Estudo Crítico de Niels Lyhne, de Jacobsen
Francisco José Melo 1
Quando se procede a um recorte temporal, tomando por base 1880, ano da morte de Gustave Flaubert, depara-se com certas concomitâncias realistas, marcadas pela escrita ou publicação – no todo ou em parte – de obras mais próximas ou mais distanciadas dos padrões realistas vigentes na época. No ano da morte de Gustave Flaubert, na França, Guy de Maupassant publicou a novela Bola de sebo; e Émile Zola editou o romance Nana; no Brasil, no ano seguinte, Machado de Assis iniciou o Realismo brasileiro com a obra Memórias póstumas de Brás Cubas; e Aluísio Azevedo deu início ao Naturalismo com a obra O mulato; na Dinamarca, Jacobsen vem a publicar Niels Lyhne; em Portugal, Eça de Queirós escreve A capital!, embora sua publicação só aconteça após a morte deste romancista português;e na Rússia, Dostoiévski escreve Irmãos Karamázov para publicá-lo em 1881. Dentre a ficção realista supracitada, analisaremos os aspectos estruturais, composicionais de personagens, o tempo e os espaços narrativos do romance dinamarquês Niels Lyhne. Ainda abordaremos a classificação e o estilo romanescos para destacar, neste ponto, a presença do lirismo, que assegura à obra um caráter bastante diferenciado dos moldes tradicionais da escola realista de então. Jacobsen, assim como Machado de Assis, sem se preocupar com os dogmas de escola, não fez uma obra endereçada a um momento, mas escreveu um romance de interesse permanente.
I. O romance, segundo Lukács, é a forma sucedânea da poesia épica que corporifica a perda da pátria transcendental da idéia e o incômodo frente o transcorrer lento e constante do tempo: Niels Lyhne é a epopéia da temporalidade e da desilusão. O procedimento de Jacobsen na construção do romance mereceu de Lukács o seguinte comentário: O romance da desilusão de Jacobsen que traduz em maravilhosas imagens líricas a desolação de encontrar ‘no mundo
1 Doutorando em Teoria da Literatura.
tanta elegância sem significação’ desagrega-se, e a sua tentativa de descobrir uma positividade desesperada no ateísmo heróico de Niels Lyhne, na coragem com que ele assume a sua solidão necessária, dá a impressão de um procedimento imposto do exterior que se mantém alheio à obra propriamente dita. (Lukács, G. Teoria do romance. p.126) O esteticismo de Jacobsen, que impressionou Lukács, é o investimento no vazio existencial como núcleo narrativo, no qual sobressai o transcurso efêmero do tempo, do momento que se vai como substituto do fluxo superior da idéia. Lukács chama “romance da desilusão” ao romance intimista do século XIX que ressalta o fato de o herói recusar-se a se realizar no mundo, refugiar-se nele mesmo e julgar impossível o combate com o exterior. A desilusão deriva do fato da subjetividade não ter força diante do curso inerte e contínuo da duração. Para Lukács, a ação do romance constitui um combate contra os poderes do tempo, que resulta nas vitórias obtidas sobre o tempo. Niels Lyhne é um herói problemático. Ele carrega em si projetos que não se concretizam: quer ser poeta, mas não consegue produzir nenhum poema; é um conquistador fracassado; e suas idéias mais caras, como o alentado ateísmo de que se proclama defensor ardoroso, são postas à prova até que venha a abdicar do pensamento norteador de sua vida. Niels é devorado pelas forças do tempo; é eliminado no combate inglório com a duração temporal. Niels é o herói que não se realiza, pois fora antecipadamente derrotado pelos revezes do tempo contra o homem. Para Lukács, o romance da “desilusão amorosa” enfatiza a experiência subjetiva do herói, cuja tarefa é interpretar o mundo a partir do interior de sua própria consciência. Lucien Goldmann, retomando a teoria de Lukács em A sociologia do romance, assegura que o romance psicológico é aquele que é orientado para a análise da vida interior do herói, cuja consciência é demasiadamente vasta para contentar-se com o que o mundo da convenção lhe pode propiciar. (Op. cit., p.10) O romance de Jacobsen é psicológico, pois nele analisa-se o drama da subjetividade solitária de Niels Lyhne frente às engrenagens desconcertantes do mundo exterior que não o compreende. Niels é um herói problemático, já que ele empreende uma busca degradada de valores autênticos num mundo de conformismo e convenção (Goldmann, Op.cit., p.9). Niels sente-se poeta, mas a realidade não lhe facultou os meios para tal empreendimento, ao contrário, fez com que ele se afastasse definitivamente de seu ideal. Niels apaixona-se por mulheres que lhe são logo subtraídas para criar, em seu espírito, a sensação de vazio e de irrealização existencial.
