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FACULDADE TEOLÓGICA IBETEL

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INTRODUÇÃO À BÍBLIA E O PENTATEUCO

(Org.) Prof. Pr. VICENTE LEITE

INTRODUÇÃO À BÍBLIA E O PENTATEUCO

Declaração de fé

A expressão "credo" vem da palavra latina, que

apresenta a mesma grafia e cujo significado é "eu creio", expressão inicial do credo apostólico -, provavelmente, o mais conhecido de todos os credos: "Creio em Deus Pai todo-

Esta expressão veio a significar uma referência à

declaração de fé, que sintetiza os principais pontos da fé cristã,

os quais são compartilhados por todos os cristãos. Por esse motivo, o termo "credo" jamais é empregado em relação a declarações de fé que sejam associadas a denominações específicas. Estas são geralmente chamadas de "confissões" (como a Confissão Luterana de Augsburg ou a Confissão da Fé Reformada de Westminster). A "confissão" pertence a uma denominação e inclui dogmas e ênfases especificamente relacionados a ela; o "credo" pertence a toda a igreja cristã e inclui nada mais, nada menos do que uma declaração de crenças, as quais todo cristão deveria ser capaz de aceitar e observar. O "credo" veio a ser considerado como uma declaração concisa, formal, universalmente aceita e autorizada dos principais pontos da fé cristã.

poderoso

".

O Credo tem como objetivo sintetizar as doutrinas essenciais do cristianismo para facilitar as confissões públicas, conservar a doutrina contra as heresias e manter a unidade doutrinária. Encontramos no Novo Testamento algumas declarações rudimentares de confissões fé: A confissão de Natanael (Jo 1.50); a confissão de Pedro (Mt 16.16; Jo 6.68); a confissão de Tomé (Jo 20.28); a confissão do Eunuco (At 8.37); e artigos elementares de fé (Hb 6.1-2).

A Faculdade Teológica IBETEL professa o seguinte Credo alicerçado fundamentalmente no que se segue:

1. Crê em um só Deus eternamente subsistente em três

pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Dt 6.4; Mt 28.19; Mc

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6

2. Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra

infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão (2Tm

3.14-17).

3. No nascimento virginal de Jesus, em sua morte vicária e

expiatória, em sua ressurreição corporal dentre os mortos e sua ascensão vitoriosa aos céus (Is 7.14; Rm 8.34; At 1.9).

4. Na pecaminosidade do homem que o destituiu da glória

de Deus, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que o pode restaurar a Deus (Rm 3.23; At 3.19).

5. Na necessidade absoluta no novo nascimento pela fé

em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra

de Deus, para tornar o homem digno do reino dos céus (Jo 3.3-

8).

6.

No perdão dos pecados, na salvação presente e

perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente na fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor (At 10.43; Rm 10.13; 3.24-26; Hb 7.25; 5.9).

7. No batismo bíblico efetuado por imersão do corpo

inteiro uma só vez em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo (Mt 28.19; Rm 6.1-6; Cl 2.12).

8. Na necessidade e na possibilidade que temos de viver

vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus no

Calvário, através do poder regenerador, inspirador e santificador do Espírito Santo, que nos capacita a viver como fiéis testemunhas do poder de Jesus Cristo (Hb 9.14; 1Pe

1.15).

9.

No batismo bíblico com o Espírito Santo que nos é dado

por Deus mediante a intercessão de Cristo, com a evidência

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7

inicial de falar em outras línguas, conforme a sua vontade (At 1.5; 2.4; 10.44-46; 19.1-7).

10. Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo

Espírito Santo à Igreja para sua edificação conforme a sua soberana vontade (1Co 12.1-12).

11. Na segunda vinda premilenar de Cristo em duas fases

distintas. Primeira - invisível ao mundo, para arrebatar a sua Igreja fiel da terra, antes da grande tribulação; Segunda - visível e corporal, com sua Igreja glorificada, para reinar sobre o mundo durante mil anos (1Ts 4.16.17; 1Co 15.51-54; Ap 20.4; Zc 14.5; Jd 14).

12. Que todos os cristãos comparecerão ante ao tribunal de

Cristo para receber a recompensa dos seus feitos em favor da causa de Cristo, na terra (2Co 5.10).

13.

condenará os infiéis, (Ap 20.11-15).

No

juízo

vindouro

que

recompensará

os

fiéis

e

14. E na vida eterna de gozo e felicidade para os fiéis e de

tristeza e tormento eterno para os infiéis (Mt 25.46).

Sumário

Declaração de fé

05

PRIMEIRA PARTE - INTRODUÇÃO À BÍBLIA

1. Introdução

2. O Vocábulo "Bíblia"

3. Nomes atribuídos a Palavra de Deus

4. Revelação

5. Inspiração

6. A iluminação

7. A Interpretação da Bíblia

8. Estrutura da Bíblia

9. Particularidades do Texto da Bíblia

10. O Cânon Bíblico

11. Escritos Apócrifos

12. Os Rolos do Mar Morto

13. Versões, Traduções, Revisões e Paráfrases

14. Versões, Traduções e Paráfrase em Inglês

15. Traduções Castelhanas

16. Tradução de João Ferreira de Almeida

17. ATradução de Almeida Revisada

18. Tradução de Figueiredo

19. Edição Trinitária de 1883

13

17

17

19

20

22

22

23

26

28

31

33

36

44

49

49

51

53

54

SEGUNDA PARTE - PENTATEUCO

Considerações Preliminares

1.

2. Valor da Interpretação

Introdução

59

59

Capitulo 1 Introdução ao Livro de Gênesis

Capitulo 2 Introdução ao Livro de Êxodo

Capitulo 3 Introdução ao Livro de Levítico

Capitulo 4 Introdução ao Livro de Números

Capitulo 5 Introdução ao Livro de Deuteronômio

Referências

75

83

89

95

101

107

Primeira Parte INTRODUÇÃO À BÍBLIA
Primeira Parte
INTRODUÇÃO
À
BÍBLIA

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

13

1. Introdução

O nosso assunto é o estudo introdutório e auxiliar das Sagradas Escrituras, para sua melhor compreensão. É também chamado Isagoge nos cursos superiores de Teologia. Este estudo auxilia grandemente a compreensão dos fatos da Bíblia. Um ponto saliente nele é a história de como a Bíblia chegou até nós. A necessidade desse estudo é que, sendo a Bíblia um livro divino, veio a nós por canais humanos, tornando-se, assim, divino-humano, como também o é a Palavra Viva: Cristo, que se tornou também divino-humano (Jo 1.1; Ap 19.13).

Através da Bíblia, Deus se revela em linguagem humana, para que o homem possa entendê-lo. Por essa razão, a Bíblia faz alusão a tudo que é terreno e humano. Ela menciona países, montanhas, rios, desertos, mares, climas, solos, estradas, plantas, produtos, minérios, comércio, dinheiro, línguas, raças, usos, costumes, culturas etc. Isto é, Deus, para fazer-se compreender, vestiu a Bíblia da nossa linguagem, adaptando-a ao modo humano de perceber as coisas.

A Bíblia é, sem dúvida, um dos mais apreciados legados literários da humanidade. Contudo o seu valor não se firma de maneira substancial no fato literário. A riqueza da Bíblia consiste no caráter essencialmente religioso da sua mensagem, que a transforma no livro sagrado por excelência, tanto para o povo de Israel quanto para a Igreja cristã. Nessa coleção de livros, a Lei se apresenta como uma ordenação divina (Êx 20; Sl 119), os Profetas têm a consciência de serem portadores de mensagens da parte de Deus (Is 6; Jr 1.2; Ez 2-3) os Escritos ensinam que a verdadeira sabedoria encontra em Deus a sua origem (Pv 8.22-31).

Esses valores religiosos aparecem não só no título de Sagradas Escrituras, mas também na forma que Jesus e, em geral, os autores do Novo Testamento se referem ao Antigo,

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isto é, aos textos bíblicos escritos em épocas precedentes. Isso ocorre, por exemplo, quando lemos que Deus fala por meio dos profetas ou por meio de algum dos outros livros (Mt 1.22; 2.15; Rm 1.2; 1Co 9.9) ou quando os profetas aparecem como aquelas pessoas mediante as quais "se diz" algo ou "se anuncia" algum acontecimento, forma hebraica de expressar que é o próprio Deus quem diz ou anuncia (Mt 2.17; 3.3; 4.14); também quando se afirma a permanente autoridade das Escrituras (Mt 5.17-18; Jo 10.35; At 23.5), ou quando as relaciona especialmente com a ação do Espírito Santo (At 1.16; 28.25). Formas magistrais de expressar a convicção comum a todos os cristãos em relação ao valor das Escrituras são encontradas em passagens como 2Tm 3.15-17 e 2Pe

1.19-21.

A Igreja cristã, desde as suas origens, tem descoberto na mensagem do evangelho o mesmo valor da palavra de Deus e a mesma autoridade do Antigo Testamento (Mc 16.15- 16; Lc 1.1-4; Jo 20.31; 1Ts 2.13), Por isso, em 2Pe 3.16, se equiparam as epístolas de "nosso amado irmão Paulo" (v.15) às "demais Escrituras". Gradativamente, a partir do século II d.C., foram sendo reconhecidos os 27 livros que formam o Novo Testamento a sua categoria de livros sagrados e, em conseqüência, a plenitude da sua autoridade definitiva e o seu valor religioso.

Tal reconhecimento, que implica o próprio tempo da presença, direção e inspiração do Espírito Santo na formação das Escrituras, não descarta, em absoluto, a atividade física e criativa das pessoas que redigiram os textos. Elas mesmas se referem a essa atividade em diversas ocasiões (Ec 1.13; Lc 1.1-4; 1Co 15.1-3,11; Gl 6.11). A presença de numerosos autores materiais é, precisamente, a causa da extraordinária riqueza de línguas, estilos, gêneros literários, conceitos culturais o reflexões teológicas que caracterizam a Bíblia.

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A expressão "a palavra de Deus" (também "a palavra do Senhor", ou simplesmente "a palavra") possui várias aplicações na Bíblia. Obviamente, refere-se, em primeiro lugar, a tudo quanto Deus tem falado diretamente. Quando Deus falou a Adão e Eva (Gn 2.16,17; Gn 3.9-19), o que Ele lhes disse era, de fato, a palavra de Deus. De modo semelhante, Ele se dirigiu a Abraão (Gn 12.1-3), a Isaque (Gn 26.1-5), a Jacó (Gn 28.13-15) e a Moisés (Êx 3-4). Deus também falou à totalidade da nação de Israel, no monte Sinai, ao proclamar-lhe os dez mandamentos (Êx 20.1-19). As palavras que os israelitas ouviram eram palavras de Deus.

Além da fala direta, Deus ainda falou através dos profetas. Quando eles se dirigiam ao povo de Deus, assim introduziam as suas declarações: "Assim diz o Senhor", ou "Veio a mim a palavra do Senhor". Quando, portanto, os israelitas ouviam as palavras do profeta, ouviam, na verdade, a palavra de Deus.

A mesma coisa pode ser dita a respeito do que os apóstolos falaram no NT. Embora não introduzissem suas palavras com a expressão "assim diz o Senhor", o que falavam e proclamavam era, verdadeiramente, a palavra de Deus. O sermão de Paulo ao povo de Antioquia da Pisídia (At 13.14-41), por exemplo, criou tamanha comoção que, "no sábado seguinte, ajuntou-se quase toda a cidade a ouvir a palavra de Deus" (At 13.44). O próprio Paulo assegurou aos Tessalonicenses que, "havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade) como palavra de Deus" (1Ts 2.13; At 8.25).

Além disso, tudo quanto Jesus falava era palavra de Deus, pois Ele, antes de tudo, é Deus (Jo 1.1,18; 10.30; 1Jo 5.20). Lucas, escritor do terceiro evangelho, declara explicitamente que, quando as pessoas ouviam a Jesus,

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ouviam na verdade a palavra de Deus (Lc 5.1). Note como, em contraste com os profetas do AT, Jesus introduzia seus ditos:

(Mt 5.18, 20, 22, 23, 32, 39; 11.22, 24; Mc 9.1;

10.15; Lc 10.12; 12.4; Jo 5.19; 6.26; 8.34). Noutras palavras, Ele tinha dentro de si mesmo a autoridade divina para falar a palavra de Deus. É tão importante ouvir as palavras de Jesus, pois "quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entrará em condenação" (Jo 5.24).

Eu "vos digo

"

Jesus, na realidade, está tão estreitamente identificado com a palavra de Deus que é chamado "o Verbo" ["a Palavra"] (Jo 1.1,14; 1Jo 1.1; Ap 19.13-16; Jo 1.1). A palavra de Deus é o registro do que os profetas, apóstolos e Jesus falaram, isto é, a própria Bíblia. No Novo Testamento, quer um escritor usasse a expressão "Moisés disse", "Davi disse", "o Espírito Santo diz", ou "Deus diz", nenhuma diferença fazia (At 3.22; Rm 10.5,19; Hb 3.7; 4.7); pois o que estava escrito na Bíblia era, sem dúvida alguma, a palavra de Deus.

Mesmo não estando no mesmo nível das Escrituras, a proclamação feita pelos autênticos pregadores ou profetas, na igreja de hoje, pode ser chamada a palavra de Deus. Pedro indicou que, a palavra que seus leitores recebiam mediante a pregação, era palavra de Deus (1Pe 1.25), e Paulo mandou Timóteo "pregar a Palavra" (2Tm 4.2). A pregação, porém, não pode existir independentemente da Palavra de Deus. Na realidade, o teste para se determinar se a palavra de Deus está sendo proclamada num sermão, ou mensagem, é se ela corresponde exatamente à Palavra de Deus escrita.

O que se diz de uma pessoa que recebe uma profecia, ou revelação, no âmbito do culto de adoração (1Co 14.26-32)? Ela está recebendo, ou não, a palavra de Deus? A resposta é um "sim". Paulo assevera que semelhantes mensagens estão sujeitas à avaliação por outros profetas. Todavia, há a possibilidade de tais profecias não serem palavra de Deus (1Co 14.29 "E falem dois ou três profetas, e os outros

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julguem"). É somente em sentido secundário que os profetas, hoje, falam sob a inspiração do Espírito Santo; sua revelação jamais deve ser elevada à categoria da inerrancia (1Co 14.3).

2. O Vocábulo "Bíblia"

Este vocábulo não se acha no texto das Sagradas Escrituras. Consta apenas na capa. De onde, pois, vem? Vem do grego, a língua original do Novo Testamento. É derivado do nome que os gregos davam à folha de papiro preparada para a escrita - "biblos". Um rolo de papiro de tamanho pequeno era chamado "biblion" e vários destes eram uma "Bíblia". Portanto, literalmente, a palavra "Bíblia" quer dizer "coleção de livros pequenos". Com a invenção do papel, desapareceram os rolos, e a palavra "biblos" deu origem a "livro", como se vê em biblioteca, bibliografia, bibliófilo etc.

É consenso geral entre os doutos no assunto que o

nome Bíblia foi primeiramente aplicado às Sagradas Escrituras por João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, no Século IV. E porque as Escrituras formam uma unidade perfeita, a palavra Bíblia, sendo um plural, como acabamos de ver, passou a ser singular, significando o Livro, isto é, o Livro dos livros; o Livro por excelência.

Como Livro divino, a definição canônica da Bíblia é "A revelação de Deus à humanidade". Os nomes mais comuns que a Bíblia dá a si mesma, isto é, os seus nomes canônicos, são: Escrituras (Mt 21.42); Sagradas Escrituras (Rm 1.2); Livro do Senhor (Is 34.16); Palavra de Deus (Mc 7.13; Hb 4.12); Oráculos de Deus (Rm 3.2).

3. Nomes atribuídos a Palavra de Deus

3.1. Bíblia

A palavra Bíblia, usada com referência às Escrituras

Sagradas desde o IV século, é a forma latina da palavra grega

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Bíblia, plural neutro de Biblion, que por sua vez é diminutivo de Biblos - nome grego para a planta da qual se fazia o papel - papiro Pelo uso que se fez do papiro é que biblos veio a significar livro e biblion um livro pequeno. Os fenícios se ocupavam grandemente do comércio de papiro, por isso no segundo século a.C. deram o nome de Biblos ao seu principal porto, passando depois à cidade, e conservado até hoje para as suas ruínas. A palavra Biblos encontra-se em Marcos 12.26 como referência a um livro de Velho Testamento, ou a um grupo no plural para designar os livros dos profetas - Daniel 9.2. O plural usado no Velho Testamento passou à Igreja Cristã e as Escrituras são designadas por livros, livros divinos, livros canônicos. O nome Bíblia para o conjunto dos livros sagrados, foi usado pela primeira vez por Crisóstomo, no IV século. Alguns pais da Igreja denominaram as Escrituras de Biblioteca Divina.

3.2. Escrituras

O Novo Testamento, que ocupa menos da terceira parte do Velho, usa a expressão - Os Escritos ou as Escrituras para os livros do Antigo Testamento, em Mateus 21.42 e João 5.39.

3.3. Outras Expressões

A Palavra de Deus (Hb 4.12); A Escritura de Deus (Êx 32.16); As Sagradas Letras (1Tm 3.15); A Escritura da Verdade (Dn 10.21); As Palavras da Vida (Atos 7.38); As Santas Escrituras (Rm 1.2).

3.4. Nomes figurativos

Uma luz. "Uma luz para o meu caminho" (Sl 119:105); Um espelho (Tg 1.23); Ouro fino (Sl 19.10); Uma porção de alimento (Jó 23.12); Leite (1Co 3.2); Pão para os famintos (Dt 8.3); Fogo (Jr 23.29); Um martelo (Jr 23.29); Uma espada do Espírito (Ef 6.17).

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3.5. O termo "Palavra"

No Antigo Testamento, a palavra dãbhãr de Deus é usada por 394 vezes para designar alguma comunicação divina provinda da parte de Deus aos homens, na forma de mandamento, profecia, advertência ou encorajamento. A fórmula usual é "a palavra de Yahweh veio (literalmente, foi) a

ainda que algumas vezes a palavra de Deus seja vista

como uma visão (Is 2.1; Jr 2.31; 38.21). A palavra de Yahweh é uma extensão da personalidade divina, investida de autoridade, e deve ser ouvida tanto pelos anjos como pelos homens (Sl 103.20; Dt 12.32). A palavra de Deus permanece para sempre (Is 40.8), e uma vez proferida não pode deixar de ser cumprida (Is 55.11). É usada como sinônimo da lei, tôrah, de Deus, em Sl 119, onde a referência é à mensagem escrita e não à mensagem falada da parte de Deus. No Novo Testamento, "palavra" geralmente traduz dois termos gregos, logos e rhema, a primeira é usada supremamente para designar a mensagem do evangelho cristão (Mc 2.2; At 6.2; Gl 6.6), embora a última esteja revestida da mesma significação (Rm 10.8; Ef 6.17; Hb 6.5 etc.).

",

4. Revelação

Entendemos que revelação é a manifestação que Deus faz de Si mesmo e a compreensão, parcial embora, da mesma manifestação por parte dos homens. Este modo de definir a revelação acentua que o que se revela é o próprio Deus, e não apenas alguma coisa a respeito de Deus. Na revelação, Deus faz-se conhecido dos homens na sua personalidade e nas suas relações. Revelar é informar, e isto é justamente o que Deus há feito. "Fez conhecidos os seus caminhos a Moisés, e os seus feitos aos filhos de Israel" (Salmos 103.7). Deus informou ao homem acerca de Sua Pessoa e das Suas relações com a criação. Não nos esqueçamos de que o centro de toda a revelação é a pessoa de Deus. Jesus frisou bem esta verdade quando disse que veio revelar o Pai: "Quem me vê a mim, vê o Pai".

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A revelação não tem por fim simplesmente informar o homem acerca de Deus, mas também descobrir Deus ao homem. Deus quer que o homem o conheça; daí a razão de ele se revelar. "Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde se não ouçam as suas vozes. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até o fim do mundo" (Salmos 19.1-4).

5. Inspiração

Por inspiração entendemos a operação pela qual Deus garantiu o conteúdo da Bíblia como autêntica expressão de sua revelação.

Agora perguntamos: Que referência encontramos na própria Bíblia a essa inspiração divina? O texto mais explícito é aquele que se encontra em 2Timóteo 3.16: "Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça". O termo grego usado no original é theopneostos, composto de duas palavras gregas: theós. "Deus", e pnéo, "soprar", "respirar". Este termo grego é que foi traduzido por inspirado por Deus. A Escritura inspirada por Deus é a que Timóteo havia aprendido desde a sua meninice e que no versículo anterior se menciona como "Sagradas Escrituras". Este termo grego não se usa em outra parte do Novo Testamento, mas uma idéia similar encontra-se em 2Pedro 1.21: "Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo". No versículo anterior, fala-se de Deus como o sujeito da inspiração; no segundo, em 2Pedro, fala-se mais especificamente do Espírito Santo nessa mesma função. E, embora aqui o termo grego seja o particípio pheromenos, de um verbo que, entre outros significados, tem o de "ocasionar", "causar", "trabalhar", os dois versículos têm o mesmo sentido.

