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A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara.

E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:


— Ainda o apanhamos!
Visita de estudo
à Lisboa
— Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois ami-
gos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob
a primeira claridade do luar que subia.
Eça de Queirós, Os Maias de
Eça de Queirós
e
Cesário Verde

Dez horas da manhã; os transparentes E rota, pequenina, azafamada,


Matizam uma casa apalaçada; Notei de costas uma rapariga,
Pelos jardins estacam-se as nascentes, Que no xadrez marmóreo duma escada,
E fere a vista, com brancuras quentes, Como um retalho de horta aglomerada,
A larga rua macadamizada. Pousara, ajoelhando, a sua giga.

Rez-de-chaussée repousam sossegados, E eu, apesar do sol, examinei-a:


Abriram-se, nalguns, as persianas, Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos;
E dum ou doutro, em quartos estucados, E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Ou entre a rama dos papéis pintados, Se ela se curva, esguedelhada, feia,
Reluzem, num almoço, as porcelanas. E pendurando os seus bracinhos
/brancos.
Como é saudável ter o seu aconchego,
E a sua vida fácil! Eu descia, Escola Secundária/3 José Cardoso Pires
Cesário Verde, «Num Bairro Moderno»
Sem muita pressa, para o meu emprego, Português - 11º ano
Aonde eu agora quase sempre chego Maio de 2008
Com as tonturas duma apoplexia. Guião realizado pelo professor João Carlos Costa
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Pelo Chiado abaixo... Um trôpego arlequim braceja numas andas; Os Restauradores e a Avenida...
Estavam no Loreto; e Carlos parara, Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas! Subitamente, Ega parou:
olhando, reentrando na intimidade
daquele velho coração da capital. Vazam-se os arsenais e as oficinas; — Ora aí tens tu essa Avenida! Hem?... Já não é mau!
Nada mudara. A mesma sentinela Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras; Num claro espaço rasgado, onde Carlos deixara o Passeio
sonolenta rondava em torno à está- E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras, Público, pacato e frondoso — um obelisco, com borrões de
Correndo com firmeza, assomam as varinas. bronze no pedestal, erguia um traço cor de açúcar na vibração
tua triste de Camões. Os mesmos
reposteiros vermelhos, com brasões Vêm sacudindo as ancas opulentas! fina da luz de Inverno: e os largos globos dos candeeiros que o
eclesiásticos, pendiam nas portas Seus troncos varonis recordam-me pilastras; cercavam, batidos do Sol, brilhavam, transparentes e rutilantes,
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
das duas igrejas. O Hotel Aliança como grandes bolas de sabão suspensas no ar. Dos dois lados
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
conservava o mesmo ar mudo e seguiam, em alturas desiguais, os pesados prédios, lisos e apru-
deserto. Um lindo Sol dourava o laje- Descalças! Nas descargas de carvão, mados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde
do; batedores de chapéu à faia fusti- Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
negrejavam piteiras de zinco, e pátios de pedra, quadrilhados a
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
gavam as pilecas; três varinas, de branco e preto, onde guarda-portões chupavam o cigarro: e
E o peixe podre gera os focos de infecção!
canastra à cabeça, meneavam os [...] aqueles dois hirtos renques de casas ajanotadas lembravam a
quadris, fortes e ágeis na plena luz. A espaços, iluminam-se os andares, Carlos as famílias que outrora se imobilizavam em filas, dos dois
A uma esquina, vadios em farrapos E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos lados do Passeio, depois da missa «da uma», ouvindo a Banda,
fumavam; e na esquina defronte, na Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
com casimiras e sedas, no catitismo domingueiro. Todo o laje-
Havanesa, fumavam também outros E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.
do reluzia como cal nova. Aqui e além um arbusto encolhia na aragem a sua folhavam pálida e rara. E
vadios, de sobrecasaca, politicando. Duas igrejas, num saudoso largo, ao fundo a colina verde, salpicada de árvores, os terrenos de Vale de Pereiro, punham um brusco remate
— Isto é horrível, quando se vem de Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo, campestre àquele curto rompante de luxo barato — que partira para transformar a velha cidade, e
fora! — exclamou Carlos.
Assim que pela História eu me aventuro e alargo. estacara logo, com o fôlego curto, entre montões de cascalho.
— Não é a cidade, é a gente. Uma
Mas um ar lavado e largo circulava; o Sol dourava a caliça; a divina serenidade do azul sem igual tudo
gente feiíssima, encardida, molenga, Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas; cobria e adoçava. E os dois amigos sentaram-se num banco, junto de uma verdura que orlava a água
reles, amarelada, acabrunhada!...
— Todavia Lisboa faz diferença — Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas, de um tanque esverdinhada e mole.
E os sinos dum tanger monástico e devoto. Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flores na lapela, a calça apurada, luvas claras
afirmou Ega, muito sério. — Oh, faz
muita diferença! Hás-de ver a Mas, num recinto público e vulgar, fortemente pespontadas de negro. Era toda uma geração nova e miúda que Carlos não conhecia. Por
Avenida... Antes do Ramalhete Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras, vezes Ega murmurava um olá! acenava com a bengala. E eles iam, repassavam, com um arzinho tími-
vamos dar uma volta à Avenida. Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras, do e contrafeito, como mal acostumados àquele vasto espaço, a tanta luz, ao seu próprio chique. Carlos
Um épico doutrora ascende, num pilar! pasmava. Que faziam ali, às horas de trabalho, aqueles moços tristes, de calça esguia? Não havia mu-
Foram descendo o Chiado. Do outro
[...]
lado, os toldos das lojas estendiam Partem patrulhas de cavalaria
lheres. Apenas num banco adiante uma criatura adoentada, de lenço e xale, tomava o Sol; e duas
no chão uma sombra forte e denta- Dos arcos dos quartéis que foram já conventos: matronas, com vidrilhos no mantelete, donas de casa de hóspedes, arejavam um cãozinho felpudo. O
da. E Carlos reconhecia, encostados Idade Média! A pé, outras, a passos lentos, que atraía pois ali aquela mocidade pálida? E o que sobretudo o espantava eram as botas desses ca-
às mesmas portas, sujeitos que lá Derramam-se por toda a capital, que esfria. valheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas
deixara havia dez anos, já assim Triste cidade! Eu temo que me avives aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos. [...]
encostados, já assim melancólicos. Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes, E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graça e da Penha, com o seu casario escorregan-
Tinham rugas, tinham brancas. Mas Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes, do pelas encostas ressequidas e tisnadas do Sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as
lá estacionavam ainda, apagados e Curvadas a sorrir às montras dos ourives.
igrejas, as atarracadas vivendas eclesiásticas, lembrando o frade pingue e pachorrento, beatas de man-
murchos, rente das mesmas E mais: as costureiras, as floristas tilha, tardes de procissão, irmandades de opa atulhando os adros, erva-doce juncando as ruas, tremoço
ombreiras, com colarinhos à moda. Descem dos magasins, causam-me sobressaltos; e fava-rica apregoada às esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto ainda, recortando no
Depois, diante da Livraria Bertrand, Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
radiante azul a miséria da sua muralha, era o Castelo, sórdido e tarimbeiro, donde outrora, ao som do
Ega, rindo, tocou no braço de E muitas delas são comparsas ou coristas.
hino tocado em fagotes, descia a tropa de calça branca a fazer a bernarda! E abrigados por ele, no
Carlos: E eu, de luneta de uma lente só,
escuro bairro de S. Vicente e da Sé, os palacetes decrépitos, com vistas saudosas para a barra, enormes
— Olha quem ali está, à porta do Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados, brasões nas paredes rachadas, onde, entre a maledicência, a devoção e a bisca, arrasta os seus der-
Baltreschi! [...]
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó. [...] radeiros dias, caquéctica e caturra, a velha Lisboa fidalga!...
Eça de Queirós, Os Maias Eça de Queirós, Os Maias
Cesário Verde, «O Sentimento dum Ocidental»
15ª visita: Rossio / Praça da Figueira / Outras ruas 1ª visita: Chiado