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II. O enredo de Niels Lyhne é o seguinte: no capítulo I, o narrador apresenta a mãe de Niels Lyhne, Bartolina, seu noivado e casamento com Lyhne. Em sua sensibilidade romântica, acreditava que Lyhne possuía um espírito poético, mas, com o casamento, decepciona-se com o marido, a quem vê como uma natureza inferior. Nasce o primeiro filho do casal Niels. No capítulo II, apresenta-se a infância de Niels ao lado da mãe e do pai. O espírito de Niels começa a se delinear ali, naqueles momentos felizes de sua infância. No capítulo III, narra-se a adolescência de Niels e a entrada de dois personagens: o preceptor Bigum e tia Edele. Niels apaixona-se por tia Edele. O preceptor também. Ambos são rejeitados. Edele morre vitimada pela tuberculose. O capítulo IV é uma reflexão de Niels sobre o atual estágio de sua vida: ele renunciara a fé após a morte de tia Edele. No capítulo V, há a entrada do personagem Erik. Primo de Niels, Erik vem morar com o tio Lyhne após a morte do pai. Com Niels e Frithjof, forma um trio nas brincadeiras de adolescente. No capítulo VI, entra em cena a senhora Boye, por quem Niels se apaixona a despeito da oposição da família, que vê nela um tipo vulgar. No capítulo VII, o narrador trata do relacionamento de Niels e a senhora Boye. No capítulo VIII, relata-se a volta de Niels ao lar, chamado pela mãe, diante da morte do pai. Num contato maior com a mãe, empreende uma viagem com ela. Ela, doente, vem a falecer. No capítulo IX, há o rompimento da ligação amorosa entre Niels e a senhora Boye. Ingressa na narrativa Dr. Hjerrild, que trava com Niels um diálogo sobre o ateísmo. No capítulo X, conta- se o passeio que Niels e Erik fizeram à fazenda do Conde Claudi. Lá conhecem a filha do Conde, Fennimore, por quem Erik fica apaixonado. No capítulo XI, Niels faz um passeio à casa do amigo Erik, que se encontra casado com Fennimore. Lá ele mantém um relacionamento com a esposa do amigo. Erik morre num acidente, e o caso termina amargamente após a trágica morte do amigo.No capítulo XII, na Itália, Niels tem uma paixão passageira por Madame Odero, uma cantora de ópera. No capítulo XIII, Niels, de volta a Lonborg, casa-se com Gerda e tem um filho. Gerda morre e, em seguida, seu filho também morre. No capítulo XIV, Niels vai lutar na guerra dos Ducados: é ferido e morre a árdua morte.
III. Quanto ao foco narrativo, o romance de Jacobsen adota uma postura tradicional:
é escrito em terceira pessoa, muna seqüência linear em que se conta a história de Niels Lyhne, cronologicamente, ou seja, do nascimento à morte do protagonista. O narrador é heterodiegético, pois apenas apresenta os acontecimentos sem deles participar, isto é, limita-se ao papel de narrador, sem que lhe seja permitido atuar na narrativa como personagem.
