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Erotismo e misticismo na poesia de Adélia Prado

Ênio José da Costa Brito

O consenso atual em torno da ex-professora primária e de filosofia para o segundo grau, mãe e avó, nem de longe
relembra os obstáculos enfrentados por Adélia Prado para entrar no mundo da literatura. É verdade que teve padrinhos
de peso, como Carlos Drummond de Andrade e Affonso Romano de Sant’Anna, que ressaltaram a qualidade de seus
versos.[1]

Estudos posteriores só fizeram confirmar sua importância, sobretudo os trabalhos acadêmicos e teses que se
multiplicam a cada ano no Brasil. Nos últimos anos, sua obra começa a ser traduzida na América Latina (Argentina,
Peru) e nos Estados Unidos. Na Alemanha e na França seus poemas se fazem presentes em antologias poéticas.

A dissertação de Neusa Cursino dos Santos Steiner, intitulada Um poder infernal: a poesia de Adélia Prado,
defendida no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo[2], vem se juntar a tantos outros trabalhos sobre a poeta mineira.[3]

Adélia Prado tornou-se uma autêntica hermeneuta do cotidiano, convidando seus inúmeros leitores a realizarem
circunvoluções ao redor de seus temas preferidos, como a feminilidade, a dor de existir, os segredos do espírito, a
velhice e a submissão a Deus.

Aproximações
Um poder infernal: a poesia de Adélia Prado se constitui num trabalho de "longo" e "largo" fôlego. O "longo fôlego"
garantiu à autora o contato com a obra da poeta de Divinópolis e o "largo fôlego" possibilitou não só a leitura criativa,
atual e instigante da obra adeliana, como a visualização do locus vital no qual sua obra vem sendo gestada.

Steiner revela-se uma pesquisadora madura, que concilia sensibilidade, perspicácia e rigor analítico. O diálogo sutil
que trava com a obra da poeta mineira e com seus intérpretes, pontuando, ampliando ou tecendo contrapontos,
confirma a observação feita. A título de exemplo basta sinalizar o diálogo com o critico Felipe Fortuna, que detecta no
livro Terra de Santa Cruz[4] sintomas de uma crise no ethos poético adeliano. Steiner pontua: “o que ocorre a meu ver
é o anúncio da mudança que está preste a acontecer, mostrando os processos da vida em seus ciclos de alegrias, dores,
reconhecimento e superação”[5].

A potencialidade analítica nos é desvelada pelas duas chaves epistemológicas, norteadoras, a meu ver, da pesquisa: a
vida como mistério insolúvel e o binômio religiosidade-erotismo. Algumas passagens podem ilustrar a constatação
feita. “A religiosidade e sexualidade que tanto chamam atenção como parte de seu estilo, estão inscritos nesta
realidade que é viver, na qual ela busca as raízes carnais e as asas do espírito. O que Deus uniu o homem não seara,
ela diria”[6].

O consenso atual em torno da ex-professora primária e de filosofia para o segundo grau, mãe e avó, nem de longe
relembra os obstáculos enfrentados por Adélia Prado para entrar no mundo da literatura. É verdade que teve padrinhos
de peso, como Carlos Drummond de Andrade e Affonso Romano de Sant’Anna, que ressaltaram a qualidade de seus
versos.[7]

Como que para reforçar a afirmação feita um pouco adiante, Neusa Steiner volta a lembrar: “Existe uma vida inteira
que em explosões, em espasmos, em revelações, numa seqüência angustiada, mas esperançosa de reencontro consigo
mesma, é percebida nas páginas de seus livros”[8].

Steiner percebeu que a religiosidade, motivo de estranhamento para tantos críticos, era a linha que costurava, colava e
recuperava os grandes temas dessa poeta que gosta de resvalar nos limites e abismos imagéticos e é afeita aos
mistérios das almas. Ao optar por esta chave, deu ao religioso e ao simbólico o mesmo peso explicativo que se dá ao
psicológico, ao econômico e ao social, sem negar o estatuto dos mesmos.

