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O Porquê dos Nossos Sentimentos

(II)
Argos de Arruda Pinto

O meu artigo em uma edição anterior desta revista, “O Porquê dos nossos
Sentimentos - I ” representou uma sugestão sobre o papel dos sentimentos e
emoções na Teoria da Evolução de Darwin. É um texto de Neurociência onde eu
sugiro a razão pela qual sentimentos e emoções existem em nossos cérebros.

Dúvidas surgiram em vários leitores e por isto senti a necessidade de


desenvolver um pouco o assunto.

Para começar, temos que entender que existe uma ordem aparente na evolução
animal, uma escala crescente em complexidade nos seres vivos do nosso
planeta. De seres unicelulares povoando diversos hábitats terrestres, até nós
humanos, passamos pelos insetos, répteis, peixes, aves e todos os mamíferos,
estes últimos menos complexos que nós. A diferença entre nós e os outros
mamíferos se refere àquilo que é o sistema mais complexo conhecido: o nosso
cérebro. Em termos somáticos, e até certo ponto no sistema nervoso, somos
muito parecidos com eles, do ponto de vista da morfologia, da genética e da
bioquímica. É importante lembrar que esta escala não representa
necessariamente uma ordem crescente em complexidade na história evolutiva
de cada grupo em relação aos outros. Por exemplo, uma ave é mais complexa
que um inseto mas este pode ser mais novo como espécie. Pode até ocorrer uma
diminuição da complexidade ao longo da evolução de uma espécie. O
neurofisiologista Rodolfo Llinás, em seu notável livro "I of the Vortex", relata a
existência de um invertebrado marítimo que, ao passar da forma larval, que se
move livremente na água, para uma forma afixada permanente, como uma ostra,
digere o seu próprio cérebro, provavelmente por não precisar mais de tanta
complexidade.

Atualmente é aceito sem dúvidas que a origem das espécies novas está baseada
no fato de que os seres evoluem, ou seja, se modificam, se adaptam à mudanças
no ambiente, etc. Assim, o chamado "modelo padrão" da biologia se consolidou
através do casamento entre as descobertas da biologia molecular, da genética e
da teoria da evolução. Pode ser argumentado, portanto, que isso se aplica a
todos os aspectos da nossa biologia, inclusive as bases para os nossos mais
complexos comportamentos e emoções.

A evolução biológica se manifesta através de mudanças permanentes


(codificadas genéticamente) na forma e função das células, tecidos e órgãos dos
seres vivos, Entretanto, o que interessa para nós aqui, é que desde os tempos de
Darwin, mas especialmente como resultado do trabalho pioneiro de etólogos
animais na década dos 30s, tais como Konrad Lorenz, sabemos que o
comportamento dos animais também está sujeito a pressões seletivas e
adaptativas. O comportamento "surgiu" na Terra há muito tempo. Por exemplo,
um ser unicelular, como uma ameba reage se afastando de um estímulo negativo
ou se aproximando de um estímulo positivo para sobreviver. Comportamentos
simples, como tropismos deste tipo, existem provavelmente há centenas de
milhões de anos, e podem ser encontrados até mesmo em organismos que não
têm sistemas nervosos, como plantas. Entretanto, a seleção natural pressionou
pelo surgimento de comportamentos cada vez mais complexos e avançados,
levando à evolução dos órgãos sensoriais, músculos e redes neurais
especializadas. Para o comportamento aplica-se a mesma coisa que para outros
traços dos organismos: quanto maior for a gama de comportamentos exibidos
por um determinado organismo reagir, sobreviver, maior será a sua chance de se
adaptar adequadamente ao ambiente mutante. Diversidade é a palavra-chave
aqui. Muitos autores sugerem, portanto, que a complexidade cerebral é
essenciamente relacionada à complexidade das estratégias comportamentais
desenvolvidas para a sobrevivência da espécie e os rigores da competição. Por
isso não é difícil de imaginar que, como os organismo precisam adquirir e
processar uma maior quantidade de informações a respeito do meio ambiente,
isso exige um sistema nervoso mais complexo.

Eventualmente (e esse era um dos maiores medos de Darwin, como humanista e


religioso), todas as características do cérebro humano, mesmo aquelas
consideradas "superiores" e complexas, como linguagem, pensamento, lógica,
sentimentos, etc., podem ser inteiramente explicadas pelos efeitos da seleção
natural na evolução. Alguns autores, como Richard Dawkins, chegam ao extremo
se sugerir que a característica essencial de todos as formas vivas é
simplesmente preservar a sobrevivência dos genes (veja o seu livro "O Gene
Egoísta").

No meu primeiro artigo citei o exemplo do "elo de ligação" que aparece entre
pais e filhos, através de sentimentos como afeto, amor, etc., sem os quais
ninguém sobreviveria neste planeta logo após o nascimento. Entretanto, em
muitas situações, o instinto de proteger os filhotes entra em conflito com os
instintos de sobrevivência. Primeiro, um genitor precisa, entre outras coisas,
saber quem são seus filhos, saber o que fazer para protegê-los e a si próprios.
Neste ponto o cérebro, com seu lado racional, passa a ser tão importante quanto
o lado emocional. Além disso: reações como a agressividade contra predadores,
e comportamentos e sentimentos de defesa em relação ao bem estar do grupo
social como um todo, podem tomar uma precedência em relação aos próprios
cuidados com a prole, devido à necessidade de perpetuar a espécie. Podemos
observar isto em primatas não humanos, tais como chimpanzés, em que o
infanticídio é muito comum e é relacionado às bases instintivas desses tipos de
defesas.

Isso não acontece com os seres humanos, entretanto. Devido à evolução cultural,
a base emocional e instintiva pode ser inteiramente modificada através da razão.
Por exemplo, uma mãe pode preferir sacrificar a própria vida para salvar a do seu
bebê. Ou a sobrevivência do grupo social pode ser ameaçada com base em
razões puramente racionais (como na guerra). "Saber" é racional; "sentir" é
emocional; e aí estão os dois pilares cerebrais de que falei no primeiro artigo:
somos seres racionais e emocionais e não só racionais. Essas duas esferas estão
unificadas e não podem ser separadas, como foi explicado de forma muito bonita
pelo neurologista Antonio Damasio, em seu livro "O Erro de Descartes". Citando
a falta completa de emoções em personalidades sociopáticas, e as alterações de
personalidade em pacientes lesados em certas áreas frontais do cérebro, tal
como no caso histório de Phineas Gage, Damasio explica que o erro de René
Descartes foi supor que há uma separação entre o racional e o irracional
(emoções, sentimentos), e que ser supremamente racional seria a melhor coisa
para a humanidade. Não é verdade: sem emoção, a racionalidade perde um
componente importante e se torna patológica!

Em conclusão, podemos dizer que a natureza encontrou um caminho para


resolver o problema dos seres vivos que possuem uma prole dependente dos
pais durante o período de amadurecimento. As estratégias comportamentais que
surgiram após milhões de anos da evolução dos hominídeos e de seleção sexual
envolvem uma complexa mistura de razão e emoções. Esta provavelmente é a
base da nossa singularidade entre todas as espécies .

O Autor
Argos de Arruda Pinto

Físico
Santa Rita do Passa Quatro-SP – E-mail: argos@linkway.com.br.
Publicado em 30.Jun.2002
Copyright 2002 Universidade Estadual de Campinas
Revista Cérebro & Mente
Uma Iniciativa: Núcleo de Informática Biomédica