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Fundação Universidade Estadual de Maringá Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes Departamento de Teoria e Prática da Educação Disciplina: Políticas Públicas e Gestão Educacional Professora: Elma Júlia Gonçalves de Carvalho.

A origem da escola pública

Introdução

Já nos acostumamos com a idéia de que o Estado tem responsabilidade no campo da

educação pública, de modo que esta tornou-se um direito consagrado na sociedade ocidental

contemporânea. Estando assegurado nos preceitos constitucionais de diferentes países, na

Constituição Federal brasileira de 1988 manifesta-se explicitadamente em seu Art 205: A

educação nacional, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e

incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu

preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho .

A esse respeito o texto da nova LDB Lei 9394/ 96, em seu Art. 2º diz: A educação,

dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de

solidariedade humana, tem a finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo

para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho . E o Art 5º § 4º da referida lei

complementa: Comprovada a negligência da autoridade competente para garantir o

oferecimento do ensino obrigatório, poderá ela ser imputada crime de responsabilidade .

Neste sentido, cabe as autoridades públicas satisfazer as aspirações do cidadão e criar

as condições necessárias para a proteção e realização do direito à educação.

Porém, a escola pública 1 tal como a conhecemos hoje, isto é, como um processo

formalizado, sistemático, universal e público é uma instituição recente. Foi no final do século

XIX e início do século XX que as nações capitalistas mais desenvolvidas como a França,

as nações capitalistas mais desenvolvidas como a França, 1 De acordo com SAVIANI (2005, p. 2)
as nações capitalistas mais desenvolvidas como a França, 1 De acordo com SAVIANI (2005, p. 2)
as nações capitalistas mais desenvolvidas como a França, 1 De acordo com SAVIANI (2005, p. 2)
as nações capitalistas mais desenvolvidas como a França, 1 De acordo com SAVIANI (2005, p. 2)

1 De acordo com SAVIANI (2005, p. 2) deve ser entendido por público aquilo que se contrapõe ao privado e, por isso, se refere também ao que é comum, coletivo, por oposição ao particular e individual. Em contrapartida, público está referido aquilo que diz respeito à população, o que lhe confere o sentido de popular por oposição ao que se restringe aos interesses das elites. Finalmente, público esta referido ao Estado, ao governo, isto é, ao órgão instituído em determinada sociedade para cuidar dos interesses comuns, coletivos, relativos ao conjunto de membros da sociedade.

em determinada sociedade para cuidar dos interesses comuns, coletivos, relativos ao conjunto de membros da sociedade.

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Inglaterra, Alemanha, Itália, Áustria, Espanha, EUA, organizaram seus sistemas nacionais de educação, tornando o ensino obrigatório, gratuito e laico. Portanto, é só a partir deste momento que a educação se converte, de forma generalizada, numa questão de interesse

público, criada e mantida pelo Estado. Segundo SAVIANI (2005, p. 4), [

garantia de suas condições materiais e pedagógicas. Tais condições incluem a construção e aquisição de prédios específicos para funcionar as escolas; a dotação e manutenção nesses prédios de toda a infra-estrutura necessária para o seu adequado funcionamento; a instituição de um corpo de agentes, em destaque os professores, definindo-se as exigências de formação, os critérios de admissão e especialização de funções a serem desempenhadas; a definição de diretrizes pedagógicas, dos componentes curriculares, das normas disciplinares e dos mecanismos de avaliação das unidades e do sistema de ensino em seu conjunto . A intervenção do Estado tem, assim, um papel decisivo no processo de gênese e desenvolvimento da escola para todos, tanto em relação ao seu financiamento quanto na sua organização (construção de um sistema integrado, que obedecesse um plano nacional, fosse homogênea quanto aos métodos, regras, programas e objetivos, e obedecesse uma autoridade central). Neste capítulo procuraremos, em linhas gerais, descrever o processo de construção da escola pública, distinguindo-o em duas grandes etapas. A primeira envolve seus antecedentes históricos, onde discutiremos por que a escola pública tem origem no final do século XIX. Quais foram as necessidades históricas que levaram a sociedade burguesa, não só a criar escolas para as camadas populares, mas obrigá-las a frequentá-la por força da lei. E, a segunda, diz respeito a escola pública propriamente dita, ou seja, ao século XX, momento de expansão dos sistemas públicos nacionais de educação e de uma contínua consolidação da escola como um direito de todos e um dever do Estado.

isso implica a

um direito de todos e um dever do Estado. isso implica a ] 1. Antecedentes da

]

um direito de todos e um dever do Estado. isso implica a ] 1. Antecedentes da

1. Antecedentes da origem da escola pública na Europa.

Falar em educação pública implica em falar, sobretudo, sobre o papel do Estado, pois ele tem uma atuação decisiva na sua organização e desenvolvimento. Portanto, falar em construção da escola pública significa falar sobre os diferentes papéis assumidos pelo Estado ao longo do tempo. A partir do século XVI a sociedade passa por profundas transformações decorrentes da passagem do feudalismo para o capitalismo. A nova sociedade organiza-se para produzir de forma inteiramente diferente da sociedade anterior, estabelecendo também novas relações sociais. No período feudal, os homens produzem basicamente para satisfazer suas

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necessidades de subsistência, não visavam os mercados. A terra era a representação máxima de riqueza e poder e quase a única forma de existência do homem, dela dependiam suas vidas e a ela os homens estavam ligados pelas relações de dependência pessoal e por compromissos mútuos. No século XVII, o comércio representa um novo modo de se produzir a vida material e foi em torno dele que a sociedade passa a se organizar. A intensificação do comércio

internacional representou uma grande força transformadora na sociedade, pois os mercados introduziram nas diferentes regiões elementos de modificação e dissolução da forma de produção feudal, trazendo a necessidade da produção para a troca, cujo móvel principal era o interesse pelo lucro. O comércio revoluciona a forma de produção existente, fazendo com que, aos poucos, a produção para a subsistência seja destruída. Estas mudanças correspondem a um período em que se colocarão em xeque não apenas a prática social fundada nas antigas relações de servidão e dependência, como também as concepções dela derivadas. As novas relações econômicas mudaram não só os hábitos e

comportamentos dos homens, mas também o papel das instituições. Ou seja, [

substituem cada vez mais as relações de dependência pelas relações de troca entre os indivíduos livres e iguais. Quanto mais o comércio se desenvolve, mais a velha forma de propriedade como todas as instituições que deram vida a ela vai se tornando incompatível com a nova sociedade criada (CARVALHO, 2000, p. 94). O novo modo de viver, pautado na troca, era apoiado politicamente pelas autoridades reais. O Estado passou a ter a finalidade, não mais de defender os interesses da Igreja ou nobreza feudal, mas rompendo com as amarras políticas do mundo feudal, tornou-se um poder capaz de atender aos novos interesses sociais, voltados para produzir, comercializar e acumular riquezas 2 . Para isso, ocorreu o fortalecimento e centralização do poder nas mãos do rei, dando origem ao Estado burocrático moderno. Este é também um momento em que ocorre a formação do contingente de mão-de- obra assalariada necessária à indústria nascente. Expropriados dos meios de produção (terra e instrumentos de trabalho), um grande número de homens tornam-se proprietários apenas de sua própria força de trabalho, passando a vendê-la como qualquer outra mercadoria. Isso se torna possível porque no campo, os senhores feudais, ao cercarem as terras comuns para transformá-las em artigo de comércio ou em pastagens para a criação de ovelhas, para abastecer as manufaturas de lã, reduziriam as áreas agrícolas, fazendo com que as famílias

os homens

as áreas agrícolas, fazendo com que as famílias os homens ] 2 Foram criadas, através de

]

áreas agrícolas, fazendo com que as famílias os homens ] 2 Foram criadas, através de legislação,

2 Foram criadas, através de legislação, medidas protecionistas e intervencionistas, monopólios de navegação, sistemas de créditos e um moderno regime tributário, bem como leis para disciplinar as novas relações de trabalho com base no assalariamento, coibindo o roubo e a mendicância, e regulamentando os salários.

