e fixar residência na Venezuela. Em 1959, já de volta ao seu país, con- traiu matrimónio com o poeta José María Vivas Balcázar, que morre- ria um ano mais tarde repentinamente. Do casamento ficou uma fi- lha, a poeta Ana Mercedes Vivas. Maruja, como a sua poesia, possui um espírito aguerrido e juvenil. Aos noventa anos mantém-se activa e ao corrente da vida literária, prestando especial atenção à criação fe- minina na Colômbia. Desde 1991 pertence à Academia Colombiana da Língua. É um dos mais importantes poetas vivos da Colômbia e uma reconhecida activista a favor dos direitos da mulher.

TEMPO DEFINIDO

Qualquer impulso humano

é

circunscrito pelo dia,

o

minúsculo círculo do dia.

Barba Jacob

Está bem que a vida de vez em quando nos despoje de tudo. Na obscuridade

os olhos aprendem a ver mais claramente. Quando a solidão

é o total vazio do corpo e das mãos

há caminhos abertos para o mais profundo

e para o mais distante.

No silêncio as amadas vozes renovam docemente as suas palavras

e

as paredes resguardam

o

rumor conhecido dos ausentes passos.

Os lábios que antes foram sítio de amor nas caladas tardes aprendem a grandeza da canção rebelde e angustiada. Há um vento em suspenso sobre as altas árvores, um repicar de chuva sobre ruínas obscuras e fumegantes, um gesto em cada rosto dizendo amargura e derrota.

Segue-se um lento cair de horas inúteis, desprendidas do tempo

e mais além do minúsculo círculo do mundo, — aquele mundo fechado

com as suas vagas estrelas e bruma de sonhos —, desperta intensamente

a ferida voz do homem povoador da terra.

Antes estavam longe, quase desconhecidos,

o combate e o trovão.

Agora corre o sangue pelos leitos iguais do ódio e da esperança sem que nada detenha a invasora corrente das forças eternas.

CANÇÃO DE PUERTO CABELLO ( Fábula do peixe e da estrela )

A amargura

ficou nos corais do fundo, ficou na ilha branca, na escama do peixe fugitivo, na estrela que ardia na enseada.

A recordação passou

como o nome de um barco.

CANSAÇO

Cansaço de falar e ouvir sempre idiomas estranhos. Cansaço do peso das asas na terra. Cansaço de se obrigar a ser forte e congelar, deter, conter, petrificar a luz, a nuvem, o ar. Para depois calar, sorrir, consentir, outorgar. E ter medo da música, do livro de poemas, do perfume da árvore, da cor da tarde, porque podem cair as armaduras, romperem-se as couraças e ficar simplesmente um ser humano, sozinho, débil, ferido de silêncios e palavras.

QUANDO FECHO OS OLHOS

Quando fecho os olhos vens do país da morte. Chegas à margem do rio do tempo.

A água afasta-nos sempre. Não há pontes. Olhas-me de longe e sorris.

Acordo. Como demora a chegar o barqueiro!

ÁLVARO MUTIS

(1923)

Nasceu em Bogotá (Cundinamarca). Poeta e romancista. Realizou os seus primeiros estudos em Bruxelas. De regresso à Colômbia viveu por temporadas numa herdade de café na região do Tolima. Segundo ele próprio afirma, toda a sua obra está destinada a celebrar e perpetuar esse território. Poesia exuberante, povoada de rios caudalosos e embra- vecidos, nela a linguagem flui misteriosa. A sua carreira literária come- çou em 1948 com a publicação em Bogotá de La balanza, seu primeiro livro de poemas, mas a edição desapareceu nas chamas dos incêndios do 9 de Abril de 1948, data em que foi assassinado o candidato presi- dencial Jorge Eliécer Gaitán. Nunca participa em política e declara-se monárquico. É um dos poetas mais importantes da América latina e como tal recebeu as mais altas distinções: Premio Príncipe de Astúrias das Letras 1997, Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana 1997 e Premio Cervantes 2001. É grande amigo de Gabriel García Márquez e o primeiro leitor dos seus rascunhos. Vive no México desde 1956.

UN BEL MORIR

De pé numa barca parada no meio do rio cujas águas passam em lento remoinho de lodos e raízes.

o missionário abençoa a família do cacique.

Os frutos, as jóias de vidro, os animais, a selva, recebem os breves sinais da bem-aventurança. Quando descer a mão

terei morrido no meu quarto cujas janelas vibram à passagem do comboio

e o leiteiro virá em vão pelas garrafas vazias.

Para esse momento ficará bem pouco da nossa história, alguns retratos em desordem,

umas cartas guardadas não sei onde,

o que foi dito naquele dia ao despir-te no campo. Tudo se irá desvanecendo no esquecimento

e

o grito de um macaco,

o

fluir esbranquiçado da seiva

pela ferida casca do látex,

o chapinhar das águas contra a quilha em viagem,

serão assunto mais memorável do que os nossos longos abraços.

álvaro mutis 129

CANÇÃO DO LESTE

Na volta da esquina um anjo invisível espera; uma vaga névoa, um espectro pálido dir-te-á algumas palavras do passado. Como água de regueiro, o tempo cava em ti o seu árduo trabalho de dias e semanas, de anos sem nome nem recordação. Na volta da esquina seguir-te-á esperando em vão esse que não foste, esse que morreu de tanto ser tu próprio o que és. Nem a mais leve suspeita, nem a mais leve sombra te indica o que poderia ter sido esse encontro. E, no entanto, estava ali a chave do teu breve destino sobre a terra.

I

Ouve Ouve Ouve

«204»

a voz dos hotéis,

dos quartos ainda por pagar, os diálogos nos obscuros corredores enfeitados por uma gasta passadeira

escarlate, por onde se apressam os criados que saem ao amanhecer como espantados morcegos.

Ouve Ouve Ouve

os murmúrios na escada; as vozes que vêm da cozinha, onde se forja um azedo cheiro a comida que depressa estará em toda a parte,

o ruído dos elevadores

Ouve Ouve Ouve

a

formosa hóspede do 204 que espreguiça os seus membros

e

se queixa e estende a sua viúva nudez sobre a cama. Do seu corpo

sai a vaga tepidez de um campo recém molhado pela chuva. Ai que trânsito o das suas noites ondulantes como as bandeiras nos estádios!

álvaro mutis 131

Ouve Ouve Ouve

a água que goteja nos laboratórios, nos degraus que invade um escorregadio e mal cheiroso limo. Nada há senão uma sombra, uma tépida e espessa sombra que tudo cobre. Sobre essas lousas — quando o meio-dia semeia de pedras o ensebado chão —

o seu corpo imenso e branco saberá mover-se, dócil para as lides do tálamo e conhecedor dos mais diversos caminhos. A água lavará a impureza e renovará as fontes de desejo.

Ouve Ouve Ouve

a incansável viajante, ela abre as janelas e aspira o ar que vem da rua. Um ocioso assobia-lhe do passeio em frente e ela estremece as suas ancas em resposta ao incógnito apelo.

II

Da urtiga ao granizo do granizo ao veludo do veludo aos urinóis dos urinóis ao rio do rio às amargas algas das algas amargas à urtiga da urtiga ao granizo

132 um país que sonha

do granizo ao veludo do veludo ao hotel

Ouve Ouve Ouve

a

oração matinal da hóspede

o

seu grito que atravessa os corredores

e

acorda espavoridos os que dormem,

o

grito do 204:

Senhor, Senhor, porque me abandonaste?

CADA POEMA

Cada poema um pássaro que foge do sítio assinalado pela praga. Cada poema um traje da morte pelas ruas e praças inundadas na cera letal dos vencidos. Cada poema um passo para a morte, uma falsa moeda de resgate, um tiro ao alvo a meio da noite perfurando as pontes sobre o rio,

cujas águas adormecidas viajam da velha cidade para os campos onde o dia prepara as suas fogueiras. Cada poema um tacto hirto do que jaz na pedra das clínicas, um ávido anzol que percorre

o limo brando das sepulturas.

Cada poema um lento naufrágio do desejo,

um ranger dos mastros e cabos que sustentam o peso da vida. Cada poema um estrondo de panos que derrubam sobre o rugir gelado das águas

o branco aparelho do velame.

Cada poema invadindo e desgarrando

a amarga teia do enfado.

