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Barbara Cartland

Barbara Cartland Coleção Barbara Cartland nº 193 Título original: Love is

Coleção Barbara Cartland nº 193

Título original: Love is invincible Copyright: Bárbara Cartland 1987 Tradução: Ercília Magalhães Costa Copyright para a língua portuguesa: 1988 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos.

Sua distribuição é livre e sua comercialização estritamente proibida.

Cultura: um bem universal.

Digitalização: Palas Atenéia Revisão: Palas Atenéia

“Você é minha! Estou disposto a lutar por você, a matar quem quiser tirá-la de mim!” O ardor, a violência e a sinceridade que havia na voz do marquês fizeram Lucille tremer de amor e prazer. Dominada por doce êxtase e arrebatamento, escondeu o rosto no peito dele, notando que seus corações batiam em um ritmo desvairado. Queria amá-lo, dizer que seria dele para sempre, mas tinha medo… medo de ser enganada por aquele homem rico, belo e poderoso. Sabia que o marquês não podia se casar com uma simples plebéia!

Nota da autora

A política vitoriana relativa à Índia era regida em grande parte pelo

temor que os ingleses tinham de que a Rússia pudesse invadir aquele país, principalmente através do ponto mais vulnerável da fronteira que ficava ao noroeste, na divisa com o Afeganistão — a passagem de Alexandre para a Índia.

O Afeganistão era um vizinho nada confiável, e os habitantes da região

da fronteira pertenciam a tribos de muçulmanos sem lei e sem lealdade a soberano algum, o que dificultava o estabelecimento de uma linha firme de

defesa. Por essa razão criou-se “O Grande Jogo”, ao qual todo inglês inteligente

e corajoso desejava pertencer, pelos riscos, pela excitação e pelo sigilo que envolviam as atividades da organização. Os russos avançavam inexoravelmente pelo leste e pelo sul, conquistando as tribos dos cãs da Ásia Central, uma após a outra, preparando o cerco da Índia. Eles já estavam construindo uma ferrovia através da Sibéria, até o Extremo Oriente; comentava-se, embora não se pudesse confirmar, que os russos também haviam iniciado a construção de outra ferrovia no Turquestão e que planejavam a anexação do Tibete.

A rainha Vitória preocupava-se muito com seu império e mantinha-se em

contato freqüente com o vice-rei.

Os britânicos foram estabelecendo suas tropas o mais perto dos russos

quanto lhes foi possível e pensavam que seria necessária a posse do

Afeganistão.

O exército britânico na Índia, sobre o qual Kipling escreveu tão

magistralmente, teve sua fama legendária nascida nas rochas e nas barrancas dos rios do noroeste, onde as tribos selvagens montavam emboscadas atrás de cada pedra. Além das tribos selvagens, pairava o perigo representado pelos afegãos e, atrás de todos esses, achavam-se os russos.

CAPÍTULO I

1887

Cavalgando rapidamente, Lucille aproximou-se da cerca e fez seu cavalo saltá-la em grande estilo. Dando umas palmadinhas no pescoço do animal,

exclamou:

— É mesmo um bom menino! Sinto-me bastante orgulhosa de você!

Puxando as rédeas, fez o cavalo ir parando gradativamente. Naquele instante, um belo e elegante cavalheiro, que se achava ao abrigo de umas árvores, montado em seu garboso garanhão, aproximou-se e tirou o chapéu de copa alta, ao dizer:

— Permita-me cumprimentá-la pelo que acabo de presenciar! Eu pensava, exatamente, em fazer meu cavalo saltar aquela cerca, mas receio que não o faríamos com tanto brilhantismo. Lucille constatou que, afinal, achava-se diante do marquês de Shawforde

e sorriu para ele.

O marquês notou as duas covinhas que se formaram aos lados da boca

da jovem, que era, na verdade, uma das mais bonitas que ele já encontrara.

Naquele traje de montaria verde, com os cabelos loiros brilhando ao sol, os olhos límpidos como um regato das montanhas, ela era uma criaturinha fantástica. Devia ser uma visitante àquela parte do país. Depois de um instante, Lucille disse:

— Estou esperando para ver sua proeza, marquês. O marquês ergueu as

sobrancelhas.

Se já me conhece, deve apresentar-se.

Meu nome é Lucille Winterton. Ele pareceu ficar pensativo.

Não a vi em Londres, pois, se a tivesse visto, não teria esquecido suas

feições.

Não me viu em Londres pela simples razão de que nunca estive nessa

cidade.

Mora aqui? — ele perguntou, incrédulo.

Moro além da vila, perto do portão principal de sua propriedade.

Então não a perderei.

Lucille riu, achando o marquês um tanto presunçoso. Ele conduziu seu

cavalo para mais perto dela ao dizer:

— Deve estar ciente de que se acha cavalgando em minha propriedade,

e não é correto fazê-lo sem autorização.

— A propriedade é mesmo sua. Mas esta parte, exatamente, tem sido

usada há anos, senão há séculos pelo pessoal do lugar como pista de corrida. Não só os moradores da vila, como os de todo o condado, cavalgam, fazem corridas, praticam saltos com obstáculos aqui. Dando uma rápida olhada para ver a reação do marquês, ela

acrescentou:

Se proibir que venhamos a este lugar, haverá uma revolução.

O

marquês riu.

— Prometo não proibir nada, especialmente depois de encontrar aqui,

nesta manhã, alguém como você. Os olhos de Lucille brilharam, e não lhe passou despercebido que ele acentuara a palavra “você”.

— Nem imagina como todo o pessoal da redondeza vai invejar-me!

— Por que a invejariam?

— Porque todos gostariam de conhecê-lo. Também sei que ficaram

desapontados por não terem sido convidados para as festas grandiosas que oferece na mansão. O marquês não pôde evitar o riso.

— Esperavam que eu fizesse uma coisa dessas?

— Naturalmente. Todos esperavam que o novo herdeiro desta vasta

propriedade mudasse um pouco os costumes na Casa Grande, mas seus

vizinhos perceberam que tudo continua como antes e que eles não são ao menos notados.

— Bem, isso pode ser remediado. Quando poderá jantar comigo?

— Agora está me deixando embaraçada. Faz-me sentir como se estivesse tentando obter um convite.

— Ora, está sendo convidada para um jantar, e não importa se forçou ou não tal convite. Ele olhou-a demorada e atentamente como se duvidasse de que fosse real; em seguida perguntou-lhe:

— Há outras jovens lindas como você morando tão perto dos portões de minha propriedade? Mal posso acreditar!

— Terá de descobrir por si mesmo — respondeu Lucille, sorrindo. —

Tudo o que desejo fazer agora é partir a galope e contar lá em casa que o

conheci!

Vai partir assim, deixando-me com a sensação de ter-me comportado

mal?

E comportou-se mal!

O marquês riu novamente, mostrando-se, ao mesmo tempo, surpreso. Lucille era a jovem mais linda que já havia conhecido, fosse em Londres ou em qualquer outro lugar. Ela também era diferente das garotas caladas e insípidas que ele procurava evitar nas festas e bailes aos quais comparecia.

— Vai responder se aceita meu convite para jantar? — ele perguntou em

voz alta. Lucille desviou o olhar ao dizer:

— Duvido que me deixem aceitar um convite desses.

— E quem iria impedi-la de aceitá-lo?

— Minha irmã. E, se papai fosse vivo, também me faria recusá-lo.

— Por quê?

— Papai nunca aprovou o modo como o falecido marquês, pai de Vossa

Senhoria, tratava as pessoas mais pobres. Quanto a minha irmã, esta

considera um insulto as festas que têm sido realizadas na mansão.

— Um insulto?! — o marquês não escondeu sua surpresa. — Mas o que

ela sabe sobre tais festas? Lucille riu.

— Naturalmente não ignora, meu senhor, que tudo o que acontece no

que o povo chama de “Casa Grande”, fica sendo do conhecimento dos moradores da vila, e as notícias espalham-se pelo condado como se voassem

nas asas do vento.

— Não tinha a menor idéia de que isso acontecesse.

— Bem, até a sua chegada à mansão, não havia muito para se comentar

— disse ela com franqueza. — Acredito que os rumores que circulam pela vila

tenham fundamento. Ela estava pensando nos criados mais novos que haviam começado a trabalhar na mansão desde que o marquês a herdara e que eram, em sua maioria, rapazes e moças da vila. Eles costumavam comentar o que se

passava na Casa Grande, deixando os ouvintes em permanente estado de choque.

O último marquês estivera doente por um longo tempo, e a mansão

permanecera durante anos mergulhada na tristeza. Quando ele morreu, os

moradores do condado compareceram, em peso, às cerimônias fúnebres realizadas na igreja da vila, que ocupava um canto do parque, e acompanharam-no à última morada, no cemitério ao lado da igreja, onde também haviam sido enterrados outros membros da família Shaw. A morte do quarto marquês parecia ter marcado o final de uma era.

Os moradores do lugar imaginavam, otimistas, que tudo iria melhorar daí para diante. Assim, não se achavam preparados para o impacto causado pela chegada do jovem quinto marquês. Seis meses depois da morte do pai, ele ofereceu sua primeira festa, enchendo a mansão com seus amigos de Londres.

O pessoal da vila desculpou a atitude do marquês, achando que era

natural ele querer divertir-se, ter a companhia dos amigos e das lindas mulheres e reabrir o imenso salão de baile que ficara tantos anos fechado. Na verdade ninguém esperava que, sendo jovem, o marquês tivesse o mesmo comportamento do pai, velho e doente.

— Mas festa é uma coisa, e orgia é outra, completamente diversa! — comentara acidamente a sra. Geary, dona da mercearia. Todos haviam concordado com ela.

E os comentários fervilhavam: dizia-se que os cavalheiros bebiam

demais, as mulheres, de rosto muito pintado e lábios carmesins, tomavam parte nas brincadeiras barulhentas. Convidados escorregavam pelos corrimãos das escadas, e houve até quem dançasse no telhado, ao luar.

Em cochichos escandalizados espalhava-se que muitas mulheres dançavam apenas de camisola! Nos amplos salões, depois do jantar, uma das brincadeiras prediletas era a da caça à raposa, e os cavalheiros, depois de fazerem ecoar as trompas de caça, saíam ao encalço das “raposas”, no caso as mulheres presentes à festa. Cada uma delas procurava um bom esconderijo e quando capturada passava a “pertencer” ao cavalheiro que a apanhasse. O que acontecia depois da captura, era repetido com bastante reserva por ser altamente impróprio para os ouvidos de qualquer jovem, exceto para os das filhas do coronel Winterton.

O coronel Robert Winterton, descendente de famílias ilustres, possuía

uma grande propriedade rural, no entanto, não tão vasta quanto a do

marquês, seu vizinho. A família Winterton morava no solar de Little Bunbury há mais de um século, mas o velho solar era bem mais antigo.

A vinda do novo marquês de Shawforde, o quinto na linha de sucessão,

havia causado grande alegria em Little Bunbury. Todavia, até o momento,

ninguém na vila o conhecia pessoalmente, pois ele não passara nem mesmo a infância na mansão Shaw.

A razão daquele afastamento foi que seus pais se separaram quando ele

era ainda muito novo. Não querendo divorciar-se, por achar o divórcio uma vulgaridade, o quarto marquês aceitou apenas a separação, indo a marquesa morar com os pais e o filho no norte da Inglaterra.

O marquês era um diplomata e trabalhara em embaixadas do Extremo Oriente. Quando vinha à Inglaterra ficava por um breve período na mansão da família, onde também moravam duas tias solteironas. Com o passar do tempo,

os três foram ficando cada vez mais velhos, e a mansão parecia um asilo.

Assim, a chegada do novo marquês era esperada com ansiedade pelo povo de Little Bunbury. Naturalmente, comentários sobre ele não faltavam. Dizia-se que era extremamente bonito, que adorava a vida noturna e que possuía excelentes cães de caça, os quais dominava com grande perícia.

Durante a temporada, Lucille ficou sabendo que o marquês havia aberto o pavilhão de caça em Leicestershire, levando a mais seleta matilha de cães de que se tinha conhecimento no condado. Um lugar pequeno e despretensioso como Little Bunbury, em Hertfordshire, não poderia interessar ao jovem marquês. Seus moradores tiveram de esperar mês após mês, resignadamente, que

o senhor da Casa Grande, proprietário de quase tudo naquele lugar,

aparecesse.

Mas o marquês, considerando a pequena distância em que a mansão se achava de Londres, reservou o lugar para os fins de semana.

A primeira festa oferecida pelo jovem marquês foi esperada na vila com

entusiasmo. Alguns dos moradores e arrendatários até mesmo pensaram que

seriam convidados. Os fazendeiros, por sua vez, queriam pôr o marquês a par das colheitas

e das plantações; os pastores desejavam falar sobre os rebanhos, os

cavalariços, cansados da inatividade, sonhavam com as baias todas cheias de puros-sangues.

O sonho destes últimos foi o primeiro a tornar-se realidade. Lucille ouvira

extasiada a descrição que lhe haviam feito sobre os cavalos árabes trazidos

para os estábulos da mansão. Ela havia imaginado a soma astronômica gasta em cada um dos soberbos animais. Sem dizer nada a Delia, sua irmã, Lucille fora até a mansão assim que soubera que o marquês havia voltado para Londres. Ela conhecia Hanson, que

quarenta anos era cavalariço na mansão Shaw e convenceu-o a mostrar-lhe

os

novos puros-sangues. — São absolutamente magníficos, Delia — ela dissera à irmã, ao voltar

para casa. — Nunca vi cavalos tão maravilhosos!

Como resultado, ouvira da irmã a maior repreensão por ter ido à Casa Grande sem ser convidada.

A partir daquele dia, passou a ir à mansão sem contar nada à irmã.

Agora, vendo o marquês montado em um dos cavalos que tanto havia admirado, ela disse:

— Que tal apostarmos uma corrida? Poderemos começar lá no fim da

pista, daremos três saltos naqueles obstáculos e voltaremos, indo até a moita

de rododendros. Enquanto falava, ela indicava o caminho com a mão.

— E qual seria o prêmio para o vencedor?

— Dar uma volta em um dos seus cavalos!

— Posso pensar em algo muito melhor, mas só direi depois que eu tiver ganhado a corrida.

— Não conte com a vitória antecipadamente!

Ambos tomaram suas posições e partiram para o que Lucille considerou uma corrida excitante. Ao saltar o último obstáculo, mesmo estando atrás do marquês, achou que nunca se divertira tanto.

O galope até o marco de chegada havia sido desenfreado. Os dois

contiveram seus animais rindo descontraidamente.

— Você monta melhor do que qualquer mulher que eu conheço!

— Obrigada — respondeu Lucille, ofegante —, mas minha irmã cavalga muito melhor do que eu!

— Mas, se me disser que ela é mais bonita do que você, não acreditarei.

— Ela é mais bonita! Talvez um dia se digne a conhecê-la.

— Está dizendo que eu já deveria ter ido visitá-las? Lucille riu.

— É o que esperam quase todos os seus vizinhos.

— Vejo que voltamos ao mesmo ponto. Mas depois de ter conhecido você, apreciarei seguir sua sugestão.

— Talvez eu deva lembrá-lo, meu senhor, de que não fomos

apresentados formalmente — observou Lucille de modo um tanto afetado.

— É muito tarde para isso. Mas tendo eu vencido a corrida, você me

deve um prêmio. Direi qual será esse prêmio quando vier jantar comigo esta

noite.

— Vai mesmo oferecer outra festa?

— Na verdade, minha intenção era voltar para Londres, mas, se aceitar jantar comigo, nada me fará deixar a mansão!

— Está sugerindo que… jantaremos… a sós? — perguntou Lucille com os olhos arregalados.

— Naturalmente! Tenho tantas coisas para dizer-lhe, e isso seria

impossível fazer em meio a uma porção de pessoas.

— Agradeço muito a Vossa Senhoria pelo amável convite, mas lamento informá-lo de que tenho um compromisso.

— O que quer dizer com isso?

— Se quer mesmo saber o motivo de minha recusa, devo ser franca:

jamais, em circunstância alguma, eu teria permissão de jantar sozinha com o

tão falado marquês de Shawforde!

— Ora, quanta bobagem! Eu desejo vê-la!

Lucille preferiu não responder. O marquês não se conteve e, cavalgando ao lado dela, perguntou-lhe:

— Está mesmo falando a sério? Não posso tê-la como convidada para o

jantar esta noite? Lucille olhou altivamente para o marquês por baixo dos longos cílios, muito escuros, contrastando com os cabelos loiros.

— Asseguro-lhe que, se estiver interessado, irá descobrir que sua fama é

tal que mães escondem as filhas e maridos trancam as esposas assim que ouvem falar que Vossa Senhoria está por perto!

O

marquês jogou a cabeça para trás, dando uma boa risada.

É mesmo tão ruim a minha fama?

Até pior — respondeu ela com franqueza.

O

marquês puxou as rédeas de seu cavalo e Lucille, automaticamente,

fez o mesmo.

— Então o que iremos fazer? Você sabe, Lucille, desejo vê-la novamente. Por um momento seus olhos se encontraram, sendo-lhes difícil afastá-

los.

— Acho que é problema seu. Até logo, meu senhor, e obrigada!

Antes mesmo de o marquês perceber o que Lucille fazia, ela tocou levemente seu cavalo com o chicote e afastou-se a galope. Ele seguiu-a com o olhar, notando como se desviava agilmente dos

galhos das árvores, parecendo conhecer muito bem aquele caminho que conduzia a uma das entradas da vila. Era aquele o atalho mais curto até o lugar conhecido por todos como “pista de corrida”.

O marquês esperou Lucille sumir de vista. Em seguida foi cavalgando a

passo lento através do parque, em direção a sua casa.

Chegando ao solar, Lucille foi diretamente ao estábulo. Um cavalariço correu ao seu encontro para segurar o cavalo.

— Fez um bom passeio, srta. Lucille?

— Maravilhoso! Andorinha saltou todos os obstáculos, e estou decidida a tomar parte na próxima corrida de steeple-chase.

— Deve mesmo fazer isso, srta. Lucille.

Ela sorriu e correu para o solar, que era um prédio muito bonito, cuja construção datava da época da dinastia Tudor. Todos os moradores do solar haviam feito alguma melhoria no prédio desde então. A própria mãe de Lucille havia redecorado completamente a residência assim que viera morar ali, logo depois de casada. Nos anos seguintes poucas alterações ocorreram no solar. Lucille entrou correndo no grande salão, no andar térreo, o qual abria-se para o jardim de rosas com seu relógio de sol no centro. Delia encontrava-se no salão arrumando os primeiros botões que haviam sido colhidos na roseira favorita da mãe. Ela ergueu a cabeça para olhar a irmã, que acabava de entrar com o costumeiro entusiasmo. Era impressionante a semelhança entre as duas moças. Mas, quanto ao caráter e à personalidade, eram bem diferentes. Um bom observador, porém, notaria nos olhos e na aura de cada uma das irmãs a diferença que havia entre ambas.

Delia também era loira, mas seus olhos eram cinzentos. Havia algo de etéreo em sua figura, o que lhe conferia um ar reservado e ao mesmo tempo espiritual. Delia era linda! Lucille era exuberante, risonha e sua beleza tão evidente quanto um raio de sol, tão radiosa quanto um céu sem nuvens.

— Delia! Delia! O que você acha? — gritou Lucille. — Conheci o marquês! Delia ficou ereta, retendo na mão um botão de rosa entreaberto.

— O marquês? Onde o encontrou?

— Na pista de corrida. Oh, ele é tão extraordinariamente bonito, absolutamente encantador!

— Você conversou com ele?

— Claro! Também cavalgamos juntos e ele ganhou a corrida de

obstáculos. Montava o cavalo mais fantástico que se possa imaginar! Só

poderia ser mesmo o vencedor!

— Acho que deveria ter-lhe recomendado para não ir cavalgar no parque estando o marquês na mansão — disse Delia vagarosamente.

— Sabe muito bem que não há outro lugar onde se possa cavalgar. De

qualquer forma, teríamos de acabar conhecendo o marquês, mais cedo ou mais tarde. Eu lhe disse que ele poderia ter-nos feito uma visita.

— Lucille! Não acredito que tenha feito isso!

— Mas fiz. Ele me convidou para jantar. Delia deu um pequeno grito de

horror.

— Ouça, Lucille. Não toquei nesse assunto antes por achar improvável que viesse algum dia a encontrar-se com o marquês. Mas, agora que até já falou com ele, devo dizer-lhe que nunca mais repita o que fez hoje.

— Por quê?

— Sabe a resposta tão bem quanto eu. O comportamento dele tem sido

reprovável, e todos no condado ficaram chocados ao ouvirem os comentários sobre suas festas.

— Se você nunca esteve presente a nenhuma dessas festas, não pode

afirmar que os rumores que correm na vila sejam verdadeiros. E se forem um

amontoado de mentiras?

— Acredito que há exagero e muita fantasia no que dizem. Ao mesmo

tempo, pessoas que o conhecem afirmam que o comportamento dele em Londres é, da mesma forma, desabonador.

— Bem, eu, pessoalmente, achei o marquês verdadeiramente adorável! — O tom de Lucille era provocador.

— Minha querida, na minha opinião você não tem experiência alguma para poder julgar um homem desse tipo.

— Quero jantar com ele.

— Impossível! Completa e absolutamente impossível! Papai ficaria horrorizado.

— Você alega que o comportamento dele é reprovável. Talvez eu possa persuadi-lo a comportar-se melhor. O riso cristalino de Delia ecoou na sala.

— Agora minha irmã está querendo representar o papel de uma das

heroínas dos ridículos romances que lê!

— Por quê?

— Porque elas sempre conseguem “reformar o libertino”, o qual, da noite

para o dia se transforma, passa a ter um comportamento exemplar e não volta

a pecar. Pois fique sabendo que isso não acontece na vida real.

— Tenho certeza de que acontece, só que não ficamos sabendo que aconteceu.

— O meu receio é que a vida prove o quanto se engana. Mas, de qualquer forma, a resposta é “não”!

— Agora está sendo injusta e odiosa! Eu adoraria ir jantar com o

marquês na mansão, pelo menos poderia ver as mudanças que ele fez na casa

desde que passou a morar ali.

— E causar um escândalo em todo o condado? Você vai começar a

freqüentar festas este ano, e é muito importante, querida, que cause boa impressão. Se tiver má reputação, duvido que as mães das jovens de sua

idade irão convidá-la para festas e bailes. A expressão no rosto de Lucille revelava que ela reconhecia ser verdade

tudo o que a irmã lhe dizia. Delia pôs o vaso sobre a mesa e foi sentar-se ao lado da irmã mais nova.

— Ouça, minha querida. Sei que ficou frustrada por não poder ser

apresentada na corte, na primavera, por ainda estarmos de luto pela morte de

papai. Mas a sua madrinha prometeu oferecer-lhe um baile, em outubro. A partir daí poderá aceitar outros convites, que sei que serão muitos.

— Enquanto isso, eu fico conversando com as paredes! — replicou

Lucille, zangada.

— É claro que poderá fazer alguma coisa um pouco melhor, não? Mas eu

gostaria de discutir com você a respeito de alguns jantares que poderíamos oferecer.

— Posso convidar o marquês?

— Não!

— Por que não? Afinal ele é nosso vizinho!

Delia levantou-se e foi até a lareira, caminhando com graça.

— Você sabe o quanto detesto falatórios e também não ignora como Flô e as outras criadas são mexeriqueiras.

Lucille concordava com a irmã naquele ponto. Flô morava na vila e toda manhã chegava no solar falando sobre os mais recentes mexericos. E quando começava a falar nada conseguia fazê-la parar.

— Flô disse — continuou Delia — que o marquês, além de estar

envolvido com lady Swinneton, famosa por sua beleza, está noivo de uma jovem muito importante e pretende se casar.

— Noivo e prestes a se casar?

— Não prestei muita atenção, mas parece que a noiva é filha de um

duque.

Depois de ficar algum tempo em silêncio, Lucille disse com voz sumida:

— O que está querendo dizer, na verdade, é que ele não estaria nada

interessado em uma garota da vila. Acho que um outro cavalheiro poderá interessar-se por você, querida. Você é muito, muito bonita, além de ser uma pessoa alegre. Mas sabe que o marquês jamais pensará em tê-la como esposa.

— Por que não? — perguntou Lucille bruscamente.

— Porque, querida irmã, entre aristocratas, sangue azul só se casa com sangue azul e em geral os casamentos entre eles são arranjados.

— Então para casar-me com um marquês meu pai teria de ser também

um marquês ou, melhor ainda, um duque!

— Exatamente. E a noiva certa é muito importante para o casamento ser

feliz.

— Como assim?

— No caso do marquês, por exemplo, sua mãe era muito rica e herdeira

de grande fortuna, mas o casamento não foi feliz.

— O que houve de errado nesse casamento, para haver a separação dos

dois?

— Honestamente, não sei. Papai costumava dizer que o falecido marquês era um homem obstinado e desagradável. Lucille emitiu um som revelador de toda a sua exasperação.

— É engraçado. Vivo sentadinha nesta casa sem ter o que fazer ou com quem conversar. E quando conheço um homem bonito, encantador, vem alguém e me diz para me afastar e que nada tenho a ver com ele!

— Sinto muito, querida, mas faço isso porque a amo e desejo que seu

début seja um sucesso. Não vai ser o marquês ou qualquer outra pessoa que irá estragar tudo.

Lucille levantou-se da cadeira na qual se jogara.

— Compreendo, Delia. Pode acreditar nisso! Sei que só pensa no meu

bem. Mas deve reconhecer que há uma escassez de homens nesta parte do mundo, no momento. — Com voz sarcástica, ela continuou: — Os que são jovens como eu não têm uma boa conversa; os outros são velhos como Matusalém. Delia riu.

— Tudo vai ser diferente quando for para Londres. Agora, por favor,

querida, seja sensata! Você sabe tão bem quanto eu que qualquer relacionamento com o marquês de Shawforde não será bem recebido nos melhores círculos. Sem poder evitá-lo, Lucille começou a rir.

— Suponho que os “melhores círculos” serão pomposos, críticos e muito,

muito enfadonhos. Sinto-me inclinada a arriscar-, me e escolher o marquês, assim me divertirei mais.

— Oh, Lucille, por favor! — suplicou Delia.

Mas a irmã já havia saído do salão. Delia ouviu apenas seus passos no

hall.

