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Clayton Mendonça Cunha Filho

O Partido Republicano e a Questão Tributária: um estudo de caso sobre os cortes de impostos de George W. Bush (2001-2004)

Fortaleza – Ceará

2006

Clayton Mendonça Cunha Filho

O Partido Republicano e a Questão Tributária: um estudo de caso sobre os cortes de impostos de George W. Bush (2001-2004)

Fortaleza – Ceará

2006

Monografia apresentada ao curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará para obtenção do grau de Bacharel em Ciências Sociais

Orientador: Jawdat Abu-El-Haj

Esta monografia foi submetida à Coordenação do Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará – UFC, como parte dos requisitos necessários à obtenção do Grau de Bacharel em Ciências Sociais e encontra-se à disposição na Biblioteca de Humanidades da referida Universidade.

Aprovada em 04 de

julho

de 2006

Clayton Mendonça Cunha Filho

Banca Examinadora

Jawdat Abu-El-Haj

Bernadete Beserra

Domingos Sávio Abreu

2006

Agradecimentos

Gostaria de agradecer a minha família, que sempre me apoiou em tudo, e a todos os colegas e professores que me incentivaram e de maneira direta ou indireta tornaram possível a condução deste trabalho, e em especial aos companheiros do Observatório das Nacionalidades. Não citarei os nomes de cada um sob pena de ser traído pela memória e cometer alguma injustiça. Vocês sabem quem vocês são, muito obrigado!

“The universal cry of this people is to be taxed” Congressista republicano em 1864

“Congress will push me to raise taxes, and I’ll say ‘no’, and they’ll push, and I’ll say ‘no’; and they’ll push again, and I’ll say to them, ‘Read my lips. No new taxes’”

H.

durante

convenção do Partido Republicano

em 1988, que o indicaria como candidato presidencial.

George

W.

Bush,

Resumo

O presente trabalho busca entender a ideologia do Partido Republicano dos EUA com

relação ao Estado a partir de suas idéias e posicionamentos acerca do modo pelo qual

esse Estado é financiado: a tributação dos cidadãos estadunidenses. Para tanto, foi feito um estudo histórico do Partido Republicano e um estudo de caso dos cortes de impostos levados a cabo pelo presidente George W. Bush em seu primeiro mandato (2001-2004):

em que consistem, a quem beneficiam e quais seus impactos no financiamento da máquina pública estadunidense. Foram analisadas as razões ideológicas dos cortes e como as mesmas refletem a posição atual dos republicanos em relação ao Estado, contextualizando e contrastando a mesma com as posições defendidas e adotadas pelo Partido em sua fundação e primeira fase ideológica. Encontramos que a história ideológica do partido pode ser dividida em duas fases: a primeira, que vai da sua fundação em 1854 até meados dos anos 1920, em que o Estado é visto como indutor do crescimento econômico e mantenedor da unidade nacional; e a segunda, que chega até

os dias de hoje, em que o Estado cede progressivamente o lugar de indutor econômico à

liberdade individual e passa a ser visto cada vez mais como um obstáculo a ser eliminado. É dentro dessa fase ideológica neoliberal, intensificada enormemente nos anos 1980 com os governos de Ronald Reagan, que podem ser entendidos os recentes cortes de

impostos. Como o Estado é agora um entrave, convém diminuir suas fontes de custeio. Como a ação dos indivíduos é quem conduz ao desenvolvimento, convém deixar em suas mãos os recursos econômicos que seriam transferidos ao governo via tributação.

Palavras-chave: Estados Unidos, Partido Republicano, Ideologia, Impostos, Estado.

Abstract

The present work aims to understand the Republican Party’s ideology towards the State

from its ideas and positions about the way this State is financed: the taxation of US citizens. For such, a historical study of the party was conducted, as well as a case study of the tax cuts enacted by George W. Bush in his first term (2001-2004): what do they consist

of, who do they benefit and what are their impacts on the financing of the American public

apparatus. The ideological reasons for the cuts and how do they reflect the Party’s current position about the State were analyzed and contrasted with the same positions championed by the Party in its foundation and first ideological era. We found that its ideological history can be divided in two eras: the first, from its foundation in 1854 until around the 1920s, in which the State is seen as an economic growth stimulator and maintainer of the national unity; and the second, that reaches present days, in which the State progressively gives way to the individual liberty as a growth stimulator and starts to be seen as an obstacle. It’s within this neoliberal ideological stage, enormously intensified through the 1980s with the Reagan administrations, that the recent tax cuts may be understood. Since the State is now an obstacle, it’s convenient to diminish its sources of income. Since the action of individuals is what leads to development, it’s convenient to leave the economic resources that would be transferred to State via taxation in their hands.

Keywords: United States, Republican Party, Ideology, Taxes, State.

Sumário

1. Introdução

08

2. Um breve histórico do Partido Republicano

11

3. George W. Bush e os cortes de impostos

34

4. Cortes de impostos e ideologia

49

5. Referências bibliográficas

58

1. Introdução Parece ser consenso que, no limiar do século XXI, os Estados Unidos concentram um poder e uma influência no sistema político internacional desproporcionais aos de qualquer outro país. Estudá-los e compreendê-los, portanto, torna-se extremamente importante mesmo (ou quem sabe principalmente nesse caso) a partir de um país periférico como o Brasil. Mas como compreender a dinâmica estadunidense? Como entender a influência que os EUA exercem sobre o Brasil e sobre o mundo sem antes entender a própria dinâmica político-social interna do país? Tendo estes questionamentos em mente, resolvi estudar a política estadunidense a partir de seus partidos políticos, e por razões de corte metodológico, mais especificamente a partir do Partido Republicano, que teve 18 dentre os 29 presidentes estadunidenses do período entre sua fundação até hoje 1 . Ao contrário do senso comum que trata a política estadunidense e seus partidos como não-ideológicos, estudos recentes têm mostrado a possibilidade e a necessidade de se entender e analisar os partidos políticos estadunidenses como ideologicamente orientados. Apesar das dificuldades em definir o conceito de ideologia, Gerring diz que “o núcleo da definição do conceito consiste em três atributos interligados – coerência, diferenciação e estabilidade. Estes são os traços com que geralmente concordam os autores das ciências sociais” (2001:

6n.15. Grifos no original) e que podem ser observados nos partidos dos EUA, orientados por temas centrais que os diferenciam desde, pelo menos, as polêmicas em torno da elaboração e aprovação da Constituição. Fundado em 1854 por elementos tão distintos quanto abolicionistas radicais, socialistas utópicos, vegetarianos, abstêmios e dissidentes dos então dois partidos dominantes (Whig e Democrata), o Partido Republicano teve como importante catalisador a polêmica levantada pela aprovação da Lei Kansas- Nebraska em 30 de maio de 1854 (BINKLEY, 1961; GOULD, 2003). A lei, que criava os dois territórios com esses nomes e anulava na prática os Acordos de

1 Inclui-se nesse número o atual presidente George W. Bush, mas exclui-se o presidente Andrew Johnson (1865-69), ex-democrata eleito como vice de Lincoln e que assumiu o governo com o assassinato deste.

Missouri que restringiam a escravidão ao Sul do país, acirrou os ânimos de uma nação já bastante dividida social e territorialmente pela existência (ou ausência) da “instituição peculiar”, como era conhecida a escravidão nos Estados Unidos. A bem da verdade, os abolicionistas radicais eram minoria dentro do partido e na sociedade como um todo mesmo no Norte, onde a posição prevalecente sobre o tema era de que a escravidão deveria simplesmente ser contida ao Sul e não poderia se espalhar para os novos territórios e a posição do Partido Republicano sobre o tema em sua primeira vitória eleitoral presidencial nas eleições de 1860 foi um tanto quanto ambígua, ao assegurar que não interferiria com a escravidão no Sul mas que a condição natural dos Estados Unidos era a liberdade (GOULD,

2003).

Durante o primeiro ano do governo de Abraham Lincoln, entretanto, veio a Guerra Civil e com ela a necessidade de se obter recursos para derrotar o Sul Confederado e preservar a União. Foram então criadas tarifas protecionistas, um sistema bancário nacional e o primeiro imposto de renda do país (que viria a ser derrubado em 1872 durante o governo de U.S. Grant), fatos que fizeram com que os Democratas durante anos criticassem o Partido Republicano como o partido dos altos impostos e do “governo grande” (GOULD, 2003). De fato, desde então a questão do tamanho do Estado (ou do governo, como a questão é mais comumente abordada nos Estados Unidos), seu papel e os impostos que o financiam sempre ocuparam destaque no programa do Partido Republicano, embora a visão do partido sobre tais temas tenha mudado bastante desde então. Apesar de nunca ter sido fã de impostos, o Partido Republicano teve uma primeira fase em que via a ação do governo como necessária ao desenvolvimento econômico e nacional e encarava a questão tributária como algo necessário à sustentação desse governo, herdeiro ideológico que de certa forma era dos defensores de um Estado centralizado antes representados no Partido Whig e, antes desse, nos Federalistas. À época, a maior fonte de receitas do governo americano vinha das tarifas sobre importação de produtos, tema recorrente nas campanhas republicanas e que, além de prover o governo com

recursos, foi crucial na proteção e consolidação da nascente indústria nacional do país e na aproximação dos grandes capitalistas com o partido. Essa fase duraria até o início do século XX, quando o partido passaria a se mostrar cada vez mais cético e desconfiado dos efeitos da intervenção estatal e cada vez mais hostil à tributação. De fato, o Partido Republicano, especialmente após o New Deal, criticaria cada vez mais o crescimento do governo e sua interferência na economia e na vida dos cidadãos, acusando os adversários democratas de socialismo e estatismo e assumindo as bandeiras dos direitos dos estados frente ao crescente poder da União, da defesa das liberdades individuais frente à tirania do Estado e, em especial após Reagan na década de 80, do corte de impostos como forma de incentivar a economia. Este estudo busca exatamente compreender, a partir de um estudo de caso dos cortes de impostos promovidos durante o primeiro mandato do atual presidente dos Estados Unidos George W. Bush, as raízes ideológicas que embasam a política tributária contemporânea do Partido Republicano. Para isso, um breve histórico do partido é traçado no capítulo 2, desde a fundação no século XIX até a eleição de George W. Bush em 2000. No capítulo 3, são analisados os cortes de impostos promovidos entre 2001 e 2004, em que consistiram e que efeitos trouxeram e trarão nos anos vindouros. E no capítulo 4, discutem-se as relações entre as políticas de cortes tributários e a ideologia atual do partido, dando especial ênfase aos aspectos ideológicos partidários relativos à visão republicana sobre o Estado.

2. Uma breve história do Partido Republicano Apesar de ser muitas vezes chamado de Grand Old Party (algo como “Grande Velho Partido” em português) ou simplesmente GOP, o Partido Republicano é na verdade o mais jovem dos dois partidos dominantes nos EUA hoje, cerca de 26 anos mais jovem que o Partido Democrata 2 . Entretanto, suas raízes ideológicas são mais antigas e remontam principalmente ao Partido Whig (GERRINGER, 2001), com o qual chegou a coexistir por um breve período e de quem herdou importantes quadros, como o próprio Abraham Lincoln, e o núcleo ideológico que o orientaria durante sua primeira fase. Entender a rápida ascensão deste partido, formado em 1854 e com seu primeiro candidato presidencial vitorioso já em 1860, requer a compreensão do conturbado contexto histórico em que se deu a sua formação e atuação inicial. Os Estados Unidos eram então uma nação ainda predominantemente rural e agrícola onde os primeiros sinais de industrialização e urbanização apenas começavam a se manifestar. Apesar do bom momento econômico vivido, com grandes influxos de investimento britânico e descoberta de ouro no estado da Califórnia, as tensões sociais se acirravam. Por um lado, o crescente número de novos imigrantes católicos, principalmente irlandeses mas também muitos alemães, gerava desconfiança por parte da maioria protestante local. Por outro, a questão não resolvida da escravidão ameaçava freqüentemente voltar ao foco das discussões e literalmente dividia o país entre Norte e Sul. O tênue equilíbrio acerca da questão mantinha-se sobre as bases dos Acordos do Missouri de 1820 e dos Acordos de 1850, que estabeleciam a proibição da escravidão acima de uma linha imaginária estabelecida a 36 graus e 30 minutos de latitude, mas a fragilidade dessa “harmonia” era clara. Enquanto o Sul via a escravidão como algo “bom tanto para senhores quanto para escravos” e acreditava que tentativas de restringi-la justificariam a secessão da União

2 Ou mesmo mais de 50 anos mais jovem, a depender do que se considere o marco de fundação do Partido Democrata. Sua origem remonta ao Partido Republicano-Democrático de Thomas Jefferson, estabelecido no final dos anos 1790 em oposição ao Partido Federalista e consolidado com sua eleição à presidência em 1800. Em 1816 o partido se dividiria em Partido Republicano-Nacional, que posteriormente se transformaria no Partido Whig, e Partido Republicano-Democrático, que com a eleição de Andrew Jackson em 1828 mudaria seu nome para simplesmente Partido Democrata, com o qual permaneceria até hoje (ver BINKLEY, 1961).

(GOULD, 2003: 7), o Norte encontrava-se mais dividido frente ao tema, embora existisse um sentimento geral de desconforto com relação à “instituição peculiar”, como a escravidão era conhecida, e temor de que ela viesse a se espalhar pelo resto do país.

Abolicionistas radicais, definitivamente uma minoria, se opunham à escravidão em

bases morais. Outros não gostavam da escravidão porque sua expansão poderia

trazer negros para o Norte e Oeste como mão-de-obra barata. Em 1848, opositores da

escravidão no Norte criaram o Partido do Solo Livre que buscava bloquear a expansão

da escravidão no Oeste. Outros ainda, movidos por sentimentos racistas, queriam que

os afro-americanos permanecessem no Sul ou fossem devolvidos à África. Quaisquer

que fossem suas atitudes relativas à escravidão, os cidadãos do Norte ressentiam-se

do poder político do Sul e consideravam as regiões abaixo da linha de Mason-Dixon

como atrasadas. (GOULD, 2003:8).

