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Ana Carolina do Carmo Pereira Os desafios de ensinar e aprender Sociologia em tempos de

Ana Carolina do Carmo Pereira

Os desafios de ensinar e aprender Sociologia em tempos de Escola sem Partido e Reforma do Ensino Médio

Docente: Sueli Guadelupe de Lima Mendonça Disciplina: Metodologia de Ensino de Ciências Sociais II

Marília

2017

INTRODUÇÃO

A educação tradicional, ou melhor, a instituição escola, sobretudo no Brasil, é alvo de análises e críticas de profissionais de diversas áreas o conhecimento e não somente profissionais da educação: sociólogos, psicólogos, cientistas políticos, pedagogos, professores, entre outros. É evidente que existe um problema no sistema público educacional brasileiro e, de certa forma, trataremos sobre isso neste trabalho. No entanto, a questão que tais críticas e análises suscitam é ainda mais fundamental: qual a função da escola? Para responder a essa pergunta, vários elementos devem ser levados em consideração: sua origem, sua constituição, a formação dos profissionais que a compõem e, principalmente, os princípios que orientam suas atividades. Neste sentido, qual a função da disciplina de sociologia e, por consequência, quais os desafios no processo de ensino e aprendizagem da sociologia em sala de aula? Além disso, o processo político brasileiro atual torna urgente o debate acerca da Medida Provisória nº 746/2016, proposta pelo atual Ministro da Educação Mendonça Filho e promulgada pelo Presidente em exercício Michel Temer. A Reforma do Ensino Médio vem no bojo de uma conjuntura política muito difícil tanto em termos de compreensão, quanto em termos de combate. Nesse sentido, buscamos através deste trabalho trazer alguns elementos importantes para essa discussão, além de buscar compreender alguns fenômenos existentes dentro da própria escola pública aos quais tivemos acesso durante o período do estágio obrigatório.

CONJUNTURA POLÍTICA

Em termos de conjuntura política, o momento brasileiro atual é emblemático. A presidenta Dilma Rousseff, eleita democraticamente, foi destituída da Presidência da República através de um processo ilegítimo que levou a cabo o impeachment, sob a alegação de ter ela cometido crime de responsabilidade argumento já invalidado pelos próprios defensores deste processo o qual denominamos GOLPE DE ESTADO. O que legitimou esse processo foi uma mobilização ideológica das massas, cuja classe protagonista foi a classe média, e que teve como mote o „combate à corrupção‟.

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“Estando fora do núcleo econômico definidor do capitalismo, a classe média encontra-se também fora do núcleo do poder político: ela não detém o poder do Estado (que pertence à classe dominante) nem o poder social da classe trabalhadora organizada. Isso a coloca numa posição que a define não somente por sua posição que a define não somente por sua posição econômico-política, mas também e sobretudo por seu lugar ideológico e este tende a ser contraditório.” (CHAUÍ,

2016)

É um contexto não só brasileiro, mas mundial, vide figuras como Donald Trump, por exemplo de escalada de tendências ideológicas conservadoras e até mesmo de tendência fascista cujas manifestações que estiveram presentes de forma explícita nas manifestações „populares‟ às quais podemos chamar de anti-PT ou ainda pró-impeachment. Qualquer expressão minimamente progressista foi taxada de comunista, ou ainda petista, ou até mesmo bolivariana, além, é claro, do argumento de que o PT é comunista e está „implantando uma ditadura socialista no Brasil‟. Saudosos da ditadura militar defendendo seu retorno, manifestações ainda mais preocupantes como defensores da tortura para „esquerdistas‟ e ataques pessoais às figuras de Dilma e Lula. Isso sem falar da LGBTTIfobia, racismo e machismo tomando cada vez mais espaço.

