Sunteți pe pagina 1din 13

CLÁSSICOS LIBERAIS – BANCO DE IDÉIAS Nº 40

A REBELIÃO DAS MASSAS


José Ortega y Gasset
por Roberto Fendt

I. O ADVENTO DAS AGLOMERAÇÕES

Há um fato que, para bem ou para mal, é o mais importante na vida pública européia
atual: a ascensão das massas ao completo poder social. Como as massas, por definição,
não são capazes de dirigir sua própria existência, e menos ainda dirigir a sociedade, esse
fato implica que atualmente a Europa está sofrendo a crise mais grave que pode
acometer aos povos, nações e culturas. Seu nome é a rebelião das massas.
É preciso distinguir massa de multidão, conceito visual. A multidão é conceito
quantitativo e visual. Já a sociedade é uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e
massas. Minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados, que
estão sempre a superar-se; a massa é o conjunto de pessoas não qualificadas, a que
podemos denominar “homem médio”.
Passa-se assim de uma quantidade – a multidão – a uma definição qualitativa: é a
qualidade comum aos homens que não se diferenciam uns dos outros, mas que
caracteriza sim um tipo genérico. É quem não se valoriza; que se sente “como todo o
mundo” e que se sente bem sentindo-se idêntico aos demais.
É característico do nosso tempo o predomínio da massa e do vulgar. Mesmo na vida
intelectual, que por sua própria essência requer a qualificação, nota-se o triunfo dos
pseudo-intelectuais desqualificados. Ora, há atividades na sociedade que requerem
minorias com qualificações especiais para seu bom desempenho. Contudo, o fato novo é
que a massa passou também a executar essas atividades.
A velha democracia combinava liberalismo e entusiasmo pela lei. As minorias podiam
atuar e viver ao amparo do princípio liberal e da norma jurídica. Hoje triunfou uma
democracia hipertrofiada, em que a massa atua diretamente sem lei, por meio de
pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos. A massa atropela tudo que é
diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto. Quem não é como todo o mundo, quem
não pensa como todo o mundo corre o risco de ser eliminado. E agora, todo o mundo é só
a massa.

II. O AUMENTO DO NÍVEL HISTÓRICO

No século XVIII, certas minorias descobriram que todo indivíduo, pelo mero fato de
nascer, possuía certos direitos políticos fundamentais – os chamados direitos do homem
e do cidadão – e que estes direitos comuns a todos eram os únicos existentes. Não
obstante, durante todo o século XIX a massa, que ia se entusiasmando com a idéia
desses direitos como um ideal, não os exercia e continuava sentindo-se como no antigo
regime. O “povo” já sabia que era soberano, mas não acreditava nisso. Hoje, aquele ideal
converteu-se numa realidade, inclusive quando esmaga e tritura as instituições onde se
apoiavam aqueles direitos.
A soberania do indivíduo sem qualificação, do indivíduo genérico, passou, de ideal
jurídico, a um estado psicológico do homem médio. Os direitos niveladores da generosa
inspiração democrática converteram-se, de aspirações de ideais, em desejos de supostos
inconscientes.
Ora, a história de cada época gira em torno do homem médio, que está para a história
como o nível do mar para a geografia. Se o nível médio hoje subiu ao nível anteriormente
da aristocracia, isso quer dizer que o nível da história subiu de repente, numa geração.
Todo o bem, todo o mal do presente e do imediato porvir tem sua causa e sua raiz neste
aumento geral do nível histórico.

III. O NÍVEL DOS TEMPOS

Nosso tempo não é percebido como definitivo; ao contrário, se intui que não há tempos
definitivos e seguros, e que é uma obsessão inverossímil a pretensão de que a “cultura
moderna” seja definitiva. Contudo, admite-se que o progresso continuará pelo caminho
até aqui trilhado.
Muitos autores contemporâneos privilegiam em suas obras a idéia de decadência.
Sentimo-nos decadentes. É um erro que provém de muitas causas, a mais óbvia das
quais é a de que, presos a uma ideologia, em minha opinião perigosa, eles olham na
história só a política ou a cultura, e não percebem que esses aspectos são apenas a
superfície da história; que a realidade histórica é um puro afã de viver.
Suas vidas sentem-se, entretanto, maiores que todas as vidas anteriores. Como
poderão sentir-se decadentes? A massa, ao sentir-se mais viva, perdeu todo o respeito
pelo passado. Pela primeira vez nos encontramos com uma época que não reconhece,
em nenhum passado, um possível modelo. E sendo herdeira de tantos séculos de
evolução, comporta-se, não obstante, como um começo, uma alvorada. Olhamos para
trás e o Renascimento nos parece provinciano, de mau gosto.
Qual é, portanto, o nível de nosso tempo? Nossa época acredita ser mais que as
demais, e ao mesmo tempo sente-se como um começo, sem estar segura de si. Que
expressão escolheremos? Talvez mais que os demais tempos e inferior a si mesma.
Fortíssima e ao mesmo tempo insegura de seu destino. Orgulhosa de suas forças e ao
mesmo tempo temendo-as.