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IV. Conforme Roland Bournneuf e Réal Ouellet, em O universo do romance, o romancista fornece sempre um mínimo de indicações “geográficas”, sejam elas simples pontos de referência para lançar a imaginação do leitor ou explorações metódicas dos locais. (p.130) Jacobsen situa a narrativa na Dinamarca: os pais de Niels viviam na pequena Lonborg, onde viera a nascer o protagonista. A provinciana Lonborg mantém com a capital Copenhague uma relação de afastamento. Os habitantes da cidadezinha, numa atitude de auto-afirmação, fazem circular sobre a Capital o seguinte:
O próprio modo de dizer “Copenhague” ora com um acento de terror, como se fosse um lugar onde as criancinhas são devoradas, ora com uma distância na voz, como se fosse uma cidade do interior da África, ou então num tom enfático de reminiscências históricas, como se falassem de Nínive ou Cartago! ( Jacobsen, J.P. Niels Lyhne. 2ª ed. São Paulo: Cosac & Naify , 2001,p.58. Todas as citações serão retiradas dessa edição, indicando-se, no texto, somente a página.) Edele Lyhne, ao chegar a Lonborg, vinda da Capital, para tratar-se de males do pulmão, sente um choque cultural entre os hábitos provincianos do local e sua visão cosmopolita adquirida num grande centro. Ela, entediada, sente-se assim:
Não havia nada em Lonborg que não lhe desagradasse: as horas das refeições, reguladas pelo sol, esse perfume de lavanda nas gavetas e nos armários, essas cadeiras rígidas, todos esses móveis provincianos que se alinhavam de encontro às paredes como se temessem os homens; o próprio ar a contrariava, não se podia fazer um passeio sem trazer para casa um acentuado odor de feno e de capim no cabelo e na roupa (p.58). Com o objetivo de realizar estudos numa universidade, os jovens estudantes Niels, Erik e Frithjof se deslocam até Copenhague. Para eles, o mundo mudou inteiramente. Passam a ser seduzidos pelas novidades e modismos postos em circulação na capital dinamarquesa:
A família de Niels Lyhne em Copenhague, sobretudo o velho Conselheiro e sua mulher, não andava satisfeita com as companhias que ele escolhera. Não eram tanto as novas idéias que afligiam, e sim o cabelo comprido, as botas de caçador muito altas e um certo desleixo na aparência, certa sujeira mesmo, com os quais alguns jovens acreditavam servir essas idéias. (p.102-103) Um acontecimento força Niels a retornar a Lonborg: seu pai morre, e a mãe adoece. Para cumprir uma antiga promessa que fizera a sua mãe de uma viagem ao estrangeiro, eles passeiam pela Savóia. Em Clarens, a mesma Clarens paradisíaca da Júlia de Rousseau, sua mãe morre, e Niels enterrou-a no cemitério desta localidade. Niels volta à Dinamarca, ao ambiente
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mundano de Copenhague. Vai ao encontro da senhora Boye. É informado pelo porteiro que ela habitava agora uma vila nas proximidades da Fonte Emília, nos arredores de Copenhague. Convidado por Erik a visitá-lo em Mariagerfjord, a leste de Jutland, onde mora com sua esposa Fennimore, Niels, atendendo o convite do amigo, passa uma temporada com o casal. Após a morte acidental de Erik, Niels viaja pelo estrangeiro durante a maior parte dos dois anos seguintes. Em Riva, conhece Madame Odero, uma cantora lírica. De volta a Lonborg, casa-se com Gerda. Após a morte precoce de Gerda e do filho de apenas um ano, Niels deixa definitivamente Lonborg para lutar como voluntário na guerra, onde, atingido no peito por uma bala, morre. Apesar de escrever na época do realismo, em que se valorizava a descrição minuciosa do espaço, Jacobsen refere-se minimamente ao ambiente: o inventário dos locais surge somente em função de acompanhar o deslocamento do protagonista.