Cada poema nasce de uma cega sentinela

que grita ao fundo oco da noite o santo e a senha da sua desventura. Água de sonho, fonte de cinza, pedra porosa dos matadouros, madeira da sombra das sempre-vivas, sino que dobra pelos condenados, óleo funeral de duplo fio, quotidiano sudário do poeta, cada poema derrama sobre o mundo o azedo cereal da agonia.

EXÍLIO

Voz do exílio, voz de poço cego, voz órfã, grande voz que se ergue como erva furiosa ou casco de animal, voz surda do exílio, hoje brotou como um espesso sangue reclamando mansamente o seu lugar nalgum sítio do mundo. Hoje chamou em mim

o ruído das aves que passam em verde algazarra

sobre os campos de café, sobre as cerimoniosas folhas da bananeira, sobre as geladas espumas que caem dos páramos, batendo e tocando

e

arrastando consigo a polpa do café

e

as densas flores dos câmbulos 1 .

Hoje, algo se deteve dentro de mim, um espesso remanso faz girar, depressa, lenta, docemente,

resgatados na superfície agitada das suas águas, certos dias, certas horas do passado,

a que se prende furiosamente

a matéria mais secreta e eficaz da minha vida.

1 Esta árvore perde completamente as folhas durante a floração. Para definir a sua cor fala- -se de vermelho, de vermelho-coral ou de vermelho-alaranjado. Pode chegar a 35 m de altura e é originária de zonas tropicais americanas. (N. do T.)

136 um país que sonha

Flutuam agora como troncos de terna amarra, em serena evidência de fiéis testemunhas

e a eles me acolho neste longo presente de exilado.

No café, em casa de amigos, voltam com dor descolorida Teruel, Jarama, Madrid, Irún, Somosierra, Valência

e logo Perpignan, Arreglen, Dakar, Marselha. À sua raiva me uno, à sua miséria

e esqueço assim quem sou, de onde venho, até quando uma noite começa o bater da chuva

e

corre a água pelas ruas em silêncio

e

um cheiro húmido e certo

me faz voltar às grandes noites do Tolima onde uma vasta desordem de águas grita até de madrugada a sua vozearia vegetal;

o seu destronado poder, entre as ramagens da sombra, jorra ainda pela manhã calando o fervilhar espesso do mel nos polidos recipientes de cobre.

E é então quando peso o meu exílio

e olho a irrevogável solidão do perdido

pelo que de antecipada morte me corresponde

a cada hora, a cada dia de ausência

que encho com assuntos e com seres cuja estrangeira condição me empurra para a cal definitiva de um sonho que roerá as suas próprias vestes, feitas de uma crosta de matérias desterradas pelos anos e o esquecimento.

álvaro mutis 137

JORGE GAITÁN DURÁN

(1924-1962)

Nasceu em Pamplona (Norte de Santander). Concluiu estudos de Di- reito. Foi crítico de cinema e literatura. Em sinal de protesto pelo assas- sinato do candidato presidencial Jorge Eliécer Gaitán em 9 de Abril de 1948, tomou ao lado do seu colega Jorge Zalamea a Radiofónica Na- cional. Ambos desejavam incitar as massas a uma revolução de carácter pacífico e intelectual. Depois destes factos foi acusado de rebeldia e viu- -se forçado a abandonar Bogotá durante alguns meses. Ao regressar à ca- pital decide viajar a Paris para estudar cinema. Voltou à Colômbia em 1954 e nos anos seguintes alternou a sua residência entre a Colômbia, França e Espanha. Foi o fundador da revista Mito. A sua poesia caracte- riza-se por desenvolver o tema erótico como uma comunhão da vida e da morte. Publicou vários livros de poesia e prosa e escreveu uma ópera. Morreu aos 38 anos de idade em Guadalupe num acidente aéreo.

A TERRA QUE ERA MINHA

Unicamente para se juntar a Sofia von Kühn, amante de treze anos, Novalis acreditou no outro mundo; mas eu acredito em sóis, neves, árvores, na borboleta branca sobre uma rosa vermelha, na erva que ondula e no dia que morre, porque só aqui como um dom fugaz te posso abraçar, no fim como um deus criar-me nas tuas pupilas, porque te perco, com a terra que era minha.

jorge gaitán durán 141

SEI QUE ESTOU VIVO

Sei que estou vivo neste belo dia deitado contigo. É verão. O calor das frutas na tua mão derrama o seu espesso perfume ao meio-dia.

Antes de nos deitarmos aqui não existia este mundo resplandecente. Nunca é em vão que ao desejo arrancamos o humano amor que as estrelas desafia.

Para o azul do mar corro nu. Volto a ti como ao sol e em ti me aninho, nasço no esplendor de te conhecer.

Sinto o suor ligeiro da sesta. Bebemos vinho tinto. Esta é a festa em que mais lembramos a morte.

ESTROFE À MADRUGADA DE 14 DE SETEMBRO DE 1959

Solidões do céu, as estrelas; os homens, solidões da terra; separavam-nos os deuses, mas lutamos até habitar um dia entre os astros.

DORA CASTELLANOS

(1924)

Nasceu em Bogotá (Cundinamarca). Escreve desde muito jovem. Pu- blicou o seu primeiro livro de poesia aos 15 anos. É autora de uma obra vastíssima em vários géneros: poesia, conto, história romanceada, e literatura infantil. Exerceu a diplomacia e o jornalismo cultural. A sua poesia é essencialmente amorosa e distingue-se por um perfeito uso das formas clássicas e pela musicalidade do verso. Foi a primeira mulher a ser aceite pela Academia Colombiana da Língua. Actual- mente vive na sua cidade natal.

HÁ ALGO EM TI

Há algo em ti que nunca conquistei; sombra vã que não me obedece, algo que me perturba e me estremece:

flor de amor que nunca desfolhei.

É algo indefinível, atormentado; noite que não acaba nem amanhece; qual sórdido cilício permanece entre a carne viva, soterrado.

Algo entre a loucura e o espanto. Grito que vai chegar e nunca chega, perto do resplendor, próximo do pranto.

Ó trágica dor de ferida cega! Amor por quem suspiro e me levanto, há algo em ti que nunca se me entrega.

SEMPRE AMOR

Para Inês e Adel López Gómez

Não foi só pelo gozo que te busquei:

também te quero para te padecer, porque só o prazer que dá o ter não dá a plenitude com que amei.

O vivo resplendor do desfrutado

menos amor é sempre que aquela forte

dor de coração que nos adverte

da cruel sorte de estar enamorado.

Sofro-te com dor, com alegria, com deleite, com ódio, com doçura, e toda a felicidade é agonia.

Se um dia nasci, foi para te ver;

para saber a tua paixão e a tua formosura, para te fruir, Amor, e para te padecer.

148 um país que sonha

ROGELIO ECHAVARRIA

(1926)

Nasceu em Santa Rosa de Osos (Antioquia). Exerceu o jornalismo e a crítica literária. É autor de uma obra breve mas amplamente valori- zada pela sua originalidade. Foi o primeiro poeta colombiano a incor- porar nos seus versos a aparente simplicidade da vida quotidiana. É um dos melhores conhecedores da poesia colombiana e chegou a rea- lizar mais de meia dezena de antologias. Entre elas: Antologia de la poe- sía colombiana (1998), a mais completa compilação de poetas colom- bianos que se tenha feito até hoje. Actualmente vive em Bogotá.

O TRANSEUNTE

Todas as ruas que conheço são um longo monólogo meu, cheias de pessoas como árvores batidas por obscuro ruído. Ou se o sol floresce nas varandas e semeia o seu calor na poeira agitada, as pessoas que encontro são simples pedras que não sei porquê vivem rodando. Sob os seus olhos — que me fixam hostis como se eu fosse inimigo de todos — não consigo descobrir uma consciência livre, de criminoso ou de artista, mas sei que todos lutam sozinhos pelo que procuram todos juntos. São um longo gemido todas as ruas que conheço.

A FELICIDADE

Há miríades de seres no universo que são felizes — e não te conhecem.

Milhões de pessoas na Terra são felizes sem te amar.

E alguns que te amaram desfrutam de um feliz esquecimento.

Porquê, então, sou eu o único homem para quem tu és toda a felicidade do mundo?

À CHUVA

Demónio da chuva — látego de luxúria — não rompas com os teus dentes quebradiços o abrigo do tépido peito, única coisa tépida do humilde; não nos tragas o frio de tão alta nuvem, não persigas o cão sem portas com as tuas pedras, não rompas o pulmão do operário que canta seguindo o pé descalço dos seus filhos sem céu, não deslustres as barbas secas do pedinte, não chegues aonde não te podem evitar.

