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Seleção e Priorização de Projetos de Tecnologia da Informação:

Uma Aplicação da Análise Verbal de Decisões Através do Método ZAPROS-LM

JJoosséé CCaarrllooss RRaammooss MMaaggaallhhããeess

ORIENTADOR: PROF. DR. LUIZ FLÁVIO AUTRAN MONTEIRO GOMES

Rio de Janeiro, 24 de junho de 2008

SELEÇÃO E PRIORIZAÇÃO DE PROJETOS DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO: UMA APLICAÇÃO DA ANÁLISE VERBAL DE DECISÕES ATRAVÉS DO MÉTODO ZAPROS-LM

JOSÉ CARLOS RAMOS MAGALHÃES

Dissertação apresentada ao curso de Mestrado Profissionalizante em Administração como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre em Administração. Área de Concentração: Administração Geral.

ORIENTADOR: PROF. DR. LUIZ FLAVIO AUTRAN MONTEIRO GOMES

Rio de Janeiro, 24 de junho de 2008

SELEÇÃO E PRIORIZAÇÃO DE PROJETOS DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO: UMA APLICAÇÃO DA ANÁLISE VERBAL DE DECISÕES ATRAVÉS DO MÉTODO ZAPROS-LM

JOSÉ CARLOS RAMOS MAGALHÃES

Avaliação:

BANCA EXAMINADORA:

Dissertação apresentada ao curso de Mestrado Profissionalizante em Administração como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre em Administração. Área de Concentração: Administração Geral.

Professor DR. LUIZ FLAVIO AUTRAN MONTEIRO GOMES (Orientador) Instituição: IBMEC - RJ

Professora DRª FÁTIMA CRISTINA TRINDADE BACELLAR Instituição: IBMEC - RJ

Professor DR. REGIS DA ROCHA MOTTA Instituição: UFRJ

Rio de Janeiro, 24 de junho de 2008.

FICHA CATALOGRÁFICA

658.403

Magalhães, José Carlos Ramos.

M188

Seleção e priorização de projetos de tecnologia da informação:

uma aplicação da análise verbal de decisões através do método Zapros-LM / José Carlos Ramos Magalhães - Rio de Janeiro:

Faculdades Ibmec, 2008.

Dissertação de Mestrado Profissionalizante apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Administração das Faculdades Ibmec, como requisito parcial necessário para a obtenção do título de Mestre em Administração.

Área de concentração: Administração geral.

1. Apoio multicritério à decisão. 2. Tecnologia da informação.

3.

Método ZAPROS-LM. 4. Análise verbal de decisões.

5.

Gerenciamento de projetos.

DEDICATÓRIA

À minha querida família: mãe, esposa, filhos e madrinha, que percorreram comigo todo o caminho desta realização, me incentivando e apoiando sempre. Em especial dedico este trabalho ao meu querido e saudoso pai, que embora não esteja mais fisicamente perto de mim, está presente com toda a força em meu coração, nos meus valores, nas coisas que acredito, na forma como percebo e reajo à vida.

AGRADECIMENTOS

Para ser justo minha lista de agradecimentos seria demasiadamente extensa, porque além de minha família, a quem dedico este trabalho, muitas pessoas amigas, direta ou indiretamente, me ajudaram ao longo deste caminho.

Agradeço a todos os professores do curso de mestrado profissionalizante do IBMEC – RJ, em especial agradeço imensamente ao meu orientador, Prof. Autran, pela orientação serena, constante e pela imensa paciência comigo.

Da mesma forma agradeço ao prof. Montezano, que desde de nosso primeiro contato, antes mesmo que eu me tornasse aluno do curso, sempre acreditou em mim e, quando fui finalmente seu aluno, me fez redescobrir uma capacidade de aprender que eu julgava não mais possuir.

Agradeço em especial também à professora Fátima Cristina Bacellar, por sua imensa capacidade de motivar, pela energia de suas aulas, por sua cobrança e incentivo à evolução de minha capacidade de argumentação e de crítica, por tudo de novo que aprendi com ela.

Agradeço muito intensamente à professora Flávia Cavazotte, por sua força, por me ajudar a me conhecer melhor, pelas aulas cheias de interação e de energia, pela semente de transformação que ajudou a plantar em minha vida pessoal e profissional.

Agradeço a toda equipe do Ibmec, à todo o pessoal da secretaria, da biblioteca, do CPD, do Help Desk, da impressão, do apoio e até da cobrança. Também de forma muito especial e intensa, agradeço à Rita de Cássia Coelho, uma excelente profissional e uma pessoa verdadeiramente especial, que nos momentos mais difíceis me ajudou, de modo incalculável, com sua bondade, boa vontade, serenidade e atenção.

Por fim agradeço ao meu ex-gestor, Cristiano Breder, um obstinado e impetuoso colega de trabalho que acabou por se transformar em um amigo, por ter sido uma das pessoas que mais me incentivaram a fazer este curso, a aceitar este desafio.

RESUMO

Esta dissertação tem como objetivos (i) implantar e avaliar a aplicação do método de análise

verbal de decisões ZAPROS-LM, para seleção e priorização de projetos de TI, em especial

projetos de melhoria de desempenho em programas legados, ambientados no contexto de uma

empresa de grande porte, e (ii) desenvolver uma versão inicial de software que suporte a

utilização deste método. O ZAPROS-LM é um método multicritério de apoio à decisão,

destinado à classificação e a ordenação de alternativas, sendo adequado para lidar com

problemas não estruturados e/ou baseados em informações incertas, imprecisas, subjetivas e

de natureza essencialmente qualitativa. Através da revisão de literatura, percebeu-se nos

fatores críticos de sucesso de projetos de TI, a participação significativa de informações de

natureza qualitativa. Da mesma forma, se constatou esta mesma participação qualitativa em

critérios de priorização de projetos de TI e na gestão de portfolios. Acredita-se, portanto, que

o ZAPROS-LM é adequado ao problema em questão e que o apoio de um software de suporte

ajudará na utilização e avaliação deste método.

Palavras Chave: Tecnologia da informação, apoio multicritério à decisão, gerenciamento de

projetos, seleção de projetos, priorização de projetos, análise verbal de decisões, sistemas de

apoio à decisão, ZAPROS-LM.

ABSTRACT

This dissertation has the following objectives: (i) to implement and evaluate the application of

the ZAPROS-LM verbal decision analysis method to select and prioritize IT projects, in

particular projects to improve performance in legacy programs in the context of a large sized

company, and (ii) to develop an initial version of a software to support the use of this method.

ZAPROS-LM is a multicriteria decision support method designed to classify and rank

alternatives,

suitable

for

dealing

with

non-structured

problems

and/or

ones

based

on

information which is uncertain, imprecise or subjective and of an essentially qualitative

nature. Through a review of the literature, the meaningful participation of information of a

qualitative nature was observed among the critical factors for success in IT projects. In the

same way, this qualitative participation was found in prioritization criteria for IT projects and

portfolio management. It is believed, therefore, that ZAPROS-LM is appropriate to the

problem in question and that the assistance of support software would help in the use and the

evaluation of this method.

Keywords:

Information technology, multicriteria support decision, project management,

project selection, project prioritization, verbal decision analysis, decision support systems,

ZAPROS-LM.

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Estrutura Organizacional da empresa e abrangência dos projetos da área de QS

15

Figura 2 – Principais Abordagens e Escolas dos Métodos AMD

41

Figura 3 – Método ZAPROS-LM – Principais passos para ordenação de alternativas

70

Figura 4 – Disciplinas do gerenciamento de projetos (PMI, 2004)

72

Figura 5 – Disciplinas, grupos de processo e processos elementares (APMBOK, 2000)

73

Figura 6 – Disciplinas, grupos de processos e processos elementares (PMI, 2004)

74

Figura 7– Fluxo do processo de pesquisa

87

Figura 8 – Tela Inicial do Software de Suporte ao

91

Figura 9 – Modelo de dados essencial

93

Figura 10 – Processo de manual de comparação de alternativas próximas à 1ª SR

95

Figura 11 – Seqüência do processo de comparação de alternativas próximas à 1ª SR

97

Figura 12 – Matriz de comparação de alternativas próximas à 1ª SR – 1º ciclo - manual

98

Figura 13 – JOS – 1ª SR – 1ª ciclo de entrevistas

98

Figura 14 – Interface para seleção e ativação de processos

102

Figura 15 – Interface para cadastramento de critérios e medidas

103

Figura 16 – Interface para habilitar procedimento de explicitação de preferências