Familiarizada com a leitura dos poemas de Adélia Prado, alerta: “é preciso retomar as imagens dos poemas, as
reflexões nas entrelinhas das construções de frases e palavras determinadas”.[9] Ainda avisa para não se eliminar a
tensão dialética presente no universo poético da poeta mineira. Explicando como o cotidiano deve ser compreendido,
afirma: “este ponto [nova compreensão do cotidiano] não recusa a opressão e a limitação imposta ao potencial criativo
e intelectual das mulheres no ambiente doméstico, mas refuta o olhar que reconhece tão somente o vazio, a
passividade e inércia”[10].

Steiner retoma, em sua hipótese, esta tensão: “é possível encontrar na poesia de Adélia Prado elementos que
configuram transgressão e resistência às concepções negativas praticadas pela Igreja Católica em relação às mulheres.
A mesma religião que oprime irá oferecer significados e símbolos, que viabilizam uma poesia de afirmação pessoal e,
através dela, a expressão da poeta no espaço público”[11].

O resultado é uma interpretação criativa da obra adeliana, pois liga erotismo e religião para curar feridas femininas[12]
ou o “feminino ferido”. “Na fusão entre erotismo e religiosidade é que tudo se renova de fato”.[13] Esta cura, diz
Steiner, permite “a recuperação do imaginário católico com relação às mulheres no ocidente cristão”[14] e a
recomposição dos princípios feminino e masculino, “opostos que se tocam e se espelham”[15].

Ao percorrer o texto, percebe-se que a dissertação é muito bem estruturada, tecida com coesão e coerência, além de
trazer em seu bojo uma sadia preocupação didática. A qualidade e a importância dessa dissertação vão aparecendo aos
poucos durante a leitura.

Um olhar sobre os capítulos


O primeiro capítulo, intitulado Os caminhos de Adélia[16], se assemelha ao primeiro sonho da análise psicológica que
esconde e revela todo o resto, conforme dizem os psicólogos. Nele, os três eixos da pesquisa são tocados: a religião, o
feminino e o cotidiano. Nossa primeira aproximação centra-se no cotidiano, uma vez que os outros eixos terão espaços
no comentário dos outros capítulos.

A temática do cotidiano, além de atual, é desafiadora não só para cientistas da religião, como para outros estudiosos,
uma vez que implica num diálogo refinado com as ciências sociais e, em particular, com a sociologia. A impressão
que fica da leitura do capítulo, é bom que se diga - impressão desfeita com os dados apresentados no quarto capítulo-,
[17]
é a de uma redução da vida cotidiana a “usos e costumes”, ao rotineiro, ao repetitivo, a um vivido repetido ou,
epistemologicamente falando, a uma categoria, um conceito.

Corre-se o risco desse conceito se transformar em mero rótulo, perdendo sua força analítica[18]. Seria conveniente
antecipar algumas das informações presentes só no quarto capítulo, informações colhidas no diálogo com a
historiadora Maria Izilda Matos. Para Matos, o cotidiano não deve ser visto apenas como hábito e rotina, mas como
um universo de tensões e movimento. Desta maneira é, também, um espaço de resistência ao processo de dominação.
[19]

Outro ponto chama a atenção do leitor: ao refletir sobre a religião da poeta, Steiner acolheu uma afirmação de José
Castello: “o religioso é essencial, o católico acidental”[20]. No atacado a afirmação está correta, mas no varejo desperta
dúvidas. O católico na poesia de Adélia Prado está tão entranhado que uma afirmação categórica, como a de Castello,
não deixa de ser problemática. A poeta não vê o católico como pura negatividade, vê sim suas patologias, bem como
seus aspectos sadios. Ao realizar uma primeira aproximação dos eixos articuladores da poética de Adélia Prado, o
primeiro capítulo abre uma fecunda interlocução com alguns de seus críticos.