Pipocaram uma série de movimentos pretensamente „apartidários‟ que tem como fundamento ideológico tais princípios, dentre os quais podemos citar o Movimento Brasil Livre (MBL), que tem como líder Kim Kataguiri e o Movimento Unesp Livre, cujas manifestações ainda se realizam de forma anônima através das redes sociais. Além disso, as igrejas protestantes neopentecostais, representadas por figuras como o pastor Silas Malafaia, vem crescendo cada vez mais e endossando esse complexo ideológico conservador. Em relação a essa tendência ideológica, a figura emblemática é a do deputado Jair Bolsonaro (e sua prole), militar da reserva, que cumpre seu sexto mandato na Câmara dos Deputados, filiado ao Partido Social Cristão (PSC) e pré-candidato à Presidência da República das eleições de 2018. Bolsonaro é conhecido por suas manifestações racistas, xenófobas, homofobias e misóginas, além do „antiesquerdismo‟ explícito. O termo „bolsomito‟, que faz uma referência supostamente positiva ao deputado, vem ecoando em diversos grupos sociais. Dentre eles, os jovens de escola pública. Aprofundaremos esse aspecto mais adiante.

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Sobre a MP nº 746/2016

No dia 22 de setembro de 2016 foi publicada no Diário Oficial da União a Medida Provisória nº 746 que institui a Política de Fomento à Implementação de Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral, altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9394/96, estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, e a Lei nº 11.494 de 20 de junho 2007, que regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação. Em síntese, trata da Reforma do Ensino Médio. Esta Reforma traz uma série de dispositivos problemáticos, ou melhor, absolutamente preocupantes. Analisaremos os mais significativos.

1. Ampliação da carga horária obrigatória de 800 horas/aula para 1400 horas/aula, o que leva, portanto, à adoção do turno integral. Em relação a esse dispositivo podemos destacar dois aspectos. Primeiro, a adequação psicofísica dos alunos a uma jornada de trabalho (emprego), visando à integração ao mercado de trabalho. Segundo, a questão da ausência de estrutura para o acolhimento desses estudantes em tempo integral, o que provavelmente se efetivará financeiramente através de PPP‟s (Parcerias Público-Privadas).

2. A Reforma mantém a obrigatoriedade somente do ensino das disciplinas de Português e Matemática, estando as demais disciplinas reduzidas ao conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política. A sutileza em relação aos termos pode não permitir perceber um fato: o ensino enseja a necessidade de um professor, o conhecimento, não.

3. Estabelece que apenas uma parte do Ensino Médio será comum a todos, e após esse período se dará a separação dos alunos por opções formativas ou ênfases. Essas opções formativas estarão divididas em „áreas do conhecimento‟, as quais:

linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional. O mais grave é que os currículos dos sistemas de ensino não necessariamente precisam ofertar todas essas áreas aos estudantes.

4. Os conteúdos cursados durante o ensino médio poderão ser convalidados para aproveitamento de créditos no ensino superior.

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A MP 746/2016 não se trata de uma medida isolada, mas faz parte de um

conjunto de iniciativas tomadas pelo governo golpista contra a educação como a PEC

nº 241, por exemplo, que congelará os investimentos por 20 anos. Tais iniciativas

impedem a perspectiva transformadora e crítica das escolas, reduzindo o conteúdo e

impedindo a livre expressão de ideias e debates através de programas pretensamente

“sem partido”, os quais trataremos a seguir.

Escola sem Partido

O assim denominado Programa Escola sem Partido surge sob o mote da defesa

da „liberdade de consciência do estudante‟, pretendendo assegurar o „princípio da

neutralidade política e ideológica do Estado‟. Ele se manifestou através de uma série de

projetos de lei a nível federal, estadual e municipal. Segundo o próprio portal do Projeto

] [

possam estar em conflito com as convicções morais dos estudantes ou de seus pais, viola o art. 12 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, segundo o qual „os pais têm direito a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com suas próprias convicções‟. Essas práticas, todavia, apesar de sua manifesta inconstitucionalidade

a exposição, em disciplina obrigatória, de conteúdos que

e ilegalidade, tomaram conta do sistema de ensino. A pretexto de “construir uma sociedade mais justa” ou de "combater o preconceito", professores de todos os níveis vêm utilizando o tempo precioso de suas aulas para "fazer a cabeça" dos alunos sobre questões de natureza político-partidária, ideológica e moral.