V. O romance é visto como um espaço onde o texto, página após página, se organiza à maneira de uma sucessão de quadros sobre um fundo físico que dá à narrativa a sua configuração própria. (Bournneuf & Réal. Op. cit, p. 169) Jacobsen, ao construir uma narrativa linear, dispôs o tempo de forma cronológica: a vida de Niels Lyhne nos é contada do seu nascimento à sua morte, numa seqüência temporal organizada cronologicamente. Jacobsen preferiu narrar conforme a tradição em uso no século XIX, pois o escritor é tributário de modas e de processos da sua época, ao imitá-los ou ao recusá-los. (Bournneuf e Réal. Op. cit.,
p.190)
A par disso, no desenvolvimento da narrativa, observamos que o autor faz inúmeras menções ao tempo, seja através da alusão a fatos históricos do século XIX na Europa, com os quais a Dinamarca se envolveu, como, por exemplo, a guerra dos Ducados, que teve início em janeiro de 1864. Nesta guerra, vai lutar, no plano da ficção, Niels Lyhne e nela vem a sucumbir após um tiro no peito. Também há referências à morte do rei da Dinamarca Frederico VII, ocorrida em 1863. Com a morte do rei, desencadeou-se a guerra, conforme trecho do romance:
Então chegou aquele dia de novembro em que morreu o rei, e a guerra começou a tornar-se cada vez mais iminente. (p.278) Porém, Niels Lyhne não é um romance histórico. Os acontecimentos só comparecem quando repercutem na vida da personagem, como foi o caso do episódio histórico supracitado. O Autor indica a passagem do tempo à medida que narra a trajetória do protagonista, seja na menção da corrida veloz do tempo ( E os anos fugiam. Um Natal seguia-se ao outro), seja na
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referência a festas do calendário ( festa que se prolongava até depois do dia dos Reis, as férias de Pentecostes, O Natal chegara), seja na marcação do crescimento físico de Niels ( O tempo desses brinquedos, no entanto, passava, Niels Lyhne de Lonborg, que tinha vinte e três anos de idade, Como éramos tolos aos vinte anos!). Apesar do manejo do tempo cronológico pelo autor, em certas passagens, há a presença do tempo psicológico, ou seja, o tempo é observado a partir da repercussão dos acontecimentos no mundo interior da personagem. O tempo é visto de dentro para fora, numa linha mais intimista e impressionista da percepção temporal. A referência ao tempo está diretamente ligada à sensibilidade da personagem diante dos eventos aos quais estão submetidas. São impressões temporais que remetem: às estações do ano (O outono foi desastroso para a saúde de Edele, e o inverno acabou de lhe extinguir as forças. A primavera não encontrou mais o menor germe de vida para reaquecer); aos meses do calendário ( Em maio veio o fim, em um dia de sol, um desses dias em que as cotovias não cessam de cantar um só momento, Numa ensolarada tarde de setembro, Em um dia triste de março, foi atingido no peito por uma bala ); às festas religiosas ( Devia procurar uma maneira de passar essa noite de Natal, as férias de Pentecostes desligavam sobre os prados floridos pela primavera); e ao crepúsculo, definido por Hermann Bang, como eminentemente “dinamarquês” ( As árvores escondiam o ouro e o esplendor do pôr do sol).
