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O HOMEM QUE VIA PASSAR OS COMBOIOS

GEORGES SIMENON

Digitalização e Arranjo

Agostinho Costa

Título original:

L'homme qui regardait passer les trains

Tradução:

Gememano Cascais Franco

Índice

I - Quando Julius de Coster Júnior se embebeda no Pequeno São Jorge e cuando o impossível transpõe de súbito os diques da vida quotidiana

5

II - Como Kees Popinga, tendo embora dormido sobre o lado mau, acorda de humor jovial

e como ele hesitou entre Eleonor e Pamela 21

III - De um pequeno canhenho de marroquim vermelho comprado por um florim num dia em que Popinga ganhara ao xadrez

35

IV - Como Kees Popinga passou a noite de Natal e como, de madrugada, escolheu um automóvel a seu gosto

51

V - Onde Popinga fica desiludido perante um Popinga de camisola e fato-macaco andando às voltas numa garagem e Onde ele manifeSta Uma veZ mais a sua independência

67

VI - As indiscrições do tubo de fogão

e

o segundo atentado de Kees Popinga

83

VII - Como Kees Popinga instalou o seu lar ambulante e como ele julgou seu dever dar uma ajudinha às investigações da polícia francesa

99

VIII - Da dificuldade de se desembaraçar dos jornais velhos e da utilidade de uma

caneta e de um relógio

117

IX - A rapariga de cetim azul

 

e

o rapaz de nariz à banda

133

X - Quando Kees Popinga muda de camisa enquanto a polícia e o acaso, a despeito das regras do jogo, organizam uma conjura da maldade

149

XI

- Como Kees Popinga soube que um fato de

 

vagabundo custa à volta de setenta francos

e

como ele preferiu pôr-se todo nu

165

XII - Onde se prova que não é a mesma coisa pôr uma peça preta numa chávena de chá ou numa caneca de cerveja

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I

Quando Julius de Coster Júnior se embebeda no Pequeno São Jorge e cuando o impossível transpõe de súbito os diques da vida quotidiana

No que toca pessoalmente a Kees Popinga, temos de admitir

que às oito horas da noite ainda era tempo, pois que, assim como assim, o seu destino não estava fixado. Mas tempo de quê? E podia ele fazer outra coisa além do que ia fazer, persuadido aliás de que os seus gestos não tinham mais importância do que durante os milhares e milhares de dias anteriormente decorridos? Encolheria os ombros se lhe dissessem que a sua vida ia mudar de repente e que aquela fotografia pousada sobre o aparador, que o representava de pé no meio da família, com uma mão despreocupadamente apoiada nas costas de uma cadeira, seria reproduzida por todos os jornais da Europa. Enfim, se procurasse dentro de si mesmo, em plena consciência, o que podia predispô-lo a um futuro tumultuoso, não se lembraria sem dúvida de uma certa emoção furtiva, quase envergonhada, que o perturbava sempre que via passar um comboio, sobretudo um comboio nocturno, com os estores descidos sobre o mistério dos passageiros. Quanto a ousar afirmar-Lhe na cara que nesse instante o seu patrão, Julius de Coster Júnior, estava abancado na estalagem do Pequeno São Jorge e se embebedava conscienciosamente, isso surtiria tão pouca piada como efeito, pois Kees Popinga estava longe de apreciar a mistificação e tinha a sua opinião sobre as pessoas e as coisas. Ora, contra toda a verosimilhança, Julius de Coster Júnior encontrava-se de facto no Pequeno São Jorge. E, em Amesterdão, num apartamento do Carlton, uma certa Pamela tomava banho antes de ir ao Tuchinski, o cabaré em

voga.

5

Em que é que isto podia afectar Popinga? Ou ainda que em Paris, num pequeno restaurante da rue Blanche, o Mélie, uma

certa Jeanne Rozier, que era ruiva, estivesse à mesa em companhia de um fulano chamado Louis, a quem ela perguntava, servindo-se de mostarda:

-

Trabalhas esta noite?

E

Que em Juvisy, não longe da estação de mercadorias, na

estrada de Fontainebleau, um garagista e a sua irmã Rose Em suma, nada disto existia ainda! Era o futuro - o futuro imediato de Kees Popinga, que, nessa quarta-feira 28 de

Dezembro, às oito horas da noite, não suspeitava nem ao de leve de coisa alguma e se dispunha a fumar um charuto.

O que ele não confessaria a ninguém, pois isso poderia em

rigor ser tomado como uma crítica da vida familiar, é que, ao

acabar de jantar, tinha uma séria tendência para se amodorrar.

A culpa não era da comida, visto que, à semelhança da maioria

das famílias holandesas, se jantava frugalmente: chá, pão com manteiga, delgadas fatias de carnes frias e de queijo, por vezes um prato de acompanhamento.

A causa disso era antes o fogão de aquecimento, um fogão

imponente, do melhor que se fabrica no género, em ladrilhos de cerâmica verde com pesados ornamentos niquelados, um fogão que

não era apenas um fogão, mas que, pelo seu calor, pela sua respiração, poder-se-ia dizê-lo, ritmava a vida da casa. As caixas de charutos estavam em cima da lareira de mármore,

e

Popinga escolheu um com lentidão, fungando, fazendo estalar

o

tabaco, porque é uma necessidade quando se quer saborear um

charuto, e também porque sempre se fez assim. Do mesmo modo que, ainda mal levantada a mesa, Frida, a filha de Popinga, que tinha quinze anos e cabelo castanho, espalhava os seus cadernos mesmo por baixo do candeeiro e contemplava-os demoradamente com os seus grandes olhos escuros

que nada queriam dizer ou que ninguém compreendia. As coisas seguiam o seu curso. Carl, o garoto, este com

treze anos, estendia a cara à mãe, depois ao pai, beijava a irmã e subia ao quarto para se deitar.

O fogão não parava de fazer ouvir o seu ronco e Kees perguntava por hábito:

- O que é que vai fazer, mamã?

Dizia mamã por causa dos filhos.

- Preciso pôr o meu álbum em dia.

Ela tinha quarenta anos e a mesma doçura, a mesma dignidade que toda a casa, pessoas e coisas. Quase se poderia acrescentar, como no caso do fogão, que era a melhor qualidade de esposa da Holanda, e era aliás uma mania de Kees falar sempre de primeira qualidade.

Justamente, a propósito de qualidade, só o chocolate era de segunda categoria e não obstante continuava-se a gastar daquela marca, porque cada pacote continha uma imagem e estas imagens iam ocupar lugar num álbum especial que conteria, dentro de alguns anos, a reprodução a cores de todas as flores da terra.

A senhora Popinga instalou-se por conseguinte diante do

famoso álbum e classificou os seus cromos enquanto Kees rodava os botões da telefonia, de tal modo que, do mundo exterior, não se ouviu senão uma voz de soprano e por vezes um tinido de faiança vindo da cozinha onde a criada lavava a louça.

Tão denso era o ar que o fumo do charuto nem sequer subia até ao tecto, ficando a estagnar em torno do rosto de Popinga, que o rasgava por vezes com a mão, como filandras. Não havia porventura quinze anos que isto era assim, e que eles estavam quase cristalizados nas mesmas atitudes? Ora, um pouco antes das oito horas e meia, na altura em que

o soprano se calara e uma voz monótona dava cotações de Bolsa, Kees descruzou as pernas, olhou para o charuto e declarou numa voz hesitante:

- Pergunto a mim mesmo se tudo estará realmente em ordem a

bordo do Oceano III! Um silêncio. O ronco do fogão. A senhora Popinga teve tempo

de colar duas imagens no álbum e Frida de virar uma página do seu caderno.

-

Talvez o melhor seja eu ir lá ver.

E

doravante estava traçado o seu destino! O tempo de fumar

dois ou três milímetros de charuto, de se espreguiçar, de ouvir instrumentos a afinar no auditório de Hilversum, e Kees acabava de entrar na engrenagem.

6

- 7

A partir de agora, cada segundo pesava mais do que todos os

segundos que ele até então vivera, cada um dos seus gestos

adquiria tanta importância como os dos homens de Estado cujas mais pequenas atitudes os jornais anotam.

A criada trouxe-lhe o seu grosso sobretudo cinzento, as

luvas forradas e o chapéu, enfiando-lhe umas galochas por cima

dos sapatos enquanto ele levantava docilmente um pé, depois o outro. Beijou a mulher, a filha, notou uma vez mais que não sabia o que esta pensava e que talvez não pensasse nada; em seguida, no corredor, hesitou em levar a bicicleta, uma bicicleta inteiramente niquelada, com mudança de velocidade, uma das mais belas que era possível imaginar. Decidiu ir a pé, saiu de casa e voltou-se para ela cheio de satisfação. Era uma autêntica vivenda, da qual desenhara o projecto, vigiara a construção e, se não era a maior do

bairro, ele não deixava de afirmar que era a melhor concebida

e a mais harmoniosa.

O próprio bairro, um bairro novo, um pouco afastado da

estrada de Delfzijl, não era acaso o mais aprazível e o mais saudável de Groninga? Até aqui, a vida de Kees Popinga não fora feita senão deste tipo de satisfações, satisfações reais, pois o certo é que ninguém pode sustentar que um objecto de primeira qualidade não é de primeira qualidade, que uma casa bem construída não é uma casa bem construída, nem que as carnes frias da loja Oosting não são as melhores de toda a cidade de Groninga. Estava frio, um frio seco e vivificante. As solas de

borracha esmagavam a neve endurecida. De mãos nos bolsos, charuto nos lábios, Kees caminhava na direcção do porto perguntando efectivamente a si mesmo se tudo estaria em ordem

a bordo do Oceano III. Não era uma desculpa que ele arranjara. É verdade que não Lhe desagradava caminhar na noite fresca em vez de dormitar na tepidez sensaborona da casa. Mas ele não se atreveria a pensar

oficialmente que algum sítio do mundo pudesse ser mais gostoso que o seu próprio lar. Era justamente por isto que corava quando ouvia passar um comboio e surpreendia dentro de si uma estranha angústia que podia dar a impressão de nostalgia.

O Oceano III era de facto uma realidade e a visita nocturna

de Popinga um dever profissional. Ele desempenhava na firma Julius de Coster en Zoon as funções de primeiro escriturário e de procurador. A casa de Julius de Coster en Zoon era a

primeira, não só de Groninga, mas de toda a Frísia neerlandesa, em fornecimentos de navios, desde os cordames até ao mazute e ao carvão, sem esquecer o álcool e as provisões de boca. Ora, o Oceano III, que devia aparelhar à meia-noite para transpor o canal antes da maré, fizera uma avultada encomenda por volta da tardinha. Kees avistou o barco de longe, pois era um clíper de três mastros. As imediações do canal Guilhermina estavam desertas, apenas atravancadas de amarras que ele galgou destramente. Depois, como homem habituado a estas coisas, trepou a escada do piloto e dirigiu-se sem hesitar para a cabina do comandante. Em boa verdade, era a última moratória do Destino. Ele ainda podia dar meia volta, mas ignorava-o, empurrava uma porta e achava-se na presença de um gigante congestionado que lhe lançava à cara todas as injúrias e pragas que sabia. Passava-se o mais inesperado acontecimento para quem conhecia

a casa Julius de Coster en Zoon: a cisterna,, que devia vir às

sete horas entregar o mazute - e Kees Popinga encomendara-a pessoalmente -, não viera! Não só ela não acostara ao Oceano III, como não havia ninguém a bordo e as outras provisões

tão-pouco tinham sido entregues. Cinco minutos mais tarde, um Popinga gaguejante tornava a

descer ao cais jurando que havia ali um mal-entendido e que ele ia tratar de tudo.

O seu charuto apagara-se. Lamentou não ter trazido a

bicicleta e correu, sim, correu pelas ruas, como um gaiato, de

tal modo o desvairava a ideia daquele navio que, por falta de mazute, ia perder a maré e ver talvez gorar-se a sua viagem a

Riga. Embora Popinga não navegasse, o certo é que se submetera ao exame de capitão de longo curso e sentia vergonha pela sua firma, por ele, pela marinha, devido ao que sucedia.

O senhor Julius de Coster não se encontraria por acaso no

escritório, como acontecia algumas vezes? Não estava lá, não,

e Popinga, esbaforido, não hesitou em dirigir-se a casa do seu

patrão, uma casa calma, solene, mas mais velha e menos prática que a sua, como todas as casas situadas na cidade.

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-

9

Já só na soleira, no momento em que batia à porta, ele se lembrou de deitar fora a beata apagada e preparou uma frase Ouviram-se passos vindos de muito longe: abriu-se um ralo; os olhos indiferentes de uma criada observaram-no. Não! O senhor Julius de Coster não estava em casa. Então Kees deu

provas de audácia, pediu para ver a senhora de Coster, que era

uma

autêntica grande dama, filha de um governador de província

que

ninguém se afoitaria a envolver num assunto comercial.

A

porta acabou por se abrir. Popinga aguardou muito tempo da

parte de cá dos três degraus de mármore, junto de uma palmeira em vaso, depois fizeram-Lhe sinal para subir e, num

compartimento de luz alaranjada, achou-se diante de uma mulher coberta por um penteador de seda que fumava um cigarro na ponta de uma boquilha de jade.

- O que deseja? O meu marido saiu cedo para concluir um

trabalho urgente no escritório. Por que motivo não o foi procurar lá?

Ele nunca mais se esqueceria desse penteador, nem do cabelo castanho que formava um canutilho sobre a nuca, nem da suprema indiferença desta mulher diante da qual titubeava saindo às arrecuas. Meia hora mais tarde, já não havia esperança de pôr o Oceano

III em condições de partir. Kees regressara ao escritório,

pensando que talvez se tivesse cruzado com o seu patrão. Em seguida voltara por uma rua mais animada onde as lojas se

mantinham abertas, por causa da proximidade do Natal. Alguém

lhe apertara a mão.

- Popinga!

- Claes!

Era o doutor Claes, um especialista de doenças infantis, que fazia parte da mesma sociedade de xadrez que ele.

- Não vem ao torneio desta noite? Parece que o polaco será vencido

Não, ele não iria. E, de resto, o seu dia era a terça-feira e hoje era quarta-feira. De tanto correr no meio do frio, tinha o rosto afogueado, a respiração ofegante.

- A propósito - volvia Claes -, Arthur Merkemans veio ver-me há bocado

-

Faria melhor em ter um pouco de pudor!

-

Foi o que eu lhe disse

E

o doutor Claes encaminhou-se para o clube, ao passo que

Popinga ficava a braços com mais uma contrariedade. Por que carga de água Lhe tinham ido falar do seu cunhado? Pois não é verdade que em todas as famílias há um elemento mais ou menos vergonhoso? Merkemans, aliás, nada fizera de mal. O mais que se poderia censurar-lhe era ter tido oito filhos, mas nesse tempo dispunha de um lugar bastante bom num salão de vendas. Perdera-o um belo dia. Ficara muito tempo sem trabalho porque se mostrava demasiado difícil, depois, pelo contrário, aceitara tudo o que aparecera e aquilo fora de mal a pior. Agora, toda a gente o conhecia, por ele ir cravar as pessoas contando-Lhes as suas desgraças e falando dos seus oito filhos. Era aborrecido. De repente, Popinga sentia um peso no estômago e pensava com reprovação nesse cunhado que se desmazelava e cuja mulher ia agora às mercas sem chapéu.

Tanto pior! Entrou numa loja para comprar outro charuto e

decidiu voltar a casa pela gare, o que não era mais demorado que pelo canal. Sabia que não poderia abster-se de dizer à mulher:

- O teu irmão foi procurar o doutor Claes.

Ela compreenderia. Suspiraria sem responder. Era sempre assim! Entretanto, ele flanqueava a igreja de São Cristóvão, virava

à esquerda numa rua calma onde havia barreiras de neve ao

longo dos passeios e pesadas portas de aldraba. Ia pensar no Natal, mas não valia a pena, pois sabia que outros pensamentos

o esperavam ao cabo do terceiro candeeiro. Oh! não era grave! Uma perturbação de alguns instantes, todas as vezes que por ali passava a seguir à sua partida de xadrez

10 - 11

Groninga era uma cidade casta onde, ao contrário do que sucede em cidades como Amesterdão, não se corre o risco de amargar na rua propostas de mulheres sem pudor.

E no entanto, a cem metros da gare, existe uma casa, uma só, de aspecto burguês, opulento, cuja porta se entreabre ao mínimo empurrão. Kees nunca lá pusera os pés. Somente ouvira contar histórias, no círculo. Quanto a si, de uma ou de outra maneira, sempre evitara ser infiel à mulher. Simplesmente, ao passar ali, à noite, imaginava coisas, e

desta vez estava tanto mais animado quanto acabava de ver a senhora Coster de penteador. Nunca a avistara senão de longe, em traje de passeio. Sabia que ela só tinha trinta e cinco anos, enquanto Julius de Coster Júnior já ia nos sessenta.

Passou

Limitou-se a fazer uma breve paragem ao ver bulir

duas sombras por detrás da cortina, no primeiro andar

podia enxergar a estação, onde o último comboio partiria à

meia-noite e cinco

havia o Pequeno São Jorge que, para ele, se bem que menos excitante, representava mais ou menos a mesma coisa que a casa que acabava de ultrapassar. Outrora, no tempo das diligências, existira uma estalagem do Grande São Jorge não longe da qual se estabelecera um botequim sob a tabuleta de Pequeno São Jorge. Só o botequim subsistia, numa cave, com janelas ao rés do passeio, aliás quase sempre vazio, unicamente frequentado, após o encerramento das outras chafaricas, por marinheiros alemães ou ingleses. Popinga, contra a sua vontade, deitava sempre uma olhadela, embora nada lá houvesse de extraordinário: mesas de carvalho enegrecido, cadeiras, bancos e, ao fundo, um balcão por detrás do qual se postava o corpulento dono a quem o bócio impedia de usar colarinho postiço. Porque seria que o Pequeno São Jorge produzia o efeito de um lugar de devassidão? Por ficar aberto até às duas ou três horas da manhã? Por as garrafas de genebra e de whisky, na prateleira, serem mais numerosas do que em qualquer outro sítio? Por a sala ficar numa cave?

Antes desta estação, à direita, ainda

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Desta vez, como das outras, Kees deitou uma olhadela, e logo a seguir pespegava o nariz contra o vidro; para ver melhor, para ter a certeza de não se enganar, ou antes, para se convencer de que se enganava. Em Groninga, existem cafés de duas categorias: os verlof,

onde apenas se servem bebidas inofensivas, e os vergüning, onde se consome álcool. Ora, Kees julgar-se-ia desonrado se pusesse os pés num café vergüning. Pois não renunciara ele a jogar ao chinquilho só porque o recinto de jogo estava instalado na sala interior de um estabelecimento deste género?

O Pequeno São Jorge era o mais vergüningdos vergüning. E no

entanto, na sala baixa, um homem bebia, um homem que só podia

ser o senhor Julius de Coster Júnior em pessoa! Se, sem mais delongas, Kees corresse até ao círculo de

xadrez, se ele anunciasse ao doutor Claes, a qualquer outra pessoa, que vira Julius de Coster no Pequeno São Jorge, tê-lo-iam olhado com dó, aconselhando-o a tratar-se. Há pessoas a respeito das quais nos podemos dar ao luxo de gracejar. Mas Julius de Coster

A sua simples pêra era a coisa mais glacial de Groninga! E o

seu andar! E as suas vestes negras! E o seu célebre chapéu, a meio caminho entre o coco e o alto

Não! Não era possível que Julius de Coster tivesse mandado rapar a sua pêra! Era igualmente inverosímil que estivesse enfarpelado com um fato completo castanho demasiado largo para ele! Quanto a encontrar-se ali, a uma mesa do Pequeno São Jorge, diante de um copo de fundo espesso que não podia conter senão genebra Aconteceu entretanto o homem volver os olhos para o vidro e parecer então igualmente surpreendido, avançando um pouco a cabeça para reconhecer Popinga, cujo nariz se esborrachava contra a montra. Adveio algo ainda mais inaudito, ele esboçou um pequeno gesto, como para dizer:

- Vá, entre!

E Kees entrou, fascinado, como se diz que certos animais o são pelo olhar das serpentes.

13

Entrou, e o taberneiro, que limpava copos, gritou-lhe lá do balcão:

- Não é capaz de fechar a porta como toda a gente?

Era ele, Julius de Coster! Indicava um banco ao seu

companheiro e murmurava:

- Aposto que foi a bordo!

Em seguida, sem esperar resposta, atirou uma palavra que nunca ninguém Lhe ouvira pronunciar:

- Estão lixados?

Enfim, sempre sem transição:

- Ouça lá, deve ter-me espiado para saber que eu estava

aqui O que era mais desconcertante é que ele não se zangava, dizendo isto sem rancor, com um sorrizinho divertido. Fazia sinal ao dono para encher os copos e, por fim, mudava de

ideias, preferindo conservar a garrafa em cima da mesa.

- Escute, senhor de Coster, esta noite passam-se coisas

- Beba primeiro, senhor Popinga!

Era costume dele chamar a Kees senhor Popinga, como o fazia

aliás com os mais modestos fiéis de armazém. Mas agora punha nisto uma ironia tranquila e parecia gozar com a atrapaLhação do seu empregado.