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O Espírito Santo trabalhou nos escritores de acordo com a sua maneira de ser, aproveitando a idiossincrasia pessoal e cultural. Iluminou suas mentes, guiou sua memória e controlou a influência do pecado e do erro para que seu trabalho não malograsse. Não obstante, deixou-os expressar- se à sua maneira em tudo, segundo o seu estilo e vocabulário e de acordo com o seu tempo.

Não se pode negar que haja, nos diferentes autores, diferenças de estilo e peculiaridades que os caracterizam. Não há erros nem defeitos, mas as características são percebidas na expressão de cada autor.

A personalidade do escritor não foi anulada. Muitos dos livros da Bíblia contêm passagens que revelam que a preparação prévia e as características pessoais do autor foram utilizadas pelo Espírito Santo.

Não podemos discordar dessas afirmações, visto que há evidências nas Escrituras de que isto se deu desta forma. É claro, por exemplo, que o estilo literário de Isaías difere do de Amós; o estilo do Evangelho de Lucas difere do de Marcos; e a epístola de Tiago difere sob este aspecto da de João. Aliás, no mesmo autor, em circunstâncias diferentes, encontramos também estilos diferentes. Para verificar isto, basta comparar Romanos com Filipenses.

Essa combinação do divino com o humano não é algo que apareça apenas na composição das Escrituras, afirmam os teólogos; vemo-Ia, igualmente, na pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo: verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Assim, as Escrituras são obra de Deus, sem deixar de mostrar, por ele mesmo, a particularidade do instrumento humano.

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6. A Iluminação

É aquela influência ou ministério do Espírito Santo que capacita todos os que estão num relacionamento correto com Deus para entender as Escrituras. Acerca de Cristo se escreveu que Ele "abriu" o entendimento deles em relação às Escrituras (Lc 24.32-45). O próprio Cristo prometeu que, quando o Espírito viesse, Ele "guiaria" em toda a verdade.

Finalmente, tanto a revelação como a inspiração pode ser diferenciada da iluminação em que a última é prometida a todos os crentes; que ela admite graus, uma vez que aumenta ou diminui; que não depende de escolha soberana, antes, de ajustamento pessoal ao Espírito de Deus; e sem ela ninguém nunca seria capaz de aceitar a salvação pessoal (1Co 2.14), ou o conhecimento da verdade revelada de Deus.

7. A Interpretação da Bíblia

Tem-se dito que a Bíblia necessita, pela dificuldade de entender o seu conteúdo, de uma interpretação infalível que evite que o estudioso não especializado incorra em erro em sua interpretação. A posição que, desde o tempo da Reforma, os evangélicos têm sustentado é a de que o cristão é um juiz idôneo para julgar o conteúdo da revelação bíblica. Disse Hammond: "Sustentamos que as Escrituras são capazes de oferecer seu significado correto em todas as idades e circunstâncias em que se encontre o homem, sempre que este esteja disposto a ser ensinado pelo Espírito Santo e a obedecer-Ihe" (BLOESCH, 1978, p. 46). Não podemos colocar uma instância superior à clara mensagem da Bíblia, seja esta um teólogo, uma igreja ou uma denominação. Isto não significa que não façamos uso de todas as informações possíveis à nossa disposição para não nos enganarmos ao interpretar a Palavra de Deus.

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Um princípio de saudável hermenêutica, sem entrar nas complicadas considerações que a teologia atual tem a respeito deste tema, é que um texto se esclarece por seu contexto, seja ele imediato ou mediato. E o contexto mediato, ou distante, de um texto, é, em última análise, a própria Bíblia, o conteúdo total da revelação. Em outras palavras, a Bíblia contém em si a informação necessária para interpretar de forma correta qualquer passagem que ofereça dificuldade. E conquanto usemos a ajuda humana para entender o conteúdo da Bíblia, não nos esqueçamos de que, em última instância, é a Bíblia que julga tal ajuda.

8. Estrutura da Bíblia

A Bíblia divide-se em duas partes principais: ANTIGO e NOVO TESTAMENTO, tendo ao todo 66 livros: sendo 39 no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento. Estes 66 livros foram escritos num período de 16 séculos e tiveram cerca de 40 escritores. Aqui está um dos milagres da Bíblia. Esses escritores pertenceram às mais variadas profissões e atividades, viveram e escreveram em países, regiões e continentes distantes uns dos outros, em épocas e condições diversas, entretanto, seus escritos formam uma harmonia perfeita. Isto prova que um só os dirigia no registro da revelação divina: Deus.

A palavra testamento vem do termo grego "diatheke", e significa: a) Aliança ou concerto, e b) Testamento, isto é, um documento contendo a última vontade de alguém quanto à distribuição de seus bens, após sua morte. Esta é a palavra empregada no Novo Testamento, como por exemplo, em Lucas 22.20. No Antigo Testamento, a palavra usada é "berith" que significa apenas concerto. O duplo sentido do termo grego nos mostra que a morte do testador (Cristo) ratificou ou selou a Nova Aliança, garantindo-nos toda a herança com Cristo (Rm 8.17; Hb 9.15-17).

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8.1. O Antigo Testamento

O título Antigo Testamento foi primeiramente aplicado aos 38 livros das Escrituras hebraicas, por Tertuliano, e Orígenes. Na primeira divisão principal da Bíblia, temos o Antigo Concerto (também chamado pacto, aliança), que veio pela Lei, feito no Sinai e, selado com sangue de animais (Êx 24.3-8; Hb 9.19,20). Na segunda divisão principal (o Novo Testamento), temos o Novo Concerto, que veio pelo Senhor, Jesus Cristo, feito no Calvário e selado com o seu próprio sangue (Lc 22.20; Hb 9.11-15). É, pois um concerto superior.

Nas Bíblias de edição da Igreja Romana, o total de livros é 73. Os 7 livros a mais, são chamados apócrifos. Além dos livros apócrifos, as referidas Bíblias têm mais 4 acréscimos a livros canônicos.

O Antigo Testamento foi escrito originalmente em hebraico, com exceção de pequenos trechos que o foram em aramaico. O aramaico foi a língua que Israel trouxe do seu exílio babilônico. Há também algumas palavras persas. Seus 39 livros estão classificados em 4 grupos, conforme os assuntos a que pertencem: LEI, HISTÓRIA, POESIA, PROFECIA. O grupo ou classe poesia também é conhecido por devocional.

(a)

LEI. São 5 livros: Gênesis a Deuteronômio. São comumente chamados de Pentateuco.

(b)

HISTÓRIA. São 12 livros: de Josué a Ester. Ocupam- se da história de Israel nos seus vários períodos: (a) Teocracia, sob os juízes. (b) Monarquia, sob Saul, Davi e Salomão. (c) Divisão do reino e cativeiro, contendo o relato dos reinos de Judá e Israel, este levado em cativeiro para a Assíria, e aquele para Babilônia. (d) Pós-cativeiro, sob Zorobabel, Esdras e Neemias, em conjunto com os profetas contemporâneos.

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(c)

POESIA. São 5 livros: de Jó a Cantares de Salomão. São chamados poéticos, não porque sejam cheios de imaginação e fantasia, mas devido ao gênero do seu conteúdo. São também chamados devocionais.

(d)

PROFECIA. São 17 livros: de Isaías a Malaquias. Estão subdivididos em: (a) Profetas Maiores: Isaías a Daniel (5 livros); (b) Profetas Menores: Oséias a Malaquias (12 livros).

Os nomes maiores e menores não se referem ao mérito ou notoriedade do profeta mais ao tamanho dos livros e à extensão do respectivo ministério profético.

Nas Bíblias de edição católico-romana, os livros de 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis são chamados 1,2,3 e 4 Reis, respectivamente. 1 e 2 Crônicas são chamados 1 e 2 Paralipômenos. Esdras e Neemias são chamados 1 e 2 Esdras. Também, nas edições católicas de Matos Soares e Figueiredo, o Salmo 9 corresponde em Almeida aos Salmos 9 e 10. O de número 10 é o nosso 11. Isso vai assim até os Salmos 146 a 147, que nas nossas Bíblias são o de número 147. Deste modo, os três salmos finais são idênticos em qualquer das versões acima mencionadas. Essas diferenças de numeração em nada afetam o texto em si, e não poderia ser doutra forma, sendo a Bíblia o Livro do Senhor!

8.2. O Novo Testamento

O Novo Testamento têm 27 livros. Foi escrito em grego, não no grego clássico dos eruditos, mas no do povo comum, chamado Koiné. Seus 27 livros também estão classificados em 4 grupos, conforme o assunto a que pertencem: BIOGRAFIA, HISTÓRIA, EPÍSTOLAS, PROFECIA. O terceiro grupo é também chamado DOUTRINA.

(a) BIOGRAFIA. São os 4 Evangelhos. Descrevem a vida terrena do Senhor Jesus e seu glorioso ministério. Os três primeiros são chamados

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Sinópticos, devido a certo paralelismo que têm entre si. Os Evangelhos são os livros mais importantes da Bíblia. Todos os que os precedem tratam da preparação para a manifestação de Jesus Cristo, e os que se lhes seguem são explicações da doutrina de Cristo.

(b)

HISTÓRIA. É o livro de Atos dos Apóstolos. Registra a história da igreja primitiva, seu viver, a propagação do Evangelho; tudo através do Espírito Santo, conforme Jesus prometera.

(c)

EPÍSTOLAS. São 21 as epístolas ou cartas. Vão de Romanos a Judas. Contêm a doutrina da Igreja: 9 são dirigidas a igrejas (Romanos a 2 Tessalonicenses); 4 são dirigidas a indivíduos (1 Timóteo a Filemom); 1 é dirigida aos hebreus cristãos; 7 são dirigidas a todos os cristãos, indistintamente (Tiago a Judas); As últimas sete são também chamadas universais, católicas ou gerais, apesar de duas delas (2 e 3 João) serem dirigidas a pessoas.

(d)

PROFECIA. É o livro de Apocalipse ou Revelação. Trata da volta pessoal do Senhor Jesus à Terra e das coisas que precederão esse glorioso evento.

9. Particularidades do Texto da Bíblia

Apesar da grande diversidade de traduções, edições e publicações existentes hoje não só na língua portuguesa, mas como em muitos outros idiomas, relacionamos abaixo algumas particularidades interessantes a saber para melhor interpretação e estudo da Bíblia:

9.1. As palavras em Itálico

Não constam do original. Foram introduzidas na tradução para completar o sentido do texto ou facilitar sua interpretação. Muitas vezes acabam permitindo duplo sentido exegético.

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9.2. O uso da margem

Muitas Bíblias têm na margem de determinados trechos, a tradução literal do hebraico ou do grego. Às vezes, têm uma tradução diferente quando o caso é duvidoso. São muito úteis essas notas marginais.

9.3. O sumário dos capítulos

São preparados pelos editores, e nada têm com a inspiração e o texto original. As exceções são algumas frases introdutórias de certos Salmos, como o 4, 5, 6, 7, 8, 9, 22, 32, 45, 46, 53, 56, 69, 75 etc. Tais sumários nem sempre correspondem aos capítulos aos quais se referem. Há casos até negativos, como a parábola dos Dez Talentos", quando não são dez; a "Parábola do Rico e Lázaro", quando não se trata de parábola, e assim por diante.

9.4. A divisão do texto bíblico em capítulos e versículos

Não vem do original. A primeira Bíblia que trouxe essa divisão foi a Vulgata, em 1555. Em muitos casos, a divisão tanto em capítulos como em versículos, quebra o sentido, parte o texto e altera toda a linha de pensamento. Exemplo de capítulos: Isaías 53, que devia começar em Isaías 52.13, João 8, devia começar em João 7.53; 2 Reis 7 devia começar em 2 Reis 6.24; o capítulo 3 de Colossenses devia terminar em Colossenses 4.1; Atos 5 devia começar em 4.36. Com a divisão em versículos, acontece a mesma coisa, por exemplo:

Efésios 1.5 devia começar com as duas últimas palavras de Efésios 1.4; 1 Coríntios 2.9 e 2.10 deviam formar um só versículo. Na Epístola aos Romanos, bem como em Efésios, há diversos casos desses. Também a divisão em versículos não é a mesma em todas as versões: Dn 3.24-30 da ARC, corresponde à Dn 3.91-97 na Matos Soares; Lc 20.30 na ARC, corresponde à Lc 20.30,31 na "Brasileira".

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9.5. A divisão do texto em parágrafos é muito útil para a sua compreensão

O Salmo 2, por exemplo, contém 5 parágrafos, tendo

cada um aplicação diferente (vv. 1-3, 4-6, 7-9, 10-12a; 12b). Uma versão em português que indica os parágrafos é a ARA, com um tipo negrito cada vez que isso ocorre. Há versões em outras línguas que dão tanta importância à essa divisão, que, para maior comodidade do leitor, imprimem o próprio sinal gráfico para parágrafo.

10. O Cânon Bíblico

A palavra "cânon" é de origem cristã e derivada do

vocábulo grego "kanon" que por sua vez provavelmente veio emprestado do hebraico "kaneh", que significa "junco" ou "vara de medir"; (Ez 40.5) daí tomou o sentido de norma ou regra. Mais tarde veio a significar regra de fé e, finalmente, catálogo

ou lista (Gl 6.16)

A palavra cânon, usada para designar a coleção dos

livros que integram as Sagradas Escrituras, não aparece até o século IV, com Atanásio. Dão-se à palavra dois usos distintos, mas de certo modo relacionados: "Em primeiro lugar, ela é usada para indicar uma coleção daqueles livros aos quais se tenha aplicado determinada prova e que foram reconhecidos como autênticos e 'canônicos'. Logo, aplica-se o termo a toda a coleção de escritos, posto que ela constitui o cânon ou 'regra de fé' mediante a qual toda doutrina deve ser provada". (HAMMOND, 1978, p. 36).

10.1. O Cânon Bíblico do Antigo Testamento

O cânon do Antigo Testamento ainda não havia sido

fixado no tempo do Novo Testamento, mas quando os judeus da Palestina, em fins do século I, fixaram o cânon de suas

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Escrituras, este incluía todos os livros que atualmente temos em nossas versões. O uso que se fez desses livros nos tempos do Novo Testamento permaneceu testemunhado em cada página deste último livro; e uma rápida olhada nas referências de nossas Bíblias nos dará uma idéia de quão profundo e sistemático foi esse uso. Mas essas Escrituras não eram suficientes "para o bem-estar da Igreja (mas não para sua existência), para a pureza do evangelho e para a direção do crente; por isso, aprouve a Deus chamar à existência uma graphé cristã, o cânon do Novo Testamento que a Igreja acrescentou à graphé do Antigo Testamento" (RAMM, 1967, p.

177).

O próprio Senhor Jesus Cristo deu seu apoio de legitimidade a todo o Antigo Testamento; fez citações de cada uma de suas divisões; porém, nunca citou qualquer outro livro, nem deu a entender que existam outros livros inspirados. Sabemos que existiam muitos outros livros escritos na língua hebraica, dos quais cerca de 15 ou mais são mencionados no Antigo Testamento mesmo (o livro dos Justos, em Js 10.13; 2Sm 1.18; o livro das Guerras do Senhor, em Nm 21.14).

Como foram escolhidos os 39 livros do meio de tantos outros? A verdadeira prova é sua inspiração. Se Deus falou pelo Espírito por intermédio de algum escritor humano, então o tal livro é inspirado e útil para os propósitos de Deus. Os livros que têm esse selo divino foram reconhecidos como divinos tanto pelo povo comum como pelos líderes e sacerdotes, e o tempo mostrou gradualmente que a seleção fora bem feita.

Tais livros foram escritos entre 2000 e 400 a.C. O livro de Jó, com muita probabilidade, data do tempo dos próprios patriarcas, e o livro de Malaquias foi escrito entre 425 a 400 a.C. Muitos outros escreveram depois de Malaquias, mas os judeus consideravam esses escritos tão somente como histórias humanas.

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Entre os judeus, o Antigo Testamento tem três divisões, as quais Jesus citou em Lc 24.44 - Leis, Profetas, Escritos -, algumas traduções trazem Salmos por ser o primeiro livro dos Escritos. O cânon hebraico apresenta unificação de alguns livros: 1,2 Samuel; os dois dos Reis; os dois Crônicas; Esdras e Neemias; os doze profetas menores, são um livro cada.

No cânon hebraico os livros não estão em ordem cronológica. Os judeus não se preocupavam com um sistema cronológico.

Já a nossa divisão do Antigo Testamento em 39 livros vem da Septuaginta oriunda da Vulgata Latina. A Septuaginta foi à primeira tradu-ção das Escrituras, feita do hebraico para o grego, cerca de 290 a.C. Nela a ordem dos livros está por assunto: Pentateuco, Históricos, Poéticos e Proféticos.

O Cânon do Antigo Testamento foi formado num espaço

de um pouco mais de mil anos e corresponde o período de Moisés a Esdras.

Em 90 d.C. Em Jâmnia, perto da moderna Jope, em Israel, os rabinos, num concílio sob a presidência de Johanan Ben Zakai, reconheceram e fixaram o cânon do Antigo Testamento. Houve muitos debates acerca da aprovação de certos livros, especialmente dos "Escritos". Note-se, porém que o trabalho desse concílio foi apenas ratificar aquilo que já era aceito por todos os judeus através de séculos.

10.2. O Cânon Bíblico do Novo Testamento

O processo gradual que conduziu ao completo e formal

reconhecimento público de um cânon estabelecido em 27 livros, formando o Novo Testamento, leva-nos ao século IV de nossa era. Isso não significa necessariamente que antes desse período estivesse faltando reconhecimento para a integridade destas Escrituras, mas que a necessidade de uma definição oficial do cânon não foi premente até então.

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O princípio que determina o reconhecimento da autoridade dos escritos canônicos do Novo Testamento foi estabelecido dentro do próprio conteúdo desses escritos. Há repetidas exortações para a leitura pública das mensagens apostólicas. No fim da Primeira Epístola aos Tessalonicenses, possivelmente o primeiro livro do Novo Testamento a ser escrito, Paulo diz: "Pelo Senhor vos conjuro que esta epístola seja lida a todos os santos irmãos" (1Ts 5.27). Três capítulos antes, na mesma epístola, Paulo os recomenda a aceitarem suas palavras faladas como "palavra de Deus" (1Ts 2.13) e, em 1 Coríntios 14.37, o apóstolo fala de modo semelhante acerca de seus "escritos" (COMFORT, 1998, p. 97).

11. Escritos Apócrifos

Nas Bíblias de edição da Igreja Católica Romana, o total de livros é de 73, porque essa igreja, desde o Concílio de Trento, em 1546, incluiu no cânon do Antigo Testamento 7 livros apócrifos, além de 4 acréscimos ou apêndices a livros canônicos, acrescentando, assim, ao todo, 11 escritos apócrifos.

A palavra apócrifo significa, literalmente, escondido, oculto, isto em referência a livros que tratavam de coisas secretas, misteriosas, ocultas. No sentido religioso, o termo significa "não genuíno", "espúrio", desde sua aplicação por Jerônimo. Os apócrifos foram escritos entre Malaquias e Mateus, ou seja, entre o Antigo e o Novo Testamento, numa época em que cessara por completo a revelação divina; isto basta para tirar-Ihes qualquer pretensão de canonicidade. O Historiador Flávio Josefo rejeitou-os totalmente. Nunca foram reconhecidos pelos judeus como parte do cânon hebraico. Jamais foram citados por Jesus nem foram reconhecidos pela igreja primitiva.

Jerônimo, Agostinho, Atanásio, Júlio Africano e outros homens de valor dos primitivos cristãos, opuseram-se a eles na qualidade de livros inspirados. Apareceram pela primeira

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vez na Septuaginta - tradução do Antigo Testamento feita do hebraico para o grego. Quando a Bíblia foi traduzida para o latim, em 170 d.C., seu Antigo Testamento foi traduzido do grego da Septuaginta e não do hebraico.

Quando Jerônimo traduziu a Vulgata, no início do Século V (405 d.C.), incluiu os apócrifos oriundos da Septuaginta, através da Antiga Versão Latina, de 170 d.C., porque isso lhe foi ordenado, mas recomendou que esses livros não poderiam servir como base doutrinária.

São 14 os escritos apócrifos: 10 livros e 4 acréscimos de livros. Antes do Concílio de Trento, a Igreja Católica Romana aceitava todos os livros, contudo, posteriormente passou a aceitar apenas 11 dos catorze, 7 livros e 4 acréscimos. A Igreja Ortodoxa Grega mantém os 14 textos até hoje.