O que esse discurso aparentemente neutro esconde, é que a „despolitização‟ da

sala de aula também é um ato político. A suposta „neutralidade do Estado‟ também é o

resultado de uma determinada correlação de forças do modo de produção capitalista. Tal

proposta pretende desconectar a sala de aula e, em consequência, os estudantes, de sua

realidade social. Além disso, uma noção tendenciosa e enviesada de figuras como Paulo

Freire, Karl Marx, Ex-presidente Lula, Che Guevara, etc, engrossa uma ideologia

„antiesquerdista‟, que é consequência da ascensão de ideias conservadoras à direita –

das quais trataremos a seguir.

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Se observarmos com atenção, a Reforma do Ensino Médio nada mais é que a institucionalização implícita dos ideais do Projeto Escola Sem Partido. A retirada de conteúdos que podem alcançar temas críticos da realidade e que podem levar à transformação social é o meio pelo qual o Estado, enquanto garantidor das relações de produção capitalistas, leva a cabo, através da escola, uma política que, ao mesmo tempo em que responde às demandas da produção capitalista, promove a propagação da ideologia que permite a reprodução das relações de produção capitalista sem questionamentos críticos e sem a possibilidade de transformação.

SOBRE O AMBIENTE ESCOLAR NA ETEC

Cumprimos nossas horas de estágio obrigatório na Escola ETEC Antônio Devisate durante os meses de maio (disciplina Estágio II) e novembro de 2016 (disciplinas Estágio I e III). Durante as etapas do estágio realizamos observação das aulas de Sociologia, Filosofia e História, além de, em alguns momentos, termos a oportunidade de conduzir algumas atividades com os estudantes. É importante pontuar algumas informações sobre a escola. A ETEC Antônio Devisate é uma Escola Técnica vinculada ao Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, autarquia da Secretaria do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo. Nas duas unidades locais (Sede e Classe Descentralizada Colégio Bicudo), atende cerca de 1.300 estudantes nos seguintes cursos: Técnico em Administração, Técnico em Contabilidade, Técnico em Enfermagem, Técnico em Informática para Internet, Técnico em Logística, Técnico em Segurança do Trabalho, Técnico em Serviços Jurídicos, Ensino Médio Regular, Técnico em Administração Integrado ao Ensino Médio ETIM, Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio ETIM, Técnico em Informática para Internet Integrado ao Ensino Médio VENCE (Parceria com a Secretaria Estadual de Educação), Técnico em Marketing Integrado ao Ensino Médio VENCE (Parceria com a Secretaria Estadual de Educação). Outro aspecto importante é em relação à formação das professoras. A professora de História possui formação em História, porém a professora que ministra as aulas de Sociologia e Filosofia possui formação em Biologia, com pós-graduação em Educação. Essa mesma professora também ministra as aulas de Gestão de Pessoas para o integrado em Administração.

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Vale lembrar que o ingresso à ETEC está condicionado à aprovação no Vestibulinho processo seletivo semelhante ao vestibular que seleciona os alunos de acordo com o seu rendimento na prova. Isso a diferencia da realidade das escolas regulares da rede estadual, já que ali estão concentrados os alunos com melhor aproveitamento escolar. A questão racial é explícita: há pouquíssimos alunos negros. As classes de ensino médio integrado ao ensino técnico são uma tendência ao ensino médio profissionalizante que existe desde meados da ditadura militar (e se manifestou novamente através da MP 746/2016). Os alunos estudam das 7h às 15h e assistem aulas de disciplinas regulares do ensino médio mescladas com disciplinas dos técnicos. Quando chegamos à escola e fizemos o primeiro contato com os alunos, nossa primeira pergunta a eles foi: porque escolheram esse curso? As respostas variaram, mas todas possuem um núcleo central em comum: para facilitar o ingresso no mercado de trabalho. É muito clara para os estudantes a necessidade de estar preparado (psicológica e fisicamente) para o mercado de trabalho, sob o risco de „ficar para trás‟. Em geral, os alunos são „disciplinados‟, porém isso varia um pouco de sala em sala. Particularmente, tivemos um maior contato com o 2º do Ensino Médio integrado ao curso de Administração, sala em que a professora de Sociologia/Filosofia/Gestão de Pessoas estava desenvolvendo teatros sobre temas transversais acerca da diversidade e da desigualdade. Essa é a sala mais agitada, porém também a sala que contém uma série de aspectos relacionados à questão LGBT, de classe e também à questão do racismo. Durante a preparação e os ensaios do teatro, pudemos verificar que os estudantes tem um contato muito próximo com essas questões e fizeram o possível para debater os tabus de gênero, raça e classe. Como experiência pessoal, foi um respiro aliviado ver os jovens aliados a questões tão progressistas. Por outro lado, no 2º ano do Ensino Médio Convencional a experiência foi um pouco diversa. Chegamos nesta sala em um dia que a professora de História estava ausente e deixou uma atividade para eles desenvolverem no laboratório de informática. Alguns aproveitavam para fazer a inscrição do ENEM que estava aberta a partir daquele dia. Fomos abordadas por um grupo de estudantes em sua maioria, meninas que queriam saber qual a nossa opinião sobre o aborto. Discutimos sobre esse tema por toda a aula (cerca de 50 minutos), enquanto outros alunos se aproximavam para ouvir e deixar sua opinião. Este assunto levou a outros, e chegou até sobre a questão do socialismo. Quando a discussão chegou ao fim, uma aluna nos advertiu: “cuidado com o