- Se Lhe digo que beba - e aconselho-o afectuosamente a

esvaziar a garrafa se o conseguir! - é porque o álcool o

ajudará a digerir o que tenho para Lhe dizer

ter o prazer de o encontrar esta noite

também eu bebi um bocadinho, o que irá dar uma feição

encantadora à nossa conversa Estava bêbedo! Popinga jurá-lo-ia! Mas estava bêbedo como um homem habituado a está-lo e a quem isto não embaraça. -A peripécia é incómoda para o Oceano III, que é um bom navio e cuja carta de fretamento especifica que ele deve ser

reconduzido dentro de sete dias a Riga

Mas o que se passa é

bastante mais incómodo para os outros, para si, por exemplo, senhor Popinga! Servia-se enquanto ia falando, bebia e Kees reparava num grande embrulho mole pousado no assento a seu lado.

- É tanto mais incómodo quanto não deve ter economias e irá ficar sem eira nem beira como o seu cunhado Também ele falava de Merkemans?

Não julgava

Há-de notar que

- Despeje o seu copo, faça favor

Você é um homem

suficientemente sensato para eu poder dizer-Lhe tudo Imagine, senhor Popinga, que a casa Julius de Coster en Zoon estará amanhã de manhã em bancarrota fraudulenta e que a polícia será lançada no meu encalço Felizmente que Kees esvaziara um após outro dois copos de genebra! Ele podia julgar que era o álcool que deformava a sua

visão, que não era Julius de Coster que esboçava aquele sorriso de um cinismo diabólico e afagava com satisfação o seu queixo barbeado de fresco.

- Não compreenderá tudo o que lhe vou explicar, porque é um verdadeiro holandês, mas, mais tarde, reflectirá, senhor Popinga

Repetia de cada vez senhor Popinga num tom diferente, como se tais sílabas o deleitassem.

- Que isto lhe demonstre antes de mais nada que, apesar das

suas qualidades e da excelente opinião que tem de si mesmo,

não passa de um lastimável procurador, pois não se apercebeu

de coisa alguma

que eu me dedico a especulações das quais o menos que se pode dizer é que são arriscadas

Ainda estava mais calor do que em casa de Kees, com a diferença de que era um calor brutal, agressivo, enviado sem

contemplações por um horrível calorífero em ferro fundido como os que se vêem nas pequenas gares. O ar cheirava a genebra e havia serradura no chão, rodelas húmidas sobre a mesa.

- Beba, peço-lhe, e diga com os seus botões que sempre lhe

Há já mais de oito anos, senhor Popinga,

resta essa consolação! Aliás, da última vez que vi o seu

cunhado, tive a impressão de que ele começara a compreender Mas, voltando atrás, você foi a bordo e

- Fui a sua casa

- Onde viu a atraente senhora de Coster estava lá? Mas

14 - 15

O doutor Claes

- Não se atrapalhe, senhor Popinga! Há três anos, menos uns

escassos dias, pois tudo começou numa noite de Natal, que o doutor Claes dorme com a minha mulher Ele bebia, fumava o seu charuto em pequenas baforadas, assemelhava-se cada vez mais, aos olhos de Kees, a esses

diabos góticos que ornam o portal de certas igrejas e dos quais se deve desviar o olhar das crianças.

- Pela minha parte, devo confessar que ia todas as semanas a

Amesterdão encontrar-me com Pamela

senhor Popinga? Chegava-se a duvidar se ele estava realmente embriagado, tal era a calma que conservava, ao passo que Kees, como um idiota, corava ao ouvir o nome de Pamela. Ao fim e ao cabo não a cobiçara Popinga, como toda a gente? Do mesmo modo que só existe uma casa hospitaleira em Groninga, não existe senão um cabaré onde se dança até à uma hora da madrugada.

Ele nunca lá entrara, mas ouvira falar de Pamela, uma borboleta um tanto forte, morena e ceceante, que permanecera

dois anos em Groninga e passeava pela cidade vestimentas extravagantes, enquanto à sua passagem as senhoras desviavam a cabeça.

lembra-se de Pamela,

- Pois bem! era eu que tinha Pamela por minha conta

Fui

eu que a instalei em Amesterdão no Carlton, onde ela me apresentou algumas encantadoras colegas. Já começa a compreender, senhor Popinga? Ainda não está demasiado grogue para ouvir o que eu lhe digo? Aproveite a ocasião, sou eu quem

lho suplica! Amanhã, quando pensar em tudo isto, tornar-se-á um outro homem e talvez faça qualquer coisa na vida Ele ria! Bebia, enchia o seu copo e o do companheiro, cujos olhos começavam a embaciar-se.

- Sei que é muito para uma só vez, mas não terei vagar para

lhe dar uma segunda lição

Apanhe tudo o que puder

assimilar

Pense no pobre lorpa que você era

Olhe! Quer

uma prova?

Vou dar-lhe uma no campo profissional

Tem o

seu diploma de capitão de longo curso e orgulha-se disso

casa Julius de Coster possui cinco clíperes dos quais você se

ocupa especialmente

fez senão contrabando e que um outro foi afundado por minha

ordem na mira do prémio de seguro! A partir deste momento, passou-se algo de inesperado. Kees encheu-se, contra todas as suas expectativas, de uma calma

quase sobrenatural. Talvez fosse o efeito do álcool

A

Ora, não reparou que um deles nunca

Em todo

o caso, não voltou a ter a mínima reacção e pareceu escutar passivamente tudo o que lhe diziam.

No entanto

Bastaria o nome dos cinco clíperes da

firma!

Eleonor I

Eleonor II

Eleonor III

E assim

sucessivamente até cinco! Sempre o nome da senhora de Coster, essa que Kees acabava de ver de penteador, com uma comprida boquilha nos lábios, a mesma que, segundo o marido, ia para a cama com o doutor Claes!

E o sacrilégio ainda não estava completo! Mais alto que

Julius de Coster Júnior e a mulher, existia um ser que parecia situado acima de todas as contingências: Julius de Coster Sénior, pai do outro, fundador da casa, que, apesar dos seus oitenta e três anos, ainda pontificava, todos os dias, num severo gabinete.

- Aposto - dizia agora o filho dele -, que não sabe como o

velho bandido do papá ganhou a sua fortuna

guerra do Transval

defeituosas que comprava a baixo preço nas fábricas da Bélgica

e da Alemanha

de ser preciso pegar-lhe na mão para o fazer assinar

garrafa, chefe! Beba, caro senhor Popinga

lhe der prazer, poderá repetir este discurso aos nossos dignos

Eu, oficialmente, estarei morto!

concidadãos

Kees devia estar completamente embriagado, e contudo não perdia uma palavra, uma expressão de fisionomia. Parecia-lhe

apenas que a cena se passava num mundo irreal onde ele tivesse entrado por inadvertência e que uma vez cá fora voltaria a assentar o pé na vida de todos os dias.

Era durante a

Ele enviava para lá todas as munições

Agora, está completamente caquético, a ponto

Outra

Amanhã, se isso

- No fundo, ainda é por sua causa que tudo isto mais me

Não se esqueça que foi você que insistiu para

aborrece

colocar as suas economias no meu negócio

recusasse

vivenda pagável em vinte anos, de maneira que, agora, se não

embolsar as anuidades

Tê-lo-ia vexado se

Foi também você que quis mandar construir uma

16 - 17

Deu, de súbito, uma prova terrível do seu sangue-frio ao

perguntar:

- Ouça lá, o vencimento não é no fim de Dezembro?

Aparentava sincera mágoa.

- Juro-lhe que fiz o que pude

Não tive sorte, só isso!

É uma especulação sobre os açúcares que deita tudo a perder, e

prefiro ir recomeçar noutro lado a debater-me no meio de todos

estes idiotas solenes

falo

outra forma

Peço-Lhe desculpa

Não é de si que

Você é um bom rapaz, e se tivesse sido educado de

À sua saúde, meu velho Popinga!

Desta vez, não dissera senhor Popinga!

- Acredite em mim! As pessoas não valem o trabalhão que

temos para elas pensarem bem de nós

é que exigem que adoptemos ares virtuosos, e afinal é a ver

quem faz mais batota

agora da sua filha, que ainda vi na semana passada

bem! aqui entre nós, ela parece-se tão pouco consigo, com

aquele cabelo escuro e os olhos lânguidos, que pergunto a mim

mesmo se é sua

Ou, pelo menos, não tem importância se nós próprios fizermos

batota

e formos roubados Já não falava para o seu companheiro, mas para si mesmo, e

Elas

São estúpidas!

Não quero afligi-lo, mas lembrei-me

Pois

Que interessa isto, bem vistas as coisas?

Ao passo que, se nos obstinarmos em jogar jogo limpo

concluiu:

- É muito mais seguro sermos os primeiros a fazer batota!

O que é que arriscamos?

Julius de Coster Júnior à beira do canal

gente julgará que me suicidei de preferência a suportar a

desonra, e esses imbecis vão gastar não sei quantos florins a

mandar dragar o canal

cinco ter-me-á conduzido para longe daqui

Esta noite, irei depor as roupas de

Amanhã, toda a

Até lá, o comboio da meia-noite e

Que tal acha?

Kees estremeceu, como que arrancado a um sonho

- Tente, se não estiver demasiado ébrio, compreender bem o

que lhe vou dizer pretendo comprá-lo

confiei tantas coisas, é por sabê-lo incapaz de ir

contá-las

realidade, já não tem um vintém e, como eu conheço bem os

tipos da Imobiliária, ao primeiro vencimento por pagar,

retirar-lhe-ão a sua casa

gente julgará que você era meu cúmplice

emprego ou então não o encontrará, e ficará reduzido à mesma

Tenho mil florins no

situação que o seu cunhado Merkemans

Antes de tudo, quero que saiba que não De Coster não compra ninguém e, se Lhe

Em

Entendido? Agora, ponho-me no seu lugar

A sua mulher atacá-lo-á

Toda a

Encontrará um novo

bolso

Se você permanecer aqui, não posso fazer nada por

si

Não é com quinhentos florins que se tirará de apuros

Mas se, por acaso, daqui até amanhã, acabar por compreender

Tome lá, meu velho! E, de um gesto inesperado, de Coster empurrou para o seu companheiro metade do maço.

Não queimei todos os meus

cartuchos nem há-de passar muito tempo antes de eu ir de novo

Há um jornal que leio todos os

de vento em popa

dias há trinta e cinco anos e continuarei a ler

Post

coisa, ponha um anúncio assinado Kees Agora, gostava que me desse uma ajudinha

partir assim, sozinho, como um pobretanas

chefe?

É o suficiente Entristecer-me-ia Quanto lhe devo,

- Guarde-os!

E não é tudo

Espere!

É o Morning

Se ficar aqui e Lhe acontecer precisar de alguma

Pagou, agarrou no embrulho pelo cordel e assegurou-se de que

o seu companheiro se aguentava bem nas pernas.

- Evitaremos passar por ruas demasiado iluminadas

Pense

Amanhã, eu cá estarei morto o que ainda é o

bem, Popinga!

melhor que pode suceder a um homem Passaram em frente da famosa casa,, mas Kees não teve nenhuma reacção, de tão concentrado que estava nas suas cogitações e no cuidado com o seu equilíbrio. Quisera, num

derradeiro impulso, levar o embrulho do patrão, mas este repelira-o.

- Venha por aqui

As ruas estavam vazias. Groninga dormia, afora o Pequeno São

É mais sossegado

Jorge, a casa e a gare. O resto não foi mais que um sonho. Deram consigo na margem do canal Guilhermina, não longe de um dos Eleonor, o Eleonor II, que carregava queijos para a Bélgica. A neve estava dura como gelo. De um gesto maquinal Kees reteve o seu patrão que se arriscava a escorregar ao ir pôr as roupas do embrulho na margem.

18 - 19

Vislumbrou por instantes o célebre chapéu, mas não teve vontade de sorrir.

- Agora, se não estiver com muito sono, pode acompanhar-me

até ao comboio

Era um verdadeiro comboio da noite, adormecido, sórdido, abandonado na ponta de um cais enquanto o chefe de estação com

o seu boné cor de laranja aguardava o momento de apitar para depois se ir deitar.

Alguns italianos - donde teriam eles saído? - estavam estendidos num compartimento no meio de fardos, ao passo que um jovem envergando um sobretudo de ratina, precedido por dois carregadores, subia cheio de dignidade para um cupé de primeira classe e descalçava as luvas a fim de procurar trocos nas algibeiras.

Adquiri um bilhete de terceira classe

- Não vem comigo?

De Coster dizia isto a rir, e no entanto Kees sentiu a

respiração suspensa. Apesar da sua embriaguez, ou talvez por causa dela, compreendia muitas coisas e desejaria dizer

E de resto, ainda não estava tudo

bem afinado

Não! Não era a altura

Julius de Coster julgaria que ele se gabava

- Não leve a mal, meu pobre amigo

É a vida, juro-Lhe!

Não se esqueça do anúncio no Morning Post

imediatamente, pois necessito de tempo para Os vagões moveram-se neste instante, avançaram, recuaram, e Kees Popinga nunca veio a saber como regressara a casa, nem como vira pela última vez umas sombras na cortina da casa, desta feita no segundo andar, nem como, enfim, se despira sem que a mamã achasse algo de anormal na sua atitude. Cinco minutos mais tarde, a cama disparava a um ritmo assustador e Kees não tinha outro recurso senão o de se

aferrar aos lençóis, com a angustiante sensação de que ia de um momento para o outro ser atirado ao canal Guilhermina, onde

a tripulação do Oceano III nada faria para o salvar.

Mas não

20

II

Como Kees Popinga, tendo embora dormido sobre o lado mau, acorda de humor jovial e como ele hesitou entre Eleonor e Pamela

De costume, quando por acaso se deitava sobre o flanco esquerdo, Kees tinha um sono aflitivo. Atormentado por uma sensação de opressão, respirava aos sacões, agitava-se, soltava gemidos que despertavam a senhora Popinga, a qual, com autoridade, o fazia retomar uma posição mais favorável. Ora, ele acabava de dormir sobre o lado esquerdo e não se recordava de um único sonho desagradável. Melhor ainda: quando afinal Lhe custava tanto voltar a si todas as manhãs, eis que de súbito, de um instante para o outro, recobrava plena lucidez. O que o acordara, sem que ele se desse ao trabalho de abrir os olhos, fora um leve ruído de molas que indicava o levantar

da senhora Popinga. Nos outros dias, nesta altura, Kees mergulhava francamente no sono pensando que ainda tinha uma meia hora para aproveitar. Desta vez, não! E inclusivamente, quando a mulher se pôs de pé, descerrou prudentemente as pálpebras a fim de a mirar, diante do espelho, a tirar os ganchos do cabelo. Ela não sabia estar a ser observada e fazia movimentos

furtivos, a fim de não acordar o marido. Dirigiu-se à casa de banho, onde acendeu a luz, e Kees ainda a via a todo o momento na moldura da porta. Na rua, ainda não passara o homem que vinha apagar os bicos de gás, mas ouvia-se um rangido cadenciado, o das pás que apanhavam a neve. Lá em baixo, a criada, que nunca soubera mexer-se em silêncio, parecia brigar com a frigideira e as caçarolas.

A mamã, essa, de olhar sonhador, vestia umas calças bem

quentes que uns elásticos fechavam hermeticamente acima dos

joelhos. Depois andava de um lado para o outro,

21

assim enfarpelada, lavava os dentes, cuspia fazendo uma careta esquisita, executava milhentos gestos rituais sem pensar que podiam estar a olhá-la.

A campainha de um despertador desencadeou-se no quarto do

garoto e chegaram igualmente ruídos dessa banda, enquanto Kees, bem apoiado sobre as costas, decidia friamente não se levantar. Pronto! Foi a sua primeira grande decisão do dia. Ele não via nenhuma razão para se levantar, visto a firma Julius de Coster estar falida! Divertia-o de antemão o abalo da mulher quando lhe anunciasse a sua determinação de ficar na cama! Tanto pior! Haveria de assistir a muito mais, aquela pobre mamã! Em boa verdade, a propósito da mamã, Kees tinha uma recordação plena de actualidade. Um dia, cinco anos antes, ele comprara uma canoa de mogno, a qual baptizara de Zeedeufel, ou

seja, o demónio do mar, e que era realmente, sem favor, uma pequena maravilha, envernizada, luzidia, guarnecida de cobres, fina de linhas, mais uma jóia de aparador que uma embarcação. Como era muito cara, Kees sentira um certo inebriamento e, à noite, fizera cheio de complacência o cálculo do que possuíam:

a casa, os móveis, armários repletos de roupa, talheres de prata Em resumo, nessa noite, o casal estava tão persuadido da sua riqueza que, por graça, se encarou o caso de uma súbita ruína.

- Já pensei nisso algumas vezes - declarara a mamã com a sua

calma inalterável. - Antes de tudo, seria preciso vender o que temos e internar os miúdos num bom colégio não demasiado caro. Você, Kees, arranjaria certamente maneira de encontrar trabalho a bordo de um barco. Por mim, iria para Java, onde

procuraria um lugar de ecónoma num grande hotel. Lembra-se da tia da Maria, a quem morreu o marido? Foi o que ela fez e parece que é bastante considerada Pouco faltou para ele rir a valer, ao constatar:

«Pois bem! aconteceu mesmo

Estamos arruinados!

É a

altura de ir contar lençóis e guardanapos para um grande hotel

de Java

»

O pior é que, sempre que se encaram as coisas

antecipadamente, não se podem dizer senão disparates. De facto, antes de mais nada, iriam tirar-Lhes a casa e vender tudo o que eles possuíam. Em seguida, era má ocasião, em plena

crise económica mundial, para alguém conseguir ajustar-se num barco. Aliás, Popinga não sentia o mínimo desejo disso! E se tivesse que dizer sem mais cerimónias aquilo que desejava, seria de todo em todo forçado a dizer: Eleonor de Coster ou Pamela!

Por ora, era o que emergia dos acontecimentos da véspera:

Eleonor no seu penteador de seda, com a sua comprida boquilha

verde e o seu cabelo preto sobre a nuca

que o doutor Claes, que era um amigo, com quem ele jogava

xadrez

E Pamela, lá longe, em Amesterdão, que reunia jovens amigas

para simples desfrute de um Julius de Coster transformado em sátrapa

As janelas empalideciam, estreladas de geada. O garoto descera e devia estar ocupado a tomar o pequeno-almoço, pois a escola começava às oito horas. Mais lenta, como a mãe, e mais metódica, Frida arrumava o seu quarto.

Depois a ideia de

- São sete e meia, Kees!

A mamã estava ali, na moldura da porta, e Popinga fê-la

repetir duas vezes o chamamento antes de se espreguiçar e declarar:

- Não me levantarei esta manhã.

- Está doente?

- Não estou doente, mas não me levantarei.

Estava de maré para a galhofa. Apercebia-se da enormidade da

sua decisão e, por entre as pestanas, espreitava as reacções da mulher que avançava na direcção da cama, com as feições transtornadas pela estupefacção.

-

Que se passa, Kees? Não vai hoje ao escritório?

-

Não!

-

Preveniu o senhor Julius de Coster?

-

Não!

O

mais notável é que ele descobria que a sua atitude não era

forçada, mas correspondia ao seu verdadeiro carácter. Sim!, era assim que ele devia ter sido sempre!

- Escute, Kees

Ainda não acordou bem

Se está doente,

diga-o sinceramente, mas não me assuste sem motivo

- Não estou doente e fico na minha cama. Gostava que me trouxessem chá, se for possível

22 - 23

Eis o que o próprio de Coster não compreenderia! Ele julgara esmagá-lo com a sua confissão e Kees nem por sombras fora esmagado! Tão-somente espantado que outra pessoa, e sobretudo o seu

patrão, tivesse as mesmas ideias que ele, ou melhor, os mesmos sonhos, pois que, para Kees, tudo permanecera no estado de devaneio.

Os comboios, por exemplo

Já deixara de ser uma criança e

não era o prestígio da mecânica que o atraía

comboios nocturnos, era por adivinhar neles algo de estranho,

de quase vicioso

partia de tal sorte partia para sempre, principalmente quando, em terceira classe, ele via apinharem-se famílias pobres com

fardos Como os italianos da véspera. Logo, Kees sonhara vir a ser outra coisa que não Kees Popinga. E era justamente por isso que ele era tão Popinga,

que ele o era demasiado, que ele exagerava, porque sabia que, se cedesse num só ponto, nada mais o susteria.

Se preferia os

Tinha a impressão de que toda a gente que

À noite

Sim, quando, à noite, Frida começava os seus

trabalhos de casa e a mamã se atarefava num álbum

ele rodava o botão da telefonia fumando um charuto e fazia

calor em demasia

redondamente:

Quando

Poderia levantar-se e declarar

- Que chatice, esta vida de família!

Era para não o dizer, para não o pensar, que olhava para o fogão de aquecimento repetindo a si mesmo que era o mais belo fogão da Holanda, que observava a mamã persuadindo-se de que era uma bela mulher e que decidia que a filha tinha olhos sonhadores

E ainda quando passava em frente da famosa casa

É

provável que, se lá houvesse entrado uma única vez, tudo se

acabasse

Teria continuado

Teria tido Pamelas por sua

conta

Teria talvez feito coisas proibidas, pois era mais

imaginativo do que de Coster Júnior

A porta da rua abriu-se e tornou a fechar-se, ouviu-se a

campainha de uma bicicleta, a da bicicleta de Carl, que ia

para a escola. Daí a um quarto de hora, seria a vez de Frida

- Aqui tem o seu chá

Vem mesmo a ferver

de que não está doente, Kees?

- Absoluta.

Tem a certeza

Não era bem assim, apercebia-se ele agora. Enquanto permanecera imóvel nos lençóis, julgara não padecer de qualquer achaque, mas eis que ao sentar-se para tomar o chá,

sentia uma aguda dor na nuca e era acometido de uma espécie de vertigem.

- Está pálido. Não teve pelo menos algum aborrecimento por causa do Oceano III ?