Deixa a tua voz pluvial para o cultivo dos rios, para a frente das persianas onde há dono, para o chapéu de chuva, que é a tua flor arcaica.

Demónio-deus, que invejas e que amas as multidões e cais ruidoso sobre todos, dissolve já Babel e deixa que assome o sol como um seio repleto de leite pródigo.

rogelio echavarria 153

EDUARDO COTE LAMUS

(1928-1964)

Nasceu em Cúcuta (Norte de Santander). Exerceu vários cargos políti- cos e diplomáticos. Em 1950 publicou Preparación para la muerte, seu primeiro livro de poemas e desde então ocupou um lugar destacado na literatura colombiana. Junto com Jorge Gaitán Durán e Hernando Va- lencia Goelkel fundou a prestigiosa revista Mito. Em 1963 publicou Esto- raques, seu último livro de poemas. No ano seguinte morreu num aci- dente de viação.Tinha 36 anos. Apesar da sua morte prematura conseguiu construir uma obra sólida cujo tema principal é o tempo e a sua marca. É o pai de Ramón Cote Baraibar, poeta incluído nesta antologia.

A JUSTIÇA

Eu suportei a luz, tinha a fronte igual a uma manhã recém feita; logo chegou a sombra e semeou-me sem me dar conta o sinal amargo:

as palavras seriam desde então uma visão do mundo derrubado em sonhos; alguém tem de cantar porque um novo Caim é ser poeta. Vendi-me como escravo para que

o

meu dono manejasse as minhas acções;

o

que resulta é que o amor me fez mais só

meu amo não podia com as suas culpas. Liberto vagueio, sim, liberto de mim; a sombra sou do real; mas nem sequer me posso dar conta do que se passa no meu domínio. Mau é sentir que passa o sonho através dos olhos e do peito

e

e não poder dizer o que sucede.

Sim: por esta palavra que escrevo serei depois julgado, justiçado; não me defenderão contra a morte

o meu labor de contar, de dizer coisas,

o ir morrendo em cada letra, de ver cinzas onde está a vida.

A SOMBRA COMO UM DADO ÀS COSTAS

Para Hernando Valencia Goelkel

Procuro o meu corpo porque pesa muito,

levar sempre a sombra por trás do passo

e não poder dizer se sou um espaço oco onde passam os sonhos, um a um, divagando, ou o copo em que os bebo.

Quero olhar os meus olhos e as minhas mãos

e

o coração para medir distâncias

e

horas, mas só vejo a minha sombra

que é o meu tempo perdido que me olha, implacável, desde o seu obscuro lugar.

Afundo-me. Agora sou a minha sombra. Sou aquele que a luz não purifica:

a capa sempre posta sob o jogo

de um dado que dá voltas e caminha,

que caminha e dá voltas. Tiro sortes

e não vejo a vantagem de estar vivo.

158 um país que sonha

A VIDA QUOTIDIANA

Hoje começo o dia de ontem com palavras e com desejos; logo de manhã têm pó os sapatos: sem excepção os actos tornam-se-me cicatrizes.

Vemos o cervo e até por vezes chega a beber das nossas mãos, mas a sede faz-se-lhe velha como um avô entre os lábios.

Somos do hoje, mas o que fazemos pertence ao passado, somos

a fonte que fica: a água,

quero dizer a vida, passa.

Ao meu ouvido chegam as vozes que amanhã direi, amanhã:

a minha sorte de calar

com a palavra de outro dia.

Se se lançasse o sonho ao ar como uns braços, se uma rede — do ontem, ao que seremos —

nos rodeasse. Mas tudo, tudo o que faço é já passado.

Agora eu que sou recordação, que olho para dentro e cheiro a só,

e

muito vagamente distingo

o

avô que está no meu rosto.

TU

Cai a tua palavra na solidão como um ramo de oliveira na paz. Eu não sabia que a tua voz chegaria com estrelas. És o meu grito de combate contra a morte. Agora uma árvore cresce onde o esquecimento fecha os olhos. Tu.

eduardo cote lamus 161

GONZALO ARANGO

(1931-1976)

Nasceu em Andes (Antioquia). Fundou em 1958 o movimento lite- rário de vanguarda chamado Nadaísmo. A ele juntaram-se outros jo- vens poetas de espírito rebelde que desejavam renovar os desgastados costumes literários e morais do país. Foi um homem de grandes con- trastes e personalidade enigmática. Os seus amigos chamavam-lhe o Profeta. O seu poema «Los nadaístas» ajudará o leitor a aproximar-se da essência do mais controverso movimento literário colombiano. Morreu em Tocancipá num acidente de carro.

A SELVAGEM ESPERANÇA

Éramos deuses e fizeram-nos escravos. Éramos filhos do Sol e consolaram-nos com medalhas de lata. Éramos poetas e puseram-nos a recitar uma esmolinha por amor de Deus.

Éramos felizes e civilizaram-nos. Quem refrescará a memória da tribo. Quem fará reviver os nossos deuses. Que a selvagem esperança seja sempre tua, querida alma indomável.

gonzalo arango 165

OS NADAÍSTAS

Os Nadaístas invadiram a cidade como uma peste:

dos bares saxofónicos ao silêncio dos livros dos estádios olímpicos aos profilácticos das solidões ao ruído dourado das multidões de sul a norte ao acender-se de rosa o dia até ao advento dos néones e mais tarde o consumo dos carvões nocturnos até à bílis da alvorada.

Vai só para parte nenhuma porque não há lugar para ele no mundo não está triste por isso gosta de viver porque é disparate estar morto ou não ter nascido. É um nadaísta porque não pode ser outra coisa está marcado pela dor desta pergunta que lhe sai da boca como um vómito tépido de cor malva e emocionante pureza:

Porque há coisas e não antes Nada? Este ponto de interrogação distingue-o de outras verdades e de outros seres.

Ele é ele como uma onda é uma onda leva sobre ele a sua cor que o define revolucionário

166 um país que sonha

como é próprio da alma ser líquida

do homem ser mortal do vento ser errante do verme arrastar-se para o seu buraco

da noite ser obscura como um pensamento

sem porvir Teve a sua camisa de revolução nos resplendores dos incêndios no assassinato da beleza no suicídio eléctrico do pensamento nas violações das virgens ou simplesmente no bairro pobre dos tintureiros.

Leva a sua camisa vermelha como uma honra como um céu leva a sua estrela como um semáforo produz a sua luz intermitente de catástrofe como uma embalagem de «pall-mall» perfumando o seu peito de adolescente.

O Nadaísta é jovem e resplandece de solidão

é

um eclipse sob os néones pálidos

e

os fios do telégrafo

é, no barulho da cidade

e entre os seus arranha-céus,

o assombro de uma flor tingida de púrpura nos resíduos da loucura.

Tem o perigo dos lábios vermelhos e da pólvora

olha as objectivas com olhos tristes de aniversário

é o terror dos retóricos

gonzalo arango 167

e dos fabricantes de moral

é sensitivo como um gonococo esquizofrénico

inteligente como um tratado de magia negra ruidoso como uma carambola às duas da manhã amotinado como um cheiro de esgoto frívolo como um dia de anos

é um monge sibarita que caminha sem tremor para a sua condenação eterna com sapatos de camurça.

Sofre a vertigem das batidas electrónicas do jazz as velocidades a contra-relógio coração de raio de vóltio que estoura no pára-brisas de um Volkswagen desejando a mulher do teu próximo. Aborrece-se de morte mas existe.

Não se suicida porque ama furiosamente fornicar jogar snooker nas noites inesgotáveis brindar com rum em honra à sua existência estirar-se nos prados sob as luas metálicas não pensar não se cansar não morrer de felicidade nem de aborrecimento.

É esplêndido como uma estrela morta girando com radar nos vagos céus vazios. Não é nada mas é um Nadaísta E está salvo!

JORGE VALENCIA JARAMILLO

(1933)

Nasceu em San Roque (Antioquia). Poeta, político e gestor cultural. Foi funcionário público, senador, ministro e presidente da Câmara de Medellín. É fundador e presidente da Feira Internacional do Livro de Bogotá. Entre as distinções que recebeu contam-se a Grã-Cruz da Or- dem de Boyacá e a condecoração Simón Bolívar do Ministério da Educação Nacional, em reconhecimento pela sua actividade cultural. A sua poesia trata essencialmente do amor. Publicou quatro livros, sendo o mais recente La luz imposible (2012). Vive em Bogotá.