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abandonassem as atividades agrícolas e as propriedades feudais, e fossem para as cidades, disponibilizando força de trabalho para a indústria nascente. Com a dissolução da vassalagem feudal, os senhores passam não garantir mais proteção e meios de subsistência aos servos, estes eram lançados no mercado, contribuindo para a transformação do indivíduo, que vivia enfeudado, em trabalhador assalariado. Esse período também foi marcado pelo saque dos bens da Igreja e pela usurpação das

terras da Coroa: os campos eram cenário de violência, rapinas e desordens (SMITH, 1983, p. 703). Eram freqüentes os conflitos políticos entre o Estado e a Igreja, as perseguições religiosas, as disputas entre a nobreza e o rei pelo controle do Estado e pela posse de terras. Estes conflitos geraram nos homens sentimentos de insegurança e incerteza quanto à forma de garantir sua subsistência. Um Estado forte e interventor, aparecia como uma forma de oferecer apoio para o desenvolvimento da prática mercantil, criar novas alternativas de vida e, ao mesmo tempo, restabelecer a paz e a segurança.

É nesse contexto, entre os séculos XVI e XVII 3 , que LUZURIAGA (1950), em a

História da Instrução Pública 4 , situa as origens da escola pública. Neste momento, denominado

por ele de educação pública religiosa , apesar de inspiradas por ideais religiosos, as escolas 5 de instrução elementar são criadas e mantidas por autoridades oficiais municípios, províncias e Estados.

A educação, eminentemente religiosa, tinha por o objetivo formar o fiel, o cristão, para a

promoção, o fortalecimento e a manutenção da fé e do poder da Igreja. Mas, também,

influenciada pelo Renascimento, não deixava de considerar as necessidades sociais e públicas, ou seja, de formar profissionais liberais, além de homens respeitosos as leis, a fim de assegurar a paz, a boa administração pública e a ordem social. Por isso, a promoção do processo educativo era visto como um dever não só da Igreja, mas também do governo civil.

principal contribuição da educação pública religiosa , segundo o autor, é seu apelo as

autoridades no sentido da fundação de escolas mantidas com recursos públicos e do

fundação de escolas mantidas com recursos públicos e do A 3 Segundo o autor seu começo
fundação de escolas mantidas com recursos públicos e do A 3 Segundo o autor seu começo
fundação de escolas mantidas com recursos públicos e do A 3 Segundo o autor seu começo
fundação de escolas mantidas com recursos públicos e do A 3 Segundo o autor seu começo
fundação de escolas mantidas com recursos públicos e do A 3 Segundo o autor seu começo

A

fundação de escolas mantidas com recursos públicos e do A 3 Segundo o autor seu começo

3 Segundo o autor seu começo não dever ser procurado antes do século XVI. De acordo com suas palavras:

antes disso, houve certamente diversos tipos de educação organizada, como a mantida pelas politéias gregas, pelo império romano ou pela Igreja medieval. Mas, de intervenção sistemática e continuada das autoridades públicas na educação, só pode se falar nos começos da época moderna (LUZURIAGA, 1950, p. 1).

nos começos da época moderna (LUZURIAGA, 1950, p. 1). 4 Neste livro LUZURIAGA descreve as fases
nos começos da época moderna (LUZURIAGA, 1950, p. 1). 4 Neste livro LUZURIAGA descreve as fases
nos começos da época moderna (LUZURIAGA, 1950, p. 1). 4 Neste livro LUZURIAGA descreve as fases
nos começos da época moderna (LUZURIAGA, 1950, p. 1). 4 Neste livro LUZURIAGA descreve as fases

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Neste livro LUZURIAGA descreve as fases de desenvolvimento da educação pública, dividindo-a em: educação pública religiosa , escola pública estatal , educação pública nacional , educação pública democrática . Embora o autor considere que as fases se sucederam de modo bem regular na história dos povos, reconhece que nem todos passaram por elas, nem elas se verificaram em todos ao mesmo tempo. Ou seja, esse desenvolvimento não foi retilíneo, experimentou freqüentemente, paradas e até retornos.

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experimentou freqüentemente, paradas e até retornos. 5 Conforme SAVIANI (2005, p. 2), a escola pública aparece
experimentou freqüentemente, paradas e até retornos. 5 Conforme SAVIANI (2005, p. 2), a escola pública aparece
experimentou freqüentemente, paradas e até retornos. 5 Conforme SAVIANI (2005, p. 2), a escola pública aparece
experimentou freqüentemente, paradas e até retornos. 5 Conforme SAVIANI (2005, p. 2), a escola pública aparece
experimentou freqüentemente, paradas e até retornos. 5 Conforme SAVIANI (2005, p. 2), a escola pública aparece

Conforme SAVIANI (2005, p. 2), a escola pública aparece inicialmente com o sentido de ensino coletivo, ministrado por meio do método simultâneo, por oposição ao ensino individual a cargo de preceptores privados .

ministrado por meio do método simultâneo, por oposição ao ensino individual a cargo de preceptores privados
ministrado por meio do método simultâneo, por oposição ao ensino individual a cargo de preceptores privados

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estabelecimento da freqüência obrigatória. Lutero 6 e seus discípulos exerceram grande influência nos países de língua alemã, inspirando uma série de Estatutos nos quais continham os primeiros preceitos sobre a educação pública. Conforme LUZURIAGA (1950, p. 11), ao terminar o século XVI, a educação pública alemã estava constituída, pelo menos nominalmente, desta forma: a) escolas primárias para o povo, nas aldeias e pequenas povoações, com ensino muito elementar, dado em alemão e de caráter principalmente religioso; b) escolas latinas e secundárias, para a burguesia, de caráter humanista, como preparação, principalmente, para os cargos eclesiásticos e para as profissões liberais; c) escolas superiores e universidades adequadas ao espírito da religião reformada e com sentido profissional e eclesiástico . É interessante observar que esta organização tripartida manteve-se no decurso da história da até quase nosso tempo. No século XVII haverá uma maior preocupação com a escola pública primária e maior acentuação da intervenção do Estado, mais particularmente nos países influenciados pela Reforma Protestante 7 , quando se encaminha a educação para todo o povo, com fins essencialmente religiosos e éticos. Isto porque, segundo ALVES (1998, p. 68):

e éticos. Isto porque, segundo ALVES (1998, p. 68): Os dois princípios que levaram a Reforma
e éticos. Isto porque, segundo ALVES (1998, p. 68): Os dois princípios que levaram a Reforma

Os dois princípios que levaram a Reforma a fundar uma prática da religião que valorizava a instrução, enquanto instrumento de salvação dos fiéis, nunca se dissociaram de um direito individual no qual se manifestava, claramente, a presença do ideário burguês. Trata-se do direito individual relativo à livre interpretação das sagradas escrituras. Colocando-se em relação, aqueles princípios e essa manifestação de direito individual, todos mutuamente se fortaleceram. Como decorrência, em todas as regiões que aderiram à Reforma, sempre houve uma insistência da Igreja no sentido de que o Estado assumisse e desenvolvesse a instrução pública, pois também os direitos do cidadão seriam comprometidos caso ele não pudesse exercer o domínio da leitura e da escrita. É incontestável que essa confluência entre os interesses da Igreja e os do Estado resultou em políticas que colocaram os países protestantes na vanguarda da oferta de escolas públicas.

Á medida que a sociedade burguesa vai se consolidando, os homens foram assumindo novos comportamentos. O contrato de trabalho, a troca e a circulação de mercadorias, a livre

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De acordo com LUZURIAGA (1950, p. 7-8) Lutero foi o primeiro a chamar a atenção das autoridades públicas para a necessidade de criar e manter escolas para todos. Porém, a educação pública preconizada por ele é antes de tudo religiosa, ainda que considere, ao mesmo tempo, as necessidades sociais e públicas. Sua atenção dirige-se especialmente às classes superiores, burguesas que hão de prover os cargos de direção da sociedade: funcionários, eclesiásticos, médicos e advogados. O que exige para as classes populares é uma educação elementar, reduzida aos elementos mais imprescindíveis, dentre as quais a leitura e a escrita e a doutrina cristã. Sua primeira formulação explicita a respeito do processo educativo aparece em A Carta aos Prefeitos e Conselheiros de Todas as Cidades da A lemanha, a Propósito das Escolas Cristãs .

as Cidades da A lemanha, a Propósito das Escolas Cristãs . 7 A construção formal de
as Cidades da A lemanha, a Propósito das Escolas Cristãs . 7 A construção formal de

7 A construção formal de um sistema de escolarização de massas está ligada a expansão das seitas protestantes, que viam na educação um importante instrumento para a divulgação da Reforma, permitindo a todos a leitura e interpretação da Bíblia.

