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MAIGRET E OS INSUSPEITOS GEORGES SIMENON

&L&IMOS VOLUMES PUBLICA& DA *COLLC&;AO VAMPIRO+

U5--A Longa Nolte, por Har!dey Howard U&--Malgret nae Terma&, por Georg& Sim&an &,47--Jogo MortUero, por Oath&rq& Aird 148--A Dem delra Palav&a, por Rex Stout U&--A Dança da Morte, por E&nk Gruber &.50--A Hedtasao de Malgret, por Ge&gw Simenon 461--A Morte do Oove&ro, por E`réd& &52--A Mulher Tranquila, por Earry Ca&nlcl&el &53--Bolda para a Morte, por Ben Ben&u 454--O Oondl&plllo de Malgret, por George& &menon &.55--A Allança Tr& por I&illlau O'DoDneill 45&--aha.ve para a Morgue, por Ha&tley Howard 457--O Baú doa Bli&aloc, por F&nk Gruber 458--O l30no da Mo te, por Rex &t&ut 45&--O l30brinho de Malgret, por Georges Sdm& 460--Crime na 15&trada, por Oatherl&e Aird 461--A &ombra da Forca, por H;a&ry C&michael 462--ON Inoendiárlo& da Florellta, por Hank S& &3--Maigret e o& C& Feroze&, por Georges SJm& &4--O Dente e a Garra, por Bil1 S. Balllnger M5--Bomba de Bel6gio, por Hartley H& d 466--ON Gato& MaoabroN, por Nlcolas E`reeDl&lg 467--Violag&o e Morte, por I&llian O'Do& 468--Maigret e o Crlme na Comporta, por G. Slimellon 46&--O &ato de MuitaN Cauda&, por Ealelry Queen 470&A Tela Mortal, por Ben Bensan 471--O Llvro Mort&fero, por E`rank Gruber 472--Malgret e ON Tn&us&itoN, par &3 S&on

NO &UCIo

473--O Enigma do Ataúd& bldlo, p&r Rex S&ut

C&EOR(;&ES SIMENON

MAIGRET e os insuspeitos

Trad&lSao de

PAULO DE MELLO BARRETO

Capa: A. Pedro &!: Titulo da edisao original:

*Maigret et les Braves Gens& * CoPyright (&

1962, par Georgeg &imer&on * ReYervadog todos os direitos pela legigla5ao em vigor & Lisboa--1986

* Ver,da interdita na Rep&blica Federativa dos 13stados Unidos do Brasil

Em vez de resmungar e, na obscuridade, tentar agarrar

o auscultador como já era costume, quancio o telefone

tocava a meio da noite, Maigret soltou urn suspiro de

alivlo. Nao se recordava bem do sonho que fora interrompido,

mas sabia que era desagrádável: tentava explicar a alguém&, muito importamte, cujo rosto nao via e que, de resto, nao estava satisfeito com ele, que nao tinha culpa; que teria de conceder-lhe um pouco de paciência e esperar alguns dias, já que ele, Maigret, perdera o treino, sentia-se mole

e pouco à vontade.

Se tivessem confianca nele, nao se arrepencleriam, obretudo, se nao o olhassem com um ar re&rovad&r e

--Está?

Quando ergueu o auscultador, Madame Maigret apoio&se num cotovelo e acendeu o candeeiro da mesinha&cabe- celra. --Mai&ret?--perguntaram. --Slm. Embora a voz Ihe soasse farn&liar, nao a reconheceu. --Daqui, Saint-Hubert Era um c&issário, mais ou menos da sua idade, que Maigret conhecia desde que comecara a trabalhar na Polícia. Tratavam-se pelos ap&lidbs e por você. Saint-Hubert era alto, magro, rulvo, ufn pouc&o lento e solene, sen&pre clDado em manter as distancias.

--Acordei-o?

--Sim. --Peco-lhe desculpa. De qualquer modo, s&ponho que

o Ouai des Orfèvres ( ) nao tarda em telefonar-lhe para dar a

notícis, v&sto eu Já ter prevenido a Procuradoria e a Polícla

Judiciária. Senta&o na cama, Maigret pegou num cachimbo que, quando se deitara, depusera na mesinha&cabeceira. Com os olhos, procurava os fósforos. Madame Maigret levantou se e fol buscar-lhos à cozinha.

A Janela eStNa aberta para um Paris ainda morno, pon- tilhado de luzes, onde se ouviarn, 90 longe, passar os táxis. Havia cinco d&as que tinham regressado de férias e era a prime1ra vez que os acordavam a me&o da n&te. Para Maigret, era como se voltasse a tomar contacto com a reali- d&de, com a rotina. -

--Di&a lá--m&rmurou, enquanto chupavs o cachimboe a mulher segurava um f6sforo aceso, por cima do for- nilho. --Estou ern casa de Monsieur René Josselin, Rue Notre Dame des-Champs, 37-A, mesmo ao lado do Con,vento

Acabaram de descobrir um

das Irmazinhas dos Pobres

crime do quai quase nada sei, pols só aqui cheguei há

coisa de vinte mlnutos --Sim. --

Está a ouvir?

Madame Maigret foi para a cozinha fazer café e Maigretpiscou-lhe um olho, cúmplice.

Foi por esse

motivo que dec&di chamá-lo

e&viar um dos seus &nspectores de serviço Saint-Hubert falava cautelosamente e adivinhava-se nao estar sozinho.

--O caso é perturbador

talvez del&cado

Receei qus se lim&tasse a

Cais dos Ouri&es+. junto do Sena, onde &o situa o ediflcio da Pollcla J&dloSárla e Psláclo da J&iga conhecldos l&or aquela desl8naciio. (N. do T.)

--Sei que esteve de férias --Voltei na semana passacia. .Era quarta-feira. Mais exactamente, quinta&feira, visto que o despertador, sobre a mesinha-d&cabeceira, marcava duas horas e dez. Maigret e a mulher tinham ido ao cir&a, menos para ver o filme, bastante mediocre, do que p&ra regressarem aos seus veihos hábitos.

--Tenciona vir cá? --f s6 o tempo de vestlr-me --Agradeco-lho pessoalmente. Conheço vagamente os Josselin. Sao o género de pessoas a quem nao se espera que um drama desta natureza possa ter acontecido O próprio cheiro do tabaco, àquela hora, era um odor profissional: o cheiro d& cachimbo, apagado na véspera, que se acende a meio da noite, quando se é acord&do por qualquer ocorrência grave.

O aroma do café também era diferente do que se aspi-

rava de manha. E recendia o cheiro da gasolina que entrava pela janela aberta.

Havia oito dias que Maigret sentia a impressao de estar embrutecido. Desta vez tinha permanecido três sema- nas inteiras em Meung-sur-Loire, sem o minimo contacto com a Policia Judiciária; sem que, como sucedera nos seus precedentes, o chamassem urgentemente a Paris. T&nham continuado a arran&ar a casa e o Jardim. Maigret pescara, jogara à malha com a gente da aldeia e, desd&

que regressara, a&nda nao consegúira readaptar-se à v&da quotid&ana da c&dade.

De resto, dir-se-ia que Paris também SB mantlnha dif& rente, como se o Verao subsistisse. Nao encontrara a chuva nem a frescura do fim de férias.

Grandes camionetas, repletas de turistas, continuava&m

a rodar pelas ruas. Estrangeiros com camisas berrantes.

E &mbora mu&tos par&s&enses já tivessem regressado do

campo ou da praia, muitos outros ainda para lá se dirigiam em comboios superlotaoos.

A Pol&cla Jud&ciár&a, o seu gabinete, pareciam a Malgret

um tanto ou quanto &rrea&s, levand&o a perguntar-&e que diabo estava ali a fazer, como se a verdade&ra vida se m&ntivesse, lá longe, nas margen do Loire. Certamente, fora desse mal-estar que proviera o sonho de cuJos pormenores, agora, tentava recordar-se. Madame Ma&gret voltou da cozinha com uma chávena de café quase a ferver e logo compreend&u que o marido, longe de estar furioso por ter sido abruptamente acordado, ficara bastarte animado.

o?

Rue Notr&D&me enflou &8 caicas; estava a atacar os &bfo& tocou novamente. Desta vez era

1& &-p;8tr&0&

Acabam de informar-nos

i& &ti&ram um homern na Rue Notre-Dame-

está a par da ocorrencia!

--Dupeu, a interrogar o suspeito do caso do roubo das

Tenciona ir lá?1& mal& está aí, no Oual?

J6ias; t&rbém Vacher

acaba de chegar. --Diz a Lapolnte que vá lá ter comigo. Janvler estava em férias. Lucas, que regressara, na v&s- pera, alnda nao reentrara ao serviço, no Oual. Minutos depois, Madame Maigret sondava:

--Queres que te chame um táxi? O motorista que o cor&uziu reconheceu-o e, desta vez, este facto, tao comum, deu-lhe um certo prazer. --Para onde, *chefe&? Maigret indicou-lhe a morada e tornou a acender o cachimbo. Na Rue Notre-Dame&es-Champs, encontrou o pe- queno automóvel negro da Polícia Judiciária e viu Lapointe a passear defronte da porta, fumando um cigarro e con- versando com o guarda-nocturno.

Lapointe

e, um momento, *patrao+

Este apontou:

--Terceiro esquerdo. Maigret e Lapointe penetraram no prédio luxuoso e bem conservado; viram luz no cubiculo da porteira; através da cortina de cassa, o comissário teve a impressao de reconhe- cer um inspector do 4.E Bairro que interrogava a porteira. Mal o ascensor parou, no terceiro piso, Saint-Hubert avancou para recebê-los.

--Os homens da Procuradoria só chegam daqui a meia hora. Entre, Maigret. Já vai perceber por que motivo Ihe telefonei

Penetraram numa vasta antecamara; Saint-Hubert empur- rou uma porta entreaberta e deparou-se-lhe uma sala tran- quila, sem ninguém, excepto o corpo de um homem, torcido numa cadeira de bracos, de coiro. Era um sujeito bastante alto e gordo, dobrado sobre si mesmo e cuja cabeca tom- bara para um dos lados, mantendo os olhos abertos. --Pedi à família que se retirasse para outro quarto Madame Josselin está a ser assistida pelo médico da família, o dr. Larue, que, por acaso, é meu amigo.

--Foi ferida?

--Nao. Nem sequer aqui estava, quando ocorreu a tra- gédia. Vou resumir o que consegui apurar até agora.

--(:luem vive nesta casa. Ouantas pessoas?

--Duas.

M& r&.f&rilL.c& s& fs&míliJ&

_

--Já vai

Os Josselin ficaram a viver

aqui, sozinhos, desde que a fllha se casou

um pediatra, o dr. Fabre, que é assistente do professor Baron do *Hospital das Crianças Doentes+ Lapointe tomava notas.

Casou se com

--Esta noite, Madame Josselin e a filha foram ao

--E os maridos? --Por um pe&aco, René Josselin ficou em casa, sozinho. --Nao gostava de teatro?

--Nao sei

--Em que trabalhava? --De há dois anos a esta data, nao trabalhava em, coisa alguma, mas, antes de ret&rar-se da sua activ&dade, foi dono de uma fábr&ca de pasta celulós&ca, na Rue S&nt-

-Gothard. Fabricava caixas de cartao, principalmente emba- lagens de luxo para frascos de perfume, entre outras Por causa da saúde, teve de passar o negócio --Oue idade tinha, nessa altura?

--Sessenta e c&nco ou sessenta e seis

ontem à noite, ficou só, em casa fazer-lhe urn pouco de companhia

e puseram-se a jogar xadrez.

De facto, sobre uma mesinha, via-se um tabule&ro, tendo as pecas dispostas, como se o jogo t&vesse s&do &nterrom-

pido. Saint-Hubert falava em voz baixa e, dos wtros quartos, cujas portas nao estavam completamente fechadas, ouviam-se idas e vindas. --Ouando as mulheres voltaram do teatro --A que horas?

--A meia-noite e um quarto

traram René Josselin na mesma posiçao em que está a vê-lo, agora.

Creio que nao gostava de sair à noite.

Portanto,

Depois, o gertro veio nao gei a que horas

Ouando vóíta;ram, encon

--Ouantas balas? --Duas, ambas na zona do coraçao. --Os outros inquilinos nao- ouviram osi disparos? --Os mais próximos ainda se encontram em férias. --Preveniran&no, logo, Saint-Hubert? --Nao Primeiro. chamaram- o dr. Larue, que vive aqui mesmo ao voltar da esquina, na Rue de Assas, e que era médico assistente de Josselin. *Tudo isto demorou um certo tempo. Só à uma e dez recebi um telefonema do meu comissário que acabava

de ser informadó da ocorrência. Vestl-me e vim o mais

depressa que pude

visto que, no estado em que Madame Josselin se encon- trava, nao seria possível estabelecer um diálogo --E o genro? --Acabou de chegar, um pouco antes de si. --Oue diz ele? --Tivemos certa dificuldade em comunicar com ele. Acabámos por encontrá-lo no hosp&tal onde tinha ido ver

Nao pude fazer muitas pergunta&,

um miúdo doente erro

uma encefalite, se nao estou em

--Onde está ele, neste momento? --Lá dentro.

Saint-Hubert apontou para uma das portas de ondb pro- vinham murmúrios. --Pelo pouco que sei, nao houve roubo; nao se des-

cobriram vestigios de arrombamento

tiveram inimigos

mente normal Bateram à porta. Era Ledent, um jovem médico legista que Maigret já conhecia e que apertou a mao aos presentes, antes de i)ousar a maleta que abriu em cima de uma cómoda. --Telefonaram-me da Procuradoria--anunciou--e o deiegado vem Já aí.

Os Josselin nunca

& boa gente

Levam uma vida absoluta-

Malgret, que estivera a observar a sala, murmurou:

Gostava de fazer umas perguntas à filha. Percebia como Saint-Hubert se sentia. O cenário nao s6 era elegante, mas também incutia a sensacao de uma vida familiar confortável e tranquila. Nao era uma depsn- dência luxuosa, mas uma sala onòe apetecia estar, danci&

-nos cada m6vel a impressao de que possuía a sua utili- dade específica e a sua história naquele lar. Por exemplo, a grande poltrona de co&ro era, obviamente, polso onde René Josselin costumava instalar-se, todas as noites; do outro lado da sala, d&ante da poltrona, encon- trava-se o televisor, mesmo no seu campo directo de visao. Durante anos, o piano de meia cauda fora usado pela mGça cujo retrato se via na parede e, perto de outra pol- trona, menos patriarcal que a do chefe da familia, via-se uma mesa de costura, estilo Luís XV. --Ouer que a chame? --Preferia falar com ela, noutro sítio

Saint-Hubert foi bater a uma porta, desapareceu, durante uns segundos. Voltou para buscar Maigret, que, ao longo do corredor, teve oportun&dade de entrever um quarto de cama, com uma mulher deitada e um homem debrucado à cabeceira do leito de altos espaldares. Urr& outra mulher, ainda jovem, aproximou-se do cornis- sário e convldou, em surd&na:

--Importa-se de acompanhar-me ao meu ant&go quarto,

se faz favor

Era uma divisao que permanecera quarto de dormir de

rapariga solteira, com recordaçoes, bugigangas, fo&grafias, como se a jovem, depois de casada, quisesse reencontrar, na ca&a dos pais, o cenário da sua infancia. --& o Comissário Maigret, nao é verdade? Ele conf&rmou com um aceno de cabeça.

-- Pode fumar o seu cachimbo

o dia agarrado a um cigarro, com excepçao dos momentos em que está a ver doentes Trazia um vestido de noite e notava-se que, antes de ter ido para o teatro, passara pelo cabeleireiro. Nervosa-

O meu marido passa

mente, torc&a um lenço entre as maos. --Prefere f&car em pé, Comissário?

--Sim

E a senhora também, nao é verdade?

Nao conseguia manter-se quieta, andando de um ladb

para outro, sem conseguir fixar os olhos em coisa alguma. --Nao sei se imagina o efeito que um caso destes faz

numa pessoa

nos jornais, na telefonia, na televisao

pensar que uma tal coisa possa vir a suceder-lhe

do pai! --Gostava muito dele?

--Certamente! Era um homem de uma bondade excep-

cional

necessário, senhor Comissário, que o senhor consiga com-

preender o que se passou, de maneira a poder explicar-

N&nguém me t&ra da cabeca que se tratou dé um erro terrível

Coitado

Ouvimos, diariamente, falar de crimes

mas ninguém vai

e eu era tudo para ele

Sou filha únlca

Torna-se

-nos

--Pensa que o assassino se enganou no andair do prédio?

A mulher fitou-o, como um náufrago que se agarra a

uma tábua de salvacao, mas logo abanou a cabeca.

--Nao é possível

Decerto fo& o meu pai quem abriu a porta

O comissário gritou:

A fechadura nao fol forçada

--Lapointe!

Apresentou-o e o sempre tímido inspector corou, por achar-se num quarto de rapariga.

--Permite que Ihe faca algumas perguntas?--solicitou Maigret.--Ouem teve a ideia de irem hoje ao teatro:

a senhora ou a sua mae?

--& difícil ter-se uma certeza

da minha mae, já que é sempre ela quem insiste para eu

Podes entrar.

Creio que a ideia partiu

sair

o outro com dez meses.

&Ouando o meu marido nao se encontra a atender os

pacientes no seu consultórlo

nunca vou

domiciliárias. & um homem que se entregou inteiramente

à sua proflssao.

Tenho dois filhos: o mais velho com dols ano& e

onde, de resto, praticamente,

está no hospital ou anda a dar consultas

*Por esse mot&vo, de tempos a tempos, duas ou três vezes por mês, a mae telefona a desaf&ar-me para sair com ela. Esta noite representavam uma peca que eu estava interessada em ver

--O seu mar&do nao poder&a tê-la acompanhado? --Só termina as consultas depo&s das nove e meia. Além disso, nao gosta de teatro --A que horas a senhora veio cá a casa? --Por volta das o&to e meia. --Onde moram? --No Boulevar& Brurle, junto da ACidade Universitária+ --Veio de táxi? --Nao. O meu mariòo trouxeme de carro. Tinha de ir

ver dois doentes e ficava-lhe em caminho. --Ele subiu? --Nao. Deixou-me à porta!

--Tinha combinad& consigo voltar a buscá-la?

--Bem

quase sempre, da mesma mane&ra. Paul

meu marido

mava vir para aqui e ele e o meu pa& f&cavam a jogar xadrez ou a ver televisao, até voltarmos. --Foi o que, ontem, se passou? --Sim, segundo o que ele me d&sse. Chegou, pouco depois das nove e me&a. Comecaram uma partida de xadrez, mas, em seguida, foi chamado ao telefone --A que horas? --Nao sei. Paul, quando falou comigo, nao teve tempo

Ouando a mae e eu saímos, tu&o se passa,

é o nome do

depo&s de ter visto os seus doentes, costu-

de entrar em pormenores. Saiu e, só mais tarde, quando

a mae e eu v&mos o que o senhor sabe

--Nessa altura, onde se achava o seu mar&do?

--Telefone& para m&nha casa, &med&atamente, e Ger-

maine

tinha regressado --A senhora nao se lembrou de avisar a PolíciR?

é a nossa crlada

&nformou que ele ain&a nao

--Nem sei bem o que fiz

tinhamos ficado muito transtornadas

perceber

Decidi telefonar ao dr. Larue, que, além de mbd&ico assistente do pai, é nosso amigo de há muito tempo --Nao se admirou com a ausência do seu marido? --Pensei que tivesse sido chamado para um caso de

urgência

para o hospital

-nos

de momento. A mae e eu

Nao conseguíamos

Precisávamos de alguém capaz de aconselhar-

Só depois de o dr. Larue ter chegado, telefonei

Foi aí que o apanhei

--Qual foi a reacçao do seu marido?

--Quis vir logo para cá. O dr. Larue já tinha chamado

a Policia

ordem exacta em que suoe&eram

a minha mae, que ficou com o ar de nem sequer saber

onde estava

Nao sei se estarei a contar-lhe os factos pela

Tive de ooupar-me com

--Que idade tem ela? --Cinquenta e um. f muito mais nova do que o pai, que se casou bastante tarde, aos trinta e cinco --Importa-se de chamar o seu marido? Tendo a porta f&cado aberta, Ma&gret ouviu vozes na sala: a do delegado Merc&er e a de &t&enne Gossard, um jovem Juiz de instruçao que, tal como os outros, tinha sido arrancado à cama. Os homens da Ident&flcaçao Jud&c&ár&a nao tardar&am a invadir a sala. --Mandou-me chamar? Era um homem novo, magro e nervoso. A mulher, que voltara com ele, perguntou timidamente:

--Posso ficar? Maigret fez-lhe um aceno de anuência. Depois, per- guntou ao m&dico:

--Disseram-me, Doutor, que chegou aqui, às meia.

--Um pouco mais tarde

--Tinha acaba&o as suas consultas domiciliárlas-

&

nao muito.

--Pensei ter terrninado o meu trabalho, mas, nestaprofissao, nunca podemos ter a certeza. --Suponho que, quando se ausenta de casa, indica à criada u&ma d&recçao para onde possam comun&car conslgo, nao será assim? --Germa&ne sab&a que eu v&era para aqu&. --& a sua cr&ada de fora? --Sim, mas também se ocupa das cr&ancas, quando minha mulher sai.

--Como achou o seu sogro? --Como de costume. Ouando entrei, estava a ver tele-

visao, mae o programa nao interessava e ele sugeriu-me

uma partida de xadrez. Começámos a jogar quarto, o telefone tocou

--A chamada era para si? --Sim. Germa&ne &nformou&me de que me chamavam

d& urgêr,cia à &ue Jul&e, número 28

em que moramos

doente: Lesage, Lechat

telefonara parecia muito perturbada. --Saiu imediatamente?

--S&m. D&sse ao meu sogro que, se o paclente nao me demorasse mu&to, a&nda voltaria para terminarmos a noesa particia. Caso contrário, &r&a d&rectamente para casa Era, realmente, o que tenc&onava fazer, v&sto levantar-me sempre muito cedo para &r para o hospital --Quanto tempo f&cou com o doente? --Nao exist&a doente algum. Falei com a porteira, que me olhou surpreend&da e me af&rmou que, no prédio, nao havia qualquer inqu&l&no com um r&ome parec&do com Lesage

ou Lachat

criança doente. --Portanto, Dou&or, que fez, depois disso?

--Pe& cença à portelra para telefonar j&ra minha casa e tornei a Perguntar a morada a Germa&ne

tiu-me ser o 28

As dez e um

Fica no mesmo bairro

Germaine ouvira mal o norne da criança

ou talvez Lachat

A pessoa que

e que nao Ihe constara que estivesse uma

Repe&

Sem grande esperanca, aindia tentei o

18 e o 38

Sem resultado

.Já que me achava na rua, aprove&te& para passar pelo hosp&tal e ver um dwnte que me causava certa preo- &

--Que horas eram?

--Nao sei. Creio que fiquei cerca de meia hora à cabeceira do garoto. Depois, com uma das enfermeiras

de serviço, inspeccionei a enfermaria

Por fim, vieram

dizer-me que a mlnha mulher estava ao telefone

--O Doutor foi a última pessoa a ver o seu sogro

vivo

Ele nao Ihe pareceu inquieto?

--De maneira alguma. Quando me acompanhou à porta,

disse-me tencionar acabar a partlda, sozinho

Ouvi-o

colocar a corrente de segurança

--Tem a certeza desse pormenor? --Absoluta. Ouvi o ruído caracteristico do costume. Posso jurar que

--Isso significa--cortou Maigret--que o seu sogro teve de levantar-se para abrir a porta ao assassino.

Viran&se para a mulher, o comissário inquiriu:

--Quando a senhora regressou, com sua mae, a corrente de segurança estava retirada, nao é verdade? --Certamente! De outra maneira, como poderíamos ter

entrado?

O médico dava rápidas fumaças, curtas, acendendo um cigarro, antes do último já estar consumido e olhava, com inquietaçao, ora para o tapete, ora para o comissário. Parecia esforçar-se, sem êxito, por resolver um problema

a mulher nao se achava menos agitada do que ele.