103

Figura 17 – Interface para explicitação de preferências 1º ciclo SR-1

105

Figura 18 – Mensagem de verificação de transitividade

105

Figura 19 – Interface para explicitação de preferências 2º ciclo SR-1

106

Figura 20 – Mensagem de verificação de consistência entre ciclos da SR-1

106

Figura 21 – Mapa de respostas /comparações do 2º ciclo da SR-1

107

Figura 22 – Mapa de respostas /comparações do 2º ciclo da SR-2

107

Figura 22 – Comparação de respostas comuns a SR-1 e SR-2

109

Figura 23 – Cálculo da JOS Final

109

Figura 24 – JOS Final – Total de comparações realizadas

110

Figura 25 – Cadastro e Avaliação de Alternativas

111

Figura 26 – Visão Parcial da Lista de Alternativas Reais com Medições

112

Figura 27 – Visão Parcial da Lista de Alternativas e Vetor JOS(X i )

112

Figura 28 – Visão Parcial da Lista de Alternativas ordenadas pelo JOS(X i )

113

Figura 29 – Visão Parcial da Lista de Alternativas ordenadas pelo Σ JOS(X i )

114

Figura 30 – Comparação de resultados dos procedimentos de classificação

115

LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Relações essenciais de preferência

36

Quadro 2 – Problemáticas contempladas pelos métodos AMD

40

Quadro 3 – Comparação resumida entre métodos AMD

48

Quadro 4 – Avaliação das operações do processamento humano de informações

52

Quadro 5 – Avaliação psicológica das operações em métodos AMD

54

Quadro 6 – Exemplos de escalas ordinais para uso com o

59

Quadro 7 – Matriz de comparação de critérios – JOS - 1ª SR

61

Quadro 8 - JOS – 1ª SR

64

Quadro 9 – Matriz de avaliação das alternativas reais

67

Quadro 10 – Métricas de sucesso - projetos de TI - Visão Fornecedores (CARDOSO, 2007)78

Quadro 11 – Métricas de sucesso - projetos de TI - Visão Clientes (CARDOSO, 2007)

80

Quadro 12 – Critérios para priorização de projetos de TI (PINHO, 2006)

82

Quadro 13 – Critérios para priorização dos projetos de MQSP – 1ª Versão

90

Quadro 14 – Critérios para priorização dos projetos de MQSP – 2ª Versão

101

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AMD

Apoio Multicritério à Decisão (Multicriteria Decision Aid – MCDA).

BD

Banco de Dados (Data Base).

CPU

Unidade Central de Processamento (Central Processing Unit).

DE

Decisor ou Tomador de Decisão (Decision Maker).

EJO

Escala de Junção Ordinal (Joint Ordinal Scale – JOS).

ELTP

Tempo Total de Execução (Elapsed Time).

MAUT

Teoria da Utilidade Multiatributo (Multiatributte Utility Theory).

MIPS

Milhões de Instruções por Segundo (Million Instructions Per Second).

MQSP

Melhoria de Qualidade de Sistemas e Programas Legados.

PDCA

Planejar, fazer, verificar e agir (Plan-Do-Check-Act).

QS

Qualidade de Sistemas (System Quality).

SA

Sistema de Arquivos (File System).

SR

Situação de Referência (Reference Situation).

TD

Tomada de Decisão (Decision Making).

TI

Tecnologia da Informação (Information Technologies – IT).

VDA

Análise Verbal de Decisão (Verbal Decision Analysis VDA).

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO

 

14

1.1

Contextualização

14

1.2

Definição do Problema de Pesquisa

18

1.3

Objetivos Principais da Pesquisa

18

1.4

Objetivos

Específicos

19

1.5

Justificativa e Relevância

 

20

1.6

Delimitação do Estudo

 

23

2

REVISÃO DA LITERATURA

 

24

2.1

Apoio Multicritério à Decisão

25

2.1.1

Conceitos Básicos

 

26

2.1.2

Atores do Processo de Tomada de Decisão

28

2.1.3

Alternativas - Ações Potenciais

 

29

2.1.4

Critérios

31

2.1.5

Escalas de Mensuração de Critérios

33

2.1.6

Modelagem das

Relações

de

Preferência

35

2.1.7

Propriedade das Relações de Preferência - Transitividade

37

2.1.8

A Independência entre Critérios

 

37

2.1.9

Problemáticas Contempladas pelos Métodos AMD

39

2.1.10

As Principais Abordagens, Escolas e Métodos AMD

41

2.1.11

Comparação de Métodos de AMD

 

44

2.1.12

Dominância e Conjunto Ótimo de Pareto

48

2.1.13

Métodos de Análise Verbal de Decisões

49

2.1.14

Características Gerais dos Problemas Não Estruturados

50

2.1.15

Validade Psicológica das Operações para Tomada de Decisão

51

2.1.16

Decisão Baseada em Avaliações Verbais Qualitativas

55

2.1.17

Método ZAPROS-LM

 

56

2.1.18

Formulação do problema de ordenação

57

2.1.19

Situações de

Referência

59

2.1.20

Explicitação de Preferências

59

2.1.21

Fechamento de Transitividade (Transitive Closure)

62

2.1.22

Construção da Escala Ordinal de Junção

63

2.1.23

Fechamento de Transitividade (Transitive Closure)

64

2.1.24

Verificação de Independência em Preferência entre critérios

64

2.1.25

Avaliação das Alternativas Reais

65

2.2

Projetos de TI e AMD – Gerência, Seleção e Priorização

69

2.2.1

Gerenciamento

de Projetos

71

2.2.2

Áreas de Conhecimento Relacionadas à Gestão de Projetos

71

2.2.3

Principais Atores Relacionados à Gestão de Projetos

75

2.2.4

Gestão de Portfolio de Projetos e Programas e AMD

75

2.2.5

Projetos de TI – Alguns Critérios de Sucesso e de Priorização

77

2.2.6

Aplicações dos Métodos de AMD

82

2.2.7

A escolha do ZAPROS-LM

83

3

METODOLOGIA DA PESQUISA

86

3.1

O Trabalho na QS

87

3.2

Entrevistas para Identificação Inicial de Critérios

88

3.3

Desenvolvimento do Software de Suporte ao ZAPROS-LM

90

3.3.1

Modelo de Dados

92

3.3.2

Diagrama de Transição de Estados

92

3.3.3

A Motivação pelo desenvolvimento do software de suporte

93

3.4

Explicitação de Preferências – 1º Ciclo de Entrevistas

95

3.5

Matriz de Resultados – 1ª Versão da JOS

96

3.6

Revisão da Lista de Critérios

99

3.7

Entrevistas Complementares de Explicitação

102

3.8

Aplicação do Método ZAPROS-LM

110

3.9

Avaliação da Priorização Proposta e dos Resultados Obtidos

114

4

CONCLUSÕES

116

4.1

Objetivos e Resultados

116

4.2

Benefícios com a utilização da ferramenta de suporte ao ZAPROS-LM

117

4.3

Dificuldades com o Método ZAPROS-LM

118

4.4

Limitações

120

4.5

Sugestões para pesquisas e trabalhos futuros

120

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APÊNDICE A – DIAGRAMA DE TRANSIÇÃO DE ESTADOS APÊNDICE B – RELAÇÃO DE EVENTOS DO DIAGRAMA DE ESTADOS APÊNDICE C – RELAÇÃO DE PROGRAMAS E AVALIAÇÕES APÊNDICE D – RESULTADO DO PROCESSO DE CLASSIFICAÇÃO – P. I APÊNDICE E – RESULTADO DO PROCESSO DE CLASSIFICAÇÃO – P.II

D – RESULTADO DO PROCESSO DE CLASSIFICAÇÃO – P. I APÊNDICE E – RESULTADO DO PROCESSO
D – RESULTADO DO PROCESSO DE CLASSIFICAÇÃO – P. I APÊNDICE E – RESULTADO DO PROCESSO
D – RESULTADO DO PROCESSO DE CLASSIFICAÇÃO – P. I APÊNDICE E – RESULTADO DO PROCESSO
D – RESULTADO DO PROCESSO DE CLASSIFICAÇÃO – P. I APÊNDICE E – RESULTADO DO PROCESSO
D – RESULTADO DO PROCESSO DE CLASSIFICAÇÃO – P. I APÊNDICE E – RESULTADO DO PROCESSO

122

126

127

128

129

130

1

INTRODUÇÃO

Neste capítulo é apresentada a contextualização do ambiente organizacional de origem do

estudo, a definição do problema de pesquisa, os objetivos gerais e específicos que se pretende

alcançar. Este capitulo também descreve a justificativa e relevância deste estudo, bem como

suas delimitações.

1.1

Contextualização

Administrar implica necessariamente, entre outras coisas, em tomar decisões. A atividade de

Tomada de Decisão (TD) é extremamente importante para nossa vida pessoal e para o sucesso

das organizações (BROWN, 2005). Um dos tipos mais freqüentes de TD gerencial, em

qualquer organização, é a seleção e priorização de projetos. Diante de vários objetivos, metas,

desafios

e

problemas,

que

continuamente

se

apresentam,

alguns

totalmente

novos

e

desconhecidos, e diante de inúmeras possíveis alternativas de ação existentes, as organizações

exigem que seus gestores tenham competência para decidir, para escolher, da forma mais

adequada possível, em quais projetos investir recursos, geralmente escassos, para obter os

resultados mais satisfatórios possíveis.

