Sunteți pe pagina 1din 44

UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ Tatiane Mahfond Bueno

VIOLÊNCIA SEXUAL INTRAFAMILIAR CONTRA CRIANÇA E ADOLESCENTE

CURITIBA

2011

Tatiane Mahfond Bueno

VIOLÊNCIA SEXUAL INTRAFAMILIAR CONTRA CRIANÇA E ADOLESCENTE

Monografia apresentada ao Curso de Direito da Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade Tuiuti do Paraná, como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito. Orientadora: Prof.ª Silvia Fraguas

CURITIBA

2011

TERMO DE APROVAÇÃO Tatiane Mahfond Bueno

VIOLÊNCIA SEXUAL INTRAFAMILIAR CONTRA CRIANÇA E ADOLESCENTE

Esta monografia foi julgada e aprovada para a obtenção do grau de Bacharel em Direito da

Universidade Tuiuti do Paraná.

Curitiba,

de

de 2011.

Curso de Direito Universidade Tuiuti do Paraná

Orientadora:

Prof.ª Silvia Fraguas

Prof. Universidade Tuiuti do Paraná

Prof. Universidade Tuiuti do Paraná

Dedico esta obra, a meus queridos pais Aristides e Daisy, e com muito carinho a meu amado Atilio que sempre acreditou em minha força e determinação.

AGRADECIMENTOS A Deus, pois sem ele nada disso seria possível que me deu forças para nunca desistir desse sonho e objetivo; aos meus familiares, meu grande amigo e namorado que está sempre ao meu lado dando apoio e incentivo.

“Sem sonhos, a vida não tem brilho. Sem metas, os sonhos não têm alicerces. Sem prioridades, os sonhos não se tornam reais. Sonhe, trace metas, estabeleça prioridades e corra riscos para executar seus sonhos. Melhor é errar por tentar do que errar por omitir!

(Augusto Cury)

RESUMO

A criança e o adolescente são indivíduos que merecem um cuidado e atenção especial, pois estão em fase de desenvolvimento físico e psicológico. Infelizmente, desde a antiguidade, práticas de violência contra estes são constantes, principalmente violência de ordem sexual, ocorrendo, na maioria dos casos, no âmbito da própria residência da vítima, tendo como agressor um membro do grupo familiar, este muitas vezes legitimado pelos próprios costumes da sociedade local. Em que pese no Brasil atualmente seja dado rígida proteção legal, muitos casos de abusos são impunes, pois nunca chegam a ser expostos, quase sempre por a vítima ter medo ou vergonha. Os efeitos de tais atos de agressão são devastadores, no ofendido, ferindo sua dignidade e causando danos psicológicos graves. As pessoas que tem o dever moral e legal de proteger acabam sendo os principais criminosos.

Palavras-chave: violência; pedofilia; criança; adolescente; família.

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO

 

8

2

VIOLÊNCIA SEXUAL

10

2.1

HISTÓRICO

 

10

2.2

CONCEITO

11

3

ABUSO SEXUAL CONTRA A CRIANÇA E O ADOLESCENTE

13

3.1

DEFINIÇÃO

 

13

3.2

PRINCIPAIS MODALIDES DE AGRESSÃO SEXUAL INFANTO-JUVENIL

15

3.2.1

Pedofilia

 

15

3.2.2

Estupro de Vulnerável

17

3.2.3

Exploração Sexual

18

4

VIOLÊNCIA SEXUAL INTRAFAMILIAR CONTRA A CRIANÇA E O ADOLESCENTE

20

4.1

CONCEITO

 

20

4.2

PERFIL

DO

AGRESSOR

21

4.3

PERFIL

DA VÍTIMA

24

4.4

CONSEQUÊNCIAS E FORMAS DE IDENTIFICAÇÃO DO ABUSO SEXUAL . 25

5

DA TUTELA LEGAL

27

5.1

EVOLUÇÃO LEGISLATIVA NO BRASIL

27

5.2

DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988

28

5.3

DO CÓDIGO PENAL

30

5.4

DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

31

6

AS AÇÕES DE TUTELA COMO FORMA DE TORNAR EFETIVAS AS MEDIDAS PROTETIVAS PREVISTAS NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO

34

6.1

AÇÕES PREVENTIVAS

34

6.2

AÇÕES REPRESSIVAS

36

7

CONCLUSÃO

 

38

REFERÊNCIAS

41

8

1

INTRODUÇÃO

A criança e o adolescente através dos séculos sempre foram indivíduos

totalmente desprotegidos no seio social, pois até o século XX não eram vistos como

sujeito de direitos, sendo sempre submetidos à figura dos pais. Em decorrência desta relação de subordinação, o menor sempre ficou a

mercê de seus genitores e demais membros da família, sendo vítima fácil das mais diversas formas de violência. Várias sociedades por todo o mundo, inclusive atualmente, tem enraizadas em suas culturas práticas que, muitas vezes, são extremamente ofensivas a integridade física, psicológica e moral da criança e do adolescente. Ainda é comum em alguns países islâmicos, por exemplo, o casamento de meninas menores de 10 anos de idade com homens mais velhos. 1 Dessa forma, questões acerca do abuso sexual de menores ainda são temas presentes em nossa sociedade. Muitos dos casos de violência sexual tendo como vítimas tais indivíduos ocorrem no seu âmbito familiar, e são praticados por agressores como o pai, a mãe,

o avô, a avó, dentre outros.

O ofensor, em muitos casos, utiliza-se da relação de poder existente com a

vítima, bem como métodos de aproximação e chantagem para obter o resultado desejado. As vítimas são de ambos os sexos e em geral pessoas que apresentam certo grau de vulnerabilidade no meio em que vivem. As práticas sexuais desenvolvidas entre o pedófilo e o ofendido variam em cada caso, desde a exposição a materiais de conteúdo inapropriado até a efetiva conjunção carnal. Em virtude disto, de acordo com várias variantes, os sintomas apresentados

e as conseqüências desenvolvidas nas vítimas são diversos, porém sempre muito prejudiciais.

1 HAMAS "CELEBRA" CASAMENTO DE ADULTOS COM CRIANÇAS MENORES DE 10 ANOS. Disponível em: http://sidneiemoura.blogspot.com/2009/09/hamas-celebra-casamento-de-adultos- com.html. Acesso em: 18 fev. 2011.

9

A legislação brasileira que tutela os menores é recente, visto seu novo lugar na sociedade, porém esta se mostra abrangente e busca a efetividade, tornando-se referência para outros ordenamentos jurídicos. Ocorre que a maior dificuldade em combater estes crimes sexuais se dá em face da pouca quantidade de denúncias em relação ao grande número de casos existentes, devido a pouca idade das vítimas, medo, ignorância, conseqüências familiares e sociais. Desta forma, políticas públicas de informação e prevenção são imprescindíveis para que cada vez mais se tente diminuir a ocorrência de casos de violência sexual contra a criança e o adolescente.

10

2 VIOLÊNCIA SEXUAL

2.1 HISTÓRICO

A origem da violência sexual remonta as civilizações mais remotas, como a Grega, a Egípcia e a Romana, nem sempre sendo considerado tal ato ilegítimo ou ilícito. Em geral, tais práticas ocorriam contra mulheres e faziam parte dos costumes da sociedade, como por exemplo, o rapto da noiva fazia parte do ato do casamento na Grécia. 2 Na antiguidade, muitos atos de violência sexual possuíam conotação e legitimação política, gerando diversas consequências, inclusive rebeliões e guerras. Segundo os relatos do Historiador Heródoto, o fato que deu origem a guerra de Tróia, foi o rapto da Rainha de Esparta, Helena, esposa do Rei Menelau, por Paris, filho do Rei de Tróia. 3 Na Idade Média o estupro era considerado crime se ocorresse contra mulheres nobres. Os cavaleiros cruzados tinham o costume de invadir as cidades estuprar as mulheres e matar as crianças. 4 Atualmente a violência como um todo, em especial a violência sexual, assim como no passado continua uma constante na sociedade moderna. A diferença básica entre os atos praticados outrora e os atuais é que aqueles, muitas vezes, eram “legítimos”, enquanto que estes são tipificados nos ordenamentos jurídicos atuais, como condutas ilícitas. Segundo Jaina Raqueli Pedersen e Patrícia Krieger Grossi:

A violência, em suas mais diversas formas de expressão, sempre esteve

presente na história de crianças e adolescentes. Embora pareça ser um

problema contemporâneo, ela é fruto de um processo histórico que colocou

a criança em lugar de pouca atenção e visibilidade, tanto no âmbito da

família como da sociedade e do poder público, fato que se justifica por não

2 PEQUENA HISTÓRIA DA VIOLÊNCIA SEXUAL. Disponível em:

Idem. 4 Idem.