Um consultório gratuito, no Rossio, o consultório do Dr. Maia, «do seu Maia» reluziu-lhe logo vagamente
como um elemento de influência. E tanto se agitou, que daí a dois dias tinha alugado um primeiro andar - Eu do que gostei foi dos ares que
de esquina.
Duas igrejas, num saudoso largo,
[...] Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero: ele se ia dando por aquele Chiado!
Como Afonso, todo o sofrimento dos animais a consternava. Um dia viera indignada da Praça da Nelas esfumo um ermo inquisidor severo, Cumprimento para a direita,
Figueira, quase com ideias de vingança, por ter visto nas tendas dos galinheiros aves e coelhos api- Assim que pela História eu me aventuro e alargo. cumprimento para a esquerda... A
nhados em cestos, sofrendo durante dias as torturas da imobilidade e a ansiedade da fome. Cesário Verde, «O Sentimento dum Ocidental» debruçar-se, a falar muito baixo
Eça de Queirós, Os Maias para a mulher, com olho terno,
alardeando conquista...
[...] Sorriam, nos seus trens, os titulares;
Eça de Queirós, Os Maias
"Ela aí vem!" disse eu para os demais; E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
E pus-me a olhar, vexado e suspirando, A tua boa mãe, que te ama tanto,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando, Que não te morrerá sem te casares!
2ª visita: Rua do Alecrim
Na frescura dos linhos matinais.
Soberbo dia! Impunha-me respeito
Via-te pela porta envidraçada; A limpidez do teu semblante grego;
E invejava, – talvez que o não suspeites! – E uma família, um ninho de sossego,
Esse vestido simples, sem enfeites, Desejava beijar sobre o teu peito.
Nessa cintura tenra, imaculada.
Com elegância e sem ostentação,
Ia passando, a quatro, o patriarca, Atravessavas branca, esbelta e fina,
Triste eu saí. Doía-me a cabeça. Uma chusma de padres de batina,
Uma turba ruidosa, negra, espessa, E de altos funcionários da nação.
Voltava das exéquias dum monarca.
[...]
Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado; Cesário Verde, «A Débil»
Avultava, num largo arborizado, À esquerda: Estátua a Eça de Queirós, de
Uma estátua de rei num pedestal. Teixeira Lopes, no Largo Barão de Quintela.
«Sobre a nudez forte da verdade,
16ª visita: Terreiro do Paço (Praça do Comércio) o manto diáfano da fantasia».

Uma velha caleche, de parelha branca, estava encalhada ali, contra o passeio. Melanie saltou para dentro, Nessa tarde, às seis horas, Carlos, ao descer a Rua do Alecrim para o Hotel Central, avistou
à pressa. A traquitana rodou aos solavancos para o Terreiro do Paço. Craft dentro da loja de bricabraque do tio Abraão.
Eça de Queirós, Os Maias Eça de Queirós, Os Maias

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3ª visita: Pr. Duque da Terceira/R. do Arsenal/R. Vítor 12ª visita: S. Pedro de Alcântara
Córdon (Hotel Bragança)/R. do Ferragial (casa dos Cohen)

Entravam então no peristilo do Hotel Central — e nesse momento um coupé da Companhia, chegando
a largo trote do lado da Rua do Arsenal, veio estacar à porta. [...]
Com efeito, Carlos pouco se demorou em Resende. E numa luminosa e macia manhã de Janeiro de
1887, os dois amigos, enfim juntos, almoçavam num salão do Hotel Bragança, com as duas janelas aber-
Mas Carlos vinha de lá enervado, amolecido, sentindo já na alma os primeiros bocejos da
tas para o rio. [...] saciedade. Havia três semanas apenas que aqueles braços perfumados de verbena se ti-
E o Alencar, perante esta intimação do Cohen, o respeitado director do Banco Nacional, o marido da di- nham atirado ao seu pescoço — e agora, pelo passeio de S. Pedro de Alcântara, sob o ligeiro
vina Raquel, o dono dessa hospitaleira casa da Rua do Ferregial onde se jantava tão bem, recalcou o chuvisco que batia as folhagens da alameda, ele ia pensando como se poderia desembaraçar
despeito — admitiu que não deixava de haver talento e saber. da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso...
Eça de Queirós, Os Maias Eça de Queirós, Os Maias

4ª visita: O «Aterro» (Avenida 24 de Julho) 13ª visita: O Ascensor da Glória (inaugurado em 1885)

14ª visita: Restauradores /Avenida (o Passeio Público)

Subitamente, Ega parou:


A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais conhaque. Depois Cohen saiu levando o Ega. — Ora aí tens tu essa Avenida! Hem?... Já
Dâmaso e Alencar desceram com Carlos — que ia recolher a pé pelo Aterro. não é mau!
À porta, o poeta parou com solenidade. Num claro espaço rasgado, onde Carlos
- Filhos — exclamou ele tirando o chapéu e refrescando largamente a fronte — então? Parece-me que me deixara o Passeio Público, pacato e fron-
portei como um gentleman! doso — um obelisco, com borrões de bronze no pedestal, erguia um traço cor de açúcar na vibração fina
Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade... da luz de Inverno: e os largos globos dos candeeiros que o cercavam, batidos do Sol, brilhavam, trans-
- Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que é ser gentleman! E agora vamos lá por esse parentes e rutilantes, como grandes bolas de sabão suspensas no ar.
Aterro fora... Mas deixa-me ir ali primeiro comprar um pacote de tabaco... Eça de Queirós, Os Maias
Eça de Queirós, Os Maias

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10ª visita (continuação) 5ª visita: A Rua das Janelas Verdes
E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar


Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Cesário Verde, «O Sentimento dum Ocidental»

Saiu.
E dera apenas alguns passos na Rua Nova do Um momento caminharam em silêncio. Depois, na Rua das Janelas Verdes, o Alencar quis
Almada, quando avistou o Dâmaso, num coupé refrescar. Entraram numa pequena venda, onde a mancha amarela de um candeeiro de
lançado a grande trote, que o chamava, mandava petróleo destacava numa penumbra de subterrâneo, alumiando o zinco húmido do balcão,
parar, com a face à portinhola, vermelho e radiante. garrafas nas prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenço amarrado nos queixos.
[...] Alencar Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade...
Carlos então contou como o encontrara, afogueado - Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que é ser gentleman! E agora vamos
e triunfante, atirando-lhe da portinhola do coupé, lá por esse Aterro fora... Mas deixa-me ir ali primeiro comprar um pacote de tabaco...
em plena Rua Nova do Almada, a notícia de um Eça de Queirós, Os Maias
romance divino!
[...]
Depois, descendo para a Rua Nova do Almada, con- 6ª visita: O Ramalhete
tou o caso da Adosinda. Fora no Silva, havia duas (que Eça situa na Rua de São Francisco de Paula, hoje Rua Presidente Arriaga)
semanas, estando ele a cear com rapazes depois de S. Carlos, que lhes aparecera essa mu-
lher inverosímil, vestida de vermelho, carregando insensatamente nos rr, metendo rr em todas
as palavras, e perguntando pelo senhor virrsconde... Qual virrsconde? Ela não sabia bem. Erra
um virrsconde que encontrrarra no Crroliseu.
Eça de Queirós, Os Maias

11ª visita: Teatro da Trindade / Largo Rafael B. Pinheiro

Acasa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizi-
nhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do
Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre,
o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de
ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telha-
Pararam à porta do Teatro da Trindade no momento em que de uma tipóia de praça se apeava um sujeito do, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do
de barbas de apóstolo, todo de luto, com um chapéu de largas abas recurvas à moda de 1830. reinado da senhora D. Maria I...
Eça de Queirós, Os Maias Eça de Queirós, Os Maias

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7ª visita: O Ascensor da Bica (inaugurado em 1891) 9ª visita: O Chiado / Grémio Literário / Casa de Cruges
(hoje Monumento Nacional)

Em Lisboa, entre o Grémio e a Casa Havanesa, já se


começava a falar do «arranjinho do Ega».
8ª visita: O Chiado / Teatro Nacional de São Carlos
A curiosidade de Carlos levou-o ao Grémio: no
Grémio nenhum criado vira ultimamente o Sr.
Salcede. «Está por aí de lua-de-mel com alguma
bela andaluza», pensou Carlos...

Onde diabo morava então o Sr. Cruges? A criada dis-


sera que o Sr. Cruges vivia agora na Rua de S.
Francisco, quatro portas adiante do Grémio.
Eça de Queirós, Os Maias

10ª visita: O Chiado / Rua Garrett / Rua Nova do Almada

Havia dois anos, justamente quando Pedro perdera a mamã, aquele velho, o papá Monforte,
uma manhã rompera subitamente pelas ruas e pela sociedade de Lisboa naquela mesma
caleche com essa bela filha ao seu lado. Ninguém os conhecia. Tinham alugado a Arroios um
primeiro andar no palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a aparecer em S. Carlos, fazen-
do uma impressão — uma impressão de causar aneurismas, dizia o Alencar!
[...]
Depois, daí a duas semanas o Alencar, entrando em S. Carlos ao fim do primeiro acto do
Barbeiro, ficou assombrado ao ver Pedro da Maia instalado na frisa do Monforte, à frente, ao
lado de Maria, com uma camélia escarlate na casaca — igual às de um ramo pousado no
rebordo de veludo.
[...]
De outro modo, Carlos um dia, no Chiado, em S. Carlos, escarrava-lhe na cara. E, dado esse Saiu. E dera apenas alguns passos na Rua Nova do
desastre, Damasozinho, a não querer ser apontado em Lisboa como um incomparável Almada, quando avistou o Dâmaso, num coupé
cobarde, tinha de se bater à espada ou à pistola... lançado a grande trote, que o chamava, mandava
parar, com a face à portinhola, vermelho e radiante.
Eça de Queirós, Os Maias
Eça de Queirós, Os Maias