IV. O AUMENTO DA VIDA

O império das massas e o nível do tempo que ele anuncia são sintomas de que o
mundo cresceu de repente, e com ele e nele aumentou a vida. O mundo cresceu
espacialmente e temporalmente. Mais que isso, o mundo passou também a incluir mais
coisas, que se pode desejar.
Vivemos e nos encontramos em um ambiente de possibilidades determinadas. Esse
ambiente chama-se “circunstâncias”. Toda vida encontra-se dentro da sua “circunstância”,
de seu mundo – o repertório de nossas possibilidades vitais. Representa o que podemos
ser; nossa potencialidade vital que precisa atualizar-se para realizar-se. Por isso o mundo
nos parece uma coisa tão grande e nós uma coisa tão pequena. O mundo, ou nossa vida
possível, é sempre maior que nosso destino ou vida efetiva. E a vida do homem, na
dimensão de potencialidade, tem hoje um âmbito de possibilidades maior que nunca; tudo
isso forma em sua mente a impressão de enorme prepotência.
Não quero dizer com isso que a vida humana seja hoje melhor que em outros tempos.
Não falei da atualidade da vida presente, mas apenas da potencialidade de seu
crescimento quantitativo. Falei apenas que o homem atual se sente com maior
potencialidade que nunca e que todo o passado lhe parece pequeno. O problema de
nosso tempo é que, caso se sentisse decadente, veria outras épocas como superiores.
Nosso tempo teria ideais claros e firmes, ainda que fosse incapaz de realizá-los. Mas na
verdade ocorre o oposto: vivemos em um tempo que se sente capaz de realizar mais que
no passado, mas que não sabe o que realizar; que domina tudo, mas que não é dono de
si mesmo; e que se sente perdido em sua própria abundância.
Daí essa estranha dualidade de prepotência e insegurança que se observa na alma
contemporânea. De tanto nos parecer tudo possível, pressentimos hoje que o pior – o
retrocesso, a barbárie, a decadência – é possível.
A segurança das épocas de plenitude é uma ilusão de ótica que leva à
despreocupação com o futuro, deixando-o a cargo da mecânica do universo. Tanto o
liberalismo utilitarista como o socialismo de Marx supõem que o futuro desejado se
realizará, inexoravelmente.
Protegido de sua própria consciência por essa idéia, o progressista não se preocupa
com o futuro; está certo de que o mundo prosseguirá em linha reta, sem desvios nem
retrocessos.
Não é de estranhar que hoje o mundo pareça vazio de projetos e ideais. Ninguém se
preocupou com eles. Tal tem sido a deserção das minorias dirigentes que se acha sempre
na contramão da rebelião das massas.

V. UM DADO ESTATÍSTICO

Eis o resumo da primeira parte do diagnóstico de nosso tempo: nossa vida, como
conjunto de possibilidades, é magnífica, exuberante, superior a todas as historicamente
conhecidas. Mas assim como seu formato é maior, ela extravasou todos os princípios,
normas e ideais legados pela tradição. É mais vida, mais problemática. Não pode orientar-
se pelo passado. Tem de inventar seu próprio destino.
Completemos agora o diagnóstico. A vida, que é, antes de tudo, o que podemos ser –
a vida possível – é também, por isso mesmo, decisão entre as possibilidades do que
vamos ser.
Circunstâncias e decisão são os dois elementos fundamentais de que se compõe a
vida. A circunstância – as possibilidades – é o que nos é dado e imposto em nossa vida: o
mundo. A vida não escolhe seu mundo, mas viver é encontrar-se em um mundo
determinado e insubstituível: o atual. Mas em vez de impor-nos uma trajetória, impõe-nos
várias e nos força a escolher.
Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser
neste mundo. Na vida não “decidem as circunstâncias”. As circunstâncias são o dilema,
sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso caráter.
Tudo isto vale também para a vida coletiva. Também nela há um horizonte de
possibilidades e uma decisão que escolhe e decide o modo efetivo da existência coletiva.
Esta decisão emana do caráter que a sociedade tem, isto é, do tipo de homem dominante
nela. Em nosso tempo, domina o homem-massa; é ele quem decide.
O poder público acha-se em mãos de um representante de massas. E o poder público,
o governo, vive no dia-a-dia, sem projeto. Por isso sua atuação se reduz a evitar o conflito
de cada hora; não a resolvê-lo, mas a escapar dele, por todos os meios, ainda que à
custa de criar maiores conflitos no momento seguinte.
Assim tem sido o poder público exercido pelas massas: onipotente e efêmero. O
homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e caminha ao acaso. Por isso não
constrói nada, ainda que suas possibilidades, seus poderes, sejam enormes. E este tipo
de homem decide em nosso tempo.
Em vista disso, cabe perguntar: de onde vieram todas estas multidões que agora
enchem e transbordam o cenário histórico?
O dado principal é o seguinte: desde que no século VI começa a história européia, até
o ano 1800, a população da Europa não chega a 180 milhões de habitantes. Pois bem: de
1800 a 1914 – portanto, em pouco mais de um século – a população européia salta de
180 para 460 milhões! Não é, contudo, só o aumento de população o que me interessa,
mas a velocidade do crescimento, cujo ritmo impõe que não seja fácil saturá-la da cultura
tradicional.
Nas escolas que tanto orgulhavam o século passado podia-se ensinar às massas as
técnicas da vida moderna, mas não era possível educá-las. Faltou a sensibilidade para os
grandes deveres históricos; faltou o espírito.
Coube, pois, ao século passado a glória e a responsabilidade de haver soltado na
história as grandes multidões. Segue-se daí que, primeiro, a democracia liberal fundada
na criação técnica é o tipo superior de vida pública até agora conhecido; segundo, que
esse tipo de vida não será o melhor imaginável, mas o que imaginemos melhor terá de
conservar o essencial daqueles princípios; terceiro, que é suicida todo retorno a formas de
vida inferiores à do século XIX.
Mas o século XIX também criou uma casta de homens – os homens-massa rebeldes –
que põem em risco os princípios a que deveram a vida. Se esse tipo humano continua
dono da Europa e é quem decide, em trinta anos nosso continente retrocederá à barbárie.
As técnicas jurídicas e materiais se volatilizarão com a mesma facilidade com que se
perderam tantas vezes segredos de fabricação. A vida toda se contrairá. A atual
abundância de possibilidades se converterá em escassez, em verdadeira decadência.
Porque a rebelião das massas é uma e mesma coisa o que Rathenau chamava “a
invasão vertical dos bárbaros”.

