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I

AlnxaNone Meaoues Cannar,

A MÃs DASVnnpeDES:

A onrcnvauDADg

E A oRTcTNARIEDADE

DO CONCEITO DE VERDADE EM

HslosccsR

MaamenvrEorrona BAotuyesr Eolrona Rio de Janeiro

2004

suNrÁRro

AIlreviaturas

 

ux

lntrodução

I

A questáo da Verdade

na Filosofia

 

1.

A verdade em Heidegger:

um novo horizonte para

compreensãodo problema

 

7

Estratégia para abordaçtem

13

 

PRTMEIRA

 

O problema

da verdade

PARTE em Ser e Tempo

CAPÍTULO

I - Froblemáticas

iniciais

de Ser e Tempo

27

1.1O Sercomo problema

27

1.2A hermenêutica como ontologia

30

1.3Dasein e existência: pontos de partida da ontologia fundamental

47

CAPITUTO II - Análise

do Da do Dasein

51

2.1 A mundanidade

do Dasein enguanto

ser-no-mundo

53

2.2 O guem do Dasein

62

2.3 Disposiçáo e Compreensão

75

2.4 O problema da linguagem

82

2.5 A Decadência

88

CAPÍTULO

s 44

nI - A cura como ser do Dasein e a verdade

no

95

3.1

O Dasein enquanto cura

96

3,2 O horizonte da abertura como pressuposto para se

 

pensar a verdade

7O2

3.3

Verdade originária

e a veritas clássica

118

A Máe das Verdades

CAPÍTULO IV - Verdade e Temporalidade

734

4.1 A

temporalidade como sentido de cura

135

4.2 A historicidade do Dasein

159

4.3 A

temporalidade da verdade em Ser e Tempo

161

O Problema

SEGUNDA PARTE da Verdade após Ser e Tempo

CAPÍTULO I - A Verdade na conferência "Sobre a Essência da Verdade'

777

CAPITULO

U - A Verdade no Pensamento Originário

e na

Metafísica

190

CAPÍTULO

III - O Resgate da Verdade Originaria

233

coNcl-usÃo.

 

250

 

267

Obras de Heidegger

 

26r

Outras Obras

262

ABREVIATURAS

- Ensaios e Conferências

- Da experiência do pensar

- Sobre a Essência da Verdade

- O fim da Filosofia e a tarefa do pensamento

- Hegel e os Gregos

- Identidade

- Introdução à metafísica

- Heráclito

- Nietzsche: metafísica e niilismo

- Meu caminho para Fenomenologia

- Oue é isto - a fiÌosofia?

- Oue é metafísica?

- Serenidade

- Sobre a Essência do Fundamento

- Sobre o humanismo

- Ser e Tempo - Parte I

- Ser e Tempo - Parte II

- Seminário de Zollikon

e Diferença

A Máe das Terdades

efê-

mero do real. EIas se prendem ao sorraÍvol (, trarrsitório, não che-

gando à dimensáo eterna - eidética - clo roal. Por isso, ao valorizar

o conhecimento noético e dianoético, Platáo ;:roduz um conceito de verdade reducionista: só o gue arazâo humana concebe com a sua luz é o real propriamente dito. O problema da verdade, segundo o gue dissemos anteriormente, está imbricado com a ontologia. Ouando o ser reduz-se ao logicamente apreensível, a verdade se

luz da

' Os modelos de interpretaçáo da qüididade da verdade, desde Platáo, referem-se ao universo ontológico racionalmente concebido. Ser,verdade e lógos se imbricam nos diversos conceitos de verdade no Ocidente. Assim entendemos Aristóteles, S. Agostinho, S. To- más, Descartes, Kant, Hegel, etc. Todos estes pensadores analisa- r€Ìm a questão da verdade a partir da redução do ser ao universo lógico. A verdade como adeguação, como certeza, como clareza, como mensurável matematicamente, etc.,gé assim concebida pela

filosofia, por causa da bipolaridade lógos-ser que já apresentamos anteriormente. De acordo com as modificações sofridas no

destacamento das diferentes regióes do ente, a verdade

concebida de diversas formas. Em cada fase da filosofia, os pensadores destacaram uma região do ente. Logo, para cada pêríodo filosófico, a verdade foi representada pelos filósofos de uma forma. Todos os termos que tentam traduzü o OUID da verdade diferenciam-se entre si, pois cada um desses termos se refere a

uma dimensão própria do ente. Neste sentido, a história da

verdade caminha paralela à história da ontologia: a cada vez çnre a

filosofia concebe o ser através de uma nova perspectiva, de verdade se modifica.

A eikasia e a pistis sáo as dtras íorrnrrs clo conhecimento

relacionará táo-somente ratio.

com esta apreensáo

advinda

da

foi

o conceito

A partir

do que dissemos, podemos tecer algumas conclusões

acerca do problema da verdade na filosofia:

a)

A

verdade, como problema,

surge concomitantemente

à

descoberta da razáo (Lógos-Ratio), como único meio de interpretar-

se o real:

9 ïtataremos de alguns destes termos,

em seus porÌltotìorí),r, rlrrrrrrlo analisar-

mos a crÍtica de Heidegger à verdade ôntica. Isto sorá oÍol,tt(|<lorruris a frente, nos próximos capítúos.

A originalidade e a originariedade do conceito de verdade em Heidegger

b) O problema da verdade ligta-se ao problema do ser, pois, ao

valorizar-se somente o lógos como único meio de interpretar-se o real, o ser passa a ser o que é mensurado pela amplitude da luz do lógos. Logo, ser e lógos passam a estar intimamente imbricados.

Sendo a verdade algo diretamente ligado ao lógos, verdade e ser passam a ser correlacionados;

c) A qüididade da verdade relaciona-se com a regiáo do ser

gue está sendo analisada pelo lógos. Portanto, a diferenciaçáo das

concepçóes acerca da güididade da verdade, refere-se às respecti- vas zonas ônticas gue estáo sendo inguiridas log"icamente;

d) O problema da verdade é, segyndo o ponto anterior, um pro-

blema ôntico. Somente porgue o ser reduziu-se

verdade pôde ser interpretada de formas diferentes pela Íilosofia. A

guestão da verdade, portanto, é uma questáo ôntica.

ao ente,

é que

a

A verdade em Heidegger: um novo horizonte são do problema

para a compreen-

Dissemos que'a verdade e sua problemática Íilosófica, após o

esquecimento do dionisíaco, trouxe uma série de problemas para a cultura ocidental. Mas gue problemas são estes? O gue de male- fício a razáo pode traier para a vida humana? Náo é, porventura, a racionalidade o que há de mais digmo no homem, segnrndo a concepção corrente?

esta guestáo devemos nos pergruntar: será

da "ratio"? Será gue o

real pode se enclausurar na luz do "lógos"? Pode o "lógos" açam- barcar o real?