- Eu? De modo nenhum.

- Não quer dizer-me o que tem?

- Sim. Vou dizer-lho. Tenho que gostava que não me f

o

juízo! Era tão monstruoso como encontrar Julius de Coster no Pequeno São Jorge. Nunca semelhante palavra fora pronunciada ali em casa, a qual devia estar a tremer nos seus alicerces. O mais assombroso é que ele a pronunciava sem cólera, com sangue-frio, do mesmo modo que teria pedido mais chá ou açúcar.

- Peço-lhe um favor, mamã, é o de nunca mais me fazer

perguntas. Tenho quarenta anos e talvez possa agora começar a

tratar da minha vida sozinho Ela hesitou em sair, não pôde coibir-se de lhe ajeitar a almofada atrás da cabeça, parou a meio do caminho para Lhe lançar um olhar compungido e fechou finalmente a porta sem

ruído. Aposto que vai chorar!, pensou ele ouvindo-a quedar-se imóvel no patamar. Era deveras desconcertante estar ali, na sua cama, àquela hora, sem estar doente, sem ser domingo. Frida abalou por seu

turno e, a partir de então, ele viveu horas da casa que jamais vivera, ouviu trazerem o leite, depois começar a limpeza do rés-do-chão, coisas que só em teoria conhecia.

A mais desejável das duas era indubitavelmente Eleonor! Em

compensação, ele não se sentia ao nível dela. Mas o certo é que valia tanto como o doutor Claes, que tinha a mesma idade que ele e a quem derrotava regularmente ao xadrez. Ainda por cima, Claes fumava cachimbo e a maioria das mulheres não apreciam isso. Pamela era mais fácil. Principalmente agora que ele sabia! Só de pensar que, durante dois anos, ela morara em Groninga e ele nunca ousara!

24 - 25

Assaltou-o uma ideia, levantou-se, caminhou descalço sobre o linóleo, sentindo mais que nunca uma vertigem lancinante. Queria assegurar-se de que a mulher não levara o seu fato completo para o escovar, pois nesse caso reviraria as algibeiras e encontraria por conseguinte os quinhentos florins.

O casaco estava em cima de uma cadeira. Kees sacou o

dinheiro, enfiou-o debaixo da sua almofada e quase voltou a adormecer no recobrado calor da cama.

Sim, era Pamela que convinha escolher

Por que razão Lhe

fizera notar de Coster que a sua filha Frida era morena e não se parecia consigo? Era verdade. Seja como for, dificilmente se imaginaria que uma mulher como a mamã o enganara logo no primeiro ano de casamento! Não havia porventura uma quantidade de indivíduos morenos na Holanda desde a ocupação espanhola? E não é sabido que o atavismo salta várias gerações? Sem contar que tanto se lhe dava. Eis algo que teria pasmado esse Julius de Coster que julgara atordoá-lo! Tanto se Lhe dava! A partir do momento em que já não era procurador e a sua vivenda já não lhe pertencia, a partir do momento em que um simples pormenor mudara, o resto podia também desabar. Estava pronto a fumar cachimbo como Claes, a comer queijo de terceira qualidade e a entrar em todos os cafés vergüning da cidade para encomendar genebra sem uma réstia de vergonha na voz. Nascia um raio de sol que penetrava obliquamente no quarto, através de uma musselina às pintas, e ia tremular no espelho do guarda-fato. Lá em baixo, as duas mulheres agitavam-se, remexiam baldes e esfregões e, de tempos a tempos, a mamã devia arrebitar as orelhas perguntando a si mesma o que faria ele. Bateram à porta. Falou-se a meia voz no corredor. A senhora Popinga subiu, entrou no quarto, com o ar de quem pede

desculpa, pronunciou numa voz compungida:

- Vieram buscar a chave

A chave da firma de Coster, já se vê! Deviam estar todos

diante da porta, a fazer suposições estapafúrdias.

- No bolso direito do meu casaco

- Não tem nada para mandar dizer-Lhes?

- Absolutamente nada.

- Não quer enviar uma palavrinha ao senhor de Coster?

- Não!

Era, a bem dizer, inaudito. Nunca ele ousara pensar em tal coisa. A prova é que, na altura em que tinham falado da ruína para darem a si mesmos a ilusão de serem ricos, só haviam encarado parvoíces, como o economato em Java e um lugar de segundo oficial a bordo de um navio Nunca na vida! Nem isso, nem outra coisa! Visto que acabara, acabara a valer, de uma vez por todas, e urgia aproveitá-lo! Ele até se arrependia de não ter tido a presença de espírito, na véspera, de o declarar a de Coster. Deixara-o falar. O outro tomara-o por um imbecil, ou em todo o caso por

um sujeito tímido, incapaz de uma decisão, quando afinal a sua decisão já estava quase tomada. Devia ter-lhe declarado simplesmente:

- Sabe o que vou fazer para começar? Vou procurar Pamela em Amesterdão Isto, eram umas velhas contas que ele tinha a ajustar. Talvez não parecesse muito sério; era no entanto o mais urgente, pois o que mais humilhava Kees era nunca haver

ousado, ter passado todas as semanas diante de certa casa corando como um colegial vicioso, ao passo que Logo, este ponto estava assente. Pamela primeiro que tudo! Em seguida Ver-se-ia! Se Kees ignorava o que iria fazer, já por outro lado sabia perfeitamente o que não faria, e também disto se tratara na véspera à noite, sem que ele tivesse o sangue-frio necessário para falar. Não é verdade que de Coster aludira a Arthur Merkemans? E Claes não abordara igualmente o assunto, com o ar de quem diz:

- O seu cunhado veio cravar-me novamente. É um bom traste!

Logo, Kees não se tornaria num segundo Merkemans. Ele conhecia a situação em Groninga melhor que ninguém. Não se passava uma semana sem que alguns indivíduos, que tinham mais habilitações que ele, não viessem solicitar um emprego qualquer.

26 - 27

E os mais odiosos eram precisamente os que vestiam roupas elegantes, embora coçadas, e suspiravam:

- Fui director de tal casa. Contudo, aceitarei seja o que

for, pois tenho mulher e filhos Iam de firma em firma com uma pasta debaixo do braço. Alguns tentavam impingir aspiradores eléctricos ou seguros de vida.

- Não! - afirmou Kees em voz alta, mirando-se, de longe , no espelho. Não esperaria que os seus fatos estivessem gastos, os seus

sapatos esburacados, nem que os seus companheiros do círculo de xadrez se condoessem dele a ponto de não lhe reclamarem a sua cota, conforme sucedera a um membro, com voto de comité , bondade geral e tudo De resto, não se tratava de nada de comparável. É certo que ele não teria sido capaz de provocar o que acabava de acontecer Mas, já que ao fim e ao cabo acontecera, mais valia aproveitar

- O que é que me querem agora? - gritou ele.

- A senhora de Coster manda perguntar se tem notícias do marido dela. Parece que não foi dormir a casa e que

- Que tenho eu a ver com isso?

- Devo responder-Lhe que não sabe?

- Responda-lhe que vá para o diabo, mais o seu amante!

Depois disto, se a senhora Popinga ainda soubesse de que terra era

- Acima de tudo, feche a porta, por favor. Diga à criada que

não faça tanto barulho com o balde Doía-Lhe a cabeça e chamou outra vez a mulher para Lhe pedir uma laranja, pois tinha a boca pastosa, a língua espessa. O raio de sol alargava-se. Sentia-se que lá fora fazia um frio seco e capitoso , e percebiam-se os ruídos do porto, as sirenas dos barcos que alcançavam a primeira ponte do canal Guilhermina e requeriam passagem. O Oceano III ainda estaria

no cais? Era provável. O comandante devia ter comprado mazute

a um concorrente, sem dúvida a Wrichten, que perguntava a si mesmo o que tal significaria. No escritório, os empregados não compreendiam patavina e aguardavam a sua chegada Logo - ele gostava de recapitular, gozando de antemão -,

Pamela primeiro que tudo

ela ocupava um apartamento no hotel Charlton Após o que, com os seus quinhentos florins, tomaria um comboio, um comboio da noite, também ele, por exemplo A Estrela do Norte Iriam demorar muito tempo a descobrir as roupas de Julius de

Coster? Havia um negociante de artigos de pesca não longe do sítio onde elas estavam depostas. O chapéu preto devia sobressair na neve da margem

Julius de Coster dissera-lhe que

- Escute, mamã, se voltar a importunar-me, eu

- Kees! É medonho

É inimaginável!

O seu patrão

afogou-se

Ele

- Que tenho eu a ver com isso?

E, falando assim, mirava-se no espelho para se assegurar de que o seu rosto estava rigorosamente imperturbável. Isto divertia-o! Sempre se mirara no espelho, mesmo quando ainda era gaiato. Adoptava uma ou outra atitude. Corrigia pormenores. No fundo, talvez tivesse sido sempre um actor e, durante quinze anos, comprazera-se em reencontrar uma imagem digna e

impassível, a de um bom holandês seguro de si, da sua honorabilidade, da sua virtude, da primeira qualidade de tudo

o que possuía.

- Como pode falar assim, Kees?

Não compreende o que eu

quero dizer? voluntariamente

Julius de Coster atirou-se à água

- E depois?

- Ainda acaba por me fazer crer que sabe alguma coisa

- Por que é que me hei-de alvoroçar só porque um homem se suicidou?

- Mas é

É o seu patrão e

- Ele é livre de fazer o que entender, não acha? Já lhe pedi que me deixasse dormir

- Não é possível! Está lá em baixo um empregado que insiste em vê-lo

- Diga-lhe que estou a dormir.

- A polícia virá certamente fazer-lhe perguntas

- Tenho muito tempo de acordar.

- Kees!

normal

28 - 29

Você assusta-me!

Não está no seu estado

Os seus olhos já não são os mesmos

- Mande trazerem-me charutos, se não se importa.

Desta vez, ela ficou convencida de que o marido estava gravemente doente, pelo menos esgotado, ou talvez um poucochinho louco. Numa voz resignada, ordenou à criada que levasse lá acima uma caixa de charutos porque era preferível

não o contrariar. Cochichou durante muito tempo, no corredor, com o empregado, que abalou cabisbaixo.

- O senhor não se sente bem? - julgou dever murmurar a

criada ao penetrar no quarto.

- O senhor nunca se sentiu tão bem! Quem Lhe disse isso?

- Foi a senhora

Deviam ser dez horas, e uns quinze barcos, a esta hora, estavam em plena descarga no porto. Apesar de tudo, e ainda por cima com tanto sol, era um bonito espectáculo que ele lamentava perder , principalmente porque a maioria desses

barcos tinham listões verdes, encarnados ou azuis, que se reflectiam na água do canal, e alguns até aproveitavam o ar calmo para pôr as suas velas a secar

Do seu gabinete, nas outras manhãs, ele via-os

Conhecia

todos os capitães e todos os marinheiros

som de cada sirena e podia anunciar:

Conhecia também o

- Olha: o Jesus-Maria vem a passar a segunda ponte

Chegará aqui dentro de meia hora Depois, às onze horas em ponto, o contínuo trazia-Lhe uma chávena de chá com dois bolos secos Entretanto, Julius de Coster Sénior estava no seu gabinete, sozinho, por detrás das portas acolchoadas. E pensar que ninguém notara que ele estava caquético! Instalavam-no numa poltrona como uma múmia, ou como a tabuleta da firma! Só o deixavam ver durante alguns instantes, e os clientes tomavam por sabedoria a sua total ausência de inteligência! Kees agitou-se na sua cama que se ia tornando húmida. O pijama estava molhado debaixo dos braços. Porém, ele ainda hesitava em levantar-se, porque então teria de agir. Deitado no quarto, podia fazer tudo em espírito e Pamela parecia-Lhe muito próxima, Eleonor de Coster quase não o amedrontava a despeito da sua orgulhosa boquilha. Mas quando vestisse de novo as roupas cinzentas de Kees Popinga e desse consigo de pé, barbeado de fresco, bem lavado,

com os seus cabelos louros colados ao crânio pela brilhantina? Mesmo agora, já tinha que lutar um bocadinho contra a sua curiosidade, ou até contra um outro sentimento mais confuso, para não ir lá ver o que se passava, o capitão do Oceano III era capaz, brutal e grosseiro como Kees o conhecia, de ter amotinado o porto inteiro e de reclamar uma indemnização por perdas e danos

E se de facto a polícia se apresentasse no escritório?

Era tão inesperado que não se podia prever como as coisas se

passariam

autênticos armazéns e não lojas - onde havia mercadoria

amontoada até ao tecto e armazenistas entrajados com uma bata de pano azul.

A um canto, um gabinete envidraçado, do qual uma janela dava

para o porto enquanto os outros três lados abriam sobre os armazéns: o gabinete de Kees, que desempenhava ali dentro o papel de chefe de orquestra.

No primeiro andar, mais algum material em depósito, depois os gabinetes; e gabinetes no segundo, acima da larga faixa de dois metros onde figuravam a preto sobre branco as palavras:

Julius de Coster en Zoon - Shipshandler. Teve a coragem de não se levantar, mas sentia-se contrariado por o deixarem tanto tempo sozinho, embora tivesse dado ordem formal para não o incomodarem.

O que estariam elas a fazer lá em baixo, as duas mulheres?

Por que motivo já não as ouvia? E por que não vinham interrogá-lo sobre o suicídio do seu patrão? Ele nada diria, evidentemente. Mas vexava-o que não recorressem a si mais cedo. Comeu a laranja, sem faca, atirou as cascas para o chão a fim de ralar a mamã, e aconchegou-se nos lençóis, na almofada,

fechou os olhos, obrigou-se a pensar em Pamela e em tudo o que faria com ela.

O apito de um comboio atingiu-o como uma promessa; já, num

semi-sono, ele decidia não partir de dia, o que não seria suficientemente nostálgico, mas esperar, se não a noite, pelo menos o lusco-fusco, que caía por volta das quatro horas.

Todo o rés-do-chão era ocupado pelos armazéns -

30 - 31

Pamela era morena, como Eleonor

Era mais rechonchudinha

que esta

rechonchuda

noite, Kees se mostrava terno e a fazia sobressaltar-se ao mais pequeno ruído, obcecada pela ideia de que as crianças podiam ouvir Kees pensava com todas as suas forças em Pamela, depois , contra a sua vontade, e sem saber como, evocava imagens da casa de Coster en Zoon, dos recantos do porto, dos barcos em carga ou em descarga e, quando de tal se apercebia, deitava-se

sobre o outro flanco, pesadamente, recomeçava:

»

Retomava, segundo após segundo, os acontecimentos tal como os previa.

A senhora Popinga, essa, era forte, mas não Ela sentia sempre uma certa vergonha quando, à

«Quando chegar ao seu apartamento do Carlton, dir-lhe-ei

- Papá

Ele adormecera, não havia dúvida, pois que se erguia

estremunhado, fitava com assombro a sua filha que choramingava.

- O que fizeste à mamã?

- Eu?

- Ela está a chorar. Diz que não pareces o mesmo, que se passam coisas pavorosas Que grande esperteza!

- Onde está a tua mãe?

- Na sala de jantar

Vamos já para a mesa

O Carl

chegou

Frida chorava sem chorar, o que era uma das suas especialidades. Quando era muito pequenina, tinha esta mania de lacrimejar sem razão, com o ar de ser uma vítima da brutalidade do mundo. Por dá cá aquela palha, por um olhar um pouco severo, debulhava-se em lágrimas!

Mas era tão automático, tão regular, que não se sabia ao certo se ela estava realmente triste.

A mamã não queria que eu viesse cá acima

- É verdade que o senhor de Coster morreu?

- O que é que isso me interessa?

- A mamã diz que estás doente

- Eu?

- Ela quer mandar chamar o doutor Claes, mas tem medo que te zangues

- E tem toda a razão. Não preciso do doutor Claes, nem de

ninguém Que estranha rapariga, não havia dúvida! Kees nunca a compreendera, e agora menos que nunca. O que fazia ela ali, a

olhá-lo na sua cama, com olhos assustados? Acaso alguma vez ele Lhe batera? E não obstante, apesar das lágrimas, era dotada de uma incrível faculdade de voltar à realidade.

- O que devo dizer à mamã? Que vais descer para almoçar?

- Não descerei.

- Devemos comer sem ti?

- Isso mesmo! Comam! Chorem! Mas, pelo amor de Deus,

deixem-me sossegado! Não era que ele tivesse remorsos. Mas a verdade é que era

embaraçoso. Teria feito melhor em partir de manhã, como quem não quer a coisa, deixando supor que ia para o escritório à semelhança dos outros dias. Agora, já nem sequer estava muito seguro do que ia fazer. Previa uma data de aborrecimentos. E, ainda por cima, receava ver aparecer o cunhado Merkemans que, com o seu ar afectuoso, ofereceria os seus préstimos! Pois ele era assim! Não havia uma morte no bairro sem que viesse pôr-se à disposição para o velório!

- Vai comer

Deixa-me

Se ao menos pudesse tragar dois ou três copos de álcool! Mas não havia disso lá em casa. Só uma garrafa de bíter, para as grandes ocasiões, quando vinha alguém de surpresa. E mesmo assim estava fechada à chave na parte esquerda do bufete!

- Adeus, Frida!

- Adeus, papá.

Ela não compreendeu que ele dizia isto de um modo muito especial, contra a sua própria vontade, nem sentiu que ele a seguia com os olhos até à porta, enterrando depois o rosto na almofada.

Na realidade, ele já não sabia. Fazia um esforço danado para pensar em Pamela e no resto. Felizmente que às duas horas vieram dizer-lhe que a polícia, a qual se instalara nos escritórios de Coster, desejava ouvi-lo.

32 - 33

Vestiu-se com apuro, mirou-se demoradamente ao espelho, desceu e foi por uns bons momentos cirandar em torno da mulher.

- Não acha que eu faria melhor em acompanhá-lo? - arriscou

ela. Isto é que o salvou. Ele ia hesitar de novo. Mas o facto de,

sem razão, ela pressentir o perigo, o facto de se aprestar a arrostá-lo

- Já sou suficientemente crescido para resolver estes assuntos sozinho.

Ela tinha os olhos vermelhos, e também o nariz, como sempre que acabava de chorar. Não ousava olhá-lo de frente, o que provava que devia estar a magicar alguma coisa.

- Levas a bicicleta?

- Não!

Era raro que o tratasse por tu, mas isso acontecia nas

grandes ocasiões.

- Por que choras? - impacientou-se ele.

- Não estou a chorar.

Não chorava, mas umas lágrimas muito grossas rolavam-lhe

pelas faces abaixo!

- Idiota!

Esta palavra, nunca ela viria a comprendê-la, nunca ela viria a saber que era a palavra mais terna que ele Lhe dirigira em toda a sua vida.

- Não voltas muito tarde?

O mais ridículo é que também ele estava quase a chorar. Os quinhentos florins iam no seu bolso. Mas não tocara nos

duzentos florins que se encontravam no quarto para pagar uma factura dois dias depois.

- Tens as luvas contigo?

Esquecera-as. Ela trouxe-Lhas, não o beijou, pois isto não se fazia lá em casa. Contentou-se em ficar na soleira, com o corpo um pouco debruçado, enquanto ele se afastava fazendo

estalar a neve sob as galochas. Só ele sabe o esforço que fez para não se voltar.

34

III

De um pequeno canhenho de marroquim vermelho comprado por um florim num dia em que Popinga ganhara ao xadrez

O comboio saíra de Groninga há um quarto de hora. Como

eram quatro horas e meia e já anoitecia, não se dispunha do recurso de olhar pela portinhola. Kees Popinga estava instalado num compartimento de segunda classe com duas outras pessoas: um homenzinho magro que devia ser oficial de diligências ou ajudante de tabelião e, no canto oposto, uma mulher de certa idade, de luto pesado.

A mão de Kees, metida numa algibeira, encontrou por acaso

uma pequena agenda encadernada em marroquim vermeLho, dourada nos topos das folhas, que ele comprara por um florim a fim de aí anotar as suas partidas de xadrez mais difíceis.

O gesto nada tinha de extraordinário. Kees estava

absolutamente inactivo. Na agenda, ainda só havia duas partidas anotadas, ou seja, duas páginas cobertas de sinais convencionais. Então, aconteceu que ele pegou no lápis metido na

encadernação e escreveu:

Saí de Groninga no comboio das 16 horas e 7. Em seguida, tornou a enfiar a agenda no bolso, só a retomando após a estação de Sneek para acrescentar:

Paragem demasiado breve para beber um copo.

Ora, muito mais tarde, esta agenda, estas notas, iriam servir aos alienistas para estabelecer que, desde a sua partida de Groninga, ele estava louco!

35

Estaria a sua mulher louca, ela que guardava preciosamente o seu álbum de rapariga e que, à noite, quando não tinha cromos para colar, aí escrevia o mais a sério possível:

Comprei sapatos novos para o Carl. Frida foi ao

cabeleireiro

?

De resto, não haveria apenas a agenda. As pessoas com quem ele viajava e que, agora, não reparavam em si, iriam todas, mais tarde, recordar-se de pormenores sugestivos. Nada, porém, no seu comportamento, o designava à curiosidade. Estava calmo. Talvez estivesse de uma calma

exagerada

recordar duas circunstâncias da sua vida em que dera mostras

do mesmo involuntário sangue-frio.