3

11

ter sido a criança, por muito tempo, considerada o sujeito de direitos e merecedora de proteção. 5

Até o século XX o abuso sexual sofrido por crianças e adolescentes não era considerado um problema social. De acordo com o entendimento de Marcel Hazel:

Em meado do século XX, a violência contra crianças e adolescentes deixou de ser considerada apenas um problema interpessoal de caráter privado, adquirindo uma feição que expressa a correlação de forças da sociedade em que acontece. Estudá-la significa trazer, a tona, relações de opressão embutidas na organização da sociedade como „normais e naturais‟, visando mudanças estruturais.

6

Vários são os exemplos na legislação nacional vigente de atos tipificados como crime sexuais, como por exemplo, o estupro (art. 213), violação sexual mediante fraude (art. 215), assedio sexual (art. 216-A), estupro de vulnerável (art. 217-A), corrupção de menores (art. 218), satisfação de lascívia mediante presença de criança ou adolescente (art. 218-A), favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de vulnerável (art. 218-B), todos estão disposto no Código Penal Brasileiro.

2.2 CONCEITO

A Constituição Federal de 1988 traz como princípio fundamental a dignidade da pessoa humana, previsto em seu art. 1º, inciso III. Tal dignidade se mostra presente em todos os aspectos do individuo, dentre eles na sua sexualidade. De forma subjetiva a dignidade se traduz nos sentimentos de respeito e auto-estima do individuo para consigo e perante a sociedade. Segundo Guilherme de Souza Nucci:

A dignidade sexual liga-se sexualidade humana, ou seja, conjunto dos fatos ocorrências e aparência da vida sexual de cada um. Associasse a respeitabilidade e auto-estima à intimidade e à vida privada, permitindo-se

5 AZAMBUJA, Maria Regina Fay de. et al. Violência sexual contra crianças e adolescentes. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 25.

HAZEU, Marcel. Direitos sexuais da criança e adolescente: uma visão interdisciplinar para o enfretamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. Movimento República de Emaús, Belém: Sagrada família, 2004.

6

12

deduzir que o ser humano pode realizar-se, sexualmente, a lascívia e a sensualidade como um bem lhe aprouver. 7

Desta forma, em que pese o ser humano ter a liberdade para satisfazer seus anseios sexuais, estes não podem ferir a dignidade de outrem, de tal modo que, se

caracteriza em ilícito todo e qualquer constrangimento ilegal que vise obrigar pessoa a praticar ou presenciar ato sexual contra sua vontade, “por óbvio a satisfação sexual deve dar-se em âmbito de estrita legalidade, vale dizer sem afronta a direito alheio ou a interesse socialmente relevante.” 8

A ofensa dignidade sexual da pessoa ocorre mediante a prática da violência

sexual, a qual nada mais é que “todo ato ou jogo sexual (homo ou heterossexual), entre adultos e criança ou adolescente, que tem por finalidade obtenção da satisfação sexual do adulto por meio da estimulação sexual do infante ou do jovem.” 9

A violência sexual se traduz em um ato de abuso sexual.

Maria Berenice Dias entende que:

O abuso sexual sempre constitui uma forma de violência (física ou

psicológica), na qual o abusador se aproveita de sua superioridade (física

ou psicológica). Esse tipo de ato tem como conseqüência um atraso ou

prejuízo no desenvolvimento ou estruturação da personalidade. Na maior parte das vezes gera trauma psíquico, geralmente prolongado, e o contado físico tem como único objetivo a satisfação sexual do abusador.

10

A coação a qual o ofendido é submetido se dá, de forma física ou psicológica, uma vez que, quem pratica tal ato utiliza-se de força ou chantagem em relação à vítima. Destarte, violência sexual é a prática de ato em que, via de regra, utilizando- se de força física ou coação psicológica, tem como finalidade forçar ou induzir o indivíduo a praticar ou presenciar ato libidinoso.

7 NUCCI, Guilherme de Souza. Crimes contra a dignidade sexual. São Paulo: RT, 2011. p. 41-42.

Ibidem, p. 42. 9 PROTEGER PARA EDUCAR: a escola articulada com as redes de proteção de crianças e adolescentes. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/secad/arquivos/pdf/escola_protege/cad_ escolaqprotege.pdf. Acesso em: 19 fev. 2011.

8

10

DIAS, Maria Berenice. Incesto e alienação parental. 2. ed. São Paulo: RT, 2010. p. 243-244.

13

3 ABUSO SEXUAL CONTRA A CRIANÇA E O ADOLESCENTE

3.1 DEFINIÇÃO

O abuso sexual em face da criança e do adolescente caracteriza-se um ato de violência física e/ou psicológica na qual o individuo mais velho usa a vítima para satisfazer sua lascívia, uma vez que esta é incapaz de se defender de tal ato. Christiane Sanderson entende que o abuso sexual em crianças e adolescentes é:

O envolvimento de crianças e adolescentes em atividades sexuais com um

adulto ou com uma pessoa mais velha ou maior, em que haja uma diferença

de idade, de tamanho ou de poder, em que à criança é usada como objeto

sexual para a gratificação das necessidades ou dos desejos, para a qual ela

é incapaz de dar um consentimento consciente por causa do desequilíbrio

do poder ou de qualquer capacidade mental ou física. Essa definição exclui

a atividade sexual consensual entre colegas. 11

Este conceito abrange uma série de atos que configuram tal espécie de violência, como carícias, sexo oral, penetração com os dedos ou pênis, entre outros. Conforme o estudo de Veleda Dobke:

Definir abuso sexual infantil não é tarefa fácil, pois os limites entre os contatos físicos normais, importantes para o desenvolvimento da criança, e aqueles que visam à satisfação dos desejos sexuais dos adultos são

imprecisos. [

A falta de consentimento da criança e a violência física e/ou

psicológica, no entanto, estão sempre presentes na prática abusiva. 12

]

Ainda assim, Christiane Sanderson complementa que é abuso sexual:

Todos os tipos de encontros sexuais e comportamentos que abrangem aliciamento sexual, linguagem ou gestos sexualmente sugestivos, uso de pornografia, voyeurismo, exibicionismo, caricias, masturbação e penetração com os dedos ou pênis. Ela inclui quaisquer atos sexuais impostos à criança ou ao adolescente por qualquer pessoa dentro do âmbito da família, ou fora dela, que abuse de sua posição de poder e confiança. 13

11 SANDERSON, Christiane. Abuso sexual em crianças. São Paulo: Makron Books, 2005. p. 17. 12 DOBKE, Veleda. Abuso sexual: a inquirição das crianças uma abordagem interdisciplinar. Porto Alegre: Ricardo Lenz Editor, 2001. p. 26.

13

SANDERSON, 2005, op. cit. p. 17.

14

De acordo com entendimento de Sandro D‟Amato a figura do abuso sexual chega ser mais abrangente do que somente o ato carnal, sendo também considerada violência sexual à exposição do menor a pornografia e outras situações que possam incitar um estimulo sexual inadequado para a idade:

A psicologia caracteriza o abuso sexual pelo não consentimento da criança na relação sexual com o adulto, nem mesmo em qualquer contato físico com propósito sexual, sendo que o agente submete à vitima exposição de estímulos sexuais inapropriados para sua idade e desenvolvimento psicológico e/ou intelectual, contudo, o fato se consuma sob coerção ou com jogos de sedução afetiva perpetrados pelo acusador. 14

Conforme exposto, em diversas sociedades do mundo moderno ocorrem inúmeras práticas de abuso contra o infanto-juvenil, sendo tais atos legitimados pela cultura de cada povo. Um exemplo de tal situação ocorre na região da faixa de Gaza no Oriente Médio, onde é costume do grupo islâmico Hamas, detentor do poder político e militar local, realizar casamentos com crianças menores de 10 anos, dentre várias justificativas para tal ato está a crença de que o pai que casar sua filha ainda na idade impúbere terá o lugar certo no céu. 15 O casamento entre crianças e indivíduos mais velhos é uma forma clara de escravidão sexual. Em vários países da Ásia a exploração sexual infantil tem forte impacto na economia, chegando a representar 14% (quatorze por cento) do PIB. Existe um provérbio indiano que retrata a realidade cultural do povo local, afirmando que “se uma garota ainda é virgem aos 10 anos, é porque ela não tem nem irmãos, nem primos, nem pais”. 16 Desta maneira o abuso sexual ocorre de diversas formas, torna-se uma figura de tipo aberto aonde ensejam inúmeras condutas, as quais podem ou não caracterizar ilícito variando de acordo com a cultura de cada sociedade.

14 PEDOFILIA E TRÁFICO DE MENORES PELA INTERNET: o lado negro da web. Disponível em:

15

HAMAS

2011, op. cit.

16 SANDERSON, 2005, op. cit. p. 8.

15

3.2 PRINCIPAIS MODALIDES DE AGRESSÃO SEXUAL INFANTO-JUVENIL

A violência sexual contra o menor ocorre de diversas maneiras, variando de

acordo com a situação e características dos agressores e das vítimas.