Quando em 1854 a Lei Kansas-Nebraska foi aprovada, criando os dois territórios (e futuros estados) com esses nomes e revogando os Acordos do Missouri a fim de que as populações de ambos territórios (situados acima do paralelo 36º30’) decidissem sobre a existência ou não da escravidão, a frágil paz social entre Sul e Norte estava definitivamente quebrada e provocaria fortes impactos na vida político-partidária nacional. Dissidentes dos então dominantes partidos Whig e Democrata uniram-se ao Partido do Solo Livre e criaram o Partido Republicano na esteira do descontentamento nortista acerca da expansão escravista nos territórios. 3 Em 1856, primeira eleição presidencial disputada pelo novo partido sob a bandeira da proibição da escravidão nos novos territórios, o partido obteria com John C. Fremont impressionantes 112 votos de 296 possíveis no colégio eleitoral, contra 174 do vencedor James Buchanan do Partido Democrata. Quatro anos depois, aproveitando a divisão do Partido Democrata que lançaria dois candidatos, um pelo Sul e outro pelo Norte, o Partido Republicano chegaria à presidência com Abraham Lincoln.

3 As cidades de Ripon, Winsconsin e Jackson, Michigan disputam as honras de lugar de fundação do partido, mas diversas outras cidades abrigaram reuniões semelhantes às que fundaram o Partido Republicano por volta da mesma época. Ver GOULD, 2001:14.

Refletindo a ambigüidade do pensamento nortista acerca da escravidão, o partido declarava em sua plataforma eleitoral que a escravidão no Sul não seria prejudicada mas que a condição natural dos Estados Unidos era a liberdade e que

portanto a “instituição peculiar” não deveria ser expandida. Ainda na plataforma eleitoral de 1860, constavam a proteção tarifária do mercado interno, uma lei de assentamentos em terras públicas e a construção de obras de infra-estrutura como uma ferrovia de ligação com o Pacífico, refletindo as influências sobre o partido dos antigos partidos Whig (em plena decadência e cujo último sopro de vida foi a candidatura de John Bell sob o novo e efêmero nome de Partido da União Constitucional) e do Solo Livre (sob cujas bases foi construído o Partido Republicano). Após a vitória de Lincoln, os estados do Sul declararam a secessão da União e a formação dos Estados Confederados da América e seguiu-se o início da Guerra Civil, que duraria até 1865 com a rendição do general Robert Lee na batalha de Appomattox. “Para os republicanos a experiência do conflito

transformou seu partido

poder do governo nacional na esfera econômica

tinham imaginado” (GOULD, 2003: 29). Além da total execução da agenda antiescravidão republicana, que no esforço de guerra chegou a ir além dos objetivos iniciais abolindo a escravidão em todo o país e garantindo alguns direitos civis aos negros libertos, foram criados um sistema bancário nacional, o primeiro imposto de renda da história dos EUA (que duraria até 1872), um sistema de distribuição de terras públicas no Oeste e foram iniciadas as obras de construção da Ferrovia do Pacífico. As indústrias de vestuário, processamento de comida e ferrovias se desenvolveram para atender às demandas da guerra e o Partido Republicano começou a se identificar cada vez mais com os grandes empresários e industriais do Norte e Meio-Oeste e a ser identificado pela população como tendo sido capaz de promover o desenvolvimento econômico mesmo em meio a uma sangrenta guerra e acusado pelos adversários democratas de ser o partido do “governo grande” e dos altos impostos.

os republicanos expandiram o além mesmo do que os Whigs

Para vencer a guerra

Em 1865 o partido mudaria seu nome para Partido da União Nacional como

estratégia para facilitar o apoio e ingresso dos democratas do Norte, leais à União. Sob essa legenda, Lincoln seria reeleito e em 14 de abril do mesmo ano seria assassinado num teatro por John Wilkes Booth, sulista que queria vingar-se da derrota imposta aos confederados. Assumia então a presidência o vice-presidente eleito Andrew Johnson, ex-democrata do Tennessee, que se mantivera fiel à União durante a guerra civil e ocupara o cargo de governador militar de seu estado. Sua relação com o partido durante a presidência foi bastante controversa, tendo sido marcada por diversos conflitos com os republicanos do legislativo em relação ao futuro dos negros na nova sociedade e dos procedimentos a serem adotados em relação ao Sul derrotado. Apesar da posição do partido e do recém-assassinado Lincoln com relação

à participação e direitos dos negros após a vitória ianque sobre o Sul confederado nunca terem sido claras, Johnson era pessoalmente um racista que considerava os negros inferiores e incapazes de se auto-governarem e suas posições sobre o tema eram muito mais conservadoras que o sentimento médio republicano. O presidente chegou a vetar uma lei aprovada pelo Congresso declarando os negros cidadãos estadunidenses com todos os direitos e privilégios disso decorrentes. O Congresso derrubou o veto e propôs a 14ª Emenda à constituição estabelecendo

o conceito de cidadania a todos os nascidos ou naturalizados estadunidenses e

retirando dos estados o poder de negar essa cidadania sem o devido processo legal, como forma de evitar a revogação dos direitos dos negros caso os democratas voltassem a vencer. Johnson mais uma vez posicionou-se contra e tentou inutilmente fazer campanha contra sua aprovação, o que mais uma vez irritou o partido. Com relação ao Sul, os estados da região, apesar de derrotados na Guerra Civil, agiam como se o conflito nunca houvesse acontecido e eles não tivessem recém sido derrotados militarmente e o presidente mostrava-se bastante leniente com essa posição. Os congressistas, por sua vez, estabeleceram como procedimento para reintegrar completamente os estados do Sul à União que estes deveriam elaborar novas constituições estaduais e aprovar a 14ª Emenda.

Johnson tentava emperrar as políticas de Reconstrução 4 do Sul afastando generais nomeados que se mostravam simpáticos ao Congresso e substituindo secretários de governo, apesar de lei que requeria a aprovação do Senado para tal procedimento. O desgaste do presidente com o partido, que em tese deveria ser sua base de apoio, foi se agravando e culminou num processo de impedimento, do qual Johnson acabaria absolvido por apenas um voto no Senado. Em 1868, novas eleições e novo presidente republicano, Ulysses S. Grant, líder militar na guerra contra o Sul mas considerado um dos presidentes mais fracos da história dos EUA. Um governo marcado por escândalos de corrupção e pelas últimas iniciativas do partido em relação à reconstrução do Sul. Em 1872, quando da campanha pela reeleição de Grant, um grupo de republicanos auto- intitulados Republicanos Liberais aliou-se aos democratas e lançou o republicano Horace Greeley à presidência contra Grant, em um programa que buscava pôr um ponto final nas políticas de reconstrução. Os dissidentes perderam, mas suas críticas da Reconstrução como custosa e corrupta impressionaram a muitos no Norte e propiciaram aos democratas nas próximas eleições a chance que há muito não viam. As eleições de 1876 foram então bastante disputadas entre o democrata Samuel Tilden e o republicano Rutherford B. Hayes e foram marcadas tanto pela competitividade quanto pelas fraudes. Nos estados do Sul, abusou-se das fraudes e intimidação para impedir que negros votassem. Na contagem final, pesquisas de boca-de-urna indicavam a vitória do democrata, que já somava 184 votos no colégio eleitoral (sendo necessários 185 para se eleger) contra 165 de Hayes faltando apenas três estados a serem contabilizados. Os republicanos, entretanto, começaram a enviar telegramas declarando a vitória de Hayes com 185 votos eleitorais atingidos e o caso foi parar no Congresso, que criou uma comissão para

4 O termo Reconstrução se refere tanto ao período pós-Guerra Civil durante o qual os ex-Estados Confederados foram readmitidos à União quanto ao processo político através do qual tal readmissão se deu. Esse processo incluiu a indicação pela União de governadores militares aos estados do Sul e a exigência de mudanças nas constituições e leis estaduais e da ratificação das 13ª, 14ª e 15ª Emendas à Constituição Federal, que respectivamente aboliam a escravidão, garantiam cidadania a todos os estadunidenses natos ou naturalizados e o reconhecimento das dívidas de guerra da União e repúdio das dívidas dos Confederados, e proibiam a suspensão do direito ao voto baseado em cor, raça ou condição anterior de servidão, entre outras medidas.

decidir quem de fato havia ganho. Ao final, Hayes foi empossado após acordos entre republicanos e democratas encerrando de vez as políticas da Reconstrução. Com a saída do tema da agenda política republicana, destacou-se o nacionalismo econômico do partido, com sua crença em uma nação social e economicamente harmônica cujo governo deveria utilizar seus poderes a fim de “distribuir terras públicas, promover a expansão de ferrovias e outros empreendimentos e encorajar o crescimento da indústria através de impostos alfandegários a bens importados” (GOULD, 2003: 84). A aplicação de tais taxas alfandegárias ou da ‘tarifa’, como era mais conhecida essa herança ideológica do antigo Partido Whig, converteu-se na maior bandeira capaz de gerar consenso no partido em oposição aos democratas durante o período final do século XIX conhecido como “Era Dourada”. Esse período, apesar da continuidade republicana na Casa Branca interrompida apenas por dois mandatos do democrata Grover Cleveland (1885-89 e depois 1893-97), foi marcado por um grande equilíbrio político graças ao domínio democrata nos estados do Sul, onde a participação republicana era praticamente inexistente, o que tornou as vitórias do partido no executivo bastante apertadas e garantia um virtual empate no legislativo, em que nenhum dos partidos tinha domínio suficiente para impor de maneira sistemática sua agenda política. Também foi marcado pela continuidade dos escândalos de corrupção, pela utilização de escândalos pessoais como tema de campanhas eleitorais e pela ascensão de grandes industriais como John D. Rockefeller, Andrew Carnegie e James J. Hill e a consolidação da aproximação desse setor social com o partido, em grande parte graças à posição dos republicanos favorável à manutenção de uma tarifa de importações elevada que, ao proteger o mercado interno da competição estrangeira, favorecia a consolidação de grandes indústrias e corporações nacionais. Essa aproximação dos republicanos com os grandes industriais e a própria questão da tarifa eram motivo de críticas dos democratas, que a acusavam (com certa razão em alguns casos) de encarecer os preços de alguns produtos importados aos consumidores e de ser uma mera retribuição dos republicanos aos

industriais que os financiavam. Além disso, suspeitosos de um governo federal forte, os democratas criticavam o “excesso” de arrecadação do governo pela tarifa externa, à época a principal fonte de receitas do governo dos Estados Unidos. O equilíbrio político da “Era Dourada” seria quebrado, em favor dos republicanos, durante as eleições legislativas de 1894, durante o segundo governo Cleveland. Em seu segundo mandato, o democrata enfrentou uma severa recessão econômica que a ortodoxia democrata de não-ação governamental impedia de superar e os republicanos logo capitalizaram o descontentamento popular a seu favor, argumentando que os democratas haviam causado a recessão e que o aumento da tarifa de importação poderia reverter a situação e trazer novamente bons tempos econômicos. Após tomar o controle do legislativo em 1894, chegou a vez de retomar o executivo em 1896 com William McKinley em um governo que ficou marcado pela política externa imperialista da guerra com a Espanha pela independência de Cuba e da anexação das Filipinas. No plano interno, afirmação de uma política monetária de moeda forte baseada no padrão-ouro e novo aumento de tarifas de importação de bens industrializados seguindo a cartilha republicana, mas dessa vez contendo na mesma lei a autorização para que o presidente negociasse tratados de livre comércio com outras nações. A tenacidade com que McKinley tentou estabelecer esses tratados representou os primeiros movimentos de heterodoxia com relação ao tema da tarifa desde que ela cristalizara-se na ideologia republicana. Este era um período em que corporações cresciam aceleradamente e iam absorvendo outras corporações menores formando monopólios, altamente criticados pelos democratas que os apontavam como filhos da proteção tarifária. O presidente sabia que a questão da tarifa deixava o partido vulnerável às críticas democratas e tentou utilizar o artifício dos tratados de livre comércio para neutralizar a questão sem ter que desmontar o sistema protecionista tão caro aos republicanos. Com a morte do vice-presidente por problemas cardíacos em 1899, o Partido Republicano teve que selecionar um novo vice para concorrer com McKinley nas eleições de 1900 e, apesar da desconfiança de muitos de seus

membros (incluindo o próprio McKinley) que o consideravam inconstante e temiam seu desinteresse por questões tarifárias e seu desdém pelos negócios empresariais, teve que se render à extrema popularidade do governador de Nova Iorque Theodore Roosevelt. Quando na convenção republicana o senador Marcus Hanna criticou a escolha de Roosevelt para a vaga de candidato a vice-presidente dizendo que “apenas uma vida separa aquele louco da presidência” (apud. GOULD, 2003: 134) não imaginava a profecia contida em suas palavras. Em setembro de 1901 o reeleito McKinley foi assassinado e Roosevelt assumia a presidência. A ascensão de Theodore Roosevelt à presidência representa talvez um dos momentos mais importantes da história do partido. Se até então os republicanos acreditavam na necessidade de o governo utilizar seus poderes para incentivar o crescimento econômico, proteger o mercado interno e desenvolver obras públicas, intervir diretamente na regulação econômica ainda era um tabu. Com a formação de grandes monopólios a partir da fusão e aquisição de companhias no contexto da expansão econômica do fim do século XIX e a acusação dos democratas de que o Partido Republicano, intimamente ligado aos grandes negócios, era a favor de tais monopólios, o partido chegou a aprovar em 1890 durante a presidência de Benjamin Harrison uma lei antitruste, mas nunca a pusera em prática. Com McKinley, especialmente entre o fim de seu primeiro mandato e seu assassinato, começara-se a cogitar ações contra os trustes tão odiados pela sociedade, mas o presidente não teve tempo de passar da retórica à ação e foi com Roosevelt que a lei foi pela primeira vez utilizada em 1902 contra a companhia Northern Securities. 5 Também em 1902, Roosevelt interveio em uma greve de carvoeiros obtendo resultados considerados favoráveis aos trabalhadores, aumentando sua popularidade e a do partido junto à população e a desconfiança de muitos republicanos em relação a ele. Já em seu segundo mandato, o presidente