Ele próprio se apercebeu disso, o que o fez

O primeiro episódio acudiu-lhe à memória por causa do

canhenho vermelho, pois era uma história de jogo de xadrez. Uma noite lá no clube, acabava de ganhar umas atrás das outras três partidas, quando o velho Copenghem, que não podia com ele, se pusera a escarnecer:

- Não custa nada, desde que só jogue com pessoas mais fracas

do que você! Popinga, todo enxofrado, ripostara. Ao fim de pouco tempo já se desafiavam um ao outro, e Kees acabara por propor entregar a Copenghem um bispo e uma torre. Ele ainda revia a partida, uma das mais célebres do círculo.

Se bem que Copenghem fosse um excelente jogador, Popinga fingia estar seguro de si, indo ao ponto, o que enchia o outro de raiva, de dar um giro entre as jogadas. Numa mesinha, ao lado dele, havia uma caneca de cerveja de Munique da qual chegara há pouco um barril. Ao cabo de uma hora, durante a qual Popinga não cessou de ser de uma ironia agressiva, o outro, de súbito, com um leve sorriso nos lábios, pô-lo xeque-mate. Era o que podia acontecer de mais desagradável. Vinte pessoas, ou mesmo mais, tinham assistido à partida e às fanfarronadas de Popinga.

O certo é que este não vacilou, não empalideceu, não corou.

Tornou-se pelo contrário de uma calma irreal e pronunciou numa

voz pausada:

- São coisas que acontecem, não é?

Ao mesmo tempo, com o ar mais natural deste mundo, agarrava num dos bispos do jogo. Este jogo, em marfim esculpido, conhecido em toda a cidade de Groninga, pertencia a Copenghem em pessoa, que afirmava não poder jogar com outras peças além das suas. Popinga escolhera o bispo preto. De um relance de olhos ele calculara tudo, e logo a seguir deixava cair o bispo na sua caneca de cerveja preta. Ia começar outra partida. Deu-se pelo desaparecimento do bispo e procurou-se por toda a parte, alertou-se o empregado, fizeram-se todas as suposições imagináveis sem pensar naquele copo de cerveja de Munique que Kees tivera o cuidado de não beber e que deve ter sido despejado sabe Deus onde, pois Copenghem nunca mais voltou a ver o seu bispo.

Pois bem! enquanto se procurava deste jeito, Popinga fruíra da mesma calma bem-aventurada que agora, no comboio, ao mesmo tempo que pensava na gente de Groninga, a quem pregava a boa partida de se sumir.

O que não devia impedir a senhora enlutada de declarar, dois dias mais tarde:

- Ele tinha um olhar de homem acossado; aconteceu-lhe duas vezes rir-se sozinho

Riso não, mas sorriso! A primeira vez, por causa da história de Copenghem; a segunda, por causa da sopa de rabo de boi. Era mais recente. Isto datava do ano anterior, quando Jef Van Duren fora nomeado professor da Faculdade de Medicina. Van Duren, que era um amigo de sempre, dera um grande jantar. Enquanto se servia o vermute, Kees dirigira-se à cozinha, onde tinha o hábito de se meter com Maria, a criada, que era apetitosa. Ora, como ele tentava acariciá-la, ela declarara-lhe:

- Visto que não se porta bem, voltarei quando já aqui não estiver

E descera à cave, onde devia ter alguma coisa que fazer.

36 - 37

Era tanto mais humilhante quanto Maria era por assim dizer a única mulher com quem Kees se permitia intimidades, além de que ela lhe punha sempre a cabeça a andar à roda.

Contudo, permanecera calmo, terrivelmente calmo, e, tal como fizera com o bispo da cerveja, lobrigara, em cima do forno, uma panela de oxtail - uma sopa de rabo de boi que os Van Duren apenas serviam nos grandes dias. Numa prateleira estavam arrumadas algumas caixas, duas das quais ostentavam a palavra sal. Ele abrira uma e deitara no oxtail uma boa parte do seu conteúdo; após o que, com um ar inocente, regressara à sala.

O efeito foi muito mais engraçado do que ele contara. A

caixa onde estava indicado sal continha, só Deus sabe porquê,

açúcar pilé e, durante um bom minuto, não se viram à roda da mesa senão rostos estupefactos, sobrolhos franzidos, pessoas que provavam de novo uma colher de sopa sem conseguirem formar uma opinião. Eis de que calma ele tornava a dar mostras hoje. Às seis horas, o comboio depô-lo em Stavoren sem Lhe dar tempo de beber um copo, quando afinal há já muito que tinha sede. Em Stavoren, só tivera tempo de tomar lugar a bordo do barco que fazia a travessia do Zuiderzee; felizmente, a bordo deste barco, podiam consumir-se bebidas.

- Dois copos de genebra - disse ele com toda a naturalidade

ao criado de bordo. Dizia dois, pois sabia que beberia dois e era inútil obrigar o empregado a correr duas vezes de uma ponta à outra do barco. Na véspera, Julius de Coster exigia sem rebuço que deixassem a garrafa em cima da mesa, no Pequeno São Jorge, e o dono não via nada de anormal nisto. Por que motivo, então, declararia mais tarde o criado de

bordo:

- Ele tinha um ar de louco e encomendou-me dois copos de

genebra de uma só vez Após quarenta minutos de travessia, tornou a apanhar o comboio, em Enkhuizen, para Amesterdão, onde chegou alguns minutos depois das oito horas. Este último percurso fizera-o ele no mesmo compartimento que dois comerciantes de gado que discutiam os seus negócios lançando-lhe olhares desconfiados, como se vissem nele um possível concorrente. Mas ninguém, nem sequer ele, suspeitava ainda da terrível

celebridade que iria adquirir em poucas horas. Estava vestido de cinzento, como de costume. Trouxera maquinalmente a sua pasta de cabedal, da qual se fazia sempre acompanhar nas idas para o escritório. Em Amesterdão, não hesitou um só instante em dirigir-se ao Carlton, do mesmo modo que deitara o bispo na cerveja ou pusera açúcar pilé na sopa de rabo de boi.

- A menina Pamela está?

Nada, absolutamente nada, o distinguia de uma visita qualquer, a não ser talvez a sua calma.

-

Da parte de quem? - inquiriu o porteiro de uniforme.

-

De Julius de Coster

O

porteiro fez uma pausa, observou-o, murmurou:

-

Perdão

Mas não é o senhor de Coster

-

Como é que sabe?

-

O senhor de Coster vem cá todas as semanas e eu

conheço-o

- E quem lhe prova a si que eu não sou um outro senhor de Coster?

O porteiro comunicou no entanto pelo telefone:

- Alô!

Menina Pamela?

Está aqui um senhor que vem da

parte do senhor de Coster. Devo mandar subir?

O paquete, que fez funcionar o ascensor, não desconfiou de

nada. Pamela, que se penteava diante do toucador, gritou: «Entre!»

numa voz banal, depois virou-se, pois embora ouvisse a porta abrir-se e voltar a fechar-se, ninguém lhe falava. Ela viu Kees Popinga de pé, com a pasta debaixo do braço, o chapéu na mão, e murmurou:

- Faça o obséquio de se sentar Ao que ele respondeu:

- Muito obrigado

Não

Estavam num dos cento e tal apartamentos idênticos que o Carlton comporta. Havia uma porta entreaberta para a casa de banho iluminada. Um vestido de noite esparramava-se sobre o

leito.

38 - 39

- De Coster encarregou-o de me dizer alguma coisa?

Importa-se que eu continue a pentear-me? É verdade, que horas são?

Estou atrasada

-

Oito horas e meia

Tem tempo

E

pousava a pasta, o chapéu, despia o sobretudo, esboçava um

sorriso, diante de um espelho:

- Não se lembra certamente de mim, mas eu via-a muitas vezes

em Groninga

Poderia acrescentar que, durante dois anos, a

desejei

Então, ontem, falámos os dois, Julius de Coster e

eu, e vim cá

- O que pretende dizer?

- Não compreende? Vim porque a situação já não é a mesma que na altura em que você morava em Groninga.

Aproximara-se, estava de pé junto a ela, o que a incomodava, se bem que continuasse a arranjar o seu cabelo castanho.

- Levaria demasiado tempo a explicar-lhe é que decidi passar uma hora consigo

O que interessa

Quando saiu, ainda estava mais calmo, se possível. Tinha que descer cinco andares e não tomara o ascensor. Só lá em baixo verificou que se esquecera da pasta no quarto de Pamela e perguntou a si mesmo se o porteiro se aperceberia disso. Estava lúcido, pois surpreendeu o olhar do homem na direcção das suas mãos vazias!

- Deixei a minha pasta lá em cima - disse ele num tom desprendido. - Virei buscá-la amanhã

- Não quer que mande o paquete?

- Obrigado! Não vale a pena, não acha?

Só teve um gesto canhestro, mas era porque não estava habituado a hotéis de luxo, tirou uma moeda de um quarto de florim da algibeira e estendeu-a ao porteiro. Dez minutos mais tarde, chegava à estação. Só havia um rápido para Paris às onze horas e vinte e seis, ou seja, quase duas horas depois, e gastou este tempo a passear no cais vendo os comboios a parar. Às onze horas menos um quarto, em ponto, uma pequena

bailarina, que saía todas as noites com Pamela, chegava ao Carlton e perguntava:

- Ela ainda não desceu? Há uma hora que a espero no restaurante

-

Vou telefonar-lhe para o apartamento.

O

porteiro ligou uma vez, duas vezes, três vezes, suspirou:

- É esquisito, não a vi sair! Chamou o paquete que ia a passar.

- Vai depressa ver se a menina Pamela adormeceu.

No cais da estação, Popinga não manifestava a mínima impaciência. Laureava enquanto esperava o seu comboio e

divertia-se a analisar os passageiros que circulavam.

O paquete vinha de escantilhão pelos seis andares abaixo e atirava-se para uma poltrona aos berros:

- Acudam!

Lá em cima

Ele deixara o ascensor a meio caminho e foi preciso subir a pé. Pamela estava estendida ao través da cama, com uma toalha

de felpa atada à volta do rosto, à laia de mordaça. Houve que avisar o director, telefonar a um médico. Quando a polícia chegou por seu turno, eram onze horas e meia e o comboio de Paris acabava de partir. Desta vez, era um autêntico comboio da noite, como os que povoavam os sonhos de Popinga, um comboio com carruagens-cama, cortinas corridas diante das janelas dos compartimentos, luzes mortiças e passageiros que falavam diversas línguas, ainda por cima um comboio internacional, atravessando em poucas horas duas fronteiras. Comprara um bilhete de segunda classe e encontrara um cupé onde só ia um passageiro, um homem já instalado ao comprido sobre um banco antes da sua chegada e cujo rosto ele ainda não vira. Kees não tinha vontade de dormir, tão-pouco lhe apetecia ficar sentado, e percorreu três ou quatro vezes o comboio de lés-a-lés, lentamente, tentando ver o interior dos compartimentos, tentando adivinhar

O revisor picou-Lhe o bilhete sem o encarar.

40 - 41

A polícia belga só deitou uma olhadela ao seu bilhete de identidade, e ele aproveitou a paragem na alfândega para escrever na sua agenda:

Apanhei, em Amesterdão, o comboio das 23h26, segunda classe.

Um pouco mais tarde, sentiu de novo necessidade de escrever qualquer coisa:

Não consigo compreender por que motivo Pamela fez troça de mim quando Lhe disse o que pretendia. Tanto pior para ela! Eu não podia ir-me embora assim. Agora, ela deve ter compreendido.

Ainda se ela tivesse sorrido, ou ripostado com uma frase

irónica! Ou mesmo que se zangasse! Mas não! Depois de ter

mirado Kees dos pés à cabeça, desatara num riso perdido que parecia não ter fim, um riso estridente, histérico, que Lhe sacudia a garganta e a tornava ainda mais atraente.

- Proíbo-a de rir! - pronunciara ele severamente.

Mas ela gargalhava cada vez mais, até os olhos se lhe encherem de lágrimas, e ele agarrara-Lhe os dois punhos.

- Não quero que se ria mais!

Violentamente, empurrara-a para a cama, onde ela caíra.

Quanto à toalha, estava ali mesmo, ao alcance da mão, perto do vestido de noite.

- Os bilhetes, se fazem favor!

Desta vez, era o revisor belga que, apesar de tudo, deitou uma olhadela curiosa àquele passageiro que, mau grado o frio, permanecia de pé no corredor. Mas daí até supor

Dentro do compartimento, o companheiro de Popinga mal acordara na fronteira e Kees vislumbrava um rosto vulgar, com um bigodinho castanho. Uma noite singular, ainda assim, quase tão forte como a anterior e as horas passadas no Pequeno São Jorge a ouvir falar de Coster. O que diria ele, o Julius Júnior, quando soubesse? Iria Pamela apresentar queixa? Nesse caso, como encontrariam a pasta no quarto, o nome de Popinga surgiria em todos os jornais. As coisas não estariam a tornar-se inimagináveis? A ponto de ser impossível prever todas as consequências. Frida, por exemplo, andava num colégio de freiras. Conservariam

porventura a filha de um homem que

?

E no círculo de xadrez! A cara de Copenghem!

A do doutor

Claes, que devia julgar-se o único homem capaz de ter uma amante. E Ele semicerrava os olhos. Nenhum músculo do seu rosto mexia. Por vezes, atrás dos vidros, via passar luzes, ou então o alarido era mais forte porque se atravessava uma estação. Adivinhou também uma vasta planície coberta de neve e uma casinha que, só Deus sabe porquê, talvez por haver uma morte ou um nascimento, estava iluminada em plena noite Era preferível ter-se esquecido da pasta junto de Pamela? Ele perguntava-o a si mesmo. Invadia-o a cada instante o desejo de tornar a escrever qualquer coisa na sua agenda vermelha. Na fronteira francesa, desceu ao cais, quis saber se o bufete estava aberto, teve que fazer um desvio, por causa da alfândega, e bebeu um grande cálice de conhaque, registando à pressa no canhenho:

Constato que o álcool não me provoca efeito algum.

A última parte da viagem foi mais longa. Ele bem se

esforçara por travar conhecimento com o seu companheiro de

compartimento, que era um corretor de pedras preciosas. Mas o homem, que efectuava a mesma viagem duas vezes por semana, tinha os seus hábitos e insistia em dormir.

- Não sabe se o Moulin Rouge ainda estará aberto? -

perguntou-Lhe no entanto Popinga. Apetecia-Lhe ver gente e retomou as suas peregrinações nos

corredores, transpondo os foles, encostando o rosto aos vidros dos cupés por detrás dos quais dormia gente.

No Moulin Rouge ou noutro sítio

Se dissera Moulin Rouge,

fora por ter lido tanta coisa a esse respeito Já se via numa sala abundantemente guarnecida de espelhos,

com assentos de veludo purpurino, um balde de gelo com champanhe sobre a mesa, belas moças decotadas a seu lado

42 - 43

Manter-se-ia calmo! O champanhe não surtiria mais efeito sobre ele do que a genebra ou o conhaque. E daria a si mesmo o malicioso prazer de pronunciar frases que as suas companheiras não poderiam compreender De súbito, sem transição, sobreveio a gare du Nord, o átrio arejado, a saída, um táxi que esperava.

- Para o Moulin Rouge! - largou ele.

- Não tem bagagens?

O Moulin Rouge estava fechado, mas o carro parou em frente de outro cabaré onde um porteiro correu ao encontro de Popinga. Ninguém poderia dizer que ele entrava pela primeira vez em toda a sua vida num lugar daquele género. Não se

apressava, olhava tranquilamente em redor, escolhia a sua mesa sem se preocupar com o chefe.

- Traga-me champanhe e um charuto!

Pronto! Ali estava ele! Tudo se tinha passado conforme

decidira e achou perfeitamente natural que uma mulher de vestido verde viesse sentar-se a seu lado murmurando:

- Dá-me licença?

Respondeu:

- Faça favor!

- É estrangeiro?

- Sou holandês. Mas falo quatro línguas: a minha, o francês,

o inglês e o alemão Que magnífico desanuviamento! E, o mais extraordinário, também desta vez, é que os mínimos pormenores correspondiam ao

que ele previra. Dir-se-ia que já conhecia o cabaré com os seus bancos estofados de veludo carmesim, o jazz-band cujo saxofonista de cabelo louro era seguramente um homem do norte, talvez um holandês como ele, e esta mulher ruiva que punha os cotovelos em cima da mesa e pedia um cigarro.

- Eh! - chamou ele pelo empregado. - Cigarros

Um pouco mais tarde, tirava a agenda da algibeira,

perguntava à sua companheira:

- Como se chama?

- Eu?

Quer tomar nota do meu nome?

estrambótica!

Ouça lá! Sabe que está na hora de fechar?

Enfim! se tem gosto nisso

Que ideia tão Jeanne Rozier

- Tanto se me dá.

- O que quer fazer?

- Ir a sua casa.

- A minha casa, não, é impossível

- Está bem!

- Olha lá, concordas assim sempre com tudo?

Nos lábios dele bailou um sorriso evasivo. Era engraçado,

Ao hotel, se quiser

não sabia dizer bem porquê!

- Vens muitas vezes a Paris?

- É a segunda vez na minha vida. A primeira vez foi em viagem de núpcias

- E desta vez, a tua mulher veio contigo?

- Não, deixei-a em casa

Quase tinha vontade de rir. Chamou o chefe de mesa para

encomendar mais champanhe.

- Deves gostar do pequename, hem? Desta vez, ele riu e declarou:

- Das pequenas não!

Ela não podia compreender! Mas Pamela não era pequena! Era tão alta como ele! Eleonor de Coster também media um metro e setenta

-

Pelo menos, estás bem humorado. Dedicas-te a negócios?

-

Ainda não sei.

 

-

O que é que queres dizer com isso?

-

Nada

Você tem sardas

É muito divertido

O

que o divertia acima de tudo era ver que a sua companheira

lhe lançava olhares furtivos tentando em vão compreendê-lo. Ela tinha sardas sob os olhos, era verdade, e cabelo de uma

bela cor ruiva, uma pele mate, lábios compridos. Ele só conhecia uma ruiva, a mulher de um dos seus amigos do círculo de xadrez, uma tipa alta e magra que era vesga e tinha cinco filhos.

- Por que me olhas assim?

- Por nada

Acho que é magnífico estar aqui

Lembrei-me

de repente da cara que Pamela fará

- Quem é?

44 - 45

- Pouco importa!

Não a conheces

Está toda a gente à espera

para se ir deitar

Faz favor! Preciso que me troque florins

E sacou os quinhentos florins do bolso, estendendo o maço ao chefe de mesa com ar de quem pensa noutra coisa. Verdade,

verdadinha, estava cansado. Havia momentos em que sentia uma irresistível vontade de se estender, mas não valia a pena viver um dia como este para o encurtar dormindo.

- Devias pagar, temos que sair

- Eh!

- Por que não posso ir pernoitar a sua casa?

- Porque tenho um amigo! Ele fitou-a, desconfiado.

- De quem se trata? De algum velho?

- Tem trinta anos.

- O que é que ele faz?

- É comerciante

- Ah!

Continuava a compreender-se, a divertir-se sozinho, a

Eu também sou comerciante

deleitar-se com as suas próprias palavras, os seus gestos, o seu rosto que ele via num espelho.

- Aqui tem, senhor!

Isso não o impediu de contar o dinheiro com cuidado e de objectar:

- Fez-me um mau câmbio. Em Amesterdão, ter-me-iam dado mais

três pontos.

Lá fora, Jeanne Rozier, que envergava um casaco de pele de esquilo, observou-o com uma última hesitação:

- Onde te hospedaste?

- Não me hospedei em parte nenhuma. Cheguei directamente da estação.

- E as tuas bagagens?

- Não tenho bagagens.

Ela interrogou-se por instantes se não faria melhor em

mandá-lo passear.

- O que é que tem? - perguntou ele, espantado com a sua atitude.

- Nada!

Anda!

Há um hotel na rue Victor-Massé,

bastante asseado Em Paris, não havia neve. Não gelava. Popinga sentia-se tão

leve como o champanhe que bebera. Quanto à sua companheira, entrou no hotel como na própria casa, gritando através de uma porta envidraçada:

- Não se incomode

Vou para o 7

Ela mesma abriu a cama, fechou a porta no ferrolho e soltou um pequeno suspiro.

- Não te despes? - perguntou ela da casa de banho.

Por que não?, afinal de contas. Por si, ele faria tudo o que

quisessem! Era dócil e jovial como uma criança. Só desejava a felicidade de toda a gente!

- Ficas muito tempo em Paris?

- Talvez para sempre

- E vieste sem bagagens?

Ela não se sentia segura e despia-se a contragosto, ao passo que, sentado na cama, ele a olhava com ar divertido.

- Em que estás a pensar?

- Em nada! Tens uma linda camisa

É de seda?

Ela não a tirou para se enfiar entre os lençóis, deixou a luz acesa e esperou.

- O que fazes? - perguntou ela após um momento.

- Não faço nada!

Acabava o seu charuto, simplesmente, deitado de costas, de olhar fixo no tecto.

- Não és nervoso!

- Não!

- Importas-te que eu apague?

- Não.

Ela accionou o interruptor, continuou a senti-lo ao pé de si, na mesma pose, sem sair da sua imobilidade, com os lábios arredondados na ponta do seu charuto que fazia uma pequena mancha rubra na obscuridade. Foi ela que se agitou.

- Por que é que me trouxeste? - indagou depois de se ter virado três ou quatro vezes.

- Não estamos bem aqui?

46 - 47

Ele sentia o seu corpo quente ali ao lado, mas isto proporcionava-lhe um prazer inteiramente moral, pois pensava

de si para consigo: «Se a mamã aqui estivesse!

Depois, sem transição, levantou-se, acendeu a luz, procurou o seu casaco, tirou de lá a agenda e perguntou:

»

- Qual é a morada?

- A morada de quê?