O abuso sexual poderá se desenvolver de duas formas, fora do âmbito da

família, denominado de extrafamiliar, o qual o abusador não faz parte do circulo familiar da vítima, e intrafamiliar que é praticado por pessoa integrante do seu grupo familiar, este segundo é o mais freqüente. 17 De acordo com a doutrina de Veleda Dobke o abuso sexual infantil pode ser:

Extrafamiliar ou intrafamiliar. No primeiro, o abusador não é membro da

família da criança, e no segundo, que abarca a grande maioria dos casos, a prática ocorre no âmbito familiar; o abusador, membro da família da criança, manipula-a, desvirtuando, desta forma, as relações familiares. Nos dois casos, a criança é utilizada pelo adulto, num verdadeiro processo de coisificação sexual da criança, para suprir suas carências; para “elaborar” os traumáticos sofridos em sua própria família, maltrato em geral e/ou abandono e, no intrafamiliar, ela é utilizada para solucionar ou diminuir as conseqüências de conflitos com outros adultos da família, como a companheira, por exemplo. 18

[ ]

Segundo o entendimento de Luciana Parissoto, existem quatro categorias distintas de abuso sexual, quais sejam: a Pedofilia, o Estupro, o Assédio Sexual e a Exploração Sexual Profissional. 19

3.2.1

Pedofilia

A palavra pedofilia tem origem na língua grega, e decorre das palavras

pedos que significa criança e phyla que representa o amor. 20

A pedofilia significa um desvio sexual onde a pessoa adulta sente atração

por crianças e adolescentes de forma obsessiva.

17 DOBKE, 2001, op. cit., p. 27.
18

19 ABUSO SEXUAL A VIOLÊNCIA COMO DOENÇA. Disponível em:

http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?5. Acesso em: 18 fev. 2011.

Idem.

20

A DEMOCRACIA E A PEDOFILIA. Disponível em:

16

De acordo com o entendimento de Luciana Parisotto:

A palavra pedofilia é um transtorno parafílico, aonde a pessoa apresenta

fantasia e excitação sexual intensa com crianças pré-púberes, efetivando na prática tais urgências, com sentimento de angústia e sofrimento. 21

O transtorno parafílico tem origem na adolescência dos indivíduos que desenvolvem a pedofilia, porém vários destes afirmam que até meia idade não sentiam desejo por crianças 22 . As pessoas que apresentam esse distúrbio possuem atração por crianças de ambos os sexos, na fase pré-pubere, porém com predominância pelo sexo feminino, onde as vítimas geralmente estão na faixa etária de dez anos de idade. Por outro lado, as crianças do sexo masculino são, em geral, um pouco mais velhas, em comparação ao sexo oposto. 23 Para Fátima Moura da Silva o termo pedofilia é uma perturbação mental,

sendo:

Um conceito da área da psiquiatria que define uma perturbação, que se insere no grupo das parafilias, e que implica uma perturbação mental no individuo. Não consiste numa escolha pessoal, é decorrente de determinado contexto psíquico do individuo e da sua história pessoal. 24

Ainda de acordo com Fátima Moura da Silva:

O pedófilo não é, decididamente, um doente, tem perfeita noção moral ou

ética do bem e do mal, está inserido social e profissionalmente e, geralmente, não tem um sofrimento psíquico que o leve a pedir ajuda.

Além disso, nega freqüentemente o que aconteceu, o que demonstra a sua capacidade de distinguir o bem do mal, tem a fantasia e alimenta-a de que

as crianças gostam do ato que ele comete ou cometeu, apesar de saber que

a maior parte delas está sob ameaça ou drogada. 25

Em decorrência das características da prática da pedofilia, não há um tipo penal próprio para ela, pois esta pode ocorrer nas mais variadas formas de abuso, ficando caracterizada basicamente, de acordo com a vítima e o agressor, estando

21 ABUSO

22 PEDOFILIA E TRÁFICO

23 Idem. 24 MANUAL DA APAV ENSINA A CONHECER E LIDAR COM A PEDOFILIA. http://www.psicologia.com.pt/noticias/ver_noticia.php?codigo=NO00148. Acesso em: 18 fev. 2011.

2011, op. cit.

, 2011, op. cit.

25

Idem.

17

presente em diversas condutas penalmente puníveis relativas à violência sexual em face do infanto-juvenil. Portanto, a pedofilia é uma prática na qual o agressor sente desejo por crianças e adolescentes, submetendo estas a sua superioridade, em geral de idade, a fim de satisfazer, de forma compulsiva, seu objetivo.

3.2.2 Estupro de Vulnerável

A Lei nº 12.015/2009 trouxe a inserção do art. 217-A do Código Penal Brasileiro, o qual criou um novo tipo penal especifico o estupro de vulnerável. Esta conduta é caracterizada como a prática do estupro onde a vítima é obrigatoriamente menor de 14 anos, caso a vítima for maior de 14 anos e menor que 18 anos, aplica- se o art. 213 do Código Penal Brasileiro.

Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos:

Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.

§ 1º Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com

alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência. § 2º (vetado)

§ 3º Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave:

Pena - reclusão, de 10 (dez) a 20 (vinte) anos.

§ 4º Se da conduta resulta morte:

Pena - reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos. 26

A prática de ato de conotação sexual com menor de 14 anos é por si só, considerada crime de estupro tendo como sujeito passivo necessariamente vulnerável, não importando a existência ou não de consentimento Segundo a doutrina de André Estefam:

26 CÓDIGO PENAL BRASILEIRO. Disponível em:

18

A proteção penal volta-se à liberdade sexual e ao pleno desenvolvimento das pessoas vulneráveis, ou seja, aqueles que, em face de uma condição pessoal (transitória ou perene), não dispõem de forças ou de compreensão para resistir a um ataque contra sua dignidade sexual.

27

Dessa forma a prática de conjunção carnal (cópula vaginal) ou ato libidinoso (felação, coito anal, beijos em parte pudendas, carícias íntimas, dentre outras) com criança ou adolescente menor de 14 anos caracteriza crime de estupro de vulnerável, e estando incluídos nesta conduta os atos de pedofilia.

3.2.3 Exploração Sexual

Explorar é um verbo de conteúdo variável, embora no palco dos delitos contra a dignidade sexual, deva significar tirar proveito ou enganar alguém para lucrar. 28

O termo exploração sexual refere-se ao ato no qual um indivíduo tenta tirar vantagem econômica de criança ou adolescente, utilizando-se de posição de poder em relação a esta, obrigando-a a prestar serviços de natureza sexual a terceiros. 29 A prática da exploração sexual infanto-juvenil abrange inúmeras modalidades, tais como prostituição, tráfico de pessoas para trabalhar na indústria do sexo, intermediação de serviços de natureza sexual, dentre outras. Atualmente, em todo o país a prática da exploração sexual é bastante presente, por exemplo, a prostituição ocorre em todas as regiões, variando de acordo com cada localidade. No norte do Brasil, ocorrem leilões de meninas virgens, a prostituição se dá nas estradas, ruas, garimpos, prostíbulos, portos, bem como também na modalidade de cárcere privado em fazendas. Na região nordeste, predomina a prostituição em estradas, realizadas por crianças e jovens de ambos os sexos, turismo sexual e casas de prostituição. No sudeste do país, o turismo sexual também é muito presente, porém a exploração ocorre em grande parte nas estradas da região. No centro-oeste do Brasil, crianças e adolescentes são exploradas

27 ESTEFAM, André. Crimes sexuais. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 64.

NUCCI, Guilherme de Souza. Crimes contra a dignidade sexual. São Paulo: RT, 2011. p. 131. 29 LEAL, Maria Lúcia Pinto. Globalização e exploração sexual comercial de crianças e adolescentes. Rio de Janeiro: Save the Children, 2003.

28

19

sexualmente em fronteiras, hotéis, turismo sexual, bem como utilizadas para integrar o narcotráfico. Na região sul as características predominantes são a exploração através do tráfico de crianças e adolescentes de ambos os sexos para atividades sexuais e sua exploração nas estradas. 30 O Código Penal Brasileiro, em seu art. 218-B, estabelece o crime de favorecimento de prostituição ou outra forma de exploração sexual de vulnerável.

Art. 218-B. Submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém menor de 18 (dezoito) anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone:

Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos.

§

aplica-se também multa.

1 o

Se o crime é praticado com o fim de obter vantagem econômica,

§ 2 o Incorre nas mesmas penas:

I - quem pratica conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém menor

de 18 (dezoito) e maior de 14 (catorze) anos na situação descrita no caput

deste artigo; II - o proprietário, o gerente ou o responsável pelo local em que se verifiquem as práticas referidas no caput deste artigo.

§

condenação a cassação da licença de localização e de funcionamento do estabelecimento.