Ela suspirou e terminou de arrumar as flores. Felizmente uma prima delas viria para o solar servir-lhes de chaperon e, quanto mais cedo aquilo acontecesse, melhor. Depois da morte do pai, Delia achou que não havia necessidade de uma mulher mais velha para fazer-lhes companhia. Agora, tendo Lucille permanentemente em casa, pois não voltaria para o colégio, a presença da velha prima no solar seria não apenas útil, mas necessária. Nos dois últimos anos Delia cuidara do pai devotadamente, o que significou para ela o afastamento de qualquer atividade social, não teve nem mesmo seu début. Os bailes e festas programados especialmente para ela não aconteceram por causa da doença do pai. Delia iria fazer vinte e um anos e achou que já tinha idade suficiente para cuidar da impetuosa irmã sem precisar de assistência. Mas agora não tinha certeza daquilo. Ela sabia que Lucille era, sem dúvida, adorável e que os homens sentir- se-iam atraídos por ela assim que a vissem. Além disso, Lucille recebera educação esmerada no colégio para moças que freqüentara, na França, o que eliminara toda a timidez que porventura lhe

restasse e lhe dera um porte altivo, cultura e refinamento que as jovens inglesas em geral não possuíam. “Ela será um tremendo sucesso em Londres”, pensou Delia, confiante. Delia cuidara do pai durante tanto tempo que nem pensava em ter ela própria uma vida social. Sua preocupação era que a irmã tivesse as chances que ela não tivera e que brilhasse nas festas e bailes. Para ver seu sonho realizado, não permitiria que Lucille se envolvesse com um homem cujo comportamento era reprovado, não apenas em Little Bunbury, mas também em Londres. Delia não teria tanta convicção sobre o mau comportamento do marquês se não tivesse recebido uma carta de uma das primas de Londres contando horrores sobre ele. A finalidade da carta era informar Delia sobre os preparativos para a ida de Lucille a Londres. Porém, entre outras coisas, a prima havia escrito:

“… claro, farei o que for possível pela prima Lucille. Mas fique tranqüila, pois não pode haver melhor chaperon para ela do que lady Morgan, a quem todos admiram e que oferece festas maravilhosas. Fui convidada para apenas uma dessas festas, mas jamais esquecerei aquela noite. Os convidados eram pessoas agradáveis e distintas, e conheci um fascinante príncipe espanhol. Infelizmente, vim a saber, mais tarde, que o príncipe tinha uma péssima reputação. Falarei sobre isso em outra ocasião. Por falar em reputação, devo também dizer-lhe que seu vizinho, o marquês de Shawforde, conseguiu deixar chocada toda a nossa sociedade. Contam até que todas as mais importantes anfitriãs pensam em riscar- lhe o nome das listas de convidados. Isso, no entanto, não irá aborrecê-lo, tampouco preocupará a sociedade frívola na qual ele circula. Tem havido muitos comentários sobre um envolvimento entre ele e lady Swinneton, uma linda mulher cuja beleza atrai uma pequena multidão para Rotten Row, no Hyde Park, quando ela cavalga ali. Correm rumores de que lorde Swinneton pretende duelar com o marquês, mas, como sabe, o duelo é proibido por lei. Mas lady Swinneton não é a única! Comenta-se que Sua Senhoria entrou, pela janela, no quarto de certa lady, muito linda e importante e descobriu que ela não se achava sozinha! Contarei mais quando nos encontrarmos. Enquanto isso, diga a Lucille que já estou pensando em algum cavalheiro elegante e atraente para ser seu par.

Envio a vocês, queridas primas, todo o meu carinho…”

Depois de ter lido a carta, Delia ficara contente ao saber que Lucille estaria muito bem quando fosse para Londres. Ao mesmo tempo ela só poderia lamentar a irresponsabilidade do seu vizinho. Havia tantas coisas que precisavam ser feitas na vila! O velho marquês além de ser uma pessoa desagradável, jamais gostara de gastar a menor quantia que fosse para fazer uma benfeitoria para os que trabalhavam em suas terras. O novo herdeiro do título fora tão esperado! Sonhavam que ele fosse diferente e que se interessasse pela propriedade e pelo bem-estar de tantas

famílias que serviam na Casa Grande há muitas gerações. Aquele povo precisava de um incentivo, de alguém que se preocupasse com seu modo de vida, com o que comiam, com o que produziam. Afinal, a vida no campo era árdua, incerta e precária. Ninguém podia prever se o tempo seria favorável ou se arruinaria a colheita. Poderia haver nevascas na primavera, matando os cordeiros recém-nascidos. A seca ou chuva em demasia eram igualmente desastrosas. Mesmo o mais experiente e habilidoso fazendeiro, sitiante ou arrendatário, gostava que o senhor das terras estivesse a par dos seus problemas e lhes desse apoio. Mas ninguém conseguiria fazer com que um homem ainda jovem e amante dos prazeres viesse a interessar-se por sua propriedade e pelos que nela labutavam. Delia voltou a pensar na irmã. Precisava cuidar dela. Jamais havia pensado que o marquês pudesse interferir em suas vidas calmas e sem incidentes. “Se o marquês resolver ficar na Casa Grande, preciso levar Lucille para longe”, pensou Delia, decidida. Em seguida, achou que estava “pintando as coisas mais pretas do que realmente eram”. Flô havia dito que todos os convidados do marquês haviam partido, e ele, naturalmente, não ficaria sozinho na mansão. Mas parecia-lhe estranho o fato de o marquês ter convidado Lucille para jantar. Um cavalheiro não faria tal convite a uma garota inocente. Delia assustou-se com seus pensamentos. Saindo do salão, subiu depressa as escadas, indo ao encontro de Lucille.

CAPÍTULO II

Montando seu cavalo, Lucille começou a subir lentamente a encosta íngreme que conduzia ao belvedere. Este ficava no alto da colina e dali avistava-se toda a imensa propriedade do marquês.

O belvedere havia sido construído pelo segundo marquês de Shawforde,

famoso por sua excentricidade. Era um lugar aprazível com um pavilhão em estilo oriental feito de alvenaria e treliça, tendo no centro uma estátua de

Krishna, o deus indiano do amor. A parte superior do pavilhão era uma torre bem alta e estreita quase como a de um farol. As crianças das várias gerações adoravam ir até o belvedere, onde brincavam de esconde-esconde entre os arbustos que o circundavam e depois subiam a escada em caracol com degraus de pedra e deleitavam-se com a vista panorâmica dos arredores. Apesar da proibição de Delia, Lucille havia encontrado o marquês novamente, diversas vezes, na pista de corrida. Na manhã anterior ele havia sugerido:

— Já que não aceitou meu convite para jantar, poderemos almoçar

juntos, sozinhos, sem ninguém saber que nos encontramos.

— Irei considerá-lo esperto demais se conseguir encontrar um lugar

sossegado nos arredores, sem ter ninguém bisbilhotando — respondera Lucille,

olhando sobre os ombros, apreensiva.

— Já escolhi o lugar: é o belvedere.

Ela olhou surpresa para o marquês, em cujo rosto havia um sorriso triunfal, depois disse alegremente. — É uma boa idéia!

— Meu pai manteve o lugar fechado para o público em geral, o que

causou grande descontentamento na vila. Portanto, ali ficaremos a sós.

Tem razão, mas não posso aceitar, novamente, o convite.

O

marquês insistiu, argumentou que se encontrariam bem cedo na pista

de corrida, e Lucille, achando impossível dizer “não”, acabou cedendo. Ficou combinado que ela viria pela manhã, como costumava fazer, à pista de corrida e “casualmente” encontraria o marquês. Delia havia voltado a censurar o vizinho e, com grande firmeza e eloqüência, deixara bem claro que a irmã não podia, em hipótese alguma, vê- lo novamente, mantendo-se assim a salvo de seus ardis. Lucille não se deixara convencer e depois que a irmã saíra, sentada na sala, pensava no quanto o marquês era bonito e divertido. No colégio as colegas costumavam contar, depois das férias, os incidentes românticos que lhes haviam acontecido. Lucille achava aborrecido ter de ouvir as narrativas das colegas empolgadas e manter-se calada, pois nada havia de interessante em Little Bunbury ou em suas redondezas. E agora, que teria tanto o que contar sobre o marquês, fazendo inveja às colegas, não voltaria para o colégio. “Vou voltar a Vê-lo”, ela pensou, à noite, no escuro de seu quarto. Com um sentimento de rebeldia avolumando-se dentro do peito, adormeceu. Lucille acordou bem mais cedo do que costumava e não conseguiu

permanecer na cama. Lá fora, a manhã mostrava-se radiosa, e os pássaros cantavam. Ela estava decidida a montar Andorinha e praticar saltos de obstáculos. “Não é porque Delia me proíbe de ver o marquês que vou arriscar-me a não vencer a corrida de steeple-chase!”, ela pensou. Participavam daquela corrida os fazendeiros, arrendatários e senhores de terras. Havia também a modalidade feminina, que contava com excelentes competidoras. Naquele ano Lucille estava determinada a ser a vencedora. Ela levantou-se, vestiu depressa uma blusa e a saia de montaria. Não vestiu o casaco por achar que estava calor. Para não usar chapéu ela fez uma longa trança com os cabelos e enrolou-a na nuca, formando um coque, tendo o cuidado de prendê-lo bem. Mal olhando-se no espelho desceu depressa as escadas, o mais silenciosamente possível para não acordar Delia. Se aquilo acontecesse, iria ouvir uma vez mais as recomendações insistentes para não ver o perigoso marquês. As palavras da irmã martelavam ainda em seus ouvidos:

“Se, por acaso encontrá-lo, seja educada, mas volte para casa imediatamente”. Mas certamente não iria encontrar o marquês àquela hora da manhã,

Lucille pensou. Todavia alimentava um irresistível desejo de vê-lo no parque.

E

não ficou desapontada.

O

marquês já se achava na pista de corrida do parque, esperando por

ela.

Vendo Lucille cavalgando ao seu encontro, ele tirou depressa o chapéu; ela achou-o ainda mais lindo.

— Não esperava vê-lo aqui tão cedo!

— Sabia disso. Eu precisava ver você. Tinha de vê-la!

Os dois olharam-se por um momento; não havia necessidade de palavras. Com esforço, Lucille desviou o olhar.

— Minha irmã insiste em me proibir de encontrá-lo.

— Já esperava por isso, mas sabe que temos necessidade de nos ver.

— Eu não devo desobedecê-la.

— Por que diz tal absurdo?

— Delia disse que não posso arruinar minha reputação e que, quando eu for a Londres, ninguém me convidará para bailes.

O marquês ficou calado por um instante, depois perguntou:

— E você, o que acha? Quer mesmo que eu me afaste? Lucille entreabriu

os lábios, prestes a dizer o que o cérebro lhe ordenava, mas, olhando fixamente para aquele homem fascinante à sua frente, sentiu-se perdida. — Então, escute. Não tenho a menor intenção de magoá-la nem de comprometê-la. Juro que não faria coisas desse tipo! Fiquei acordado a noite toda pensando em você e no desejo que sinto de continuar a vê-la. — Antes que Lucille pudesse contestar, ele prosseguiu: — Algo imperioso me faz vir até você; quero falar com você; quero olhar para você! Temos tanto o que descobrir um sobre o outro! Aquele modo sedutor de falar fez com que todos os bons propósitos de

Lucille lhe fugissem da cabeça. Ambos partiram a galope, apostando corrida. Depois de o marquês ter

ganhado duas vezes consecutivas, Lucille reclamou, alegando que o cavalo dele era muito melhor, e ambos trocaram de montaria. Daquela vez foi ela a vencedora. Apesar de sua vantagem ter sido apenas por um nariz, ela ficou exultante, imaginando que jamais experimentara tamanha emoção. Por prudência, o marquês propôs:

— Se vamos continuar a nos ver sem que você se arrisque a ouvir

repreensões, é melhor nos separarmos agora. Lucille ia demonstrar seu desalento com uma exclamação de tristeza, mas o marquês acrescentou:

— Mas preciso encontrá-la outra vez, ainda hoje. Onde nos veremos?

— Sei que minha irmã terá uma reunião na igreja às três e meia.

Assim os dois passaram a encontrar-se diariamente. Cavalgavam ao amanhecer do dia, certos de que não eram vistos. Sempre que era possível marcavam encontros à tarde, em um dos bosques mais densos da propriedade. Foi em um dos encontros que o marquês havia sugerido o almoço no

belvedere. Achando a idéia original e divertida, Lucille não recusara o convite. Para justificar sua saída, ela disse a Delia que iria fazer uma visita a uma amiga, a filha do delegado do condado. — Esse passeio vai fazer-lhe muito bem — havia dito a irmã. — Aproveite para convidar Eileen para o jantar de quarta-feira; poderemos reunir alguns amigos.

— Pode deixar que a convido.

— Acho que Timothy Bladen estará em casa na quarta — disse Delia,

pensativa. — Também poderemos convidá-lo. Delia não viu a careta que Lucille havia feito, pois achava-se entretida organizando uma lista dos rapazes que moravam nas redondezas, para convidá-los, com toda a certeza. Às onze e meia, vestindo seu melhor traje de montaria e usando chapéu para parecer mais formal, Lucille deixou o solar. Delia viu-a afastando-se, muito elegante e extremamente bonita. Pela primeira vez ocorreu-lhe que a irmã talvez não devesse ir fazer um passeio distante desacompanhada de um cavalariço. Lucille, porém, sempre cavalgava sozinha e os dois cavalariços que ainda mantinham na propriedade já estavam envelhecendo. E o mais importante era que naquele lugar tão pequeno, no campo, todas as pessoas eram conhecidas, tampouco havia necessidade de protocolo. “Lucille já é uma moça, e creio que precisarei contratar um cavalariço mais jovem”, pensou Delia. O pensamento foi apenas momentâneo, sendo esquecido assim que ela entrou na casa. Depois da morte da mãe, ficaram sob sua responsabilidade pequenas, porém inumeráveis, tarefas. Lucille cavalgara sem pressa. Tinha tempo de sobra para chegar até o belvedere e não queria ficar esperando pelo marquês. “Ele é quem deve esperar por mim”, pensou. Viera-lhe à mente o que uma de suas coleguinhas francesas, mais velha

do que ela, dissera certa vez, ensinando a como atrair um homem. “O maior erro que se pode cometer é dar a impressão de estar correndo

atrás de um homem; faça-o correr atrás de você! A mulher deve ser evasiva. Foi o que minha irmã me ensinou.” A irmã em questão era casada, mas o casamento havia sido arranjado pelos pais, e a verdade era que ela não amava o marido. Lucille lembrava-se de ter perguntado, depois de ouvir, fascinada, o que a colega contara.

— Está dizendo que, mesmo sendo casada, sua irmã tem admiradores

correndo atrás dela?

— Isso mesmo! — respondera a garota francesa. — Sua casa, em Paris,

está sempre cheia de rapazes que lhe escrevem poemas, pedem para as criadas entregarem-lhe cartas de amor e um deles até bateu-se em duelo porque um outro homem a insultou. Tudo o que ouvira lhe soara extraordinariamente romântico, mas Lucille nunca chegara a pensar que algum dia pudesse viver emoções daquela natureza. “Devo deixar bem evidente que não sou uma jovem leviana ou imoral, como as mulheres que, segundo Flô, o marquês costuma receber na mansão”, pensava ela durante o caminho. Não era nada difícil obter informações de Flô, que, quando encontrava uma ouvinte interessada, contava tudo o que ouvira, com detalhes. Mesmo subtraindo às narrativas vividas da criada uma boa porcentagem de exagero e imaginação, as festas oferecidas pelo marquês pareciam ser pelo menos bem tumultuadas e, inegavelmente, um contraste absoluto com a austeridade e pompa que sempre existiram na mansão. Lucille até compreendia que, sendo ainda jovem, o marquês gostasse de diversões e que pouco se importasse com o que o pessoal simples, do campo, pensasse dele. Ao mesmo tempo ela era bastante inteligente para não querer, nem por sombra, que ele a comparasse com qualquer uma das suas convidadas, mulheres que gostavam de dançar nos telhados, de camisola, e que se divertiam deslizando pelos corrimão das escadas, mostrando sem o menor recato uma boa parte das pernas. Tendo estudado em um colégio em Paris, Lucille podia imaginar, até muito melhor do que Delia, o que acontecia nas festas como as do marquês, consideradas indecorosas, às quais compareciam mulheres que ela imaginava serem uma versão inglesa das cortesãs francesas. Apesar de saberem muito pouco sobre tais impróprias criaturas e de ser proibido falar sobre elas, as internas do colégio iam aumentando cada vez mais seus conhecimentos, repetindo em discretos cochichos o que ouviam dos irmãos, primos, tios e até mesmo dos pais. Às vezes elas encontravam fotografias dessas mulheres em revistas e jornais. Sempre conseguiam levá-las para o colégio, às escondidas e as fotografias eram passadas a todas as amigas. Desse modo, Lucille sabia muito bem que havia uma linha divisória entre uma lady e uma cortesã e que ambas nunca poderiam estar ligadas. Subitamente ocorreu a Lucille o que Delia havia dito sobre o marquês estar noivo de uma jovem de família muito importante. Sendo assim, ela devia ter muito cuidado, comportar-se bem e mostrar que era uma lady.

Todavia, parecia-lhe impossível que o marquês pudesse pensar a respeito dela qualquer coisa que não fosse digna. Afinal el a era filha do coronel Winterton, um homem que tinha orgulho de seus antepassados.

O marquês de Shawforde, no entanto, na hierarquia nobiliárquica

achava-se a apenas um degrau de realeza. Era normal que considerasse qualquer pessoa hierarquicamente inferior de pouca importância.

Essa mesma atitude era comum entre os aristocratas franceses. Pelo menos metade das suas colegas do colégio certamente já haviam sido

destinadas a determinados maridos, escolhidos' de acordo com os interesses dos pais. Uma linhagem antiga não podia ser arruinada com sangue plebeu. Ao saber disso, Lucille achara que aquele era um costume estrangeiro e ficou chocada ao descobrir que o mesmo acontecia na Inglaterra.

Ao aproximar-se do belvedere, ela sentiu-se culpada por comportar-se

como uma colegial cabulando aulas e por enganar Delia, a quem tanto amava. No mesmo instante justificou-se, achando que não fazia nada errado e que tinha certeza de que seria tratada com todo o respeito pelo marquês. “Não há mal nenhum em passar algumas horas no campo em companhia de um cavalheiro agradável”, ela pensou, tentando aplacar a consciência. “Tenho tão pouca coisa para fazer até ir para Londres!” Subitamente seu coração deu um salto; reconheceu o cavalo amarrado a uma árvore. O marquês já havia chegado e certamente a observara o tempo todo enquanto subia a colina. Lucille fez o cavalo parar e viu o marquês surgir à sua frente, saindo do meio de uns arbustos.

Ele ergueu-a da sela, colocando-a no chão.

Um estremecimento percorreu-lhe todo o corpo. As mãos dele pareceram

segurá-la pela cintura por mais tempo do que o necessário.

— Você veio mesmo! Tive medo de que alguma coisa pudesse impedi-la.

— Detesto mentir, mas tive de fazê-lo.

— Está adorável! Tão adorável que chego a pensar que você não é real.

— Sou bem real e estou faminta! — disse Lucille sorrindo. — Estive

imaginando como você iria conseguir trazer nosso lanche para cá sem ninguém saber.

— Fui muito esperto — disse ele sem modéstia. — Avisei o mordomo de

que pretendia dar uma volta para explorar a propriedade e que queria levar um lanche comigo. Pedi-lhe que ordenasse ao chef para embalar o que tivéssemos de gostoso e em quantidade suficiente para eu repartir com algum fazendeiro ou outra pessoa com quem estivesse conversando no momento. Lucille riu, e ele acrescentou:

Vamos! Veja o que a espera e diga se não fui mesmo talentoso!

No

degrau de mármore sobre o qual Krishna dançava, estava espalhado

o que o marquês trouxera para aquele almoço no campo. Havia ali iguarias que ela certamente não teria comido ao almoço, no

solar. Além de uma grande variedade de queijos, Lucille viu caviar, patê de foie gras e aspic de galinha. O chef, obviamente, escolhera um lanche apropriado para um homem, não esquecendo uma garrafa de champanhe.

— Um banquete dos deuses! — exclamou Lucille.

— E também de uma deusa! — o marquês acrescentou. Lampejou pela

cabeça de Lucille que era assim que desejava que ele a imaginasse. Sentindo

calor, ela tirou o casaco e o chapéu.

O que fez desde que nos vimos pela última vez? — ela perguntou.

O

marquês a olhava fixamente e Lucille achou difícil falar sobre

frivolidades.

— Fiquei pensando o tempo todo em você e esperando encontrá-la aqui.

— Sinto-me lisonjeada, ao mesmo tempo espero que tenha dado atenção ao que lhe disse ontem.

— Sobre conhecer os fazendeiros e arrendatários e sobre interessar-me

pelos que trabalham em minhas terras? Se for isso, visitei um deles ainda esta manhã.

— É mesmo? Que bom!

— Estive com Jackson, um homem muito agradável. Ele falou-me sobre

seus problemas, e prometi-lhe mandar fazer os reparos necessários nas casas dos colonos e no telhado da casa dele.

— Que notícia maravilhosa! — exclamou Lucille juntando as mãos. —

Tenho certeza de que todos reconhecerão que têm agora um senhor de terras que se importa com eles. Mas há muitas outras coisas que exigem sua atenção. Lucille achou que havia sido bastante habilidosa em descobrir o que

precisava ser feito com mais urgência nas terras do marquês. Depois conseguira que ele se interessasse pelos que trabalhavam naquelas terras.

Já começava a colher os frutos de seu trabalho. O marquês mostrava

que podia ser um bom patrão e estava ficando mais tempo na Casa Grande.

Por intermédio de Flô, ela ficara sabendo que os criados da mansão estavam estranhando a atitude do marquês; ele parecia contente em permanecer ali sozinho, sem os amigos.

— A sra. Geary acha que ele está apaixonado — havia dito Flô. — Mas

certamente não escolherá para esposa nenhuma das criaturas que costuma receber na Casa Grande.

— Por que não? — perguntara Lucille, fingindo inocência.

— Porque essas mulheres não são do tipo de uma senhora distinta, como

sua mãe, por exemplo, gostaria que a filha viesse a conhecer. E é óbvio que

nenhum cavalheiro tem necessidade de se casar com uma mulher dessas. Mesmo sendo uma tagarela incorrigível, Flô percebera que havia sido

indiscreta demais e voltou a cuidar da limpeza da lareira, Agora, sentada no degrau inferior, Lucille perguntou:

— Podemos começar a nos servir? Confesso que estou com grande

apetite.

— Gostaria de poder pintar o seu retrato. Não me ocorreu que este lugar fosse tão apropriado para nosso encontro.

— Apropriado? Por quê? — ela perguntou, servindo-se dei um pouco de

caviar.

— Por que é o templo do deus do amor.

Lucille ergueu a cabeça e ficou olhando para o deus dançante, já um pouco danificado pela ação do tempo. Havia nele, porém, uma grande força expressiva. Observando-o, notava-se que ele personificava a alegria e a juventude,

qualidades que os hindus associavam ao deus Krishna.

— Talvez Krishna nos esteja dando a sua bênção — observou o marquês.

— Duvido. É bem mais provável que ele reprove meu modo de agir.

— Que tolice!

— Ontem à noite fiquei pensando durante muito tempo sobre o que Delia

me disse e achei que minha irmã tinha razão. Se qualquer um dos nossos

vizinhos souber que estive aqui com você, condenará meu comportamento.

Por que alguém deveria saber? Até mesmo as abelhas e os pássaros do campo podem ser

Por que alguém deveria saber? Até mesmo as abelhas e os pássaros do campo podem ser

bisbilhoteiros. Francamente, estou assustada.

— Está tentando dizer que não pretende mais me ver? — indagou o marquês, com um tom estranho de voz.

— Claro que desejo vê-lo. Seria muito aborrecido ficar neste lugarejo sem ter você por perto. Ao mesmo tempo, devemos ser práticos.

— Essa última palavra, sim, é extremamente aborrecida. Da mesma

categoria são: “sensato”, “razoável” e, claro, “fazer a obrigação”!

Sem poder evitá-lo, Lucille começou a rir.

Depois do delicioso lanche e de ter tomado um pouco de champanhe, ela sentia-se diferente. Estava decidida a apostar no futuro. Ela jogou as migalhas para os pássaros, enquanto o marquês atirou a garrafa de champanhe para bem longe, entre os arbustos, para não ser encontrada facilmente. Lucille foi apanhar o casaco e o chapéu; enquanto a acompanhava, o marquês lhe disse:

— Diga se gostou do nosso piquenique.

— Foi adorável!

— Poderemos fazer outro, qualquer dia destes?

Havia ansiedade na voz dele. Ela virou-se e ficou parada entre duas colunas, olhando para a paisagem ensolarada.

— Pensei que precisasse voltar para Londres.

— Não pretendo deixá-la!

Vendo que Lucille ficara em silêncio, ele exclamou:

— Oh, pelo amor de Deus, Lucille, sabe que estou apaixonado por você!

Não consigo pensar nada mais, a não ser você, e quando não se acha ao meu

lado fisicamente, fica dentro de mim, em minhas lembranças, em meus pensamentos! Lucille virou-se, lentamente.

— O que… está dizendo?

— Será que preciso repetir? Amo-a e desejo, como nunca desejei na vida, beijar você! Ele estendeu os braços, mas ela afastou-se.

— Não!

— Por que não?

— Porque… nunca fui beijada, mas sei… instintivamente que não devo fazer isso. Seria um erro.

— Um erro? Por quê?

— Estamos sozinhos aqui e… devo saber cuidar de mim mesma,

— Como pode dizer isso? Estou aqui e cuidarei de você. Prometo que

não a magoarei. Amo-a demais, Lucille, e tenho de vê-la! Tenho de estar com

você!

Mais uma vez ele tentou enlaçá-la em seus braços, mas viu-a escapar.

Então ela pegou a chapéu e o casaco, encaminhando-se para a porta. O marquês não a seguiu: ficou observando-a e, quando ela ia saindo, perguntou:

— Para onde você vai?

— Para casa.

— Por quê?

Lucille permaneceu um instante em silêncio, depois respondeu — Porque um sentimento que eu considerava apenas uma camaradagem, está… ficando sério… e isso é um engano.