DEUS E TU

No princípio eram a noite e o caos. Veio Deus e criou os céus e a terra e a luz e o dia e o homem. Depois deteve-se, pensou um instante:

fez-te a ti. E olhou-te fixamente, fixamente teve medo e disse para consigo:

«Eram mais seguros a noite e o caos.»

VINGANÇA

I

Talvez te espantes se te disser que tenho um grande desejo um desejo profundo:

que o teu novo amante te ame muito muito mais do que eu.

II

Depois

terei o prazer de saber

que sofreu muito muito mais do que eu.

A ÚLT IMA ESPERANÇA

Sentar-me-ei aqui

sob esta formosa árvore

e esperarei que Deus

ou o destino me digam que amanhã virá outra mulher,

e

que se deitará na relva comigo

e

que juntos esperaremos, sem nenhuma pressa

que a morte chegue.

MARIO RIVERO

(1935-2009)

Nasceu em Envigado (Antioquia). Poeta, jornalista e crítico de arte. Na sua juventude foi cantor de tangos. Chamou-se-lhe «poeta do urbano». A sua poesia costuma recorrer ao tom coloquial e à linguagem directa para tratar as angústias do homem citadino. Em 1972 fundou com Au- relio Arturo e Fernando Charry Lara a revista literária Golpe de dados, que dirigiu durante 37 anos até à sua morte. Morreu em Bogotá.

BALADA DAS COISAS PERDIDAS

I

O que primeiro se perdeu foi a infância,

a

infância que corria com o seu pé ligeiríssimo,

a

infância agreste

a

ninhada de rolas naquele velho salgueiro,

o

verão mordido nas goiabas,

uma cozinha branca,

e esse quarto fechado, «tal como estava quando…»

e onde, a incansável cinza do tempo caía com asa lenta, partícula a partícula…

ainda continuas aí, e agora, casa que ontem foi tutelar, foi nossa?

Eu acordava e via a mãe, prender a vela com mãos gretadas pela intempérie diária, amassar a brancura da farinha, quando o pequeno-almoço estava servido, chamava-nos,

Eu lentamente, levantava-me e vestia-me…

Soluços… lábios fechados…

o choro nos cantos,

a pupila assombrada, fugindo de algo adulto,

mario rivero 177

esse disco de luz que aprecia vir de alguém ou algo… Oh pureza! Pureza! tantas coisas devo ter perdido, a andar, sempre, onde o caminho se abria…

Mas da infância, que direi da infância? Vais-te esfumando, ficas imprecisa, azulas-te…

II

E

houve a perda do primeiro amor.

Postigo desaparecido de onde o amor e o medo espreitavam com mil olhos. Conversávamos debaixo das varandas simples abertura por onde se derramava

a fragrância, o odor, o respirar amado

do ser que todas as tardes se entregava e cedia… Eram os 18 anos,

a memória levanta

os laços boémios do cachecol… Bancos de jardim,

as tuas nádegas claras na luz de aquário do crepúsculo… Oh desejos! Arrebatamentos nocturnos…

Quantas noites em que não pude dormir, à força de me saciar com esse sonho que substituía o sonho! Dor, amor, remorso, destinos, anos nossos,

a mesma nota vibra, em diferentes tons!

178 um país que sonha

O teu coração afasta-se. O teu coração, a tua pegada, gravada com a

minha. Juntos numa única sombra, a minha voz, o teu passo, as ânsias e os corpos,

a sede desconhecida…

Tu não dirás «foi ele!», eu não direi «foi ela!». Uma cortina de esquecimento cobre o nosso mútuo tremor.

O teu nome e o amor correm nos confins do sangue,

leio-te doces versos… Estou-me a ver nesses profundos olhos negros, Minha abandonada! És minha de novo. Volto a pensar em ti, e volto a esquecer-te. Enterro-te com a terra do meu sonho perdido, enquanto continuo o meu ingrato caminho de passar…

III

E também se perderam os amigos,

agora todos em silêncio, na morte, na vida, Rafael Ramírez, prestamista, Noel Morales, o mais terno, Carlos Emílio, o da voz de ouro, Atilano, com uma mesa de bilhar ao fundo,

e Jairo com um raminho entre os dentes, desafiante,

que foi o primeiro a sucumbir, a partir… Oh companheiros! Oh perdidos! já não crescem comigo, desfilam todos com os seus passos coroados de pó, montam como uma guarda de tristeza,

os rostos familiares que hoje se dispersam, o último sonho ou outro tédio, enquanto eu continuo o meu isolado caminho de passar…

mario rivero 179

IV

Pó obscuro do tempo, que cai e tudo cobre dentro de nós, e à volta. Tempo! Tempo! tu és o ceifeiro. Hoje cada um carregado com a sua própria existência, como voltar a ser os que éramos então, os outros,

agora que a nós todos, desdenhosa, tantas vezes terá tacteado a

morte,

o

sombrio estampido,

a

poeira que levantou o aroma amargo,

o

golpe de onda negra,

o

açoite pirata da vida… A vida!

V

Mais um dia, repetes. E que repetes? Que futuro saúdas? transitando perdidos, pelo triste caminho que vai do não sabemos até ao não imaginamos,

quantas coisas não foram! quantas coisas perdemos! Esses actos que puderam anular os nossos actos,

o instante que arruinava a obra lenta de meses,

os mistérios, o choro…

A adolescência inquieta,

ou com o mínimo de cobardia que foi permitido

às

fracas forças.

O

dia com um bafo nosso, como um copo cheio,

o

sorriso embebido em medo da irmã pequena,

não nos vêm dizer, aqui estamos! Tens-nos!

180 um país que sonha

Em tudo já morremos,

o sol dos veados já se dissolve em negro…

VI

Como se apenas fosse verdade a distância, verdadeiro o esquecimento, levanto a louça. Apago a luz viva das coisas que foram:

Amigos que me esperam, mulheres que reanimam, violetas… As pesadas corolas dos ceibos 1 ,

os acentos de uma harpa,

a boca do cavalo, com o seu resfolegar, como flor de algodão entre a névoa…

O arco-íris, o mar, o grito do melro…

Um odor de lembrança, o bom arma do cacau que subia no ar de «Balcãs»

o

glu-glu de uma fonte.

E

também algo mais… algo mais… algo de imponderável…,

e

que desprende um esplendor hoje cada vez mais distante,

algo que ardia na ponta extrema mais pura da minha vida algo como um segredo que não encontro algo que não existia em nenhuma parte, que não me dão nem o tempo, nem o amor, nem a paisagem, nem o verso…

1 Árvore americana, notável pelas suas flores de cinco pétalas, vermelhas e brilhantes, que nascem antes das folhas.

mario rivero 181

VII

O

meu ombro viúvo encurva-se e agasalha-se com frio

o

meu ombro caminhante

projecta uma única sombra na encosta que desce…

Em vão espreito o abandonado flanco,

as costas vazias.

Esse passo que ressoa largamente na sombra é o meu,

é o pé de quem caminha no campo ermo, solitário, e não vê senão este cair de muros, de nomes… e de pó…

182 um país que sonha

(para Giovanni Quessep)

NICOLÁS SUESCÚN

(1937)

Nasceu em Bogotá (Cundinamarca). Poeta, contista, tradutor, editor, jornalista e professor universitário. Fez estudos de literatura, história e humanidades nos Estados Unidos e França. Ao longo de vários anos dirigiu a revista literária Eco. Traduziu Rimbaud, Flaubert, Ambrose Bierce, W.B. Yeats e Stephen Crane, entre outros autores. A sua poe- sia de tons cosmopolitas, trata do tempo, da infância e de alguns as- pectos da realidade social colombiana. Recebeu o prémio «Vida y Obra 2010». Este galardão bienal é entregue pela Secretaria de Cul- tura de Bogotá a um artista que tenha dado um contributo funda- mental à cultura da capital.

NÃO ESPERES NADA

Não esperes nada da manhã, não te sepultes na esperança, pensa:

Não verei a luz do novo dia, esta é a minha última noite. E bebe até esqueceres tudo para o voltares a esquecer, que essa seja a tua vida, um vaivém entre o ser e o não ser. Não esperes nada da manhã, afunda-te no esquecimento para que o novo dia seja verdadeiramente um novo dia, como se estivesse a começar a dar voltas o mundo, como se ir para além não fosse vir para aqui, como se a terra não girasse, enlouquecida.