VI. Niels Lyhne, como protótipo das personagens do romance em análise, é
extremamente complexa. Segundo a classificação de E.M. Forster, em Aspectos do romance, Niels Lyhne deve ser considerado uma personagem redonda, já que ele é capaz de surpreender
Possui a incalculabilidade da vida – a vida dentro das páginas de
um livro.(p.75) Jacobsen trata as personagens como seres complicados, que não se esgotam nos traços característicos, mas têm certos poços profundos, de onde pode jorrar a cada instante o desconhecido e o mistério. (Candido, Antonio. A personagem de ficção. p.60) As personagens
jacobsenianas surpreendem: Niels, contra seu ateísmo, eleva uma prece a Deus quando seu filho agoniza à beira da morte; paira na ambigüidade o que Erik sente por Niels; enfim, as personagens mantêm-se no terreno da indefinição para melhor sugerir a complexidade que as orienta no desenvolvimento da narrativa. A narrativa é inteiramente centrada na figura de Niels Lyhne. As demais personagens surgem em função dele e saem de cena à medida que não importam mais ao protagonista. O romance é, então, um desfile de personagens que fizeram parte da vida de Niels, no percurso
de modo convincente. (
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que este empreende da infância à morte em plena maturidade existencial, passando por sua adolescência e juventude. Dentre essas personagens, figuram as mulheres que despertaram em Niels uma gama de interesses, principalmente de ordem sexual e amorosa. Fazem parte desse universo feminino, as seguintes personagens:
Bartolina: mãe de Niels; exerce forte ascendência sobre o menino, ao qual tenta passar uma educação voltada para a sensibilidade literária. Ela pretende transformá-lo num
poeta. No seu leito de morte, ela obtém do filho a revelação de que seu desejo finalmente havia se tornado realidade: Niels, para sua felicidade, diz-se poeta. A marcante descrição de Bartolina abre o romance. Em seu retrato, é posto o acento nos traços de beleza e nos encantos femininos:
Ela possuía os olhos negros e cintilantes da família Blide, com suas finas e retas sobrancelhas, tinha o nariz proeminente, queixo forte e lábios carnudos. Herdara também o vinco dolorosamente sensual no canto da boca e os movimentos nervosos da cabeça, mas suas faces eram pálidas, e o cabelo sedoso marcava nítida e suavemente o contorno do rosto. (p.31) Edele: irmã do Sr. Lyhne e tia de Niels, Edele é a primeira paixão do Niels recém- entrado na adolescência. Chega a Lonborg para tratar da saúde, fragilizada pela tuberculose, e logo exerce um poder sedutor sobre Niels. Apaixonado pela tia, sofre bastante quando ela morre, deixando um imenso vazio no peito e a primeira desilusão amorosa no coração do jovem Niels. Edele é descrita com as tintas da paixão:
a beleza de Edele é que o apaixonara, que nem qualidades do coração nem as do
espírito o tinham enfeitiçado, e sim a sua elegância, suas maneiras mundanas, sua altivez, até
mesmo sua graciosa indolência. (p.63) Senhora Boye: amante de Niels quando estudante em Copenhague. Niels vive a terceira etapa de um aprendizado amoroso: o do desejo amoroso com seus planos de conquista. Senhora Boye proporciona-lhe um ambiente boêmio, em meio a jovens artistas, futuros poetas, pintores, atores e arquitetos. Um acontecimento inesperado muda o rumo das coisas: seu pai morre e, quando retorna a Copenhague, encontra a Sra. Boye noiva de outro e totalmente indiferente a seu amor. Niels sofre uma segunda desilusão amorosa. Fennimore: prima de Niels, por quem ele se apaixona, mas, ao disputá-la com o amigo Erik, perde-a para o amigo, que se casa com ela. Passados dois anos, Erik convida Niels para visitá-los. Aceite o convite, Niels passa a conviver com o casal e torna-se amante de Fennimore. Niels acredita que este seja o amor de sua vida. Nesse ínterim, ocorre uma catástrofe: Erik sofre um acidente e morre. Fennimore sente-se culpada e expulsa Niels de sua