— No que me diz respeito, não há engano, nenhum, e eu sei exatamente

que não está sendo sincera. Pensa numa coisa e diz outra. Ela ergueu os olhos e fitou-o. Durante alguns segundos, nenhum dos dois se mexeu, ficaram se olhando em silêncio. Em voz baixa e suave, o marquês disse:

— Nunca fiz isto antes em minha vida, mas vou pedir-lhe uma coisa, Lucille: quer ser minha esposa?

As portas duplas abriram-se e o mordomo anunciou:

— Lorde Kenyon Shaw, milady!

A condessa de Dulwich levantou-se com uma exclamação à alegria ao

ver o irmão entrando na sala.

— Kenyon! Só ontem à noite fiquei sabendo que se achava de volta e

nem tenho palavras para dizer-lhe o quanto estou feliz em vê-lo! Os dois irmãos estavam agora bem próximos, e lorde Kenyon beijou o rosto de Charlotte, dizendo com um sorriso:

— Recebi seu bilhete. Por que mandou me dizer que precisava ver-me

com urgência? O que aconteceu? Meu cunhado, a quem tenho em alta consideração, teria fugido com uma dançarina da noite?

— Ora, Kenyon, Lionel nem pensaria em fazer algo tão repreensível —

respondeu a condessa, parecendo chocada. Percebendo depois que o irmão

apenas a provocava, observou: — Está com uma ótima aparência, Kenyon, apenas um pouco magro. O que tem feito?

— Na verdade, tenho tido bastante serviço, por isso não pude vir antes.

E ainda sou obrigado a suportar o calor da Índia. Ele sentou-se em uma poltrona confortável enquanto falava. A condessa

observava o irmão, achando que seria impossível um homem ser mais bonito ou atraente do que ele.

O terceiro marquês, pai de ambos, tivera quatro filhos: dois rapazes e

duas garotas. Todos eles lindos.

As duas garotas tornaram-se adolescentes e depois adultas, sendo sempre aclamadas por sua beleza, e ambas fizeram excelentes casamentos.

O mais jovem da família era lorde Kenyon, que contava no momento

trinta e três anos. Sendo o caçula, ele havia sido o ídolo dos irmãos mais velhos; as irmãs, principalmente, sempre o mimaram demais, desde o nascimento. Já adulto, se eram verdadeiros os relatos sobre Kenyon, um grande número de lindas mulheres também se havia empenhado em deixá-lo mal acostumado.

Mas lorde Kenyon, desde que deixara Eton, não quis saber da vida social que tanto fascinava suas irmãs. Tampouco quis imitar o irmão mais velho, o quarto marquês, que seguira carreira diplomática. Lorde Kenyon optou pela carreira militar. Na Índia, tendo sido encarregado de “tarefas especiais”, passou a ter tanto interesse por seu trabalho que raramente visitava a Inglaterra. Agora, ali se achava, em seu país.

— O que o trouxe de volta? — perguntou-lhe a irmã.

— Não posso responder a essa pergunta.

— Só posso deduzir que esteve em perigo novamente. Lions contou-me

que você foi brilhante na ajuda prestada ao vice-rei e que teria ganhado pelo menos meia dúzia de medalhas se que fez não fosse em missão secreta.

— Lionel devia aprender a ficar calado! — lorde Kenyon disse firmemente.

— Posso lhe assegurar que Lionel é a discrição em pessoa e o que disse ficou apenas entre nós dois.

— O que quer que tenha ficado sabendo, jamais comente com ninguém — advertiu o irmão.

— Sabe muito bem que não sou uma pessoa leviana. Mas seja sincero comigo, correu muito perigo, não?

— Às vezes me encarrego de missões bem perigosas! No momento

recebi ordens de voltar para o meu país e ficar bem quieto. Isso responde à pergunta que fez quando cheguei. Mais que isso, não posso dizer. A condessa deu um profundo suspiro.

— Espero que tudo o que tem feito e os riscos que vem correndo valham

a pena e que o Império reconheça seu valor e sacrifício. Não desejo que nenhum mal lhe aconteça, Kenyon, isso me mataria de desgosto.

— Bem, até o momento nada me aconteceu. Aqui estou, são e salvo.

Embora falasse com um ar despreocupado, lorde Kenyon pensava que não morrera por questão de décimos de segundo quando realizara sua última façanha como elemento do que os inglesa da Índia chamavam de “O Grande

Jogo”. Ele sabia que aquela urgência em mandá-lo de volta para seu país significava que se tornara “um homem marcado”.

Lorde Kenyon conseguira entrar disfarçado no Afeganistão descobrindo assim os planos dos russos para causar agitação em toda a fronteira noroeste. Aquele seria o primeiro passo para a invasão da Índia. A missão de lorde Kenyon fora um triunfo, mas só o vice-a e os chefes do estado-maior souberam dela. A portas fechada| o vice-rei dissera ao valoroso oficial:

— Por justiça você deveria ser condecorado por bravura. Mas, como

elemento d'O Grande Jogo, deve ficar no anonimato, por isso agradeço-lhe do fundo do coração por ter salvado a vida de nossos soldados e, quem sabe, por ter salvado a própria Índia. Lorde Kenyon voltara para a sua pátria com aquelas palavras ecoando nos ouvidos. Agora, na casa da irmã, depois de ter passado com sucesso por tantos perigos, tentava imaginar, achando aquilo tudo muito divertido, que problema estaria afligindo a condessa para ela ter-lhe escrito um bilhete solicitando sua

presença com urgência.

O que poderia sua querida irmã querer para pedir-lhe que viesse vê-la

imediatamente? Antes que ele fizesse qualquer pergunta, a porta abriu-se e o mordomo, um senhor já de cabelos grisalhos, que se achava trabalhando naquela casa desde que a condessa se casara, entrou trazendo uma bandeja de prata com uma garrafa de champanhe e duas taças. Ele serviu lorde Kenyon, mas a condessa aceitou apenas um pouquinho. Erguendo a taça, lorde Kenyon fez um brinde:

— A você, Charlotte e à alegria de estar de volta!

Depois de tomar um pequeno gole de bebida, ele depositou a taça sobre a mesinha que estava ao seu lado.

— Agora, Charlotte, conte-me o que a preocupa.

— É sobre Marcus, e sei que isso não o surpreende.

Lorde Kenyon sorriu.

— O que o rapaz andou fazendo desta vez? Espero que ele esteja apenas

“cometendo as loucuras da juventude” e acho que, se for isso, não tem nada demais.

— “Loucuras da juventude”! Você nem faz idéia do que esse rapaz tem feito. Seu comportamento é péssimo.

— Será melhor me contar tudo.

Ele acomodou-se mais confortavelmente em sua poltrona, pensando que suas irmãs sempre faziam uma tempestade num copo d'água. Seu sobrinho herdara o título ainda muito jovem, com apegas vinte e dois anos; era de esperar que quisesse “pôr fogo na cidade”. Mas ele estava passando apenas por uma fase e logo ficaria curado. Quando a cunhada de lorde Kenyon, a marquesa de Shawforde, deixou o marido, levando o filho consigo, fora para Northumberland e ali o havia educado até uma certa idade. Marcus tivera preceptores em vez de ir para Eton, onde o pai e o tio haviam sido educados. Mais tarde ele fora para uma ótima escola em Edimburgo, pois a marquesa achava que aquela escola era mais rigorosa do que qualquer uma das do sul. Lorde Kenyon era um grande observador e profundo conhecedor do ser

humano. Não fosse a sua percepção, seus feitos não teriam sido tão brilhantes. Portanto, ele havia previsto que, ao completar a maioridade o sobrinho, achando que era senhor de si, tornar-se-ia um rebelde. Lorde Kenyon não se enganara. Marcus fora reprimido desde criança e sempre achara a vida tediosa; aquilo o levara a esperar com ansiedade a hora de libertar-se. Aos vinte e dois anos, depois da morte do pai, Marcus tornou se o quinto marquês de Shawforde. Surgia, afinal, sua liberdade, e sua mãe não podia mais contê-lo. Bem humorado, lorde Kenyon ouviu a irmã relatar os primeiros escândalos do marquês. Ela falou sobre as festas ruidosas e, logicamente, sobre as mulheres com quem Marcus se envolvia. Estas iam desde as dançarinas da Drury Lane até a linda lady Swinneton, a qual parecia achar o marquês cativante.

O marido, lorde Swinneton, tinha toda a razão de estar furioso.

Nada do que foi contado causou surpresa a lorde Kenyon, até sua irmã

dizer:

— Mas o pior ainda não contei! Vai ficar tão chocado quanto eu!

— Pior?

— Há já algum tempo estou planejando o casamento de Marcus com a

filha do duque e da duquesa de Cumberland. Naturalmente você deve lembrar-

se de que Emily Cumberland sempre foi uma grande amiga minha, e sua filha é tão adorável quanto a mãe. A jovem é linda, tem maneiras elegantes, é refinada e será este ano a debutante mais notável.

— O que diz Marcus sobre tudo isso?

— Ele acha que seria uma boa união, especialmente por Sarah ser uma

excelente amazona e por conduzir com perícia seus cães de caça. Marcus

também concorda em que ela é quase tão admirável quanto ele próprio.

— Então, o que há de errado?

— Marcus e Sarah iriam anunciar seu noivado no jantar solene que eu ia

oferecer esta semana, mas ele foi para o campo dez dias atrás e até agora não

voltou. Lorde Kenyon pareceu intrigado, e a irmã continuou:

— Uma pessoa em quem confio contou-me que o pobre rapaz caiu nas

garras de uma garota do campo, uma qualquer, que mora perto da mansão e, embora eu mal possa acreditar, parece que Marcus está cego, pois até acha que se apaixonou por ela.

— Uma qualquer! Mas não faz sentido! Não está de acordo, pelo que eu

saiba, com o bom gosto que meu sobrinho tem demonstrado ultimamente.

— Seja sensato, Kenyon — retrucou a condessa em tom severo. — O

rapaz é impulsivo e pode ter-se deixado envolver por uma garota esperta e completamente diferente das que encontra em Londres. Com voz cortante ela acrescentou:

— Ela deve ser ardilosa e inteligente o bastante para tê-lo persuadido a se casar com ela.

— Se for assim, tal casamento será um erro.

— Um erro? — a condessa gritou. — Será um desastre! Sabe tão bem

quanto eu que, embora tendo defeitos, os Shaw, em toda a sua história, jamais mancharam ou desonraram nossa linhagem. É verdade que já houve

alguns escândalos. Seu tio-avô manteve uma atriz durante muitos anos, mas não se casou com ela. Notando que o irmão não parecia estar impressionado o bastante, ela lembrou com a voz cheia de orgulho:

— Basta olhar em nossa árvore genealógica para constatar que todo

marquês de Shawforde teve como esposa uma mulher do mesmo nível social

que o dele. Como se adivinhasse o que o irmão pensava, ela fez um aparte:

— Reconheço, naturalmente, que a mãe de Marcus procedeu muito mal

separando-se de George, mas ela era filha de um conde, além de ser muito

rica. Suponho que devemos perdoá-la.

— Não estou pondo em dúvida que Marcus tenha sido muito bem

cuidado. Sempre demonstrou ter berço e ter também muita inteligência. Por essa razão, não acredito que seja tão estúpido a ponto de fazer um casamento com uma mulher de baixo nível, de quem ele acabaria se envergonhando.

— Mas é exatamente o que ele está tentando fazer. Foi por isso que lhe

pedi para vir ver-me com urgência. Não há outra pessoa melhor do que você

para conversar com Marcus!

— Por que eu?

— Ora, não seja tolo, Kenyon! Marcus sempre o admirou.

Lorde Kenyon deu um sorriso discreto e não quis interromper.

— Sempre mantive correspondência com nosso sobrinho, pois ele

morava no norte e quase não nos víamos. Posso assegurar-lhe que Marcus

sempre achou que você era o único membro da família que fazia coisas interessantes.

— Para ele saber a meu respeito, certamente você lhe escreveria sobre

mim. — Ele franziu as sobrancelhas. — Espero que não tenha sido indiscreta!

— Claro que não, contava-lhe que você era tido em grande consideração

na Índia e que trabalhava pelo nosso país. Toda vez que Marcus vinha me ver

em Londres, a primeira pessoa sobre quem perguntava era você. A condessa ia dizer, mas parou a tempo, o que Marcus havia perguntado algum tempo atrás:

— O que tio Kenyon andou fazendo? Ouvi comentários no clube de que

os russos estão querendo a cabeça dele. Também disseram que ele é mais do

que um mestre em matéria de disfarces. Se a condessa fizesse uma observação desse tipo, sabia que deixaria o irmão furioso. Assim, prudentemente limitou-se a acrescentar:

— Procure compreender; nosso sobrinho nunca via o pai e passou a admirar o tio. É por isso que só você poderá falar com ele.

— Francamente, diante disso, até sinto o peso dos meus anos Você

parece ter esquecido que George era vinte anos mais velho do que eu… Não acredito que me pareça com um pater-familia

— Não é importante o que você pareça ou deixe de parecer. O que tem a fazer é apenas ir à mansão e descobrir o que está acontecendo.

— Pois não tenho a menor vontade de fazer isso.

A condessa ignorou as palavras do irmão e continuou a dar suas

instruções.

— Se essa tal garota estiver mesmo tentando agarrar Marcus, vamos ter de pagar para ela desaparecer do caminho dele.

— Como pode ter certeza de que tudo não passa de um engano?

A condessa ficou pensativa por um instante e decidiu contar ao irmão

como ficara a par do envolvimento do sobrinho.

— Tenho razão para não duvidar do que lhe disse. Minha criada de

quarto, que já trabalha comigo há mais de trinta anos, é irmã de Jones, a encarregada da criadagem em Shaw. Você deve lembrar-se de Jones, uma

mulher esquelética e sombria, mas excelente no desempenho de suas tarefas.

— Eu já devia ter imaginado que você andou prestando atenção a

mexericos de criados! — disse lorde Kenyon com ironia.

— Jones não é apenas uma criada! É quase uma pessoa da família; já

está conosco há anos. Foi ela quem manteve Shaw sempre bem cuidada quando George passava o maior tempo fora, em algum lugar remoto, no Oriente. Eu mesma constatei que a mansão continuava a mesma quando estive lá, no funeral de nosso irmão. Tudo estava como nos tempos de mamãe, e graças à dedicação e cuidados de Jones.

— E Jones sabe quem é a tal mulher?

— Sim. O sobrenome dela é Winterton. Até pensei ter conhecido os

Winterton, mas não posso ter certeza. Mas eles não são pessoas de importância, naturalmente. Ela fez um gesto com as mãos.

— Seria um desastre, um completo e absoluto desastre se Marcus se

casasse com uma jovem que não soubesse comportar-se como a marquesa de Shawforde — concluiu a condessa.

— Nesse ponto concordo com você. Certamente não queremos um

divórcio na família, ou outra separação, como a dos pais de Marcus.

— Nem pense em algo tão terrível — ela gritou, alarmada. — Um

divórcio, principalmente, seria uma humilhação para todos nós!

— Não é nada confortável ter que ir até Shaw depois da viagem

cansativa que acabo de fazer para voltar à pátria, mas farei o que me pede.

Amanhã mesmo estarei com Marcus e saberei o que se passa. Suspirando, ele levantou-se.

— Espero que esteja “fazendo uma tempestade em um copo d'água” e

que as intenções de Marcus não sejam sérias. — Queira Deus que seja apenas isso! — disse a condessa com veemência. — Muito obrigada, Kenyon, querido, sei que posso contar com sua ajuda para nos salvar!

CAPÍTULO III

Lucille olhou fixamente para o marquês; parecia não ter entendido o que ele acabara de dizer. Ele aproximou-se mais e ela perguntou, incrédula:

Você perguntou… mesmo se eu queria ser sua esposa?

O

marquês envolveu-a em seus braços.

Amo você! Amo-a demais e tenho certeza de que jamais senti uma

emoção tão forte como a que estou sentindo. Os dois apenas se olharam. Surpreendendo-a, ele a beijou suavemente, como se tivesse medo de tocar-lhe os lábios. Um estremecimento percorreu todo o corpo de Lucille.

Eles permaneceram algum tempo abraçados, como se fossem duas crianças que, depois de ficarem amedrontadas no escuro, subitamente sentiram-se seguras de novo.

O marquês tornou a beijá-la até que, desviando a cabeça, ela conseguiu

dizer:

— Não! Por favor… não!

— Por que não? Este é o momento mais maravilhoso que já vivi.

— Você não pode… se casar comigo!

— Tenho a mais firme das intenções de fazê-la minha esposa! — ele disse com emoção na voz.

Delia me disse que já está… noivo de outra.

O

marquês apertou-a mais fortemente.

Mesmo que eu estivesse noivo ou casado com cinqüenta mulheres,

não deixaria de amá-la e desejá-la!

A voz do marquês soou forte e ecoou por todo o belvedere. Olhando para

ele, Lucille pareceu ver, subitamente, junto dela um homem mais velho e senhor de si, diferente do rapaz que estava acostumada a ter em sua companhia. Mas precisava saber a verdade.

— É verdade que está noivo?

— Não estou noivo! — respondeu ele, zangado. — Mas minha tia está

querendo forçar-me ao casamento; ela vive fazendo planos para mim desde

que meu pai morreu.

— E você concorda com tais planos?

— Apenas digo que vou pensar no assunto. Agora, por exemplo, ela vai

oferecer um jantar ao qual estará presente uma bonita jovem, e prometi não

faltar a esse jantar. Isso é tudo! Lucille afastou-se de seus braços. Sentindo que mal podia ficar em pé, sentou-se no degrau onde eles haviam almoçado. O marquês sentou-se ao lado dela e ficou olhando-a; a expressão em

seu rosto revelava que ele estava sendo sincero. Tomando a mão dela, beijou- a, dizendo depois:

— Meu amor por você é tão imenso e tão verdadeiro que nada, nem ninguém, irá impedir-me de fazê-la minha esposa.

— Teremos de pensar… no assunto.

— Por quê? É preciso pensar em alguma coisa? Eu a amo e você me

ama. Seremos muito felizes. Depois de um sorriso, ele acrescentou:

— Vou tornar-me o melhor senhor de terras, o mais compreensivo deste

condado, e você terá orgulho de mim.

— Já sinto orgulho de você pelo seu esforço. Mas Delia tem razão… sua família jamais me aceitará.

Surpresa, ela viu o marquês rir.

— Ninguém me aceitou ou se preocupou comigo antes de meu pai

morrer.

— Ouvi dizer que você morava no norte — Lucille murmurou

— Eu vivia mais ou menos preso lá no norte, ao lado de minha mãe.

Como eu provavelmente não herdaria o título tão cedo, pois todos acreditavam

que papai viveria muitos anos, ninguém mantinha contato comigo, à exceção de tia Charlotte, que me escrevia.

— Achava-os indelicados?

— “Indiferentes” é a palavra exata. Mas tudo mudou quando descobriram que podiam obter algo de mim.

— Está sendo cético!

— Não sou um cético, mas acho divertido ver como todos me adulam

agora que sou muito rico, além de ser o chefe da família. Lucille não fez nenhum comentário. Olhava para longe, e o marquês, notando a expressão em seu rosto, perguntou, ansioso:

— Em que está pensando?

— Mais uma vez acho que Delia estava certa quando me disse que

aristocratas só se casam com aristocratas. Embora meu pai sempre tenha tido

muito orgulho de seus antepassados, suponho que eles não podem ser comparados com os seus.

— Não estou querendo me casar com seus antepassados, mas com você!

Lucille suspirou.

— Mas sei o que seus parentes vão dizer.

— E o que eles dirão?

— Em primeiro lugar, que você é tão importante e tão rico que pode

escolher para esposa a filha de um duque; em segundo, que eu sou jovem demais e nem sei o que quero. O marquês abraçou-a novamente.

— Você me ama, Lucille? Diga se me ama pelo que sou e não por meu

título.

— Amo você por ser o homem mais atraente que já conheci, mas sei que

eles dirão que não tenho experiência alguma com os homens e que não posso estar certa de meus sentimentos.

— Quem são “eles”?

— Bem, Delia principalmente. Meus pais morreram e, além de minha

irmã, não tenho mais ninguém… para cuidar de mim.

— Eu tomarei conta de você — disse o marquês com ardor. — Mas, se a

sua irmã quiser mesmo que vá para Londres, talvez eu venha a perdê-la.

— E vai achar isso… ótimo — ela disse em tom provocador. Ele seguro- lhe o queixo e ergueu-lhe o rosto, fazendo-a fitá-lo.

— Ouça: desde o primeiro instante em que nos vimos, ambos soubemos

que algo havia acontecido entre nós. De minha Parte, assegurou-lhe que a

emoção daquele momento foi inigualável. Lucille respirou fundo, como se aquelas palavras descrevessem

exatamente o que ela então sentira.

— Você é minha! Estou disposto a lutar por você, a matar Quem quiser tirá-la de mim!

O ardor, a violência e a sinceridade que traduzia aquela voz fizeram o

coração de Lucille saltar dentro do peito. Sempre sonhara encontrar um homem como o marquês: veemente e dominador.

Como ele era diferente dos rapazes vazios e medíocres que Delia ia convidar para o jantar! Lucille tivera contato com aqueles rapazes durante as férias, em caçadas ou algumas festas, e sempre achava que eles a olhavam com o que ela costumava chamar de “olhos de carneiro”. Também havia conhecido irmãos de suas colegas francesas e em geral achara-os não muito diferentes dos rapazes de sua terra.

O marquês era sem igual!

Não era apenas a beleza física do marquês ou a aura que havia ao seu

redor, devido à sua posição, que a atraía tanto. Havia, como ele mesmo dissera, uma ligação entre ambos. Ela sentira aquilo no primeiro instante em que se encontraram na pista de corrida do parque e notara essa ligação estreitando-se mais e mais a cada momento em que se achavam juntos.

— Em que está pensando? — perguntou ele novamente, como se sentisse a resistência dela.

— Estava pensando que… se estamos decididos a continuar juntos, devemos… ser cautelosos.

— Não seria bem mais simples irmos juntos contar a sua irmã que nos amamos e que desejo casar-me com você?

— Se fizermos isso, tenho certeza de que Delia me levará daqui.

— Como sabe que ela faria isso?

— Sempre fomos muito unidas e posso até saber o que ela está

pensando. Quando nos vimos pela primeira vez, contei-lhe sobre nosso encontro; repreendeu-me e proibiu-me de tornar a vê-lo. Sei que nesse

momento pensava em afastar-me daqui, caso eu insistisse em continuar a encontrá-lo.

— Temos de evitar que isso aconteça!

— É por esse motivo que acho que devemos ter cuidado… para ela não desconfiar de nada. Lucille deu um profundo suspiro.

— Ao mesmo tempo, não podemos viver numa felicidade ilusória,

acreditando que ninguém… sabe o que estamos fazendo.

— O que quer dizer com isso?

— Quero dizer que neste lugarejo há olhos per todos os lados e, mais

cedo ou mais tarde, um dos criados ou outra pessoa irá contar a Delia sobre nossos encontros. Notando a preocupação dela, o marquês puxou-a para bem junto de si.

— Se pensa que alguém pode tirá-la de mim ou que a perderei, está

muito enganada! — Os lábios do marquês tocaram a maciez do rosto de Lucille antes de ele prosseguir: — Concordo quanto a sermos cautelosos, mas o que desejo mais ardentemente é que se case comigo.

Seus lábios encontraram os dela e não havia mais necessidade de palavras. Ambos se beijaram até ser-lhes difícil respirar. Lucille e o marquês sentiam-se tão felizes que até pareciam estar ouvindo Krishna, o deus do amor, tocando sua flauta. Dominada por um êxtase e um arrebatamento, ela escondeu o rosto no peito dele, notando que seus corações batiam em uníssono e no mesmo ritmo desvairado.

Conduzindo ele próprio a carruagem leve do sobrinho, a qual estavam atrelados quatro puros-sangues castanhos, lorde Kenyon deixou Londres na manhã seguinte, bem cedo. Ele estranhara que Marcus não tivesse levado aquela carruagem e os cavalos para Shaw. Mas ficou sabendo que o grupo que estivera hospedado na mansão há duas semanas havia viajado de trem. Certamente havia sido mais complicada a viagem de trem, mas fora, ao mesmo tempo, mais confortável. Conhecendo o sobrinho e sabendo como costumavam ser as festas que oferecia, podia imaginar que as mulheres muito pintadas, vestidas de seda e enfeitadas com plumas e penas haviam feito a viagem em grande estilo. Um vagão particular havia sido engatado no trem, em Euston, e durante o trajeto não muito longo haviam sido servidas as refeições e bebidas. Àquela hora da manhã era muito agradável conduzir a carruagem, e lorde Kenyon seguia feliz, sentindo a brisa fresca em seu rosto e aquele sol radioso que, na Inglaterra, jamais seria sufocante como na Índia. Mesmo estando há tanto tempo sem conduzir uma carruagem Puxada por quatro cavalos, ele não perdera a prática e seguia pelas ruas movimentadas da cidade com grande perícia, para espanto e admiração do cavalariço que se achava ao seu lado. Entrando na estrada, já no campo, a carruagem desenvolveu maior velocidade. Em duas horas lorde Kenyon achava-se diante do majestoso portão de ferro todo trabalhado que se abria para a alameda que conduzia à mansão. Ele subiu pela alameda ladeada de carvalhos vetustos invadido pela estranha sensação de nostalgia. Era bom estar de volta à casa que havia sido seu lar durante a infância, apesar de haver passado ali bem pouco tempo, pois logo fora para o colégio interno. Depois da morte do pai, o irmão mais velho, George, herdara o título e a propriedade. Ao pensar em George, lembrou-se do desastre que havia sido seu casamento. Também havia sido um erro Marcus ter sido educado tão longe da família e de modo tão diferente. Ele poderia ter ido para Eton, depois para Oxford e, o mais importante, teria pertencido a um regimento. Alguns Shaw haviam servido na Guarda Pessoal e outros nos Granadeiros. Marcus seria bem recebido em qualquer um desses regimentos. Em vez de ter dado ao filho essas oportunidades, a mãe de Marcus fizera questão de mantê-lo no norte, onde proporcionara a ele uma vida confinada. Era óbvio que, uma vez livre, Marcus haveria de querer divertir-se. Era o que fazia agora, deixando todos chocados com seu comportamento. Se alguém devia ser considerado culpado, esse alguém seria a mãe de Marcus, uma pessoa considerada enfadonha e excessivamente puritana. Mas

ela já estava morta. Nem toda a riqueza imensa da mãe de Marcus pudera compensar o que

ele perdera por não ter recebido uma educação à altura, por não ter tido bons amigos e, principalmente, por não ter tido a disciplina e o espírito de camaradagem que teria em um regimento. “Tenho pena do pobre rapaz”, pensou lorde Kenyon. Ao mesmo tempo, tinha plena convicção de que Charlotte estava coberta de razões em querer evitar que o sobrinho fizesse um casamento inadequado,

o que seria desastroso, não apenas para si próprio mas para toda a família.