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iniciativa e a livre concorrência entre os proprietários exigiam sujeitos autônomos, legalmente livres e iguais. Originam-se, assim, os sujeitos que percebendo-se como autônomos, votam-se para seus interesses e necessidades particulares, passando a encarar o conjunto social como uma forma de realizar seus fins privados. Expressando a nova condição social caberia a educação possibilitar a construção de uma nova conduta individual e livre, auto-governada pela razão, a fim de preparar os indivíduos para administrar seus negócios e sua vida particular, de forma a atender as exigências do capital na sua fase comercial (CARVALHO, 2000). Entre o século XVI e XVII há o desenvolvimento da produção fabril. Nesse momento a manufatura reúne muitos trabalhadores num mesmo local, sob o comando do capital, com finalidade de produzir mercadorias para o comércio ampliado. Em relação a organização da produção é introduzida a divisão do trabalho na execução das tarefas, visando produzir mais em menos tempo. Essas alterações no processo produtivo levaram, por um lado, a socialização da produção e simplificação do trabalho, por outro, a desqualificação do trabalhador. Isto porque, o desenvolvimento tecnológico, ao qual estão associadas a divisão do trabalho, a simplificação das tarefas e a objetivação do trabalho exige do trabalhador manufatureiro, cada vez mais, a realização de operações extremamente simples e menor capacidade intelectual. Adam SMITH em A Riqueza das Nações, publicado em 1776, considerando as necessidades da indústria nascente, recomenda o ensino público para as camadas inferiores da população, como um paliativo frente a degeneração moral e entorpecimento intelectual/ desqualificação das "virtudes intelectuais" do trabalhador. De acordo com suas palavras:

Com o avanço da divisão do trabalho, a ocupação da maior parte daqueles que vivem do trabalho, isto é, da maioria da população, acaba restringindo-se a algumas operações extremamente simples, muitas vezes uma os duas. Ora, a compreensão da maior parte das pessoas é formada pelas suas ocupações normais. O homem que gasta toda sua vida executando algumas operações simples, cujos efeitos também são, talvez, sempre ou mais ou menos os mesmos, ou quase, não tem nenhuma oportunidade para exercitar sua compreensão ou para exercer seu espírito inventivo no sentido de encontrar expedientes meios para eliminar dificuldades que nunca ocorrem. Ele perde naturalmente o hábito de fazer isso, tornando-se geralmente tão embotado

quanto ignorante quanto o possa ser uma criatura humana [

Assim, a

habilidade que ele adquiriu em sua ocupação específica parece deste modo sido adquirida à custa de suas virtudes intelectuais, sociais e marciais. Ora, em toda sociedade evoluída e civilizada, este o estado em que os trabalhadores inevitavelmente caem os trabalhadores pobres isto é, a grande massa da população - a menos que o Governo tome algumas providências para impedir que tal aconteça. (SMITH, 1996, vol. II, p. 244).

]

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Embora a educação apareça como uma das responsabilidades dos gastos governamentais, SMITH não concebia como encargo público todo o sistema de ensino. Apenas, a escola de primeiras letras (leitura, escrita e aritmética) destinada ao trabalhador e setor mais pobre da sociedade, denominada por ele "gente comum", deveria merecer mais atenção do Estado, pois estes não possuíam as mesmas condições de uma boa educação que a "gente de alguma posição ou fortuna". Isto porque tão logo sejam capazes de trabalhar, têm que ocupar-se com alguma atividade para subsistência . Além do que, este tipo de atividade é geralmente muito simples e uniforme para dar-lhes pequenas oportunidades de exercitarem a mente (Ibid., p. 246). Do seu ponto de vista, o que também justifica os gastos públicos com educação é sua utilidade no combate ao fanatismo religioso, visando tornar os mais homens mais propensos à aceitação das regras sociais e evitando as controvérsias religiosas, que eram causas de dissensões políticas violentas. Para ele, o Estado teria consideráveis vantagens ao investir na instrução pública, uma vez que:

vantagens ao investir na instrução pública, uma vez que: Quanto mais instruídos ele for [o povo],
vantagens ao investir na instrução pública, uma vez que: Quanto mais instruídos ele for [o povo],
vantagens ao investir na instrução pública, uma vez que: Quanto mais instruídos ele for [o povo],

Quanto mais instruídos ele for [o povo], tanto menos estará sujeito ás

ilusões do entusiasmo e da superstição que, entre nações ignorantes, muitas vezes dão origem às mais temíveis desordens. Além disso, um povo instruído

e inteligente sempre é mais decente e ordeiro do que um povo ignorante e obtuso. As pessoas se sentem, cada qual individualmente, mais respeitáveis e com maior possibilidade ser respeitadas pelos seus legítimos superiores e,

conseqüentemente, mais propensas a respeitar os superiores [

] [

] (Ibid, p.425).

Em virtude das novas condições de vida, o século XVIII é caracterizado pelo surgimento da escola pública estatal , pela secularização da educação e por sua subordinação definitiva aos fins e a organização do Estado. A escola correspondendo a nova forma de vida torna-se uma instituição oficial, destinada a atender as necessidades da burguesia. Nesse momento, sob a influência do Iluminismo 8 , há a preocupação em combater a educação religiosa, ainda que conservando o ensino de religião, fazendo prevalecer a educação laica (conhecimentos técnicos e científicos), independentemente da Igreja. O objetivo era formar o súdito fiel a coroa. Isto é, homens preparados para desempenhar funções do Estado (ocupar cargos administrativos e militares) e para dirigir seus próprios negócios. Para isso, a educação passa a ter um caráter intelectual e instrumental, ou seja, com fins práticos e técnicos, baseava- se no ensino da leitura, escrita, cálculo, ciências naturais (matemática, geometria, química, física, astronomia, história natural), instrução religiosa, moral e ética cívica, em oposição a escolástica e teologia.

e ética cívica, em oposição a escolástica e teologia. 8 Com o Iluminismo toma corpo a
e ética cívica, em oposição a escolástica e teologia. 8 Com o Iluminismo toma corpo a

8 Com o Iluminismo toma corpo a idéia de que o poder político, ou do Estado, deve zelar pela instrução e pelo progresso do saber.

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Segundo LUZURIAGA (1950), o antecedente mais notório da educação pública estatal foi na Alemanha, em 1717, com os reis da Prússia Frederico Guilherme I e Frederico II, que se aplica, pela primeira vez num grande Estado, o princípio da obrigatoriedade escolar. O mesmo Decreto que prevê a obrigatoriedade também se preocupa com a preparação dos mestres, sugerindo a criação de escolas normais para a formação do magistério. Para a administração e organização das escolas foi criado em 1736 os Principia Regulativa ou Plano Geral das Escolas . Neles se estabelecia, entre outras coisas, que:

Escolas . Neles se estabelecia, entre outras coisas, que: [ ] manter escolas; que toda Igreja

[ ]

manter escolas; que toda Igreja deveria dar uma contribuição anual para a manutenção do mestre; que os alunos haviam de pagar uma contribuição, com o mesmo fim; que os moradores haviam de fornecer-lhe lenha e outras provisões, assim como pasto para seu gado e que o governo lhe daria terreno que fosse cultivado pelos moradores. O rei criou ainda uma fundação de 50.000 talers, das quais os juros se aplicariam nas localidades pobres que não pudessem manter suas escolas. Finalmente, regulou, pela primeira vez, o ensino privado, submetendo-o à inspeção do Estado (LUZURIAGA, 1950, p. 26).

as paróquias, constituídas em sociedades escolares, estavam obrigadas a construir e

As ações de Frederico II culminariam na secularização completa da educação pública, isto é, tornando-a completamente independente da Igreja. Em 1763 é criada a primeira lei escolar para todo o reino e o fundamento para toda a legislação posterior nesse campo. Nela era regulamentado o ensino escolar dispondo como há de realizar a freqüência escolar, as horas de duração das aulas, as contribuições que os alunos hão de fazer, os requisitos que os mestres hão de ter, a inspeção das escolas, por parte das autoridades, etc (Ibid, p. 29), inspirando outras reformas importantes do ensino. Em 1794, com o Código Geral Civil, fica assentada, na legislação nacional, a educação pública estatal, cuja direção é confiada exclusivamente ao Estado. Nos termos da Lei:

é confiada exclusivamente ao Estado. Nos termos da Lei: As escolas e universidades são instituições do
é confiada exclusivamente ao Estado. Nos termos da Lei: As escolas e universidades são instituições do

As escolas e universidades são instituições do Estado, que têm por fim a instrução da juventude nos conhecimentos úteis e científicos. Todas as

instituições escolares e de educação, públicas ou particulares, estão submetidas à inspeção do Estado e acham-se sujeitas, a qualquer tempo, a seus exames e

visitas de inspeção [

As crianças que devem ser

educadas, pelas leis do Estado, em outra religião que a ensinada na escola pública, não podem ser obrigadas a freqüentar o ensino religioso que esta dá (Ibid, p. 30).

pública pela diferença de confissão religiosa [

A ninguém pode ser negada a admissão na escola

]

]

Dentre os países católicos, como a França, Itália, Espanha e Portugal, assim como suas respectivas colônias da América, a educação continua até o século XVII nas mãos da Igreja, por meio de conventos, escolas paroquiais e colégios de Ordens Religiosas. Conforme TEODORO (2001, p. 101), Portugal foi o primeiro país a proceder a secularização do ensino

Ordens Religiosas. Conforme TEODORO (2001, p. 101), Portugal foi o primeiro país a proceder a secularização

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e a lançar os alicerces de um sistema escolar dirigido e controlado pelo Estado 9 , bem como um dos primeiros a nível mundial, a consagrar, no plano legislativo, o princípio da escolaridade obrigatória . Segundo ele, as reformas pombalinas de 1759 e, sobretudo, a de 1772, constituíram uma das primeiras tentativas no mundo de organização de um sistema estatal de ensino e, como antes se assinalou, o primeiro nos países da Europa Católica (Ibid., p. 105), tornando-se uma referência para o contexto europeu da época. Em pelo menos dois aspectos ela se apresentava inovadora: na criação de um imposto, o subsídio literário, destinado exclusivamente ao financiamento da educação , e na assunção pelo Estado no controlo do ensino (Ibid., p. 106). Em alguns países, como a França, a educação pública estatal só tem início no século XIX, até então estava nas mãos de particulares, principalmente das congregações religiosas, dentre as quais a Companhia de Jesus, para o ensino secundário, e os irmãos da Doutrina Cristã, para o ensino primário, onde a principal matéria ensinada era a religião (sagradas escrituras, filosofia e teologia). Porém, a partir do momento de sua origem ela terá uma influência decisiva sobre a criação do novo tipo de educação. Ao encerrar o século XVIII tem origem a grande indústria. A concorrência entre os donos de manufatura permitiu o aperfeiçoamento cada vez maior dos instrumentos de trabalho e o aparecimento das máquinas, que executavam operações semelhantes às das mãos humanas e com maior velocidade e precisão. Com a mecanização da produção, o capitalismo atingiu uma etapa de extraordinário desenvolvimento. A partir do de 1870, em todos os países do capitalismo avançado a proposta burguesa de escola universal, laica, obrigatória e gratuita, ganhou um novo vigor, visando a construção dos sistemas nacionais de educação e a universalização dos serviços escolares. Nesse momento surge um intenso debate em torno dos principais princípios que iriam organizar a educação nacional no século XIX. Em linhas gerais, são eles: legislação nacional, uniformidade de princípios e método, direção exclusiva do Estado, oficialização do ensino, inspeção feita pelo Estado tanto em escolas públicas quanto particulares, conteúdo (ler, escrever, contar, ciências, formação moral cívica x religiosa), conhecimentos úteis (formação técnica e especializada) e científicos (ciências da natureza e matemática), escola universal e democrática (para todos os sexos, religiões, condição social), preparação do magistério, criação do Ministério da Instrução

do magistério, criação do Ministério da Instrução 9 Foi concretamente o quarto, segundo dados conhecidos,
do magistério, criação do Ministério da Instrução 9 Foi concretamente o quarto, segundo dados conhecidos,
do magistério, criação do Ministério da Instrução 9 Foi concretamente o quarto, segundo dados conhecidos,
do magistério, criação do Ministério da Instrução 9 Foi concretamente o quarto, segundo dados conhecidos,
do magistério, criação do Ministério da Instrução 9 Foi concretamente o quarto, segundo dados conhecidos,
do magistério, criação do Ministério da Instrução 9 Foi concretamente o quarto, segundo dados conhecidos,
do magistério, criação do Ministério da Instrução 9 Foi concretamente o quarto, segundo dados conhecidos,

9 Foi concretamente o quarto, segundo dados conhecidos, em nível mundial a consagrar o principio da obrigatoriedade escolar na sua ordem jurídica. Conforme TEODORO (2001, p. 107) a obrigação foi estabelecida pela Carta Constitucional de 1826, de o Estado administrar gratuitamente a instrução primária a todos os cidadãos em escolas públicas, o decreto de 7 de setembro de 1835, que aprova o Regulamento Geral da Instrução Primária, estabeleceu no seu Título VII os deveres dos País de família, ou das pessoas que estão em seu lugar , consagrando desse modo, pela primeira vez em disposição legal, o que se pode designar de principio da obrigatoriedade.

consagrando desse modo, pela primeira vez em disposição legal, o que se pode designar de principio
consagrando desse modo, pela primeira vez em disposição legal, o que se pode designar de principio
consagrando desse modo, pela primeira vez em disposição legal, o que se pode designar de principio

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Pública, educação livre, aberta e gratuita, laicismo, obrigatoriedade (princípio não defendido por todos). Apesar dos discursos e dos documentos reconhecerem a importância da instrução pública e serem favoráveis à sua generalização, pouca coisa pôde ser feita nesse momento, devido aos limites das condições materiais que impediram sua disseminação e realização geral (ALVES, 1998).

Esse século culminaria com a Revolução Francesa (1789) e com a Declaração universal dos direitos do homem e do cidadão (1793), que reconheciam a instrução elementar como um direito que a sociedade deveria colocar ao alcance de todos. A partir daí se difunde a bandeira da escola pública, universal, gratuita, obrigatória e laica por toda a Europa, firmando com clareza o direito de todos e o dever do Estado em matéria de educação. O século XIX foi, para LUZURIAGA, um século de esforço continuado para tornar

uma realidade a educação do ponto de vista nacional [

sistemas nacionais de educação e as grandes leis de instrução pública, de todos os países

europeus e americanos (Ibid, p. 57).

de todos os países europeus e americanos (Ibid, p. 57). ] Deste século procedem os grandes

]

Deste século procedem os grandes

2. A criação da escola pública nacional no final do século XIX.

Este será o século da educação pública nacional , educação do cidadão - homem político/ eleitor. Dirigida para todos, deveria ser universal (para todas as classes sociais, todas as idades e para ambos os sexos). As motivações para sua criação encontram-se relacionadas tanto aos aspectos econômicos quanto políticos. Do ponto de vista econômico, a publicização do ensino pode ser entendida na sua relação com as mudanças das forças produtivas e suas relações sociais. Isto é, ao fato de que a introdução da máquina moderna na produção criou um excedente tanto de riqueza quanto de força de trabalho, que não poderia mais ser empregado diretamente na produção. Isto significa dizer que, antes do século XVIII o grosso da riqueza social produzida era reinvestido em atividades produtivas, no desenvolvimento do próprio capital. Porém, a partir de 1870, com a crise de superprodução, a paralização do comércio e indústria e, as falências generalizadas estes recursos não mais poderiam ser reinvestidos inteiramente na produção, sob o risco de gerar nova superprodução de mercadorias e novas crises no mercado, descolando-se para outros setores da sociedade, no caso para a educação. Também, face ao excedente de mão-de-obra, a sociedade já podia prescindir do trabalho infantil, por isso, as crianças foram as primeiras a serem eliminadas do mercado de

já podia prescindir do trabalho infantil, por isso, as crianças foram as primeiras a serem eliminadas