INFÂNCIA

O mar imenso, azul,

profundo rúmulo de piratas e tesouros, estava ali muito longe, por trás das montanhas. Era uma ausência.

Os rios, também, eram grandes ausentes.

As suas águas, sob a terra,

corriam espessas e escuras, arrastando desperdícios.

E a beleza também se escondia.

Raramente saía à rua.

Às vezes assomava-se com o sol no quintal

ou nos molhos do gato.

E as viagens tinham de ser imaginárias,

pobres sonhos tíbios nos frios recantos onde começavam os caminhos. Assim qualquer viagem era um projecto, completamente secreto, uma viagem secreta, inconfessável.

E os prados onde jogava futebol

iam-se enchendo de casas.

Tinha de se caminhar muito para chegar onde não houvesse estranhos.

O caminho da escola para casa:

esse simulacro da Odisseia.

QUE FELICIDADE VIVER NESTE PAÍS TÃO BELO

Que felicidade viver neste país tão belo onde as pessoas gostam tanto dos touros

e do sangue na arena!

Que belo sangue, tão vermelho! Que bom viver aqui onde os polícias jogam à roleta russa não apontando o revólver à sua própria cabeça

mas sim à cabeça dos adolescentes, onde os assassinos riem ao matar

e acumulam cadáveres

que tingem os rios de púrpura

e nos cobrem com um véu vermelho!

Que formoso país é este com tantos matizes do vermelho,

embora o sangue com o tempo se torne negro,

e embora às nossas festas delirantes de alegria as presida e encerre

o esqueleto de capuz e gadanha!

nicolás suescún 187

JOSÉ MANUEL ARANGO

(1937-2002)

Nasceu em El Carmen de Viboral (Antioquia). Poeta, tradutor, filósofo

e ensaísta. Foi professor universitário de Lógica Simbólica durante mais de 20 anos. Nos anos 60 viveu nos Estados Unidos, onde concluiu es- tudos de filosofia. Traduziu alguns dos autores que mais influenciaram

a sua obra: Walt Whitman, William Carlos Williams, Emily Dickinson,

Ezra Pound, entre outros. Co-fundador e co-director das revistas Acua- rimántica, Poesía e Deshora. A sua poesia fala com assombro e gratidão sobre a complexidade do ser humano. Recebeu o Premio Nacional de Poesía da Universidade de Antioquia em 1988. Morreu em Medellín.

XXXVI

por vezes

vejo nas minhas mãos as mãos do meu pai e a minha voz

é a dele

um obscuro terror

atinge-me

talvez na noite sonho de sonhos

e

a fria fúria

e

a lembrança de lugares nunca vistos

são ele, repetindo-se sou ele, que regressa

cara de meu pai presa sob a pele, sobre os ossos do meu rosto

XXXIV

chega depressa, nada o anuncia é uma folha que se perfila na manhã intensa limpa: a sua forma de faca

e olhas para as unhas diminutos espelhos da morte:

em cada uma um rosto de diversa idade e aparência

XLV I I I

por que árduos países em que obscura guerra sem o saber

combati e triunfei para te ter

enquanto tu refugiada na tua adolescência tirando à sorte as provas de uma solidão esplendorosa

te preparavas para mim

NA NOITE DE CARNAVAL

Na noite de carnaval cada um põe a sua máscara

ninguém sabe quem é quem ninguém é ninguém

no paraíso do carnaval

o tigre de humor aprazível e caninos que são um gozo vai beber acompanhado pela gazela

e o lobo e o cordeiro olham-se com um calafrio

na noite de carnaval a vítima e o assassino

dançam

depois andarão um pedaço de mão dada secretamente unidos a compasso como os amantes no movimento do amor

194 um país que sonha

GIOVANNI QUESSEP

(1939)

Nasceu em San Onofre (Sucre). Poeta e professor universitário. Ini- ciou a sua carreira literária com o livro Después del paraíso (1961). Este livro, convencional e subordinado à métrica do soneto, serviu-lhe para marcar distância em relação aos movimentos vanguardistas. Depois publicou El ser no es una fabula, onde se consolidou a singularidade do seu universo poético. Na sua poesia a morte é inferior ao humano e por isso a vida conta-se como se se tratasse de uma lenda ou um conto de fadas. Foi co-fundador da revista literária Golpe de dados. Recebeu o Premio Nacional de Poesía em 2007. Vive em Popayán.

POEMA PARA LEMBRAR ALICE NO ESPELHO

Aqui no lendário e no real

A nossa história resulta semelhante

À dessa maravilhosa rapariga que penetrou no espelho

Esteve sempre à beira de desaparecer Mas ninguém pronunciou a fórmula que a devolveria ao pó Nem Tweedlerdum nem Tweedledee nem a Rainha nem o Rei de Copas Que não tinha nada para fazer senão acordar

Talvez sejamos um conto Talvez sem que nunca nos acautelemos

A nau de Ulisses

Ou o rouxinol de Keats (Esse pássaro não destinado à morte) Digamos então que o que foi um canto da Odisseia Continuará sendo nós

Sem deixar de ser por isso o país das maravilhas

E alguém poderá reconhecer-nos

Ao ouvir a história ainda não escrita

Na história castelo a história lua múltipla Na história brinquedo destruído

A história enfim quando passou uma nuvem sobre Alice

Talvez sejamos a sombra desse azul na sua mão

giovanni quessep 197

ALGUÉM SE SALVA POR OUV IR O ROUX INOL

Digamos que uma tarde O rouxinol cantou Sobre esta pedra Porque ao tocá-la O tempo não nos fere Esquecimento, nem tudo é teu Algo nos fica Entre as ruínas penso Que nunca será pó Quem viu o seu voo Ou ouviu o seu canto.

198 um país que sonha

A CALHANDRA E OS LACRAUS

Lembra-te rapariga Que estás num lugar da América do Sul Não estamos em Verona Não ouvirás o canto da calhandra As invenções de Shakespeare Não são para Maurício Babilonia Cumpre a tua história sul-americana Espera-me nua Entre os lacraus E esquece-te e não esqueças Que o tempo colecciona borboletas

CANTO DO ESTRANGEIRO

Penumbra do castelo pelo sonho Torre de Cláudia afasta-me a ausência Penumbra do amor em sombra de água Brancura lenta

Diz-me o segredo da tua voz oculta A fábula que teces e desteces Adormecida apenas pela voz da fada Branca Penélope

Como entrar no teu reino se fechaste A porta do jardim e te vigias Na tua noite perde-se o estrangeiro Brancura de ilha

Mas há alguém que vem pelo bosque De alados cervos e estrangeira lua Ilha de Cláudia para tanta dor Vem em tua busca

Conto do real de onde as mãos Abrem o fruto que esqueceu a morte Se um fio de lenda é a memória Bela adormecida

A véspera do tempo à tua beira

Tempo de Cláudia afasta-me a noite

Como entrar no teu reino sem clausuras

A branca torre

Mas há um caminhante na palavra Cega canção que voa até ao encanto Onde ocultar a sua voz para o teu corpo Nau voando

Nau e castelo é ele na tua memória

O mar de vinho príncipe abolido

Corpo de Cláudia mas no fim janela

Do paraíso

Se pronuncia o teu nome entre as pedras

Move-te o esplendor e nele derivas

Para outro reino e um país te envolve

A maravilha

Que é esta voz desperta pelo teu sonho?

A história do jardim que se repete?

Onde o teu corpo junto a que penumbra Vais em declive?