- Onde estamos

- 37 bis, rue Victor-Massé. Tens necessidade de escrever

tudo isso? Sim! Tal como certos viajantes coleccionam bilhetes postais

ou ementas de restaurante; tornou a deitar-se, esmagou a ponta do charuto no cinzeiro, murmurou:

- Ainda não tenho sono

- Quem?

- O teu amigo

- Está no ramo automóvel

Que género de comércio faz ele?

Mas, escuta, se não tens mais

nada para me dizer, preferia que me deixasses dormir. Quer-me cá parecer que és um tipo muito patusco! A que horas devo acordar-te, amanhã?

- Não me acordes.

- Tanto melhor! Ao menos não ressonas?

- Só quando durmo virado para o lado esquerdo.

- Então, experimenta dormir sobre o direito.

Ele ainda ficou muito tempo acordado, de olhos abertos, e o mais engraçado é que foi a sua companheira que desatou num ressono regular, de tal modo que ele riu sozinho, silenciosamente. Quanto ao resto, tudo se assemelhou um pouco à cena da véspera, quando, em Groninga, de olhos entreabertos, ele via vestir-se a senhora Popinga que não sabia que a observavam.

Amanhecia, mas ainda não havia muita claridade e as cortinas não estavam corridas, de sorte que metade do quarto permanecia na sombra. Apenas se distinguia uma pincelada de sol.

E ali, em contraluz, Jeanne Rozier estava de pé, toda

vestida, com as calças de Kees na mão. Vasculhava os bolsos, pois vira, na véspera, que era nas calças que ele encafuava o dinheiro. Estava tão absorta em não fazer barulho que fazia um beicinho cómico e Popinga, sem

querer, pôs-se a sorrir. Este sorriso, conquanto mudo, deve tê-la alertado, pois voltou-se de repente para o seu companheiro. Não menos repentinamente, ele fechou os olhos e ela perguntou a si mesma se estaria a dormir ou fingia dormir. Era divertido senti-la ali, em suspenso no foco de luz pálida, de calças na mão, já não ousando fazer um gesto, retendo a respiração. Por instantes, ela iludiu-se e a sua mão penetrou numa algibeira, mas logo a seguir, compreendeu, pronunciou numa voz arrastada:

-

Ouve lá!

-

O quê?

-

Quando é que paras de mangar comigo?

-

Porquê?

-

Basta! Já percebi

E

atirava as calças para cima de uma poltrona amarelada,

despia o casaco, vinha postar-se em frente da cama:

- Importas-te de me explicar por que razão chegaste a Paris sem bagagens, com as algibeiras a abarrotar de dinheiro?

Não te armes em parvo!

Confesso que caí na esparrela

- Mas

- Espera aí!

E ela foi à janela, abriu as cortinas, que deixaram entrar

um dia glacial.

- Conta lá!

Sentava-se na borda da cama, fitava o seu companheiro com atenção, enfim, suspirava:

- Devia ter visto logo que não tinhas cara de um freguês

Quando falaste de comércio, esta noite, o que é que querias

dizer?

capaz de dizer que não é verdade!

Aposto que andas metido na coca!

Vê lá se és

48 - 49

IV

Como Kees Popinga passou a noite de Natal e como, de madrugada, escolheu um automóvel a seu gosto

O porteiro do Carlton tomava-o por louco; porque ele não se zangava ao surpreendê-la a vasculhar os seus bolsos, Jeanne Rozier, essa, tomara-o por um traficante de cocaína. No fundo, estava muito bem assim. Ele já tivera um trabalhão, durante quarenta anos, para o tomarem por Kees Popinga e para nenhum dos seus gestos ser diferente do que devia ser.

- Tenho sono

- murmurou ele, sem responder à sua

companheira que se abeirara da cama. Lia nos seus olhos esverdeados, palhetados de fulvo, mais do

que simples curiosidade. Ela estava intrigada. Vexava-a ir-se embora sem ficar a saber. Assentando um joelho na cama, murmurou:

- Não queres que torne a deitar-me um bocadinho?

- Não vale a pena!

Ela tinha na mão as notas que tirara dos bolsos dele e

pousou-as sobre a mesa, de um gesto ostensivo.

- Ponho-as aqui, estás a ver?

Olha!

Posso levar uma

destas? Ele não adormecera o suficiente para não se aperceber de que era uma nota de mil francos que ela levava, mas que importância tinha isso? E amodorrou-se. Jeanne Rozier, por seu lado, só tinha que percorrer duzentos metros, na fria manhã, e subir três andares para se achar em

casa, num apartamento mobilado da rue Fromentin, onde fechava a porta sem ruído, dava leite ao gato, despia-se com gestos minuciosos e enfiava-se numa cama onde já se encontrava um homem.

- Chega-te um pouco para lá, Louis Louis chegou-se resmungando.

51

- Acabo de deixar um tipo muito estranho

medo

Quase me metia

Mas Louis não escutava e, depois de ter ficado cerca de um quarto de hora de olhos fixos na fisga do cortinado, Jeanne Rozier adormeceu por seu turno, desta feita a sério, na sua própria cama, no calor de Louis, que vestia um pijama de seda.

Foi quase à mesma hora, na altura em que as repartições se enchiam umas atrás das outras de pessoas que não tinham grande vontade de pôr mãos à obra e cujo primeiro cigarro era amargo, que o telegrama chegou à rue des Saussaies.

Segurança Amesterdão para Segurança Nacional Paris. Um certo Kees Popinga, trinta e nove anos, residente Groninga, procurado por homicídio de Pamela Makinsen, solteira, cometido noite 23 para 24 de Dezembro em apartamento hotel Carlton Amesterdão. Stop. Temos razões supor que Popinga apanhou comboio para França. Stop. Traz roupas cinzentas e chapéu cinzento. Stop. Cabelo louro, tez clara, olhos azuis, estatura média, sinais particulares nada. Stop. Fala correntemente inglês, alemão e francês.

Sem repelões, sem precipitação, a máquina foi posta em movimento, querendo isto dizer que a identificação de Kees Popinga foi logo transmitida por rádio, telégrafo e telefone a todas as fronteiras, às esquadras, às brigadas móveis. Em cada posto de polícia de Paris, um chefe decifrava na

fita do aparelho Morse

nada E, entretanto, Kees Popinga, no seu quarto de hotel, dormia

a sono solto. Ao meio-dia, continuava a dormir. À uma hora, a

mulher da limpeza bateu à porta do gabinete envidraçado para

perguntar:

estatura média, sinais particulares

- O 7 ainda não está livre?

Já não se sabia bem e a criada foi ver; ela enxergou o rosto

sereno de Kees que dormia, de boca aberta, e mesmo ao pé, em cima da mesa, um maço de notas de banco; mas não ousou tocar- lhes. Eram quatro horas e acabava-se de acender a luz quando Jeanne Rozier empurrou por seu turno a porta do gabinete:

- O gajo com quem vim esta noite já abalou?

- Creio que ainda está a dormir.

Jeanne Rozier, de jornal em punho, trepou os andares,

empurrou a porta, olhou para Popinga que permanecia sem bulir

e cujo rosto, no sono, adquiria uma expressão infantil.

- Kees! - chamou ela de súbito numa voz contida.

A palavra atingiu-o no seu sono, mas teve de ser repetida duas ou três vezes antes de despertar os pensamentos conscientes. Então Popinga ergueu as pálpebras, viu a lâmpada

acesa por cima do seu leito, Jeanne Rozier envergando casaco de pele de esquilo e chapéu.

- Ainda aqui está! - murmurou ele, indiferente.

Já se dispunha a voltar-se para o outro lado a fim de

retomar o fio dos seus sonhos. Foi preciso ela sacudi-lo:

- Não ouviste o que eu te disse?

Ele olhou-a calmamente, esfregou os olhos, soergueu-se um pouco e volveu numa voz serena, quase tão infantil como a expressão da sua fisionomia quando dormia:

- O que é que disseste?

- Chamei-te Kees

Insistia nas sílabas, sem que ele se perturbasse:

- Ainda não compreendes?

Kees Popinga!

Toma!

Lê!

Atirou para cima da cama um jornal saído ao princípio da tarde, calcorreou duas ou três vezes o quarto.

Uma bailarina é assassinada num hotel de Amesterdão. O homicida foi identificado graças a documentos que abandonou no local. Parece estar-se na presença de um louco ou de um sádico.

Jeanne Rozier impacientava-se, virava-se incessantemente para o seu companheiro, na expectativa de uma reacção. Ele continuava sem se manifestar, pedia numa voz natural:

- És capaz de me dar o meu casaco?

52 - 53

Ela teve a ingenuidade de apalpar os bolsos, a fim de se assegurar de que não era uma arma que ele queria sacar de lá. Era um charuto! Acendeu-o com desesperante lentidão; em seguida, depois de altear a almofada e de aí apoiar as costas, iniciou a leitura do artigo, mexendo por vezes os lábios:

segundo as últimas notícias, o referido Popinga teria deixado o seu domicílio de Groninga em condições que permitem que nos interroguemos se ele não tem outro crime na consciência. De facto, o seu patrão, o senhor Julius de Coster, desapareceu subitamente e

- És mesmo tu? - martelou Jeanne Rozier, já sem paciência.

- Claro que sou eu!

- Foste tu que estrangulaste essa mulher?

- Não fiz de propósito

Nem percebo como ela pôde

Aliás há muitas coisas exageradas no artigo, e até coisas absolutamente falsas

morrer

Nisto, levantou-se, encaminhou-se para a cómoda.

- O que fazes?

- Tenho de ir almoçar

- São cinco horas!

- Nesse caso, vou jantar.

- O que é que contas fazer, depois?

- Não sei.

- Não tens medo de ser imediatamente preso?

- Primeiro tinham que me reconhecer

Visto-me

- E onde irás dormir? Lembra-te que podem pedir-te os teus papéis

- Isso é mais chato, evidentemente!

Ainda não tivera tempo de pensar em tudo aquilo e dormira tão profundamente que precisava de fazer um certo esforço para

reflectir.

- Pensarei em tudo daqui a bocado. Entretanto, nem sequer tenho escova de dentes. Hoje não é dia 24 de Dezembro?

- É.

- Aqui não se erguem árvores do Natal?

- Faz-se a consoada

Ceia-se e dança-se em todos os

restaurantes, em todos os cafés

que não estás a mangar comigo?

- Porquê?

Ouve lá, tens a certeza de

- Não sei! Talvez te divirtas com a intrujice de me deixares acreditar que és Popinga

Pronto! Outra vez! As pessoas necessitavam a todo o custo de lhe arranjar uma personalidade diferente da que era realmente sua.

-

Ainda não te prometo nada

ocupar-me disto

não tenhas medo, não se trata de alguém da polícia, mas de alguém que pode, se quiser, tirar-te de apuros

Simplesmente, não sei se ele irá nisso viciosos metem sempre um bocado de medo

- Vou dizer-te uma coisa - prosseguia Jeanne Rozier

É possível que faça mal em

Daqui a pouco falarei de ti a alguém

Oh!

Estas histórias de

Ele escutava enquanto atacava os seus sapatos pretos.

- Só devo vê-lo já bastante tarde

Conheces a rua de

Douai?

café com tabacaria onde não terás mais que sentar-te e

esperar

porque vou fazer a consoada com um grupo muito grande.

Olhou uma última vez para ele e pegou no jornal abandonado em cima da cama.

Há um

Não? É muito perto daqui

Indicar-te-ão

Não sei se chegarei antes ou depois da meia-noite,

- Não deixes nenhuns papéis por aí esquecidos

Muitas

vezes é assim que se vai parar à prisão

própria o quarto, não convém que reparem em ti na recepção. Já estão admirados de teres dormido tanto tempo. Isso também é um sinal!

E olha! pagarei eu

- Um sinal de quê?

Mas ela encolheu os ombros e saiu.

- Encontramo-nos no café da rue de Douai

Nos grandes bulevares, por volta das oito horas, quando Paris começava a agitar-se, ele estacou surpreendido diante da sexta edição de um vespertino que publicava uma fotografia na primeira página sob o título:

54 - 55

O assassino de Pamela, (de Amesterdão, por belinograma).

Era assombroso! Primeiramente, perguntou a si mesmo onde tinham ido desencantar aquela fotografia, de que ele próprio já não se recordava. Depois, olhando-a com mais atenção, distinguiu, à esquerda da sua cabeça, a face de outra pessoa e compreendeu. A outra pessoa era a sua mulher. A foto era a que se encontrava em cima do aparador e representava toda a família. Tinham ampliado a sua cabeça, isolada do resto, e, para

cúmulo, haviam-na expedido por belinograma, de modo que a imagem estava estriada, como se lhe tivesse chovido em cima. Num segundo quiosque, parou diante do mesmo jornal, diante do mesmo cliché e quase lamentou estar tão irreconhecível. Aquilo tanto podia ser a sua imagem como a de qualquer

transeunte!

A mulher do assassino fala de uma crise de amnésia

Foi até um terceiro quiosque, comprou o jornal, perguntou:

- Não há outros jornais que saíram à noite? Apontaram-Lhe quatro e ele levou-os.

- Não tem jornais holandeses?

- No quiosque da praça da Ópera

A luz resplendia por toda a parte, cartazes convidavam os

transeuntes a consoar por vinte e cinco ou por cem francos, com todas as despesas incluídas. Ainda não se festejava, mas sentia-se que não faltava muito.

- Dê-me os jornais da Holanda, se faz favor.

Estremeceu. À sua frente, exibia-se o Daily Mail e a sua fotografia, a mesma que nos diários franceses, figurava na, primeira página.

- Dê-me também o Daily Mail

e o Morning Post

Quanto maior era a quantidade, mais satisfação ele experimentava, do mesmo modo que outrora se enchia de contentamento ao ver o trabalho amontoar-se sobre a sua secretária. Seria conveniente dirigir-se já ao tal café com

tabacaria da rue de Douai? Mais valia jantar primeiro, e instalou-se no Café de la paix, onde os empregados fixavam as últimas grinaldas e os tufos de azevinho. Isto fê-lo pensar que Amersen devia ter entregue, de manhã,

a árvore do Natal que ele lhe encomendara. O que iriam fazer lá em casa? E o que podia pensar uma rapariga como Frida? Ele nunca se preocupava com tais minúcias, quando lia os casos do dia no jornal, e agora que era por sua vez protagonista, apercebia-se da multiplicidade destas pequenas consequências.

Mas qual é o valor

de um seguro de vida quando o cliente é perseguido por

homicídio?

- Está bom? - veio perguntar-lhe o chefe de mesa, a quem

encomendara uma carne mal passada.

Por exemplo, tinha um seguro de vida

-

Está óptimo! - retorquiu ele com convicção.

O

único óbice é que estava em má posição para ler os jornais

enquanto comia, além de achar os bolos muito menos saborosos

que na Holanda. Apreciava-os mais açucarados. De igual modo, costumava beber o café com natas batidas e açúcar aromatizado com baunilha, o que o chefe de mesa não compreendeu. Quem ficara verdadeiramente embasbacada fora Jeanne Rozier!

A

prova é que se ocupava dele, quando afinal nada lhe pedira.

O

que podia ela pensar ao certo? Que ele tinha um sangue-frio

excepcional, evidentemente! Ele próprio assim pensava. Para dar a si mesmo uma nova prova, foi perguntar a um agente, à esquina do boulevard des Capucines, o caminho para a rue de Douai. Aqui, numa dependência de canto, havia o balcão e a tabacaria, depois, atrás de uma divisória envidraçada, um

pequeno café mobilado com oito mesas. Kees Popinga instalou-se no café e teve a sorte de encontrar um cantinho livre, junto ao vidro. Lá fora, avistavam-se os letreiros luminosos das casas de divertimentos nocturnos que começavam a acender-se, mas os porteiros e os bailarinos profissionais ainda estavam no bar a conversar sobre os seus assuntos particulares. A um canto, defronte dele, uma vendedeira de flores aguardava, com

o cesto pousado a seu lado, bebendo um café e um cálice de rum.

- Faz favor, também quero um café!

56 - 57

Ele estava um pouco desiludido com esta estranha noite de Natal que começava ao seu redor e que não era uma verdadeira noite de Natal, mas uma espécie de bródio desordenado. Às nove horas da noite, já se via gente embriagada e ninguém falava da missa do galo!

(Do nosso enviado especial a Groninga.) Enquanto os nossos

serviços de Amesterdão prosseguiam o seu inquérito no Carlton, onde a infeliz Pamela encontrou a morte dirigíamo-nos à pressa

a Groninga, a fim de nos informarmos sobre a personalidade de Kees Popinga, o assassino da bailarina

Kees suspirou, como suspirava quando um dos empregados de Julius de Coster cometia um erro imperdoável, e sacou o canhenho vermelho do bolso, anotou a data, o nome do jornal, observando em seguida:

Assassino não: homicida. Não perder de vista que a morte foi acidental.

Deitou uma olhadela à vendedeira de flores que dormitava enquanto aguardava a saída dos teatros e continuou a sua leitura.

Foi grande o nosso espanto - dizia o jornal -, ao sabermos que Kees Popinga era um homem muito respeitado e que a notícia causou sincera consternação na cidade onde toda a gente se perde em conjecturas

Ele sublinhou a palavra conjecturas com um traço a lápis, pois achava-a pretensiosa.

No domicílio de Popinga, onde a dor da sua família faz dó, a senhora Popinga não quis deixar de nos declarar

Pausadamente, entre duas fumaças do seu charuto, ele anotou na agenda:

A mamã sempre recebeu os jornalistas!

E sorriu-se, porque a cabeça da vendedeira de flores acabava de lhe cair de repente para o peito.

declarou-nos que só um ataque de loucura súbita, um momento de amnésia, poderia explicar o gesto de

Ele achou engraçado sublinhar também a palavra gesto, sobretudo se a mamã a pronunciara realmente. Depois escolheu uma página branca do canhenho a fim de lá escrever:

Opinião da senhora Popinga: loucura ou amnésia.

Ela não iria ser a única neste caso. Um jovem amanuense da firma Julius, um rapaz de dezassete anos, que ele próprio contratara, declarava com veemência:

Eu já notara que, por momentos, os seus olhos brilhavam de um modo estranho

Quanto a Claes, explicava complacentemente:

É evidente que só podemos explicar o gesto de Popinga por um acesso de loucura. Quanto a saber se ele tinha predisposição para isso, o segredo profissional não me permite

Logo, loucura sem tirar nem pôr! Até ao momento em que se reparava que ele talvez tivesse morto Julius de Coster antes de matar Pamela. Pois a partir daí, o velho Copenghem confessava ao jornalista:

É-me penoso dizer mal de um homem que foi membro do nosso Círculo, mas o certo é que, para um observador imparcial, Kees Popinga nunca passou de uma pessoa azeda, não admitindo qualquer superioridade em nenhum domínio e ruminando projectos de vingança.

58 - 59

O facto de este complexo de inferioridade se ter tornado numa ideia fixa explicar-nos-á o acontecimento que

Popinga anotou na sua agenda, ao lado do nome de Copenghem:

"Complexo de inferioridade". Depois, numa escrita mais densa:

"Só me ganhou uma vez ao xadrez, de surpresa. Portanto!".

Às dez horas, ele já não se apercebia de que não havia um único lugar livre no café e de que o empurravam cada vez mais para a ponta do banco. De vez em quando, erguia os olhos dos jornais ou da agenda, contemplava um rosto estranho, franzia as sobrancelhas, depois não pensava mais nisso. Assim fez ao verificar que havia quatro ou cinco negros na assistência. A florista ainda ali estava. Quanto ao mais, indivíduos de casaca, ao lado de indivíduos muito mal vestidos.

Ele não sabia que estava nos bastidores de Montmartre, em companhia dos figurantes e dos actores com pequenos papéis, ao passo que a festa ia começar em todos os estabelecimentos do bairro.

O empregado da estação de Groninga recorda-se de um homem bastante agitado que

Escreveu com irritação: "Não é verdade". Que falassem de loucura, de complexo de inferioridade, ainda vá lá, mas afirmar, só porque algumas horas mais tarde iria matar Pamela sem querer, que ele estava agitado ao sair de Groninga Estava porventura agitado, agora, apesar das duas chávenas de café que acabava de beber? Mas o cúmulo era o porteiro do hotel, em Amesterdão, que Popinga teria de bom grado esbofeteado.

Mal chegou, notei que ele não estava no seu estado normal e pensei em avisar a menina Pamela

60

Kees anotou: "Por que o não fez?"

- Ao descer - prosseguia o porteiro -, ele tinha a fácies de um animal acossado, e

E Popinga escreveu, "sarcástico: "Perguntar-Lhe o que quer dizer fácies!" Levantou então a cabeça, pois estava alguém de pé na sua frente a mirá-lo de alto a baixo. Era um homem novo, de smoking. Atrás dele via-se Jeanne Rozier que murmurou:

- O meu amigo, Louis!

Deixo-vos sozinhos

- Importa-se de vir comigo um bocadinho? - disse Louis, de

mãos nos bolsos, cigarro nos lábios. - Deixe isso tudo aí! Desçamos Era na direcção dos lavabos, na cave, que ele arrastava o seu companheiro, e, chegado lá, examinava-o dos pés à cabeça

resmoneando:

Passei uma vista de olhos

Ouça lá, dão-lhe muitas vezes na gana essas

- Jeanne contou-me a história

pelos jornais

fantasias? Popinga sorriu. Pela maneira como o seu companheiro o encarava, de olhos nos olhos, com uma pontinha de ironia, ele sentia que este não falaria de loucura nem de complexo de inferioridade.