O problema que este trabalho abordará está situado no contexto descrito acima – seleção e

priorização de projetos. Este trabalho é baseado em uma necessidade real de seleção e

priorização de projetos de uma área de Qualidade de Sistemas (QS), área específica de

Tecnologia da Informação (TI) de um grande empresa brasileira de seguros, proprietária de

um acervo de centenas de sistemas computacionais, compostos por milhares de programas.

A área de TI desta organização é estruturada de forma matricial balanceada (PMI, 2004).

Embora exista uma diretoria executiva e um núcleo corporativo de TI (governança, suporte e

processamento de dados) as equipes de desenvolvimento de sistemas, através de suas

respectivas superintendências executivas, também estão subordinadas às diretorias executivas

das unidades de negócio específicas, para as quais desenvolvem sistemas. Os projetos da área

de QS afetam e se relacionam com sistemas, programas e recursos de todas as demais áreas da

TI, incluindo aquelas subordinadas conjuntamente às unidades de negócio. A figura 1

descreve a referida estrutura organizacional e a abrangência dos projetos da área de QS.

organizacional e a abrangência dos projetos da área de QS. Figura 1 – Estrutura Organizacional da

Figura 1 – Estrutura Organizacional da empresa e abrangência dos projetos da área de QS

O problema que será abordado por este trabalho, dentro da área de QS de TI em questão, está

especificamente relacionado ao processo de TD para seleção e priorização de projetos para

melhoria de qualidade de sistemas e programas desenvolvidos em alta plataforma, doravante

denominados

projetos

de

MQSP.

Dentro

deste

escopo

de

trabalho

encontram-se

principalmente sistemas e programas legados ativos, que são aqueles sistemas e programas

antigos, originalmente concebidos há muito tempo (no caso da organização em questão,

alguns programas chegam a ter mais de vinte e cinco anos de existência). Muitos destes

sistemas e programas legados foram originalmente desenvolvidos baseados em tecnologias ou

conceitos já ultrapassados ou obsoletos, mas no entanto continuam ativos e vivos em

operação, tendo sofrido, ao longo de suas existências, inúmeras alterações e correções e, em

muitos casos, ainda são responsáveis por processos e informações críticas aos negócios da

organização.

Denominam-se sistemas e programas de alta plataforma aqueles que são executados em

computadores de grande porte, conhecidos também como mainframes – máquinas robustas,

com processadores de alto desempenho, de enorme capacidade de processamento, com muitos

recursos de disponibilidade, segurança e flexibilidade para crescimento em serviço. Porém

estas são máquinas muito caras, com custos de utilização muito superiores aos melhores

servidores.

Normalmente estas máquinas são contratadas com uma certa capacidade de

processamento,

geralmente

expressa

em

MIPS

(milhões

de

instruções

por

segundo),

capacidade esta fornecida por uma dada quantidade de processadores. Em geral estas

máquinas são contratadas com uma configuração inicial (digamos 6 processadores ativos de

200

MIPS) que pode diminuir ou crescer até um limite máximo (digamos 10 processadores de

200

MIPS), em função da necessidade de processamento da empresa contratante.

Os softwares que rodam em mainframes em geral, em sua maioria, têm o custo do

licenciamento ou contratação atrelado à quantidade de MIPS ativos na instalação. Ou seja, se

em função das demandas operacionais se tornar necessário ativar mais um processador, além

do custo de contratação deste hardware adicional, todos os contratos de software atrelados ao

processamento serão reajustados conforme a variação nos MIPS ativos. Em função deste

contexto as equipes de Suporte e Processamento de TI vivem a monitorar o ambiente

computacional, sempre buscando oportunidades de redução no consumo de recursos ou

identificando sistemas e programas ofensores, que estejam consumindo muitos recursos e

afetando o equilíbrio do ambiente.

Em seu dia a dia, a área de QS recebe da área de Suporte e Processamento demandas para

correção ou melhoria de qualidade de sistemas, principalmente sistemas legados, em especial

demandas relacionadas à melhoria de performance e à disponibilidade dos programas.

Para

atender a estas demandas, a área de QS criou em 2007 uma célula operacional, com uma

equipe específica para atender demandas de melhoria de qualidade em performance de

programas. O volume inicial de demandas foi bastante expressivo – cerca de 30 grandes

programas – e os números atuais da operação desta célula são os seguintes: (a) recebe entre 15

a 25 novas demandas mês; (b) atende com sucesso entre 10 a 15 demandas mês; (c) o saldo

final mensal tem oscilado entre 45 e 60 demandas pendentes.

Embora atualmente as

demandas cheguem de forma semi-estruturada à equipe de QS, não existe um processo de

decisão definido e estruturado para selecionar e priorizar quais demandas deverão ser

atendidas.

Mesmo considerando o porte da empresa, a suposta disponibilidade de recursos financeiros e

a possibilidade de contratação de recursos e projetos terceirizados, a necessidade de um

processo de TD para seleção e priorização de projetos para atendimento a estas demandas, de

forma clara, rápida e estruturada, é essencial para a área de QS devido, entre outras às

seguintes restrições e limitações: (a) escassez de recursos humanos disponíveis, internos e

externos à organização, especializados nas mencionadas tecnologias legadas; (b) morosidade

e exigências do processo de contração de fornecedores de serviços especializados; (c) pressão

das unidades organizacionais, reportando possibilidade ou declínio de serviços de negócios

em função do desempenho de sistemas em operação; (d) desconhecimento ou conhecimento

parcial da equipe de QS do impacto efetivo e real que muitas demandas têm sobre o negócio;

(e) contínuo crescimento das demandas por recursos computacionais que são compartilhados

por todos as unidades de negócio.

Para a gestão de QS a situação descrita não é satisfatória porque:

(a) esforços não são

adequadamente alocados provocando resultados são insatisfatórios; (b) eventualmente são

obtidos ganhos expressivos de desempenho e de disponibilidade computacional, porém que

não se refletem da mesma forma na visão do negócio; (c) a falta de critérios de priorização

pela QS é questionada e criticada pelos demais gestores ; (d) ocorre do trabalho ter de ser

refeito, devido às interrupções e mudanças de prioridade, provocando o desperdício de tempo

e de recursos em projetos que são suspensos ou cancelados no meio do caminho.

1.2 Definição do Problema de Pesquisa

Dado o contexto descrito, a ausência de um processo estruturado de TD, para seleção e

priorização de projetos, é um problema que colabora para que a área de QS opere sempre de

forma emergencial, em um processo ad hoc, procurando solucionar com as informações

disponíveis, conhecimento tácito e intuição, os problemas que julga como sendo os mais

graves ou aqueles cujos queixosos mais ruídos provocam .

Portanto, estabelecer e avaliar processos de priorização de demandas, contemplando a seleção

de métodos e ferramentas para tomada de decisão e priorização de projetos, é essencial para

que a gestão da área de QS seja bem sucedida.

1.3 Objetivos Principais da Pesquisa

Avaliar, de acordo com a opinião do gestor da área de QS em questão, como a

utilização formal e estruturada de um método de Apoio Multicritério à Decisão (AMD)

poderá efetivamente: (i) melhorar o processo de TD para seleção e priorização dos

projetos, em especial os projetos de MQSP e (ii) propiciar a obtenção de resultados

mais satisfatórios e expressivos nos projetos de MQSP.

 

Avaliar

a

utilização

do

método

de

apoio

multicritério

à

decisão

ZAPROS-LM

 

(LARICHEV

e MOSHKOVICH,

2001), baseado na Análise Verbal de Decisão

(Verbal Decision Analysis VDA) como método para seleção e priorização das

demandas de MQSP.

 

1.4

Objetivos Específicos

Como objetivos específicos, este trabalho pretende:

Identificar os critérios que o gestor e a equipe da área de QS entendem como essenciais

para a seleção e priorização de projetos de MQSP;

Avaliar a adequação do método proposto ao tratamento do problema em questão,

levando em conta: (i) a natureza dos projetos; (ii) a necessidade de respostas rápidas e

objetivas; (iii) os aspectos culturais da organização em questão;

Desenvolver e apresentar à gestão de QS uma proposta de processo de trabalho que

utilize o método de AMD selecionado;

Avaliar aceitação e atuação da equipe de QS com a adoção do método AMD;

Avaliar como os métodos de AMD funcionam como ferramentas (i) de comunicação de

objetivos, (ii) de solução de conflitos e (iii) de retenção de conhecimento;

Incentivar a adoção e a plena utilização de métodos de AMD no ambiente gerencial de

TI da organização em estudo;

Desenvolver uma versão inicial de um software, baseado no método AMD selecionado,

que suporte e auxilie a aplicação do mesmo, bem como promova sua disseminação.

