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Universidade do Sul de Santa Catarina

Filosofia
Disciplina na modalidade a distância

3ª edição revista e atualizada

Palhoça
UnisulVirtual
2008

filosofia_2008a.indb 1 3/6/2008 14:33:02


Créditos
Unisul - Universidade do Sul de Santa Catarina
UnisulVirtual - Educação Superior a Distância

Campus UnisulVirtual Charles Cesconetto Logística de Materiais


Avenida dos Lagos, 41 Diva Marília Flemming Design Visual Jeferson Cassiano Almeida da Costa
Cidade Universitária Pedra Branca Eduardo Aquino Hübler Vilson Martins Filho (Coordenador) (Coordenador)
Palhoça – SC - 88137-100 Fabiana Lange Patrício (auxiliar) Adriana Ferreira dos Santos Carlos Eduardo Damiani da Silva
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Docente Karla Leonora Dahse Nunes Aracelli Araldi Hackbarth Secretária Executiva
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Noé Vicente Folster Silvana Souza da Cruz Fernando Steimbach André Luis Leal Cardoso Júnior
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Acessibilidade Priscila Santos Alves Phelipe Luiz Winter da Silva
Coordenação dos Cursos Vanessa de Andrade Manoel Simone Zigunovas
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Aloísio José Rodrigues Avaliação da Aprendizagem Formatura e Eventos
Ana Luisa Mülbert Márcia Loch (Coordenadora) Jackson Schuelter Wiggers
Ana Paula Reusing Pacheco Karina da Silva Pedro
Bernardino José da Silva Lis Airê Fogolari

filosofia_2008a.indb 2 3/6/2008 14:33:06


Apresentação

Este livro didático corresponde à disciplina Filosofia.

O material foi elaborado, visando a uma aprendizagem autônoma.


Aborda conteúdos especialmente selecionados e adota linguagem que
facilite seu estudo a distância.

Por falar em distância, isso não significa que você estará sozinho/
a. Não se esqueça de que sua caminhada nesta disciplina também
será acompanhada constantemente pelo Sistema Tutorial da
UnisulVirtual. Entre em contato, sempre que sentir necessidade, seja
por correio postal, fax, telefone, e-mail ou Espaço UnisulVirtual de
Aprendizagem. Nossa equipe terá o maior prazer em atendê-lo/a, pois
sua aprendizagem é nosso principal objetivo.

Bom estudo e sucesso!

Equipe UnisulVirtual.

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Leandro Kingeski Pacheco
Maria Juliani Nesi

Filosofia
Livro didático
3ª edição revista e atualizada

Design instrucional
Karla Leonora Dahse Nunes
Leandro Kingeski Pacheco

Palhoça
UnisulVirtual
2008

filosofia_2008a.indb 5 3/6/2008 14:33:07


Copyright © UnisulVirtual 2008
Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição.

Edição – Livro Didático

Professores Conteudistas
Leandro Kingeski Pacheco
Maria Juliani Nesi

Design Instrucional
Karla Leonora Dahse Nunes
Leandro Kingeski Pacheco
Lívia da Cruz
(3ª edição revista e atualizada)

Projeto Gráfico e Capa


Equipe UnisulVirtual

Diagramação
Rafael Pessi
Adriana Ferreira dos Santos
(atualização 3ª edição)

Revisão Ortográfica
B2B

100
P11 Pacheco, Leandro Kingeski
Filosofia : livro didático / Leandro Kingeski Pacheco, Maria Juliani Nesi ; design
instrucional Karla Leonora Dahse Nunes, Leandro Kingeski Pacheco, [Lívia da
Cruz]. – 3. ed. rev. e atual. – Palhoça : UnisulVirtual, 2008.
252 p. : il. ; 28 cm.

ISBN 978-85-7817-083-7

Inclui bibliografia.

1. Filosofia. I. Nesi, Maria Juliani. II. Nunes, Karla Leonora Dahse. III. Cruz,
Lívia da. IV. Título.

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universitária da Unisul

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Sumário

Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 03
Palavras dos professores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 09
Plano de estudo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

UNIDADE 1 – O sentido primordial da Filosofia


Leandro Kingeski Pacheco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
UNIDADE 2 – Lógica? Para que te quero?
Leandro Kingeski Pacheco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
UNIDADE 3 – Algumas idéias sobre a Teoria do Conhecimento
Maria Juliani Nesi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
UNIDADE 4 – As raízes da Teoria do Conhecimento
Maria Juliani Nesi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99
UNIDADE 5 – Questões do conhecimento no pensamento moderno
e contemporâneo
Maria Juliani Nesi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129
UNIDADE 6 – Ética e Moral
Leandro Kingeski Pacheco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165
UNIDADE 7 – A ética de Aristóteles, de Kant e de Mill
Leandro Kingeski Pacheco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193
UNIDADE 8 – Questões da Ética contemporânea
Leandro Kingeski Pacheco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 215

Para concluir o estudo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 237


Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 239
Sobre os professores conteudistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 243
Respostas e comentários das atividades de auto-avaliação . . . . . . . . . . . . 245

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Palavras dos professores

Caro aluno (a),

Você está iniciando o estudo da disciplina Filosofia.

Com o apoio deste livro didático, você mergulhará no


mundo fascinante da Filosofia. Você estudará, basicamente,
duas grandes áreas de atuação da Filosofia: a Teoria do
Conhecimento e a Ética. Antes de abordar tais saberes, você
estudará uma breve caracterização do sentido primordial de
Filosofia, assim como da Lógica.

Ao estudar o sentido primordial da Filosofia você iniciará os


primeiros passos nesta área e conhecerá a autonomia, a reflexão,
a crítica e a criatividade como competências que gostaríamos
que você desenvolvesse durante o estudo deste livro.

Com a Lógica, uma área específica e básica de estudo da


Filosofia, você aprenderá a desenvolver algumas estratégias
para ler um texto filosófico (ou mesmo textos do cotidiano)
ao reconhecer, por exemplo, a estrutura básica do raciocínio.
Assim, você poderá se apropriar de valiosos instrumentos
para examinar os trechos dos próprios filósofos, utilizados em
algumas unidades.

Com o estudo da Teoria do Conhecimento você identificará


inúmeras respostas acerca de como o conhecimento é
constituído. Há mais de 2.500 anos o homem tenta decifrar
como ocorre o conhecimento, e esta é uma pergunta básica para
o filósofo. Veja que esta pergunta é crucial para todas as pessoas,
inclusive para você, pois se descobrirmos quais são as nossas
limitações e os nossos facilitadores mais expressivos no ato de
conhecer, mais fácil e rapidamente aprenderemos.

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Universidade do Sul de Santa Catarina

Estudando a Ética, você percorrerá alguns caminhos, algumas


reflexões que investigaram quais condutas morais devem ser
escolhidas pelo homem. Que devemos fazer? Quais condutas morais
são corretas ou erradas? E, que critérios devemos utilizar para
justificar uma ação moral? Várias respostas foram propostas para estas
perguntas. Com o conhecimento delas, você terá melhores condições
de avaliar que ações devem ser tomadas e de se posicionar diante do
nosso cotidiano, do nosso mundo, tão repleto de conflitos.

Bom estudo!

Professor Leandro Kingeski Pacheco e Professora Maria Juliani Nesi

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Plano de estudo

O plano de estudos visa orientá-lo no desenvolvimento da


Disciplina. Nele, você encontrará elementos que esclarecerão
o contexto da Disciplina e sugerirão formas de organizar o seu
tempo de estudos.

O processo de ensino e aprendizagem na UnisulVirtual leva


em conta instrumentos que se articulam e se complementam.
Assim, a construção de competências se dá sobre a articulação
de metodologias e por meio das diversas formas de ação/
mediação.

São elementos desse processo:

„ o livro didático;

„ o Espaço UnisulVirtual de Aprendizagem - EVA;

„ as atividades de avaliação (complementares, a distância


e presenciais);

„ o Sistema Tutorial.

Ementa
Tópicos do pensamento ocidental: Teoria do Conhecimento e
Ética.

Carga Horária
A carga horária total da disciplina é de 60 horas-aula, 4
créditos, incluindo o processo de avaliação.

filosofia_2008a.indb 11 3/6/2008 14:33:08


Universidade do Sul de Santa Catarina

Objetivos

Geral
Ler e interpretar textos filosóficos e produzir textos escritos.

Específicos:

„ Identificar o sentido primordial da Filosofia e a existência


de outros sentidos para a mesma.

„ Identificar algumas questões filosóficas clássicas do


pensamento ocidental.

„ Reconhecer raciocínios lógicos válidos e armadilhas


lógicas.

„ Identificar a problemática do conhecimento no


pensamento ocidental.

„ Caracterizar e diferenciar Ética e moral, bem como


identificar alguns elementos das mais relevantes teorias
éticas.

„ Desenvolver exercícios de análise e síntese de textos


filosóficos.

„ Desenvolver a autonomia, a reflexão, a crítica e a


criatividade.

Conteúdo programático/objetivos
Os objetivos de cada unidade definem o conjunto de
conhecimentos que você deverá deter para o desenvolvimento
de habilidades e competências necessárias à sua formação. Neste
sentido, veja a seguir as oito unidades que compõem o livro
didático desta Disciplina, bem como os seus respectivos objetivos.

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Filosofia

Unidade 1 – O sentido primordial da Filosofia

Nesta unidade você conhecerá e compreenderá o sentido


primordial da Filosofia ao estudar o seu significado etimológico e
as atividades do primeiro filósofo. Verá, contudo, que a Filosofia
pode apresentar vários sentidos, em função do que vários
filósofos pensam. Também identificará algumas características
fundamentais para o filosofar: a autonomia, a reflexão, a crítica e
a criatividade. Ainda, estudará que a Filosofia abrange uma vasta
área de estudos, cada uma com um objeto específico de estudo.

Unidade 2 – Lógica? Para que te quero?

Você estudará o que é a Lógica. Neste sentido, estudará


o raciocínio e os elementos que o compõem. A partir do
instrumental fornecido pela Lógica, você aprimorará sua
capacidade de interpretar os raciocínios e de evitar algumas
armadilhas lógicas. Assim, você poderá ler e interpretar textos
filosóficos, ou mesmo textos simples do nosso cotidiano,
apreendendo o seu sentido.

Unidade 3 – Algumas idéias sobre a Teoria do Conhecimento

Nesta unidade você identificará características básicas do


conhecimento humano e tratará de questões fundamentais
acerca da Teoria do Conhecimento, que atravessaram a
história ocidental desde os primeiros filósofos gregos até a
contemporaneidade.

Unidade 4 – As raízes da Teoria do Conhecimento

Aqui você estudará o pensamento dos filósofos pré-socráticos,


Sócrates, Platão e Aristóteles sobre como podemos conhecer. E
verá, brevemente, o legado que estes filósofos deixaram para os
pensadores de períodos posteriores.

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Universidade do Sul de Santa Catarina

Unidade 5 – Questões do conhecimento no pensamento moderno e


contemporâneo

Nesta unidade você estudará o pensamento dos seguintes


filósofos modernos: Descartes, Hume e Kant sobre como
podemos conhecer. Também estudará, questões que foram
propostas na contemporaneidade, e, neste sentido, reflexões sobre
as ciências e os limites da razão. Foram escolhidos para essa
análise os filósofos: Kuhn e Feyerabend.

Unidade 6 – Ética e moral

O propósito desta unidade é que você estude a distinção entre


Ética e moral, mesmo sendo elas indissociáveis. Você verá que
a origem da Ética está ligada à ética de Sócrates. Também
estudará que as teorias éticas podem ser classificadas como ética
normativa, ética pragmática e metaética.

Unidade 7 – A ética de Aristóteles, de Kant e de Mill

Nesta unidade você estudará três singulares teorias éticas,


de Aristóteles, Kant e de John Stuart Mill. Estudará, em
Aristóteles, a importância do meio-termo para cultivarmos a
virtude; em Kant, a importância do imperativo categórico, e em
Mill, a utilidade como o critério para nortear a ação.

Unidade 8 – Questões da Ética contemporânea

Você estudará considerações éticas de alguns filósofos


contemporâneos, especificamente de Nietzsche, Foucault, Rawls
e Singer. Tais considerações ampliam nosso entendimento sobre
como deve ser a ação moral.

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Filosofia

Agenda de atividades/ Cronograma


„ Verifique com atenção o EVA, organize-se para acessar
periodicamente o espaço da Disciplina. O sucesso nos
seus estudos depende da priorização do tempo para a
leitura; da realização de análises e sínteses do conteúdo; e
da interação com os seus colegas e tutor.

„ Não perca os prazos das atividades. Registre no espaço


a seguir as datas, com base no cronograma da disciplina
disponibilizado no EVA.

„ Use o quadro para agendar e programar as atividades


relativas ao desenvolvimento da Disciplina.

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Universidade do Sul de Santa Catarina

Atividades obrigatórias

Demais atividades (registro pessoal)

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1
UNIDADE 1

O sentido primordial
da Filosofia
Leandro Kingeski Pacheco

Objetivos de aprendizagem
„ Compreender o sentido primordial da Filosofia.

„ Identificar as categorias de autonomia, reflexão, crítica e


criatividade.

„ Identificar alguns temas específicos de estudo da Filosofia.

Seções de estudo
Seção 1 O sentido primordial da Filosofia

Seção 2 Autonomia, reflexão, crítica e criatividade

Seção 3 Alguns temas específicos de estudo da Filosofia

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Universidade do Sul de Santa Catarina

Para início de estudo


Nesta unidade, você começa a estudar o que é a Filosofia. Verá
que a Filosofia apresenta várias áreas de estudo, ao investigar
alguns temas específicos. Três destas importantes áreas serão
estudadas nas próximas unidades, a Teoria do Conhecimento, a
Ética, além de uma breve passagem pela Lógica. Compreenderá
que a Filosofia não é um conhecimento definitivo, acabado, e
sim, encontra-se em constante movimento e revisão.

Você também identificará a autonomia, a reflexão, a crítica e


a criatividade como procedimentos básicos e decisivos para
a Filosofia e para o filósofo – assim como será estimulado a
desenvolver estas capacidades durante o estudo deste livro didático.

Seção 1 – O sentido primordial da Filosofia


Afinal o que é Filosofia? Se perguntarmos para dez filósofos o
que é Filosofia, cada um proporá uma resposta diferente para esta
questão. Esta diversidade de perspectivas, por mais incrível que
pareça, não é considerada no meio filosófico um problema, e sim,
uma rica oportunidade de confrontar diferentes posições e de
aprendermos com elas.

As várias concepções sobre o que é Filosofia são influenciadas


tanto pela diversidade de inúmeros contextos, sócio-político-
histórico e cultural, quanto pela rica vivência e experiência de
cada filósofo.

Você, que faz um estudo introdutório como este em Filosofia,


quer certamente saber do que se está falando. Porém, uma
compreensão adequada deste termo requer tempo e dedicação.
A compreensão inicial que você começa a formar agora, nesta
primeira unidade sobre a Filosofia, certamente será diferente da
compreensão que terá ao final do estudo deste livro.

18

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Filosofia

Antes de aprofundarmos o estudo sobre o que é a Filosofia, como


exercício, procure expor o que é a Filosofia:

Agora que você empenhou-se em pensar no que é a Filosofia,


vamos aproximar-nos do respectivo sentido primordial, referente
à etimologia e ao seu surgimento. fonte primeira, sentido
que origina, principia.
Acompanhe, assim, a etimologia da palavra ‘Filosofia’. A
palavra ‘Filosofia’ tem origem grega e é composta por duas
outras palavras: ‘philo’ e ‘sophia’. ‘Philo’ significa, basicamente,
amizade, amor. ‘Sophia’ significa saber, sabedoria. Observe que a
partir desta simples análise etimológica, Filosofia significa amor
ao saber e o filósofo é aquele que ama o saber.

Este sentido primordial de Filosofia é


justamente o proposto pelo filósofo da
Grécia antiga Pitágoras (570-490 a.C.)
ao cunhar, criar este termo. Pitágoras,
em certa ocasião, foi chamado de sábio.
Pitágoras replicou afirmando que não
era sábio, mas um amante do saber,
um filósofo. A Filosofia, então, seria
uma procura pelo saber, um amor
Figura 1.1 – Pitágoras à sabedoria, assim como os saberes
(es.geocities.com) conseqüentes desta busca.

Pitágoras também dizia que o verdadeiro saber pertence


aos deuses, e que os homens, embora ignorantes, através da
Filosofia, do empenho em saber, podem aproximar-se dos
deuses, do plano divino.

Unidade 1 19

filosofia_2008a.indb 19 3/6/2008 14:33:08


Universidade do Sul de Santa Catarina

Esta concepção etimológica de Filosofia não é aceita por todos os


filósofos, uma vez que estes pensam a Filosofia a partir de suas
respectivas concepções sobre o mundo.

De fato, muitas definições atuais de Filosofia não coincidem com


o sentido primordial proposto por Pitágoras.

Visando ampliar sua compreensão sobre a Filosofia, foram


dispostas, no final desta unidade, atividades de auto-avaliação
que abordam algumas outras concepções sobre o que é a
Filosofia, e, mesmo, sobre o filósofo e o filosofar.

Agora que você conheceu a origem etimológica da palavra


Filosofia, acompanhe, brevemente, a atitude radical do primeiro
filósofo com o conseqüente surgimento da Filosofia.

Os gregos antigos tinham Quem foi o primeiro filósofo?


uma concepção de natureza
diferente da nossa, de hoje. O Foi o grego Tales de Mileto (624-546
conceito de natureza (physis)
grego abrangia todas as
a.C.). Observe, assim, que a Filosofia
coisas que existem, inclusive apresenta uma data e um local de
a subjetividade humana, surgimento preciso. Tales foi o primeiro
o processo de nascimento, filósofo porque radicalizou a atitude
desenvolvimento e morte dos do homem em relação ao mundo. O
seres, o processo de geração e
corrupção das coisas.
que ele fez? Começou a questionar
racionalmente a natureza com
perguntas como essas: Figura 1.2 – Tales de Mileto
(cea.quimicae.unam.mx)

- Por que uma planta cresce? Por que ela se


desenvolve e morre? Por que os seres vivos nascem,
se desenvolvem e morrem? O que garante a vida dos
seres vivos? Qual o princípio (arkhé) que origina todos
os seres?
Arkhé é uma palavra grega que
designa princípio. Os primeiros
filósofos, os pré-socráticos,
tinham em comum o fato de que
Hoje, estes questionamentos podem parecer ‘bobos’ para você.
investigavam qual seria o princípio
(arkhé) constitutivo de todas as Mas, há 2.500 anos, as respostas existentes estavam impregnadas
coisas, presentes na natureza de misticismo, de religião e de mistério. Ademais, essas
(natureza esta entendida em seu perguntas não são tão simples. A última, por exemplo, ainda não
sentido amplo como physis). recebeu uma resposta que seja um consenso, aceita por todos.

20

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Filosofia

A formulação destas perguntas e o modo como Tales as responde


inauguram a Filosofia. Tales, para tanto, não apela para
divindades ou para eventos inexplicáveis, pois ele não se satisfaz
com as respostas já dadas. O radicalismo de Tales está presente
ao procurar investigar, compreender o nosso mundo (com os
escassos recursos que havia há 2.500 anos) de modo racional.

Tales acredita que há razões, motivos, em função dos quais


uma planta, por exemplo, nasce, cresce e morre. Fundamenta
a investigação de Tales a concepção de que o nascimento, o
crescimento e a morte são efeitos que podemos perceber, mas
que existe uma causa que originou esta mudança. Esta relação
de causa e efeito, o princípio da causalidade, é uma prova
indiscutível da racionalidade humana e do surgimento da
Filosofia como tentativa de investigação racional da realidade.

Tales, ao procurar por respostas, buscou explicações que


serviriam não para um único ser ou para uma única espécie, mas
para toda a coletividade, para toda a totalidade dos seres. Neste
sentido, a Filosofia surge, primordialmente, com o propósito de
fornecer respostas amplas e válidas para todos os seres. Veja que
a Filosofia investiga, fundamentalmente, como nosso mundo é,
como nossa realidade é.

Em função do surgimento da Filosofia, a partir do primeiro


filósofo, podemos propor esta definição:

A Filosofia é uma procura racional por respostas, ao


se considerar a totalidade dos seres, considerando o
princípio da causalidade como um guia fundamental
para esta investigação.

Observe, contudo, que esta é apenas uma definição de Filosofia,


contextualizada em função da atividade primordial do primeiro
filósofo. Muitas outras definições poderiam ser estudadas.
Lembramos que, na seção de ‘atividades de auto-avaliação’ desta
unidade, propomos exercícios sobre a identificação de uma série
de definições, com o objetivo de ampliar sua concepção sobre o
que é Filosofia.

Unidade 1 21

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Universidade do Sul de Santa Catarina

Antes de passarmos para o


próximo tópico, saiba que Tales
propôs a água como o princípio
em função do qual se originam
todos os seres - como resposta
àquela última pergunta (Qual o
princípio que origina todos os
seres?). Figura 1.3 – A água como princípio
(de0a20.blogspot.com)
Sabe-se, hoje, que esta resposta
está equivocada, pois a água não
é o ‘princípio’, a única coisa, que origina ‘todos os seres’, vivos ou
não. Contudo, se a resposta não está certa, o perguntar e o modo
como Tales procurou compreender nosso mundo influenciou
grandemente o surgimento da Filosofia e o amadurecimento da
humanidade.