3 o Na hipótese do inciso II do § 2 o , constitui efeito obrigatório da

31

A exploração sexual é ilícita somente quando ocorre com menor de idade, uma vez que, para as pessoas acima de 18 anos não há crime previsto no ordenamento jurídico brasileiro. Estima-se que a prostituição infanto-juvenil no Brasil ocorre com indivíduos com idade entre 10 e 19 anos, bem como sua incidência ocorre em ambos os sexos. 32

Dessa forma, a exploração sexual ocorre quando a vítima é uma mercadoria, sendo utilizada com fins lucrativos por maior de idade, que a submete a seu poder.

30 A EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL DE MENINOS, MENINAS E ADOLESCENTES NA AMÉRICA LATINA E CARIBE. Disponível em: http://www.comitenacional.org.br/files/biblioteca/ 88NURRB8AOESKV83TFUN.pdf. Acesso em: 19 fev. 2011.

31 CÓDIGO PENAL BRASILEIRO, 2011, op. cit. 32 A EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL DE CRIANÇAS NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA LACUNAS E RECOMENDAÇÕES. Disponível em:

20

4

VIOLÊNCIA

SEXUAL

ADOLESCENTE

4.1 CONCEITO

INTRAFAMILIAR

CONTRA

A

CRIANÇA

E

O

Grande parte das formas de violência sexual que acontecem contra a criança e o adolescente ocorre dentro de suas próprias residências. Em tais abusos não há um perfil social especifico, estando presentes em todos os países, de diferentes culturas, nas variadas classes sociais, se desenvolvendo de diversas maneiras. A violência sexual pode perdurar durante anos, uma vez que a vítima, em virtude da pouca idade, não atingiu uma formação psicológica que permita que esta compreenda de forma clara a situação. Sendo assim, a vítima muitas vezes se cala com temor do agressor e vergonha de tornar público o fato. Esta conduta, na maioria das vezes, é continuada, uma vez que os abusos ocorrem de forma reiterada. Sanderson afirma que:

O abuso sexual dentro da família pode incluir tanto o pai biológico ou os padrastos quanto quaisquer outras figuras masculinas em que a criança deposita confiança e para quais têm algum poder ou autoridade sobre elas. Podem estar incluídos os namorados da mãe, tios, avós, amigos do sexo masculino próximos da família, assim como irmãos mais velhos. Pessoas do sexo feminino também abusam de crianças dentro da família [ ]

33

Na maioria dos casos o agressor é do sexo masculino, porém este também pode ser do sexo feminino. Em muitas situações a mãe sabe que seus filhos são abusados, no entanto, na maioria das vezes, esta não se manifesta, sendo conivente com a situação, por medo ou pelo fato de seu companheiro prover o sustento da família. Dessa maneira a criança ou adolescente fica sem a quem recorrer, pois quem poderia ajuda-lá é omissa em relação ao problema.

33 SANDERSON, 2005, op. cit. p. 79.

21

Portanto, a violência sexual intrafamiliar contra a criança e o adolescente é aquela ocorrida no âmbito de sua residência, possuindo características próprias, em face da proximidade constante entre agressor e vítima, bem como seus reflexos na família e na sociedade.

4.2 PERFIL DO AGRESSOR

O praticante de ilícito sexual contra de criança e adolescente é, via de regra, pessoa do vínculo familiar da vitima, muito próximo a esta, podendo ser o pai, mãe, irmão, irmã, tio, tia, sempre tendo em relação à criança e adolescente uma posição

de superioridade, quase sempre de idade e usa de sua força física. A maior incidência de casos ocorre entre agressor de sexo masculino e

vítima do sexo feminino, no entanto não necessariamente as situações se resumem

a esse gênero, pois pode ocorrer também entre agressor feminino e vitima masculina e também pessoas do mesmo sexo. Claudemir C. Santos, afirma que:

Pedofilia é mais comum em homens, em especial aqueles com problemas de satisfação sexual com mulheres adultas. Nos surpreendemos envolvidos com a pedofilia: padres, médicos, professores de educação física, educadores e tantos outros ligados à criança.

34

Maria Berenice Dias afirma que:

Os abusadores sexuais formariam um grupo heterogêneo em alguns aspectos, como história pessoal, preferências quanto ao tipo de vítima e risco de recidiva. No entanto, os autores reconhecem que existem comportamentos comuns, como o fato de iniciarem a prática de crimes desde tenra idade, terem como características de personalidade mais comuns a timidez (introversão), fracas habilidades sociais, temperamento hostil, raiva, baixa autoestima.

35

34 PEDOFILIA. Disponível em: http://www.peritocriminal.com.br/pedofilia.htm. Acesso em: 18 fev.

2011.

35 DIAS, 2010, op. cit. p. 247.

22

Em que pese os referidos autores determinarem características peculiares aos abusadores, muitos fogem desta regra sendo pessoas acima de qualquer suspeita. Os agressores buscam parecerem pessoas socialmente corretas com conduta e reputação acima de qualquer suspeita. Christiane Sanderson afirma que:

Os pedófilos possuem um amplo leque de características, incluindo o espectro do comportamento “normal”. Realmente, o fato de eles parecerem pessoas normais e assim se comportarem cria um laço de confiança em adultos e de segurança nas crianças. Por não parecerem esquisitos, diferentes ou estranhos, ou por não se comportarem de maneira suspeita e anormal, fica mais difícil identificá-los. Também se torna mais fácil para eles escolher tanto os pais quanto os filhos e conquistar sua confiança. 36

Neste contexto também é importante ressaltar as características das mães que cometem ilícitos sexuais em face de seus filhos menores, uma vez que, segundo Maria Regina Azambuja:

Elas tem um comportamento marcadamente impulsivo e imaturo, vivem isoladas, fazendo com quem percebam seus filhos mais velhos como se tivessem mais idade e utilizando-os como uma forma de se confortar. É comum a associação com quadros psicóticos graves. 37

Em estudo realizado na cidade de Teresina, no Piauí, entre os anos de 2004

e 2007, concluiu-se que o agressor é, em primeiro lugar, vizinho com 27,5%, em

segundo lugar padrasto, com 11,4%, em terceiro lugar o pai, apresentando um percentual de 9,4%, em quarto lugar aparece o tio com 8,4%. Em relação ao perfil profissional do agressor, a referida pesquisa mostrou que 26,5% são desempregados, 20,35% são estudantes e 3,89% são aposentados. 38 Outra pesquisa aponta que o pedófilo da criança é o pai biológico, 14,1% ou

o padrasto, 12,5%, e na adolescência são o padrasto ou namorado, 11,9%.

36 SANDERSON, 2005, op. cit. p. 56. 37 AZAMBUJA, Maria Regina. Violência sexual intrafamiliar: é possível proteger a criança? Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004.

VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA A CRIANÇA NO MEIO INTRAFAMILIAR ATENDIDOS NO SAMVVIS DE TERESINA, PI. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034- 71672008000400010&script=sci_abstract&tlng=e. Acesso em: 19 fev. 2011.

38

23

A mesma pesquisa aponta que 90% dos abusos sexuais contra crianças e adolescentes são cometidos por pessoas próximas à vítima. 39 Portanto o agressor não pode ser determinado, normalmente, por um perfil específico, em que pese alguns apresentarem características peculiares, uma vez que este busca sempre parecer um indivíduo comum.

4.2.1 Métodos Utilizados

Os abusadores que praticam essa violência no âmbito familiar, em geral buscam atingir seu objetivo mediante a existência prévia de uma relação de confiança com a vítima, no caso de pais, mães e parentes próximos, ou estabelecimento deste grau de relação ao longo do tempo.

O ato de adquirir a confiança do menor é chamado de processo de

aliciamento, o qual pode durar semanas, meses e até anos e se baseia em laços de

amizade e intimidade, que vão sendo construídos com a criança e com os pais. 40

Da mesma forma Christiane Sanderson afirma que:

O estabelecimento (e a eventual traição) do afeto e da confiança ocupa papel central nas interações entre os molestadores e as crianças. O processo de aliciamento de um abusador é, em geral, como o de outro, principalmente porque leva pouco tempo para que se descubra que a sedução emocional é o modo mais eficaz de manipular as crianças. 41

Outra técnica deste criminoso é criar um ambiente familiar de exclusão da vítima, a qual passa a ter nele seu ponto de referência. A idéia é criar uma relação de dependência entre a criança e o violador. Dentre outros métodos o agressor toma proveito de momentos oportunos em que este fica a sós com a vítima, assim facilitando a sua ação. Da mesma maneira o pedófilo utiliza de subterfúgios, tais como, oferecer balas, doces, presentes, promessas, recompensa, drogas, suborno dentre outros.

39 CARACTERIZAÇÃO DAS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA SEXUAL A PARTIR DA ANÁLISE DOS REGISTROS FEITOS PELA COORDENADORIA GERAL DE MEDICINA LEGAL DE CUIABÁ MT NO ANO DE 2004. Disponível em: http://www.seguranca.mt.gov.br/politec/3c/artigos/Seminario_ ana.squizatto.pdf. Acesso em: 19 fev. 2011.