1.5

Justificativa e Relevância

O presente projeto propõe, para solução do problema de pesquisa apresentado, a utilização do

método de apoio multicritério à decisão ZAPROS-LM, descrito detalhadamente na revisão de

literatura.

Com

relação

à

solução

proposta,

o

problema

de

pesquisa

apresentado

possui

várias

características que justificam a utilização de métodos de AMD, e em especial o método

selecionado, ZAPROS-LM (LARICHEV e MOSHKOVICH, 2001), como alternativa de

solução. Entre estas características, conforme descrito por Gomes, Gomes e Almeida (2006) e

Moshkovich, Mechitov e Olson (2004) podemos citar:

(i)

Solução do problema (melhoria de qualidade) depende do trabalho de um conjunto

de pessoas, com interesses e opiniões geralmente conflitantes;

 

(ii)

Existem várias alternativas (demandas de projetos de melhoria de qualidade) e

múltiplos critérios a serem avaliados (importância para o negócio, apoio interno,

complexidade, usuários afetados, consumo de CPU, entre outros);

 

(iii)

Conseqüências da escolha de priorização de um dado conjunto de alternativas

(demandas) em relação a outros conjuntos (outras demandas) não são plenamente

conhecidas;

(iv)

Alguns dos critérios são subjetivos e só podem ser avaliados através de julgamentos

de valor de especialistas (exemplo: expectativa de ganhos de desempenho baseada

em conhecimento prévio de programas semelhantes).

 

(v)

Impossibilidade

ou

grande

dificuldade

de

se

atribuir,

com

precisão,

valores

monetários

a

vários

dos

possíveis

critérios,

configurando-se

uma

restrição

à

utilização de métodos como a análise de custo x benefício ou análise de Valor

Presente Líquido (VPL).

(vi)

Alguns critérios são essencialmente qualitativos e descritos em linguagem natural

através de escalas ordinais.

 

(vii)

Alguns critérios, apesar da natureza quantitativa, dada à incerteza e imprecisão das

informações disponíveis em tempo de decisão, são mais adequadamente descritos

em escalas ordinais, representados em faixas de valores.

 

(viii)

Vários

aspectos

políticos

e

de

relacionamento

organizacional

influenciam

as

estratégias de trabalho e, conseqüentemente, as preferências do decisor, gestor da

área de QS, tanto quanto aspectos puramente técnicos ou operacionais.

Do ponto de vista prático, aplicado à área de QS de TI em questão, a proposta deste trabalho

se justifica porque a área e a empresa em questão não utilizam, de forma consistente e

rotineira, métodos, softwares e/ou ferramentas estruturadas de apoio à decisão dentro da área

de TI, em especial métodos AMD.

Dado o problema e o contexto descritos, ambos complexos e repletos de incertezas, com

recursos

limitados

e

demandas

em

constante

crescimento,

a

utilização,

avaliação

e

conhecimento de métodos e ferramentas de AMD, são percebidos pelo gestor e equipe de QS

como necessidades importantes para melhorar o desempenho da área.

Além do exposto anteriormente, espera-se que esta pesquisa ajude a área de QS em questão a

incorporar, de modo estruturado e fundamentado, a aplicação das técnicas e métodos AMD

em seus processos e demais atividades planejadas: (i) avaliação de qualidade de propostas de

projeto

de

sistemas

e

programas,

dado

aplicabilidade

à

avaliação

de

software

que

(BLIN

estes

métodos

e

TSOUKIÀS,

e

conceitos

2007);

(ii)

têm

grande

avaliação

e

classificação de fornecedores para aumento ou redução de contratos e/ou encomendas.

Ainda sob o ponto de vista prático e aplicado, apesar do problema em estudo neste trabalho

ser bastante específico, focado em uma área de uma empresa específica, a essência do

problema estudado pode ser encontrada em várias outras empresas de porte semelhante, como

bancos, financeiras, corretoras, empresas de telecomunicação, órgãos governamentais, enfim,

em grandes organizações que ainda possuam sistemas e programas legados rodando em

computadores de grande porte. Os custos de manutenção de sistemas e programas consomem

expressivos recursos financeiros e em geral os problemas de manutenção são derivados de

projetos e práticas inadequadas (BANKER, DAVIS e SLAUGHTER, 1998). Acredita-se,

portanto, que o presente trabalho também poderá contribuir com os profissionais de outras

empresas que se deparam com demandas da mesma natureza.

Do ponto de vista acadêmico, a área TI, como área de conhecimento, possui inúmeras e

diversas pesquisas realizadas em assuntos fortemente relacionados às ciências exatas, como a

Construção de Algoritmos, Circuitos Lógicos, Matemática Computacional, Computação

Algébrica, Arquitetura de Software, Arquitetura de Redes, entre outros, incluindo aplicações

de Pesquisa Operacional - área de conhecimento a partir da qual a Teoria da Decisão e os

Métodos AMD tiveram sua gênese (GOMES, 2007). Entretanto são mais escassas as

pesquisas relacionadas à gestão de áreas especificas de TI, como a área de QS, dentro das

organizações, utilizando-se métodos AMD. Desta forma, a presente proposta de pesquisa,

contemplando a aplicação de métodos de AMD como uma ferramenta auxiliar de gestão de

TI, pretende colaborar com esta área de conhecimento.

1.6

Delimitação do Estudo

O presente trabalho não contemplará a prova matemática formal do método selecionado, que

se encontra comprovada em Larichev e Moshkovich (1997). O presente trabalho focará

exclusivamente a aplicação do método selecionado ao problema de pesquisa qualificado.

Com relação ao software a ser desenvolvido, para suporte à aplicação do método selecionado,

este trabalho focará o desenvolvimento de uma versão inicial básica, considerando uma

solução com interface simples, sem utilização de recursos gráficos avançados (como gráficos

dinâmicos

ou

animações)

e

sem

compromisso

com

qualquer tecnologia específica de

implementação ou metodologia de desenvolvimento, porém aderente ao método original

selecionado

Não

faz

parte

da

proposta

deste

trabalho

desenvolver

um

software

otimizado

para

implementação

do

método

selecionado.

Este

trabalho

não

pretende

discutir

as

várias

alternativas

de

projeto

do

arquiteturas tecnológicas.

software,

bem

como

metodologias

de

desenvolvimento

ou

2 REVISÃO DA LITERATURA

Este capítulo está dividido em duas partes: (i) Apoio Multicritério à Decisão e (ii) Gerência,

Seleção e Priorização de Projetos de TI e a aplicação de métodos AMD.

Com relação ao Apoio Multicritério à Decisão, os principais tópicos abordados são baseados

principalmente nos trabalhos de Hammond, Keeney e Raiffa (2004); Bouyssou in Bana e

Costa (1990); Clemen e Reilly (2001); Larichev e Moshkovich (2001); Figueira et al (2004);

Gomes,

Araya e Carignano (2004); Larichev e Olson (1997).

Os principais tópicos

relacionados a este assunto são: (a) atores, alternativas, critérios e escalas; (b) modelagem e

das relações de preferência; (c) definição de critérios; (e) as principais abordagens e métodos;

(g) métodos de Análise Verbal de Decisões e (h) o Método ZAPROS-LM.

Com relação à Seleção e Priorização de Projetos de TI e a aplicação de métodos AMD, os

principais tópicos abordados são: (a) áreas de conhecimento relacionadas à gestão de projetos;

(b) principais atores da gestão de projetos; (c) gestão de Portfolio de Projetos e Programas e

AMD; (d) critérios de sucesso e de priorização em projetos de TI e (e) aplicações dos

Métodos de AMD para este propósito.

2.1

Apoio Multicritério à Decisão

O processo de TD sempre foi importante na história da humanidade, desde a época das

primeiras tribos – quando se decidia onde se abrigar ou caçar – até a era atual, das grandes

guerras, dos grandes conflitos, das grandes corporações, implicando em complexas decisões

políticas, sociais e administrativas (LARICHEV e MOSHKOVICH, 1997).

As decisões que tomamos ao longo da vida determinam, em grande parte, quem somos, onde

estamos e se somos bem sucedidos ou não em nossas ações, porque é através de nossas

decisões que podemos (e aprendemos a) lidar com as oportunidades e dificuldades que a vida

nos apresenta (HAMMOND, KEENEY e RAIFFA, 2004).

Apesar da importância, de longa data, do processo de decisão em nossas vidas, é somente ao

final da Segunda Guerra Mundial, com o a disseminação do conhecimento desenvolvido sobre

os problemas das operações militares, que ocorreu uma grande expansão na pesquisas sobre a

análise e preparação para TD, tendo-se como base então a disciplina de Pesquisa Operacional

(GOMES, ARAYA e CARIGNANO, 2004).