11.1. Livros Apócrifos do Antigo Testamento

Os 7 livros apócrifos constantes das Bíblias de edição católico-romana são: TOBIAS (Após o livro canônico de Esdras), JUDITE (após o livro de Tobias) SABEDORIA DE SALOMÃO (após o livro canônico de Cantares), ECLESIÁSTICO (após o livro de Sabedoria), BARUQUE (após o livro canônico de Jeremias), 1 MACABEUS, 2 MACABEUS (ambos, após o livro canônico de Malaquias). Os 4 acréscimos ou apêndices são: ESTER (a Ester, 10.4 -16.24), CÂNTICO DOS TRÊS SANTOS FILHOS (a Daniel, 3.24-90), HISTÓRIA DE SUZANA (Daniel, cap.13), BEL E O DRAGÃO (a Daniel, capo 14). Os livros rejeitados são: 3 ESDRAS, 4 ESDRAS, A ORAÇÃO DE MANASSÉS. A Igreja Católica Romana aprovou os apócrifos em 18 de abril de 1546, para combater o movimento da Reforma Protestante, então recente. Nessa época, os protestantes combatiam violentamente as novas doutrinas romanistas: a doutrina do Purgatório, a doutrina da oração pelos mortos, a doutrina da salvação mediante obras etc. A Igreja Católica Romana via nos apócrifos base para

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essas doutrinas, e, apelou para eles, aprovando-os como canônicos. Houve prós e contras dentro da própria Igreja de Roma (GILBERTO, 1986, p. 58).

11.2. Apócrifos do Novo Testamento

Trata-se de Evangelhos, Atos de Apóstolos e Epístolas, todos lendários e espúrios, que começaram a aparecer no século II. Foram forjados, na maior parte, e assim reconhecidos desde o princípio. São tão cheios de estórias ridículas e indignas a respeito de Cristo e dos apóstolos, que nunca foram reconhecidos como divinos, nem incorporados à Bíblia. São tentativas deliberadas de preencher lacunas na história de Jesus, como é apresentada no Novo Testamento, com o fim de fomentar idéias heróicas através de falsas afirmações.

Sabe-se que houve uns 50 "Evangelhos" espúrios, além de muitos "Atos" e "Epístolas". A grande quantidade desses escritos forjados fez a Igreja Primitiva ver quanto era importante distinguir entre os falsos e os verdadeiros. Dizem que Maomé tirou largamente desses livros as idéias que tinha acerca do cristianismo. Neles está a origem de alguns dogmas da Igreja Romana. Não devem ser confundidos com os escritos dos "Pais Apostólicos".

12. Os Rolos do Mar Morto

No verão de 1947, tiveram início na Palestina, por obra de casual descoberta de um jovem beduíno, chamado Moâmede ad-Dib, encontros arqueológicos de excepcional importância: os chamados manuscritos do Deserto da Judéia, do Mar Morto ou ainda Manuscritos de Qunran. Ele tinha perdido uma cabra, por isso subiu penosamente a encosta, chamando pelo animal que continuava a elevar-se, a procura de alimento. Nesta sua busca ele deparou com uma cavidade, atirou para dentro dela uma pedra, apurando o ouvido para escutar a queda, a fim de determinar a sua profundidade. Qual

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não foi a sua surpresa, quando em vez do esperado ruído, seu ouvido percebeu um típico som de louça. Com esforço conseguiu olhar para dentro, notando com surpresa a existência de vários objetos cilíndricos, de grande tamanho. Amedrontado pela superstição, o moço fugiu rapidamente daquele sítio, e, à noite, comentou com um amigo a inusitada descoberta da caverna. No dia seguinte os dois se dirigem à gruta, e ao entrarem nela, encontram sete rolos. Levaram alguns para a tenda e ao desenrolarem ficaram surpresos com a sua extensão e por não entenderem nada do que neles estava escrito.

Os beduínos, indo regularmente a Belém para vender leite e queijo, certo dia, levaram também os pergaminhos, vendendo-os a um cristão sírio, dono de um armazém, conhecida pelo nome de Kando, que também por ignorar totalmente o valor deste achado, abandonou-os no chão da loja por vários dias, sendo estes pisados pelos que nela entravam. Certo dia, atentando melhor para aqueles pergaminhos, ocorreu-lhe a idéia de levá-los a Jerusalém para os vender no Convento Sírio de São Marcos. O superior do convento procura pessoas entendidas que estudassem os manuscritos, a fim de que ele pudesse ter uma idéia de seu real valor, assim sendo, um dos pergaminhos foi enviado ao Professor E. L. Sukenik, da Universidade Hebraica. Sukenik analisando-o, em profundidade, concluiu que o documento apresentava grande valor pelo seu conteúdo e considerável antigüidade.

A caverna na qual foram encontrados os manuscritos fica na região desolada e quente do Deserto de Judá dos dias bíblicos, cerca de doze quilômetros ao sul de Jericó, na altura do Uadi Qunran.

Os sete rolos retirados desta gruta eram bem diferentes, pois dois eram manuscritos do livro de Isaías, um completo e outro incompleto, um manual de Disciplina da Seita, uma coleção de Salmos e Ações de Graça, uma ordem

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de batalha para uma guerra apocalíptica entre os Filhos da Luz

e os Filhos das Trevas, um Comentário ao livro de Habacuque.

Todo este material foi publicado por Sukenik e pelos americanos. Além dos manuscritos já citados ainda foram encontrados documentos os mais diversos conto contratos de casamento, cartas do líder judeu Bar Cocheba, um hinário de mais ou menos quarenta salmos, cópias dos apócrifos de

Eclesiástico e Tobias, além de trechos de pseudepígrafos como o de Enoque.

A gruta em que aqueles pastores entraram, e que

marcou o início de uma fase histórica da arqueologia, recebeu

o n.º 1. Não longe dela, encontrou-se, em fins de 1951, a gruta

a que se deu o n.º 2. Continha fragmentos dos Salmos, os livros

de Isaías, do Êxodo, de Rute, um documento litúrgico e o livro apócrifo dos Jubileus, que é uma paráfrase do Gênesis, recompilada pelos fariseus. Descobriu-se, depois, a gruta n.º

3, onde se encontraram 2 rolos de chapas de cobre, com textos

gravados.

A gruta que deu colheita mais rica foi a de n.º 4. Continha 380 manuscritos, dos quais mais ou menos uma centena são de ordem bíblica. Seguiram-se as de n.º 5 e 6, que deram

manuscritos de pouca importância bíblica e histórica. Em fins de 1955, revistaram-se as grutas que receberam os nos 7, 8, 9

e 10, todas contendo ora pergaminhos, ora papiros, tudo de

pouca importância. Logo após, nos últimos dias de 1955, encontram-se outras duas séries de grutas, uma à margem do Uadi Murabaat, e outra à margem do Uadi Mird, sempre nos arredores do Mar Morto.

Os dois rolos de chapa de cobre mediam mais ou menos 2 metros de comprimento e uns 30 centímetros de largura. Durante 3 anos estudos foram feitos para que os rolos fossem abertos sem se estragar a escrita. Foi preparada uma máquina especial pelo Departamento de Tecnologia de Manchester, Inglaterra, para cortar o rolo, trabalho este levado

a efeito no dia 16 de janeiro de 1956. Estes rolos podem ser

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vistos no Museu de Amã. Na escrita de um deles estava a relação de uns 60 esconderijos, nos quais, se encontrariam depósitos de ouro, prata ou caixas de incenso.

Três sociedades científicas: Departamento Arqueológico da Jordânia, Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém (Santo Estêvão) e o Museu Arqueológico Palestinense têm inventariado as riquezas destas grutas. Os fragmentos de manuscritos descobertos nas onze cavernas de Qunran são cerca de 600 e um quarto destes fragmentos contém textos bíblicos; com exceção do livro de Ester, todos os livros do Velho Testamento se acham ali representados. Os mais numerosos são dos livros de Isaías, de Deuteronômio e dos Salmos.

13. Versões, Traduções, Revisões e Paráfrases

Tradução é simplesmente a transposição de uma composição literária de uma língua para outra. Por exemplo, se a Bíblia fosse transcrita dos originais hebraico e grego para o latim, ou do latim para o português, chamaríamos esse trabalho tradução. Se esses textos traduzidos fossem vertidos de volta para as línguas originais, também chamaríamos isso tradução.

A tradução literal é uma tentativa de expressar, com toda a fidelidade possível e o máximo de exatidão, o sentido das palavras originais do texto que está sendo traduzido. Trata-se de uma transcrição textual, palavra por palavra. O resultado é um texto um tanto rígido.

A transliteração é a versão das letras de um texto em certa língua para as letras correspondentes de outra língua. É claro que uma tradução literal da Bíblia fica sem sentido para uma pessoa de pouca cultura.

Versão, tecnicamente falando é uma tradução da língua original (ou com consulta direta a ela) para outra língua, ainda

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que comumente se negligencie essa distinção. O segredo para a compreensão é que a versão envolve a língua original de determinado manuscrito.

Revisão, ou versão revista, é termo usado para descrever certas traduções, em geral feitas a partir das línguas originais, que foram cuidadosa e sistematicamente revistas, cujo texto foi examinado de forma crítica, com vistas em corrigir erros ou introduzir emendas ou substituições.

Paráfrase é uma tradução "livre" ou "solta". O objetivo é que se traduza a idéia, e não as palavras. Daí que a paráfrase é mais uma interpretação que uma tradução literal do texto. O comentário é simplesmente uma explicação das Escrituras. O exemplo mais antigo desse tipo de trabalho é o "Midrash", ou comentário judaico do Antigo Testamento.

13.1. Versões e Traduções mais Antigas

As traduções mais antigas apareceram antes do período dos Concílios da Igreja (350 d.C.), abarcando obras como Pentateuco Samaritano, os Targuns Aramaicos, o Talmude, o Midrash e a Septuaginta (LXX).

13.2. O Pentateuco Samaritano

Segundo Norman Geisler e William Nix (1997, p. 187), "o Pentateuco samaritano pode ter-se originado no período de Neemias, em que se reedificou Jerusalém. Não sendo na verdade uma tradução, nem versão, mostra a necessidade do estudo cuidadoso para que se chegue ao verdadeiro texto das Escrituras". Essa obra foi, de fato, uma porção manuscrita do texto do próprio Pentateuco. Contém os cinco livros de Moisés, tendo sido escrito num tipo paleo-hebraico, muito semelhante ao que se encontrou na pedra moabita, na inscrição de Siloé, nas Cartas de Laquis e em alguns manuscritos bíblicos mais antigos de Qumran. A tradição textual do Pentateuco samaritano é independente do Texto massorético. Não foi

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descoberto pelos estudiosos cristãos senão em 1616, embora

fosse conhecido dos pais da igreja, como Eusébio de Cesaréia

e Jerônimo, tendo sido publicado pela primeira vez na obra

Poliglota de Paris (1645) e, depois, na Poliglota de Londres

(1657).

13.3. Os Targuns

Segundo Norman Geisler e William Nix (1997, p. 188), "há evidências de que os escribas, já nos tempos de Esdras (Ne 8.1-8), estavam escrevendo paráfrases das Escrituras hebraicas em aramaico. Não estavam produzindo traduções, mas textos explicativos da linguagem arcaica da Tora". Antes do nascimento de Cristo, quase todos os livros do Antigo Testamento tinham suas paráfrases ou interpretações (targuns). Ao longo dos séculos seguintes o targum foi sendo redigido até surgir um texto oficial.

Os mais antigos targuns aramaicos provavelmente foram escritos na Palestina, durante o século II d.C, embora haja evidências de alguns textos amaraicos de um período pré-

cristão. Esses textos primitivos, oficiais, do targum, continham

a lei e os profetas, embora targuns de épocas posteriores

também incluíssem outros escritos do Antigo Testamento.

Durante o século III d.C., surgiu na Babilônia um targum aramaico sobre a Tora. Possivelmente se tratasse de uma versão corrigida de texto palestino antigo; mas também poderia ter-se originado na Babilônia, tendo sido tradicionalmente atribuído a Onquelos (Ongelos), ainda que tal nome provavelmente resultasse de confusão com Áqüila.

13.4. O Talmude

O Talmude basicamente representa as opiniões e as decisões de professores judeus de cerca de 300 a 500 d.C., consistindo em duas principais divisões: o Midrash e a Gemara.

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(a)

A Mishna (repetição, explicação) completou-se perto de 200 d.C., como se fora um digesto - publicação composta de artigos, livros condensados - hebraico de todas as leis orais, desde o tempo de Moisés. Era altamente considerada como a segunda lei, sendo a Tora a primeira.

(b)

A Gemara (término, finalização) era um comentário ampliado, em aramaico, da Mishna. Foi transmitida em duas tradições: a Gemara palestina (c. 200) e a Gemara babilônica, maior, dotada de mais autoridade (c. 500).

13.5. O Midrash

O Midrash (lit., estudo textual) na verdade era uma exposição formal, doutrinária e homilética das Sagradas Escrituras, redigida em hebraico ou em aramaico. De mais ou menos 100 até 300 d.C., esses escritos foram reunidos num corpo textual a que se deu o nome de Halaka (procedimento), que era uma expansão adicional da Tora, e Hagada (declaração, explicação), ou comentários de todo o Antigo Testamento. O Midrash de fato diferia do Targum neste ponto: o Midrash eram comentários, em vez de paráfrases. O Midrash contém algumas das mais antigas hornilias do Antigo Testamento, bem corno alguns provérbios e parábolas, textos usados nas sinagogas.

13.6. Septuaginta (LXX)

Bastante conhecida através da sigla LXX, é a mais importante tradução grega do Velho Testamento.

Seria interessante pensar por alguns instantes qual a razão de um livro hebraico ser traduzido para o grego numa cidade do Egito? A História nos confirma que Alexandre Magno, com suas extraordinárias conquistas levou o grego a

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quase todas as partes do mundo conhecido. Sua morte prematura em 323 a.C. fez com que seu império fosse dividido. Cabendo a Ptolomeu I (323-285) governar o Egito, iniciando assim a dinastia dos reis gregos no Egito. Calcula-se que no tempo de Ptolomeu II, a cidade de Alexandria era composta por um terço de judeus. Como era de se esperar esses imigrantes judeus facilmente adotaram a língua dos gregos. Os judeus perceberam que a única maneira de preservar o judaísmo em Alexandria era traduzir o Velho Testamento para o grego.

Foi a Septuaginta a primeira tradução completa do Antigo Testamento, do original hebraico. Foi também ela que situou e dividiu os livros por assuntos como os temos hoje: Lei, História, Poesia, Profecia. Não há um só exemplar original da Versão dos Setenta; somente cópias, a mais antiga das quais data de 325 d.C. É ela a mais antiga tradução da Bíblia hebraica. A Septuaginta é usada ainda hoje na Igreja Grega. Sua primeira aparição impressa é a constante da Complutensiana Poliglota publicada em Alcalá, província de Madri, em 1514-1517, e distribuída em 1522 pelo Cardeal Ximenes.

13.7. Versões Siríacas

É provável que a primeira versão do Novo Testamento

tenha sido feita na língua siríaca. Dentre as versões siríacas são dignas de nota as seguintes:

(A) Siríaca Antiga

É uma versão dos quatro Evangelhos, conservada hoje

com grandes lacunas nestes dois manuscritos: O editado por Cureton em 1852, encontrado hoje no Museu Britânico; o palimpsesto descoberto por Smith Lewis no Mosteiro Santa Catarina em 1892. Embora estes manuscritos fossem copiados no 5º e 4º séculos respectivamente, a forma de texto que eles preservam data do fim do segundo século ou início do

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terceiro. O texto dos Evangelhos sofreu influências do Diatessaron de Taciano. Seu tipo de texto pertence ao grupo Ocidental.

(B) Versão Peshita

Em siríaco a palavra peshita significa simples, comum, vulgar. Não há informações fidedignas do autor ou autores desta tradução nem do tempo em que o trabalho foi feito. Crêem alguns que a tradução foi feita por Rabbula, bispo de Edessa (411-432), cognominado o São Jerônimo da Igreja Síria. Outros afirmam que o autor é desconhecido, mas que a tradução foi feita para que o cristianismo pudesse propagar-se entre aquele povo. Por ser um trabalho muito bem feito, foi chamada "a rainha das versões". Contém todo o Velho Testamento sem os livros apócrifos. Do Novo Testamento não foram traduzidos II e III João, II Pedro, Judas e Apocalipse. Mais de 350 manuscritos da Peshita são conhecidos hoje, diversos dos quais datam do 5º e 6º séculos.

(C) Versão Filoxênia

Esta é outra tradução bastante difícil de ser explicada pela Crítica Textual. Crê-se que Filóxeno, bispo de Mabugue, comissionou a tradução da Bíblia inteira baseada no grego, em 508 a.D. Dessa tradução temos apenas fragmentos do Novo Testamento e do Saltério.

(D) Versão Siríaca da Palestina

É conhecida principalmente por um dicionário dos Evangelhos. Crêem os entendidos que seja uma tradução do quinto século.

13.8. Versões Latinas

O latim era um idioma dominante nas regiões ocidentais do Império Romano desde muito antes dos dias de Jesus. Foram nas regiões ocidentais ao sul da Gália e na África do

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

42

Norte que apareceram as primeiras traduções da Bíblia em latim. Segundo Philip W. Confort (1998, p. 235) "em cerca de 160 d.C., Tertuliano notoriamente usou uma versão das Escrituras em latim. Não muito tempo depois, o texto em latim antigo parece ter estado em circulação, o que nos é evidenciado pelo uso de Cipriano antes de sua morte, em 258 d.C.". A versão em latim antigo era uma tradução da Septuaginta. Manuscritos completos do texto em latim antigo não subsistiram. Depois que a versão latina, a Vulgata, foi com- pletada por Jerônimo, o texto mais primitivo caiu em desuso. Contudo, muitos manuscritos fragmentários dessa versão ainda existem, sendo o suficiente para dar expressivas informações ao texto primitivo do Antigo Testamento.

13.8.1. A Vulgata latina

Segundo Philip W. Confort (1998, p. 236) "por volta do século III d.C., o latim começou a substituir o grego como língua de ensino no vasto mundo romano. Um texto uniforme e confiável era extremamente necessário para uso teológico e litúrgico". Para preencher essa necessidade, o papa Dâmaso I (336-384 d.C.) encarregou Jerônimo, eminente erudito no latim, grego e hebraico, de fazer a tradução. Jerônimo começou o seu trabalho com uma tradução da Septuaginta em grego, considerada inspirada por muitas autoridades da Igreja, inclusive Agostinho. Contudo, mais tarde, e sob risco de grande crítica, voltou-se para o texto hebraico que então estava em uso na Palestina, como texto base para sua tradução. Durante o período de 390 a 405, Jerônimo fez sua tradução latina do Antigo Testamento hebraico. Não obstante, a despeito de ter se voltado para o original hebraico, Jerônimo dependia grandemente das diversas versões gregas como auxílio à tradução. Por conseguinte, a Vulgata espelha as outras traduções gregas e latinas tanto quanto o texto hebraico fundamental. O valor da Vulgata para a crítica textual é a evidência pré-massorética para a Bíblia hebraica, embora tal testemunho esteja em grande parte comprometido pela influência das traduções gregas já existentes.

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

43

Autor da Vulgata. Sofrônio Eusébio Jerônimo (c. 340- 420) nascera de pais cristãos, em Estridão, na Dalmácia. Havia sido educado na escola local até sua ida a Roma, com a idade de doze anos. Durante os oito anos seguintes, Jerônimo estudou latim, grego e autores pagãos, antes de tornar-se cristão, com a idade de dezenove anos. Logo após sua conversão e batismo, Jerônimo devotou-se a uma vida de rígida abstinência e de serviço ao Senhor. Passou muitos anos perseguindo uma vida semi-ascética de eremita. De 374 a 379, empregara um rabino judeu para que lhe ensinasse o hebraico, enquanto estivesse residindo no Oriente, perto de Antioquia. Foi ordenado presbítero em Antioquia antes de partir para Constantinopla, onde passou a estudar sob a orientação de Gregório de Nazianzo. Em 382, foi convocado por Roma para ser secretário de Dâmaso, bispo de Roma, e nomeado membro de uma comissão para revisar a Bíblia latina. É provável que Jerônimo tenha aceitado o projeto em virtude de sua devoção a Dâmaso, pois sabia que as pessoas de menor instrução se oporiam fortemente na sua tradução.

A Data e o Lugar da Vulgata Latina. Jerônimo recebeu a incumbência em 382 e iniciou seu trabalho quase imediatamente. A pedido de Dâmaso, introduziu uma ligeira revisão nos evangelhos, completada em 383. Logo após ter terminado a revisão dos evangelhos, morre-lhe o mecenas (384), tendo sido eleito novo bispo de Roma. Jerônimo, que aspirava a esse cargo, já havia terminado uma revisão rápida do chamado Saltério romano quando regressou ao Oriente e se estabeleceu em Belém. De volta a Belém, Jerônimo voltou sua atenção a uma revisão mais cuidadosa do Saltérío romano, que completou em 387. Essa revisão é conhecida como Saltério galíleu, empregado atualmente no Antigo Testamento da Vulgata. Baseou-se de fato nos Héxapla de Orígenes, a quinta coluna, sendo mera tradução dos Salmos. Tão logo havia terminado sua revisão dos Salmos, Jerônimo iniciou a revisão da LXX, embora esse trabalho não fizesse parte de seus objetivos iniciais. Estando em Belém, Jerônimo havia iniciado seu trabalho de aperfeiçoar seus conhecimentos

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

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do hebraico, de modo que pudesse executar uma nova tradução do Antigo Testamento diretamente das línguas originais.