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Acerca
novas avenidas e aos futuros bairros construídos logradouros ajardinados.
por uma burguesia em ascenção. A partir da década de 30 o arquitecto começa a ter
A partir de 1780 aparece a iluminação pública da uma maior intervenção na construção de edifícios

dos locais
cidade, e em 1801 as ruas passam a ter o nome novos. É desta época a abertura da Alameda Dom
afixado. Afonso Henriques.

alguns
É o período Duarte Pacheco, Presidente da Câmara
EVOLUÇÃO PÓS-POMBALINA e posteriormente Ministro das Obras Públicas

visitados:
Após a vitória do Liberalismo e desde o termo da (1930-43). Constroem-se novos bairros assumida-
admi-nistração pombalina, a grandiosidade arqui-
tectónica acompanha os edifícios públicos: Basílica
da Estrela, Ópera de São Carlos, Palácio da Ajuda.
mente desenhados pelos novos urbanistas de ruas
largas e homogeneidade do desenho das fachadas,
(vulgarmente designados de estilo Português
apontamentos
Os limites da cidade são então sucessivamente Suave). Praça Luís de Camões Quintela, está o Palácio Quintela, comprado em
alargados sempre em «círculos», com centro na Antes da implantação da estátua do poeta designa- 1777 pelo fidalgo da Casa Real Luís Rebelo
zona da Baixa. O traçado das ruas obedecia a
ALGUMA BIBLIOGRAFIA va-se Largo do Loreto. As obras foram realizadas a Quintela. Com a derrocada da casa Quintela Farrobo
critérios resultantes da procura de habitação. MATOS, A. Campos (org. e coord.) - Dicionário de expensas do município - edital de 12 de Junho de foi adquirido pelo célebre comerciante “Monteiro
A construção do Teatro Nacional D. Maria II (1843- Eça de Queirós. Lisboa: Caminho, 1988 1860 – , já a estátua foi paga através de subscrição dos Milhões”.
46), do Arquitecto F. Lodi, em pleno Rossio pública nacional. A colocação da estátua foi prece-
Pombalino, com características neo-clássicas, é Revelar Lx dida da demolição de edifícios designados “casebres Estátua de Eça de Queirós - Largo Barão de
uma ruptura com o período anterior. Surge um novo http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=980 do Loreto”, e da terraplanagem do largo. Quintela
espírito de renovação e novos ideais estéticos. Consulta em 23 Março 2008 Depois do monumento a Luís de Camões, do
Aparecem jardins novos: S. Pedro de Alcântara, Monumento da Luís de Camões - Largo romântico Vítor Bastos (inaug. 1867, na praça do
Estrela, Princípe Real, bem como a plantação de Lifecooler Camões mesmo nome), Eça de Queirós foi o segundo
árvores no Rossio. Surge assim uma visão na-tural- http://www.lifecooler.com/edicoes/lifecooler/desen O Monumento a Camões foi inaugurado em Junho escritor português a ter homenagem escultórica
ista. O "Passeio Público" gera uma avenida e o vRegArtigo.asp?reg=355804&catbn=11 de 1867 e é da autoria do escultor Vítor Bastos. pública em Lisboa (inaug. 1903, Largo do Barão de
rompimento das perspectivas de desenvolvimento Consulta em 23 de Março de 2008 Destaca-se a figura de Camões, com quatro metros Quintela, ao Chiado). Talhado por Teixeira Lopes
da cidade de uma forma nuclear radio-concêntrica esculpida em bronze, que assenta sobre um (1866-1942), trata-se de um conjunto em que o
é absolutamente inovador. Lisboa Esquecida pedestal oitavado, rodeado por oito estátuas (de busto do escritor se curva sobre a estátua alegórica
Um novo eixo de desenvolvimento seguir-se-ia à http://jorgesilva.fotosblogue.com/1/ 2,40 metros de altura, em pedra de lioz) onde estão e sensual da «Verdade», uma das mais interes-
Avenida da Liberdade. A abertura da Rua Fontes Consulta em 23 de Março de 2008 representados vultos notáveis da cultura e das santes da escultura portuguesa novecentista. Mas
Pereira de Melo, que levou a expansão da cidade letras: o historiador Fernão Lopes, o cosmógrafo Teixeira Lopes modelou essa «Verdade» de braços
desde o Parque da Liberdade (hoje Eduardo VII) Ruas de Lisboa com alguma história Pedro Nunes, o cronista Gomes Eanes de Azurara, abertos e infelizmente colocou-a perto do nível do
até ao Campo Grande, passando pela Rotunda de http://aps- os historiadores João de Barros e Fernão Lopes de solo, à mercê de potenciais vândalos. Por isso,
Picoas, Avenida Ressano Garcia (Av. República) e ruasdelisboacomhistria.blogspot.com/2008/02/rua- Castanheta e os poetas Vasco Mouzinho de durante um século lhe partiram várias gerações de
toda a planificação das ruas adjacentes, paralelas e nova-do-almada.html Quevedo, Jerónimo Corte-Real e Francisco de Sá de dedos e braços, que se iam paulatinamente suce-
perpendiculares num desenvolvimento ortogonal. Consulta em 23 de Março de 2008 Menezes. O poeta é representado de capa e espa- dendo, a ponto de se ter resolvido substituir todo o
Era o plano Frederico Ressano Garcia, engenheiro da, vestido de acordo com a moda da época. conjunto (que espera restauro e colocação em
do município. Nascem as designadas «Avenidas História da Cidade de Lisboa museu) por outro mais duradouro, de bronze, aque-
http://webserver.cm- Rua do Alecrim
Novas», que definem o grande desafogo urbanísti- le que hoje se pode ver no local.
lisboa.pt/turismo/index99pt.asp?pa=ptihist.htm Sobe da praça do Duque da Terceira até à rua da
co da cidade de hoje.
Consulta em 23 de Março de 2008 Misericórdia. Cais do Sodré (Praça Duque da Terceira)
O começo da rua dá-se por uma subida acentuada A praça deve o seu nome à família Sodré, de origem
ÉPOCA MODERNA
Museu Nacional de Arte Antiga que assenta em dois arcos de volta abatida (cons- inglesa, que se estabeleceu neste local desde o séc.
Depois da Iª Guerra Mundial, preenchem-se as mal-
http://www.rpmuseus- truídos sobre armazéns abobadados, com entrada XV. Comerciantes, tinham a sua actividade associ-
has vazias resultantes dos traçados dos eixos das
pt.org/Pt/cont/fichas/museu_70.html pela rua de são Paulo), é um viaduto bem lançado ada ao comércio marítimo. Depois do terramoto
novas avenidas. A Avenida da Liberdade apresenta-
Consulta em 23 de Março de 2008 construído depois do Terramoto por ordem expres- habitaram o prédio pombalino do lado nascente da
se inequi-vocamente como eixo primordial da nova
sa do Marquês de Pombal. Este primeiro lanço da praça a que se deu então o nome de Remolares.
cidade. Aparecem então edifícios como o Hotel
Grémio Literário rua foi ocupado por escritórios comerciais e de Mais tarde, uma atribuição camarária mudou-lhe o
Palace e o Palácio de Castelo Melhor (Palácio Foz).
http://www.gremioliterario.pt/historia.php navegação e pelo hotel Bragança. Assim, esta nome para praça Duque da Terceira, mas a tradição
O estilo Arte Nova (tardio) revela-se em obras como
Consulta em 23 de Março de 2008 primeira parte da rua pertence à Lisboa reedificada oral tem sido mais forte.
o Cinema Tivoli do Arquitecto Raul Lino, o Éden
depois do Terramoto, outra parte dela entronca
Teatro e o Hotel Vitória, do Arquitecto Cassiano Estátua do Duque da Terceira - Praça Duque
numa artéria existente antes do Terramoto, dois
Branco. Surgem novos bairros com imóveis de da Terceira
terços da sua extensão correspondem à seiscentista
rendimento, ocupados por uma classe média em Na cidade de Lisboa, no largo do Cais do Sodré, ofi-
rua do Conde.
expansão. O equipamento de lazer constitui-se por cialmente Praça do Duque da Terceira, foi levanta-
Ao cimo da rua, em frente do largo Barão de