40 SANDERSON, 2005, op. cit. p. 143-144. 41 Ibidem, p. 141.

24

Ainda também ocorrem situações em que para ter sua satisfação alcançada o ofensor ameaça ou até mesmo age com atos de violência física para com o

ofendido. Nestes casos aquele se aproveita, muitas vezes, da relação do poder e subordinação que existe para com este. 42

O abusador sabe que esta infringindo as leis e por isso usa destas

artimanhas para tentar “comprar” a vítima e não ser descoberto.

4.3 PERFIL DA VÍTIMA

Em geral o alvo do abusador é de criança ou adolescente mais frágil ou que seja portadora de deficiência física, com isso se torna difícil como se defender e pedir ajuda. Ocorre, porém, que as vítimas não têm uma idade padrão definida e nem classe social, variando de acordo com o desejo do pedófilo. Segundo o entendimento de Christiane Sanderson:

O pedófilo pode escolher uma criança específica que preencha certas características desejadas, tais como idade ou uma faixa estaria específica, determinadas características físicas, personalidade ou grau de vulnerabilidade. Exemplos comuns podem ser crianças pequenas que ainda usam fraldas, crianças de 3 a 5 anos, de 6 a 8 anos, pré- adolescentes ou crianças que estão na puberdade. A maioria dos pedófilos escolhe apenas as crianças que se enquadram na faixa etária de sua preferência e demonstram pouco ou nenhum interesse pelas crianças de outras idades.

43

No Brasil 93,5% dos menores vítimas de abuso sexual são do sexo feminino.

Desta forma, não há um perfil específico de vítimas que sofram abuso sexual intrafamiliar, as crianças e adolescentes mais vulneráveis tendem ser o alvo deste crime.

42 NUCRIA (Núcleo de Proteção a Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes). Dicas da Bia Sabida. Policia Civil do Paraná, 2009. (Folder) 43 SANDERSON, 2005, op. cit. p. 145.

25

4.4 CONSEQUÊNCIAS E FORMAS DE IDENTIFICAÇÃO DO ABUSO SEXUAL

As conseqüências e formas de identificação da violência sexual intrafamiliar são muitas e variadas, dependendo de diversos fatores, se apresentando tanta na forma física, quanto no psicológico do indivíduo, dentre eles, destacam-se:

A idade do adolescente na época do abuso; a duração e freqüência do abuso sexual; o(s) tipo(s) de ato(s) sexual(is); o uso da força ou da violência; o relacionamento da criança com o abusador; a idade e o sexo do abusador; os efeitos da revelação.

44

Os principais sinais para a identificação do abuso sexual são as seqüelas físicas e anormalidades comportamentais e psicológicas da vítima. Segundo a doutrina de Christiane Sanderson, as alterações na vítima de pedofilia são classificadas em seis modalidades: efeitos emocionais; efeitos interpessoais; efeitos comportamentais; efeitos cognitivos; efeitos físicos; efeitos sexuais. Vale ressaltar que tais sintomas variam de indivíduo para indivíduo. Os sinais de natureza física são: dor ou inchaço na área genital e anal; doenças sexualmente transmissíveis; hematomas pelo corpo; coceira inflamação ou infecção nas áreas oral, vaginal ou retal; presença de sêmen em partes do corpo ou em roupas íntimas; sangramentos e odores anormais no órgão sexual feminino. Estes sintomas variam de acordo com a utilização ou não de força por parte do abusador. As características comportamentais do indivíduo molestado, geralmente se apresentam da seguinte forma: surgimento de presentes ou dinheiro sem explicação; comportamento regressivo, no qual a criança faz atitudes que remetem a uma idade inferior, como fazer xixi na cama, chupar o dedo, engatinhar, dependência excessiva dos pais; agressividade com seus objetos; comportamento sexual inapropriado para a idade; comportamentos perigosos como fugir e lutar; vulnerabilidade a acidentes. As consequências emocionais se resumem, basicamente, na demonstração de ausência de vergonha comum ao comportamento médio esperado; no medo dos resultados, caso exponha a verdade; medo do abusador; medo de ficar sozinha e

44 SANDERSON, 2005, op. cit. p. 170.

26

outras fobias; desenvolvimento de sentimentos obsessivos e ausência de demonstração normal de alegria. Os efeitos interpessoais se caracterizam no relacionamento das crianças e adolescentes com outros indivíduos em seu meio social. Exemplos dessa conduta são: o afastamento de pessoas próximas; medo de atos de intimidade, como beijos, abraços e carícias; auto-exclusão; ausência de confiança em si e nas pessoas próximas. Dentre os problemas em decorrência do abuso sexual, a vítima apresenta em sua cognição as seguintes características: baixo rendimento escolar; perda de concentração e atenção; problemas de memória; criação de fantasias para fugir da realidade. Os efeitos sexuais apresentados pelas vítimas são: comportamentos sexuais impróprios para a idade praticados com outras crianças, adultos e até com os brinquedos; Também poderá apresentar uma gravidez, dependendo da idade da vítima; masturbação compulsiva; prostituição; desenvolvimento de temas de ordem sexual em jogos e trabalhos escolares; medo de sexo, o qual pode se desenvolver em adolescentes que foram vítimas no passado. 45 Um dos instrumentos imprescindíveis para diagnosticar se a criança ou adolescente foi vítima de abuso sexual é o laudo do IML, que tem por finalidade determinar se há existência de vestígios físicos que possam provar o abuso. A avaliação psicológica e acompanhamento psiquiátrico também são fundamentais, e tem um papel extremamente importante na hora de constatar o problema. O profissional da área de psicologia irá fazer um estudo mais aprofundado nas vítimas, pois há casos em que as mesmas não apresentam vestígios físicos, sendo somente verificada a existência da agressão através de laudo psicológico. Vários são os sinais apresentados pela vítima de violência sexual, variando de acordo com cada indivíduo, em virtude disso estes são necessários para a verificação do abuso. No entanto, como a gama de possibilidades de conseqüências de conduta é grande, tem que se tomar muito cuidado ao diagnosticar o abuso, pois muitas vezes o infanto-juvenil apresenta um dos sinais elencados, porém pode se referir há outro problema de ordem diversa.

45 SANDERSON, 2005, op. cit. p. 201-227.

27

5

DA TUTELA LEGAL

5.1

EVOLUÇÃO LEGISLATIVA NO BRASIL

A criança e o adolescente, até o início do século XX não era tido na

sociedade como um sujeito de direitos, merecedor de proteção, estando sempre submetido ao poder do chefe de família, devido ao ranço cultural oriundo desde a mais remota antiguidade. Para André Karst Kaminski:

As primeiras crianças brasileiras, ou estrangeiras residentes no Brasil, nunca ocuparam uma posição muito privilegiada na sociedade, sobretudo sob o ponto de vista de uma atenção especial aos seus direitos, o que decorria de uma ótica de tratá-las como simples objetos da vontade dos adultos, que sobre elas detinham total poder.

46

Dessa forma, tais indivíduos sempre sofreram vários tipos de violência, das mais diversas naturezas, principalmente de ordem sexual. No Brasil, o primeiro projeto de lei a trazer uma tutela ao infanto-juvenil foi apresentado por José Bonifácio, o qual tinha a intenção de conferir direitos humanos aos menores escravos, porém tal projeto não virou lei, em virtude da outorga da Constituição de 1824. 47

A primeira proteção legal aos menores foi a Lei de 1862, a qual proibia a

venda de crianças escravas separadas de seus pais. 48

O Decreto nº 16.272/23 instituiu o Regulamento da Assistência e Proteção

aos Menores Abandonados e Delinquentes. 49 Em 1926, o Decreto nº 5.083 determinou, entre outras medidas, que o Estado deve colaborar na proteção do menor, podendo chegar a interferir na

família. 50

46 KAMINSKI, André Karst. O Conselho Tutelar, a criança e o ato infracional: proteção ou punição. Canoas: Ulbra, 2002. p. 13.

Ibidem, p. 15.
48

Ibidem, p. 17.
49

Ibidem, p. 21.
50

47

Ibidem, p. 22.