inúmeras formas de o

é a história

homem enxergar racionalmente as diversas regrióes do ente.&

ente, por sua vez, é o real enquanto substancializado, "prontifica- do", simplesmente presenteJ Ao conceber-se o reaÌ como algo dado, perde-se a dinâmica inerente ao processo de realizaçáo do próprio real. Ouando substancializamos, petrificamos o real, representamos anacronicamente e estaticamente a própria

realidade. Assim se funda o pensamento

em seu pro-

cesso de realizaçâo? A resposta a esta pergunta é a mesma res-

de um pen-

samento náo - metafísico; é a mesma pergunta pela possibilidade

posta que daríamos à pergnrnta sobre a possibilidade

que a vida se exaure nos conceitos advindos

Para pensarmos

A história

do Ocidente

das

ôntico do real.

o real

Mas haveria a possibiÌidade

de pensarmos

A Mãe das Verdades

de exlrressar-se, através do pensamento, o universo dionisíaco já esguecido pela nossa cultura. Será possível pensarmos o real a

Caso pudéssernosr

partir

de um horizonte

afirmar

a possibilidade

náo lógico, náo-ôntico?

de pensarmos

o dionisíaco

já esguecid.o,r

como seria este novo tipo de pensamento?

O pensamento

ôntico

não pergrunta sobre aquela

dimensáo

possibilitadora

identiÍicar-se com o\epresentável racionalmente. Ora, se há uma reaÌidade gue subtrdi-se às representações porgue é pressuposto p€ìraque elas existam, então, ao pens€ìrmos esta dimensão esçtue-

a

d\oda

e gualguer

representaçáo.

O real passa

I

cida, podemos superaÍ um modelo ôntico-representativo-filosófico gue até hoje vigorou.

"No pensamento, portanto, nem tudo é representação. Ao contrário, toda representação nosre- mete a pensar as rúzes e ongens de sua uigência e cons- tituíçã.o, toda representação inclui sempre um nível de pensamento que náo representa nada, toda represen- taçãovive de acolher e aceitar, em seuslrrnr'tes, o misté- rio da realidade, subtraindo-se em todas realizações,'.ro

O gue é este mistério que se subtrai às representações? O gue

dado

dizer dele, já Sue ele não é ente, não é algo simptesmente

(Vorhanden)? O mistério é o nada do ente, é o nada em relação ao

ente, é o não-ente. "O absolutamente outro com relação ao ente, é

o não-ente. Mas este se desdobra como ser".11O mistério, portanto,

é o ser, gue náo se reduz ao ente já essencializado.

da diferença irredutível entre ser e ente foi o pressuposto neces-

sário para gue houvesse, no Ocidente, a perda da dimensáo não

essencializada,

do

real

O esquecimento

dinâmica e trans-ôntica própria do real.lh lógica, ao

o

ao âmbito

ônticolâmtrito

esquecer-se

do ser, reduziu

calculável,

mensurável.J

Na modernidade, o ente - e, concomitantemente, a verdade - reduziu-se ao calculável. A Matemática tornou-se o critério de análise da veracidade das proposições racionais. Assim, por exem-

Emmanuel Carneiro Leão. Aprendendo a pensaÍ. Vol II. petrópolis: Vozes, 2000.p. 209.

71 O.M.p.48.

i\ ,,t tttinalidadee a originariedadedo conceito de verdade em Heidegger

1,1,.ir Física deixou de ser uma metafísica da 131 rre23,12pois

Desta

l,nriri()u a red.uzir o ente ao numerável,

ínrrrrrr,a matematizaçáo do ente também se esç[ueceu de pergnrntar

pnln tìimensáo possibilitadora de todo e gualquer cáIculo.

ao guantificável.

submete -se

a si mesmo à ordem de tudo

de seu procedimento.

todo o calculável do calcuJo iá é, antes de suas somas e produtos calculados, num todo cuia unidade, sem

dúuida, pertence ao incalculável que se subürai a si e sua estranheza das garras do cáIculo. O que; entÍetanto, em toda parte e constantemente, se fechou

de antemáo às exigências do cálculo e que, contudo, iá

de

a todo

desconhecido, mais próximo do homem que todo ente, no qual eJese insüala a si e a seus projetos, pode, de

tempos" dr'spor a esséncia do homem para um pen.sa-

"O pensamento

calculador

dominar a partir

da lógica

EIe não é capaz de suspeiüar gue

momento,

é,

em

sua misteriosa

condição

mento cujaverdade nenhwna'Iógíca'é

preender".73

capaz de com'

Com o desenvolvimento da ciência e da técnica, há o máximo desenvolvimento do modo ôntico de pensar o real' A realidade passa a ser inquirida pelo modelo matemático-calculante c;ue permeia o projeto da ciência desde a modernidade' Na técnica, historicamente advinda, por sua vez, do desenvolvimento da ciência, o real passa a ter que libertar sua energia para servir, única e exclusivamente, aos interesses de dominaçáo do próprio homem. A verdade, neste sentido, passa a ser a correspondência entre o real e a vontade de dominaçáo do indiúduo humano. Assim, por exemplo, vemos a retirada de energia da ágrua: a ágrua passa a ser entendida a partir do projeto (inquisição) através do gual ela deve gerìr energia. Este projeto é a redução do real aos interesses do homem.

72

Isto é típico

da física Aristotélica.

13

A.M. p.50.

C.f.: G. Reale. Opcit. p' 374-385.

X

A MtnsclasVerdades

t ' 't t' ttttitlidade e a originariedade do conceito de verdade em Heidegger

O problema do ser já havia

sido

tratado por outros pensadores

traaiçao

aristotélico-tomista

metafisica.

.,toda tentativa

empírico

O"

A

me_

do pen_

.rrurrç.,

na

história da filosofia. Em especial, a

i rllr ) l,:r;[eprincípio, a partir do qual tudo é dito ser, é a substância.