Suplemento ao guião * Página 12 Suplemento ao guião * Página 1


do um monumento em memória do general. A inau- tectos que foram responsáveis pela reconstrução da da e ocupada pelos exércitos cristãos (ocupação por
guração realizou-se solenemente a 24 de Julho de cidade após o terramoto. Castela em 1000 d.C.).
1877. António José de Sousa Manuel de Menezes Lisboa era então o mais opulento centro comercial
Chafariz do Largo de São Paulo
Severim de Noronha (Lisboa, 18 de Março de 1792 de toda a África e de uma grande parte da Europa.
O chafariz está situado no centro do Largo de São
- Lisboa, 26 de Abril de 1860), 7.º conde e 1.º mar- É abundante de todas as mercadorias; tem ouro e
Paulo, junto ao Cais do Sodré, e foi projectado por
quês de Vila Flor e ainda 1.º duque da Terceira, foi prata. Não faltam ferreiros. Nada há nela inculto ou
Malaquias Ferreira Leal, em 1848. Em 1850, o
um importante general e homem de Estado por- estéril; antes, os seus campos são bons para toda a
vereador das águas propôs que uma das bicas do
tuguês do tempo do liberalismo, sendo uma das cultura... os seus ares são saudáveis, e há na cidade
chafariz fosse destinada aos marítimos, mas estes
mais importantes figuras do tempo, tanto no plano banhos quentes. O alto do monte é cingido por uma
deveriam trazer os respectivos barris.
político, como, e talvez sobretudo, no plano militar. muralha circular, e os muros da cidade descem pela
De herói das guerras liberais tornou-se no líder O «Ramalhete» / Rua das Janelas Verdes encosta, à direita e à esquerda, até à margem do
incontestado dos cartistas, a facção mais conser- É a designação da casa dos Maias em Lisboa, que Tejo.
vadora do liberalismo português, embrião do futuro Eça situa na Rua de São Francisco, às Janelas
Partido Regenerador. Verdes, hoje Rua do Presidente Arriaga. Carlos da PRIMEIRA DINASTIA
Pertencente à mais genuína alta nobreza portugue- Maia só aí viveu dois anos. O historiador de Lisboa Em 1147, D. Afonso Henriques, 1º Rei de Portugal,
sa, teve múltiplos cargos e honrarias na corte, entre Rocha Martins afirma que a fonte de inspiração do conquista a cidade. Com a participação cristã, dá-
as quais, moço fidalgo da rainha D. Maria I, gentil- «Ramalhete» terá sido o solar dos Sabugosas, a se a expansão de Lisboa para além das suas mural-
homem da câmara de el-rei D. João VI, copeiro-mor Santo Amaro, situando-se este, no entanto, um has. Herdados do passado existiram dois arrabaldes
e estribeiro-mor. Exerceu as funções de marechal pouco mais a poente relativamente à Rua de São - a Baixa e Alfama. O braço do rio desaparece defin-
de campo, comandante-em-chefe do Exército Francisco. itivamente no séc.XIII.
Português, conselheiro de Estado, par do Reino, D. Fernando, então Rei de Portugal, perante as
tendo por quatro vezes (1836, 1851, 1842-1846 e Museu Nacional de Arte Antiga ameaças de Castela (Espanha), cria uma nova Vistas de Lisboa antes e após o Terramoto
1859-1860) exercido o cargo de Presidente do Rua das Janelas Verdes muralha de defesa designada por "Cerca de 1 de Novembro de 1755
Conselho de Ministros. Foi o 10.º capitão-general Foi inaugurado em 12 de Junho de 1884, con- Nova"(1373-75).
dos Açores, ali presidindo à Regência de Angra cretizando uma antiga aspiração surgida após a Dos 16 hectares do período mourisco a nova cidade tentes.
durante a fase inicial das guerras liberais. abolição das ordens religiosas, em 1834, de dar passa para 101,65 hectares, ou seja 6,5 vezes O terramoto abrangeu toda a zona da Baixa, os
destino às obras de arte que nessa altura passaram maior. A fixação definitiva da capital do reino, e por- bairros do Castelo e a zona do Carmo, ou seja, as
Hotel Central
para a posse do Estado. Reformado em 1911 e tanto da corte, dá-se no reinado de D. Afonso III. zonas mais intensamente urbanas da cidade.
É um dos locais mais referidos na obra de Eça, em
adquirindo então o nome que actualmente tem, o Lisboa é então o núcleo de um importante sistema Em sua substituição iria nascer a Lisboa Pombalina,
particular em «Os Maias». Fechou em 1919, tendo-
museu assumiu os contornos gerais que ainda hoje económico de trocas, localizando-se as pequenas com um urbanismo sujeito a regras fixas e de um
se aí instalado os escritórios da Sociedade Estoril.
mantém. Encontra-se instalado no palácio manda- propriedades em que predomina a cultura hortícula, cientismo pragmático que provoca admiração em
Hotel Bragança do construir no século XVII pelo 1º Conde de Alvor. na proximidade imediata, facto que poderá ter influ- todo o mundo. O seu principal impulsionador foi o
Situava-se na Rua do Ferragial de Cima, actual Rua Por volta de 1918 foi derrubado o arruinado enciado a localização dos dois mercados centrais de Marquês de Pombal, o Primeiro-Ministro do Rei D.
Vítor Córdon, no número 45. O seu nome deve-se Convento de Santo Alberto, contíguo ao palácio, hortaliças: Praça da Figueira e Praça da Ribeira. José, coadjuvado pelos arquitectos e engenheiros,
ao facto de no mesmo local ter existido o palácio prolongando-se as instalações do museu através da Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Carlos
dos Duques de Bragança, destruído por um incên- construção de um amplo anexo, projectado pelo SEGUNDA E TERCEIRA DINASTIA Mardel (1755-76).
cio em 1 de Agosto de 1841. Em 1915 instalaram- arquitecto Rebello de Andrade e inaugurado em D. João I , Rei de Portugal, cria a primeira urbaniza- O plano, sem dúvida inovador, baseia-se numa
se no edifício os escritórios das Companhias 1940. ção na colina do Carmo (1400). Pretendia assim dar direcção planificada de ruas alinhadas, cujas opções
Reunidas de Gás e Electricidade. Já depois do 25 de satisfação às necessidades de uma população sem- arquitectónicas assentam em regulamentos de
Elevador da Bica
Abril de 1974, ali funcionaram os serviços da pre crescente, expropriando para tal os campos. construção, tendo em atenção conceitos básicos de
Localização: Rua de S. Paulo/Largo do Calhariz
chamada Universidade Livre. A corte de D. Manuel I abandona o castelo e fixa o resistência às acções sísmicas.
Autoria: Raoul Mesnier de Ponsard
Paço Real no Terreiro do Paço, onde se centrou toda O sistema urbanístico obedecia a traçados de eixos
Igreja de S. Paulo Inauguração: 29 de Junho de 1892
a vida comercial da cidade (1500). de composição em que a simetria era tema obri-
Localização: Largo de São Paulo O elevador da Bica foi o quinto elevador construído
gatório, pretendendo-se usualmente destacar nos
Autoria: Arquitecto Remígio Francisco de Abreu em Lisboa, ligando a zona ribeirinha de S. Paulo ao
extremos, monumentos ou estátuas: a Rua
Data: Século XVIII Bairro Alto, servindo a numerosa população do bair-
Augusta com o arco triunfal, através do qual, no seu
A zona de São Paulo sempre foi uma zona comer- ro popular da Bica, tradicionalmente ligada às artes
DEPOIS DO TERRAMOTO DE 1755 eixo, se colocou a estátua de D. José.
cial preferencial e por isso mereceu particular do mar.
1755 marca para Lisboa a data de um período de Pombal criou incentivos de interesse à nova classe
atenção após o terramoto de 1755. A primitiva igre-
Bairro Alto desenvolvimento. O terramoto (no dia 1 de da burguesia comercial.
ja de São Paulo, que ficou destruída pelo incêndio
É por volta de 1500 que surge no Bairro Alto o Novembro, Dia de Todos os Santos, às 10h), e o A norte do Rossio é aberto o "Passeio
do sismo, teve o seu projecto de reedificação real-
primeiro loteamento (renascentista), que transfor- incêndio e maremoto que se lhe seguiram, devas- Público"(1764), zona de recreio da burguesia. Era
izado pelo Arquitecto Remígio Francisco, que seguiu
ma hortas e pomares em ruas e casario, crescendo taram dois terços da totalidade dos arruamentos e um jardim gradeado, com cascatas, lagos com
o traçado adoptado no Convento de Mafra. Aliás,
repentinamente como bairro popular, embora pos- terão destruido três mil casas das vinte mil exis- repuxos e coreto, que posteriormente foi aberto às
aqui se formaram os principais engenheiros e arqui-

