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EM BUSCA DA MEMÓRIA – Eric Kandel. São Paulo, Companhia das Letras. 2009.

Tradução de Rejane Rubino.

Resenhado por João de Fernandes Teixeira

Publicado também em www.filosofiadamente.org

Existe hoje em dia uma pergunta insidiosa que não parece poder ser calada tão
cedo: será nossa consciência apenas um produto do cérebro? De nossos genes?
Essa é uma questão que tem longa história. Na filosofia da mente contemporânea
ela aparece sob a forma de um debate acerca da validade do reducionismo. Reduzir,
nesse caso, é rastrear uma determinada função cognitiva a algum tipo de mecanismo
cerebral. O reducionismo tem sido a ideologia espontânea dos neurocientistas,
sobretudo após o desenvolvimento das novas técnicas de neuroimagem e de
eletrofisiologia do neurônio. São essas técnicas que permitem fazer os novos mapas do
cérebro e localizar neles onde se manifesta a mente.
É com uma proposta desse tipo que Eric Kandel (prêmio Nobel de fisiologia ou
medicina em 2002) abre seu livro Em busca da memória, recentemente traduzido para o
português. Numa prosa agradável, ele nos relata a evolução da neurociência nos últimos
150 anos, começando com as descobertas de Galvani, de Ramón y Cajal (o neurônio)
até chegar às suas próprias pesquisas. Kandel conta, então, como conseguiu, após anos
de investigação, correlacionar os movimentos da Aplysia (um tipo de lesma marinha)
com suas bases neuronais e moleculares. O movimento de que ele nos fala é o de retrair
as guelras, que é correlacionado com mecanismos cerebrais e moleculares desse
pequeno animal.
Encontrar um caminho cerebral para esse movimento da Aplysia consumiu boa
parte da vida desse pesquisador. Ele nos fala da adoção do “método reducionista” nas
suas pesquisas, algo que nada mais é do que o que se chama em ciência cognitiva de
estratégia top down: começar pela identificação de um comportamento ou uma função
cognitiva e ir, numa ordem descendente, em direção a seus correlatos neurais,
bioquímicos, moleculares e genéticos. O pressuposto é o de que animais simples como a
Aplysia podem servir de modelo para organismos mais complexos como os seres
humanos.
O “método reducionista” nada mais é do que o que os filósofos da mente
chamam, pura e simplesmente, de reducionismo. Mas Kandel não nos fala
explicitamente de reducionismo. Mesmo assim, isso não passa despercebido para um
leitor com alguma formação filosófica. Seria interessante perguntar por que Kandel não
reconhece o peso de suas posições filosóficas, uma vez que em um dos capítulos do
livro discute e mostra conhecimento sobre as posições de vários filósofos da mente.
Talvez isso ocorra pelo fato de o autor declarar, nas suas páginas de tom
autobiográfico, que queria, originalmente, ser um psicanalista. Há um grande contraste
entre passagens nitidamente reducionistas, como, quando ele nos fala da existência de
um gene da sociabilidade e outras nas quais ele se preocupa em saber como as
psicoterapias podem alterar o psiquismo e o comportamento das pessoas. A saída é
admitir que terapias pela fala podem modificar o cérebro, da mesma maneira que
medicações psiquiátricas.
Em busca da memória é um livro instigante e de leitura agradável.
Estrategicamente Kandel mistura a narrativa autobiográfica com a exposição de temas
centrais da neurociência. Essa tem sido uma estratégia muito adotada pelos autores de
livros de ciência destinados a um público mais amplo; uma estratégia que, diga-se de
passagem, é de inspiração cartesiana.
A inquietação que surge após a leitura desse texto origina-se, sem dúvida, de
nossa relutância em aceitar a possibilidade de que sejamos apenas um pacote de genes.
Isso pode causar profundo mal-estar. Richard Dawkins, no seu livro O gene egoísta já
anunciava que não somos nada além de portadores e reprodutores de genes. Dessa
perspectiva, o sujeito, o “eu” que nos acompanha é apenas uma ilusão. Psicólogos,
psicanalistas e humanistas em geral não gostam nem querem ouvir isso. Para eles, o
mental nunca poderia ser apenas um subproduto do cérebro.
Mas, e se for? Será que já não está na hora de reconhecermos essa possibilidade
e a levarmos em conta nas nossas discussões sobre sujeito, moral e liberdade? Não será
a liberdade verdadeira aquela que sabe o que a condiciona?