VI. COMEÇA A DISSECAÇÃO DO HOMEM-MASSA

Antes do século XIX, jamais o homem esteve numa circunstância semelhante à que as
condições atuais determinam. Três princípios tornaram possível esse novo mundo: a
democracia liberal, a experimentação científica e o industrialismo. Os dois últimos podem
resumir-se em um: a técnica.
O século XIX foi revolucionário por colocar o homem médio – a grande massa social –
em condições de vida radicalmente opostas às que sempre tivera. A revolução não é a
sublevação contra a ordem preexistente, mas a implantação de uma nova ordem que
suplanta a tradicional. Por isso não há exagero em dizer que o homem criado pelo século
XIX é, para os efeitos da vida pública, um homem à parte de todos os demais.
Para o “vulgo” de todas as épocas, “vida” sempre significou limitação, obrigação,
dependência; numa palavra, opressão. O mundo em que o homem novo está desde o
nascimento não o limita em nenhum sentido. Porque o homem vulgar, ao encontrar-se
com esse mundo técnica e socialmente tão perfeito, crê que a natureza o criou, e não
pensa nunca nos esforços geniais de indivíduos excelentes que o criaram.
Isto nos leva a apontar dois primeiros traços no homem-massa atual: a livre expansão
de seus desejos vitais e a radical ingratidão com relação a tudo que tornou possível a
facilidade de sua existência. O homem médio de outras épocas recebia do seu mundo
esta sabedoria elementar, porque era um mundo organizado toscamente, onde as
catástrofes eram freqüentes e não havia nele nada seguro, abundante ou estável. Mas as
novas massas encontram uma paisagem cheia de possibilidades e segura, e tudo isso à
sua disposição, sem depender de seu prévio esforço.
Minha tese é, portanto, esta: a própria perfeição com que o século XIX deu uma
organização a certas ordens da vida é origem para que as massas beneficiárias não a
considerem como organização, mas como natureza. Exigem da civilização seus
benefícios como se fossem direitos naturais. Nos motins que a escassez provoca as
massas populares buscam o pão, mas o meio que empregam é destruir as padarias. Isto
pode servir como símbolo do comportamento que, em proporções mais vastas e sutis, as
massas atuais usam ante a civilização que as nutre.

VII. VIDA NOBRE E VIDA VULGAR, OU ESFORÇO E INÉRCIA

Se no passado viver significava, para o homem médio, dificuldades, perigos, escassez,


limitações de destino e dependência, o mundo novo aparece como um âmbito de
possibilidades praticamente ilimitadas, onde não se depende de ninguém.
Distinguimos anteriormente o homem excelente do homem vulgar afirmando que
aquele é o que exige muito de si mesmo, e este, o que não exige nada; que se contenta
com o que é e que está satisfeito consigo mesmo. Para aquele, a vida consiste em servir
a algo transcendente: a vida nobre é disciplina. A nobreza define-se pela exigência, pelas
obrigações, não pelos direitos. Contrariamente, os direitos comuns, como são os “do
homem e do cidadão”, são propriedade passiva, puro usufruto e benefício tão generoso
do destino que é propriedade de todos os homens e que não corresponde a esforço
algum.
Pois “nobreza” é algo dinâmico. Nobre é o que se deu a conhecer sobressaindo da
massa anônima, por um esforço insólito que motivou a fama. Nobre, portanto, equivale a
excelente, e nobreza é sinônimo de vida esforçada, a transcender do que já é para o que
se propõe como dever e exigência. Por isso, a vida nobre se contrapõe à vida vulgar e
inerte, que se retrai em si mesma, condenada à perpétua imanência, a menos que uma
força exterior a obrigue a sair de si.
O mundo organizado pelo século XIX, ao criar um homem novo, criou também nele
formidáveis desejos e poderosos meios para satisfazê-los. Mas o abandonou a si mesmo.
E então o homem médio, seguindo sua índole natural, fechou-se dentro de si. Desta
forma, a massa é ao mesmo tempo a mais forte da história e hermética em si mesma,
incapaz de atender a nada nem a ninguém, indócil. Por isso o homem-massa que
aprendeu a usar os equipamentos da civilização ignora os princípios dessa civilização e
não poderá governá-la.
Reitero ao leitor a conveniência de não atribuir ao que disse um significado político. A
atividade política, que é de toda a vida pública a mais visível, resulta de outras, mais
íntimas e impalpáveis. Portanto, a indocilidade política não seria grave se não proviesse
de uma indocilidade intelectual e moral mais profunda e decisiva. Por isso, enquanto não
tivermos analisado esta, faltará a última clareza ao teorema deste ensaio.