Lorde Kenyon sabia muito bem do que uma mulher sem princípios seria capaz, se estivesse mesmo disposta a pôr suas garras em um homem e convencê-lo a desposá-la. Ele já era um homem experiente e tivera muitas mulheres em sua vida,

a maioria delas ladies encantadoras e sofisticadas. Com elas tivera agradáveis

affaires de coeur que terminaram sem qualquer conseqüência para ambas as partes envolvidas. Mas lorde Kenyon também tivera um ou dois casos de envolvimento mais dramático. As mulheres em questão perseguiam-no sem descanso, dispostas a não desistirem enquanto não o fizessem desposá-las. Àquele simples pensamento lorde Kenyon sentiu um súbito calafrio percorrer-lhe todo o corpo. Em várias ocasiões ele tivera de agir com a mesma habilidade, a mesma astúcia e o mesmo sangue-frio que havia demonstrado quando lidara com os russos. Realmente não havia sido fácil. Nesses casos só há duas alternativas: ou lutar pela liberdade ou ficar preso pelo resto da vida a uma esposa indesejável, o que seria o mesmo que estar amarrado pelo pescoço a uma pedra de moinho. “O rapaz é muito jovem e inexperiente para saber como lidar com mulheres vividas e cheias de artimanhas”, lorde Kenyon pensou, exibindo um brilho frio no olhar e certa rigidez nas linhas do queixo. Ele precisava salvar Marcus, mesmo que a tarefa fosse extremamente desagradável. Avistando a mansão, lorde Kenyon achou-a ainda mais magnífica com o sol reverberando nos vidros das janelas, como se fosse um sorriso dourado dando-lhe as boas-vindas. Era freqüente ter lembranças de Shaw quando se achava distante, na Índia, quer estivesse transpirando no calor insuportável das planícies ou rastejando sobre rochas ou nos brejos, nas noites frias da fronteira noroeste. Vinham-lhe então à mente os amplos gramados verdejantes, os lilases carregados de flores roxas ou brancas, o lago cuja superfície lisa e tranqüila mais parecia um espelho. Essas lembranças infundiam-lhe renovado alento, e ele tinha certeza de que sobreviveria para poder voltar à Inglaterra. Então iria rever e apreciar a beleza da casa onde passara a infância. Lorde Kenyon tinha sua própria casa, em Somerset, e pretendia ir para lá o mais depressa possível. Mas ainda havia muito o que fazer em Londres, e Charlotte havia atrapalhado o programa cuidadoso que ele preparara. Sua visita à embaixada era não só necessária, mas urgente, pois tinha muitas informações para transmitir. Além disso, o primeiro ministro, o

marquês de Salisbury, assim que soubesse de sua chegada à Inglaterra iria exigir a sua presença. A seguir, pretendia visitar a rainha no castelo de Windsor. Portanto, fazia votos de que sua missão em favor da família não tomasse muito do seu precioso tempo. “Farei a jovenzinha ver que será impossível a realização de seu

casamento com Marcus”, ele ia pensando. “Se houver ainda alguma dificuldade, então, como Charlotte sugeriu, uma grande soma em dinheiro irá, indubitavelmente, abrandar a dor de um coração partido.” Lorde Kenyon atravessou a ponte sobre o lago e viu-se diante da imponente mansão. Ele não pôde evitar o pensamento de que a futura marquesa de Shawforde devia ser uma pessoa especial para ser digna de ocupar, naquela casa, o lugar que havia sido de sua mãe. A esposa do terceiro marquês havia sido amada, admirada e respeitada por todos, desde a rainha, que a fizera uma das damas da corte real, até os velhinhos do asilo construído pelo avô de lorde Kenyon, o segundo marquês. Até mesmo ás crianças que freqüentavam a escola da vila, construída também pelo segundo marquês, adoravam a marquesa. Assim que lorde Kenyon desceu da carruagem, dois criados estenderam um tapete vermelho sobre os degraus, e o mordomo, de quem ele lembrava-se bem, surgiu à porta de entrada.

— Bom-dia, Newman! — disse lorde Kenyon, estendendo-lhe a mão.

— Bom-dia, milorde! — respondeu o mordomo. — Que surpresa!

— Acabo de chegar à Inglaterra e desejo ver Sua Senhoria.

— Receio que fique desapontado, milorde.

— Desapontado?

— Sua Senhoria foi passar o dia fora. Disse que pretendia dar uma volta

pela propriedade e levou consigo o que comer, pois não voltará para o almoço. Entrando no hall, lorde Kenyon ficou pensativo por um instante, depois

disse ao mordomo:

— Nesse caso, como tenho também uma visita para fazer na vila, irei agora até lá, mas almoçarei aqui em Shaw.

— Perfeitamente, milorde. Mas não aceitaria um copo de vinho antes de ir fazer sua visita?

— Não, Newman. Obrigado. Espero não me demorar muito.

Ao descer os degraus, viu que a carruagem já estava sendo levada para os estábulos. Ele parou o cavalariço e, tomando-lhe as rédeas da mão, foi descendo, na carruagem, o caminho que conduzia ao portão, sem ter, deliberadamente, dito para onde ia. Não seria conveniente despertar a curiosidade dos criados. Chegando ao portão principal, lorde Kenyon pediu que

o cavalariço descesse e fosse chamar o guarda. Mas, antes que o homem executasse sua ordem, ele mudou de idéia e perguntou:

— Você também é um morador da vila, não?

— Sim, milorde, mas Sua Senhoria quis que eu fosse trabalhar em

Londres, pois precisava de meus serviços.

— Então não há necessidade de aborrecer o guarda. Você deve saber

onde os Winterton moram.

— Sim, milorde, claro. O solar fica à esquerda, a caminho da vila.

Lorde Kenyon não fez mais perguntas e deixou o cavalariço guiá-lo até

os portões de uma propriedade da qual ele se lembrava vagamente. Não havia guaritas ou guardas nos portões e, entrando com a carruagem, ele foi subindo pelo caminho ladeado de rododendros. O caminho era curto, e logo lorde Kenyon viu-se diante de um solar não muito grande, mas muito bonito e bem conservado, uma agradável construção em estilo elizabetano. Os tijolos aparentes haviam ganhado com o tempo um suave tom rosado, e as janelas, cujas vidraças formavam figuras losângicas, conferiam à casa um aspecto gracioso. Lorde Kenyon parou a carruagem à porta da frente, passou as rédeas ao cavalariço e desceu. Não havia ali criado algum para estender-lhe o tradicional tapete vermelho. Ele tocou a sineta de ferro, mas ninguém veio atender à porta. Depois de alguma hesitação, resolveu entrar no hall. Ali, analisou o ambiente, notando que tudo harmonizava-se com o estilo da casa. Admirou os painéis e a escada, ambos entalhados em carvalho. Era estranho não ver criado algum e a porta não estar trancada a chave. À frente dele devia ficar o cômodo principal do solar, e lorde Kenyon caminhou para lá.

Delia havia deixado a porta da frente encostada ao entrar em casa, vindo do jardim, onde estivera colhendo flores. Agora arrumava-as em vasos e floreiras, no salão. Fazia questão de manter a casa sempre florida e a conservava como a mãe a havia decorado. Da mesma forma que a mãe, Delia achava que as flores davam alegria ao ambiente. Todavia, depois da morte dos pais, parecia-lhe que a casa ficara mais sombria, mesmo com as flores. Com o tempo, Delia passou a sentir vividamente que os pais não a haviam abandonado. Sentia a presença deles, como se ambos estivessem ao seu lado, e então lhes falava sobre seus problemas. Naquele instante pedia a ajuda da mãe para que tudo corresse bem num acontecimento muito importante para Little Bunbury: a exposição anual de flores. Havia prêmios para os mais belos arranjos apresentados e para as melhores hortaliças cultivadas. Delia organizava a exposição e sempre enfrentava muitas dificuldades. Uma delas era evitar que todos os prêmios ficassem para os jardineiros e hortelãos da Casa Grande. Os outros competidores não apenas se ressentiam disso, mas acabavam ficando desencorajados, não demonstrando desejo de participar da exposição novamente. Naquele ano Delia introduzira inovações; haveria prêmios especiais para os jardineiros e hortelãos não profissionais, dos quais não participariam os que cuidavam das hortas e jardins das grandes propriedades da redondeza. Essa medida fora tomada para que não se repetisse a injustiça do ano anterior, quando o prêmio para a melhor e maior abóbora, que devia ser para a sra. Geary, fora entregue, pelo juiz, a um dos hortelãos do marquês. A sra. Geary, sentindo-se injustiçada e sendo muito tagarela, reclamara, acusara o juiz de ser um esnobe e bajulador, interessado nas pessoas que

tinham um título de nobreza.

O pior foi que ela não queria mais participar de exposição nenhuma,

tampouco pretendia dar sua colaboração a Delia. Esta tivera de usar todo o seu poder de persuasão e seu charme para convencer a sra. Geary de que sua participação era imprescindível. Para maior brilhantismo da exposição haveria prêmios especiais para os melhores produtos cultivados em pequenas hortas e jardins domésticos; as crianças da escola iriam competir fazendo arranjos de flores silvestres; outra modalidade que concorreria a prêmios seria a da mais bela coleção de folhas e ervas.

A notícia causou grande contentamento na vila, pois quase todos

poderiam concorrer a prêmios.

Delia achava-se entretida, arrumando automaticamente as flores nos vasos, pensando na exposição e em Lucille.

A irmã não mais a preocupava, pois mostrava-se bem mais alegre

ultimamente e parecia interessar-se pelos vizinhos. Lucille sempre saía para

fazer visitas, muitas vezes demorava-se bastante, indo à casa de amigos do outro lado do condado. Delia vivia tão ocupada que concordara sem discussões com o pedido da irmã para ir cavalgar todas as manhãs pela vizinhança. Muitas vezes Lucille avisava que não a esperasse para o almoço, pois ia a algum lugar mais distante, ficando para almoçar em companhia dos amigos. “Pelo menos Lucille encontrou um modo de se distrair antes de ir a Londres”, pensava Delia, contente. “Eu gostaria tanto de acompanhá-la, mas no momento preciso acabar de organizar a exposição de flores.”

O que mais preocupava Delia naquele instante era organizar a contento a distribuição dos lugares para os boxes de cada expositor de Little Bunbury e ainda reservar espaço, no pavilhão, para os participantes de outras vilas.

A exposição havia sido, inicialmente, só para os habitantes de Little

Bunbury. Mais tarde Bigger Bunbury e Water End, duas vilas a apenas três quilômetros de distância, mas localizadas em direções opostas, passaram a ter representantes naquele acontecimento anual. Agora uma outra vila queria inscrever-se como participante, e Delia não podia recusar sua inclusão no evento.

— Receio que o pavilhão seja pequeno para tanta gente — dissera ela ao

pastor.

— Já pensei nisso — ele respondera —, mas certamente será um belo

dia de sol, e todos apreciarão ficar ao ar livre, podendo, além de tudo, admirar

seu bonito jardim. A exposição anual de flores e hortaliças sempre era realizada no grande pavilhão do solar Winterton. Um dos prazeres dos que compareciam ao evento era passear durante a tarde pelo jardim de rosas, andar por entre as aléias de arbustos e sentar nos gramados verdes bem cuidados. Delia sempre contava com a ajuda de colaboradores, e era servido um chá aos presentes. Para a organização do esperado evento, Delia também tinha a ajuda de muitas pessoas, mas era ela a principal encarregada da grande tarefa. Com o maior empenho e cuidado planejava tudo, sabendo que daquilo iria depender o sucesso da exposição.

Aliviada, terminou de arrumar o último vaso de flores. Estava pensando em ir verificar se os homens encarregados de trazer madeiramento e lona haviam chegado, quando viu, surpresa, alguém entrando no salão. Aquele homem era um estranho.

— Por favor, perdoe-me — ele disse a Delia assim que a viu. — Toquei a sineta, e, como ninguém atendeu, entrei!

— Oh, receio que a sineta tenha se quebrado novamente! Os criados estão todos ocupados na cozinha.

Delia havia dado ordens para os criados separarem todos os pires e xícaras e deixá-los em ordem para o chá a ser servido durante a exposição. Havia uma grande quantidade daquela louça guardada para essas ocasiões, no porão. Delia costumava tirá-las da caixa e lavá-las com antecedência.

— Eu poderia ver o sr. Winterton? — perguntou lorde Kenyon.

— Lamento informá-lo de que papai já é falecido. Lorde Kenyon desconhecia aquele fato.

— Sinto muito. Poderia, então, falar com a senhorita?

— Naturalmente.

Mesmo olhando rapidamente para aquele estranho, ela notou que, além de ser muito bonito, vestia-se com muita elegância. Quem seria ele?

— Creio que deva me apresentar. Sou lorde Kenyon Shaw.

Delia susteve a respiração.

— Não quer sentar-se? Suponho que tenha chegado há bem pouco

tempo da Índia.

— Sabia que eu me achava na Índia?

— Creio que foi o único parente a não comparecer ao funeral de seu

irmão.

— Tem razão, mas teria sido impossível chegar a tempo. Cheguei a

Londres anteontem e tive notícias desagradáveis sobre o comportamento de meu sobrinho, o atual marquês, e é por essa razão que vim procurar o sr.

Winterton. Delia mostrou-se surpresa; lorde Kenyon acomodou-se em uma poltrona perto da lareira, e ela sentou-se de frente para ele.

Num lampejo passou-lhe pela cabeça que lorde Kenyon talvez tivesse ouvido falar a respeito das festas oferecidas pelo sobrinho e resolvera procurar um dos respeitáveis moradores do lugar para saber qual teria sido a reação da vila diante do comportamento vergonhoso do novo marquês. Lorde Kenyon fez uma pequena pausa, como se escolhesse cautelosamente as palavras, para então dizer:

— Fiquei sabendo que meu sobrinho, apesar de estar comprometido,

prestes a anunciar seu noivado, envolveu-se com você… Delia encarou-o, atônita. Em primeiro lugar, ele naturalmente a tomava por Lucille; em segundo,

não poderia ser verdade o que acabara de insinuar. Ela confiava na irmã e havia acreditado que Lucille estava seguindo fielmente seu conselho de não se encontrar com o marquês. Naquele instante, pela primeira vez, ocorreu-lhe que Lucille a vinha enganando. Mas o impulso de proteger a irmã foi imediato.

— Eu… não entendo aonde quer chegar — disse ela, consciente de estar faltando com a verdade.

— Ora, vamos, srta. Winterton. Soube de boa fonte que você e meu

sobrinho têm estado juntos com muita freqüência, fato extremamente

repreensível, estando ele comprometido.

— É verdade — disse Delia suavemente. — Ouvi dizer que o marquês ia

anunciar oficialmente seu noivado, portanto, creio que Vossa Senhoria cometeu um engano ao assegurar que ele envolveu-se comigo.

— Creio que não me enganei; todavia posso ter sido mal informado e, se

isso aconteceu, pedirei desculpas. Por essa razão, gostaria que dissesse com

franqueza, ou, se preferir, que me desse sua palavra de honra de que você e meu sobrinho nada têm a ver um com o outro. Aquilo, Delia pensou, ela poderia fazer sem estar mentindo. Mas, pensando em Lucille e sem saber exatamente que atitude tomar, disse, depois de alguma hesitação:

— Creio que seria mais justo, meu senhor, que me dissesse exatamente o que ouviu a respeito desse envolvimento de seu sobrinho.

— Muito bem, srta. Winterton, se é o que deseja… A verdade é que

minha irmã foi informada de que você está tentando casar-se com meu sobrinho, e esse casamento, deve saber muito bem disso, será, do ponto de vista dele, um desastre absoluto.

Aquele modo de falar, tão ferino, incitou a fúria de Delia. Aquele homem não poderia ter sido mais rude; Lucille não viera da sarjeta. Ela pertencia a uma família respeitável e quase tão ancestral quanto a dele. Quanto ao pai, o coronel Winterton, havia servido ao país, com denodo, da mesma forma que lorde Kenyon. — Creio, meu senhor — ela disse com calma —, que está sendo desnecessariamente insultante. Se o que sua irmã ouviu for mesmo verdade, tal casamento poderia vir a ser, do ponto de vista de sua família, infeliz, talvez, mas nunca um desastre absoluto, como disse há pouco. Lorde Kenyon permaneceu um instante em silêncio.

— Não tive intenção de ser rude, srta. Winterton, posso assegurar-lhe.

No entanto, não ignora que, tendo uma posição excepcional na vida, o marquês de Shawforde escolherá uma esposa à sua altura.

— Essa pode ser a sua opinião, meu senhor, e não deixa de ser a opinião

tradicional ou convencional. Mas nós, os moradores deste lugar, sabemos

muito bem que o falecido marquês fez o tipo de casamento do qual acaba de fazer a apologia e não foi um homem feliz, nem seu casamento convencional foi um sucesso! Delia surpreendeu-se a si mesma por ter dito aquilo. Mas fora aquele o modo que encontrara de defender Lucille, depois das palavras ofensivas de lorde Kenyon.

— É verdade. Justamente pelo fato de meu irmão ter sido tão infeliz, não desejo que seu filho tenha o mesmo destino.

— Receio que acabe descobrindo que o atual marquês talvez não seja

um partido tão… vantajoso quanto os seus antepassados. — Delia notou que

lorde Kenyon ergueu as sobrancelhas, mas permaneceu calado, enquanto ela continuava: — O marquês já escandalizou as pessoas que trabalham em sua propriedade, os moradores da vila e os vizinhos com as festas que tem oferecido desde que herdou a mansão.

— Mesmo assim, ainda deseja casar-se com ele?

— Não disse que quero me casar com ele. Só estou tentando mostrar-lhe

que uma aristocrata, de sangue azul, talvez não esteja tão ansiosa para

tornar-se a marquesa de Shawforde, como está pensando!

— O que está dizendo é uma grande tolice! — exclamou lorde Kenyon

com altivez. — O duque e a duquesa de Cumberland estão muito felizes em conceder a mão de sua filha Sarah ao meu sobrinho, e o noivado oficial de

ambos será anunciado assim que ele retorne a Londres! Havia uma expressão dura em seu olhar quando ele encarou Delia para

dizer:

— O que lhe peço, srta. Winterton, é que pare de tentar persuadir meu

sobrinho a permanecer aqui, no campo, e que o deixe fazer o que a família deseja que ele faça.

— Mas, e se não for esse o desejo do marquês?

Ela estava argumentando por estar indignada com o que lorde Kenyon

havia dito. Ao mesmo tempo pensava, desesperada, em como poderia livrar Lucille daquela situação infeliz sem comprometer sua reputação.

— Tenho certeza de que, assim que eu tiver a oportunidade de conversar

com meu sobrinho, ele fará o que eu lhe pedir. Creio que não conhece Marcus há muito tempo, srta. Winterton, e ignora que ele seja cônscio de seus deveres para com a família.

— Parece que não é o que ele tem demonstrado desde sua vinda para

Shaw — Delia retrucou em tom cortante. — Mas, naturalmente, Vossa Senhoria saberá ser bastante persuasivo!

Ela levantou-se ao dizer aquelas palavras, e lorde Kenyon não teve outro jeito senão levantar-se também. — Não a procurei para discutirmos, srta. Winterton — ele disse, mais amável. — Minha intenção era apenas apelar para a sua compreensão.

— Deve ser honesto consigo mesmo, meu senhor, e admitir que veio até

aqui procurando alcançar seus próprios objetivos. O que posso responder-lhe,

diante disso, é que a decisão logicamente só pode ser tomada por seu sobrinho. Portanto, nada mais tenho a acrescentar ao que já foi dito.

— Mas permitirá que ele parta?

Delia deu um sorriso irônico.

— O que sei sobre o marquês é que ele tem vinte e três anos e vontade

própria. Eu ficaria bastante surpresa se ele demonstrasse ser como uma marionete, que agisse conforme Vossa Senhoria fosse puxando os cordões.

— Ouça, srta. Winterton…

— Creio, meu senhor, que nada mais temos a dizer sobre o assunto.

Como tenho muitas coisas para fazer, qualquer argumento que apresente seria perda de tempo. Meu e seu! Lorde Kenyon ficou surpreso ao constatar que, pela primeira vez na vida sofria uma derrota. Como se enganara com Delia! Assim que a vira, achando-a tão jovem, imaginara que seria muito fácil convencê-la do que quer que fosse, pois ficaria muito impressionada, ou mesmo intimidada, com ele. Agora, porém, compreendia que naquele diálogo, ou melhor, naquele “duelo” verbal, sem dúvida ela se saíra vencedora. Mas pelo menos ele dissera o que tinha para dizer. Olhando para Delia, naquele momento, com o intuito de analisá-la, constatou que era linda. Era compreensível que o jovem Marcus tivesse

perdido a cabeça e talvez o coração. Delia permaneceu de pé, esperando que o importuno visitante saísse. Mais uma vez lorde Kenyon olhou para a jovem à sua frente e pensou que ela era de fato diferente de todas as mulheres que já havia conhecido. E era também a mais linda… Apesar de vestida com simplicidade, nem mesmo uma rainha poderia ter porte mais majestoso do que o de Delia. Olhar para a figura quase etérea ali, bem junto dele, fez lorde Kenyon pensar em uma tela de Botticelli ou em uma composição de Chopin. Então veio-lhe à mente que via diante de si a mulher que tinha toda a intenção de agarrar-se a Marcus e que, obviamente, estava determinada a ser a marquesa de Shawforde. Fazendo um esforço, pois percebia claramente que Delia esperava ansiosa que ele a deixasse, lorde Kenyon continuou:

— Pretendo conversar com meu sobrinho, o que ainda não fiz, pois ele não se achava em casa. Depois que o fizer, poderia voltar a vê-la, srta. Winterton? Farei questão de compensá-la por quaisquer ilusões ou falsas esperanças que, porventura, talvez até mesmo sem querer, Marcus a tivesse feito acalentar. Por um instante Delia pareceu não ter entendido, mas, em seguida seus olhos cinzentos tornaram-se escuros e ela disse com vagar:

— Só espero, lorde Kenyon, jamais ter a infelicidade de vê-lo novamente! E saiu do salão, deixando-o sozinho.

CAPÍTULO IV

Lucille entrou depressa em casa, vindo dos estábulos. Delia a esperava no salão e, ao ver a irmã, notou como estava adorável. Há tempos não a via tão linda nem tão feliz. Certamente não vinha prestando muita atenção a ela nos últimos dias, o que considerou negligência sua.

Aqui estou! — exclamou Lucille.

Eu a esperava para podermos conversar.

O

tom de Delia fez Lucille ficar apreensiva, mas ela tentou parecer

indiferente.

— Sobre o quê?

— Confiei em você! Jamais me passou pela cabeça que iria enganar sua

própria irmã! Lucille susteve a respiração.

— Oh… isso…

— Sim! Isso! E estou muito contrariada.

— Achei mesmo que ficasse aborrecida ao saber. Mas quem lhe contou?

— Lorde Kenyon Shaw!

Lucille olhou para a irmã com os olhos arregalados, numa expressão de

incredulidade.

— Lorde Kenyon?! Mas… como ele pôde… isto é, onde o encontrou?

— Ele veio até aqui para falar com você. Na verdade queria apenas lhe

dizer que o marquês está comprometido e que pretende casar-se logo.

— Isso não é verdade! E não entendo como lorde Kenyon tenha ficado sabendo sobre Marcus e mim. Pensei que estivesse na Índia.

— É óbvio que voltou. E foi extremamente ofensivo.

— Ofensivo??! — Lucille não escondeu a surpresa.

— Insinuou que você anda envolvendo o marquês, convencendo-o a

ficar na mansão, em vez de ir cuidar de seus deveres, em Londres.

Ele disse isso?!

O

tom de Delia, propositalmente de enfado e cansaço, tinha como

objetivo impressionar a irmã. E ela prosseguiu:

— Lorde Kenyon também disse que, se o marquês se casar com você, esse casamento só poderá ser um desastre completo.

Para sua surpresa, Lucille não pareceu zangada. Ela caminhou até a janela e ficou ali, de pé; depois de um momento, disse:

— Acho que … você tem razão.

— O que quer dizer?

— Marcus pediu-me em casamento… mas…

— Ele pediu-a em casamento?

— Por que essa surpresa? Nós nos amamos, mas, agora que lorde

Kenyon voltou, tudo vai ser bem diferente.

— Você aceitou o pedido de casamento?

— Tenho tentado convencê-lo, em todos os momentos em que estamos

juntos, que seria um erro eu tornar-me sua esposa… isto é, do ponto de vista dele.

— Mas ele a ama?

— Marcus diz que me ama e só isso importa. Eu acreditei no que ele

disse, até ficar sabendo que lorde Kenyon esteve aqui.

— Não consigo entender; o que tem o tio de Marcus a ver com tudo

isso?

— Aqui no campo quase ninguém sabe quem é lorde Kenyon, mas em

Londres ele é tido como uma pessoa fantástica! Marcus me disse que todos falam dele com admiração.

— Por quê?

— Parece que seus feitos, na Índia, têm sido admiráveis. Ele faz parte de

um grupo cujas operações são secretas, conhecidos como “O Grande Jogo”. Mas não creio que você já tenha ouvido falar nisso.

— Lembro-me de ter ouvido mencionar O Grande Jogo. Mas está dizendo

que lorde Kenyon é um desses ingleses que se disfarçam e se infiltram nas

tribos e têm estratégias admiráveis para evitar que a fronteira noroeste da Índia seja tomada pelos russos?

— Marcus me disse que são estratégias ultra-secretas e que nunca se

deve falar sobre o assunto. Admira demais o tio e não quer que ele corra

riscos. Se souberem quem lorde Kenyon é na verdade, sua vida corre perigo.

— Nunca imaginei que lorde Kenyon fosse um homem desse tipo! —

Delia murmurou.

— Ele foi rude com você?

— Em minha opinião foi rude, muito rude, mas não comigo e sim com

você.

Notando que a irmã não havia entendido, ela explicou:

— Lorde Kenyon veio até nossa casa para ver papai. Ao saber que já

havia falecido, conversou diretamente comigo, supondo que falava com a srta.