Você sabe por que a coruja é um dos símbolos da


Filosofia?
Pesquise na Internet, ou em livros, por que a coruja
é considerada um símbolo da Filosofia. Publique sua
resposta no EVA, através da ferramenta ‘Exposição’.
Leia, também, a resposta de seus colegas.

Se você encontrar dificuldades para encontrar a resposta, digite, por exemplo,


no seu ‘buscador’ preferido “Hegel e a coruja de Minerva”.
O outro famoso símbolo da Filosofia é a letra inicial grega desta palavra: ,
denominada de ‘phi’.

Acompanhe agora, brevemente, alguns procedimentos


fundamentais para a Filosofia e para o filósofo, que foram e
são importantes para o “amadurecimento da humanidade”:
as categorias de autonomia, reflexão, crítica e criatividade.
A compreensão dessas categorias e a prática constante delas,
também contribuem para o nosso amadurecimento.

22

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Filosofia

Seção 2 - Autonomia, reflexão, crítica e criatividade


Sempre que alguém estuda Filosofia, algumas competências,
habilidades ou atitudes afloram, iniciam um desenvolvimento
ou um amadurecimento. Dentre estas competências, habilidades
ou atitudes sobressaem a autonomia, a reflexão, a crítica e a
criatividade.

Mas, como você, através da Filosofia, pode


desenvolver estas competências, habilidades ou
atitudes?

Para começar, precisamos entender o que significa cada uma.


Depois, precisamos exercitar.

Autonomia
Veja que a autonomia está ligada à capacidade de pensar
por si próprio. A palavra autonomia é de origem grega
e é composta por duas outras palavras, ‘autós’ e ‘nómos’.
‘Autós’ refere-se à condição de independência, de realizar
algo por si mesmo, por si próprio. ‘Nómos’ refere-se à lei, à
norma, à regra.

Assim, aquele que é autônomo é capaz de pensar por


si só, é aquele que estabelece regras e procedimentos a
partir de si mesmo. Todos os seres humanos devem desenvolver
a autonomia, mas, infelizmente, vivemos em uma sociedade que
não valoriza esta capacidade.

Vamos a um exemplo.

As mídias inundam nosso mundo com propagandas


sobre como é bom consumir. Mas, lá pelas tantas,
você cansa do consumo exagerado e começa a se
perguntar se tudo aquilo que você tem consumido em
demasia é realmente necessário. Começa a questionar
se é preciso ter mais de um carro, se tal carro precisa
mesmo atingir 300 Km por hora (quando o limite de

Unidade 1 23

filosofia_2008a.indb 23 3/6/2008 14:33:09


Universidade do Sul de Santa Catarina

velocidade é 100 Km por hora), se é preciso trocar de


carro todo ano; se é preciso ter mais de uma TV em
casa; se é preciso ter cinqüenta pares de sapato; se é
preciso ser milionário para ser feliz, etc.
Ao questionar o consumo exagerado e propor
consumir apenas produtos e serviços necessários
para você, já temos um exemplo de exercício de
autonomia.

Reflexão
A reflexão, por sua vez, refere-se à capacidade dos seres humanos
pensarem sobre o próprio pensamento. Neste livro didático
de Filosofia, queremos que você desenvolva a reflexão sobre a
realidade. Os conteúdos deste livro didático não significam nada
se você constantemente não procurar estabelecer uma reflexão
sobre eles. Assim, reflita sobre como estes conteúdos podem
ajudá-lo a ampliar sua visão do mundo e como, a partir desta
visão, você deve agir.

Veja um exemplo.

Você é um ser humano. E, como tal, pode pensar em


um modelo ideal de ser humano, um modelo de como
todos devem pensar e agir. Ao pensar neste modelo
ideal de ser humano, você está refletindo sobre a
humanidade, assim como está refletindo sobre si
mesmo.
A reflexão é como um reflexo em um espelho.
Imagine-se em frente a um espelho. O que você
vê? Vê a si mesmo. De modo análogo, a reflexão é o
pensamento que vê a si mesmo; é o pensamento que
vê, observa o próprio pensamento. Veja, então, como
a reflexão é um pensamento radical.

Figura 1.4 – Espelho


(pexe6n.blogspot.com)

24

filosofia_2008a.indb 24 3/6/2008 14:33:09


Filosofia

Crítica
Já a crítica está ligada a nossa capacidade de questionar e julgar.
Você também precisa desenvolver esta capacidade. Mas o que
significa criticar? Significa questionar e julgar, não se conformar
com as explicações já fornecidas sobre o nosso mundo. Observe,
assim, que a crítica sempre está condicionada a um modo como o
nosso mundo já foi explicado.

Enquanto crianças, nosso espírito inquiridor, questionador, é


intenso. Ao crescermos, por inúmeras motivações, conscientes
ou inconscientes, afastamo-nos deste questionar. O filósofo, por
outro lado, não pára de questionar.

Criticar abrange duas características básicas:

„ questionar os fundamentos, as idéias, as causas e os


efeitos de um fenômeno;

„ julgar estes fundamentos ou idéias como aceitáveis ou não.

Acompanhe um exemplo de crítica que se refere ao fenômeno da chuva.

Ora, como ocorre a chuva, qual a sua causa e os seus


efeitos? Na antiguidade, este fenômeno era explicado
como um ato divino. Porém, em determinado
momento, alguns pensadores discordaram deste
modo de explicar a realidade. Começou-se, então,
a ‘questionar’ e a ‘julgar’ as explicações anteriores,
referentes à chuva.
Ao se questionar e julgar as explicações sobre nosso
mundo, desenvolvemos uma crítica. Nossa sociedade
não está preparada para críticas. Aliás, quem gosta
de ser criticado? Para receber críticas, é preciso ser
maduro, mas nem todos o são.

Atenção!
Crítica, no sentido filosófico, não deve ser confundida
com pura e simples crítica destrutiva ou depreciativa.
A crítica é um passo necessário para desenvolvermos a
criatividade, nosso próximo tópico de estudo.

Unidade 1 25

filosofia_2008a.indb 25 3/6/2008 14:33:09


Universidade do Sul de Santa Catarina

Criatividade
A criatividade está relacionada a nossa capacidade de gerar,
de criar o novo. A criatividade representa um passo posterior
em relação à crítica. Se, ao criticar, questionamos e julgamos
as explicações sobre o nosso mundo, então, agora estamos
preparados para desenvolver a criatividade, ao propor uma ‘nova’
explicação sobre o mundo.

O verdadeiro filósofo não se contenta em evidenciar os


‘equívocos’, ele propõe evidenciar ‘acertos’, uma solução.
Acompanhe o exemplo.

Todo mundo reclama da violência, da fome e da injustiça


no Brasil - e com razão.

Assim, fica evidente que as pessoas estão desenvolvendo


uma crítica sobre nosso país, ao questionar nossos
problemas e julgá-los. Mas, a crítica pela crítica desfaz-se
na falta de resultados.

A partir do questionamento e do julgamento - da crítica


- precisamos então criar uma solução, uma alternativa.
O que fazer neste caso brasileiro? A verdade é que nós,
brasileiros, também não fomos criados para sermos
criativos e sim para reproduzirmos um modelo de pensar
e de agir. Assim, tornamo-nos autômatos, simplórios, sem
capacidade de fazer algo diferente daquilo para o qual
fomos ‘programados’. Como nunca fomos educados para
sermos criativos, aguardamos ‘pacientemente’ por soluções
importadas.

Contudo, podemos pensar em soluções criativas, em


soluções inovadoras, para os problemas que vivenciamos
na sociedade brasileira, no trabalho e na família, enfim, no
nosso mundo.

Para tanto, devemos exercitar a criatividade. Pense!


Permita-se, através da criatividade, criar o inédito.

Atenção!

Não queremos atribuir a você a necessidade de ser um


filósofo profissional, mas queremos que se sinta seguro
- em função de algum apoio conceitual, de categorias
e teorias - para exercitar a compreensão da realidade e,
assim, iniciar o estudo da Filosofia.

26

filosofia_2008a.indb 26 3/6/2008 14:33:10


Filosofia

A princípio, as capacidades de autonomia, reflexão, crítica e


criatividade estão intimamente associadas. Nesta perspectiva,
à medida que o ser humano utiliza uma destas capacidades, as
outras também o são. Observe, contudo, que a utilização destas
capacidades varia conforme o problema que o ser humano se
defronta, que quer resolver.

Em alguns momentos, em alguns problemas, que vivenciamos,


talvez utilizemos mais a capacidade de reflexão ou mais a
autonomia ou mais a criticidade ou mais a criatividade. Ou seja,
podemos vivenciar situações, casos, em que a utilização de uma
destas capacidades é muito mais intensa do que as outras.

Acompanhe um exemplo.

Quando uma criança desenha uma borboleta, ela


provavelmente utiliza muito mais a criatividade do que a
reflexão, do que a criticidade, do que a autonomia. Veja,
não significa que a criança já não utiliza certa autonomia,
certa criticidade, certa reflexão, mas que, na hora de tal
desenho, a criatividade é a capacidade que mais vige.

Seção 3 – Alguns temas específicos de estudo


da Filosofia
A Filosofia é composta por inúmeras áreas específicas de
estudo, por inúmeros temas que são investigados. Algumas
destas áreas são as seguintes: Teoria do Conhecimento, Ética,
Lógica, Filosofia Política, Ontologia, Antropologia Filosófica,
Estética, etc. Cada uma destas áreas da Filosofia auxilia-nos na
compreensão de nosso mundo.

Destas áreas, duas são fundamentais para o nosso estudo: Teoria


do Conhecimento e Ética, temas principais que você estuda neste
livro didático.

Unidade 1 27

filosofia_2008a.indb 27 3/6/2008 14:33:10


Universidade do Sul de Santa Catarina

Teoria do Conhecimento
A Teoria do Conhecimento é uma área da Filosofia que investiga
o conhecimento, quais as suas características, como ele ocorre,
qual a sua origem, quais os limites do ser humano para conhecer,
etc. Uma das perguntas formuladas é: - Como conhecemos?

Ética
A Ética, outra área da Filosofia, estuda a moral, como o ser
humano deve agir considerando valores e critérios, etc. Uma das
questões fundamentais, para a Ética, é: - Como devemos agir
moralmente? O que significa agir errado ou corretamente? Como
praticar o bem e evitar o mal?

Você também estudará neste livro didático uma introdução


à Lógica, uma vez que ela pode auxiliá-lo no trabalho de
compreensão da Teoria do Conhecimento e da Ética.

Lógica
A Lógica estuda o raciocínio, como correto ou incorreto. Todos
os filósofos apresentam suas idéias através de raciocínios. Se
conseguirmos identificar os elementos que compõem o raciocínio,
mais facilmente entenderemos os raciocínios dos diferentes
filósofos. Uma das perguntas fundamentais, formulada pela
Lógica, é: - Como raciocinamos corretamente?

As seguintes áreas da Filosofia não serão aprofundadas em nosso


livro didático, mas registramos um breve comentário sobre as
suas atividades.

Filosofia Política
A Filosofia Política estuda como o Estado deve ser, quais leis
devem ser propostas, para os cidadãos, pelos cidadãos, etc. Entre
os inúmeros modos de organizar-se politicamente, destacam-se,
por exemplo, a proposta liberal e a social.

28

filosofia_2008a.indb 28 3/6/2008 14:33:10


Filosofia

Ontologia
Ontologia significa o estudo do ser. ‘Ser’ refere-se, aqui, a todas
as coisas que existem, quais as suas características, propriedades,
diferenças, fundamentos, etc. Afinal: - O que existe? E, como
existe? O que existe está sujeito à mudança? Ou, o que existe
sempre permanece como já é? Se as coisas mudam, mudam
sempre do mesmo modo?

Antropologia Filosófica
A antropologia filosófica tem o homem como principal objeto
de estudo e propõe estudar questões como: - O que é o homem?
Existe um modelo de homem que deve orientar a todos? Ou, tal
modelo é uma ilusão uma vez que o homem se faz, realiza-se na
sua própria existência, no existir, nas suas vivências?

Estética
A Estética é uma área da Filosofia que pesquisa as sensações, as
impressões, que temos do mundo, ligadas à arte e ao belo. São
investigadas questões como: - O que é belo? O que é ‘o’ belo? O
que é a arte? Existem valores que determinam o que é belo?

E, então, como é vasto o campo da Filosofia, não é mesmo?

Figura 1.5 – Guernica de Picasso


(history.sandiego.edu/cdr2/WW2Pics/55010.jpg)

Unidade 1 29

filosofia_2008a.indb 29 3/6/2008 14:33:10


Universidade do Sul de Santa Catarina

Síntese

Nesta unidade, você estudou muito brevemente o sentido


primordial da Filosofia ao conhecer o significado etimológico
da Filosofia; e ao conhecer uma definição do que é Filosofia,
contextualizada em função da atividade do primeiro filósofo, Tales.

Você também estudou algumas características básicas da


Filosofia, categorias fundamentais para o filosofar e o
amadurecimento, como capacidades, habilidades e atitudes
que queremos que você desenvolva: a autonomia, a reflexão, a
criticidade e a criatividade.

Ainda viu que a Filosofia é composta por várias áreas de estudo, e


que duas delas serão estudadas mais apropriadamente nas demais
unidades deste livro: Teoria do Conhecimento e Ética.

30

filosofia_2008a.indb 30 3/6/2008 14:33:10


Filosofia

Atividades de auto-avaliação
Ao final de cada unidade, você realizará atividades de auto-avaliação. O
gabarito está disponível no final do livro-didático. Mas, esforce-se para
resolver as atividades sem ajuda do gabarito, pois, assim, você estará
promovendo (estimulando) a sua aprendizagem.

1) Identifique, com um ‘X’, os trechos abaixo que apresentam um


sentido próximo à etimologia da Filosofia ou à definição de Filosofia
contextualizada em função das atividades do primeiro filósofo. Esta
atividade visa exercitar sua capacidade de compreensão do que é
Filosofia.
a) ( ) A Filosofia, nos seus primórdios, era entendida como amor ao
saber.
b) ( ) O filósofo é aquele que detém o saber sobre todas as coisas,
que se posiciona diante da realidade como alguém que já sabe
de tudo. Por isso, sábio, não precisa investigar nada, não precisa
questionar nada.
c) ( ) O filósofo, conforme a origem da Filosofia, é aquele que investiga
racionalmente e que questiona o fundamento de todas as coisas,
consideradas enquanto uma totalidade.
d) ( ) Qualquer um, de qualquer modo, pode filosofar.
e) ( ) A tentativa de explicar a realidade considerando o princípio da
causalidade, de que para todo efeito existe uma causa, é um
procedimento racional que está associado à origem da Filosofia.
f) ( ) O estudo da realidade independe de uma explicação racional,
pois o princípio da causalidade não é válido para todos os seres.

Unidade 1 31

filosofia_2008a.indb 31 3/6/2008 14:33:10


Universidade do Sul de Santa Catarina

2) Todas as passagens abaixo apresentam uma concepção de


Filosofia, de filósofo ou de filosofar. Como já observamos, é enorme
a diversidade de concepções sobre o que é Filosofia. Mesmo assim,
identifique se alguma das passagens abaixo coincide exatamente com
o sentido etimológico da Filosofia. Esta atividade visa exercitar sua
capacidade de compreensão do que é Filosofia.

a) ( ) “Esta palavra designa o estudo da sabedoria, e por sabedoria não


se entende somente a prudência nas coisas, mas um perfeito
conhecimento de todas as coisas que o homem pode conhecer,
tanto para a conduta de sua vida quanto para a conservação de
sua saúde e a invenção de todas as artes.”. (DESCARTES apud
ABBAGNANO, 2000, p. 442).
b) ( ) “Todos os homens são filósofos, enquanto pensam [...] enquanto
refletem sobre a cultura, a linguagem e o mundo que recebem
ao nascer [...] assumindo-o não de maneira pronta e passiva, mas
de maneira crítica e responsável.”. (GRAMSCI apud NUNES, 1986,
p. 14).
c) ( ) “A filosofia, mais do que qualquer outra disciplina, necessita
ser vivida. Necessitamos ter dela uma “vivência” [...] Vivência
significa que temos realmente em nosso ser psíquico; o que
real e verdadeiramente estamos sentindo, tendo, na plenitude
da palavra ‘ter’ [...] Pelo contrário, uma definição de filosofia,
que se dê antes de tê-la vivido, não pode ter sentido, resultará
ininteligível. Parecerá talvez inteligível nos seus termos; será
composta de palavras que oferecem sentido; mas este sentido
não estará cheio da vivência real.”. (MORENTE, 1970, p. 23-24).
d) ( ) “A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo”. (MERLEAU-
PONTY, 1996)

3) Descreva em, no máximo, cinco linhas um exemplo de autonomia,


reflexão, crítica e criatividade - que você tenha presenciado ou exercido.

a) Autonomia

32

filosofia_2008a.indb 32 3/6/2008 14:33:10


Filosofia

b) Reflexão

c) Crítica

d) Criatividade

4) Faça uma pesquisa livre na Internet ou em livros, e procure uma


definição de Filosofia. Tal definição deve ter sido proposta por um
filósofo tradicional (isto é, um filósofo reconhecido como tal). Com
esta pesquisa, você estará alargando sua compreensão sobre o que é
Filosofia. Publique tal definição através da ferramenta ‘Exposição’ do
EVA (Espaço UnisulVirtual de Aprendizagem), referencie o filósofo e a
obra, assim como não esqueça de ler a definição que cada um de seus
colegas publicou.

Unidade 1 33

filosofia_2008a.indb 33 3/6/2008 14:33:10


Universidade do Sul de Santa Catarina

Saiba mais

Se você quiser aprofundar seus conhecimentos referentes ao


sentido primordial da Filosofia; às atividades do primeiro
filósofo; às categorias de autonomia, reflexão, crítica e
criatividade; assim como seus conhecimentos referentes aos
temas de estudo específicos da Filosofia, consulte as seguintes
referências:

„ CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 8. ed. São


Paulo: Ática, 1997.

„ MORENTE, Manuel Garcia. Fundamentos de


filosofia: lições preliminares. 4. ed. São Paulo: Mestre
Jou, 1970.

„ NUNES, César Aparecido. Aprendendo filosofia.


Campinas: Papirus, 1986.

Consulte, também, os seguintes sites:


„ http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio/portugue.html
(Site do curso de Filosofia da UFSC, que dispõe a enciclopédia ‘Simpozio’)

„ http://www.mundodosfilosofos.com.br
(Site que dispõe material sobre a Filosofia e vários filósofos)

„ http://www.filosofos.com.br
(Site que dispõe material sobre a Filosofia e vários filósofos)

„ http://www.dominiopublico.gov.br
(Site do governo brasileiro que disponibiliza uma biblioteca digital e que contém e-books
grátis de alguns filósofos)

34

filosofia_2008a.indb 34 3/6/2008 14:33:10


2
UNIDADE 2

Lógica? Para que te quero?


Leandro Kingeski Pacheco

Objetivos de aprendizagem
„ Conhecer a Lógica.

„ Identificar a proposição, os tipos de proposição e as


funções da proposição no raciocínio.

„ Identificar os indicadores de premissa e os indicadores de


conclusão.

„ Identificar raciocínios válidos e raciocínios inválidos.

„ Construir raciocínios lógicos válidos.

„ Evitar os raciocínios lógicos inválidos.

Seções de estudo
Seção 1 Qual é a origem e o que é a Lógica?

Seção 2 A Proposição

Seção 3 Premissas, Conclusão e Relação de Conseqüência

Seção 4 Raciocínios Válidos

Seção 5 Raciocínios Inválidos

filosofia_2008a.indb 35 3/6/2008 14:33:11


Universidade do Sul de Santa Catarina

Para início de estudo


Nesta unidade, você estudará a Lógica. Podemos viver uma
vida inteira sem conhecê-la. A maior parte das pessoas nunca a
estudou e, eventualmente, usam o termo “lógica” apenas como
sinônimo de clareza ou certeza. Este fato não desmerece estas
pessoas, mas subtrai da Lógica seu caráter científico, rigoroso e
educativo.

A Lógica dedica-se ao estudo rigoroso, sistemático, do raciocínio


e, ao fazer isto, estabelece um instrumental útil a esta análise.
Você pode perguntar: onde está o raciocínio? Eu não o vejo?
O estudo da Lógica, tal qual o uso de óculos adequados a uma
vista cansada, pode nos ajudar a enxergar os raciocínios que
inundam nosso mundo, pessoal, social e profissional, seja em
livros, conversas, filmes, revistas e, mesmo, em nossos próprios
pensamentos.

Quem não é capaz de raciocinar


logicamente por si só, corre
o risco de que outras pessoas
o façam. Raciocinar por
si só envolve a capacidade
de sistematizar nossos
pensamentos, que, por sua vez,
referem-se ao nosso mundo.

Você pode questionar: - E se eu


raciocinar de forma errada? Ora,
quem nunca errou que atire a
primeira pedra! Viver de forma
autônoma é constantemente
expor-se à vida, é ser no sentido
mais amplo possível. Nossos Figura 2.1 – O pensador de Auguste Rodin
(eupensando.blogspot.com)
erros e acertos são inerentes à
vida e acontecem em seu início,
meio e fim. Agora, como vamos
escolher percorrer todo este percurso?

36

filosofia_2008a.indb 36 3/6/2008 14:33:11


Filosofia

Seção 1 – Qual é a origem e o que é a Lógica?


Já falamos um pouco de Lógica, mas você sabe qual a origem e o
que é, de fato, a Lógica?

A origem da Lógica está ligada à palavra grega logos e, nesta


acepção, refere-se à palavra, à proposição, ao discurso, ao
pensamento, à razão e à linguagem. Tal sentido fundamental
refere-se a um modo específico de pensarmos, conforme regras
específicas.