O segundo capítulo, Adélia Prado, Feminino e a Igreja Católica [21], procura desvendar os mecanismos que
permitiram a produção e a reprodução da exploração e dominação das mulheres na sociedade e na Igreja. Realiza uma
breve arqueologia das matrizes teológicas que pautaram e ainda pautam muitas das relações entre a Igreja Católica e
as mulheres no que diz respeito aos padrões comportamentais femininos e, em especial, ao desejo sexual.

Pela complexidade do tema, implicações e conhecimentos teológicos que a análise exige, a elaboração do capítulo
certamente exigiu de Steiner um árduo trabalho de pesquisa. As observações que se seguem reúnem sugestões para um
aperfeiçoamento, reformulações e pontuações necessárias para se ter, das questões discutidas e da apropriação
subjetiva feita pela poeta, uma compreensão mais refinada. Apropriação que implica num deslocamento que reverte
em seu favor interpretações clássicas da teologia utilizadas com freqüência pela Igreja Católica.

Primeiramente, não se pode apostar tanto na interpenetração entre sexualidade e cristianismo, como faz o capítulo.
Não se está falando de interpenetração com catolicismo e nem com a Igreja Católica. Até Agostinho (354-450), “o
Oriente cristão não tinha o conceito próprio de um pecado original afetando toda a humanidade, mas mantinha como
inabalável a crença de que a humanidade está numa situação de separação de Deus, de ‘corrupção’ em relação à sua
vocação e de necessidade radical de salvação. Fora da graça de Deus em Cristo, a humanidade caminharia para sua
perdição”.[22] Agostinho chama essa situação de pecado, posição que receberá a confirmação dos concílios de Cartago
em 418 e de Orange em 529.

Qualquer discussão sobre a criação tem de levar em conta os dois relatos de Gênesis, isto é, Gênesis 1,26-28 e 2,21-
23. Em Gênesis 1,26-28, o texto declara a presença do elemento feminino em Deus; no versículo 27, lê-se : “à imagem
de Deus os criou homem e mulher”. Neste relato, o elemento feminino é igual em poder e glória ao masculino. O texto
de Gênesis 2,21-23, mais conhecido, relata a criação da mulher da costela de Adão. A interpretação deste texto ao
longo da história foi marcada por um sexismo teológico.

A discussão sobre o pecado original feita no capítulo pede uma complementação para realçar a própria reflexão
apresentada e ganhar mais densidade e peso. Faz-se necessário um diálogo com a teologia, especialmente com a
teologia renovada, que, ao estabelecer contra-pontos à interpretação tradicional do pecado original, abre novas
possibilidades para uma visão mais ampla desta questão teológica tão complexa e que tem sido objeto de inúmeras
polêmicas.

Não se pode cristalizar tanto as imagens de Eva e Maria, a primeira como pecadora e a segunda como imagem da
pureza. A figura de Maria se impõe a partir do século XII na Igreja, a de Eva é mais antiga. Durante muito tempo, a
figura de Eva foi utilizada como a imagem simbólica da Igreja, portanto não poderia ser totalmente negativa[23].

No período medieval, apesar do monoteísmo ortodoxo, tem-se a divinização da figura de Maria - ela é vista como a
quarta pessoa da Santíssima Trindade. São Bernardo e Santo Tomás eram contrários à proclamação do dogma da
Imaculada Conceição por temerem que Maria fosse igualada às deusas-mães[24]. Uma outra informação desse período
pode nos aproximar um pouco mais da mentalidade reinante no mundo cristão medieval. Se se acompanha o modelo
de santidade apresentado ao povo cristão no período medieval, podemos constatar uma evolução. No início da Idade
Média, o modelo era o bispo, mais tarde as abadessas e, no século XIII, as mulheres místicas[25].

Com estas pontuações não se quer negar a forte tendência misógina da Igreja, que ainda perdura, mas chamar atenção
para o dinamismo presente na visão do feminino em um determinado período histórico, visto no capítulo de modo
muito estático.