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trabalho, passando a dispor de tempo livre para freqüentar a escola. Os pais precisavam, ainda, de um local para deixar seus filhos enquanto trabalhavam, era necessário tirar as crianças das ruas, onde elas estariam sujeitas ao ócio e a corrupção. Além do que, a luta dos operários por melhores condições de trabalho exigia a redução da jornada de trabalho nas fábricas. Nesse momento nos países mais avançados são criadas legislações que reduziriam a jornada de trabalho infantil e tornariam obrigatória a escolarização das crianças (ALVES, 1998). Do ponto de vista político, a escola pública, universal, laica, gratuita e obrigatória é criada para formar a consciência do homem cidadão, impondo-lhes os deveres para com o Estado, construindo o espírito nacional/ coletivo contra o espírito individualista, decorrente da divisão do trabalho, e impedindo que os interesses individuais dos homens fossem levados até as últimas conseqüências. A instrução pública e a homogeneização do sistema de ensino são, assim, reconhecidos como indispensáveis para a construção da unidade nacional. É efetivamente nesse século que se consolidam os Estados Nacionais 10 , que vai se colocar o problema da organização dos respectivos sistemas nacionais de educação 11 e da educação de caráter cívico e patriótico, além de científico. Segundo HOBSBAWN (1998), o Estado precisava fazer a Nação, isto é, reunir as entidades dispersas, fragmentadas e plurais em torno de um ideário político e cultural comum, contribuindo para o controle social e consolidação da nação sob um Estado racional e centralizado. Nesse contexto, o sistema escolar nacional, predominantemente organizado e supervisionado pelo Estado, transforma-se uma condição indispensável para transformar o súdito em cidadão. Outro fator importante que contribuiu para a criação da escola pública, universal, laica, gratuita e obrigatória é a luta da sociedade burguesa para a defesa dos seus interesses. Ou seja, diante dos problemas sociais (crise de superprodução, desemprego, despovoamento do campo, proletarização da classe média, empobrecimento da classe operária, falências generalizadas, paralisação do comércio e da circulação de dinheiro, crise no sistema de crédito, insegurança pessoal, e etc.), o discurso e a prática social baseados no princípio do livre desenvolvimento das forças individuais para a acumulação de riquezas, tal como propunha o liberalismo clássico, mostram-se insuficientes para dar conta das novas condições sociais, que desvela a natureza contraditória do capital baseada na produção coletiva e apropriação privada do trabalho social.

10 o Estado-nação formaria o quadro de referência da vida do cidadão, estabelecendo-lhe parâmetros, através de um corpo único de instituições políticas e jurídicas, e determinando-lhe as condições concretas de vida. Por conseqüência a cidadania está associada à nacionalidade, limitada ao espaço territorial da Nação.

11 Com a criação dos sistemas são estabelecidas as bases da educação nacional em forma unificada, ou seja, subordinando-as as mesmas autoridades e aos mesmos princípios legais. A criação do Ministério da Instrução Pública, a promulgação da lei de educação nacional e criação de escolas para a formação de professores constituíram-se passos decisivos para a construção dos sistemas nacionais de educação.

11

A

sociedade burguesa começa a enfrentar suas próprias contradições 12 . A força revolucionária

se

manifesta no seio do movimento operário, por quase toda a Europa, no período de 1830 a

1848 13 , colocando em xeque a propriedade privada e reivindicando a democracia social. Diante das circunstâncias que ameaçava sua existência a burguesia se vê obrigada a rever suas posições. Entendendo que as revoltas sociais tinham como objetivo a república social e democrática, a burguesia percebe a necessidade de modificar a forma de governo, dando origem ao Estado democrático em oposição ao aristocrático. Na busca de impedir o avanço do pensamento anarquista e socialista, e evitar a explosão de novas revoltas, que ameaçavam revolucionar a ordem geral foram empreendidas reformas nas instituições, sendo criadas leis concedendo o sufrágio universal, o direito de realizar plebiscito, de constituição de partidos e de iniciativa popular, promovendo a igualdade política. Com isso, os conflitos e lutas sociais foram transformados num jogo institucionalizado, mediado pela atuação dos partidos e pela escolha eleitoral, através da competição. Neste contexto a escola pública é entendida como um recurso decisivo para a derrota definitiva do Antigo Regime e consolidação e preservação da República, bem como, para criar um espírito contra-revolucionário. O caráter cívico patriótico (amor à pátria, amor ao bem público, o devotamento à cidade, a submissão às leis), o sentimento de solidariedade e nacionalidade seriam virtudes públicas indispensáveis para construir a cidadania democrática. Caberia a escola desempenhar esse papel com o objetivo de contribuir para o equilibrar as contradições sociais, amenizar os conflitos entre as classes, manter o trabalho assalariado subordinado aos interesses do capital e preservar a propriedade privada. A construção da escola pública também envolveu um processo de luta marcado por interesses distintos, de um lado o clero católico e de outro os liberais. Segundo LUZURIAGA (1950, 56-57),

ainda que a educação pública comece na França com a Revolução de 1789, sua efetivação ficou reservada para o século XIX. Todo esse século foi um esforço continuado para tornar uma realidade a educação do ponto de vista nacional. Neste século desenrolou-se a mais intensa luta entre os partidos políticos, conservadores e progressistas, reacionários e liberais, clericais e estatais, para apoderar-se da educação e da escola pública. Pode-se, em geral, dizer que houve uma luta entre a Igreja e o Estado em torno da educação; ao fim, este vence e chega a instituir-se, em cada país, uma educação pública nacional.

12 Do ponto de vista econômico estas são caracterizadas, de um lado, pelo fato de a produção ser coletiva, enquanto os meios de produção e a apropriação do produto do trabalho são privados; de outro, pelo fato de que o aperfeiçoamento das máquinas equivale tornar supérflua parte da massa de trabalho humano, que vai se tornando cada vez mais excluída do processo produtivo. 13 Multiplicam greves, congressos nacionais e internacionais da classe operária.

12

O caráter do embate entre a Igreja e o Estado, não se resume apenas no confronto entre duas concepções de educação, mas tratava-se do combate movido pela burguesia às

forças feudais que, até então, havia exercido controle pleno dos aparelhos do Estado, inclusive

da

escola e, de defender os interesses burgueses frente a grande crise do capital, na esteira da

qual surgiam as lutas concorrenciais por novos mercados, dificultados pelo enfraquecimento

por novos mercados, dificultados pelo enfraquecimento da unidade nacional que o movimento operário provocava [

da

unidade nacional que o movimento operário provocava [

]

da unidade nacional que o movimento operário provocava [ ] Para tanto era preciso educar

Para tanto era preciso educar

Para tanto era preciso educar

o

novo soberano, transformando o sujeito submetido aos antigos poderes, em cidadão

defensor da pátria amada; substituir os deveres para com Deus pelos seus deveres para com

os deveres para com Deus pelos seus deveres para com o Estado (LEONEL, 1994, p. 184-185).

o

Estado

o Estado (LEONEL, 1994, p. 184-185).

(LEONEL, 1994, p. 184-185).

Assim, a luta contra a educação religiosa/aristocrática exige a generalização dos direitos

e

a imposição do caráter compulsivo da freqüência escolar. Ou seja, a escola deveria deixar de

ser um privilégio da alta burguesia e nobreza para ser freqüentada também pela pequena burguesia e classe popular. O processo de laicização do ensino também se dá no interior dessa luta, como é o caso da França em que a exclusão do ensino religioso dos programas (1874) e a proibição legal de qualquer congregação dirigir um estabelecimento público ou privado ou ministrar o ensino sem autorização prévia (1901) foram passos decisivos para a laicização do ensino e a separação entre a Igreja e o Estado. Cabe, porém, ressaltar que embora no século XIX tenha se desenvolvido em muitos países uma forte tendência para que a educação, no sentido restrito da instrução, se constituísse um sistema integrado, se estabelecesse um plano nacional (fosse homogênea, unitária); e obedecesse uma autoridade central na tentativa de assegurar coerência de organização, de métodos, de programas e de critérios pedagógicos, nenhuma nação completou

o processo de difusão e realização da escola pública neste período 14 . Ou seja, embora houvesse

um empenho geral para que a máquina do Estado criasse e mantivesse os serviços escolares, seria indispensável elevar ainda mais o grau de riqueza material das nações, para tornar a escola pública, de fato, universal. Este seria o grande desafio para o século XX.