--Peçovos desculpa--avisou Maigret--, mas terei de vol&ar a fazer-lhes estas perguntas, ma&s porm&r&zada- rr&nte. --Compreend&o perfeitamente.

--Agora, cumpre-me trocar algumas impressoes com esses senhores da Procuradoria. --Vao levar o corpo?--sondou a jovem. --i ne&essário. Nao se menc&onou a palavra autópsia, mas adivinhava-se que era isso que ela estava a pensar. --Queira voltar para junto de Madame Josselin. Dentro de instantes, terei também de falar-lhe, mas vou tentar incom&á-la o menos possível.

Na sala, Maigret apertou, maqu&nalmente, algumas maos

e cumprimentou os seus colaboradores da Identificaçao

Judiciária que se atarefavam a instalar os respectivos ins- trumentos. Preocupado, o ju&z de Instruçao perguntava:

--Oue pensa deste caso, Malgret? --Nada. --Nao acha cur&oso que, &ustamente esta nolte, tenham chama&o o genro para ver um doente que nao existia? Oue tal se dava ele com o sogro? --Nao sei. Maigret tinha horror a esta espécie de perguntas, quando todos eles acabavam de penetrar na &ntimidadie de uma família.

O Inspector, que ele v&ra no cubículo d& porteira, entrou na sala, com um bloco-notas na mao, e aproximou-se do grupo. Dirigind&se a Maigret e a Saint-Hubert, informou:

--A porte&ra é formal. Interroguei-a, durante quase uma hora. & uma mulher nova e inteligente, casaoia com um guarda&nocturno. O maridb está de serviço esta noite. --Oue disse ela?

--Oue abriu a porta ao dr. Fabre, às nove e trinta e

cinco. Tem a certeza da hora, porque ia deitarffe e estava

a regular o despertador. Costuma de&tar-se cedo, porque o

fililo, que só tem três meses, acord&, mal rompe o dia, para o primeiro biberao.

&Estava a dormir, quando a campainha tocou. Eram dez

e um quarto. Reconheceu a voz do dr. Fabre que pretend&a sair e disse o nome, quando passou.&-

--Depois disso, quantas pessoas entraram e saíram? --A porteira tentou voltar a adormecer. Estava quasea consegui-lo, quando tornaram a tocar à campainha da oorta da rua. Ouem entrou mencionou o nome Aresco. Trata&se de uma famílla sul&mericana que vive no primeiro andar.

&Ouase a se&quir, o bebé acordou. A mulher tentou, em vao, adormecêlo e viu-se na necessidade de dbr-lhe uma colher de água com açúcar. Mais ninguém entrou ou saiu, até Madame Josselin e a filha re&qressarern a casa Os ma,gistrados, que o ouviam, entreolharam&se com ar grave.

--Por outras palavras--observou o juiz--, o dr. Fabre foi a última pessoa a sair do prédio? --A porteira, Madame Bonnet, é positiva quanto a esse facto. Se estivesse a dormir, Já nao estaria tao certa, mas,

visto que a criança a obr&gou a passar quase toda a noite a pé

--Ainda se achava a pé, quando Madame Josselin e a filha chegaram?

--Parece que sim. Disse-me estar preocupada com o beb6 e que até lamentou o dr. Fabre nao ter voltado, pois tencionava pedir-lhe que observasse o filho.

Olhavam para Maigret interro&qativamente e o c&mis- sário perguntou, carrancw'o, aos peritos da Identificaçao Judiciária:

--Encontraram os cartuchos das duas balas?

O chefe da equipa respondeu:

--Sim

Dois de 6.35

Podernos levar o corpo?

Dois homens, de bata branca, com d&avam ordens. No momento em que René Josselin, coberto por um

lencol, transpunha a porta do dom&cilio, a f&lha entrava na sala, silenc&osamente. Os olhos da jovem cruzaram,se com

os do com&ssár&o que se acercou dela.

--Porque nao se deixou ficar lá dentro? Mad&ame Fabre nao respondeu logo. Com o olhar, aco&r& panhou os maqueiros e a padiola. Só quando a porta se fechou, respondeu, como que num sonho:

--Tive uma

Dirigiu-se a uma cómoda ant&ga, que se encontrava entre

as duas janelas da fachada, e abr&u a gaveta superior.

--De que está à procura?--&nteressou-se o comissário.

Os lábios da jovem tremiam, fitand&o fixamente. --A pistola--murmurou. --Havia uma pistola nessa gaveta?

--S&m

era pequena, a gaveta estava sempre fechada à chave. --Oue tipo de arma? --Uma automát&ca, mu&to estre&ta, azulada, de uma marca belga --Uma Browning 6.35?

--Creio que sim

va&á a palavra &Herstal& e também uns números Os homens tornaram a entreolharse, v&sto a descriçao corresponder à de uma automática de cal&bre 6.35

Há mu&tos anos

Por esse mot&vo, quando

Nao tenho a certeza

Tinha gra-

--Quando fo& a última vez que H v&u?--perguntou Maigret.

--Há já bastante tempo

Certamente isso passou-se numa noite em que jogávamos

às cartas, porque os baralhos estao nessa mesma gaveta

Cá em casa, nao costumamos mudar as co&sas dos seus

sitios hab&tua&s

--E essa p&stola já ai nao está?

Talvez há alguns meses

Ult&mamente, nao temos jogado

--Quer dizer que quem se servlu da arma sabia onde poderia encontrá-la? --Talvez fosse o meu pai, para defender-se Notavase-lhe medo no olhar. --Os seus pais nao têm criada? --Tinham uma que se casou, vai para seis meses. Depois dessa, já experimentaram outras duas. Como a

mae nao gostou de nenhuma delas, preferiu arranjar uma

mulher-a-dias, Madame Manu

Chega às sete da manha

e sai às oito da noite.

Tudb aquilo era natural, normal

que um homem pacífico, havia pouco tempo retirado da

activida&e, fora assassirtado na sua poltrona.

O drama apresentava algo de incomodativo, de estranho.

--Como se sente a sua mae, neste momento?

--O dr. Larue forçou-a a deitar-se. Nao pára de ranger

os dentes e mantém um olhar flxo, como se nao estivesse

consc&ente

encarregou-me de ped&r-lhe autor&zaçao, Com&ssário, para

ministrar-lhe um sedativo

Pode fazê-lo? Porque nao? Nao seria com algumas perguntas im& dlatas a Madame Josselin que Ma&gret Ir&a descobr&r a wrdade.

com a excepçao de

Nao chorou. Parece ter ficado vazia

O doutor

Preferia que ela dormisse

--Pode sim--concedeu.

- 08 homens da Identlflcaçao Judlclárla estavam a&nda a &abalhar, com a calma e minúcia habituais. O delegado &pedla-se.

--Vem daí, Gossard? Trouxe o seu carro? --Nao. Vim de táxi.

--Se quiser, dou-lhe uma bole&a. --Saint-Hubert também partiu, mas nao antes d& ter mluradlo a Maigret:

--Flz bem em cham&-lo?

O comissárlo&ilv&s&onário acer&ou com &a cabeça, confir-

mativarnente, e fo& semtar-se n&na cadeira, &o pedindo

a Lapointe:

--Por favor, abre uma Janela.

A sala estava quente. De súblto, surpreendeu se por

pensar que, apesar cia temperatura estlval, Josselin tivesse passado a noite de janelas fechadas. A atmosfera era a& fada --Vai chamar o genro--indicou a Lapointe. --& para já, *patrao&--prontificou-se o inspector, pa& sando ao corredor.

O méd&co, corn ar exausto, nao tardou em aparecer.

--Diga-me uma co&sa, Dwtor: quando delxou o seu sogro, as janelas desta sala estavam abertas ou fecha&as?

--Nao

Eu achava&me sentado aqu&

S&m

estava aberta

--Foi o Doutor quem a fechou, antes de ssir?

--Eu? Para quê? --Nao sei--resmungou Maigret.

--Nao

resto, aqu& nao estou em m&nha casa --Vem cá mu&tas vezes?

--A volta de uma vez por semana Véronique

mlulher

mae

Véron&que va& f&car por cá, mas eu cp&tar&a de Ir dormlr

a minha &asa. Nunca aconteceu de&xarmos as crlancas

soz&nhas, a no&te &nte&ra, apenas com a criada

amanha

hospltal

. --Nlnauém o &mpede de &r-se embora, Doutor.

Deixe me

Estou a tentar lem&rar-me V&a luzes do lado de fora

.

Tenho quase a certeza de que a janela da esquerda

Ouv&a ti&st&ntamente os ru&dos cla rua

Nao me lembre& d&sso

Faz&a calor

De

a minha

& que v&sitava com maior frequênc&a o pal e a

Já agora, d&ga-me uma colsa, senhor Cornissárlo

De resto,

Isto é. ho&e, às sete horas, tento de estar no

--Muito obrigado. Owiram&no falar com a mulher, no quarto contiguo. Depols, o dr. Fabre atravessou a sala, sem chapéu, com a bolsa do estetoscópio na mao, e cumprimentou os circuns tantes, com um ar embaraçado.

** No page found **

Ouando os três homens sairam do edificio, só Madame Josselin e a filha ficaram em casa. Depois de uma noite agitada, o bebé da porteira devia ter adormecido, visto o cubiculo estar mergulhado na

escuridao. Por um segundo, o dedo de Maigret hesitou em prem&ir a camo&inha. --Oue me diz, Doutor, à ideia de irmos beber qualquer coisa?--perguntou ao médico assistente dos Josselin. - Lapointe, que já se preparava para abrir a porta do

carro preto da Judiciária, suspendeu o gesto. --O dr. Larue consultou o relógio de pulso&

as horas condicionassem a sua resposta.

--Sim

com voz grave, um pouco untuosa, como, decerto, costu-

maria falar aos doentes.--Talvez ainda esteja aberto um bar, em Morrtparn&sse.

O dia ainda nao despontara e as ru&s encontravam-se

quase desertas. Erguendo os olhos para o terceiro andar do prédio, Maigret viu apagar-se a luz da sala, enquanto uma das Janelas permanecia aberta. Iria, finalmente, Véronlque Fabre despir-se e deitar-se no seu antigo qmarto? Ou f&caria à cabeceira da mae a quem a injecçao do médico iá teria adormecldo? Oue estaria a jovem a i&ensar, naquela casa subltarnente

Tomava, com prazer, uma bica--respon&eu,

deserta, onde tantos desconhec&dos se tinham movimentado,

agitadamente?

--Segue-nos no carro--&nd&cou a iapointe.

Bastava-lhes percorrer a Rue Vavrn. i arue e Maigret camlnhavam ao longo do passeio, pausada&te.

O médico era um homem bastante ba&xo, largo de

ombros, gordo, que nunca dev&a perder a calma, a dign&- dade e a docura. Percebia-se que estava habituado a uma clientela abastada, s&mpát&ca e bem-educada, de quem imitava o aspecto e as atitudes, talvez exagerandoas ligei- rarnente. Apesar dos seus c&nquenta anos, permanecia-lhe no olhar uma grande ingenu&dade, um certo receio de magoar os outros, e Maigret, mais tarde, vir&a a saber que i arue expunha, todos os anos, quadros seus na &Galeria dos Médlcos Pintores --Há muito tempo que conhece os Josselin? --Desde que v&m para este ba&rro, isto é, há cerca cle uns vinte anos. Véronique era a&nda uma crianca e, se nao rne engano, fo& por causa dela que me chalT&n, quando teve sarampo, pela primeira vez. Aquela hora, o tempo refrescara e estava húm&do. Um ténue halo c&roava os candeeiros de iluminacao.

Viam,se vários carros estacionados dbfronte de um

cabaret, ainda aberto, na esquina do Boule&ard Raspsll.

O porteiro, uniformizado, que se encontrava à entrada,

tomou os dois homens por cl&entes eventua&s e ao abrir

a porta fez com que ondas de mús&ca rompessem, do

irlterior. No pequeno automóvel preto da Judic&ár&a, i apo&nte

seguira&os, devagar, acabando por estscio&ar junto ao passeio.

A noite de Montparnssse alnda nao termln,rra completa-

mente. Um par discutla, em voz baixa, encostado à parede,

próximo de uma pensao de quartos de &passer.

Tal como o méd&co prevlra, o bar estava air,àa iluminado

e viam-se alguns vultos ao balcao onde uma velha vende-

deira de flores beb&a um csfé que exalava um forte odor

a rum.

--Para mim, um conhaque com água--decidiu Msigret.

O médico hesitou.

--Nao é má idela. Tomo o mesmo. --E tu, Lapointe?--perguntou o comissár&o inspector acercarse deles. --Também, &patrao --Três connaques com água--encornendou. Sentaram-se a uma mess, Junto da montra, e princi- piaram a falar ern voz baixa, enquanto, à sua volta, os

negociozinhos da nolte prosseguiam. Um par de galdéri&s, afrontosamente pintadas, esforcavatse por arrancar dali dois forasteiros nltid&a&nente embriagados. --i gente de bem--afirmou Lsrue, cor,victamente, refe- rlndo-se aos Jossel&n.--Nao tardámos a estabeleoer ami- zade e, corn certa frequência, minha mulher e eu temos

jantadlo ern casa deles

e eles, na nossa.

--Têm dinheiro?--sondou Maigret. --Depende do que se entende por &ter dinlleiro

possuern chegatlhes, à vontade, para a vida que gostam

O que

de fszer. 0 pai de René Josselin Já era dono de ums industriazinha de cartonagem, na Rue Salnt Gothard

simples oficina, ao furKto de um pátio onde trabalhsva uma

dezena de operários. Ouando, por sua morte, o filho her&ou

o r,egócio, comprou máquinas modemas. Na realidade, René

ers urn hornem de bom gosto a quem nao faltavsm ideiars

e iniclativas. Em breve, tornava-se fornecedor dos grandes

uma

industrisls de periumaria e de outras casas de luxo que ut&l&zarn embalagens cartonr&ss para os seus produtos.

--Constourne que casou tarde, por volta dbs trinta e

--i exacto. Continuou a viver na Rue S&ir&t-Go&hard, por cima da oficina, com a mae, que foi sempre doente. Nao escondeu ter sido por causa dela q-ue nao se casou mais cedo. Por um lado, nao queria deixá-la sozinha; por outro, nao se sentia no direito de &mpor a uma jovem a presença de uma sogra doente. Trabalhava muito e vivia exclusivamente para o seu neg6cio. --A sua saúde! --A sua! Com os olhos vermelhos de cansaço, Lapointe nao perdia palavra da oonversa. --Casou-se, um ano depois da mae ter morrido e ins talou-se na Rue Notre&Dame&es-Ch&mps. --Quem era a mulher? --Francine de Lancieux, filha de um coronel reformado. Creio que viviam perto dele, na Rue Saint-Gothard ou talvez na Dareau e foi dessa maneira que Josselin a conheceu. Nessa altura a nòiva devia ter uns vinte e dois anos. --Deran&se bem? --Eram um dos casais mais unidos que conheci até hoje. Pouco depois, t&veram a f&lha, Véron&que, que o Comis- sário teve ocas&ao de conhecer esta no&te. Depois, estiveram à espera de um f&lho, mas uma operacao bastante dolorosa pôs termo a essa esperança. ¨Gente de bem&, d&ssera o com&ssário da Polícia do Bairro; o rnédico repetira-o. Gente quase sem história, num cenário fofo e repousante. --Na semana passada, voltaram de La Baule. Ouando

Véronique era catraia, compraram aí uma morad&a e pas- saram a &r para lá, todos os anos. Desde que ela é mae, levam também os netos. --E o marido?. --O dr. Fabre? Nao sei se teve férias. Ouando muito, folgou uma sernana. Talvez tenha &oza&o três fins& -semana, desde as manhas de sábado, até às noltes de domingo.

* Fabre é um homem que se consagra totalmente à medicina e aos seus pacientes; uma espécie de santo lalco. Quando conheceu Véronique, estava como interno no * Hospital das Crianças Doentes + e, se nao tivesse casado, ter-se-ia, segundo todas as probabilidades, satis- feito com a carreira hospitalar, sem se interessar por criar uma clientela particular.,.

--Acha que fs&i a mulher quem instou com ele para que abrisse um consultório? --Ao responder a essa pergunta, nao creio estar a trair um segredo profissional. Fabre nao o esconde. Se se tivesse consagrado, inteiramente, ao hospital, teria tido dificuldades em sustentar a família. O sogro quis que ele abrisse um consultório e emprestou-lhe dinheiro. O senhor viu-o. Nao se preocupa com a roupa que veste, nem com o aspecto exterior das coisas. Geralmente, apresenta-se com o fato amarrotado e, se nao insistem com ele, é capaz de esquecer-se de mudar de camisa. --O d&r. Fabre dava-se bem com Josselin? --Era evidente que se estimavam. Josselin sentia um certo orgulho no genro e, além disso, tinham a paixao comum do xadrez.

--Josselin estava doente?

--Bem

sempre um homem gordo e, quando o conheci, pesava cento e dez quilos. Isso nao o impedia de trabalhar doze ou treze horas por dia. Ora, o coraçao nao aguentava. Há dois anos sofreu uma crise que, embora benigna, já cons- tituiu um sinal de alarme.

fui eu que o convenci a reformar-se. Foi

&Aconselhei-o a arranjar um ajudante e a contentar-se com a supervisao da fábrica, apenas para manter-se ocupado. Pois, para minha grande surpresa, preferiu aband!onar a fábrica, explicando ser incapaz de fazer só metade das coisas.& --ven&eu a fábrica?

--Sim, a dois dos seus empregados mais antigos. Como estes nao tinham capital que chegasse, Josselin mante&se interessado nos lucros, por um certo número de anos, nao sei precisamente quantos. --Em que se ocupava, de há dois anos para cá? --De manha, ia dar um passeio ao Jardim do Luxem- burgo; vi-o lá, várias vezes. Caminhava lenta e cautelosa- mente, como a maioria dos cardíacos, po&que. como é fre- quente, julgava-se pior do que realmente estava. *Lia. Por acaso viu a sua biblioteca? Um homem que

nunca arranjara tempo para ler descobriu a literatura, no fim da vida, e andava entusiasmado.-

--E a mulher? --Apesar da cr&ada e, depois, da mulher-a-d&as, sempre

se ocu,oou dos arrsnjos domésticos. Ouan&o estiveram sem serviçal, chegou a &r ao mercado. *Além d&sso, quase todos os dias, ia ao Boulevard Brune ver os netos e passear o mais velho, na cadeir&nha de rodas, pelo Parc de Montsouris & --O Doutor deve ter f&ca&o deveras surpreendido, ao

saber o que se passou esta noite --A&nda me custa a acreditar. Assist& a alguns dramas, ocorridos com pacientes meus, embora poucos. Contudo, no presente caso, nu,nca poderia prever o que acor&teceu! &Compreende o que quero dizer? Nos outros casos apesar das aparências de normalida*, existia uma espécie

de fractura na conv&vênc&a fam&l&ar

turbaçao. Porém, desta vez, com Josselin, perco-me em conjecturas -

um elemento de per-

Maigret fez s&nal ao cr&ado para que reenchesse oscopos. Sempre com a mesma unçao, o médico prosseguiu:

--A reacçao de Madame Jossel&n está a causar-me

certa inquietaçao

de reaccao. a sua astenia

Ou, ma&s propr&amente, a sua ausência

&Nao consegui arrancar-lhe uma frase diurante toda a noite. Olhava para mim, para a filha e para o genro, como se nao os visse. Nao deitou uma lágrima. * Do quarto dela, ouvíamos os ruídos provenientes da sala. Com um pouco de imaginaçao, nao Ihe ser&a d&fícil

ad&vintlar o que estava a passar-se: os flashes dos fotó-

grafos, por exemplo

depois, quando levaram o corpo do

*Pensei que, nesse momento, Francine Josselin reagisse e tentasse levantar-se. Contudo, embora estivesse cons- ciente, nao se moveu, nem sequer estremeceu

quase toda a sua vida com um homem e

subitamente, quando regressa do teatro, encontra-se sozi- nha

Passou

.Pergunto-me o que irá fazer, agora --Acha que a filha vai levá-la para a casa dela? --Nao poderá fazê-lo. Os Fabres vivem num desses

préd&os modernos em que os andares sao medonhamente exíguos. Claro que Francine gosta da filha e adora os netos, mas nao a imagino a viver com eles.

--Bem

manha, tenho de ir ver vários doentes

De maneira alguma!

Tinha tirado a carteira da algibeira, mas Maigret fora

sao já horas de ir deitar-me

Nao

Am&nha de Nao, Comissário! &

mais rápido. Do cabaret do lado saía um grande grupo: músicos bailarinas, empregados, que esperavam uns pelos outros ou se despediam, audivelmente; no empedrado do passeio

soava o ruído de saltos altos. Lapointe instalou-se ao volante, ao lado de um Ma&igret impassível . --Vai para casa, .patrao&? --Sim. Durante um bom pedaço, rodaram em silêncio, através das ruas desertas.

--Amanha de manha, bem cedo

que rompa o dia, quero que um dos nossos inspectores vá à Rue Notre Dame-des-Champs, interrogar todos os inqui- linos, a med&dia que estes se forem levantando. ¨& possivel que alguém tenha ouv&do o tiro, sem se perocupar, por pensar que se tratasse do esto&ro de um

pneu

inquilinos, a partir das nove e mela

ou melhor, hoje, logo

Também quero saber qua&s as &das e vin&as desses

+

--Trato disso, .patrao+. --Nao. i}epois de transmitires as ordens, tens de ir para a cama. Se Torrence estiver livre, manda-o à Rue Julíe, invest&gar a que portas o dr. Fabre d&sse ter andado a bater. --Fixe. --Já agora, para descargo de consciência, manda alguém verificar a que horas, efectivamente, chegou ao hospital. --f tudo?

Sim e

Tenho a se&saçao de que me

es&ueci de qualquer cols&. Há pelo menos um quarto de

hora que tento lembrar-me -do que uma vez, esta no&te

uma &deia pelo espirito, mas surgiu alguém que me inter-

rompeu o pensamento

falou com&go

e já nao fui capaz de tornar a lembrar-me daquilo em que

estivera quase a pensar

Tinham chegado ao Boulevard Richard-Lenolr onde Mai- gret vivia. A sua janela continuava aberta, tal como a dos Josselln f&cara, ai&ós a saída dos elementos da Procuradoria. --Boa noite, rapaz! --Boa noite, &patrao&! --Nao devo chegar ao Quai, antes das dez

Já t&ve essa &mpressao, mais A certa altura, passou-me

Cre&o que fo& Sa&nt-Hubert que

Dei-lhe atencao, para poder respon&br-lhe

Sao coisas que acontecem

Ruminando pensamentos imprec&sos, Ma&gret subiu as

escadas e foi dar com a mulher que, em camlsa de noite,

já Ihe abria a porta.

--Estas m&ito cansado&

--Creio que nao

Nao se sentia realmente cansado, mas estava preo-

cupado, pouco à vontade e um tanto ou quanto triste, como se o drama da Rue Notre-Dame-de&Champs o afec- tasse pessoalmente.

O médico de rosto gorducho pusera o dedo na ferida:

os Josselin eram da espécie de gente em cuja vida nao

se consegue imaginar um drama.

Recordava as reacçoes de todos eles: de Véronique, do marido e de Madame Josselin que ele ainda nao vira,

a nao ser, de relance, deitada num leito. Nem sequer

Nao

pedira para falar com ela. Todo o caso era incomodativo. Por exemplo, custa&lhe ter de mandar verificar as declaraçoes do dr. Fabre, como

se ele fosse um suspeito.

Contudo, se apenas se restringisse aos factos, era no

médico que deveria pensar como possível homicida.

O delegado e o juiz de Instruçao Gossard, pelos olhares

trocados, também pensavam na provável culpabilidade do

genro da vítima e, se nada tinham dito, isso devia&se ao facto de o caso estar a incomodá-los, tanto como a Maigret. Quem poderia provar que a mae e a filha tinham real- mente estado no teatro, naquela noite? Certamente, pouca gente poderia testem&nhar esse facto e, até entao, ninguém

o fizera.

Fabre chegara à Rue Notre-Dame&es-Champs, por volta das nove e meia. Comecara uma partida de xad&rez com o sogro.