Os primeiros estudos ‘rigorosos’ sobre a Lógica ocorreram na


Grécia Antiga, com Aristóteles (384-322 a.C.). Diferentemente
dos pré-socráticos, sofistas, Sócrates e Platão (filósofos anteriores
a Aristóteles) - Aristóteles estabelece um tratamento consciente
e independente da Lógica como uma disciplina, um tema
que merece uma investigação sistemática. Por estes motivos,
Aristóteles é considerado o fundador da Lógica.

No conjunto de obras intitulado Organon, Aristóteles defende


que a Lógica apresenta uma função Palavra grega que significa
especial: servir de instrumento para instrumento.
a Filosofia. Com tal instrumento,
podemos, basicamente, estabelecer
a distinção entre os raciocínios,
como válidos (que seguem um padrão
correto de pensamento) e inválidos
(que não seguem um padrão correto
de pensamento). Observe que a Lógica
foi concebida como um instrumento,
Figura 2.2 – Aristóteles
como um meio para a análise e a (www.livius.org/.../aristotle_
compreensão dos raciocínios. altemps_s.jpg)

Aristóteles considerava que o domínio


da Lógica era essencial para o fi lósofo e para a Filosofia.
Como poderíamos filosofar se não fôssemos capazes de pensar
racionalmente com rigor, clareza e coerência?

Os filósofos que estudam a Lógica costumam defini-la de vários


modos. A seguinte definição de Lógica decorre da procura por
um elo comum e básico destas definições:

Unidade 2 37

filosofia_2008a.indb 37 3/6/2008 14:33:11


Universidade do Sul de Santa Catarina

A Lógica, de modo bem genérico, é parte da Filosofia,


a ciência que investiga os tipos de raciocínios como
válidos ou inválidos.
Para tal investigação, a Lógica considera uma série
de elementos que abrangem o entendimento do que
é raciocínio. A lógica investiga, por exemplo, o que
é proposição, o que é premissa, o que é conclusão, o
que é uma relação de conseqüência e, mesmo, o que
é raciocínio.

Observe que todas as pessoas podem raciocinar corretamente,


mesmo sem conhecer a Lógica. Mas, ao conhecer a Lógica,
você acessa, conscientemente, um conjunto de orientações que
possibilitam raciocinar de modo preciso e coerente.

Atenção!
Esta definição de Lógica é suficiente e pertinente
aos nossos estudos introdutórios e, certamente, não
atende a todos os filósofos e teóricos – pois existem
vários tipos de Lógica, como, por exemplo, a Lógica
Tradicional, Lógica Clássica, Lógica Não-clássica,
Lógica Difusa, etc, com particularidades e focos de
estudo específicos.

Por outro lado, se você quiser aprofundar seu


entendimento sobre esta discussão - sobre a definição
de Lógica, e mesmo sobre os vários tipos de Lógica
- então estude as seguintes referências:

„ BLANCHÉ, R.; DUBUCS, J. História da lógica.


Tradução António P. Ribeiro, Pedro E. Duarte. Lisboa:
Edições 70, 1996.

„ KNEALE, W.; KNEALE, M. O desenvolvimento


da lógica. Tradução de M. S. Lourenço. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 1962.

Veja que o propósito da Lógica é o de estudar um padrão básico


de como se deve pensar, de como devem ser apresentados os
raciocínios. Logo, esperamos que o estudo desta unidade auxilie
você a melhor identificar o raciocínio; a construir raciocínios
encadeados e coerentes; assim como lhe possibilite identificar e
evitar os raciocínios dúbios e enganosos.
38

filosofia_2008a.indb 38 3/6/2008 14:33:11


Filosofia

Observe, porém, que a distinção entre raciocínios encadeados,


coerentes, dúbios, enganosos é apenas uma das tantas
preocupações da Lógica.

Seção 2 – A Proposição
Nesta seção, você estudará o que é a proposição e qual a relação
dela com o raciocínio.

Mas o que é raciocínio? O que compõe um raciocínio? Antes de


entendermos amplamente o raciocínio, precisamos galgar alguns
degraus. Para tanto, precisamos entender o que é uma sentença,
o que é uma sentença declarativa e o que é uma proposição.

Veja a resposta para estas questões.

A sentença é uma expressão lingüística enunciadora de um


pensamento completo. Existem vários tipos de sentenças. As
sentenças podem ser declarativas, interrogativas, imperativas, etc.

Confira os exemplos de sentenças:

Esta cadeira é macia.


Sentenças declarativas O dia está ensolarado.
Este livro de Filosofia é gostoso.

Todo amor é verdadeiro?


Sentenças interrogativas Meu cachorro vai morrer?
Você tem praticado esportes?

Viva.
Sentenças imperativas Faça.
Ajude-me.

Amor!
Sentenças exclamativas Justiça!
Paz!

Unidade 2 39

filosofia_2008a.indb 39 3/6/2008 14:33:11


Universidade do Sul de Santa Catarina

Observe as sentenças anteriores e perceba que as sentenças


declarativas expressam um fato, um evento, uma situação ou
episódio acerca do mundo e que nós podemos julgar. Veja que, se
você afirmar “Esta cadeira é macia.”, também pode julgar tal fato,
como verdadeiro ou como falso.

Por outro lado, veja que não tem sentido avaliar, como verdadeiro
ou falso, as outras sentenças, interrogativas, imperativas
ou exclamativas. Ninguém atribui um juízo sobre uma
sentença quando se diz “Não!”. Ninguém avalia uma sentença
interrogativa “Que horas são?” como verdadeira ou falsa.

Os raciocínios são formados por várias sentenças, mas as


chamadas sentenças declarativas têm uma importância
fundamental na Lógica, pois os raciocínios são formados
essencialmente com sentenças declarativas.

Afinal, o que é proposição?

A proposição é um componente básico do raciocínio.


Ela é uma sentença declarativa que compõe o
raciocínio e que podemos julgar como verdadeira
(V) ou como falsa (F).
Temos, então, dois valores básicos e específicos para
julgar a proposição, para julgarmos se o que foi dito
na proposição corresponde ao que ocorre, ao que
existe na realidade, no nosso mundo.
Observe que a avaliação da proposição, como
verdadeira ou falsa, sempre depende do contexto em
função do qual a avaliamos.

A compreensão do que é uma proposição é fundamental para a


compreensão do raciocínio.

40

filosofia_2008a.indb 40 3/6/2008 14:33:11


Filosofia

Alguns raciocínios apresentam apenas proposições. Outros


raciocínios apresentam, além de proposições, outras sentenças
meramente ilustrativas, que nos confundem e não são
significativas para a conclusão do raciocínio. Ou seja, ao analisar
um raciocínio, procure sempre identificar se as sentenças são
pertinentes ao raciocínio (só as sentenças declarativas, é claro!).

Classificação da Proposição em Função da Quantidade,


da Qualidade e da Modalidade
Existem vários tipos de proposição que, por sua vez, podem
ser classificadas em função da quantidade, da qualidade e da
modalidade.

Observe a proposição ‘Os homens são mortais’. Esta proposição,


assim como toda proposição, é formada por termos. Os termos
da proposição são, basicamente: sujeito, verbo de ligação e
predicado. Nesta proposição, tem-se ‘Os homens’ como sujeito,
‘são’ como verbo de ligação e ‘mortais’ como predicado.

Os termos (sujeito, verbo e predicado) da proposição podem


exprimir relações diferentes, em função da relação de
quantidade, de qualidade e de modalidade. Compreenda
esta classificação da proposição, conforme as explicações e os
exemplos a seguir.

Em função da qualidade, as proposições são:

Qualidade Relação dos termos da proposição Exemplo

Afirmativas O sujeito da proposição recebe, claramente, uma atribuição. Sócrates é filósofo.

O sujeito da proposição não recebe uma atribuição, ou seja, Sócrates não é


Negativas nega-se uma atribuição ao sujeito. maluco.

Unidade 2 41

filosofia_2008a.indb 41 3/6/2008 14:33:12


Universidade do Sul de Santa Catarina

Em função da quantidade, as proposições são:

Quantidade Relação dos termos da proposição Exemplo

Todos os catarinenses
O sujeito da proposição é tomado em sua totalidade.
Totais, gerais são brasileiros.
ou universais Observe que as proposições universais podem ser Nenhum homem é
negativas. imortal.

Alguns homens são


O sujeito da proposição é tomado de forma indeterminada. carecas.
Particulares
As proposições particulares também podem ser negativas. Alguns homens não são
brasileiros.

Singulares O sujeito da proposição refere-se a um único indivíduo. Sócrates é mortal.

Em função da modalidade, as proposições são:

Modalidade Relação dos termos da proposição Exemplo

Sócrates é
O predicado é expresso como uma condição necessária
Necessárias do sujeito. necessariamente
mortal.

O predicado é expresso como uma condição impossível É impossível que


Impossíveis do sujeito. Sócrates seja imortal.

Possíveis ou O predicado é expresso como uma condição possível É possível que a


contingentes do sujeito. cadeira esteja vazia.

Por que esta classificação das proposições é importante? Porque a


identificação destes diferentes tipos de proposições nos permitirá
compreender que relações um determinado raciocínio quer
atingir. Assim, fique atento!

42

filosofia_2008a.indb 42 3/6/2008 14:33:12


Filosofia

Seção 3 – Premissas, Conclusão e Relação de


Conseqüência
Você estudará, nesta seção, que o raciocínio é formado por
premissas e pelo menos uma conclusão; que existem indicadores
que nos permitem identificar as premissas e as conclusões;
e que todo raciocínio apresenta pelo menos uma relação de
conseqüência lógica.

O raciocínio é uma construção do ser humano, é uma atividade


que requer esforço de nossa mente. Contudo, nem todo raciocínio
é exposto de modo rigoroso, correto e claro.

Por outro lado, todo sujeito, estudante, cidadão ou cientista,


pode raciocinar melhor se conhecer alguns elementos da Lógica.
Por exemplo, a Lógica estuda as funções fundamentais que
a proposição exerce em um raciocínio, como premissa ou
conclusão.

Ora, o raciocínio é uma coleção de proposições que


se relacionam mutuamente, de tal modo que algumas
proposições têm a função de premissa e pelo menos
uma proposição tem a função de conclusão.

Mas o que é premissa ou conclusão? Você estudará, a seguir, estas


duas funções da proposição no raciocínio.

Premissas
Você sabe o que é uma premissa?

Uma premissa é a proposição que tem a função, no


raciocínio, de fornecer dados, provas, informações,
razões, sobre algo ou alguém, e serve de subsídio,
contribui para a conclusão de um raciocínio.

Unidade 2 43

filosofia_2008a.indb 43 3/6/2008 14:33:12


Universidade do Sul de Santa Catarina

Veja o exemplo de premissas em um raciocínio:

Todos os catarinenses são brasileiros. (proposição - premissa)


Todos os brasileiros são americanos. (proposição - premissa)
Logo, todos os catarinenses são americanos. (proposição - conclusão)

As premissas do exemplo anterior estão explícitas. As Premissas


explícitas estão sempre reveladas, ou seja, são claramente
mostradas. Os raciocínios, além das premissas explícitas, podem
conter premissas implícitas. As premissas implícitas estão
escondidas, subtendidas no raciocínio.

Observe o exemplo de raciocínio com premissa implícita:

Todos os atletas são trabalhadores. (proposição - premissa)


Todos os trabalhadores são esforçados. (proposição - premissa)
Logo, Pelé é trabalhador e esforçado. (proposição - conclusão)
Figura 2.3 - Bola de futebol
(www.mercadoambiental.com.br) (premissa implícita: Pelé é um atleta)

Conclusão
Você sabe o que é uma conclusão em um raciocínio?

A conclusão, no raciocínio, é uma proposição que


fornece uma informação a partir dos subsídios, da
contribuição, das premissas. Veja que a conclusão é
uma conseqüência lógica das premissas.

44

filosofia_2008a.indb 44 3/6/2008 14:33:12


Filosofia

Acompanhe o exemplo de conclusão no raciocínio:

Todos os catarinenses são brasileiros. (proposição - premissa)


Todos os brasileiros são americanos. (proposição - premissa)
Logo, todos os catarinenses são americanos. (proposição - conclusão)

Existe ainda um outro elemento fundamental do raciocínio que


deve ser estudado para compreendermos o que é um raciocínio: a
relação de conseqüência.

Relação de Conseqüência
A relação de conseqüência é considerada o principal objeto
de estudo dos lógicos. Tal estudo investiga como fazemos a
passagem, no raciocínio, das premissas para a conclusão. Veja a
seguinte definição.

A relação de conseqüência é o estabelecimento de uma coesão,


de um elo entre as premissas e a conclusão. Nos raciocínios, a
relação de conseqüência é geralmente representada por um
indicador de conclusão, tal como “Logo”.

Acompanhe, no exemplo, o elo que explicita a relação de


conseqüência no raciocínio:

Todos os catarinenses são brasileiros. (proposição - premissa)


Todos os brasileiros são americanos. (proposição - premissa)
Logo, todos os catarinenses são americanos. (proposição - conclusão)

Unidade 2 45

filosofia_2008a.indb 45 3/6/2008 14:33:12


Universidade do Sul de Santa Catarina

Atenção!
Em nossa linguagem cotidiana,
filosófica ou científica, podemos
encontrar raciocínios de todos
os tipos e tamanhos, com, por
exemplo, uma premissa e uma
conclusão; muitas premissas e dez
conclusões; infinitas premissas e
uma conclusão; a conclusão antes
das premissas, etc.
O modo como este raciocínio é
apresentado pode nos causar
Observe que não existe um número
estranheza, mas, no dia-a- pré-definido de quantas premissas
dia, é comum encontrarmos e quantas conclusões deve ter o Figura 2.4 – Compreendendo os raciocínios
raciocínios assim. O ideal raciocínio, e nem em que ordem (www.unicam.it)
seria que todas as pessoas devem aparecer.
pensassem e se expressassem
de forma sistemática: primeiro Para compreender os raciocínios você precisa identificar que
apresentando as premissas sentenças são proposições (ou seja, que sentenças podem ser avaliadas
para depois propor a conclusão.
como verdadeiras ou falsas); que proposições exercem a função de
Mas, nem sempre é o caso. Veja
um exemplo de raciocínio com
premissas no raciocínio; e que proposição(ões) exerce(m) a função de
conclusão antes das premissas: conclusão em um raciocínio.
‘Eu existo. Eu penso. Todo
aquele que pensa, existe.’.
Lembre-se que, neste sentido, você já estudou a distinção das
Observe que a conclusão ‘Eu sentenças e a identificação das sentenças declarativas como
existo.’ foi disposta antes das proposições, quando presentes no raciocínio. Embora você também já
premissas ‘Todo aquele que tenha estudado a identificação das premissas e das conclusões, fique
pensa, existe.’ e ‘Eu penso.’. atento aos indicadores lógicos, nosso próximo assunto.

Indicadores Lógicos
Os indicadores lógicos podem facilitar a identificação das
premissas e da conclusão de um raciocínio.

Os indicadores lógicos são termos que geralmente


revelam a função da proposição no raciocínio, seja
como premissa ou como conclusão.

46

filosofia_2008a.indb 46 3/6/2008 14:33:12


Filosofia

Veja um exemplo:

Supondo que alunos estudiosos são vencedores.


Dado que nós somos estudiosos.
Então, nós somos vencedores.

O indicador de premissa geralmente a antecede e é indicado


por expressões como as seguintes: desde que, uma vez que, se,
dado que, pois, porque, vamos supor que, admitindo a hipótese,
supondo que, etc.

O indicador de conclusão geralmente a antecede e é indicado


por expressões como: logo, portanto, concluo, assim, deduzimos,
deve, tem que, necessariamente, em conseqüência, daí decorre
que, implica, então, etc. Observe que os indicadores de conclusão
geralmente representam a relação de conseqüência.

Atenção!
Pode haver raciocínios em que não existam indicadores de premissas
nem um indicador de conclusão. Nestes casos, devemos procurar
entender o sentido do raciocínio, para distinguirmos as premissas da
conclusão. Veja este exemplo de raciocínio sem indicadores lógicos.

Joaquim é português.
Todo português é bigodudo.
Joaquina, esposa de Joaquim, também é bigoduda.

Não há, neste raciocínio, indicadores de premissa ou de conclusão.


Contudo, é “lícito” concluir que as premissas são ‘Joaquim é português.’
e ‘Todo português é bigodudo.’ e a conclusão é ‘Joaquina, esposa de
Joaquim, também é bigoduda.’
Quando não houver indicadores de premissa ou de conclusão
num raciocínio, você necessitará, certamente, de mais esforço para
compreendê-lo.

Unidade 2 47

filosofia_2008a.indb 47 3/6/2008 14:33:12


Universidade do Sul de Santa Catarina

Veja, agora, esta outra definição de raciocínio, que é um pouco


mais refinada que a anterior.

O raciocínio é uma coleção de proposições que


se relacionam mutuamente, das quais pelo menos
uma é a conclusão, que, por sua vez, é derivada
das premissas por uma relação de conseqüência. A
finalidade de um raciocínio é possibilitar, a partir de
proposições já conhecidas, inferir, concluir, analisar,
mediar um conhecimento novo.

Acompanhe alguns outros exemplos de raciocínios:

Joaquim é português. (proposição - premissa)


Logo, Joaquim nasceu em Portugal. (proposição - conclusão)

Todos os homens são mortais. (proposição - premissa)


Sócrates é homem. (proposição - premissa)
Logo, Sócrates é mortal. (proposição - conclusão)

Nenhum herói é covarde. (proposição - premissa)


Alguns soldados são covardes. (proposição - premissa)
Logo, alguns soldados não são heróis. (proposição - conclusão)

Todo estudante é aplicado. (proposição - premissa)


Algum relaxado não é aplicado. (proposição - premissa)
Logo, algum relaxado não é estudante. (proposição - conclusão)

Observe que alguns raciocínios


são facilmente compreendidos,
enquanto outros requerem de nós
um pouco mais de esforço.

Figura 2.5 – Sísifo fazendo esforço


(blog.abusemagazine.com)

48

filosofia_2008a.indb 48 3/6/2008 14:33:13


Filosofia

Conheça o silogismo aristotélico, um raciocínio


apresentado de forma específica!
O silogismo aristotélico é um raciocínio sempre formado
por três proposições, sendo as duas primeiras chamadas
premissas e a última chamada conclusão. No silogismo, a
primeira premissa é precedida de “se”, a segunda premissa
é precedida de “e”, e a conclusão é precedida de “então”.
A conclusão é uma conseqüência lógica das premissas e
as duas proposições premissas estão ligadas à proposição
conclusão por uma relação de conseqüência. Veja que,
neste tipo de raciocínio, o sujeito e o predicado das três
proposições estão sempre inter-relacionados.
O silogismo aristotélico é apresentado da seguinte forma:
Se todos os homens são mortais. (proposição - premissa)
E, todos os gregos são homens. (proposição - premissa)
Então, todos os gregos são mortais. (proposição - conclusão)

Seção 4 – Raciocínios Válidos


Nem todos os raciocínios têm a mesma natureza. Há os
raciocínios válidos (estudados nesta seção) e os raciocínios
inválidos (estudados na seção seguinte).

Mas o que é um raciocínio válido?

O raciocínio válido, correto, legítimo, é todo aquele


em que a conclusão decorre, é conseqüência de suas
premissas. Há dois tipos principais de raciocínios válidos: o
raciocínio dedutivo e o raciocínio indutivo.

Unidade 2 49

filosofia_2008a.indb 49 3/6/2008 14:33:13


Universidade do Sul de Santa Catarina

Observe que os raciocínios válidos representam a forma


correta de pensarmos. O que significa pensar de maneira
correta? Significa argumentar sem cometer erros ou equívocos.
Significa que esta forma de pensar deve ser coerente não apenas
para mim, mas para todos aqueles que tiverem a oportunidade
de ouvir ou ler este raciocínio. Significa que esta maneira de
expor o conhecimento também deve ser válida em todas as
épocas e em todos os locais. Significa que esta forma de pensar
implica, necessariamente, uma relação de conseqüência rigorosa e
sistemática.

A validade de um raciocínio depende da estrutura estabelecida


entre as premissas, a relação de conseqüência e a conclusão.

Você estudará agora o raciocínio dedutivo e o raciocínio indutivo.

Raciocínio Dedutivo Válido


No raciocínio dedutivo, na dedução, toda a informação contida
na conclusão já estava contida nas premissas, de maneira explícita
ou implícita.

O raciocínio dedutivo válido, a dedução, é o


raciocínio em que as premissas fornecem provas
convincentes, determinantes, necessárias para a
conclusão.
Necessário indica algo que é assim
e não pode ser de outra maneira.
É impossível que não seja dessa
maneira e é impossível que possa Veja que, no raciocínio dedutivo válido, em função da relação
ser de outra maneira.
de conseqüência, a conclusão deve necessariamente decorrer
das premissas. Na conclusão de uma dedução, expressamos algo
que já estava dito nas premissas, ou seja, tornamos explícito o
conteúdo das premissas. Ao confeccionar trabalhos universitários,
você pode usar e abusar deste tipo de raciocínio.

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filosofia_2008a.indb 50 3/6/2008 14:33:13


Filosofia

Veja alguns exemplos simples de raciocínios dedutivos válidos:

Todos os mamíferos têm coração.


Todos os cachorros são mamíferos.
Logo, todos os cachorros têm coração.

Todos os estudantes são inteligentes.


Alguns homens são estudantes.
Logo, alguns homens são inteligentes.