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que vocês falam aqui, pois tem muitos „bolsomitos‟ dentro dessa sala”. Na semana seguinte retornamos a essa turma acompanhando novamente uma atividade da disciplina

de Historia agora com a professora presente. Novamente o debate chegou à questão do

socialismo. Ouvimos uma aluna que contou a trajetória política de sua família, que sempre esteve ligada ao Partido dos Trabalhadores. Ela foi moderada nas palavras, mas deixou bem clara sua posição política contrária em relação ao impeachment. Ouvimos alguns burburinhos descontentes ao mesmo tempo em que outras alunas engrossaram o tema, concordando com a colega. Nenhum aluno contrário a essa posição se aproximou, mas o clima foi de visível tensão. Alguns dias depois, circulou nas redes sociais uma foto-meme de alunos da

escola com plaquinhas com dizeres que exaltavam a „opressão‟ disseminada pelas palavras do deputado Jair Bolsonaro. Por coincidência, ou não, naquela mesma semana

vi outras fotos de outros alunos de outras escolas públicas! com o mesmo conteúdo.

Alunos de escolas públicas, oriundos da classe trabalhadora, defendendo um ideário

conservador ao extremo, com nuances fascistas. Como explicar esse fenômeno? Um ponto de partida pode ser este proposto por Chauí:

E é nisto que reside o problema da absorção ideológica da nova classe trabalhadora brasileira pelo imaginário da classe média, absorção que atualmente, no Brasil, se manifesta na disputa entre duas formulações ideológicas que enfatizam a individualidade bem-sucedida: a „teologia da prosperidade‟, do pentecostalismo, e a ideologia do empreendedorismo‟, da classe média neoliberal (o sonho de virar burguesia). Em outras palavras, visto que a nova classe trabalhadora brasileira se constituiu no interior do momento neoliberal do capitalismo, nada impede que, não tendo ainda criado formas de

organização e de expressão pública, ela se torne propensa a aderir ao individualismo competitivo e agressivo difundido pela classe média.

E ela própria é levada a acreditar que faz parte de uma nova classe média brasileira. (CHAUÍ, 2016)

[

]

Um aspecto muito importante é a adesão às denominações protestantes: uma boa parte dos alunos é frequentador de igrejas evangélicas além das católicas, é claro e de grupos de oração chamadas „células‟. O princípio de funcionamento das células é uma alusão à biologia: multiplicação. Além disso, é possível notar que, ao passo que a classe média se projeta na burguesia como objetivo de ser, a classe trabalhadora se projeta na ideologia que se manifesta através da classe média, sob a pretensão de ser classe média. É uma lógica cruel.

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CONTRIBUIÇÕES DA PEDAGOGIA HISTÓRICO-CRÍTICA PARA O PROBLEMA DO ENSINO DE SOCIOLOGIA

Para esta tarefa, tomaremos como base teórica as formulações de uma das tendências pedagógicas brasileiras, a Pedagogia Histórico-Crítica, cujos principais nomes são Demerval Saviani e João Luiz Gasparin. Segundo Saviani, não existe apenas um tipo de saber:

“Eis por que se pode falar de diferentes tipos de saber ou de conhecimento, tais como: conhecimento sensível, intuitivo, afetivo, conhecimento intelectual, lógico, racional, conhecimento artístico, estético, conhecimento axiológico, conhecimento religioso e, mesmo, conhecimento prático e conhecimento teórico.” (SAVIANI, 2008, p.