Suplemento ao guião * Página 2 Suplemento ao guião * Página 11


1758, por ordem do Rei D. José I. O responsável 22 de Maio de 1775. No dia 6 de Junho, dia do teriormente se transformasse numa zona onde a frente ao cliente, e foi aqui que nasceu o termo
pela obra foi o Marquês de Pombal. O projecto da aniversário do monarca, esta estátua de 14 metros aristocracia viria a construir os seus palacetes. "bica", utilizado pelos lisboetas para designar uma
cidade foi da autoria de Eugénio dos Santos (arqui- de altura (contando com o pedestral), foi descober- O Bairro Alto marca a passagem do séc. XVI para chávena de café. A partir de 1920, torna-se o cen-
tecto e engenheiro). ta no meio de esplendorosas celebrações. XVII na vida urbana de Lisboa e a aquisição de uma tro onde se reúnem as tertúlias lisboetas, frequen-
No centro da praça, foi colocada a estátua equestre consciência urbanística e arquitectónica. tado por escritores, artistas, gente do espectáculo,
Café Martinho da Arcada - Praça do Comércio
de D. José, da autoria do escultor Machado de das ciências, revolucionários, etc.
É o café mais antigo de Lisboa. Fundado em 1782, Largo do Chiado
Castro. O interior de A Brasileira foi remodelado nos anos
o café Martinho da Arcada é considerado Duas hipóteses se colocam para a designação
O Arco Triunfal da rua Augusta foi projectado ainda sessenta, substituindo-se os quadros existentes por
património nacional. A mesa onde Fernando Pessoa toponímica deste local. Alguns autores dizem que
no tempo do Marquês de Pombal, mas só foi con- outros, da autoria de renomados pintores, como
tantas vezes saboreou um absinto é hoje objecto de provém da existência, por volta de 1560, de uma
cluído 80 anos mais tarde. João Hogan, Manuel Baptista, João Vieira, Azevedo,
culto para turistas dos quatro cantos do mundo que estalagem no local onde hoje em dia estão os
Vespeira, Eduardo Nery, Palolo e Noronha da Costa.
Estátua de D. José - Praça do Comércio chegam ao Martinho da Arcada. Armazéns do Chiado, de uma adega ou estalagem
Frequentado, entre outros ilustres, por Fernando
Da autoria de Joaquim Machado de Castro (nasc. que pertencia a Gaspar Dias, por alcunha “o
U M P O U C O D A H I S T Ó R I A Pessoa, a esplanada possui uma estátua do Poeta,
1736, Coimbra; mort. 1822, Lisboa), representa o Chiado”. Outros acreditam que tem origem no poeta
sentado a beber café, da autoria de Lagoa
rei, vestindo uma capa e um elmo de plumas, mon- D A C I D A D E D E L I S B O A popular quinhentista António Ribeiro Chiado.
Henriques.
tando um magnífico cavalo que pisa as serpentes Lisboa nasceu de uma «citânia» localizada a norte
Estátua do poeta António Ribeiro Chiado
da ignorância. Esta é talvez a alegoria mais pun- do actual castelo de S. Jorge. Este seria um dos Estátua de Fernando Pessoa
Inaugurada a 18 de Dezembro de 1925, por inicia-
gente deste conjunto equestre. muitos núcleos humanos desenvolvidos no período Fernando António Nogueira Pessoa, nasceu em
tiva da Câmara Municipal de Lisboa, para home-
Para além do esmagar das serpentes aos pés do pré-histórico. Através da acção povoadora dos Lisboa a 13 de Junho de 1888 e faleceu a 30 de
nagear o poeta António Ribeiro, conhecido por «O
cavalo real, outras alegorias são visíveis, retratando romanos (195 a.C.) e inerente desenvolvimento Novembro de 1935. Poeta e ensaísta, que expressa
Chiado» ou «O Poeta Chiado» (Évora, 1520 (?) -
a sabedoria, a sageza, a persistencia e a força do socio-económico, em breve lhe seria atribuída a de três maneiras diferentes, as várias sensibilidades
Lisboa, 1591), que foi um poeta jocoso e sátiro do
poder real. No magnífico pedestral em pedra surge- classificação de «município», usufruindo do seu da sua personalidade, fragmentando-se em hete-
século XVI, contemporâneo de Luís Vaz de Camões.
nos ainda, para além do escudo real, o retrato do equipamento urbano: monumentos, teatros, ter- rónimos, cuja vida e percurso descreve, dando-lhes
A estátua, de bronze, é da autoria de Costa Mota
primeiro-ministro Sebastião de Carvalho e Melo, mas. Existia um cruzamento de quatro estradas da a consistência do real. São eles: Ricardo Reis (médi-
(tio) e a base, em pedra lioz, de José Alexandre
mais tarde apodado como Marquês de Pombal. rede viária romana : três para Mérida e uma para co, que nasceu no Porto em 1887, fixando-se no
Soares. Nela se vê a representação do poeta senta-
Este trabalho, feito em bronze, que tem 14 metros Bracara Augusta (Braga). A sua característica de Brasil); Alberto Caeiro (sem educação ou formação,
do num pequeno banco, envergando o hábito de
de altura, foi a primeira estátua equestre realizada «opidum», onde os romanos centram a sua defesa nasceu em Lisboa, vivendo quase toda a sua vida
monge, sorrindo com escárnio, numa posição
em Portugal. estratégica, resulta do reflexo do terreno por um no campo e desaparece em 1915) e Álvaro de
arqueada, de convite.
O seu transporte, do Arsenal do Exército até à lado, e da protecção natural perante o estuário do Campos ( que nasce em Tavira em Outubro de 1890
Praça do Comércio, fez-se, em procissão solene, a Tejo e o braço deste rio que então se desenvolvia a Rua Garrett e é engenheiro naval). Associado a cada um destes
ocidente e penetrava profundamente no território. É uma das artérias do Chiado. Situa-se entre os heterónimos surgem os seus textos: diferentes não
Olisipo (começou assim por se designar a cidade) Armazéns do Chiado e largo do Chiado. só nas ideias como nas técnicas de composição e
ca-racterizava-se pela existência de um núcleo de Antes de ser de Garrett foi rua Direita das Portas de nos estilos. Alberto Caeiro foi aquele que mais se
população fixa defendida pela soldadesca. Nos Santa Catarina (1375 a 1707). Para lá destas portas distinguiu. Em vida, Fernando Pessoa publicou um
seus arrabaldes foi-se agregando um bom número da muralha fernandina (demolidas em 1707 para único livro de poemas portugueses, «A Mensa-
de famílias cultivadoras da terra que, em troco de deixar passar o cortejo de D. Mariana de Áustria, gem», editada em 1934. A estátua que, no Largo do
pão, fruta, vinho, legumes e gado, recebiam pro- mulher de D. João V), ficava Lisboa extra-muros. Chiado, recorda Pessoa, é da autoria de Lagoa
tecção e defesa. Estas portas assentavam no largo das duas igre- Henriques, recordando-o à mesa do Café A
A crise do séc. III que minava e fragilizava a jas, sensivelmente no eixo da rua entre a igreja do Brasileira, onde se sentava para escrever e falar
sociedade romana tem os seus reflexos em toda a Loreto e a da Encarnação. com os amigos.
Península Ibérica. As sucessivas invasões de novos Em 1856, a Câmara Municipal de Lisboa mudou-lhe
povos, quer germanos em 500 d.C. (visigodos, o nome para rua do Chiado, que até então apenas
suevos), quer árabes em 700 d.C., transformam a designava o que hoje é a rua Ivens até ao conven-
fisionomia da população. Devido ao clima de inse- to do Espírito Santo, e em 1880 mudou-lho, nova-
gurança e de guerra, a cidade adquire uma feição mente, para o do célebre escritor Almeida Garrett.
muito peculiar: fortaleza onde se refugiam os habi-
Café A Brasileira
tantes fugidos do avanço dos exércitos cristãos. É
Localização: R. Garret, n.º 120
uma população de ricos proprietários agrícolas e
Data: 19 de Novembro de 1905
comerciantes, que se transferem para o interior das
O café A Brasileira foi fundado por Adriano Telles, o
muralhas e constroem uma cidade opulentíssima
qual vivera largos anos no Brasil e aí mantinha con-
pelo trato e mercancia dos portos de África e Ásia.
tactos para a importação de bom café. Foi o
No período da Reconquista Cristã , a Lisboa muçul-
primeiro estabelecimento a vender cafés moídos em
mana é uma cidade cobiçada e várias vezes ataca-