Tinham telefonado a informá-lo da necessidade urgente de ir ver um garoto doente, na Rue Julie. Isso nada tinha de extraordinário e provawlmente, como a todos os médicos, acontecia-lhe reoeber frequentes chamadas de urgência. Mas nao seria, na verdade, uma coincidência já pertur-

badora essa de a criada nao ter conseguido ouvlr, comnitidez, o apelido da crianca? E também confun&ido o nome da rua ou o número da porta, mandando o m&ico a um local onde ninguém precisava da sua comparência?

Em . vez de voltar a casa do sogro, a fim de esperar pela mulher, Fabre tinha seguido para o hospital. Com o feitio que o caracterizava, isso já deveria ter-lhe sucedido muitas vezes.

Durante todo esse tempo, um só inquilino entrara no prédio, indicando o nome à porteira, ao passar-lhe pela porta do cubículo. A m&ulher levantara-se, mantivera-se um pedaco a pé e, ao ser interrogada, afirmara que, daí em diante, ninguem mais tinha entrado ou saído. --Ainda nao dormes? --Nao. --Tens a certeza de que queres levantar-te às nove horas?

--Tenho, sim O sono tardou. Maigret voltava a ver o vulto magro do ped&iatra, o seu fato enxovalhado, os olhos demasiado brilhantes de quem nao dorme o necessário. Saber-se-ia suspeito? A mulher e a sogra teriam pensado nessa hipó tese?

Em vez de se apressarem a avisar a Polícia, logo que ha&am descoberto o cadáver. tinham telefonado, imediata- mente, para a casa do Boulevard Brune. Ora, nem uma nem outra estavam a par da ocorrência da Rue Julie. S6 a criada sabia por que motivo Fabre tinha deixado a Rue

Notre-Dame des-Champs.

Nao se tinham lembrado de que o médico poderia estar no hospital e recorreram ao dr. Larue, assistente da família. Que teriam dito, uma à outra, ao ficarem a s6s c& o cadiáver? Estaria já Madame Jossel&n em estado de choque?

Fora Véronique quem, enquanto a mae permanecia abstracta e silenciosa, tomara todas as decisoes? Mal chegara, Larue percebera o erro, se nao a impru- dência, que as mulheres tlnham cometido, nao chamando a Policla. Por isso apressara-se a informar, como devia, o Comlssariado do Bairro.

Maigret gostarla de ter vivido todos aqueles momentos. Agora, vla-se forçado a tentar reconstituir o decurso da noite, minuto por minuto.

Quem se lembrara da poss&bilidade de Fabre estar no hospital ?

Larue? Véronique? Quem tivera a precauçao de verificar se, lá em casa, faltava algum objecto e concluíra que nao se tratava de um crime crapuloso?

Tinham levado Madame Josselin para o quarto. Larue mantivera-se-lhe à cabeceira do le&to e, ap6s ter pedido autorizaçao a Maigret, inJectara&lhe um sedativo. Fabre chegara. Encontrara a Polícia a investigar o crime, com o sogro, morto, na poltrona.

Meio 8 dormir, Maigret raciocinava:

*Foi Véronique quem se lembrou da pistola automática.

Se, para esse efeito, nao tivesse aberto a gaveta, sabendo concretamente aquilo que procurava, sem dúvida ninguém suspeitaria da existência da arma.+ Ora, dessa maneira, nao estava a eliminar a possibili- dade de o crime ter sido cometido por um desconhecido? Fabre afirmara ter ouvido o sogro colocar a corrente de segurança na porta, quando, às dez e um quarto, o acompanhara à saída.

Portanto, o próprio Josselin abrira a porta ao seu assas- sino. E nao desconfiara dele, visto que voltara a instalar-se na poltrona. Se. nessa altura, como era provável, a janela ainda se

encontrava aberta, alguém a tinha fechado, depois disso:

Josselin ou o seu visitante nocturno. E se, na realidade, o crime fora perpetrado com aquela Browning 6.35, nao havia dúvida de que o homic&da sabia onde a guardavam e pudera apoderar-se dela, sem levantar suspeitas. E, supondo ainda que o assassino viera do exterior,

como con&seguira sair do prédio. sem que a porteira Ihe abrisse a porta? Maigret acabou por mergulhar num sono agitado e, pesadamente, nao cessou de dar reviravoltas na cama, durante toda a noite. -Fo& com alívio que, de manha, sentiu o aroma do café, ouviu a voz de Madame Maigret e viu, diante de si, a

janela aberta, mostrando os telhados de um Paris cheio d&e sol.

--Sao nov&horas

Logo que acordou lembrou-se do caso Josselin, nos seus mais ínfirnos pormenores, como se nao tivesse havido

o intervalo do sono. . --Passa-me a lista dos telefones--pediu. Procurou o número dos Josselin; discou-o; ouviu, durante muito tempo, retinir a campainha e, finalmente, uma voz que ainda desconhecia. --& de casa de Monsieur René Josselin? --O senhor morreu. --Quem fala? --Daqui, Madame Manu, mulher-a-dias. --Madame Fabre ainda aí está? --Ouem fala? --Comissário Maigret, da Polícia Judiciária. Estive aí, &n&rn & n&itc- --A menina saiu agora mesmo. Foi a casa mudar de roupa. --E Madarne Josselin?

--anunciou ela.

40

--Está ainda a dormir. Deram-lhe uma droga e parece que nao acordará, antes de a filha chegar.

--Nao apareceu por aí qualquer pessoa? --Nao veio ninguém. Estou a arrumar a casa. Ouando cá chegue&, esta ma&ha, nao sonhava que --Muito obrigado--cortou o comissário, desligando. Madame Ma&gret abst&nha-se de fazer-lhe perguntas e ele limitou-se a resumir:

--Um homem de bem que& arranjou maneira de ser assassinado, sabe-se lá porquê.

Recordava a imagem de Josselin! torcido na poltrona. Depois, esforçou-se por imaginá-lo vivo. Teria, realmente, ficado sozinho, diante do tabuleiro, e continuado, por mais um pedaco, a movimentar ora as pe,cas pretas ora as brancas?

--Se, porventura, esperava alguém Sabendo que o genro viria passar a noite com ele, nao devia ter marcado qualquer encontro secreto. Ou entao

Poder-s&ia pensar que o telefonema que induzira o dr. Fabre a sair, para ir, ao engano, à Rue Julie --& a .gente de bem. que sempre nos dá mais tra- balho--resmungou ao acabar o pequeno-almoco. E dirigiu-se

para a casa de banho.

Nao foi logo para o Quai, limitandose a telefonar para certificar-se de que nao precisavam dele.

--Rue de Saint-Gothard--indicou ao motorista do táxi. Primeiro, queria investigar o que dizia respeito a René Josselin. Nao havia dúvida de que este fora a vítima mas nao se mata sem uma razao, seJa ela qual for. Paris continuava num ambiente de férias. Já nao era o Paris vazio, de Agosto, mas subsistla uma certa pregulça no ar, como uma hesltaçao em retomar a vlda quotldiana. Se estivesse a chover, se estivesse frio, tudo seria mais fácil. Naquele ano, o Verao nao se decldia a morrer.

Ouando sa&u da Rue Dsre&u, Junto da paS&si&m de nivel, o motorista indagou:

--Qual o número? --Nao sei. & urna fábrica de cartoe&. Na curva Imediata viram um grande edificio de cimento arm&o, sem cortinas nas janelas. A todo o cornprimento da fachada, lia-se:

&Antl& Casa Josselin Jouane e Goulet. Sucessores.

--Quer que espere? --Sirn. &iavia duas portas: a da of&c&na e uma outra, por onde Malgret entrou nuns escr&t6r&os deveras modemos. --Oue deseja? Uma moca a&aente passava a cabeca pela portinhola de um balcao envidracado e examinava-o com curiosidasie. Na v&erdade, Ma&gret arvorava um semblante mal-humo rado; a cara que sempre mostrava, no in&c&o de uma inves- tigaçao, e olhava lentamente em redor, com ar de quem faz um inventario. --Ouem d&rige a casa7 --Os senhores Jouane e Goulet--respondeu a rapariga, como se a rosposta fosse evidente. --Bem se&. Mas qual dos do&s é o pr&nc&pal?

--D&pend`e. Mons&eur Jouane está encarregado do sector artfstico e Mons&eur Goulet do sector &nd&ustrial e comer- cial. --Estao cá os do&s, neste momento? --Monsieur Goulet a&nda se encontra em férias. O senhor que deseja? --Falar com Mons&eur Jouane. --Da parte de quem? --Co&mlssário Malgret.

--Tem entrevista marcada? --Nao. --Nesse caso, um momento A jovem foi falar com outra moça, de bata branca, ao fundo da &gaiola. envidraçada, e aquela, depois de uma olha&ela curiosa ao visitante, saiu da sala.

--Foram chamá-lo. Está na of icina. Maigret ouvia o estridor das máquinas e, quando uma porta lateral se abriu, viu um salao muito vasto onde mulheres e raparigas, vestidas de branco, trabalhavam em filas, como se tratasse de um trabalho em cadeia. --Perguntou por mim? O homem devia ter cerca de quarenta e cinco anos. Era alto, tinha uma expressao franca e também envergava uma bata branca, desabotoada, que deixava entrever um fato de born corte. --Tenha a bondade de acompanhar-me. Subiram uma escada de castanho-claro. Através de uma espessa vidraça, via-se me&a dúz&a de

desenhadores, inclinados sobre os respectivos estiradores. Passaram outra porta e penetraram num escritório, cheio de sol, onde, a um canto, uma jovem secretária escrev&a à máquina. Pelos vistos, até o pessoal fora modernizado. Jouane ofereceu uma cadeira a Maigret e sentou-se atrás de uma ampla escrivaninha de magno. Estava sur- preendido, talvez um pouco inquieto.

--Nao sei por que motivo

--Já está ao corrente da morte de Monsieur Josselin? --O quê? Monsieur Josselin morreu? Ouando? Já voltou

--preambulou.

de La Baule? --Nao o viu, desde que ele regressou de férias? ---Certamente que nao! Ele ainda nao veio ver-nos Teve um ata&ue? --Foi assassinado.

--Assa-ssina-do? Percebia-se que Jouane tintla d&f&culdade em acred&ltar. --Nao é possivel!--exclamou.--Ouem é que --Foi abat&do, em casa, ontem à noite, com dois tiros de pistola.

--Por quem? --& o que estou a tentar descobrir, Monsieur Jouane. --A mulher nao estava com ele? --nnha &do ao teatro com a filha. Visivelmente emocionado, Jouane baixou a cabec,a. --Pobre homem!--art&culou.--f de tal maneira ina- creditável !

Parecia revoltado.

--Mas quem poderia ter interesse

Comissário

homem deste mundo

do que um pai

anos e náo sabia coisa alguma

antes

Comecei por mandarete e passava o d&a &nte&ro, de bic&-

cleta, a fazer recados

ensinou tudo

E quando decidiu retirar-se da actividade, chamou-nos ao

escritório, a Goulet e a mim

A minha mae trabalhava como mulher-a-dias

Escute, senhor

O senhor nao o conhecia

Era o melhor

Fo& como um pai para mim

melhor

Ouando vim para aqui, tinha dezasseis

O meu pai morrera pouco

Fo& Mons&eur Josselin quem me

Depois, nomeou-me chefe de serviço

Goulet tinha comecado

como operário

*Anunciou-nos que o médico o aconselhara a trabalhar

menos e disse nos nao ser capaz

vezes por semana, como amador, nao era possivel a um homem como ele, que gostava de olhar por tudo o que, quase todas as noites, ficava a trabalhar, quando já todos tinham saido

Vir aqui, duas ou três

--Recearam vir a ter um patrao que nao conheciam? --Confesso que sim. Para Goulet e para mim, 8 saída

de Monsieur Josselin pareceu-nos urna verdadeira catás- trofe. Olhámos um para o outro, aterrados, enquanto ele

nos sorr&a, com ar malicioso

--Contaram-mo, na noite passada. --Quern? --O médlico assistente. --Evidentemente, Goulet e eu tinhamos algumas econo

Sabe o que fez?

mias, mas na&a que chegasse para comprar uma casa como

est&

arranjaram maneira de ceder-nos a empresa, distribuindo

os nossos pagamentos por um prazo muito longo

dizer a verdade, ainda temos vinte anos, à nossa frente. --Ele vinha aqui, de quando em quando?

--Costumava visitar-nos, òiscretamente, como se re-

ceasse incomodar-nos. Informava-se do curso da produçao, perguntava-nos se tudo corria bem e se estávamos con-

tentes

dav&o, como se nao tivesse o minimo direito de intervir

--Sabe se ele tinha inimigos? --Nenhum! Nao era homem para ter inimigos. Toda a

gente gostava dele. Pode ir ao escritório, senhor Comis-

sário, à oficina

pensaram do patrao. --& casado, Monsieur Jouane? --Sou, sim. Tenho três filhos e vivo numa casa, perto de Versalhes, que mandei construir Também aquele era um homem de bem! Seria que Maigret, ao longo de todo o caso, só iria encontrar cgente

e pergunte seja a quem for o que sempre

Monsieur Josselin mandou chamar o notário e ambos

Para

e, quando suced&a pedirmos-lhe um conselho,

de bem&?

Esse facto quase o irritava porque, bem feitas as contas, tin&a, de um lado, um morto e, do outro, um individuo que disparara duas vezes sobre René Josselin. --Costumava ir, muitas vezes, à Ique Notr&Dame&es- -Champs? --Devo ter ido lá umas quatro ou cinco vezes, ao

todo

Ah! Já me esquecia

Há coisa de cinco anos,

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olaJo opun6as &U!Iassol& 4wspeW & sol!apJa4 sop JoAe& wa &sowJal sowsaw sou ol-eplnbll e sowaJsssed aluaweloaJ!p ol!qap ossou o sowJs6ed a41 ep za w3 saQ&eJalle eled oezeJ oFaA oeN o,eN aJads3 oss!u opesuad e4u!l oeN-- &,w!sss ,a o,eu &soJIa3ueu!& sopJooe SOSSOA SO Jelalle ,e&l osu U!lassor Jna!suoW ap alJow e anb o4uodns--

¨ela woo so&eluoo sollnw sowaAIl eounu sew ed o JaA sJsd opuenb wa zaA ap &eo Jod eAessed--

&,e411& e 3-- qovs oluenb no oluel wn a ¨--wa&-- ioss! woo Jaz!p Jan.b ano-- op!Jew o enb olaua6 owsaw op e!as oeu eJoqwa eossad a&ualaoxa ewn Jas ap Je wal ssw &lew e-o&a4uo&--

iu!lassor 4wepeW ep esued anb :auenor Jna!suoW &es!oo ewn ew-e6!a--

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eseo elsa eJsd sow,eJlu3 e4u!w e souaw no s!eW-- iala W41 4PeP! ano-- o41sqeJ& ap oJnow wn oo!u&,al wn &-- iE1E,Es nas o a eossad ap oJau,a6 ano--

esaJdwa e nossed sou ullassor JnalsuoW opuenb &o&el&uoo op eJnleulsse ep elp ou &saJa41nw sessou ss a &alnoo wo& &el lalUer WlS--

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¨¨ suaplo J&a&aJ e olaJJOo o a41-JeAal &se4uew se sEpOl &el el &a&o& eluslseq edu6 ewn eAal ullassor JnalsuoW opuenb

&soue oou!o ep es!oo ,eH eloanbsa ew er i4& EpE oe &saza oou!o no oJIenb S8WIl yl Opl Jal O ea--

Gsdwe&-

-sap&wea-al&oN an& e. sazaA se&lnu JI eAewnlso&-- ullassor ,auaU aJqos sazaA ssnp eJeJedslp an& onp!Alpu! wn &oJ&no op &a olJOW wn &opel wn qp e4ul& 'SelUOO S8 sel!a& waq anbJod eAellJJ! o asenb o&e& ass3 &.waq 4p

alua6. JeJ&uoOua e!JI gs&os& o 0,00l ap o6uol oe &aJ6!eW enb s!Jes jweq ap &uawo4 wn eJa alanbe w,aqwel l!nJlsuoo !4puew anb &se41esJal& ep ol&ad &esea ewnu oA!A a so41!& saJl o4ual w!s &noS-- iauenor Jna!suow &opeseo &-- oe,l&ed op wsJesuad

aldwas anb o Jo& wanb& s e!as alunBJad a eU!o!&o e& o!Jys

fi!Wo& Jo4uas &o!Jgl!l&sa oe l! apod alap eAelsoB aluaB e epol ¨so6!w!u! Jal eJed wawo4 eJa oe,N jwn4uaN-- iSo6!w!u! e4u!l ala as aqsS--

J!AJa&Ul ap ollaJlp olu!u!w o aSsaA!& oe,u as owoo &o-eAep &o41asuoo wn a41-sowJ!pad e!paons opuenb &a --sa&u& -uoo soweAy&sa as a uuaq e!JJoo opnl as sou-e s&un6Jad oe&npoJd ep os&no op as-e eWJo&ul sou-Jepowooul 4sssae -aJ as owoo &alu4we&aJos!p sou-JsllslA eAswnlso&-- &,opuenb uua opuenb ap !nbe e4UlA al3-- aluaJ& essou e&-&soue alulA sowal epule apepJe e Jazlp eJed ¨--o6uol ol!nw oz&Jd wn Jod soluawe6ed sossou so

opu!nq!Jls!p esaJdwa e sou-Japao ep eJ!auew wsJs!ueJJe soqwe a E!Jylou o Jeuue4o nopuew u!lassor ma!suoW el&a

owoo eseo eum JsJdluoa eJed asse6a40 anb epeu sew &se!w -ouo&a sewn61e sowe4u!l na a lalnog &a&uawalu&p!A3-- ¨&lU415!ss8 EE!P&W O--

-&uan&--

epessed al!ou eu &ow-weJe&uo&--

iza& 4nb o aqeS osop!lew Je woo e!JJos sou ala olusnbua SopeJIale &oJlno o eJeò wn sowyqlo a&

A rua estava calma, provinciana, com sol de um lado

e sombra <io outro, dois cáes que se cheiravam e, por detrás das Janelas abertas, mulheres quie arrumavam a casa.

Tres irmazinhas dos Pobrezinhos, com as suas saias

largas e corn as asas das toucas esvoaçandio como aves dirigian&se ao Jardim do Luxemburgo e Maigret viu-ais passar, ao longe, sem pensar em nada.

Depois, franziu o sobrolho, ao notar, defronte da casa dos Josselin, a presença de um polícia que impedia a passagem de meia dúzia de repórteres e fotógrafos.

Já devia contar com aquilo, pois era o costume. Acabara

de dizer a Jouane que os jornais dessa tarde noticiariam toda a história. René Josselin fora assassinado e, auto- maticamente, os assassinados entravam sempre no dom4nio

público. Dentro de algumas horas, a vida íntima de uma farnília seria exposta, com os mais recônditos porm&ores verdadeiros ou falsos, e ninguém deixaria de sentir-se no direito de fazer hipóteses. Por que rnotivo, subitamente, isso o escandalizava?

E ficou irritado por escandalizar-se. Tinha a imipressáo

de que, involuntariamente, comecara a ficar influenciado

peia atmosfera burguesa, quase edificante, que cercava

aquela gente: &gente de bem,., como a classificavam todas

as pessoas quie interrogava.

Ouando desceu do táxi, os fot6grafos dispararam as

objectivas e, enquanto pagava ao motorista, viu-se rodeado pelos rep6rteres. --Qual é a sua opiniáo, Comissário? Afastou-os com um gesto e sublinhou, surdamente:

--Ouando tiver declaraçoes a fazer, convoco a Imprensa. Estáo, lá em cima, duas mulheres que sofrem e seria bem mais decente que as deixassem em paz.

Contudo, ele próprio náo iria deixá-las em paz.

Saudou o policia e entrou no prédio que, pela primeira vez, via à luz do dia e que era claro e alegre.

Ia passar, sem parar no cubículo da porteira onde uma

cortina de cassa branca protegia a vidra,ca da porta, mas acabou por deter-se, bateu e rodou a maçaneta.

Como nos prédios dos edificios elegantes, o cubículo era uma espécie de saleta com m6veis enverniza&os. Uma voz perguntou:

--Quem é? --Comissário Maigret. --Queira entrar, senhor Comissário.

A voz provinha de uma cozinha com as paredes pintadas

de branco onde a porteira, de mangas arrega,cadas e avental branco sobre o vestido preto, estava a ferver biberóes.

Era bonita, bem feita e ainda mantlnha indicios da sua recente maternidade. Apontando para uma porta interior,

murmurou:

--Náo fale muito alto. O meu homem está a dormir, Maigret lembrou-se de que o marido era guarda-noctumo e que estivera de serviço, na noite anterior.

--Desde manhá que os jornalistas náo me largam e alguns desses senhores, 0proveitando uma distracçáo minha, permitiram-se ir lá ac&ma. O meu marido teve de telefonar para o Comissariado do Bairro que nos mandou um polícia.

O bebé dormia num berço de vime, enfeitado com

rendas amarelas.

--Há novidades?--interessou-se ela.

Maigret abanou a cabeça. Depois, com voz branda,

Ir&ulrlu:&

--Tem a certeza daquilo que dlsse ao meu inspector?

Ontem, ninguém salur depols do dr. Fabre?

--Nlnguém, senhor Comissário. Repetl a mesma coisa

a outros dois dos seus homens

corado que se chama Torrence, salvo erro

òe uma hora a Interrogar os inquilinos

cá muitos, pols alguns foram de férias. Por exemplo, 08

O prédio está

meio vazlo. --Há muito tempo que trabalha aqui? --Há sels anos. Vim substituir uma das minhas tias que viveu cá durante quarenta anos. --Os Josselin costumavam ter muitas visitas? --Ouase nenhumas. & uma gente sossegadb, simpática

Tupler ainda náo voltaram da América

um deles, um gordo e

Passou ma&s Agora, nao estáo

para com todas as pessoas e que sempre levou uma ylda muito regular. De tempos a tempos, o dr. Larue/e a

mulher vinham ca Jantar

quando, também iam a casa deles Como acontecia com os Maigret e os Pardon. O comls- sárlo perguntou-se se nao teriam também& um dia certo para

esses encontros.

--Monsleur Jossel&n saía muito? Oue vida levava o

casal?

--De manhá, por volta das nove, enquanto Madame Manu fazia os arranJos da casa, Monsleur Jossel&n ia dar um passelo. Era táo regular que até se pod&a acertar o relógio por ele. Entrava aqui, dizia-me umas palavras acerca

e 08 Josselin, de quando ern

do bom e do mau tempo, pegava no correio que metia no

bolso e, depois de ter dado uma vista d& olhos pelos sobrescrltos, segula, lentamente, para o Jard&im do Luxem- burgo. Andava sempre com o mesmo passo, mu&to certo --Recebls muita correspondêncla? --Multo pouca. --E a mulher?

--Por volta das dez

a casa

tada

bairro. Nunca a vi salr sem chapéul

ainda ele nao tinha regressach

Madame Josselin descia a escada, toda aperal-

mesmo que apenas tencionasse ir às comprss, no

--A que horas voltava o marldo? --Dependia de estar bom ou mau tempo. Estando i&om,

nunca voltava antes das onze e meia, meio-dia; se estava

a chover, nao deixava de dar o seu passeio, mas demo- rava-se menos.

--E à tarde? Tendo acabado de esterilizar os blberoes, a porteira

arrumava-os no frigoríflco. Mesmo de costas, respondeu:

--As vezes, sa&am &untos, mag só uma ou duas vezes por semana. Madame Fabre aparecla, de quando em quando

e antes de ter nascicio o seu segundo filho costumava trazer o primeiro com ela.

--A filha dava-se bem com a mae?

--Creio que sim

oeu, lam ao teatro juntas.

Pelo menos, tal como ontem suce-

--Por acaso nao reiJAarou se. ultlmamente, pelo correio, vieram cartas com uma caligrafia diferente da do resto da

correspondência habitual?

--Cartas com uma letra dlferente?

correio e, fora os jornais e prospectos, a correspondência é, quase sempre, das mesmas pessoas. Ultimamente, nada variou.