r\ rrrrr<ladedos vários

sigrnificados

,lrt,rr()lÌì relaçáoà substância".z7

de ser deriva do fato de sererrfl íJ

"(

,)

algumas cor'sas"são" pelofà

ae

serem substâncias, outras por serem modificações

da

substância, outras por repÍesentarem um trânsito para ela, a destruição, a privação ou uma qualidade dela, ou pelo fato de a produzirem ou gerarem, ou poÍ serem

termos relativos à suhstância, ou negações de um desses termos ou da própria substância".z8

l)or centrar-se na substância (ousia), a ontologia de Aristóteles

É irruil usologia. O'ser, ao referir-se à substância, náo é, portanto,

o

Hrfr (;omo ens genera)issimr:m. O ser, de algnrma forma, é determi- unrkr, já gue a forma, gue pertence à substância, é agente de de- lorrrrinaçãodo ser (Formadat esse). Aristóteles, a partir da análise dos múltiplos sigmificados do snr o de suas relaçóes com a substância, traça uma tábua gue visa ehrt:idar os significados do ser.ze Eis o resultado geral de sua ehr<;idação:a - O ser se diz como acidente (ab alio) - neste caso o snr é algo casual, contingente (symbebekós); náo há, pois,

rrrrr;cssidadedo ser acidental ser. O acidente pode existir de outra

se altera essencialmente o ser;

lr O ser se diz como essência - Este é o ser em si (in se). A

nril;cìncia do ente é aguilo sem o gual o ente não

,rl1Jocasual ou fortuito, como o acidente. Aristóteles, assim como

forrrra, já que com sua mudança, náo

urlnr uma espécie nem gênero. Tlambém não podemos

entender

é o gue é. Náo é

liiro Tomás de Aquino, considera, normaìmente, só a substância r:otÌìo ser essencial; mas, algnrmas vezes, Aristóteles atribuiu às rLrrnaiscategorias o caráter de ser essencial. As demais categorias

lrodem ser essenciais devido ao fato de todo ente náo existir

clas; elas podem modificar-se, mas não deixam de existir nos entes r;onsíveis;30c - O ser se diz como verdadeiro ou falso - O ser como

sem

tentou

tafísica,

saÍnento humano

uma realidade meta-emp íi,1ca,'.zs

de ultrapassar "."t.

desenvolver o problema do ser a partir da

podemos

afirmar,

e

o mundo "a"o,

meh-empÍrica,

A rearidade

que a tradição aristotérica tentou

reali_

alcançar, tornou-se acessíver,

dades: a - causas ou princípio"

do ser enquanto ser; c_

ção de Deus e de substânci."

açÍora' farar de

mento

ridade da questão do ser.m

diÍerenciação.

segnrnao a busca das segnrintes

J.rpr*o"

dos entes; b-_ indagaçao

inAagação

i*àt"ri"i".

da substância; e d _ indaga_

caracterÍsticas

elucidar

.tr"rre"

melhor

do pensa-

a singula_

de um processo de

não responde

univo_

cabe-nos'

aristotélico,

pergunta:

para gue possamos "rst".;

que

H.ia.g;ãi,

A

é o ser? Aristóteles

camente.

umacoisa,,u,,,;::r#ïff

to central,

"é" por

."::,:::;::;Ã?:::':itr

ser, eaão se diz

que

relacÍo_

aquito no

sintoma

S o gue é .médico,

uma espécie definidade

analog.ia. Tttdo que é ,,salutar,,

de preservá_Ia,

aquil,outrc no d.e constituir um

ünda de comporta-la.

arte da Medicina,

na-se à saúde, isto.no sentido

de produzi_la,

de saúd.e ou

relaciona_se à

sim chamadas

'

certascor-sassendo as_

que, como

são

,,e,,,

natwahnen "' x:::

:"i::: i:; :;ï: ::;;, n:'#

não faltam

^iao

pO"*""

qu" hmbén

que uma coisa

ção da arte médica. E

esÊas, üenham diversos usos. De

vários os sentrdos em que dizemos

rnas ,.26 tida todos e,les se referem a um só ponto de par_

O ser náo é unívoco, mas, como

pensou

a escolástica,

o

1náloeo. Esta anatogia é, em Ari"tód;;,

ser referenre a um princípio

é verdadeiro ou falso é o ser que se refere aos juízos, portanto, refere-

45

26

22

Reale. História

S;:"""t

Aristóteles.

Metafisica.

da fiìosofia

1003 a, 33 _

antiga.

Vol IL São pauto: LoyoÌa,

1003 b, g.

1994. p.

?.8

?o

G. Reale.Op. Cit. p. 3114. Aristóreles. op. cit. 1003b,B-10 C.f.:Idem, t026a, 34-7O26b,25.

30 C.f.:G. Reale.Op. Cit. p.347-349.

23

A Máe das Verctaçkr;

se à lógica.O juízo é vor<lrrrkritr) (lurur(lr rrprtlËrrrrl.no rrlll,t)tiìl como

é e é falso quando náo so roírtttttttl ottl,rr (:t,tll(, ó ettt tll; O -p ser

como potência e ato - Tbdo sor oprôãÕnl.nalgo lá tenllzncloíatgo é capaz de realizar. O primeiro ó o ttLtt, Já o nogtttr<loír Jrotência.

O binômio ato-potência se estende, rogrrrr<lo Aristótoles, aos

demais sigmificados de ser.l Todos os significados do se! como Já mencionamos anterior- mente, dependem, de forma direta, da subetância, Ela aparece co-

mo o substrato de onde advêm os demais significados do ser; ela é

o suporte

"razâo de ser".

-iÉ- ^í

ã-qo.

t

r'

a partir

do qual

todas

as outras

categorias

ganham

somenüe a

ousia não é predicamento.

dícam da esséncra, esta, que é em si mesma, de coisa algama se predica. Na medida em que os predicamen-

üossão gêneros, a ousia, como essência, é o que subjaz

)'.31

à cor'sa, hypokeímenon, o suporte e o fundamento (

"De

todas

as categorias,

Enquanto

as demais se pre-

A substância, sendo essência, refere-se, em sentido próprio, ao

ente concreto, individual. Para Aristóteles,

cia) no ente é individual, e náo, universal, como em Platão.

o gue subsiste (substân-

"Toda a suhstântciano (Jniverso é indí- vidual. O universo é sempre para Aristóteles, algo que, apesar de perfeitamente real e ohjetÍvo, não possuí

existê ncia separada ".32

A crítica de Aristóteles quanto à não-existência de substân-

cias separadas, refere-se à dicotomia platônica de mundo sensível

e hyperurânio - mundo das idéias perfeitas. A anáIise da substân-

cia, segrundo Aristóteles, começa através da observaçáo do mundo sensível. O resultado desta análise possibilitou a Aristóteles ana- lisar a possibilidade ou não-possibilidade da existência de subs-

tâncias sem matéria.

Benedito Nunes. Passagem para o poético: filosofia e poesia em Heidegger. São Paulo: Atica, 1992, p. 36. David Ross. Aristóteles. Lisboa: opus, 1987, s/pá9.

24

A originaJidade e a originariedade do conceito de verdade em Heidegger

A substância sensível comporta, antes de tudo, uma forma (rridos, morfé). A forma é algo intrínseco à matéria. É eta gue dá a trlentidade do ente. Podemos express€ìro sigmificado da forma para Aristóteles com a segnrinte e:rpressáo latina - já mencionada por rrós: Fbrma daü esse - "a forma dá o ser". A forma é o gue faz com (lue o ente seja o que é e náo outro. Toda definição se reporta à Íorma, pois toda definiçáo üsa mencionar o que o ente é em sua identidade.