Suplemento ao guião * Página 10 Suplemento ao guião * Página 3


Casa Havaneza reunindo o escol da sociedade lisboeta. aí foi instalada a Ourivesaria Xavier de Carvalho. Lisboa, quer pela sua construção, quer pela sua
Era uma tabacaria célebre, no Chiado, cuja fun- Os estatutos do Grémio Literário foram aprovados Ocuparam também o local a Livraria de Francisco localização no centro da cidade, quer ainda pela
dação data de 1865, local de encontro e cavaqueira por Carta Régia de D. Maria II em 18 de Abril de Arthur da Silva e o Sallon de la Mode de Francisco realização de verdadeiros arraiais por altura dos
de personalidades da burguesia e da política. 1846. Inicialmente corporação literária, passou Salles Ramos. santos populares, transformando-a num verdadeiro
Estendia-se até à Rua Nova da Trindade. «Pessoas mais tarde a acumular com o seu objecto cultural, Joaquim Albuquerque, um dos antigos sócios do teatro.
esbaforidas chegavam, rompiam pelos grupos que o recreio e o convívio. Café Chave d’Douro, adquiriu o espaço, em 2 de Em 1947, a vereação da altura decidiu o fim da
atulhavam a porta e, alçando-se em bicos de pés, Eça era sócio deste clube, que se situava na antiga Outubro de 1929. Tornou então a ser um café, de praça, prevendo o alargamento da rede viária de
esticavam o pescoço por entre a massa dos Rua de São Francisco, desde 1875. Quatro portas nome Nicola, para evocar a sua tradição, sendo Lisboa, que incluía a demolição do Socorro e zona
chapéus, para a grade do balcão, onde numa ta- adiante, em direcção à Travessa da Parreirinha, actualmente um dos cafés mais antigos do Rossio. baixa da Mouraria como forma de escoamento de
buleta suspensa se colavam os telegramas da hoje Rua Capelo, ficava o 1º andar onde residiu O seu empresário adoptou Bocage como imagem de trânsito, aproximando a cidade de Lisboa aos
Agência Havas» (Eça de Queirós in O Crime do Maria Eduarda n'Os Maias. marca. A nova fachada do café, executada em padrões europeus. Em 1949 festeja-se o último Stº
Padre Amaro). «A uma esquina, vadios em farrapos 1929, é do traço de Norte Júnior. A decoração do António, procedendo-se de seguida, a 30 de Junho,
Rua Nova do Almada
fumavam: e na esquina defronte, na Havaneza, interior era neoclássica. As telas foram executadas à demolição do edifício. 1968 é o ano da assinatura
Para obviar a tão graves e inconvenientes entraves
fumavam outros vadios, de sobrecasaca, politican- pelo pintor Fernando Santos e a estátua de Bocage do contrato para a construção da estátua equestre
à circulação citadina entre a Baixa e a cidade alta,
do» (Eça de Queirós in Os Maias). foi esculpida por Marcelino Norte d’Almeida. Em 24 de D. João I.
foi decidido abrir uma nova rua.
Foi remodelada totalmente em 1949, cedendo parte de Dezembro de 1935, foi encomendada ao arqui-
No "Mercurio Português", publicação periódica ini- Estátua de D. João I - Praça da Figueira
da sua área ao Banco Burnay em 1960, subsistindo tecto Raul Tojal uma redecoração interior, a qual
ciada no ano de 1663 mas de curta duração, numa Inaugurada em 1971, é da autoria de Leopoldo de
ainda, na altura, como tabacaria. É um dos esta- deu ao espaço um ambiente modernista. Ao lado do
notícia de Maio de 1665, encontra-se o seguinte Almeida e Jorge Segurado.
belecimentos célebres do mundo romanesco café, ligado por um grande corredor, havia uma sala
artigo sobre a RUA NOVA DO ALMADA: «e porque
queirosiano. de bilhar. A entrada para o bilhar era feita pelas por-
o cuidado da guerra (da Restauração) não Praça do Comércio (ou Terreiro do Paço)
tas dos actuais números 22 e 23 do Rossio, onde
Teatro Nacional de São Carlos embaraça o do Governo político, em 13 deste mês A Praça do Comércio é considerada a sala de visitas
existiu, em 1999, a Livraria do Jornal de Notícias, nº
Localização: Largo de São Carlos se começou, em Lisboa, a abrir uma formosa Rua, de Lisboa. Mede 4 hectares e tem 86 arcos. Mas
81-82. Célebre se tornou a quadra de Bocage, ao
Autoria: José da Costa e Silva de 30 a 35 palmos de largura, que começa na Rua nem sempre foi como nós a conhecemos.
ser interpelado pela polícia:
Data: 1792 da Calcetaria e sai ao Espirito Santo, muito conve- Aquilo que hoje é chão firme, há muitos anos, era
Edifício neoclássico, de inspiração italiana, o Teatro nientemente para formosura e serventia do Bairro Eu sou Bocage uma praia com areia e lodo. O rio inundava as ruas
venho do Nicola
São Carlos seria uma iniciativa de um grupo de bur- Baixo para o Alto da cidade e sobe tão invisível, e da cidade com muita frequência. Havia cais onde
vou p’ro outro mundo
gueses, contando com a influência de Pina sensivelmente, que quase parece que tudo fica se dispara a pistola. ancoravam os barcos.
Manique, intendente geral da polícia, para o rápi- plano. Por esta razão, há muitos anos que era dese- Perto do café encontra-se uma placa num edifício Era assim, em 1147, quando as tropas de Afonso
do desenvolvimento da construção. jada e se intentou. Nunca se conseguiu porque era que recorda o facto de Eça de Queirós aí ter vivido. Henriques tomaram Lisboa aos mouros.
Destinado fundamentalmente à opera e ao bailado, necessário comprar, e derrubar muitas casas que, Na época dos Descobrimentos, ali chegaram os car-
inaugura com a ópera La Balerina Amante, de naquele lugar, faziam vários becos estreitos, con- Praça da Figueira regamentos de especiarias e outros produtos prove-
Cimarosa. O edifício foi adquirido pelo estado em forme a fábrica antiga das cidades. Pode-se con- Nasceu em 1755, no terreno das ruínas do Hospital nientes das rotas da epopeia marítima. A praça foi
1854. seguir, com a resolução que tomou Rui Fernandes de Todos-os-Santos, impondo-se como mercado tendo cada vez maior importância comercial. Daí o
de Almada, que entrou a ser presidente do Senado central e destinado à venda de frutas e legumes. nome de Praça do Comércio.
Casa onde nasceu Fernando Pessoa - Largo Passou entretanto por vários nomes: Horta do
da Câmara, e por memória, ao autor da obra tão Aos poucos, e com o aumento de casas comerciais,
de São Carlos Hospital, Praça das Ervas, Praça Nova e Praça da
útil, quis o Senado que a Rua ficasse com o seu a areia e o lodo da praia foram substituídos por
A casa onde Fernando Pessoa nasceu e viveu até Figueira. De um local de bancadas diárias passou a
nome e se chama a RUA NOVA DO ALMADA». terra firme.
aos 5 anos, no Largo de São Carlos, em Lisboa, é praça fixa, com barracas arrumadas e um poço
Recorda-se ainda que esta área, no fundo da Rua Curiosidade: grande parte dos nomes das ruas
agora a sede de uma Sociedade de Advogados, a próprio.
Nova do Almada, era vulgarmente conhecida pelo próximas da Praça do Comércio diz respeito aos ofí-
ABBC. O Edificio pertencia a um fundo da Caixa Ao longo dos tempos, foi sofrendo algumas altera-
topónimo «Pote das Almas». cios ou aos materiais que em tempos se praticaram
Geral de Depósitos e tinha sido utilizado pela ções consoante as necessidades da população.
A nova rua de Lisboa, que muito justamente veio a ou circularam nelas: Rua dos Sapateiros, Rua da
Companhia de Seguros Fidelidade-Mundial. Assim, em 1835, é arborizada e iluminada, em 1849
ter o nome de quem tomou a iniciativa de con- Prata , Rua do Ouro, etc.
Grémio Literário cretizar a sua construção, por dificuldades no der- foi-lhe colocada uma cerca gradeada, coberta e com Ali também viveram reis e rainhas. Foi o rei D.
Rua Ivens, nº 37 rube de um prédio existente na esquina com a actu- 8 portas e em 1882 foi aprovado o projecto da nova Manuel I que resolveu deslocar a residência real
O Grémio Literário foi fundado em 1846 por diver- al Rua Garrett, que só o terramoto de 1755 teve praça, que consistia num edifício rectangular, com para junto do rio. Mandou construir o Palácio da
sas personalidades do liberalismo constitucional e força para o deitar abaixo sem protesto, após a estrutura metálica e ocupando uma área de quase Ribeira. Foi nesta época que o local passou a
setembrista, com o objecto social de promover a reconstrução pombalina da Baixa adquiriu o actual 8 mil metros quadrados. chamar-se Terreiro do Paço.
cultura, com neutralidade política, segundo propósi- traçado. Da venda de fruta e legumes, passou-se à Mas, em 1755, o grande terramoto de Lisboa,
to definido por Almeida Garrett. Alexandre transacção de outros produtos alimentícios destruiu o Palácio e a maioria das casas que existi-
Largo do Carmo necessários à população, fazendo da baixa lisboeta
Herculano e Fontes Pereira de Melo, pelos am na baixa lisboeta. O rei e a corte, com medo de
Em 1389, Dom Nuno Álvares Pereira, o fidalgo mais um local com um constante fervilhar de vida.
primeiros; Passos Manuel e Almeida Garrett, pelos um novo terramoto, passaram a viver na Ajuda.
abastado de Portugal, compra terrenos à família Desde logo, a praça tornou-se um dos emblemas de
segundos, lançaram esta sociedade que vem A reconstrução do Terreiro do Paço começou em