VIII. POR QUE AS MASSAS INTERVÊM EM TUDO E POR QUE SÓ INTERVÊM


VIOLENTAMENTE

Hoje o homem médio tem “idéias” taxativas sobre qualquer assunto. E recusa-se a
escutar. Para que ouvir, se já tem dentro de si o que necessita? Não há questão de vida
pública em que não intervenha, cego e surdo como é, impondo suas “opiniões”.
O problema é que as “idéias” do homem médio não são propriamente idéias, nem a
posse delas é cultura. A idéia é um xeque-mate à verdade, e quem quiser ter idéias
precisa dispor-se a querer a verdade; precisa admitir uma série de normas para regular
uma discussão. Estas normas são os princípios da cultura; não há cultura onde não há
normas, onde não se acatam certas posições intelectuais últimas a que referir-se na
disputa.
A barbárie é a ausência dessas normas, a ausência da cultura. E é isto o que começa
a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas. Não há normas bárbaras
propriamente ditas, já que a barbárie é ausência de norma e de possível apelação.
O sindicalismo e o fascismo servem de exemplos. Sob essas formas aparece pela
primeira vez na Europa um tipo de homem que não quer dar razões nem quer ter razão,
mas que, simplesmente, decide impor suas opiniões. Eis aqui o novo: o direito a não ter
razão, a razão da sem-razão. Eu vejo nisso a manifestação mais palpável do novo modo
de ser das massas. Em sua conduta política revela-se a estrutura da alma nova da
maneira mais crua e contundente, mas a chave está no hermetismo intelectual. O homem
médio encontra-se com “ideais” dentro de si, mas carece da capacidade de idear. Quer
opinar, mas não quer aceitar as condições e pressupostos para opinar.
O homem-massa não aceita a discussão e instintivamente repudia qualquer norma
externa que a regule. Por isso, o “novo” na Europa é “acabar com as discussões” e com
toda forma de convivência que implique acatar normas objetivas, desde a conversação
até o Parlamento, passando pela ciência. Renuncia-se à convivência de cultura, que é
uma convivência sob normas, e retrocede-se a uma convivência bárbara.
Quando se reconstruir a gênese de nosso tempo se notará que as primeiras notas de
sua peculiar melodia soaram naqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta
de 1900, inventores da expressão “ação direta”, o impor a vontade pela violência –
ignorando que civilização é vontade de convivência, o oposto da barbárie, que tende à
dissociação.
A forma que na política representou a mais alta vontade de convivência é a democracia
liberal. Ela leva ao extremo a vontade de contar com o próximo, e é o protótipo da “ação
indireta”.
O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o poder público, não
obstante ser onipotente, se autolimita e busca deixar espaço no Estado que ele impera
para que possam viver os que nem pensam nem sentem como ele, quer dizer, como os
mais fortes, como a maioria. O liberalismo é a suprema generosidade: é o direito que a
maioria outorga à minoria e o mais nobre grito que soou no planeta. Proclama a decisão
de conviver com o inimigo; mais ainda, com o inimigo débil. Mas cada vez mais se torna
difícil essa convivência. A massa não deseja a convivência com o que não é ela. Odeia de
morte o que não é ela.

IX. PRIMITIVISMO E TÉCNICA

A rebelião das massas pode dar lugar a uma nova e única organização da
humanidade, mas também pode ser uma catástrofe para o destino humano. Porque, se
não há razão para negar a realidade do progresso, é também preciso corrigir a noção que
crê seguro este progresso. Tudo é possível na história, e não há nenhum progresso
seguro sem a ameaça de involução e retrocesso.
Apoderou-se da direção social um tipo de homem a quem não interessam os princípios
da civilização. O homem hoje dominante é um primitivo, emergindo em meio a um mundo
civilizado. O civilizado é o mundo, seu habitante não o é: nem sequer vê nele a
civilização, mas usa dela como se fosse natureza.
A toda hora se fala hoje dos progressos fabulosos da técnica. O próprio Spengler
parece-me neste ponto demasiado otimista. Pois crê que à “cultura” vai suceder uma
época de “civilização”, sob a qual entende, sobretudo, a técnica. Spengler crê que a
técnica pode continuar vivendo quando morreu o interesse pelos princípios da cultura.
Não posso crer em tal coisa. A técnica é consubstancialmente ciência, e a ciência não
existe se não interessa em sua pureza e por ela mesma, e não pode interessar se as
pessoas não continuam entusiasmadas com os princípios gerais da cultura. Vive-se com
a técnica, mas não da técnica. Esta não é causa de si mesma, mas precipitado útil,
prático, de preocupações supérfluas, não práticas.
Resumi a fisionomia novíssima da vida implantada pelo século XIX em só duas feições:
democracia liberal e técnica, por considerar que o tecnicismo é um dos traços
característicos da “cultura moderna”. Mas repito que surpreende a frivolidade com que ao
falar da técnica se esquece que sua víscera cordial é a ciência pura; e que as condições
de sua perpetuação englobam as que tornam possível o puro exercício científico.
Para que perdure o homem experimental se requer um conjunto de condições que
apóie o caráter supervolátil, evaporante, da inspiração científica.
Por que o homem médio, espontaneamente, não tem fervor superlativo pela ciência?
Porque a ciência empírica a cada dia produz um novo invento, que esse homem médio
utiliza. Pode imanar-se propaganda mais formidável e contundente em favor de um
princípio vital?
Longe disso, o pós-guerra converteu o homem de ciência – físicos, químicos, biólogos
– no novo pária social. Observe-se que não me refiro aos filósofos. A filosofia não
necessita de proteção, atenção ou simpatia da massa. Sabe que é por essência
problemática, sem pedir a ninguém que conte com ela ou a defenda. Se alguém de boa
mente a aproveita para algo, regozija-se por simples simpatia humana. Como vai
pretender que alguém a leve a sério, se ela começa por duvidar de sua própria existência,
se não vive mais que na medida em que se combata a si mesma, em que se desvive a si
mesma? Deixemos, pois, de lado a filosofia, que é aventureira de outro nível.