Nao. Têm pouco

--Monsieur Josselin nunca recebeu qualquer individuo, numa altura em que estlvesse sozlnho em casa? --Nunca dei por isso. Esta &nolte, estive a pensar nisso, pols Já esperava que o senhor comlss&rio me flze&se essas perguntas. Mas deve compreend&r que sao pessoas

Impecáveis e nada há a dlzer a seu respelto m&noS em seu desabono.

multo

--Davam-se com outros inquilinos? As vezes travam-se amizades entre locatários de um mesmo prédio --Nao, que eu saiba. De resto, em Paris, nos dias que correm, os inquilinos .mal se conhecem. Antigamente, sim; as pessoas eram civilizadas, mantinham relacoes de vlzi- nhança; depols, passaram a dar-se unicamente 08 bons-dias, boas-tardes; contudo, hoje, passam uns pelos outros, evi- tando até olhar-se. Excepto nos bairros populares, evi- dentemente, onde ainda há quem saiba o que é ser-se vizinho. Aqui, cada qual val vivendo a sua vida, sem querer saber o que se passa no patamar ao lado. Neste prédio acho que só eu sei quem sao os locatários, porque é essa a minha obrigaçao. --Madame Fabre já voltou? --Sim, há um bom pedaco --Muito obrigado, Madame Bonnet.

0 elevador parou no terceiro andar onde havia duas portas e, diante de cada uma delas, um capacho com uma cercadura vermelha.

Maigret tocou à campainha da esquerdia, ouviu passos abafados e, após uma longa hesitaçao, a porta entreabriu-se, desenhando-se apenas uma fenda clara e estreita, porque nao ffnham tirado a corrente de se&qurança.

--Quem é?--perguntou uma voz pouco encorajadora. --Comissário Maigret. Um rosto de traços vincados de uma mulher de cin- quenta anos inclinou-se para examin*r o visitante. Apesar da sua expressao de desconfianca, concedeu:

--Bem! Está bem! Esta manha, vieram cá tantos jorna-

listas

Depols da corrente ter sido retirada, Maigret viu a sala

tal como ela devla estar normalmente arranjada, com todas

as coisas no seu lugar e o sol a entrar por a&mbas as

janelas.

--Se é Madame Josselin que o senhor pretende ver Nao se discerniam vestígios dos aconteclmentos e da desordem da nolte. Instantes depols, abriu-se uma porta e Véronique, vestida com um saia-casaco azul-claro, entrou na sala. Estava v&slvelmente c*nsada e Malgret tornou a notar- -Ihe, nos olhos, uma espécle de hesitacao, de busca.

O seu olhar, quando se fixava nos obJectos ou no rosto

do visitante, parecia anslar por um apoio, por uma resposta

a uma pergunta preocupa,nte. --Descobrlu alguma coisa, senhor Comissário? --Como está sua mae?

--P,eceio que na mesma

mudar de roupa. Acho que já Iho disse, quando me tele-

fonou

Ouando acordou, nao proferlu palavra. Mas bebe l uma chávena de café, embora se recusasse a comer. Eu queria que ela ficasse deitadla. mas nao consegui convencê-la Agors, está a vestir-se. Olhou em redor e evitou a poltrona onde o pai tinha sido assasslnado. As pecas de xadre& já nao se achavam sobre o tabu- leiro. Um charuto melo fuma&o, que Maigret vira, à noite, num cinzeiro, tambem desaparecera como, de resto, era natural.

Fui ver os meus filhos e

Nao sel. Nao percebo colsa alguma! A mae dormiu.

--Sua mae nao dissq absolutamente nada? --Apenas me respondeu por monossílabos. Está per- feitamente lúcida, mas parece ter uma idela fixa. Velo cá para vê-la, senhor Comlssárlo? --Se for possivel. --Deve estar pronta, dentro de minutos. Nao a ator- mente muito, peço-lho por tudo& Toda a gente pensa que els é uma mulher calma, porque sabe dominar-se bem, mas sel que tem uma sensibilldade doentla. S6 que nao se exteriorlza.

--Já teve ocasiao de vê-la muito emocionada? Isso sucedeu-lhe muitas vezes?

--Depende daquilo que o senhor considera uma grande

emocao. Por exemplo, quando eu era pequena, acomte-

cia-me

Pois bem, em vez de dar-me um estalo ou de ralhar-me ficava muito pálida, dando a impressao de nao ser capaz de falar. Ouase sempre, nessas alturas, ia fechar-se no quarto e eu ficava cheia de medo.

irritar a minha mae.

como a todas as crianças

--E o seu pai? --O pai nunca se irritava. Tinha uma maneira muito sua de reagir. Limitavase a sorrir, com o ar de quem está a fazer troca.

--O seu marido foi para o hospital? --As sete horas da manha, como de costume. Deixei as crianças com a criada, visto nao achar conveniente

trazê-las para aqui. Nao sei como vou resolver o problema Nao me agrada a ideia de deixar a mae ficar a viver

sozinha

apartamentos modernos, compreende? De resto, ela nao

quereria ir viver para lá

mas em nossa casa nao há espaço

& um dess&s

--A mulhera-dias, Madame Manu, nao pode passar a noite cá em casa?

--Nao. Tem um filho de vinte e quatro anos que é

mais exigente do que um mari&o

a descompoe quando ela tem o azar de chegar tarde .Terei de descobrir alguém, talvez uma enferrneira

& claro que vou fazer todo o possivel para vir cá, sempre

que a vida mo perm&ita

e que, ainda por cima,

mas nao vai ser fácil

&

Tinl&a um rosto de traços regulares e um cabelo loiro -arrulva&o, mas nao era particularmente atraente, visto nao ser alegre. Os seios, que a maternidade avolumara, nao pareciam flácidos, mas dir-se-iam descaidos por se acharem plantados muito abaixo do normal, em relaçao ao pescoco.

As suas ancas eram largas, como as de uma femea

pujante

--Parece que estou a ouvir a mae--murmurou, Incli- nando a cabeça para melhor apurar o ouvido. Com efeito, a porta abriu-se e Maigret ficou surpreen- dido ao ver uma mulher que tinha um ar bastante Jovem.

de amazona mltológica.

Sabia que ela era quinze anos mais nova do que o marido,

mas, apesar disso, imaginara-a com um aspecto mais idoso, de autêntica avó.

O seu corpo, num vestido preto muito simples, parecia

mais viçoso do que o da filha. Tinha cabelos castanhos e olhos quase negros e brilhantes.

Apesar da tragédia e do seu estado db astenia, apre- sentava-se maquilhada com esmero e nao descurara um único pormenor de toilette. Era também uma *amazona,., mas mais elegante, com raça. --Comissário Maigret--apresentou-se ele, ligeira vénia de cabeça. Francine Josselin, correspondeu vagamente, olhou em

redor e acabou por fixar os olhos na filha que se apressou

a murmurar:

--Preferem que os deixe sozinhos? Maigret nao disse sim nem nao. A mae nao Véronique saiu sem ruido. De resto, todas as idas e vindas, naquela & abafadas pela espessa alcatifa, coberta, aqui e além, por tapetes-caros, antigos. --Sente-se--convidou a viúva de René Josselin, embora permanecésse de pé, ao lado da poltrona do marido. Maigret hesitou, mas acabou por obedecer, vendo que ela decidira ir sentarse no sofá, junto à mesa db costura. Ficou muito direita, sem se encostar, como costumam fazer as senhoras que, quando meninas, foram educadas em conventos. Tinha uma boca fina, sern dúvida devido à idade, e umas maos magras, mas ainda belas.

Fitava-o, paradamente, com tal fixidez que Maigret per-

guntou-se se ela estaria a ouvi-lo, ou totalmente entregue

a um monólogo interior.

--O seu marido, minha senhora, foi vitima de um& crime que parece inexplicável, pelo que me cumpre nao des- prezar o mais ínfimo pormenor que possa conduzir-me a uma pista.

A cabeca de Francine Josselin moveu-se ligeiramente,

de trás para diante, como se estivesse a aprová-lo.

--Esteve omtem com sua filha no teatro da M&e&eine.

& provável que a pessoa que matou o seu marido soubesse

que ele estava sozinho. Quando decidiram ir assistir a esse espectáculo?

Quase sem mover os lábios, respondeu:

--Há dois ou três dias. Talvez no sábado ou domingo.

--Quem sugeriu a ideia? --Fui eu. Depois de ler as críticas dos jornais, fiquei com curiosidade de ver a peça.

Pensando no estado em que a mulher se achava na noite anterior, Maigret ficou surpreendido ao vê-la res- ponder com tanta calma e precisao. --Combinei com a minha filha e ela telefonou ao marido, para perguntar-lhe se desejaria ir connosco. --Era costume saírem os-três, juntos?

--Nao. Era raro. O meu genro só se interessa pela medicina e pelos seus doentes.

--E o seu marido? --As vezes iamos ao cinema ou a um espectáculo de revista. Gostava muito de &variedades A voz nao tinha timbre nem calor. Num tom monocór- dico, parecia recitar um texto decorado, sem desfitar os olhos de Maigret, como se este fosse um examinador. --Marcou os bilhetes pelo telefone?

--Sim. Ficámos com os números 97 e 99. Lembro-me bem, porque prefiro sempre ficar na coxia central. --Quem mais sabia, minha senhora, que nao estaria em casa, nessa noite?

--Só o sabiam o meu m&rido, o meu genro e a mulher- &dias.

--Mais ninguém? --O cabeleireiro onde fui, nessa tarde. --O seu marido fumava? Mudando, como era seu hábito, constantemente de assunto, Maigret lembrara-se do charuto que vira no cin- zeiro.

--Pouco. Um charuto, depois das refeiçoes

vezes, de manha, quando ia passear. --Vai desculpar-me esta pergunta ridícula: sabla se ele tinha inimigos?

e, às

Nao protestou e limitou-se a responder, simplesmente:

--Nao tinha.

--Que pensou, ontem à noite, quando,&ao chegar a casa, viu o seu marido morto? Pareceu engolir em seco e murmurou:

--Que tinha morrido

A sua expressao tornou-se ainda mais rígida, mais im6vel e Maigret julgou que os olhos da viúva iriam mare- jar-se de lágrimas.

. de morte natural.

--Nao tentou imaginar quem o teria assassinadro? Notou-lhe uma breve hesitacao, quase imperceptível. --Nao. --Porque nao telefonou imediatamente à Policia? Nao respondeu de seguida e desviou o olhar. Depois, articulou:

--Nao sei. --Chamou, primeiro, o seu genro? --Nao chamei ninguém. Foi Véronique quem telefonou

62

marido

para casa dela, ao ficar preocupada, por nao ver aqui.

--E nao ficou também preocupada por nao têlo encon- trado no Boulevard Brune?

--Nao sei.

--Quem se lembrou de chamar o dr. Larue?

--Creio que fui eu

tasse de tudo quanto se tornava necessário fazer nequelas circunstancias .

Precisávamos de alguém que tra-

--Nao suspeita de ninguém, Madame Josselin? --De ninguém. --Por que motivo se levantou, já hoje, após o medonho desgosto que sofreu?

--Porque nao o considero impeditivo de olhar pela casa. Um desgosto, por muito intenso que seja, nao justi- fica o ficar-se na cama, inactiva.

--Tem a certeza de que na&ia desapareceu daqui? --Foi a minha filha quem o verificou. Conhece, tao bem como eu, todos os cantos à casa. i xcluindo a pistola --Ouando é que viu essa arma, pela última vez? --Nao sei ao certo. --Sabia que estava carregada?

--Sim. O meu marido teve sempre em casa uma arma carregada. Ouando nos casámos, guardava a na mesinha- &cabeceira. Depois, com receio de q&e Véronique Ihe mexesse e como, no quarto, nao tínhamos gaveta alguma que pudesse fechar-se à chave, resolveu por a pistola na sala.

&Durante muito tempo, a gaveta esteve sempre fechada, mas depois que Véronique cresceu e casou --Alguma vez, m&nha senhora, o seu marido deu-lhe

a impressao de que receava alguma coisa medo? --Nao.

de que tinha

--Nunca o encontrou na companhia de um desconhe- cido? --Nao, senhor Comissário. --Tinham muito dinheiro guardado cá em casa? --Muito pouco. Pagávamos quase tudo por cheques bancários .

--Muito obrigado, Madame Josselin. Abafava. Tinha acabado de fazer um dos mais penosos

interrogatórios da sua carreira. Fora como jogar basque- tebol com uma bola que nao saltasse. Ficara com a impres- sao die que as suas perguntas nao tinham tocado em qual-

quer ponto sensível, permanecendo à superfícle respostas que obtivera eram neutras, sem vida. Francine nao iludira pergunta alguma, mas também nao proferira uma única resposta espontanea. Nao se levantou para despedir-se dele. Permaneceu sen- tada e hirta no seu sofá e Maigret nao conseguiu vislum-

brar qualquer segredo escondido naquela fisionomia amorfa, apesar da vivacidade dos olhos da sua interlocutora. --Peço-lhe desculpa, minha senhora, por esta intrusao. Francine nada redarguiu e esperou que ele se levan- tasse para também pôr-se de pé; e também esperou que ele se dirigisse, acanhadamente, para a porta, antes de segui-lo.

--Se tiver alguma ideia

e as

se se lembrar de algum

pormenor, mesmo que Ihe pareça insignificante

alguma suspeita Mais uma vez, a viúva assentiu com um vago aceno de cabeça.

se tiver

--Tem um polícia à porta. Espero que nao volte a ser

incomodada pelos jornalistas que a assedliaram, esta manh3i.

--Sim

. --Há quanto tempo a conhece? --Mais ou menos, há seis meses.

aqui

Madame Manu disse-me que eles tinham vindo

--Ela tem uma chave desta casa? --Sim. Mandei que Ihe fizessem uma. --E além da sua mulher-a-dias, quem mais possui uma chave da casa? O meu marido tinha uma e eu outra; a nossa filha ficou com a que Ihe servira, em solteira.

--Mais ninguém? --Mais ninguém

que eu chamo *de emergência&

minha cómoda. _&.nntinua lá? --Acabei, ainda há pouco, de certificar-me disso. --Permite-me que faça, agora, uma pergunta a Madame Fabre? Francine afastou-se, abriu uma porta, sumiu-se por ins- tantes e voltou com Véronique. --A sua mae mencionou que a senhora ainda tem a sua antiga chave desta casa. Gostaria de saber se a traz consigo.

embora haja uma quinta chave

a

que tenho guardada na

--Neste momento, nao a trago comigo Dirigiu-se a uma cómoda, pegou numa bolsa de mao,

de pele azul, abriu-a e tirou uma chave do tipo Yale. --Tinha-a consigo, ontem à noite, no teatro? --Nao, porque levei uma bolsinha, a condizer com o

vestido, que é muito mais pequena do que esta d&e senti-la leve. --Quer, portanto, dizer que

e gosto

vard Brune. Era tudo. Nao antevia que outras perguntas puaesse fazer, decentemente. De resto, apetecia-lhe sair daquele universo almofadado em que se sentia mal. _ Muito obrigado.

Para exercitar as pernas nao utilizou o elevador. Logo que ficou fora de vista, soltou um suspiro de alívio. Os jornalistas já nao estavam no passeio, diante da

porta que o policia vigiava, mas tinham&se postado ao balcao de um café quase fronteiro. Mal avistaram o comissário, precipitaram-se sobre ele. --Interrogou as mulheres? Fitou-os, quase à maneira da viúva, como se os nao visse, como se conseguisse olhar através deles. --Nada tenho a dizer, meus senhores. --Quando é que nos poe a par da investigaçao? Fez um gesto vago e encaminhou-se para o Boulevard Raspail, em busca de um táxi. Como os jornalistas, em vez òe o seguirem, tinham regressado ao seu posto de observaçao, defronte da casa, Maigret aproveitou para enfiar-se no barzinho da véspera e beber uma cerveja. Quando entrou no seu gabinete do Oual des Orfèvres, era quase meio-dia. Entreabriu a porta do escritório dos inspectores e viu Lapointe e Torrence. --Venham aqui os dois. Sentou-se à secretária, pesadamente, escolheu o seu maior cachimbo e começou a atacá-lo de tabaco. Dirigindo-se, primeiro, a Lapointe, indagou:

--Tu, que fizeste? --Foi à Rue &ulie para as verificaçoes que me indicou, .patrao+. Interroguei as três porteiras. Confirmaram que, ontem à noite, Ihes apareceu um homem a perguntar se

havia uma criança doente no prédio. Uma delas até ficou desconfiada, porque achou que o sujeito, pelo seu mau aspecto, nao tinha ar de ser médico. Esteve prestes a chamar a Polícia.

--Oue horas eram, quando ele as procurou? --Entre as dez e meia e as onze da noite. --E no hospital? --Aí, foi mais difícil, pois cheguei na hora de maior movimento, precisamente na altura em que o professor e os assistentes fazem a inspecçao diária. Andavam todos cheios de pressa. De longe, ainda avistei o dr. Fabre e tenho a certeza de que ele me reconheceu. --Nao reagiu? --Estava com uma data de outros médicos, todos de bata branca, atrás do professor. --Fabre costuma ir de noite ao hospital, com frequência?

--Isso é uma coisa que acontece a todos eles, quer

porque sao chamados de urgência, quer porque estao preo- cupados com um caso mais bicudo. .Consegui, de passagem, falar com três enfermeiras. Todas se Ihe referem da mesma maneira. No hospital, parece que o considera&m uma espécie de santo.+ ---Passou todo o tempo a ver o seu doente? --Nao. Depois de ter estado a examinar o garoto da encefalite, entrou em vrias ~ salas e demorou-se um bom pedaço a conversar com um dos internos. --No hospital já estao ao corrente? --Parece que nao. Olhavam-me de esguelha, sobretudo uma moca que já deve ser mais do que simples enfer-

meira

rispidez:

talvez uma assistente

e que me interpelou com

&Se quer fazer perguntas indiscretas, faça-as directa- mente ao dr. Fabre.+ --O médico legista nao telefonou a dar notícias acerca da autópsia? Era costume, quando esta acabava, o cirurgiao telefonar para o Quai des Orfèvres, antes de enviar o relatório oficial que demorava sempre um certo tempo a redigir. --Encontrou duas balas no cadáver. Uma alojara&se-lhe

na aorta e teria bastado para matá-lo. --A que horas pensa o médico que Josselin *patinou+? --Entre as nove e as onze, aproximadamente. Para ser mais exacto, o dr. Ledent gostaria de saber a que horas é que Josselin comeu, pela última vez. --Nesse caso, trata de telefonar a mulher-a-dias e

pergunta-lho Depois, transmites o recado ao dr. Ledent. Enquanto falavam, o gordo Torrence, encostado à janela, contemplava o Sena e os barcos que passavam sob as pontes. --Oue faço agora, Upatrao&--perguntou Lapointe.

--Para já, o telefonema

Conquanto o conhecesse há muito mais tempo do que a Lapointe, nao o tratava por tu. Verdade seja dita que

f a sua ` vez, Torrence.

Lapointe mais parecia um estudante do que um inspector da Polícia. --Entao, esses inquilinos? --Desenhei-lhe uma planta do prédio, &patrao&. Assim poderei explicar mais facilmente. Colocou-a em cima da secretária, passou para trás de

Maigret e, com um dedo, ia indicando as divisoes dos vários andares que desenhara meticulosamente. E elucidou:

--Primeiro, temos o cubículo da porteira. Já se sabe que o marido é guarda-nocturno e que, nessa noite, estava de serviço. Voltou às sete da manha e, durante a ronda, nao passou em frente do prédio. Do lado oposto fica o pátio de servico.

--A seguir? --No rés-do-chao, à esquercia, vive uma solteirona, Mademoiselle Nolan, que dizem ser muito rica e avarenta. Declarou ter estado a ver televisao até as onze horas e, depois, deitou-se. Nao ouviu ruído algum nem& teve visitas. --A direita? --Mora um tal Davey. Também vlve sozinho, é viúvo e subdirector de uma companhia de seguros. Jantou fora, como todas as noites, e voltou às nove e um quarto. De tempos a tempos, uma rapariga muito bonita vai fazer-lhe companhia, mas ontem nao apareceu. Davey leu uns jornais na cama e, por volta das dez e mela, adormeceu sem ter dado por nada de anormal. S6 acordou quando os homens da Investlgaçao Judlclárla entraram no ediffclo, com o equi-

&8

pamento. Entao, levantou&se e foi perguntar o que se pas- sava ao polícia que estava de guarda. --Qual fol a reao&o desse sujeito, quando Iho expli- caram? --Nenhuma. Voltou para a cama. --Conhecia os Josselin? --Só de vista. Nunca Ihes falou. --E no primeiro piso? --Do lado esquerdo, vivem os Aresco. Sao seis ou sete, todos morenos e gordos; as mulheres sao bastante bonitas, cheias de carne e rijas. Todos eles falam francês, mas com um forte sotaque. Moram ali o pai Aresco, a mulher, uma cunhada, uma filha de vinte e dois anos, com seios que metem num chinelo dois da Lolobrígida, e mais tres ou quatro crianças bem nutridas. Ontem, nao saíram de casa.

--Tens a certeza? A porteira afirmou-me que

--Bem sei. Também mo disse a mim. Alguém entrou, depois do dr. Fabre ter saído e, ao passar pelo cubiculo,

pronunciou o nome Aresco

Por esse motivo, Monsieur

Aresco mostrou-se muito indignado. Ele, a mulher, a cunhada

e a filha mais velha estiveram a jogar às cartas e sao unanimes ao jurarem que ninguém saiu de casa. --Tornaste a interrogar a porteira? --Evidentemente, mas a nossa Madame Bonnet repetiu

ter quase a certeza de que reconheceu a pronúncia .mas- cavada+ do Aresco.

--Quase a certeza

Aresco que faz na vida? --Tem bastos negócios na América do Sul onde vive, uma parte do ano, com a família. Também possui uma casa na Suíça, de onde vieram de férias, há quinze dias. --Conhecem os Josselin? --Afirmam que nem sequer sabiam o nome desses seus vizinhos.

--resmungou Maigret.--Esse

--Continua. --Defronte, à direita, múra um crítico de arte, Joseph Mérillon, que consta ser .&maricas. e fol a Atenas, em missao oficial.

--No segundo andar? --Os dois lados desse piso estao alugados aos Tupler que se encontram nos Estados Unidos.

--Nao tem criadas? --A casa foi fechada, por tres meses. Até mandaram limpar os tapetes.

--No terceiro? --Na noite passadia, ninguém esteve na casa ao lado dos Josselin. Os Delile, que sao um casal já de idade, com filhos casados, ficam sempre na Riviera, até ao princípio de Outubro. Gente com férias grandes, &patrao&!

--E no quarto piso? --Por cima dos Josselin, estao instalados os Meurat:

um arquitecto, a mulher e uma filha de doze anos. A mae

e a moca deitaram-se cedo. O homem diz ter estado a

trabalhar num projecto, até à meia-noite, e afirma nada

ter ouvido de especial

--Que mais? --Do lado oposto, moram os Blanchon, um industrial e

a mulher que, na véspera, tinham ido caçar para a Sologne. .No quinto andar, temos outra senhora que vive sozinha, Madame Schwartz, que costuma receber, com frequencia,

Tinha a janela aberta

a visita de uma amiga

visto que o programa da televisao era, segundo ela, &uma autentica borracheira&.

mas ontem, nao. Deitou-se cedo,

.Por fim, o outro lado do patamar foi alugado a um parzinho que apenas se casou no mês passado e está a

passar férias, no Nièvre, em casa dos pais da moca. Ambos estao empregados numa passamanaria de um tio do rapaz. Andam semore aaarrados um ao outro, como se o periodo do namoro ainda nao Ihes tivesse passado. Chegam a beijar-se na rua, como se nao tivessem onde pernoitar. .&No sexto piso só há os quartos das criadas.+ Maigret olhou para a planta, com um ar desencoraJado. Casas vazias, gente que ainda nao tinha regressado da

praia, do campo, do estrangeiro

mas, mesmo assim, metade do edifício estivera ocupado

Tudo isso era verdade,

na noite anterior, por inquilinos que jogavam às cartas, viar- televisao, liam ou dormiam. Um deles permanecera a desenhar até tarde e a porteira nao adormecera total- mente a seguir à saída do dr. Fabre.