à exceção da França, nenhuma outra nação experimentou uma discussão

tão intensa sobre a instrução pública nem foi tão prolifera quando à produção teórica acerca da temática educacional. Fora da França, a escola pública não empolgou o debate nem se transformou em objeto importante de luta política . Na França tratar da instrução pública, implica, sobretudo, considerá-la como um recurso

decisivo para a consolidação e preservação da República, bem como da derrota definitiva dos inimigos feudais, ela

(Ibid., p. 91). Entretanto,

apesar do debate intenso, faltou entre os franceses iniciativas que levassem a concretização de uma organização nacional de instrução pública, a Alemanha vista com noção da Europa onde mais avança a instrução pública no século XIX, também enfrentou dificuldades expressivas para atingir esse estágio, pelo menos até a década de setenta (Ibid., p. 94).

situava-se, portanto, no âmago da questão central posta pela Revolução Francesa [

14 Segundo ALVES (1998, p. 89), [

portanto, no âmago da questão central posta pela Revolução Francesa [ 14 Segundo ALVES (1998, p.

]

portanto, no âmago da questão central posta pela Revolução Francesa [ 14 Segundo ALVES (1998, p.
portanto, no âmago da questão central posta pela Revolução Francesa [ 14 Segundo ALVES (1998, p.

]

portanto, no âmago da questão central posta pela Revolução Francesa [ 14 Segundo ALVES (1998, p.

13

De acordo com ALVES (1998, p. 97), foram os Estado Unidos da América o país que mais promoveu, ao final do século XIX, a expansão escolar, transformando-se em referência para toda a Europa e América.

3. Século XX: a expansão dos sistemas educativos.

O século XX, na interpretação de LUZURIAGA, corresponde ao advento da educação

pública democrática , momento em que se busca sua democratização, seja quantitativamente,

através da universalização e prolongamento da escola fundamental, seja qualitativamente, através da difusão dos movimentos de renovação pedagógica. Neste século a educação formal adquire maior importância, sendo identificada com o crescimento econômico das nações, com a ascensão social dos indivíduos, com a elevação da produtividade no trabalho, com o ingresso e permanência no emprego, com a ampliação da participação política e social. Isto reforçou a necessidade do Estado assumir o papel de promover e organizar os sistemas nacionais de ensino. Durante o século XX, sob o impulso ou égide do Estado do bem-estar social ou

Estado Keynesiano a educação se transformou num amplo serviço público, tornando-se um direito universalizado, obrigatório e gratuito nos estabelecimentos oficiais, e um dever do Estado, garantido constitucionalmente ao lado de outros direitos sociais.

constitucionalmente ao lado de outros direitos sociais. A democratização da educação corresponde a nova fase do

A democratização da educação corresponde a nova fase do capitalismo. Isto é, a fase

imperialista/monopolista. Cuja característica central é a internacionalização dos circuitos produtivos e financeiros, a exportação de capitais e industrias centralizados

monopolisticamente e partilha do globo entre as maiores potencias capitalistas.

A partir deste momento, a concorrência deixou de se limitar às empresas e passou a

abranger também nações inteiras, cujos efeitos foram o protecionismo da economia de cada nação-Estado e os grandes conflitos armados, para ampliar as fronteiras nacionais, por meio da expansão do capital, dos mercados e dos territórios.

A crise dos anos 30 desencadeou-se no seio dessa nova configuração política e

econômica e teve maior profundidade do que a anterior. No limiar dos anos 30, a economia mundial mergulhou na mais catastrófica depressão da história do capitalismo. A Grande Depressão produziu o desemprego massivo em todo o mundo, o excesso de produção fez os preços despencarem numa velocidade vertiginosa, provocando a falência sucessiva de

14

empresas e arrastando consigo grandes blocos de capitais, o desemprego de milhões e o pânico financeiro. Estes fatores compunham um cenário de desesperança e incertezas quanto às possibilidades de sobrevivência, tornando mais agudas as tensões e contradições do capitalismo. A resposta para a crise estaria na ação direta do Estado, a qual seria a forma de regular e revigorar a economia, manter o pleno emprego e melhorar a distribuição de renda, e atenuando os efeitos da desigualdade social, promover o bem estar dos cidadãos. A social democracia descobre em Keynes a receita para aliviar a crise. Entre os mecanismos previstos pela política keynesiana para a recuperação e garantia do bom funcionamento do sistema capitalista, tornando as regras da competição mais estáveis e previsíveis constam o estímulo ao aumento da renda nacional, a preservação da acumulação privada de capital, a cooperação com a iniciativa privada e o empreendimento de obras públicas. Para o aumento da renda nacional ele propunha uma política de obras públicas e outras formas de gasto estatal (investimentos ou empreendimentos). Porém, os investimentos públicos não poderiam expandir a capacidade de produção da economia, para competir com a iniciativa privada, nem gerar superprodução, ou seja, deviam ser improdutivos 15 . Os investimentos improdutivos significavam, na verdade, uma nova forma de aumentar a renda e o consumo, pois geravam ocupação da capacidade produtiva ociosa existente no setor produtivo. Portanto, através dos investimentos públicos suplementares, o Estado preencheria a lacuna deixada pelas variações e insuficiência de investimentos privados, contrabalançando o volume de investimentos necessários para a manutenção dos altos níveis de emprego. Desta forma, o gasto estatal tornou-se o instrumento principal da política keynesiana no combate ao desemprego, na diminuição das desigualdades, na distribuição de rendas e na redução da magnitude das flutuações cíclicas.

15 Considera-se como improdutivo aquele trabalho que não contribui diretamente para a valorização do capital como um todo, ou seja, não produz mais-valia. No entanto, não se pode negar que contribuem indiretamente para a expansão das atividades produtivas, circulação e realização do valor e, portanto, para a valorização do capital (BRAVERMAN, 1987). FRIGOTTO, em A Produtividade da Escola Improdutiva (1984), revela-nos o quanto

os gastos improdutivos, sob o ângulo da produção, mostram-se necessários a sua realização. Sob esta perspectiva

escola funciona como um indutor das indústrias produtivas, comportando-se em relação ao ciclo econômico,

a

como qualquer gasto de consumo, componente da demanda efetiva. Sua especificidade educacional não se põe para o ciclo, senão do ponto de vista de criar um circuito privado de apropriação destes gastos, primeiramente; e,

secundariamente, funciona como condutor das indústrias da educação: papel, mobiliário, construção civil, gráfica

editorial (F. de OLIVEIRA e W. BORGES apud FRIGOTTO, 1984, p. 158). Assim, a expansão da escola

e

requer a expansão das atividades produtivas. Logo assiste-se a uma atividade improdutiva garantindo a realização da mais valia incorporada nas mercadorias de uma atividade produtiva (ALVES, 1999, p. 105).

garantindo a realização da mais valia incorporada nas mercadorias de uma atividade produtiva (ALVES, 1999, p.
garantindo a realização da mais valia incorporada nas mercadorias de uma atividade produtiva (ALVES, 1999, p.

15

O apoio direto ao processo de acumulação passou a ser feito por meio de investimentos, subsídios, definição de taxas de importação, promoção do desenvolvimento de indústrias auxiliares (infra-estrutura), atuação nas áreas da economia que não concorressem com as empresas privadas e nas quais os empresários privados não estivessem dispostos a investir, venda de produtos e serviços para empresas privadas, fornecimento de insumos para uma economia rentável, regulação do setor privado. Indiretamente, a intervenção se deu por

meio de políticas sociais compensatórias, atenuando os efeitos distributivos do funcionamento do mercado e promovendo o bem-estar dos cidadãos.

A intervenção do Estado, seja como mediador/ regulador da economia, seja como

dinamizador, produzindo serviços e mercadorias, converteu o fundo público em atividade

econômica, articulando simultaneamente o financiamento da reprodução do capital e da força de trabalho. Assim, o fundo público assegurou novos padrões de acumulação do capital, amenizando os conflitos e contradições decorrentes das lutas intercapitalistas e do aumento da pobreza em meio à abundancia (riqueza) e, ao mesmo tempo, permitiu ao sistema capitalista evitar os perigos do socialismo.

A expansão da escola pública desenvolveu-se no interior dessa tendência de alocação

dos trabalhadores expulsos das atividades produtivas, mediante a expansão das atividades improdutivas, por força da ação reguladora do Estado e de mecanismos de financiamento que

asseguram o fluxo constante de aportes de capitais necessários à manutenção e ampliação de seus serviços (ALVES, 1990; 1998) 16 .