X. PRIMITIVISMO E HISTÓRIA

A civilização, quanto mais avança, torna-se tanto mais complexa e mais difícil. Cada
vez é menor o número de pessoas cuja mente está à altura desses problemas. Não é que
faltem meios para a solução deles. Faltam cabeças.
Civilização avançada é sinônimo de problemas árduos, porque a vida é cada vez
melhor e mais complicada. É claro que ao complicarem-se os problemas, vão-se
aperfeiçoando também os meios para resolvê-los. Mas é mister que cada nova geração
se torne senhora desses meios adiantados. Entre estes está a história.
O saber histórico é uma técnica de primeira ordem para conservar e continuar uma
civilização provecta. Não porque dê soluções aos conflitos, mas porque evita cometer os
erros ingênuos de outros tempos. As pessoas mais “cultas” de hoje padecem uma
ignorância histórica incrível. O europeu dirigente de hoje sabe muito menos história que o
homem do século XVIII e mesmo do XVII. Aquele saber histórico das minorias
governantes tornou possível o avanço prodigioso do século XIX, a despeito de que nesse
século XIX já se começou a perder “cultura histórica”. A este abandono se devem em boa
parte seus peculiares erros, que hoje gravitam sobre nós. Em seu último terço iniciou-se a
involução, o retrocesso à barbárie; isto é, a involução à ingenuidade e primitivismo de
quem não tem ou esquece seu passado.
Por isso são bolchevismo e fascismo, as duas tentativas “novas” de política que na
Europa se estão fazendo, dois claros exemplos de regressão substancial. Movimentos
típicos de homens-massa dirigidos, como todos os que o são, por homens medíocres,
extemporâneos e sem memória extensa, sem “consciência histórica”, comportam-se
desde o início como se houvessem passado já, como se sucedendo nesta hora
pertencessem à fauna de antanho.
O que é anacrônico é que um comunista de 1917 faça uma revolução que é em sua
forma idêntica a todas as anteriores e na qual não se corrigem os mínimos defeitos e
erros das antigas. Por isso não é interessante historicamente o acontecido na Rússia. É,
pelo contrário, uma monótona repetição da revolução de sempre, é o perfeito lugar
comum das revoluções.
Quem aspira criar uma nova realidade social ou política necessita preocupar-se antes
de tudo de que esses mais humildes lugares comuns da experiência histórica fiquem
invalidados pela situação que ele suscita.
O mesmo pode-se dizer do fascismo. Nem um nem outro estão “à altura dos tempos”,
não levam dentro de si resumido todo o passado, condição indispensável para superá-lo.
Um e outro são duas falsas alvoradas; não trazem a manhã do amanhã, mas a de um
arcaico dia, já usado uma ou muitas vezes; são primitivismo.
A Europa não tem remissão se seu destino não é posto nas mãos de pessoas
verdadeiramente “contemporâneas”, que sintam palpitar debaixo de si todo o subsolo
histórico, que conheçam a latitude presente da vida e repugnem toda atitude arcaica e
silvestre. Necessitamos da história íntegra para ver se conseguimos escapar dela, não
recair nela.

XI. A ÉPOCA DO “MOCINHO SATISFEITO”

O homem vulgar decidiu governar o mundo. Este novo tipo de homem-massa tem a
seguinte estrutura psicológica: primeiro, uma impressão radical de que a vida é fácil, sem
trágicas limitações; portanto, cada indivíduo médio possui uma sensação de domínio e
triunfo. Segundo, afirma-se a si mesmo tal qual como é, e considera bom e completo seu
estoque moral e intelectual – fechando-se em si mesmo para toda instância exterior, não
ouve, não questiona suas opiniões e não conta com os demais. Atuará, pois, como se
somente ele e seus congêneres existissem no mundo; terceiro, intervirá em tudo impondo
sua opinião vulgar, sem contemplações nem reservas, segundo o regime de “ação direta”.
Este conjunto de características fez com que pensássemos em certos modos
deficientes de ser homem, como o primitivo rebelde, o bárbaro. Este personagem, que
agora anda por toda parte e onde quer impor sua barbárie íntima, é o herdeiro da
civilização.
Pois bem, a civilização do século XIX permitiu ao homem médio instalar-se em um
mundo abundante, do qual percebe só a superabundância de meios, mas não suas
angústias. Ignora como é difícil inventar esses meios e assegurar para o futuro sua
produção; não percebe como é instável a organização do Estado, e mal sente dentro de si
obrigações. Este desequilíbrio o falsifica, vicia-o em sua raiz de ser vivente, fazendo-o
perder contato com a substância da vida. Assim, a forma mais contraditória que pode
aparecer na vida humana é o “mocinho satisfeito”.
Porque é um homem que faz o que bem entende. O “mocinho” é quem acredita que
pode comportar-se fora de casa como em casa, que acredita que nada é fatal,
irremediável e irrevogável. Por isso acredita que pode fazer o que bem entende. Grande
equívoco!
O “mocinho-satisfeito” se caracteriza por “saber” que certas coisas não podem ser; e,
contudo, e por isso mesmo, fingir por seus atos e palavras que acredita no oposto. O
fascista se oporá à liberdade política precisamente porque sabe que, no fim das contas,
esta não faltará nunca; mas que está aí, irremediavelmente, na substância mesma da vida
européia, e que a ela se retornará sempre que a verdade for necessária, na hora da
seriedade. Porque esta é a tônica da existência no homem-massa: a falta de seriedade.
Brincam de tragédia porque acreditam que não é verossímil a tragédia no mundo
civilizado.
Não podia comportar-se de outra maneira esse tipo de homem nascido no mundo
excessivamente bem organizado, do qual só percebe as vantagens e não os perigos; e
que o não obriga a tomar contato com o fundo inexorável de seu próprio destino.
XII. A BARBÁRIE DO “ESPECIALISMO”