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Para ele, o homem não nasce sabendo ser homem. Ele não nasce sabendo ser homem, sabendo sentir, pensar, avaliar, agir, e é para isso que serve o trabalho educativo: para humanizar o indivíduo. Assim, nenhum desses saberes importa ao processo educativo só importam enquanto elementos que os homens precisam assimilar para tornarem-se humanos , somente importa o saber que resulta do processo de aprendizagem. Mas a escola nem sempre foi a forma principal e dominante de educação. O momento histórico em que isso de fato ocorreu coincide com o momento em que as relações sociais passaram a prevalecer sobre as relações naturais, estabelecendo-se o mundo da cultura que é o mundo produzido pelo homem. O saber científico passa a prevalecer sobre o saber natural, espontâneo. É o surgimento da sociedade capitalista. Saviani assim define a pedagogia histórico-crítica:

“Essa pedagogia é tributária da concepção dialética, especificamente na versão do materialismo histórico, tendo fortes afinidades, no que se refere às suas bases psicológicas, com a psicologia histórico-cultural desenvolvida pela „Escola de Vygotsky. A educação é entendida como o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. Em outros termos, isso significa que a educação é entendida como mediação no seio da prática social global. A prática social se põe, portanto, como o ponto de partida e o ponto de chegada da prática educativa. Daí decorre um método pedagógico que parte da prática social onde professor e aluno se encontram igualmente inseridos, ocupando, porém, posições distintas, condição para que travem uma relação fecunda na compreensão e encaminhamento da

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solução dos problemas postos pela prática social, cabendo aos momentos intermediários do método identificar as questões suscitadas pela prática social (problematização), dispor os instrumentos teóricos e práticos para a sua compreensão e solução (instrumentação) e viabilizar sua incorporação como elementos integrantes da própria vida dos alunos (catarse).”

Vygotsky apresenta a teoria histórico-cultural partindo do pressuposto de que nascemos seres humanos, mas nos tornamos humanos pela cultura. Por isso ele diz que somos feitos à imagem e semelhança do meio em que vivemos. Vivemos imersos na cultura, como o peixe vive imerso na água. Tanto que o processo de colonização de povos envolve a violência e a destruição de sua cultura, por isso a cultura é fundamental no processo de ensino-aprendizagem. Essa é a concepção da teoria histórico-cultural. Histórico porque é transitório, passageiro. Cultural porque nós nos formamos dentro de uma cultura. O conhecimento científico é cultura, é produto da ação do ser humano. Assim, para Vygotsky, nenhum educando começa do zero, ele já possui um conhecimento prévio, o que significa que a prática pedagógica deve partir daquilo que cada educando já trás para a sala de aula. Saviani trabalha a pedagogia histórico-crítica especificamente dos pontos de vista da pedagogia da filosofia da educação. Ele não estabelece necessariamente uma didática, mas se debruça no desenvolvimento de um princípio que deve orientar a prática pedagógica. Tais princípios são desenvolvidos por ele em cinco passos que serão a seguir colocados.

1. Prática social como ponto de partida da prática educativa. A prática social é muito mais ampla que a prática escolar. É o todo o contexto dentro do qual se inclui a escola. A escola especifica um aspecto da prática social. O trabalho do professor e da escola dá-se sempre dentro de uma pratica/estrutura social mais ampla que facilita ou dificulta o trabalho do docente. À medida que o professor e o educando aprendem e ensinam, a prática social se modifica, ainda que em pequena medida. O professor deve iniciar pelos conhecimentos prévios do educando, ou melhor, da noção que o educando tem da realidade que possui algumas sínteses sobre os temas, ainda que caóticas e confusas.

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2. Problematização. As grandes questões sociais perpassam também o conteúdo escolar. No entanto, essa problematização é interrogar que aspectos da realidade o educando, o professor e a escola podem contribuir para a mudança, para a transformação. Questões pedagógicas, políticas, filosóficas, de salário, etc. Porque eu tenho que aprender esse conteúdo? Motivar, cativar o aluno para seu conteúdo. Questões para pensar e refletir tanto em relação ao social, quanto aos próprios conteúdos para que o educando se interesse.