- Foi a primeira vez! - respondeu ele reprimindo uma vontade de sorrir.

- E o outro, o velho?

- Eles não perceberam nada. Julius de Coster, que fez uns

maus negócios, partiu deixando crer que se suicidara. Foi mesmo por causa disso que eu, que era

- Basta! Agora não tenho tempo. Sabe guiar?

- Automóvel? Claro que sim!

- Em suma, se bem compreendi o que Jeanne me explicou,

aquilo de que você precisa é de um refúgio, enquanto espera que Lhe arranjem papéis

61

Tirou o charuto dos lábios de Popinga para nele acender o seu cigarro e decidiu, desenvolto:

- Veremos isso mais logo!

Fique lá em cima à espera. Nós

vamos cear com um grupo ali defronte Era quase meia-noite. A vendedeira de flores desaparecera, dois dos negros também. De quando em quando, um porteiro de

cabaré entrava na companhia de um motorista de táxi ou de uma outra personagem, tratava de um assunto com ele, bebia um copo

e ia retomar o seu lugar no outro passeio. Nunca Popinga imaginara um Natal tão pífio e, ao bater da meia-noite, aguardou em vão repiques de sinos. Apenas se viu um bêbedo levantar-se para entoar um Meia-noite cristãos do qual só conhecia metade da primeira estrofe. O dono decidiu-se então a rodar o botão da telefonia e alguns instantes mais tarde, de uma só vez, o café encheu-se do rumor dos órgãos, de vozes de homens e de crianças que clamavam um canto litúrgico. Kees dobrou os jornais, pediu outro café, pois já não Lhe apetecia mais álcool. Aguardava o Dominus vobiscum do padre virando-se para os fiéis. Uma mulherzinha mal vestida, ali à sua frente, estava muito pálida, mas devia ser de frio, pois voltava todas as horas, transida, sem dúvida por ter calcorreado o passeio.

E os automóveis que não cessavam de parar diante das

Os três negros que discutiam apaixonadamente

boites

Acerca de quê?

O mais extraordinário é que a esta mesma hora, em toda a

terra, dentro de todas as igrejas Popinga imaginava o mundo como o veria de um avião, se o

avião pudesse ir suficientemente depressa e subir suficientemente alto: uma imensa bola, branca de neve, com cidades, aldeias fixadas aqui e além pelas igrejas cujos

campanários eram como pregos gigantescos

igrejas, luzes, incenso, fiéis silenciosos contemplando um presépio Ora, não era verdade! Primeiro, na Europa central, a missa do galo terminara, pois aí já era uma hora. Na América, ainda era dia claro! E por toda a parte, fora das igrejas, havia negros que falavam dos seus assuntos, raparigas que procuravam reconforto num café com um cheirinho a bagaço depois de terem andado no giro enquanto porteiros de cabaré Doravante, ele já não ia no engano. Não tinha a mínima vontade de trautear, com a rádio, e aliás, o dono, que julgara

agradar aos clientes, ou que era um antigo menino de coro, foi obrigado a apagar a telefonia, pois o barulho era ensurdecedor

E em todas estas

e

havia gente que protestava. De repente, distinguiram-se de novo as vozes dos fregueses,

e

o

fumo dos cigarros formava um tecto azul, dois metros

abaixo do tecto branco, ao passo que diante de Popinga um

jovem metido num smoking acanhado, sentado sozinho em frente de um copo de água mineral, levava pó branco ao nariz. Por que motivo Lhe tinham perguntado se sabia guiar? E o que diriam todas aquelas personagens que o rodeavam se ele se levantasse bruscamente para declarar:

- Sou eu, Kees Popinga, o sátiro de Amesterdão!

Em verdade, um jornal francês da tarde chamava-Lhe assim, com todas as letras! Às duas horas da madrugada, ele ainda ali estava, no mesmo

lugar, e o empregado, que começava a conhecê-lo, dirigia-lhe pequenos sinais ao passar. Já não sabia o que havia de beber. Fez como o jovem sentado à sua frente: mandou vir água mineral. Depois, numa altura em que toda a gente se levantava, foi ele o único a permanecer sentado. Rebentara uma zaragata no bar. Ouviam-se pessoas a berrar. Alguém brandia um sifão que foi espatifar-se em cima de uma mesa e logo a seguir um cacho humano saía da sala, irrompia no passeio onde se via agitar uma massa confusa. Ressoou algures um apito. Popinga, sem se perturbar, pegou nos seus jornais, desceu aos lavabos e fechou-se numa das retretes onde, maquinalmente, leu um artigo qualquer, sobre a expansão económica da Holanda durante o século XvIII. Quando voltou a subir, um quarto de hora depois, tudo estava calmo e já não havia pedaços de sifão no chão. Alguns fregueses manquejavam. O empregado aproximou-se, familiar, piscou-lhe um olho, pois notara o prudente eclipse do seu cliente.

- Prenderam muitos? - perguntou Popinga.

62 - 63

- Sabe, na noite de Natal, eles não são muito severos. Levaram dois à esquadra, mas soltá-los-ão de amanhã Jeanne Rozier entrava, em traje de noite, perfumada, a carnação animada e húmida, como alguém que acaba de dançar muito. Vinha fazer uma pequena visita, como vizinha, e só pusera um casaco por cima dos ombros nus.

- Não teve problemas? Disseram-me que houve um pé-de-vento.

- Oh, não! Quase nada!

- Julgo que o Louis vai ocupar-se de si. Não parece muito

decidido, mas ele é sempre assim. Sobretudo, não se vá embora antes de eu voltar! Nem imagina o calor que faz lá dentro! Não

temos espaço sequer para manejar o garfo Dava a impressão de o tomar sob a sua protecção, mas ao

mesmo tempo olhava-o sempre com uma certa ansiedade, como se ele a transtornasse.

- Não está muito aborrecido?

- Nadinha.

Só quando ela partiu é que ele reparou que já não o tratava por tu e ficou satisfeito. Esta compreendera! Não era uma

idiota como Pamela, que só sabia desatar num riso sem espírito. Tirou a sua agenda do bolso. Escreveu na página onde se alinhavam as opiniões da mamã, do empregado da estação, de Copenghem, do porteiro e de outros: "Jeanne Rozier não me considera certamente um louco!"

Uma mulherzinha como a que já entrara várias vezes perguntou-lhe se lhe oferecia um copo e ele estendeu-Lhe cinco francos, fazendo-a compreender que nada mais havia a esperar dali. Dobrara os seus jornais com cuidado. Aguardava. Por duas vezes, pensou no estranho olhar de Frida e perguntou a si mesmo o que viria ela a ser na vida. Tinha muito calor, mas conservava a sensação de que nunca a sua cabeça estivera tão fria, o seu espírito tão lúcido. Iria

a senhora Popinga pôr em prática o seu projecto de economato

num hotel das Índias neerlandesas? Ocorreu-lhe a ideia de enviar ao Morning Post, endereçado a de Coster, um pequeno anúncio dizendo simplesmente: "Como está?". Podia permitir-se tudo! Podia ser tudo o que queria, agora

que renunciara a ser a todo o custo, para toda a gente, Kees Popinga, procurador!

E pensar que tivera durante tanto tempo um trabalho dos

diabos para que a personagem fosse perfeita, para que, aos

olhos dos mais exigentes, não houvesse um só pormenor escandaloso! O que não impedia Copenghem de declarar aos repórteres Poderia, nesse mesmo instante, encomendar uma garrafa

inteira de genebra ou de conhaque!

a quem dera cinco francos! Poderia pedir um pouco de cocaína

ao jovem enervado! Poderia

Poderia ir com a rameira

- Eh! traga-me mais água mineral!

Por protesto contra tudo o que podia fazer. E também porque estava bem assim, muito bem, de uma lucidez inebriante. Estava mesmo persuadido de que só dependia de si que Jeanne Rozier se apaixonasse a despeito do seu chulo Foi ela que veio, um pouco alegrota, cerca das quatro horas da madrugada. Pareceu surpreendida de o encontrar ali,

admirou:

- Não Lhe falta constância, hem!

Depois, noutro tom:

- Louis e os outros não têm muita confiança. Fiz tudo o que

pude. Eis o que consegui: dentro de alguns minutos, eles sairão do cabaré e levarão dois carros. Desembestarão sem parar até à porte d'Italie. Conhece?

- Não!

- Tanto pior. Nesse caso não tem hipótese de se sair bem.

Eles querem que leve igualmente um carro. Na porte d'Italie,

esperarão uns instantes e, logo que chegue, você fará sinal com os faróis para os avisar. Depois, só tem que os seguir.

- Um momento! A porte d'Italie fica à esquerda ou à direita?

- Nem à esquerda nem à direita, tem-se que atravessar Paris de uma ponta à outra

- Não faz mal. perguntarei aos polícias.

- Está doido, ou então não compreendeu! Trata-se de levar um carro, um dos carros pertencentes às pessoas que ceiam num cabaré

65

- Compreendo muito bem. Justamente, é preferível perguntar

aos agentes, para Lhes inspirar confiança.

- Experimente! Previno-o de que Louis e os amigos dele não

Só mais uma coisa;, eles não

esperarão muito tempo por si

querem um automóvel de luxo. Tem de ser um carro de marca corrente.

Estava sentada ali ao lado e, por instantes, ele lamentou não se ter aproveitado dela quando o ensejo se Lhe deparara. Como é que não se apercebera de que ela valia a pena?

- Quando é que voltamos a ver-nos? - perguntou ele mais baixo.

- Não sei

Isso dependerá de Louis

Atenção!

Lá vêm

eles a sair Ele pagou a despesa, vestiu o sobretudo, enrolou os jornais para os meter na algibeira. Dois carros partiram quase ao mesmo tempo da impressionante fila que atravancava a rua toda.

-

Não me diz adeus?

 

-

Sim

Gosto muito de si

É uma boa mulher

E

ao chegar lá fora, sentindo que ela o observava através do

vidro, caminhou ao longo do passeio, como um homem que não

pensa em mais nada senão em voltar a casa, espreitou dois ou três carros, penetrou no quarto e ligou o motor.

O automóvel partiu devagarinho, afastou-se do passeio,

seguiu por momentos uma avantajada limusina onde se lobrigavam

várias mulheres e, quando Popinga quis voltar-se para dirigir um sinal de adeus a Jeanne Rozier, já não se via o café com tabacaria da rue de Douai, onde acabava de passar a sua consoada de Natal.

66

V

Onde Popinga fica desiludido perante um Popinga de camisola e fato-macaco andando às voltas numa garagem

e Onde ele manifeSta Uma veZ mais

a sua independência

Pouco passava das dez horas da manhã. A porteira só agora acabara de se levantar e o correio ainda estava empilhado a um canto do cubículo, ao lado da garrafa de leite e do pão de luxo. As ruas achavam-se vazias, do desesperante vazio dos dias que se seguem às festas; os próprios táxis não se encontravam no seu lugar e não se via passar senão alguns fiéis que se dirigiam à missa e cujo nariz estava avermelhado pelo frio.

- O que é? - indagou Jeanne Rozier numa voz pastosa, depois de ter distinguido durante vários minutos um ruído sem estabelecer uma relação entre este ruído e a porta do seu apartamento.

- Polícia!

A palavra despertou-a de todo e, procurando as pantufas com

a ponta dos dedos dos pés, resmungou:

- Espere um instantinho

Estava em sua casa, na rue Fromentin. Dormira sozinha e o seu vestido de seda verde estava pendurado numa cadeira, as suas meias aos pés da cama; ela conservara a sua camisa de dia, por cima da qual pôs um penteador antes de ir abrir a porta.

- O que deseja?

Conhecia vagamente de vista o inspector. Ele entrou no

quarto, tirou o chapéu, accionou o interruptor e contentou-se em declarar:

- É o comissário Lucas que precisa de falar consigo. Tenho ordem para a levar ao Quai.

- Então ele trabalha nos dias de festa?

67

Talvez Jeanne Rozier fosse mais bela assim, no desalinho de quem salta da cama, do que depois de vestida. O seu cabelo ruivo caía-Lhe em parte sobre o rosto e os seus olhos maquilhados exprimiam uma desconfiança animal. Começara a vestir-se, sem se preocupar com o inspector que fumava um cigarro e não a perdia de vista.

- Como é que está o tempo? - perguntou ela.

- Faz um frio de rachar.

Ela contentou-se com uma maquilhagem sumária. Já na rua,

indagou:

- Não tem um táxi à espera?

- Não! Não me deram instruções para isso.

- Então sou eu que pago. Não me apetece atravessar meio

Paris de autocarro! Quando chegaram ao Quai des Orfevres, onde os corredores e a maioria dos gabinetes estavam vazios, ela examinara uma a uma, sem o deixar transparecer, todas as hipóteses imagináveis e estava pronta para responder a qualquer pergunta do comissário. Este, por princípio, fê-la esperar um bom quarto de hora no corredor, mas Jeanne Rozier estava demasiado habituada à casa

para manifestar a mínima impaciência.

Desculpe tê-la feito levantar tão

cedo Ela sentou-se ao lado da secretária de mogno, pousou aí a carteira, olhou para o comissário Lucas, que era careca e paternal.

- Há muito tempo que não vem aqui, pois não? Vejamos, a

última vez, se bem me recordo, foi há três anos, por causa de

uma história de estupefacientes. Ouça lá! Parece que já não está com o Louis

As duas primeiras frases eram só parlapatório, para criar a atmosfera, mas Jeanne estremeceu à terceira, respondendo no entanto:

- Entre, minha filha

- Quem Lhe disse uma coisa dessas?

- Já não sei ao certo. Esta noite, quando estava a consoar

em Montmartre, alguém me contou que você anda agora com um

estrangeiro, um alemão ou um inglês

- Essa é boa!

- Foi aliás o que me levou a pedir-lhe para vir cá. Ficava muito desgostoso se Lhe acontecesse alguma contrariedade

Ao ouvi-los, julgar-se-ia estar na presença de bons compinchas. O comissário passeava de trás para diante, com os dedos nas cavas do colete. Oferecera um cigarro à sua visita, que fumava de pernas cruzadas bem alto, o olhar fixo numa margem deserta do Sena, no extremo de uma ponte onde passavam autocarros.

- Julgo saber aquilo a que se refere - murmurou ela após um

momento de reflexão. - Aposto que está a falar do cliente de anteontem E Lucas fingiu admirar-se.

- Ah! era um cliente? A mim, disseram-me

- Não podem ter-Lhe dito outra coisa. Se alguém lhe falou

nisto, foi com certeza o Freddy, o chefe de mesa do Picratts. Iam fechar quando chegou o holandês, com ar de quem quer absolutamente divertir-se. Convidou-me para a sua mesa, mandou

vir champanhe, depois, na altura de pagar, pediu para lhe trocarem florins. Fomos à rue Victor-Massé, onde vou sempre,

porque é asseado

Deitámo-nos. Ele nem sequer me tocou

- Porquê?

- Como é que hei-de saber? De manhã, estava farta de dormir com aquele bucha cheio de banhas e fui-me embora

- Com o dinheiro dele?

- Não. Acordei-o e ele deu-me mil francos.

- Por não ter feito nada?

- A culpa não foi minha!

- E voltou para casa? Encontrou o Louis

Ela fez que sim com a cabeça.

- A propósito, o que é feito do Louis? É verdade que ele não estava lá esta manhã?

Então, os olhos de Jeanne Rozier lançaram uma chispa.

- Agradecia-lhe que me dissesse onde ele está! - rosnou ela.

- Voltaram a não passar esta noite juntos?

- Justamente! Estávamos a consoar com uns amigos,

lindamente

que ele desandou sem dizer água vai e que eu fui para casa

deitar-me

Não sei que pega lhe fez olhinhos, o que sei é

68 - 69

- Ele trabalha muito?

Ela desatou num riso duro.

- Por que havia de trabalhar? Acha que necessitaria de mim,

se trabalhasse? Lucas sorria. Jeanne Rozier suspirava com ar de perguntar se

ainda faltava muito. Ambos desempenhavam o melhor possível o seu papel e cada qual ficava com as suas suspeitas e os seus pensamentos reservados.

- Posso ir outra vez para a cama?

- Ora essa, claro que sim

encontrar, novamente o seu holandês

Ouça lá! Se por acaso

- Começarei por Lhe dar um sopapo! - declarou ela. - Detesto

os viciosos

interroga há um quarto de hora

Se julga que não sei por que motivo me

Eu também li os jornais!

Quando penso que poderia ter tido a mesma sorte que essa

bailarina de Amesterdão

- Reconheceu-o pela fotografia?

- Mentiria se dissesse que sim

foto

Mas mesmo assim adivinhei

Ele não se parece com a

- Ele não lhe disse nada? Não lhe deu nenhuma indicação

sobre o que planeava fazer?

- Perguntou-me se eu conhecia o Sul

Julgo que também

falou de Nice Estava de pé. O comissário agradecia-lhe e um quarto de hora

mais tarde Jeanne Rozier entrava de novo em casa, onde, em vez de tornar a deitar-se, tomava um banho quente, após o que se vestia bastante simplesmente. Era quase meio-dia quando ela penetrou no Mélie, o restaurante de frequentadores habituais na rue Blanche, onde se sentou à mesa e pediu um porto, pois não tinha fome.

- O Louis? - perguntou-Lhe o empregado, como se a palavra valesse por uma frase inteira.

- Não sei

Às três horas, ainda não viera. Jeanne Rozier deixou um

Suponho que deve estar a chegar

recado para ele e foi a um cinema do bairro onde, já por volta das cinco horas, alguém se sentou a seu lado. Era ele!

- Chegas tarde - murmurou ela.

- Tive de ir até Poitiers.

- Olha lá! Precisamos de conversar curiosos atrás de nós

Saíram do cinema e alcançaram uma cervejaria da place Blanche, que estava cheia de gente.

Cuidado!, pode haver

- Fizeram-me ir ao Quai des Orfevres, esta manhã

Lucas

Aquele que dá sempre a impressão de nos tratar como sua

própria filha e que é mais velhaco do que todos os outros

juntos

Onde deixaste o nosso papalvo?

- Em casa de Goin

É um tipo esquisito

Fernand, que

estava no primeiro chaço comigo, afirmava que ele nunca

chegaria à place d'Italie com um automóvel

chegou! Ainda lá estávamos nós próprios há pouco tempo, quando

vemos um automóvel a fazer-nos sinal

mecha para Juvisy

atrás de nós, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida

Pois bem,

Seguimos a toda a

Entramos na garagem e ele entra também

- O que disse ele?

- Nada!

Goin estava à espera, com o seu mecânico

Metemos todos mãos à obra e uma hora depois tínhamos

terminado

amanhecera e já partíamos com os três carros, em direcções diferentes, excepto o teu holandês que vai ficar lá até eu ver

o que podemos extorquir-lhe

reserva em qualquer sítio

- É conveniente pormo-nos a pau. A polícia sabe que passei

uma noite com ele. Se o Lucas me mandou ir lá num dia como

hoje, às dez da manhã, é porque anda a tramar alguma.

- Que pouca sorte! - resmungou Louis. - É melhor eu telefonar ao Goin a contar isso.

Rose preparou-nos café quente

Ainda não

Deve ter posto dinheiro de

- E se eles escutam a tua chamada?

Formavam, ali à mesa, um par jovem, elegante. Os seus rostos não traíam nenhum dos seus sentimentos.

- Havemos de encontrar outra coisa - disse Jeanne Rozier com

ar de querer pôr ponto final no assunto. - Falarei contigo amanhã. Esta noite, mais valia que fosses a algum lado onde reparem em ti, a um combate de boxe, ao velódromo, eu sei

- Entendido! Jantamos juntos?

- Não! Disse-lhes que andavas a pôr-me os palitos com uma amiga. Devias tentar arranjar uma

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Dizendo isto, enquanto olhava para outro lado, ela beliscava-lhe a coxa, e acrescentava:

- Simplesmente, não te atrevas a tocar-Lhe! Senão

Por que razão se havia de espantar Kees, quando a verdade é que ele ouvira as confidências de Julius de Coster no Pequeno São Jorge e deliberara que tudo aquilo em que acreditara até então não existia?

Outrora, não teria notado que não era uma garagem como as outras. Agora, pelo contrário, compreendia que uma autêntica garagem não se instala a cem metros da estrada nacional; numa via que não conduz a sítio algum, com duas bombas de gasolina não iluminadas e portas que se abrem por si mesmas desde que se buzine de uma determinada maneira. Ele notara também que, numa espécie de baldio, havia pelo menos uma dúzia de automóveis em pedaços, não carros velhos, mas automóveis bastante novos que tinham sofrido acidentes, incluindo um que ardera em parte. Tivera tempo, à luz dos faróis, de ler a tabuleta: "Goin e Boret. - Especialistas em

electricidade de automóveis

Enfim, assistira, fumando um charuto, à cena que se seguira à sua chegada. Estavam dois homens à espera, um alto e gordo, que era Goin, e um fedelho que não devia ser Boret e a quem toda a gente chamava Kiki. Goin envergava um fato-macaco castanho, com chaves inglesas que Lhe saíam dos bolsos. Limitara-se a apertar a mão de Louis antes de se lançar ao trabalho. Sentia-se que estavam todos habituados à manobra. O segundo

carro era conduzido por um rapaz simpático, cujo nome Kees não ouviu e que vestia smoking, como Louis e Fernand. Para além de uma camioneta e de algumas ferramentas, a garagem, com chão de terra batida, estava vazia, as paredes eram caiadas, vendo-se um enorme calorífero a um canto e duas fortes lâmpadas eléctricas que emitiam raios intensos. Enquanto os outros trabalhavam, Louis tirava uma mala da camioneta, punha-se seminu e, tranquilamente, tal como um actor muda de traje atrás de um cenário, ataviava-se com um fato castanho, dava o nó a uma gravata amarela, enfiando por cima de tudo isto um fato-macaco para dar uma ajuda aos ócios. Fernand e o jovem faziam o mesmo, ao passo que Goin manejava um maçarico e Kiki desaparafusava as chapas de matrícula dos carros.