No capítulo terceiro, Um poder infernal e erotismo em Adélia Prado[26], os leitores são introduzidos no universo
poético de Adélia. Um capítulo iniciático ao seu "eu lírico". Poder-se-ia dizer da poeta de Divinópolis o que outra
Adélia afirma do poeta em geral; “poeta é aquele que fazendo estalar os limites do real, tenta fazer aflorar aí o
princípio do prazer, tenta trazer ao plano da linguagem a imagem do desejo”[27].

Acompanhar a primorosa leitura feita por Steiner das obras da poeta mineira é perceber a transformação agônica pela
qual Adélia Prado passa. Transformação que pode ser vista sob uma dupla ótica, uma mística e a outra psicanalítica.
Esta, como um processo de integração, processo de cura, “a integração do feminino ferido na psique ocorre através da
luz colocada na figura da mãe, luz no sentido de uma visão direta e focada, no sentido de desnudar e observar. O olhar
sem disfarces permite a diferenciação entre os sujeitos, fortalece a identidade daquele que elabora o processo, e assim
permite a integração”.[28] Um pouco antes, relembrara que, nos livros de Adélia, “existe uma vida inteira em
explosões, em espasmos, em revelações, numa seqüência angustiada, mas esperançosa de reencontro consigo
mesma...”[29]. O recordar na cura psicanalítica tem muita importância,“não tanto a mera busca da lembrança, mas o
recordar no sentido etimológico: colocar de novo no coração. E é importante sublinhar que isso se faz pela palavra”[30].

A ótica mística se faz presente na busca de integração do humano e do divino, na “epifania do secular e do sagrado” e
no desvelar de um “cristianismo que naturaliza o divino”[31]. Angélica Soares, com precisão mágica, toca na nervura
desse processo de integração: “Essas marcas do discurso adeliano, integradora entre o humano e o divino e entre o
homem e a mulher, apontam para uma nova relação com o corpo e com o prazer, superadora de estratégias de sujeição
patriarcal e de limitações deformadas da moral sexual cristã”[32].

Digno de nota é o crescendo da presença da linguagem mística na obra de Adélia Prado, presente desde a estréia da
autora, em 1976 com Bagagem, muito mais acentuada em O Pelicano e claríssima em A faca no peito (1988) e
Oráculo de Maio (1999)[33]. Steiner relembra que, em A faca no peito, o tema central “é mesmo o amor por
Jonathan/Jesus, derramado em versos sensuais, eróticos e devocionais, momentos em que a exaltação do corpo e a
religiosidade atingem um êxtase”[34]. Evaldo Balbino sintetiza bem a matriz mística da poeta mineira - a poesia mística
cristã: “Assim, seu discurso não só faz uma retomada de São Francisco de Assis e São João da Cruz, mas também dos
textos místicos de Santa Teresa de Jesus, tratando-se, neste caso de uma tradição feminina”[35].
Sem sombra de dúvida, a poesia mística cristã é uma das matrizes, mas seria importante pensar, também, na dimensão
popular da mística cristã. Na dissertação, um olhar para a cultura popular tendo presente sua natureza, suas
características e funções, contribuiria para a compreensão desse húmus cultural tão marcante na poeta mineira. A
cultura popular, com suas ambigüidades, deslocamentos, fragmentariedade e, principalmente, com seu catolicismo
popular tradicional, traria luzes para algumas "dobras" da poesia de Adélia Prado.