5 A Northern Securities Company era um grande conglomerado ferroviário formado em 1901 pelos financistas J.P. Morgan, James J. Hill, J. D. Rockefeller, E. H. Harriman entre outros e que controlava diversas companhias ferroviárias, formando um imenso monopólio, o que violava a Lei Sherman Antitruste de 1890. O presidente Roosevelt processou a companhia por violar a lei , que após vigorosa ação federal foi finalmente dissolvida pela Suprema Corte em 1904.

prosseguiria em direção a uma maior regulação econômica com a aprovação em

1906 da Lei Hepburn, que dava à Comissão Interestadual de Comércio (ICC na sigla em inglês) um maior poder de fiscalização sobre as companhias ferroviárias,

e da Lei da Pureza de Comidas e Remédios, que estabelecia procedimentos mais

rigorosos de fiscalização da qualidade de tais produtos ante os escândalos sobre

o processamento e venda de alimentos e remédios contaminados divulgados pela

imprensa. Também datam do governo Roosevelt os primeiros esforços de preservação ambiental e a proposição de um imposto federal sobre heranças. Roosevelt acreditava que tais esforços reformistas eram cruciais face aos novos desafios de uma complexa sociedade crescentemente industrial e urbana que se não fossem enfrentados poderiam deixar margem a radicalismos e

agitações sociais, mas o Partido Republicano dividiu-se entre essa compreensão

e

um conservadorismo cada vez maior de muitos membros que chegavam a odiar

o

presidente. Muitas das leis e iniciativas aprovadas por Roosevelt encontravam

forte resistência no Congresso apesar do controle republicano sobre o mesmo. Como o presidente já havia anunciado desde sua campanha pela reeleição que não concorreria a um novo mandato em 1908 6 , as alas conservadora e progressista do Partido Republicano buscavam assegurar um candidato presidencial mais afinado com suas idéias, mas a personalidade forte de Roosevelt e popularidade de que gozava o presidente acabaram centralizando nele a escolha do nome, que por fim se definiria pelo seu Secretário de Guerra William H. Taft. Ambas as facções, progressistas e conservadores, lutavam internamente pelo controle do partido e pela influência sobre o novo mandato facilmente conquistado por Taft graças à imensa popularidade com que Roosevelt deixava o governo. Durante seu governo, entretanto, apesar de em alguns aspectos como o combate aos monopólios o novo presidente algumas vezes até exceder Roosevelt, em muitas outras (como nas políticas de conservação ambiental, em

6 Não havia limite legal ao número de vezes que alguém poderia se eleger presidente, mas uma certa tradição informal o estabelecia em dois mandatos. Tendo assumido seu primeiro mandato com o assassinato de McKinley em 1901, T. Roosevelt dizia que sua eleição em 1904 seria seu segundo governo e que não buscaria um terceiro. Apenas com a 22ª Emenda, proposta pelo Congresso em 1947 e ratificada pelo número necessário de estados em 1951, seria fixado o limite constitucional de dois mandatos presidenciais.

sua posição contrária à entrada do estado de Arizona na União por possuir uma constituição estadual “progressista demais” ou a própria retórica por ele utilizada em seus pronunciamentos) ele se aproximava mais dos conservadores, cuja força no Congresso o fazia crer na necessidade de fazer concessões a fim de manter o partido unido. Isso e vários outros problemas de ordem pessoal colocaram Taft em rota de colisão com seu antigo padrinho político e levariam a um racha republicano que devolveria o governo aos democratas e selaria a virada ideológica do partido. Roosevelt resolveu concorrer a nova indicação presidencial republicana com um programa chamado por ele de “Novo Nacionalismo” e ainda mais a esquerda do que desenvolvera durante seu governo, lembrando em muitos aspectos um embrião do que viria a ser chamado no futuro de Estado de Bem- Estar Social, com propostas de assistência aos desempregados, salário mínimo e leis de proibição de trabalho infantil. Ao perder na convenção republicana e ver Taft renomeado, Roosevelt retirou-se do Partido Republicano alegando fraudes no processo de seleção do candidato e lançou-se à presidência pelo Partido Progressista por ele fundado. A divisão dos republicanos facilitou a vitória do democrata Woodrow Wilson mas o sentimento de grandes setores do partido era de que a derrota eleitoral fora um mal menor se comparado aos benefícios da saída do “herege” Roosevelt. A agenda de Wilson no governo de certa forma aproximava-se bastante do defendido por Roosevelt e seu novo Partido Progressista, com a aprovação de nova lei antitruste, redução de tarifas de importação, criação de um Imposto de Renda e do Federal Reserve (Banco Central dos EUA), expansão do direito de voto às mulheres e apoio a uma lei regulando o trabalho infantil. Entretanto, graças à forte personalidade do ex-presidente e à desconfiança de seu partido em relação aos democratas, Wilson não conseguiu ganhar o apoio dos progressistas logo de início até pelo menos as eleições de 1916, quando Roosevelt impediu o lançamento de candidato próprio do Partido Progressista para garantir o apoio dos mesmos ao candidato republicano e acabou provocando a implosão do partido,

com parte dos membros (incluindo Roosevelt) retornando ao Partido Republicano

e outra parte apoiando os democratas e a reeleição de Wilson. A virada à esquerda dos democratas que sob Wilson começaram a se apropriar das bandeiras dos progressistas fez com que os republicanos cada vez mais adotassem “uma postura conservadora acerca da regulação dos negócios, o papel da taxação e o tamanho do governo” (GOULD, 2003: 215) que nem mesmo o retorno de Roosevelt e parte dos progressistas ao partido pôde reverter. As eleições congressuais de 1918 em que o partido retomou o controle do Congresso frente a um Wilson já desgastado pelos efeitos da entrada estadunidense na I Guerra Mundial marcaram essa primeira consolidação conservadora do partido que ganharia novos impulsos mais tarde ao longo do século XX. Quando em 1920 os republicanos retomaram também a Casa Branca com Warren G. Harding e iniciaram um novo e longo período de hegemonia, que duraria até a queda da Bolsa de Nova Iorque em 1929 e a recessão que se seguiu, seu novo posicionamento ideológico à direita dos democratas já estava bastante claro. Esse novo período de hegemonia republicana marca-se pelo

conservadorismo fiscal e pela crença num governo limitado em tamanho e alcance cuja ortodoxia marcaria o colapso do partido quando da severa recessão do final da década de 1920 e início da de 1930, do mesmo modo que acontecera durante

o segundo governo do democrata Grover Cleveland. A aprovação em 1921 da Lei

de Orçamento, que regulava pela primeira vez o planejamento orçamentário do governo durante a presidência de Harding, é um reflexo da preocupação republicana à época com o equilíbrio orçamentário. O partido aprovou ainda sob Harding uma revisão das tarifas de importação em 1922 que desfez as reduções aprovadas pelos democratas com Wilson, mas o tema já não tinha mais a mesma importância que antes já que as receitas governamentais vinham agora principalmente do imposto de renda recriado pelos democratas. Já sob a presidência de Calvin Coolidge, viriam a ser aprovados expressivos cortes de impostos em 1926, no que pode ser entendido como um sinal da nova crença partidária em um governo limitado, com menos receitas, menos despesas e

menos atribuições e que faria escola no ideário partidário durante o decorrer do século. Quando a recessão chegou, já sob o governo de Herbert Hoover, a nova ortodoxia partidária não contribuía em nada para a solução dos problemas, como não contribuíra aos democratas nos anos de 1890. Hoover até tentou tomar atitudes de enfrentamento à crise, como a criação em 1932 da Corporação de Financiamento à Reconstrução, destinada a emprestar dinheiro a bancos e empresas em vias de falência e o apoio a programas voluntários de assistência. Contudo, a nova ideologia republicana impunha os limites que Hoover não se

atrevia a atravessar, bem representados em um discurso proferido pelo presidente em junho de 1931 em que, perguntando retoricamente sobre o que deveria ser feito, dizia: “Devemos distribuir esmolas a partir do Tesouro Federal? Devemos adotar a propriedade e operação federal de utilidades públicas em vez de sua

Devemos arregimentar nosso povo através da extensão

regulação rigorosa (

do braço da burocracia em uma multitude de interesses?”. A derrota de Hoover para o democrata Franklin Delano Roosevelt, primo distante do ex-presidente Theodore Roosevelt, nas eleições presidenciais de 1932 era então bastante previsível e não causou nenhuma surpresa, mas os resultados que traria e os efeitos que eles causariam sobre o Partido Republicano ainda estavam por ser conhecidos. Roosevelt continuou a tendência do Partido Democrata rumo à esquerda iniciada com Wilson e ampliou ainda mais o alcance e a presença do Estado na sociedade. Consolidou o Estado de Bem-Estar Social estadunidense com seu “New Deal” (Novo Acordo), que incluía medidas como a

criação da Seguridade Social, leis que reconheciam o poder de negociação dos sindicatos, a Lei de Propriedade de Companhias de Utilidade Pública e a regulação de bancos com a Lei Bancária de 1935. Para financiar todo esse novo ativismo estatal, Roosevelt aumentou o imposto de renda sobre os mais ricos, além dos impostos sobre heranças e transferências. O alcance social dos novos programas governamentais favoreceu a migração do apoio e votos dos negros, que historicamente sempre apoiaram os republicanos mesmo após o fim da Reconstrução, em favor dos democratas. Parte

)?

significativa da população pobre, os negros foram, ainda que indiretamente (pois não havia políticas específicas para esse segmento no New Deal), bastante favorecidos pelas políticas de Roosevelt. A tendência de apoio ao Partido

Democrata que se iniciara alguns anos antes e se consolidaria após os anos 1960 teve um importante impulso nessa época e foi bastante importante para as vitórias democratas no período, visto que fluxos migratórios do início do século XX haviam trazido números significativos de negros para as grandes cidades do Norte. Enquanto isso, os republicanos acusavam Roosevelt de subverter a natureza do sistema político estadunidense e querer implantar o socialismo, mas

se dividiam profundamente em relação a que rumos e estratégias adotar graças à

popularidade de que gozavam o presidente e seu programa.

Pela metade da década de 1930, o conservadorismo prevalecia como a posição política dominante do partido em assuntos domésticos. Republicanos “liberais” estavam dispostos a aceitar alguns aspectos do New Deal por razões eleitorais. Os moderados eram menos entusiastas dessa estratégia mas a aceitariam sempre que ela aparentasse chances de vitória. Conservadores, que representavam a maioria do partido, acreditavam que o New Deal representava uma mudança revolucionária nos

valores americanos que deveria ser repelida quando o partido recuperasse o poder. A fé no poder nacional que tinha sido o coração do pensamento republicano durante o meio do século XIX fora agora substituída por um crescente comprometimento com os

direitos estaduais, governo menor e um executivo limitado

(GOULD, 2003: 276).

Durante os longos anos de Roosevelt no poder, os republicanos nomearam candidatos tidos como moderados e supostamente com mais chances de vitória (incluindo um ex-democrata convertido, Wendell Willkie em 1940), sucessivamente derrotados por F. D. Roosevelt em 1936, 1940 e 1944. Isso enfurecia ainda mais a base conservadora do partido, que a cada derrota via reforçada sua certeza na negação radical do New Deal e suas criações como a estratégia a ser adotada pelo partido. Com a morte de Roosevelt em 12 de abril de 1945, ascendia à presidência

o democrata Harry Truman cujas hesitações e erros iniciais no governo

reacenderam a esperança republicana de retornar à Casa Branca, especialmente

após a vitória do partido nas eleições legislativas de 1946. Porém, essa vitória inicial republicana os levaria a superestimar suas chances e a acreditar que tinham recebido um claro mandato para repelir o New Deal tanto quanto possível,

o que se mostrou claramente um erro frente à popularidade alta de que tais

políticas ainda gozavam, o que foi habilmente explorado na campanha de Truman

pela reeleição. Seria mais uma derrota de um candidato republicano moderado, Thomas E.