O quadro descrito acima evoluiu e se intensificou com o aumento das dificuldades que o

século XX trouxe para o processo de TD, em particular a segunda metade, com o progresso

científico e tecnológico provocando grandes impactos nas decisões das pessoas em todo

mundo, refletindo no crescimento da complexidade das decisões individuais (LARICHEV e

MOSHKOVICH, 1997).

Os primeiros métodos de apoio multicritério à decisão começaram a despontar por volta da

década

de

70,

em

resposta

à

complexidade

crescente

dos

processos

decisórios

que

demandavam métodos capazes de lidar com situações específicas, nas quais as decisões

deveriam

ser

tomadas

com

racionalidade

para

resolver

problemas

caracterizados

por:

múltiplos objetivos simultâneos; múltiplas alternativas; critérios de resolução conflitantes;

indefinições;

incertezas;

contextos

multidisciplinares;

critérios

não-quantificáveis;

entre

outras complicações (GOMES, ARAYA e CARIGNANO, 2004; GOMES, 2007).

Coerentemente aos conceitos acima mencionados, os pesquisadores Larichev e Moshkovich

(1997) por seu turno acrescentam que os métodos de AMD, apesar de originalmente

concebidos de forma independente, em domínios científicos específicos, cada vez mais são

percebidos como pertencentes a uma área de conhecimento multidisciplinar, dado que em

várias

ocasiões

a utilização

destes

métodos,

para responder questões de um domínio

específico, promove o encontro de respostas em domínios de conhecimento adjacentes.

Concluindo esta introdução, para reflexão sobre a importância do processo de decisão,

destaca-se no trabalho de Larichev e Moshkovich (1997) a citação do escritor americano

Thornton Widler: “a habilidade de escolher é a mais preciosa propriedade da razão”.

2.1.1 Conceitos Básicos

Segundo Hammond, Keeney, Raiffa (2004) um processo de decisão eficaz começa com a

concentração naquilo que é efetivamente importante no processo decisório, que deve ser

lógico

e

coerente,

contemplando

fatores

objetivos

e

subjetivos,

misturando

raciocínio

analítico e intuição. O processo deve ser mínimo, porém completo com relação às exigências

de informações e ao esforço de análise para conclusão. Além disso, um processo eficaz deve

propiciar e conduzir à conquista de informações relevantes e opiniões bem embasadas. Enfim,

um processo eficaz de tomada de decisão deve ser direto, seguro, fácil de ser seguido e

flexível.

Larichev e Moshkovich (1997) argumentam, entretanto, que no mundo das decisões humanas,

emoção e razão são elementos inseparáveis que continuamente influenciam nossa capacidade

de escolher, de decidir. Segundo estes autores o processo de TD (racional) começa com a

tentativa de utilização de um conhecimento anterior, desenvolvido em uma experiência

prévia. Prossegue com a tentativa de compreensão do problema e a obtenção de toda a

informação necessária, contemplando todos os aspectos e fatores importantes, e descartando o

que for desnecessário.

A relação abaixo oferece uma visão geral das principais atividades relacionadas ao processo

de tomada de decisão, consenso entre vários pesquisadores deste assunto (GOMES, 2007).

Ter a convicção, o conhecimento sem dúvidas, de se estar buscando uma solução para

um problema real e verdadeiro;

Buscar o isolamento dos efeitos emocionais e das verdades alheias, ponderar e refletir o

quanto for necessário sobre o problema verdadeiro da decisão;

Conseguir todas as informações necessárias e importantes para a tomada de decisão;

Buscar a percepção, de modo inequívoco e sem distorções, do que essencialmente é

relevante para a decisão.

Contemplar na ponderação do problema compromissos éticos e morais relacionados à

decisão a ser tomada;

Conceber ou obter o mais abrangente conjunto possível de alternativas exeqüíveis;

Relacionar metas e objetivos, qualitativos e quantitativos, relacionados à decisão;

Para cada uma das metas e objetivos relacionados, tornar claro, sem ambigüidades, os

critérios de avaliação para a tomada de decisão;

Para cada critério de decisão definido, expressar de forma clara as conseqüências da

escolha de cada alternativa possível, levando em conta as probabilidades destas

efetivamente ocorrerem;

Considerando as atividades listadas anteriormente, escolher um ou mais métodos de

apoio à decisão para selecionar, ordenar, classificar ou descrever alternativas;

Analisar de forma crítica os resultados obtidos com o método escolhido, considerando

a posição do tomador de decisão e do interessado que sofrerá as conseqüências diretas

ou indiretas do processo de tomada de decisão;

Construir, para quem irá decidir, recomendações objetivas, documentadas, abrangentes

e conclusivas sobre a decisão a ser tomada, incluindo a análise de viabilidade das

alternativas consideradas.

Cabe observar que as doze atividades relacionadas acima não precisam ser realizadas

necessariamente na ordem apresentada.

2.1.2 Atores do Processo de Tomada de Decisão

São vários os atores no processo de TD. Consolidando as visões de Gomes (2007), Larichev e

Moshkovich (1997), pode-se destacar os seguintes atores:

Dono do Problema – é o indivíduo, ou um conjunto destes, responsável, em última

instância, pelo problema ou assunto relacionado à decisão. Pode-se fazer uma analogia

ao papel do Patrocinador (Sponsor) em gerência de projetos.

Decisor (DE) ou Tomador de Decisão – é o responsável pela tomada de decisão em

si, é efetivamente quem decide, quem escolhe o caminho a ser seguido. Pode ser um

indivíduo, ou conjunto destes, para o qual se espera que o processo de AMD produza

uma recomendação. Em geral o Dono do Problema e o Decisor são a mesma pessoa ou

o mesmo conjunto de indivíduos. Como no papel anterior, pode-se perceber uma

analogia ao papel do Gerente de Projetos em gerência de projetos.

Agentes de Decisão – são indivíduos ou grupos que, realizam várias ações, direta ou

indiretamente, ao longo do processo de análise de decisão, tais como: geração de

estimativas; ordenação de preferências; realização de cálculos. São representantes de

grupos ativos, envolvidos, interessados ou afetados pelo processo de decisão. Como

nos itens anteriores, pode-se perceber alguma analogia deste conceito com o conceito

de parte interessada ou interveniente (Stakeholder) em gerenciamento de projetos.

Especialistas – são indivíduos que detém conhecimento específico, amplo e profundo,

sobre o problema ou assunto central do processo de decisão em questão. Em geral são

os especialistas que ajudam o analista de decisão a estruturar o problema de decisão, a

definir critérios, identificar e avaliar alternativas – principalmente quanto se tratar de

problemas não estruturados.

Analista de Decisão – é o profissional especialista nos fundamentos e métodos de

apoio à decisão. É o profissional responsável por: estruturar o problema; elaborar a

modelagem adequada; interagir com os demais atores; estruturar a resolução do

problema e recomendar uma ação ao DE.

2.1.3 Alternativas - Ações Potenciais

As alternativas são os objetos da decisão. O conceito de alternativa é uma especialização de

um conceito mais geral – o conceito de ação potencial, que em si não implica em nenhuma

condição de escolha. Já o conceito de alternativa pressupõe, no mínimo duas ações possíveis

porém mutuamente excludentes – não se pode executar as duas ações simultaneamente – daí o

conceito de escolha, de alternativa. Entretanto, no mundo real das decisões, em algumas

situações, a decisão factível pode se dar através da combinação e/ou execução simultânea de

duas ou mais alternativas (ROY, 2004; LARICHEV e MOSHKOVICH, 1997; LARICHEV e

OLSON, 2001).

As alternativas significam as variantes, são os diferentes cursos de ação, são os diferentes

caminhos, são as opções, as possibilidades que o processo de TD apresenta ou impõem ao

DE. Na visão de Larichev e Moshkovich (1997) as alternativas, quanto a sua natureza, podem

ser classificadas como: (i) independentes; (ii) dependentes; (iii) predefinidas; (iv) decorrentes

de regras ou (v) construídas ao longo do processo de TD.

Uma notação matemática possível para alternativas e/ou ações potenciais seria:

A é o conjunto das ações ou alternativas consideradas no processo de TD;

a é uma alternativa ou ação possível;

|A| = m e A={a 1 ; a 2 ,

a m } expressa a quantidade finita de ações ou alternativas em A e

igual a m;

a = {x 1 ; x 2

}

é a modelagem da alternativa ou ação a expressa através das varáveis x 1 ;

x 2 ,

(critérios).