Os amigos ao redor aplaudiram seus esforços, mas outros, muito longe, começaram a suspeitar que Jerônimo estaria judaizando; alguns se enfureceram quando Jerônimo lançou dúvidas sobre a "inspiração da Septuagínta". A partir dessa época, ele se tornou mais envolvido com sua tradução e com a supervisão dos monges de Belém. Traduziu o Saltério hebraico com base no texto hebraico usado na época, na Palestina. Na verdade, sua tradução jamais suplantou o Saltérío galíleu, nem o Saltério romano, no uso litúrgico, embora fosse calcada nas línguas originais e não em traduções. Jerônimo continuou a traduzir as Escrituras hebraicas a despeito da oposição e da saúde precária. Finalmente, em 405, completou sua tradução latina do Antigo Testamento hebraico, que não recebeu boa acolhida de imediato. Nos últimos quinze anos de vida, Jerônimo continuou escrevendo, traduzindo e revisando sua tradução do Antigo Testamento.

Jerônimo pouca atenção deu aos apócrifos; só com grande relutância produziu uma tradução apressada de algumas passagens de Judite, de Tobias e do resto de Ester, mais as adições de Daniel - antes de morrer. O resultado foi que a versão dos livros apócrifos, pertencente à Antiga latina, foi adicionada à Bíblia chamada Vulgata latina na Idade Média, sobre o cadáver de Jerônimo.

14. Versões, Traduções e Paráfrase em Inglês

Segundo Philip W. Confort (1998, p. 361), "no século VI, o Evangelho foi levado para a Inglaterra pelos missionários de Roma. A Bíblia que levaram foi a Vulgata Latina. Nessa época, os cristãos que viviam na Inglaterra dependiam dos monges para qualquer tipo de instrução relacionada à Bíblia. Os monges liam e ensinavam a Bíblia latina". Depois de alguns

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séculos, quando mais mosteiros foram fundados, surgiu a necessidade de traduções da Bíblia em inglês. A mais antiga tradução em inglês, até onde sabemos, é a que foi feita por um monge do século VII, chamado Cedmon, que fez uma versão métrica de partes do Antigo e do Novo Testamento. Acredita-se que outro clérigo inglês, chamado Bede, traduziu os evangelhos para o inglês. Diz a tradição que, em 735, esse clérigo estava traduzindo o Evangelho de João em seus últimos momentos de vida. Outro tradutor foi Alfredo, o Grande (que reinou de 871 a 899), considerado por todos como um rei muito letrado. Incluiu em suas leis trechos dos Dez Mandamentos traduzidos para o inglês e também traduziu os Salmos.

14.1. A Bíblia de Wycliffe

João Wycliffe (c. 1329-1384) - o mais eminente teólogo

oxfordiano de seus dias - e seus associados foram os primeiros

a traduzir a Bíblia inteira do latim para o inglês. Segundo Philip W. Confort (1998, p. 363), "Wycliffe foi chamado de a "Estrela da Manhã da Reforma", porque audaciosamente questionou a autoridade papal, criticou a venda de indulgências (a qual supostamente libertava as pessoas do castigo do purgatório), negou a realidade da transubstanciação (doutrina que diz que

a substância do pão e do vinho é mudada em corpo e sangue

de Jesus Cristo durante a missa) e falou abertamente contra as hierarquias eclesiásticas". O papa condenou Wycliffe por seus

ensinamentos "heréticos" e pediu que a Universidade de Oxford o demitisse. Mas Oxford e muitos líderes governistas permaneceram ao lado de Wycliffe, de modo que conseguiu sobreviver aos ataques do papa.

Wycliffe acreditava que o caminho para prevalecer em sua luta contra a autoridade abusiva da Igreja Católica era tornar a Bíblia acessível às pessoas em sua própria língua. Desse modo, poderiam ler por si mesmas acerca da forma como cada uma poderia ter um relacionamento pessoal com Deus através de Jesus Cristo - independente de qualquer

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autoridade eclesiástica. Wycliffe, com seus associados, completaram o Novo Testamento por volta de 1380 e o Antigo Testamento em 1382. Enquanto Wycliffe concentrava seus esforços no Novo Testamento, um de seus associados, Nicolau de Hereford, fazia uma parte importante do Antigo Testamento. Wycliffe e seus companheiros, desconhecedores do hebraico e do grego originais, traduziram o texto do latim

Depois de Wycliffe ter terminado seu trabalho

de tradução, organizou um grupo de paroquianos pobres, conhecido como lolardos, para irem por toda a Inglaterra pregando as verdades cristãs e lendo as Escrituras na língua materna a todos os que ouvissem a Palavra de Deus. O resultado desse empreendimento foi que a Palavra de Deus, através da tradução de Wycliffe, tornou-se acessível a muitos ingleses. Wycliffe era amado e, não obstante, odiado. Seus inimigos eclesiásticos não tinham esquecido da oposição que fizera aos poderes que detinham nem dos esforços bem- sucedidos em tornar as Escrituras disponíveis a todos. Várias décadas após sua morte, condenaram-no por heresia, desenterraram os seus ossos, queimaram-nos e lançaram as cinzas no rio Swift.

para o inglês. [

]

Um dos associados mais chegados de Wycliffe, João Purvey (c. 1353-1428), continuou a obra de Wycliffe, lançando, em 1388, uma revisão de sua tradução. Purvey era um excelente erudito. Seu trabalho foi muito bem recebido por sua geração e pelas que se seguiram. Menos de um século depois, a edição revista de Purvey havia substituído a Bíblia inicial de Wycliffe.

Como mencionado anteriormente, Wycliffe e seus associados foram os primeiros ingleses a traduzir toda a Bíblia do latim para o inglês. No entanto, essa Bíblia era uma tradução de uma tradução, e não das línguas originais da Bíblia. Com o advento da Renascença, ocorreu o ressurgimento do estudo dos clássicos - e com isso, o ressurgimento do estudo do grego, bem como do hebraico. Assim, pela primeira vez em quase mil anos (500-1500, que foi

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47

o tempo aproximado em que o latim prevaleceu como língua

dominante para a erudição, exceto na igreja grega), os eruditos começaram a ler o Novo Testamento em sua língua original, o

grego. Por volta de 1500, o grego era ensinado em Oxford, Inglaterra. (CONFORT , 1998, p. 363,364).

14.2. William Tyndale (1492-1536)

Após tentativas malfadadas de fazer sua tradução na Inglaterra, William Tyndale embarcou para o Continente em 1524. Após outras dificuldades, finalmente imprimiu o Novo Testamento em Colônia, no fim de fevereiro de 1526. Seguiu- se uma tradução do Pentateuco, em Marburgo (1530), e de Jonas, na Antuérpia (1531). Conforme Norman Geisler (1997, p. 224) "as influências de Wycliffe e de Lutero eram evidentes no trabalho de Tyndale e o mantiveram sob constantes ameaças. Além disso, essas ameaças eram tantas, que as traduções de Tyndale tiveram de ser contrabandeadas para a Inglaterra. Tendo chegado lá, exemplares foram comprados por Cuthbert Tunstall, bispo de Londres, que as fez queimar publicamente em St. Paul's Cross".

Conforme Norman Geisler (1997, p. 224) "em 1534, Tyndale publicou sua revisão do Gênesis e começou a trabalhar numa revisão do Novo Testamento. Pouco depois de completar essa revisão, foi seqüestrado na Antuérpia e levado

à fortaleza de Vilvorde, em Flandres. Ali continuou a traduzir o Antigo Testamento".

14.3. A Bíblia de Coverdale

Miles Coverdale era graduado de Cambridge e, como Tyndale, havia sido forçado a fugir da Inglaterra, porque fora grandemente influenciado por Lutero, à medida que audaciosamente pregava contra a doutrina católica. Enquanto estava no exterior, Coverdale encontrou-se com Tyndale e então passou a servi-lo de assistente - sobretudo ajudando-o na tradução do Pentateuco. Pela época em que Coverdale

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publicava uma tradução completa (1537), o rei da Inglaterra, Henrique VIII, rompia todas as relações com o papa e estava pronto para aceitar a publicação de uma Bíblia em Inglês.

14.4. A Bíblia de Genebra (1524-1579)

Os ingleses exilados em Genebra, Suíça, escolheram William Whittingham (1524-1579) para lhes fazer uma tradução em inglês do Novo Testamento. Whittingham usou a tradução latina de Teodoro Beza e consultou o texto grego. Essa Bíblia tornou-se muito popular, porque era pequena e de preço moderado. O prefácio e suas muitas anotações estavam impregnadas por forte influência evangélica, bem como pelos ensinamentos de João Calvino. Calvino foi um dos maiores pensadores da Reforma, renomado comentarista bíblico e o principal líder em Genebra durante essa época.

14.5. A Bíblia do rei Tiago - A King James Version (1611)

Em janeiro de 1604, Tiago I foi convocado a comparecer à Conferência de Hampton Court. Na ocasião John Reynolds, presidente pu-ritano da Faculdade Corpus Christi, em Oxford, levantou a questão de ser feita uma versão autorizada da Bíblia para todos os partidos dentro da igreja. Foi nomeada uma junta. Seis grupos de tradutores foram escolhidos: dois em Cambridge para revisar de 1Crônicas a Eclesiastes e os livros apócrifos; dois em Oxford para revisar de Isaías a Malaquias, os evangelhos, Atos e o Apocalipse; dois em Westminster para revisar de Gênesis a 2Reis e de Romanos a Judas. Apenas 47 dos 54 homens escolhidos trabalharam de fato nessa revisão da Bíblia dos bispos.

As notas marginais acompanharam a nova revisão, e a chamada Versão autorizada nunca chegou a ser de fato autorizada, nem ser de fato uma versão. Ela substituiu a Bíblia dos bispos nas igrejas porque nenhuma edição dessa Bíblia foi publicada depois de 1606.

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15. Traduções Castelhanas

A primeira tradução que se fez em castelhano foi o Novo Testamento surgido em 1543. Foi obra do jovem reformador Francisco de Enzinas. Filho de pais nobres e ricos foi enviado a estudar nos Países Baixos, onde recebeu decisiva influência dos reformadores. Dirigiu-se posteriormente à Alemanha para conhecer Melanchton, em cuja casa se hospedou. Estudando na Universidade de Wittenberg e encorajado por Melanchton dedicou-se à sublime tarefa de traduzir o Novo Testamento do original grego para a sua língua nativa.

A segunda tradução para o espanhol é a conhecida

"Bíblia de Ferrara" que em realidade não contém senão o Antigo Testamento. Esta versão foi obra de certos eruditos judeus, que por questões religiosas foram desterrados da Península Ibérica. Radicaram-se na Itália, onde havia maior liberdade em questões religiosas. Reunidos em Ferrara quatro bons conhecedores do hebraico e do espanhol, com manuscritos originais a sua disposição não lhes foi muito difícil concluir a tarefa a que se propuseram.

A primeira tradução completa da Bíblia para a língua

castelhana foi obra de Casiodoro de Reina, que nascera ao sul da Espanha em 1520.

Após ter estudado para sacerdote, tornou-se pregador evangélico, razão porque teve de fugir da Espanha. Trabalhou 12 anos nesta tradução, que foi publicada em Basiléia no ano de 1569. Baseou seu trabalho em manuscritos originais, mas teve auxílio de traduções anteriores, como a grande versão de Ferrara (1533).

16. Tradução de João Ferreira de Almeida

A Edição Comemorativa do Terceiro Centenário da

Tradução da Bíblia em língua portuguesa, apresentou para

João Ferreira de Almeida as seguintes informações:

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"Nascido em Torres de Tavares, Conselho de Mangualde, Portugal, em 1628, faleceu, João Ferreira de Almeida, em 1691". Temos aqui 63 anos que se dignificaram na vida do consagrado servo de Deus. É consagrado no campo da cultura secular, versado na lingüística, incansável na comparação das línguas que aprendeu e usou, valeu-se de sua língua nativa, a portuguesa, para a expressão geral e ampla de suas obras principais, destacando-se, dentre elas, a tradução que fez da Bíblia, dos originais hebraico e grego para a língua portuguesa.

João Ferreira de Almeida foi quem primeiro traduziu a Bíblia para o nosso vernáculo. Português ele, de três séculos idos, é certo que ainda falando e escrevendo corretamente, com segura inteligência das proposições, das frases e das palavras teve linguagem que hoje seria distante e até, não raro, diferente para as sucessivas edições da Bíblia, segundo ele a traduziu, porque a evolução semântica da linguagem, por vezes, impõe mudanças de palavras para que se não mude o sentido das mensagens.

Há 300 anos (1681) João Ferreira de Almeida traduziu o Novo Testamento, em Amsterdã; e daí avante, sua publicação (Batávia, 1693), novamente em Amsterdã (1712); em Trangambar, 1760; e outra vez em Batávia, 1773.

Incansável no trabalho, traduziu também o Antigo Testamento, mas até o versículo 12 do capítulo 48 de Ezequiel.

Na apreciação das traduções da Bíblia feitas por João Ferreira de Almeida, não falte a palavra oportuna à sua digna esposa, filha de pastor holandês, pela expressiva ajuda intelectual nos trabalhos lingüísticos do esposo, traduções e originais, assim como no pastoreado lhe foi ajudadora generosamente cristã.

Em 1656, Almeida foi ordenado pastor da Igreja Reformada, mas sempre desejoso de promover a Reforma em

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Portugal. De 1656 até 1658 foi missionário no Ceilão, depois na Índia, e foi o primeiro ordenado a pregar em português. De volta a Batávia, pastoreou a comunidade portuguesa ali existente.

Faleceu, dissemos, em 1691, todavia João Ferreira de Almeida até hoje influi com as traduções que deixou da Bíblia. A mais antiga versão usual no Brasil, entre os evangélicos, mereceu da Sociedade Bíblica do Brasil certa atualização na linguagem, pois dista três séculos a tradução do Almeida.

Na seção de Livros Raros da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, há um exemplar do Novo Testamento impresso em Amsterdã (1712).

17. A Tradução de Almeida Revisada

Duas entidades - Comissão Revisora e Comissão Consultiva - foram organizadas entre nós, sob os auspícios das Sociedades Bíblicas Unidas para se desincumbirem da sagrada responsabilidade de rever a Tradução de Almeida e atualizar a sua linguagem.

Estas duas comissões em sua reunião inaugural, no dia 14 de abril de 1943, sob a presidência do destacado Pastor César Dacorso Filho, tratavam das "Razões por que necessitamos de uma revisão das atuais versões da Bíblia em Português".

Depois de ponderados e minuciosos estudos das três traduções mais divulgadas no Brasil, ou sejam: Almeida, Figueiredo e da Tradução Brasileira de 1917, a comissão decidiu pela revisão da tradução Almeida, observando os seguintes tópicos:

(a)

Fidelidade ao texto original;

(b)

Tradução e não interpretação;

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(c)

Clareza, correção e elegância de linguagem;

(d)

Cunho espiritual da linguagem;

(e)

Aproveitamento de outras versões e acesso às línguas originais.

Os membros da Comissão Revisora faziam parte das

seguintes igrejas: Batista, Congregacional, Episcopal, Metodista, Presbiteriana Independente, Presbiteriana, Evangélica e Luterana.

De acordo com a Sociedade Bíblica do Brasil, o trabalho feito não foi uma nova tradução, mas uma revisão da tradução de João Ferreira de Almeida. Os textos originais foram Nestle, para o Novo Testamento e Letteris para o Velho Testamento.

As

especialmente, nestes aspectos:

modificações

feitas

em

Almeida

se

basearam,

(a)

Infidelidade ao original, ou em desacordo com o melhor texto;

(b)

Palavra ou frase antiquada demais;

 

(c)

Palavra

ou

frase

que

apresentasse

alguma

impropriedade;

 

(d)

Construção gramatical inferior.

 

Nesta revisão, talvez tenha permanecido, no máximo, 30% da linguagem de Almeida, não sendo de admirar este corte se levarmos em consideração que a linguagem de Almeida, que estava sendo atualizada, tinha quase 200 anos.

O renomado vernaculista, Antônio de Campos

Gonçalves, secretário e relator da Comissão nos científica de

que a Sociedade Bíblica do Brasil desejou conservar o mais

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53

possível a linguagem de Almeida, mas este objetivo era difícil de ser alcançado, por ser muito antiga a sua linguagem e por serem diferentes os originais seguidos por Almeida (Textus Receptus) e pela Comissão Revisora (Letteris e Nestle).

A Revista da Sociedade Bíblica do Brasil, faz várias referências à Revisão Autorizada, mas deve-se ter em mente que é a mesma Edição Revista e Atualizada no Brasil.

Outros aspectos contestado por entendidos na arte de traduzir sobre a Almeida Atualizada são os termos eruditos e rebuscados, desconhecidos até por pessoas cultas. Preciosismos literários idênticos aos seguintes deveriam ser evitados: coudelaria (Et 8.10), excogitar (Sl 64.6), acrisolar (Sl 66.10), espelta (Is 28.25), sachar (Is 5.2), prevaricações (Ez 33.0), gazofiláceo (Mc 12.41), recalcitrar (At 2614), inculcando-se (Rm 1.22), adágio (2Pe 2.22). Não nos esqueçamos de que a linguagem é correta e o estilo agradável de se ler.

18. Tradução de Figueiredo

Por um decreto de 1757, no tempo do Papa Bento XIV, a Bíblia era reconhecida como útil para robustecer a fé. Esta nova atitude da Igreja Católica Romana deu impulso à tradução da Bíblia com a Vulgata como base. Entre estes se encontrava o Padre Antônio Pereira de Figueiredo, nascido perto de Lisboa em 1725.

Por ser exímio latinista, e como ele mesmo confessa:

"Não sendo eu nem ainda medianamente instruído nas línguas originais, hebraica e grega, em que foram escritos, respectivamente, o Velho Testamento e os Evangelhos, mal poderia sair exata e perfeita esta minha tradução."

A sua tradução se baseou na Vulgata. Por 18 anos ocupou-se deste trabalho, que foi submetido a duas revisões

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cuidadosas antes de ser publicado. A primeira edição do Novo Testamento saiu em 1778 em seis volumes e o Velho Testamento foi publicado em 17 volumes, seguidamente, desde 1783 a 1790.

A edição de sete volumes completada em 1819 é considerada o padrão das versões de Figueiredo. A tradução de Figueiredo em um só volume foi publicada pela primeira vez em 1821.

A tradução de Figueiredo foi a primeira a verter a expressão "kuriakê hemera" de Ap 1.10 para domingo.

Almeida

e

Figueiredo

continuam

as

Bíblias

mais

divulgadas

em

língua

portuguesa

por

causa

da

sua

vernaculidade e agradável estilo.

19. Edição Trinitária de 1883

Sobre esta tradução assim se expressou Arnaldo Christianini:

Tão logo se fundou a Trinitarian Bible Society, em Londres, cuidou de verter o Livro Santo em vários idiomas, inclusive em português, que saiu a lume em 1883. Esta primeira edição da Trinitária é muito disputada pelos adventistas da fala portuguesa, ao ponto de se pagarem

somas fabulosas por um exemplar, hoje raríssimo. E por quê? Porque ela registra assim Lc 23.43: 'E Jesus lhe disse: Na verdade te digo hoje, que estarás comigo no Paraíso'. E Ap 22.14: 'Bem-aventurados aqueles que guardam os seus Mandamentos, para que tenham acesso à árvore da vida, e para que entrem na cidade pelas portas'. E assim Jo 3.4: ' pecado é quebrantamento da Lei'. Estes três textos, assim traduzidos, casam-se maravilhosamente com certos aspectos

engrandecerá Ele

da doutrina adventista. Também Is 42.21: ' a Lei, e a fará ilustre'.

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

55

Entretanto, tirando esta aparente vantagem para os

adventistas, a tradução, nos demais, do ponto de vista técnico

e diante de novas descobertas da Crítica Textual, deixa muito a

desejar, não é recomendável como um todo. A crítica especialmente aponta-lhe sérios deslizes tradutórios no Velho Testamento, principalmente em alguns Salmos. A parte do Novo Testamento baseou-se no texto Receptus de 1624, que não é bom, e foi superado pelo trabalho de Tischendorf e posteriormente por Westcott and Hort, pelos papiros de Beatty, e mais recentemente pelo famoso e atualíssimo texto de Ebberard Nestle. Ora, os textos gregos modernos estão escoimados de interpolações e inexatidão dos textos antigos, pois o trabalho da Crítica Textual consiste em restaurar, tanto quanto possível o texto original.