Dewey, que já havia concorrido nas eleições de 1944. Mas mais importante que a derrota para a história dos republicanos foi o apoio dado por Truman a políticas de direitos civis, que racharia o apoio de seu partido no Sul já nas eleições de 1948, com a formação por dissidentes democratas do Partido dos Direitos Estaduais que concorreria à presidência com o senador Strom Thurmond da Carolina do Sul. Muitos dos ex-democratas descontentes com o crescente apoio dado pelos democratas do Norte a políticas de integração dos negros na sociedade acabariam com o tempo por unir-se ao Partido Republicano, que aproveitando a crescente onda de apoio no Sul lançaria em 1957 a chamada “Operação Dixie” 7 e criaria as bases para o fortalecimento de sua presença na região. O período seria também marcado pelo início da Guerra Fria e pelos constantes ataques e acusações republicanas de que os democratas eram lenientes demais com a ameaça comunista ou mesmo que suas políticas eram passos para a implantação do comunismo no país. Foi nesse período que surgiu a controvertida figura do senador de Wisconsin Joseph McCarthy, sempre disposto

a acusar a infiltração de agentes soviéticos no governo e que gozou durante um

tempo de grande prestígio no partido, especialmente entre seus setores mais à direita. Apesar de ter tido sua importância ao desmoralizar parlamentares e candidatos democratas, suas visões conspiratórias começaram a partir de um certo ponto a atrapalhar mais que ajudar o partido e McCarthy caiu em desgraça

7 “Para capitalizar a força de Eisenhower com o eleitorado branco no sul, o Comitê Nacional Republicano criou um braço sulista de sua organização e lançaria a ‘Operação Dixie’ em 1957 para expandir a base do partido abaixo da linha de Mason-Dixon. A iniciativa apelava à crescente defecção no pós-guerra de eleitores democratas brancos descontentes com a contínua identificação de seu partido com as aspirações negras. A maior presença do Partido Republicano no Sul ajudaria conservadores como Barry Goldwater a achar uma audiência e futuros apoiadores. No começo dos anos 1960, a Operação Dixie forneceria as bases para a emergência do Partido Republicano no Sul durante a presidência de John F. Kennedy.” (GOULD, 2003: 338).

entre seus pares quando começou a acusar supostas infiltrações comunistas mesmo nas forças armadas e em seu próprio partido. Nas eleições presidenciais de 1952, o Partido Republicano finalmente voltaria à presidência com o general herói da II Guerra Dwight Einsenhower mas sua vitória, antes de acalmar a base cada vez mais conservadora, mostrou o quanto o partido continuava dividido. Apesar de pessoalmente um conservador em questões sociais e defensor de um governo austero, Eisenhower reconhecia a importância que políticas como a Seguridade Social haviam adquirido e sabia que seria suicídio político desmontá-las. Além disso, Eisenhower acreditava não serem necessários tantos investimentos militares e buscou entendimentos com a União Soviética para acordos de redução e controle de armamentos - o que contradizia enormemente o sentimento médio do partido favorável a investimentos massivos no desenvolvimento de armas cada vez mais poderosas e que cortes em gastos sociais eram muito mais adequados face à necessidade de equilíbrio orçamentário que cortes nos gastos militares. Além disso, os republicanos cobravam do presidente uma política externa mais agressiva frente ao comunismo que a simples continuidade da política de contenção iniciada por Truman. Eisenhower acreditava que o Partido Republicano deveria reciclar-se e encarar o fato de que muitas das mudanças trazidas pelo New Deal tinham vindo para ficar, mas seus esforços para remodelar o partido tal como Roosevelt fizera com os democratas estavam já fadados ao fracasso graças à aprovação da 22ª Emenda após a II Guerra, que proibia uma terceira candidatura presidencial. Com a certeza de que Eisenhower sairia de cena em 1960, a base conservadora podia simplesmente ignorar as tentativas promovidas pelo presidente de mudança partidária e sua influência sobre o partido era cada vez menor. Em 1960, o vice-presidente e candidato à presidência Richard Nixon perderia a disputa para o democrata John Kennedy em uma eleição tão apertada que deixaria os republicanos com a certeza de que voltariam em 1964. O assassinato de Kennedy em 22 de novembro de 1963, entretanto, acabou mudando os prognósticos. Lyndon Johnson, o vice-presidente de Kennedy, assumiu a presidência e se tornou o favorito no contexto da comoção pelo

assassinato do presidente. Concorreria com ele o senador de Arizona e genuíno representante do conservadorismo republicano Barry Goldwater. Finalmente o partido escolhia como seu candidato alguém bastante afinado com a ideologia partidária após vários anos indicando candidatos moderados que, mesmo quando vitoriosos como no caso de Eisenhower, pareciam aos conservadores colocar os interesses acima dos princípios, ao defender e poupar programas governamentais populares mas estranhos ao novo credo republicano em governos limitados, direitos estaduais e baixos impostos. Goldwater, mesmo tendo perdido por margens humilhantes as eleições para Johnson em 1964, marca um ponto de virada na consolidação do poder dos conservadores sobre a máquina partidária. Sua campanha marca também o surgimento de Ronald Reagan como político nacional do partido em um discurso televisivo pronunciado a favor de Barry. Da presidência de Johnson e seus efeitos no Partido Republicano, destaca- se seu empenho na aprovação de leis para a garantia dos direitos civis de negros e latinos, seguindo a tendência cada vez mais forte dentro de seu partido, e que em médio prazo transformaria o Sul, antigo bastião democrata desde a Guerra Civil, em domínio republicano. 8 Johnson tinha consciência dos efeitos da lei de direitos civis sobre a antiga base de apoio democrata no racista Sul dos EUA e profeticamente diria quando da aprovação da lei: “Eu acho que acabamos de entregar o Sul ao Partido Republicano por um bom tempo” (apud. GOULD, 2003:

363). Goldwater, que no senado se opusera à lei por considerá-la inconstitucional ao ferir os direitos dos estados, ganharia a eleição em apenas 6 estados: seu Arizona natal e 5 outros no Sul, iniciando a tendência de migração sulista para a base republicana que só aumentaria nos anos seguintes. No plano internacional, o Partido Republicano apoiou o início da Guerra do Vietnã, demonstrando a força do anticomunismo na ideologia partidária republicana pós-Segunda Guerra, embora criticasse o presidente Johnson por não

8 A concessão de direitos civis às minorias raciais consolidou a migração do apoio desse segmento do eleitorado, iniciada por volta do New Deal, ao Partido Democrata, mas ao mesmo tempo intensificou a tendência de migração do eleitorado branco do Sul, tradicionalmente fiel aos democratas desde a Guerra Civil, ao Partido Republicano que se consolidaria anos mais tarde. Ver BRENNAN, 1995; GOULD, 2003; e MICKLETHWAITH & WOOLDRIDGE, 2004.

empregar todas as forças do país na busca pela “vitória total”. “A natureza dessa vitória total normalmente não era definida com precisão, mas a idéia de que alguma outra estratégia, quer fosse uma escalada mais intensa ou a ameaça de armas nucleares, poderia ter trazido um fim ao conflito tornou-se comum no pensamento conservador” (GOULD, 2001: 369). Quando 1966 e as eleições legislativas de meio-mandato chegaram, Johnson e os democratas encontravam-se já bastante desgastados com a forte tensão social levantada com a aprovação das leis de direitos civis dos anos anteriores e os republicanos, sob lemas de ordem social, conseguiram capitalizar o descontentamento popular e obtiveram ganhos expressivos no Congresso e nos governos estaduais, incluindo a Califórnia com Ronald Reagan. O “ressurgimento” republicano de 1966 renovou o ânimo do partido com relação às eleições gerais de 1968, quando Nixon surgiria como mais forte candidato. Seu forte empenho na campanha dos candidatos republicanos em 1966 e seu forte planejamento pré- eleitoral, que lhe garantia o controle de um bom número de delegados que votariam na convenção republicana, o colocavam como o mais forte nome na disputa e lhe garantiriam a vaga. Do lado democrata, a renúncia de Johnson a uma nova candidatura frente ao desgaste de seu governo pelos fracassos no Vietnã e à forte tensão racial e a posterior ausência de consenso partidário e de um nome forte para a disputa colocavam Nixon como favorito. Seu governo o revelaria muito mais próximo do centro do Partido Republicano que dos conservadores mais radicais, mas o fato de que desde sua campanha pela nomeação na convenção republicana Nixon buscou apresentar-se como mais conservador do que realmente era mostra o controle partidário de que dispunha a ala mais conservadora dos republicanos (BRENNAN, 1995:137). O então candidato Nixon prometia paz social, menos impostos e o fim da guerra do Vietnã em um discurso ambíguo o suficiente para contentar tanto aqueles que se opunham à guerra quanto aqueles que desejavam o uso de mais força para assim conseguir vencê-la. No governo, apoiou programas de renda mínima, maiores gastos em programas sociais, políticas raciais de ação afirmativa e a criação da EPA (Agência de Proteção Ambiental na sigla em inglês). Quanto à guerra do

Vietnã, Nixon começou a progressivamente retirar as tropas estadunidenses do país e a “vietnamizar” o conflito até seu abandono em 1973. Para desespero ainda maior dos anticomunistas mais radicais do partido, o presidente visitaria a China e normalizaria as relações diplomáticas com o país. Em seu segundo mandato, Nixon acenaria com uma inflexão mais conservadora com cortes de gastos e diminuição do governo, mas já no início de 1973 começavam a surgir os primeiros indícios do escândalo de Watergate que o faria renunciar para escapar do impeachment em agosto de 1974. Nixon utilizara- se de escutas ilegais para espionar o Hotel Watergate, sede da convenção do Partido Democrata e sua renúncia elevou à presidência o republicano Gerald Ford, escolhido alguns meses antes para o cargo de vice-presidente após a renúncia de Spiro Agnew, vice-presidente eleito na chapa de Nixon e acusado de corrupção. Fazendo uma presidência mediana, Ford conseguiria garantir a indicação do partido para disputar as eleições de 1976 mesmo com a forte disputa na convenção com Ronald Reagan, cada vez mais popular entre os republicanos e que acabara de encerrar seu segundo mandato como governador da Califórnia. Mas o triunfo partidário de Ford não foi suficiente para fazê-lo triunfar também nas eleições presidenciais, que perderia para o democrata Jimmy Carter. O breve triunfo eleitoral democrata não se sustentaria apesar da ilusória hegemonia proporcionada pelo controle simultâneo do Congresso e da Casa Branca. Uma economia desacelerada e um cenário externo turbulento (com a Revolução Iraniana de 1979 e o seqüestro de reféns da embaixada americana em Teerã) proporcionaram ao Partido Republicano farta munição para críticas, prometendo a retomada do crescimento econômico com menos impostos, quanto uma atitude mais dura na defesa dos interesses estadunidenses no mundo (tema ao qual a assinatura por Carter de um tratado com o Panamá devolvendo-lhe a soberania sobre o canal ao fim do século forneceu inúmeros argumentos). Essa articulação de um pensamento econômico que abominava um Estado interventor e altos impostos e ao mesmo tempo prometia uma política anticomunista e de defesa nacional forte atraiu ao partido o grupo dos chamados

“neoconservadores”, ex-democratas afastados “pelas posições liberais de seu partido em questões domésticas e principalmente de política externa” (GOULD, 2003: 397). Além disso, o acirramento do movimento feminista nos anos 1970 e a legalização do aborto por uma decisão da Suprema Corte em 1973 forneceram terreno fértil para a aproximação dos republicanos com setores conservadores “em defesa da família e da vida”, em especial a “Nova Direita Religiosa” de pastores como Jerry Falwell e Pat Robertson. A débâcle de Nixon com o caso Watergate provocou a marginalização definitiva dos setores centristas no interior do Partido Republicano (BRENNAN, 1995) e 1980 finalmente assistiria à candidatura presidencial de Ronald Reagan, tão conservadora em essência quanto a de Goldwater em 1964, mas muito mais simpática e carismática. O conservadorismo partidário enfim encontrava em Reagan seu campeão definitivo, capaz de articular um conservadorismo ideológico com uma roupagem propositiva e atraente, no que suas habilidades como ator o ajudavam enormemente. Na Casa Branca, Reagan executou grande parte do programa que prometera, conduzindo massivos cortes de impostos e elevando os gastos em defesa nacional. A teoria econômica dominante em seu governo e no Partido Republicano era a chamada economia de oferta, que defendia que um corte nas taxas de impostos levaria a um maior crescimento econômico e conseqüentemente acabaria por elevar novamente as receitas governamentais, mesmo com as alíquotas mais baixas. Seus efeitos, entretanto, provocaram um déficit orçamentário que obrigou o presidente a elevar alguns impostos em 1982 de modo a equilibrar as contas públicas. Ao fim desse ano, a economia voltou a crescer e juntamente com a política externa agressiva de defesa dos interesses estadunidenses, com fortes críticas à União Soviética (classificada por Reagan como um “império do mal”) e a invasão de Granada para depor um governo local de esquerda, aliados ao carisma pessoal de Reagan, garantiriam ao presidente a popularidade necessária para vencer facilmente a reeleição em 1984.

Nem mesmo escândalos em seu segundo mandato, como o caso Irã- Contras 9 , foram capazes de arranhar significativamente a popularidade do presidente e Reagan seguiu com sua política de conservadorismo social e menos impostos, com uma reforma que simplificou a estrutura tributária e baixou alíquotas em 1986, desregulamentação da economia, gastos maiores no setor de defesa e menos restrições ambientais à política energética. Para as eleições presidenciais de 1988, o vice-presidente de Reagan, George H. W. Bush, aparecia como principal favorito à nomeação como candidato republicano, contando com o apoio inclusive do próprio presidente, mas seu histórico como centrista e suas críticas à economia de oferta de Reagan na convenção republicana de 1980 atraíam ainda muita desconfiança por parte de seus correligionários. Essa desconfiança seria inicialmente vencida na convenção de 1988 com sua célebre frase de que “o Congresso me pressionará para aumentar os impostos e eu direi não, e eles pressionarão e eu direi não, e eles pressionarão novamente e eu lhes direi: leiam meus lábios. Não haverá novos impostos” (apud. GOULD, 2003:44). Tal declaração, porém, lhe seria bastante custosa quando em 1990, já eleito, Bush viu-se forçado a um acordo com a maioria democrata no Congresso acerca da lei orçamentária do próximo ano que aumentava a alíquota mais alta do imposto de renda de modo a diminuir o déficit herdado de Reagan. Como muitos do partido sempre haviam desconfiado do real grau de conservadorismo de Bush, sua aceitação de um aumento de imposto seja por que alegação fosse parecia à base uma traição dos princípios partidários republicanos e cerca de ¾ dos congressistas do partido na câmara e no senado votaram contra a lei orçamentária, que só foi aprovada graças ao forte apoio democrata. Mesmo sem contar com grande apoio dentro de seu partido, George Bush conseguiu a princípio altos índices de popularidade com os seus êxitos em política