Já te esqueces Penélope da água

Bela adormecida da tua lua antiga

E para outra forma vais no espelho

Perfil de Alice

Diz-me o segredo desta rosa ou nunca Que guardam o leão e o licorne

O estrangeiro sobe à tua colina

Sempre mais só

Maravilhoso corpo desfazes-te E o céu é o teu fluir no contado Sombra de algum azul de quem te segue Mãos e lábios

Os passos na madrugada repetem-se Voltas à canção tu mesma cantas Penumbra de castelo no começo Quando as fadas

Através da minha mão pelo teu leito Escorre um desolado labirinto Perdida fábula de amor chama-te De um fundo esquecido

E o poeta nomeia-te sim a múltipla Penélope ou Alice para sempre

O jardim ou o espelho o mar de vinho

Cláudia que volta

Ouve o que desce pelo bosque De alados cervos e estrangeira lua

Toca as tuas mãos e ao teu corpo eleva

A rosa púrpura

De que país de onde de que tempo Vem a sua voz a história que te canta? Nau de Cláudia aproxima-me da tua beira Diz-lhe que o amas

Torre de Cláudia afasta-lhe o esquecimento Brancura azul a hora da morte Jardim de Cláudia como pelo céu Cláudia celeste

Nau e castelo é ele na tua memória O mar de novo príncipe abolido Corpo de Cláudia mas no fim janela Do paraíso

JOTAMARIO ARBELÁEZ

(1940)

Nasceu em Cali (Valle del Cauca). É um dos membros fundamentais do chamado grupo Nadaísta. Publicou o seu primeiro livro El profeta en su casa em 1966. A sua poesia caracteriza-se pelo humor negro, o erotismo, o desenfado e a linguagem voluntariamente prosaica e irre- verente. Ganhou vários prémios nacionais de poesia na Colômbia e o Premio Internacional de Poesía Varela Mora, da Venezuela, em 2008. É colunista de importantes jornais nacionais. Vive em Bogotá.

INIMIGO

Sentei-me na orla do rio

e

não vi passar flutuando

o

cadáver do meu inimigo

Sentei-me na orla do caminho

e não vi passar o enterro do meu inimigo

Que terá sido feito do meu inimigo

Em que orla de que rio ou de qual caminho se terá sentado o meu inimigo?

O LICORNE ENFURECIDO

Sonho que um licorne enfurecido crava o seu único chifre no ventre da minha primeira esposa, abana-o lacerando a sua carne, ela dá uivos de um prazer tão brutal que me faz morder os lábios com a raiva. O licorne olha-me. Esfrega os cascos dianteiros. Mas em vez de me atacar aproxima-se de mim docemente, lambe-me as mãos, lambe-me o sexo, volteia roçando o seu dorso contra a minha coxa, levanta a cauda e o ânus que vejo é idêntico ao da minha esposa no dia da nossa boda. Sem pensar duas vezes introduzo o meu membro com enfaixe e tudo. O licorne aperta o esfíncter, eu grito, o meu membro foi amputado e ficou dentro do monstro que, estendido na areia, o rosto igual ao da minha esposa, se ri como num filme de desenhos animados.

208 um país que sonha

NÓS OS INADAPTADOS NÃO TE ESQUECEMOS, MARYLIN

Agora que os vermes lançaram sobre o teu corpo a primeira pazada do esquecimento agora que vives debaixo de Los Angeles sem necessidade de psiquiatras agora que o osso altivo das tuas ancas é puro pó numa caixa e puro pó são as tuas nádegas disseminadas pelo chão raso do teu túmulo agora que a totalidade do teu corpo cabe na mais pequena das tuas caixas de pó-de-arroz agora que as unhas dos teus pés jazem aos teus pés desfeitas como planetas mortos e os tacões de platina dos teus sapatos de gala se dobram entre cestas de champanhe sob o peso terrível da ausência do teu cal- canhar de Aquiles agora que no teu armário as traças fizeram o mesmo aos teus vestidos cheirando a festa em Beverly Hills a Chanel número 5 e aos 5 dedos de uma mão agora que o milionário excêntrico que alugou a mansão que habitavas em Brentwood deixou de procurar as tuas axilas nos cantos da sala e de organizar com os seus convidados um safari de rinocerontes no Peru agora que o psiquiatra que te atendia se declarou falido e para pagar os impostos está a escrever as tuas «memórias» e além disso porque às suas três mulheres lhes faz falta os doze mil dólares mensais que lhe pagavas em honorários agora que os soporíferos que tomaste se esgotam rapidamente nas farmácias como canções de embalar definitivas

jotamario arbeláez 209

agora que até nas velhas fitas de celulóide se estão a fechar os teus olhos cansados de suportar tanta pestana tanta vigília tanto peso agora que já ninguém sabe quem era Norma Jean Baker porque as Baker, Norma Jean abundam nas listas telefónicas agora que os 188 000 milhões de psicopatas já não te vêem nos seus sonhos em inglês com legendas em castelhano como uma bruxa de Salem voando sobre um taco de baseball agora que a obra dramática do teu ex-marido sobre a tua vida ficou em pedaços perante os críticos da Broadway

e deixou de te iluminar para sempre o sol dos fotógrafos

ó gata cheia de mistério sobre o mercedes benz do esquecimento

neste pequeno país sul-americano que se chama Colômbia vivemos vários poetas inadaptados que não te queremos esquecer (Tu Marylin foste mais importante para nós do que a doutrina Monroe)

e que nos lembramos de ti quando sobe a lua sobre os «jaguares» quando descemos deslizando sobre as passarelas do jet

quando lemos na imprensa que Dalí fez dos teus seios uma escultura de gavetas quando passa ao nosso lado veloz como uma sereia uma ambulância branca de dois andares

e as nossas mulheres gritam do último andar dos elevadores.

Às vezes como agora elevamos-te uma oração porque não te elevamos numa oração num requiem num anti-requiem num responso que sabemos nós destes nomes só que cada homem reza ao que mais ama sobretudo se o que mais ama está morto e é então quando nos queremos deitar de cara para a frente no cemitério de Westwood

210 um país que sonha

para sentir o prurido nos nossos pêlos púbicos das lanças de erva que crescem das tuas virilhas norte-americanas agora que estás morta e repousas enquistada sem muitas esperanças na ressurreição dos corpos nesse pequeno lugar que é como o umbiguinho da América depois de ter vivido entre projectores e névoa entre armazenistas e magnates entre dramaturgos e polícias entre os espelhos e a miragem do amor.

jotamario arbeláez 211

MIGUEL MÉNDEZ CAMACHO

(1942)

Nasceu em Cúcuta (Norte de Santander). Advogado, poeta, ensaísta e professor universitário. Foi ministro conselheiro da Embaixada da Co- lômbia em Buenos Aires. Dirige o Departamento de Extensão Cultural da Universidad Externado de Colômbia em Bogotá. É o responsável pela mais importante colecção de poesia da Colômbia «Un libro por centavos». Nessa colecção publicou desde 2003 cerca de oitenta títulos em edições económicas com tiragens que superam os 12 000 exempla- res. O maior mérito da sua poesia consiste em alcançar a beleza através de uma linguagem ascética e sem grandes ademanes retóricos.

A PALAVRA

Na trivial conversa dos operários que percorrem a sua rua nos grandes bocejos da madrugada, no monólogo do bêbedo que repete a sua história como um disco riscado, ou nos signos escritos sobre a parede pela mão instável do amargo habitante de hospedarias, encontras, rapidamente,

a palavra precisa que procuravas.

A única.

A indispensável no poema

tantas vezes falhado. Mas se a consegues escrever ou a repetes inumeráveis vezes

— para evitar que fuja da memória —

depois

— quando a lês ou a dizes — descobrirás também que devora o poema. Que o destrói.

Como rio que se bebe com a sua sede

e apaga o seu leito,

ou árvore que pisa a sua sombra

e se aniquila.

EDUARDO 1

De repente o hábito

de não contar contigo para nada. De não saber se vais se chegas tarde

e na companhia de quem. Nem quando e onde

a festa combinada

o compromisso inevitável. De esquecer o abraço

e a pergunta

como estás Eduardo?

e como vão os teus versos, os teus assuntos.

De sair para a rua com o sorriso ao vento sem tropeçar contigo nas esquinas.

De falar com os amigos

e esquadrinhar a memória

— surpreendidos — por não saber de ti desde que habitas três metros debaixo de um cipreste no cemitério de Pamplona

1 Eduardo Cote Lamus (1928-1964). Poeta incluído nesta antologia.

ERNESTO

Che: não me culpes a mim por incumprir o encontro dos montes. Juro que quis ir mas não tive o valor suficiente. Meteu-me pavor a selva a pontaria da fome os mosquitos e os boinas verdes. Meteu-me medo trocar tecla por gatilho máquina por espingarda sonhos por revolução.

Che: não me culpes a mim sou um cobarde juro que quis ir.