'A forma ou essência do homem, por exemplo, é a sua alma, ou seja, o que faz dele um ser üvo racional; a forma ou essêncrla do animal é a alma

sensitiva e a da planta, a alma vegetativa. Ou ainda, a essência do círculo é o qte faz com que ele seja aquela íígura com aquelas determinadas qualidades; e o

mesmo

pode

se dizer

das outras coisas. Auando

definimos as cor'sas, referimo-nos

à sua essência".33

A alma, como aparece na citação, é a forma do ser vivo; este,

L

por

sensíveis, é a matéria. Por exemplo, de nada valeriam as idéias do

artista qaso não houvesse o material

las. O material, no caso do artista, é a matéria que será informada peìas idéias gue ele possui. "Neste sentido, também a matéria resulta fundamental para a constituiçáo das coisas e, portanto, poderá ser dita - pelo menos dentro de certos limites - substâncias

das coisas".34 '+

sua vez, tem ser. O algo gue a forma informa, nos entes

onde ele consegnrGÈèimprimi-

Todas ."

foi

sensíveis, pelo que podemos perceber a partir formam um composto: composto de matéria e

dito, "Ë".,

do que

forma. Sfnolon é o nome dado pela unidade originária desse com- posto. O Slfnolon, por sua vez, ê considerado, também, substância, já gue, nos entes sensíveis, a unidade de matéria e forma é o cJue, propriamente, é sigmificado pelo termo substânqia. Matéria, forma e synolon, os três, de alguma forma, podem ser chamados de subs- tância. "Portanto, todas as coisas sensíveis, sem distinçáo, podem ser consideradas na sua forma, na sua matéria, no seu todo; e a

33 G. Reale.Op. Cit. p. 555

34 Idem. Idem.

25

{

A Mãe das Verdades

este esquecimento, segundo Htlicltlggor,ttlr() (tttl t,ríil: 1 '- O ser é o conceito mais geral e mais vazíoi 2 - O t;9ttt,'ttll.tttltt Étrtír irrdefinível;

e 3 - O ser é um conceito evidente. Vejamos agora o sentido destas trôa sotttorrçaa.a2

O primeiro dogma formado acerca do esr ao roÍore à sua univer-

salidade. O ser é um "traÍlscendens", segundo a tsrminologia me- dieval. EÌe náo pode se reduzir ao gênero nem à espácie, como

vimos em Aristóteles. Por isso, pode parecer qu€ "a gua universali- dade dispensa gualquer orpücaçáo".a3 Esta clareza é meramente ilusória. Nem Aristóteles nem a escolástica colocaram claramente

A

o problema

noçáo de actus essendi tomista por meio da qual se explicava a diferenciaçáo dos entes devido à participação destes no ser pleno gue é Deus, náo resolveu o problema da universalidade do ser de forma clara. Por isso, o conceito de ser, segundo Heidegger afirma,

é o mais obscuro.

dos nexos categoriais

que se referem

à analogia'

o

conceito

conceito de ser seja o mais ciaro e que não necessiüe de qualquer dr'scussão ulterior. Ao contrário, o conceito de

mais universal, r'sso não pode significar que o

"Auando

se diz,

portanto:

'ser'

é

'ser' é o mais obscuro".44

O segundo dogma ou - como também diz Hervé Pasgua - pre-

conceito, é conseqüência da universalidade do ser. Sendo o ser algo universal que transcende o gênero, ele é indefinível. A definiçáo'

segrundo a lógrica aristotélico-tomista, é a adjunção da diferença es- pecífica ao gênero próximo. Assim, por exemplo, a definiçáo de ho- mem é: "animal racional". O animal é o gênero próximo, e a diferen-

ça específica advém da forma deste ente, ou seja, da racionalidade,

gue está presente na espiritualidade

porgue o ser náo tem gênero, ele não pode ser definido'

da alma humana. Justamente

O pensamento metafísico clássico, ao mencionar a impossibi-

lidade de definição do ser, somente mostrou que o ser náo pode se

42 Heidegger declara

"dog-

ma". Assim diz Heidegger:

pérflua a questáo sobre o sentido do ser como lhe sanciona a falta". S.T.I. p. 27.

que

estas

três

sentenças

formam

uma

espécie

de

" formou-se um dogrma que náo apenas declara su-

43 Hervé Pasqua. Introduçáo à leitura do Ser e Tempo de Martin Heidegger. Lisboa: Piaget, 1993, p.15.

M S.T.L p. 29.

28

A originalidade e a origiinartedade do conceito de verdade em Heidegger

f

I

reduzir ao ente.4s Isto,

porém, náo impossibilita gue haja uma in-

vestigação

se definir o ser não dispensa a guestão de seu sentido, ao contrário,

justamente por isso a exigre".46

O ultimo dogrma advindo da tradiçáo metaÍísica apontad.o por

Heiaegger é gue "o ser é o conceito evidente pbr si mesmo".47 Em toda sentença pronunciada pelo homem no cotidiano, faz-se uso do

ser. Dizemos: "a laranja é amarelâ", "â nuvem é branca", etc;

assim, acredit€rmos que compreendemos o çFre queremos dizer com

o "é" das proposiçóes, mas tal compreensão é vaga e mediana. Esta compreensáo não nos mostra que devemos abandonar a investigaçáo acerca do sentido do ser, mas mostra-nos que o ser,

neste sentido, é algo obscuro, devendo, portanto,

J

uma elucidaçáo profunda

do que seja o ser em seu sentido. '.A impossibilidade de

ser aclarado por

e questionadora.

"Todo mundo compreende: 'o céu é azul', 'eu sou feliz', etc., mas essacompreensão comum

demonstra apenas a incompreensão. Revela que um enigma já está sempre inserido a priori em todo ater-se

fato de üvermos sem-

e ser para o ente, como ente- Este

pre numa compreensão do ser e o sentído do ser estar, ao mesmo tempo, envolto em obscuridades demonstra

a

necessidade a princípio de se repetir a questão sobre

o

sentido do ser"38

A obscuridade do ser, segundo o que mencionamos, pede uma

análise minuciosa e profunda do problema. É necessário gue náo nos percarnos em preconceitos gue banalizam - justamente porgue falam de uma certa evidência do ser - a obscuridade e a seriedade do problema em questáo. Por isso, Heidegger propóe uma anaÌítica para elucidar a questão do sentido do ser. O termo "analítica" foi tüado de Kant e quer dizer "ofício dos filósofos".4e Com a analítica, Heidegger guis mostrar a seriedade do problema do ser e o rigor com o gual deve ser tratado.

45 "Daí pode-se apenas concluir que o ser náo é um ente". S.T.I.p. 29.

46 ldem. p. 29.

47 Idem.

48 ldem. p. 29-30.

49 ldem. p. 30.