9 O escândalo consistiu na venda pela administração Reagan, sem autorização do Congresso, de armas ao Irã (que se encontrava no meio de uma sangrenta guerra contra o Iraque) em troca da libertação de reféns estadunidenses mantidos pelo grupo xiita libanês Hezbollah, leal ao aiatolá Khomeini, líder supremo do Irã. Também sem o consentimento do Congresso, a verba obtida com a venda das armas era revertida ao financiamento do grupo nicaragüense conhecido como Contras, que promovia oposição armada e sabotagem ao governo sandinista da Nicarágua. Alguns membros do governo chegaram a ser condenados pela Justiça mas a participação direta do presidente nunca foi provada.

internacional, especialmente após o fim da Guerra do Golfo, quando atingiu recordes históricos de popularidade, mas a chegada de tempos econômicos difíceis com crescentes níveis de desemprego e a aparente letargia do governo em lidar com tais problemas logo derrubaram os índices de avaliação do presidente e a reeleição que parecera certa naufragou, com a tomada da Casa Branca pelo democrata Bill Clinton. Durante os anos Clinton, nas eleições congressuais de 1994, o Partido Republicano conseguiu recuperar o controle do Congresso (o que não acontecia há mais de 40 anos) sob a liderança de Newt Gingrich e com a promessa de um novo “Contrato com a América”, onde menores impostos e menos regulação econômica ocupavam um papel central. Mas ao contrário de propiciar as bases para uma nova hegemonia republicana como o partido tanto desejava, esse domínio do Congresso pelo partido marcou um período de disputa e por diversas vezes impasse entre a Casa Branca e o legislativo na qual os democratas acabaram levando a melhor. Muitos dos projetos aprovados pelos republicanos, incluindo alguns cortes de impostos, eram vetados seguidamente pelo presidente e tentativas republicanas de utilizar sua maioria para obstruir os trabalhos do Congresso e pressionar Clinton acabaram sendo utilizadas por este contra o partido, que acabava se desgastando perante a opinião pública como uma oposição raivosa e que impedia o popular presidente de governar. Escândalos sexuais envolvendo Clinton e uma estagiária da Casa Branca renderam aos republicanos muita munição para ataques morais ao presidente e um início de processo de impeachment, mas o bom momento de expansão econômica que garantia a Clinton popularidade e a inabilidade republicana em negociar com os democratas no Congresso para atingir a maioria constitucional necessária para impedir o presidente destinaram a iniciativa ao fracasso. Ao fim do segundo mandato de Clinton, os republicanos indicariam o governador do Texas George W. Bush contra o vice-presidente e candidato democrata Al Gore. Autodefinido em campanha como um “conservador com compaixão”, o filho mais velho do ex-presidente republicano prometia cortes de

impostos, recuperação das forças militares nacionais e menos comprometimento internacional estadunidense (DONMOYER & GLENN, 1999; GOULD, 2003). Em uma campanha bastante acirrada, W. Bush perderia por mais de meio milhão de votos populares mas venceria nos votos eleitorais após um complicado imbróglio que lhe garantiu os decisivos votos da Flórida, governada por seu irmão Jeb Bush, onde abundaram denúncias de irregularidades. O episódio lembrou em parte o caso de 1876, em que o republicano Rutherford Hayes foi eleito presidente em meio a uma disputa com os democratas acerca da lisura do pleito em que ambos os lados clamavam vitória, mas um certo senso republicano de “partido natural do governo” lhes emprestava muito mais vigor na defesa de seu lado, o mesmo acontecendo nas eleições de 2000. O lado republicano defendia com muito mais paixão e certeza o seu direito à vitória e essa pusilanimidade democrata, relutante em levar o questionamento eleitoral até as últimas conseqüências, foi decisiva na garantia da vitória republicana no estado e, conseqüentemente, no país. Os republicanos iniciavam o século XXI mais uma vez no controle da Casa Branca, mas a natureza das eleições vencidas em 2000 explicitava a divisão política da sociedade estadunidense, com um presidente sem maioria popular dos votos e vencedor no colégio eleitoral apenas após batalha judicial e sob fortes suspeitas de fraude. Além disso, a correlação de forças no Congresso também mostrava essa divisão, com os republicanos possuindo apenas uma tímida maioria na Câmara e um empate no Senado. Permanecia incerto como o novo presidente dos EUA (tido em seu partido como centrista e relativamente inexperiente apesar dos dois mandatos como governador do Texas) agiria para formar os consensos necessários ao cumprimento de suas promessas de campanha. Após 8 anos de expansão econômica com Clinton, W. Bush assumiria o governo com a economia em desaceleração e suas promessas de cortes de impostos (apesar de desenhadas antes mesmo dos sinais de desaceleração tornarem-se claros) constituíam-se na principal proposta da Casa Branca para reverter o quadro. A medida do sucesso com que fossem implementados e dos

resultados com eles obtidos poderiam ser vitais para o sucesso do Partido Republicano no novo século, aumentando ainda mais a expectativa sobre o que seria feito.

3. George W. Bush e os cortes de impostos (2001-2004) Se na história mundial é bastante provável que o governo de George W. Bush fique marcado por sua política externa, da mesma forma no campo da política econômica as leis de corte de impostos podem ser consideradas a principal marca do primeiro presidente estadunidense do século XXI. De acordo com seu primeiro Secretário do Tesouro Paul O’Neill, o governo de W. Bush se movia por duas ideologias, “uma era a idéia geral da preempção, que foi o que orientou a política em relação ao Iraque, e a outra era a idéia de que cortes de impostos são sempre benéficos e quanto maiores, melhor” (apud. SUSKIND, 2004: 280). Foram aprovadas 5 leis de corte de impostos nos 4 anos do seu primeiro mandato, representando uma renúncia fiscal de cerca de 1.9 trilhão de dólares entre 2001 e 2011 e uma “mudança significativa na estrutura, incentivos, receitas e efeitos distributivos do sistema tributário americano” (GALE e ORSZAG, 2004h), “a maior da história no total em dólares e apenas um pouco menor em percentual do produto interno bruto que o histórico corte de impostos de Reagan em 1982” (SUSKIND, 2004: 41). Tendo ocupado um lugar importante no programa de campanha de Bush, não causou grande espanto a rapidez com que o novo presidente e o Congresso começaram a trabalhar pelo corte de impostos, principalmente após 8 anos da presidência do democrata Bill Clinton que repetidamente vetara leis de cortes de impostos aprovadas por um Congresso majoritariamente republicano, e previsões crescentes de superávits, estimados no início de seu governo para 5.6 trilhões de dólares em dez anos pelo Congressional Budget Office (CBO). A utilização do chamado ‘procedimento de reconciliação’, presente na Congressional Budget Act of 1974 e que permite a tramitação mais rápida de leis e resoluções destinadas a adequar os gastos e receitas ao orçamento real, dá bem a noção do desejo pelo corte de impostos então presente no Partido Republicano e no presidente. Originalmente destinado a aumentos de receita tributária e cortes de gastos com vistas à redução de déficits orçamentários, o ‘procedimento de reconciliação’ foi escolhido por Bush e sua equipe para a tramitação das duas leis de corte de impostos mais importantes aprovadas, o Economic Growth and Tax Relief

Reconciliation Act of 2001 (também conhecido pela sigla EGTRRA) e o Jobs and Growth Tax Relief Reconciliation Act of 2003 (JGTRRA), pela rapidez permitida à tramitação. Tal procedimento não era novo ao Congresso, já tendo sido utilizado pelos republicanos, por exemplo, em 2000 em sua tentativa (vetada por Clinton) de aprovar um alívio ao chamado “marriage penalty” (POLLACK, 2003). Dessa forma, a primeira lei de corte de impostos da administração George W. Bush, o Economic Growth and Tax Relief Reconciliation Act of 2001, foi aprovada na Câmara dos Deputados já no dia 08/03/2001 por 230 a 198 votos, com todos os republicanos votando a favor do projeto, o que dá uma idéia da importância do tema para o partido atualmente, e no Senado em 26/05/2001 por 58 a 33, vindo a ser sancionada pelo presidente no dia 07/06/2001. Trata-se de um projeto abrangente, contendo vários itens da lista de desejos republicana em matéria tributária e que prevê uma renúncia fiscal de cerca de 1.35 trilhão de dólares em 10 anos. A lei modifica a tabela do imposto de renda, os seus limites de deduções, aumenta os créditos educativos e para crianças, traz um alívio à chamada ‘penalidade matrimonial’, aumenta o limite de isenção à Alternative Minimum Tax (AMT) por 2 anos, diminui gradualmente o imposto sobre heranças até sua extinção e traz incentivos fiscais a planos de previdência particular. Com relação à tabela do imposto de renda, a lei estabelece uma diminuição gradual e distribuída ao longo de sua duração nas taxas percentuais do imposto de renda individual, previamente fixadas em 15%, 28%, 31%, 36% e 39.6% e que cairiam ao longo da lei até atingir 10% (este imediatamente), 25%, 28%, 33% e 35% respectivamente a partir de 2006. Além disso, o limite de deduções é gradualmente eliminado juntamente com as restrições a isenções pessoais, até desaparecer por completo após 31 de dezembro de 2009. Do imposto sobre heranças, carinhosamente apelidado pelos republicanos de Death Tax (imposto sobre a morte), a lei diminui os seus porcentuais e aumenta os valores isentos, de 1 milhão de dólares em 2002 para 1.5 milhão em 2004, 2 milhões em 2006, 3.5 milhões em 2009 até a extinção em 2010. O imposto cobrado sobre a transferência não-hereditária de bens e imóveis é

limitado para 50% em 2002 e diminuído em 1 ponto percentual anualmente até chegar em 45% em 2007. Além disso, a lei traz o alívio para a penalidade matrimonial tão atacada pelos republicanos e pela Nova Direita religiosa como uma perversidade contra o casamento. Segundo Pollack, a

penalidade matrimonial resulta da colisão de alguns princípios conflitantes do código

a “equidade vertical” – a noção de que aqueles com maior

renda devem pagar impostos a taxas maiores que aqueles com renda mais baixa. ( )

O problema em questão surge quando dois indivíduos com uma renda significativa (digamos, $100.000 cada) se casam e fazem uma declaração conjunta. Como o

tributário. O primeiro é (

)

código tributário trata um casal como uma única unidade econômica, a renda do casal

será combinada (

maior. Como resultado, o imposto total como casal com $200.000 de renda conjunta

será maior que a soma do que cada um teria pago como contribuintes solteiros com

renda de $100.000 cada. (

penalidade matrimonial. (2003: 110-111)

Quanto mais progressiva a estrutura tributária, maior a

empurrando uma parte de suas rendas para uma faixa com taxa

)

)

A solução encontrada pela lei foi aumentar gradualmente a dedução básica padrão para casais declarando conjuntamente até atingir o dobro da dedução de pessoas solteiras em 2009, além de aumentar o limite de renda até o qual se cobra a taxa mínima de imposto de renda (no caso dos casais, mantida em 15%), chegando até o dobro da renda máxima permitida para essa faixa para contribuintes individuais em 2008. O problema é que ao conceder tal benefício aos casais que declaram conjuntamente, a lei faz com que contribuintes individuais acabem pagando proporcionalmente mais, da mesma forma que na estrutura então vigente alguns casais (especialmente os de mais alta renda) acabavam pagando mais que esses contribuintes, tornando o “problema” (se é que este seria mesmo um problema) mais complexo do que a princípio parece. Além de alguns créditos educativos e de incentivos à previdência privada por meio do aumento das quantias isentas de tributação nas contas destinadas a esse fim, a lei traz um dispositivo que a revoga após 31 de dezembro de 2010. Dessa forma, praticamente toda a estrutura tributária é modificada ao longo de 10

anos, com cortes gradualmente maiores de impostos ao longo deste prazo até atingir o ápice em 2009 chegando, por exemplo, a abolir completamente o imposto sobre heranças nesse ano para a partir de 1 de janeiro de 2011, em sendo mantido o texto da lei, voltar tudo ao que era antes de sua aprovação. A presença de tal artigo parece realmente insólita e contraditória aos objetivos demonstrados pelo Partido Republicano ao longo dos últimos anos e à retórica de campanha e de governo de George W. Bush, mas é uma obrigação imposta pela escolha do procedimento de reconciliação para tramitação da lei. Destinada originalmente a aumentar receitas e cortar gastos de forma a reduzir déficits orçamentários e interpretada para servir à tramitação do exatamente oposto (diminuir receitas e aumentar gastos), o procedimento limita a validez das leis assim aprovadas aos 10 anos utilizados como base de cálculo do orçamento pelo Office of Management and Budget (OMB). O que não significa que ao eleger este método de encaminhamento, Bush tenha se resolvido por cortes realmente temporários aos impostos, conforme indicou o então Secretário de Tesouro Paul O’Neill ao declarar ao USA Today após a aprovação da lei que os cortes “vão se tornar permanentes. Eles serão todos ajustados” (apud. GALE e ORSZAG, 2004a:1293n.4) e conforme indicam os sucessivos pedidos do governo nas leis orçamentárias subseqüentes para que os cortes sejam tornados permanentes. Com uma pequena maioria na Câmara e um empate com os democratas no número de senadores (posteriormente modificado para uma leve desvantagem de 49 senadores republicanos contra 50 democratas e 1 independente após a defecção do republicano James Jeffords em junho de 2001), Bush não quis arriscar a possibilidade de o projeto ser derrotado no Congresso e preferiu a facilidade de aprovar um corte “temporário” e apostar na modificação dessa parte da lei antes de sua expiração, tornando-a permanente em um futuro congresso mais republicano. Com a chegada do segundo semestre, os sinais já existentes de desaceleração da economia transformavam-se em quase indícios de recessão e as antigas previsões de superávits orçamentários a perder de vista logo começaram a diminuir até anunciar futuros déficits (ajudados pelos próprios cortes

de impostos recém-aprovados, já contabilizados nos novos cálculos). Vieram então os ataques terroristas de 11 de setembro e a já frágil situação econômica piorou. Se no plano externo os atentados serviriam de justificativa às políticas do novo presidente, no plano econômico também os atentados foram usados como justificativa, uma “nova razão para enormes cortes adicionais de impostos” (SUSKIND, 2004: 194) destinados a estimular a economia, com especial foco na área de Nova Iorque atingida pelos ataques. Sancionado pelo presidente no dia 09 de março de 2002, o pacote de estímulos já vinha sendo discutido no Congresso há mais tempo e sua primeira versão fora aprovada na Câmara sob o título de Economic Security and Recovery Act of 2001 já em 24 de outubro de 2001 por 216 votos a 214, mas o projeto não conseguiu seguir adiante no Senado e, reformulado, viria a ser aprovado somente em março do ano seguinte, no dia 07 na Câmara (417 a 3 votos) e no dia 08 no Senado (85 a 9), já sob o nome de Job Creation and Worker Assistance Act of

2002.