Suplemento ao guião * Página 4 Suplemento ao guião * Página 9


e Espada e a Carta Constitucional. Recentes em 1836, tinha sido destruído por um incêndio. Pessanha (antigos grandes proprietários da zona 1906. Tem uma altura de cerca de 32 metros, e liga
descobertas na base da estátua em meados de A escolha de um arquitecto italiano, Fortunato Lodi, por doação do Rei D. Dinis), e aos frades do a Baixa ao Largo do Carmo. De todos os elevadores
2001, durante obras de restauro, reafirmam se para projectar e executar o Teatro Nacional não foi Convento da Trindade, para aqui construir o de Lisboa, este exemplar da arquitectura de ferro,
tratar da figura de D. Pedro IV: dois frascos de isenta de críticas e só em 1842, Almeida Garrett Convento que dá nome ao largo. em estilo neogótico, é o mais monumental, com
20cm cada, contendo documentos e uma fotografia consegue dar início às obras. No século XVI já esta zona está urbanizada em uma arquitectura mais elaborada, recriando no ferro
revelada em albumina, que estão a ser analisados Em 1964 o Teatro Nacional foi «palco» de um bru- torno dos dois conventos: da Trindade e do Carmo. as inspirações medievais da arquitectura do
pelo Instituto Português de Conservação. tal incêndio que apenas poupou as paredes exterio- O Convento do Carmo é um exemplo da imagem da Convento do Carmo. Em 1939, passou para a posse
res. O edifício que hoje conhecemos, e que respei- destruição causada pelo Terramoto de 1755. da Carris. A sua utilização diminuiu com o incêndio
Teatro Nacional D. Maria II
ta o original estilo neoclássico, foi totalmente re- Neste largo destacam-se: do Chiado e fecho de alguns estabelecimentos co-
O Teatro Nacional abriu as suas portas a 13 de Abril
construído e só em 1978 reabriu as suas portas. - o antigo palácio do conde de Valadares. Por aqui merciais na zona. Fechado ao público durante 13
de 1846, durante as comemorações do 27 aniver-
passaram várias instituições, como por exemplo: o anos, por razões de segurança, foi reaberto em
sário de Maria II (1819-1853), passando por isso a
Clube Lisbonense (1834 a 1880), local de diversão Dezembro de 2005. Em 2002, foi classificado
exibir o seu nome na designação oficial. Na inaugu-
frequentado pela “fina flor” de Lisboa, o Liceu Monumento Nacional.
ração, foi apresentado o drama histórico em cinco
Nacional, o Liceu do Carmo, a Escola Veiga Beirão e
actos O Magriço e os Doze de Inglaterra, original de Casino de Lisboa
é hoje a Escola E. B. 2. 3. Fernão Lopes;
Jacinto Aguiar de Loureiro. Situava-se no Largo da Abegoaria, hoje Largo
- o Pátio onde desemboca, desde Junho de 1902, a
Mas a história do Teatro Nacional de Dona Maria II, Rafael Bordalo Pinheiro, no nº 10, num edifício com
ponte metálica do ascensor da travessa de Santa
começou dez anos antes da sua inauguração. Na janelas de pardieira redondas, de 3 pisos, exterior-
Justa para o largo do Carmo;
sequência da revolução de 9 de Setembro de 1836, mente ainda incólume, fazendo esquina para a
- o quartel, que mais não é do que o convento con-
Passos Manuel assume a direcção do Governo e Travessa da Trindade. Foi inaugurado em 26 de
vertido em abrigo militar, em 1834;
uma das medidas que tomou nesse mesmo ano foi Dezembro de 1857, com o nome Café Concerto.
- no centro está o chafariz que data de 1796, inte-
encarregar, por portaria régia, o escritor e político Entre 1860 e 1870, o can-can foi aqui o grande
grado na obra do Aqueduto das Águas Livres. De
Almeida Garrett de pensar o teatro português em espectáculo. Posteriormente passou a chamar-se
quatro colunas, coroadas de cúpula, é recoberto por
termos globais e incumbi-lo de apresentar "sem Casino Lisbonense. Em 22 de Maio de 1871 inicia-
um baldaquino de pedra composto de quatro arcos
perda de tempo, um plano para a fundação e orga- ram-se no rés-do-chão do edifício as chamadas
redondos sobre pilares.
nização de um teatro nacional, o qual, sendo uma Conferências Democráticas do Casino, que
Também neste largo se encontra a Ordem Terceira
escola de bom gosto, contribua para a civilização e Café Nicola logo passaram a realizar-se no amplo salão do 1º
de Nossa Senhora do Monte do Carmo, instalada
aperfeiçoamento moral da nação portuguesa". Por O Café Nicola existe desde finais do século XVIII. É andar. O casino Lisbonense acabou em 1876, pas-
num vulgar prédio desde 1780. Daqui saía, até
esse mesmo decreto, Almeida Garrett ficou encar- referenciado na Gazeta de Lisboa em 1787. O sando depois a estabelecimento de estofador. Já
1908, a procissão do Triunfo ou dos Santos Nus.
regue de criar a Inspecção-Geral dos Teatros e mesmo periódico menciona uma «liquidação da loja depois do 25 de Abril de 1974 passou para outras
Espectáculos Nacionais e o Conservatório Geral de grande de bebidas do café Nicola», em Julho de Elevador de Santa Justa mãos, que destruíram o salão do 1º andar, a gale-
Arte Dramática, instituir prémios de dramaturgia, 1794. Neste botequim vendiam-se cafés e refrescos Localização: Rua do Ouro/Largo do Carmo ria corrida de ferro que o sobrepujava e dois belos
regular direitos autorais e edificar um Teatro e era um local frequentado por jacobinos e maçóni- Autoria: Raoul Mesnier de Ponsard candeeiros de bronze que constituíam o seu grande
Nacional "em que decentemente se pudessem re- cos. Em 1825, o botequim foi trespassado por Inauguração: 10 de Julho de 1902 ornamento. É aqui que Eça coloca o baile de
presentar os dramas nacionais". Nicolau Breteiro a Rosa Maria de Athayde, mas o Em 30 de Abril de 1896, a Câmara Municipal de Carnaval do capítulo final do seu livro A Capital.
O ambiente Romântico que se vive nesta altura em negócio não lhe correu bem e, em 1829, mais uma Lisboa concedeu a autorização de construção e
toda a Europa determina a urgência em encontrar vez a Gazeta de Lisboa anuncia o trespasse do esta- exploração de um elevador em movimento vertical,
um modelo e um repertório dramatúrgicos belecimento com o seu recheio «de líquidos, bilhar das Escadinhas de Santa Justa ao Largo do Carmo,
nacionais, assumido que era que da afirmação de e jogo de gamão». O botequim Nicola deve a sua ao engenheiro Raul Mesnier. A sua construção ini-
uma «arte nacional» dependia uma melhor e mais fama ao poeta António Barbosa de Bocage que o ciou-se em 2 de Julho 1900. Na tarde de 31 de
exacta definição da própria nação. Ou seja, o frequentava no século XIX. Bocage declamava Agosto de 1901 procedeu-se ao assentamento da
aparecimento de um teatro (e de um repertório) neste estabelecimento sonetos improvisados, sua ponte metálica. A inauguração deste elevador
nacional era uma questão não só cultural como, atraindo ao botequim uma plêiade de intelectuais e ocorreu a 10 de Julho de 1902, às 12h, com o
sobretudo, política e assumida como um assunto políticos. Era um local de tertúlia. Mesmo depois da lançamento de doze morteiros. O elevador é todo
estreitamente ligado à própria independência da morte de Bocage, o seu grupo de amigos continu- construído em ferro. As suas duas torres estão
nação. ou a frequentar o botequim e aí se prosseguiram as inacabadas; segundo o projecto inicial, deveriam
Entre 1836, data da criação legal do teatro, à sua tertúlias. Tinha um empregado, José Pedro da Silva, rematar em cúpulas e minaretes, os quais nunca
inauguração, em 1846, funcionou um provisório que ajudava em tudo o que podia os poetas e muito foram construídos. Em cada torre existe uma cabi-
teatro nacional no Teatro da Rua dos Condes (mais valeu a Bocage em horas de necessidade, tendo na para transporte de 30 passageiros. As cabinas
tarde transformado em cinema Condes). inclusivamente sido este benfeitor que pagou o eram ligadas por um cabo de aço e duas correntes.
O local escolhido para instalar o definitivo Teatro funeral de Bocage. O elevador era movido por duas máquinas a vapor
Nacional foram os escombros do palácio dos O café Nicola encerrou em 1834. A loja foi trespas- com a força de 12 cavalos. À medida que uma ca-
Estaús, antiga sede da Inquisição e que, também sada ao sombreireiro Dias. No início do século XX, bina subia, descia a outra. Foi electrificado em