Winterton que “estava dando em cima” do marquês, tentando arruinar-lhe a vida.

Lucille ficou pensativa, depois disse:

— Bem, já que lorde Kenyon está na Casa Grande, Marcus acatará tudo o que ele disser.

— Se ele a ama de verdade, não ouvirá nenhum dos parentes, nem se

deixará influenciar por ninguém.

— Marcus não se importa mesmo com a opinião dos parentes, uma vez

que eles também não se interessaram por ele antes de tornar-se o quinto

marquês. Mas lorde Kenyon é diferente. O modo desalentado como Lucille falou enterneceu Delia. Atravessando o salão, ela foi para junto da irmã.

— Sinto muito, querida! Como detesto vê-la magoada ou infeliz!

— Ele me ama! Tenho certeza de que me ama! Queria vir até aqui

conversar com você, e fui eu quem o impediu. Ia dizer a você que desejava se

casar comigo; foi pensando nele e no que os parentes iriam dizer que eu resolvi me sacrificar. Lucille sofria tanto que Delia a abraçou.

— Sinto muito se tornei as coisas ainda piores, mas eu só pensava em

defendê-la das cruéis acusações de lorde Kenyon. Afinal ele nos fez parecer camponesas… maquiavélicas! Mesmo tendo usado um termo forte, Delia achou que estava sendo bastante delicada, pois lorde Kenyon havia insinuado que sua irmã era “uma mulher indesejável”. Uma mulher sem princípios, interessada apenas em pôr

suas garras no marquês simplesmente por causa do seu título. Mas não poderia dizer aquilo claramente a Lucille e deixá-la ainda mais infeliz. Delia repetiu:

— Sinto muito, querida. Sinto terrivelmente, mas só quis defendê-la.

— Amo Marcus! Amo-o desde a primeira vez em que o vi.

— É que você quase não conheceu outros rapazes — disse Delia

suavemente.

— Já esperava que dissesse isso. Mas acredito que o amor seja algo tão

maravilhoso, tão… forte… tão diferente de tudo o que se sentiu antes! Ele

acontece independentemente do tempo que as duas pessoas que se amam se conhecem. Assim que vemos essa pessoa especial, a reconhecemos imediatamente… é como se já nos tivéssemos encontrado em outra vida, talvez.

— É assim que se sente? — perguntou Delia, olhando surpresa para a

irmã.

— Marcus também se sente assim. Já leu muitos livros sobre a Índia,

justamente por se interessar tanto pelo tio e o trabalho que ele realiza naquele país. Marcus me contou que desde o momento que nos encontramos no parque sabia que pertencíamos um ao outro. Explicou-me que os indianos acreditam que essa forte intuição é um sinal de que nos conhecemos numa vida anterior a esta.

— Nunca esperei ouvi-la falar desse modo! Eu costumava conversar

muito com papai sobre a Índia, mas sempre achei que você era muito jovem para compreender os assuntos sobre os quais discutíamos.

— Mas já tenho idade suficiente para me apaixonar e percebo como o

amor… nos faz sofrer. — Lucille deu um pequeno grito e acrescentou: — Oh, Delia, você acha que Marcus irá voltar para Londres e nunca mais me verá, nem pensará em mim?

— Se fizer isso é porque não a ama. Então será melhor para ambos que se afaste.

— Para ele pode ser a melhor coisa, mas não para mim. Você pode não

acreditar… mas sei que nunca mais amarei outro homem… como amo Marcus. Falou com voz baixa e impregnada de dor. Em seguida saiu do salão e foi para o hall, sem olhar para trás. Delia apenas a acompanhou com o olhar, sem fazer qualquer movimento para ir atrás da irmã. Sabia que Lucille desejava ficar sozinha. Ela podia muito bem avaliar-lhe o sofrimento, apesar de jamais ter esperado que alguém tão jovem e despreocupada pudesse sofrer com aquela intensidade. “Como tudo isso pôde acontecer?”, interrogou-se Delia. “Suponho que eu tenha sido a culpada.” Fazendo uma revisão dos acontecimentos dos últimos dias, constatou que estivera tão preocupada e atarefada com a exposição que não percebera que a alegria de Lucille era grande demais para nada de anormal estar acontecendo. “Foi minha culpa, mamãe”, disse, do fundo do coração. “Eu deveria ter cuidado melhor de Lucille; a exposição poderia ter ficado em segundo plano.” Todavia era tarde demais, e o coração da irmã já havia sido magoado.

Delia tentou convencer-se de que Lucille logo se recuperaria, mas bem no fundo tinha o desagradável pressentimento de que o amor que a irmã nutria pelo marquês era mais profundo do que ela podia imaginar. Sendo a irmã mais velha, Delia encarregara-se de dirigir a casa depois da morte da mãe. Também cuidara do pai durante sua doença; quanto a Lucille, praticamente a educara, e aos seus olhos ela não passava de uma criança. Dessa forma não previra que ela pudesse apaixonar-se por homem algum, muito menos o tão falado marquês de Shawforde. “Ah, ele conseguiu envolver Lucille, uma jovem inexperiente”, ela pensou. Mas reconheceu que não poderia culpar homem algum de ficar gostando da irmã. Ela era adorável, era fora do comum. Além disso, a necessidade de se encontrarem às escondidas contribuía para tornar ainda mais românticos seus passeios secretos, em meio à beleza e ao lirismo da ensolarada paisagem campestre. Também não havia ninguém para interromper os dois enamorados e ambos podiam viver um idílio como os descritos em romances de amor. “Eu devia ter desconfiado do que estava acontecendo e interrompido esse namoro impossível!”, Delia se recriminava. Novamente uma voz interior a apaziguava, fazendo-a perceber que mesmo estando a par de tudo não conseguiria que Lucille se resignasse a não ver mais o marquês. Delia vira Marcus apenas uma vez, a distância, no funeral do pai dele, e não ignorava o quanto era atraente. Depois não voltara a vê-lo, mas ouvira falar sobre seu comportamento ultrajante em Londres e, finalmente, sobre as festas na mansão, que haviam escandalizado a vila. “Talvez o fato de Marcus ser considerado um desordeiro tenha feito Lucille achá-lo ainda mais atraente.” Mas não! Aquilo não podia ser verdade. Depois de ter visto lorde Kenyon, ela constatara que os Shaw eram bonitos e exerciam uma atração fora do comum. Por ali não havia quem se lhes pudesse comparar. Agora sentia-se assustada pelo que viria a acontecer a Lucille. Como a irmã mesma dissera, nunca mais poderia amar outro homem como amava o marquês. Naquela confusão de sentimentos que a agitavam, Delia raciocinava que só desejava a felicidade de Lucille, mas que ela não seria feliz ao lado do marquês. Mesmo que ele, contrariando a vontade do tio, insistisse em se casar, aquele casamento não estaria fadado a dar certo. Delia não admitira aquele fato diante de lorde Kenyon por ele ter sido tão rude que ela resolvera enfrentá-lo. Estando apaixonada, Lucille não veria nenhum defeito em Marcus; o melhor que tinha a fazer seria levar a irmã para longe. Ou talvez aquela medida não fosse necessária, uma vez que lorde Kenyon estava disposto a conseguir seu intento, que era levar o sobrinho para Londres; então Marcus ficaria noivo da filha do duque. Tanta coisa havia acontecido em tão pouco tempo que Delia sentia-se perplexa, angustiada e insegura.

Já era hora de trocar-se para o jantar. Subiu as escadas lentamente, com o coração pesado, tentando descobrir um modo de confortar Lucille sem alimentar-lhe falsas esperanças. Enquanto se despia, pensava em lorde Kenyon. Era estranho nunca ter ouvido dizer que ele era um herói. Afinal, morando praticamente ao lado da mansão Shaw, ela crescera sabendo tudo sobre a família dele, uma vez que os Shaw eram o assunto da vila. Delia tinha notícia de tudo o que acontecia com eles, desde a chegada de

um novo bebê à morte de um parente afastado. Lamentava que, no passado, o pai e o falecido marquês tivessem tido algumas desavenças. Mas o fato de o quarto marquês ter sido um homem extremamente desagradável, intolerante e irascível era compreensível e até desculpável. Na verdade, ele tornara-se um homem doente. Sua carreira diplomática fora bastante agitada, mas ele fora obrigado a afastar-se do serviço por ter contraído no Oriente um tipo desconhecido de febre que lhe atacara o fígado, provocando crises terríveis, acompanhadas de muita dor. O marquês voltara para casa, ainda na meia idade, convencido de que lhe restava muito pouco tempo de vida.

A doença, que o obrigava a ficar a maior parte do tempo confinado ao

leito, além de causar-lhe dores insuportáveis, transformara-o em um homem impaciente, exaltado e brigão, que acabara causando, sucessivamente, inimizades com todos.

O coronel Winterton, ao contrário, era um homem encantador, amável,

de boa índole; mas também era muito orgulhoso. Certa vez censurou o marquês por exaltar-se tão facilmente, e aquilo causou o rompimento da amizade entre os senhores do solar e da mansão. Delia lembrava-se de que a mãe, ao saber da desavença tola havida entre o marido e marquês, tentara abrandar a situação com sua costumeira ternura.

— Ele é um homem doente — dissera a sra. Winterton.

— Doente ou não, seu modo de agir é intolerável! — retrucara o coronel,

zangado. — Bem que o médico e o pastor já me recomendaram que evitasse ir

a Shaw para não ter aborrecimentos.

— Sei disso, querido. Todos na vila dizem a mesma coisa. Mas é uma

pena; não creio que o marquês melhore. De fato, ele só piorou, vindo a falecer, porém, muitos anos mais tarde. Seria faltar com a verdade afirmar que os moradores da vila, gente de bom coração, não tivessem sentido a morte do quarto marquês, cuja família era muito importante para todos em Little Bunbury. Voltando a pensar em lorde Kenyon, Delia achou estranho nunca ter ouvido alguém mencionar qualquer atividade dele que não fosse a atividade regular de um oficial. O que ela sabia sobre O Grande Jogo limitava-se ao que o pai lhe contara: era o nome de uma organização de espionagem que já conseguira

feitos fantásticos e que se estendia por toda a Índia. Seu principal objetivo era evitar que os russos provocassem agitação e discórdia entre as diferentes castas.

O pai lhe contara que, sendo uma organização secreta, O Grande Jogo

não conhecia seus membros por nomes, mas sim pelos números de cada um.

Apenas o vice-rei e o comandante supremo costumavam saber a identidade dos homens que arriscavam a própria vida para salvar o Império Britânico. Delia mostrara-se muito interessada pela história e lembrava-se de que

o pai lhe havia explicado:

— Além de os membros do Grande Jogo serem muito corajosos, é

imprescindível que sabiam guardar segredo; uma palavra, mesmo um

sussurro, pode causar-lhes a morte ou a de um companheiro. Delia quisera saber se o coronel havia, alguma vez, participado d'0 Grande Jogo.

— Participei apenas uma vez, de uma missão perigosíssima — ele

dissera. — Não me importo de confessar-lhe que essa foi uma das experiências mais assustadoras de minha vida!

Ela havia insistido para o pai contar-lhe sobre a tal missão perigosa mas

o coronel se recusara a fazê-lo, justificando-se:

— Não se deve fazer qualquer comentário sobre as atividades da organização. Só o que lhe posso dizer é que nenhum homem pode fazer mais pela pátria do que arriscar sua vida por ela, e todo membro d'0 Grande Jogo merece a Cruz da Rainha Vitória. Lembrando-se do que o pai lhe dissera, Delia podia agora compreender a razão de Marcus respeitar o tio e considerá-lo um herói. Ela vestiu um dos bonitos trajes de noite com anquinhas discretas e um grande laço de cetim sobre as mesmas. Enquanto se arrumava, refletia com pesar sobre o clima em que ela e lorde Kenyon se haviam encontrado.

Em outras circunstâncias, tudo poderia ser bem diferente. Ela gostaria de falar-lhe sobre a Índia, um país que sempre a fascinara e sobre o qual já havia lido muitos livros, além de ter ouvido o pai contar sobre aquela misteriosa terra, conhecida como a “Jóia da Coroa”. Se pudesse, iria algum dia conhecer tal “jóia”. No mesmo instante suspirou, imaginando que tal sonho era quase impossível de realizar. Ao descer as escadas, concentrou seu pensamento em Lucille; não sabia

o que poderia dizer para animá-la.

A irmã, com certeza estivera chorando, então seria mais aconselhável

deixá-la quieta. Logo após o jantar, Lucille quis voltar para o quarto. Delia achou que seria melhor mesmo a irmã recolher-se mais cedo.

— Também me deitarei daqui a pouco — disse Delia. — Ainda há muito o

que fazer para a exposição, e amanhã os homens virão erguer os toldos. Lucille, porém, mostrava-se completamente alheia. Em seguida levantou-se e foi subindo lentamente as escadas, de cabeça baixa, completamente estranha. Perdera toda a sua vivacidade, sua alegria, suas maneiras impetuosas e espontâneas. Delia foi verificar se as janelas se achavam fechadas e a porta da frente trancada a chave. O velho Hanson andava muito esquecido. Só então subiu para seu quarto, quase tão desalentada quanto Lucille, e o futuro parecia-lhe sombrio. “Odeio lorde Kenyon!”, disse a si mesma, zangada. Mas no íntimo reconhecia que ele era um herói.

O jantar na mansão havia sido excelente, e o vinho servido, magnífico.

Lorde Kenyon achou que era chegado o momento de falar com Marcus. Durante a tarde lorde Kenyon dera uma volta pela casa e constatara, satisfeito, que tudo se achava na mais perfeita ordem. Mas o mérito era de Jones. Esta e o mordomo já trabalhava para a família há muitos anos. Observando a criada, percebera que ela desejava falar-lhe confidencialmente. No entanto, não pretendia falar com ninguém antes de conversar com o sobrinho. Precisava saber quais eram seus sentimentos em relação à srta. Winterton. Diante daquele pensamento, reviu mentalmente a figura de Delia. Era, sem dúvida, uma jovem linda. Ele estava muito zangado quando fora à casa dela, mas agora, sem estarem os ânimos exaltados, reconhecia que nunca teria imaginado encontrar alguém de beleza tão extraordinária em Little Bunbury. Infelizmente não se saíra bem em seu primeiro contato com a srta.

Winterton, e aquilo lhe causava uma sensação desagradável. Talvez lhe tivesse faltado tato. Mas Charlotte tanto falara e mostrara-se tão firme que ele estava convencido de que Marcus se enredara com uma garota vulgar. Embora fosse tarde para arrependimento, reconhecia que agira precipitadamente, sem a ponderação que lhe era peculiar.

O próprio solar já devia ser o bastante para alertá-lo de que ali não podia

morar uma camponesa sem classe, à caça de um marido rico e com título de nobreza.

Mais ao fim da tarde, lorde Kenyon foi passear pelo jardim. Todavia, ele não notava a beleza que o circundava: só pensava na raiva que vira impressa nos dois olhos cinzentos, no porte gracioso e na dignidade com que a srta. Winterton deixara o salão. “Só me resta esperar que Marcus tenha o bom senso de voltar comigo para Londres”, pensou. Quase à hora do jantar Marcus apareceu finalmente. Lorde Kenyon estava na biblioteca.

O sobrinho, já informado da chegada do tio, entrou no amplo cômodo,

exclamando alegremente:

— Tio Kenyon! Não tinha a menor idéia de que havia voltado da Índia!

— Cheguei há dois dias. — E veio até aqui para me ver? Que ótimo! Eu já começava a pensar

que, não o vendo há tanto tempo, fosse apenas uma lenda.

— Estou aqui e bem vivo! — respondeu o tio com um sorriso. — Fico feliz em rever a casa e constatar que está muito bem cuidada.

A conversa que precisava ter com o sobrinho e que o trouxera até Shaw

teria de esperar até depois do jantar. Tio e sobrinho tomaram juntos uma taça de champanhe e foram trocar-se. Durante o jantar, o marquês fez muitas perguntas sobre a Índia, às quais o tio foi respondendo, bem humorado. Agora cada um deles tinha um copo de brandy à sua frente; lorde Kenyon achou que era o momento de explicar a razão de sua presença em Shaw. Com ar casual, ele disse:

— Fiquei sabendo que está tendo alguns problemas. Ele notou que Marcus ficou tenso.

— O que quer dizer com “problemas”? — perguntou cautelosamente.

— Sua tia Charlotte está muito preocupada com você.

— Não posso imaginar o motivo de ela estar assim.

— Ela o esperava em Londres e gostaria de poder anunciar seu noivado com lady Sarah, mas você não apareceu até o momento.

— Tenho bons motivos para permanecer aqui — disse o marquês,

depressa. — Tenho feito visitas para conhecer os fazendeiros e outras pessoas que vivem em minha propriedade.

— É essa a única razão?

— O que mais tia Charlotte lhe disse?

— Para ser franco, ela contou-me que se envolveu com uma jovem lady,

chamada Winterton. Depois de tê-la visto, confesso que posso compreender

seu interesse por ela.

— Depois de tê-la visto? O que quer dizer?

— Quando cheguei aqui, você havia saído; então fui visitar a srta. Winterton.

— Impossível!

— Por quê?

— Porque…

O marquês parou de repente. Olhando fixamente para o tio, perguntou:

— O que, exatamente, andou contando à srta. Winterton?

— Disse-lhe que você está comprometido e que pretende anunciar seu

noivado.

— Mas isso não é verdade!

— Ora, Marcus! — repreendeu lorde Kenyon. — Pela informação de sua

tia, o duque e a duquesa vêem com bons olhos seu casamento com a filha deles, e lady Sarah é uma moça muito agradável.

— Não propus casamento a lady Sarah, nem pretendo fazê-lo! Quando

conhecer Lucille Winterton, que pretendo desposar, irá compreender que tenho

razão de não querer outra mulher em minha vida.

— Mas já a conheci; acabei de lhe dizer.

— Também disse que isso seria impossível, uma vez que Lucille e eu

estivemos juntos a tarde toda! Lorde Kenyon olhou surpreso para o sobrinho.

— Mas estive no solar e falei com a srta. Winterton!

— Sim. Falou com a srta. Délia Winterton, irmã mais velha de Lucille.

Devo dizer-lhe que ela está convencida de que, devido à minha reputação, eu não seja a pessoa certa para tornar-me marido da irmã! Délia até proibiu Lucille de me ver! Lorde Kenyon colocou o copo de brandy sobre a mesinha.

Eu devo mesmo ser um obtuso, mas não estou entendendo! É muito simples. Délia Winterton ouviu falar sobre meu

Eu devo mesmo ser um obtuso, mas não estou entendendo! É muito simples. Délia Winterton ouviu

comportamento em Londres e ficou escandalizada. Depois, uns meus amigos hospedaram-se aqui em Shaw, deixando os moradores da vila chocados. Até você ficaria horrorizado se eu lhe contasse o que aconteceu.

— Posso imaginar.

— Mas, depois que conheci Lucille, apaixonei-me por ela e compreendi

que ela era a jovem a qual vinha buscando e com quem pretendo me casar.

— E ela o aceita como marido? — perguntou lorde Kenyon com uma

ligeira curva nos lábios.

— Ao contrário; está com desculpas, mostra-se evasiva, simplesmente

porque sabe que minha família irá desaprovar nosso casamento. Eu lhe contei que minha família nunca me deu atenção até eu tornar-me o quinto marquês. Além disso, Délia, que deve ser a tutora de Lucille, simplesmente me considera péssimo! Lorde Kenyon não conteve o riso.

— Certamente nunca esperei por uma coisa dessas. Agora, ao saber que

conversei com a irmã errada, sinto-me inquieto.

— Suponho que tenha sido rude com Délia, o que só piora a situação.

— Ouça, Marcus, é muito importante, não só pelo seu bem, mas pelo de

toda a família, que faça um casamento acertado.

— É exatamente o que pretendo fazer. Lucille é a mulher certa para ser

minha esposa. Você pode dizer ou pensar o que quiser, mas fique sabendo de

que não vou deixar ninguém escolher minha esposa.

— Soube que conheceu lady Sarah e achou-a muito agradável.

— Reconheço que a considero uma companhia bastante agradável, mas

não a amo. Amo Lucille, e ninguém me impedirá de torná-la minha esposa! A firmeza com que ele falou fez o tio olhá-lo, surpreso. Percebia, pela primeira vez, que não falava com um rapaz imaturo, mas com um homem determinado, que sabia o que queria. Lorde Kenyon achou prudente tentar ganhar tempo. Em tom conciliatório, disse:

— Se é como diz, Marcus, respeito seus sentimentos e só me resta,

naturalmente, desculpar-me perante a srta. Delia Winterton por tomá-la por Lucille. Espero que me apresente à verdadeira srta. Winterton, amanhã.

— Isso não será fácil.

— Por que não?

— Porque Delia não sabia que Lucille e eu nos encontrávamos. Agora,

depois da sua visita, ao saber que vinha sendo enganada, tornará as coisas

ainda mais difíceis.

— Sinto muito ter sido o causador de tudo.

— Como eu poderia imaginar que você iria precipitar-se, pondo tudo a

perder, exatamente quando eu tentava convencer Lucille a apresentar-me a Delia e tentar melhorar minha imagem aos seus olhos?

— Só posso pedir desculpas por tudo. Talvez seja conveniente voltar

comigo para Londres; lá conversaremos melhor sobre o assunto com sua tia.

— Posso imaginar claramente o que tenta fazer! Deseja afastar-me de

Lucille, baseando-se na velha suposição de que a distância nos fará esquecer um do outro! Minha resposta é um “não” absoluto! Não vou abandonar Lucille, não vou deixá-la para outro homem. Pretendo casar-me com ela, assim que me aceite como seu marido! O marquês saiu da sala, deixando o tio, que o fitava, atônito. Chegando ao hall, ele subiu depressa as escadas, indo para sua suíte, no primeiro andar, no fundo do corredor. Havia apenas mais três suítes principais perto da que, tradicionalmente, pertencia ao marquês. As outras ficavam na ala oeste. Lorde Kenyon devia estar ocupando os aposentos ao lado da suíte do sobrinho, que eram conhecidos como os “aposentos do príncipe de Gales”, pois haviam sido ocupados por Jorge IV, no final do século anterior.

Mal entrou no quarto, Marcus tocou a sineta, chamando seu valete, e começou a trocar de roupa. Precisava falar com Lucille, e aquilo não seria fácil. Ela devia estar muito contrariada depois de tudo o que acontecera e naquele momento precisava do apoio dele. “Amo-a!”, disse a si mesmo, com veemência, enquanto calçava as botas de montar. “Ninguém, nem mesmo tio Kenyon, irá me impedir de desposá-la.” Antes de voltar a falar com o tio, era imperioso que fosse procurar Lucille. Assim que ficou pronto, desceu pelas escadas laterais que levavam para

a parte da frente da casa, não muito longe dos estábulos, na ala oeste. O cavalariço encarregado do serviço noturno preparou para o amo o garanhão que ele costumava montar, e o marquês partiu em direção ao parque. O sol punha-se tarde naquela época do ano, e atrás dos carvalhos o céu mostrava algum vestígio das tintas carmesins do crepúsculo. As primeiras estrelas já surgiam, ainda pálidas e tremeluzentes, no firmamento. Era uma noite de lua cheia. Marcus seguia, rumo ao solar, pensando em como fazer para convencer Lucille a vir cavalgar com ele. Poderiam ir para o bosque ou para qualquer um dos esconderijos secretos que haviam descoberto durante a semana. “Tenho de falar com ela! Lucille precisa saber que nada é mais importante do que o amor que nutrimos um pelo outro.” Sua apreensão era grande; Delia Winterton tinha dele uma péssima impressão, e não seria fácil provar que ele não era o libertino que ela imaginava. Lucille lhe dissera que toda a vila comentava sobre os hóspedes ruidosos

e as festas imorais oferecidas na Casa Grande. Em sua espontaneidade, ela até perguntara se as ladies dançavam mesmo no telhado usando apenas uma camisola.

— Algumas delas, sim; não todas — ele respondera. Lucille observou,

com seu riso costumeiro, que, à medida que a história ia sendo contada, ia

perdendo sua veracidade, e que logo acabariam dizendo que as ladies dançavam nuas.

— Só agora me dou conta de que fui um tolo em trazer para Shaw

convidadas desse tipo — dissera o marquês, arrependido. — Eu poderia ter ido para um dos hotéis que alugam salões para tais festas.

— Existem lugares para isso? E se mais pessoas oferecem outras festas ao mesmo tempo?

— É melhor não falarmos sobre isso — ele respondera, mudando de

assunto. Enquanto cavalgava, Marcus ia maldizendo-se por ter granjeado péssima reputação, não apenas em Londres, mas também em Little Bunbury. Agora era tarde para lamentar o que já havia acontecido; ele lembrou-se de um velho adágio que dizia: “Nenhum pássaro deve enlamear seu próprio ninho”. E fora exatamente o que fizera. Mas Lucille, sendo tão linda, tão ingênua e pura, precisava manter-se distante de toda a degradação e ignorar o lado sujo da vida que até há bem pouco tempo ele considerava agradável. Olhando para o passado, reconhecia que se comportara de modo

irreverente e até indigno porque seu sentimento de rebeldia era mais forte. Os anos que passara subjugado pela mãe pareciam não ter fim. Durante toda a infância e juventude poucas coisas lhe foram permitidas; vivera cercado de tabus. Assim, ao ver-se senhor de si, com um título de nobreza, rico e em Londres, deixara-se levar pelo que julgava ser “uma vida de prazeres”.

O marquês vivia cercado de mulheres lindas, sofisticadas e experientes.

Elas caíam facilmente em seus braços, bajulavam-no, faziam-no rir, além de lhe ensinarem milhares de coisas que jamais pensara ou sonhara que pudessem existir. Com os homens, costumava beber e fazer apostas; praticava com eles diversas modalidades de esportes; assistia a uma dezena de competições; seus cavalos corriam nos grandes prêmios. Tudo era fascinante e tão diferente do norte! Todavia, aqueles prazeres podiam ser comparados ao excesso de comida ou de bebida: pâté de foie gras ou champanhe em demasia causavam, indubitavelmente, no dia seguinte, dor de cabeça ou ressaca.