A lei concede incentivos a empresas, como deduções de impostos e créditos especiais diversos, com enfoque especial nas áreas afetadas pelos atentados em Nova Iorque, receptoras da maior parte das deduções de impostos contidas na lei, além de algumas correções técnicas ao EGTRRA, extensão de créditos diversos e do alívio à AMT para os anos fiscais 2002 e 2003 e a concessão de 13 semanas adicionais de seguro-desemprego (incluído no projeto por exigência dos democratas). Com pouco mais de um ano de governo, já era o segundo corte de impostos aprovado. Ao fim do ano viriam as eleições legislativas e o controle do Congresso era agora uma incógnita, sendo então incerto quem venceria as eleições. Os resultados vieram e os republicanos mantiveram-se em vantagem em relação aos democratas. Embora tenham ampliado sua maioria em ambas as casas, o status quo do Congresso foi praticamente preservado, com os 227 deputados e 51 senadores republicanos, 210 deputados e 48 senadores democratas e 1 independente em cada casa (contra 222 deputados republicanos, 211 democratas

e 2 independentes e 50 senadores democratas, 49 republicanos e 1 independente anteriormente). Ainda não era uma maioria sólida o suficiente para permitir a aprovação de cortes definitivos conforme o desejo da administração Bush, mas pelo menos permitia a continuidade do trabalho até então realizado. Em abril de 2003 o presidente lançaria sua “Agenda de alívio tributário” (CASA BRANCA, 2003), uma descrição dos efeitos das leis aprovadas e dos objetivos da administração em relação ao assunto, na qual pedia o aprofundamento e a aceleração dos cortes já aprovados. Seguindo os desejos da presidência, já em maio de 2003 um novo corte de impostos seria aprovado pelo novo Congresso, mais uma vez através do procedimento de reconciliação – e portanto também em tese temporário. O Jobs and Growth Tax Relief Reconciliation Act of 2003 (JGTRRA) viria a ser aprovado na Câmara por 222 votos a 203 em 09/05/2003 e por 51 votos a 49 no Senado no dia 15/05/2003, sendo sancionada pelo presidente treze dias depois. A lei trouxe a redução nos impostos individuais sobre ganhos de capital e dividendos, diminuindo as alíquotas de 10% e 20% para 5% e 15%, sendo a menor abolida a partir de 2008 (para, em tese, voltar aos patamares anteriores a partir de 2009). Trouxe também incentivos a empresas sob a forma de aumento nas deduções, criou um fundo de 10 bilhões de dólares a ser rateado entre os Estados da União (como compensação por perdas de arrecadação) e acelerou alguns pontos do EGTRRA, como os créditos por filhos, o alívio à penalidade matrimonial e a redução nas alíquotas do imposto de renda individual, trazendo já para 2003 e 2004 alguns dos cortes programados pela lei anterior para anos posteriores, além de aumentar o limite de isenção à AMT para US$40.250,00 para indivíduos e US$58.000,00 para casais declarando conjuntamente nos referidos anos.

Já não seria pouco para um mandato houvesse Bush parado por aí, mas o último ano de seu primeiro mandato ainda veria a aprovação de mais duas novas leis de cortes de impostos, a Working Families Tax Relief Act of 2004 (aprovada na Câmara por 339 a 65 e no Senado por 92-3 no dia 23/09/2004 e sancionada pelo presidente no dia 04/10 do mesmo ano) e a American Jobs Creation Act of

2004 (aprovado por 280-141 na Câmara no dia 07/10/2004 e por 69-17 no Senado no dia 11/10/2004, vindo a ser sancionada por Bush no dia 22/10/2004). A primeira, além de mais créditos e incentivos fiscais diversos em matérias como carros movidos a combustíveis limpos e emprego para indígenas, trouxe nova extensão de cortes já estabelecidos anteriormente, como deduções por filhos, o

alívio à penalidade matrimonial e à AMT, totalizando uma renúncia fiscal adicional de 145,942 milhões de dólares entre 2005 e 2014. Já a segunda, uma extensa lei cujo relatório descritivo elaborado pelo Joint Committee on Taxation do Congresso possui mais de 250 páginas (2004b), trouxe numerosos incentivos fiscais a empresas sediadas nos Estados Unidos, como a redução do Imposto Corporativo para manufaturas e pequenas empresas, alívio à AMT corporativa, redução de taxas relativas ao mercado de ações, incentivos a reinvestir ganhos obtidos no exterior nos EUA e diversos incentivos fiscais a setores específicos, além de novas extensões a vários créditos por expirar concedidos anteriormente e mais outro alívio à AMT individual, permitindo maiores deduções nos anos de 2004 e

2005.

A recorrência de alívios à AMT nas leis de corte de impostos de Bush deve-

se a um problema do sistema tributário estadunidense criado muito antes de George W. mas agravado por sua política tributária. Criada em 1969 pelo Congresso, a Alternative Minimum Tax “foi desenhada para impor algum imposto

de renda a contribuintes ricos que declaram tantas deduções e créditos (

de

forma a reduzir suas contribuições a praticamente nada” (POLLACK, 2003:122). Ela age como uma espécie de imposto de renda oculto e paralelo ao regular, com diferentes alíquotas, definições de renda e deduções permitidas, e que atinge o contribuinte apenas quando o total de impostos devidos sob o seu cálculo ultrapassa o valor devido pelo imposto de renda regular.

)

Apesar de ter historicamente atingido apenas alguns relativamente poucos contribuintes de

alta renda, a AMT está destinada a crescer rapidamente sob a lei atual. (

motivos para o crescimento explosivo projetado da AMT são que o imposto não é indexado pela inflação e que os cortes aprovados em 2001 e 2003 reduziram o imposto regular

) Os principais

devido, mas concederam apenas ajustes pequenos e temporários na AMT (GALE e ORSZAG, 2004a:1294).

Assim, o que originalmente foi uma espécie de imposto mínimo para os ricos vem ano a ano atingindo cada vez mais a classe média à medida que, ao contrário da AMT, vão tendo seus salários e deduções regulares corrigidos pela inflação. Com o aumento de deduções e benefícios fiscais concedidos pelos cortes de impostos, espera-se uma aceleração do problema (por enquanto contida pelos alívios temporários, válidos até o fim de 2005) e estima-se que em 2010, cerca de 29 milhões (o equivalente a 28% do número total) de contribuintes irão cair na AMT, contra cerca de 3 milhões em 2004. Caso a legislação não seja alterada, “a AMT irá eventualmente anular todos os cortes de impostos aprovados nas leis de 2001 e 2003” (idem). A tabela 1 abaixo mostra os efeitos previstos da AMT nos diferentes grupos de renda relativos aos cortes de impostos enquanto o gráfico 1 mostra uma comparação entre os efeitos esperados pela não correção da AMT com e sem os cortes de impostos aprovados.

Tabela 1: Efeitos da AMT nos cortes de impostos da administração W. Bush

 

Classe de Renda (em milhares de dólares de 2003)

Porcentagem de Unidades Fiscais sem Cortes devido à AMT

Porcentual Retomado dos Cortes pela AMT

2006

2009

2014

2006

2009

2014

Todas

0.7

1.4

4.1

15.8

23.4

36.0

0-10

0.0

0.0

0.0

-0.4

-0.1

-0.1

10-20

0.0

0.0

0.0

0.0

0.0

0.0

20-30

0.0

0.0

0.0

0.0

0.0

-0.1

30-40

0.0

0.1

0.3

-0.2

-0.1

0.8

40-50

0.2

0.3

1.2

-0.1

0.3

2.6

50-75

0.6

1.1

3.7

0.3

2.3

11.4

75-100

0.8

2.1

6.0

7.9

18.1

39.3

100-200

2.2

4.5

12.8

25.9

40.0

64.3

200-500

4.2

7.3

12.7

49.2

59.2

68.9

500-1000

1.1

1.1

1.5

14.2

16.9

20.7

Mais de 1000

0.6

1.2

1.1

4.9

5.8

7.0

Fonte: Tax Policy Center Microssimulation Model apud. GALE & ORSZAG 2004a.

 

Espera-se, entretanto, que Bush e sua equipe apresentem agora no segundo mandato alguma espécie de projeto corrigindo as distorções da AMT,

embora quando e como ainda não estejam certos. Pode ser que continuem simplesmente empurrando o problema com a barriga, concedendo alívios pontuais e paliativos aqui e ali como foi feito até agora, que criem alguma espécie de gatilho indexando automaticamente a correção da AMT à inflação ou mesmo que implementem alguma solução mais radical como a extinção completa do imposto.

Gráfico 1: Número de Contribuintes da AMT, 2005-2014

40 35 30 25 20 15 10 5 0 2005 2006 2007 2008 2009 2010
40
35
30
25
20
15
10
5
0
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
2014
Número de Contribuintes da AMT
(em milhões)

Fonte: GALE & ORSZAG, 2004a.

Antes dos Cortes de2001 Com os Cortes Tornados Permanentes e sem Ajustes à AMT

2001

Com os Cortes Tornados Permanentes e sem Ajustes à AMTAntes dos Cortes de 2001

Trata-se, é verdade, de especulação acerca do que realmente vai acontecer ao imposto, sendo a única “certeza” a de que a sua atual situação é inviável e certamente vai de encontro aos desejos da administração em matéria tributária e que, portanto, algo será feito. Mas não deixam de ser hipóteses bastante plausíveis; a primeira por seguir o padrão até aqui adotado a esse respeito, a segunda por ser uma medida bastante razoável e a terceira por, apesar de ser algo que beneficiaria principalmente os contribuintes de mais alta renda, poder ser defendida como uma medida para proteger o cidadão médio da voracidade tributária do Estado, argumento bastante semelhante ao utilizado na defesa dos cortes de impostos aprovados mas que não resiste a uma análise mais detalhada de seus efeitos. Apesar de bastante abrangente e de, de fato, conceder alguma espécie de alívio tributário a praticamente todos os grupos de renda estadunidenses, a comparação entre os benefícios recebidos entre os grupos de mais alta e mais baixa renda mostra que os primeiros beneficiaram-se mais dos cortes. Um dos motivos imediatos para isso é o fato de a estrutura tributária americana já ser

bastante progressiva, com pouco mais da metade da arrecadação federal vindo do imposto de renda individual tornando

difícil desenhar um corte de impostos significativo que beneficie contribuintes de renda média e baixa precisamente porque a maior parte da receita obtida com o imposto de renda individual vem do topo dos 5% de contribuintes mais ricos. Os 50% da base contribuem com apenas 4% da receita obtida com o imposto de renda. (POLLACK, 2003: 123)

Além disso, alguns dos outros impostos afetados pelos cortes como o Imposto sobre Heranças e Transferências e o Imposto sobre Ganhos de Capital também aplicam-se principalmente (quando não até mesmo exclusivamente) sobre os contribuintes de alta renda, de modo que as diminuições de suas alíquotas ou mesmo suas extinções em alguns casos pouco ou nada têm a ver com a grande maioria da população. A tabela 2 abaixo mostra os efeitos distributivos dos cortes considerando que eles sejam tornados permanentes e que a AMT seja ajustada de forma a manter o seu número de contribuintes iguais ao que seriam antes da aprovação do EGTRRA. Pode-se perceber pela tabela, por exemplo, que do grupo de contribuintes de mais baixa renda 15.8% obtiveram algum tipo de corte nos impostos pagos o que lhes gerou uma mudança positiva na renda de cerca 0.3%, contra 99.2% com algum corte no grupo de mais alta renda gerando-lhes uma melhora na renda média pós-impostos de 4.3%. Se isolarmos dentre os contribuintes deste grupo apenas o 1% de mais alta renda, o aumento médio na renda percebida sobe para

6.4%.

Tais dados já seriam o suficiente para classificar os cortes, em relação a seus efeitos distributivos, como socialmente regressivos e concentradores de renda mas há ainda um outro dado que muitas vezes é deixado de lado e que é fundamental a esse tipo de análise. Os cortes provocaram um desequilíbrio orçamentário nos Estados Unidos que um dia precisará ser financiado, seja com a criação de novos impostos, aumento dos já existentes, cortes de gastos ou algum tipo de combinação dessas possibilidades. Gale e Orszag (2004b) afirmam que a

inclusão dos custos do financiamento dos cortes é essencial para a real compreensão de seus efeitos e face à dificuldade de tal análise sugerem duas hipóteses nas quais a perda de receita anual decorrente deles seria completamente coberta no orçamento de 2010.