29

A Mãe das Verdades

1.2 A hermenêutica

como ontologia

O ser náo se reduz ao ente, corrro jú vrrrrorr,Âlrcsar de Heidegger não ter utilizado em Sere TelÌlJ)oir ()xl)lurir;ir()"rliÍerença ontológica", podemos dizer que ela está prL'$ult() orrr l.o<laa obra. A náo redutibilidade do ser ao ente é o quo rliz o,.;t,acxpressão (diferença ontológica). A tradiçáo filosófica esquoccu o ser como questão, justamente porgue o reduziu ao ente. Corn esta redução surgiÍam os mais diversos métodos para elucidar-se as rcgiÕes dos entes do real. Mas, em Heidegger, devido à origirrariedade da questão do ser e da descoberta da diferença ontológica, o método de investigaçáo modificou-se em relação aos demais. Neste tópico trataremos do método fenomenologico-herme- nêutico utilizado por Heidegger como via necessária para a eluci- dação do sentido do ser.Mas, para çnre possamos expressar melhor

a originalidade do método, será necessário que tratemos de algu- mas questóes de Ser e Tempo que sáo preliminares em relaçáo à elaboração do método.

A questáo do sentido do ser se mostrou necessária para o pen-

samento filosófico. Em todo questionamento há um questionado,

um interrogado e um pergruntado.so

O questionado em Ser e Tempo é o próprio ser. O interrogado é

o ente, já que o ser não é um

que permite gue o ente seja, o ser determina o ente enquanto ente.

Ente e tudo o que se faz presente, está dado, é algo com que nos comportamos, é o próprio homem, etc. Portanto, o interrogatório deve ser do ser do ente, que náo é um outro ente, mas o que permite gue o ente seja.

ente ao lado do ente. O ser é o "há"

radaéoser,o':":";::::X:::^Jïï::'^2":;::12';

sempre compreendido, em qualquer discussáo gue seja. O ser dos entes não é em si mesmo um outro ente (

medida em que o ser constitui o

questionado e ser diz sempre ser de um ente, o que resulta como interrogado na questáo do ser e o proprio

ente (

senüjdos diversos. Ente é tudo de que falamos, tudo que

Chamamos de "ente" muitas coisas e em

Na

 

{

J

50

C.f:S.T.I.S2.

 

-

30

A originaüdade e a originariedade do conceÍto de verdade em Heidegger

entendemos, com que nos compoÍtamos dessa ou da- quela maneira, ente é também o que e como nós mes- mo.s,somo,s.Ser esüá naquilo que é e como é, na realida- de, no sersimp,lesmente dado (Vorhandenheit), no teor

e recurso, no valor e valid.ad.e,na pre-sença, no há".51

é o ente; e o

pergmntado,

expressáo, que é singular em toda obra de Heidegger, mostra-nos que Heidegger náo quer saber o que é o ser, mas qual o seu sentido. A colocação do problema neste porte visa, sobretudo, não entificar o ser. À pergunta: o gue é o ente?, só podemos responder com um ente; mas à pergunta: qual o sentido do ser?, esperamos uma resposta gue náo reduza o ser ao "mundo" dos entes. Com isso, Heidegger náo quer fazer uma "doutrina do ser", mas visa, antes de tudo, buscar o que significa o termo ser. O significado do termo ser, que sempre esteve presente na linguagem, impulsionou as pesquisas dos filósofos, mas estes mesmos nunca trataram explicitamente do agente impulsionador de seus pensamentos - sentido do ser.

O questionado,

o

que

como vimos, é o ser; o interrogado

é? O pergnrntado

é

o sentido

do

ser. Esta

'A questão do ser ou do sentido do ser, que retorna ao problema ontológico não para recompô-

lo ou para reconstituí-Io doutrinariamente, mas para focalizar o pressuposto que possibütou a sua Íormula-

ção,

e a resposta que eÌa se deu, e, pois, preliminar-

mente, uma Índ.agação sobre o que significa'ser"'.52

Como, então, Heidegger chegará à questáo do sentido do ser? Deve-se buscar um ente para investigá{o em seu ser, devido aos motivos já expostos. Mas, gual é este ente? Deve-se explicitar, aclarar, inguirir um ente para que desvele seu ser. Explicitar, aclarar e inquirir, náo sáo atitudes de um ente? Náo sáo modos de ser de um ente? Este ente, diz Heidegger, é o ente que nós mesmos

ut

S.T.I. p. 32. Utilizaremos

Tempo

traduçáo brasileira.

o termo

Dasein

(que diz Pre-sença).

Manteremos,

52 Benedito Nunes. Op. Clr. p. 42.

como sinônimo

porém,

da tradução

de

Ser e

da

pre-sença

nas citaçóes

JL

I

;/

A Mae

das Verdades

 

somos.

Logo,

devemos

inquirir

o

olll.í)

(ltl(t

questáo do sentido do ser.

ii{,tttoli

l,;ttit

r;olocar

a

"Ora, uisualizar, coln I )rootttIttt, rt:;u tlIteÍ, aceder são atit udes constitut iv as do r;ur.r."'tirrIIi||Ì|l)||L ( ) e, ao mesmo tempo, modos de ser de un d}L}rrttirtildo t:n- te, daquele que nós mesrno,s,os gue qur,'.ttiortartt,.sem- pre somos. Elaborar a questão do ser signilica, portan-

. to, tomar seu ser'.53

transparente

um ente - o que questiona - em

*\

-

-Ì.u

O "ente gue somos" Heidegger

brasileira de Ser e Tempo traduziu Dasein por pre-sença. Ex- r,1

- f.azeruma analítica - o Dasein ou a pre-sença é o pressu-

nomeia de Dascin.saA tradu- \i

ser.

,r4

Ìi

çáo

plicitar

,

i posto necessário para aclarar-se o sentido do

"Esse enüe que cada um de nós somos e

de

questionar, nós o designamos com o teÍmo pre-sença. A colocação explícita e tÍanspaÍente da questão sobre o sentido do ser requer uma expücitação prévia " tq9- quada de um ente (pre-sença) no tocante a ,seu,ser"."

.que, entre outras, possui em seu ser a possibilidade

Há um aparente círculo ücioso na questão do ser: a busca do sentido do ser depende do esclarecimento do ser de um ente. Este círculo só seria vicioso se considerado superficialmente. É neces- sário um ente ser investigado para que a questáo do sentido do ser seja tratada, de fato. No caso do Dasein, o ente que deve ser inqui- rido para chegar-se até a questáo do sentido do ser, carrega consigto uma pré-compreensáo do ser no seu cotidiano. "Corri- queiramente", o Dasein se move a partir da compreensáo prévia do ser. Esta compreensão é parte constitutiva do Dasein. Aclarar esta dimensáo constitutiva do Dasein não é cair em um círculo vicioso, pois o que se quer náo é uma deduçáo lógica, mas uma enposiçáo de-monstrativa - gue mostra, gue aclara o ente em seu ser; no caso do Dasein, aclala-se a sua pertença ao ser.