 

Em outra forma de modelagem, considerando que o valor de cada variável designa uma

possível avaliação sobre uma escala apropriada, construída conforme uma visão especial (um

critério de avaliação) pode ser utilizada a seguinte notação:

X i é a escala através da qual cada variável x i será avaliada

i onde pode variar de (1,2,

,

n)

2.1.4

O conjunto de ações ou alternativas A é um subconjunto do produto cartesiano

X

=

n

i = 1

X

i

Critérios

Seja qual for a abordagem, seja qual for o método, a definição adequada dos critérios com os

quais se irá trabalhar é um fator chave de sucesso para o processo de AMD. Se a construção

da lista de critérios for inadequada, implicará em uma carência de percepções relevantes e de

muito pouco terá utilidade a adoção de técnicas sofisticadas de análise e avaliação de critérios.

A definição da lista de critérios significa, por si só, uma decisão, a escolha do conjunto de

aspectos importantes, através dos quais se sustentará todo processo de TD (BOUYSSOU,

1990).

Um conjunto de critérios funciona com um conjunto de instrumentos construídos para avaliar

e comparar as alternativas, de acordo com os objetivos que se pretende alcançar.

Uma

notação matemática possível é apresentada a seguir:

c é um critério;

a é uma alternativa;

c(a) é o desempenho ou avaliação de a conforme o critério c;

X c é o domínio de valores que c(a) pode produzir.

Independente do tipo de informação produzida pela avaliação c(a), é preciso que seja

explicitamente definido todo o domínio de valores X c que c(a) pode produzir. Além disso o

conjunto de avaliações X c deve permitir a definição de uma ordenação completa de seus

valores, caracterizando desta forma uma escala de valores através da qual as avaliações

possam ser comparadas (FIGUEIRA et al, 2004).

O resultado de uma avaliação c(a), expresso em uma escala de medição também pode ser

denominado

como

conseqüência,

porque

define

o

efeito

provocado

pela

escolha

da

alternativa a com relação ao critério c na direção, ou não, do objetivo que se deseja alcançar

com o critério adotado (HAMMOND, KEENEY e RAIFFA, 2004).

Bouyssou (1990) argumenta que devido às limitações cognitivas humanas, e à necessidade de

se pesquisar os possíveis relacionamentos entre critérios, a quantidade de critérios a serem

considerados em processos de AMD não deve ser grande – nada muito superior a doze (12)

critérios, segundo este autor – caso contrário se tornará inviável à implementação de qualquer

procedimento

de

avaliação.

A

preocupação

com

a

quantidade

de

critérios

também

compartilhada por outros pesquisadores, entre eles Larichev e Moshkovich (1997).

 

De

forma

abrangente

e

consolidada,

considerando-se

as

recomendações

e

conceitos

apresentados por Bouyssou (1990), Gomes (2007) e Figueira et al (2004), uma família ou

hierarquia de critérios deve possuir as seguintes propriedades:

(i)

Operacionalidade – deve ser considerada pelo DE, e por todos os demais agentes e

interessados no processo de TD, como uma base válida de sustentação da TD. Cada

critério,

através

de suas

escalas

de avaliação, deve ser compreendido com uma

ferramenta

importante

para

análise

das

possíveis

conseqüências,

sem

nenhum

prejulgamento de importância relativa.

(ii)

Minimidade – deve ser composta por um número mínimo porém suficiente de critérios

que permitam a análise e avaliação das relações entre critérios. Não deve conter critérios

desnecessários.

(iii)

Completude e exaustividade – deve contemplar todos os critérios que interessam ao TD,

incluindo todas as percepções necessárias e importantes sobre o problema. Deve

contemplar todos os critérios, elementares e específicos, que efetivamente possam ser

usados no processo de solução do problema de decisão.

(iv)

Legibilidade

o

que

cada

critério

representa

ou

mede

deve

ser

amplamente

compreensível para todos os envolvidos no processo de decisão.

 

(v)

Monotônica – a ordenação das preferências parciais, representadas pela avaliação ou

julgamento de cada critério, deve ser consistente com a ordenação das preferências

globais expressas sobre as alternativas. Dito de outra forma, o conjunto de critérios deve

possibilitar a avaliação das alternativas, estabelecendo condições para ordenação parcial

de preferências de forma consistente 1 .

 

(vi)

Independência e decomponibilidade – deve permitir a apreciação de uma alternativa, em

relação a um dado critério, de modo independente de seu desempenho em relação aos

demais critérios. Ou seja, deve-se ter independência entre critérios de avaliação (este

conceito é explicado mais adiante neste trabalho).

 

(vii)

Ausência de redundância – dois ou mais critérios não devem refletir a mesma medida da

realidade, ainda que parcialmente, caso contrário ocorrerá uma múltipla percepção ou

contabilização de valores e, conseqüentemente, uma avaliação geral equivocada.

(viii)

Comparabilidade – mantendo-se todas as demais propriedades, também é desejável que

hierarquia de critérios estabelecida possibilite, de forma legítima, a comparação de

subgrupos de critérios.

 

2.1.5

Escalas de Mensuração de Critérios

 

1 Esta propriedade está relacionada ao conceito matemático de função monotônica – uma função que preserva uma dada ordem. Uma função f é uma função monotônica se para todo x e y, tal que x y, tem-se que f(x) f(y). Da mesma forma, f será uma função monotônica se para todo x e y, tal que x y, tem-se que f(x) f(y), porém neste caso f é chamada de monotônica decrescente, porque também mantém um ordem, porém reversa. (WIKIPIDIA, 2008).

É através das escalas de mensuração que se pode avaliar, através dos critérios, o desempenho

de uma alternativa ou a conseqüência de uma ação possível. É fácil mensurar grandezas

físicas, como calor ou temperatura, que já possuem unidades e sistema próprio de medição,

que expressam numericamente o valor destas grandezas. Entretanto não é trivial mensurar o

desempenho em critérios como “capacidade de comunicação” ou “resistência a mudanças”

(COOPER e SHINDLER, 2003).

Ao se construir escalas de mensuração é imprescindível levar em consideração os tipos de

dados que serão utilizados para avaliar o desempenho ou conseqüências de um dado conjunto

de critérios. Dependendo dos tipos de dado e do objetivo da medição, as seguintes escalas de

mensuração geralmente são utilizadas: (i) nominal; (ii) ordinal; (iii) intervalar e (iv) de razão

(COOPER e SHINDLER, 2003).

Escalas

Nominais:

são

utilizadas

para

representar

informações

coletadas

sobre

variável, que pode ser categorizada de forma exclusiva e exaustiva. A única operação

possível sobre estas escalas é a contagem de ocorrências em uma dada graduação. Estas

escalas não propiciam qualquer informação sobre ordem, relação de distância entra

graduações e não têm origem aritmética. Conforme Roy (2004) são escalas nas quais a

variação entre duas graduações não tem significado em termos de diferenças em

desejabilidade.

 

Escalas Ordinais: estendem as características das escalas nominais incluindo a

informação de ordem, de posição relativa de uma graduação, desde que o princípio da

transitividade entre as graduações da escala seja respeitado (x > y, y > z, então x > y,

este princípio será detalhado mais adiante neste trabalho). Embora esta escala possa

informar que x é melhor ou pior que y, não informa o quanto é melhor ou pior.

Também conforme Roy (2004) neste tipo de escala não é possível se estabelecer, entre

quaisquer dois pares de graduações, uma igual diferença em desejabilidade ao longo da

escala.

Escalas Intervalares: ampliam o poder de mensuração das escalas ordinais porque

incluem o conceito de Equidade de Intervalo. Graças a este conceito, o valor da

diferença entre duas graduações, ou distância entre duas medidas, tem o mesmo

significado ao longo da escala. Este tipo de escala não contempla o conceito de origem

absoluta, isto porque neste tipo de escala o ponto zero é um ponto de origem arbitrária

(como exemplo a escala de temperatura em graus Centígrados). Segundo Roy (2004)

neste tipo de escala é possível se estabelecer, entre quaisquer dois pontos de graduação,

uma igual diferença em desejabilidade ao longo da escala.

 

Escalas

de

Razão:

contempla

todas

as

propriedades

das

escalas

intervalares

e

acrescenta o conceito de origem absoluta ou ponto zero não arbitrário. A informação de

uma escala de razão representa a quantidade real daquilo que está se medindo, portanto

são adequadas para medir grandezas físicas como massa ou área. Esta escala também é

denominada como escala cardinal (ROY, 2004).

As escalas nominais e ordinais são denominadas escalas qualitativas, enquanto as escalas

intervalares e de razão são denominadas escalas quantitativas.

2.1.6 Modelagem das Relações de Preferência

O problema essencial, o conceito central nos estudos sobre AMD é a representação de

preferências (FIGUEIRA, GRECO e EHRGOTT, 2004). Nos estudos sobre Teoria de

Decisão e métodos de AMD, utiliza-se o conceito de Relação Binária para se expressar,

matematicamente, as Relações de Preferência. A relação binária é utilizada para representar

a escolha de um decisor, como resultante do processo de comparação entre dois elementos,

que podem ser alternativas ou critérios (GOMES, ARAYA e CARIGNANO, 2004).