No entanto, dois tiros tinham sido desfechados e um homem fora abatido num dos andares do mesmo prédio, sem que ninguém se apercebesse das detonacoes; sem que nenhum dos vizinhos fosse perturbado na sua rotina quotidiana.

--Gente de bem conhecidos .

cujos meios de subsistencia eram

Teria a porteira, depois da partida do dr. Fabre, ador- mecido mais profundamente do que supunha? Estava, sem dúvida, de boa fé e tratava-se de uma mulher inteligente que nao ignorava a importancia das suas palavras. Afirmara que alguém entrara no prédio, entre as dez e meia e as onze, tendo proferido, à passagem, o nome de

Aresco.

Ora, os Aresco juravam nao ter saído de casa, nessa noite. Nao conheciam os Josselin, o que era plausível. Em todo o edifício, ninguém se preocupava com a vida dos vizinhos, como sucede em Paris, com frequência, sobretudo entre a alta burguesia.

--Gostava de saber por que motivo um inquilino, ao

entrar em casa, dera o nome de um outro inquilino murmurou o comissário, pensativo. --Talvez nao fosse ninguém do prédio--sugeriu La-

pointe, timidamente. E corou ao ouvir-se exprimir uma opiniao. --Segundo a porteira--objectou Torrence--, ninguém poderia sair, sem ser visto. A noite, só ela pode abrir a porta a um estranho. E nao a abriu. Maigret franziu o sobrolho e resmungou:

--Parece idiota, mas, logicamente, é a única explicaçao possível ! --Quer dizer que o assassino ficou dentro do prédio toda a noite? --Sim, até hoje de manha, pelo menos. De dia deve ser fácil entrar e sair sem ninguém reparar --Nesse caso, o assassino estava ali, a dois passos dos polícias, enquanto o pessoal da Identificaçao Judiciária e da Procuradoria se atarefava em casa dos Josselin. --Hum, hum!--emitiu Maigret, perturbado.--Há casas vazias. Voce, Torrence, vai arranjar um serralheiro e veri- ficar, atentamente, se alguma das fechaduras foi forçada. --Nao devo entrar lá dentro, pois nao? --Limite-se a examinar as fechaduras. procurando ves- tigios, mas só do lado de fora. --& tudo, *patrao+? --Por agora. Que mais queria voce fazer, no ponto em

que estamos? O gordo Torrence pensou um momento e concluiu:

--Está bem, *patrao&. O crime era um facto, visto que um homem fora assas- slnado, em sua casa, na sua poltrona. Contudo, nao se tratava de um crime como os outros porque a vitima nao era uma vitima como as outras. --Um homem de bem--rosnou Maigret, aparentemente irritado. Quem poderia ter motivos para assassinar aquele homem de bem? Mais uns dias e passaria a detestar as pessoas de bem.

72

CAPITULO 4

Maigret foi almoçar a casa. Comeu diante da janela

aberta e notou um gesto da mulher que, no entanto, Ihe

era habitual. Todos os dias, Madame Maigret tirava o avental, antes de sentar-se à mesa. As vezes, depois de instalada, ajeitava os cabelos. Também eles podiam ter uma criada, mas Madame Maigret nunca a quisera, alegando que se sentiria inútil, se nao tratasse pessoalmente da casa. Só tolerava uma mulher-a-dias que vinha, algumas vezes por semana, exe- cutar os trabalhos mais pesados e, mesmo assim, acon- tecia-lhe tornar ela própria a refazê-los. Passar-se-ia o mesmo com Madame Josselin? Nao exactamente. A arrumaçao da sua casa era também meticulosa, mas nao devia sentir, como Madame Maigret,

a necessidade de fazer tudo sozinha.

Por que motivo, enquanto almoçava, o comissário se pusera a comparar as duas mulheres que, obviamente, nao teriam pontos comuns? Entretanto, na flue Notre-Dame-des-Champs, Madame Josselin e a filha comlam, sozinhas, uma em frente da

outra, e Maigret imaginou-as a observarem-se furtivamente. Ou discutiriam coisas práticas? No Boulevard Brurle, o dr. Fabre, se fora almoçar a

casa

s6 com eles. Tinham apenas uma criada para tratar das crianças e da casa. Mal terminasse a refeiçao, o médico

o que era provável, por causa dos filhos

estaria

entraria no consult6rio onde o desfile de peauenos pacientes

e de maes alarmadas seria ininterrupto, durante toda a

tarde. Já teria arranjado alguém para ficar com a sogra& E esta aceitaria viver com uma estranha? Maigret surpreendeu-se a preocupar-se com tais por- menores, como se se tratasse de pessoas da sua família. Na realidade, alguém assassinara René Josselin, mas nao bastava procurar o assassino. Os que subsistiam teriam de reorganizar a sua vida, a pouco e pouco. Gostaria de ir ao Boulevard Brune para ver o cenário em que se moviam o dr. Fabre, a mulher e os filhos Tinham-lhe dito que habitavam um dos prédios modernos

recentemente construídos. perto da Cidade Universitária

e imaginou o ambiente de uma dessas construçoes anó-

nimas que apenas vira, exteriormente, de passagem, e a que, conscientemente, chamaria .ratoeiras de homens. Caixas de fósforos, recheadas de seres humanos, com fachadas nuas, de um branco já sujo. Por que motivo os

edificios modernos se degradavam mais rapidamente do que os antigos? Ou seria que essa degradaçao se tomava mais notória, devido ao estilo arquitectónico de vastos planos lisos&

Fileiras uniformes de janelas, como gavetas de um necrotério. Blocos de construçoes idênticas, sem variaçao

imaginativa. Tudo igual, de alto a baixo. As mesmas casas de banho, as mesmas cozinhas, os mesmos quartos exíguos

a mesma sala de utilizaçao múltipla a que chamavam

.estúdio., entre paredes demasiado estreitas que permi-

tiam a repercussao de todos os ruídos, quando nao a audiçao indiscreta de manifestaçoes humanas: choro de crianças, querelas de casais, gritos de espasmos histéricos. Era capaz de jurar que no Boulevard Brune nao reinaria

a mesma ordem que na Rue Notre-Dame-des-Champs; que

a vida em casa de Fabre seria menos metódica; aue as

horas das refeiçoes seriam mais fantasistas, nao só devldo ao carácter do médico, mas também à negligencia ou falta de jeito da mulher. Véronique fora uma criança mimada. A mae empe- nhava-se em vir vê-la, quase todos os dias; tomava conta das crianças: levava o &ais crescido a passear. Nao estaria, dessa maneira, a tentar introduzir um pouco de ordem, numa existência que considerava demasiado

boémia?

Dar-se-iam ambas conta de que, no ponto em que a

investigaçao se encontrava, o único suspeito era Paul

Fabre?

Para todos os feitos, ele fora a última pessoa a ver

Josselin vivo

Mas também era verdade que nao teria podido ter-se telefonado a si próprio, para ir à Rue Julie. A criada nao Ihe reconhecera a voz. Transmitira-lhe o recado de que falara um tal Lesage ou Lachat Contudo, no hospital e noutros sítios, o médico poderia contar com pessoas que Ihe eram muito dedicadas. Ter- -Ihe-ia alguma delas feito esse favor? E Fabre sabia onde se achava a arma, em casa dos sogros. Bem vistas as coisas, tinha um móbil: o dinheiro. Porém, pelo que constava, o dinheiro nao o interessava. Sem o sogro, nunca teria montado uma clinica particular e conti- nuaria a devotar todo o seu tempo disponível ao hospital onde devia~sentir-se melhor do que em qualquer outro sítio. Mas, quanto a Véronique?

Pelo menos, por quanto se sabia.

Nao teria ela comecado a arrepender-se de ter casado com um homem que toda a gente considerava um santo? Nao Ihe apeteceria um estilo de vida diferente? Nao se

ressentiria com a que levava? Nao consideraria as suas largas ancas de &amazona- clásslca desaproveitadas pelo corpo magro do marldo que s6 se dedlcava a medicina?

Decerto, com a morte de Josselin, os Fabre iriam rece-

ber uma considerável parte da herança. Pelo menos, Véro- nique, caso se tivessem casado com separaçao de bens. Desejaria ela alterar o seu ritmo de vida, o seu status social? Pretenderia o marido, para conservá-la, facultar-lhe

a realizaçao desse desejo?

Maigret tentou imaginar a cena: os dois homens diante do tabuleiro, silenciosos e graves como todos os jogadores de xadrez. A determinada altura, o médico levantava-se, dirigia-se à cómoda e abria a gaveta onde estavam os baralhos de cartas e a pistola Maigret abanou a cabeça, discordantemente. Nao era verosímil. Nao conseguia imaginar Fabre, virado para o sogro, a apontar-lhe a automática e a prem&ir o gatilho.

E se uma discussao se tivesse azedado e os levasse a

perderem a cabeça? Por mais voltas que desse a esta suposiçao, nao con- seguia atribuir-lhe crédito, pois nao se conciliava com o temperamento dos dois homens. Além disso, nao houvera um misterioso visitante nocturno que declarara à porteira chamar-se Aresco? --A Francine Pardon telefonou--disse, de repente, Madame Maigret, talvez de propósito para desanuviar-lhe

o espírito.

Estava tao distraído que, a princípio, olhou para a mulher, como se nao a compreendesse. Francine era o primeiro nome de Madame Josselin --Voltaram na segunda-feira, de Itália. Lembras-te de como estavam satisfeitos com a ideia de terem urnas férias, só para eles? Havia vinte anos que os Pardon nao conseguiam ter

férias sozinhos. Haviam partido de carro, com a ideia de visitar Florença, Roma e Nápoles e regressar por Veneza

e Milao, parando quando Ihes apetecesse.

--Perguntam se queremos ir jantar com eles, na pro- xima quarta-feira. --Porque nao? --Esses seus jantares nao se tinham tornado Já uma

--Parece que a viagem foi extenuante; que, na estrada

havia quase tantos automóveis como nos Campos Elíseos

e que, todos os dias, perdiam cerca de duas horas, para arranJarem instalaçao num hotel. --Como está a filha?

--Bem

Também Madame Pardon ia, quase todas as tardes, a casa da filha que se casara no ano anterior e que tinha uma criança de meses. Se os Maigret tivessem tido um filho, agora estaria provavelmente casado e Madame Maigret, como as outras --Sabes o que resolveram?

e o bebé parece ser muito bonzinho.

--Nao. --Comprar uma casa à beira-mar, para passar as férias com a filha, o genro e o neto. Os Josselin tinham uma moradia em La Baule. Viviam lá, todos juntos, um mês por ano, talvez mais. René Josselin tinha-se retirado da actividade Subitamente, esse pormenor surpreendeu Maigret. O in- dustrial, durante toda a sua vida, fora um homem activo que passava a maior parte do tempo na Rue Saint-Gothard

e que, de noite, chegava a voltar lá, frequentemente, para fazer serao. Só via a mulher às refeiçoes e durante um breve período

da noite.

Porque, certo dia, apanhara um susto com uma crise cardíaca, decidira reformar-se, quase de um momento para

o outro.

--Oue faria ele. Maigret, se se reformasse e desse consigo todo o santo dia em casa?

Bem

combinado Irem viver para o campo e até já tinham com- prado uma casa em Meung-sur-Loire. --Mas se fosse força&o a ficar em Paris? Todas as manhas, quase à mesma hora, René Josselin saía de casa, como se fosse para o seu escritório na fábrica. Segundo a porteira, encaminhava-se para o Jardim do Luxemburgo, com o passo regular e hesitante dos cardíacos que se crêem ameaçados de um ataque iminente.

nao devia haver problemas, visto que já tinham

A propósito, os Josselin nao tinham cao e isso espan-

tava o comissário. Facilmente imaginaria René Josselin a passear um cao. Nem sequer tinha gato. Comprava jornais. Sentar-se-ia num banco do jardim para lê-los? Acontecer-lhe-ia meter conversa com um vizi- nho de banco? Encontraria, regularmente, a mesma pessoa, homem ou mulher? Por descargo de consciência, Maigret encarregara La- pointe de ir buscar uma fotografia da vítima à Rue Notre- -Dame-des-Champs e de tentar, inquirindo os vendedores ambulantes e os guardas do Luxemburgo, reconstituir os seus gestos matinais.

Daria resultado? Preferia nao pensar nisso. Aquele homem morto que ele nunca vira, quando vivo; aquela família, cuja existência ainda desconhecia na véspera, obcecavam-no. --Vens jantar? --Conto com isso. Foi esperar o autocarro à esquina do Boulevard Richard

Lenolr e ficou na plataforma a fumar cachimbo e a observar

as

pessoas que, em redor, continuavam a sua vida, como

se

os Josselin nao existissem e como se, em Paris, nao

houvesse um homem que, sabia-se lá porquê, matara outro. Chegado ao seu gabinete do Ouai, mergulhou em tarefas administrativas desagradáveis e fê-lo propositadamente para nao pensar no caso Josselin. Devia tê-lo conseguido, visto que, por volta das três horas, ficou surpreendido quando ouviu ao telefone a voz excitante de Torrence:

--.&Patrao&?

Esteve quase a perguntar:

--Aqui, onde? --Achei melhor telefonar-lhe do que ir ao Ouai, porque pode dar-se o caso de o .patrao+ decidir dar cá uma saltada.

Continuo aqui.

--Novida&es?

--Sim.

--As duas mulheres continuam em casa? --Sim e também Madame Manu. --Que diabo se passou?

O serralheiro e eu examinámos todas as portas, incluindo

as da escada de serviço. Nenhuma parece ter sido forçada. Nao parámos no quinto andar e fomos directamente ao sexto.

--O dos quartos das criadas? --Sim. --Que descobriram? --Espere um momento, &patrao&

estava fechada. Quando estávamos a examinar uma das

fechaduras, abriu-se uma porta, ao lado, e tivemos a sur- presa de ver uma rapariga completamente nua. Sem mostrar

o menor embaraço, pôs-se a observar-nos com curiosidade. --Quem é ela?

--Uma moça estupenda

A maior parte deles

uma &brasa. muito nova ainda

e muito morena, com uns olhos imensos ou sul-americano.

de tipo espanhol

Maquinalmente, Maigret começara a esboçar, no mata- -borrao, um busto de mulher. --Que mais? --Perguntei-lhe o que estava ali a fazer, naquela figura e, com a maior das naturalidades, respondeu-me num pés-

80 81

slmo francês, que aquela erarrata-se da criada dos Aresco. .Desconfiada, perguntou:

*--Porque quer abrir essa porta? Depois, sem parecer perturbar-se com a hip6tese,

acrescentou:

.--Sao ladroes? .Expliquei-lhe quem éramos. A &pêssega&, em &pelota", massajou os seios e ficou espantada, quando Ihe dissemos que um dos inquilinos fora assassinado durante a noite anterior.

* Nao estava a representar. Nao sabia coisa alguma

acerca do crime. Ainda admirada, perguntou:

&--O senhor gordo e simpático que me dava os bons- -dias na escada? .Confirmámos e ela indagou:

--Nao foi a nova criada, pois nao? .Nao percebi o que ela queria dizer com aquilo. Eu nao conseguia descolar os olhos da sua nudez e senti estar a fazer uma figura ridicula. Pode crer, &patrao&, que me apeteceu mandá-la vestir qualquer coisa. --Oue nova criada?--inquiri.

.--Devem ter arranjado uma criada. Na noite passada,

ouvi barulho no quarto aqui ao lado.& Subitamente, Maigret parou de desenhar. Sentia-se furioso por nao ter pensado naquela possibilidade. Mais precisamente, tinha começado a pensar nisso, na ¨noite anterior. Na realidade, a dada altura, essa ideia com& çara a formar-se-lhe no espirito e sentira-se prestes a fazer uma descoberta, como já mencionara a Lapointe. Alguém Ihe interrompera o pensamento, com uma per- gunta qualquer: o comissário Saint-Hubert ou o juiz de

Instruçao

, A porteira afirmara que um desconhecido penetrara no prédio, depois de o dr. Fabre ter saido. Pronunciara o nome de Aresco, mas os Aresco juravam nao ter recebido qualquer visita nem ter saido. Maigret mandara interrogar os inquilinos, mas nao pen sara nos bastidores do prédio, ou seja, nos quartos das criadas.

e já nao conseguira retomar o fio à meada.

--Está a ouvir, &patrao&?

dura em questao também nao foi forçada

ao terceiro, pela escada de serviço e perguntei a Madame

Manu se tinha a chave do quarto da criada

mao para um prego, espetado numa prateleira e, em seguida ficou-se a olhar para ele, espantada. .--Olha! Nao está cá!--exclamou. .Depois, explicou-me que sempre vira sexto andar pendurada naquele prego. .--Ontem, também?--insisti. .--Bem, nao posso jurá-lo, mas tinho quase a certeza Até hoje, s6 fui lá acima, uma vez, com a senhora, ao princípio de ter vindo para esta casa. Fomos fazer a lim- peza do quarto, tirar os lençóis e os cobertores da cama e também calafetar a janela, para nao entrar o pó Aquela meticulosidade era uma característica de Tor- rence que o comissário bem conhecia. Mal descobria uma& pista, seguia-a com a obstinaçao de um cao de caça. --Voltei lá acima onde o serralheiro estava à minha espera. A moça espanhola, ou lá o que é, que se chama Dolores e cuja hora de repouso já devia ter terminado, voltara para casa dos patroes. .A fechadura do tal quarto é dessas de série que nao apresentam dificuldades. Abrim&la, num abrir e fechar de olhos.&

Ainda nao acabei

A fecha-

Entao desci

Estendeu a

--Nao pediu autorizaçao a Madame Josselin?

--Nao

Nao a vi

Mas o .patrao

recomendara-me

que s6 a incomodasse em caso de absoluta necessidade.

Lembra-se?

sávamos da mulher para coisa alguma.

Ora, para abrir aquela fechadura, nao preci-

.E pronto, &patrao&, já temos uma pista! Alguém passou

a noite, ou pelo menos parte dela, no quarto da criada dos Josselin . .Os papéis que calafetavam a janela estavam rasgados. Encontrám&la aberta. Dá para o pátio interior do edifício .Além disso, distinguem-se as marcas de um corpo que esteve deitado no colchao, com a cabeça no travesseiro, embora este nao tenha fronha, nem aquele, lençóis. .Para terminar, &patrao&, há uma data de "beatas& no

chao

baton nas &beatas&.& --De onde está a telefonar, Torrence?

--Da Rue Vavin

Pensei que gostasse de dar uma vista de olhos àquilo --Vou já. Era um alívio para Maigret nao ter de pensar mais no dr. Fabre.

Se, há pouco, falei de homem, foi por nao ter visto

de um bar que se chama &CIairon

Aparentemente, o curso da investigaçao tinha mudado de sentido. A porteira nao se enganara. Efectivamente, alguém entrara no prédio. Mais ainda. Esse alguém nao só conhecia a gaveta que continha a pistola, mas também a existência do quarto da criada e o lugar da chave, na cozinha. Portanto, na noite anterior, enquanto as pesquisas técnicas se arrastavam no terceiro andar, o assassino estaria, com toda a probabilidade, no prédio, estendido na cama da criada, a fumar e a aguardár que o dia nascesse e o caminho se Ihe deparasse livre, para poder escapar-se. Teria estado sempre um policia defronte do préd'io? Maigret nao o sabia, pois era assunto da competência do comissário do bairro. O mais certo era ter Saint-Hubert negligenciado uma vigilancia constante. A prova estava no facto de que o pol&cia que Maigret encontrara à porta, quando regressara da Rue Saint-Gothard, fora o mari&o da porteira aue o pedira para livrar o prédio da invasao de jornalistas e fotó- grafos. De qualquer maneira, o assassino sempre, quanto mais nao fosse, teria podido contar com as idas e vindas dos fornecedores. Competira à porteira tratar do correio, do filho, dos

repórteres

até ao terceiro andar.

Maigret ligou para a Identificaçao Judiciária.

--Moers?

homens, para relevar impressoes digitais?

haja outros indicios que também convenha recolher. Oue

traga todo o material sim

alguns dos quais haviam conseguido imiscuir-se

Importa-se de mandar-me um dos seus

Sim, talvez

Espero-o aqui, no meu gabinete,

O inspector Baron bateu à porta. --Consegui apanhar o administrador do teatro da Madeleine, &patrao+. Mandou chamar a empre,qada da bilhe- teira que regista as marcaçoes telefónicas. Efectivamente, foram ontem reservadas duas plateias, em nome de Madame Josselin. Nao sabe quem ocupou os dois lugares, mas nao estiveram vagos, durante todo o espectáculo. A lotaçao ficou quase esgotada e ninguém saiu, antes do fim. Mas,

e claro, houve dois intervalos --De quanto tempo?

--O primeiro só dura um quarto de hora, mas o segundo

é um bom pedaço mais longo

porque a mudanca de cenário para o terceiro acto é com- plexa e morosa. --A que horas se verificou esse segundo intervalo?

de cerca de meia hora

--As dez horas. Consegui obter o nome do casal que se achava sentado mesmo por detrás dos lugares 97 e 99. Trata-se de Madame e Monsieur Demaillé, residentes na Rue de la Pompe, em Passy. Sao grandes amadores de teatro e vao sempre para os mesmos lugares, na coxia central.

&Quer que vá interrogá-los?. --Já agora, é melhor. Nao queria deixar nada ao acaso. Quando o perlto da Brigada de Identificaçao chegou, com o equipamento necessário, indagou:

--Vou num carro da &casa.? Maigret confirmou e seguiu-o.

Chegados à l&ue Vavin, esquina para a Notre-Dame des- -Champs, o comissário e o perito de dactiloscopia e foto- grafia criminal entraram no .Clsiron&. Foram encontrar Torrence e o serralheiro abancados ao balcao do bar, dia&nte de duas canecas de cerveja. O par- ceiro do inspector parecia divertir-se com os aconteci-

--V;va senhor Comissário! Havia de ver o espectáculoque eu vi: uma garota que veio plantar-se no corredor, vestida só com os pêlos que Deus Ihe deu! Se nao fosse eu estar vigiado pelo inspector e a fazer o trabalhinho que

o senhor encomendou

--Agradeço-lhe muito, mas, agora, já nao preciso de si. --Olhe que vai precisar, Comissário. A porta ficou fechada, como o Inspector Torrence ordenou. Sem mim, como conseguirao entrar&

Torrence justificou-se:

--Nao quis correr riscos. Maigret também mandou vir uma cerveja e bebeu-a,

--Bem Por ágora acho melhor vocês três fic

a minha espera. -

Saiu, atravessou a rua e, momentos depois, subiu noascensor e foi tocar à campainha dos Josselin. Tal como de manha, Madame Manu veio abrlr a po . Espreitou pela fenda entreaberta, tirou a corrente de segu- rança, reconheceu-o e deixou-o entrar.

--Com qual das senhoras deseja falar?

--Com Madame Josselin

--Nao está. O medico, que saiu daqui, ainda há pouco- chinho, insistiu com a senhora para que se deitasse, mas

a menos que esteja a dormir.

ela nao quis. Nao é do género de ficar na cama todo o dia, a nao ser quando está muito doente

--Veio mais alguém, além do dr. Larue?

--Só Monsieur Jouane, que nao se demorou mais de

dez minutos. Bem

o gordo

chave lá de cima. Juro-lhe, senhor Comissário, que nao fui eu quem Ihe mexeu. Aliás, nem sei para que a tinham ali dependurada, visto que ninguém se servia dela. --Essa chave nunca foi utilizada, desde que a senhora trabalha para Madame Josselin?

também cá esteve o seu inspector

que veio pela porta de serviço pedir-me a

--Ouem iria utilizá-la, já que nao há criada?

--Madame Josselin, por exemplo, podia ter emprestado

o quarto a um amigo ou a uma pessoa conhecida, talvez só por uma noite

--Se tivessem convidado alguém, parece-me que o

teriam instalado no antigo quarto da

--Madame Fabre também cá está, nao é verdade? --Sim. Está com a senhora. --Oue estao elas a fazer? --Tenho a impressao de que andam a tratar dos por- menores do enterro

menina&.