ELKIN RESTREPO

(1942)

Nasceu em Medellín (Antioquia). Poeta, narrador, artista plástico, editor e professor universitário. Pertenceu à chamada «Geração Desencantada» posterior ao Nadaísmo nos anos 70. Ao lado de José Manuel Arango fun- dou e dirigiu a revista Acuarimántica. Actualmente dirige a revista da Uni- versidade de Antioquia e a revista de contos Odradek. A sua poesia escrita com uma linguagem simples viaja entre o onírico e o quotidiano.

FEITIÇO

Nenhum anseio melhor do que a própria vida.

Nenhum sonho mais apropriado do que a própria realidade.

Nenhum sucesso maior do que um dia em que nada acontece.

Uma festa: o mais trivial dos actos, o mais distraído dos beijos.

Fábula, acordar e saber que estamos vivos.

DESTE LADO

Ao levantar a vista,

ali

na varanda,

da

cor das flores,

o instante perfeito.

Teu, tarde, é este rol luminoso.

Como se alguém supremo tivesse escolhido

o

lugar para descer.

O

rubor das pequenas folhas.

O

reflexo encarnado na janela.

Tal presença

fez-me estremecer.

E, por ter olhado, fiquei

em suspenso.

Um pestanejo.

Logo um instante que ao duvidar da sua realidade,

de imediato passou.

GESTA

Dia, lugar dou em mim

à tua jubilosa matéria.

Na sala

o sol entrou e sentou-se como uma divindade.

Tanta luz confundiu

os

objectos.

O

ramo encarnado

titubeou

junto ao branco da parede.

A mesa e os utensílios

quase se esfumaram como fantasmas.

As cadeiras solidificaram-se

num mármore liso e reverberante.

Na minha mão a chávena de café agitou-se, derramando-se.

Depois foi a gesta em que sem demasiado pavor me esfolou vivo.

EDUARDO ESCOBAR

(1943)

Nasceu em Envigado (Antioquia). Poeta, ensaísta, crítico de arte e jornalista. Faz parte do movimento Nadaísta. Ao longo da sua vida exerceu as mais variadas profissões: publicista, auxiliar de contabili- dade, mensageiro, armazenista, vendedor de bonecas, armador de fa- róis para barco, cantineiro, entre muitas. Alguns críticos consideram Escobar o mais lírico dos Nadaístas. Não obstante a sua poesia segue os principais postulados do movimento: linguagem coloquial, irreve- rência no tratamento dos temas, ruptura com as instituições oficiais e posição social a favor dos menos favorecidos. Em 2000 obteve o Pre- mio Nacional de Jornalismo Simón Bolívar. Autor prolífico e activo, vive numa herdade perto de Medellín.

POKER

Tudo está permitido

As noites de amor sob a lua dos beijos

E os anarquistas com as suas gasolinas

Qualquer ordem está condenada a destruir-se a si própria

E

tudo está proibido

A

chuva sã e as cebolas nas panelas

O

pão pelas nuvens

E

os filmes franceses para todos

Tudo muda

O

mar com as marés

As

formas da mensagem

O

modo de fazer poemas

E

as pedras no seu rolar para Sogamoso

Tudo importa

O

sol em cada manhã a que alguns chamam ruiva

A

salsicha queimada do pequeno-almoço e a torrada que lhe serve de cama

E

as nádegas de uma mulher qualquer com qualquer homem

E

tudo sobra

O

ouro nos baús E os ratos

O

ar envenenado

E

os quatro ases

eduardo escobar 227

Pelos olhos dos vivos olha-se os mortos nos olhos Pelas ruas dos vivos passam os mortos vestidos de cerimónia para um encontro

Pelos ouvidos dos vivos os mortos ouvem as novas canções E os vivos sentados perante as catedrais que não construíram pedem a esmola dos mortos

Quando passam os vivos distraídos e obesos os mortos insensíveis deixam o campo raso para que passem com o devido respeito pelas suas ausências movediças

Entre os vivos os mortos procuram-se para cobrar as suas dívidas e à custa dos vivos exercem os seus ódios e escondem um abraço se faz falta

Com as mãos dos vivos os mortos trabalham Com as mãos dos vivos os mortos reinventam os seus corpos Dá-me a tua mão

Pelas bocas dos vivos os mortos voltam a beijar-se Berram no estádio Mordem-se nos hotéis

228 um país que sonha

Nas cadeiras dos vivos os mortos sentam-se a fumar Contam contos antigos Racham as paredes

E quando se cruzam com as raparigas em flor

saltam babando-se sobre as aromáticas raízes

Pelos olhos dos vivos olham os mortos os seus mortos

E

o pó levanta-se e saúda

E

sorri-lhes quando entram nas coisas dos mortos os vivos

Com as lâmpadas dos vivos os mortos caminham

eduardo escobar 229

PROCURA

Procurei Deus de dia e de noite com sinceridade e paciência Procurei o seu nome nas páginas da lista telefónica

E nos meus sonhos de mergulhador nadei atrás dele

por águas mansas e águas revoltas

E nas grandes precipitações de água corri atrás dele contra a corrente

como um salmão louco

E

procurei-O na ausência daqueles que amei

E

nos defeitos das minhas mansidões para com eles

E

fui atrás dele por pequenas cidades sujas

E

procurei a sua fotografia todas as manhãs nos jornais

entre os assassinos, os palhaços, os inventores e os sábios inúteis Amei no riso aromático das raparigas o Seu riso

E

no olhar do meu próximo quis adivinhar as suas intenções para comigo

E

encontrei morte em todos os lados, morte e morte

Mas procurar é o que importa

230 um país que sonha

AULA DE RETÓRICA

O poema deve estar despojado de imagens

— O signo é a mensagem

O poema há-de ser como um aposento vazio de coisas onde possam

ressoar as palavras como som Meras palavras, não móveis Cada palavra num poema há-de ser ouvida como o seixo sem polir De modo que ao acender a luz sobre uns versos desiguais

nada surja Nem um verde na palavra verde Nem um gato na quadrúpede palavra gato Nem uma guitarra nesta palavra com cordas Ou tão-só um sorvo de música líquida uma pinga de música merdosa onde não havia nada

O poema pode fechar os olhos

Ou abri-los se assim desejas que se faça, tu, o poeta de toda a barba

E podes pôr-lhe óculos para que veja mais em conta

Mas não importa se nasce surdo Ou se perde a cabeça no processo do

seu nascimento

depois de uma árdua gestação

Ou um corvo espera por ele à saída do útero para se lhe unir

espiritualmente

Sempre ficarão para ele os seios lodosos Os intestinos cheios de mornas matérias

E

o peito com os seus ares

E

as teias de aranha onde o seu coração alfabetizado

por trás dos tules das cortinas gorjeia e a tulipa do céu como o tigre

espreita

eduardo escobar 231

Mas os ódios familiares não incumbem ao poema

As dentaduras desses astros sibilinos

Destes horóscopos sangrentos

Bem implantados nas poderosas mandíbulas do destino Nem o anão que toca o clarim à janela

O poema é uma verruga na calma que fica quando se calam os clarins

da vaidade miliciana

Uma pequena anomalia no silêncio

E quando se queixar se tiver de se queixar

deve fazê-lo de modo que mal se ouça O ênfase anula-o

O poema deve ser tóxico mas nunca tão triste que lastime

Em todo o caso, não tanto que apodreça os espelhos nem cegue as

ameixas nas suas camas de teias de aranha da casa dos unicórnios

E

que não possa ser visitado com o sombrero posto

O

poema não está obrigado a ser libertador

Dos escravos Nem está condenado a servir para o aperfeiçoamento da assistência

pública Os pobres são ingratos

Só é responsável pela sua matéria sonora

O

mundo é uma noção muito relativa

E

por essência indescritível

O

poema, só deve bailar

Não tem de ser um vendaval com árvores caídas

E rios derramados sobre umas pradarias

Não está autorizado a mudar a história

O

poema é uma coisa muito mais humilde

E

desnecessária

Como qualquer um de entre nós

Um poema não é mais do que um poema

E deve bastar-se a si próprio

232 um país que sonha

A andorinha chamada Pico

Saiu de cima do fio telefónico, cansada das vazias palavras dos dias

e

das palavras quebradas nas noites

E

eu sinto-me bastante só na minha janela, desumano sem ela

não voltará

A

pedir a minha companhia, a tomar de empréstimo o beiral desta casa

para tecer o seu ninho suspenso de palhas cor de tabaco Mas talvez me engane

E é impossível afastar-se definitivamente

daquilo que alguma vez amámos

E o que vivemos uma única vez vivêmo-lo para sempre

Talvez imperem as raízes

E a andorinha voltará, voando

sobre o sal oceânico e sobre o vento despenteado

e

sobre a neve do inferno

e

sobre o fumo do deserto

e

contra as marés da ficção do tempo

A

andorinha voltará a cansar-se no fio de metal

Com nota vã doce cantará Má, dolorida, delicadamente a sua indisposição pois ter-se-á esquecido do seu nome na ausência da viagem

E eu continuarei na via do antigo empenho inútil de ser Outro

eduardo escobar 233

ARMANDO ROMERO

(1944)

Nasceu em Cali (Valle del Cauca). Poeta, narrador e professor univer- sitário. Pertenceu ao grupo inicial do Nadaísmo, movimento de van- guarda da década de 1960 na Colômbia. A sua poesia, de tons surrea- listas, surpreende o leitor pelas suas voltas inesperadas e o seu complexo entrançado de símbolos. Viajou e residiu em vários países da Europa, América e Ásia, entre eles México e Venezuela. Na Grécia escreveu o seu primeiro romance. Foi distinguido com o título de Charles Phelps Taft Professor da Universidade de Cincinnati (USA). Em 2008 recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Atenas, Grécia. Actualmente vive nos Estados Unidos.