28

Em 1927 foi criado o Código de Menores, o qual previa assistência e educação ao menor que comete delitos, utilizando de métodos pedagógicos, bem como regulava a intervenção estatal no mecanismo familiar e a proteção aos indivíduos de 0 a 18 anos de idade abandonados, sem moradia ou órfãos. 51

Após, o Código Penal vigente, trouxe, com diversas alterações através dos anos, tipos penais que regulam a prática de crimes, em especial sexuais, em face da criança e do adolescente. 52 Em 1979, o foi criado o novo Código de Menores, o qual também dispunha sobre a assistência, proteção e vigilância do menor, como obrigação do Estado. 53

A Constituição Federal de 1988 revogou o Código de Menores de 1979 e

trouxe uma série de garantias a criança e o adolescente, tornando este, efetivamente um sujeito de direitos, amplamente tutelado em diversos aspectos sociais, especialmente no que tange a proteção contra violência, inclusive de ordem sexual, atribuindo ao poder público e a toda sociedade deveres para com esses

indivíduos. 54 Como forma de tornar efetivos os princípios protetores elencados na Lei Maior, em 1990 foi criado o Estatuto da Criança e do Adolescente, o qual regulou os dispositivos da Carta Magna, estabelecendo limites comuns aos entes públicos, ao judiciário, empresas e família, tornando a proteção do menor responsabilidade de todos. 55

5.2 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988

A Constituição Federal da República de 1988 foi a primeira legislação no

Brasil que colocou efetivamente a criança e o adolescente como sujeitos de direitos, os inserindo de forma definitiva no quadro social, como merecedores de tutela, tanto estatal quanto social, em todos os aspectos.

51 KAMINSKI, 2002, op. cit
52

53 Ibidem, p. 31.
54

55 Ibidem, p. 34.

Idem.

Idem.

p. 18.

29

Primeiramente é importante ressaltar que um dos princípios elencados na Carta Magna é o da dignidade da pessoa humana, o qual representa a proteção ao indivíduo em todos os aspectos, inclusive quanto a sua dignidade sexual. A Lei Maior traz, no capítulo VII, as normas de tutela acerca da família, da criança, do adolescente, do jovem e do idoso. No que tange a criança e o adolescente, o art. 227 determina o dever comum da família, sociedade e Estado em garantir à criança e o adolescente, com prioridade máxima, a vida, a saúde, a alimentação, a educação, o lazer, a profissionalização, a cultura, a dignidade, o respeito, a liberdade, a convivência familiar, bem como protegê-la de todo o ato de negligência, violência, exploração, crueldade e opressão.

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura,

à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

§ 1º O Estado promoverá programas de assistência integral à saúde da

criança, do adolescente e do jovem, admitida a participação de entidades não governamentais, mediante políticas específicas e obedecendo aos seguintes preceitos:

I - aplicação de percentual dos recursos públicos destinados à saúde na assistência materno-infantil;

II - criação de programas de prevenção e atendimento especializado para as

pessoas portadoras de deficiência física, sensorial ou mental, bem como de

integração social do adolescente e do jovem portador de deficiência, mediante o treinamento para o trabalho e a convivência, e a facilitação do acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de obstáculos arquitetônicos e de todas as formas de discriminação.

§ 2º - A lei disporá sobre normas de construção dos logradouros e dos

edifícios de uso público e de fabricação de veículos de transporte coletivo, a fim de garantir acesso adequado às pessoas portadoras de deficiência.

§ 3º - O direito a proteção especial abrangerá os seguintes aspectos:

I - idade mínima de quatorze anos para admissão ao trabalho, observado o disposto no art. 7º, XXXIII;

II - garantia de direitos previdenciários e trabalhistas;

III - garantia de acesso do trabalhador adolescente e jovem à escola; IV - garantia de pleno e formal conhecimento da atribuição de ato infracional, igualdade na relação processual e defesa técnica por profissional habilitado, segundo dispuser a legislação tutelar específica;

30

V - obediência aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à

condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, quando da aplicação de qualquer medida privativa da liberdade;

VI - estímulo do Poder Público, através de assistência jurídica, incentivos

fiscais e subsídios, nos termos da lei, ao acolhimento, sob a forma de

guarda, de criança ou adolescente órfão ou abandonado;

VII - programas de prevenção e atendimento especializado à criança, ao

adolescente e ao jovem dependente de entorpecentes e drogas afins.

§ 4º - A lei punirá severamente o abuso, a violência e a exploração sexual

da criança e do adolescente.

§ 5º - A adoção será assistida pelo Poder Público, na forma da lei, que estabelecerá casos e condições de sua efetivação por parte de estrangeiros.

§ 6º - Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção,

terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações

discriminatórias relativas à filiação.

§ 7º - No atendimento dos direitos da criança e do adolescente levar-se- á

em consideração o disposto no art. 204.

§ 8º A lei estabelecerá:

I - o estatuto da juventude, destinado a regular os direitos dos jovens;

II - o plano nacional de juventude, de duração decenal, visando à articulação das várias esferas do poder público para a execução de políticas públicas.

56

No tocante a violência sexual, a Constituição Federal, através de seus

dispositivos, em especial o parágrafo 4º do referido artigo, garante total proteção ao infanto-juvenil, tutelando direitos que visam sua proteção, bem como sua assistência

e punição.

5.3 DO CÓDIGO PENAL

O Código Penal Brasileiro traz várias normas que tem por finalidade tipificar

e punir condutas, muitas das quais relativas à violência sexual em face da criança e

do adolescente.

O regramento original remonta a década de 1940, necessitando ao longo

dos anos passar por inúmeras reformas.

56 CONSTITUIÇÃO FEDERAL DA REPÚBLICA DE 1988. Disponível em:

31

Dentre as várias alterações legais, uma das mais importantes foi a Lei 12.015/2009, que trouxe ao Código Penal os dispositivos do art. 217-A que tipifica o crime de estupro de vulnerável, art. 218-A, crime de satisfação da lascívia mediante presença de criança ou adolescente e art. 218-B, crime de favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de vulnerável, bem como os enquadrou como crimes hediondos. 57 Diante das inovações legais, o ordenamento jurídico penal busca dar mais ênfase e efetividade na repressão das condutas tuteladas pelas garantias outrora expostas na Constituição de 1988 e no Estatuto da Criança e do Adolescente.

5.4 DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

O Estatuto da Criança e do Adolescente foi instituído através da Lei 8.069/1990, e tem como finalidade efetivar as garantias elencadas no Capítulo VII da Constituição Federal, em especial no art. 227. Antigamente crianças e adolescentes eram vistos como objetos pela sociedade, e não eram considerados indivíduos com direitos, e por isso, muitas vezes eram vítimas de violência. Com o surgimento do Estatuto da Criança e Adolescente foi possível buscar a efetividade de tais direitos, conforme determina o art. 1º do referido dispositivo legal:

Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente.

Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade.

Parágrafo único. Nos casos expressos em lei, aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade.

Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos

57 CÓDIGO PENAL BRASILEIRO, 2011, op. cit.

32

referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer,

à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:

a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;

b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;

c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;

d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com

a proteção à infância e à juventude.

Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

Art. 6º Na interpretação desta Lei levar-se-ão em conta os fins sociais a que ela se dirige, as exigências do bem comum, os direitos e deveres individuais

coletivos, e a condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento.

e

58

Desse modo, todo criança e adolescente terá a assistência necessária para seu desenvolvimento e ter uma vida e futuro com dignidade. Conforme Ana Selma Moreira:

O ECA estabeleceu limites à ação do Estado, do Juiz, da Polícia, das Empresas, dos adultos e mesmo dos pais, ampliou os poderes dos cidadãos e dos municípios na defesa dos direitos na infância, apostando na descentralização e na partição da sociedade civil. Rompeu com a idéia da criança ou adolescente serem um mero objeto de intervenção jurídica e social, ou simples portadores de necessidades. Seu caráter inovador, fez com que fosse considerado uma referência internacional, inspirando legislações de mais de quinze países. 59

Segundo Luciana da Silva Duarte, o Estatuto estabelece que o indivíduo menor de 18 anos necessita de uma proteção necessária especial por ser um ser humano em desenvolvimento:

Da legislação apresentada se verifica que por se reconhecer o menor de 18 anos como um ser humano em desenvolvimento, não plenamente pronto e suficiente desenvolvido para o trabalho da vida, há necessidade de que o direito o proteja, já que suas condições físicas e mentais o colocam em situação de fragilidade frente ao mundo adulto. Dito isso, conclui-se que a legislação voltada à proteção da criança e do adolescente é, genuinamente, norma de Direitos Humanos, posto que as Normas de

58 ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. Disponível em:

59

MOREIRA, Ana Selma. Pedofilia: aspectos jurídicos e sociais. São Paulo: Cronus, 2010. p. 89.

33

Direitos Humanos trazem como principal característica a proteção dos mais vulneráveis. 60

Com o advento da Constituição Federal de 1988 e a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente, estes indivíduos antes com pouca proteção legal, tornaram sujeitos extremamente tutelados pelo ordenamento jurídico. Com isso houve uma conseqüente redução na mortalidade infantil, no número de crianças e adolescentes fora da escola, dente outros aspectos. 61 Dessa forma, a norma infraconstitucional tem, no entendimento acima de Luciana da Silva Duarte, um conteúdo de Direitos Humanos, uma vez que busca tutelar o indivíduo em todos seus aspectos, atribuindo a todos a responsabilidade por essa proteção.

60 DUARTE, Luciana da Silva. Enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes. Departamento de Polícia Rodoviária Federal. 2009.