O alargamento das oportunidades educacionais, incluindo a extensão do período de

formação escolar, explica-se não apenas pela oportunidade de criar novos empregos, mas também, porque a extensão do tempo de escolarização prolonga a permanência do jovem na escola, impedindo que pressione imediatamente o mercado de trabalho já saturado 17 . Em

decorrência os empregadores tendem a fazer exigências maiores aos candidatos de emprego (BRAVERMAN, 1987; ALVES, 1999).

A universalização da escola de massas, também pode ser entendia na sua relação com

as novas necessidades produtivas. Isto é, na sua trajetória o capitalismo alterou a forma de

produção e também as funções dos partícipes dessa produção. No âmbito das empresas, a organização interna dos processos de trabalho nas atividades produtivas demandava uma grande quantidade de trabalhadores reunidos num mesmo local, onde cada um era obrigado a

Para ALVES (1999, p. 103), não é por acaso que a escola aproveita, imediatamente, parcelas ponderáveis dos

contingentes que incessantemente produz. Isto é, a escola titula as camadas médias, absorvendo, em seguida, grande parte dos elementos titulados .

17 De acordo com BRAVERMAN (1987, p. 371),

o dilatamento da escolaridade para uma idade em torno

dos dezoito anos tornou-se indispensável para conservar o emprego dentro dos limites razoáveis .

16

em torno dos dezoito anos tornou-se indispensável para conservar o emprego dentro dos limites razoáveis .
em torno dos dezoito anos tornou-se indispensável para conservar o emprego dentro dos limites razoáveis .
em torno dos dezoito anos tornou-se indispensável para conservar o emprego dentro dos limites razoáveis .

[

]

em torno dos dezoito anos tornou-se indispensável para conservar o emprego dentro dos limites razoáveis .

16

se especializar numa única tarefa. Em decorrência da natureza dos processos técnicos, rígidos,

padronizados, sincronizados, rotineiros e racionais de trabalho, cronometrados milimetricamente, pré-determinados por máquinas, voltados para a maximização da produção, com vistas a reduzir custos da mercadoria, o trabalhador qualificado era aquele que executava tarefas manuais singulares com habilidade, precisão e rapidez. O desafio era acostumar/ disciplinar a força de trabalho de acordo com sistemas de trabalho padronizados e rotinizados. Assim, à educação caberia formar o novo tipo de trabalhador, moldar nele os comportamentos, valores, hábitos e habilidades necessários às novas condições da produção. Evidentemente, ao lado de funções que exigem habilidades meramente físicas, existem também funções que exigem trabalhadores com níveis mais elevados de qualificação e

instrução. Isto se explica pelo fato de que o controle dos processos de trabalho passou às mãos

da gerência. No mesmo sentido, o processo de concentração e centralização do capital (fusões

e incorporações) tornou os quadros nos escritórios e nos setores produtivos das empresas modernas mais complexos, fazendo emergir complexas hierarquias gerenciais e, ao mesmo tempo, colaborando para a centralização do poder decisório. A administração tornou-se um elemento chave para a expansão do capitalismo monopolista, tendo efeitos sobre a educação. Neste momento, em nome do crescimento econômico, da mobilidade social e do desenvolvimento do capital humano , coube-lhe especialmente contribuir para a formação de habilidades básicas para o processo de industrialização e para a ocupação de cargos burocráticos/técnicos e administrativos nos setores públicos ou privados (FAYOL, 1975).

Assim, devido às necessidades de expansão do capital, no decorrer do século XX a educação cada vez mais passou a ser função do Estado. Os sistemas educacionais passaram a ser mantidos, estabelecidos, organizados e reconhecidos pelo Estado. A expansão escolar foi associada à ampliação dos direitos de cidadania e da política de bem-estar social para maioria dos cidadãos. A política intervencionista do Estado de bem-estar social teve um papel decisivo no desenvolvimento da escola de massas (enquanto escola pública, obrigatória e laica). Os sistemas educacionais públicos ocuparam um papel imprescindível não apenas na preparação de indivíduos para a divisão do trabalho. A escolarização universalizada é também reconhecida como indispensável para a integração e o controle social e para a construção da unidade nacional, para reunir identidades dispersas, fragmentadas e plurais em torno de um ideário político e cultural comum. O cumprimento da nova função social da escola implicou a interferência do Estado sobre a educação, o qual passou a atuar no sentido de universalizar

o acesso à educação, pela imposição da escolaridade obrigatória e alargamento da oferta escolar (CARVALHO, 2005).

o acesso à educação, pela imposição da escolaridade obrigatória e alargamento da oferta escolar (CARVALHO, 2005).
o acesso à educação, pela imposição da escolaridade obrigatória e alargamento da oferta escolar (CARVALHO, 2005).

17

As reformas empreendidas no sentido democrático, em linhas gerais, implicaram em: a) ampliar as taxas de escolarização das respectivas faixas etárias; b) crescimento das percentagens de financiamento público; prolongar a escolaridade obrigatória, c) democratizar o ensino secundário - criação de uma educação secundária geral e obrigatória; freqüência obrigatória até 15 anos; d) tornar a educação pública essencialmente função do Estado, não significando monopólio do Estado, mas ficando sob sua inspeção; e) oferecer assistência econômica aos desprovidos de recursos, através de subsídios (empréstimos e bolsas de estudos) oferecidos pelo Estado e contribuições da iniciativa particular; f) oferecer oportunidades de desenvolvimento intelectual acessível a todos por igual; g) unificar os sistemas de ensino, suprimindo as diferenças entre os tipos de escolas públicas e a separação entre o ensino primário, secundário e superior; h) introduzir nas escolas conselhos escolares com a participação de pais, alunos e professores para discutir os assuntos escolares; i) oferta de ensino extra-confecional ou leigo respeitando a liberdade de consciência de professores e alunos; instrução cívica e para o trabalho; j) exigência de certificado de capacitação pedagógica (bacharelado) para exercer funções de professores e direção de ensino; k) orientação dos alunos do curso secundário, baseada na seleção por aptidão; l) introdução de métodos de educação ativa, atividades extra-curriculares, sob direção de professores; m) orientação educacional no ensino secundário; n) reorganização dos programas de ensino de modo que facilitasse a passagem entre o ensino clássico, moderno e técnico, que variasse segundo a idade, os interesses e as capacidades das crianças, e que tivesse uma orientação realista, prática e para a formação do cidadão; o) criação de escolas maternais; p) ampliação de serviços assistenciais (alimentação, vestuário, serviços higiênicos e médicos), dentre outras. Todavia, apesar das reformas empreendidas, ainda permanece a luta pela escola pública como direito social e humano e dever do Estado. Nas últimas décadas temos presenciado pressões sociais por políticas educativas que promovam a ampliação da noção de escola pública e do conceito de educação básica (formada atualmente pela educação infantil, ensino fundamental e médio); pela oferta de programas de alfabetização e de educação de jovens e adultos, destinados a pessoas que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria; por programas que visem assegurar o acesso à educação aos portadores de necessidades especiais, nações indígenas e população do campo (educação inclusiva); pelo desenvolvimento de programas de combate a repetência e evasão escolar; por programas de formação de professores e de formação continuada; pela valorização profissional; pela gestão democrática e fiscalização de recursos destinados às escolas por parte

valorização profissional; pela gestão democrática e fiscalização de recursos destinados às escolas por parte 18
valorização profissional; pela gestão democrática e fiscalização de recursos destinados às escolas por parte 18