3. Instrumentalização. É o momento que o professor explica, demonstra, faz o conteúdo científico ser apreendido e apropriado pelo educando. Une o conhecimento prévio com o conhecimento científico (através de pesquisas, atividades, visitas, experimentos, métodos e técnicas). Deve-se criar um sentido para o conteúdo científico, não só o significado social, mas também o significado individual para aquele conteúdo.

4. Catarse. É o momento em que o educando compreende a dimensão científica do conteúdo, é a passagem de um nível de conhecimento para outro mais elevado. É como se fosse um momento em que o educando se reconhece como mais conhecedor do conteúdo. Deve-se dialogar com o educando para saber se ele compreendeu o conteúdo, ou ainda, adotar uma avaliação formal. Esse é basicamente o resumo da aula do professor, mas esse não é o fim da aula.

5. Prática social como ponto de chegada. O que o aluno fará com o conteúdo que apreendeu? É o caminho para o processo de confirmação do ensino e da aprendizagem em sua prática.

Dessa forma, o processo pode ser assim resumido:

PRÁTICA TEORIA - PRÁTICA

Nós nos modificamos dentro da prática e, por isso, ela também se modifica, já que nós próprios somos prática. É como a afirmação de Heráclito de Éfeso de que nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem o homem.

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A prática é que muda, transforma. As ideias em si não mudam nada. O que muda

a realidade é o fazer, mas não há um bom fazer que não tenha uma teoria consistente

que lhe dê base e sustentação. Portanto, não se deve hierarquizar prática e teoria. Prática

é toda a ação do ser humano em benefício próprio ou coletivo. Teoria é a própria prática

em sua dimensão de representação mental, ou seja, abstrata. Essa abstração é a outra fase da realidade. A união das duas é a práxis que significa a unidade contraditória de duas realidades que entre si são irreconciliáveis.

A prática é uma TESE. Para que o processo pedagógico se realize, é preciso que

haja uma contra-tese, ou seja, uma ANTÍTESE que é, no caso, a teoria. Esse processo origina uma SÍNTESE, que é a práxis. A práxis é a possibilidade de juntar as contradições. Essa é a leitura que Marx realizou do mundo. Podemos também buscar algumas respostas em Gramsci uma das grandes referências da pedagogia histórico-crítica no Brasil e suas elaborações acerca da questão dos intelectuais. Segundo a professora Maria Lúcia Duriguetto:

É no campo dessa reflexão que reafirma que o “homem ativo de massa” não teria uma clara consciência teórica de seu agir, podendo mesmo acontecer uma contradição, uma oposição entre sua consciência teórica e a sua ação. Seria possível, assim, afirmar que ele teria duas consciências “uma, implícita na sua ação, e que realmente o une a todos os seus colaboradores na transformação prática da realidade; e outra, superficialmente explícita ou verbal, que ele herdou do passado e acolheu sem crítica” (Idem, p. 1385/Idem, p. 103). Para o marxista sardo, seria essa concepção “verbal” a que ligaria o indivíduo a um grupo social determinado, que influiria na [sua conduta moral], na direção da sua vontade, até o ponto “no qual a contraditoriedade da consciência não permita nenhuma ação, nenhuma escolha e produza um estado de passividade moral e política” (Idem, p. 1386/Idem, p. 103). (DURIGUETTO, p. 277)

Para Gramsci, a unidade entre teoria e prática a práxis não é mecânica, mas

sim, processual. Cabe a nós, educadores intelectuais no sentido gramsciano auxiliar

o aluno na superação do senso comum e substituí-lo por uma forma de pensar e agir mais críticas em relação à sua realidade.

ENSINAR E APRENDER SOCIOLOGIA: QUAIS OS DESAFIOS?

Até aqui apresentamos alguns aspectos teóricos e alguns fatos que se nos apresentaram na realidade escolar à qual tivemos acesso durante o curso da licenciatura.