Todos os homens são mortais.


Sócrates é homem.
Logo, Sócrates é mortal.

Raciocínio Indutivo Válido


Em um raciocínio indutivo válido, indução, a conclusão decorre
‘suficientemente’ das premissas.

O raciocínio indutivo válido, a indução, é o


raciocínio que não tem a pretensão de que suas
premissas proporcionem provas convincentes,
necessárias, de certeza absoluta, da verdade da
conclusão, mas de que tenham ‘indícios’ suficientes,
que tenham algumas ‘provas’ relevantes para a
Suficiente, no sentido
conclusão.
lógico do termo, é aquilo
que satisfaz, que basta,
que habilita, que capacita.

Veja que, por intermédio das premissas de uma indução, também


obtemos dados para a conclusão. Na conclusão de uma indução,
também concluímos algo que foi dito a partir das premissas.

Unidade 2 51

filosofia_2008a.indb 51 3/6/2008 14:33:13


Universidade do Sul de Santa Catarina

Porém, na conclusão da indução, afirmamos algo que está além


do que foi dito nas premissas.

Em função desta condição da indução, a partir desses indícios


‘suficientes’ fornecidos pelas premissas e expressos na conclusão,
os raciocínios indutivos podem ser avaliados como melhores
ou mais fortes, piores ou mais fracos, conforme o grau de
verossimilhança ou de probabilidade.

Embora a conclusão do raciocínio indutivo forneça uma


informação que está além do que foi dito nas premissas, o
raciocínio indutivo tem a função de ampliar o alcance de nossos
conhecimentos. Ao confeccionar trabalhos universitários, utilize
este tipo de raciocínio com muito cuidado.

Veja alguns exemplos de raciocínios indutivos:

Todos os sapos até hoje observados e dissecados


tinham coração.
Logo, todos os sapos têm coração.

Aves, peixes e plantas são seres vivos.


As aves, os peixes e as plantas morrem.
Logo, todos os seres vivos morrem.

Dado um saco de grãos de café de 60 Kg.


Retiramos uma amostra de grãos de café com 1Kg.
Todos os grãos de café da amostra são do tipo ‘X’.
Logo, todos os grãos do saco de café são do tipo ‘X’.
Figura 2.6 - Saco de café
(www.cafedobrasil.org)

Atenção!
O raciocínio indutivo é considerado válido em função
de certa verossimilhança, de certa probabilidade, em
relação à realidade.
Se novos indícios, elementos, amostras, forem
encontrados, e indicarem que uma premissa precisa
ser revista, então corremos o risco de que nosso
raciocínio seja inválido. Você deve ficar atento a estes
indícios ao interpretar uma indução.

52

filosofia_2008a.indb 52 3/6/2008 14:33:13


Filosofia

A identificação dos raciocínios válidos, dedução ou indução,


pode ser feita por meio de uma análise intuitiva ou mais Saiba, também, que há um
exaustiva. Neste livro didático, permanecemos no nível intuitivo. modo de pensar, lógico,
diferente do dedutivo e do
Existem vários métodos exaustivos de cálculo, de prova e de
indutivo, e que é denominado
justificação dos raciocínios válidos, mas não os abordaremos neste abdutivo. Neste método,
livro, pois, para tanto, precisaríamos prolongar-nos muito neste primeiro se parte da conclusão
conteúdo, assim como necessitaríamos de uma carga horária do ‘raciocínio’ para depois
se dedicar as premissas.
equivalente à desta disciplina. Ele é usado, por exemplo,
por detetives, tais como
Sherlock Holmes, que parte
da conclusão de um fato
ocorrido, de um roubo ou da
morte de alguém, para tentar
descobrir, na seqüência, quais
as premissas que sustentaram
Seção 5 – Raciocínios Inválidos aquela situação. A
investigação de tais premissas,
supostamente levariam o
Nesta seção, você estudará o que é um raciocínio inválido. Neste
detetive a encontrar o ladrão
sentido, você estudará as falácias e os sofismas, que nada mais são ou assassino.
do que deduções ou induções inválidas.

Você sabe o que é um raciocínio inválido?

Um raciocínio inválido, incorreto, ilegítimo, é


todo raciocínio tal que a conclusão não decorre das
premissas. No caso de raciocínio inválido, as premissas
não sustentam necessariamente a conclusão
de um raciocínio dedutivo; nem sustentam
suficientemente a conclusão de um raciocínio
indutivo.

A Lógica também estuda os raciocínios ditos inválidos, que


mesmo aparentemente válidos, não o são. Os raciocínios
inválidos geralmente fogem do tema proposto ou embaraçam os
debatedores.

É usual chamar os raciocínios inválidos de falácias ou de


sofismas. Tanto as falácias quanto os sofismas são raciocínios
inválidos, porque suas premissas não são suficientes ou nem são
necessárias para se chegar à conclusão dada. O sentido de falácias
e sofismas está muito próximo. Veja:

Unidade 2 53

filosofia_2008a.indb 53 3/6/2008 14:33:13


Universidade do Sul de Santa Catarina

A falácia é um raciocínio inválido que ocorre como


uma falha de quem argumenta. O sujeito que usa uma
falácia simplesmente se enganou.
O sofisma é um raciocínio inválido que ocorre com
o objetivo de enganar. O sujeito que usa o sofisma
está consciente, pois sabe que usa um raciocínio
inválido. O sujeito que usa o sofisma tem a intenção
de enganar.

Atenção!
Observe que a diferença entre os sofismas e as falácias
reside no fato de que as falácias representam o
uso inocente, ignorante, de raciocínios inválidos,
enquanto os sofismas representam o uso
intencional de raciocínios inválidos.

Veja agora alguns tipos de raciocínios inválidos (sofismas ou


falácias) que devem ser identificados e evitados.

Falácia da Generalização Apressada


A falácia da generalização apressada é um raciocínio inválido, em
que propomos uma conclusão geral a partir de uma observação
insuficiente.

Acompanhe alguns exemplos da falácia da generalização apressada:

Ontem, tarde da noite, rodei de carro pela cidade.


Eu vi muitos mendigos pelas ruas.
Logo, os mendigos estão tomando conta da cidade.

Eu estacionei o carro perto de um bar.


Um mendigo apareceu para cuidar do carro.
Assim, todos os mendigos são trabalhadores.

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filosofia_2008a.indb 54 3/6/2008 14:33:13


Filosofia

Eu entrei no bar, que estava muito movimentado.


Havia muitas garotas e rapazes.
As moças conversavam num canto e os rapazes no outro.
Portanto, moças e rapazes não se gostam.

Uma garota olhou para mim.


Logo, ela estava interessada (e eu também).

Eu fui conversar com a moça.


Ela disse: - Homem como você não me interessa!
Assim, as mulheres daquele bar não gostam de homens.

Falácia da Divisão
A falácia da divisão é um raciocínio inválido em que atribuímos,
distribuímos uma propriedade de um conjunto determinado para
os membros deste conjunto.

Veja alguns exemplos da falácia da divisão:

O time Figueirense, de Florianópolis, é um grande time de


futebol.
Logo, todo jogador do Figueirense é um grande jogador.

As empresas que trabalham com marketing ganham rios de


dinheiro.
Logo, todo funcionário que trabalha com marketing ganha
rios de dinheiro.

Unidade 2 55

filosofia_2008a.indb 55 3/6/2008 14:33:14


Universidade do Sul de Santa Catarina

Falácia da Composição
A falácia da composição é um raciocínio inválido, em que
atribuímos para o conjunto uma propriedade que pertence a todos
os elementos do conjunto.

Observe alguns exemplos da falácia da composição:

Cada jogador da seleção brasileira de futebol é um


excelente jogador.
Logo, a seleção brasileira de futebol é excelente.

Cada atriz da novela das oito horas é maravilhosa.


Logo, a novela das oito horas é maravilhosa.

Falácia da Pergunta Complexa


A falácia da pergunta complexa é elaborada com sentenças
interrogativas, determinadas geralmente por duas únicas opções
de resposta, ‘sim’ e ‘não’, e que sempre ocasiona um embaraço.
Veja que quem responde sim ou não, acaba aceitando o conteúdo
da pergunta. Podem haver perguntas complexas que exijam
como resposta algo além do simplesmente ‘sim’ ou ‘não’, mas
que, mesmo assim, impõe-se aquele que responde a tal pergunta
um conteúdo e uma situação embaraçosa, uma vez que já se
pressupõe um determinado contexto.

Atenção!
A pergunta complexa não é um raciocínio, mas
implica uso desproposital do conhecimento lógico.

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filosofia_2008a.indb 56 3/6/2008 14:33:14


Filosofia

Conheça alguns exemplos da falácia da pergunta complexa:

Seu cabelo continua seco?


Seu primo continua bebendo?
O professor ainda está maluco, doido?
Onde você colocou o dinheiro roubado?

Atenção!
Lembre-se que tanto o sofisma quanto a falácia representam
um tipo de raciocínio inválido. Para especificarmos tal raciocínio
como um sofisma ou uma falácia, precisamos sempre identificar,
respectivamente, se há um uso intencional ou um uso inocente do
raciocínio inválido.

Paradoxos
Os paradoxos são proposições tais que, ao atribuirmos um
valor de verdade verdadeiro (V) ou falso (F), caímos em uma
contradição.

Atenção!
Os paradoxos não representam um raciocínio, mas também
representam um uso desproposital do conhecimento lógico.

Veja um exemplo de paradoxo:

Paradoxo do mentiroso: “eu estou mentindo”.


Se tal afirmação for verdadeira (V), então o que eu digo é falso (F).
Se tal afirmação for falsa (F), então o que eu digo é verdadeiro (V).

Unidade 2 57

filosofia_2008a.indb 57 3/6/2008 14:33:14


Universidade do Sul de Santa Catarina

Dilema
O dilema é um raciocínio que nos impõe duas escolhas
indesejáveis. O dilema é um truque retórico, mas diferente dos
outros tipos de falácias ou sofismas, pois ele é um raciocínio
válido dedutivo.

Acompanhe alguns exemplos de dilemas:

Ou você paga os impostos ou você sonega os impostos.


Se você pagar impostos, então a sua firma quebra.
Se você sonegar impostos, então você vai preso.
Logo, ou sua firma quebra ou você vai preso.

Ou eu estudo ou eu trabalho.
Se eu estudo, passo fome.
Se eu trabalho, ganho pouco.
Logo, ou passo fome ou ganho pouco.

Caro aluno, você estudou uma brevíssima introdução à Lógica,


enquanto uma ciência de análise do raciocínio. Atente, porém,
que o desenvolvimento da Lógica atual vai muito além do
exposto aqui.

58

filosofia_2008a.indb 58 3/6/2008 14:33:14


Filosofia

Síntese

Nesta unidade, você estudou o que é a Lógica, em que época e


local ela se originou, e quem foi o seu fundador. Aprendeu que o
raciocínio é um tema fundamental para a Lógica.

Para você compreender a proposição, você estudou o que é a


sentença e o que é uma sentença declarativa. Você aprendeu que
a proposição é uma sentença declarativa que pode ser avaliada
como verdadeira ou como falsa. Também viu que a proposição
é um elemento básico do raciocínio, e que a mesma pode ser
distinta conforme a quantidade, qualidade e a modalidade.

Você estudou que a proposição exerce no raciocínio a função


de premissa ou de conclusão, e que existe uma relação de
conseqüência ligando as premissas à conclusão. Estudou que o
raciocínio é uma coleção de proposições em que pelo menos uma
das proposições é a conclusão. Ainda, viu que existem raciocínios
válidos e inválidos.

Ao estudar os raciocínios válidos, você conheceu a dedução


(raciocínio dedutivo) e a indução (raciocínio indutivo). Você
estudou os raciocínios inválidos, basicamente, como falácias ou
sofismas. Você também estudou o paradoxo e o dilema, casos
especiais, que devemos atentar.

Veja que todos estes conteúdos lógicos ampliam nossa capacidade


de perceber os raciocínios que fazem parte de nossa vida. Estude-
os e você aprimorará, cada vez mais, a capacidade de análise de
todo tipo de raciocínio.

Unidade 2 59

filosofia_2008a.indb 59 3/6/2008 14:33:14


Universidade do Sul de Santa Catarina

Atividades de auto-avaliação
Ao final de cada unidade, você realizará atividades de auto-avaliação. O
gabarito está disponível no final do livro-didático. Mas, esforce-se para
resolver as atividades sem ajuda do gabarito, pois, assim, você estará
estimulando a sua aprendizagem.

1) Complete as palavras cruzadas. Esta atividade visa exercitar sua


capacidade de identificação e compreensão dos conceitos estudados
nesta unidade.

I) Ciência, ramo da Filosofia, X) No raciocínio, relaciona as


que estuda como distinguir o premissas e a conclusão.
raciocínio válido do raciocínio
inválido. XI) Nome do raciocínio válido,
em que a conclusão surge
II) Local de origem da Lógica. necessariamente como prova das
premissas.
III) Fundador da Lógica.
XII) Nome de raciocínio válido,
IV) Objeto de estudo da Lógica. destinado a ampliar o alcance de
nossos conhecimentos, em que
V) Período histórico que a conclusão é conseqüência das
corresponde à origem da Lógica. provas suficientes das premissas.

VI) Nome especial dado aos XIII) Nome do raciocínio inválido,


raciocínios aristotélicos. que não tem a intenção de enganar.

VII) Nome especial da sentença XIV) Nome do raciocínio inválido,


declarativa que é avaliada como que tem a intenção de enganar.
verdadeira ou como falsa e que faz
parte de um raciocínio. XV) Proposição em que há uma
contradição.
VIII) No raciocínio, são as
proposições que nos fornecem XVI) Raciocínio válido, mas truque
informações. retórico, que impõe uma escolha
indesejável.
IX) No raciocínio, é uma
proposição que é conseqüência
das premissas.

60

filosofia_2008a.indb 60 3/6/2008 14:33:14


Filosofia

V
I VIII

III
II

IV

VII
IX
XII
VI

XV
XI XIII

XVI

XIV

Unidade 2 61

filosofia_2008a.indb 61 3/6/2008 14:33:14


Universidade do Sul de Santa Catarina

2) Analise as sentenças abaixo e marque com um ‘X’ aquelas que


podem ser classificadas como proposições. Esta atividade visa exercitar
sua capacidade de identificação da proposição em relação as demais
sentenças.

I) ( ) Você está respirando.


II) ( ) Ai!
III) ( ) Alguns alunos são excelentes.
IV) ( ) Uma batalha naval ocorre na baía norte.
V) ( ) É necessário que o sol nasça amanhã.
VI) ( ) Cante meu amigo!
VII) ( ) Por que as pessoas não tratam o próximo como se deve?
VIII) ( ) É impossível flutuarmos pelo ar.
IX) ( ) A Oktoberfest é uma festa que ocorre em Blumenau.
X) ( ) É possível que o carro esteja com defeito.

3) Identifique os raciocínios dedutivos com a letra ‘D’ e os raciocínios


indutivos com a letra ‘I’. Esta atividade visa exercitar sua capacidade de
identificação e compreensão dos raciocínios dedutivos e indutivos.

I) ( ) Todos os dias, somos informados que a fauna silvestre da Mata


Atlântica está em extinção. Nós já sabemos que o mico-leão-
dourado faz parte da fauna silvestre da Mata Atlântica. Assim, o
mico-leão-dourado corre risco de extinção.

II) ( ) Os cientistas defendem que o ferro derrete ao ser colocado no


forno com temperatura de 5.000° centígrados. Os cientistas
também afirmam que o ouro derrete ao ser colocado no forno
com temperatura de 5.000° centígrados. Os cientistas também
afirmam que a prata derrete ao ser colocada no forno com
temperatura de 5.000° centígrados. Ora, podemos concluir que
todos os metais derretem ao serem colocados no forno com
temperatura de 5.000° centígrados.

III) ( ) Os catarinenses formam um povo hospitaleiro. Como minha


prima é catarinense, então ela é, obviamente, hospitaleira.

IV) ( ) Um rato não sobrevive a uma temperatura inferior a - (menos)


270º centígrados. Um gato não sobrevive a uma temperatura
inferior a - 270º centígrados. Um cão não sobrevive a uma
temperatura inferior a - 270º centígrados. Logo, nenhum
mamífero sobrevive a uma temperatura inferior a - 270º
centígrados.

62

filosofia_2008a.indb 62 3/6/2008 14:33:14


Filosofia

4) Construa dois raciocínios dedutivos e dois raciocínios indutivos. Para


cada raciocínio, utilize apenas três proposições. Esta atividade visa
exercitar sua capacidade de construção de raciocínios dedutivos e
indutivos. Capriche e divirta-se!

I)

II)

III)

IV)

Unidade 2 63

filosofia_2008a.indb 63 3/6/2008 14:33:15


Universidade do Sul de Santa Catarina

5) Faça uma pesquisa livre na Internet e procure por exemplos de falácias


ou sofismas. Escolha o exemplo que você mais gostou e o publique
através da ferramenta Exposição (EVA). Acompanhe, também, os
exemplos publicados pelos colegas.

Saiba mais

Se você desejar, aprofunde os conteúdos estudados nesta unidade


ao consultar as seguintes referências:

„ ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. 4. ed. São


Paulo: Mestre Jou, 2000.

„ BLANCHÉ, R.; DUBUCS, J. História da lógica.


Tradução António P. Ribeiro, Pedro E. Duarte. Lisboa:
Edições 70, 1996.

„ HEGENBERG, L. Dicionário de lógica. São Paulo:


EPU, 1995.

„ KNEALE, W.; KNEALE, M. O desenvolvimento da


lógica. Tradução de M. S. Lourenço. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 1962.

„ MORTARI, C. A. Introdução à lógica. São Paulo:


UNESP, 2001.

„ SALMON, Wesley C. Lógica. 4. ed. Rio de Janeiro:


Zahar, 1978.

64

filosofia_2008a.indb 64 3/6/2008 14:33:15


3
UNIDADE 3

Algumas idéias sobre a Teoria


do Conhecimento
Maria Juliani Nesi

Objetivos de aprendizagem
„ Identificar três questões fundamentais acerca do
conhecimento.

„ Estabelecer semelhanças e diferenças entre as diversas


formas de conhecimento.

Seções de estudo
Seção 1 Questões acerca da Teoria do Conhecimento

Seção 2 As diversas formas de conhecimento

filosofia_2008a.indb 65 3/6/2008 14:33:15


Universidade do Sul de Santa Catarina

Para início de estudo


Nesta unidade, você entrará em contato com algumas das
principais questões com que se ocuparam pensadores de diversas
áreas, desde a antiguidade até os dias atuais, na tentativa de
compreender o conhecimento humano. Identificará a Teoria
do Conhecimento como uma área específica da Filosofia que
se preocupa com a questão do conhecimento em várias de suas
formas.

Você também compreenderá que os seres humanos, pelo desejo


de ordenar e apreender o mundo e de melhorar suas condições
de vida, desenvolveram diversas formas de conhecimento,
reconheceram a si mesmos como sujeitos cognoscentes.
Este termo se refere àqueles que Entenderá, também, como os seres humanos extrapolaram
têm o poder ou a faculdade de o domínio do mundo apreendido, tomando como objeto de
conhecer. investigação o próprio fenômeno do conhecimento.

Seção 1 - Questões acerca da Teoria do Conhecimento


Todas as pessoas julgam conhecer algo e, de fato, pode-se dizer
que o ser humano naturalmente busca conhecer o mundo a sua
volta, pois esta é uma condição para manter-se vivo.

Algumas vezes dirigimos nossas perguntas ao mundo, outras


vezes ao próprio fenômeno do conhecimento. Isto inclui o
homem e o mundo na mesma dimensão, e então, temos uma
visão mais complexa da realidade e a compreensão de nós
mesmos como sujeitos ativos na produção do conhecimento.

Mas afinal, como podemos responder à questão: o


que é o conhecimento?

Num sentido geral, podemos dizer que conhecimento é o que


permite aos seres vivos manterem-se vivos. Neste caso, uma
planta sabe que deve virar sua folhagem em direção à luz, assim

66

filosofia_2008a.indb 66 3/6/2008 14:33:15


Filosofia

como um cavalo sabe que determinado solo não é


seguro para caminhar, e um homem sabe que, se jogar
um objeto acima de sua cabeça, este poderá, quando
em queda, atingi-lo. Porém, num sentido exato não
seríamos capazes de definir, tão brevemente, o que é o
conhecimento.

As definições dadas por inúmeros estudiosos, sobretudo filósofos,


foram, uma após a outra, substituídas ao longo da história, sem que
nenhuma delas tenha definido conclusivamente a questão e sem que
nenhuma delas tenha sido definitivamente descartada.

Diante deste impasse, podemos começar destacando o que


distingue o conhecimento humano do conhecimento de outros
animais.

Distinção entre o conhecimento humano e o de outros animais


Ao contrário do que acontece com outros animais, nos seres
humanos existe uma clara diferença entre os dados percebidos no
meio ambiente e as respostas expressadas como reação. A diferença
se deve ao fato de que, além do comportamento instintivo,
exclusivamente reativo, o ser humano tem um comportamento Conforme Werner
Jaeger (1989), vontade
reflexivo.
consciente se refere à
característica humana
Antes de manifestar uma reação, o homem faz uma pausa e reflete.
exclusiva de conservar
Imagina, idealiza e conceitua aquilo que apreende do mundo e e propagar a existência
depois é capaz de reconhecê-lo e identificá-lo. social e espiritual, baseada
em um certo “jogo
O ser humano atribui significado às coisas do mundo físico, às livre” não naturalmente
imagens mentais que ele mesmo constitui e aos sentimentos que determinado
experimenta. O desenvolvimento desta capacidade de reflexão - e que conduz ao
autoconhecimento.
permitiu a ele agir baseado em uma vontade consciente e não mais
somente nos instintos.