A civilização do século XIX pode resumir-se em duas grandes dimensões: democracia


liberal e técnica. A técnica contemporânea nasce da união do capitalismo com a ciência
experimental. Só a técnica moderna da Europa possui uma raiz científica, e dessa raiz lhe
vem seu caráter específico, a possibilidade de um ilimitado progresso.
Recorde-se que do século VI a 1800 a população da Europa não supera 180 milhões.
Entre 1800 e 1914 ascende a mais de 460 milhões. O salto é único na história humana.
Não há dúvida de que a técnica, junto com a democracia liberal, criou o homem-massa no
sentido quantitativo desta expressão. Mas estas páginas tentaram mostrar que também é
responsável pela existência do homem-massa no sentido qualitativo e pejorativo do
termo.
Por “massa”, é claro, não se entende uma classe social, mas um modo de ser que
surge em todas as classes sociais, que por isso mesmo representa o nosso tempo, sobre
o qual predomina e impera.
Quem exerce o poder social? Quem impõe a estrutura de seu espírito na época? Sem
dúvida, a burguesia. Quem, dentro dessa burguesia, é considerado como a aristocracia
do presente? Sem dúvida, o técnico. Quem, dentro do grupo técnico, a representa com
maior pureza? Sem dúvida, o homem de ciência.
Seria de grande interesse uma história das ciências físicas e biológicas, mostrando o
processo de crescente especialização no trabalho dos pesquisadores. Isso mostraria
como, geração após geração, o campo de ocupação intelectual do cientista tornou-se
cada vez mais estreito – perdendo progressivamente contato com as demais partes da
ciência. Ele conhece apenas determinada ciência, e dela apenas a pequena porção em
que pesquisa.
No entanto, fechado na estreiteza de seu campo consegue fazer avançar a ciência,
que apenas conhece, e com ela a enciclopédia do pensamento, que conscienciosamente
desconhece. Como foi e é possível coisa semelhante? Porque a ciência experimental
progrediu em boa parte graças ao trabalho de homens medíocres. A ciência moderna, raiz
e símbolo da civilização atual, acolheu o homem intelectualmente médio e lhe permitiu
operar com êxito. A razão disso está na mecanização. Uma boa parte das coisas que é
preciso fazer em física e em biologia é tarefa mecânica de pensamento que pode ser
executada por qualquer pessoa. E é possível dividir a ciência em pequenos segmentos. A
firmeza e a exatidão dos métodos permitem esta desarticulação transitória e prática do
saber.
Isso leva o pesquisador a sentir uma impressão de domínio e de segurança, sentindo-
se como “um homem que sabe” – embora o especialista “conheça” muito bem seu mínimo
nicho do universo, ignorando todo o resto.
O especialista não é um sábio, porque ignora o que não faz parte da sua
especialidade; mas não é um ignorante, porque é “um homem de ciência” e conhece
muito bem sua fração do universo.
Ao especializá-lo, a civilização o tornou hermético e satisfeito dentro de sua limitação;
mas essa mesma sensação íntima de domínio o levará a querer predominar fora de sua
especialidade. Em política, em arte, nos usos sociais e nas outras ciências tomará, com
energia e suficiência, posições da maior ignorância. E, embora tenha o máximo de
qualificação e, portanto, seja o oposto do homem-massa, se comportará como homem-
massa em quase todas as esferas da vida.
Em conseqüência, hoje, quando há um número maior do que nunca de “homens de
ciência”, há muito menos homens “cultos” que, por exemplo, em 1750.
Mas se o especialista desconhece a fisiologia interna da ciência que pratica, também
acredita que a civilização está aí, simplesmente, como fenômeno da natureza.
XIII. O MAIOR PERIGO, O ESTADO