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A leitura até este ponto já nos permite apontar algumas questões importantes e imprescindíveis sobre os principais desafios de ensinar e também aprender Sociologia especialmente neste contexto conjuntural absolutamente desfavorável do ponto de vista geral da escola pública, inclusos professores e alunos. Tendo em vista o propósito da disciplina de Sociologia na escola desnaturalizar as relações sociais de que maneira cumpri-lo especificamente neste momento de escalada conservadora? Durante nossa experiência realizando a observação de aulas e também nas oportunidades em que tivemos de estabelecer um contato direto com os alunos, alguns momentos foram peculiares e demonstraram algumas dificuldades no processo pedagógico específico das disciplinas de humanas. Em um determinado momento, a professora de história pediu que desenvolvêssemos uma atividade com os segundos anos a respeito da formação do Estado moderno, pois ela entraria no tema das Revoluções Burguesas e achou pertinente que o trabalhássemos com a perspectiva sociológica do tema. Preparamos uma aula expositiva sobre os contratualistas (ANEXO 1) com o objetivo de posteriormente abrir espaço para uma discussão sobre a Cidadania e Participação Política. Antes da exposição do conteúdo, fizemos a seguinte pergunta: „o que é o Estado?‟. As respostas foram das mais variadas, porém tímidas, já que o conteúdo ainda não havia sido exposto. Após a aula, já com o conteúdo exposto, abrimos a discussão com a seguinte pergunta: „O que é participação política?‟. Demos o pontapé inicial inserindo a questão da cidadania, das eleições e de que forma isso influencia nosso dia a dia, e quais os limites desses dispositivos. Os alunos começaram a apontar problemas do dia a dia, como: transporte público, segurança, serviços de saúde e até mesmo sobre educação pública. Alguns apontaram que alguns problemas da administração municipal anterior (2009-2012) não foram resolvidos pela então administração municipal (2013-2016), ou seja, a troca dos governantes não resolveu os problemas. Em seguida, um aluno levantou a questão: o que podemos fazer em relação a isso? Deixamos o debate rolar até que uma aluna apontou a necessidade de manifestações políticas, o „ir à rua‟, segundo ela, deve ser uma alternativa para quando os nossos direitos não forem respeitados. Aproveitamos a oportunidade para tratar sobre movimentos sociais como MST e MTST e tentamos desmistificar alguns aspectos sobre as ocupações. Daí percebemos um mal- estar e decidimos deixar os alunos terminarem o debate para evitar qualquer embate, inclusive com a própria professora, que permaneceu o tempo todo dentro da sala de aula.

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Notamos que foi possível desenvolver com os alunos uma noção crítica sobre o Estado e sobre as formas institucionais de participação política. É visível para eles que seus direitos são desrespeitados e que algo deve ser feito em relação a isso. No entanto, ainda existe um „preconceito‟ em relação a manifestações, greves e ocupações em geral. De uma forma geral, a atividade foi muito positiva, pois certamente levou a uma reflexão que pode frutificar futuramente, apesar das dificuldades encontradas durante o debate. E as dificuldades encontradas durante o debate se somaram a um agravante:

somos alunas da UNESP, instituição conhecida como o „campus vermelho‟, e que já possui um estigma em relação a ocupações, greves e manifestações. E, de um jeito ou de outro, é um estigma que provavelmente vamos carregar ao longo de nossa carreira acadêmica, já que a instituição estará estampada em nosso currículo. Assim, aquele processo pedagógico desenvolvido por Saviani pode ter lugar dentro de sala de aula, ainda que algumas dificuldades sejam encontradas no caminho. Embora nosso tema trabalhado seja um tema clássico da Sociologia e, de certa forma, seja predominantemente teórico, é possível desenvolver cada etapa do processo pedagógico partindo da realidade prática social do aluno, passando por etapas que permitam a ele se apropriar do conteúdo teórico-científico e chegando ao ponto final, que é a prática social modificada.

BIBLIOGRAFIA

JINKINGS, Ivana, et al. Porque gritamos GOLPE? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil. São Paulo, Boitempo, 2016. KASHIURA JÚNIOR, Celso Naoto. Crítica da Igualdade Jurídica Contribuição ao pensamento jurídico marxista. São Paulo: Quartier Latin, 2009.

DURIGUETTO, Maria Lúcia. A questão dos intelectuais em Gramsci. Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 118, p. 265-293, abr./jun. 2014. GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 1982. SAVIANI, D. Escola e democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação e política. 36. ed. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 2003.