18

da comunidade; por programas de distribuição de material didático e merenda escolar; por recursos financeiros; pela melhoria da qualidade de ensino, etc. Conforme visto neste capítulo os sistemas educativos estatizados constituem um legado do século XIX. Porém, a escola pública, correspondendo ao caráter universal, não implicou imediatamente que sua referência fosse compulsiva ou legalmente obrigatória. Na verdade foi preciso um longo processo de discussões e reformas para se chegar, já na primeira metade do século XX, ao ideal de escola única. Surge inicialmente na França e posteriormente em toda a Europa e América 18 , correspondendo a um momento de formação dos Estados-nação e crise da sociedade industrial, em que os conflitos entre a burguesia e o proletariado tornam-se evidentes. Ou seja, a classe operária que esteve ao lado da burguesia na sua luta contra o feudalismo, se percebe com interesses distintos, e se torna sua principal opositora. A partir desse momento a burguesia não terá mais que lutar contra o passado, contra a nobreza feudal, ela se defronta com o novo que está surgindo e se manifesta nas lutas operárias. Diante das circunstâncias, a classe burguesa, tem que criar condições de assegurar seus interesses, para manter a forma de produção e propriedade burguesa. Surge então, o voto universal e a idéia do povo como soberano da sociedade democrática. Neste contexto a escola pública vai substituir o papel que a Igreja desempenhava. Atuando na formação moral do novo soberano, sua ação estaria relacionada a formação do sentimento de pertença com base no ideal de civismo, a fim de manter uma estreita relação entre o cidadão e a Pátria, contribuindo para a construção da Nação, como também para unir as classes sociais. A moral cívica vai substituir a moral cristã e cumprir o papel de fazer com que o cidadão conheça as leis e seus deveres para com a sociedade. Assim, face ao exposto, podemos afirmar que a escola pública surge quando se tem a necessidade dela. Ou seja, decorre da necessidade de formar a moral e o comportamento do cidadão, adequados à sociedade democrática . Decorre, também, da necessidade da sociedade industrial de preparação cultural e de formação profissional dos trabalhadores e técnicos e, da necessidade de consolidação dos Estado-nação. Coube-lhe o papel de desenvolver os sentimentos de solidariedade, de amor ao trabalho e à pátria. Enfim, formar o caráter cívico e patriótico , a fim de unir os espíritos numa comunidade nacional, de possibilitar uma convivência harmoniosa entre as classes e de conservar a propriedade privada. Ao desempenhar esse papel a escola acabou por se transformar numa importante arma de luta nas mãos da burguesia, contribuindo para se defender das ameaças investidas contra a

para se defender das ameaças investidas contra a 18 Países como o México em 1814, Venezuela
para se defender das ameaças investidas contra a 18 Países como o México em 1814, Venezuela

18 Países como o México em 1814, Venezuela em 1811, Argentina em 1910, buscavam por meio da legislação assegurar a educação para toda a população.

19

própria ordem burguesa. Também, a própria classe operária via na escolarização uma condição de cidadania, ou seja, para participar da vida política e para viver nesta sociedade baseada na cultura letrada. A educação passa a ser exigida, como um direito do homem e do cidadão 19 . Por isso, dentre as reivindicações e pressões da classe operária, no século XIX, esta o direito ao sufrágio universal e à educação, vistos como novos elementos de lutas pelos seus direitos, conforme podemos observar na Crítica ao Programa de Gota 20 (1875) e em As Luta de Classes na França de 1848 a 1850, escrita por MARX em 1885, com introdução de ENGELS (1895). Durante o século XX houve a expansão da rede de ensino pública e a organização dos sistemas nacionais de educação. Nesse momento, em nome do crescimento econômico, da mobilidade social e do desenvolvimento do capital humano coube-lhe contribuir para a formação de habilidades básicas para o processo de industrialização e ocupação de cargos burocráticos no setor público. O cumprimento da nova função social da escola implicou na interferência do Estado sobre a educação, universalizando o acesso à escola, pela imposição da escolaridade obrigatória e alargamento da oferta escolar. A educação torna-se um direito social, assegurando constitucionalmente. O Estado assumiu, ainda, um papel central de normatizador, fomentador e financiador da educação. Portanto, a escola de massas é um fenômeno global deste nosso mundo moderno. Sua construção trata-se de um processo relativamente longo, que corresponde ao movimento mais amplo da sociedade, envolvendo a industrialização, a urbanização, as mudanças nas relações de trabalho e na configuração política, e os diferentes papéis desempenhados pelo Estado. Esse processo, por sua vez, apresentou ritmos de desenvolvimento nos diferentes espaços geo- políticos e econômicos, e não esteve livre de retrocessos e ambigüidades, conflitos e contradições sociais. Para finalizar gostaríamos de ressaltar que o objetivo de reconstruir o processo de construção da educação pública com bases nacional é buscar elementos para tornar mais claro o entendimento dos atuais encaminhamentos dados às políticas educativas, sobretudo em relação do papel do Estado, quando entram em cena o setor público não-estatal , de terceiro setor e outras formas correlatas. Vivenciamos, neste final de século XX e início de século XXI, uma fase em que o capitalismo mundial enfrentou um novo período de crise, identificada, principalmente, com o esgotamento do modelo de acumulação taylorista/ fordista, da administração keynesiana e do

taylorista/ fordista, da administração keynesiana e do o conceito de escolaridade obrigatória, que nasceu com a
taylorista/ fordista, da administração keynesiana e do o conceito de escolaridade obrigatória, que nasceu com a
taylorista/ fordista, da administração keynesiana e do o conceito de escolaridade obrigatória, que nasceu com a
taylorista/ fordista, da administração keynesiana e do o conceito de escolaridade obrigatória, que nasceu com a
taylorista/ fordista, da administração keynesiana e do o conceito de escolaridade obrigatória, que nasceu com a

o conceito de escolaridade obrigatória, que nasceu com a imposição

do Estado, na tentativa de convencer ou forçar os pais a levar os filhos à escola, transformou-se num direito dos cidadãos a satisfazer pelo Estado. Melhor ainda: transformou-se no direito à educação . 20 Nos termos do documento O Partido Operário Alemão exige, como base espiritual e moral do Estado: 1) Educação popular geral e igual a cargo do Estado, Assistência escolar obrigatória para todos: Instrução gratuita .

19 Segundo BARRETO (1995, p. 162), [

Assistência escolar obrigatória para todos: Instrução gratuita . 1 9 Segundo BARRETO (1995, p. 162), [

]

Assistência escolar obrigatória para todos: Instrução gratuita . 1 9 Segundo BARRETO (1995, p. 162), [
Assistência escolar obrigatória para todos: Instrução gratuita . 1 9 Segundo BARRETO (1995, p. 162), [
Assistência escolar obrigatória para todos: Instrução gratuita . 1 9 Segundo BARRETO (1995, p. 162), [

20

Estado de bem-estar social 21 . A partir daí, vivenciaram-se profundas alterações sociais, as quais

definiram novas relações de trabalho, novas tecnologias, novas relações entre as nações, novas

identidades coletivas, novas práticas e fronteiras políticas, novos padrões de vida e de

relacionamento, novos movimentos sociais e novas formas de organização e gestão, tanto no

setor público quanto no privado.

As novas maneiras de se viver são expressas pelo fenômeno da globalização,

transnacionalização da economia, (des) terriorialização do capital; declínio do Estado-nação;

acumulação flexível; (re) emergência do terceiro setor e criação de um espaço público não-

estatal; redefinição do papel do Estado mediante a substituição do Estado do bem-estar social

pelo chamado Estado Mínimo; adoção de políticas neoliberais, cujas características são:

liberalização da economia; desregulamentação financeira; privatizações; reestruturação das

políticas sociais, com a hipertrofia da atuação do Estado; ruptura do modelo de regulação

estatal e privilégio do controle do mercado.

No interior desse processo, a reorientação das políticas públicas aponta para uma

retração dos gastos públicos, no caso com a educação, o que tem aberto caminho para

políticas descentralizadoras, que acabam por transferir para as comunidades locais a

responsabilidade e o ônus pelas instituições educativas.

Assim, as atuais reformas tendem para o recuo do Estado na provisão direta dos

serviços, o que tem colocando em discussão tanto seu papel como financiador e fornecedor de

serviço, bem como seu interesse em continuar consolidando a escola para todos. Ao mesmo

tempo, diante das políticas sociais que privilegiam a individualização dos direitos, fala-se em

desregulamentação dos direitos e ruptura com a política de universalização dos direitos.

Em decorrência interroga-se se o Estado deve ou não se ocupar da educação, porque e

para que, se é necessário desenvolver responsabilidades compartidas, ou ainda, se a educação

está sendo privatizada ou semi-privatizada, contrariando toda a construção anterior. O que

torna o debate não apenas necessário, mas urgente.

Bibliografia:

ALVES, Gilberto Luis. As funções da escola pública de educação geral sob o imperialismo. São Paulo, Editora Novos Rumos, 1990, ano 5°, nº 16.

21 O Estado perdeu sua capacidade de regulação da economia por meio da alocação de fundos, indispensáveis tanto para a realização do capital como para a ampliação do trabalho e da renda (salários indiretos).

21

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