Embora lhe pesasse o arrependimento por não ter sido mais moderado, sentia o alívio de poder contar com a compreensão de Lucille. Ela era adorável; além de linda, inexperiente, ingênua e natural, era compreensiva. Talvez a educação recebida na França fosse responsável por sua mente aberta, capaz de distinguir as necessidades de um homem das de uma mulher. Lucille não só era capaz de compreender e perdoar um homem que tivesse “cometido suas loucuras da juventude”, como acreditava que ele pudesse amar uma mulher tão intensamente que as outras passavam a não mais interessá-lo. “Amo Lucille por ser assim, tão diferente!” Passando pelo portão, ao fim do parque, estava bem perto do solar. Andando mais um pouco, indo agora a passo mais lento, decidiu desmontar.

O marquês sabia onde ficava o quarto de Lucille, voltado para o jardim

aos fundos da casa. Ela falava muito sobre seu modo de vida. Deixando as rédeas de seu cavalo enroladas à balaustrada de madeira, foi andando pelo caminho coberto de cascalho até encontrar-se sob a janela de Lucille. Os criados já deviam ter-se recolhido, e ninguém poderia vê-lo ou ouvi-

lo.

Felizmente a vidraça estava aberta e via-se luz através das cortinas. O marquês assobiou, mas não houve resposta. A um novo assobio, ele viu a cortina afastar-se e Lucille aparecer à janela. Já era noite fechada, mas a lua que subia acima das árvores e as estrelas agora bem visíveis no céu, permitiam alguma visão. Mas, mesmo que estivesse escuro como breu, Lucille saberia quem assobiava chamando-a. Ela inclinou-se no parapeito da janela o mais que pôde. — Preciso vê-la! — sussurrou o marquês. Lucille fez um sinal afirmativo com a cabeça e indicou à direita. Ele respondeu, também com a cabeça que havia entendido I e foi para o lugar que fora indicado. Lucille vestiu depressa, por cima da camisola, um bonito e elegante robe de cetim azul um pouco mais claro do que seus olhos; era enfeitado com rendas e fechado na frente com botões semelhantes a pequenas pérolas. Naturalmente seria mais apropriado usar um vestido, mas Lucille não quis

deixar o marquês esperando; ele corria o risco de ser visto no jardim; ou Delia, percebendo movimento, poderia vir até seu quarto para ver se tudo

estava bem. Esta última possibilidade era bem remota, pois a irmã já havia ido para seu quarto há cerca de uma hora. No entanto, ei preferível não se arriscar. Lucille apagou as velas, abriu a porta sem ruído e foi caminhando descalça, na ponta dos pés, pelo corredor, carregando na mão os chinelos de quarto. Ao chegar às escadas, pôde ver os degraus iluminados apenas pela luz desmaiada que vinha através das grandes janelas antigas que ostentavam brasões coloridos. Não querendo abrir a pesada porta da frente, ela deu a volta e saiu pela porta lateral, menor e mais silenciosa, que dava para o jardim.

O marquês já se encontrava do lado de fora e, mal viu Lucille, tomou-a

em seus braços, beijando-a com paixão, impaciência e arrebatamento. Assim que se viu envolta naqueles braços, sentindo a loucura daqueles beijos, soube que derramara lágrimas desnecessárias e que não precisava temer ser rejeitada pelo homem que amava. “Amo você! Amo-o tanto!”, ela queria dizer, mas não havia necessidade de palavras. Aqueles beijos lhe diziam o quanto Marcus a desejava e que o amor de

ambos era mais forte do qualquer adversidade. Só depois de ela sentir-se transportada para o céu nos braços de Marcus, ele ergueu a cabeça e murmurou:

— Tenho de falar com você, minha querida!

Ela fechou a porta, segurou a mão do marquês e foi conduzindo-o para uma sala de leitura muito atraente ao fim de um corredor longo e escuro. Ali a mãe de Lucille costumava escrever suas cartas.

O cômodo era aconchegante e cheio de peças valiosas, de família ou

souvenirs trazidos dos diferente lugares onde seus pais haviam estado. Havia no ar um suave perfume vindo das flores que Delia havia arrumado.

Lucille acendeu as velas do candelabro sobre a cornija da lareira, e o marquês pôde ver o retrato a óleo do coronel Winterton, em seu uniforme.

À luz das velas, os cabelos dela ficaram mais dourados, e o azul de seus

olhos mais luminoso. O marquês não conteve o impulso de tomá-la em seus

braços novamente. Ela representava tudo o que ele mais queria na vida e jurou que não a perderia jamais.

— Amo você e não poderia dormir se não a visse, se não lhe falasse desse amor! — ele disse com a voz ligeiramente trêmula.

— Sofri tanto, imaginando que seu tio acabaria convencendo-o de voltar para Londres e então… iria esquecer-me — disse Lucille baixinho. — Achei que sua reação seria exatamente essa. Mas disse toda a verdade para tio Kenyon.

— A… verdade?

— Sim. Disse-lhe que a amo e que iremos nos casar!

— Oh, Marcus… fala a sério?

Ele não respondeu à pergunta. Abraçando-a com força, beijou-a loucamente, com ímpeto e ardor.

E Lucille soube então que se pertenciam; ele não a deixaria jamais.

CAPÍTULO V

Depois de um sono leve, Delia acordou. Estivera fazendo os ingressos com os preços para a exposição durante quase o dia todo e até sonhara com aquilo. Respirando aliviada, lembrou-se de que terminara a tarefa. Começou então a recordar a conversa que tivera com lorde Kenyon. Na verdade, não haviam conversado e sim se digladiado; chegara a

sentir o forte antagonismo vibrando entre eles. Havia sido uma pena encontrarem-se daquela forma; um pouco triste, ela pensou que nunca mais teria a oportunidade de falar com lorde Kenyon novamente. Teria sido muito excitante tê-lo ouvido contar sobre a Índia, uma terra distante e cheia de mistérios que sempre a fascinara.

O pai costumava contar-lhe sobre os anos em que havia servido nos

Lanceiros de Bengala, ainda no seu tempo de solteiro. Depois de casado continuara a carreira militar, mas em seu próprio país. Depois da morte do pai, ele viera para o solar que ficava em sua propriedade, no campo, em Little Bunbury.

O coronel jamais se esquecera da Índia com seus encantos, sentia

saudades do tempo em que servira no famoso regimento, notável por sua cavalaria.

Uma vez o coronel Winterton fora um dos elementos d'O Grande Jogo. Para Delia, a narrativa do pai sobre a missão que lhe fora confiada havia sido mais emocionante do que ler um livro de aventuras.

O pai também costumava falar-lhe sobre as religiões da Índia. Ao

discorrer sobre ô assunto, ele demonstrava grande conhecimento sobre os Vedas e sobre antigos manuscritos em sânscrito.

“Lorde Kenyon poderia contar-me tantas coisas que eu adoraria ouvir sobre o país que ele deve conhecer tão bem!” Delia pensou com um suspiro. Ao invés disso, houvera uma guerra entre os dois. Era melhor voltar a pensar na exposição. Naquele instante retornou à mente uma conversa à qual nem prestara muita atenção. Ela estava trabalhando no escritório, escrevendo com capricho, em cartões, os títulos das diversas classes de competidores, quando Flô entrou. Delia olhou impaciente para a criada, e esta explicou que viera apenas lustrar os metais, como costumava fazer regularmente. Sem querer contrariar a criada, ela permitiu sua presença ali e só esperava que Flô fizesse seu trabalho em silêncio. Foi uma esperança vã, sendo Flô tagarela ao extremo. Mal começara a polir o atiçador de fogo da lareira, ela comentou:

— Dizem que há gente estranha, muito estranha na vila. O que acha

disso, srta. Delia? Sem estar prestando atenção, Delia mal ouviu a pergunta. Mas a criada não ficou desconcertada e prosseguiu:

— Soube pela sra. Geary que esses estranhos andaram fazendo

perguntas sobre o pessoal da Casa Grande. Eu os achei muito atrevidos. Ela terminara de polir o atiçador e havia pegado a tenaz, sempre falando.

— Eles andam dizendo que vão escrever um livro sobre as casas

ancestrais inglesas, mas se quer minha opinião, eles não passam de uns enxeridos. Queriam saber tudo sobre a Casa Grande, quantos criados havia, como eram os aposentos principais, quantos quartos havia, quem dormia neles.

Enquanto as mãos de Flô executavam com perfeição sua tarefa, deixando cada peça reluzente, ela tagarelava mais por hábito, pois Delia mal

ouvia. — É claro que a sra. Geary respondeu às perguntas, mas eu disse a ela que não devia contar tantas coisas para estranhos. Mas ela disse que era por causa do livro que iam escrever. Não confiei nesses estrangeiros, esta é a verdade! Ah, se visse esses homens, teria a mesma opinião que eu, não, srta. Delia?

Flô esperava uma resposta e Delia disse vagamente:

— Estrangeiros?! Como sabe que eram estrangeiros? — Não tenho dúvidas sobre isso! Cabelos negros, olhos negros, pele morena, maçãs do rosto salientes e, se quer saber o que penso, acho que são de algum país do Oriente do qual nem ouvi falar. Depois de algum tempo, Flô saiu do escritório carregando a caixa com o material de limpeza. Suspirando aliviada, Delia retomou seu trabalho. Só então a história de Flô voltara-lhe à cabeça. Uma coisa lhe dizia que era mesmo muito estranho haver estrangeiros, principalmente do tipo descrito por Flô, em Little Bunbury. De repente, ocorreu-lhe que os tais estrangeiros talvez fossem russos. Dando um grito, ela sentou-se na cama. Claro que eram russos! E estavam perseguindo lorde Kenyon! Por essa razão haviam feito tantas perguntas sobre a Casa Grande e sobre quem dormia nos quartos. Delia saltou da cama. Acendeu uma vela e começou a vestir apressadamente a saia de montaria e uma blusa branca que se achava à mão. Iria até a Casa Grande avisar o criado que estaria a serviço durante a noite, de que a vida de lorde Kenyon corria perigo. Poderiam até rir dela, vendo-a chegar àquela hora na mansão. Mas era imperioso que o fizesse. No fundo algo lhe dizia que não tinha nada a ver com aquilo. Mas e se lorde Kenyon fosse encontrado morto pela manhã? Sua consciência não a deixaria em paz pelo resto da vida. Seu pai lhe dissera que os membros d'O Grande Jogo conviviam com a morte e um grande número deles morria. Por esse motivo era preciso manter as missões em segredo: os russos tinham ouvidos que alcançavam longe. Uma vez descoberta a identidade de uma pessoa da organização, essa pessoa sofria um acidente fatal ou simplesmente desaparecia. O coronel costumava dizer que, embora fosse muito arriscada qualquer missão d'0 Grande Jogo, era também uma glória ir solapando o trabalho do inimigo implacável que se empenhava em destruir a paz na Índia. Cair nas mãos do inimigo significava, quase sempre, torturas, o que era ainda pior do que a morte. Para que a identidade dos participantes da organização não fosse revelada nem com torturas, usavam-se números e não nomes. Tudo aquilo ocorreu a Delia, que, não duvidando que os tais estrangeiros

eram mesmo russos à procura de lorde Kenyon, calçou as botas e desceu as escadas depressa, sem ter pegado o chapéu nem o casaco. Aflita, ela pensava que, se os russos pegassem lorde Kenyon, talvez o torturassem, depois o matassem.

Ao chegar ao hall, onde havia claridade, pois o luar entrava pelas janelas

sem cortinas, Delia fez menção de ir até a porta da frente, mas deteve-se. Viu

que havia luz na sala de leitura. Automaticamente, dirigiu-se para lá e abriu a porta. Lucille e o marquês achavam-se sentados no sofá. O braço dele, estendido sobre o encosto, apoiava a cabeça de Lucille, que estava reclinada sobre seu ombro. Os três ficaram meio paralisados pela surpresa, mas Delia recobrou-se num segundo, dizendo com veemência:

— Lorde Kenyon está em perigo! Há dois russos na mansão, e creio que desejam matá-lo!

O marquês olhou para ela sem esconder seu espanto, enquanto se

levantava.

— Vá selar um cavalo para mim! — Delia pediu-lhe. — Lucille poderá

acompanhá-lo. Vou pegar algumas das pistolas de papai. Lucille murmurou qualquer coisa, mas a irmã já se afastava correndo, indo para o hall. Do lado oposto à porta de entrada ficava a sala de armas. Ali havia um

grande armário envidraçado onde o coronel guardava diversas armas para esportes e rifles. Na parte inferior do móvel ficavam as pistolas, algumas já muito antigas. Delia pegou uma delas que já usara praticando tiro ao alvo.

O coronel Winterton ensinara a esposa e as filhas a atirar. Ele sempre

dizia que todas as mulheres precisavam aprender a defender-se.

A sra. Winterton achava aquilo desnecessário, mas o marido pusera um

alvo no gramado e exercitava-se com a família. Para ele era um grande prazer ver suas discípulas acertarem na mosca; mais envaidecido ficava quando elas

lhe diziam que o mérito era do excelente instrutor. Para incentivá-las o coronel demonstrava sua perícia atirando nos números de cartas de baralho a uma boa distância. Quando estivera no colégio, na França, Lucille vangloriava-se de ser boa atiradora e uma vez, tendo sido convidada a visitar a família de uma colega,

em seu château, teve de demonstrar sua habilidade em manejar uma pistola usada em duelos, causando a admiração dos presentes. Com sua pistola na mão, Delia escolheu outra para o marquês e uma menor para Lucille, sabendo que a irmã iria insistir em acompanhá-los. Rapidamente, ela carregou as armas e pegou um bom suprimento de balas extras. Ao sair da sala, atravessou o hall, abriu a porta e viu o marquês aproximando-se, puxando pelas rédeas o cavalo que acabara de selar para Delia. Atrás dele vinha Lucille em seu baio favorito. Delia mostrava-se ansiosa, imaginando se não seria tarde demais e lorde Kenyon já estivesse morto. Ela nem notou que Lucille estava usando apenas um robe. Indo ao encontro do marquês, Delia entregou-lhe a pistola e algumas balas. Ele guardou-as no bolso do casaco, perguntando:

— Como sabe que os russos podem estar atrás de meu tio?

— Falarei sobre isso mais tarde — Delia respondeu depressa. — Só há

poucos instantes me ocorreu o que estava acontecendo.

O marquês ergueu-a, colocando-a na sela. Delia entregou-lhe a terceira

pistola depois de ter pegado as rédeas.

— Dê esta arma para Lucille, e as balas também.

Voltando-se, ele fez o que Delia pedira e foi caminhando até o lugar onde havia amarrado seu puro-sangue. Delia foi seguindo pela entrada do solar; Lucille e o marquês vinham logo atrás. Ao chegar à estrada, os três dobraram à esquerda, e poucos minutos

mais tarde entraram no parque pelo mesmo portão que o marquês atravessara há não muito tempo. Então Delia começou a galopar velozmente sobre o caminho irregular e acidentado. Se os russos já tivessem matado lorde Kenyon, os três os veriam fugindo da mansão. Ela mostrara-se tão segura ao afirmar que lorde Kenyon corria perigo de vida que o marquês ficara convencido e não fizera mais perguntas. Eles chegavam ao fim do parque e estavam bem próximos da entrada da mansão. O marquês emparelhou-se com Delia. Um segundo mais tarde ele viu uma carruagem fechada. Naquele instante a carruagem atravessava a ponte sobre o lago e parecia voltar da mansão. Mas ainda estava a uma boa distância. Automaticamente, Delia encostou seu cavalo bem junto à cerca e os dois acompanhantes fizeram o mesmo.

— Temos de detê-los — ela sussurrou.

— Naturalmente! — respondeu o marquês. — Ninguém viria visitar-me a

esta hora da noite.

— Os russos andaram pela vila fazendo perguntas sobre o quarto onde

lorde Kenyon dormia. O marquês apenas contraiu os lábios. Seus olhos estavam fixos na carruagem. Esta era puxada por dois cavalos e agora já se achava a pouca

distância deles. Nesse instante o marquês foi para o meio do caminho, Delia fez o mesmo e Lucille ficou do outro lado. Os três esperaram a carruagem aproximar-se. À luz da lua os três puderam ver dois homens sentados na boléia.

Só quando já estava quase em cima dos três cavaleiros, a carruagem parou por completo, e um dos cocheiros disse em péssimo inglês, com. sotaque carregado:

— Nós querer passar! Nós pressa!

— Sou o marquês de Shawforde, e vocês estão em minha propriedade. Tenho todo o direito de saber quem são e para onde estão indo.

— Sai do caminho ou se arrependerá — disse o outro homem que se achava do lado do cocheiro.

Enquanto falava, ele enfiou a mão dentro do casaco, e Delia atirou imediatamente em seu braço. Ouviu-se um grito de dor. Antes que o outro homem pudesse pegar uma arma ou reagir de qualquer outra forma, Lucille atingiu-o com um tiro no ombro.

O marquês nem sacara sua pistola. Ele conduziu seu cavalo para o lado

da carruagem, desmontou e abriu a porta. Lorde Kenyon achava-se estendido no banco traseiro, amarrado e

amordaçado. Delia acabava de pôr sua cabeça para dentro da carruagem para ver o que acontecia ali.

— Não deixem esses homens escaparem! — ordenou o marquês.

Ajoelhando-se no soalho da carruagem, tirou a mordaça do tio e viu que ele tinha os olhos cerrados. Sentindo um calafrio, chegou a pensar que lorde Kenyon estivesse morto.

Um exame mais cuidadoso mostrou-lhe que seu coração batia e sua temperatura era normal.

O marquês desceu da carruagem e viu a cena lá fora: Delia, montada,

segurava o cavalo dele pelas rédeas; os dois homens, sentados na boléia

gemiam e encolhiam-se de dor, tendo Lucille apontando a pistola para eles.

O marquês arrancou um dos homens da carruagem, atirando-o na

grama. Em seguida fez o mesmo com o outro bandido.

Ao aproximar-se de Delia para pegar seu cavalo, ela disse baixinho.

— Creio que é perigoso levar lorde Kenyon para a mansão, pois outros russos poderão aparecer.

O marquês ficou pensativo.

— O que sugere? — ele perguntou.

— Será melhor levá-lo para o solar. E esses dois homens feridos não podem ser encontrados em sua propriedade.

— Tem razão.

Caminhando até Lucille, o marquês disse-lhe:

— Sua irmã acha mais aconselhável não levar meu tio para a mansão.

— Ele está… vivo?

— Apenas inconsciente, graças a Deus! Sua irmã e eu vamos levá-lo

para o solar. Vou desarmar esses dois bandidos e quero que fique aqui; aponte sua arma para eles e não os deixe escapar. Se lhe causarem qualquer problema, atire nas pernas deles.

— Pode deixar. Cuidarei dos dois. Mas… por favor, não demore.

— Voltarei o mais rapidamente possível, querida, dentro dos meus limites humanos, claro.

Os dois olharam-se sorridentes e, ao vê-los sob a luz do luar, Delia não

teve dúvidas de que se amavam demais. Mesmo sem ter tocado Lucille era como se ele a tivesse envolvido em seus braços. Depois de haver tirado as armas dos dois bandidos, ele sentou-se na boléia da carruagem e tocou os cavalos. Tinha de ir devagar e com cuidado; Delia acompanhava-o conduzindo o belo puro-sangue. Não demoraram a chegar à propriedade Winterton. Tendo amarrado os dois cavalos à balaustrada de madeira, Delia correu

até a carruagem, em cujo interior o marquês já se achava, tentando tirar lorde Kenyon do assento. Ela ajudou-o e, juntos, carregaram-no para o hall.

— Vamos deixá-lo, por enquanto, no sofá, depois o levaremos para o andar superior.

— Está bem.

Os dois continuaram a carregar lorde Kenyon com alguma dificuldade

porque ele era pesado e, na sala de estar, deitaram-no em um sofá.

— Temos de voltar, mas lorde Kenyon estará seguro.

— Graças a você! — disse o marquês, agora calmo. Tirou a corda que

amarrava as pernas do tio, mas Delia já se afastava, sem esperar o que ele tinha a dizer. Chegando ao hall, ela abriu uma arca de carvalho, pegando dali duas mantas de viagem, levando-as em seguida para a sala de estar. Lorde Kenyon usava apenas um camisolão de dormir e devia estar sentindo frio. Delia cobriu-o com as duas mantas e seguiu o marquês. Antes de fechar a porta para sair ela olhou mais uma vez para lorde Kenyon e certificou-se de que ele estava confortável, bem coberto e com a cabeça apoiada em uma almofada de cetim. Ele pareceu-lhe também muito bonito com os olhos fechados. No mesmo instante Delia sentiu um calafrio, pois aquele belo homem deitado no sofá deu-lhe a impressão de estar morto. Mas tivera apenas um pensamento passageiro. O marquês havia assegurado que o tio estava apenas desacordado. Logo os três voltariam e cuidariam dele. No momento, o mais urgente era tirar os dois seqüestradores da propriedade do marquês. Chegando onde se achavam os cavalos, o marquês ergueu Delia, colocando-a na sela e entregando-lhe as rédeas de seu próprio puro-sangue. Subindo rapidamente na carruagem, ele fustigou os animais e partiu, seguido de perto por Delia. Chegaram ao lugar onde haviam deixado Lucille. Ela estava adorável naquele robe azul. Com uma das mãos segurava as rédeas do cavalo e, com a

outra, a pistola. Os dois homens achavam-se no mesmo lugar no qual o marquês os havia jogado. Do pulso de um dos feridos escorria um filete de sangue, e no casaco do outro formara-se uma grande mancha vermelha. Assim que viram o marquês, começaram a reclamar, mas já foram sendo empurrados para a carruagem e atirados na parte de trás da mesma.

A princípio eles falavam em russo, depois um dos raptores conseguiu

dizer:

— Nós morrer! Nós precisar médico!

— Então vão ter de encontrar um! — respondeu o marquês batendo com

força a porta da carruagem. Subindo para a boléia, ele tomou as rédeas. Os cavalos, os quais certamente já haviam percorrido uma grande distância, mostravam-se mais

lentos, mas prosseguiram na maior velocidade que as forças lhes permitiam, como se resignados com seu destino.

O marquês, seguido das duas irmãs Winterton, voltou para o solar pelo

mesmo caminho por onde tinham vindo. Delia pensou nos dois feridos, achando que estavam sofrendo com os solavancos provocados pela corrida naquele caminho acidentado. “Merecem até mais do que isso!”, ela pensou. Mas na verdade não gostava de ver ninguém sofrendo, nem mesmo um inimigo. Ao chegarem à estrada, Delia entregou as rédeas do puro-sangue do

marquês para Lucille e só então percebeu que a irmã usava apenas um robe sobre a camisola, mostrando-se surpresa, mas disse apenas:

— Vou na frente, a todo galope, cuidar do nosso paciente.

Ela entrou em sua propriedade, indo para os estábulos. Felizmente nenhum dos cavalariços estava acordado para fazer perguntas. Deixando o cavalo na baia, ela mesma tirou-lhe a sela e os arreios, caminhando em seguida para dentro da casa. Lorde Kenyon estava como o haviam deixado; ele pareceu-lhe um expedicionário das Cruzadas. Ajoelhando-se, ela tocou-lhe a fronte, constatando que a temperatura estava apenas um pouco abaixo do normal.

Seria prudente sentir-lhe as batidas do coração. Para fazer isso, ela afastou as mantas e enfiou a mão sob o camisolão de dormir, sentindo-se acanhada. Controlando-se, Delia disse a si mesma que estava sendo ridícula; ali se achava uma pessoa inconsciente, precisando de ajuda.

O coração de lorde Kenyon batia, embora fracamente. Ela precisava

descobrir a razão de ele estar inconsciente. Devia ter levado uma pancada na cabeça. Os russos certamente haviam entrado em seu quarto, encontrando-o adormecido, golpeando-o em seguida. Talvez pretendessem interrogá-lo; nesse caso, a pancada não teria sido tão forte a ponto de prejudicar-lhe o cérebro. Delia não viu sinais de ferimentos, mas mesmo assim seria melhor levá- lo para um dos quartos do andar superior e mandar chamar um médico. Havia, porém, um problema: se um médico viesse atender lorde Kenyon, logo transpiraria o que havia acontecido. Em Londres algumas pessoas já

sabiam das perigosas missões de lorde Kenyon na Índia; se o pessoal de Little Bunbury ficasse a par do atentado contra o tio do marquês, a notícia espalhar- se-ia nas asas do vento, e a identidade de lorde Kenyon como participante d'0 Grande Jogo seria do conhecimento de todos. “É importantíssimo evitar que isso aconteça”, pensava Delia enquanto subia as escadas. Entrando no quarto que havia sido de seus pais, verificou que a cama de casal estava arrumada. A criada costumava deixar aqueles aposentos sempre em ordem, no caso de aparecer inesperadamente alguma pessoa importante. Os lençóis e fronhas de linho arrematados com renda cheiravam a lavanda. Seguindo os mesmos hábitos da mãe, Delia fazia questão de deixar nos armários de roupas sachês feitos com flores secas da própria planta. Acendeu as velas do candelabro que estava sobre a mesa de cabeceira e foi providenciar algumas bandagens, no caso de precisar delas. Sempre deixava algumas prontas, para usar em alguma emergência. Feito isso, ela desceu as escadas apressadamente, esperando que o marquês e Lucille chegassem logo. Dez minutos mais tarde, os dois chegaram, e Lucille foi a primeira a entrar na sala, encontrando a irmã ajoelhada ao lado de lorde Kenyon.

— Como está ele?

— Sei que está vivo, mas acredito que seu estado inspira cuidados; no

entanto, talvez não seja prudente mandar chamar um médico. Mesmo sem qualquer explicação, Lucille percebeu o que a irmã queria dizer e sugeriu:

— Marcus dará sua opinião. Ele foi levar meu cavalo para a baia.

— É bom deixarmos tudo em seus devidos lugares para ninguém saber o

que aconteceu. Delia sabia que, se os moradores da vila soubessem o que havia

acontecido, ficariam escandalizados. E pensar que Lucille saíra vestida apenas com o robe sobre a camisola! Como se percebesse o que a irmã pensava, Lucille perguntou:

— Quer que eu suba e me vista? Delia sorriu.

— Agora é tarde.

— Como está meu tio? — as duas ouviram o marquês perguntar ao entrar na sala.

— Inconsciente, mas vivo. Precisamos levá-lo para cima.

— Muito bem.

Ele segurou lorde Kenyon pelos ombros, e as duas moças pelas pernas, carregando-o pela escada dos fundos, até o quarto onde Delia estivera há poucos minutos. Mais uma vez ela pôs a mão sobre a fronte dele e acabou de arrumar o lençol de cima e a colcha, dizendo:

— Creio que lorde Kenyon tenha levado uma pancada na cabeça para

ficar inconsciente. Ele deve ser examinado por uma pessoa experiente.