O perigo maior que hoje ameaça a civilização européia também nasceu da civilização.
Mais ainda: constitui uma de suas glórias; é o Estado contemporâneo.
Encontramo-nos aqui também com o mesmo que se disse no capítulo anterior sobre a
ciência: os seus princípios a impulsionam para um fabuloso progresso; mas este impõe
inexoravelmente a especialização, e a especialização ameaça derrotar a ciência. A
mesma coisa acontece com o Estado.
Recorde-se como o Estado era pequeno no fim do século XVIII na Europa. O
capitalismo e suas organizações industriais, onde pela primeira vez triunfa a técnica
racionalizada, produziram um primeiro crescimento da sociedade. Uma nova classe social
emergiu, mais poderosa em número e potência que as anteriores: a burguesia. Esta
burguesia sem mérito possuía, sobretudo, uma coisa: talento prático. Sabia organizar,
disciplinar, dar continuidade e articulação ao esforço. No meio dela, como num oceano,
navegava ao azar a “nave do Estado”. Havia sido criada na Idade Média por uma classe
de homens muito diferentes dos burgueses: os nobres, gente admirável por sua coragem,
por seu dom de mando, por seu sentido de responsabilidade. Mas os nobres não
desenvolveram nenhuma técnica.
Como o Estado é uma técnica de ordem pública e de administração, o “antigo regime”
chega ao fim do século XVIII com um Estado fraquíssimo, contra o qual se revoltava a
sociedade. A desproporção entre o poder do Estado e o poder social é tal nesse momento
que, comparando a situação com a vigente no tempo de Carlos Magno, o Estado do
século XVIII é uma degeneração. O Estado carolíngio era, é claro, muito menos poderoso
que o de Luís XVI, mas, em compensação, a sociedade que o rodeava não tinha força
nenhuma. O enorme desnível entre a força social e a do poder público tornou possível a
Revolução, as revoluções (até 1848).
Mas, com a Revolução, a burguesia apossou-se do poder público e aplicou ao Estado
suas inegáveis virtudes, e em pouco mais de uma geração criou um Estado poderoso,
que acabou com as revoluções.
Desde 1848 não há na Europa verdadeiras revoluções. E não porque não houvesse
motivos para elas, mas porque não havia meios. Nivelou-se o poder público com o poder
social. Só cabe na Europa o contrário, o golpe de Estado.
Em nosso tempo, o Estado chegou a ser essa máquina formidável que funciona com
grande eficiência pela quantidade e precisão dos seus meios. O Estado contemporâneo é
o produto mais visível e notório da civilização.
O homem-massa admira-o, sabe que está aí, garantindo sua vida; mas não tem
consciência de que é uma criação humana criada por certos homens e mantida por certas
virtudes. Por outro lado, o homem-massa vê no Estado um poder anônimo e, como ele se
sente a si mesmo também anônimo, acredita que o Estado é coisa sua. A qualquer
dificuldade, conflito ou problema, o homem-massa exigirá que o Estado se encarregue de
resolvê-lo com seus gigantescos e incontrastáveis meios.
Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatização da vida, o
intervencionismo do Estado, a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado; isto
é, a anulação da espontaneidade histórica, que sustenta, nutre e impulsiona os destinos
humanos. Embora o Estado contemporâneo e a massa coincidam só em ser anônimos, o
homem-massa acredita que ele é o Estado, e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a
qualquer pretexto, esmagando com ele toda minoria criadora que o perturbe: na política,
nas idéias, no empreendedorismo.
O resultado desta tendência será fatal. A espontaneidade social será violentada pela
intervenção do Estado. A sociedade terá de viver para o Estado. E como no final das
contas não é senão uma máquina cuja existência e manutenção dependem da vitalidade
circundante, o Estado, depois de sugar a medula da sociedade, ficará esquelético, morto
com essa morte ferrugenta da máquina, muito mais cadavérica que a do organismo vivo.
É possível perceber o processo paradoxal e trágico do estatismo? A sociedade, para
viver melhor, cria, como um utensílio, o Estado. Depois, o Estado se sobrepõe, e a
sociedade tem de começar a viver para o Estado. A isso conduz o intervencionismo do
Estado: o povo se converte em carne e massa que alimenta o mero artefato e máquina
que é o Estado. O esqueleto come a carne que o rodeia. O andaime se torna proprietário
e inquilino da casa.
Quando se sabe disso, advirta-se que Mussolini apregoa com exemplar petulância,
como um prodigioso descobrimento feito agora na Itália, a fórmula Tudo pelo Estado;
nada fora do Estado; nada contra o Estado. Bastaria isso para descobrir no fascismo um
típico movimento de homens-massa.
O estatismo é a forma superior que tomam a violência e a ação direta constituídas em
normas. Através e por meio do Estado as massas atuam por si mesmas. As nações
européias têm diante de si uma etapa de grande dificuldade em sua vida interior,
problemas econômicos, jurídicos e de ordem pública. Como não temer que sob o império
das massas se encarregue o Estado de esmagar a independência do indivíduo, do grupo,
e extinguir assim definitivamente o futuro?