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vida, sob a alegação de que ele fora culpado pela morte do marido. Niels sofre a terceira decepção amorosa. Madame Odero: cantora de ópera que Niels conhecera numa viagem que realizara a Riva. Tem por ela uma paixão rápida, de apenas alguns dias. Ela partiu sem que houvesse tempo para a despedida. Niels depara-se com mais essa decepção amorosa. Gerda: jovem de dezessete anos e seu último amor. Niels casa-se com ela, mais para ter uma companhia do que uma companheira. Com ela, tem um filho. Ela e o filho morrem, deixando-o num imenso vazio. Niels sofre a última e mais dolorosa desilusão afetiva. Numa análise de Gerda, assim se posicionou Lilia d’Onofrio em Nove ensaios de crítica literária:
Outra heroína de Jacobsen em seu leito de morte exclama: “É impossível, Niels, que tudo desapareça com a morte”. Palavras que pronuncia Gerda, a esposa muito amada de Niels Lyhne, no momento que a devora irremediável desânimo. Ela, por amor a seu marido, que é ateu, renunciou a Deus; porém, em transe de morte, reclama o consolo divino. Tal feito significa que, no instante de morrer, se operou, na alma da jovem, a integração de sua verdadeira existência. Pois, como sustenta Heidegger, a morte não é um acontecimento da “existência do mundo”, apenas a existência em si mesma que chega à totalidade pela morte. O ser para a morte, a morte como elemento da existência. (p.94) Fora o universo feminino, a personagem masculina a quem Niels Lyhne dedicou maior atenção foi Erik Refstrup. Órfão de pai, é entregue pela mãe ao primo Lyhne, que o
acolhe. Erik tinha catorze anos quando passa a morar com os Lyhne. Ele, por ser mais extrovertido e decidido, exerce forte influência sobre o amigo Niels, gerando entre eles uma teia de sentimentos contraditórios, numa zona próxima ao amor:
desde
os primeiros dias ele se afeiçoara a Erik, e este apenas se deixava amar,
arisco e frio, meio contrariado e meio desdenhoso. (p.85) Segundo H. Blüher, à luz da psicanálise, as relações de Niels são de natureza bissexual: ele ama as mulheres sem deixar de amar Erik, sua verdadeira e definitiva paixão (Cf. H. Blüher. N.Lyhne de J.P. Jacobsen e o problema da bissexualidade. Viena: Imago,1912)). Frithjof: filho do pastor de Lonborg e amigo de Niels, Frithjof esteve presente na infância e na adolescência de Niels, mas viu sua atuação minguar na trama romanesca ante à crescente importância dada por Niels a Erik. Antes da chegada de Erik, Frithjof era o dileto companheiro de Niels: eles brincavam juntos e se divertiam a valer, numa relação fraternal:
procurava
Frithjof e contava ao amigo a história que o livro não lhe contara.
Caminhavam de braço dado, um deles falando, ambos escutando, e quando queriam gozar de
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fato a narrativa, viver plenamente a fantasia, então se escondiam no palheiro, na obscuridade perfumada pelo feno. (p.49) A amizade entre eles é, entretanto, solapada pelo domínio de Erik sobre Niels. Frithjof vive o drama do amigo posto em segundo plano: Quando a Frithjof, procurava um consolo humilhante: brincava com as suas irmãs. (p.91) Em Copenhague, o filho do pastor volta a aparecer ao lado de Niels e Erik, embora já não desfrutasse junto a Niels a mesma acolhida dos anos passados em Lonborg. Senhor Bigum: preceptor em Lonborg; ele é responsával pela educação escolar de Niels, Erik e Frithjof, mas sente-se frustrado na missão que lhe cabe:
uma dissipação grandiosa submeter um espírito como o seu à tarefa de ensinar
as crianças, era uma enorme insensatez trocar o seu tempo pelo lastimável pão cotidiano, era um grande erro ganhar esse pão através da recomendação de uns pobres de espírito, uns homens muito vulgares, que o julgavam muito hábil para preencher a triste função de preceptor. (p.53) Frustrada é também sua investida amorosa rumo ao coração de Edele. Ela zomba de sua paixão por ela e poda-o na esperança de tê-la para si. Rejeitado, só lhe resta partir. Mas deixa em Niels a seguinte lição:
um homem é condenado a sofrer, não se trata de poesia nem de uma