São quatro as relações binárias que representam as relações essenciais de preferência, que se

desenvolverão, por exemplo, como resultado da comparação entre duas alternativas a1 e a2.

Estas quatro relações de preferência são mutuamente excludentes (GOMES, ARAYA e

CARIGNANO, 2004). Estas relações essenciais de preferência estão descritas a seguir no

Quadro 1.

 

Relações Essências de Preferência

Relação

Notações

 

Significado

 

a 1 I a 2

   

Indiferença (I)

 

O

DE é indiferente entre as opções a 1 e a 2 .

a 1 a 2

 
 

a 1 P a 2

O

DE prefere estritamente a opção a 1 em relação à

Preferência Estrita (P)

a 1 φ

a 2

opção a 2 .

Preferência Fraca (Q)

a 1 Q a 2

O

DE não tem certeza se prefere estritamente a 1 a

a 1 φ

a

2

a 2 ou se é indiferente a uma ou outra alternativa.

 

a 1 R a 2

Ocorre quando o DE não consegue identificar nenhuma das três relações anteriores.

Incomparabilidade (R)

a 1 NC a 2

Quadro 1 – Relações essenciais de preferência

No presente trabalho, considerando-se apenas o método selecionado, somente serão utilizadas

as

relações de Indiferença (I) e Preferência Estrita (P), esta última também chamada de

Preferência Forte.

As relações essenciais descritas no Quadro 1 podem ser combinadas ou reagrupadas,

formando outras relações que são objetos de estudo: (i) não-preferência; (ii) preferência em

sentido amplo; (iii) presunção de preferência; (iv) k-preferência e (v) superação. Uma

explicação completa destas relações pode ser encontrada em Gomes, Araya e Carignano

(2004) e Gomes, Gomes e Almeida (2006).

2.1.7 Propriedade das Relações de Preferência - Transitividade

As relações binárias também possuem propriedades importantes que são referenciadas em

axiomas teóricos de vários métodos de AMD. As propriedades clássicas que influenciam os

métodos de AMD são: (i) reflexibilidade; (ii) irreflexibilidade; (iii) simetria; (iv) assimetria e

(v) transitividade. Assim como para as relações essenciais de preferência, uma explicação

adequada destas relações pode ser encontrada em Gomes, Araya e Carignano (2004) e Gomes,

Gomes e Almeida (2006). Aqui, entretanto, destacaremos apenas a transitividade, em função

da relação direta desta propriedade com o método selecionado neste trabalho.

A transitividade pode ser explicada da seguinte forma: considerando-se três alternativas a1, a2

e a3, se as seguintes relações de preferência são verdadeiras, a 1 φ a 2 e a 2 φ a 3 , então pela

propriedade da transitividade a 1 φ

a 3 . Da mesma forma se comporta a indiferença por

transitividade: a 1 a 2 e a 2 a 3 , então por transitividade a 1 a 3 .

Em Gomes, Araya e Carignano (2004); Gomes, Gomes e Almeida (2006) e, em especial, no

trabalho de Öztürk, Tsoukiàs e Vincke (2004), pode-se contemplar uma extensa e profunda

revisão sobre os conceitos relacionados à modelagem de preferências, relações binárias e suas

propriedades.

2.1.8 A Independência entre Critérios

Além do conceito de transitividade, mencionado anteriormente, outro importante conceito é o

da independência entre critérios. Trata-se de um requisito essencial para a aplicação de vários

métodos AMD, em especial os métodos de síntese, como a MAUT e, de modo ainda mais

particular, é também um requisito fundamental para aplicação do método ZAPROS-LM.

Conforme Gomes, Gomes e Almeida (2006) o conceito de independência entre critérios está

relacionado

a

outras

três

propriedades

dos

critérios

de

decisão:

(i)

Isolabilidade;

(ii)

Independência em Preferência e (iii) Independência de ordem estrutural.

Isolabilidade: é caracterizada quando a comparação entre duas alternativas quaisquer

a 1 e a 2 , segundo um dado critério c,

pode ser realizada somente com a informação

fornecida pelo critério c, sem depender de informações de quaisquer outros critérios.

Independência em Preferência: esta propriedade é fundamental para a aplicação do

método

ZAPROS-LM.

Esta

propriedade

pode

ser

caracterizada

considerando

o

seguinte cenário de decisão, entre duas alternativas a1 e a2 :

 

conjunto total de critérios (família de critérios) é C = {c 1 , c 2 ,

,

c n },

M é um subconjunto (subfamília de critérios) de C composto, por exemplo,

pelos critérios M = {c i , c j };

 

M’ é o subconjunto complementar;

Considerando que o desempenho das alternativas a 1 e a 2 em todos os critérios

do subconjunto M’ é idêntico;

 

Considerando conseqüentemente que desempenho das alternativas a 1 e a 2 só é

divergente pelos critérios de M;

 

Se a decisão entre a 1 e a 2 puder ser tomada levando em conta apenas o

desempenho dos critérios do conjunto M, independente dos desempenhos dos

critérios do conjunto M’, pode-se afirmar que os critérios do conjunto M são

independentes em preferência dentro do conjunto total de critérios C ;

Pode-se observar, entretanto, que um dado critério c x é independente em

preferência em relação um dado critério c y , porém c y não é independente em

relação à c x . Quando ambos são independentes entre si, pode-se afirmar que c x

e c y são critérios mutuamente independentes em preferência (CLEMEN e

REILLY, 2001).

Se para todos os critérios de C a condição de independência em preferência

puder ser constatada isoladamente, pode-se afirmar que o (i) conjunto de

critérios C é independente em preferência e que (ii) todos os seus critérios são

mutuamente independentes em preferência.

Independência de Ordem Estrutural: em um dado conjunto de critérios C, esta

propriedade é caracterizada pela incapacidade de fatores, explícitos e/ou implícitos,

influenciarem conjuntamente o desempenho de um subconjunto, ou uma subfamília, de

critérios de S, impedindo que seja provocada uma dada redundância de avaliações de

desempenho (GoMes, GOMES e ALMEIDA, 2006).

2.1.9 Problemáticas Contempladas pelos Métodos AMD

Conforme observado por Gomes, Araya e Carignano (2004) e Roy (2004), os métodos de

AMD são utilizados para resolver determinados conjuntos de problemas específicos. As

quatro principais problemáticas abordadas pelos métodos de AMD são apresentadas no

Quadro 2 a seguir.

Problemáticas dos Métodos de AMD

 

Problemática

Notação

 

Comentário

 

Descrição de Alternativas

δ (P.δ)

Consiste na estruturação do problema de decisão através da identificação de alternativas, critérios, avaliações e levantamento de informações, sem que necessariamente seja recomendada ou prescrita uma solução.

   

O

objetivo é selecionar a melhor ou as

Seleção da Melhor Alternativa

α (P.α)

melhores alternativas possíveis (o menor número possível de opções próximas do que seria a ótima).

   

O objetivo é associar cada alternativa a uma classificação ou categoria predefinida. Como

Classificação de Alternativas

β (P.β)

exemplo de classificação se poderia classificar

as

alternativas como: (i) inaceitáveis; (ii)

aceitáveis com ressalvas e (iii) aceitáveis sem restrições.

   

O

objetivo

é

conseguir

compor

uma

pré-

Ordenação de Alternativas

γ

(P.γ )

ordem completa ou parcial de preferência entre alternativas (vide definição a seguir).

Quadro 2 – Problemáticas contempladas pelos métodos AMD

Complementando os conceitos acima descritos, é importante destacar outros dois conceitos

relacionados às estruturas de ordenação de preferências (GOMES, ARAYA e CARIGNANO,

2004):

Pré-ordem completa: é uma estrutura de ordenação de alternativas que considera o

princípio da transitividade e o conceito de empate, ou seja, de indiferença entre

alternativas;

Pré-ordem parcial: generaliza o conceito de pré-ordem completa ao contemplar o

conceito de incomparabilidade entre alternativas, ao mesmo tempo em que mantém o

princípio de transitividade.

2.1.10 As Principais Abordagens, Escolas e Métodos AMD

Existem várias abordagens distintas para lidar com o problema da modelagem e representação

de preferências, problema central do AMD. Destas abordagens derivam-se os vários métodos

e técnicas de AMD, permitindo algumas classificações, conforme representado na Figura 2 e

descrito a seguir.

conforme representado na Figura 2 e descrito a seguir. Figura 2 – Principais Abordagens e Escolas

Figura 2 – Principais Abordagens e Escolas dos Métodos AMD

Métodos de Superação – Méthodes de Surclassement – Outranking Methods

A conceituação de superação é a seguinte: considerando-se a 1 e a 2 como alternativas do

conjunto A de alternativas possíveis, caracteriza-se uma dada relação binária S como uma

relação de superação, representada por a 1 S a 2 quando: (i) existirem argumentos suficientes

para caracterizar que a 1 é no mínimo tão bom ou desejável quanto a 2 ;

(ii) se de forma

concomitante não existem argumentos para refutar esta conclusão. Além disto, os métodos de

superação têm, entre outros elementos em comum, a característica de utilizarem a comparação

par a par das alternativas (FIGUEIRA, GRECO e EHRGOTT, 2004).