XIV. QUEM MANDA NO MUNDO?

Sofre hoje o mundo uma grave desmoralização, que entre outros sintomas se
manifesta por uma rebelião das massas, e tem sua origem na desmoralização da Europa.
Suas causas são múltiplas, dentre elas o deslocamento do poder que outrora exercia
sobre o resto do mundo e sobre si mesmo nosso continente. A Europa não está certa de
mandar, nem o resto do mundo de ser mandado. A soberania histórica acha-se em
dispersão.
Não se sabe para que centro de gravitação vão pender as coisas humanas em um
futuro próximo, e por isso a vida do mundo entrega-se a uma escandalosa interinidade.
Tudo hoje é provisório. Acertará quem não confiar em tudo que hoje se apregoa. Tudo
isso passará com mais celeridade do que veio. Tudo, desde a mania do esporte físico (a
mania, não o esporte em si) até a violência em política; desde a “arte nova” até os banhos
de sol nas ridículas praias da moda.
Os europeus não sabem viver se não se lançam numa grande empresa que os una.
Quando esta falta, a alma se envilece.
O que até agora se chamaram nações chegaram há um século ou pouco menos à sua
máxima expansão. Já não se pode fazer nada senão transcendê-las. São apenas
passado que se acumula em torno e debaixo do europeu, aprisionando-o. Com mais
liberdade que nunca, sentimos todos que o ar é irrespirável dentro de cada povo, porque
é um ar confinado. Cada nação que antes era a grande atmosfera aberta, arejada,
transformou-se em província e “interior”. Na supernação européia que imaginamos, a
pluralidade atual não pode nem deve desaparecer. Enquanto o Estado antigo aniquilava o
diferencial dos povos ou o conservava mumificado, a idéia nacional exige a permanência
ativa desse plural que sempre foi a vida do Ocidente.
Todo o mundo percebe a urgência de um novo princípio de vida. Mas alguns ensaiam
salvar o momento por uma intensificação extremada e artificial precisamente do princípio
caduco. Este é o sentido da erupção “nacionalista” nos anos que correm.
Mas todos estes nacionalismos são becos sem saída. Tente-se projetá-los para o
futuro e se sentirá o choque. O nacionalismo é sempre um impulso de direção oposta ao
princípio nacionalizador. É exclusivista, enquanto este é inclusivista.
Só a decisão de construir uma grande nação com o grupo dos povos continentais
tornaria a dar tom à pulsação da Europa. Voltaria ela a crer em si mesma, e
automaticamente a exigir muito de si, a disciplinar-se.
Eu vejo na construção da Europa, como grande Estado nacional, a única empresa que
poderia contrapor-se à vitória do “plano qüinqüenal” bolchevista.
Os técnicos da economia política garantem que essa vitória tem mui escassas
probabilidades de sua parte. Mas seria demasiado vil que o anticomunismo esperasse
tudo das dificuldades materiais encontradas por seu adversário. O fracasso deste
equivaleria à derrota universal: de todos e de tudo, do homem atual. O comunismo é uma
“moral” extravagante. Não parece mais decente e fecundo opor a essa moral eslava uma
nova moral do Ocidente, de um novo programa de vida?

XV. CHEGA-SE À VERDADEIRA QUESTÃO

A Europa ficou sem moral. Não é que o homem-massa menospreze uma moral
antiquada em benefício de outra emergente, mas que o centro de seu regime vital
consiste precisamente na aspiração a viver sem sujeitar-se a moral alguma.
Por essa razão seria uma ingenuidade lançar na cara do homem de hoje sua falta de
moral. A imputação não lhe causaria a menor impressão, ou melhor, o lisonjearia. O
imoralismo chegou a ser tão barato que qualquer um alardeia exercitá-lo.
Se deixarmos de lado tudo o que significa sobrevivências do passado, não se achará
entre todos os que representam a época atual um só cuja atitude ante a vida não se
reduza a crer que tem todos os direitos e nenhuma obrigação. É indiferente que se
mascare de reacionário ou de revolucionário: seu estado de ânimo consistirá em ignorar
toda obrigação e em sentir-se sujeito de ilimitados direitos.
Caso se apresente como reacionário ou antiliberal, será para poder afirmar que a
salvação da pátria, do Estado, dá direito a ignorar todas as outras normas e a massacrar
o próximo, sobretudo se o próximo possui uma personalidade valiosa. Mas a mesma
coisa acontece se for revolucionário: seu aparente entusiasmo pelo operário manual, o
miserável e a justiça social lhe serve de disfarce para poder livrar-se de toda obrigação,
como a cortesia, a veracidade e, sobretudo, o respeito às pessoas qualificadas. Quanto
às outras ditaduras, bem vimos como afagam o homem-massa.
Essa fuga a toda obrigação explica, em parte, o fenômeno, entre ridículo e
escandaloso, de que se tenha feito em nossos dias uma plataforma da “juventude”, como
tal. As pessoas, comicamente, se declaram “jovens” porque ouviram que o jovem tem
mais direitos que obrigações. Sempre o jovem, como tal, considerou-se isento de fazer ou
haver feito façanhas. Sempre viveu de crédito. Isto se acha na natureza do humano. Era
como um falso direito, que os não-jovens concediam aos moços. Mas é surpreendente
que agora estes o tomem como um direito efetivo, precisamente para atribuir-se todos os
demais que pertencem só a quem tenha feito já alguma coisa.
Por isso não cabe enobrecer a crise presente mostrando-a como o conflito entre duas
morais ou civilizações, uma caduca e a outra em ascensão. O homem-massa carece
simplesmente de moral, que é sempre consciência de serviço e obrigação.
Como se pode acreditar na amoralidade da vida? Sem dúvida porque toda a cultura e a
civilização moderna levam a esse convencimento. Agora a Europa colhe as penosas
conseqüências de sua conduta espiritual. Embalou-se sem reservas pelo declive de uma
cultura magnífica, mas sem raízes.
Neste ensaio desejou-se desenhar certo tipo de europeu, analisando, sobretudo, seu
comportamento ante a civilização em que nasceu. Importava fazer assim porque esse
personagem não representa outra civilização que lute com a antiga, mas uma simples
negação, negação que oculta um efetivo parasitismo. O homem-massa está ainda
vivendo precisamente do que nega e outros construíram ou acumularam. Por isso não
convinha perguntar: de que insuficiências radicais padece a cultura européia moderna?
Porque é evidente que, em última instância, delas provém esta forma humana agora
dominante.
Mas essa grande questão tem de permanecer fora destas páginas, porque é
excessiva. Obrigaria a desenvolver com plenitude a doutrina sobre a vida humana que,
como um contraponto, fica entrelaçada, insinuada, murmurada nelas. Talvez possa em
breve ser exaltada.