Acredita-se que, em períodos remotos, o conhecimento humano


respondia exclusivamente à necessidade de sobrevivência. Porém,
por razões ainda não completamente elucidadas, ele foi além das
solicitações imediatas enquanto ser biológico e passou a procurar
respostas, por uma necessidade de compreensão e ordenação do
mundo.

Unidade 3 67

filosofia_2008a.indb 67 3/6/2008 14:33:15


Universidade do Sul de Santa Catarina

A manifestação definitiva desse pensamento ordenador se


deu com a criação de um sistema simbólico específico que
Conforme Charles S. Peirce (1977), chamamos de linguagem, capaz de representar a realidade,
sistema simbólico é um conjunto expressar o pensamento e comunicá-lo aos outros.
de símbolos manipulados com base
em regras explícitas; um código, Perceba que o ser humano ordena e dá significado ao mundo e
cujas combinações são suscetíveis isso inclui comunicá-lo. Disto depende a consolidação e validação
de previsão e descrição. Por sua
do conhecimento, a existência da sociedade etc. Nesse sentido,
vez, o símbolo é um signo que não
tem relação direta com o objeto é difundida a tese de que existe certa correspondência entre a
ou fenômeno que representa e linguagem e a complexidade das operações mentais que um ser
está baseado exclusivamente na humano é capaz de executar.
convenção social.
A capacidade humana de operar com elementos e situações
abstratas está ligada a uma linguagem apropriada para transmitir
raciocínios, de modo que, quanto mais complexo é o sistema de
comunicação, mais complexo é o pensamento e o conhecimento
humano.

No decorrer da história da humanidade, desenvolveram-se e


tornaram-se cada vez mais complexos os meios de comunicação e
de socialização do conhecimento.

Você percebeu que o conhecimento está assentado


na coletividade?

O conhecimento depende do caráter coletivo,


depende do outro. Ora, “dizer” ao outro o que se
sabe é fundamental para a compreensão do meio
ambiente e de si próprio.

Este “dizer” do homem não tem a função exclusiva


de representar o mundo, mas também recria a
realidade, à medida que não somente reproduz o
que apreende, mas também abstrai, interpreta e
humaniza a realidade.

Por se tratar de um animal capaz de refletir sobre


si mesmo, de ser autoconsciente, o ser humano
produziu inúmeros tipos de conhecimento, além
de poder ver a si como sujeito cognoscente, ou seja,
como um ser que é capaz de conhecer.
Figura 3.1 - Poema “Collage”, de Loli Pe
(surrealismo.blogspot.com/)
68

filosofia_2008a.indb 68 3/6/2008 14:33:15


Filosofia

Agora que você acompanhou essas considerações preliminares


sobre o conhecimento, veja como Abbagnano (2000) o define:

Conhecimento, em filosofia, encontra-se definido


como um procedimento operacional, uma técnica de
verificação de um objeto qualquer, isto é, qualquer
procedimento que torne possível a descrição, o
cálculo ou a previsão controlável de um objeto; e
por objeto há de entender-se qualquer entidade,
fato, coisa, realidade ou propriedade, que possa
ser submetido a um tal procedimento [...] a relação
cognitiva é uma identidade ou semelhança e
a operação cognitiva é um procedimento de
identificação com o objeto ou uma sua reprodução [...]
relação cognitiva é uma apresentação do objeto e a
operação cognitiva um processo de transcendência.

Bem, na definição citada permeiam várias questões importantes


da Teoria do Conhecimento. Dentre as suscitadas, destacamos
três fundamentais:

1) a relação entre o sujeito e o objeto do conhecimento;

2) a diferenciação entre o conhecimento empírico e o


conhecimento abstrato;

3) a compreensão do conhecimento como representação


do mundo ou como sinônimo da realidade.

Acompanhe, na seqüência, explicações sobre cada uma destas


questões.

1) Relação entre o sujeito e o objeto do conhecimento


É possível definir o conhecimento como algo que emerge da
interação entre o sujeito que conhece ou deseja conhecer e o
objeto a ser conhecido ou que se dá a conhecer. Neste caso, o
conhecimento pode ser identificado como processo ou como
resultado da apreensão do objeto pelo sujeito.

Unidade 3 69

filosofia_2008a.indb 69 3/6/2008 14:33:15


Universidade do Sul de Santa Catarina

Atenção!
O objeto não é entendido, aqui, exclusivamente
como objeto físico, mas no sentido de “objeto do
conhecimento”, que inclui coisas e fenômenos físicos e
mentais, mesmo tudo aquilo que se dá a conhecer.

Ao apreender o objeto, o sujeito cognoscente forma uma


imagem mental que, até certo ponto, reproduz as características
e propriedades do objeto. É a partir desta imagem que as
operações mentais interpretam e dão significado ao que é
Estas operações são entendidas
apreendido, ou seja, desenvolvem o conhecimento.
como ações internas do sujeito
cognoscente, organizadas A princípio, pode parecer que o sujeito exerce um papel
e coordenadas para fazer exclusivamente ativo na apreensão do conhecimento, contra um
combinações, juntar e separar papel passivo do objeto apreendido, e que ambos, sujeito e objeto,
idéias, conceitos, imagens etc. são seres independentes.
Entre as operações mentais temos a
abstração, a análise, a comparação, Ora, tais papéis não são tão bem definíveis assim. Os sujeitos
a classificação, a memorização, a
imaginação etc.
interagem no processo de construção do conhecimento e sofrem
“passivamente” a interferência do ambiente cultural, do mundo
do trabalho, do cotidiano, etc. A própria linguagem envolvida nas
informações e na socialização do conhecimento se torna relevante
para este processo. Além disso, o sujeito apreende o objeto e lhe
atribui um significado, mas é inegável que este conhecimento
também modifica o próprio sujeito.

A relação entre o sujeito e o objeto do conhecimento é um tema


de discussão típico da Teoria do Conhecimento. Correntes
filosóficas como a fenomenologia defendem que sujeito e objeto
Conforme Ferrater Mora (1994),
são distintos - visto que o sujeito somente pode apreender o que
a fenomenologia é um método está fora de si - mas estes são tão interligados no ato de conhecer
de investigação contemporâneo que não faz sentido tratá-los como entes independentes.
que propõe descrever a realidade
como ela se apresenta. Para a Para a fenomenologia, o sujeito que conhece tem uma
fenomenologia nada deve ser intencionalidade que interfere na apreensão e no entendimento
pressuposto: nem o mundo natural,
do objeto. Este entendimento, por sua vez, pode modificar-
nem o senso comum, nem as
proposições da ciência, nem as se e adquirir outro significado em relação a outros objetos do
experiências psíquicas. Deve-se contexto.
colocar “antes” de toda crença e
de todo julgamento simplesmente
“dado”.

70

filosofia_2008a.indb 70 3/6/2008 14:33:15


Filosofia

Acompanhe um exemplo, com a finalidade de compreender a


importância da intencionalidade no ato de conhecer, conforme a
perspectiva da fenomenologia. Conforme Husserl (1999),
a intencionalidade é a
capacidade de apreender o
que está fora, o outro; é o
Um frasco de ato de dar um significado,
cianureto entre outros um sentido, de encontrar
compostos químicos um elo entre o sujeito e
em um laboratório o objeto. A consciência
pode não ter o mesmo do ser humano é sempre
significado de um caracterizada pela
frasco de cianureto em intencionalidade, porque
uma cena de suicídio. ela é sempre a consciência
de alguma coisa.
Ainda, a apreensão e
significação de uma floresta
para um madeireiro não é
absolutamente a mesma que
para um ambientalista.

Existem outras peculiaridades relativas ao sujeito e ao objeto do


conhecimento, que poderiam ser citadas, como o fato de que,
em algumas vezes, o objeto do conhecimento é o próprio sujeito
que conhece; em outras, o objeto do conhecimento é uma idéia
forjada pela mente do sujeito cognoscente de algo que não existe,
tal como a idéia de um cavalo alado.
Ainda, a distinção entre o sujeito e o objeto permite estabelecer
um parâmetro de objetividade em que, quanto mais “distância”
houver entre o sujeito e o objeto, mais “objetivo” e universal,
pode-se dizer, que é o conhecimento; e quanto mais “próximo” um Universal, no sentido
estiver do outro, mais comprometida fica essa objetividade, pois filosófico, se refere à
mais subjetivo será o conhecimento emergido dessa interação. característica que é válida
para todas as coisas.
Veja, no exemplo seguinte, situações em que a objetividade ou
a subjetividade, no ato de conhecer, evidenciam-se de modos
diferentes.

Na relação de um astrônomo com um fragmento de


meteoro, por exemplo, o conhecimento não é tão
ameaçado pela subjetividade do sujeito do que na
relação de um psicólogo com as psicopatologias de
seu paciente.

Unidade 3 71

filosofia_2008a.indb 71 3/6/2008 14:33:16


Universidade do Sul de Santa Catarina

A objetividade é uma característica daquele conhecimento que


não depende dos pontos de vista particulares, mas do consenso
entre especialistas. No caso do conhecimento científico, a
instituição conhecida como comunidade científica cerca-se de
regras, métodos e instrumentos que buscam garantir a validade
universal do conhecimento em questão. Principalmente pela
utilização da linguagem matemática, tanto na formulação quanto
na comunicação das suas teorias, a ciência busca evitar equívocos
ou duplas interpretações.
Além disso, as condições em que as experimentações científicas
são realizadas não dependem da “escolha” dos cientistas, não são
acidentais ou variadas de acordo com a experiência de vida de
cada pessoa, mas são determinadas pela comunidade científica,
seguem procedimentos pré-estabelecidos. Tudo isso faz com que
o conhecimento científico sobre o objeto estudado seja o mais
fiel possível ao próprio objeto, de acordo com jeito que ele existe
e não do jeito que um ou outro cientista julga que ele é, ou seja,
tudo isso faz com que o conhecimento científico seja objetivo.

2) Diferenciação entre o conhecimento empírico


e o conhecimento abstrato
Primeiramente, antes de você estudar as diferenças entre o
conhecimento empírico e o conhecimento abstrato, é necessário
que se esclareçam estes termos.

Você sabe o que é conhecimento empírico ou


conhecimento abstrato?

Denomina-se empírico o conhecimento obtido pelos


órgãos dos sentidos, pela experiência sensível vivenciada.

Pode ser aquele fruto de experiências circunstanciais e


imediatas que, ao se repetirem no cotidiano, geram um
conhecimento prático que, por sua vez, oferecem dados
para que seja realizado um raciocínio indutivo.

Pode ser considerado. Também. aquele fruto de


O filósofo Francis Bacon (1999) estabelece uma distinção experiências planejadas, metodologicamente executadas
entre a experiência vaga (basicamente como noções e rigorosamente controladas pela comunidade científica.
recolhidas ao acaso) e a experiência escriturada (fruto da Geralmente, os experimentos também utilizam a indução
observação metódica e passível de verificações empíricas como procedimento básico para investigações científicas.
que identificamos como experiência científica). A este tipo de experiência é mais adequado chamar
experimento.

72

filosofia_2008a.indb 72 3/6/2008 14:33:16


Filosofia

Denomina-se abstrato o conhecimento obtido


pela operação mental que se dirige a um objeto e
abstrai deste o que é representativo (características,
propriedades etc.).
No caso de objetos que não são de natureza
material, como os objetos matemáticos, por exemplo,
a abstração é evidente, visto que os números
inteiros positivos, por sua vez, funcionam como a
representação da quantidade de objetos.

Após o estudo destes conceitos, destes tipos básicos de


conhecimentos, é pertinente questionar se, em nosso cotidiano,
atribuímos uma importância maior para o
conhecimento empírico em detrimento do
abstrato, ou vice-versa?

Veja que o conhecimento de um velho


agricultor, que nunca freqüentou uma
escola, sobre o desenvolvimento da planta
do feijão, por exemplo, é fruto das diversas
experiências anteriores que teve com o
plantio do feijão. Este conhecimento
empírico, esta experiência é suficiente para
que ele cultive o feijão com êxito. Afinal, o agricultor vive desse
conhecimento há muito tempo.

Por outro lado, o conhecimento de um agrônomo, que nunca


foi agricultor, sobre a mesma planta de feijão é suficiente
para que ele faça pesquisas de melhoramento genético dessa
planta e, mesmo, que possa viver desse conhecimento. Observe
que o conhecimento do agrônomo melhor se classifica como
abstrato, visto que abstrai do objeto, especificamente do
feijão, suas características,
propriedades etc. Observe,
ainda, que o conhecimento do
agrônomo também deve ser
classificado como empírico,
uma vez que este realiza
experimentos sobre o feijão,
no caso, experimentos de
melhoramento genético.

Unidade 3 73

filosofia_2008a.indb 73 3/6/2008 14:33:16


Universidade do Sul de Santa Catarina

Você lembra de nossa primeira definição de conhecimento?


Foi dito que conhecimento é o que, de certa forma, mantém os
seres vivos. Pois bem, sabemos que o que mantém o agricultor
e o agrônomo vivos não são somente os seus respectivos
conhecimentos sobre o feijão. Mas, sob certo aspecto, ambos,
agricultor e agrônomo, têm um conhecimento importante . E
isto nos parece bastante sensato. Porém, as pessoas, em geral,
tenderiam a dizer que o conhecimento do agrônomo é ‘mais
importante’ do que o do agricultor. Mas, por quê?

Entre as razões, destas pessoas “em geral”, situa-se a de que


o conhecimento do agricultor pode ser dito puramente físico,
derivado de experiências, enquanto o conhecimento do agrônomo
é puramente abstrato, além de experimental.

Mas nós poderíamos perguntar para as pessoas “em


geral”: Será que existe o conhecimento puramente
físico e o puramente abstrato?

Acompanhe a seguinte atividade, que tem a finalidade de


contribuir para que você reflita sobre o conhecimento empírico
e o conhecimento abstrato e assim perceber a dificuldade de
admitir que há um conhecimento puramente abstrato ou
puramente físico (ligado às experiências).

Você já se perguntou sobre como é


possível reconhecer as coisas?

Imagine que alguém lhe entregue um objeto qualquer


- uma tampa de caneta, por exemplo - e lhe peça que
diga o que é. Então, por algum tempo, certamente,
você o observa com atenção e improvisa um parecer
sobre o objeto.

A pergunta que lhe propomos é a seguinte: como


você concluiu que este objeto é exatamente uma
tampa de caneta? Em sua resposta, descreva
em poucas linhas o que ocorre em seu corpo e
pensamento quando você está diante de um objeto
para conhecê-lo.

74

filosofia_2008a.indb 74 3/6/2008 14:33:16


Filosofia

Atente, agora, para esta questão: - para identificar


o objeto, foram suficientes os dados que você
conseguiu coletar por meio de suas impressões
sensoriais, os sentidos, ou você precisou de mais
alguma coisa?

Observe que, muito provavelmente, você iniciou o


ato de conhecer guiando-se pelos dados sensoriais,
provenientes de seus sentidos, e depois relacionou o
objeto percebido com outras coisas que já conhecia.

Ora, as operações como relacionar, classificar, ordenar,


estabelecer analogias e concluir são operações mentais que
ultrapassam a experiência sensível.

Por outro lado, será que você conseguiria dizer o que é o objeto
em questão se não pudesse vê-lo ou senti-lo, se contasse apenas
com a descrição do objeto, feita por outra pessoa?

Sem os sentidos, para perceber sensorialmente o objeto, você se


guiaria pelas palavras, recorreria à imaginação, à memória de
experiências sensoriais anteriores que pudessem se relacionar à
descrição do objeto atual.

Unidade 3 75

filosofia_2008a.indb 75 3/6/2008 14:33:16


Universidade do Sul de Santa Catarina

Voltemos ao caso do agricultor e do agrônomo. Apesar de ser


evidente a ligação do conhecimento do agricultor com suas
experiências anteriores e com a cultura que aprendeu com seus
pais, não é possível negar que o agricultor também classifica,
relaciona, tira conclusões de sua experiência sensível e faz
previsões em relação à natureza. Ou seja, o conhecimento do
agricultor não decorre, exclusivamente, de sua experiência, não é
puramente físico. O agricultor também utiliza, de um modo ou
de outro, a abstração no seu dia-a-dia.

Assim, também não é possível dizer que o conhecimento do


agrônomo é pura e exclusivamente abstrato, que em nada
tenha recorrido à experiência sensível, em pelo menos algum
momento. Ou seja, o conhecimento do agrônomo, certamente,
deve ter recorrido da experiência concreta, em algum momento
de seu percurso.

Atenção!
O que queremos enfatizar é que nos parece
complicado definir os conhecimentos como
puramente empíricos ou puramente abstratos.
Eles podem ser classificados, sem prejuízo, como mais
empíricos e menos abstratos ou o inverso.

Embora alguns filósofos tenham defendido uma posição


radical, que privilegia um conhecimento puramente empírico ou
puramente abstrato, enfatizamos o prejuízo que há em buscar
uma resposta definitiva para a suposta dicotomia empírico
e abstrato, e, pior ainda, de considerar uma delas, de forma
excludente, como a única fonte do conhecimento.

76

filosofia_2008a.indb 76 3/6/2008 14:33:16


Filosofia

3) Conhecimento como representação do mundo e como


sinônimo da realidade
A terceira grande questão ligada ao
conhecimento é a do conhecimento
compreendido como representação da
realidade, objetiva, exterior e independente
da consciência ou do sujeito que conhece,
e, por outro lado, é a do conhecimento
compreendido como a própria realidade,
de modo que não existiria nada fora daquilo que a consciência
conhece. Esta questão pode ser assim resumida: o conhecimento
é uma representação da realidade ou é a própria realidade? Na
primeira perspectiva, o conhecimento é fortemente condicionado
pela realidade; na segunda, o conhecimento é fortemente
condicionado pela consciência do sujeito cognoscente.

Na perspectiva do conhecimento compreendido como


representação da realidade, somos habituados a pensar que a
realidade pode ser descoberta, que há uma realidade fora de
nós. A partir desta realidade, criamos representações mentais
e modelos explicativos que buscam cada vez mais manter uma
identidade com a própria realidade objetiva. Desse modo,
acreditamos que, de fato, conhecemos a realidade quando nossas
representações conferem com o que percebemos e/ou observamos
na realidade objetiva.

Neste caso, o conhecimento é entendido como uma


representação mental do objeto ou fenômeno apreendido pelo
sujeito. Aquilo que é apreendido pelo sujeito cognoscente é
exterior a ele.

Esta atitude diante do mundo que estamos conhecendo é


comumente chamada de realista, pois defende-se que, por meio
do conhecimento, alcançamos uma realidade distinta da nossa
representação de realidade, embora haja uma correspondência
com esta realidade.

Veja a seguinte atividade, que tem a finalidade de contribuir para


que você reflita sobre o conhecimento como representação do
mundo, conforme a concepção realista.

Unidade 3 77

filosofia_2008a.indb 77 3/6/2008 14:33:16


Universidade do Sul de Santa Catarina

As coisas do mundo e suas representações


Durante sua vida, você conheceu diversos tipos de aves, é capaz de
descrever várias delas, de reconhecer uma ao vê-la, de admirar sua beleza,
seu canto, seu vôo livre e de conversar sobre aves com outras pessoas.
Enfim, você tem, certamente, um conhecimento comum e suficiente para
integrar as aves no seu dia-a-dia. Mas, o que ocorre quando você vê a
figura abaixo?
Pense, agora, no que ocorre quando você lê a palavra “ave”.
Descreva, brevemente, se o que faz com que a figura seja reconhecida é o
mesmo que faz com que a palavra seja reconhecida.

E agora, se lhe fosse solicitado que conceituasse ave, que desse uma idéia
universal, capaz de incluir todas as aves, e apenas elas, qual seria?

Provavelmente, nesta última questão você não teve a mesma facilidade


que nas anteriores. Curioso?

78

filosofia_2008a.indb 78 3/6/2008 14:33:16


Filosofia

Acompanhe, agora, algumas considerações sobre a atividade anterior.

Segundo a teoria de Peirce (2000), o reconhecimento da ave


somente foi possível porque sua memória recorreu a registros mentais,
de momentos anteriores em que, a partir da experimentação e da
racionalização, você fez representações de, pelo menos, duas ordens:

„ representações imagéticas - que são acionadas quando você


vê um desenho de ave, por exemplo, e;

„ representações conceituais - que são acionadas quando você


lê a palavra “ave”, por exemplo.

Para saber mais


Para saber mais sobre Charles S. Peirce e o tema das
representações imagéticas, faça uma pesquisa livre na
internet.
Se preferir, no seu dispositivo de busca na internet, digite
o nome do filósofo e os seguintes termos: signo, ícone,
símbolo, semiótica. Você também pode consultar a obra:
• PEIRCE, C. S. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2000.

Retomando! Na perspectiva realista, a facilidade que você teve para


reconhecer a ave na forma de figura se deve ao fato de que já percebeu
diversas aves e já tem uma representação dela em imagem na sua mente.
Igual facilidade você teve em reconhecer a ave em forma de palavra,
porque você é alfabetizado e conhece a convenção da língua portuguesa,
pela qual esta palavra representa simbolicamente um animal: a ave.

Observe que a representação conceitual de ave requer uma


atividade mais intensa e complexa do pensamento e estará,
inclusive, condicionada ao processo de significações que se antepõe
à realidade exterior. Isto é, toda vez que o ser humano desenvolve
uma representação conceitual é preciso admitir que esta atividade
de representação está, de certo modo, condicionada a certas
particularidades, à subjetividade, deste sujeito.