— Já pensei nisso — respondeu o marquês. — Mas é de suma

importância mantermos em segredo o que aconteceu. Vou voltar à mansão

para buscar o valete de meu tio. Ele era esperado em Shaw esta noite, devendo trazer a bagagem de seu amo. Higgins esteve na Índia com meu tio e conhece todos os seus hábitos. Percebendo que Delia mostrava-se indecisa, Marcus explicou:

— Tio Kenyon contou-me certa vez que Higgins cuidou dele quando teve

malária e também quando foi baleado. Tenho a impressão de que esse valete

fará a contento as vezes de um médico.

— Então, por favor, poderia ir buscá-lo? — perguntou Delia. — Pense

também em um modo de evitar conversas entre os criados. Vou me assegurar de que aqui no solar ninguém revele que lorde Kenyon se encontra conosco.

— Farei o possível, mas não ignora que os criados falam como gralhas. Delia não pôde conter o riso, sabendo que aquilo era verdade. O marquês desceu as escadas e Lucille seguiu-o. Delia ouviu-os

conversando baixinho, mas suas vozes foram sumindo no corredor à medida que ambos se afastavam. Apesar do que falavam do marquês, Delia gostara dele. Não podia negar que, naquelas poucas horas de convivência, ele mostrara-se senhor de si, apesar de ser ainda jovem. Além disso, tinha inteligência, presença de espírito e autoridade. Lucille voltou e disse ao entrar no quarto:

— Marcus e eu deixamos aqueles russos na estrada principal. Eles terão

grande dificuldade para explicar, a quem encontrá-los, o que aconteceu. É muito provável que nos acusem de termos atirado neles e, se o fizerem, Marcus dirá que os encontrou em sua casa, tentando roubar, e que havia atirado neles para defender-se.

— Tudo isso está ficando mais parecido com um romance de aventuras! Mal posso acreditar que esteja acontecendo conosco!

— Marcus achou que você foi brilhante em descobrir que aqueles

homens deviam ser russos e que estariam atrás de lorde Kenyon.

— Temos de agradecer a Flô! Esta tarde eu trabalhava no escritório, e

ela apareceu para polir as peças da lareira. Enquanto fazia seu serviço tagarelava sem parar. Confesso que nem prestei muita atenção ao que ela disse. Mas o fato é que acordei esta noite, depois de um sono leve, e ocorreu- me que havia ligação entre a história de Flô e o que você me contou sobre lorde Kenyon ser membro d'O Grande Jogo.

— Que história foi essa e como descobriu que os tais russos estavam atrás de lorde Kenyon?

— Flô disse que dois estrangeiros andaram fazendo perguntas à sra.

Geary; queriam saber inúmeras coisas sobre a mansão e até perguntaram sobre os quartos e sobre possíveis visitantes!

— Naturalmente, a sra. Geary contou tudo o que eles queriam saber!

— Claro! Ela não poderia resistir à tentação!

— Bem, pelo menos desta vez a tagarelice de Flô serviu para alguma coisa! — exclamou Lucille, rindo.

Em seguida ela lançou um olhar apreensivo para lorde Kenyon e Delia tranqüilizou-a.

— Tenho certeza de que lhe deram apenas uma pancada na cabeça para

deixá-lo inconsciente. Não tiveram intenção de matá-lo; acredito que o levavam para algum lugar com o fim de interrogá-lo.

— Não posso acreditar que isto esteja acontecendo em Little Bunbury! E

eu que sempre imaginei este lugarejo como um buraco cheio de mortos-vivos,

onde nada acontecia de sensacional além do canto do cuco! A irmã não conteve o riso.

— Realmente, tivemos muitas emoções em apenas um dia! Bem, só

espero que o marquês não se demore muito.

— Por falar nele, admita que Marcus sabe ser eficiente quando é necessário! — exclamou Lucille, cheia de orgulho.

— Reconheço que ele foi esplêndido!

Lucille notou um brilho de alegria nos olhos de Delia e ficou enternecida.

Depois de um momento, ela disse:

— Acho que uma xícara de chá iria fazer-nos um grande bem, mas será melhor não irmos à cozinha.

— Claro! Não podemos despertar a curiosidade dos criados. Primeiro

quero dizer a todos que recebemos um visitante inesperado. Vou pensar numa

história convincente. Talvez eu diga que lorde Kenyon é um hóspede comum que se sentiu mal logo após sua chegada.

— Vamos falar com Marcus; tenho certeza de que ele pensará em uma boa solução.

Lucille saiu do quarto, e quando estava chegando ao patamar, ao alto da escada, viu o marquês. Ele havia saído há pouco mais de meia hora e já estava de volta, fazendo-se acompanhar de um homem magro, mas rijo, revelando que havia sido um soldado. No entanto seus modos eram os de um valete com muita prática.

— Boa-noite, senhorita! — disse ele, dirigindo-se a Delia, assim que

entrou no quarto. — Sua Senhoria contou-me que meu amo teve problemas novamente. Não me surpreendo! É só tirar os olhos de cima dele, e ele faz das

suas!

O modo como falou fez Delia rir. Depois ela disse:

— Estou muito preocupada com lorde Kenyon, pois está imóvel e

inconsciente há bastante tempo! Higgins aproximou-se, ficando ao lado de seu amo. Demonstrando ser um homem experiente, examinou-lhe a cabeça.

— Isto vai doer muito amanhã. Bateram-lhe com alguma coisa pesada, mas não há corte, apenas um galo.

— Não há nada que possamos fazer?

— Por enquanto, nada. Vamos deixar que volte a si naturalmente.

Higgins insistiu para que todos fossem dormir e deixassem-no cuidando do amo.

Delia indicou ao valete o quarto de vestir, contíguo àquele no qual se achavam, dizendo que ele poderia descansar ali; depois recomendou-lhe, meio hesitante:

— Suponho que Sua Senhoria lhe tenha explicado que devemos manter os criados da casa longe destes aposentos.

— Já dei todas as ordens a Higgins — disse o marquês. — Sei que ele costuma manter a boca fechada.

— Tenho tudo aqui dentro de minha cabeça, milorde! — respondeu o valete com um sorriso.

— Estarei em meu quarto, que fica no começo do corredor, caso precise de alguma coisa — disse Delia.

— Obrigado, senhorita. Em pouco tempo me oriento.

Os três saíram do quarto e caminharam até o patamar, ficando ali parados por alguns minutos. Antes de descer as escadas, o marquês disse a Delia:

— Nem sei como começar a agradecer-lhe por ter salvado a vida de tio

Kenyon! Se não fosse sua intervenção, só Deus sabe onde ele poderia estar

neste instante!

— Não pensemos nisso. É tão assustador! Poderemos falar sobre o

assunto amanhã; quem sabe seu tio fará alguns esclarecimentos sobre aqueles

dois homens.

— Tudo o que posso dizer é que minha vontade era que eles sangrassem

até a morte. Receio que ainda tenhamos problemas e que, de alguma forma, eles nos envolvam.

— Isso não pode acontecer! — exclamou Delia depressa. Ela pensava na reputação de Lucille.

— Concordo com você. Mas o importante é que agora tio Kenyon está a

salvo. E, já que se encontra nesta casa, poderá conhecer melhor minha futura

esposa.

O marquês disse aquilo olhando fixamente para Delia, e ela percebeu

que se encontrava diante de um homem determinado a conseguir o que queria e que era, sem dúvida, muito inteligente.

— Creia que este também seja um assunto para ser tratado amanhã — ela respondeu suavemente.

— Estarei de volta amanhã, bem cedo — prometeu o marquês. — Boa- noite, srta. Winterton e obrigado, do fundo do meu coração. Ele estendeu a mão e ao pegar a de Delia, levou-a aos lábios.

O marquês desceu as escadas acompanhado de Lucille. Delia foi para seu quarto, fechando a porta atrás de si. Parecia-lhe impossível que tanta coisa houvesse acontecido em tão pouco tempo. Enquanto se trocava, viu-se assaltada por estranhos pensamentos, primeiro, que seria emocionante falar com lorde Kenyon novamente, segundo, que, embora seu cérebro não quisesse admiti-lo, ela sentia que Lucille e o marquês haviam sido feitos um para o outro. Mas no mesmo instante a razão pareceu gritar:

“É impossível! Totalmente impossível o casamento dos dois!” A família do marquês jamais aceitaria Lucille, lembrou Delia, desalentada.

CAPÍTULO VI

Lucille tomava o café da manhã quando Delia entrou na sala de jantar.

— Como está nosso paciente? — perguntou, e Delia sorriu.

— Higgins disse-me que ele passou bem, mas cerca de duas horas atrás começou a agitar-se.

— Espero que volte logo a si. Quem sabe consegue lembrar-se do que lhe aconteceu.

Delia achou aquilo improvável, mas percebeu aliviada que a irmã falava naturalmente sobre lorde Kenyon. Parecia não mostrar ressentimentos, mesmo depois de saber qual havia sido o propósito de sua vinda a Little Bunbury. Ela começava a servir-se quando ouviu o barulho de uma carruagem chegando. Lucille ficou atenta e olhou ao redor.

— Tenho a impressão de que é Marcus — observou.

— Tão cedo assim?! — exclamou Delia, surpresa. Lucille estava certa e

levantou-se num salto ao ver o marquês entrando na sala sem ser anunciado.

— O que aconteceu? Alguma coisa… errada?

— Bom-dia…

Ele olhava para Lucille de tal forma que deixou evidente que ia acrescentar uma expressão carinhosa, mas parou a tempo e voltou-se para

Delia.

Bom-dia, srta. Winterton. Pensei em vir falar-lhe antes de ir para

Londres.

Vai para… Londres? — gritou Lucille. — Mas… por quê?

Ela supôs que ele a estava abandonando e não escondeu sua apreensão.

— Vou contar-lhes tudo. Posso sentar-me?

— Naturalmente! — respondeu Delia depressa. — Desculpe-me, parece

que me esqueci de minhas boas maneiras. Na verdade ainda estou confusa

com o que aconteceu ontem à noite.

— Não é de admirar!

O marquês sentou-se à mesa e Lucille perguntou:

— Já tomou o café da manhã? Ou aceitaria uma xícara de café?

— Obrigado. Já tomei café e só desejo conversar com vocês.

Lucille sentou-se e Delia voltou sua atenção para o marquês, que começou:

— Pensei muito ontem à noite e creio que arranjei um argumento convincente para justificar aos criados a ausência de meu tio. Contei a todos que nós dois saímos à noite para um passeio a cavalo e, subitamente, tio Kenyon teve um ataque de malária. Ninguém ignora que uma pessoa que já teve a doença pode ser acometida por repentino ataque de tremores. Delia e Lucille assentiram com a cabeça.

— Como nós estávamos mais perto do solar do que de Shaw, achei

melhor pararmos por ali. Então a srta. Winterton, muito amavelmente, levou o

enfermo para cima, enquanto eu voltava para a mansão à procura de Higgins.

— Acho que foi uma explicação excelente! — exclamou Lucille.

— Lorde Kenyon passou bem a noite — disse Delia em voz baixa — mas ainda não voltou a si.

— Uma concussão cerebral às vezes é demorada — observou o marquês.

— Pelo menos ele está vivo — disse Lucille.

— Pensava exatamente nisso e devemos tudo à sua irmã. — Ele olhou

para Delia, dizendo: — Ainda estou pensando em como poderia demonstrar-lhe

minha profunda gratidão.

— Ora, por favor! Dessa forma me deixa embaraçada. Devo confessar-

lhe que ainda receio que aqueles homens horríveis… possam tentar seqüestrá- lo novamente.

— Acho bastante improvável. Mas pretendo tomar minhas precauções.

Por enquanto, disse apenas ao meu mordomo que mandasse um criado para cá. Ele poderá prestar diversos serviços, entre eles, carregar bandejas para o quarto de nosso paciente. Também pedi que ele providenciasse uma das

ajudantes de cozinha, pois sua cozinheira vai precisar dela. Delia olhou surpresa para ele; parecia que o marquês assumia o

comando da casa, deixando-a sem autoridade. Antes que ela pudesse dar seu parecer, ele continuou:

— Outra providência que tomei foi pedir à esposa do meu administrador,

a sra. Watkins, a quem sei que conhece, para vir dormir aqui todas as noites. Ela garantiu-me que não haverá problemas, pois tem bastante serviço apenas durante o dia. Acredito que a presença de uma senhora à noite, seja necessária. Delia ficou tensa. Ia reclamar que aquela interferência da parte dele era perfeitamente dispensável, mas ele ainda não havia terminado e acrescentou:

— Mesmo estando meu tio doente, convém que Lucille e a senhorita tenham uma dama de companhia.

Delia respirou fundo. As palavras que pensara em dizer morreram-lhe nos lábios.

O marquês sorriu para ela, como se lhe adivinhasse o pensamento.

— Tenho de pensar na reputação de Lucille… e na sua.

— Vai a Londres? — perguntou Lucille, demonstrando o quanto tal

viagem a afligia.

O marquês, então explicou-lhe:

— Ontem à noite, ao voltar a Shaw para buscar Higgins, este disse-me

que havia trazido algumas cartas para seu amo. Uma delas, mandada pelo

primeiro ministro, dizia que ele soubera da chegada de meu tio e que precisava vê-lo imediatamente.

— Mas isso é impossível!

— Exatamente. É por isso que irei a Londres ver o marquês de Salisbury.

Direi que tio Kenyon não pôde atender ao pedido dele e informá-lo-ei do que aconteceu ontem à noite.

Delia deu um pequeno grito.

— Acha que é prudente fazer isso?

— Se for mesmo verdade que há outros russos envolvidos no atentado

contra lorde Kenyon, além dos dois que apanhamos, o primeiro ministro deve

ser informado de tudo.

— Suponho que seja mesmo… necessário — disse Delia, meio relutante.

— Quanto mais depressa eu partir, mais depressa voltarei — ele disse,

levantando-se. — Cuidem-se bem e creio que não haverá problemas até minha volta.

O marquês caminhou até a porta acompanhado de Lucille. Delia não se

moveu. O que o marquês acabara de dizer deixara-a atordoada.

— Esqueci-me de uma coisa — ele disse —, e é muito importante para

mim.

— O que é?

— Eu estive pensando que, uma vez que tio Kenyon está aqui no solar,

todo o pessoal da vila vai achar que somos bons amigos; portanto, seria uma boa idéia você convidar-me para a abertura da exposição! Delia olhou para ele, parecendo não acreditar no que ouvira.

— A abertura… da exposição? — ela repetiu tolamente.

— Lucille me disse que é muito importante para mim conhecer meu

próprio povo — explicou o marquês com um sorriso. — Facilitaria muito se eu

ficasse conhecendo uma porção de pessoa ao mesmo tempo! Delia ouviu a irmã dar um grito de alegria e dizer em seguida:

— Mas é uma idéia excelente! Todos ficarão emocionados com sua

presença e irão querer falar com você. Há muito que anseiam por uma

oportunidade desta.

O marquês não respondeu; tinha os olhos fixos em Delia.

— Nós ficaríamos muito honrados, naturalmente — ela disse depois de

um momento. — Vou falar com o pastor sobre isso esta manhã.

— É importante que fale também com a sra. Geary — sugeriu Lucille, sem se conter.

— Farei isso — prometeu Delia, ainda meio atordoada, mas não

contendo o riso.

— Obrigado. Falaremos sobre o assunto quando eu voltar. Pela segunda

vez ele deixou a sala. Delia sentiu que sua cabeça girava e o mundo parecia estar de pernas para o ar. Seria mesmo verdade que lorde Kenyon, tendo sido atacado pelos

russos, achava-se no momento dormindo no andar superior do solar? E que o marquês, a despeito de sua reputação, ia participar da abertura da exposição? Não restavam dúvidas de que ainda teria muitos problemas pela frente. Mas agora o importante era avisar os Hanson de que viria uma ajudante de cozinha e um criado para ajudá-los. Eles, obviamente, ficariam satisfeitos. No mesmo instante ela pensou que talvez seus criados pudessem ficar melindrados por receberem ajudantes de fora. Delia não conseguiu acabar de tomar o café da manhã e foi ver Lucille. Ela estava na sala de armas limpando as pistolas que haviam sido tiradas do armário na noite anterior. Em sua mão ela segurava a pistola que pertencera ao pai.

— O que está fazendo? — perguntou Delia.

— Marcus pediu-me para entregar uma arma a Higgins e para uma de

nós ficar sempre no quarto de lorde Kenyon. Delia olhou surpresa para a irmã.

— Naturalmente. Eu devia ter pensado nisso. Precisamos nos revezar

para Higgins ter um poupo de descanso. Imagino que você vai dar um passeio a cavalo.

— Pensei mesmo em ir cavalgar um pouco, mas sem Marcus não vai ter

graça. Delia apertou os lábios, mas nada disse.

— Acho que não adianta mais esconder que nos encontrávamos todas as

manhãs — Lucille disse com franqueza. — Você não pode mais continuar

dizendo que ele é má pessoa, pois viu como ele foi admirável ontem à noite.

— Sim… foi mesmo — Delia admitiu, depois de alguma hesitação. Lucille deu um grito, demonstrando seu contentamento.

— Eu tinha certeza de que você iria gostar de Marcus quando o

conhecesse e lamento, querida, tê-la enganado, mas era impossível deixar de encontrar-me com ele.

— Compreendo — disse Delia suavemente. — Mas está consciente de

que não vai ser fácil casar-se com ele? A felicidade desapareceu dos olhos de Lucille.

— Sei que vai mesmo ser difícil enfrentar aqueles orgulhosos parentes

de Marcus, de nariz empinado. Eles pensam que eu armei uma armadilha para agarrar um marquês.

— Talvez as coisas se ajeitem, mas medite sobre o assunto com seriedade.

— Não faço outra coisa. Amo Marcus e ele me ama! Isso é mais

importante do que a opinião de vários parentes desagradáveis que olham para os outros por cima de seus narizes compridos.

Delia ficou pensativa. A família do marquês poderia causar a infelicidade de Lucille se não a aprovasse, mesmo que a irmã tivesse o apoio e a proteção do homem que amava. Mas uma revolta crescia dentro de si ao imaginar que alguém pudesse considerar Lucille má esposa para o marquês. Justamente ele, com reputação nada recomendável. Mas de nada adiantava aborrecer a irmã.

— Levarei esta arma para Higgins e direi para ele ir dormir um pouco. Esta outra pistola fica comigo.

— Só ficaram aqui pistolas muito pesadas! Não terei uma arma para me

defender — Lucille reclamou. — Ora, ninguém tentará seqüestrar-me. Confio

na minha sorte e no bom senso.

— Talvez seja melhor fazer seus passeios acompanhada por um dos

cavalariços — sugeriu Delia, demonstrando súbita apreensão.

— Eu só estava brincando! — exclamou Lucille, sorrindo. — Os dois

russos, espero, devem estar completamente fora de cena, e acho improvável que haja mais algum deles escondido nas redondezas.

— Sinceramente, também espero que não haja mesmo.

Delia falou em tom sério, mas a irmã já ia saindo da sala de armas e corria para os estábulos. “Quem iria imaginar que fosse possível acontecer tudo isto em Little Bunbury?”, Delia pensava enquanto subia as escadas, ao encontro de Higgins, levando consigo as duas pistolas.

Lorde Kenyon começava a recobrar a consciência. Ele sentia como se estivesse passando através de um longo túnel, ao fim do qual havia uma luz. A um pequeno movimento seu, uma dor aguda na parte de trás da cabeça fê-lo gemer.

Percebeu então que uma pessoa achava-se ao seu lado e que no ar havia um suave perfume de violetas. Uma voz macia chegou aos seus ouvidos.

— Está tudo bem. Aqui está em segurança.

A palavra “segurança” ficou gravada em sua mente. Talvez ele tivesse recebido um ferimento e achava-se em um campo inglês. Veio-lhe à mente uma caminhada longa e penosa por um terreno montanhoso, com o vento frio açoitando-lhe o corpo. Sentia-se extenuado,

queria descansar, mas sabia que seria perigoso. Seus perseguidores não deveriam estar muito longe. Era imprescindível alcançar os ingleses. A informação que ele recebera era de vital importância. Se morresse antes de transmitir o que sabia, talvez centenas ou até milhares de soldados poderiam perder a vida. Em sua agonia pensava em continuar, mas suas pernas não conseguiam mover-se. Lorde Kenyon tentou virar-se e gemeu mais uma vez. Sentiu uma mão macia pousar em sua testa e um instante depois percebeu o contato com algo úmido e frio.

— Pode dormir, está seguro, ninguém irá fazer-lhe mal —, ele ouviu

novamente a mesma voz musical dizer. Aquelas palavras eram tão tranqüilizadoras que pareciam ter sido ditas por sua mãe. Lorde Kenyon teve a sensação de estar deslizando suavemente, sendo

carregado por uma nuvem. Quando lorde Kenyon acordou novamente, sua impressão era a de haver dormido durante um longo, longo tempo. Ao abrir os olhos viu-se em um quarto estranho, onde nunca havia estado. Ali não era o alto da montanha que vira em seus sonhos. Continuando deitado, ele imaginava onde poderia estar e a razão de sua presença naquele quarto. Alguém se achava ao seu lado. Uma voz alegre, porém desconhecida, perguntou-lhe:

— Está acordado? Pode ouvir-me?

Muito devagar ele voltou-se para a direção de onde vinha a voz. Devia estar sonhando ou estaria morto; nunca imaginara que alguém pudesse ter aquela aparência de anjo.

Aquela figura angelical, de cabelos loiros circundando como uma auréola um rosto pequeno onde brilhavam dois enormes olhos azuis, fitando-o de modo indagador.

— Onde… estou? — quis saber lorde Kenyon.

— Está em segurança, e ninguém lhe fará mal. Gostaria de tomar

alguma coisa? Sem esperar resposta, Lucille foi buscar um copo com bebida à base de cevada e suco de limão que Délia deixara sobre a mesinha de cabeceira.

Higgins recomendara que lorde Kenyon não devia levantar a cabeça e, passando o braço ao redor dos ombros do paciente,ela o ergueu apenas o suficiente para que pudesse tocar os lábios na bebida. Até mesmo o leve movimento fez com que ele estremecesse de dor.

— Logo irá sentir-se melhor. Agora durma um pouco.

Lorde Kenyon quis reclamar que não tinha vontade de dormir. Queria saber onde estava e quem era aquele anjo que lhe dava de beber.

Mas o esforço para tal seria penoso demais. A dor na parte traseira da cabeça era intensa e ele fechou os olhos… Quando lorde Kenyon acordou novamente ouviu a voz de Higgins; não confundiria a voz do fiel valete com a de nenhum outro homem.

— Ele passou bem a noite, srta. Délia; teve um sono tranqüilo e acredito que em pouco tempo voltará a ser o que era antes.

— Espero que sim. Estava preocupada com a demora de ele voltar a si.

— De agora em diante não há mais motivo para preocupações.

— Já que está tudo bem, pode ir descansar, Higgins.

— Devo admitir que agora ficaria contente em “fechar os olhos” por algumas horas. Lorde Kenyon ouviu a porta fechar-se, e alguém aproximou-se de sua cama, ficando ali, parada. Ele já havia sentido antes aquele perfume de violetas e também já

ouvira aquela voz. Ao abrir os olhos, viu o rosto de uma jovem que se achava ajoelhada ao lado da cama. Ela não conteve uma exclamação de alegria e perguntou:

— Pode ouvir-me?

— S-sim — ele respondeu com alguma dificuldade.

— Sabe quem é você?

— Sim… sou lorde Kenyon… Shaw.

— Então está bom! Fico tão contente em saber disso!

Ele sorriu ao ver aquela alegria e perguntou:

— Onde… estou?

— Está no solar. Deve lembrar-se de que esteve aqui logo ao chegar de

Londres.

— O solar! É… a srta. Winterton?

— Exatamente.

Ele ficou pensativo durante um tempo relativamente longo, antes de

dizer:

— Eu… não compreendo.

— Contarei o que aconteceu assim que estiver melhor, não há pressa.

Lorde Kenyon fitou aqueles grandes olhos cinzentos, tão próximos a ele.

— Você ficou tão zangada… comigo!

— Sim, sei disso, mas não estou mais zangada, sinto-me realmente feliz, muito feliz por vê-lo tão bem!

— O que aconteceu? Por que me encontro aqui?

— Não tardará a saber de tudo, e é uma história emocionante, mas por enquanto é melhor dormir mais um pouco.

— Já me cansei… de dormir.

A voz dele soou tão forte e mal-humorada que Delia sorriu.

— Não é de admirar! Esteve dormindo durante três dias. Lucille chegou a

chamá-lo de Rip Van Winkle, o personagem da história de Washington Irving! Lord Kenyon esboçou um sorriso.

Suponho que tenha uma explicação para este meu estranho…

comportamento.

— Se for dormir agora, quando acordar, prometo contar-lhe o que

aconteceu.

— Não vou mais dormir!

Sua voz soou com firmeza, e ele fechou os olhos por alguns segundos. Surpreso, sentiu os movimentos suaves, ritmados e vagarosos da mão de Delia sobre sua fronte e deixou-se levar pelo conforto e alívio daquele gesto.

Não tardou a mergulhar novamente num sono profundo e restaurador.

Lucille e Delia esperavam ansiosas a volta do marquês.

— Será que ele chegará aqui antes do jantar? — Lucille já perguntara uma dúzia de vezes. Embora relutantes, ambas subiram para trocar-se. Depois de uma refeição leve, as duas irmãs foram para o salão e ouviram o barulho de uma carruagem chegando.

Lucille não esperou que Hanson ou o novo criado abrisse a porta; ela mesma correu para o hall e o fez.

— Está de volta! Que bom que está de volta! — ela exclamou, vendo o marquês descendo de sua carruagem.

— Sinto muito pela demora, mas estive bastante ocupado.

Ele tomou-lhe a mão e levou-a aos lábios. Por alguns segundos os dois ficaram-se olhando perdidamente. A vontade do marquês era abraçar e beijar Lucille. Surpresa, ela notou que Marcus estava acompanhado por outro cavalheiro. Depois de se encontrarem os três no hall, o marquês disse:

— Posso apresentar-lhes o capitão Ludlow? Explicarei tudo quando

estivermos no salão. Lucille percebeu que o assunto era confidencial e não fez qualquer comentário. O criado trazia para o hall uma mala. Conduzindo Lucille pela mão, o marquês entrou no salão; seguindo-os, o

capitão Ludlow. Delia esperava-os.