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Teatro da Trindade El-Rei D. Luiz de Portugal e a princesa Maria Pia de de 1885. Locomovia-se através do contrapeso de comissão sob a presidência do Marquês de Sá da
Localização: Largo da Trindade Saboia, em 6 de Outubro de 1862, novo penhor da água. Necessitava de 400 m3 diários de água para Bandeira.
Autoria: Miguel Evaristo de Lima Pinto fraternidade entre os dois povos”. funcionar. A água era fornecida pelo depósito das O projecto do monumento é da autoria de António
Data: 1887 A partir de 8 de Outubro de 1913 quis a Câmara Amoreiras. À noite, o interior do elevador era ilumi- Tomás da Fonseca, e as estátuas alegóricas
No local onde se situava o Palácio dos Condes de Municipal de Lisboa que se passasse a chamar de nado com velas de estearina. Durante um período (Independência e Vitória), da autoria de Simões de
Alva, antes do terramoto de 1775, foi construído o «Trindade Coelho», mas a tradição oral tem sido foi movido a vapor, estando a caldeira numa casa no Almeida e Alberto Nunes.
Teatro da Trindade, por iniciativa de Francisco mais forte, e todos lhe chamam largo de São Largo da Oliveirinha. Passou a funcionar por tracção
Estação do Rossio
Palha. Roque. eléctrica a partir de 1 de Agosto de 1914. Este ele-
Localização: Lg. D. João da Câmara; Lg. do Marquês
Inaugurado em 1887, com peça A Mãe dos Pobres vador apresentava a particularidade de se poder
Igreja de São Roque de Cadaval; Calçada do Carmo
e com a comédia O Xerex da Viscondessa, o viajar no tejadilho, em dois bancos corridos de
Localização: Largo Trindade Coelho, Rua de São Autoria: Arq. José Luís Monteiro
Trindade optou, desde logo, por apresentar um costas com costas, a chamada imperial, à qual os
Pedro de Alcântara Data: 18 de Maio de 1890
reportório ligado à opereta e à zarzuela (género de passageiros acediam por uma escada de caracol. A
Autoria: Baltazar Álvares e Afonso Álvares Edifício da autoria do arquitecto José Luís Monteiro
ópera espanhola na qual a música se combina com sua viagem custava um vintém. Passa a ser pro-
Data: Século XVIII que se caracteriza por uma fachada neo-manueli-
o diálogo falado). priedade da Companhia Carris de Ferro de Lisboa,
Existiu no local uma primitiva ermida construída na, sendo de realçar os seus elementos esculturais
Já no século XX, contou com a companhia Os em 15 de Dezembro de 1926. No ano de 2002 foi
entre 1527 e 1530 consagrada a São Roque, da autoria de Bartissol. Na plataforma deparamo-
Comediantes de Lisboa, sob a direcção de classificado Monumento Nacional.
padroeiro dos doentes com peste. Mais tarde os nos com uma nave de 21 metros de altura por 130
Ribeirinho. O espaço é ainda hoje um dos mais
terrenos são cedidos pela irmandade de São Roque Avenida da Liberdade / Passeio Público metros de cumprimento onde se destaca a sua
activos da capital, através da dinamização e actuali-
e por ordem régia à Companhia de Jesus, recém- Em 1859 o vereador Júlio Máximo Pimentel sugere cobertura de ferro, realizada por uma empresa de
zação dos espectáculos.
chegada a Portugal em 1534. A história da Igreja de na Câmara a abertura de uma avenida larga que li- construção belga. Nas paredes laterais de toda a
Largo Trindade Coelho São Roque está ligada ao programa religioso impos- gasse o Passeio Público do Rossio a São Sebastião gare de embarque, é ainda de realçar os painéis de
Também conhecido como Sítio de São Roque to pelo Concílio de Trento, em que os estabeleci- da Pedreira. A 24 de Agosto de 1879 inauguram-se azulejos, que formam uma autêntica galeria de
Norberto de Araújo chamou-lhe o “cérebro do mentos jesuíticos obedecem ao carácter didáctico os trabalhos para abertura da avenida a partir do arte.
Bairro Alto”. representado por colégios e universidades. A igreja plano do arquitecto Domingos Parente. Com a Em 14 de Dezembro de 1918, Sidónio Pais é assas-
Antes da construção da ermida de São Roque, que do século XVIII é ampla e sólida, apresenta uma só avenida ainda por concluir, a 25 de Maio de 1886, sinado à entrada da estação do Rossio, quando se
depois foi igreja, era terra de hortas e muitas nave, desenvolvendo-se em andares com as foi realizado o baptismo oficial com um desfile mili- dirigia para o Porto.
oliveiras. Quando em 1506 Lisboa sofreu uma respectivas tribunas. No seu interior encontram-se tar, integrado no programa de festas do casamento
Rossio
grande peste foi necessário improvisar um oito capelas, agrupadas quatro a quatro, e de uma de D. Carlos, ainda príncipe, com a princesa Dona
Anteriormente Rossio de Valverde, espaço onde
cemitério fora da cidade, e no triste “chão fúnebre” capela-mor cuja iconografia reúne os principais Maria Amélia de Orleans. A avenida é a natural con-
existiu, até ao Terramoto de 1755, o convento de
o rei mandou construir uma ermida dedicada a São santos devocionais da Companhia: São Francisco tinuação da praça dos Restauradores, ligando-a à
São Francisco (séc. XII), o palácio dos Estaús (séc.
Roque, padroeiro contra as pestes. Em 1533, os Xavier, São Luís Gonzaga, São Francisco de Borja e praça Marquês de Pombal.
XV) e o Hospital de Todos-os-Santos (séc. XVII).
padres jesuítas tomaram conta da ermida e, dois Santo Inácio de Loyola.
Praça dos Restauradores Hoje praça D. Pedro IV, consequência do traço ri-
anos depois, começou a ser construída a igreja que
São Pedro de Alcântara (Jardim de) A construção de uma praça figurou desde o início goroso da Lisboa pombalina e da homenagem ao
prestigiou o Bairro Alto.
É um dos miradouros notáveis de Lisboa, no Bairro no projecto de abertura da avenida da Liberdade, Rei Liberal.
Neste largo destacou-se o Palácio Niza, erguido em
Alto, de onde se pode ver uma magnífica paisagem mas foi uma das últimas obras a concretizar devido
1543, que o Terramoto arruinou e os proprietários, Estátua de D. Pedro IV - Rossio
de Lisboa, que se estende até ao Tejo. à relutância de alguns lisboetas anónimos e de fi-
fidalgos, descendentes de Vasco da Gama, não Encontra-se no centro da praça. Na sua base, as
A alameda data de 1840. As grades da plataforma guras proeminentes na sociedade de então. Em
quiseram reconstruir. Os sucessivos donos vão quatro figuras femininas são alegorias à Justiça, à
inferior datam de 1864, para evitar suicídios. Outubro de 1882 foi finalmente demolido o que
alterando o seu aspecto e funções (Teatro Sabedoria, à Força e à Moderação, qualidades
restava do jardim do Passeio Público, possibilitando
Pitoresco, a Escola Académica, a antiga Companhia Elevador da Glória atribuídas a D. Pedro.
assim a construção da praça no centro da qual figu-
de Carruagens, o Jornal “A Manhã”), até que em Localização: Praça dos Restauradores/S. Pedro de Criou-se uma lenda urbana de que a referida está-
ra o monumento em memória dos Restauradores de
1926 é vendido à Misericórdia de Lisboa. Alcantâra tua de D. Pedro IV na verdade teria sido original-
1640.
O arquitecto Tertuliano Marques fez as obras de Autoria: Raoul Mesnier de Ponsard mente concebida para o imperador Maximiliano do
adaptação sobre as fundações antigas. Inauguração: 24 de Outubro de 1885 Monumento aos Restauradores México. Consta que o imperador mexicano teria sido
Em 1860 a CML, na tentativa de regularizar e afor- É o segundo elevador projectado pelo engenheiro Inauguração: 28 de Abril de 1886 fuzilado, em 1867, pouco antes da estátua ter sido
mosear o largo, manda destruir os casebres ali Raul Mesnier du Ponsard e fabricado pela Nova O alto obelisco, erigido em 1886, comemora a liber- finalizada para o envio, prontamente reaproveitada
construídos sobre a ruína de casas fidalgas, depois Companhia de Ascensores de Lisboa, a qual obteve tação do país do domínio espanhol em 1640. para o projeto de revitalização do Rossio, o que
do Terramoto, e em 1863 dá ordem para arborizar. licença camarária de construção em 1875, sendo As figuras de bronze do pedestal representam a explicaria as semelhanças entre ambos. Vários estu-
Também ali se encontra uma “memória” - hoje vul- esta consecutivamente prorrogada, iniciando-se a Vitória, com uma palma e uma coroa, e a diosos, como o historiador José Augusto França em
garmente designada de “palmatória” - oferecida, obra em 1883. A construção deste ascensor foi Liberdade. Os nomes e datas nos lados do obelisco A arte em Portugal no século XIX, já se demons-
em 1862, pelos italianos residentes em Lisboa, muito atribulada, sendo alvo de protestos, embar- são os das batalhas da Guerra da Restauração. travam contra essa teoria, posto que a peça apre-
comemorativa do casamento do Rei D. Luís. Onde gos, exigências de indemnizações avultadas e O Monumento foi custeado por subscrição pública, senta claros sinais de se tratar duma figura nacional
se lê: “Pelo fausto consórcio de Suas Magestades desastres. Foi, por fim, inaugurado a 24 de Outubro aberta em Portugal e no Brasil, e gerida por uma portuguesa: os escudos nos botões, o colar da Torre

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