Veja que, para a tarefa de conceituar a ave, foi necessário forjar uma
idéia universal que representasse as diversas aves particulares que
existem. Somos capazes de conhecer concretamente o canário, o

Unidade 3 79

filosofia_2008a.indb 79 3/6/2008 14:33:16


Universidade do Sul de Santa Catarina

quero-quero, o sabiá, o joão-de-barro, o beija-flor, etc., e todos


eles são aves, mas “a ave”, aquela que é representativa de todas as
aves, esta nunca se apresentou aos nossos sentidos, mas apenas
à nossa razão - pois “a ave”, no sentido universal, não existe
concretamente, e só existe em idéia.

Imagine que você está observando o vôo das aves, admirando sua
beleza e liberdade. Você pode admirar a beleza no vôo das aves e,
essa atividade, qualquer ser humano que tenha o sentido da visão
pode experimentar.

Pois bem, admitindo que você veja a beleza em


diferentes coisas, sentiria-se capaz de descrever o
conceito de “beleza”?

A princípio, como você estudou agora há pouco, as representações


conceituais são mais difíceis do que as imagéticas. E, por isso, se
já sentimos dificuldades em propor um conceito universal para
coisas concretas particulares, como é o caso da ave, tanto mais
difícil será conceituar algo que não tem existência concreta em si,
mas é abstrato, como é o caso da “beleza”.

Atenção!
Um aspecto fundamental desta concepção realista
do conhecimento é o fato de que, embora este
conhecimento seja uma representação válida da
realidade, supõe-se que o sujeito nunca apreenderá
completamente a realidade exterior.

Noutro caso, de modo diferente dessa concepção realista, o


conhecimento da realidade é considerado idêntico à própria
realidade conforme a perspectiva idealista. O conhecimento
de um objeto ou fenômeno, neste caso, não é puramente uma
percepção sensível seguida de uma representação, mas, também,
o reconhecimento de categorias ideais, invisíveis, imateriais,
universais e essenciais que definem o objeto ou o fenômeno
percebido e, ao mesmo tempo, são independentes dele.

80

filosofia_2008a.indb 80 3/6/2008 14:33:17


Filosofia

Sem negar a percepção do mundo objetivo, o conhecimento é, neste


caso, uma operação abstrata de criação no “eu”, ou seja, no sujeito,
de imagens de objetos e eventos exteriores apreendidos pelos sentidos,
ou de objetos e eventos interiores da própria consciência. São
entendidas como exteriores as coisas e situações que experimentamos
no mundo concreto e, como interiores as idéias, imagens e operações
mentais da consciência.

Neste caso, não existe nada fora da realidade conhecida ou ideal


que possa ser representado mentalmente como no caso anterior
(conhecimento como representação). Esta posição é habitualmente
denominada de idealista.

Na visão idealista, entende-se que não há uma representação


interior, mental do objeto que está fora do sujeito. Por outro lado, na
perspectiva idealista, ambos, o sujeito e o objeto do conhecimento,
são entidades da própria consciência, do sujeito cognoscente, e tudo
isso ocorre no interior do próprio eu.

Veja a seguinte atividade, que tem a finalidade de contribuir para


que você reflita sobre o conhecimento como sinônimo de mundo,
conforme a concepção idealista.

Será que a consciência pode determinar o que faz


parte da realidade? Aquilo que pode ser conhecido?

Na história do ocidente encontramos diversas explicações


sobre a constituição do universo. Dentre elas, três são
ordinariamente citadas:

• em tempos antigos, o universo foi explicado como


um conjunto ordenado de corpos/entes celestes
criados e regidos por divindades;

• depois, com estudos astronômicos como os de


Ptolomeu, o universo foi explicado como um
conjunto de corpos celestes, regidos por forças físicas
e em constante movimentação em torno da Terra;

• e, depois de Copérnico, Galileu Galilei, Kepler,


etc., a ciência passou a explicar o universo como
um agregado de sistemas planetários que,
provavelmente, comportam-se como o sistema da
Terra, que têm o Sol como centro.

Unidade 3 81

filosofia_2008a.indb 81 3/6/2008 14:33:17


Universidade do Sul de Santa Catarina

Se alguém lhe perguntasse sobre o Sol e a Terra,


precisamente sobre desde quando o Sol é uma
estrela, centro do sistema planetário do qual faz parte
a Terra, o que você responderia?

Entre as suas respostas, poderia ser dito que:

— Que o Sol é uma estrela, centro do sistema planetário do qual


faz parte a Terra, provavelmente, desde que o nosso sistema solar
e a Terra se formaram!
ou

— Que o Sol é uma estrela, centro do sistema planetário do


qual faz parte a Terra desde que os cientistas afirmaram e
demonstraram que assim é, considerando suas teorias explicativas
sobre a realidade!

O que queremos enfatizar é que existem, aqui evidenciados,


pelo menos dois modos de explicar nosso mundo, um que
considera o nosso conhecimento como conseqüência de como
nossa realidade é; e outra que considera nosso conhecimento
como conseqüência direta de como nós, sujeitos cognoscentes,
explicamos a realidade (no caso, os cientistas).

82

filosofia_2008a.indb 82 3/6/2008 14:33:17


Filosofia

Observe que, no primeiro caso, a realidade é apresentada como


algo que não depende do sujeito que a conhece, que existe apesar
de qualquer sujeito cognoscente. No entanto, ela está lá, pronta
para ser descoberta por ele.

Buscamos confirmação de nosso conhecimento por meio de


evidências empíricas. Quando isto não acontece, aprimoramos
o conhecimento para que ele corresponda à realidade. Nesse
caso, acredita-se em uma progressiva otimização dessa
correspondência, isto é, uma representação interna cada vez mais
acurada do ambiente externo.

Assim, quando as evidências empíricas confirmam nosso


conhecimento, é fortalecida em nosso espírito a confiança de que
o conhecimento que temos da realidade é seguro.

No segundo caso, a realidade é determinada


pelo que “sabemos” sobre ela. Nós não a
descobrimos, mas a inventamos. De fato,
enquanto sabíamos que o Sol girava em
torno da Terra, assim era “conhecido”, e
quando passamos a saber que a Terra é que
gira em torno do Sol, assim também passou
Figura 3.2 – A terra gira em torno do
a ser “conhecido”. sol ou vice-versa?
(www.ioplanetaris.com)
Conforme a concepção deste segundo caso,
o que não sabemos não existe em nossa
realidade. Portanto, aqui, a realidade é a realidade conhecida e
nada mais há fora dela.

Nessa perspectiva idealista, aquilo a que chamamos de realidade


é uma interpretação, um modo particular de observar e
explicar o mundo, que é construído por meio da experiência e
da comunicação, assim como definitivamente marcado pelas
nossas condições limitantes de sujeitos cognoscentes. Ou seja,
na perspectiva idealista de conhecimento, este é determinado,
fundamentalmente, por teorias explicativas.

Unidade 3 83

filosofia_2008a.indb 83 3/6/2008 14:33:17


Universidade do Sul de Santa Catarina

Saiba mais sobre o conhecimento como representação e


como sinônimo da realidade!
O contraste entre conhecimento como “representação” da realidade
e conhecimento como “sinônimo” da realidade evidencia-se quando
se faz opção por um modelo teórico e não o outro. Para uma mesma
questão, teóricos e filósofos debatem sobre ‘como’ o conhecimento
deve ser proposto.
Veja a questão do raio-x. Você acha que o raio-x foi descoberto ou
foi inventado? Se considerarmos que ele foi descoberto, perceba
que há a concepção teórica de conhecimento como representação
da realidade. Neste sentido, existe a convicção de que podemos
representar e conhecer a realidade tal como ela é.
Se considerarmos que o raio-x foi inventado, perceba que há a
concepção teórica de conhecimento como sinônimo da realidade.
Neste sentido, existe a convicção de que podemos interpretar e
conhecer a realidade, a partir do que idealizamos sobre a realidade.
Quando se entende que o conhecimento é a própria realidade, ou
seja, numa perspectiva idealista, se é “levado a crer” que aquilo que
não se conhece, não existe. Observe a seguinte situação de sala de
aula, com alunos de 5ª série do Ensino Fundamental e veja como as
crianças, espontâneas que são, demonstram uma visão idealista do
conhecimento.
Considere que um professor de Geografia da 5ª série de uma escola
pública apresentou aos seus alunos um mapa mundo da Idade Média.
Obviamente, em tal mapa não constava o continente americano, já
que na época essas terras ainda não haviam sido “descobertas”. Então
o professor perguntou:
- Pessoal, observem bem este mapa e me digam onde está o Brasil?
Unânimes, os alunos responderam:
- Não está aí.
- Mas por que o Brasil não aparece neste mapa? Será que os
estudiosos da Idade Média esqueceram de desenhá-lo?
A discussão entre os alunos ficou acirrada, quando um deles falou:
- Elas não esqueceram de desenhar, é que naquela época o Brasil
ainda não existia.
E outro retrucou:
- Claro que já existia! Só que eles não sabiam disso e nem imaginavam.
Assim, de forma simples, perceba as implicações de se adotar uma ou
outra visão do conhecimento.

As reflexões que fizemos até aqui foram apenas introdutórias à


temática da Teoria do Conhecimento e de modo algum esgotam
o assunto. Alguns destes aspectos serão retomados no decorrer
das próximas Unidades, e outros você poderá consultar, por
exemplo, nas referências sugeridas na seção Saiba Mais.
84

filosofia_2008a.indb 84 3/6/2008 14:33:17


Filosofia

Aprofunde seu entendimento sobre a


Teoria do Conhecimento

As questões da Teoria do Conhecimento acompanham as


especulações filosóficas desde a antiguidade clássica e continuam
presentes nas discussões de filósofos atuais, sem esgotar suas
indagações. Denomina-se Teoria do Conhecimento ou Filosofia
do Conhecimento um ramo da Filosofia que investiga as fontes
do conhecimento, a atividade do sujeito frente ao objeto a ser
conhecido, as formas de conhecimento, os procedimentos pelos
quais ele é gerado, os critérios de sua validação, o valor que lhe é
atribuído em diferentes grupos sociais, etc.

Algumas vezes, utiliza-se o termo Epistemologia como sinônimo de


Teoria do Conhecimento.

A Epistemologia também é um ramo da Filosofia que estuda o


conhecimento, especificamente o conhecimento científico. O objeto
de conhecimento da Epistemologia é a estrutura formal da ciência,
ou seja, é a reflexão filosófica sobre a linguagem, o método, a
organização interna, os resultados e o valor do saber científico. Não
faz parte da Epistemologia o conteúdo da ciência, o objeto próprio
da pesquisa científica. Pode-se dizer que a Epistemologia no, sentido
essencial, nasceu com o problema da demarcação entre o que é
ciência e o que não é ciência.

Seção 2 - As diversas formas de conhecimento


No cotidiano, é comum ouvir as pessoas afirmarem que conhecem
coisas. O mecânico diz que conhece o carro. A mãe diz que
conhece o filho. O advogado conhece a questão. O mendigo
conhece a praça. O treinador conhece o time. O matemático
conhece a fórmula, etc. Nas situações citadas, o conhecimento tem
significado diverso e, ao mesmo tempo, mantém algo em comum,
visto que todos os sujeitos afirmam conhecer.

Veja como se classificam alguns dos diversos tipos de


conhecimento, o que os caracteriza e em que termos se
aproximam e se distanciam.

Unidade 3 85

filosofia_2008a.indb 85 3/6/2008 14:33:17


Universidade do Sul de Santa Catarina

Para começar...

Observe três respostas possíveis para a pergunta: o que é o


conhecimento?

1) É a soma de todos os saberes que o homem adquire


através de sua experiência prática, do convívio social, dos
ensinamentos dos antigos e de tudo o que possa observar
durante sua vida, justamente para viver melhor.

2) É o saber que o homem desenvolve acerca de um


determinado aspecto da realidade a fim de compreendê-
lo e explicá-lo. É obtido através de raciocínios apurados e
experiências rigorosamente controladas.

3) É decorrência da iluminação da alma racional do homem.


Com ela, o homem pode conhecer o que está ao seu alcance
pela experiência de seu corpo mortal, ao mesmo tempo em
que sua alma recebe os mistérios da revelação.

Digamos que elas tenham sido dadas por três pessoas


diferentes, respectivamente, um homem do senso comum,
um cientista e um religioso.

Você é capaz de perceber detalhes que diferenciam essas


respostas?

Registre seu pensamento.

86

filosofia_2008a.indb 86 3/6/2008 14:33:17


Filosofia

Você lembra que na primeira seção fizemos uma comparação


entre o conhecimento de um agricultor e o de um agrônomo. Isto
é, temos, basicamente, um indivíduo formado em uma instituição
de ensino superior, em que é praticado o conhecimento científico,
e outro formado, exclusivamente, na vida prática.

Vimos que o conhecimento prático, como o do agricultor,


originado na vivência, geralmente denominado de empírico, atende
às necessidades de vida do homem comum e inclui certo grau
de racionalização. Observe que parte do conhecimento empírico
do agricultor é obtida por raciocínio indutivo, decorrente, por
exemplo, da observação de repetidos fenômenos da natureza. Lembre-se que você
estudou os raciocínios
indutivos, na unidade
anterior, que aborda a
Atenção!
Lógica e os raciocínios.

O conhecimento empírico, de que tratamos aqui,


originado na experiência do homem comum, em
sua observação da natureza, está ligado à tradição,
às crenças, ao senso comum e pode sofrer influência
das modernas tecnologias da informação e da
comunicação.

Porém, há diferença entre o conhecimento empírico,


que também pode ser chamado de conhecimento
comum, vulgar ou popular, e aquilo a que chamamos
de cultura de massa, que é a cultura popular
invadida pela massificação de padrões artificiais de
comportamento e de julgamento ético e estético.

A cultura de massa é veiculada em revistas, músicas,


telenovelas, anúncios comerciais, na moda, etc. Ela
produz impressões e expectativas falsas da realidade
e avança ameaçadoramente sobre a diversidade e
originalidade cultural do país, influenciando o modo
das pessoas pensarem, agirem e conhecerem.

Você pode obter mais informação sobre cultura de


massa, popular e erudita no site

• http://pwp.netcabo.pt/0710625001/analisepoetica.htm

Unidade 3 87

filosofia_2008a.indb 87 3/6/2008 14:33:17


Universidade do Sul de Santa Catarina

Voltemos ao caso do agricultor! No sul do Brasil é comum o


cultivo da uva. Os agricultores aprenderam que o céu escuro
e a trovoada sempre antecede a chuva de granizo, e que este
fenômeno é mais comum nos meses de janeiro e fevereiro. Esta
também é a época do ano em que as videiras estão produzindo.
Toda vez que cai granizo, os grãos de uva madura se partem; isto
atrai as abelhas, a uva fica azeda e o agricultor perde a esperança
de fazer um bom vinho. Com sorte, ele pode fazer vinagre! Este
é um exemplo de conhecimento empírico, em que a observação
da realidade contribuiu para que o agricultor formulasse um
raciocínio indutivo.

Certamente, o agricultor não sabe por que chove pedra de gelo


em vez de gota de água; não sabe por que a uva partida pela
chuva de granizo fica azeda. De certa forma, ele não precisa saber
disso para continuar plantando uva do jeito que sempre fez, pois
sempre lhe bastou saber que a natureza é assim.

O conhecimento empírico do homem comum é


útil, pragmático e resolve os problemas cotidianos
Figura 3.3
que podem impedi-lo de viver bem como deseja.
– O conhecimento é Porém, tende a limitar-se a isso. Não se pode dizer
fundamental, mesmo que o conhecimento do senso comum é fruto de um
para o cultivo da uva “desejo puro pelo saber” e desprendido de qualquer
(www.pncvd.it)
finalidade prática.

Geralmente, o homem comum tem um conhecimento “limitado”


da realidade, mas, em alguns casos, pode alargar bastante seus
limites ao traçar procedimentos ordenados, fazer observações
sistemáticas, planejar sua ação cuidadosamente, analisar as
indagações que permanecem em seu espírito, propor raciocínios
indutivos, etc. Enfim, pode descobrir novos aspectos da realidade
e mudar sua prática a partir disto. Porém, não se pode dizer que
o conhecimento empírico do homem que utiliza o senso comum
é metódico e investigativo, que é constantemente aperfeiçoado
e que tem o propósito de explicar a realidade para além das
necessidades circunstanciais.

Mítico, relativo ao mito, que tem O conhecimento empírico do homem baseado no senso comum
as mesmas características do mito, é transmitido de geração para geração por meio da educação
ou seja, que mistura fantasia e informal, baseia-se na imitação e experiência pessoal assim como
realidade. é influenciado pelo pensamento mítico.

88

filosofia_2008a.indb 88 3/6/2008 14:33:17


Filosofia

Mesmo assim, veja que o conhecimento de senso comum tem a natureza


como objeto de conhecimento, já que dela surgem problemas que visa
a resolver. Nisso, o conhecimento do senso comum se aproxima do
conhecimento científico, que também pretende conhecer a natureza,
não somente para resolver os problemas cotidianos, como também, para
ampliar o conhecimento explicativo sobre seus fenômenos. A ciência
pode ser entendida como o resultado de séculos de estudos sistemáticos
sobre a natureza.

Acompanhe o seguinte problema, exemplo, que visa contribuir na


sua reflexão sobre o conhecimento empírico, como senso comum, e o
conhecimento científico.

Conhecimento empírico do homem comum e


conhecimento científico
Você deve conhecer a utilização do chá de boldo para
tratar problemas relacionados a má digestão. Então
observe a situação que segue:

Registre suas observações sobre estes dois tipos de


conhecimento, o empírico do homem comum e o científico.

Figura 3.2 - Conhecimento empírico do homem comum e conhecimento científico


(Alex Xavier)

Unidade 3 89

filosofia_2008a.indb 89 3/6/2008 14:33:18


Universidade do Sul de Santa Catarina

Pois bem! Enquanto no conhecimento popular as pessoas


divergem por simples opinião, não sabem explicar com
segurança como se utiliza o boldo, se tem contra-indicações,
se existe mais de uma espécie de boldo, etc., na ciência existe
um consenso sobre o conhecimento construído, isto é, ele é
intersubjetivamente válido. Desse modo, a receita que o médico
prescreve é compreendida por outros médicos e pelos bioquímicos
que vão aviar a receita da mesma maneira.

A ciência tornou-se uma instituição composta por milhares


de membros, cientistas, filósofos e acadêmicos. Eles compõem
uma comunidade científica que produz, fomenta, regulamenta
e avalia o conhecimento produzido dentro de suas fronteiras,
o que faz da ciência um conhecimento altamente controlado e
rigoroso. A ciência não depende do que cada cientista pensa,
em sua particularidade, mas da adequação do conhecimento
produzido ao funcionamento da própria realidade e aos critérios
de cientificidade indicados pela própria comunidade científica.

Na ciência, a linguagem, sobretudo na matemática, os métodos


e critérios de análise ou de experimentação são objetivos e
padronizados, dificultando impressões subjetivas e tornando
as teorias científicas impessoalmente válidas. Assim, tendo
competência necessária naquela área de estudo, qualquer cientista
pode compreender e até mesmo testar o que seu colega apresenta.
Essas características fazem com que o conhecimento científico
seja considerado objetivo.

A objetividade científica não deve ser encarada


como um fato “naturalmente” decorrente do modo
como opera a ciência. Afinal, o cientista não é
um ser destacado da realidade, que atua de forma
neutra quando está imbuído da missão de investigar
a realidade. Precisamos admitir que, mesmo no
interior de seu laboratório, o cientista sofre influências
externas ao contexto de sua pesquisa, às vezes até de
outros cientistas mais experientes e laureados.

Cada vez mais a questão da objetividade científica


se torna ainda mais complexa. Diante da recente
polêmica ética que envolve as pesquisas genéticas
com células tronco, por exemplo, ou diante do fato

90

filosofia_2008a.indb 90 3/6/2008 14:33:18


Filosofia

de que o desenvolvimento econômico e industrial da atualidade


está assentado no conhecimento científico e tecnológico,
movimentando riquezas e honras acadêmicas. Por isso, é mais
adequado afirmar que a objetividade é uma meta do cientista.
E, se ele busca a validade universal de seu conhecimento, deve
procurar evitar as influências externas, as opiniões particulares,
posições políticas, religiosas, etc.

Interessante é o fato de que, apesar das


impressionantes descobertas da ciência
contemporânea, sobretudo aquelas que geram
tecnologias aplicadas no prolongamento e
melhoramento da vida, estas ainda não estão
acessíveis à maior parte da humanidade.

Talvez isso explique, em parte, porque, mesmo com o tamanho


desenvolvimento da ciência, ainda hoje assistimos a uma profusão
de novas igrejas e seitas religiosas em todo mundo.

O que o ser humano busca na religião?

Bem, esta é uma questão cuja resposta demandaria uma seção


exclusiva para ela, e como nosso propósito aqui é apenas
caracterizar brevemente o conhecimento religioso, vamos
considerar uma resposta genérica para a questão.

A consciência da natureza incompleta e finita do homem,


das suas dicotomias existenciais e suas contradições históricas
aparentemente insolúveis o lançam em uma situação de incerteza
para a qual se dirigem as respostas do conhecimento mítico e
religioso. Pode-se dizer que o ser humano encontra na religião
um consolo para suas angústias.