CJ

S.T.I.p. 33.

54 Posteriormentetrataremos do termo Dasein em seus Dormenores.

55 S.T.I.p. 33.

JZ

A originalidade e a originariedade do conceito de verdade em Heidegger

'A pressuposigão do serpossui o cará-

ter de uma üsualização preliminar do ser, de tal manei'

ra que, nesse rzisuaÌ, o ente previamente cule provisoriamente em ,seu ser. Essa

do

ser, orientadora do questionamento, nasce da com' preensão cotiüana do ser em que nos movemos desde sempre e que, e em ütima instância, pertence à própria

constituiçáo essencia/ da pre-sença. Tal'pressuposiçáo' nada tem a ver com o estabelecimento de um princípio da qual se derivaria, por dedução, uma conclusáo. Não pode haver 'círculo uicioso' na colocação da questão

sobre o sentido do

resposta, uma função dedutiva,

não está em jogo, na mas uma exposição de'

dado se arti-

uisualização

ser porque

monstrativa das funções ".56

A singiularidade da questáo de Heidegger, deve-se à dimensáo

e

com que

Dasein. Tal dimensáo pede um método náo-lógico, não-dedutivo, como vimos anteriormente. Este método, por sua vez, deve trans- cender o plano ôntico e possibilitar o esclarecimento do plano onto-

lógico.szVejamos, entáo, o método utilizado por Heidegger em sua análise do Dasein.

o gue cha-

ele propóe

analisar

a co-pertença

originária

de

ser

No parágrafo 7 de Ser e Tempo, Heidegger trabalha

mou de método fenomenológico. Este termo, porém, foi cunhado em cima do pensamento fenomenológico de Edmund Husserl. Hei- degger estudara profundamente a obra husserliana; por isso mes- mo, (Heidegger) pôde modificar o necessário para gue o método fenomenológico pudesse auxiliar a analítica do Dasein e a explici-

taçáo do sentido do ser. O pensamento de Husserl ó um atague ao

psicologismo

psicologismo e a matemâticaf.aziam uma forte crítica contra toda metafísica possível, em especial ao sistema idealista hegeliano, que deixara vestígios na cultura alemá vigente. A matemática, na época de Husserl, tinha a pretensáo de orientar o saber empírico e buscava, também, sistemas formais que permitiriam unificar numa só as suas várias disciplinas. Já a psicologia buscava ter o estatuto

presente na filosofia alemá do final do século XIX. O

SO Sr:. p.:4.

57 Ôntico é o qÌ.re se refere ao ente, e ontológico

é o referente

ao ser. C.f: S.TI. S 4.

A Mae das Verdades

de ciênciaexata,pois ahÌlojitvirlotrrrrrl;rrlr'l; irlr;rr/r,:rrlr,rilr(;()ssivas experiências - o que nÌostrÍì (lur) o lrol;rllvrlrilr) l)rfÌrrÌoava o pensamento da época.

"No domínio rlasc:iúrx:itr::,tlrttt:irfutrtl.re

elas sáoparticularmente notáveis: its trtttttttrtitl.ir:irse a

psicologia. As

dos dados da intuição, procuram c:onstrttir .si.süernas

formais que permitiriam unificar numa s(; srra.srlivcrsas disciplinas, realizando assr'mo velho sonho rlos Pitago-

ricos

a tendência positivista em voga, constituiÍ-se como ciência exata conforme o modelo das ciéncias da natu- Íeza, eliminando assr'm os aspecfos sutìietiyos e, portanto, aparentemente não cientÍficos, que o uso da introspeç ão comport a".58

( Auanto à psicologia, ela busca, dc itt:orclo com

primeiras, afastanclo-so t:ittltt v.)2, rnais

Mas, a partir das correntes historicistas e vitalistas, as ciên-

cias, calcadas no positivismo,

começam a ser questionadas. E a

história e o sujeito histórico, onde ficam no positivismo? O período histórico gue orienta o pensamento de Husserl eçtá permeado do hibridismo da ciência positiva e das correntes histo- ricistas e vitalistas. Mas a superação teórica do psicologismo é encontrada por Husserl em Fïanz Brentano. Pensador de corrente aristotélica, descreve ele os fenômenos psíquicos a partir da inten- cionalidade, que é a abertura natural da consciência ao objeto, e, além disso, pensa çnre a percepçáo imediata que advém da inten- cionalidade é o conhecimento fundamental - originário.

'A

grande

contribuição

de Brentano

consjsüe de início em distinguir fundamentalmente os fenômenos psíquicos que comportam uma intencÍonali- dade, a visada de um objeto, dos fenômenos físÍcos; em seguida, em afirmar gue esse,sfenômenos podem ser

percebÍdos e que o modo de percepçáo original que de- Jesüemos constitui seu conhecimento fundamental".sg

André Dartigues. O que é fenomenologia? Rio de Janeiro: Eldorado, 1973. p. 16-17. Idem. p. 17.

A originalÍdade

e a originariedade

do conceito

de verdade

em Heidegger

A intencionalidade aparece paÍa Husserl como agente possi- bilitador de uma fenomenologia entendida como ciência rigorosa, por causa do elemento empírico que norteava a ciência vigente. Na intencionalidade, logos e fenômeno se imbricam mutuarnente. Nesta imbricaçáo, o fenômeno, sendo algo empírico, possibilita gue a fenomenologia possa ser considerada como ciência.

"Mas se o fenômeno não é nada de cons- truído, se é, portanto acessível a todos, o pensamento

racional, o logos, deve sê-Io também e .Ffusserl acaba então por conceber uma filosofia nova que realizaria enfim o sonho de toda filosofia: toÍnar-se uma ciência

( Assim, a filosofia, nascendo sobre o solo de

rígorosa

uma experiência comum, poderia enÍim começar verdadeiramente como um a,s,sunüoque diz respeito a todos, em vez de ser, como o são ainda as "vr'sõesde mundo", a expressão acabada, mas apenas singular e, portanto contestável, de uma individualidade genial".6o

A intencionalidade, pode-se dizer, de certa forma superou o modelo solipsista moderno, que desde Descartes norteou o pen- samento. Este modelo (solipsista) entendeu a consciência como algo fechado em si mesmo. A realidade e a consciência, no proces- so de conhecimento, segundo o pensamento moderno, seriam duas realidades à parte. Neste modelo, o dualismo é inevitável. Um exemplo nítido disto encontra-se no pensamento crítico de Kant. SegnrndoKant, a consciência carrega consigo uma estrutura trans- cendental a priori gue modela toda a experiência sensível possível. Esta estrutura a priori já estaria dada e pronta no sujeito. AsEim, sujeito e objeto sáo dois pólos distintos gue se relacionam a partir de um tipo de transcendência - transcendência do sujeito gue sai si, alcançando o objeto. Na intencionalidade, a consciência é algo aberto. Há uma cer- ta simbiose entre consciência e real. A consciência é sempre cons-

" ciência de algmma coisa. Isto permite a superaçáo do modelo dualista advindo da modernidade. Esta aberüura permite gue veja- mos dois movimentos que ocorrem na relaçáo consciência-objeto. O primeiro movimento é o do objeto à consciência e o segundo vai da

.-de

60 Idem. p. 20.

35

A Máe das Verdades

]F

i

consciência ao objeto.