Tabela 2: Efeitos Distributivos de Cortes Permanentes de Impostos e Ajuste da AMT (em Percentual da Renda em Dinheiro, 2010)

 

Percentual

Mudança na

Contribuição ao Total de Impostos Cortados (%)

Mudança

Mudança na Taxa Média de Impostos (Pontos Porcentuais)

Mudança no

Percentual da

Pagamento

com Corte

Renda Pós-

Média de

Renda em

de

Tributação

Impostos

de Impostos

Dinheiro

 

Federais

 

Impostos

(%)

(Dólares)

(Porcentual)

Grupo

de

Mais

           

Baixa Renda

15.8

0.3

0.3

-26

-0.3

-8.7

Segundo Grupo

69.0

1.9

4.1

-387

-1.8

-18.2

Grupo do Meio

83.9

2.1

7.5

-699

-1.8

-10.8

Quarto Grupo

96.3

2.5

14.9

-1392

-2.0

-9.4

Grupo

de

Mais

           

Alta Renda

99.2

4.3

73.1

-6826

-3.1

-11.1

Total

72.8

3.4

100.0

-1869

-2.6

-11.0

Adendo

80-99% de Mais Alta Renda

99.3

3.5

43.1

-4236

-2.6

-10.0

1% de Mais Alta Renda

98.7

6.4

30.0

-56051

-4.3

-13.3

Fonte: GALE & ORSZAG, 2004b.

 

A primeira hipótese supõe que cada domicílio receberá os cortes de impostos de acordo como estabelecido nas leis de 2001 e 2003 mas contribuirá, através de uma mistura de aumento nos impostos pagos ou diminuição nos benefícios recebidos do gasto federal, com uma mesma quantia em dólares (US$1.869 em dólares de 2010) e é por isso chamada de “Financiamento em Dólares Iguais”. O segundo cenário, chamado por sua vez de financiamento proporcional, assume que cada domicílio igualmente receberá os cortes de acordo com as leis de 2001 e 2003 e pagará, novamente via aumentos de impostos e diminuição de benefícios recebidos, 2.6% de sua renda anual. Ambas as simulações incluem os custos necessários para ajustar a AMT de forma que

permaneça nos padrões anteriores à aprovação dos cortes. As tabelas 3 e 4 abaixo mostram os resultados decorrentes destas duas simulações. Incluindo-se os custos relativos ao financiamento dos cortes aprovados, pode-se observar que não apenas as mudanças beneficiam mais os segmentos de mais alta renda como também passam a prejudicar diretamente a base da pirâmide social. Com o financiamento por dólar igual, 100% dos contribuintes de mais baixa renda experimentariam um aumento médio de impostos, contra apenas 10.5% dos contribuintes de alta renda e 4.7% dos afortunados membros do topo de 1% de contribuintes de altíssima renda. Nenhum dos contribuintes incluídos no grupo de mais baixa renda experimentaria algum tipo de alívio tributário, pagando este grupo em média US$1.843,00 a mais do que antes da aprovação do EGTRRA, enquanto que entre os 1% mais ricos, 95.3% teriam algum tipo de alívio tributário totalizando uma média de US$54.182,00 a menos em impostos pagos.

Tabela 3: Efeitos Distributivos de Cortes de Impostos Permanentes e Ajuste da AMT com Financiamento em Dólares Iguais (em Percentual da Renda em Dinheiro, 2010)

Percentual da

Percentual com

Percentual com Corte de Impostos

Mudança na

Mudança Média

Mudança na Taxa Média de Impostos (Pontos Percentuais)

Renda em

Aumento de

Renda Pós-

de Impostos

Dinheiro

Impostos

Tributação (%)

(Dólares)

Grupo de Mais Baixa Renda

100.0

0.0

-21.7

1.843

21.0

Segundo

         

Grupo

98.7

1.3

-7.5

1.482

6.7

Grupo do Meio

93.8

6.2

-3.5

1.170

3.0

Quarto Grupo

80.2

19.8

-0.9

477

0.7

Grupo de Mais Alta Renda

10.5

89.5

3.1

-4.958

-2.3

Total

76.6

23.4

0.0

0

0.0

Adendo

80-99% de

         

Mais Alta

10.8

89.2

2.0

-2.367

-1.5

Renda

1% de Mais Alta Renda

4.7

95.3

6.2

-54.182

-4.2

Fonte: GALE & ORSZAG, 2004b.

 

Já através do financiamento proporcional, os resultados tornam-se menos socialmente regressivos mas continuam a prejudicar a maioria dos contribuintes de mais baixa renda em oposição aos de renda mais alta, beneficiados. A análise da simulação mostra que 99.7% dos contribuintes mais pobres ainda enfrentariam um aumento de impostos, pagando em média cerca de 202 dólares a mais em impostos, enquanto do 1% mais rico apenas 39.1% enfrentaria uma elevação tributária, com 60.9% dos membros dessa faixa de renda continuando a se beneficiar dos cortes com uma média de US$22.335,00 pagos a menos por esse grupo ao Fisco.

Tabela 4: Efeitos Distributivos de Cortes de Impostos Permanentes e Ajuste da AMT com Financiamento Proporcional (em Percentual da Renda em Dinheiro, 2010)

Percentual da

Percentual com

Percentual com

Mudança na

Mudança Média

Mudança na Taxa Média de Impostos (Pontos Percentuais)

Renda Pós-

Renda em

Aumento de

Corte de

de Impostos

Dinheiro

Impostos

Impostos

Tributação

(Dólares)

(Percentual)

Grupo de Mais Baixa Renda

99.7

0.3

-2.4

202

2.3

Segundo

         

Grupo

80.1

19.9

-0.9

184

0.8

Grupo do Meio

76.5

23.5

-1.0

325

0.8

Quarto Grupo

79.5

20.5

-0.8

433

0.6

Grupo de Mais Alta Renda

64.0

36.0

0.7

-1.128

-0.5

Total

79.9

20.1

0.0

0

0.0

Adendo

80-99% de

         

Mais Alta

65.3

34.7

0.0

-12

0.0

Renda

1% de Mais Alta Renda

39.1

60.9

2.5

-22.335

-1.7

Fonte: GALE & ORSZAG, 2004b.

 

A magnitude da renúncia fiscal e do desequilíbrio orçamentário decorrente, principalmente levando-se em conta também os custos futuros da ainda não ajustada AMT, deixam poucas dúvidas acerca da inevitabilidade de um ajuste de contas em que os seus efeitos socialmente perversos se fariam sentir, ainda que tal possivelmente não se dê antes do fim do governo de George W. Bush. A

obstinação com que o presidente defendeu e promoveu as leis de cortes de impostos aprovadas e a sua perenização e aprofundamento tornam pouco provável que a administração volte atrás e torne a elevar os impostos reduzidos, principalmente quando se sabe que o próprio presidente e mais 222 deputados e 46 senadores (dados de março de 2005) assinaram um abaixo-assinado promovido pela Americans for Tax Reform no qual se comprometem a não elevar nenhum imposto.

Tabela 5: Pagando por Cortes de Impostos Permanentes

 

Extensão dos Cortes de Impostos e Ajuste da AMT

Perda de Receita em 2014 (em $ bilhões)

373

Mudança Necessária em % de gastos ou receitas:

Todas as Despesas Não-Relativas a Juros

-11

Gastos Eletivos

-32

Defesa, Segurança Interna, Internacional

-57

Outros

-75

Gastos Obrigatórios

-18

Seguridade Social

-45

Medicare

-53

Medicaid

-107

Todos os Três

-20

Outros

-146

Todos os Gastos Exceto:

 

Juros, Seguridade Social, Medicare, Medicaid, Defesa e Segurança Interna

-49

Receita

Contribuições sobre Folha de Pagamento

32

Imposto Corporativo

117

Fonte: GALE & ORSZAG, 2004c

Por outro lado, o ajuste fiscal exclusivamente via corte de gastos também parece pouco provável ao se analisar o tamanho dos cortes necessários. A tabela

5 mostra o quanto de alguns dos principais gastos do governo precisaria ser suprimido ou quanto de dois impostos não afetados pelos cortes já aprovados precisariam ser aumentados para pagar a renúncia fiscal concedida. O gigantismo dos cortes necessários, a natureza extremamente sensível de alguns deles e o histórico de aumento de gastos da administração até o momento, incluindo-se aí os custos militares da ocupação de Iraque e Afeganistão, tornam pouco provável o restabelecimento do equilíbrio fiscal somente através de cortes nos gastos, mantendo uma grande incógnita sobre o futuro da natureza orçamentária, fiscal e tributária dos Estados Unidos da América.

4. Cortes de impostos e ideologia Subjacente a toda a obsessão republicana atual por cortes de impostos, está um certo desprezo pela ação do Estado que tomou conta do partido no século XX. A análise histórica mostra que no início o Partido Republicano identificava no Estado um agente indutor do desenvolvimento e do crescimento econômico, mas a partir de meados dos anos 1920 passou a identificá-lo cada vez mais como um obstáculo, um agente estranho que através da intromissão na economia prejudicava a liberdade dos cidadãos e das empresas e o funcionamento adequado da sociedade, e paralelamente a esse processo de

desqualificação do Estado no ideário partidário floresceram também as idéias de alívio tributário.

É verdade que o partido nunca foi exatamente um entusiasta da taxação

propriamente dita, mas enquanto identificava no Estado o papel de promotor do crescimento e mantenedor da ordem nacional jamais passou sequer perto da aversão ao tema que hoje ostenta. Pelo contrário, durante mais de meio século a

principal proposta republicana consistia na manutenção de altas tarifas de importação, então a principal fonte de receitas estatais, como forma de proteger o mercado interno e a nascente indústria estadunidense da competição estrangeira. Tratava-se, é certo, de um imposto indireto sobre a população, mas que era igualmente atacado pelos rivais democratas por seus efeitos negativos no encarecimento dos produtos importados, que segundo eles prejudicariam a população em geral e ajudariam apenas os grandes empresários.

E em períodos excepcionais como a Guerra Civil, os republicanos não

apenas aceitaram opções mais “radicais” de financiamento do Estado e de seu esforço de guerra pela manutenção da unidade nacional, como a criação do primeiro imposto de renda em 1861 e suas sucessivas modificações ao longo da Guerra, por exemplo, como tomados de furor patriótico chegaram a declarar, em claro exagero, nos debates congressionais de 1864 que “o grito universal deste povo é ser taxado” (apud. GOULD, 2003:32). Antes de tudo, é preciso ter em mente que a história política estadunidense

foi muito marcada em seu começo por grandes batalhas acerca dos limites

constitucionais do poder do governo federal, bastante limitado originalmente. Nos primeiros anos da recém-independente república, coube ao Partido Federalista de Alexander Hamilton o papel de defesa de um governo central forte e soberano. Papel que depois caberia ao Partido Whig e seu “Sistema Americano” 10 até a fundação do Partido Republicano em 1854, que durante o século XIX e começo do século XX sempre esteve ao lado dos que defendiam a legitimidade da ação federal e sua expansão em diversas áreas, como distribuição de terras públicas, promoção de obras de infra-estrutura, taxação ou regulação econômica. O papel republicano na expansão do Estado e na construção da nação estadunidense moderna a partir da Guerra Civil é inegável, por mais que sua pregação contemporânea acerca da apropriação indevida do dinheiro dos cidadãos pelos “burocratas de Washington, DC” possa eclipsá-la. Uma boa chave para a análise da vida partidária estadunidense e da mudança de lado republicano no tema Estado é dada por John Gerring em seu livro Party Ideologies in America, 1828-1996 (2001). Ele analisa os dois partidos estadunidenses a partir de suas ideologias e divide a história do Partido Republicano em duas fases: nacional, que iria até 1924 11 , e neoliberal, a partir de 1928. Segundo Gerring, em sua primeira fase, o partido teria girado basicamente em torno da dicotomia ordem versus anarquia e identificava no Estado um garantidor da ordem social e da unidade nacional. Economicamente, acreditava no papel estatal de indutor do crescimento e protetor do mercado nacional (donde o papel de proeminência que a tarifa externa sempre ocupou nos programas de governo republicanos do período) e por isso ajudou a expandir o papel e o poder do Estado. Exemplo claro da ideologia predominante republicana pode ser encontrado no governo de seu primeiro presidente Abraham Lincoln, que dedicado a derrotar a ameaça à ordem proveniente da secessão sulista expandiu o alcance

10 O chamado “Sistema Americano” consistia em uma filosofia política que pregava a proteção do mercado nacional através de tarifas protecionistas, investimentos governamentais em infra-estrutura e apoio à industrialização nacional, entre outras coisas. De origem atribuída ao líder Whig Henry Clay, seria apropriada pelo Partido Republicano e se constituiria no seu núcleo ideológico até pelo menos os anos 1920. Ver GERRING, 2001.

11 Na verdade, ao referir-se a essa primeira fase ideológica republicana, Gerring refere-se à tradição Whig- Republicana, devido ao enorme grau de continuidade ideológica entre os dois partidos, ainda que tenham chegado a coexistir e disputar eleições durante um breve período.

do governo federal em níveis até então inéditos e para financiar essa expansão governamental viu-se obrigado a criar novos impostos, como o imposto de renda de 1861 (que ainda sob o governo de Lincoln seria modificado em 1862 e 1864) e o imposto sobre heranças e transferências de propriedade de 1862. Ainda que ao fim da guerra os novos impostos viessem a cair (o de heranças foi derrubado em 1870 e o de renda em 1872), o ponto é que os republicanos de então conferiam ao Estado papel de importância na sociedade e na economia e estavam, em geral, dispostos a aceitar de boa vontade a criação ou expansão das fontes de financiamento do mesmo. Ainda que em 1894, sob a presidência do democrata Grover Cleveland, os republicanos tenham votado contra a criação de novo imposto de renda, que viria a ser julgado inconstitucional pela Suprema Corte no ano seguinte, em 1909 (sob a presidência do republicano W. H. Taft) teriam papel importante na aprovação da 16ª Emenda Constitucional que conferia explicitamente à União o poder de taxar a renda. Precisar o que exatamente teria causado a virada ideológica republicana é difícil, mas é provável que a relação cada vez mais orgânica entre o partido e os grandes industriais que prosperaram sob as políticas públicas por ele promovidas tenha desempenhado um papel importante nesse sentido. Enquanto concentrava- se na proteção do mercado interno e na promoção de obras de infra-estrutura, o Partido Republicano tornava-se mais e mais popular entre os grandes empresários estadunidenses, mas ao fim do século XIX e início do século XX, a ala dos “progressistas” do partido queria dar um passo adiante na presença estatal na economia, atuando de maneira mais forte na regulação econômica e combate aos monopólios. E sob a presidência de Theodore Roosevelt o partido de fato avançou nesse sentido, o que desagradava aos industriais e à maioria partidária cada vez mais conservadora e pode ter sido responsável pela introdução da dúvida acerca da ação estatal na economia. Se essa hipótese estiver correta, a apropriação pelos democratas, sob a presidência de Woodrow Wilson (que aliás seria o responsável pela recriação do imposto de renda em 1913 e que persiste até hoje), das políticas progressistas teria então ajudado a consolidar essa mudança na ideologia republicana sobre o

Estado, mas mesmo que o tema de porquê os partidos mudam sua ideologia seja

ainda objeto de controvérsias (ver GERRING, 2001: 257-275) o certo é que de fato

o Partido Republicano na década de 1920 já não era mais aquele de 1860.