Nao se encontravam na sala. Depois de ter esperado

um bom Pedaço. Maigret vlu-as aparecer, juntas, e teve

a curiosa sensaçao de que, se a mae e a filha nao se separavam, era por desconfiança mútua. --Peço desculpa de voltar a incomodá-la minha se-

Suponho que Madame Manu Ihes cor;to&l

nhora

Entreolharam-se, antes de abrirem a boca ao mesmo tempo, mas foi Madame Josselin quem falou:

--Nunca me lembrei de mudar a chave do sitio onde

sempre esteve

que o quarto está desabitado e nao vale a pena limpá-lo

e já quase me tinha esquecidb dela, visto

.Nao faco ideia de quem possa tê-la tirado

quê7. Santo Deus! Oue significará tudo isto? Tinha o olhar mais fixo e sombrio do que nessa manha. As maos traiam-lhe o nervosismo. Brandamente, Maigret esclareceu:

--Para nao as incomodar, o inspector Torrence tomou

a responsabilidade de abrir a porta do quarto da criada.

Peço-lhe, minha senhora, que nao se aborreça, tanto mais que a decisao do meu inspector contribuiu para dar um novo rumo à investigaçao. Está a compreender? Observava-a, espiando lhe as reacçoes, mas nada denun- ciava o que se passava dentro dela.

--Nao muito bem

nao é assim? Pois faça o favor, Comissário.

--Há quanto tempo nao vai ao sexto andar?

--Há já várlos meses

a trabalhar cá em casa, fui lá acima com ela, porque a

última criada tinha deixado tudo numa desarrumaçao e num

e para

Ouer fazer-me algumas perguntas,

Quando Madame Manu começou

estado de imundície inacre&ditáveis.

. Portanto, há mais ou menos seis meses? --Sim.

--Nao voltou lá depois disso?

seu marido também nao, nao é verdade?

E, segundo suponho, o

--O meu marido nunca na sua vida pôs os pés no sexto andar. Para fazer o que? Nao era homem para visitar criadas, furtivamente. O seu olhar exprimia uma indlgnaçao acusat6rla, como se Maiqret tivesse ousado permitir-se a conceber a hipó

88

tese de que René Josselin costumava ter encontros libidi- nosos com serviçais. Virand&se para Madame Fabre, o comissário indagou:

--E a senhora? Véronique, com uma expressao de desprezo, redarguiu:

--Ha anos que nao vou lá acima

da Olga, que era muito simpática comigo

mae. Ja la vao quase oito anos. A essa, sim, visitei-a

varias vezes no seu quarto

Só ali ia no tempo

Lembras-te

para conversarmos, evidente-

--As janelas estavam calafetadas com jornais, segundo

--Sim, por causa do pó, proveniente do pátio.

--Alguém rasgou os papéis que calafetava,m a janelae esta estava aberta. Além disso. alguém esteve dieitado

na cama, por fazer

bastantes cigarros. --Tem a certeza de que isso sucedeu na noite passada Com&issário?--interveio a viúva. --Ainda nao. Por esse motivo, vim pedir-lhe autorizaçao para ir lá acima, com os meus homens, a fim de inspec- cionar o local a fundo. --Pelo que hoje aconteceu, parece-me que nao precisa muito da minha licença--ripostou ela, secamente. --& claro que, se alguma das senhoras quiser assistir à Ambas o interromperam com gestos negativos. Maigret sondou:

--A sua última criada tinha um amante? --Oue eu saiba, nao. Parecia uma rapariga séria, che-

sem dúvida um homem, porque fumou

gan!do a dar a impressao de que nao gostava dos homens. Contudo, arranjou um namorado e saiu desta casa para se casar. Dirigiu-se para a porta e Maigret teve, nDvamente, a sensaçao de que se estabelecera uma certa desconfiança talvez até animosidade, entre a mae e a filha. Gostaria de saber como se comportavam uma com a outra e o que diziam, quando se achavam sozinhas, à porta

fechada. Madame Josselin conservara o seu sangue-frio, mas, apesar disso, o comissário nao ficara menos convencido de que a notícia do quarto da criada a chocara. E, contudo, seria capaz de jurar que o desaparecimento da chave nao fora, para ela, uma surpresa tao grande como

o fora para ele. Quanto a Véronique, virara-se bruscamente para com uma interrogaçao nos olhos. --Que teria querido dizer, quando abrira a boca, s&-" ter chegado a pronunciar palavra?

De novo com os três homens, no &CIaironJ, Maigret tornou a beber uma cerveja. Em seguida encaminhou-se, com eles, para a porta de serviço do prédio. No sexto andar, o serralheiro abriu a porta. 0 comis- sário encontrou uma certa dificuldade em ver-se livre dele, porque o homem, para que o deixassem ficar, tentava torn.ar-se útil. --Sem mim, como poderao fechar a porta? --Nao precisamos de fechá-la. Selamos tudo. Quando os três homens da Judiciária ficaram sós, livres do serralheiro, Torrence apontou para a cama. --Está a ver, .patrao.? Depois mostrou-lhe a janela que continuava aberta e as sete *beatasn que juncavam o chao. --Bem gostaria de saber--resmungou Maigret--se estes cigarros foram fumados há mu&to tempo, ou so recen-

--Nao será dificil--animou o perito. Examinou uma .beata&, cheirou-a, abrlu a mortalha com cuidado e desfez o tabaco, entre os de&os.

--Depois de fazer a análise laboratorial poderei dizer- ¨lho com toda a certeza. --E para já? --Para já, posso afiançar-lhe que nao foram fumados ha muito tempo. Aliás, cheirando bem a atmosfera

ambiente

sente o cheiro do tabaco. 0 especialista começou a extrair os seus instrumentos das malas, com os gestos lentos e minuciosos de todos os peritos do laboratório da Polícia. Para eles, nao havia mortos, ou melhor, os mortos nao tinham identidade, nem famllia, nem personalidade. Um crime nao passava de um problema científico. Trabalhavam com factos precisos, ves-

apesar de a janela estar aberta

ainda se

tiglos, indlcios, impressoes digitais, resíduos de poeira manchas de sangue. --Ainda bem que ninguém tem limpo o pó, há imenso tempo--considerou. Depois, virando-se para Torrence, indagou:

--Quando você esteve aqui, movimentou-se muito dé um lado para o outro?

Nao muito. --Tocou em algum objecto? --Em coisa alguma, com excepçao de ter pegado numa das &beatas+. Praticamente, o serralheiro e eu mal passámos do umbral da porta. --Ainda bem. Maigret, que se sentia pouco à vontade sugeriu --Depois, importa-se de passar pelo gabinete para infor- mar-me do que apurou?

--Certamente, senhor Comissário

--E eu?--perguntou Torrence. --Voce, meu amigo, volta para o --Posso ficar aqui, ainda um momento, para saber se há impressoes digitais? --Se assim o qulser

Maigret desceu as escadas, pesadamente, e, ao passar

pela porta de serviço do terceiro andar, sentiu-se tentado a tocar à campainha. Ficara com uma impressao desagradável e pouco nítida da última entrevista com as duas mulheres. Tinha a sen- saçao de que as coisas nao se haviam passado de maneira

natural

De resto, naquele caso, nada se passava normalmente. Mas poder-se-ia falar de normalidade a respeito de pessoas em cuja casa fora cometido um crime? Supondo que a vitima, por exemplo, fora um homem como o seu amigo Pardon, quais teriam sido as reacçoes da mulher, da filha e do genro? Nao conseguia imaginá-las, embora conhecesse os Par- don, havia muitos anos, e eles fossem os mais íntimos amigos do casal Maigret. Seria que Madame Pardon também ficaria em estado de choque, apática, incapaz de falar, sem tentar perma- necer o mais tempo possível junto do marido? Acabava de anunciar às duas Josselin que um homem roubara, da cozinha, a chave do quarto da criada; que fora

como deveria ser.

escond&er-se no sexto andar, onde se mantivera durante algumas horas; que, certamente, ainda lá estava quando as duas mulheres, depois da retira&a da Policia, tinham ficado sozinhas, já indo a noite muito avançada. Contudo, Madame Josselin mal reagira. Quanto a Véro- nique, olhara subitamente para a mae e esta parecera mandá-la calar-se. Uma coisa era certa: o assassino nada roubara e, pelo que se sabia, ninguém tinha interesse na morte de René Josselin.

Essa morte em nada contribuiria para alterar a situaçao económica de Jouane e do sócio. Como seria possível admitir que Jouane, que raras v&7eS fora à Rue Notre-Dame&es-Champs, soubesse da

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existência da automática e que esta se encontrava arreca- dada na gaveta; do sítio onde se achava a chave db quarto da-criadia e qual a localizaçao deste, no sexto andar? De acordo com as declaraçoes de Madame Josselin, o maridb nunca subira àquela dependência. Provavelmente

o dr. Fabre também nunca fora lá acima. De resto, o médico

nao tinha qualquer motivo para esconder-se no sexto piso.

E nao estivera lá. Primeiro andara pelo hospital, depois

em casa dos sogros, onde o comissário o interrogara Quando Maigret chegou ao rés-do-chao, tomou uma decisao súbita. Em vez de sair do prédio, atravessou o

pequeno corredor que ligava a escada de serviço à prin- cipal, dirigiu-se ao elevador e tornou a subir, desta vez ao primeiro andar. Tocou à porta dos Aresco. &o interior, ouvia-se música, vozes alegres e um certo

E ÇE

Quando a porta se abriu, o comissário viu duas crianças que corriam, uma atrás da outra, e uma mulher gorda, de roupao, que tentava apanhá-las. Encarando a rapariga que estava diante dele, agora vestida com uma bata azul-clara e uma touca da m&esma cor de onde Ihe brotavam longos cabelos negros, inquiriu:

--Chama-se Dolores? --Si, seiior. --Fala francês? --Si.

A mulher gorda, à distancia, interveio, falando com a

criada, em espanhol. Ao mesmo tempo, observava Maigret dos pes a cabeça. Este perguntou a Dolores:

--A sua patroa nao fala francês?

A rapariga repetiu &sl. e desatou a rir.

--Bem, em qualquer dos casos, diga-lhe que sou da Polícla, tal como o inspector que você viu lá em clma. Explique-lhe que vlm aqui para fazer-lhe umas perguntas.

93

Dolores traduziu, falando a uma velocida&e extraordi- nária, e a mulher gorda pegou numa das crianças por um braco e arrastou-a para um quarto cuja porta fechou, com determinacao.

A música continuava. A moca permaneceu de pé, à

entrada da porta, fitando Maigret com curiosidade, mas sem o convidar a entrar. Por fim, entreabriu-se uma outra porta pela qual esprei- tou a cara de um homem moreno, de olhos muito escuros, que logo a fechou sem ruído. --Ontem, a que horas foi deitar-se?--inquiriu. --Aqui no falar à vontade. & melhor vir de noche n i quarto. --Responda ao que Ihe perguntei--insistiu sário.

--No

--Deitou-se sozinha? --si senor. --Nao encontrou ninguém, na escada? --No.

a

Talvez às dez e medla.

--A que horas ouviu ruído no quarto ao lado do seu&

--Quando me levantar

--Ouviu passos? --Oué passos? Ignorava o significado da palavra e Maigret viu-se cons-

trangido a imitar uma pessoa a andar, o que provocou novo ataque de riso à criadita.

--si

às seis.

Si.

--Quantas pessoas dormem no sexto andar?

A cada frase, tornava-se necessário parar um momento,

para que a moça compreendesse. Dir-se-ia que ia traduzindo palavra por palavra, até conseguir entender o sentido geral. Ergueu dois dedos e explicou:

--S6 rJos

--Os Meurat?

Eu e a criada do quarto andar.

--No sé. Os Meurat son da esquerda ou da direita? --Da esquerda. --Entao no. Son los otros. Partiram com espingardas --A criada foi com eles? --No, mas ontem nao dormir cá. Ter namorado

--Quer dizer que você ficou sozinha, no sexto andar? --Si. No ter namorado.

O

facto divertia-a- imensamente. Tudo a divertia. Nao

se

apercebia de que passara a noite paredes meias com

um homem que, quase de certeza, era um assassino. --Muito obrigado. Havia rostos e olhos escuros, por detrás da cortina de

uma porta envidraçada. Decerto, logo que Maigret partisse, estalariam gargalhadas. Desceu a escada e tornou a parar, desta vez no cubí- culo da porteira. Madame Bonnet nao se encontrava ali mas Maigret deu de caras com um homem, em mangas de camisa e suspensórios, que embalava um bebé ao colo e que, apressando-se a ir pô-lo no berço, se apresentou:

--Guarda Bonnet

A minha &.patroa. foi às compras

em casa --Vim apenas dizer-lhe, de passagem, que ela nao se enganou e que, realmente, ontem à noite, alguém entrou no prédio; alguém que nao tornou a sair durante a noite --Deram com ele? Onde estava? --Ainda nao o encontrámos, mas deixou o seu rasto num dos quartos do sexto andar --No da cabrita que anda sempre ao léu?

Aproveitou eu estar

Queira entrar, senhor Comissário

--Nao. Esteve num quarto, actualmente vago. O homem deve ter saído, esta manha, quando a sua mulher se esforçava por afastar os jornalistas. ---Foi culpa dela? --Nao, evidentemente! Se nao fossem as longas férias da maloria dos inqui-

linos, o sexto andar estaria habitado por seis ou seteoriadas. Com um pouco de sorte, qualquer uma delas poderia ter visto o assasslno.

Maigret hesitou em atravessar a rua e ir enfiar-se, uma vez mais, no &CIairon&. Acabou por fazê-lo e, maquinal-

mente, encomendou:

--Uma cerveja. Alguns minutos mais tarde, viu Torrence, que se fartara de assistir ao trabalho do perito do laboratório e tivera a mesma ideia do comissário. --Oh! Está aqui, upatraoy?

--Nao é dificil deduzir isso--resmungou Maigret, logo informando, brandamente:

--Fui interrogar a criada Dolores.

--Conseguiu arrancar-lhe alguma coisa?

viu-a nua? Acha que ela é tarada? Torrence ainda estava excitado e todo orgulhoso com

a sua descoberta. Parecia nao compreender por que motivo Maigret tinha um ar mais preocupado e acabrunhado do que nessa manha.

Ao menos,

--Sempre temos uma pista!

lá em cima, está cheio de impressoes digitais?

da Identificaçao nao tem maos a medir. Por pequeno que

seja o cadastro do assassino

--Infelizmente--suspirou Maigret, estou quase certo

de que nao o tem.

E despejou o copo.

Sabe, *patrao,., que aquilo,

O colega

se é que ele tem um

Com efe&to, duas horas ma&s tard`e, uma consulta aos ficheiros do cadastro foi desolantemente negativa. As im- pressoes digitais, recolhidas na Rue Notre-Dame&es-Camps, nao se encontravam em nenhuma das fichas antropométricas dos indivíduos que tinham arranjado problemas com a Justica.

Ouanto a Lapointe, passara a tarde a mostrar a foto- grafia de René Josselin aos lojistas do bairro, aos guardas do jardim. às pessoas que, àquelas mesmas horas, se achavam sentadas nos bancos públicos do Luxemburgo Uns reconheciam-no; outros, nao. --Víamo-lo passar, todos os dlas, sempre com o mesmo

--Ficava a ver as crianças brincar --Punha os jornais a seu lado e começava a lê-los, um por um; de vez em quando, fumava um charuto --Tinha todo o ar de ser uma pessoa de bem Com mil raios!

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Teria chovido prolongadamente, durante a noite? Maigret nao o sabia, mas, quando acordou, ficou radiante por ver os passeios acinzentados, com partes ainda luzidias de água, onde se reflectiam nuvens a sério; nao dessas ligeiras e róseas dos dias precedentes, mas nuvens negras, sopesadas de chuva. Estava ansioso por ver o Verao acabar, por ver as férias acabar, por tornar a encontrar as pessoas nos seus sítios habituais. Franzia o sobrolho, quando, na rua, encontrava uma rapariga de calçoes curtíssimos, entao em moda nas praias do Sul, passeando por Paris com os pés nus e queimados, dentro de sandálias que expunham os dedos manicurados. Era um sábado. Quando acordara, tinha pensado, sem saber bem porquê, em ir ver Jouane à Rue Saint-Gothard. Apetecia-lhe vê-los a todos, nao especificamente para interrogá-los, mas para roçar-se por eles, para melhor sentir o meio em que vivera René Josselin.

Havia, certamente, qualquer coisa que Ihe escapava.

Agora, parecia que o assassino viera do exterior e isso

já alargava consideravelmente o campo das possibilidades.

Mas alargá-lo ia efectivamente? Nao era menos verdade que a automátlca fora tirada da gaveta; que alguém retirara a chave que se achava no prego da cozinha e que o intruso nao se tinha enganado no quarto do sexto andar. Como fazia frequentemente, Maigret fol a pé para o

Quai, mas, naquele dia, fê-lo intencionalmente, como se desejasse presentear-se com um pequeno intervalo para devaneio.

O ar estava mais fresco, as pessoas pareciam menos

bronzeadas e readquiriam os traços fisionómicos da vida de todos os dias.

Chegou ao Ouai, precisamente a tempo de fazer o roti- neiro relatório semanal e, com um processo debaixo do

braço, juntou-se aos outros chefes &e serviço, no gabinete do director da Polícia Judiciária. Todos eles apresentaram ao director os relatórios dos casos que tinham entre maos e puseram-no verbalmente ao corrente dos últimos acontecimentos.

O chefe da Brigada Mundana sugeriu que se fechasse

um cabaret que recebia queixas, dia sim, diia nao, por ter

ao seu serviço um verdadeiro bando db garotas menores,

prostituindo-se à d&escarada.

Darrui, da Brigada òos Costumes, organizara nos Campos Elíseos uma rusga nocturna e cerca d&e quatro dúzias de mulheres, que se dedicavam a práticas sexuais conside- radas *contra a natureza&, encontravam-se agora na cadeia, aguardanòo que Ihes decidissem a sorte.

--E você, Maigret? --Estou numa embrulhada, numa história de gente de bem--resmungou, com azedume. --Nao há suspeitos?

--Aindla nao. Só detectámos umas impressoes digitais

que nao constam dos nossos arqu&vos

em contrár&o, sao de um homem honrado, de um homem

db bem

portanto, até prova

Durante a noite, tinha ocorrido um outro crime, ou melhor, uma verdadeira matança. Lucas, acabado de chegar de férias, encarre&qara-se de investigar o caso. Nesse mom&ento, estava fechado no seu gabinete a interrogar o assassino e a tentar compreender as explicaçoes que este Ihe dava. Tratara-se de uma luta entre polacos, num bairro da lata, perto da Porte de Italie. Um operário que mal falava frances, franzino e enfezado, chamado Stephan e cujo apelido parecia impossível pronunciar, vivia nesse bairro com uma mulher e quatro filhos pequenos. Lucas vira a mulher, antes de ser levada para o hos- pital, e classificou-a como uesplendorosa

Nao era casada com Stephan, que tinha sido preso, mas com um compatriota, um tal Majev,/ski que, por sua vez, nos últimos tres anos, trabalhava como jornaleiro agrí- cola, no Norte.

Tres das crianças eram filhas de Majewski; a terceira

de Stephan. Era realmente difícil perceber o que se passara tres anos antes, entre aquelas personagens. Stephan repetia, obstinadamente:

--Ele deu&ma! Noutra altura, declarou:

--Ele vendeu-ma! Na realidade, por oferta ou por venda, tres anos antes, o franzino Stephan tomara o lugar do conterraneo, na barraca e cama da ¨esplendorosan. O verdadeiro marido

partira, de boa vontade

pelo menos, aparentemente.

A mulher estava grávida. Depois de junta com Stephan,

dera à luz essa criança e mais outra

e tudo aquilo vivia

num mesmo quarto, como os ciganos num ¨atreladb&. Contud&, Majewski resolvera regressar ao lar e, en- quanto o seu substituto se encontrava a trabalhar, limi-

tou-se, pura e simplesmente, a reocupar o seu antigo lugar. Que discussao teria havido entre os dois homens quan&o se enfrentaram? Lucas esforçava-se por averiguar os factos que, num

frances quase incompreensível, se alinhavam

mente. Nao valia a pena anallsar as justiflcaçoes, por nao

desalinhada-

poderem ser consideraoas justificantes, já que nao se enqua- dravam em quaisquer padroes morais. Stephan partira de casa, deixando Majewskl a saciar-se na esposa, ao cabo de três anos de aus8ncia. Durante vinte e quatro horas, sem dormir, vagueara de taberna em taberna e arranjara uma faca, nao se sabia onde. Afirmava nao a ter roubadb e insistia muito nesse ponto, como se, para ele, fosse uma questao de honra. Na noite anterior, introduzira-se no quarto onde Ma- jewski, a mulher e os filhos dos tr8s estavam a dormir e matara o rival com cinco facadas.

A seguir, precipitara-se sobre a mulher que, nua em

pêlo, gritava que se desalmava. Cortara-lhe um seio e ferrara-lhe mais duas facadas, no púbis e no sexo. Foram

os vizinhos que, alarmados pelos gritos, tinham-no impe-

dido dle matá-la. Deixara-se prender, sem resistência. Maigret foi assistir a uma parte do interroqat6rio que Lucas, diante de uma máquina de escrever, ia registando, lentamente.

Stephan estava sentado a fumar um cigarro que Ihe haviam dado e via-se-lhe ao lado uma chávena de café, vazia. Fora indubitavelmente brutalizado pelos vizinhos, antes da chegada da Policla. Tinha o colarin&ho da camisa rasgado, os cabelos empastados de sangue e a cara cheia de equimoses e escoriaçoes. De cenho franzido, escutava as perguntas db Lucas, com grande concentraçáo, depois, reflectia, baloiçando a cabeça,

de um lado para o outro.

Por f&m declarou, como se a sua explicaçao resolvesse

tudo:

--Ele deu-ma, a troco d&e um empréstimo. Portanto, nao

tlnha o d&re&to de t&rar-m&. Para mais, nunca l&qu&dou a dívida. Parec&a-lhe natural ter assass&nado o antigo companhe&ro

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e também teria morto a mulher se os vizinhos nao tives sem intervindo a tempo. E as crianças? Tê-las-ia igualmente esfaqueado? Nao respondeu a essa pergunta, porque talvez nem ele próprio soubesse a resposta. Nao tinha previsto tudo. Apenas decidira matar Majewski e a mulher. Quanto ao

Maigret voltou para o seu gabinete. Um recado escrlto informou-o de que o casal da Rue de la Pompe, que estl- vera no teatro atrás de Madame Josselin e da filha, se lembrava perfeitamente das duas senhoras. Estas nao tinham saído, durante o primeiro intervalo; s6 se levan- taram, quando do segundo, mas logo voltaram a reocupar

os seus lugares, bastante antes de o espectáculo recome- çar. Nao tinham abandonado o teatro, d&urante toda a noite. --Oue faço hoje, *patrao.?--veio perguntar Lapointe. --O mesmo que ontem à tarde. Por outras palavras, cumpria-lhe percorrer o caminho que René Josselin percorria, todas as manhas, e interrogar as pessoas que, normalmente, a essas horas, frequen- tavam o mesmo itinerário. --Com certeza devia ter falado com alguém, uma vez

por outra. Experimenta outra vez Dá-ma.

Tens outra fotografla?

Meteu-a no bolso, sem nenhuma idela definida. Depois,

tomou o autocarro para o Boulevard Montparnasse e teve de apagar o cachimbo, porque se tratava de um daqueles veículos fechados onde passara a ser proibido fumar. Precisava de nao perder o contacto com a Rue Notre- -Dame-des-Champs. Havia quem insinuasse que ele pretendia fazer tudo sozinho, incluindo a tedienta tarefa de segulr os individuos, como se nao tivesse confiança nos seus próprios inspec- tores. Nao percebiam que, simplesmente, Maigret nece&-

sitava de ver as pessoas viverem; que tentava pôr-se no lugar delas e imaginar o que fariam e como se sentirlam. Se fosse possivel, ter-se-ia instalado em casa dos Josselin; terse-ia sentado à mesa com as duas mulheres; e talvez tivesse acompanhado Véronique a casa, para ver como ela se portava com o marido e os filhos. Apetecia-lhe dar o passeio que René Josselin se ofe-

recia todas as manhas, ver o que ele via e sentarse nos mesm&s bancos. Nao se tratava de uma observaçao por bisbilhotice, mas por necessidade d&e compreensao da alma alheia.