— Boa-noite, srta. Winterton, perdoe-me pelo atraso. Permita-me

apresentar-lhe o capitão Ludlow, que veio de Londres comigo — disse o marquês. — O capitão encontra-se aqui para a proteção de meu tio e veio atendendo a um pedido do primeiro-ministro. Só espero não estarmos abusando de sua hospitalidade. Os olhos do marquês brilhavam. Delia achou que as surpresas ainda não haviam terminado e sorriu ao dizer:

— Já estou me acostumando com o inesperado. Você e o capitão Ludlow

já jantaram? — Sabíamos que chegaríamos tarde e paramos no caminho para uma refeição ligeira. E veio mais alguém conosco.

— Mais alguém? — perguntou Lucille.

— Sim. O primeiro-ministro insistiu em escolher dois oficiais de sua

confiança para cuidarem da proteção de meu tio até que sejam presos todos os russos envolvidos no atentado contra a vida dele. É por isso que aqui se encontra o capitão Ludlow, e o major Dawson aguarda-me em Shaw.

— Acredita que possa haver outros russos pensando em seqüestrar lorde Kenyon novamente, além dos dois homens que ferimos?

O marquês assentiu com um movimento de cabeça.

— O primeiro-ministro tem certeza absoluta disso. O visconde Cross,

ministro de Estado pela Índia, está convencido de que o cabeça, por assim dizer, encontra-se bem escondido, esperando que tio Kenyon seja levado até ele para ser interrogado. Delia soltou uma exclamação de horror.

— Não deve ter medo de nada — tranqüilizou-a depressa o marquês. —

Os responsáveis por tudo logo estarão atrás das grades, e acabará esquecendo

todas as coisas desagradáveis que aconteceram.

— É verdade, srta. Winterton — disse o capitão Ludlow. — A única

dificuldade no momento será capturarmos um terceiro homem que estará, sem dúvida, dando as ordens.

— Acha que haveria um novo atentado, aqui?

— Não aqui. Acredito que alguém volte à mansão na tentativa de

apanhar lorde Kenyon.

— Esse terceiro homem estará pensando que lorde Kenyon foi levado

para lá.

— Exatamente. Por essa razão, não deixaremos nem vocês nem lorde

Kenyon desprotegidos.

— Como está meu tio? — perguntou o marquês.

— Acredito que esteja um pouco melhor — disse Delia. — Se desejarem

subir para vê-lo, irei providenciar que os criados nos sirvam uma bebida. Vocês não desejam mesmo comer alguma coisa?

Não, obrigado, mas gostaria de levar o capitão Ludlow até o quarto de

meu tio.

Posso subir com vocês? — perguntou Lucille.

Como resposta o marquês estendeu-lhe a mão e ela segurou-a. Vendo-os subirem as escadas, Delia teve novamente a sensação de que seu mundo estava realmente desordenado.

Não tinha muita certeza de conseguir pôr tudo de volta aos devidos lugares. Mas, no fundo, algo lhe dizia que não seria preciso fazer nada. O marquês cuidaria de tudo e daria as ordens. Quando o marquês, o capitão e Lucille voltaram para o salão, um dos criados serviu um excelente clarete; trouxe também uma garrafa de champanhe dentro de um balde de gelo e uma jarra de refresco. O marquês serviu-se de um copo do clarete; o capitão não aceitou bebida alcoólica por estar a serviço e preferiu o refresco. Delia observou que o marquês havia tomado só um pouco do vinho, parecendo querer mostrar que seus dias de irresponsabilidade haviam terminado. Pouco depois o marquês foi para a mansão, onde o esperava o major Dawson; o capitão Ludlow ficou no solar. Lucille e Delia subiram, mas, antes de se dirigirem para os seus aposentos, passaram pelo quarto de lorde Kenyon para ver se ele ainda dormia.

— Tudo isso está ficando cada vez mais excitante! — exclamou Lucille.

— Mas muito assustador — replicou Delia.

— Tenho certeza de que esses oficiais e, claro, Marcus, apanharão esses

russos que tentaram seqüestrar lorde Kenyon. Então tudo voltará ao normal.

— Espero que sim.

Delia não pôde deixar de pensar que, assim que tivessem resolvido o problema de lorde Kenyon, restaria ainda o de Lucille. Ela não havia esquecido a razão de ele ter vindo a Little Bunbury. Não poderia mesmo ter-se esquecido daquele cavalheiro que viera à sua casa pensando em afastar do caminho do marquês a “mulher vulgar” que tentava agarrá-lo em suas teias. Lorde Kenyon propusera-lhe até mesmo “compensá-la” por ter acalentado “falsas esperanças” em relação a Marcus. Imagine! Ele chegara a insinuar que poderia oferecer-lhe dinheiro para que ela desaparecesse do caminho do marquês de Shawforde! Só lhe restava esperar para ver o que ele faria depois de se recuperar e ver as coisas com clareza.

Dois dias mais Delia ficou à cabeceira de lorde Kenyon, que se manteve imóvel durante várias horas, dormindo sempre. Delia observara-o o tempo todo e teve certeza de que não odiava aquele homem. Aquele sentimento seria absurdo depois dos momentos de ansiedade

que sofrerá por causa dele; depois de senti-lo tão perto e de ver o quanto era bonito e, finalmente, por pensar nos perigos pelos quais ele já havia passado e em sua bravura. Por intermédio do capitão Ludlow, Delia ficara sabendo alguma coisa sobre as arriscadas missões de lorde Kenyon, na Índia. Mas fora o marquês quem esclarecera muitos pontos. Na verdade todos se mostravam apreensivos pelo fato de os russos terem alcançado lorde Kenyon tão depressa. Ninguém duvidava que eles estariam determinados a interrogá-lo.

— Será que pretendiam torturá-lo? — perguntara Delia, em voz baixa e assustada.

— Primeiro, era certo que o torturariam; depois o matariam — havia assegurado o marquês. Delia dera um grito de horror.

— Como podem acontecer tais barbaridades na Inglaterra?

— Tio Kenyon desempenhou uma missão importantíssima e o fez com

excepcional coragem. As informações que ele conseguiu foram vitais para o

governo britânico, mas o inimigo quer livrar-se de todos os que estejam ligados à organização que é tão importante pára os ingleses.

— Suponho que nunca saberemos nem a metade dessas missões de

lorde Kenyon — disse Delia melancolicamente.

— Muito menos da metade. Se tentarmos fazer tio Kenyon falar sobre o

assunto, ele irá fechar-se como uma ostra.

— As raras pessoas que sabem um pouco sobre as arriscadas tarefas de

lorde Kenyon — observara o capitão Ludlow — são unânimes em afirmar que

ele é, além de corajoso, espertíssimo e que, em pelo menos uma dezena de vezes, salvou-se de situações incríveis, praticamente impossíveis de alguém sobreviver.

— Será que ele estará a salvo em nossa casa?

— O major Dawson e eu faremos o possível para que tenha toda a segurança — respondera o capitão calmamente. Delia sabia que os dois oficiais estavam bem armados.

O capitão, desde a sua chegada, passara a dormir no quarto de lorde

Kenyon, onde permanecia a maior parte do tempo, e descia ocasionalmente, deixando Higgins em seu lugar. Ninguém fora daquela casa fazia idéia do que eles estavam vivendo ali. O mais inquietante era ficar à espera de algo que viesse a acontecer. Delia parou de massagear a testa de lorde Kenyon e levantou-se; olhando mais uma vez para seu paciente, achou-o muito vulnerável. Com um calafrio, passou-lhe pela cabeça que ele talvez tivesse algum dano cerebral em virtude do golpe recebido. “Por favor, meu Deus, permita que lorde Kenyon fique bom rapidamente”, ela suplicou, do fundo do coração. Nem lhe ocorreu que aquele homem à sua frente era um estranho, com quem não devia preocupar-se. Delia caminhou até a janela, sentando-se no sofá que havia ali.

Ao olhar para a enorme cobertura que havia sido erguida junto aos estábulos, ocorreu-lhe que a abertura da exposição anual de flores e hortaliças seria no dia seguinte.

A notícia auspiciosa de que naquele ano o marquês faria a abertura da

exposição correu pela vila como fogo em capim seco.

A sra. Geary falou muito sobre o assunto. Todos estavam muito

interessados em se encontrarem com o marquês pela primeira vez. Assim,

outros assuntos passaram a ser secundários ou nem mesmo vinham à baila, e ninguém se mostrou curioso a respeito do que acontecia no solar. Delia teve vontade de rir ao saber que todas as mulheres mostravam-se preocupadas em parecerem elegantes diante do grande senhor de terras. Até Flô, no dia anterior, lhe perguntara:

— Será que não teria algumas flores para emprestar-me? Tenho muita vontade de enfeitar o chapéu que vou usar para ir à exposição. Flores? — repetira Delia.

— Sabe, srta. Delia, flores de seda, como as que usa em seus vestidos. Quero estar bem arrumada diante de Sua Senhoria. Delia respondera com um sorriso:

— Tenho certeza de que ele irá apreciar seu esmero.

Entre seus guardados ela encontrara algumas rosas cor-de-rosas e uns

buquês de miosótis, dando-os a Flô. Lucille e Delia ainda usariam roupas lilases… como luto aliviado, por mais um mês ainda. A cor lilás ficava muito bem em Delia, e seus olhos cinzentos ganhavam uma tonalidade próxima do violeta. Ela toda ficava linda como aquelas flores cujo perfume usava e era destilado por ela mesma das violetas colhidas na primavera. Distraidamente ela pensava no sucesso que o marquês causaria na exposição; os moradores de Little Bunbury simpatizariam com ele e acabariam por esquecer os rumores desagradáveis que circulavam sobre sua pessoa, mesmo que aquilo demorasse ainda algum tempo. Ela própria achava difícil acreditar que o Marcus que agora conhecia e o marquês tido como irresponsável e libertino fossem a mesma pessoa.

O marquês havia sido extremamente cuidadoso com o tio, tornara as

providências necessárias junto ao primeiro-ministro e, devia admiti-lo,

preocupara-se até com o andamento dos afazeres domésticos no solar. Para não sobrecarregar seus criados, ele arranjara-lhe uma ajudante de

cozinha, um criado, uma arrumadeira e um homem para tarefas diversas. Este último, Jacob, mostrara-se eficiente não deixando faltar carvão para

o fogão, na cozinha, carregando água para cima e para baixo à hora dos

banhos, além de outros serviços. “Se o marquês não fosse quem é, se ele fosse um homem comum, Lucille seria muito feliz com ele”, Delia pensava. Mas sua família, principalmente as mulheres, iriam tornar a vida de Lucille insuportável. Elas fariam questão de vigiar a jovem marquesa para descobrir-lhe faltas e a envolveriam em toda a sorte de intrigas. Olhando para o retrato da mãe sobre a cornija da lareira, ela pediu-lhe que a inspirasse, que a conduzisse a fazer o que fosse melhor para a irmã.

Ao fim da tarde, quando o sol declinava no horizonte e as gralhas calvas voltavam para seus abrigos, lorde Kenyon abriu os olhos. Pela primeira vez

sentia que sua mente estava clara, e desaparecera a estranha sensação de ter

a cabeça cheia de algodão. Olhou ao redor e viu sobre a cornija da lareira o retrato a óleo de uma mulher lindíssima. Ela era tão linda que lhe deu a

impressão de o artista ter exagerado a beleza da modelo. Mas não conhecia a mulher do retrato. Em seguida lembrou-se de que aqueles olhos eram-lhes familiares. Já os vira fitando-o, muito zangados. Sob o retrato, um estojo coberto com vidro, cheio de medalhas, algumas delas ele reconheceu e ficou intrigado, querendo saber a quem pertenciam. Naquele instante alguém entrou no quarto. Era uma mulher que parou para conversar em voz baixa com um homem que, apesar de se achar no quarto, ele ainda não havia visto.

— O jantar será servido dentro de vinte minutos, capitão Ludlow. Como

deve querer trocar-se, ficarei com nosso paciente. Delia aproximou-se e ficou parada perto da lareira, esperando o capitão passar por ela. Lorde Kenyon ficou surpreso; podia parecer impossível, mas aquela jovem era ainda mais adorável do que a mulher do retrato. Ele permaneceu calado, esperando que o capitão Ludlow, ou quem quer que fosse, saísse e fechasse a porta. Vendo que Delia fazia menção de voltar para junto da janela, lorde Kenyon chamou-a.

— Srta. Winterton!

Ela parou, surpresa, e veio depressa para perto dele.

— Espero que não o tenha acordado.

— Já estava acordado e… sinto-me como o velho Kenyon novamente.

— Fico feliz, muito feliz! Estivemos bastante preocupados, mas Higgins

nos garantiu que a pancada não lhe prejudicou o cérebro e que voltaria a ficar bom em pouco tempo.

— Sinto-me bem agora. Mas gostaria de saber o que aconteceu e por que me encontro nesta casa.

— Sente-se com forças?

— Sinto-me forte o bastante para tornar-me desagradável se não me disser toda a verdade!

— Muito bem — disse Delia, rindo. — Mas, se achar aborrecido o que lhe vou contar, sempre terá o recurso de voltar à inconsciência! Lorde Kenyon estendeu a mão e tocou a dela, apertando-a ao dizer:

— Sou todo ouvidos.

Sentada à beira da grande cama, Delia começou a contar-lhe toda a história. Só não soube dizer-lhe como os dois homens conseguiram entrar no

quarto dele, na mansão, e golpear-lhe a cabeça enquanto dormia. Lorde Kenyon ouviu interessado toda a narrativa, deliciando-se com a voz maviosa de Delia e sem deixar de fitá-la um instante sequer.

Sinto muito ter-lhe causado todo esse trabalho — ele disse ao fim da

história.

Fiquei muito feliz em podermos chegar a tempo de evitar que

desaparecessem com você.

— Admirei-me bastante da coragem e da habilidade que você e sua irmã demonstraram ao atirar nos homens que me seqüestraram.

— Papai ensinou-nos a atirar quando éramos ainda adolescentes.

Tivemos muito cuidado em não atirar para matar, o que nos causaria problemas.

— Agiram muito corretamente e meu sobrinho também foi muito

prudente em deixar os dois miseráveis na estrada principal. Eles que fossem contar, a quem estivesse disposto a ouvi-los, a história que inventassem sobre aqueles ferimentos a bala.

— O primeiro-ministro mandou-nos dois oficiais para garantirem sua

segurança. O capitão Ludlow encontra-se nesta casa, e o major Dawson tem ficado na mansão.

— Mas… nada aconteceu, além do que me contou, não é mesmo?

— Nada! Confesso que não gosto… de esperar.

Lorde Kenyon sorriu.

— Concordo com você. Prefiro a ação à espera paciente.

— E não temos outro remédio senão esperarmos pacientemente?

— Receio que não. Mas sabe o quanto lhe estou agradecido.

Só então Delia percebeu que ele ainda segurava sua mão e retirou-a delicadamente.

— Vamos ter muito o que falar sobre essa história tão logo ela termine.

Mas agora será melhor dar ordens para que lhe sirvam o jantar. Não tem comido há bastante tempo; espero que tenha fome.

— Pensando bem, estou mesmo faminto! Permita-me dizer que me sinto

um homem afortunado em ter uma anfitriã encantadora! Delia olhou-o de relance, temendo que ele talvez zombasse dela. Depois de tocar a sineta, voltou a sentar-se à beira da cama, e lorde Kenyon

perguntou-lhe:

— Você já me perdoou?

Delia não quis fazer-se de desentendida e respondeu depois de uma breve pausa:

— Durante estes dias não tenho pensado a não ser em vê-lo bem de

saúde e… receando que o inimigo pudesse… atacar novamente.

— Marcus contou-me quem você era e percebi o grave engano que havia

cometido. Agora só tenho a dizer-lhe que sinto muito e peço-lhe que me perdoe.

— Acho que… compreendi sua atitude.

Delia sentia-se embaraçada; jamais conseguiria dizer-lhe que ansiava

por vê-lo saudável e por ter a oportunidade de conversar com ele sobre tantos interesses que sabia terem em comum.

A porta abriu-se, e Lucille deu apenas uma olhada no quarto,

perguntando baixinho:

— Está aí, Delia?

Naquele instante ela viu a irmã de pé, junto à cama, e lorde Kenyon de

olhos abertos.

Está acordado! — ela exclamou.

Ele

olhou para aquele lindo rosto que se assomara à porta e observou:

Mas não estarei no céu, afinal?

Deve ter ouvido muito bem a minha voz.

Ouvi você e, ao vê-la, imaginei que devia ter morrido e que um anjo,

exatamente como sempre sonhei encontrar no outro mundo, viera me receber.

— Pensou mesmo isso? — indagou Lucille. — Preciso contar a Marcus.

— Contar-me o quê? — perguntou Marcus, que acabava de chegar. —

Ouvi a conversa de vocês e mal pude acreditar que tio Kenyon tomava parte dela.

— Bem, conforme pode constatar, aqui estamos os três. A srta.

Winterton contou-me sobre a aventura que vocês viveram, a qual jamais supus

que pudesse ter Little Bunbury como cenário!

— Também pensei isso — observou Lucille. — Mas os habitantes da vila

imaginam que você foi acometido de um ataque súbito de malária. Portanto, não estranhe e prepare-se para ouvir dezenas de pessoas descrevendo os

sintomas da doença ou querendo contar-lhe o que sentiram durante uma crise da febre.

— Se tiver mesmo que passar por essa prova, vou continuar

inconsciente! — exclamou lorde Kenyon. Todos riram; em seguida, Delia aconselhou:

— Será melhor não ficarmos cansando o paciente. Isso deixaria Higgins

furioso.

— Já chega de tantos mimos! replicou lorde Kenyon. — Quero sair

deste quarto amanhã.

— Ainda é cedo — protestou Delia.

— Ora, não é mais necessário ficar aqui, confinado! — disse o marquês.

— Ele poderá acompanhar-nos à exposição e terá a oportunidade de ouvir meu discurso de abertura. Lorde Kenyon olhou surpreso para o sobrinho.

— Pelo que vejo, está levando a sério suas obrigações de senhor de

terras!

— Espero ter a sua aprovação. Foi idéia de Lucille que eu conhecesse

meu povo, que se tem mostrado curioso a meu respeito. Nada melhor do que encontrá-los todos de uma vez, na exposição.

O marquês dirigiu a Lucille um olhar significativo, e Delia supôs que ele estava reservando-lhes alguma surpresa. Higgins entrou no quarto reclamando que havia muita gente ali e anunciando também que o jantar ia ser servido.

— Vossa Senhoria está se excedendo! — ele admoestou. — Se não me

ouvir, terá uma recaída, e isso é tão certo como dois e dois são quatro! O valete ia saindo do aposento, e Delia disse:

— Vou ordenar que tragam o jantar de Sua Senhoria imediatamente e se lhe for permitido, mandarei servir-lhe uma taça de champanhe. — Duas, no mínimo! — protestou lorde Kenyon. — Se alguém tentar me proibir, eu mesmo descerei para buscar uma garrafa.

— Terá tudo o que desejar.

Dizendo aquilo, Delia olhou desafiadoramente para Higgins e seguiu

depressa os outros, que já desciam as escadas.

— Como vê, milorde, é esse o resultado de termos mulheres dando

ordens. Ou se mostram cheias de cuidados, ou resmungam o tempo todo.

— Qra, Higgins! Achei muito agradável ficar aqui esses dias.

— É verdade, milorde. São pessoas muito agradáveis. Todos na vila

elogiam a srta. Delia. Lorde Kenyon ficou em silêncio, mas teve a desagradável sensação de que Higgins ficara sabendo que ele e Delia Winterton já haviam discutido seriamente. Como ele arrependia-se de haver insultado aquela jovem adorável na primeira vez em que viera àquela casa! Podia ser que Higgins não soubesse nada sobre o assunto, mas era incontestável o fato de que os criados, de um modo ou de outro, sempre ficavam “a par” do que acontecia numa casa.

CAPÍTULO VII

Delia entrou no salão para verificar se as flores nos vasos estavam em ordem ou se havia necessidade de trocar algumas que se encontravam murchas.

A casa estava muito quieta; Lucille ainda não voltara do costumeiro

passeio a cavalo e ela não vira sinal do capitão Ludlow. Instantes depois Lucille veio ao encontro da irmã, mas não usava seu

traje de montaria e sim um lindo vestido de verão.

— Desculpe-me por ter levantado tão tarde.

Delia olhou para ela, surpresa.

— Pensei que estivesse cavalgando.

— Não, eu estava muito cansada, além disso, Marcus vai passar por aqui para darmos uma volta em sua carruagem.

Lucille falava com naturalidade, sem a nota desafiadora na voz. Depois ela perguntou:

— O que aconteceu com o capitão Ludlow? Higgins disse-me que ele não desceu para o café da manhã, e lorde Kenyon também não o viu. Delia olhou para a irmã, atônita.

— Ele deixou lorde Kenyon desprotegido? Não posso acreditar!

— Ele deve ter saído ou então… foi seqüestrado!

— Não acho nada engraçado — replicou Delia. — Não vou suportar mais confusões.

— Não vejo a hora de encontrar-me com Marcus para dizer-lhe que

esteve ótimo ontem, na exposição. Flô contou-me que na vila todos só têm palavras elogiosas para o marquês e que acharam-no muito bonito, simpático e encantador!

— Muito diferente do que andavam falando dele até a semana passada! — disse Delia, rindo.

— Oh, ele está chegando! — exclamou Lucille entusiasmada, ao ouvir

passos. No entanto, quem entrou no salão foi lorde Kenyon. As duas irmãs olharam para ele, e Delia perguntou-lhe:

— Sente-se bem? Não é cansativo vestir-se e vir aqui para baixo?

— Estou ótimo! E, decididamente, recuso-me a responder a quaisquer

perguntas sobre minha saúde de agora em diante! Lucille riu.

— Deve admitir que ontem tentou levantar-se e sentiu uma forte dor de

cabeça. Aquilo era verdade, Delia pensou; censurando o amo e todo cheio de cuidados, Higgins pusera lorde Kenyon de volta na cama.

— Eu avisei-o de que isso iria acontecer, mas ele não me ouve. Sua

Senhoria é assim: prefere aprender pelo modo mais difícil! Delia ficara muito preocupada com lorde Kenyon e sentira-se culpada por ter permitido que duas noites atrás todos conversassem muito com ele. Felizmente a exposição fora um sucesso, e o barulho no jardim não havia perturbado o descanso do convalescente. Delia fora dizer-lhe boa-noite depois de todo o cansaço e a excitação daquele dia agitado.

O capitão Ludlow achava-se, como ele mesmo dizia em tom de

brincadeira, cumprindo seu dever de “cão de guarda”. Ela dissera algumas

palavras a lorde Kenyon e fora para seu quarto. Agora, naquela linda manhã, ia contar a lorde Kenyon que o discurso do marquês havia sido brilhante, quando ouviu passos vindos do hall.

A porta do salão abriu-se de repente, e o marquês entrou no salão,

dizendo, triunfante:

— Vencemos! Conseguimos! Apanhamos o terceiro homem ontem à

noite, e agora os três encontram-se atrás das grades.

— Sobre o que está falando? O que aconteceu? — perguntou Lucille,

aproximando-se de Marcus. Ele passou o braço ao redor dos ombros dela e dirigiu-se ao tio.

— Mal posso acreditar que tudo tenha corrido exatamente segundo os planos do major Dawson.

— Suponho que nos vai contar o que aconteceu — disse lorde Kenyon calmamente.

— Sabe que estamos morrendo de curiosidade — completou Lucille.

Lorde Kenyon sentou-se em uma poltrona, Delia em outra e o marquês, ainda abraçado a Lucille, disse:

— Desde a vinda do major Dawson para a mansão, eu tenho dormido no quarto antes ocupado pelo meu tio.

— Certamente estava arriscando-se demais! — exclamou Lucille.

— Não era arriscado, porque o plano do major era muito bom. Nós

fizemos um boneco com as roupas de lorde Kenyon e o deixamos todas estas noites na cama, dando a impressão de que era meu tio quem ali se encontrava dormindo. Eu dormia atrás de um biombo, e o major, no chão, escondido pelas cortinas. Delia ouvia a narrativa muito interessada e cruzara as mãos. Era inacreditável que a tensão daqueles dias havia terminado.

— Então, na noite passada — continuou o marquês —, como o major

esperava, um homem entrou sorrateiramente no quarto. Eu já estava deitado,

achando que nada iria acontecer, quando ouvi um estalido na porta. Alguém entrava no quarto. O homem carregava uma lanterna e iluminou a cama, supondo que tio Kenyon dormia profundamente.

— O que ele fez?

— Aproximou-se da cama e deu três punhaladas no boneco, antes que

saíssemos de nossos esconderijos.

— Três punhaladas? — gritou Delia, horrorizada.

— Não havia dúvidas de que ele pretendia matá-lo, meu caro tio.

— Os russos não aceitam derrotas — observou lorde Kenyon. — O que

aconteceu depois?

— Nós o amarramos, o colocamos em uma carruagem e viemos buscar o capitão Ludlow.

— Não o ouvimos sair — disse Delia.

— Nem mesmo eu — admitiu lorde Kenyon. — Mas nessa profissão aprende-se a andar sem fazer ruídos e até a ser invisível.

— O major Dawson e o capitão Ludlow interrogaram o russo enquanto me levavam de volta para a mansão.

— Mas ele falou? — perguntou lorde Kenyon, surpreso.

— Acabou confessando, pois sabia que não tinha como escapar; havia sido pego tentando cometer assassinato.

— O que ele confessou?

— Acabou contando uma longa história. Disse que viu você tomar um

navio em Bombaim e que o reconhecera; você participara de um incidente na fronteira noroeste da Índia. Então, ele e mais dois homens, os mesmos que

seqüestraram tio Kenyon, sendo depois baleados por Delia e Lucille, embarcaram também nas acomodações mais baratas e seguiram meu tio até Londres e em seguida até Shaw. Lorde Kenyon ouvia atentamente, imaginando o quanto o inimigo era tenaz. Graças à sensibilidade de Delia ele não estava morto.

— Os russos pretendiam mesmo, como supusemos, interrogá-lo, meu

tio, para conseguirem informações importantíssimas e depois matá-lo. Mas agora quem vai perder a vida são eles. Como o assunto é de segurança nacional, o julgamento será realizado in camera. Sorrindo, o marquês concluiu sua narrativa.

— Ninguém jamais saberá o que aconteceu aqui nem que lorde Kenyon