simples ameaça; trata-se de ser arrastado à câmara de torturas e ser de fato torturado, e não
há, no último momento, salvação como nos contos de aventuras nem despertar súbito como nos pesadelos. (p.71)
era
quando
VII. O conflito que se opera, em Niels Lyhne, vem da oposição entre o eu e a vida. Para Niels Lyhne, a vida, ao perder sua naturalidade e seu conteúdo, adquiriu um caráter vazio e irreal. Entre o eu a vida, há uma separação irremediável, que inviabiliza as relações vitais, conduzindo o homem a uma situação de estranho a um mundo que não lhe pertence. Niels Lyhne padece na engrenagem da temporalidade, sem que possa opor algo de duradouro. Ele vive a existência como uma sucessão de despedidas. Jacobsen é o romancista do crepúsculo do artista e do indivíduo. Em Niels Lyhne, pôs em confronto o eu e a vida, o eu e seu modo de pensar. Essa cisão conduziu Niels Lyhne à dispersão, ao incômodo de existir. O conflito tem seu clímax quando Niels, desesperado, irrompeu contra si próprio e então jogou-se de joelhos ao chão e implorou ao Deus que está no Céu, na tentativa de salvar a
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vida de seu filho. Niels, crendo contra toda esperança, elevou sua prece a Deus e jogou-se em sua impotência aos pés do trono celestial, reconhecendo que a ele pertence todo o Poder, a ele somente. (p.275) A narrativa caminha para seu epílogo: Niels, depois de tantas atribulações, é agora um derrotado. Só lhe resta encarar a árdua morte.
VII. Em Niels Lyhne, Jacobsen deu margem a um impressionismo estetizante que pôs freio a uma visão puramente científica e materialista do mundo. De um crítico conhecido e
de talento, Niels obteve o seguinte pensamento:
tendências realistas às quais, no entanto servia e nas quais afinal de contas acreditava. (p.104). O Realismo de Jacobsen tem um substrato simbolista: suas descrições mais parecem quadros impressionistas; suas passagens são tocadas por uma plasticidade fugidia e intangível; suas imagens estão repletas de cores inebriantes e inebriadas. Jacobsen, em sua vocação de suscitar impressões, evocou um mundo de imagens deslumbrantes que só encontraríamos similares na poesia simbolista que seria feita mais adiante, nos fins do século XIX e início do século XX. A natureza por ele descrita traz em si uma beleza impressionante:
que não experimentava pelas
simpatia
E a colina que, aos primeiros trinados da cotovia, ocultava a relva sob a imensidão de boninas – estrelas bordadas de púrpura – e sob os sinos amarelos das primaveras; o riacho com o seu fantástico tesouro de animais e plantas, as selvagens encostas das ravinas com as suas negras pederneiras e prateados blocos de granito – tudo isso eram apenas pobres flores, animais e pedras. O ouro radioso do tempo das fadas não era mais do que palha
descorada.(p.47-48)
Jacobsen constrói seu romance sem descuidar do lirismo comumente encontrado na poesia. O conteúdo lírico salta à vista especialmente na descrição das paisagens. A natureza comparece na obra jacobseniana para dar um tom lírico e amenizar as relações tensas das quais Niels Lyhne não consegue se desvencilhar. Têm caráter de prosa poética várias de suas descrições. Está eivada de poesia a página em que ele descreve a natureza na estação primaveril:
À sua volta a primavera comemorava a sua festa anunciadora da beleza, os alvos sinos das campânulas tocavam essa música, as taças raiadas e sangüíneas das flores de açafrão cantavam-na em coros jubilosos. Centenas de veios d’água despencavam monte abaixo até o vale para anunciar que a primavera chegava, e todos chegavam tarde, pois nas verdes margens por onde corriam encontravam as primaveras douradas e as violetas azuis que
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lhes acenavam:”nós já sabemos, nós já sabemos, antes de vocês nós já sabíamos!” (p.140-
141)
A beleza, principalmente das plantas e das flores, numa constante insinuação,