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ANEXO 1

Aula: Fundamentos teóricos do Estado Moderno

Materiais utilizados: Data Show Apresentação de slides com textos e imagens.

Muitos autores deram às bases teóricas sobre o Estado moderno, no entanto, aprofundaremos a leitura de quatro principais: Maquiavel, Hobbes, Montesquieu e Rousseau. Lançar a pergunta à sala: O que é o Estado moderno? Explorar as respostas e em seguida passar à apresentação deles.

O livro O Príncipe foi escrito por Nicolau Maquiavel em 1513, mas só foi publicado em 1532. A repercussão de O Príncipe de Maquiavel através dos séculos ocorreu devido ao papel fundamental que a obra representa na construção do conceito de Estado. Nessa época, a Itália estava dividida em pequenos Estados, repúblicas e reinos. Havia muita disputa de poder entre esses territórios. Maquiavel orienta os governantes a respeito dos perigos que existem em se dividir politicamente uma península e ficar exposto às grandes potências europeias. Assim, a obra gira em torno da necessidade de unificação da Itália e, portanto, da formação de um Estado moderno na Itália.

Thomas Hobbes escreveu O Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de Um Estado Eclesiástico e Civil em 1651. Para Hobbes todos os homens nascem livres e iguais. Livres para fazerem o que quiserem e iguais nas capacidades físicas e mentais. Essa condição inata de igualdade e liberdade são elementos suficientes para colocar os homens em constante guerra de todos contra todos. É inato também aos homens um direito natural: o de preservar sua própria natureza, isto é, sua vida. Eis o estado de natureza, é o momento no qual preservar a própria vida, fazer cumprir o primeiro direto natural, envolve se precaver do outro, desconfiar do outro („o homem é lobo do próprio homem‟). Para sair desse estado, os homens podem por meio de sua racionalidade fazerem um pacto, ou melhor, um contrato social através do qual todos abrem mão de sua liberdade, a qual fica entregue a um soberano, seja ele um homem ou uma assembleia, para assim conquistarem a paz. Por isso Hobbes é sempre associado à defesa do Estado absolutista.

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Montesquieu publicou sua obra Do Espírito das Leis em 1748. Segundo Montesquieu, existem três formas de governo (despotismo, república e monarquia), cada uma delas é baseada em uma natureza (aquilo que é) e em um princípio (aquilo que faz agir; como o governo deveria ser) predominante. O objetivo primordial de todas elas é a conservação e o melhor governo é o que melhor se adapta ao povo e a sua natureza. Por fim, Montesquieu trata da liberdade (o direito de fazer tudo que as leis não proibirem), que é presente apenas nos governos moderados. O povo exerce sua liberdade e soberania é através da representação política, pois, para Montesquieu, embora o povo tenha capacidade de escolher o que é melhor, não possui capacidade para realizá-lo, devendo, então, nunca agir de forma autônoma, e sim, através da representação. Foi Montesquieu que fundamentou a divisão dos poderes em três: executivo, legislativo e judiciário como sistema de freios e contrapesos.

Do Contrato Social de Rousseau foi publicado em 1762 Para Rousseau, o homem nasceria bom, mas a sociedade o corromperia. Daí a importância do contrato social, pois os homens, depois de terem perdido sua liberdade natural (quando o coração ainda não havia corrompido, existindo uma piedade natural), necessitariam ganhar em troca a liberdade civil, sendo tal contrato um mecanismo para isso. Notar a diferença em relação a Hobbes. Um ponto fundamental em sua obra está na afirmação de que a propriedade privada seria a origem da desigualdade entre os homens, sendo que alguns teriam usurpado outros. A origem da propriedade privada estaria ligada à formação da sociedade civil. Dessa maneira, seria um pacto legítimo pautado na alienação total da vontade particular como condição de igualdade entre todos. Logo, a soberania do povo seria condição para sua libertação. Assim, soberano seria o povo e não o rei (este apenas funcionário do povo), fato que colocaria Rousseau numa posição contrária ao Poder Absolutista.

Em seguida passaremos a um debate tendo como elemento gerador a seguinte questão: O que é participação política?

Unesp Marília FFC

2017

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