O português desta primeira edição da Trinitária é simplesmente horroroso, arcaicíssimo e deselegante. É freqüente o emprego de termos obsoletos e desusados, como,

'capros' (Lv 16.8), 'hum', 'humo' (em vários passos), 'olíbano'

e sobretudo a inadmissível grafia

dos verbos no futuro ('virão', por exemplo).

(Is 66.3), 'graça' (Sl 1.4)

Cacófatos dos piores encontram-se, por exemplo, em 2Sm 1.3; Gn 25.30; Ez 45.24; 46.11; Sl 102.6; Is 62.8; 2Co 11.33; Hb 11.27. E um verbo de sentido chulo em Lc 2.6 e 7. A

Versão Trinitária em 1883 jamais é referida pelos eruditos, que

a consideram destituída de valor crítico.

Segunda Parte
Segunda Parte

O PENTATEUCO: Considerações Preliminares

1. Introdução

Nos relatos do Antigo Testamento presenciamos a história do povo hebreu durante quase dois mil anos, desde a vinda de Abraão à Palestina até a instalação da dinastia dos Hasmoneus (cerca dos séc. XX-11 a.c): história essa em conexão, ora maior ora menor, ora direta ora indiretamente, com a dos povos vizinhos, sobretudo dos grandes impérios, entre os quais a Palestina jazia como ponte: ao sul, o Egito; ao norte, sucessivamente, Babilônia, a Assíria, a Pérsia e a Síria. Constituíam eles outros tantos centros de civilização, que se irradiava entre os povos submetidos ou vizinhos, formando uma vasta unidade cultural. No meio dessa civilização comum movia-se o povo de Israel, sofrendo a sua influência. Nas artes e na, indústria, Israel jamais desenvolveu uma civilização própria; ficou devedor ao estrangeiro, como também a sua língua e literatura trazem o cunho da origem comum ou do prestígio de outros povos socialmente mais evoluídos. No entanto, a ausência de originalidade e independência de civilização material, põe em muito maior relevo o valor das instituições religiosas e morais, elementos básicos da civilização genuína e completa que foram glória exclusiva desse povo eleito.

2. Valor da Interpretação

O Antigo Testamento é uma obra verdadeiramente divina porque inspirada por Deus e porque nos apresenta, pode-se dizer, em cada uma de suas páginas, a ação de Deus sobre os homens. Ao mesmo tempo, porém, é uma obra profundamente humana, porque destinada aos homens, fala uma linguagem humana e nos apresenta, na sua história, os homens tais quais são, com suas deficiências e rebeldias contra os desígnios divinos. Não costuma encobrir as faltas dos seus heróis; Davi, por exemplo, de quem narra os pormenores do adultério e do homicídio (2Sm 11). Mas ao lado

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

60

do escândalo aparece a correção. Que há de mais edificante do que a santa ousadia de Natan em lançar à face de seu soberano o duplo delito, do que o arrependimento e a humilde confissão de Davi, o perdão da culpa, seguido da execução dum castigo da parte de Deus? (2Sm 12). Outras vezes o pecado é censurado mais abertamente (Gn 38.9-10). Só os fariseus poderiam escandalizar-se com tais narrativas, motivos de ensinamento! Além disso, quão poucos são eles em comparação com tantos exemplos de nobres virtudes! São apenas sombras humanas a dar maior realce às luzes divinas da história sagrada. As não poucas cenas de sangue que ela relata, não passam dum reflexo daqueles tempos rudes e ferozes. Também os anais de outros povos orientais estão repletos delas, distinguindo-se os dos hebreus até por um maior senso de humanitarismo; os reis de Israel gozavam de fama universal de clemência (1Rs 20.31).

A relativa brandura dos hebreus derivava da legislação que Deus lhes dera por intermédio de Moisés. A pena de morte é aplicada mais raramente do que no código de Hamurabi, e quase só por meio de apedrejamento. Reconhece a lei de talião, em voga nos costumes dos povos, mas a mitiga (Êx 21.23; 25.28-32). Assim em outras asperezas (vingança do sangue) ou relaxamento de costumes (poligamia, divórcio) a lei, encontrando costumes inveterados e não podendo desarraigá-los totalmente, intervém para os refrear e regulamentar (Mt 19.8). Doutra parte, impõe os deveres de humanitarismo também para com o próprio adversário (Êx 23.4-5) e estabelece a medida da mútua benevolência, com o preceito: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19.18), donde a norma: "Não faças aos outros o que não te agrada." Para com os estrangeiros, as viúvas, os órfãos, em suma, os mais necessitados, recomenda considerações especiais (Êx 22.21-23). Muitas vezes o próprio Deus, especialmente pela pregação dos profetas, faz-se seu advogado e protetor. Contra o abuso da escravidão, praga da sociedade antiga, a lei mosaica, além de múltiplas restrições (Êx 21.1-11; Lv 25.39- 45; Dt 15.12-18), já defende o princípio de igualdade dos

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homens perante Deus (Lv 25.42). Nada disso se encontra em outros códigos orientais, sem falar na genuína doutrina religiosa, própria do Antigo Testamento, que também é fator autêntico de verdadeira civilização. Por outro lado, as suas mais nobres eminências o Antigo Testamento as atinge nos seus profetas, figuras grandiosas de poetas e de heróis.

Em comparação com a sublime doutrina evangélica, a lei antiga, evidentemente, é bem imperfeita; para aqueles tempos e povos antigos, porém, era uma lei santa, que trazia em si os germes de um pleno aperfeiçoamento. Era uma instituição religiosa preparatória para um regulamento definitivo, que devia ser trazido pelo Messias, por Cristo. Paulo, com razão (Gl 3.24), comparou a lei mosaica ao pedagogo, que conduz os discípulos à escala do Mestre, de Cristo. As próprias falhas do Antigo Testamento levavam a desejar o Senhor e Salvador, cujo advento fora anunciado pelos profetas.

Observa-se, pois, um progresso vital do Antigo ao Novo Testamento, como do embrião que se desenvolve num organismo perfeito. Deste caráter do Antigo Testamento e desta sua relação com o Novo, deriva uma consequência importante para a sua correta interpretação, pois as suas instituições deviam ter alguma semelhança com as do Novo; eram as suas imagens antecipadas. Analogamente quanto aos fatos históricos e às pessoas desse "drama" divino, que no Novo Testamento recebem a sua conclusão. Os apóstolos e o próprio Jesus (Mt 12.40; Jo 3.14; 6.32) indicaram-nos algumas dessas imagens antecipadas que, a exemplo de Paulo, costumam chamar-se tipos ou figuras; o objeto por elas vislumbrado chama-se antítipo ou figurado. Daí se segue que no Antigo Testamento, além do sentido das palavras chamado verbal ou literal, há que reconhecer um sentido das coisas, chamado real ou típico, e às vezes menos felizmente, místico e alegórico. Entre estas duas categorias de sentido há conexão, mas ao mesmo tempo grande diferença. O sentido literal (que pode ser próprio ou impróprio, isto é, metafórico) não pode

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faltar em nenhum dito da Escritura e acha-se frequentemente sem o típico, do qual é fundamento necessário. O típico, ao invés, jamais pode disjungir-se do literal e não existe em toda parte, mas tão-somente onde há verdadeira semelhança e relação com algo de análogo no Novo Testamento.

A autêntica originalidade do Antigo Testamento consiste na sua doutrina religiosa e moral, cujo centro ocupa-o a idéia do monoteísmo. Na expressão artística do pensamento, porém, não difere muito dos produtos das línguas e literaturas

irmãs, em particular da acádica e da fenícia (ugarítica). A língua hebraica, bastante parca de conjunções subordinativas, costuma exprimir-se em proposições breves coordenadas

Resulta daí certa dureza e

com a simples aditiva: e

monotonia, sobretudo na parte narrativa, que as versões modernas devem atenuar, ligando e construindo à nossa maneira usual.

e

O estilo hebraico é imaginoso e concreto; exprime-se

com metáforas ousadas e imagens exuberantes, apresentando as coisas abstratas e espirituais com termos realistas capazes de chocar nossos costumes e gostos mais refinados. Em particular fala de Deus e de suas ações em termos de atividade humana: mãos, olhos, ouvidos (antropomorfismo), ficar, sentido, comover-se, arrepender-se (antropopatismos), e semelhantes. Que o leitor não se admire disso, nem se deixe levar a erro. Sob a aparência muitas vezes áspera, oculta-se sempre um pensamento nobre e puro.

3. O Pentateuco

O primeiro lugar de ordem e de honra entre os livros do

Antigo Testamento ocupa-o aquele que os gregos chamaram Pentateuco, isto é, obra em cinco tomos. Para os hebreus é a "tora", ou seja, a lei, nome tomado da matéria central. Também os hebreus o dividiram nos mesmos cinco livros que os gregos, distinguindo-os com a palavra inicial. Nós usamos

exclusivamente os nomes impostos pelos gregos, que de

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maneira graciosa lhes caracterizaram o conteúdo: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio. De fato, o Gênesis narra as origens do universo e do gênero humano até à formação paulatina do povo de Israel na sua estada no Egito. O Êxodo narra a saída dos israelitas do Egito, conduzidos por Moisés aos pés do Sinai, para aí receberem de Deus a sua lei religiosa e civil e se constituírem, por meio de um pacto sagrado ("testamento"), em peculiar "povo de Deus (Javé)." O Levítico regula o culto religioso à maneira de ritual, dirigido especialmente aos levitas, que formavam o clero consagrado ao serviço do santuário. Os Números recebem o nome dos recenseamentos do povo contidos na primeira parte, estendendo-se, depois, em referir fatos e providências legislativas correspondentes a cerca de quarenta anos de vida nômade no deserto da península sinaítica. No Deuteronômio, ou segunda lei, emanada pelo fim da jornada no deserto, Moisés retoma a legislação precedente para adaptá-la às novas condições de vida sedentária, em que o povo viria a se encontrar com a conquista iminente da Palestina.

Neste rápido apanhado aparece num só lance tanto a unidade como a variedade do Pentateuco, bem como a sua importância fundamental para a religião antiga e para a história especial do povo hebreu.

Quem é o autor do Pentateuco? Desde a mais remota antiguidade foi considerado seu autor o próprio Moisés. Já nos livros posteriores da Bíblia citam-se-lhe várias sentenças com

a fórmula: "Está escrito na lei de Moisés" ou "no livro de

Moisés," ou "no volume da lei de Moisés." Assim, para não falar do livro de Josué, que é a continuação imediata e como que o complemento do Pentateuco (Js 8.31, 23.6, em 1Rs 2.3; 2Rs 14.6; 2Cr 23.18; 25.4, 35.12; Ed 3.2, 6.18; Ne 8.1, 10.3,; 13.1; Dan 9.11 etc.). Os Evangelhos nos apresentam a convicção de

que Moisés é autor da lei, difundida e radicada entre os judeus;

o próprio Jesus, bem como os apóstolos admitem-na e a

confirmam (Mt 8.4; Mc 12.26; Lc 20.37; Jo 5.46; At 3.32; 15.21;

Rm 10.5 etc.). Entre as testemunhas eloquentes da fé judaica

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figuram Fílon, José Flávio e com maior crédito e ressonância o Talmud (tratado Baba batra, f. 14,15); entre os cristãos, os Pais da Igreja são unânimes em reconhecer Moisés autor do Pentateuco.

Não contraria essa atribuição o fato de que de Moisés se fale sempre em terceira pessoa; Xenofonte e Júlio César (para falar só em nomes célebres), fizeram o mesmo. Nem suscita a menor dificuldade a grande antiguidade de Moisés (cerca do século XIV a.C.), pois agora sabemos por documentos originais recentemente descobertos, que naquela época, não só a escrita já era conhecida desde séculos, mas até o próprio alfabeto fenício-hebraico já fora inventado. Nem derrogam esta convicção universal a opinião de alguns, já na Idade Média, de que outro trecho breve, como os oito últimos versículos do Deuteronômio, que narram a morte de Moisés, tenha sido acrescentado mais tarde ao Pentateuco. Só nos tempos modernos é que surgiram dúvidas e negações radicais.

A partir do século XVIII vem-se fazendo pesquisas perspicazes em três sentidos: composição, autor, idade do Pentateuco. A composição: é fruto ou não da união de vários documentos ou de mais escritos originariamente distintos? O autor: de quem são as partes individuais ou os documentos, quem as reuniu num todo, ou seja, de quem é a redação definitiva do atual Pentateuco? A idade: quando viveu cada um dos autores e redatores? São três questões distintas entre si, mas tão conexas que podem e habitualmente são tratadas como um tema comum: a questão mosaica. Para responder a tais questões elaboraram-se, no século XIX, vários sistemas; mas prevaleceu sobre todos, no fim do século, o defendido por K.H.Graf (1866) e aperfeiçoado por J.Wellhausen (1876-78). Ele distingue no Pentateuco quatro autores ou escritores diferentes: dois narradores denominados pelo uso diferente do nome de Deus, um javista (abreviado J), o outro eloísta (E), aos quais se deve a maior parte dos fatos referidos no Gênesis, Êxodo, Números; um deuteronomista (D), autor quase

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exclusivo do Deuteronômio; e um tratado presbiteral (P) ou código sacerdotal, que compreende todo o Levítico e muitas partes narrativas de Gênesis, Êxodo e Números. Esses os documentos. Para as respectivas datas, segundo a supracitada escola, o código sacerdotal (P) seria posterior ao profeta Ezequiel (primeira metade do século VI a.C.), o Deuteronômio teria sido composto pouco antes da reforma religiosa de Josias, ou seja, pelo ano de 621 a.C., o eloísta e o javista seriam mais antigos (século VIII e IX). A união de todos esses escritos no atual Pentateuco ter-se-ia realizado no tempo de Esdras (século V a.C.). Com tais conclusões, nada mais resta a Moisés do Pentateuco, exceto um ou outro fragmento, como o Decálogo (Êx 20), incorporado pelos primeiros colecionadores das antigas memórias (J E) à própria obra.

Esta teoria, que se estriba, em boa parte, no princípio filosófico da evolução aplicado à religião e à história do povo hebreu, se bem que tenha encontrado a maior aceitação entre os protestantes, teve na própria Alemanha, fortes opositores entre os críticos de primeira ordem, especialmente no que concerne às datas atribuídas aos supostos documentos, que, se na verdade é o ponto mais revolucionário, é também o mais vulnerável de todo o sistema. Para desmenti-lo neste ponto, surgiram no século XX novas escolas; novas orientações emergiram do solo, com as escavações no Oriente, importantíssimos documentos, tais como o código de Hamurabi, rei de Babilônia, os arquivos dos heteus, ou hititas, em Bogazköy, na Ásia Menor, e os poemas ugaríticos descobertos em Ras Shamra, no litoral da Síria, para só mencionar os principais. Eles trazem à luz costumes, instituições e ritos análogos aos do Pentateuco de tempos até mais antigos de Moisés, e que os críticos julgavam próprios de época mais recente, e nos revelam fatos que se refletem na vida dos patriarcas (Gn 12), com matizes que poucos séculos atrás teria sido impossível imaginar. Consequentemente, a brilhante concepção arquitetada por Wellhausen acha-se em plena dissolução. Resiste ainda tenazmente a análise

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documentária, ou seja, a distinção de quatro (ou mais) fontes, de cuja fusão teria resultado o Pentateuco.

Remetendo, para mais amplas explicações, a tratados especializados de introdução bíblica, ou a comentários mais desenvolvidos, exporemos aqui os fatos objetivos, sobre os quais se quer fundamentar a prova da estrutura compósita do Pentateuco, para indicar depois uma via de solução, e mostrar como esses fatos, quando reduzidos ao seu justo valor, não impedem que Moisés possa ser verdadeiramente chamado autor do Pentateuco. A exposição que segue auxiliará o leitor a formar uma compreensão mais clara destes livros.

3.1. Nomes divinos

Para exprimir a idéia de Deus, a língua hebraica dispõe de muitos termos. O mais frequente (1440 vezes no Pentateuco, mais de 6800 em toda a Bíblia) é "Javé" (ou "Jeová," segundo uma pseudo pronúncia introduzida entre os séculos XVI e XIX), nome próprio, pessoal. "'Elohim" (975 vezes no Pentateuco, cerca de 2500 na Bíblia) é nome de natureza, como se disséssemos: a divindade; gramaticalmente plural (a forma singular, "'eloah," é poética e existe só 2 vezes no Pentateuco), quanto ao sentido é singular "El," de igual valor, mas arcaico e poético, 46 vezes no Pentateuco; "'Adonai" = Senhor, 17 vezes; "Shaddai" = o Onipotente, 9 vezes; "Elion" = o Altíssimo, 6 vezes. A questão mosaica interessam principalmente os dois primeiros. Foi observado (e o primeiro a dar pelo fato foi o médico católico francês Jean Astruc em 1756) que no Gênesis e no início do Êxodo capítulos inteiros empregam exclusivamente, ou quase, o nome Javé; outros, ao invés, com a mesma exclusividade e constância rezam Elohim. Assim, por exemplo, em Gn 1, lê-se 33 vezes Elohim, e nunca Javé; em Gn 4, uma vez Elohim e 10 vezes Javé (em 2-3 diga-se de passagem, estão juntos Javé e Elohim); em Gn 10.16 nenhum Elohim, 36 Javé (com 2

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Adonai); em Gn 17, ao invés, 7 Elohim, 1 Javé; em Gn 24 nenhum Elohim, 19 Javé; em Gn 30-35 contra 32 Elohim 6 Javé. Na tradução, a Vulgata nem sempre conserva a distinção.

O emprego alternado dos dois nomes divinos não é casual; nem é sem motivo que cessa em Êx 6, predominando depois quase exclusivamente Javé; isso está manifestamente em relação com o que aí se lê; às gerações precedentes Deus se revelava como Shadai, pois desconheciam o nome sagrado de Javé, revelado pela primeira vez a Moisés (veja também Êx 3.13-15). Compreende-se, pois, porque nas narrativas precedentes o nome usado seja Elohim. Mas, como explicar a presença de Javé em tantas partes do Gênesis? Depois de Astruc viu-se aqui a prova tangível de duas fontes ou dois autores diferentes, chamados um eloísta (sigla E), outro javista (sigla J). Veremos se com razão.

3.2. Língua e estilo

No entanto, estão já todos concordes que ó argumento dos nomes divinos, por si só, não é suficiente para se distinguirem solidamente fontes ou autores. Este argumento por isso é acompanhado de provas subsidiárias. Com efeito, observam eles, à alternação dos nomes divinos acha-se associada a semelhantes mudanças de vocábulos e construções. Por exemplo, o ato criador em Gn 1 exprime-se

com "bara," em 2 com "yasar"; os habitantes da Palestina antes dos hebreus são chamados "cananeus" por J, "amoreus" por

E; a serva, "sifha" por J, "'amah" por E; o patriarca Jacó só em J

toma o nome de Israel. A diversidade prolonga-se além do

Gênesis; o monte onde foi promulgada a lei, em J chamava-se "Sinai," em E "Horeb"; o sogro de Moisés, em J tem o nome de "Raguel," em E de "Jetro," e assim por diante. Igualmente, mudando os nomes divinos, muda o estilo. J é mais abundante

e minucioso; condescendente e popular, não evita os mais

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chocantes antropomorfismos; vivaz e dramático, tem um colorido poético, fascinante. E é mais seco, anedótico, um pouco descuidado.

Observando-se a diversidade de estilo, descobrem-se mais duas fontes ou autores: um segundo eloísta que, nas partes legislativas, ocupa-se de preferência do culto religioso, donde foi chamado sacerdote e autor do "código sacerdotal" (P); e na seção narrativa ele aprecia as estatísticas, anotações cronológicas, fórmulas esquemáticas (exemplo seja a narração da criação, Gn 1), a linguagem precisa e quase pedante do jurista. E, enfim,o pregador que escreveu o Deuteronômio (D) num estilo amplo, parentético, cheio de afeto humanitário e de suave insinuação.

3.3. Os duplicados

Para provar a pluralidade de autores do Pentateuco surge um terceiro argumento, mais valioso do que os dois antecedentes. Certos acontecimentos - diz-se - e não poucas leis, ocorrem duas e até três vezes em forma pouco diversa. Assim, a criação do mundo é narrada duas vezes (Gn 1.1-2,3 e 2.4-24); duas vezes Agar é expulsa da casa de Abraão (16 e 21); duas vezes acha-se em perigo a honestidade de Sara (12 e 20) e uma terceira a de Rebeca (26); as duas genealogias de Caim (4) e de Sete (5) têm em comum a maior parte dos nomes; no dilúvio (6-8) são entrelaçadas duas narrações distintas. Duas vezes é repetida a vocação de Moisés (Êx 3 e 6), a queda do maná e a pousada das codornizes no deserto (Êx 16 e Nm 11), a prova junto às águas de Meribá (Êx 17 e Nm 20). O preceito das três solenidades anuais é repetido até cinco vezes (Êx 23.14-19; 34.23-26; Lv 23; Nm 28; Dt 16).