Bastante diferente da ciência, o conhecimento religioso apóia-se


em seres divinos que revelam aos homens proposições sagradas,
dogmáticas e inquestionáveis. Estas ‘verdades’ reveladas são
aceitas como lei, não pela sua veracidade empírica ou validade

Unidade 3 91

filosofia_2008a.indb 91 3/6/2008 14:33:18


Universidade do Sul de Santa Catarina

lógica, mas pela autoridade de quem as revela, por isso mesmo,


não é necessário comprová-las, mas apenas aceitá-las pela fé.

A dúvida, que é elemento fundamental do conhecimento


científico, que também pode aparecer no conhecimento do
homem comum, e que é condição para a existência da Filosofia,
é evitada no conhecimento religioso, sob pena de abalar a
estabilidade dos mistérios e dogmas que estão na sua base.

Esta é uma das grandes diferenças entre esses dois tipos de


conhecimento: se o conhecimento religioso apóia-se na fé, o
conhecimento científico apóia-se na dúvida como base para as
posteriores explicações.

O cientista não pode apresentar o resultado de suas pesquisas


afirmando que acredita piamente em sua verdade e esperar que,
baseada nisso, a comunidade científica confirme seus resultados.
A ciência baseia-se em provas e evidências e não na fé ou crença
pessoal do cientista.

Do mesmo modo, o teólogo não pode esperar provar a existência


de Deus, embora muitos tenham se dedicado a essa tarefa. Deus
e tudo o que se relaciona à natureza divina é verdade de fé, e não
é passível de discussão porque sua veracidade não pode ser negada
ou comprovada, pelo menos não nos moldes científicos.

O conhecimento popular, como não busca, profundamente,


as raízes da realidade, como não suporta a dúvida permanente
e como está vinculado a cultura e práticas antigas, passadas de
geração em geração, às vezes incorpora explicações religiosas
ou míticas. Observe, porém, que o conhecimento “popular”, do
senso comum, está alinhado com um sentido pragmático, uma
utilidade habitual.

O conhecimento científico e o filosófico, como buscam conhecer


inteiramente a realidade através das bases sólidas da razão e/ou
da experimentação, geralmente rejeitam as explicações míticas e
religiosas.

Os teóricos do conhecimento são capazes de descrever inúmeras


semelhanças e diferenças entre os tipos de conhecimento

92

filosofia_2008a.indb 92 3/6/2008 14:33:18


Filosofia

apresentados aqui. Também ressaltam que as fronteiras entre eles


nem sempre são tão claras quanto pensamos.

Os tipos de conhecimento que abordamos não descrevem


as variadas formas de manifestação do conhecimento
humano, mas estão entre as mais discutidas pela Teoria do
Conhecimento, e serão retomadas nas próximas unidades,
como base para entendimento das teorias dos filósofos, sobre
como podemos conhecer.

Síntese

Nesta Unidade, você entrou em contato com algumas das


questões mais discutidas dentro da Teoria do Conhecimento.
Filósofos de todos os tempos se questionaram sobre como
é possível conhecer, qual é a fonte do conhecimento, o
que caracteriza o conhecimento humano, que diferentes
conhecimentos os seres humanos produzem, etc.

Como é característico da Filosofia, essas questões sobre o


conhecimento receberam respostas diversas e, mesmo assim,
não são consideradas excludentes. Porém, foram respostas
logicamente rigorosas com as quais você pode comparar a “sua
própria resposta”, assim como a resposta mais comum das pessoas
em geral.

Unidade 3 93

filosofia_2008a.indb 93 3/6/2008 14:33:18


Universidade do Sul de Santa Catarina

As questões sobre a problemática da Teoria do Conhecimento


que você estudou nesta oportunidade serão retomadas nas
Unidades 4 e 5, por isto, esteja atento e busque mais informações
caso seja necessário ou desejável. Para tanto, utilize as fontes
recomendadas na seção Saiba Mais.

Atividades de auto-avaliação

1) Exponha, com suas palavras, o que é conhecimento. Publique sua


resposta no EVA, através da ferramenta Exposição. Não esqueça,
também, de consultar a resposta dos colegas.

94

filosofia_2008a.indb 94 3/6/2008 14:33:18


Filosofia

2) Retome o exercício de reflexão proposto no início desta seção sobre “O


que é o conhecimento?” e os seus prováveis autores (um homem do
senso comum, um cientista e um religioso).
2.1) Em função das explicações tratadas, relembre e sintetize aqui as
principais características desses tipos de conhecimento.

2.2) Agora, inclua neste exercício as principais características do


conhecimento filosófico, conforme você estudou na primeira unidade
deste livro. Assim, você obterá um resumo das características básicas
dos tipos de conhecimento estudados aqui.

Unidade 3 95

filosofia_2008a.indb 95 3/6/2008 14:33:18


Universidade do Sul de Santa Catarina

2.3) Para finalizar, você é capaz de destacar aspectos em que a Filosofia


se distancia e se aproxima dos outros tipos de conhecimento
abordados aqui?

3) Imagine a seguinte situação:

Em uma aula de História, para a turma da oitava série do Ensino


Fundamental, o professor fala a seus alunos sobre a II Guerra Mundial e
o ataque americano que lançou duas bombas atômicas sobre o Japão.
Durante a discussão, o professor pergunta aos alunos quem deveria ser
responsabilizado pelas mortes causadas naquele evento:

• os cientistas, que descobriram a energia atômica e produziram


a bomba;
• o presidente dos EUA, que ordenou o ataque e a utilização da
bomba;
• ou, os pilotos dos aviões, que fizeram o lançamento da bomba
atômica.

96

filosofia_2008a.indb 96 3/6/2008 14:33:18


Filosofia

Como resultado, nessa classe, a maioria dos alunos responsabilizou o


presidente dos EUA e inocentou os cientistas. Responda:
a) A quem você “acusaria”? Por quê?

b) Por que a maioria dos alunos inocentou os cientistas?

Saiba mais

Você pode saber mais sobre o assunto estudado nesta unidade


consultando as seguintes referências:

„ ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. 4. ed. São


Paulo: Mestre Jou, 2000.

„ ANDERY, Maria Amália. et.al. Para compreender a


ciência: uma perspectiva histórica. Rio de Janeiro: Espaço
e Tempo, 1988.

Unidade 3 97

filosofia_2008a.indb 97 3/6/2008 14:33:18


Universidade do Sul de Santa Catarina

„ BACON, Francis. Novum Organum. [Os pensadores],


São Paulo: Nova Cultural, 1999.

„ CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo:


Ática, 1998.

„ HUSSERL, Edmund. Investigações lógicas -


sexta investigação: elementos de uma elucidação
fenomenológica do conhecimento. [Os pensadores], São
Paulo: Abril, 1999.

„ JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem


grego. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

„ MORA, José Ferrater. Dicionário de filosofia. São


Paulo: Martins Fontes, 1994.

„ PEIRCE, C. S. Semiótica. São Paulo: Perspectiva,


2000.

98

filosofia_2008a.indb 98 3/6/2008 14:33:19


4
UNIDADE 4

As raízes da Teoria do
Conhecimento
Maria Juliani Nesi

Objetivos de aprendizagem
„ Identificar a origem da reflexão sobre o conhecimento.

„ Identificar a concepção de conhecimento segundo


Sócrates, Platão e Aristóteles.

„ Conhecer questões originadas na antigüidade, relativas ao


conhecimento, que permaneceram nos períodos históricos
subseqüentes.

Seções de estudo
Seção 1 A descoberta da racionalidade.

Seção 2 O conhecimento na filosofia de Sócrates, Platão e


Aristóteles.

filosofia_2008a.indb 99 3/6/2008 14:33:19


Universidade do Sul de Santa Catarina

Para início de estudo


A partir desta unidade, você começará estudar a questão do
conhecimento em uma perspectiva histórica. Verá a questão do
conhecimento no pensamento grego antigo de alguns filósofos
pré-socráticos (primeiros filósofos ocidentais) e de Sócrates,
Platão e Aristóteles (filósofos gregos mais estudados).

Estudará, também, questões fundamentais sobre o conhecimento


originadas na Grécia Antiga e Clássica e que permaneceram
sendo discutidas por pensadores medievais.

Para estes, por exemplo, está a clássica questão sobre o que é


capaz de validar o conhecimento: a fé ou a razão. Esta questão,
que nasceu na antigüidade e atravessou a Idade Média e o
Renascimento, colocou em lados opostos aqueles que defendiam
o conhecimento que provinha da investigação racional da
natureza, fundamentada pelo próprio homem, e outros que
defendiam a aceitação do conhecimento revelado por Deus,
baseado na fé.

Seção 1 – A descoberta da racionalidade


Até aproximadamente o século VII a.C., o conhecimento
cultivado na Grécia Antiga estava ligado a certos aspectos da vida
em sociedade. Este conhecimento constituía-se, basicamente,
de técnicas aplicadas à agricultura, do desempenho dos ofícios
tradicionais e da preparação para a guerra.

Havia, também, o conhecimento mitológico, que, além de


motivar os cultos religiosos, explicava boa parte da realidade
ligando os deuses diretamente aos fenômenos da natureza e aos
acontecimentos da vida humana. Aos poucos, porém, os gregos
foram aprimorando suas técnicas de produção de alimentos
e produtos, o que os levou a produzir muito mais do que
precisavam para seu consumo.

100

filosofia_2008a.indb 100 3/6/2008 14:33:19


Filosofia

É comum historiadores afirmarem que a excelência no modo


de produção da vida material levou os gregos às transações de
troca da produção excedente e ao desenvolvimento do comércio,
condição histórica fundamental para o surgimento e apogeu das
cidades gregas, de sua cultura, filosofia e ciência.

Com o desenvolvimento da sociedade grega, as respostas


finalistas e deterministas advindas dos mitos tornaram-
se insuficientes para a explicação da realidade e foi, então, Concepção da realidade,
necessário ultrapassá-las, encontrando-se explicações baseadas na de mundo, segundo
observação e no raciocínio. a qual “tudo” já está
predeterminado, razão
Os primeiros filósofos que passaram a buscar respostas na pela qual era difundida
observação empírica dos fenômenos naturais e nas especulações uma postura conformista e
passiva diante do destino
racionais foram os chamados pré-socráticos. ou da providência divina.

Eles não concebiam o universo como uma realidade aleatória e


caótica que dependia da vontade ou do humor de seres divinos.
Isto não significa que tenham se tornado necessariamente
ateus, mas que investigaram a natureza apesar das divindades.
Observaram que o universo possui uma ordem e que,
conhecendo esta ordem, os segredos do universo poderiam ser
desvendados pelas condições e atributos naturais do próprio
homem, sobretudo pela racionalidade.

O principal objeto de estudo desses filósofos foi o cosmos, ou


seja, o universo ordenado. Empenharam-se, especialmente, em
encontrar a origem e a composição do universo, buscando um
elemento originário, um princípio fundador. Alguns afirmavam
que este princípio fundador era a água (como já vimos com
Tales), outros que era o fogo, outros, o átomo etc. Por isso, o
conhecimento dos pré-socráticos também é denominado de
cosmológico ou de filosofia da natureza.

Atenção!
Observe que os pré-socráticos protagonizaram uma
importante passagem do conhecimento mítico para
o conhecimento racional, evento que se repetiu
em outros momentos históricos do pensamento
ocidental. Eles eram filósofos, físicos, matemáticos
etc., mas não se pode chamá-los precisamente de
cientistas, já que não praticavam a experimentação

Unidade 4 101

filosofia_2008a.indb 101 3/6/2008 14:33:19


Universidade do Sul de Santa Catarina

rigorosa, não quantificavam suas observações e não


testavam rigorosamente suas teorias. Sua investigação
se dava, em grande parte, pela especulação, análise e
inferência teórica.
Alguns estudiosos modernos chamam a atenção
para a falta de rigor da experimentação e observação
empírica realizada pelos pré-socráticos. Mesmo
assim, seu conhecimento “pré-científico” desviou o
olhar das coisas particulares e da vida prática para o
“céu”, para as teorias cosmológicas. Conforme Popper
(1982), se a sua experimentação e observação carecem
de objetividade, por outro lado sua “racionalidade
franca e sincera” os levou à antecipação de teorias
que só foram desenvolvidas mais tarde, por cientistas
modernos.

Das questões tratadas pelos pré-socráticos, abordaremos nesta


oportunidade apenas duas delas, que consideramos importantes
para o estudo que você está sendo desenvolvido aqui sobre o
conhecimento.

A primeira delas trata da mobilidade e imobilidade do


universo, que envolveu, principalmente, os filósofos Parmênides
de Eléia e Heráclito de Éfeso. A segunda questão é a da
tradição crítica, que caracteriza as escolas pré-socráticas.

Mobilidade e imobilidade do universo


Parmênides (530-460 a. C.) tratou da
questão do movimento, (i)mobilidade das
coisas do universo, a partir da distinção
entre o ser (o que existe) e o não-ser (o
que não existe). É célebre sua frase neste
sentido: “O ser é e o não-ser não é”.
(BORNHEIM, 1977, p. 63)

Parmênides queria chamar a atenção para


o ser, para o que existe. Para ele, aquilo
que existe não está sujeito à mudança,
é sempre do mesmo jeito, sendo igual, Figura 4.1 - Parmênides de Eléia
por conseqüência, a ele mesmo. Logo, (www.philosophyprofessor.com)

102

filosofia_2008a.indb 102 3/6/2008 14:33:19


Filosofia

o movimento, a mudança, não existe. Assim, conforme esta


concepção radical de mundo, nós só poderíamos conhecer o que
existe. Por outro lado, o não-ser (a negação do ser), aquilo que
não existe, não pode ser, obviamente, conhecido.

Por mais simples que possa parecer esta distinção ente ser e
não-ser, veja que aqui é estabelecido um limite para o que pode
ou não ser conhecido. Só podemos conhecer o que existe e não
podemos conhecer o que não existe.

Parmênides expõe que o ser, aquilo que existe, pode ser


identificado pelos nossos pensamentos, com a nossa razão. Ele,
radicalmente, chega a identificar o pensamento referente ao que
existe com a própria coisa que existe.

Esse pensador, à medida que privilegia a racionalidade e o


pensamento para apreensão do que existe, desqualifica as
experiências, as percepções, os sentidos que produzimos ao
entrarmos em contato com este mundo sensível, considerando-os
como ilusões. Para ele, essa via sensorial, mundana, trata daquilo
que não é digno de confiança, pois não nos proporcionaria um
conhecimento seguro.

Com isso, Parmênides inaugura um dos mais clássicos problemas


da Teoria do Conhecimento: a dualidade entre o percebido e o
pensado, a experiência e a razão.

Considere a seguinte situação problema, que você pode já ter


presenciado, referente à questão da (i)mobilidade das coisas do
universo e que, posteriormente, permitirá a você aprofundar o
entendimento sobre a tese de imobilidade de Parmênides.

Atente para o seguinte diálogo, que poderia fazer


parte da aula de uma turma de Ensino Médio, em que
o professor de matemática apresenta aos alunos a
matéria de geometria espacial.
Professor – Meus caros alunos, a primeira coisa ao
iniciar o estudo da geometria espacial é aceitar a
existência do ponto, da reta e do plano como entes
geométricos, isto é, entes abstratos de natureza
matemática. Nós estudaremos sua definição,
identificaremos suas características e isto basta. Estes
são conceitos primitivos, elementares, a partir dos quais
faremos cálculos, projeções etc.

Unidade 4 103

filosofia_2008a.indb 103 3/6/2008 14:33:19


Universidade do Sul de Santa Catarina

Aluno – Mas você pode nos explicar o que são os entes


geométricos?
Professor – Até certo ponto sim. Eles não existem de
forma concreta na natureza, não se pode encontrar uma
reta por aí. No entanto, podemos aplicar o conceito de
reta a certos aspectos da realidade. Por exemplo, ao
observarmos a parede de um prédio, identificamos uma
linha vertical que pode ser tratada como uma reta. Do
mesmo modo, os engenheiros podem construir pontes
aplicando o conceito de reta em cálculos da construção
civil. A reta é um ente unidimensional, ou seja, tem
apenas comprimento, altura ou largura e é traçada entre
dois pontos. E entre os dois pontos de uma reta existe um
conjunto infinito de outros pontos.
Neste momento o aluno pára, reflexivo.
Aluno – Professor, mas se é verdade que entre os dois
pontos extremos de uma reta existem infinitos pontos,
isso significa que se eu sair do ponto origem (enquanto
extremidade desta reta) antes de alcançar o fim da reta
(a outra extremidade), então terei que atravessar infinitos
pontos? Ora, então eu jamais chegarei ao outro lado da
ponte!?

Este “caso simples” pode colocar um professor incauto em


situação desconfortável. Porém, o professor pode adotar a idéia
do aluno e explicar que, considerando a reta contínua, é possível
avançar sobre ela passo a passo, ou dar meio passo, ou um quarto
de passo, ou um passo duplo. O passo sempre pode ser menor, o
que leva à idéia de infinito.

O professor pode, também, expor que nem sempre é possível


transpor diretamente modelos ideais para a realidade concreta,
embora os entes matemáticos, como é o caso da reta no caso
anterior, possam ser aplicados com sucesso em cálculos, em
estudos de estruturas sólidas, no desenvolvimento de tecnologias
aplicadas etc.

A questão apresentada aqui é tratada pela matemática atual, mas


surgiu muito antes, com os pré-socráticos.

104

filosofia_2008a.indb 104 3/6/2008 14:33:19


Filosofia

Zenão de Eléia (495-430 a. C.), fi lósofo


pré-socrático e discípulo de Parmênides,
desenvolveu argumentos que tratam do
infinito, com a finalidade de defender as idéias
de seu mestre e, assim, provar a imobilidade
de todas coisas.

Um dos argumentos de Zenão expressa


o seguinte. Imagine que dois corredores
iniciaram uma corrida. Embora a corrida
já tenha iniciado, diz Zenão que o corredor Figura 4.2 - Zenão de Eléia
“mais lento” encontra-se na frente do “mais (www.eurosophia.com)

rápido”, de modo que o “mais lento” jamais


será alcançado. A explicação de Zenão,
para este fato, considera que para o “mais rápido” alcançar o
“mais lento” então ele teria que pelo menos percorrer a metade
da distância que há entre os dois. Mas, para percorrer esta
distância, o corredor “mais rápido” ainda teria que percorrer
a metade da metade de tal distância. E assim sucessivamente,
pois para percorrer a metade da metade da distância, ainda é
obviamente preciso percorrer a metade da metade da metade da
distância, até se chegar a idéia de infinito.

Deste modo, o corredor jamais sairia do lugar. O movimento


é então uma ilusão. Veja que, para Zenão, esta explicação
corrobora a tese de Parmênides, a de que não há movimento.
Veja que Zenão leva a questão da divisibilidade ao extremo,
exatamente ao infinito, para então sustentar a imobilidade de
todas as coisas.

Diferentemente de Parmênides e
de seus discípulos, Heráclito de
Éfeso (540-470 a. C.) afirmava
que a realidade está em constante
mudança. Tal mudança ocorre,
sempre, a partir da união de
contrários, do ser e do não-ser
como faces de uma mesma moeda.
Observe que, para conhecermos
precisamos reconhecer esta Figura 4.3 - Heráclito de Éfeso / pintura de
Johannes Moreelse (1602-1634)
“condição”.
(www.enciclopedia.tiosam.com)

Unidade 4 105

filosofia_2008a.indb 105 3/6/2008 14:33:19


Universidade do Sul de Santa Catarina

Confira alguns dos fragmentos mais conhecidos de Heráclito


(BORNHEIM, 1977, p. 36-43):

„ Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a


mais bela harmonia. (8)

„ Descemos e não descemos nos mesmos rios, somos e não


somos.(49)

„ A harmonia invisível é mais forte que a visível. (54)

„ Em nós, manifesta-se sempre uma e a mesma coisa:


vida e morte, vigília e sono, juventude e velhice. Pois a
mudança de um dá o outro e reciprocamente. (88)

Heráclito também reconhecia a importância da razão, mas


defendia que o que existe, o ser, está continuamente mudando
para o não-ser e vice-versa.

Se alguém tomar banho duas vezes no rio, então, na


segunda vez, este não será mais o mesmo e nem o rio.
Ora, a água do rio passou e não volta mais, assim como
aquele que tomou banho será uma pessoa diferente
daquela que tomou banho pela primeira vez.
A percepção da mudança contínua da realidade pode
ser sutil, mas diz Heráclito que devemos reconhecê-
la como inexorável, válida para todas as coisas que
existem.

Neste sentido, Heráclito é considerado o cunhador do termo


dialética enquanto concepção da realidade formada pela união de
contrários e em constante transformação e movimento.

Tradição crítica
A segunda questão que abordaremos é a da tradição crítica
(perspectiva metodológica sobre o conhecimento) e que
caracteriza as escolas pré-socráticas.

106

filosofia_2008a.indb 106 3/6/2008 14:33:20


Filosofia

Provavelmente por terem vivido o surgimento da polis e da


democracia, uma importante característica do conhecimento Este termo designa a
dos pré-socráticos era a possibilidade de suas teorias serem cidade grega antiga
criticadas, alteradas ou substituídas por outras mais adequadas.
Existia entre eles um processo de discussão e desenvolvimento
do conhecimento, diferente do que ocorria com os mitos.
Ora, os mitos não podiam ser criticados ou superados por
outros melhores, e os conhecimentos de ordem prática só eram
modificados se fossem considerados inúteis.

Popper (1982, p. 164) afirma que, baseados em especulações


abstratas e críticas, “e não se tenha aqui a idéia de um trabalho
maçante de racionalização, mas o frescor e a criatividade das
mentes curiosas e juvenis”, os pré-socráticos foram mais longe do
que baseados em suas observações empíricas.