Marilene Felinto, num breve e incisivo artigo no qual apresenta aos leitores da Folha de São Paulo o romance
Manuscritos de Felipa e Oráculos de Maio, afirma: “também nesses dois lançamentos da autora está uma das chaves
de sua literatura: a reverência a um Deus seu e ao próprio ato de escrever são uma só e única coisa. Os poemas de
'Oráculos de Maio' vão do 8 ao 80 na consulta a essa divindade-poesia”[36],

Na obra da poeta mineira, cultura popular e erudita estão em permanente interação. Assim, a incorporação do
português oral do Brasil é recorrente nos seus escritos. Steiner, abordando os recursos de que a poeta se utiliza para
romper a distância entre leitor e escrita, aponta o “fluxo dos sentimentos", o processo de aproveitamento dos
elementos próprios da oralidade. Outro recurso o uso de regionalismos (trem, gastura, uai, refrigério), é também marca
bem típica da poeta neste exercício de aproximações”[37]. Para Balbino, o regionalismo de Adélia Prado a aproxima de
Guimarães Rosa. “O que de fato, no plano da linguagem, aproxima Prado e Rosa, é o uso de regionalismos pelos quais
os autores imprimem marcas do espaço-sócio-geográfico em suas personagens”[38].

Não tenho conhecimento de estudos da obra adeliana que trabalhem a oralidade, mas eles certamente existem. Uma
pesquisa nesse sentido exigiria uma análise lingüística dos textos (sintaxe e discurso) com sustentação teórica de
especialistas da área e uma amostra básica de discurso oral recolhido por meio de uma pesquisa de campo. Com esse
“corpus” em mãos seria possível uma rica e ampla pesquisa da oralidade[39].

No quarto capítulo, O cotidiano em Adélia Prado: uma religião de mulheres,[40] Steiner trabalha bem “as imagens do
cotidiano nos poemas como recuperação do espaço privado para além da identidade que a Igreja ali ofereceu às
mulheres”[41].

A figura de Maria se faz presente muito fortemente como virgem, entendida como una em si mesma, senhora de seu
desejo e vontade. Virgem poderosa. “Maria é a mulher do cotidiano, para a qual a rotina perfeita é Deus, mas é
também a Virgem una em si mesma, o arquétipo restaurado do poder feminino na psique”[42].

Steiner mostra bem as mudanças ocorridas na religiosidade da autora. “Esta mudança na religiosidade de Adélia,
invocando Maria a ‘Mãe da Divina Graça' para vencer seus medos e aflições, para continuar lutando perante os
enigmas da vida e continuar encontrando sentido e significado em viver é a característica principal dos poemas deste
livro [Oráculos de maio] e de certa maneira, desta fase de sua vida”.[43]

Steiner ilustra bem essa idéia apresentando dois poemas curtos, intitulados Teologal e Maria. Em Teologal Adélia
afirma:

Agora é definitivo:
uma rosa é mais que uma rosa.
Não há como deserdá-la
De seu destino arquetípico.
Poetas que vão nascer
passarão noites em claro
rendidos à forma prima:
a rosa é mística.

A afirmação retorna na sua fórmula mínima no poema denominado Maria,

Aí está a rosa,
defendida de lógica e batismo,
a inquebrantável,
a Virgem.[44]

Adélia nunca negou sua filiação ao catolicismo, filiação adulta, marcada por tensões e conflitos que não a assustam,
pois aprendeu nos seus estudos filosóficos, em contato com o pensamento medieval, que a fé cristã não é uma
aceitação tranqüila e repousante. A fé traz no seu bojo o princípio interrogante da razão que possibilita ver até que
ponto é ela aceitável como “obsequium rationabile” prestado a Deus[45].

A religião em sua poesia é viva, como viva é sua fé, não é simples repetidora de dogmas, não é um porto seguro.
“Seus versos são diálogos com as incertezas femininas mais profundas e arraigadas, uma conversa longe e
interminável com a divindade, com a Igreja, com a existência encarnada da mulher numa fusão impensável: o corpo
de Eva e a alma de Maria”.[46]

Um poder infernal capta com sutileza, nos versos da poeta mineira, não só a angústia das mulheres reprimidas pela
cultura e pela religião, como sua capacidade de resistir. Nas palavras de Soares: “Reconhecendo no eu feminino um '...
bicho do corpo' (“Sensorial", B., p.21), quer na poesia, quer na narrativa, Adélia Prado nos traz uma positivação do
erotismo, através do mesmo caminho utilizado para a sua negação no mundo judaico-cristão: o caminho da religião,
enfatizando o que as instituições cristãs sempre se empenharam em ocultar: a santidade da transgressão erótica.”
Termina esta constatação com uma pertinente observação: “Seu discurso erótico se diferencia, sobretudo, na escrita de
autoria feminina das últimas décadas, no Brasil, por resultar da reapropriação desestruturadora dos elementos
religiosos através dos quais se veicula a repressão, para com eles próprios criar imagens de desrepressão e
conscientização da mulher”[47].