O objeto

é, noutn rolnçfro irrt,oru;ional,segun-

"

do a nomenclatura de Husserl, nóemai o a corrsciôrrcirró a nóesls. X Na ação da consciência sobre o objeto ocorro o ato <klclar sentido. I *"ü

"Thl como lJusser/ o concebeu, pode o

nexo

intencional

ser percorrido

6rn duas

dfnensóes:

uma ç7-tue vai do objeto-visado

outra

uisado.

dimensão apresenta-se sob a segunda como ato de dar

(nóema/ à consciência,

que vai

O que

do

é

modo de vr'sar (noésis) ao objeto

da

ação

". 61

do objeto,

sob a primeira

sentido (sinngebung)

A dimensáo da intencionalidade

é, para Husserl, a dimensáo

originária.

ïhl

dimensão

é pré-racional,

ocorre antes mesmo do

homem especular acerca do real; nela o homem encontra o real e o

Husserl entende que a

análise'desta dimensáo primitiva é a captaçáo das "coisas mes-

mas". Por isso, Husserl lança seu lema: "retomo às soisas mesmas".62

Retornar às coisas mesmas é retornar

discurso metaÍísico e científico. Ao buscar a elucidaçáo d.omomen-

to originário da intencionalidade,

metafísica e o positivismo

Husserl espera estar superando a

sentido dado ao real em sua originariedade.

à raiz de onde provém todo

psicologista.

uúntre o d.iscurso especulativo da me-

tafísica

e o raciocínio

das ciências posiüivas deve, pois,

existir

uma terceíra

üa,

aquela

que,

antes de todo

raciocínio, nos colocaria no mesmo plano da realidade,

ou, como diz Husserl, das "coisas mesmas"( que Husserl chatna de 'intuição originárta''.63

Eis o

Na intencionalidade se dá a e:çeriência do sentido. A coisa

passa a ter sentido a partir do seu encontro com a consciência. ïhl

sentido

nóesis, que é o encontro

acontece, ocorre a base de todo discurso possível; logo, o sentido é

o gue possibilita toda ciência e toda filosofia. A fenomenologia,

á o gue há de essencial, pois, no encontro entre nóema e

originário

onde a experiência

do sentido

A originalidade e a originariedade do conceito de verdade em Heidegger

l)ortanto, devido à sua busca pela originariedade, deve fixar-se na r:ssência ou na eÌucidaçáo da experiência do sentido. Nesta eluci- daçáo o fenomenólogo deve deixar de lado todos os conceitos não advindos da intencionalidade originária. Este "deixar de lado" é chamado de epoché fenomenológica. O passo seguinte é a redução constituinte, onde o indiúduo esclarece a essência (sentido) capta- da no momento da intencionalidade da consciência.oa Após toda descoberta de Husserl, ele acaba caindo no mesmo solipsismo moderno. Husserl acaba reconhecendo gue todo sentido depende de um sujeito transcendental, um sujeito fechado em si de onde todo sentido advém. Esse eu, entende Husserl, náo pode ser um eu psicológico, mas um eu transcendental, sujeito transcenden- tal, que carrega consigo uma essência transcendental. Por última instância, conclú Husserl, a fenomenologia deve ser uma exegese do Eu transcendental.

'A redução fenomenológica fez, com efeito, aparecer como resíduo, que não pode ser redu-

zido, a üvência da consciência. Mas esta vivência é vi-

vida por um

mundo e de onde vêm as signiÍicações. A anáüse da

sujeito, ao qual se referem os objetos do

consciência, voltando-se para seu lado-sujeito, ou nóe-

tico, se torna então análise da

üda do sujeito no qual e

para o qua/ se constitui o sentido do mundo

to, 'que se constítui continuamenüe a si próprÍo como sendo', pode ser considerado, à maneira leibniziana, como um 'mônada', uma totalidade Íechada sobre si mesma e da qual não poderíamos sair. A Íenomenologia se torna as,sim 'exegrese de si-próprio' (selbstaus- Iegung), ciência do Eu ou Egologia".65

Esse

sujei-

A inÍluência de Husserl em Heidegger é notória, náo obstante as divergências entre os dois.ffi Heidegger descobriu em Husserl o caráter apofântico do júzo fenomenológico. No júzo fenomenoló- gico antepredicativo o ente se revela em seu ser, em sua signiÍi- caçáo, em seu sentido origrinário. Com isso, Heidegger consegruiu

61

B.Nunes.Op.Cit.p.51.

b4

C.f:A. Dartigues.Op.Cit. p.24-37.

62

A. Dartigues. Op. Cit. p. 21.

65

Idem. p. 31.

63

ldem,p. 21.

oo

C.f:M.E

36

37

A Mãe das Terdades

conciliar o problema do ser, advindo <-lor; lrrrrrrtirtlior; rpt:ç;or;da his-

tória

da filosofia,

e a fenomenologia.

"Foi, contudo, na perntitnont(t ctnrlron- tação das descobertas de Husseri corÌÌ as' ntatrizes metafÍsicas do problema do ser em Aristótoles e nos pensadores gregos em geral, que Heidegger consolidou o seu entendimento da intencionalidade e dtt Fenome- nologia e pôde estabelecer entÍe a fenomenologia e o pensamento grego um círculo dialético de elucidação recíproca gue o,saproxima historicamente. A intuição categorial descerraria o núcleo do entendimento aristo-

télico do ente - a acepção do ser nas categorias - e do

enunciado proposicional se relacÍona".67

ou apofântico que com o ente

A ligaçáo do juízo antepredicativo com o problema do ser do ente levará Heidegger a conceber a fenomenologia como ontologia.

Sendo o ser que aparece no juízo fenomenológico o sentido da coisa dado pela intencionalidade, a fenomenologia será elucidaçáo do seÍ como sentido: a ontologia será hermenêutica. Vejamos, então,

os

no sétimo parágrafo de Ser e Tempo.

passos de Heidegger, no çnre tange ao método fenomenológico,

Para Heidegger,

a fenomenologia,

antes de mais nada,

é um

método. Este método visa corresponder ao objeto próprio da filoso- fia: o ser. A fenomenologia, portanto, não deve ser encarada como uma corrente ou doutrina filosófica. mas como via de acesso ao ser.