3.4. Variações nas leis

Entre os duplicados legais, especial atenção reclamam os que introduzem uma modificação. A mais célebre e mais grave de tais modificações diz respeito ao lugar do culto

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(templo e altar). Êx 20.24 parece permitir a ereção de um altar em qualquer lugar, memorável por alguma intervenção divina,

e aí imolar vítimas sagradas. Lv 17.3-9 não admite nenhuma

matança de animal longe do altar, sobre o qual deve ser derramado o sangue, sendo este altar, em união com o Tabernáculo sagrado, o único para todos. Em Dt 12.1-28, segundo a interpretação comum e óbvia, únicos são o templo e

o altar, e fora deles não é permitido oferecer sacrifícios a Deus. Permite-se, no entanto, que se matem animais em qualquer lugar, para o uso comum, derramando-lhes o sangue por terra, ação declarada profana e não mais sagrada.

A esta variedade de leis corresponde - observa-se - a prática na história, conforme vem narrada pela própria Bíblia. De fato, vemos nos livros dos juízes (6.24-28; 13.15-23), de Samuel (1Sm 6.9-17; 9.12; 2Sm 15.7-12; 24.18-25), dos Reis (1Rs 3.2-4; 15.14 etc.), altares erigidos e sacrifícios oferecidos quase por toda parte, segundo as circunstâncias, em harmonia com a lei do Êxodo. Mas, em 2Rs 22.23, lemos que o rei Josias no sétimo ano de seu reinado (621 a.C.), tendo-se encontrado como que por acaso, no templo, um exemplar da lei, fez dela uma aplicação imediata, que corresponde exatamente às prescrições do Deuteronômio, particularmente acerca da unicidade do santuário e do altar. Trata-se da chamada reforma de Josias, precedida, um século antes, por uma tentativa de Ezequias no mesmo sentido (2Rs 17.22; 2Cr 32.12; Is 36.7).

3.5. Esses os fatos

A supra dita escola crítica tira daqui as consequencias que temos visto: o Deuteronômio, o primeiro a ostentar a lei do altar único, foi composto no século VII a.C., pouco antes da reforma de Josias. O Levítico, que já supõe essa lei, bem como todo o código sacerdotal ao qual pertence, é posterior a Josias e ao exílio, acrescentado pouco depois. Os dois escritos narrativos, o Javista e o eloísta, que já circulavam

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separadamente, o primeiro desde o século IX na Judéia, o segundo desde o século VIII no reino de Israel, refletem a prática mais antiga.

Essas consequencias sustentam-se? Será que os fatos acima mencionados, reduzidos aos seus justos limites, não comportam outra explicação? A solução da questão da autenticidade mosaica do Pentateuco depende da resposta a esses dois quesitos.

Partindo do primeiro argumento, o dos nomes divinos, afirmamos antes de mais nada que nem sempre esteve ao arbítrio do escritor usar Javé ou Elohim; o matiz sutil de sentido e a associação diferente de idéias contidas nos dois nomes, levam, em dadas circunstâncias, a usar um com exclusão de outro, e em certas construções o uso, sem razão aparente, ligou-se exclusivamente a um ou ao outro. É daí que se diz: "'is Elohim" = homem de Deus, mas "debar Jahvé" = palavra do Senhor, e não o contrário. O critério dos nomes divinos, portanto, está sujeito à cautela. Além disso, será que estamos certos de que os nomes divinos, como figuram no texto atual, são originais, isto é, remontam ao próprio autor?

A tese crítica o supõe, e é para ela indispensável. Há, porém, boas razões para duvidar. A alternação dos nomes divinos não é particularidade do Pentateuco: constata-se também em outros livros da Bíblia, especialmente no Saltério, onde os primeiros quarenta e os últimos sessenta salmos usam quase exclusivamente Javé, ao passo que os demais cinquenta, do meio, empregam geralmente Elohim. Ora (e isto é de importância capital), pode-se demonstrar com vários argumentos que também naqueles salmos, agora heloísticos, originalmente no lugar de Elohim havia Javé. Mais de um salmo da seção javista é repetido na eloísta (um "duplicado" análogo aos do Pentateuco) sem outra variante, ou quase, senão justamente esses nomes divinos. Ora, assim como ninguém duvida que os salmos assim repetidos, por exemplo, 13 e 52 sejam do mesmo autor, assim também não está

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provado que seções javistas e eloístas no Pentateuco devam pertencer a autores diferentes.

A língua e o estilo não dependem unicamente do autor, mas também do assunto e do gênero literário. Santo Agostinho ditava os seus trabalhos dogmáticos de modo diverso dos seus sermões populares. O Deuteronômio, que, é a promulgação oral de uma lei, em reunião pública, não pode ter o estilo lapidar de um código gravado em tábuas, nem as disposições rituais do código sacerdotal têm que se amoldar às leis civis do código da aliança (Êx 21-23). A variedade, por maior que seja não se opõe à unicidade substancial do autor. Além disso, não está excluído, o emprego de fontes e de colaboradores que também deixam a sua marca na obra definitivamente concluída.

Distinguimos duas espécies dos chamados duplicados:

duas vezes ocorre um fato semelhante (duplicado real), ou duas vezes narra-se o mesmo fato (duplicado literário); para a questão de unicidade ou pluralidade de autor, somente a segunda espécie tem valor. Ora, que, por exemplo, a beleza de Sara tenha excitado duas vezes, em duas cidades diversas, a cobiça de um déspota oriental (Gn 12 e 20) nada tem de improvável. É também positivamente verossímil que em quarenta anos mais de uma vez se tenha verificado a passagem das codornizes nas suas migrações através do deserto (Êx 16; Nm 11); estes são duplicados reais. Cumpre examinar, assim, caso por caso. Para a repetição em que o mesmo ato não pareça admissível, isto é, em se tratando de verdadeiros duplicados literários, tem valor a solução que delinearemos mais adiante.

É ínsito em toda lei, civil ou religiosa, que, permanecendo inalterados os pontos fundamentais, em muitos outros esteja sujeita a variações com o decorrer do tempo e as mudanças de circunstâncias. Nem a lei mosaica podia escapar a essa necessidade quase vital. Mas o próprio texto apresenta a razão das variações observadas no Pentateuco. Desde a primeira legislação no Sinai (código da

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aliança) e a segunda, às margens do Jordão, o Deuteronômio, passam-se cerca de quarenta anos, e, o que mais importa, o povo de Israel, no fim desse período, encontra-se prestes a sofrer uma profunda transformação, ao passar da vida nômade ou pastoril, à sedentária e agrícola. Impunha-se, portanto, uma adaptação do antigo direito às novas condições. Da não observância rigorosa, durante séculos, da lei deuteronômica sobre a unicidade do altar, não prova de per si que não existisse. De resto, um ou outro acréscimo ou modificação pode ter-se introduzido com o tempo nas leis mosaicas sem derrogar ou diminuir a paternidade de Moisés do Pentateuco.

A escola crítica, portanto, não provou, contra o testemunho claro da própria Bíblia, a sua tese de que o Pentateuco em nada pertence a Moisés. Das discrepâncias, quaisquer sejam, de vocabulário, de estilo, de leis, dão-se outras explicações conciliáveis com a autenticidade mosaica. No Gênesis, por exemplo, não se lhe opõe a distinção de fontes, pois trata-se de acontecimentos anteriores a Moisés, transmitidos, ao menos em grande parte, oralmente (talvez também, parcialmente, por escrito) às gerações do povo de Israel, cujas memórias o grande legislador teria registrado, deixando às narrações o seu matiz original. Um exemplo claro deste gênero temo-lo no capítulo 14 (expedição de Abraão e encontro com Melquisedeque), de características tão individuais, que a crítica o atribui a uma fonte especial, não pertencente a nenhuma das quatro habituais. No tocante aos quatro livros posteriores, que versam exatamente sobre os tempos de Moisés, já indicamos as razões que explicam as particularidades estilísticas de dois grandes documentos legislativos, o Código sacerdotal e o Deuteronômio.

Outra hipótese, baseada na analogia do Saltério, é a seguinte: o Pentateuco, composto inteiramente por Moisés, parte baseado em suas recordações, parte em documentos fornecidos pela tradição e pela casta sacerdotal, propagou-se na sociedade hebraica; e, durante a transmissão, sofrendo modificações na forma, em nada insólitas na transcrição de

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obras literárias, chegou, com o tempo, a receber, em dois pontos diversos da área israelita, por exemplo, no reino de Efraim e no reino de Judá, duas formas um tanto diferentes; em uma delas, entre outras coisas, o primitivo nome de Javé foi substituído por Elohim. Mais tarde (no reinado de Ezequias ou Josias), quando se sentiu a necessidade ou a oportunidade de unificar as duas recensões, um redator fundiu-as, extraindo ora desta ora daquela, muitas vezes contentando-se com justaposições, sem alterar as feições próprias de cada uma. Destarte explicar-se-iam os fenômenos que levaram a acreditar na existência de fontes diversas.

Capítulo 1

Introdução ao Livro de Gênesis

1. Título

A primeira expressão do texto hebraico de 1.1 é bereshit ("no princípio"), sendo também o título hebraico do livro (nos tempos antigos, o título dos livros costumava ser a primeira palavra - e às vezes até as duas primeiras). O título português Gênesis é de origem grega e provém da palavra geneseos, que consta da tradução grega (a Septuaginta) de 2.4 e de 5.1. Dependendo do contexto, a palavra pode significar "nascimento", "genealogia" ou "história das origens". Assim, tanto na forma hebraica quanto na grega, o título de Gênesis designa perfeitamente o conteúdo do livro, pois trata sobretudo de começos.

2. Antecedentes históricos

Os capítulos de 1 a 38 refletem boa parte do que outras fontes históricas também relatam acerca da vida e da cultura da antiga Mesopotâmia. Criação, genealogias, dilúvios destrutivos, geografia e cartografia, técnicas de construção, migrações, venda e compra de terras, costumes e procedimentos jurídicos, criação de ovinos e bovinos - todos esses assuntos e muitos outros eram questões de interesse vital para os povos mesopotâmicos desse período. Eram também importantes para os indivíduos, famílias e tribos a respeito dos quais lemos nos 38 primeiros capítulos de Gênesis. O autor situa o Éden, o primeiro lar do homem, na Mesopotâmia ou adjacências; a torre de Babel foi edificada ali; Abrão nasceu ali; foi dali que Isaque tomou uma esposa e ali Jacó morou 20 anos. Embora esses patriarcas se estabelecessem na Palestina, sua pátria de origem era a Mesopotâmia.

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Os correspondentes literários antigos mais próximos de Gênesis 1-38 também provêm da Mesopotâmia. Enuma elish, história de como o deus Marduque ascendeu à posição suprema no panteão babilônico, é semelhante em alguns aspectos (embora seja totalmente mitológico e politeísta) ao relato da criação de Gênesis 1. Características de certas listas de reis em Súmer assemelham-se marcantemente à genealogia de Gênesis 5. A décima primeira tábua da Epopéia de Gilgamés é bem semelhante, em seu delineamento histórico, à narrativa do dilúvio registrada em Gênesis de 6 a 8. Na Epopéia de Atrahasis, fatos semelhantes a vários dos principais acontecimentos de Gênesis de 1 a 8 são narrados na mesma ordem. Aliás, a epopéia destaca o mesmo tema básico do relato babilônico: criação-rebelião-dilúvio. Tábuas de barro descobertas recentemente no antigo sítio arqueológico (c. 2500-2300 a.C.) de Ebla (atual Tell Mardikh), no norte da Síria, podem também conter correspondências fascinantes (v. quadro "Textos da antigüidade relacionados ao AT").

Dois outros conjuntos importantes de documentos demonstram os reflexos da Mesopotâmia nos 38 primeiros capítulos de Gênesis. Aprendemos nas cartas de Mari, datadas do período patriarcal, que os nomes dos patriarcas (incluindo-se especialmente Abrão, Jacó e Jó) eram típicos da época. As cartas também ilustram claramente a liberdade que havia de viajar entre as várias partes do mundo amorreu em que os patriarcas viviam. As tábuas de Nuzi, embora sejam de alguns séculos posteriores, esclarecem ainda mais os costumes patriarcais, que tendiam a sobreviver praticamente intactos por muitos séculos. O direito de herança de um membro adotado na família, mesmo que escravo (v. 15.1-4), a obrigação que a esposa estéril tinha de dar filhos ao marido por meio da serva (v. 16.2-4), as proibições contra a expulsão dessa serva e de seu filho (v. 21.10,11), a autoridade das declarações orais no direito do antigo Oriente Médio, como o último desejo, proferido no leito de morte (v. 27.1-4,22,23,33) - esses e outros costumes, contratos sociais e estipulações legais são ilustrados de modo claro e vívido nos documentos da Mesopotâmia.

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Se Gênesis de 1 a 38 é mesopotâmico em seu caráter e antecedentes históricos, os capítulos de 39 a 50 refletem a influência egípcia - embora não de forma tão direta. Exemplos dessa influência são: o cultivo de uvas no Egito (40.9-11), a cena nas margens do rio (cap. 41), o Egito como fornecedor de pão para Canaã (cap. 42), Canaã como origem de inúmeros produtos para o Egito (cap. 43), costumes religiosos e sociais do Egito (fim dos caps. 43 e 46), procedimentos administrativos egípcios (cap. 47), práticas funerárias egípcias (cap. 50), bem como várias palavras e nomes egípcios usados no decurso dos capítulos. O correspondente literário egípcio mais específico e mais próximo é o Conto dos dois irmãos, que apresenta semelhanças com a história de José e da esposa de Potifar (cap. 39). Narrativas autobiográficas egípcias (como o Conto de Sinuhe e o Relato de Wenamun) e certas lendas históricas são correspondentes literários mais genéricos.

3. Autor e data de composição

Ao longo da história, judeus e cristãos igualmente sustentam que Moisés foi o autor/compilador dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento. Esses livros, conhecidos também como Pentateuco (que significa "livro em cinco volumes"), eram mencionados na tradição judaica como os "cinco quintos da lei (de Moisés)". A própria Bíblia faz supor a autoria mosaica de Gênesis, visto que Atos 15.1 refere-se à circuncisão como "costume ensinado por Moisés", alusão a Gênesis 17.

O período histórico em que Moisés viveu parece ter sido apurado com bastante exatidão por 1 Reis. Somos informados

de que o "quarto ano do reinado de Salomão em Israel" era o

mesmo ano "quatrocentos e oitenta [

saíram do Egito" (1Rs 6.1). Como a primeira data mencionada era c. 966 a.C., a segunda - e, portanto, a data do êxodo - era c. 1446 (tomando por certo que a cifra 480 em 1Rs 6.1 deve ser entendida literalmente. O período de 40 anos da peregrinação

de Israel pelo deserto, que durou de c. 1446 até c. 1406,

depois que os israelitas

]

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

78

provavelmente foi a ocasião em que Moisés escreveu a maior parte do que hoje chamamos Pentateuco.

4. Tema e mensagem

Gênesis trata dos começos - do céu e da terra; da luz e das trevas; dos mares e da atmosfera; dos solos e da vegetação; do sol, da lua e das estrelas; dos animais marinhos, aéreos e terrestres; dos seres humanos (feitos à imagem de Deus, apogeu de sua atividade criadora); do pecado e da redenção; da bênção e da maldição; da sociedade e da civilização; do casamento e da família; das artes, dos artesanatos e do trabalho inventivo. A lista poderia estender-se indefinidamente. Duas das palavras-chave de Gênesis são "registro" e "história", que também servem para dividir o livro em suas dez partes principais, incluindo conceitos como nascimento, genealogia e a própria história.

O livro de Gênesis é fundamental para entendermos o restante da Bíblia. Sua mensagem é rica e complexa, e, ao alistarmos seus elementos principais, vemos um esboço sucinto da mensagem bíblica como um todo. É acima de tudo um livro de relacionamentos, ressaltando a interação de Deus com a natureza e com os homens e a dos homens entre si. É totalmente monoteísta, tomando por certo que há um só Deus digno desse nome, além de se opor à idéia de que existem muitos deuses (politeísmo), à de que não existe nenhum deus (ateísmo) e à de que tudo é divino (panteísmo). Ensina com clareza que o Deus único e verdadeiro é soberano sobre tudo o que existe (i.e., toda a sua criação) e, por eleição divina, muitas vezes exerce a liberdade ilimitada de derrubar costumes, tradições e planos humanos. Gênesis apresenta a maneira em que Deus - por iniciativa própria - faz alianças com seu povo escolhido, comprometendo-se a dar-lhe amor e fidelidade e conclamando os seus a também lhe prometer amor e fidelidade. Estabelece o sacrifício como substituição de uma vida por outra (cap. 22). Oferece-nos o primeiro indício de que Deus proveria a redenção do ser humano das forças do mal

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

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(cp. 3.15 com Rm 16.17-20) e contém a definição mais antiga e profunda da fé (15.6). Mais de metade de Hebreus 11 - a galeria dos fiéis no Novo Testamento - refere-se a personagens de Gênesis.

5. Características literárias

O valor da mensagem de um livro é muitas vezes acentuado por sua estrutura e suas características literárias. Gênesis é dividido em dez seções principais, cada uma começando com a palavra "registro" ou "história" (v. 2.4; 5.1; 6.9; 10.1; 11.10; 11.27; 25.12; 25.19; 36.1 - repetida em 36.9 para efeito de realce - e 37.2). As cinco primeiras seções podem perfazer um só conjunto e, ao lado da introdução geral do livro (1.1-2.3), podem ser corretamente denominadas "história primitiva" (1.1-11.26), esboçando o período de Adão a Abraão. As cinco últimas seções consistem em um relato muito mais longo (mas igualmente unificado), apresentando a história de como Deus lidava com Abraão, Isaque, Jacó, José e respectivas famílias - seção muitas vezes chamada "história patriarcal" (11.27-50.26). Essa seção, por sua vez, é composta de três ciclos de narrativas (Abraão a Isaque, 11.27-25.11; Isaque a Jacó, 25.19-35.29; 37.1; Jacó a José, 37.2-50.26), intermediadas pelas genealogias de Ismael (25.12-18) e de Esaú (cap. 36).

A narrativa concentra-se muitas vezes na vida de um filho mais novo em detrimento do primogênito: Sete em detrimento de Caim, Sem de Jafé, Isaque de Ismael, Jacó de Esaú, Judá e José de seus irmãos e Efraim de Manassés. Esse realce dispensado a homens divinamente escolhidos e a suas famílias é talvez a característica literária e teológica mais evidente do livro de Gênesis como um todo. Ressalta de modo notável que o povo de Deus não é produto de acontecimentos humanos e naturais, mas resulta da intervenção soberana e misericordiosa de Deus na história da humanidade. Deus levanta, dentre a espécie humana decaída, nova humanidade consagrada a ele, chamada e destinada para ser o povo de seu reino e canal de bênçãos para toda a terra.

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

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Números com significado simbólico figuram com destaque em Gênesis. O número dez, além de ser a quantidade de seções em que o livro se divide, é também a quantidade de nomes constantes nas genealogias dos

capítulos 5 e 11. O número sete também ocorre muitas vezes.

O texto hebraico de 1.1 se constitui de exatamente sete

palavras, e o de 1.2, de 14 (duas vezes sete). Há sete dias na

criação, sete nomes na genealogia do cap. 4. várias ocorrências de "sete" na história do dilúvio, 70 descendentes dos filhos de Noé (cap. 10), uma promessa sétupla a Abrão (cap. 12.2,3), sete anos de abundância seguidos por sete de fome no Egito (cap. 41) e 70 descendentes de Jacó (cap. 46). Outros números significativos, como 12 e 40, são usados com frequencia semelhante.

O livro de Gênesis é basicamente narrativa em prosa, interrompida aqui e ali por breves poemas (o mais longo é o

chamado "Bênção de Jacó", registrado em 49.2-27). Boa parte

da prosa tem características líricas e emprega toda uma gama

de figuras de linguagem e de outros expedientes que caracterizam a melhor literatura épica da civilização humana. O paralelismo vertical e horizontal entre os dois pares de três dias no relato da criação; o fluxo e refluxo do pecado e o juízo do capítulo 3 (a serpente, a mulher e o homem pecam sucessivamente; depois Deus os interroga na ordem inversa; em seguida, os condena na ordem em que pecaram); a intensa monotonia de "e morreu" no fim dos parágrafos do capítulo 5; o efeito de mudança brusca, obtido pela frase "Então Deus lembrou-se de Noé" (8.1), no ponto central do relato do dilúvio; a estrutura do tipo ampulheta no relato da torre de Babel, em 11.1-9 (narrativa nos v. 1,2,8,9, discurso nos v. 3,4,6,7, com o v. 5 servindo de transição); o jogo tétrico de palavras em 40.19 (v. 40.13); a alternância entre relatos breves a respeito de primogênitos e longos a respeito de filhos mais jovens - esses expedientes literários e outros tantos despertam o interesse pela narrativa e oferecem sinais interpretativos que devem ser cuidadosamente observados pelo leitor.