".

- Rose não está cá? - pergunta Louis.

- Ela já desce. Toquei assim que vos ouvi.

E Kees descobria um botão de campainha, junto de uma porta interior que devia comunicar com a residência. Efectivamente, alguns minutos depois, uma mulher ainda jovem, mal acordada, vestida à pressa, penetrava na garagem e cumprimentava toda a

gente, com grande camaradagem, incluindo Popinga que ela observava no entanto com uma pontinha de assombro.

- Ena! Três caranguejolas! Não é nada mau! Vê-se que é

Natal

- Vai lá preparar-nos café, mexe-te! Comes alguma coisa,

Louis?

- Obrigado! Ainda tenho um peru no estômago

Ninguém se preocupava com o que se passava lá fora. Sentiam-se em segurança. Entre duas voltas de chave inglesa, trocavam uns com os outros informações e pilhérias.

- A Jeanne está boa?

- Foi ela que desencantou o nosso amigo, que tu irás guardar

aqui até nova ordem. Cuidado! Ele meteu-se numa grande alhada,

e se o prendessem Ao cabo de uma hora, as chapas de matrícula estavam mudadas, bem como os números dos motores e dos chassis. Havia uma cozinha atrás da garagem, bastante limpa, verdade se diga, onde Rose serviu café, pão, manteiga e salpicão.

- Você - disse Louis a Kees, ao mesmo tempo que bebia o seu

café a ferver aos golinhos -, você vai alapar-se aqui e fazer tudo o que Goin Lhe disser. Enquanto não tiver papéis, é

melhor não dar nas vistas! Na próxima semana, trataremos de o

fazer sair daqui

Entendido?

- Entendi muito bem! - declarou Popinga com satisfação.

- E nós, damos o fora? Fernand segue pela estrada de

Reims

Tu contornas Paris e tentas vender o chaço em Ruão

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Eu cá, vou na direcção de Orleães

Até logo à noite,

meninos!

Kees começou por achar divertido ficar nesta nova atmosfera, com pessoas que não conhecia. Concluído o trabalho, Goin, que media um metro e oitenta e tal e era mais corpulento que o comandante do Oceano III, beberricava o seu café enrolando com desvelo uma mortalha cheia de tabaco, ao passo que Rose

cismava, com os cotovelos firmados na mesa.

Até logo, minha linda Rose!

- És estrangeiro?

- Holandês.

- Então, se não quiseres que te encontrem, é preferível

dizer que és inglês. Há alguns aqui na zona. Falas inglês, ao menos? Os chuis têm a tua identificação.

Enquanto Kees tomava mais café com muito leite, Goin subia ao andar de cima, trazia de lá umas velhas calças azuis e um fato-macaco igual ao seu, assim como uma grossa camisola cinzenta.

- Toma! Experimenta

Isto deve servir-te

Rose vai

fazer-te uma cama no gabinete que fica atrás do nosso

quarto

possível enquanto esperas Rose subiu por seu turno, sem dúvida para Lhe arranjar a cama. Goin, que tinha sono, semicerrou os olhos e permaneceu

imóvel, de pernas estendidas, até se ouvir uma voz que gritava lá de cima:

Se bem compreendi, é melhor choinares o mais

- Está pronto!

- Vai-te deitar

Ouviste?

Boa-noite

A escada era escura e estreita. Kees teve que atravessar o

quarto de Goin e de Rose, que estava desarrumado, e deu consigo num quarto mais pequeno onde havia uma cama de campanha, uma mesa, um espelho rachado na parede.

- Para se lavar, basta-lhe ir à torneira que está no

É que ouvirá apitar os

comboios de dia e de noite

mercadorias Ele fechou a porta e foi encostar o rosto à vidraça, entrevendo, na meia-luz, carris até ao infinito, vagões, comboios inteiros, dez locomotivas pelo menos, que desenhavam imaculadOs penachos contra o céu pardacento. Sorriu, estirou-se, sentou-se em cima da cama e, um quarto de hora mais tarde, dormia profundamente, todo vestido. Ainda dormia quando Jeanne Rozier foi chamada à Polícia Judiciária. Continuava a dormir quando ela abancou no Mélie e quando, por volta das duas horas, Rose veio entreabrir a porta, espantada de um tão longo silêncio. Só se levantou às três horas e vestiu as suas novas roupas,

corredor

O ruído não o incomoda?

Aqui ao lado fica a estação de

que o faziam parecer mais encorpado, desceu às apalpadelas a escada sem iluminação e, na cozinha, encontrou um talher posto na ponta da mesa.

- Gosta de coelho?

- Se gosto!

Gostava de tudo, de tudo o que se come.

- Onde está o seu marido?

- Não é meu marido. É meu irmão. Foi a um desafio de

futebol, a quinze quilómetros daqui.

- Os outros ainda não voltaram?

- Eles nunca tornam a passar por aqui.

- E Jeanne Rozier? Vem cá algumas vezes?

- O que é que ela vinha fazer? É a mulher do patrão!

Tinha muita vontade de voltar a ver Jeanne, sem saber ao

certo porquê. Aborrecia-o ver-se assim separado dela e não parava de pensar nisto ao comer o coelho e ao molhar o pão no molho espesso.

- Posso ir dar um giro?

- Charles não me disse nada.

- Quem é Charles?

- O meu irmão! Goin, se preferir

Estranha mulher, que parecia mais uma criada do que outra coisa. A sua tez era pálida, quase lunar, e punha demasiado baton nos lábios, usava uma saia de seda cor de laranja que

não Lhe assentava bem e saltos altos em demasia.

- Fica toda a tarde na garagem?

- Alguém tem de ficar. Logo à noite, vou ao baile.

Ele preferiu sair. Encontrou-se nas ruas de Juvisy, onde

nesse dia só passava gente endomingada.

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Com a sua camisola e as calças de Goin, passeou de mãos nos bolsos e ocorreu-lhe a ideia de comprar um cachimbo. Só os havia muito ordinários, mas comprou um, atulhou-o de tabaco cinzento e entrou um pouco mais tarde num café onde alguns clientes jogavam ao bilhar russo.

Foi aí que descobriu um caça-níqueis complicado, onde se metia um franco e onde rodavam uns discos, parando em frutos variados, formando combinações que davam direito a dois, quatro, oito ou dezasseis francos, ou mesmo a tudo o que havia dentro do aparelho.

- Importa-se de me dar cinquenta moedas de um franco? -

pediu ele. Meia hora mais tarde, pedia outras cinquenta, pois estava deveras apaixonado por aquele jogo. Observavam-no. Vinham vê-lo jogar. Ele sacara a sua agenda vermelha do bolso e marcava todos os lances.

Às cinco horas, numa altura em que o ar estava azul de tanto fumo, ele ainda jogava, sem se inquietar com o que se passava à sua volta, pois começava a compreender.

- Em resumo - disse ele ao dono -, uma de cada duas moedas

cai numa casa especial, que é o lucro do proprietário.

- Não sei. Não é para nós. São indivíduos que instalam isto no nosso estabelecimento e vêm buscar a receita.

- De quanto em quanto tempo?

- Mais ou menos todas as semanas. Depende.

- E quanto ganham eles?

- Não faço ideia.

Trocavam-se piscadelas na assistência ao vê-lo entregar-se a cálculos complicados e jogar sem a mínima alteração das feições do seu rosto. Quando caíam oito ou doze francos, ele recolhia-os sem pestanejar, inscrevia um número, continuava Entre os clientes, havia sobretudo ferroviários e Kees, sem

cessar de jogar, perguntou a um deles:

- A estação daqui é muito grande?

- É a mais importante estação de mercadorias de Paris. É

nela que se faz a triagem dos vagões

jogar, perderá aquilo que quiser

- Eu sei.

- E mesmo assim joga?

Sabe, se continuar a

Tivera que abandonar o cachimbo, que o incomodava. Comprara charutos. Bebeu um aperitivo cujo nome não conhecia, mas que via a maioria dos clientes beber e cuja cor lhe agradava.

Era um estranho Natal, sem sombra de dúvida! Ninguém parecia cuidar das cerimónias religiosas e não se ouvia o mais pequeno sino, A uma mesa, algumas pessoas jogavam às cartas. Havia uma família inteira, pai, mãe e dois filhos. O pai jogava com amigos e os outros três olhavam, as crianças bebiam de vez em quando um gole do que tinham no copo. Popinga terminara os cálculos. Cheio de importância, aproximou-se do balcão e declarou ao dono:

- Sabe quanto rende uma máquina destas? Pelo menos cem

francos por dia. Suponho que ela custa cinco mil francos

- E se o bolo nos vier parar às mãos? - objectou alguém.

- Não interessa! Vou explicar-Lhe

Duas páginas do seu canhenho estavam cobertas de equações.

Escutavam-no sem compreender. Quando ele abalou, alguém perguntou:

- Quem é?

- Não sei. Dir-se-ia um estrangeiro

- Onde trabalha ele?

- Também não sei! Deixou duzentos francos na máquina! Que

tipo tão esquisito

- Não acham que ele tem um ar um bocado amalucado?

E um ferroviário concluiu:

- Os estrangeiros são todos iguais. É por causa de não os

compreendermos.:. Goin regressou do desafio e Rose foi dançar. Fechou-se a garagem. Goin, de pantufas, desdobrou um jornal, na cozinha, fez um cigarro e pareceu, assim, o mais calmo e o mais feliz dos homens, ao passo que Kees registava algumas palavras no seu canhenho.

Lucro dos três carros: trinta mil francos no mínimo. Repetindo todas as semanas, o que é fácil, isto dá por ano

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Em seguida, por baixo:

Gostava de tornar a ver Jeanne Rozier e de saber por que motivo ela me fez vir para aqui.

Depois foi dormir, não sem contemplar demoradamente os carris na noite, os sinais luminosos verdes e vermelhos, os escuros comboios que passavam; mas era em Jeanne Rozier que ele pensava sem descanso e, coisa curiosa, evocava com deleite imagens de intimidade que, no próprio momento, o tinham deixado indiferente. No dia seguinte, levantou-se às dez horas da manhã e viu que havia uma delgada camada de neve, não na estrada, onde ela se derretera, mas nos taludes e entre as vias férreas. Encontrou Rose em traje caseiro, na cozinha, perguntou-Lhe onde se achava o irmão.

- Foi a Paris.

Na garagem só estava Kiki, que reparava um gravador deitando

a língua de fora como um aluno aplicado.

- Também me apetece ir a Paris, - disse ele a Rose.

- O meu irmão disse-me que não o deixasse sair. Parece que compreenderá a razão se ler o jornal desta manhã

- O que é que lá diz?

- Não sei. Não li.

Sentia-se que ela não era curiosa. Estava atarefada a refogar cebolas numa caçarola e não se virou quando ele

desdobrou o jornal.

Perceber-se-á que, num caso tão delicado, sejamos obrigados

à maior das discrições. É-nos, no entanto, permitido assinalar

que os festejos natalícios não constituíram um repouso para toda a gente e que o comissário Lucas, da Polícia Judiciária, fez um bom trabalho. É lícito esperar, de um momento para o outro, a prisão do sátiro de Amesterdão que

Sempre aquela mania! Sublinhou de um gesto desdenhoso a palavra sátiro e olhou com um estranho sorriso para as costas de Rose, para as suas largas ancas que o roupão alargava ainda mais.

Da Holanda, por outro lado, chega-nos a informação de que o caso poderá tomar proporções inesperadas, dado que a firma Julius de Coster en Zoon acaba de ser posta em liquidação judicial. Terá sido ao descobrir que todas as suas economias, colocadas na casa que o empregava, estavam perdidas, que Kees Popinga se vingou no seu patrão? Dever-se-á procurar outra explicação para

De tudo isto, ele reteve sobretudo duas palavras: comissário

Lucas. Depois foi levantar a tampa da panela. Em seguida, até ao meio-dia, foi jogar no caça-níqueis da baiúca, deserta a essa hora, enquanto ia falando com o dono. Ao voltar à garagem, Goin já lá estava, a almoçar; um Goin que ele mal reconheceu, pois envergava um elegante fato de passeio.

- Até que enfim que aparece! - exclamou ele com agastamento. - Você é louco? Onde é que foi?

- A um cafezinho muito simpático.

- Não sabe o que se passa? Falei com o patrão, esta manhã.

Ontem, .um inspector veio arrancar Jeanne Rozier à cama e conduziu-a ao Quai des Orfevres. Se não tivermos as maiores chatices consigo, é uma grande sorte!

- O que disse ela?

- Quem?

- Jeanne Rozier.

- Sei lá! De qualquer modo, o patrão proíbe-o de sair do seu

quarto. Rose levar-lhe-á as refeições. Ninguém deve vê-lo nos

dias mais próximos, até Louis Lhe dar indicações

- Não come? - perguntou Rose com indiferença.

- Estou à espera que me sirvam.

- Quando ele o trouxe, eu não sabia que era assim tão grave. Ouça lá! Que bicho lhe mordeu? É marado ou quê?

- Não compreendo essa palavra.

- Acontecem-Lhe muitas vezes essas telhices de estrangular as mulheres?

- É a primeira vez. Se ela não se tivesse rido

E começava a comer a carne de vaca estufada com batatas fritas.

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- Acho melhor anunciar-Lhe desde já que, se tiver a triste

ideia de tocar na minha irmã, lhe parto o focinho! Se eu

soubesse o biltre que você é Kees julgou que não valia a pena responder. O outro não era capaz de compreender e mais valia comer sem dizer nada.

- Quando estiver no seu quarto, não se atreva a sair. Bem

basta que tenha ido armar-se em esperto nas tascas de Juvisy! Ao menos não falou às pessoas?

- Falei.

O mais engraçado é que era Goin que se esquentava e Kees que permanecia calmo, que comia com apetite.

- Veremos se o patrão fez uma asneira. E pensar que eu o

tomei a si por um tipo interessante! Uma autêntica discussão! Com Rose a comer a um canto da

mesa, ao mesmo tempo que vigiava o forno, como uma boa dona de casa, e Kiki, esse, a comer sentado na soleira, de prato pousado nos joelhos. Popinga preferiu não dizer o que pensava. Deu mostras de encaixar tudo e, devido a isto, Goin continuou a falar:

- Dentro de três dias, quando muito, o patrão terá voltado. Ele precisa de ir esta noite a Marselha, mas, logo que

regresse Popinga já resolvera. Terminou a refeição, limpou a boca ao seu lenço e declarou:

- Vou lá para cima. Boa noite!

Sem lhe responderem, deixaram-no embrenhar-se na escada, mas ainda não a subira toda quando Goin lhe gritou a contragosto:

- Se necessitar de alguma coisa, não tem mais que bater três

vezes com o pé no sobrado. A cozinha fica mesmo por baixo. Rose ouvirá Kees não tinha a mínima vontade de dormir. Foi pôr-se à janela, que parecia mais uma lucarna, e deixou o seu olhar errar por uma paisagem assombrosa, feita lá mesmo ao fundo de prados sob a neve, depois de carris, de edifícios, de traves de ferro, de todo o material incoerente de uma grande gare, de vagões sem locomotiva que deslizavam sozinhos, de locomotivas desengatadas que marcavam raivosamente passo, de apitos, de

uivos e de algumas árvores escapadas ao massacre e que desciam tristemente o enredado negro dos seus ramos sobre o chão

gelado.

coisa: Louis partira, ou ia partir para Marselha. Cerca das quatro horas, sentado na sua cama, sob a lâmpada eléctrica sem abajur, ele relia:

De tudo o que Lhe haviam dito, Kees só retinha uma

O comissário ouviu uma certa Jeanne RozieR n.o 13 da rue Fromentin, que

, moradora no

Estava frio. Kees lançara sobre si a colcha de algodão. Puxara a cama na direcção do tubo de fogão de cozinha que atravessava o quarto antes de alcançar o telhado. Os comboios apitavam implacavelmente. Os ruídos do exterior orquestravam-se, com sons graves, agudos e o arquejo das máquinas; depois, por vezes, o chio de um automóvel largado a toda a velocidade na estrada.

Louis partia para Marselha

E esta Rose de semblante

descorado nem sequer lia o jornal para saber quem ele era

Louis devia praguejar sozinho contra ele

estivesse a tratar de o vender Isso não tinha importância, claro está. Podia encolher os

ombros e olhar com desprezo a camisola demasiado grossa e o fato-macaco que tinham durante algum tempo transformado o verdadeiro Popinga. Era mais forte que eles todos, incluindo Louis, incluindo

Jeanne Rozier

garagem, do mesmo modo que a mamã estava ligada à sua casa, que Claes estava ligado à sua clientela e a Eleonor, que Copenghem estava ligado ao círculo de xadrez cuja presidência ambicionava Ele, Popinga, não estava ligado a nada, a ninguém, a nenhuma ideia, a nada de nada, e a prova

E

A menos que já

Todo o bando estava como que ligado à

80 - 81

VI

As indiscrições do tubo de fogão e o segundo atentado de Kees Popinga

Talvez ele se houvesse amodorrado ao tépido bafejo do tubo de fogão, onde sentia por assim dizer passar as chamas, se não ouvisse nitidamente abrir-se uma porta na cozinha, passos aproximarem-se do forno, depois uma barulheira que cobriu todos os outros ruídos, o do fogão que atiçavam. Esta barulheira ainda não terminara e já a voz de Goin inquiria:

- Escutaste à porta? O que é que ele está a fazer?

E a voz de Rose a responder, rabugenta:

- Não faço ideia. Nem sequer o ouvi mexer-se.

- És capaz de me preparar uma chávena de café?

- Ora essa! O que estás a enjorcar?

- O que tu vês! Tento consertar o despertador, que não quer

andar Kees sorriu. Imaginava os dois: Goin, de pantufas, um cigarro apagado colado ao lábio, sobrolho franzido, ocupado a desmontar ou a montar de novo o despertador em cima da mesa da cozinha, enquanto a irmã, a acreditar nos ruídos, devia começar a lavar a louça.

- O que pensas deste fulano?

As vozes chegavam tanto mais abafadas quanto lá em baixo se

falava sem paixão, por ociosidade, com longos silêncios entre as frases. Por vezes, um comboio atravessava bruscamente a conversa, da qual só deixava migalhas. Kees, de olhos fechados, escutava tudo saboreando as lufadas de calor.

- Penso que é um sujeito estranho. Eu não me fiava nele! O que é que ele fez?

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- Eu só soube há bocado. Estrangulou uma bailarina, em

Amesterdão, e talvez antes tenha já espichado um velho Kees Popinga não pôde abster-se, mau grado o seu torpor, de

estender o braço e escrever a palavra espichado na sua agenda vermelha. Lá em baixo, a água fervia, Rose apressava-se a moer um pouco de café, pousava uma chávena e o açucareiro sobre a mesa.

- Bolas! Se eu adivinhasse onde estava esta roda

- Viste o Louis?

- Vi, sim. Eu queria saber o que conta ele fazer do parceiro lá de cima.

- O que te disse?

- Sabes como ele é

Gosta de fazer crer que pensa em tudo

Mas a verdade é que eu sempre

e que nunca actua sem motivo

afirmei que ele improvisa. Tentou demonstrar-me que tem o tipo na mão e que pode esmifrá-lo tanto quanto Lhe apetecer. E eu

repliquei-lhe que, de momento, é o tipo que nos tem na mão

- Bebe o teu café enquanto está quente

parafuso ali no chão

Olha aquele

- Sempre que se responde assim ao Louis, ele zanga-se e

berra que, na medida em que assume todas as responsabilidades,

devemos deixá-lo agir. Eu cá, disse-Lhe eu, estou pronto a alinhar. Podem contar comigo para os carros! Mas não aprecio

muito ter em minha casa um biltre como o holandês

que se trata de um maluco e que ainda acaba por se atirar a

ti

Supõe tu

- Não me mete medo.

- E ainda por cima isto pode levar-nos direitinhos a cinco

anos de choça

o Louis com o fabiano sim sem matutar no assunto

funciona Os sons eram tão nítidos que se via por assim dizer Goin dar corda ao seu despertador enfim reconstituído.

A minha ideia é que foi Jeanne que serrazinou

Louis, que não ousa dizer não, disse

Já está! Vamos lá ver se isto

- Funciona?

Como única resposta, um estrépito, o do despertador que o garagista lançara, cheio de raiva, para a outra ponta da cozinha.

Não trouxeram o jornal?

- Compra outro amanhã de manhã

- Ainda não.

- Eu aconselhei uma boa coisa ao Louis. Já que temos uma

ocasião destas aqui à mão, o melhor é aproveitá-la para conseguir um arranjinho. Assoprando nas calmas o sátiro à

polícia, é evidente que não se mostrariam demasiado esmiuçadores no que se refere aos nossos negócios

- O que te respondeu ele?

- Nada. Pensará nisso quando voltar de Marselha.

- Há guilhotina na Holanda?

- Não sei. Por que mo perguntas?

- Por nada.

Um silêncio. Depois a voz um tanto embaraçada de Goin:

- Se fosse um homem como nós, eu não falaria assim. Mas

deves compreender o que eu quero dizer. Tu própria viste como ele procede. Olha, vou ali comprar o jornal Kees Popinga não se mexera. Para lá da lucarna, só via algumas luzes suspensas no céu e ouvia agora, por baixo de si, Rose a ir e vir nas suas solas de feltro, abrir armários, guarda-louças, arrumar coisas de porcelana ou de faiança, depois, de repente, carregar o fogão.