61 20 ANOS DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE APONTA ANIQUIDADES E VIOLÊNCIA COMO GRANDES DESAFIOS DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA. Disponível em:

2011.

34

6 AS AÇÕES DE TUTELA COMO FORMA DE TORNAR EFETIVAS AS MEDIDAS PROTETIVAS PREVISTAS NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO

6.1 AÇÕES PREVENTIVAS

O ordenamento jurídico brasileiro criou normas de tutela e repressão para as condutas de violência em face do menor, porém o objetivo final em se tutelar um bem jurídico, como a dignidade sexual do indivíduo, é evitar que ocorram previamente formas de agressão contra este.

A prevenção do abuso sexual em crianças e adolescentes é de

responsabilidade de todos, não apenas de órgãos governamentais e de Instituições.

Desta forma, buscou o legislador pulverizar a responsabilidade, tornando toda a sociedade fiscalizadora de tais atos.

No Brasil foi instituída a Lei nº 9.970 de 17 de maio de 2000, a qual tem

como objetivo o combate ao abuso e exploração sexual infanto-juvenil. A data para

sua criação foi escolhida no dia 18 de maio, onde se comemora o dia Nacional de Combate ao Abuso e a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em razão de nesta data, no ano de 1973, uma menina de apenas oito anos de idade que residia na cidade de Vitória (Espírito Santo), ser vítima de sequestro, agressão física, estupro e foi assassinada, esta história comoveu toda a população na época. 62 Vale ressaltar que, esta Lei é de extrema relevância para a sociedade, pois prevê a organização de campanhas de conscientização sobre o tema, através das quais as pessoas são informadas da importância em denunciar as práticas de abuso, bem como também fala sobre as formas de prevenção deste tipo de crime e aonde procurar ajuda. Neste contexto, crianças e adolescentes também são orientadas sobre as várias formas de violência, como também recebem informações acerca de seus direitos. 63

62 DIA NACIONAL DE COMBATE AO ABUSO E À EXPLORAÇÃO SEXUAL. Disponível em:

63

Idem.

35

Segundo Luciana da Silva Duarte a prevenção se apresenta em três esferas, primária, secundária e terciária:

Prevenção primária. Age nas causas da violência antes que ela se instaure e requer envolvimento da comunidade, podendo ser feita através de palestras e capacitação específica de profissionais e agentes multiplicadores para que o debate das causas da violência se amplie e propicie reflexão generalizada sobre o assunto.

Prevenção secundária. Envolve a identificação da população vulnerável e recursos estratégicos para prover cuidados médico-sociais aos pais e filhos

e encaminhamentos diversos (Departamento de Assistência Social,

programas de creches, clínica-escola, etc.), buscando cessar as causas de

violência.

Prevenção terciária. Dirigida às vítimas e aos agressores, com o objetivo de reduzir as conseqüências da violência sexual, por intervenções terapêuticas

de diversas modalidades. Nesse momento há acionamento da rede de

serviços públicos e atuação do Conselho Tutelar e Vara da Infância e Juventude, viabilizando encaminhamentos necessários para a garantia de direitos, sejam eles na esfera da saúde, educação, geração de renda, proteção jurídica, etc. 64

Ressalta-se que a educação e a orientação são o meio mais eficiente de combate a toda e qualquer forma de violência, inclusive de ordem sexual. Da mesma maneira, complementa a referida autora:

Educar crianças e adolescentes sobre seus direitos, visando ao fortalecimento da sua autoestima e à defesa contra a violência sexual; Enfrentar os fatores de risco à violência sexual; Promover o fortalecimento das redes familiares e comunitárias para a defesa de crianças e adolescentes contra situações de violência sexual; e

espaço

cibernético. 65

Promover

a

prevenção

à

violência

sexual

na

mídia

e

em

Assim, a prevenção se torna efetiva quando há políticas públicas de conscientização, aliadas ao esforço comum de todos os membros da sociedade, como forma de educar e trazer informação a todos, principalmente às famílias e vítimas em potencial. No entanto, quando o abuso é no âmbito familiar este torna difícil de prevenir, em razão de que quem deveria proteger a criança ou adolescente é o abusador.

64 DUARTE, 2009, op. cit. 65 Idem.

36

6.2 AÇÕES REPRESSIVAS

Atualmente existem várias Instituições e Órgãos Governamentais que tem como função em ajudar vítimas de violência, dentre eles um dos mais importantes é

o Conselho Tutelar. O Conselho Tutelar foi criado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e tem como principal função proteger os direitos destes indivíduos. Dentre outras atribuições, destacam-se a de receber a comunicação dos casos de suspeita ou confirmação de maus tratos, tomar as medidas de proteção necessária, assim como controlar a matricula e frequência obrigatória no ensino fundamental e seu aproveitamento, a fim de garantir que crianças e adolescentes tenham acesso à escola, se necessário, requisitar certidões de nascimento e óbito de crianças ou adolescentes, atender e aconselhar pais ou responsáveis, aplicando medidas de encaminhamento a programas de promoção à família, auxiliar no tratamento psicológico ou psiquiátrico e também no tratamento de dependência química, orientar pais ou responsáveis para que cumpram a obrigação de matricular seus filhos no ensino fundamental; presta serviços públicos nas áreas de saúde, educação, serviço social, previdência, trabalho e segurança e encaminhar ao Ministério Público as infrações contra os direitos de crianças e adolescentes. 66 Existe um serviço do governo a nível nacional denominado disque-denúncia

o qual funciona através do telefone 100, onde a população pode denunciar casos de crimes sexuais e outras formas de agressões contra a criança e adolescente. No país são poucos municípios que existem delegacias especializadas em crimes contra a criança e o adolescente. Em Curitiba existe Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (NUCRIA), que é uma unidade policial especializada na investigação de crimes e contravenções penais praticadas por maiores de 18 anos contra a criança e ao adolescente. 67 No Brasil existe a Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente em Situação de Risco para a Violência, espalhadas em diversos municípios, cujo principal objetivo é proteger crianças e adolescentes referentes à violência doméstica e sexual intrafamilar. Esta instituição conta com vários colaboradores

66 DUARTE, 2009, op. cit. 67 NUCRIA, 2009, op. cit.

37

como Escolas Municipais, Hospitais, Creches, dentre outras entidades, que são preparados para diagnosticar sinais de violência contra o infanto-juvenil. Uma das ferramentas utilizadas é a notificação obrigatória, a qual é encaminhada para o Conselho Tutelar contendo informações valiosas, onde é feito um acompanhamento com a vítima e sua família. 68 Estes Órgãos e Instituições que prestam serviços para as crianças e adolescentes vítimas do abuso sexual são primordiais para a comunidade, pois muitas pessoas não sabem a quem recorrer quando se deparam com vítimas de crimes de abuso.

68 CURITIBA. Protocolo da Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente em Situação de risco para a Violência. 3. ed. rev. e atual., 2009. Disponível em: http://sitesms.curitiba.pr.gov.br/saude/ areastematicas/saude_crianca/rede_protecao.pdf. Acesso em: 17 fev. 2011.

38

7

CONCLUSÃO

Em toda a trajetória da humanidade, inúmeros são os casos de crianças e adolescentes que vem sofrendo violência, seja ela física, psicológica ou sexual. Antigamente esses indivíduos eram vistos como objetos de propriedade dos pais e não como sujeito de direitos. Durante o século XX, lentamente tais pessoas passaram a ser tuteladas pelo ordenamento jurídico. Com o surgimento da Constituição Federal de 1988, as crianças e adolescentes consolidaram seu papel na sociedade, utilizando-se dos princípios da dignidade da pessoa humana e da proteção integral, os quais tem como principal objetivo garantir direitos e uma vida digna. Tal situação de tutela chegou ao Ápice com o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente, que reforçou as disposições constitucionais, bem como buscou operacionalizá-las. Partindo desta concepção de formas da violência, a sexual é a que se privilegia, pois as vítimas são submetidas a satisfazer o desejo de indivíduos que possuem o poder ou autoridade sobre estas. Existem duas formas de violência sexual em face do menor, a intrafamiliar que ocorre no âmbito familiar, e a extrafamiliar que acontece fora no seio familiar. A violência sexual intrafamiliar contra a criança e o adolescente é o mais grave de todos, pois além do problema social inerente a ela, esta é a mais difícil de ser descoberta, uma vez que a maioria dos casos não é revelada. Tal situação ocorre em virtude da proximidade entre a vítima e o agressor, suas ameaças e o medo do ofendido frente este, o qual se aproveita da vulnerabilidade da vítima, como também da vergonha que esta tem em expor o problema à família. Em virtude dessa proximidade entre o ofendido e seu agressor, o resultado são consequências graves, gerando uma defasagem no desenvolvimento na vida daquele. Existem casos em que a mãe da vítima sabe da existência do abuso, porém não conta a ninguém em razão do pai ser o arrimo da família, ou sente certo constrangimento em pedir ajuda e ser descoberta a verdade. Nota-se que a violência sexual intrafamiliar não possibilita uma forma de prevenção efetiva, em razão da vítima em geral não ter idade suficiente para