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

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Não é por coincidência que muitos dos assuntos e temas dos três primeiros capítulos de Gênesis refletem-se nos três últimos capítulos do Apocalipse. Só podemos maravilhar- nos com a intervenção do próprio Senhor, que supervisionou tudo e nos garante que "toda Escritura é inspirada por Deus" (2Tm 3.16) e que os homens que a escreveram "falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo" (2Pe 1.21).

6. Cristo Revelado

O Cristo preexistente, a Palavra viva, estava muito envolvido na criação. "Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez" (Jo 1.3). O ministério de Jesus está antecipado em Gn 3.15, sugerindo que a "semente" da mulher que ferirá a cabeça da serpente (Satanás) é Jesus Cristo, a "posteridade" de Abraão mencionada por Paulo em Gl 3.16. Melquisedeque é o misterioso rei-sacerdote do cap. 14. Uma vez que Jesus é rei e também sumo sacerdote, a carta aos Hebreus faz, de forma apropriada, esta identificação (Hb

6.20).

A grande revelação de Cristo em Gn se encontra no estabelecimento do concerto de Deus com Abraão nos caps. 15 e 17. Deus fez promessas gloriosas a Abraão, e Jesus é o maior cumprimento destas promessas, uma verdade que é explicada de forma detalhada por Paulo em Gálatas. Boa parte da Bíblia está fundamentada sobre o concerto abraâmico e o seu desenvolvimento em Jesus Cristo.

A dramática história da prontidão de Abraão em sacrificar a Isaque segundo a ordem de Deus apresenta uma incrível semelhança com o evento crucial do Novo Testamento. "Toma agora teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas E oferece-o em holocausto" (22.2), lembra-nos da prontidão de Deus em sacrificar o seu único Filho pelos pecados de todo o mundo.

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

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Por fim, a bênção de Jacó sobre Judá antecipa a vinda de "Siló", a ser identificada como o Messias. "E a Ele se congregarão os povos (49.10).

7. O Espírito Santo em Ação

"O Espírito de Deus se movia sobre a face das águas" (1.2). Desta forma achamos o Espírito envolvido na criação. O Espírito Santo também operou em José, um fato que foi óbvio pra o Faraó: "Acharíamos um varão como este, em quem haja o Espírito de Deus?" (41.38).

Embora o Espírito Santo não seja mencionada de outra forma em Gênesis, nós o vemos em ação ao atrair os animais dos quatro cantos da terra para dentro da arca de Noé. Nós também percebemos a sua operação através das vidas dos patriarcas: Ele protegeu os patriarcas e as suas famílias e os abençoou materialmente. Todo tipo de dificuldades e situações impossíveis cercaram a família escolhida, tentando frustrar, onde possível, o cumprimento das promessas de Deus a Abraão; porém o Espírito de Deus resolveu, de maneira sobrenatural cada um destes desafios.

Capítulo 2

Livro de Êxodo

Êxodo é a continuação do relato do Gênesis, mostrando o desenvolvimento dum pequeno grupo familiar de setenta pessoas numa grande nação com milhões de pessoas. Os hebreus viveram no Egito por 430 anos, sendo que a maior parte do tempo em regime de escravidão. Êxodo registra o desenvolvimento de Moisés , a libertação de Israel do seu cativeiro, a sua caminhada do Egito até o monte Sinai para receber a lei de Deus e as instruções divinas a respeito da edificação do tabernáculo. O livro termina com a construção do tabernáculo como um lugar da habitação de Deus.

1. Título

"Êxodo" provém do nome grego Exodos, dado ao livro por aqueles que o traduziram para o grego. A palavra significa "saída", "partida" (v. Lc 9.31; Hb 11.22). O nome foi mantido

pela Vulgata latina, pelo autor judeu Filo (da época de Cristo) e pela Versão siríaca. Em hebraico, o título do livro é formado por suas duas primeiras palavras: we'elleh shemot ("São estes [ ]

A mesma expressão ocorre em Gênesis

46.8, em que também introduz uma lista dos israelitas "que entraram com Jacó no Egito" (1.1). Portanto, não era a intenção que Êxodo existisse separadamente, mas era considerado continuação da narrativa iniciada em Gênesis e completada em Levítico, Números e Deuteronômio. Os cinco primeiros livros da Bíblia são chamados, no conjunto, Pentateuco.

os nomes dos

").

2. Autor e data de composição

Várias declarações em Êxodo mostram que Moisés escreveu certas seções do livro (v. 17.14; 24.4; 34.27). Além disso, Josué 8.31 refere-se ao mandamento de Êxodo 20.25

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

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como "escrito no Livro da Lei de Moisés". O Novo Testamento também confirma a autoria mosaica de vários textos de Êxodo (v. Mc 7.10; 12.26). Essas referências, tomadas no conjunto, fazem supor enfaticamente que Moisés foi em grande medida o responsável pela composição do livro de Êxodo - opinião tradicional não desafiada de modo convincente pela teoria bastante divulgada de que o Pentateuco, como um todo, contém quatro fontes documentárias subjacentes.

3. Cronologia

De acordo com 1 Reis 6.1, o êxodo aconteceu 480 anos antes do "quarto ano do reinado de Salomão em Israel". Como esse ano foi c. 966 a.C., afirma-se tradicionalmente que o êxodo ocorreu por volta de 1446. Os "trezentos anos" de Juízes 11.26 encaixam-se tranquilamente nesse. Além disso, embora a cronologia egípcia relacionada à XVIII dinastia seja ainda um pouco incerta, pesquisas recentes tendem a apoiar a opinião tradicional de que dois dos faraós dessa dinastia, Tutmés III e seu filho Amunotepe II, foram respectivamente os faraós da opressão e do êxodo.

Entretanto, o aparecimento do nome Ramessés em

1.11 tem levado muitos à conclusão de que o faraó Seti I, da

XIX dinastia, e seu filho Ramessés II foram respectivamente os

faraós da opressão e do êxodo. Além disso, evidências

arqueológicas da destruição de inúmeras cidades cananéias no século XIII a.C. têm sido interpretadas como prova de que as tropas de Josué invadiram a terra prometida naquele século. Esses argumentos e outros semelhantes mostram a possibilidade de o êxodo ter ocorrido em aproximadamente

1290.

A identidade dos atacantes dessas cidades não pode, porém, ser apurada com certeza. As incursões podem ter sido

iniciadas por exércitos israelitas posteriores, ou por filisteus, ou

por outras potências. As próprias evidências arqueológicas

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

85

têm se tornado cada vez mais ambíguas, e avaliações

recentes tendem a atribuir a algumas delas outra data, a da

XVIII dinastia. Além disso, o nome da cidade de Ramessés, em

1.11, pode muito bem ser resultado de uma atualização feita

por alguém que viveu séculos depois de Moisés -

procedimento que talvez explique o aparecimento do mesmo nome em Gênesis 47.11.

Em suma, não há razões fortes o bastante para alterar em muito a data tradicional do êxodo dos israelitas, quando eles se libertaram da escravidão egípcia -1446 a.C.

4. A Rota do Êxodo

Já foram propostas pelo menos três rotas possíveis de escape de Pitom e Ramessés (1.11): uma para o norte, atravessando a terra dos filisteus (v., porém, 13.17); 2) uma

intermediária, indo para o leste, pelo Sinai, até Berseba e 3)

uma para o sul, ao longo do litoral oeste do Sinai, até as

extremidades do sudeste da península. A rota para o sul parece a mais provável, já que vários dos locais do itinerário de Israel pelo deserto já foram, ainda que não conclusivamente, identificados nessa trajetória. O lugar exato em que Israel atravessou o "mar Vermelho" é, porém, incerto.

5. Temas e teologia

Êxodo lança os alicerces de uma teologia em que Deus

revela seu nome, seus atributos, sua redenção, sua lei e como

deve ser adorado. Relata, também, a nomeação e a obra do

primeiro mediador pactual (Moisés), circunstanciando os primórdios do sacerdócio, definindo o papel do profeta e relatando de que forma o antigo relacionamento entre Deus e seu povo passou a receber nova administração (a aliança do Sinai).

Percepções profundas da natureza de Deus acham-se nos capítulos 3, 6, 33 e 34. A tônica desses textos reside na

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

86

presença dele (representada pelo nome Iavé e por sua glória) e

na importância dessa presença. Mas também conferem realce

a atributos seus como justiça, veracidade, misericórdia,

fidelidade e santidade. Conhecer o "nome" de Deus, portanto, é conhecer a ele mesmo e ao seu caráter (v. 3.13-15; 6.3).

Deus também é o Senhor da história, porque não há outro semelhante a ele: "Majestoso em santidade, terrível em feitos gloriosos, autor de maravilhas" (15.11). Nem a aflição de Israel, nem as pragas do Egito estavam fora de seu controle. Faraó, os egípcios e todo Israel viram o poder de Deus.

É um consolo sabermos que Deus se lembra do seu

povo e se preocupa por ele (v. 2.24). O que ele prometera séculos antes a Abraão, a Isaque e a Jacó agora começa a transformar em realidade, quando Israel é liberto da escravidão no Egito e começa viagem à terra prometida. A aliança do Sinai é um passo adiante no cumprimento da promessa que Deus fizera aos patriarcas (3.15-17; 6.2-8; 19.3-

8).

A teologia da salvação é também uma das tônicas do

livro. O verbo "resgatar" é usado, e.g., em 6.6 e em 15.13. Mas o âmago da teologia da redenção é mais bem percebido na narrativa da Páscoa, no capítulo 12, e no selar da aliança, no 24. O apóstolo Paulo considerou a morte do cordeiro da Páscoa cumprida em Cristo (1Co 5.7). E, realmente, João Batista chamou Jesus "o Cordeiro de Deus, que tira o pecado

do mundo" (Jo 1.29).

O alicerce da ética e da moral bíblica é lançado primeiramente no caráter misericordioso de Deus, conforme revelado no próprio êxodo e depois nos dez mandamentos (20.1-17) e nas ordenanças do livro da aliança (20.22-23.33), que ensinava Israel a aplicar de modo prático os princípios dos mandamentos.

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

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O livro termina com uma consideração pormenorizada da teologia da adoração. Embora fosse dispendioso em tempo, em esforço e em valor monetário, o tabernáculo, em seu significado e função, aponta para o fim principal do homem: "glorificar a Deus e desfrutar dele para sempre". Por

meio do tabernáculo, o Deus do universo, onipotente, imutável

e transcendente, veio "habitar" ou "tabernacular" com seu

povo, e assim revelar também a sua misericordiosa proximidade. Deus, além de ser poderoso a favor de Israel, também está presente em seu meio.

Esses elementos teológicos, no entanto, não se apresentam meramente lado a lado na narrativa do Êxodo. Recebem significado mais pleno e rico pelo fato de fazerem parte inseparável do relato de como Deus suscitou seu servo Moisés 1) para libertar seu povo da escravidão do Egito, 2) para inaugurar seu reino terreno entre eles, firmando com a nação uma aliança especial, e 3) para erigir em Israel a tenda régia de Deus. E esse relato da redenção do povo do meio da escravidão, levando à consagração mediante a aliança e o levantamento da tenda régia de Deus na terra, tudo pelo ministério de um mediador escolhido, revela o propósito de Deus na história - o qual cumpriria por meio de Israel e, em última análise, de Jesus Cristo, o Mediador supremo.

6. Cristo Revelado

Moisés é um tipo de Cristo, pois ele liberta da

escravidão. Arão funciona como um tipo de Jesus assim como

o sumo sacerdote (28.1) faz intercessão junto ao altar do

incenso (30.1). A Páscoa indica que Jesus é o Cordeiro de Deus que foi oferecido pela nossa redenção (12.1-22).

As passagens "EU SOU" no evangelho de João encontram a sua origem primeira no livro de Êxodo. João afirma que Jesus é o Pão da Vida; Moisés fala de duas maneira do pão de Deus: o maná (16.35) e os pães da proposição

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

88

(25.30). João nos conta que Jesus é a luz do Mundo; no tabernáculo, o candelabro serve como fonte de luz permanente (25.31-40).

7. O Espírito Santo em Ação

No Livro de Êxodo, o óleo representa, de forma simbólica, o Espírito Santo. Por exemplo, o óleo da unção é um tipo do Espírito Santo, o qual é utilizado pra preparar tanto os fiéis como os sacerdotes para o culto divino (30.31).

O Fruto do Espírito Santo está listado em Gl 5.22,23. Uma listagem paralela também pode ser encontrada em Êx 34.6,7, que descreve os atributos de Deus como compassivo, clemente, longânimo, bom, fiel, e perdoador.

As referências mais diretas ao Espírito Santo podem ser encontradas em 31.3-11 e 35.30-36.1, quando cidadãos individuais são capacitados a tornarem-se exímios artífices. Através da obra capacitadora do Espírito Santo. As habilidades naturais destas pessoas foram enriquecidas e aumentadas a fim de que executassem as tarefas necessárias com excelência e precisão.

Capítulo 3

Introdução ao Livro de Levítico

A teologia do Livro de Levítico liga a idéia de santidade à vida cotidiana. Ela vai além do assunto de sacrifício, embora o cerimonial do sacrifício e a obra dos sacerdotes sejam explicados com grande cuidado. O conceito de santidade afeta não somente o relacionamento que cada indivíduo tem com Deus, mas também o relacionamento de amor e respeito que cada pessoa deve ter com o seu próximo. O código de santidade permeia a obra porque cada indivíduo deve ser puro, pois Deus é puro e porque a pureza de cada indivíduo é a base da santidade de toda a comunidade do concerto. O ensinamento de Jesus Cristo-"Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas" (Mt 7.12)- reflete o texto de Lv 19.18, "Amarás o teu próximo como a ti mesmo".

1. Título

Levítico recebe seu nome da Septuaginta (a tradução do Antigo Testamento grego) e significa "relacionado com os levitas". Seu título em hebraico, wayyiqra', é a primeira palavra do texto hebraico do livro e significa "e ele [i.e., o Senhor] chamou". Embora o livro de Levítico não lide exclusivamente com os deveres especiais dos levitas, recebe esse nome porque diz respeito sobretudo ao culto de adoração no tabernáculo, dirigido pelos sacerdotes, filhos de Arão, ajudados por muitos outros membros da tribo de Levi. O livro do Êxodo registrou as orientações quanto à construção do tabernáculo, e agora o livro de Levítico registra as leis e os regulamentos do culto que se realizará nesse tabernáculo, incluindo-se instruções sobre a purificação cerimonial, as leis morais, os dias santos, o ano sabático e o ano do Jubileu. Essas leis foram outorgadas, pelo menos na maior parte, no

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ano em que Israel estava acampado no monte Sinai, quando Deus deu a Moisés orientações sobre como organizar a adoração, o governo e as forças militares de Israel. O livro de Números dá continuidade à história, com os preparativos para prosseguirem do Sinai a Canaã.

2. O Autor

Nenhuma alusão se faz no livro a qualquer espécie de ordem para se escreverem as leis que nele se encontram. Mas várias vezes se afirma que essas leis foram promulgadas através de Moisés, e cerca de trinta vezes deparamos com esta frase: "E falou o Senhor a Moisés". Pelo menos, começam assim vinte dos vinte e sete capítulos deste livro. O nome de Arão anda por vezes ligado ao de Moisés (11.1; 14.33; 15.1), sendo que uma única vez aparece isolado (10.8). Em face, pois, dos textos de Êxodo, de Números e de Deuteronômio, relativos à ordem para se escreverem os mandamentos confiados a Moisés (Êx 24.4-7), podemos concluir que essas instruções, de tanta importância para a felicidade e salvação do Povo de Deus, muitas delas até tão minuciosas que dificilmente se recordariam, foram, sem dúvida, escritas pelo próprio Moisés, ou então por alguém que o fizesse sob a superior orientação do mesmo.

3. Temas

O principal pensamento de Levítico é a santidade - de Deus e do homem (o homem deve reverenciar a Deus em "santidade"). Em Levítico, a santidade espiritual é simbolizada pela perfeição física. Por isso, o livro exige animais perfeitos para seus muitos sacrifícios (caps. 1-7) e requer sacerdotes sem deformidades (caps. 8-10). A hemorragia da mulher depois de dar à luz (cap. 12); as úlceras, as queimaduras ou a calvície (caps. 13,14); o fluxo do corpo do homem (15.1-18); as atividades específicas durante a menstruação (15.19-33) - tudo isso pode ser sinais de mácula (falta de perfeição) e pode

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simbolizar os defeitos espirituais do homem, que anulam sua integridade espiritual. Quem tiver doença de pele visível deve ser excluído do arraial, o lugar da presença especial de Deus, assim como Adão e Eva foram banidos do jardim do Éden. Tal pessoa poderá voltar ao arraial (e, portanto, à presença de Deus) quando os sacerdotes a examinarem e a declararem novamente sã. Antes, porém, de reentrar no arraial, precisa oferecer os sacrifícios perfeitos exigidos (simbolizando o sacrifício perfeito e integral de Cristo).

A partir da aliança do Sinai, Israel passou a ser a representação terrena do reino de Deus (a teocracia), e, como Rei, o Senhor estabeleceu sua administração sobre toda a vida de Israel. Sua vida espiritual, comunitária e individual era regulada de tal maneira que a nação foi estabelecida como povo santo de Deus, instruída em santidade. Atenção especial era dedicada ao aspecto cultual de Israel. Os sacrifícios deviam ser oferecidos num santuário aprovado, que simbolizaria tanto a santidade de Deus quanto sua compaixão. Deviam ser controlados pelos sacerdotes, que mediante o cuidado e a instrução os preservariam na pureza e ensinariam cuidadosamente ao povo o seu significado. Cada sacrifício devia fazer sentido para o povo de Israel, mas também teria significado espiritual e simbólico.

Mais informações sobre o significado do sacrifício em geral o leitor encontrará no ritual solene do Dia da Expiação (cap. 16). Quanto ao significado do sangue da oferta, v. 17.11; Gn 9.4. Quanto ao realce dado à substituição, v. 16.21.

Alguns supõem que os sacrifícios do Antigo Testamento eram vestígios de ofertas agrícolas da antiguidade - o desejo humano de oferecer parte das posses à deidade como presente de amor. Os sacrifícios do Antigo Testamento, no entanto, foram especificamente determinados por Deus, e o seu significado decorria do relacionamento pactual entre o Senhor e Israel - fossem quais fossem suas semelhanças superficiais com os sacrifícios pagãos. Sem dúvida, incluem o

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conceito de dádiva, mas esse conceito também é acompanhado por outros valores, como a dedicação, a comunhão, a propiciação (aplacar a ira judicial de Deus contra o pecado) e a restituição. As várias ofertas têm diferentes funções, sendo expiação (v. Êx 25.17) e adoração as primordiais.

4. O Pano de Fundo

O lugar e altura em que estas leis foram promulgadas é bem definido, sendo durante a permanência no monte Sinai (7.38; 25.1; 26.46; 27.34), que durou até o "vigésimo dia do segundo mês do ano" (Nm 10.11). A afirmação do versículo 1 supõe a construção do Tabernáculo, que Êx 40 acabava de descrever. A alusão ao oitavo dia (9.1) deve referir-se ao dia seguinte aos sete dias da consagração de Arão e de seus filhos (8.33), em princípio contados a partir da montagem do Tabernáculo no primeiro dia do primeiro mês (Êx 40.2). Seguiu- se logo o pecado de Nadabe e Abiú (10.1-2). As palavras "E fez Arão como o Senhor ordenara a Moisés" (16.34), com que termina o ritual do dia da expiação, são duma certa importância, porque indicam que o próprio Arão executou este ritual de expiação por todo o povo, o que significa que aqui foi adicionada à Lei a relação da sua primeira observância, realizada quase cinco meses depois da partida do Sinai. Saliente-se ainda que em 23.44 se faz esta afirmação: "Assim pronunciou Moisés as solenidades do Senhor aos filhos de Israel". Finalmente é de notar que a libertação do Egito vem representada como um conhecimento pessoal (cfr. 11.45 e 18.3 com 26.45) e que a posse da terra se considera ainda futura (14.34; 19.23; 23.10; 25.2).

5. Cristo Revelado

Cristo não é especificamente mencionado em Levítico. Entretanto, o sistema de sacrifícios e o sumo sacerdote no Livro de Levítico são tipos que retratam a obra de Cristo. O Livro de Hebreus descreve Cristo como o sumo sacerdote e

Introdução à Bíblia e o Pentateuco

93

usa o texto de Levítico como base para ilustrar a sua obra. Alguns usaram formas extremas de alegoria do Livro de Levítico a fim de revelar Cristo, entretanto, esse método de interpretação bíblica deve ser cautelosamente usado a fim de garantir que o significado original histórico e cultural sejam preservados. O Livro de Levítico enfoca a vida e o louvor do antigo povo de Israel.

6. O Espírito Santo em Ação

Apesar de o termo "Espírito Santo" nunca ser mencionado no Livro, a presença de Deus é sentida em todo o livro. A santidade do caráter de Deus é constantemente mencionada na designação de santidade às ações e louvor do povo. Ele não é visto como nos cultos pagãos da época em que os ídolos eram venerados, mas está no meio das pessoas, à medida que elas o louvam. Elas devem ser santas como Ele é santo.