Era novamente a hora de a porteira ferver os biberoes e, como da outra vez, pusera um avental branco. --Acabam de trazer o corpo--anunciou Madame Bonnet, ain&a impressionada. --Madame Fabre está lá em cima? --Chegou há meia hora. Foi o maridb quem a trouxe. --Ele também subiu? --Nao. Parecia estar com pressa. --Lá em cima, nao está mais ninguém? --Só os .&gatos-p&nga&os" e um empregado da agência funerária. Já trouxeram todo o material para se armar a camara ardente. --Na noite passada, Madame Josselin ficou sozinha? --Nao. O genro, por volta das oito, apareceu com uma senhora de idade que trazia uma mala de viagem, pequena. Quando o dloutor partiu, ela ficou lá em cima. Deve ser uma enfermeira ou dama de companhia. --E Madame Manu? --Ve&o, como de costume, às sete da manha. Saiu, ain&a há pouco, para fazer as compras. Nao se lembrava de ter ou nao feito esta pergunta, mas, em tod&o o caso, &r&a repeti-la, porque o obcecava. --Sobretudo nestes últ&mos tempos, nao reparou se

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alguém andava a rondar o prédio, como se estivesse à espeira de qualquer coisa? Abanou a cabeça, numa negativa peremptória. --Madame Josselin nunca recebeu qualquer visita quando o marido se achava ausente? --Nunca, desde que entrei para esta casa. --E ele? Costumava ficar sozinho, da parte db tarde? Alguém o visitava? Nao saía, por vezes, a dar uma volta?

--Nao, que eu saiba

nessas coisas, a nao ser quando se passa qualquer acon- tecimento anormal. Ora, aqui tudo corria o mais normal- mente possível.

Claro que nunca se repara

.Na verda&e, eu nao Ihes dava mais atençao do que

aos outros inquilinos; talvez até Ihes desse menos, pre- cisamente porque nunca me causavam problemas --Sabe por que rua Monsieur Josselin costumava re- gressar a casa? --Dependia. As vezes voltava pelo lado do Jard'im do Luxemburgo; outras, pela Rue Montparnasse ou pela &ue

Vavin

--Chegava sempre sozinho? --Sempre. --O dr. Larue nao voltou? --Ontem passou cá o fim da tarde

tante tempo, lá em cima. Aí estava uma outra pessoa com quem Ma&gret gos-

Nao era um autómato, nao é verdade?

Demorou-se bas-

taria de tornar a falar. Tinha a impressao de que todos

eles poderiam transmitir-lhe qualquer coisa útil. Nao os acusava de estarem a mentir-lhe, mas achava-se conven cido de que, propositadamente ou nao, todos Ihe escon- diam qualquer pormenor que constituía uma parte da ver- dade. Sobretudo, Madame Josselin. Nunca esta se mostrara confiante. Via-se que estava na defelnsiva, que se esforçava por adivinhar as perguntas

107

que ele Ihe fazia, para, mentalmente, ir preparando as resoostas.

--Muito obrigado, Madame Bonnet. Como está o seu bebé. Deixou-a dormlr, esta noite? --Acordou uma só vez e tornou logo a adormecer. f curioso como, na noite da tragédia, estava tao excitado Era como se adivinhasse que alguma coisa má estava a passar-se, lá em c&ma!

Eram dez e meia da manha. Lapointe devia andar a abordar as pessoas no Jardim do Luxemburgo, mostrando- -Ihes a fotografia. Elas examinavam-na com atençao e aba- navam a cabeça, gravemente.

Por seu lado, Maigret decidiu tentar o Boulevard Mont- parnasse e, depois, talvez o Boulevard Saint-Michel. Para comecar, entrou no barzinho onde, na véspera, já bebera tres cervejas.

Prontamente, o criado perguntou-lhe, como se ele fosse um cliente antigo:

--A mesma coisa? Disse que sim, sem pensar, embora nao tivesse uma grande vontade de beber cerveja.

--Conhecia Monsieur Josselin? O criado cocou a nuca. --Nao sabia como o homem se chamava, mas, quando vi a fotografia no jornal, lembre&-me dele.

--Josselin era seu cliente? Vinha aqui beber o seu

copo?

--Oh, nao! Lembro-me bem do sujeito porque, em tempos, teve um cao, um velho lobo-d'Alsácia, cheio de reumatismo que caminhava atrás dele, de cabeca baixa Isso passou-se, mais ou menos, há seis ou sete anos

e Já lá vao quinze que trabalho aqui. --Que aconteceu a esse cao?

108

--Deve ter morrido de velho. Provavelmente fora o

cao da .menina

Também me lembro dela, em pequena

--Nunca viu Monsieur Josselin acompanhado de um indivíduo qualquer? Nunca teve a impressao de que alguém

o esperava, quando ele saía de casa?

--Nao

Um dia, no Boulevard Saint-Michel, vi-o sair das *Apostas

Mútuas

todos os domingos, apostar nas corridas de cavalos, mas surpreendeu-me o facto de um homem como ele também gostar de jogar. --Só dessa vez o viu nas *Apostas Mútuas&? --Sim, mas também é verdade que só muito raramente saio àquela hora --Muito obrigado. Ao lado havia uma mercearia onde Maigret penetrou com a fotografia na mao.

Eu só o conhecia de vista

Fiquei admirado

Nunca veio aqui

Bem, eu também costumo,

--Conhece este indivíduo? --Claro que conheço! & Monsieur Josselin. --Veio aqui alguma vez?

--Ele, pessoalmente, nao. A mulher é que passava por

cá, algumas vezes muitos anos.

Somos fornecedores da familia, há

--Madame Josselin vinha fazer as compras, pessoal- mente? Saía de cá, carregada? --Nao, mas passava por aqui e encomendava o que queria. Depois, nós mandávamos-lhe o marçano com o cabaz

às costas

nota com as encomendas escritas.

--Há quanto tempo sao fornecedores da familia Jos-

selin?

Houve um período em que a criada trazia uma

--Val para qulnze anos, salvo erro. --Nunca viu Madame Josselin passar com alguém que nao fosse a criada? --As vezes vinha cá, com a filha, mas só de passagem,

1 os

para encomendar qualquer coisa de que, antes, se tivesse

--Nunca a viu na companhia de um homem que nao fosse o marido?

A merceeira abriu a boca, quase com indignaçao.

--Madame Josselin?

O marido também erguera as sobrancelhas, de espanto.

Olhavam-no, sid&erados e até com uma expressao de cen- sura. --Nao é pessoa para ter encontros pouco próprios e muito menos aqui no bairro! Tanto pior! Nao iria deixar de fazer aquela pergunta,

só porque as pessoas se indignavam.

Entrou num talho. --Conhece este sujeito? Mas os Josselin nao eram clientes daquele talho e o

patrao respondeu-lhe com certa brusquidao, filha do des-

peito:

--Essa gente nao se serve daqui.

Passou por outro bar. Entrou e, como tivesse comecado nao só o dia, mas toda a investigaçao, sob o signo da cerveja, pediu uma *&mperial. e extraiu do bolso o retrato de Josselin.

O barman analisou-o por instantes, coçou o nariz -

murmurou:

--Parece-me um tipo cá do bairro

cliente. Quantas pe&ssoas Lapointe e ele iriam ainda interrogar daquela maneira? E, apesar do esforço, perda de tempo e

aborrecimento, só podiam contar com o factor sorte. Na realidade, nesse dia, já tinha tido alguma sorte. Pelo menos Maigret já descobrira que René Josselin tinha paixao, por muito anódina que fosse, nao dieixava de ser uma mania, um háb&to: apostava nas corridas d!e cavalos. Investiria grandes quant&as nessas apostas? Ou con- tentar-se-ia com uma pequena soma, só por divertimento?

A mulher estaria a par dessa inclinaçao do consorte?

Maigret iria jurar que nao. Esse hábito dos cavalos des,

toava na &ue Notre-Damedes-Champs; nao se ajustava às personagens, tal como ele as conhecia. Portanto, havia uma pequena falha no comportamento

padrao, preestabelecido. Porque nao haveria igualmente

outras?

--Desculpe, minha senhora

Outra vez a fotografia. Um abanar de cabeça. Recomeçou mais adiante. Entrou num talho. Daquela vez, acertou. O homern que aten&ia Madame Josselin e Madame Manu declarou:

--Víamo-lo passar, todos os dias, quase sempre à mesma hora.

Mas nao é u",

Por acaso nao

?

--Sozinho?

--Excepto nos dias em que encontrava a mulher, no

camlinho de volta. --E ela? Também andava sempre sozinha?

--Uma vez veio com um catraio que mal tinha come-

çado a andar

Maigret entrou numa pastelaria do &ou/evard Montpar- nasse. Era a hora morta e a sala estava quase vazia.

O c!iado achava-se ocupado atrás do balcao.

--Oualquer coisa que se beba, sem ser cerveja-- pediu o comissário. --Um aperitivo? Porto seco? Conhaque? --Um conhaque.

E eis que, quandb menos esperava, começava a obter

resultados.

o neto

--Conheço-o, sim senhor. Ouando vi o retrato no jornal, pensei logo nele. Contudo, a fotografia nao é recente visto que, nos últimos tempos, o homem estava um bocado

mais magro. --Vinha beber um copo, de vez em quando?

--Raramente

m&?ia dúzia de vezes, mas, como só aparecia à hora em que isto está quase vazio, fiquei a lembrar-me dele,

--Chegava a esta hora?

Nao deve ter vindo aqui mais de uma

--Mais ou menos

--Sozinho? --Nao. Trazia sempre alguém com ele

os dois ao fundo da sala, longe da porta. --Uma mulher? --Nao. Um homem. --Que género de homem?

--Ainda novo, bem

Talvez um poucochinho mais tarde.

Sentavam&se

Entre os quarenta e os

cinquenta anos

um pouco magro de peito e estreito de

ombros.

--Pareceu-lhe que d&scut&am? --Falavam muito baixo, de maneira que nunca ouvi C que diziam. --Quando estiveram aqui, pela última vez? --Há três ou quatro dias. Ma&gret mal quer&a acred&tar. --Tem a certeza de que se trata da mesma pessoa? Tornou a mostrar-lhe o retrato de René Josselin e o criado voltou a observá-la, com mais atençao.

--& o que Ihe digo. Olhe! Até trazia na mao uma data

de jornais

atrás dele, para entregar-lhos, pois esquecera-se deles em cima da mesa. --Seria capaz& de reconhecer o homem que o acom- panhava? --Talvez, Era um suje&to alto e, como Ihe disse, bas- tante magro. --Cabe&los? --Castanhos. --Fato? --De um tecido l&ge&ro, claro, de bom corte.

três ou quatro, pelo menos. Quando saiu, fui

112

--Pareceram-lhe zangados, um com o outro? --Nao. Mantinham-se sérios, mas nao estavam zangados. --Que beberam? --O gordo, esse Monsieur Josselin, bebeu um quarto

de água de Vitel e o outro, um whisky. Deve ser um conhe- cedor, porque disse logo a marca que desejava. Como cá em casa nao houvesse aquela marca, indicou outra, sem hesitar.

--Quanto tempo ficaram a conversar?

--Uns vinte minutos

--Só os viu juntos, dessa vez?

--Nao. Monsieur Josselin já cá tinha estado com esse

homem, por duas ou três vezes

das férias. --E esse homem tem aparecido por aqui, mesmo sem Josselin?

Talvez mais.

A última foi pouco antes

--Sim. Esteve cá

--Ouando? --No mesmo dia, mas bastante mais tarde

sido no dia seguinte? --Tem a certeza?

Ou terá

Nao. Claro que foi no mesmo dia.

--Absoluta. --Portanto, nesta semana?

--Sim

--O homem voltou sozinho?

Terça ou quarta-feira.

--Entrou só e, durante um bom pedaço, entreteve-se

a ler o jornal da tarde

que já tinha bebido de manha. --E depois? Quem veio ter com ele? --Uma senhora. --Conhece-a? --Nao. --Nova? --De meia-idade, mas bem conservada vestida.

Encomendou-me o mesmo whisky

Muito bem

1 13

--Davam a impressao de que se conheciam bem?

--Certamente

tou-se ao lado dele e, quando me aproximei para saber o que desejava tomar, fez um gesto, indicando nao querer coisa alguma.

Ela parecia estar cheia de pressa. Sen-

--Ficaram muito tempo juntos?

--Cerca de dez minutos

prim&eiro; o homem ainda bebeu outro copo, antes d&e ir-se

Nao mais. A mulher saiu

embora.

--E tem a certeza de que se tratava exactamente do

mesmo indlvíduo que estivera, nessa manha, com Josselin?

--Absoluta

mesma marca de scotch! De resto, nao é uma figura que

-se esqueca, numa semana, tanto mais que esteve aqui, no mesmo dia e a horas em que a clientela escasseia. --Deu-lhe a impressao de que era um homem habituado

a beber m&uito?

Se Ihe estou a dizer que até pediu a

--Sim

que estava ugrosson& se é isso que quer dizer

desses tipos a quem a bebida, com os anos, vai deixando marcas. Tinha papos, debaixo dos olhos, e &pés de galinha,

--Foi a primeira e única vez que viu esse homem e essa mulher, juntos?

e a aguentar bem os &oopos&. Nao pense

Mas é

--Sim, que me lembre

nada posso afirmar. Com a casa cheia, presta-se menos

atençao aos clientes

colegas. Cá na casa, somos seis a fazer turn&s.

Se veio a outras horas, Já

Mas pode perguntar aos meus

Maigret pagou a oespesa e achou-se na rua, sem saber

o que deveria fazer, de seguida. Embora estivesse ten-

tado a ir, imediatamente, à Rue Notre-Dame-des-Champs, repugnava-lhe a ideia de aparecer logo após o corpo ter sido devolvido à familia, quando todos estavam a velá-lo na camara ardente. Preferiu prosseguir em direcçao à Place des Lilas, con- tinuando a entrar nas lojas e, com menos conviccao, a

exibir a fotografia do morto.

Dessa maneira, ficou a conhecer o lugar da hortaliça oncie os Josselin se abasteciam, o sapateiro que Ihes reparava o calçado da família e a pa&aria ondb se forn& ciam todos os dias.

Depois, tendo chega&o ao Boulevard Saint-MicheJ, resol- veu voltar a descê-lo até à porta principal do Jardim do Luxemburgo, fazendo assim, ao invés, o passe&io quoti- diano de René Josselin. Ao ladlo da grade, descobriu o quiosque onci;e ele com- prava os jornais.

Mostrou o retrato da vítima. Fez algumas perguntas,

sempre as mesmas. A todo o momento, esperava ver aparecer o jovem Lapointe que começara o inquérito, a partir do extremo oposto.

--Sim

nais diários e os semanários. --Vinha sempre sozinho? A velha pensou uns segundos. Depois informou:

--Parece-me que, por duas vezes, trouxe um homem com ele.

& esse o meu freguez

Guardava-lhe os jor-

--Ouviu-os falar, um com o outro?

--Nao sou surda

frente. Eu perguntei ao mais novo:

mas nao conversa&ram à minha

*--E o senhor, que deseja?

&E o cavalheiro

um cavalheiro educado, respondeu:

*--Estou com este senhor. *E nao comprou coisa alguma.n Tanto quanto a velha se lembrava, o *cavalheiron era um homem alto e moreno, bastante magro, com olheiras.

porque, via-se bem, também ele era

--Em que data foi isso? --Sei lá. Deve ter sido na Primavera, visto que me

fr&nte. estavam

re&ordo de que os castanheiros, aí e,m flor. --Nao voltou a vê-lo, ultimamente? --O gordo ou o magro? --Oualquer deles.

--O gordo já nao aparece por aqui, há um par de dias.

Ao magro

nunca mais Ihe pus a vista em cima.

que me fazia lembrar o meu terceiro marido

Foi no café, onde estava instalado o escritório d&as *Apostas Mútuasn, que Maigret acabou por encontrar La- pointe. --Também Ihe disseram?--admirou-se o inspector, ao

ver entrar o comissário. --O quê? --Oue ele costumava vir aqui Lapointe já se dera ao trabalho de interro&qar o dono

do café que, acumulativamente, também dirigia as apostas nas corridas de cavalos. O homem nao conheci Josselin pelo nome, mas fora categórico:

--Vinha cá, pelo menos, duas vezes por semana. Nunca trazia jornais de hipismo e nem se dava ao trabalho de

estudar as possibilidades de cada corredor

ar de ser um verdadeiro aficionado da &arten.

--Apostava ao acaso? --Oh! Agora, há muitos assim! Nem sequer sabem a

que coudelaria pertence um cavalo; chegam a ignorar o

significado e a importnncia de um handicap

um número, como se estivessem a jogar na lotaria. & tudo ao .Icalhasn! --Ganhou alguma vez?

--Uma

a sorte está com os asnos !

Maigret e Lapointe atravessaram o Jardlm do Luxem-

burgo.

Nao tinha

Escolhem

ou duas

por mera coincidência! As vezes,

1 1 6

Nas cadeiras de ferro forjado, viam-se estudantes mer-

gulhados nos livros; alguns Jovens parzinhos, d&e braço dado, olhavam, com ar sonhador, para os garotos que brincavam sob a vigilanc&a das maes e d&as criadas.

A certa altura, o inspector indagou:

--Acha, &patrao&, que Josselin escondia *coisas.

mulher?

--Estou a ficar com a impressao de que era homem para isso. Nao tardarei a sabê-lo

--Vai interrogar a viúva? Ouer que vá consigo? --Sim, meu rapaz. Prefiro que venhas comigo.

A camioneta da agência funerária já nao estava defronte

da porta. Os dois homens subiram no ascensor, nao para

o terceiro, mas para o primeiro.

--Enganou-se, .patrao.,?--admirou-se Lapointe.

--Nao

uma pergunta à &espanholan, ou lá o que é, além de maluca.

Já Iha devia ter feito, mas impacientei-me com o seu

.francêsn e a ideia passou-me. Foi Madame Aresco quem apareceu à porta, tentando cobrir os opulentos seios com as abas do roupao. Seria que nunca se vestia de outra manelra?

Os miúdos berravam e Maigret teve de repetir, erguendo

a voz:

Depois do que ouvi, esta tarde, quero fazer

--Quero falar a l&olores. --No está. --Onde está?

--No quarto

Tornaram a entrar no elevador que ficara parado, no piso.

Enquanto subiam ao sexto, Maigret olhou de soslaio

Iá em cima. Fez limpezas. Foi lavar-se.

para Lapointe e sondou:

--Ainda nao a viste, pois nao? --Ouem? --Dolores?

1 17

--Nao, ¨patraon. Com um sorriso malicioso, o comissário silabou:

--Pois vais vêlal Ouando a morena Ihes abriu a porta, Maigret pensou que nao teria o gosto de ver corar o seu tímido inspector. Efectivamente, desta vez, Dolores nao os recebia em .,pêlo Mas logo verificou que o rosto de Lapointe adquirira a pigmentaçao de um tomate maduro. Com os olhos desme- suradlamente abertos, olhava para a moça que tinha enfia&o uma comb&naçao transparente, mu&to exígua e decotada, que se Ihe colava à pele. Como, por detrás dela, a janela estava aberta, tudo se Ihe v&a, em contra-luz, através do nylon diáfano. Assim, a sua imagem era ainda mais erótica do que se ela estivesse completamente nua. De pernas ligeiramente entreabertas, desenhava-se-lhe nitidamente a pilosidade do púbis. Alheio ao ataque de pigarro que parecia ter afligido o inspector, o comissário saudou-a, mansamente:

--Boa tarde, Dolores. Desculpe vir perturbá-la novamente. --No faz mal. Ouerem entrar? E toda ela se abria em sorrisos, lançados a Lapointe que nao sabia para onde olhar. --Vim apenas fazer-lhe uma pergunta. Disse me ter

o da

ouvido ruídos, naquela no&te no quarto ao lado deste

cr&ada dos Jossel&n. Ora, eu desejava saber, se, noutras

ocasioes, também teria ouvido outros ruídos versas.

ou con-

Teve- de repet&r a pergunta, pacientemente, até que a moça respond&eu:

--sr

Outros dlias

Mas com espaços grandes

Meses

dè &ntervalo

--Viu alguém, de qualquer dessas vezes?

--Só a senhora do pr&me&ro se foi embora.

No querem, realmente, entrar?

a patroa da criada que

1 18

--Isso passou-se no tempo dessa criada7 --Nao. Foi depois. --Oue foi que viu? --Entrou com uma cafeteira e um frasco que parecia reméd;io, com papel colado. --Ouviu-a falar com alguém? --si. --Oue disseram? --Nada. --Como nada? --Falavam muito baixo. --Viu a pessoa com quem ela falava?

- No.

--Nao teve curiosidade em espreitar? --si. --Nesse caso, porque nao espreitou? --Por causa do ca&rteiro. --Ele veio trazer-lhe, aqui, o correio? --No. Estava ali na cama. No me deixou sair debaixo dele.

Lapointe tossiu. Depois, ficou boquiaberto, olhando'do soslaio para Maigret que, impassível, ainda perguntou:

--Viu Madame Josselin sair do quarto?

- No. O carteiro

--Já sei. Das outras vezes, passou-se a mesma coisa?

--Com o carteiro?

--Refiro-me à senhora do primeiro andar. --No sé! Só ouvi ruídos. --Ouantas vezes sucedeu isso?

- No sé.

--Duas, três? --Si. O comissário decidiu dar por terminado aquele estranho interrogatorio que parecia torturar o jovem inspector.

Ouando desceram à casa dos Josselin, Lapointe, con- seguindo recuperar a voz, rouquejou:

--O .patrao. viu? A tipa, por baixo, estava nua. --Sim?--fingiu estranhar Maigret.--Sao ossos do ofício, meu rapaz. Tens de ir-te habituando a isto.

--Mas as mamas, *patrao&

-Ihe os bicos, espetados para nós

--Antes mamilos do que canos de revólver--filosofou

o comissário, tocando à campainha.

Uma vez mais, Madame Manu veio abrir a porta. --Ah! Sao os senhores Conduziu-os para a sala onde nada tinha mudado. A porta da casa d&e jantar estava aberta e via-se uma senhora de idade, sentada, a fazer tricot junto da janela aberta. Era, sem dúvida, a enfermeira ou dama de companhia que o dr. Fabre fora desencantar para auxiliar a viúva. --Madame Fabre acaba de sair--informou.--Foi tratar dos meninos. --E Madame Josselin? --Quer que Ihe diga que o senhor está aqui para falar com ela?

perdao

?

os seios

Viu-

E, num sussurro, acrescentou:

--O patrao está cá Apontou para o antigo quarto de Véronique que fora trans- formado em camara ardente. Depois, foi prevenir a patroa. Esta nao estava a velar o cadáver, mas no seu próprio quarto, e apareceu toda de negro, tal como na véspera, embora o vestido fosse diferente e cheirasse a novo; trazia um colar de pérolas cinzentas e brincos a condizerem.

Pelos vistos, ainda nao tivera oportunidade para chorar.

O seu olhar continuava fixo e ardente.

--Disseram-me que desejava falar-me

Olhou para Lapo&nte, com curiosidade, e Maigret apres- sou-se a apresentá-lo:

--Um dos meus &nspectores

Peço-lhe dbsculpa de

voltar a incomodá-la. Tentarei ser o mais breve pos-

sível . Francine Josselin, talvez por pensar que, na realidade

a visita seria curta, nao os mandou sentar. Nao fez a

mínima pergunta e, com os olhos fitos no com&issário, esperou que este encetasse o diálogo. --O assunto deve parecer-lhe fútil, minha senhora, mas gostaria de perguntar-lhe se o seu marido tinha a paixao

d&o Jogo.

Nao estremeceu. Maigret ficou até com a impressao de que esta pergunta causara um certo alívio à sua interlo- cutora, que descerrou os lábios para elucidar:

--Moderadamente. Gostava de jogar xad&rez com o genro e, de longe em longe, um apartida de canasta com os

Larue

quando nao estava cá a minha filha que joga melhor do

que eu

--O seu marido nao jogava na Bolsa? --Nunca! Tinha horror a essa forma de especulaçao.