Segundo Gerring (2001), em sua segunda encarnação ideológica o partido girava cada vez mais em torno da dicotomia Estado versus indivíduo.

O tema do desenvolvimento econômico persistia no ideário republicano,

mas o papel do Estado frente à idéia mudava radicalmente, de indutor a obstáculo.

Agora, o que garantiria o desenvolvimento seria a liberdade individual, conduzida

a um status quase divino nos programas partidários e essa mudança trouxe

consigo duas importantes conseqüências à questão tributária: primeira, se o Estado já não é mais tão importante, para quê financiá-lo? Segunda conseqüência, se a liberdade individual é o que há de mais importante, a tributação imposta pelo Estado passa a ser vista como uma intromissão nessa liberdade do indivíduo de dispor de sua própria riqueza. Ao retornar à Casa Branca em 1920, o Partido Republicano logo tratou de reduzir as alíquotas dos impostos de renda e de propriedade que haviam sido fortemente elevadas durante a I Guerra Mundial quando da entrada dos EUA no conflito, mas a maioria no partido era pragmática o suficiente para aceitar a existência de tais impostos, contanto que com alíquotas baixas, e assim permaneceram as coisas até o crash da Bolsa de Nova Iorque em 1929 e a

recessão que marcou fortemente os republicanos e trouxe de volta ao governo os democratas com Franklin Delano Roosevelt.

A volta dos democratas à Casa Branca e a implantação do New Deal

expandiu ainda mais o Estado, criando o mais próximo que os EUA já tiveram do Estado de Bem-Estar Social e para financiar essa nova onda de ativismo estatal, foram necessários novos impostos e a elevação dos já existentes. Reduzidos a um papel minoritário e secundário na política nacional durante o período, os

republicanos “observavam (

enquanto o tamanho e o alcance do Estado

nacional se expandiam além de qualquer coisa que eles pudessem ter imaginado em seus piores pesadelos” (POLLACK, 2003: 45). E ainda que de modo geral os

candidatos presidenciais republicanos do período tenham sido pragmáticos o

)

suficiente para aceitar como um fato ao menos parte da nova realidade, reconhecendo a impossibilidade de reversão total ao status quo ante, a guinada à esquerda dos democratas consolidou a virada ideológica republicana e o sentimento médio no partido de que se tratava de uma subversão radical e inaceitável dos valores americanos de liberdade e livre iniciativa. Os novos programas federais, que incluíam obras públicas, estímulos econômicos e seguridade social, eram vistos como uma intromissão indevida na economia e os novos impostos, como o Imposto de Heranças ou o Imposto sobre Lucros Líquidos, e a mudança na estrutura de alíquotas do Imposto de Renda, tornado mais progressivo, eram encarados como uma espécie de punição ao sucesso individual. Essa era, grosso modo, a ideologia do “novo” Partido Republicano encarnada e que atingiria seu ápice na década de 1980 sob o governo Ronald

Reagan: populismo de direita, anti-estatismo, individualismo e capitalismo de livre mercado (ver GERRING, 2001:125-158). “Reagan era profundamente dedicado ao

credo republicano de anti-estatismo e federalismo descentralizado [e] (

filosofia antiimpostos complementava ambas” (POLLACK, 2003:60). Tendo

[s]ua

)

promovido em seu governo “a mais significativa redução de taxas na história do imposto de renda federal” (POLLACK, 2003:61), ele logo se converteu no nome maior da hagiografia republicana e serve hoje como uma espécie de “talismã do que significa ser republicano” (GOULD, 2003:435). “Reagan chegou ao cargo profundamente comprometido com três questões: fortalecer as forças militares estadunidenses, reduzir o tamanho do governo e dos gastos estatais e reduzir impostos” (POLLACK, 2003:61), mas embora os dois últimos objetivos pareçam intrinsecamente relacionados “o

tamanho do governo federal era maior em 1988 (

do que em 1980 quando ele

tomou posse” (POLLACK, 2003:66). Uma das causas para essa aparente contradição é que além de cortar impostos, Reagan também cumpriu seu primeiro objetivo e aumentou bastante as despesas militares no esforço de vencer a Guerra Fria e derrotar o comunismo soviético, e que muitos dos programas estatais (seguridade social e Medicare, por exemplo) representariam um suicídio

)

político se cortados, dado o elevado número de pessoas atendidas e que deles dependem. Por mais que o senso comum possa sugerir o contrário, não há uma relação direta entre o corte de impostos e a redução da máquina pública, como mostrou o exemplo reaganiano e como vem mostrando a experiência atual com George W. Bush, que à mesma maneira cortou impostos, elevou os gastos militares, mas não foi capaz de reduzir os outros gastos governamentais, obtendo enormes déficits orçamentários também da mesma forma que Reagan (ver GALE & ORSZAG, 2004g). E se não servem para reduzir o tamanho do Estado, um dos objetivos declarados do Partido Republicano já há um bom tempo, por quê então a obsessão com cortes de impostos? Uma das razões é que o partido realmente absorveu muito da pregação neoliberal acerca da ineficiência estatal em sua ação econômica a ponto de David Stockman, diretor de orçamento de Reagan, falar de empunhar a espada “forjada na bigorna de livre-mercado de F. A. Hayek” (apud. MICKLETHWAIT & WOOLDRIDGE, 2004:339. Ver op. cit. acerca da influência da Escola Econômica Austríaca sobre o pensamento republicano contemporâneo). Portanto, sob a ótica republicana seria sempre melhor e mais eficiente em termos econômicos deixar que o cidadão escolha onde gastar o seu dinheiro e alívios tributários seriam eficientes remédios para recessões econômicas. Ao Partido Republicano de hoje, é um dogma que qualquer atividade social ou econômica do Estado pode ser melhor e mais eficientemente desempenhada pela iniciativa privada e vão nesse sentido as idéias de privatização da seguridade social defendida por George W. Bush para seu segundo mandato e antecipadas nos estímulos à aplicação em contas de previdência privada presentes nos cortes de impostos do primeiro. Mas antes de ser uma rejeição total e absoluta ao Estado, a ideologia republicana atual representa um corte claro entre algumas poucas funções em que valeria a pena fortalecer o orçamento estatal e as outras passíveis de privatização, delegação a grupos voluntários ou simples extinção tão logo a correlação de forças políticas o permita (o que nunca tem sido tão simples quanto o discurso republicano sugere).

Entre o seleto primeiro grupo, figuram desde sempre as Forças Armadas e nestes tempos pós-atentados de 11 de setembro cada vez mais também os aparelhos repressivos internos, como são exemplo a criação do super- Departamento de Segurança Interna e os dispositivos orwellianos da Lei Patriótica 12 . No segundo grupo, praticamente toda a estrutura reguladora criada durante o fim do século XIX e ao longo do século XX e os aparelhos do welfare State criado pelos democratas Wilson e F.D. Roosevelt. Como nos mostra Gerring (2001), os temas do desenvolvimento econômico e da ordem social são constantes em toda a história republicana, mas o papel do Estado frente aos mesmos muda de acordo com a fase ideológica analisada. Em sua primeira fase, o Partido Republicano tinha como anátema a anarquia e a desintegração social e como enxergava no Estado um agente promotor do desenvolvimento, suas ações econômica e reguladora eram vistas como benéficas ao país ao promover a coesão e proteção social e levar ao crescimento da economia. Já em sua fase neoliberal, a “besta negra” republicana passa a ser o comunismo (e sua hipertrofia estatal) e portanto o Estado deveria deixar o mercado econômico livre à iniciativa privada, verdadeira promotora do desenvolvimento, e preocupar-se com a proteção da nação frente à “ameaça vermelha”. A liberdade torna-se o valor fundamental do partido, ainda que esta liberdade restrinja-se apenas a seu caráter econômico, pois os novos tempos no partido vêem com leniência o sacrifício das liberdades civis sempre que necessário para combater os “inimigos”. E mesmo que hoje não haja mais o comunismo como inimigo externo, a guerra ao terror fornece a justificativa necessária para os investimentos nas Forças Armadas ou na segurança interna, e como a diminuição do Estado em outras áreas não é tão fácil quanto fazem parecer os republicanos, o problema dos déficits públicos, agravados pelas políticas de cortes de impostos, tem sido uma

12 O Departamento de Segurança Interna (Department of Homeland Security) foi criado por lei sancionada no dia 25 de novembro de 2002 e centralizou diversas agências federais relacionadas a segurança e combate ao crime, nascendo já com a significativa quantia de mais de 170.000 funcionários. Já a Lei Patriótica (USA PATRIOT Act) foi sancionada pelo presidente George W. Bush no dia 26 de outubro de 2001 e consiste de mais de trezentas páginas com artigos complexos e bastante detalhados que, entre outras coisas, permitem a detenção de suspeitos de terrorismo (definido em termos bastante amplos na lei) sem acusação formal e por tempo indeterminado.

constante no país durante os últimos anos. Ademais de motivo de controvérsia freqüente entre republicanos mais antigos, em geral defensores de orçamentos equilibrados, e os mais novos (por exemplo, os freqüentes atritos entre Paul O´Neill, primeiro secretário do tesouro de George W. Bush e o resto da equipe de governo, que culminaram em sua saída. A esse respeito, ver SUSKIND, 2004). Controvérsias essas que vêm sendo perdidas cada vez mais facilmente pelos defensores do equilíbrio orçamentário. Se se trata do início de mudanças ideológicas mais duradouras será preciso tempo para afirmar, mas o fato é que ao contrário do que pregavam os mais ardorosos defensores da Economia de Oferta dos anos 1980, os cortes tributários não têm sido capazes de gerar crescimento econômico na intensidade necessária para compensar a perda de arrecadação, conforme defendido por tal teoria, e o resultado têm sido déficits orçamentários cada vez maiores. E cada vez menos membros do partido parecem se importar, como mostra o estudo de Gale e Kelly (2004) acerca dos signatários do abaixo-assinado conhecido como No New Taxes Pledge, em que se comprometem a não aumentar as alíquotas do imposto de renda ou reduzir quaisquer deduções ou créditos tributários sem a redução equivalente em dólares da alíquota cobrada. Segundo eles, apesar de a esmagadora maioria dos signatários ter votado a favor dos cortes de Bush e de propostas para torná-los permanentes, uma grande parte deles votou também a favor de aumentos de despesas, como a Lei de Prescrição de Remédios do Medicare de 2003 (86% dos signatários votaram favoravelmente) ou a Lei das Rodovias de 2004 (74%), o contrário do que seria de se esperar de quem se compromete a não aumentar as fontes de receita estatal. A hipótese levantada no estudo para explicar tal comportamento aparentemente contraditório é de que ao atender a determinados grupos de interesses cortando impostos, fica difícil aos parlamentares não atender a outros grupos na outra ponta do orçamento, relativa aos gastos públicos. Ao analisar as possibilidades de equilíbrio orçamentário, Gale e Kelly ressaltam que apesar de os signatários não constituírem maioria suficiente para tornar permanentes os cortes já promovidos, formam uma coalizão grande o

bastante para manter eventuais vetos presidenciais a possíveis aumentos

tributários. O que, por sua vez, sinaliza que o déficit público atual não deverá ser resolvido ainda sob o governo de George W. Bush (cuja assinatura também consta no abaixo-assinado), já que o total de cortes nos gastos necessários para se equilibrar o orçamento apenas por esse caminho (ver tabela 5, página 47), sem ajuda da elevação de receitas, torna essa opção muito pouco provável pela magnitude dos cortes e do provável desgaste que dele adviria.

O que torna a questão dos déficits ainda mais importante é o fato de que a

geração do Baby Boom está envelhecendo e breve atingirá a idade de receber os

benefícios da Seguridade Social, tornando o número de beneficiários maior que o de trabalhadores contribuindo, o que pode colocar o sistema em colapso e exigirá profundos ajustes no mesmo (GOULD, 2003; POLLACK, 2003). Ajustes esses que consumirão trilhões de dólares e que terão de vir de algum lugar.

E com os déficits públicos cada vez maiores, a perspectiva de gastos

militares igualmente crescentes com as ocupações de Iraque e Afeganistão e a alternativa do aumento de impostos bloqueada, um teste importante pode estar chegando à postura republicana atual frente ao Estado caso o partido esteja então na Casa Branca: de onde virão esses recursos? É possível que quem quer que seja o líder do partido então finalmente dê razão ao ex-Secretário do Tesouro Paul O´Neill, quando ele sugeriu que parte dos superávits previstos no início do governo George W. Bush fossem reservados para os reajustes na previdência, em vez de gastos na concessão de cortes tributários (ver SUSKIND, 2004). É uma questão extremamente importante e que tem o potencial de provocar fortes rearranjos nos dois partidos estadunidenses, como a recessão dos anos 1930 ou os direitos civis dos anos 1950-60, mas é extremamente difícil, se não impossível, tentar prever que conseqüências trará efetivamente. O tempo dirá.

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