Capítulo 4

Livro de Números

1. Título

O nome do livro provém da Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) e baseia-se nas listas do censo registradas nos capítulos 1 e 26. O título hebraico do livro (bemidbar, "no deserto") designa melhor o seu conteúdo. Números apresenta um relato do período de 38 anos em que Israel peregrinou no deserto após a promulgação da aliança do Sinai (cp. 1.1 com Dt 1.1).

2. Autor e data

O livro é tradicionalmente atribuído a Moisés. Essa conclusão baseia-se 1) em declarações a respeito da atividade de Moisés como escritor (e.g., 33.1,2; Êx 17.14; 24.4; 34.27) e 2) na suposição de que os cinco primeiros livros da Bíblia - o Pentateuco - perfazem uma só unidade e provêm de um só autor.

Não é pertinente afirmar, no entanto, que Números saiu das mãos de Moisés completo e acabado. Trechos do livro foram provavelmente acrescentados por escribas ou revisores de períodos posteriores da história de Israel. Por exemplo: a afirmação da humildade de Moisés (12.3) dificilmente convenceria se proviesse de sua boca. Mesmo assim, parece razoável tomar por certo que Moisés tenha escrito o conteúdo essencial do livro.

3. Conteúdo

Números relata a história da viagem de Israel desde o monte Sinai até as planícies de Moabe, nas fronteiras de Canaã. Boa parte da legislação para o povo e para os

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sacerdotes nesse livro assemelha-se à de Êxodo, à de Levítico

e à de Deuteronômio. Relata a murmuração e a rebelião do

povo de Deus e o castigo subsequente. Aqueles que Deus redimira da escravidão egípcia, com os quais fizera aliança no monte Sinai, não corresponderam com fé, gratidão e obediência, mas com repetidos atos de rebelião que culminaram na recusa de empreender a conquista de Canaã (cap. 14). A comunidade dos redimidos perdeu o direito a ter parte na terra prometida. Todos foram condenados a viver no deserto até o fim; somente seus filhos desfrutariam do cumprimento da promessa que a princípio pertencera a eles (cf. Hb 3.7-4.11).

4. Ensinos teológicos

Ao contar a história das peregrinações de Israel no deserto, Números oferece muitos elementos de importância

teológica. No primeiro ano após Israel ter sido liberto do Egito, firmou uma aliança com o Senhor no Sinai para ser o povo do seu reino, no meio do qual Deus armava sua tenda régia (o tabernáculo) - essa é a história do Êxodo. No início do relato de Números, o Senhor organizou Israel num acampamento militar. Partindo do Sinai, Israel sai marchando como o exército vitorioso de Deus, comandado por ele mesmo, para estabelecer seu reino na terra prometida, em meio às nações.

O livro retrata de modo vívido a identidade de Israel como povo

da aliança, redimido pelo Senhor, e sua vocação como nação que serve a Deus, encarregada de estabelecer seu reino na terra. O propósito de Deus na história é revelado de modo

implícito: invadir a arena da humanidade caída e levar a efeito

a redenção da sua criação - missão que também deve ocupar totalmente o seu povo.

Números também apresenta a ira de Deus que castiga e disciplina seu povo desobediente. Israel, por causa da rebeldia (e sobretudo pela recusa de empreender a conquista de Canaã), tinha violado a aliança. O quarto livro do Pentateuco apresenta uma realidade muito séria: o Deus que fizera a

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aliança com Abraão (Gn 15, 17), no êxodo livrara o seu povo da escravidão (Êx 14, 15), introduzira Israel numa aliança consigo como seu "tesouro pessoal" (Êx 19; v. especialmente Êx 19.5) e revelara sua santidade e os meios da graça para se aproximar dele (Lv 1-7) era também um Deus de ira. Essa sua ira estendia-se contra seus filhos desviados, assim como contra as nações inimigas, o Egito e Canaã.

Até mesmo Moisés, o grande profeta e servo do Senhor, não estava isento da ira de Deus caso desobedecesse. O capítulo 20, que registra o seu erro, começa com a notícia da morte de Miriã (20.1) e termina com o registro da morte de Arão (20.22-29). Aqui temos o fim da velha geração. Os que Deus usara para estabelecer a nação estão morrendo antes de a nação tomar posse da herança.

Surgem as perguntas: Deus encerrara o relacionamento com a nação como um todo (cf. Rm 11.1)? Numa das seções mais notáveis da Bíblia - o relato de Balaão, o adivinho pagão (caps. 22-24) -, temos a resposta. O Senhor, operando de modo providencial e direto, proclama sua imutável fidelidade ao propósito que tinha para o seu povo, a despeito da infidelidade deste.

Balaão é o desafio de Moabe contra Moisés, o homem de Deus. Trata-se de um profeta internacionalmente conhecido, o qual compartilha da crença pagã de que o Deus de Israel é semelhante a qualquer outra deidade manipulável por atos de magia ou de feitiçaria. Mas, desde o começo da narrativa, quando tem o primeiro encontro em visões com o Deus único e verdadeiro, e mais adiante, na viagem que faz montado numa jumenta (cap. 22), Balaão começa a aprender que lidar com o Deus verdadeiro é fundamentalmente diferente de qualquer coisa que já tenha conhecido. Quando tenta amaldiçoar Israel instigado por Balaque, rei de Moabe, Balaão descobre que seus lábios são incapazes de proferir a maldição que deseja invocar. Pelo contrário, deles provêm bênçãos sobre Israel e maldições sobre os inimigos dessa nação (caps. 23, 24).

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Nos seus sete oráculos proféticos, Balaão proclama a grande bênção de Deus sobre o seu povo (v. 23.20). Embora o aproveitamento imediato dessa bênção sempre dependa da fidelidade do povo, é garantida a concretização final da bênção de Deus - graças ao caráter do próprio Deus (v. 23.19). Assim, Números reafirma os propósitos imutáveis de Deus. A despeito de ter decretado condenação contra seu povo rebelde, Deus continua decidido a levar Israel à terra da promessa. A bênção da nação depende da sua vontade soberana.

Os ensinos desse livro têm significado permanente para Israel e para a igreja (cf. Rm 15.4; 1Co 10.6,11). Deus derrama sua ira até mesmo contra seu povo desviado, mas sua graça é renovada tão certamente como a aurora e seu propósito redentor não será frustrado.

5. Problema especial

O grande número de homens alistados no exército de Israel deixa perplexos os estudiosos da atualidade (v., e.g., as cifras de 1.46; 26.51). Esse número de homens convocados para a guerra pressupõe uma população total de mais de 2 milhões. Tais cifras parecem excessivamente grandes para a época, para a localidade, para as peregrinações no deserto e por comparação com os habitantes de Canaã.

Como solução desse problema, várias possibilidades foram apresentadas. Alguns entendem que as cifras tenham sido adulteradas na transmissão do texto. No entanto, não parece haver dificuldades textuais com cifras no texto em questão.

Outros entendem que a palavra hebraica traduzida por "mil" talvez tenha aqui um significado diferente da conotação numérica usual. Em alguns trechos, por exemplo, a palavra é termo técnico de companhia de homens que pode ou não chegar a mil (e.g., Js 22.14 e 1Sm 23.23, "clãs"). Além disso, alguns têm tomado como certo que essa palavra hebraica

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significa "chefe" (como em Gn 36.15). Dessa maneira, a cifra

53 400 (26.47) significaria "53 chefes mais 400 homens". Esse

procedimento produziria um total reduzido em muito, mas entraria em conflito com o fato de que o texto hebraico soma os "milhares" da mesma maneira que soma as "centenas" para chegar a um total elevado. Além do mais, isso deixaria grande demais a proporção de chefes entre os soldados (59 chefes para 300 soldados em Simeão).

Outra opção é interpretar a palavra hebraica traduzida

por "mil" com os dois sentidos - "chefe" e "1 000" -, os chefes somando um a menos que a cifra declarada. Por exemplo: os

46 500 de Rúben (1.20) são interpretados como 45 chefes e 1

500 homens de guerra; os 59 300 de Simeão (1.23) ficam sendo 58 chefes e 1 300 homens de guerra etc. Mas, nesse caso, assim como no anterior, os totais de 1.46 e de 2.32 deverão ser considerados erros de entendimento (talvez por parte dos escribas posteriores).

Ainda outra abordagem é considerar os números simbólicos, e não rigorosamente matemáticos. O valor numérico das letras hebraicas na expressão bene yisra'el ("a comunidade de Israel", 1.2) é igual a 603 (número dos milhares dos homens de guerra, 1.46); os demais 550 (mais 1 para Moisés) podem provir do equivalente numérico das letras hebraicas na expressão "todos os homens que possam servir no exército" (1.3). Esse uso simbólico de números (chamado "gematria") não é desconhecido na Bíblia (v. Ap 13.18), mas não é provável em Números, em que não existem indícios literários nesse sentido.

Embora o problema das cifras altas não tenha sido resolvido de modo satisfatório, a Bíblia realmente indica um aumento notável dos descendentes de Jacó durante os quatro séculos de permanência no Egito (v. Êx 1.7-12). Por mais dificuldades que acarretem, essas cifras também mostram o papel poderoso da providência e dos milagres no modo de Deus lidar com seu povo durante a peregrinação pelo deserto.

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6. Cristo Revelado

Jesus Cristo é retratado em Nm como aquele que provém. O Apóstolo Paulo escreve sobre Cristo que ele era a pedra espiritual que seguiu os israelitas pelo deserto e deu- lhes a bebida espiritual (1Co 10.4). A pedra que deu água aparece duas vezes na história do deserto (cap. 20; Êx 17). Paulo enfatiza a provisão de Cristo às necessidades de seu povo, a quem libertou do cativeiro.

A figura messiânica do rei de Israel é profetizada por Balaão em 24.17, "Vê-lo-ei, mas não agora; contemplá-lo, mas não de perto; uma estrela procederá de Jacó, e um cetro subirá de Israel". A tradição judaica interpretava este verso messianicamente, conforme atestado pelos textos de Qumran. Jesus Cristo é o Messias, de acordo com o testemunho uniforme do Novo Testamento, e o verdadeiro rei sobre quem Balaão fala.

7. O Espírito Santo em Ação

Fala-se diretamente sobre o Espírito Santo no cap. 11. Lá o Espírito é retratado como realizando duas funções: ungido para a liderança e inspirando a profecia. No v. 16, Moisés está pedindo ajuda ao Senhor em seus deveres de liderança. A resposta é que o Senhor tomará o Espírito que está sobre Moisés (identificado no v. 29 como o Espírito do Senhor) e o passará para seus líderes. Mesmo um líder como Moisés era incapaz de fazer tudo e precisava de uma liderança doada pelo Espírito para a realização de sua tarefa.

Quando o Espírito é dado aos anciãos, ele causa a profecia (v. 25). Somente o setenta anciãos nomeados profetizam. Quando Josué se queixa que dois dos anciãos no acampamento também estão profetizando, Moisés expressa o desejo de que todo o povo de Deus também recebesse seu Espírito e profetizasse. Essa esperança de Moisés é retomada em Jl 2.28-32 e é definitivamente cumprida no Dia de Pentecostes (At 2.16-21), quando o Espírito foi derramado e tornou-se disponível a todos.

Capítulo 5

Introdução ao Livro de Deuteronômio

Moisés tinha então 120 anos, e a Terra Prometida estava a sua frente. Ele tirou os israelitas da escravidão no Egito e os guiou pelo deserto para receber a lei de Deus no monte Sinai. Por causa da desobediência de Israel em se recusar a entrar na terra de Canaã, a Terra Prometida, os israelitas perambularam sem destino no deserto por trinta e oito anos. Agora se achavam acampados na fronteira oriental de Canaã, no vale defronte de Bete-Peor, na região montanhosa do Moabe, de vista para Jericó e a planície do Jordão. Quando os israelitas se preparavam para entrar na Terra Prometida, depararam-se com um momento crucial em sua história - novos inimigos, novas tentações e nova liderança. Moisés reuniu o grupo para lembrá-los da fidelidade do Senhor e para encorajá-los a serem fiéis e obedientes ao seu Deus quando possuíssem a Terra Prometida.

1. Título e Características do Livro

Deriva este nome da tradução grega da Septuaginta deuteronomion, que significa "segunda lei" ou "lei repetida"; e o livro contém os discursos dirigidos por Moisés ao povo, antes de entrar na Terra Prometida. O titulo é justificado pelas palavras do cap. 17.18, e pela inclusão da "lei" nos caps. 5--26, relacionada com a vida religiosa, social e civil do povo.

Em contraste com os preceitos minuciosos narrados em Êxodo, Levítico e Números relativos ao tabernáculo, ao culto e a outros assuntos respeitantes à instrução dos sacerdotes e dos levitas, as palavras de Deuteronômio dirigem-se a todos os membros da congregação. Em termos da mais fácil compreensão anuncia-se a todo o bom israelita o que Deus pretende dele. Se uma ou outra vez se fala em sacerdotes e

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levitas, é do ponto de vista dos leigos que se fala, apontando- lhes as funções dos sacerdotes como ministros e os levitas como instrutores da Lei.

2. Conteúdo

Explicam-se minuciosamente o tempo e o lugar em que foram proferidos os discursos de Moisés (1.1-5; 3.29; 4.46; 29.1), devendo ser cuidadosamente estudados, para bem se compreenderem e evitar dificuldades.

Foram dirigidos à multidão reunida no país montanhoso de Moabe, tendo ao fundo os verdejantes campos de pastagens e ao longe as planícies do Jordão. Embora à distância de onze dias de viagem de Horebe (1.2), vaguearam os israelitas quarenta anos através do deserto (1.3) e, pela luta, procuraram abrir caminho, a oriente do Jordão, pelo território agora ocupado pelas tribos de Rúben, Gade e pela metade da tribo de Manassés. Num dos períodos mais críticos da sua história, tiveram de enfrentar novos e terríveis inimigos e sujeitar-se a duras provas, agora sob a direção dum novo chefe. Nesta altura, avisado por Deus que a sua morte se aproximava, Moisés reuniu o povo para lhe lembrar as graças recebidas do Senhor, encorajá-lo na fé e na obediência, preveni-lo contra a idolatria dos falsos deuses, aconselhá-lo a fugir do pecado e, finalmente, para, num lance comovente, lhes lançar a bênção de despedida. Antes, porém, repete o Decálogo que recebera "no meio do fogo" (5.4) e expõe o seu significado (caps. 5-11). Em seguida, recapitula as leis recebidas por diversas vezes, datadas algumas do tempo dos patriarcas, reveladas outras durante a estada em Horebe e outras, ainda, ditadas pelo Senhor de vez em quando, a adaptar as diferentes circunstâncias, mas agora com uma nova feição antes de entrar na Terra Prometida. O melhor resumo destas leis vamos encontrá-lo mais tarde em Lc 10.27:

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"Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento e o teu próximo como a ti mesmo". Mas acrescentemos as palavras que o Divino Mestre dirigiu ao doutor da lei: "Faze isso, e viverás" (28).

O Novo Testamento contém para cima de oitenta citações e referências ao Deuteronômio, que deverão ser bem estudadas, se se pretende obter uma melhor compreensão do livro, bem como da mensagem que ele encerra.

3. O Autor do Livro

Consta que Moisés "declarou" a lei (1.5) e a escreveu num livro, que foi colocado ao lado da arca e entregue aos levitas para o guardarem (31.9,26). As tradições judaica e samaritana são unânimes em atribuir a autoria do livro a Moisés, confirmada num passo de Ne 8.1. Quanto aos textos que encontramos em Josué a apoiar a mesma idéia, são em número demasiado grande e andam tão ligados ao contexto geral que dificilmente os poderemos considerar como inserções posteriores. Por outro lado, a teoria dos documentos, avançada no início deste século, afirmou categoricamente que o Deuteronômio fora escrito por um profeta desconhecido, pouco antes do ano 621 a.C., data da reforma levada a cabo por Josias (2Rs 22--23). Acrescentou- se ainda que foi escrito com a finalidade de instaurar essa reforma e, em particular, de centralizar o Culto em Jerusalém, ao passo que até então o Culto de Jeová nos "lugares altos" (bamoth) era considerado perfeitamente legítimo.

A ausência absoluta de qualquer alusão a estes bamoth, na legislação dos caps. 12--26 ou no discurso inicial (12.2), e a ordem para levantar um altar no monte Ebal (27.5) tornaram-se obstáculos sérios à formação daquela teoria, e um grande número de comentadores liberais começaram a tender para uma data posterior ao exílio. Outros ainda levam a

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compilação do livro aos últimos dias de Ezequias e alguns ao reinado de Davi. Mas os argumentos aduzidos em favor de tão diferentes hipóteses contradizem-se e anulam-se uns aos outros. Por isso, a tendência atual é de dar maior reconhecimento à origem mosaica do livro do Deuteronômio, pelo menos na quase totalidade das suas páginas.

De muito valor a confirmar esta posição é a própria evidência interna. O leitor sente-se, por assim dizer, a tomar parte ativa na travessia do ribeiro de Zerede (2.13), na estada no deserto de Quedemote (2.26), na estrada de Basã e, por fim, no vale, defronte de Bete-Peor (3.29).

As reminiscências de Moisés interpõem-se com inesperada rapidez nos seus discursos (9.22) e até mesmo na transmissão das leis (24.9). Assim, deparamos imediatamente com os seus próprios pensamentos, emoções e orações.

Tal como vimos nos restantes livros, manifesta-se em múltiplos aspectos o caráter de Moisés: era ardente (Êx 2.12- 13) e exaltado (9.21 e segs.), era benévolo e carinhoso (10.12- 22). Os efeitos da sua esmerada educação estão à vista, nas qualidades com que se evidenciou como chefe e como escritor (cfr. At 7.22). Vejamos como com tanta perícia sabe combinar a doutrina com a descrição da paisagem; realçar os aspectos principais, sem desprezar o pormenor; servir-se dos dados da experiência, sem contudo deixar de falar ao coração; finalmente, apurar o estilo quer no verso, quer na prosa. Como dedicado servo do Senhor (34.5), constantemente lhe vemos nos lábios o nome de Jeová. Enfim, todas as suas qualidades de espírito que revelou em Êxodo e em Números, aqui se encontram reproduzidas.

4. Data da Composição

A ocupação da Palestina pelos israelitas sob o comando de Josué é agora um fato consumado. Escavações revelam a destruição e o incêndio de Jericó e de outras cidades desse

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tempo. Como datas prováveis, sugerem-se duas: 1400 (Garstang) e 1280 A.C. (Albright). Deve notar-se, todavia, que as referências históricas dizem todas respeito a acontecimentos anteriores à conquista. Deste modo, não admira que o autor não tivesse conhecimento da divisão do reino, nem da opressão por parte dos filisteus, nem ainda de outros acontecimentos narrados no livro de Juízes.

A legislação dos capítulos 13 e 20 era aplicável ao período da conquista e constituiria mesmo um anacronismo no tempo da monarquia. Frases características como estas "todo o Israel" e "a herança que o Senhor vosso Deus vos dá" referem-se ao mesmo tempo. Os capítulos 33-34 foram evidentemente adicionados após a morte de Moisés, mas provavelmente não muito depois. E são estas algumas das

razões que nos levam a concluir, que "o Livro da Lei" (31.9) foi escrito por Moisés antes da travessia do Jordão e compilado mais tarde durante a geração seguinte, de maneira a ficar com

a forma que hoje apresenta.

5. Cristo Revelado

Moisés foi o primeiro a profetiza a vinda do Messias, um

Profeta como o próprio Moisés (18.15). Notadamente, Moisés

é a única pessoa com quem Jesus se comparou: "Porque, se

vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim, porque de mim escreveu ele. Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?" (Jo 5.46,47). Jesus costumava citar Dt. quando lhe perguntavam o nome do mandamento mais importante, ele respondia com Dt 6.5. Quando confrontado por Satanás em sua tentação, ele citava exclusivamente Dt. (8.3; 6.16; 6.13; 10.20). É muito significativo o fato de Cristo, que era perfeitamente obediente ao Pai, mesmo até a morte, ter usado este livro sobre a obediência para demonstrar a sua submissão à vontade do Pai.

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6. O Espírito Santo em Ação

O tema unificador em toda a Bíblia é a atividade redentora de Deus. Dt. recorda ao povo que o Espírito de Deus havia estado com eles desde o tempo da sua libertação do Egito até o momento presente e que ele continuaria a guiá-los e protegê-los se permanecessem obedientes às condições do concerto.

Em 2Pe 1.21 se descreve Moisés claramente: "homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo". Como porta voz de Deus, Moisés demonstrou a presença do E. Santo enquanto profetizava para o povo. Várias de suas profecias mais significantes incluíam a vinda do Messias (18.15), a dispersão de Israel (30.1), o arrependimento (30.2) e a restauração (30.5) de Israel, a restauração e a conversão nacional e futura de Israel (30.5,6) e a prosperidade nacional de Israel (30.9)

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