Há algu&ns anos, propuseram transformar-lhe o negócio numa sociedade anónima a fim de dar-lhe uma maior expanfiao, mas René recusou, com sentida indignaçao. --Comprava bilhetes de Lotaria? --Nunca Ihe vi, sequer, a mais pequena .cautela --Também nao apostava nas corridas de cavalos? --Oue ideia! Durante toda a nossa vida, nao devemos ter ido às pistas de Longchamp ou de Auteil mais de dez

em que eu, d&e resto, também comparticipava,

Era só isso que desejava saber?

vezes

Numa delas

a única

Ievou-me a ver o .Prix

Diane,

mas isso foi em Chantilly

e René nunca

apostou.

 

--Nao teria o costume de jogar nas *Apostas Mútuasu?

--Oue disparate

a cavalos, só sabia que tinham quatro patas, com um focinho

desculpe que Iho diga! René, quanto

à frente e uma cauda atrás. Como filha de cavaleiro, sempre me espantei como haja pessoas que nada entendem de hlpismo. Bemj isto nat i tereSnaS corridas Onde poderia fa H cafés em Paris& onde as Ap

contratadores legalizados &do nao punha os pés nos cafés- --E diePe Josselin prOferiu esta últ&m

--A senhora tambémd naec&eU de tal maneira que Mai9ret

v u,&a& &- ~ e

--Porque me per9Unta iSSjE?SárjO heSitOu em prosse9uir

_ Nesse momentE& E co A -.&r_ nao ¨,espantar a caça+-

--Nesse momento& E com1O& para nao tespantar a caça+

o nterdrE9atESr,&ilê&nA&lo Sequente tornou-se incomoòativE. como se pesasse sobre as ftrês jPea, ou lá o que era, decidira

I PEtrarse e viera fechar a porta da

ESe deles d Autra porta, estava urn mErtEumP ramE

ntOs ne9rESb lacdos numa pia de á9SU panOplias de flEre

tinham chegadE as coroaS fUneeerse de que a mulher que Majgret nao podia esq.u, c que por aCaSE, estava no t.nha diante de Sliher enquantO al9Uée 'ela conhecia e ssinava o marldo I te até no sexto piso. no quartEv devolutE da cria; hs& cenhora se esta semana '''&' deVoluto da cna& t semana

na terça ou quarta-feira nao en

_sim Fomos beber qUvaérqonique eStava cheia de sede -

122

Mas nao nos demorámos. Detesto esse ambiente, de maneira que foi uma entrada por saída. --Onde foi isso? --Na Rue Royale.

--Referi-me a terça ou quarta-feira deste bairro.

e a um café

--Nao percebo aonde quer chegar Maigret nao gostava do papel que se via forçado a desempenhar. Conquanto nao tivesse a certeza, tinha

a impressao de que acertara no alvo e que a viúva empe-

nhava-se em reunir todas as suas forças para nao mostrar

o

panico que já a devorava interiormente.

O

olhar dela desviara-se do rosto do comissário, mas

ergueu o queixo, como se aguardasse a resposta que Ihe era devida.

Maigret insistiu, placidamente:

--Nao seria possivel que alguém, por qualquer motivo,

se tivesse encontrado consigo, num café aqui próximo por exemplo, no Boulevard Montparnasse?

--Ninguém se encontrou comigo

café!

e muito menos num

--Posso pedir-lhe que me dê uma fotografia sua&, Mad&ame

Josselin?

A mulher esteve preste&s a inquirir:

.IPara quê?& Mas limitou-se a murmurar:

--Suponho que só me resta obedecer Estavam abertas as hostilidades. Francine Josselin saiu da sala, entrou no quarto cuJa

porta deixou aberta e ouviram&na remexer numa gaveta que devia estar che&a de papéis.

Quando voltou, estendeu-lhe um retrato, desses de passa- porte, de há quatro ou cinco ano-& antes.

--Creio &lue isto basta, nao?

123

Para ganhar tempo, Maigret, lentamente, guardou a foto- grafia na carteira.

Depois, mencionou:

--O seu marido, Madame Josselin, apostava nas corridas.

--Se o senhor o afirma

René fazia-o sem o meu conhecimento bido?

Pois bem, se isso é verdade,

E de,oois? & proi-

--Nao é proibido, minha senhora, mas, para podermos descobrir o assassino, temos de analisar todas as probabi- lidades, de verificar e relacionar todos os pormenores, por mais inocentes que pareçam.

*Há três dias, ainda nao conhecia esta casa. Nada sabia da existência da sua familia, nem dos hábitos de seu marido. estritamente no desempenho da minha missao que pedi

a vossa colaboraçao

&

--Pela minha parte--cortou ela--, tenho respondido às suas perguntas, nao será assim? --Gostaria que me tivesse esclarecido mais coisas Visto que a guerra entre ambos fora declarada, o comis- sário optava pela táctica do ataque.

--Na noite do drama, nao insisti em vê-la, Madame

Josselin, porque o dr. Larue me declarou que a e&ncontra&ra

em estado de choque

--Nao me recusei a recebê-lo, Comissário.

--Mas

--O que podia dizer-lhe. --Que quer isso significar? --O que sabia. --Tem a certeza de que me disse tudo? Tem a certeza de que a sua filha e o seu genro nao têm estado a ocul- tar-me qualquer facto essencial?

Ontem, quando cá vim

que me disse?

--Está a acusar-me de mentirosa? Os lábios de Francine tremiam, embora quase imper- cept&velmente. Dev&a estar a exercer um terr&vel esforço,

124

sobre si mesma, para manter-se direita e firme, frente a Maigret, que ficara ligeiramente corado. Quanto a Lapointe, embaracado, nao sa&bia ond&e se havia de meter. --Nao a acuso abertamente de mentir, minha senhora; mas, talvez, de omitir certos pormenores significativos. Por exemplo, certifiquei-me de que seu marido apostava nas corridas --E isso de que Ihe serve?--interrompeu ela, desa& fiadoramente. --Se a senhora nao o sabia, se nem sequer suspeitou

dessa inclinaçao de seu marido, isso significa que ele era capaz de esconder-lhe alguns factos da sua vida privada. Se Ihe escondeu essa tendência para o jogo, também poderia ter-lhe ocultado

--Nao creio que me tenha ocultado fosse o que fosse-- cortou a viúva, com azedume.--Provavelmente, nunca se lembrou de falar-me nisso. --Essa justificaçao só seria aceitável se ele se tivesse limitad,o a jogar uma ou duas vezes, esporadicamente Mas nao se tratou de um incidente casual. Era um apos tador regular e, nas corridas, gastava vários milhares de

francos, por semana. --Aonde quer chegar?

--A que a senhora, inicialmente, deu-me a impressao

de que tudo sabia a respeito de seu marido

a si, que também nao tinha segredos para ele. Empenhou-se

em cultivar no meu espirito a ideia de que --Nao percebo que relaçao tem isso com --Suponhamos que, na terça ou na quarta-feira de manha, Monsieur Josselin se encontrou com alguém, num café do Boulevard Montparnasse --Viram-no lá? --Pelo menos temos uma testemunha que foi absoluta- mente cateaórica.

e, quanto

--E depois? & muito possível que tenha encontrado um

antigo colega ou um seu ex-empregado convidado a tomar uma bebida

e que o tenha

--Mas ainda agora me disse que o seu marido nunca entrava num café

--Bem

Nao me referia a uma ocasiao especial, como

f!&c.e&

--Ele falou-lhe nesse encontro? --Nao.

--Ao voltar para casa, nem sequer mencionou:

.&--A propósito, encontre&i Fulano

--Nao me lembro. --Se ele Iho tivesse dito, seria capaz de lembrar-se? --Provavelmente. --E se a senhora, Madame Josselin, por sua vez, se

tivesse encontrado com alguém

senhora c&nhecesse suficientemente bem para entrar com ele num café e demorar-se dez minutos, a conversar, sen- tada a uma mesa, enquanto ele bebia um whisky Agora, Maigret tinha a testa perlada de suor; torcia e retorcia nervosamente, quase raivosamente, o cachimbo entre as maos.

. &.

com um homem que a

Roucamente, Francine redarguiu:

--Continuo a nao perceber. --Nesse caso, desculpe-me por tê-la incomodado

Cer-

tamente, ver-me-ei forçado a voltar cá

até entao, pense conscientemente nas perguntas que Ihe fiz. Cumpre à Polícia encontrar todas as provas possíveis Nao se esqueça, Madame Josselin, de que alguém matou

o seu marido em liberdade

e que pode tornar a matar

A mulher estava medonhamente pálidb, mas nao estre- meceu e encaminhou-se para a porta; limitou-se a despe- d&ir-se com um movim&ento seco de cabeça e, quando eles

Peco-lhe que, daqui

de que esse assassino ainda se encontra

seja quem for.

126

saíram, ouviram-na fechar o trinco e colocar o fecho de segurança, sem a minima brusquidao. No elevador, Maigret, com um lenço, limpou a testa alagada de transpiraçao. Dir-se-ia que evitava o olhar de

Lapointe, como se receasse vislumbrar, no rosto do ins-

pector, uma expressao de censura. Quando a cabina atingiu

o rés-do-chao, balbuciou:

--Tinha de ser

127

CAP&TULO 6

- V. 472

Como pessoas que hesitam em separar-se, os dois homens permaneceram no passeio, imóveis, a poucos passos do prédio de que tinham acabado de sair. Uma chuva muito fina, quase invisível, dessa a que chamam *de molha-tolosY, começara a cair; ao fim da rua, alguns sinos principiar&m a tocar; depois, de uma outra

direcçao, outros Ihes responderam mais longe.

A dois passos de Montparnasse e dos seus cabarets, na

vizinhança do Jardim do Luxemburgo, aquele bairro era nao

só uma ilha pacífica e burguesa, mas tamlbém uma aldeia

de conventos. Além das Pequenas Irmas dos Pobres, situavam-se, mais atrás, as Servas de Maria; perto, na Rue Vavin, as Madres de Siao e, no extremo da própria Rue Notre-Dame-des- -Charnps, as Madres Agostinhas. Maigret pareceu ficar atento ao som dos sinos; res-

pirou o ar cheio de minúsculas gotas de água, quase névca,

e depois, com um suspiro, programou para Lapointe:

--Vais dar um salto à Rue nao chegas a demorar dez minutos

tanto os escritórios como as oficinas estao fechados, mas

se Jouane for da mesma massa do antigo patrao, é pos-

sível que tenha lá ido para resolver qualquer assunto

pen&ente

*Se nao o encontrares, poderás interrogar um porteiro

ou um guarda. Uma empresa daquele taman&ho nao fica

e outros ainda, de

De táxi, Como hoje é sábado,

mesmo sendo sábado.

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totalmente abandonada durante os dias de folga. Perguntas

o número de telefone da casa de Jouane e ligas para ele. --A dizer o quê?

--A pedires-lhe autorizacao para me trazeres, empres-

tadla, uma fotografia que se encontra no seu gabinete. Ontem, quando estive a conversar com ele nos escritórios da fábrica, notei que, nu;ma das paredes estava dependu- rada uma moldura contendo uma fotografia muito ampliada. Pus-me, maquinalmente, a observá-la, sem sequer pensar aue ooderia vir a ser-nos útil.

--Corno a reconheço, &patrao,., no caso de haver mais molduras nas paredes?

--& a maior, por cima de um,maple. Trata-se de um

grupo, com René Josselin ao centro, ladeado por Jouane

e por outro que é, certamente, Goulet. Para a esquerda e

direita deles e também numa fileira de trás, veem-se outros

membros do pessoal

.Nao sao, evidentemente, todos os operários da fábrica, mas apenas os empregados mais antigos e mais importantes. E de supor que a fotografia tenha sido tirada para come- morar um aniversário, ou talvez a data em que René Jos- selin deixou a empresa.&

talvez umas vinte pessoas.

--Depois, vou ter consigo ao Quai? --Nao. Vem ter comigo ao café do 80ulevard Montpar- rtssse onde eu estive, há pedaco. --t:iual deles? Nessa avenida há dois. --Creio que se chama &Café Franco-ltalien&. Fica mesmo ao lado de uma loja de artigos para pintura e escultura.

Afastou-se, com as costas um pouco curvadas e a cabeça para diante, a chupar o cachimbo que acabara de acender e que, pela primeira vez nesse ano, Ihe sabia a Outono.

Ain&a se achava um tanto ou quanto perturbado com

a dureza com que interpelara Madame Josselin. Para mais,

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sabia que a refrega verbal, entre eles, ainda nao tinha acabado. Pelo contrário, mal comecara. Provavelmente, embora os outros personagens, filha e genro, tivessem omitido qualquer facto, só a viúva mentia

deliberadamente. Ora, a profissao de um *chui+ é descoorir

a verdade.

Era sempre desagradável para Maigret levar uma pessoa até às suas últimas resistênsias e isso já Ihe vinha de muito longe, da sua infancia, mais precisamente do pri-

meiro ano em que tinha ido à escola, na sua aldeia do Allier. Nessa altura, proferira a primeira grande mentira da sua vida. A escola fornecia, gratuitamente, livros wsados que estavam mais ou menos rebentados e riscados, porém,

alguns alunos compravam livros novos que Ihe faziam inveja.

Entre outros compêndios escolares, Maigret recebera um catecismo ensebado, com as páginas já amareladas, er&qu&nto vários colegas, com mais sorte, ostentavam cate- cismos de uma ediiçao recente, com uma encadernacao de um cor&rosa tentador.

Uma noite, ao voltar da escola, Maigret an&nciou ao pai:

--Perdi o meu catecismo, de maneira que o professor deu-me um outro que, por acaso, está em estado novo. A verdade é que nao o perdera. Com falta de coragem para destruí-lo, fora escondê-lo no sótao, atrás de uma velha arca. Nessa noite, custara-lhe a adormecer. Sentia-se culpado e estava persuadido de que, mais tarde ou mais ce&to, a sua mentira a&abaria por ser descoberta. No dia seguinte, nao tivera o menor prazer em servir-se do seu belo catecismo. Durante três ou quatro dias, sofrendo remorsos, conge& minou a maneira de normalizar a situa;,cao. Com o llvro

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na mao, resolveu ir falar ao mestre-escola, balbuciando, corado, co ma garganta seca:

--Encontrei o velho

ver-lhe este. Ainda se lembrava do olhar do professor

lúcido e ao mesmo tempo benevolente. Maigret ficou com a certeza de que o homem tinha adivinhado o seu expe- diente e compreendido tudo. --Estás contente por te-lo encontrado? --Sim, senhor professor Ficara-lhe toda a vida reconhecido por ele nao o ter obrigado a confessar a mentira, poupand&}o à humilhaçao. Madame Josselin também mentia e já nao era uma criança- era uma mulher, uma mae de família, uma viúva, para mais de bem recente data. Maigret, por assim diizer,

e o meu pai mandou-me devol-

um olhar

tinha-a obrigado a mentir. E, provavelmente, pela mesma razao ou talvez por outra, a filha e o genro também se viam coagidos a mentir ou a omitir uma parte da verdade. Se pudesse, gostaria de poder estender-lhe a mao e evitar-lhe essa terrível experiência de debater-se contra a humilhacao.

Estava pronto a acreditar que, na realidade, lidava com gente de bem. Nao sabia bem porquê, persuadira-se de que o homem com quem Francine Josselin se encontrava furtivamente nao era um seu amante. Convencera-se de que nem ela, nem Véronique, nem o dr. Paul Fabre tinham assasslnado René Josselin. Contudo, ocultavam qualquer pormenor fundamental que, certamente, Ihe permitiria deitar a mao ao verdadeiro cul- pado. Relanceando os olhos pelos prédios fronteiros, pensou que talvez fosse necessário interrogar, um por um, todos

os habitantes da rua; todos aqueles que, da sua janela, p&essem ter surpreendido um facto interessa&te. No dia ou na véspera de ser baleado na sua própria

1 &4

casa, Josselin encontrarase com um indivíduo no café do Boulevard Montparnasse, Porém, o criado nao pudera pre- cisar bem a data. De resto, isso nao se evidenciava tao importante como o facto de Madame Josselin ter-se encon- trado, com esse mesmo homem e nessa mesma tarde, na calma do café.

Quando, àquela hora mais tardia, entrou no *C&fé Franco ltalien& o ambiente já tinha mudado. Algumas pessoas tomavam aperitivos e uma fila de

mesas já se achava coberta com toalhas sobre as quais

se alinhavam os pratos e talheres para o almoco.

Maigret foi sentar-se no mesmo sítio onde estivera

nessa manha. O criado que o servira acercou-se dele como

se o comissário já fosse um cliente antigo.

Exibindo a fotografia de Madame Josselin, Maigret inquiriu:

--& ela?

O criado pos os óculos e examinou o pequeno retrato.

--Sem tirar nem pôr. Aqui, nao está de chapéu, mas

tenho a certeza de que se trata da mesma senhora.

--Tem uma certeza absoluta? Seria capaz de jurá-lo?

--Bem

fazerem-me uma data de perguntas torcldas --Nao creio que tenha de ir testemunhar num tribunal. Como se chama?

Num tribunal, com os advogados e o julz a

--&mile.

--Pois bem, &mile, pode descreverme a maneira como ela vinha vestida, na tarde em que aqui esteve?

--Trazia um vestido de la escura

com uma espinha cinzenta e um chapéu com um: debrum branco. A descriçao correspondia ao traje com que Madame Josselin o recebera nessa manha, cor&quanto o comissário a tivesse visto sem chapéu. Provavelmente seria o que tinha

nao era bem preto

135

usado na antevéspera do m*rido.

ou no dia anterior ao da morte

--Oue deseja beber?--perguntou &mile. --Um conhaque com água. --Mineral ou &lisa.?

--Sim, &lisa,

De seguida, indagou:

--Onde está o telefone? --Ao fundo, à esquerda, em frente dos lavabos

de pedir uma ficha à menina da caixa. Maigret fechou-se na cabina e procurou, na lista, o

da torneira, se estiver fresca.

Tem

número do dr. Larue. Nao tinha a certeza de encontrá-lo em casa e, no fundo, também nao tinha um motivo preciso para telefonar-lhe.

Vasculhava o terreno, como f&zera quando se interes- sara pela fotografia de grupo da Rue Saint-Gothard. Esfor- çava-se por verificar todas as hipóteses, mesmo as mais extravagantes.

Do extremo oposto do fio, uma voz masculina atendeu.

--& o dr. Larue?

--& curioso. Entrei em casa agora mesmo e estava, precisamente, a pensar em si.

Daqui, Maigret.

--Porque? --Nao sei. Dei comigo a pensar na sua investigaçao

na sua profissao disso, a esta hora.

Foi por mero acaso que me lembrei

--Nao está com muito trabalho? --Aos sábados, acabo as minhas visitas mais cedo do que nos outros dias, porque uma boa parte dos meus

pacientes

os fins&semana fora de Paris

os menos doentes, que ainda &mexem,

passam

--Importava-se de vir tomar um aperitivo comigo? --Onde está? --No *Café Fr&ncoltallen

1 36

- &--Sei muito bem onde-é

You Já ter consigo --Ainda

Flca a dois passos daqui

Já tem nov&dades?

Senoo baixo, gorducho e careca, Larue nao correspondia

à descriçao qu& o criado fizera do companheiro de Josselin. Jouane tarnbém nao, porque era ruivo e nao tinha ar de quem bebe whlsky. Contud&, Maigret nao estava disposto a correr riscos. Minutos depois, o m&édico saiu do seu automóvel, entrou no café e, dirigindo-se ao criado, saudou-o familiarmente:

--Como vai isso, i'mile?

Portanto, conheciam-se. Larue explicou que, uns meses antes, tratara de i-'mile, quando ele se ferira numa máquina de fazer café. --De outra vez, val para dez anos, corto&se com um

machado

progressos? --Nao me têm ajudado

com srnargura. --Refere-se à família?: ` --Sobretudo, a Madame Josselin. Pecii& , Doutor, que se encontrasse comigo, porque gostaria de fazer-lhe uma

Essas cicatrizes?

E a sua investigaçao, Comissário? Já fez alguns

.--confessou Maigret,

ou duas perguntas a respeito dela. De resto, já Ihas flz, anteontem à noite. Estou preocupado - com certas lacunas informativas. Segundo julguei compreen&r, o i&outor era

um dos raros amigos íntimos da casa, assim coTno sua

--Como Ihe disse, trato dos Josselin, há muitos anos,

e cont&eço Véronique desde pequena

só me chamavam, de longe em longe. --Quando se tornou amigo da famllia? --Só muito mais tarde. Há uns anos atrás, oonvidaram-

-nos, a mim e a minha mulher, para jantarmos oom outras

Porém, nes&a épDca,

pessoas

os Anselme, s& nao estou em erro, que sao

137

grandes fabricantes de chocolate

colates Anselme, nao?

casamentos e baptizados --Eram íntimos dos Josselin?

--Sim. Naquele período, davam-se muito

um casal bastante mais velho

as caixas para os chocolates e para os confeltos. --Air&da& vivem em Paris?

--Nao me parece. O pai Anselme reformou-se, há uns quatro ou cinco anos, e comprou uma casa no mónaco Creio que vivem lá, todo o ano. --Agradecia-lhe que fizesse um esforço, para lem-

brarse

--Ainda recentemente, sucedeu-me passar a noite na Rue Notre-Dame&es-Champs com os Mornet que tem duas filhas e devem estar, neste momento, a termlnar o cruzeiro

que fizeram às Bermudas

resumo, os Josselin só se davam com alguns dlos seus

grandes clientes ou fornecedores --Nao se lembra de algum homem, de cerca de qua- renta anos, que fosse vlslta lá de casa? Nao me lembro. --Conhece bem Madame Josselln? Oue pensa respeito?

--& uma mulher multo nervosa

tenho tratado com calmantes, embora ela possua um extraor- dinário dominio sobre 8i mesma. --Gostava muito do marido?

--Estou convencido de que o estimava muito

teve uma adolescência fel&z, segundo pu&e perceber

O pai f&cou viúvo, multo cedo

tremendamente severo --Viviam na Rue Saint-Gothard?

=Perto, na Rue Dareau

selin e casaram-se ao cabo de um ano de namoro.

Deve con&ecer os cho-

Também fabric&m confeltos para

mas eram

Josselin vendla a Anselme

Ouem mais encontrou em casa dos Josselin?

Sao fabrlcantes de papel

Em

Nao escondo que a

Nao

Era um homem azedo,

FranciM conheceu Rene Jos-

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--Que aconteceu ao pai dela? --Adoeceu com um cancro! particularmente doloroso e, uns anos mais tarde, suicidou-se. --Diga-me uma coisa, Doutor: como reagiria o senhor se Ihe dissessem que Francine Josselin tinha um amante& --Nao acreditava. Compreenda, Comissário: por dever profissional, conheco os segredos de muitas famílias. Sobre-

tudo num certo meio, como o dos Josselin, o número de mulheres que enganam os maridos é muito menor do que

a literatura e o teatro se empenham em fazer-nos acre& dltar.

.&Nao pretendo que algumas dessas mulheres nao tenham

amores clandestinos, apenas por virtude

ocasiao, têm o medo das intrigas, de um esc3ndalo Compreende o que quero dizer, nao?. --Hum, hum! Ela saía, à tarde, com frequência?

--Sim, tal como a minha mulher

mulheres ca&adas

encontrar-se com um homem, num hotel ou num quarto

particular

com franqueza, só poderei utilizar um nao categórico Está enganado! --E Véronique? --Gostaria de responder-lhe da mesma maneira, mas

quanto a ela, devo ser mais reservado

é improvável, embora nao completamente im&ssível

Dfflrto, deve ter tido aventuras sexuais, antes de ca-

mas falta-lhes

como a maioria das

mas isso nao significa que fossem

Nao, senhor Comissário

Para responder-lhe

Direl que isso

sar-se

que conheceu o marido

homens, antes dele. & possível que, presentemente, se

sinta desiludida com a vida que leva

certeza

homem e verificou que s