Os métodos de superação também são conhecidos como métodos da Escola Francesa de

AMD, sendo os principais relacionados a seguir, conforme descrito em Gomes, Araya e

Carignano (2004) e Figueira, Greco e Ehrgott (2004).

Métodos ELECTRE Elimination et Choix Traduisant la Réalité (ELECTRE I, IS,

II, III, IV e TRI)

Métodos PROMÉTHÉE Preference Ranking Organization Method for Enrichments

Evaluations (PROMÉTHÉE I, II, III e IV)

Métodos de Síntese – Utilidade Multiatributo

Um bom exemplo desta abordagem é a visão clássica da modelagem de preferências que

deriva dos estudos de economia, mas precisamente da Teoria da Utilidade, através dos

trabalhos de Neumann e Morgenstern (1943) e Fishburn (1970), através do conceito de

Função Utilidade. Através deste conceito mede-se a preferência por uma dada alternativa a1,

pelo retorno de uma função utilidade aplicada a esta alternativa, U(a 1 ). Quanto maior o valor

da função utilidade U(a 1 ) maior a preferência, o desejo, pela alternativa a 1 . É importante

também destacar que nesta visão clássica da função utilidade, esta é, em geral, calculada

através de um processo de soma, que agrega os valores de cada critério de avaliação,

considerando

o

peso

de

cada

um

no

processo

EHRGOTT, 2004; GOMES, 2007).

de

avaliação

(FIGUEIRA,

GRECO

e

Este tipo de abordagem, que tenta atribuir um valor numérico à avaliação de preferência, é a

característica essencial dos Métodos de Síntese, também conhecidos como métodos da

Escola Americana de AMD, sendo os principais relacionados a seguir, conforme descrito em

Gomes, Araya e Carignano (2004) e Figueira, Greco e Ehrgott (2004).

Teoria

da

Utilidade

Multiatributo

MAUT

Multiatributte

Utility

Theory

(KEENEY e RAIFFA, 1976).

 

Método da Análise Hierárquica – AHP – Analytic Hierarchy Process (SAATY,

1980).

Método MACBETH Measuring Attractiveness by Categorical Based Evolution

Technique (BANA E COSTA, VANSNICK, 1999)

Métodos Híbridos e Não Clássicos

Além dos métodos de superação e síntese, existem vários outros métodos e abordagens de

ASD. Aqui se destacam:

Método TODIM – Tomada de Decisão Interativa e Multicritério . É um método

híbrido que contempla conceitos tanto de superação quanto de síntese, além contemplar

os conceitos da Teoria dos Prospectos (KAHNEMAN e TVERSKY, 1974) o que

permite a este método levar em consideração como decisões humanas são tomadas

diante riscos (GOMES, ARAYA e CARIGNANO, 2004).

Abordagem da Dominância Baseada em Conjuntos Aproximativos DRSA

Dominance-based Rough Set Approach to Multiple-criteria Classification (GRECO,

MATARAZZO e STOWINSKI, 2004)

Métodos da Análise Verbal de Decisões Verbal Decision Analysis. São métodos

baseados em informações qualitativas expressas em linguagem natural. Estes métodos

tiveram origem nos trabalhos do pesquisador russo Oleg Larichev (1934-2002), um dos

pioneiros no estudo dos métodos multicritério de apoio à decisão (FIGUEIRA, GRECO

e EHRGOTT, 2004). Além do ZAPROS-LM, selecionado para aplicação neste projeto

de pesquisa e mais adiante detalhado, destacam-se os seguintes métodos de análise

verbal de decisões:

ORCLASS Ordinal Classification. Método multicritério para a classificação

de alternativas multiatributo (LARICHEV e MOSHKOVICH, 1997);

PACON Paired Compensation. Método multicritério pára a seleção da

melhor alternativa (LARICHEV e MOSHKOVICH, 1997);

ZAPROS–III – Evolução recente do ZAPROS-LM com objetivo de garantir

alto nível de compatibilidade com aplicações reais. Como seu antecessor, o

ZAPROS-III também se destina à obtenção de uma ordenação parcial de

alternativas multiatributo reais, porém demanda por um número muito maior

de interações com o decisor para comparações entre critérios e explicitação de

preferências (MOSHKOVICH, MECHITOV e OLSON, 2004).

STEP-ZAPROS – Este métodos é outra evolução recente do ZAPROS-LM.

Como no método ZAPROS-III, pode demandar, ou não, um número maior de

entrevistas com o decisor do que o método original, porém dentro de um

processo interativo específico em três etapas, pretende realizar novas

entrevistas com o decisor somente quando necessárias, o que provoca um

melhor desempenho do método (MOSHKOVICH, MECHITOV e OLSON,

2004).

2.1.11 Comparação de Métodos de AMD

Na obra de Larichev e Olson (2001), estes autores apresentam uma resumida confrontação

entre alguns dos principais métodos AMD, confrontando os argumentos de defensores e

opositores.

Embora

a

referida

comparação

não

esgote

as

características,

vantagens

e

desvantagens dos métodos citados, é uma fonte interessante de consulta pois propicia uma

visão geral. O referido confronto é parcialmente reproduzido no Quadro 3 a seguir.

Existem, entretanto, vários outros trabalhos que procuram classificar e identificar a melhor

aplicação ou adequação dos diversos métodos de AMD. Conforme consta em Gomes (2007),

para se obter uma visão abrangente dos vários métodos existentes, recomenda-se consultar,

entre outros, os trabalhos de Clímaco (1997) e Triantaphyllou (2000), podendo-se citar

também o trabalho de Ozernoy (1992).

 

Confrontação entre alguns dos principais métodos de AMD

Método

Argumentos Prós

 

Argumentos Contras

 

Possui forte base matemática, fornecendo uma robusta justificativa para o tipo de função utilidade usada para agregação da utilidade unitária de cada critério;

 

Diferentes

tipos

de

condições

de

As questões apresentadas aos DE não possuem tratamento para justificação psicológica.

independência podem ser assumidos;

MAUT

O envolvimento do DE é necessário para elaborar a função utilidade, porém após esta definição é possível comparar várias alternativas, já existentes e/ou novas;

Quando existem alternativas baseadas em preferências subjetivas, ou quando o número de alternativas é grande, novas alternativas podem ser geradas a partir das originais.

Muitas questões podem ser de difícil compreensão pelos DE;

Os DE precisam de um algum tipo de capacitação ou treinamento especial para que os procedimentos da MAUT possam ser usados adequadamente.

 

Confrontação entre alguns dos principais métodos de AMD

Método

Argumentos Prós

 

Argumentos Contras

 

Eventuais imprecisões são tratadas por procedimentos de análise de sensibilidade.

 
 

Orientado

às

alternativas

reais

do

A fórmula de agregação, tanto para critérios quanto para alternativas, não possui uma base formal, em especial nos casos onde existe uma função

problema em questão;

 

utilidade não linear nas escalas dos critérios de avaliação;

 

O procedimento de transformação de

AHP

Amplamente utilizado no mundo devido à facilidade do seu processo de comparação de alternativas;

Comparação paritária de critérios é a base para definição de pesos;

Quando a quantidade de alternativas é pequena e os critérios são de natureza quantitativa, e em número reduzido, a aplicação do método foca diretamente o objetivo, a meta da decisão.

Propicia uma verificação do quanto repostas de um DE variam em comparação a respostas aleatórias.

comparações qualitativas em números é diferente para cada DE, e as diferenças podem ser grandes;

É impossível, no procedimento de avaliação, se encontrar os inevitáveis erros humanos, exceto respostas inconsistentes do DE;

Requer que o DE receba explicações especiais para que possa realizar, com mais precisão, comparações quanto à importância de critérios.

As preferências do DE são medidas em um único momento específico no tempo, sem possibilidade de serem alterada ao longo do processo, como fruto de um aprendizado posterior.

Métodos de

O procedimento de comparação par a par de alternativas é realizado para

Não existe uma justificativa formal para a abordagem destes métodos;

Superação

 

Confrontação entre alguns dos principais métodos de AMD

Método

 

Argumentos Prós

   

Argumentos Contras

Superação

medir o comprometimento requerido para seleção da melhor alternativa;

para a abordagem destes métodos;

Não

propiciam

condições de teste

A meta da análise é a construção de uma regra de decisão subjetiva;