"Com a questão diretriz sobre o sentÍdo do ser,a investigação se açha dentro da questão funda- mental da filosofia em geral. O modo de tratar esta questão é íenomenológico. Isso, porém, não significa que o tratado prescreva'um ponto de vista' ou 'uma corrente'. Pois,enquanto se compreender a si mesma, a fenomenologia não é e não pode sernem uma coisa nem outra. A expressã.o'fenomenologia' diz, antes de tudo, um conceito de método. Não caracteriza a qüididade

67 B. Nunes. Op.cit. p. 58.

38

A originalidade e a originafiedade do conceito de verdade em Heidegger

real

dos objetos

da investigação

modo, qomo eleso são".68

filosófica

ma.s o seu

A elucidaçáo do que se entende por fenomenologia, segundo Heidegger, deve ser buscada a partir da análise filológica do pró- prio termo "Fenomenologia". A análise filológica é constante nas obras de Heidegger. Seu objetivo é a busca do sentido originário que os termos carregam consigo e, concomitantemente, da experiência existencial de onde tal sentido terminológico emerge. No caso do termo "fenomenologia", há a presença de duas palawas gregas: phainómenon e logos.A palavra fenômeno vem do grego

phainómenon. Phainómenon deriva do verbopà

ainesthai, gue signi-

fica mostrar-se. Phainesthaj vem de phaÍno, que significa "trazer ao

claro". Fenômeno, portanto, é o gue se revela em si mesmo, o que vem à luz.

Por outro lado, a palavra fenomenologia é composta, também, por lógos. Este, como podemos perceber na sua utilização corri- queira, é utilizado de diversas formas, com diversos significados. Mas, apesar do caráter polissêmico do termo, lógos tem uma significaçáo originária: palavra, discurso. Neste sentido, lógos é o recolhimento do que aparece na manifestaçáo do que o discurso faìa. Na manifestaçáo, o lógos desvela, revela, descobre o ente no seu ser. Por isso, o logos funciona como apopháinesthai, como dei- xar e fazer ver o ente em seu descobrimento. Decorre disso que o Iogos é aLétheÍa, é desvelamento, é verdade. Verdade aqui significa o desvelamento do ente em seu ser, e náo a "veritas" como ade- quaçáo entre proposiçáo e res. 'A verdade náo é uma 'construção', uma representaçáo, mas a apresentaçáo das coisas".69

é

Í "deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo".7o O que se mostra é o ente, e o que se deve explicitar é o ser do ente que se dá. Isto se deve ao fato de gue o ente se dá de forma obscura; portanto, f.az-semister um esca- vamento para que seu ser se mostre. Buscar o ser do ente é onto- Iogia; por isso, a fenomenologia só é possível como ontologia. ï

f

Fenomenologia,

segundo

a análise filológica

de Heidegger,

àe sfi.

p. os.

69 M. Pasqua. Op. Cit. p. 28.

70 S.T.L p. 65.

ãdR!$

?o

A Mãe das Verdades

desüe posüulado, amparado peÌa categoria de moda'

Iidade, correspondente à existência, que não determina

mas o seu alcance como predicado

empírtco, pode-se firmar o princípio de que o conhe-

no iuízo

o objeto,

cimento do objeto segrue-se à percepção sensivel,

da experiência que o

dentro

da

ordem

conceptual

possibilita (

Kant, estende-se o nosso conhecimento

das cojsas (

) Até

)".77

onde a percepção

se estende, diz da existência

'A categoria da exÍstência, para Hegel,

convém

assiná-lo, depende

fundamentalmente

da

negação, porque, dialeticamente,

toda

determinaçáo

do real é um momento negativo superado no devir. Mas, no seu terceiro momento, essa negatividade concerne, ainda que no plano abstÍato da hógica, ao que existe,

vive e pensa, ou seja,ao próprio sujeiüo. Ao contrário do

sentido que tomou em Kant,

determinado, é o passo necessário ao conhecimento da realidade pelo sujeito, substrato das categorias, e que,

tornando-se espírito, transforma a consciência de si, a suhjetivid.ade, no saber obj etivo ".78

o

Dasein,

como

ser

I

Como podemos perceber, o termo Dasein obteve, devido à utili-

zaçáo do mesmo pelos diversos pensadores na historia, uma cono-

tação ôntica. Mas Heidegger, ao utilizar o termo Dasein para signi- ficar o ente gue somos, modifica radicalmente o sentido do termo. Assim como fez com o termo fenomenologia, Heidegger "re- significa" o termo Dasein através de uma hermenêutica filológica'

\ Neste sentido, Dasein é DA + SEIN. DA, em alemáo, significa AI; é, portanto, um advérbio de lugar. O termo SEIN significa SER. A

náo analisa a junçáo de DA com SEIN de

\ exegese heideggeriana

forma ôntica. Náo se pode entender que o Dasein é um ente que está situado em um espaço geográfico, num AÍ espacialmente

compreendido. O AÍ é a abertura originária que permite ao ente que nós somos manter uma ligaçáo com o ser. Por isso, como vimos em Ser e Tempo, o Dasein possui uma compreensão origÍnária do

t

Â

'Ì'7

B. Nunes.Op.cit.p. 66.

78 Idem,p. 67.

A originalidade

e a originariedade

do conceito

de verdade

em Heidegger

'

ser-- pré-ontológica.7s Importa-nos mencionar, agui, que a nomen- Í

clatura DASEIN, em Heidegger, assume o sentido de abertura onto-

j

i

I

{,,r.iãâItàade acabada, meramente

I

|

|

togica. Esta abertura, por sua vez, promove a superaçáo do concei-

to ae Dasein ôntico. Neste, o Dasein seria algo fechado em si, uma

entificado.

"Heidegger reservou a palawa Da-set'n para dizer e evocar o modo de ser do próprio homem. Ttata-se de uma palawa compost,a de duas outras: Da e Sein. A primeira exerce muitas vezes a função de advérbio de lugar com o sentido de 'aí', 'Iá'. Por.rsso foi qua,se sempre traduzida por 'ser-aí' em portugués e es- panhol, por 'être-Ià' em francês e 'esser-ci' em italiano. Apesar de fiel à letra, a tradução é infiel ao pensamen- to. Se avia a Língua, desvia da linguagem. Pois em Da- sein, o Da náo pensa em lugar, mas a abertura do ho- mem para tudo que, de algum modo, é".8o

Heidegger, após denominar o ente gue somos de Dasein, denomina existência o ser com o qual o Dasein sempre se comporta de aÌgum modo. Neste sentido expresso, a existência comporta a abertura originária ao mais profundo do ser que somos, ou seja, abertura ao ser, abertura que permite que o Dasein se comunique com o mais profundo de si mesmo. Por ser abertura, a existência não tem nenhum caráter ôntico, pois, dessa forma, não está fechada e