A ÁRVORE DIGITAL

Era um homem a quem tinham enterrado a mão direita Passava os dias metido num quarto vazio Onde se sentava Com os pés contra o ângulo superior da janela

E a mão esquerda segurando uma clarabóia

Por onde os rinocerontes Enfiavam o chifre

E faziam brilhar a sua casca metálica

Tinha-lhe dado para ser poeta

E passava todo o tempo a falar da guerra

De tal maneira Que tinha descuidado a mão direita Esta cresceu lenta e furiosamente

E sem que ele se desse conta

Atravessou o mundo de um lado ao outro

Quando as crianças da parte norte de Sumatra

Viram aparecer uma árvore sem folhas e sem frutos Correram espantadas a chamar os pais Estes vieram com as suas grandes espadas

E cortaram a árvore pela raiz Um líquido branco leitoso saiu da casca ceifada

armando romero 237

Desde então O homem como um poeta Sente uma dor terrível Aguda Num sítio do corpo que não consegue determinar

TESTEMUNHA DO TEMPO

Sou testemunha do tempo as raízes que semeia a infância no rosto dos que amamos Um pedaço de frasco de guloseimas chega ao sol com as suas grinaldas e o céu pressuroso vem dar-nos resposta:

Não somos já os outros que se foram cheios de horizontes pela folhagem. Naquele então, a infância dava um avanço ao tempo e ganhava-lhe.

OUTRO PAÍS

Tão duramente bateram nesse país por todo o lado que o foram tornando redondo, e já convertido numa grande massa rolava contra as suas fronteiras. Não havia quem o parasse quando ia para um lado, nem para o outro. Rodava e rodava dando quedas cada vez mais violentas. Dizem que se alguém ficasse muito tempo lá dentro se esquecia da vertigem mas pobre do que saísse por um minuto, as maquinações do horror nunca lhe perdoariam.

240 um país que sonha

A VIZINHANÇA DAS ÁGUAS

Voltei aos pequenos bosques ao lado do rio para sentir o silêncio que se afunda nas suas margens. Não o devem quebrar os pássaros que procuram minhocas no lodo, nem os troncos que se empilham entre as suas curvas. Uma ou outra lata de cerveja insiste a contracorrente; ou outro desperdício resolve-se no remoinho. Tudo é mínimo na imensidade das águas como nos olhos de uma criança. Tudo explode com esse ruído que o rio leva dentro dele. Não é só do bosque e do rio o que tem de ser silêncio.

RAÚL GÓMEZ JATTIN

(1945-1997)

Nasceu em Cartagena de Índias (Bolívar). Poeta e actor de teatro. Chegou a Bogotá em 1965 para estudar Direito por imposição pa- terna. E foi ali, na universidade, onde descobriu o teatro chegando a converter-se num grande actor. Nos anos de 1970 começou a sua pe- regrinação por hospitais psiquiátricos. Os períodos de loucura interca- lavam-se com os de plena lucidez. Nessa mesma década começou a es- crever poesia. O seu era um talento pouco comum e em vida alcançou grande popularidade. Em 1989 muda-se para Cartagena de Índias onde vive nas ruas e parques, passa outras temporadas em clínicas psi- quiátricas e ingressa várias vezes na prisão da cidade. Em 22 de Maio de 1997 morre atropelado por um autocarro sem que tenha sido possível determinar se se tratou de um acidente ou de um suicídio.

DO QUE SOU

Neste corpo no qual a vida já anoitece vivo eu Ventre macio e cabeça calva Poucos dentes E eu lá dentro como um condenado

Estou dentro e estou enamorado

e estou velho

Decifro a minha dor com a poesia

e o resultado é especialmente doloroso

vozes que anunciam: aí vêm as tuas angústias

vozes alquebradas: passaram já os teus dias

A poesia é a única companheira habitua-te às suas lâminas pois é a única

LOLA JATTIN

Para Alejandro Obregón

Para além da noite que titila na infância Para além inclusive da minha primeira memória

Está Lola — minha mãe — frente ao espelho do armário pondo pó-de-arroz e arranjando o cabelo Tem já trinta anos de ser formosa e forte

e está apaixonada por Joaquin Pablo — o meu velho — Não sabe que no seu ventre me oculto para quando

a sua forte vida necessite da força da minha

Para além destas lágrimas que me correm pela cara

desta dor imensa como uma punhalada está Lola — a morta — ainda vibrante e viva sentada numa varanda olhando os luzeiros quando a brisa do pantanal lhe desgrenha

o cabelo e ela volta-se a pentear

com algo de preguiça e prazer concertados Para além deste instante que passou e não torna estou oculto eu no fluir de um tempo que me leva muito longe e que agora pressinto Para além deste verso que me mata em segredo está a velhice — a morte — o tempo inacabável quando as duas memórias: a da minha mãe e a minha forem uma única memória: este verso.

246 um país que sonha

QUASE OBSCENO

Se quiseres ouvir o que me digo na almofada

o rubor do teu rosto seria a recompensa

São palavras tão íntimas como a minha própria carne que padece a dor da tua implacável lembrança

Conto-te Sim? Não te vingarás um dia? Digo-me:

Beijaria essa boca lentamente até a tornar vermelha

E no teu sexo o milagre de uma mão que desce

no momento mais inesperado e como por acaso

o toca com esse fervor que inspira o sagrado

Não sou malvado Trato de te enamorar Tento ser sincero com o doente que estou

e entrar no malefício do teu corpo

como um rio que receia o mar mas acaba por morrer nele.

raúl gómez jattin 247

Se as nuvens não antecipam nas suas formas a história dos homens Se as cores do rio não figuram os desígnios do Deus das Águas Se não remendas com as tuas mãos de astromélias as fendas da minha alma

Se os meus amigos não são uma legião de anjos clandestinos Que será de mim

248 um país que sonha

Se se quer chegar a ser uma boa vítima

é necessário saber de toda a doçura

que entrelaça o verdugo com a morte da paciência com que afia o seu machado da solidão que ilumina a sua vida

e a dos seus inocentes filhos

do esforço que implica transportar e levantar a arma do sangue que mancha as suas calças Todas essas considerações devem estar presentes

no momento de repuxar os nossos cabelos sobre a nuca

e pôr nas suas mãos o pescoço

raúl gómez jattin 249

MARÍA MERCEDES CARRANZA

(1945-2003)

Nasceu em Bogotá (Cundinamarca). Filha do poeta Eduardo Carranza. Passou parte da sua infância em Espanha e França. Estudou Filosofia e Letras em Bogotá e exerceu o jornalismo cultural em importantes revis- tas e jornais. A sua poesia de carácter confessional está escrita com uma linguagem simples e um penetrante desencanto. Apoiou a campanha para a presidência de Luis Carlos Galán, líder que seria assassinado em plena campanha eleitoral. A dor desta perda ficaria plasmada no poema «18 de Agosto de 1989». Em 2001 sofreu outro duro golpe quando o seu irmão Ramiro foi sequestrado pelas FARC. Dirigiu a Casa de Poesía Silva desde a sua fundação em 1986 até ao dia da sua morte. Suicidou- -se em Bogotá com uma sobredose de antidepressivos.

A PÁTRIA