percorre todo o livro e lhe dá um tom inconfundível de lirismo e de inserção numa maneira poética de ver o mundo. A delicada presença da flora em Niels Lyhne agrega lirismo e poesia à obra jacobseniana:
A relva espalhava o seu largo manto verde, recamado de jacintos, com flores que pareciam estrelas e outras que pareciam pérolas, boninas aos milhares, gencianas, anêmonas, dentes-de-leão e cem outras espécies silvestres. (p.141) Entre outros elementos líricos, o recurso à aliteração, típicos da poesia, também deixa sua marca no romance de Jacobsen, atribuindo-lhe ritmo e musicalidade, característicos da linguagem poética:
Quantas sementes graciosas não se espalhavam ali à volta, quantas bagas multicores, nozes marrons, lustrosas bolotas, delicadas casquinhas de carvalho e ramalhetes
de berberiz cor de coral, negros bagos brilhantes de abrunheiro e urnas escarlates de frutos de
em uma salinha muito limpa e agradável, recendendo a goma e a
goivo. (p.261) Jacobsen não quis limitar-se à estética realista, mas construir uma obra que transcendesse à estreiteza da visão realista, ampliando-a para que viesse comportar a beleza do impressionismo estetizante, muito fecundo na literatura do século XX.
O lirismo de Niels Lyhne revela, em grau maior, o propósito assumido de
intensificar a beleza contida nas águas lisas do fiorde e nas escuras ondulações da charneca dinamarquesa. Jacobsen faz prosa poética à medida que se retrata a natureza em delicadas imagens simbolistas, distanciadas que são das descrições objetivas do estilo realista.
roseira brava. (p.226) (
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Analisaram-se, neste trabalho, os aspectos estruturais, composicionais de personagens, o tempo e os espaços da narrativa jacobseniana, presentes no romance Niels Lyhne.
No que se refere à classificação, observou-se que se trata de um romance psicológico,
cujo herói problemático, na luta que empreende contra as forças do tempo, é derrotado em sua
individualidade solitária. Valendo-se de uma narrativa linear, o narrador acompanha a formação do protagonista, no percurso que este realiza de sua infância numa pequena cidade dinamarquesa até os ambientes sofisticados da capital Copenhague, na segunda metade do
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século XIX. O foco narrativo recai sob Niels Lyhne e, a partir dele, surgem as demais personagens romanescas, sejam as que pertencem ao núcleo das mulheres, constituído por sua mãe e por uma série de figuras femininas pelas quais Niels se apaixonou; sejam as que pertencem ao núcleo dos amigos de Niels, cujo expoente principal é o intrigante Erik. Quanto ao estilo, Jacobsen fez, na obra em análise, prosa poética, na qual se sobressaiu um lirismo de fundo a ponto de ofuscar o caráter de objetividade defendido pelos realistas mais dogmáticos. Jacobsen escreveu uma obra que impressionasse mais pela beleza das imagens e das divagações de uma subjetividade conflitante do que um retrato documental de uma determinada realidade. O mais importante, para ele, é a construção da personalidade de Niels Lyhne do que a apresentação de aspectos da realidade determinante do ser. Niels Lyhne evoca um universo de impressões inquietantes que já aponta para a maneira simbolista de escrever. O seu realismo dá lugar à forma refinada de conceber o mundo, muito mais comprometido em insinuar do que em documentar a realidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOURNNEUF, R.; OUELLET, R. O universo do romance. Coimbra: Almedina,1976. CANDIDO, Antonio. A personagem de ficção. 10.ed. São Paulo: Perspectiva, 2002. FORSTER, E.M. Aspectos do romance. 2.ed. São Paulo: Globo,1998. GOLDMANN, Lucien. A sociologia do romance. 3.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. JACOBSEN, J.P. Niels Lyhne. 2.ed. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. LUKÁCS, Georg. A teoria do romance. Lisboa: Presença, s.d. ONOFRIO, Lilia d’. Nueve ensayos de critica literaria. Buenos Aires: El Ateneo,1942.
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