Escrita com criatividade, a dissertação proporciona um grande prazer de leitura[48].

Considerações finais
Num comentário de Steiner, encontro o mote para as considerações finais. Diz ela: a poesia de Adélia Prado
“inscreve-se assim na vertente de uma literatura brasileira do cotidiano, que tem em Manuel Bandeira um de seus
maiores expoentes. Brasil, Minas, Divinópolis, onde a vida se fez e se faz, onde a fé cresceu e se transformou. Divina,
Divinópolis, cidade divina, Roma mineira, mas habitada por uma loba”[49].

Adélia Prado, com sua obra, nos ajuda a mergulhar no nosso jeito de ser, ao convidar-nos a pensar tanto na
horizontalidade da ambiência na qual gostamos de viver, como na verticalidade em que o eterno surge no efêmero.
Manuel Bandeira, em Profundamente, realizou com maestria esse mergulho.

Profundamente
(Manuel Bandeira)

Quando ontem adormeci


Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei


Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
***

Quando eu tinha seis anos


Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo


Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

-Estão todos dormindo


Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.[50]

***

Anexo

De Animais, santo e gente[*]


Carlos Drummond de Andrade.
(...)

Esse São Francisco não pára de cativar a gente. Há santos que ficam quietos na bem-aventurança, não descem do altar,
só esperam devoção e respeito. O Francisco não. Acompanha a gente na cidade, (...) ensina cada um a fazer coisas
belas e a amar, com sabedoria. Acho que ele está no momento ditando em Divinópolis os mais belos poemas e prosas
a Adélia Prado. Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: está à lei, não dos homens, mas
de Deus:

Uma ocasião meu pintou a casa


toda de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa
como ele mesmo dizia
constantemente amanhecendo.

Nascida à beira-da-linha, o trem de ferro para ela, “atravessa noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida virou só
sentimento”. E diz entre outras coisas: "Eu gosto é de trem de ferro e de liberdade”, “Eu peço a Deus alegria para
beber vinho ou café, eu peço a Deus paciência pra por meu vestido novo e ficar na porta da livraria, oferecendo meu
livro de versos, que para uns é flor de trigo, pra outros nem comida.”

Em política, Adélia diz que “já perdeu a inocência para os partidos”, “Sou do partido do homem”. E sai no meio do
discurso. Quer comer “bolo de noiva, puro açúcar, puro amor carnal, disfarçado de corações e sininhos: um branco,
outro cor-de-rosa, um branco, outro cor-de-rosa”

Adélia vai às compras? “A crucificação de Jesus está nos supermercados para quem queira ver. Quem não presta
atenção está perdendo. Tem gente que compra imoral demais com um olho muito guloso, se sungando até a ponta dos
pés, atochando o dedo nas coisas, pedindo abatimento, só de vício, com a carteira estufada de dinheiro, enquanto uns
amarelos, desses cujo único passeio é varejar armazéns, ficam olhando e engolindo em seco, comprando meios
quilinhos das coisas mais ordinárias”.

Adélia já viu a Poesia, ou Deus, flertando com ela, “na banca de cereais e até na gravata não flamejante do Ministro”.
Adélia é fogo: fogo de Deus em Divinópolis. Como que eu posso demonstrar Adélia se ela ainda está inédita: aquilo
de vender livro à porta da livraria é pura imaginação e só uns poucos do país literário sabem da existência desta
grande poeta-mulher á beira da linha?

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