Foi muito demorado. Para Goin, o jornal não era mais que um pretexto para se instalar na tasca e, sem dúvida, aí jogar uma partida de bisca, pois voltou duas horas mais tarde, quando a mesa já estava posta para o jantar:

- Veio alguém?.

- Não.

- E lá em cima?

- Deve estar a dormir. Não o ouvi andar.

- Sabes o que eu vinha agora a pensar? É que estes pássaros

bisnaus são mais perigosos para a sociedade do que nós. Já

aconteceu ao Louis disparar uma vez, no boulevard Rochechouart, porque ia ser catrafilado em flagrante delito. Pelo menos, em tais casos, sabe-se o que se tem pela frente.

Ao passo que o outro!

És capaz de dizer o que ele pensa,

hem?

- Não deve ser lá muito risonho! - suspirou Rose.

84 - 85

- O que queres tu? Pela minha parte, repito, não me agrada o

que se passa nesta casa!

assinatura?

Outra vez coelho! Fizeste alguma

- Sobrou de ontem.

- É preciso levar-Lhe comida.

- Vou lá daqui a bocado.

De facto, um pouco mais tarde, foi Rose que bateu à porta:

-Abra! - disse ela logo a seguir. - É o seu jantar. Popinga levantara-se. Depois de abrir, e estando Rose

empachada com um tabuleiro, ele fizera de propósito para se situar entre ela e a porta e olhá-la com uns olhinhos inquietantes.

- Você, ao menos, é bondosa! - dizia ele.

Talvez ainda não soubesse se queria assustá-la ou se era mais grave.

- Vai ficar um instantinho comigo, não vai?

Ela virou-se sem manifestar a mais pequena emoção, olhou-o

dos pés à cabeça:

- Ouça lá! - volveu numa voz ordinária.

E o olhar dela detinha-se nos olhos do interlocutor, no seu sorriso forçado, nas suas mãos trémulas.

- Toma-me por alguma bailarina, ou quê? Faria melhor em comer e deitar-se!

Assim, sem espalhafatos, ela forçava-o, com a sua simples atitude, a dar-Lhe passagem. E ao atingir o limiar, voltava-se:

- Quando acabar de comer, só tem que pôr o tabuleiro do

outro lado da porta. No instante seguinte já Popinga tinha a face quase encostada ao tubo de fogão e em breve ouvia abrir-se e tornar a fechar-se a porta envidraçada da cozinha. Arrastou-se uma

cadeira: era Rose a sentar-se

copo contra uma garrafa

O choque de um

Um silêncio

- Estava a dormir

- Suponho que sim

- Não disse nada?

- O que querias que dissesse?

- Pareceu-me ter-vos ouvido falar.

- Disse-Lhe que comesse e colocasse o tabuleiro à porta.

- Não achas que tenho razão e que Louis é imprudente? Se

Lucas mandou ir Jeanne ao Quai, é porque planeia alguma coisa.

Jeanne deve andar vigiada, Louis também. Pergunto a mim mesmo se, hoje, a polícia não soube que eu estive com ele. Supõe que me seguiram

- Queres denunciá-lo?

- Bem

Deve ter mergulhado na leitura do jornal, pois durante muito

se não fosse o Louis

tempo nada se ouviu. Enfim, ele suspirou:

- E se fôssemos dormir? Esta noite não haverá novidade! Vou fechar a garagem. Popinga, conforme Rose lhe pedira, pusera o tabuleiro do

outro lado da porta e voltara a fechar esta com cuidado. Depois tirara as roupas que Goin lhe emprestara e vestira o seu fato cinzento, nos bolsos do qual enfiara o dinheiro que Lhe restava e a agenda vermelha. Não estava impaciente. Estendido na cama, com a colcha a tapá-lo, esperava, enquanto ali ao ládo o irmão e a irmã se despiam tranquilamente, trocando algumas palavras, removendo

diversos objectos, em seguida se deitavam, habituados desde a infância nalguma aldeia pobre a dormir aos cinco e aos seis num mesmo quarto.

- Boas-noites, Rose!

noites!

- Não quero armar-me em profeta. Percebo muito bem que não me aprovas. Mas hás-de ver que tenho razão!

- Depois se vê

- replicou ela, resignada ou já sonolenta.

Popinga esperou um quarto de hora, meia hora, levantou-se sem barulho, caminhou até à lucarna. Nevava. Por momentos, receou que o facto de abrir a janela desencadeasse de chofre dentro de casa todos os ruídos da estação de mercadorias e acordasse o irmão e a irmã. Mas ele sabia que as coisas se passariam muito depressa. Mesmo por baixo da lucarna, encontrava-se uma velha camioneta cujo toldo deformado estava a menos de dois metros dajanela. Popinga suspendeu-se no vazio, deixou-se cair e, num ápice, achou-se num descampado, atrás da garagem, onde os seus passos ficavam marcados na delgada camada de neve. Quis ver as horas e verificou que já não tinha relógio, que Goin devia ter-Lho tirado.

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Depois de se orientar, alcançou Jovisy e passou em frente do botequim onde jogara no caça-nIqueis e onde por pouco não entrou, para se mostrar tal como era habitualmente, de fato e sobretudo cinzento, com um colarinho postiço e uma gravata. As horas, viu-as na estação: onze horas menos vinte. Entrou e perguntou delicadamente ao empregado quando passava o comboio para Paris.

- Dentro de doze minutos - foi a resposta.

No cais da gare, invadia-o uma autêntica sensação de livramento. Não que lá na garagem houvesse tido um só instante de medo! Era um sentimento que ele não conhecia desde a sua

partida de Groninga. Mas parecia-Lhe que, ao vir a Juvisy, perdera de súbito o benefício da sua evasão. Era um pouco como se tivesse voltado a cair sob tutela, como se, à senhora Popinga e a Julius de Coster, outros se houvessem substituído: Louis, Goin, sua irmã Rose. Ora, estas pessoas não o tinham compreendido melhor que as pessoas de Groninga. Que palavra pronunciara afinal Goin? Abriu a sua agenda só para a encontrar:

- Espichado!

Isso mesmo: consideravam que ele havia espichado Julius de Coster e que era um marado! Pior ainda: durante as poucas horas que passara na sua cama de campanha, a escutar os ruídos da cozinha, Kees, por

momentos, quase se julgara em sua casa, em Groninga, quando, por exemplo, do seu quarto, ouvia tagarelar a mulher e a criada. Elas tinham a mesma maneira de emitir as frases sem se apressarem e de julgar pessoas e coisas como se o mundo inteiro estivesse ao alcance do seu entendimento Quanto a Louis, Goin devia ter razão: era um gaiato que brincava aos manda-chuvas, mas que não sabia ao certo aquilo que queria Popinga nunca se sentira tão forte como neste cais de

estação, o qual palmilhava olhando para os cartazes de turismo

e fumando um charuto. Pairava milhares de côvados acima de um

Louis, de um Goin, de um Julius de Coster, de todos esses fanfarrões palradores! Tinha a certeza, ao comprar qualquer jornal, de aí deparar com informações a seu respeito. Talvez publicassem de novo o seu retrato

A polícia procurava-o! Havia gente que tremia só de pensar

que o famoso sátiro de Amesterdão podia rondar ali perto!

E ele abandonava placidamente o seu abrigo, comprava um

bilhete de segunda classe, esperava um comboio e ia viajar até

Paris, onde o comissário Lucas dirigia as buscas. Não seria a prova de que era mais forte e mais inteligente

que eles todos? Havia de fazer ainda melhor! Iria a casa de Jeanne Rozier, precisamente porque era perigoso, porque era a única coisa que não devia fazer! Aliás, necessitava de a ver. Tinham ficado coisas por resolver entre ambos.

O comboio entrou na gare. Quis o acaso que ele se instalasse

num compartimento onde duas mulheres do campo, vestidas de escuro, tagarelavam dos acontecimentos da sua aldeia, das doenças das vizinhas e dos mortos desse ano. Sentado ajuizadamente no seu canto, ele fitava-as com o louco desejo de Lhes declarar de súbito:

- Permitam que me apresente: Kees Popinga, o sátiro de

Amesterdão!

Não o fez, não! Mas pensou nisso repetidas vezes. Deleitou-se com o malicioso prazer de imaginar a cena que se seguiria. Apesar de tudo, em Paris, foi ele que tirou da rede

as malas das suas companheiras e não pôde coibir-se de esboçar um sorriso irónico murmurando, como um homem cortês:

- Ao vosso dispor!

No fundo, eis o que ele ambicionava: ser o único, mas mesmo

o único, a saber o que ele sabia, o único a conhecer Kees

Popinga e a errar no meio da multidão, a ir e vir entre pessoas que o roçavam sem saber e que pensavam dele coisas estúpidas, sempre diferentes.

Para as duas mulheres, por exemplo, ele era um homem amável,

como já não se encontram muitos. Para Rose

não dissera claramente o que pensava, mas ele estava convencido de que o desprezava, por falta de imaginação. Sentia-se feliz por reencontrar Paris, os seus autocarros, os seus táxis, as pessoas que iam em todas as direcções à

procura só Deus sabe de que inexistente objectivo.

É verdade, ela

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Ele, quanto a si, .tinha tempo. O Picratts nunca fechava antes

das três ou quatro horas da madrugada e, supondo que Jeanne Rozier saía sozinha, ela não estaria em casa antes das três horas e um quarto, na melhor das hipóteses. Que estranha atitude a de Kees ao não se ter aproveitado dela quando estava à sua disposição, deitada na sua própria cama! Agora, pelo contrário, só de pensar nela Mas era diferente! Agora que ela sabia, ele experimentava a necessidade de a dominar, de Lhe meter medo, pois ela era demasiado inteligente para o repelir tão estupidamente como Rose. Entretanto, como não tinha nada que fazer, abordou um agente

e perguntou-Lhe onde ficava a Polícia Judiciária. Uma

curiosidade legítima entre todas! Em todos os jornais onde se falava nele, aludia-se à Polícia Judiciária e ao comissário Lucas! Sentiu-se satisfeito ao descobrir o Quai des Orfevres e

ao decifrar, acima de uma porta mal iluminada: "Polícia Judiciária". Ainda mais o satisfaria avistar o comissário em

pessoa, mas era difícil. Contentou-se em permanecer um bom bocado sentado no parapeito do Sena, a olhar para as três janelas onde se via luz, no primeiro andar. No pátio, para além do pórtico monumental, duas camionetas da polícia e um carro celular aguardavam. Foi-se embora com pesar. Gostaria de ter entrado e visto mais de perto. De novo na place Saint-Michel, ele voltou atrás e, uma vez mais, foi a um polícia que perguntou o caminho para Montmartre. Tê-lo-ia perguntado inutilmente pelo simples prazer de dirigir a palavra a agentes da autoridade. Isto

permitia-Lhe pensar: «Ele nem suspeita

Não podia andar até às três horas da manhã e entremeou o seu passeio de paragens nos bares onde, em volta do balcão em

ferradura, ia encontrando algumas criaturas cuja vida estava momentaneamente como que suspensa. Certas pessoas, para beber

o café, adoptavam um ar sonhador. Outras, de cotovelos no

balcão, já sem nada para levar à boca, tinham os olhos tão vazios que dava vontade de perguntar em que momento e por magia iriam de súbito retomar consciência de si mesmas. Uma rapariguita que trazia um cesto de violetas recordou-lhe a noite de Natal e as duas visitas que Jeanne Rozier Lhe fizera no café com tabacaria da rue de Douai. Goin devia ter razão; fora Jeanne que decidira Louis a ocupar-se dele. Mas porquê? Porque a impressionara? Porque não se portara com ela como um cliente vulgar? Ou então porque, ao saber o que ele fizera, a sua curiosidade se aguçara? Quanto à ideia de piedade, Popinga arredava-a, não só porque ele não queria piedade, mas também porque Jeanne Rozier não era mulher para a ter. Mais uma hora!, constatava ele com impaciência. À medida que o instante se aproximava, pensava mais nela e tentava prever o que ia acontecer. A partir deste momento, antes do qual não bebera senão água mineral, começou a

encomendar copos de conhaque e a sentir o sangue subir-lhe à cabeça. Às duas horas e meia, olhando-se ao espelho de um café do boulevard des Batignolles, pensou: «E lembrar-me de que

».

ainda ninguém sabe o que vai passar-se!

Nem mesmo eu

Nem

mesmo Jeanne, que aguarda a hora de regressar a casa!

Louis

está em Marselha

Goin e a irmã dormem no seu quarto,

julgando-me atrás da porta

Pediu que lhe trouxessem um jornal e teve de ir até à quinta página para encontrar algumas linhas a seu respeito. Ficou vexado, tanto mais que era sempre o mesmo estribilho:

Ninguém sabe

».

O comissário Lucas prossegue o seu inquérito relativo ao

crime de Amesterdão e crê não faltar muito para chegar à

detenção de Popinga.

Mais um que se julgava finório, esse tal comissário Lucas, e que não sabia absolutamente nada! Talvez, em boa verdade, só mandasse escrever aquilo nos jornais para impressionar Kees! Este não tardaria a ver se o comissário era tão forte como queria parecer. Pediu a outro agente que Lhe indicasse a rue Fromentin, percorreu-a três vezes esquadrinhando com o olhar todos os desvãos e teve a certeza de que nenhum polícia se emboscara nas proximidades do número 13.

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Logo, ninguém previra que ele viria visitar Jeanne Rozier esta noite! Logo, Lucas nada compreendera! Logo, Popinga continuava a ser o mais forte! Que cara faria ele, o comissário, se acontecesse alguma coisa esta noite? E o que diriam os jornais, que repetiam docilmente as suas frases tranquilizadoras? Ao fim e ao cabo, quanto mais ele agisse, mais os outros perderiam as suas oportunidades, visto que, a cada um dos

actos dele, corresponderiam novas hipóteses, hipóteses fatalmente contraditórias, que acabariam por embaralhar tudo!

O que o impedia de agir? O que o teria impedido, há bocado,

de atacar as duas mulheres no comboio, de accionar o sinal de

alarme e de se apear serenamente enquanto toda a gente se atropelasse nos corredores? Encontrou facilmente o Picratts, onde passara as suas primeiras horas em Paris, e passeou nas imediações, à espera do encerramento. No fundo, quando chegara, ainda não sabia nada. Não tivera tempo de reflectir. E agora quase se condoía do sujeito que desembarcara na gare du Nord e se apressara a encomendar champanhe e a contar histórias a uma rapariga! Saíram duas mulheres do cabaré, borboletas como Jeanne, mas nenhuma era ela. Isto obrigou-o a encarar com aborrecimento a probabilidade de ela vir acompanhada de um cliente e de, por consequência, ser necessário adiar tudo para outra ocasião, talvez para o dia seguinte. Mas não! Lá vinha ela! Trazia o seu casaco de pele de esquilo, com um raminho de violetas preso na banda, e fazia ecoar no passeio os seus saltos desmedidos. Tinha todo o aspecto de uma pessoa friorenta. Caminhava depressa, roçando as casas, sem olhar à sua roda, como alguém que faz todos os dias o mesmo caminho à mesma hora. Kees seguia-a, no outro passeio, convicto, doravante, de que ela não Lhe escaparia. Sentiu porém um bocadinho de medo quando ela entrou num dos raros bares ainda abertos, mas muito o espantou vê-la através

da montra a encomendar um galão e a molhar aí um croissant. Logo, ninguém a convidara para cear! Comia com o olhar o que ele observara nos que se instalam nesta espécie de estabelecimentos. Vasculhava a sua carteira, tornava a partir sem perda de tempo. Ele esperou que ela carregasse no botão e, no momento em que o trinco abria, aproximou-se, sem dizer nada, o que a fez sobressaltar-se. Ela não descerrou os lábios, não pronunciou uma palavra, mas o medo toldou o verde das suas pupilas, ele via-o perfeitamente, antes de encolher os ombros e de se afastar para o deixar passar.

O elevador era tão estreito que eles se tocavam. Foi Jeanne

que o fez funcionar, voltou a fechá-lo, procurou a chave na

carteira, balbuciou por fim:

- O que é que vai dizer ao Louis?

Ele contentou-se em sorrir fitando-a e ela ficou confusa, pois compreendeu que ele sabia, que ele adivinhara a sua manha. Só ao penetrar no alojamento é que Kees murmurou:

- Louis está em Marselha!

- Foi Goin quem lho disse?

- Não!

Ela fechara a porta, acendera o candeeiro da entrada. O alojamento contava três divisões, mais uma casa de banho, tudo bastante decrépito, atulhado, com tapetes por toda a parte e demasiados ornamentos baratos, chinelos esquecidos aqui e além, uma sanduíche em cima da mesa da sala, ao lado de uma garrafa de vinho meio vazia.

- O que veio fazer?

Ele assegurava-se antes de mais nada de que ela tinha

realmente olhos verdes, como na sua recordação, e pareceu-lhe que o medo os tornava ainda mais verdes.

- Eu podia ter chamado a porteira

- Para quê?

E, como um homem que se sente em sua casa, tirava o sobretudo, bebia um trago de vinho pela própria garrafa, abria uma porta que era a do quarto de dormir. Reparou que, sobre a mesinha-de-cabeceira, se encontrava um telefone e prometeu a

si mesmo acautelar-se mas, acto contínuo, Jeanne Rozier surpreendia o seu olhar e o seu pensamento.

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Deliciava-o brincar com ela, porque ela tinha intuições, conservava o seu sangue-frio, e as suas emoções apenas se notavam por sinais quase imperceptíveis.

- Não se despe? - disse ele desembaraçando-se da gravata e

do colarinho postiço. Ela ainda não tirara o seu casaco de pele de esquilo, o que deixou de súbito escorregar dos ombros com um pequeno gesto fatalista.

- Quando soube que Louis ia a Marselha, pensei logo em

aproveitar

De quem é aquele retrato, ali por cima da cama?

- Do meu pai.

- Era um homem bem-parecido! Tinha principalmente uns

bigodes extraordinários

E sentara-se numa pequena poltrona Luís XVI para descalçar

os sapatos. Jeanne Rozier, pelo contrário, não continuava a despir-se. Depois de ter dado alguns passos no quarto, postava-se bem no meio e pronunciava:

- Suponho que não tenciona instalar-se aqui!

- Tenciono, sim, pelo menos até amanhã!

- Lamento, mas é impossível.

Ela tinha fibra. Mesmo sem querer, o seu olhar

encaminhava-se por vezes para o telefone. Sobretudo quando, em lugar de responder, ele riu e descalçou o segundo sapato.

- Não ouviu?

- Ouvi, mas não tem importância, pois não? Esquece-se de que já dormimos os dois na mesma cama. Nessa noite, eu estava muito cansado. Além de que ainda não a conhecia. Depois, arrependi-me Permanecia sentado, satisfeito consigo, acometido de uma ligeira febre que lhe ensurdecia a voz.

- Escute

- pronunciou ela. - Eu não quis provocar um

escândalo lá em baixo, alvoroçar a porteira e os inquilinos Sei aquilo a que você se arrisca. Mas aconselho-o a vestir-se sem demora e a raspar-se daqui! Estou em crer que ainda não enlouqueceu o suficiente para imaginar que eu aceitaria, agora

- Agora que quê?

- Nada!

- Agora que sabe? Diga, vá! Agora que sabe o que se passou

com Pamela? Responda lá! Juro-lhe que isto me diverte imenso. Há três dias que pergunto a mim mesmo o que pensa

- Não vale a pena esforçar-se tanto!

- Há três dias que digo com os meus botões: «Esta é menos

estúpida que os outros

».

- É possível, mas desande na mesma daqui para fora!

- E se eu não desandar?

Levantara-se, de peúgas nos pés, com o botão do colarinho em

riste na sua maçã-de-adão.

- Tanto pior para si.

Ela tirara de um pequeno móvel um revólver com coronha de madrepérola e empunhava-o, sem apontar, de um modo que nem por

isso era mais tranquilizador.

- É capaz de disparar?

- Não sei. É provável.

- Porquê? Sim, pergunto-Lhe por que razão, agora, já não quer. Da primeira vez, fui eu que não quis.

- Peço-lhe que saia!

Ela manobrava para se aproximar insensivelmente do telefone. Os seus movimentos eram desajeitados, traíam um medo que teria preferido esconder-lhe. Talvez este medo é que tenha sido a causa de tudo, levando Kees ao paroxismo. Mas ele não perdeu no entanto as suas faculdades de actor.

- Escute, Jeanne - lacrimejou cabisbaixo -, está a ser má

comigo, quando afinal só a tenho a si para me compreender e

- Não se aproxime.

- Não me aproximarei, mas suplico-Lhe que me escute, que me

responda. Sei que Goin e a irmã queriam entregar-me à polícia.

- Quem Lhe disse isso? - ripostou ela com veemência.

- Ouvi-o da boca deles. Também sei que Louis contava subtrair-me uma boa maquia.

- Não é verdade!

- É verdade! Talvez ele não lhe tenha dito, mas disse-o a

Goin, que o repetiu à irmã. Eu escutava a conversa deles. Saí pela lucarna e vim até aqui Ela devia estar desconcertada, pois já não se achava tanto na defensiva e reflectia, de olhar fixo no tapete. Ele, que

não perdia uma das expressões da sua fisionomia, continuava:

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- A prova de que sabe alguma coisa, e de que também andava a trair-me, é que sacou de um revólver

- Não foi por isso!

Reerguera vivamente a cabeça, num movimento de sinceridade.