39

compreender a realidade, não podendo ser conscientizada através das campanhas sociais, como também por o agressor conviver junto a esta, pois quem deveria zelar por sua proteção é quem comete o crime. Assim, só será conhecida a ocorrência do abuso, quando aparecem os sintomas físicos e psicológicos na criança e no adolescente. Esta é uma das grandes dificuldades no combate deste tipo de crime. Detendo-se ao perfil do agressor, não há um parâmetro específico para este. Geralmente o praticante do ilícito sexual em face de criança e adolescente é pessoa que está muito próxima da vítima, podendo ser qualquer indivíduo que ela tenha muito afeto e carinho, o qual poderá ser de ambos os sexos. O agressor exerce, justamente pela facilidade de proximidade junto à vítima, de uma real e fática posição de superioridade. O agressor usa seu domínio moral, emocional e físico sobre ela. É ele que quase sempre, possui idade mais elevada do que a da vítima. É ainda o pedófilo que, prevalecendo-se do uso de sua força física superior, faz valer sua vontade e falta de respeito, abusando de quem não tem condições de se desvencilhar de sua ação reprovável. Com relação ao perfil do ofendido, estudos afirmam que são abusadas com maior frequência crianças e adolescentes do sexo feminino. Embora também meninos sejam violentados, porém com menor incidência. Esse tipo de violência acarreta várias conseqüências como, por exemplo, problemas de saúde física, principalmente no que se refere ao estado emocional e mental da vítima. O legislador, preocupado com a vida desses indivíduos, alterou o ordenamento vigente através da Lei nº 12.015/2009, incluindo novos tipos penais específicos que tutelam a criança e o adolescente, bem como tornou estes crimes hediondos, conferindo maior grau de punibilidade a estas condutas. Em que pese os esforços legislativos, várias ações ainda devem ser tomadas, como o objetivo de reduzir cada vez mais qualquer forma de violência contra a criança e o adolescente. Para que se possa efetivar a proteção integral da criança e do adolescente, é preciso além das medidas repressivas, o investimento de todos em medidas de prevenção, principalmente na área da educação, pois a informação destinada a quem pode vir a ser abusado e as pessoas de seu convívio social é fundamental, a fim de coibir possíveis agressores.

40

Além disto, existem Órgãos Federais, Estaduais e/ou Municipais que visam à prevenção destas práticas ilícitas, e já são aliados no combate destes crimes, como o Conselho Tutelar, Rede de Proteção, Vara da Infância e da Juventude, Instituições e Delegacias Especializadas. Estes Órgãos funcionam como fatores de grande auxílio em coibir tais práticas abomináveis. Pois, eles exercem principalmente a função de prevenir e de conscientizar a todos sobre os malefícios e conseqüências advindas de tais práticas. Assim, se destaca na sociedade uma tutela maior aos direitos das vítimas de abusos e de crimes sexuais. Estes Órgãos têm maior possibilidade de exercer a função preventiva, impeditiva, e com isso florescer com maior ênfase a idéia de combate a tais ocorrências, ampliando assim seu leque de atuação. Com as várias denúncias recentemente trazidas pela imprensa, surge a grande oportunidade dos Órgãos conquistarem um apoio da própria sociedade no combate destas ocorrências e mais ainda, na tentativa de extirpar ao máximo este mal que afronta a todos. Atualmente existem delegacias especializadas para proteger a criança e o adolescente, em Curitiba há uma Rede do Núcleo de Proteção a Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (NUCRIA) onde vem, atualmente, assumindo relevante papel nesta tutela, com a função de proteger e consolidar a prevenção dos crimes, sendo criado justamente pelo principio da prioridade absoluta, como rege a Constituição Federal em seu art. 227. Destarte, para diminuir a ocorrência de tais práticas, é cada vez mais desenvolver campanhas de conscientização, bem como promover ações integradas em todos os setores da sociedade, visando à prevenção e a repressão.

41

REFERÊNCIAS

AZAMBUJA, Maria Regina. Violência sexual intrafamiliar: é possível proteger a criança? Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004.

AZAMBUJA, Maria Regina Fay de. et al. Violência sexual contra crianças e adolescentes. Porto Alegre: Artmed, 2011.

DIAS, Maria Berenice. Incesto e alienação parental. 2. ed. São Paulo: RT, 2010.

DOBKE, Veleda. Abuso sexual: a inquirição das crianças uma abordagem interdisciplinar. Porto Alegre: Ricardo Lenz Editor, 2001.

DUARTE, Luciana da Silva. Enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes. Departamento de Polícia Rodoviária Federal. 2009.

ESTEFAM, André. Crimes sexuais. São Paulo: Saraiva, 2009.

GUERRA, Viviane Nogueira de Azevedo. Violência de pais contra filhos: a tragédia revisitada. 3.ed. São Paulo: Cortez, 1998.

HAZEU, Marcel. Direitos sexuais da criança e adolescente: uma visão interdisciplinar para o enfretamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. Movimento República de Emaús, Belém: Sagrada família, 2004.

KAMINSKI, André Karst. O Conselho Tutela, a criança e o ato infracional: proteção ou punição. Canoas: Ulbra, 2002.

LEAL, Maria Lúcia Pinto. Globalização e exploração sexual comercial de crianças e adolescentes. Rio de Janeiro: Save the Children, 2003.

MOREIRA, Ana Selma. Pedofilia: aspectos jurídicos e sociais. São Paulo: Cronus,

2010.

NUCCI, Guilherme de Souza. Crimes contra a dignidade sexual. São Paulo: RT,

2011.

NUCRIA (Núcleo de Proteção a Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes). Dicas da Bia Sabida. Policia Civil do Paraná, 2009. (Folder)

RANGEL, Patrícia Calmon. Abuso Sexual Intrafamiliar Recorrente, 2. ed. Curitiba:

Juruá, 2009.

SANDERSON, Christiane. Abuso sexual em crianças. São Paulo: Makron Books,

2005.

42

SITES:

A DEMOCRACIA E A PEDOFILIA. Disponível em:

A EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL DE MENINOS, MENINAS E

ADOLESCENTES NA AMÉRICA LATINA E CARIBE. Disponível em:

Acesso em: 19 fev. 2011.

A EXPLORAÇÃO SEXUAL COMERCIAL DE CRIANÇAS NA LEGISLAÇÃO

BRASILEIRA LACUNAS E RECOMENDAÇÕES. Disponível em:

ABUSO SEXUAL A VIOLÊNCIA COMO DOENÇA. Disponível em:

http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?5. Acesso em: 18 fev.2011.

CARACTERIZAÇÃO DAS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA SEXUAL A PARTIR DA ANÁLISE DOS REGISTROS FEITOS PELA COORDENADORIA GERAL DE MEDICINA LEGAL DE CUIABÁ MT NO ANO DE 2004. Disponível em:

Acesso em: 19 fev. 2011.

CÓDIGO PENAL BRASILEIRO. Disponível em:

CURITIBA. Protocolo da Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente em Situação de risco para a Violência. 3. ed. rev. e atual., 2009. Disponível em:

DIA NACIONAL DE COMBATE AO ABUSO E À EXPLORAÇÃO SEXUAL.

19 fev. 2011.

ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. Disponível em:

HAMAS "CELEBRA" CASAMENTO DE ADULTOS COM CRIANÇAS MENORES DE

casamento-de-adultos-com.html. Acesso em: 18 fev. 2011.

MANUAL DA APAV ENSINA A CONHECER E LIDAR COM A PEDOFILIA.

43

NORMAS TÉCNICAS. Elaboração e Apresentação de Trabalho Acadêmico Científico. Disponível em: http://www.utp.br/legislacao_normas/NormasTecnicas.pdf Acesso em: 19 fev. 2011.

PEDOFILIA. Disponível em: http://www.peritocriminal.com.br/pedofilia.htm. Acesso em: 18 fev. 2011.

PEDOFILIA E TRÁFICO DE MENORES PELA INTERNET: o lado negro da web.

Disponível em: http://www.cnj.jus.br/dpj/cji/handle/26501/1842. Acesso em: 18 fev.

2011.

PEQUENA HISTÓRIA DA VIOLÊNCIA SEXUAL. Disponível em:

2011.

PROTEGER PARA EDUCAR: a escola articulada com as redes de proteção de crianças e adolescentes. Disponível em:

VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA A CRIANÇA NO MEIO INTRAFAMILIAR ATENDIDOS NO SAMVVIS DE TERESINA, PI. Disponível em:

20 ANOS DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE APONTA

ANIQUIDADES E VIOLÊNCIA COMO GRANDES DESAFIOS DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA. Disponível em: http://www.drraul.com.br/causas/crianca/20-anos-