Segundo o mesmo autor, o conhecimento pré-socrático


representou o início de uma tradição de produção de
conhecimento baseado em conjecturas e refutações, de uma
antecipação corajosa do que era impossível conhecer na base da
observação concreta e, sobretudo, um conhecimento baseado no
exame crítico das próprias teorias.

A postura crítica, aliás, era adotada pela maioria das escolas pré-
socráticas e fomentada pelos seus mestres professores. Observe a
seguinte citação de Karl Popper acerca da teoria de Anaximandro
sobre a suspensão da Terra.

De acordo com Anaximandro, “a Terra [...] não está


sustentada por nada, permanecendo estacionária
porque está situada a uma distância igual de todas as
demais coisas. Sua forma é [...] como a de um tambor
[...]”. O tambor, obviamente, é uma analogia derivada
da observação. Mas, a idéia da livre suspensão da
Terra no espaço e a explicação de sua estabilidade não
têm analogia em todo o campo dos fatos observáveis.
Abriu caminho para as teorias de Aristarco e
Copérnico. [...] e a concepção de Newton de forças
gravitacionais imateriais e invisíveis. Como chegou
Anaximandro a essa notável teoria? Certamente não
mediante observações, mas pela razão. Ela é uma
tentativa de solucionar um problema para o qual
Tales, seu mestre, fundador da escola Milesiana ou
Jônica já havia proposto uma solução. (1982, p. 163).

Unidade 4 107

filosofia_2008a.indb 107 3/6/2008 14:33:20


Universidade do Sul de Santa Catarina

A aventura especulativa dos pré-socráticos e seu pensamento


hipotético no intento de conhecer a realidade, somados ao
exame crítico das teorias de seus pares, são características
fundamentais do pensamento destes filósofos e, comumente, são
relacionados ao processo do conhecimento científico.

Retome na primeira unidade a reflexão sobre as competências


tipicamente filosóficas. Pois bem, desenvolver o senso crítico e
promover a ação criativa são objetivos da maioria das propostas
educativas e são atributos necessários para qualquer pessoa.

Se você quiser aprofundar seu estudo sobre os pré-


socráticos e conhecer alguns fragmentos de seus
textos, leia o livro:

• BORNHEIM, Gerd (org.). Os filósofos pré-


socráticos. São Paulo: Cultrix, 1977.

Você também pode assistir ao filme “O Esqueleto da


Noite”, episódio nº 07 da Coleção Cosmos/ National
Geographic. É um documentário apresentado
pelo cientista Carl Sagan, sobre as raízes gregas do
pensamento científico.

Seção 2 – O conhecimento na filosofia de Sócrates,


Platão e Aristóteles
Nesta seção, você verá que Sócrates, Platão e Aristóteles
defendiam uma respectiva teoria do conhecimento, com
características distintas. Em comum, os três têm o fato de que
procuravam por um conhecimento seguro sobre a realidade,
sobre nosso mundo, e essa busca foi, para os três, orientada
pela procura de conceitos universais. Os conceitos universais
se referem a um conhecimento seguro e amplamente válido,
para todas as coisas, de tal modo que fundamentaria melhor,
em relação a todos os outros tipos de conhecimento, o fazer, o
pensar, o dizer etc.

108

filosofia_2008a.indb 108 3/6/2008 14:33:20


Filosofia

Sócrates
A tradição racional que começou com os pré-
socráticos foi continuada por Sócrates (470-399
a. C.), que buscava o verdadeiro conhecimento
por meio do exercício da razão. Sócrates
opunha-se aos sofistas, que eram considerados
os mais respeitados mestres da sociedade grega.
O foco dessa rivalidade era a teoria sobre o
conhecimento verdadeiro.
Figura 4.4 – Sócrates
(pressurecooker.phil.cmu.edu)
Os sofistas tinham uma visão pragmática
da política e do conhecimento em geral.
Os sofistas eram
Creditavam ao discurso, à forma, à eloqüência e ao poder de grandes oradores e
convencimento o critério de verdade, de modo que desenvolveram argumentadores. Eram,
uma filosofia que promovia o relativismo. também, mestres que
ensinavam argumentos
Assim, tantas verdades decorriam de quantos discursos fossem e posicionamentos
proferidos, de acordo com a tese preferida e argumentada pelo úteis para o sucesso na
vida prática e política.
cidadão.
Costumavam ser
contratados para ensinar
retórica e persuasão para
Atenção!
os jovens que almejavam
Para Sócrates, não se tratava de procurar o discurso “prosperar”.
eloqüente e persuasivo, mas de procurar a verdade
(universal), para além da diversidade de perspectivas.

Nesse caso, “o homem não é a medida de todas as coisas”,


como pensava o sofista Protágoras. Sócrates criticava os debates
programados que eram comuns na vida política das cidades
gregas antigas, com temas determinados, tempo de duração
definido e afetados por interesses escusos dos debatedores.

Segundo ele, o homem para descobrir a verdade deve adotar


um postura humilde e questionadora, condição eficiente e
necessária para conhecer a realidade.

Pensava que a filosofia é uma prática de vida que exige dedicação


e coerência total, sem jamais ceder a interesses externos. Por isso,
passava os dias pela cidade, conversando com todos, sobre tudo,
argumentando livremente e promovendo debates entre as pessoas
que se juntavam a ele.

Unidade 4 109

filosofia_2008a.indb 109 3/6/2008 14:33:20


Universidade do Sul de Santa Catarina

Sócrates exercitava a filosofia como debate vivo,


como busca incessante pela verdade. Não deixou
nada escrito, e o que sabemos de seu pensamento
é por meio de historiadores ou de outros filósofos,
especialmente Platão, que fez de Sócrates o
personagem principal de seus diálogos.

Sócrates se considerava ignorante e não se fazia portador de


nenhum saber, mas acreditava ter o dever de libertar as pessoas da
convicção ilusória de que sabiam alguma coisa. Nesta perspectiva,
todos são ignorantes e alguns, os que têm consciência da
própria ignorância, são os mais preparados para se lançar em
busca do conhecimento verdadeiro. Nos debates promovidos
por Sócrates, seus interlocutores eram desafiados a falar de
temas diversos e levados, por perguntas insistentes, a refletir
profundamente. Se o debate concluísse com um argumento
genérico e sem uma precisa definição do objeto do debate, o
interlocutor ficava confuso. Assim, o interlocutor se tornava presa
Maiêutica é sinônimo de obstetrícia,
da dúvida, na visão do filósofo, e então ficava pronto para admitir
parte da medicina que estuda sua ignorância e empenhar-se na busca pela verdade.
os fenômenos da reprodução na
mulher. Maiêuta é o médico que Segundo Sócrates, um corpo doente e intoxicado, antes de
presta assistência à mulher e receber o remédio correto, precisa passar por um processo de
seu feto no período do grávido- depuração para somente depois assimilar o remédio. Do mesmo
puerperal (obstetra). Porém, modo, um espírito arrogante, que julga só ter virtudes e que
a palavra também é utilizada
por Sócrates para denominar o
confia demasiadamente em seus conhecimentos, não pode
momento do “parto” intelectual do produzir um conhecimento verdadeiro sem antes proceder uma
aprendiz, na procura da verdade que “cura”, colocando seu próprio pensamento sob olhar crítico.
está dentro de si. Sócrates era filho
de parteira e comparava o seu ofício,
de parteiro de idéias, ao da mãe,
parteira de homens. Sócrates suscitava a autocrítica e fazia seu
interlocutor questionar o próprio conhecimento,
Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/
ou seja, levava o aprendiz a reconhecer-se ignorante
Maiêutica
- ironia socrática. Depois, com a arte da maiêutica
- ajudava seu interlocutor a exprimir o quanto de
verdade sua razão fosse capaz de parir, de gerar.

É no trabalho interno da própria razão, no auto-conhecimento,


que a pessoa deve se concentrar, e se concentrar para sempre,
enquanto guia para a nossa vida.

110

filosofia_2008a.indb 110 3/6/2008 14:33:20


Filosofia

O método socrático não se reduz ao diálogo, como pode


parecer. “Todos” podem até falar com segurança sobre virtudes,
belezas, justiças, mas fazem isto enumerando casos particulares
coletivamente conhecidos, mas nem todos são capazes de dar
uma definição única para o termo geral, universal, como justiça
ou virtude.

Sócrates, pelo contrário, buscou saber não quais são as coisas


belas e justas, mas que é o Belo e a Justiça, o que é comum
em todas as coisas que julgamos como belas ou justas. A
pergunta socrática é, de fato, sobre a definição de essência, a
universalidade do conceito.

Observe que Sócrates busca o conhecimento verdadeiro nas


essências ou idéias universais que são alcançadas por meio da
razão, e não por meio da manifestação concreta, da realidade,
que é múltipla e depende da impressão de cada um.

Acompanhe a seguinte situação que visa que você reflita sobre


como o “conceito universal” de belo requer uma investigação mais
aprofundada.

Um rapaz vai à floricultura, acompanhado dos amigos, para escolher flores


que levará no primeiro jantar, na casa da namorada. O rapaz pede para ver
as flores mais belas que têm na loja. Entre tantas flores, a florista lhe traz um
ramalhete de lírios brancos. Então os rapazes discutem a questão e cada um
diz o que pensa:
– Oh, que belos lírios. Eles são brancos como o leite.
– Que horror. Não vejo beleza nos lírios. Eles lembram o dia dos finados.
– Também acho os lírios feios, e que belas
Mas o que
são as rosas.
é o Belo?
– Não, as rosas não são belas, pois elas
têm espinhos. Belos são os cravos.
– Eu acho os lírios lindos, mas amanhã a
beleza deles já terá desaparecido. Se você
quer dizer a sua namorada como ela é
bela, então tente outra coisa.
Você é capaz de sugerir ao rapaz
alguma coisa que seja realmente,
indubitavelmente e sempre belo, para
presentear a namorada?

Unidade 4 111

filosofia_2008a.indb 111 3/6/2008 14:33:20


Universidade do Sul de Santa Catarina

Sócrates diria que não, pois o Belo é um conceito universal que


existe em essência, ou seja, em idéia, e somente lança seu reflexo
sobre a realidade concreta. Você não pega o Belo, não vê o Belo,
mas utiliza desta definição para qualificar as coisas como belas.

Algumas coisas parecem belas e outras não. Mesmo as que


“parecem” belas, não o são para todas as pessoas, e mesmo que
fossem belas para todas as pessoas, não o seriam para sempre,
porque a realidade concreta muda e algo que é belo hoje, pode não
ser amanhã. Mas, para Sócrates, o conceito universal (que apresenta
uma essência imutável) de Belo é algo que não muda, jamais.

Platão
Ao procurar continuar o pensamento de Sócrates, Platão
(428/27-347 a. C.) aprofundou a distinção entre a essência das
coisas e a aparência das coisas.

Segundo Platão, precisamos distinguir as opiniões (doxa), que


são uma forma de conhecimento simples e enganoso obtido
através dos órgãos sensoriais, da ciência (episteme), que é o
Figura 4.5 – Platão conhecimento verdadeiro obtido pela via da razão.
(plato.if.usp.br)

Para Platão, chegamos ao conhecimento verdadeiro


através do diálogo filosófico, que consiste no
confronto de argumentos e contra-argumentos. Tal
procedimento, método, é chamado pelo filósofo de
dialética e é considerado pelo mesmo como um
aprimoramento do método socrático.

Atenção!
Não confunda o sentido da dialética de Platão com a
de Heráclito. Em Platão, a dialética é considerada um
método para a busca de conceitos universais. Para
Heráclito, a dialética é considerada uma explicação
ampla e geral acerca de como a realidade é regida.

112

filosofia_2008a.indb 112 3/6/2008 14:33:21


Filosofia

Nos diálogos, portanto, não se trata de elaborar uma opinião


pessoal, mas sim, por meio de raciocínios lógicos, depurar o
conhecimento aproximando-se do conhecimento verdadeiro, da
essência, do conceito universal investigado.

Neste sentido, não cabe ao mestre convencer pela via direta o


seu discípulo a respeito de algo. O mestre inicia um diálogo
apresentando um argumento acerca de algum tema e provoca
o aprendiz a manifestar-se em relação ao tema. Assim, pela
via da argumentação dialética - pelo embate de argumentos
- as contradições, incoerências do conhecimento proferido e as
observações acidentais acerca da realidade são evidenciadas e
superadas por outras provisórias, que se sustentam no decorrer
do diálogo.

As idéias passam por uma espécie de prova lógica e são, depois


disso, consideradas mais verdadeiras pelos participantes do
embate. Observe que o ponto de partida do diálogo platônico é a
opinião que o aprendiz emite sobre o tema em questão.

As opiniões são consideradas falsas idéias sobre a realidade,


porque não têm origem na razão. Veja que Platão parte da análise
do “erro”, ou, talvez, de algum resquício de verdade que há na
opinião, parte da aparência de verdade, da “verdade torta”, com a
finalidade de superá-la e abandoná-la em seguida.

Com a prática da dialética, Platão reafi rma a necessidade da


crítica como forma de aproximação das idéias verdadeiras
e, de certo modo, antecipa uma prática do conhecimento
científico moderno que é a prova, pela qual as teorias
científicas passam para atestar sua veracidade. Para a ciência,
o erro pode ser o ponto de partida para uma nova teoria, não
é descartado como experiência negativa que já esgotou suas
possibilidades. A teoria científica que não se confi rma não
deixa, por isso, de ser científica.

Dos escritos de Platão, a Alegoria da Caverna é um dos


mais significativos para elucidar como nos apropriamos do
conhecimento verdadeiro. A seguinte figura ilustra essa busca.

Unidade 4 113

filosofia_2008a.indb 113 3/6/2008 14:33:21


Universidade do Sul de Santa Catarina

Figura 4.6 – A alegoria da caverna


(VALVERDE, 1987a, p. 74-75)

Platão parte de uma suposição, de uma caverna fictícia onde


vivem prisioneiros amarrados desde que nasceram e de modo
que nunca viram nada além das sombras projetadas na parede
de fundo da caverna, as quais não são reconhecidas pelos
prisioneiros como sombras, mas como a própria realidade.
Em determinado momento, um dos prisioneiros liberta-se e
percorre um árduo caminho que leva ao exterior da caverna,
completamente diferente do mundo em que estava acostumado a
viver até então.

Para Platão, o interior da Caverna é o “mundo dos sentidos”,


das coisas particulares, das aparências, das opiniões, do senso
comum, e o exterior da Caverna é o “mundo das idéias”,
dos conceitos universais, das essências, do conhecimento
verdadeiro, da ciência. Na metáfora da Caverna, os prisioneiros
representam nós mesmos, e as correntes que nos prendem são
nossos sentidos. Livrar-se das correntes e subir a caverna saindo
de sua escuridão equivale a desprender-se das opiniões que nos
limitam e, gradativamente, alcançar a claridade do conhecimento
abstrato e ideal.

A despeito da facilidade com que algemas foram abertas, a subida


para o exterior da Caverna é um percurso doloroso. Platão faz
questão de lembrar que, ao se movimentar e se dirigir para a
luz, buscando sair da Caverna, o homem sente dores no corpo,
nos olhos e deseja voltar. Para deixar para trás sua condição de
prisioneiro, o homem tem que se desacomodar e lançar-se em um
caminho desconhecido no qual o seu esforço e a sua ação são

114

filosofia_2008a.indb 114 3/6/2008 14:33:21


Filosofia

exigidos, ao contrário da vida no interior da Caverna, em que


recebia passivamente as sombras. De modo geral, essa é uma
característica essencial para qualquer aprendiz: estar disposto
ao esforço que o processo permanente de conhecimento exige.

O mundo do prisioneiro é apresentado a ele como verdade, ele


vive nas sombras e das sombras; vive daquilo que aparece, do
que lhe assaltam os sentidos. Metaforicamente, essa é a condição
dos indivíduos reais que vivem mergulhados em seu cotidiano,
com a curiosidade “satisfeita” ou alienada. Porém, na falta de
um estranho que venha do exterior da caverna para libertar os
prisioneiros, existe a rara possibilidade de que alguma coisa se
altere na regularidade das sombras e os prisioneiros sejam levados
ao questionamento.

Na representação de Platão, é verdade que as sombras enxergadas


pelos prisioneiros existem de fato e que eles as vêem. No entanto,
o homem da Caverna não vê as sombras como sombras das
coisas, mas como se fossem as próprias coisas. Não desconfia que
exista algo além do que se apresenta para ele. Não desconfia da
existência da fogueira atrás de si, dos homens que passam atrás de
si. Isto equivale a dizer que o prisioneiro não tem consciência de
sua condição de prisioneiro.

O erro do prisioneiro da Caverna é satisfazer-se com a realidade


das sombras e não se dar conta de sua condição de prisioneiro.
Se mesmo preso ele desconfiasse daquilo que se apresenta como
verdade da realidade, então não se poderia dizer que é um

Unidade 4 115

filosofia_2008a.indb 115 3/6/2008 14:33:21


Universidade do Sul de Santa Catarina

prisioneiro, mas que está prisioneiro. O que faz diferença, neste


caso, é ter consciência ou não de sua condição. Ter consciência
da prisão é o primeiro passo para se tornar um homem livre, ou
seja, um verdadeiro aprendiz.

Conhecer, para Platão, é estar mergulhado no processo de


descoberta da verdadeira realidade, das idéias. As idéias
universais e verdadeiras das coisas já estão em nossa alma, em
nossa razão, estão conosco desde que nascemos, o que significa
que antes de qualquer experiência elas já existem e podem,
portanto, ser desveladas. Por outro lado, as coisas que vemos e
sentimos no mundo concreto são consideradas apenas ilusões,
aparências da verdade.

Aristóteles
O estabelecimento das idéias como
fonte do conhecimento verdadeiro,
em Platão, não foi bem recebido por
Aristóteles (384-322 a.C.). Ele concorda
com o mestre que para alcançar o
conhecimento verdadeiro é preciso, pelo
trabalho da razão, chegar aos conceitos
universais, porém, não dispensando a
Figura 4.7 – Aristóteles
experiência sensível e a observação
(www.ayf.uni-freiburg.de)
acurada das coisas particulares, a
partir das quais podemos explicar o
movimento ordenado e harmonioso dos entes materiais e formar
idéias gerais que, aí sim, nos remetem aos conceitos universais.
Nisso Aristóteles discorda de Platão, pois para este os conceitos
universais são inatos e a experimentação somente nos desvia do
caminho para o conhecimento verdadeiro.

Observe o desenho que segue, que representa um comparativo


breve da teoria de Platão com a de Aristóteles.

116

filosofia_2008a.indb 116 3/6/2008 14:33:22


Filosofia

Figura 4.8 - Os Cavalos, conforme a teoria de Platão e de Aristóteles


(VALVERDE, 1987b, p. 82)

Para Platão, a partir da idéia universal de cavalo, da essência


imutável de cavalo, podemos nos referir aos cavalos particulares
como cavalos. Para Aristóteles, após a observação e o raciocínio
de cavalos particulares, podemos nos referir ao conceito
universal de cavalo, que, por sua vez, é formado em função das
características gerais e presentes em todos os cavalos particulares.

Para Aristóteles, os conceitos universais nada mais são do que


o resultado da atividade da razão, que primeiramente, por
experiência e indução, categoriza e classifica a variedade do
mundo sensível. Capturamos com a razão as estruturas universais
inerentes ao conjunto das coisas particulares, e não de cada uma
delas individualmente, pois de coisas particulares tomadas em sua
individualidade só se podem descrever as características sensíveis.
Nisso concordam Sócrates, Platão e Aristóteles.

Assim, experimentando diversos tipos de seres do reino vegetal,


por exemplo, Aristóteles acreditava ser possível identificar as
características que são constantes, comuns e essenciais a todas
as plantas, além das características acidentais, aparentes, que
podem mudar sem que aquela planta deixe de ser o que é.

De acordo com Aristóteles, o conceito de “flor” que você tem e


utiliza no cotidiano é resultado de diversas flores já conhecidas.
Assim, se você isolasse uma margarida do conjunto das flores, não
poderia chegar ao conceito universal de Flor, pois este conceito
abrange as margaridas e todas as outras flores que existem.

Unidade 4 117

filosofia_2008a.indb 117 3/6/2008 14:33:22


Universidade do Sul de Santa Catarina

Atenção!
O conceito universal de Flor, que define o conjunto
das diversas flores, não permite que você inclua
a cadeira, por exemplo. Observe que quando
consultamos o dicionário para buscar o significado de
uma palavra, buscamos, de certo modo, o conceito
universal que ela encerra.

Conforme a teoria de Aristóteles, para formar um conceito


universal, realizamos uma indução. A indução ocorre a partir
Lembre-se que você já estudou o
da observação de casos particulares, oferecendo-nos dados para
raciocínio indutivo na unidade 2. propormos uma inferência, uma conclusão, ampla e geral. Porém,
as observações particulares a que se referia Aristóteles não são as
meramente acidentais, mas sistemáticas, planejadas.

Para Aristóteles, o conhecimento vulgar dá origem a um


discurso repleto de falácias que parecem raciocínios verdadeiros,
mas que não o são.

Veja que sua Lógica é ampla, pois além de investigar


quando um raciocínio é válido ou não, também
estipula a indução (assim como a dedução) enquanto
procedimento científico básico, que auxilia na busca
pelos conceitos universais.
Para Aristóteles, a Lógica é fundamental no trabalho
de organizar e sistematizar a experiência. Ele confia
Retome a unidade da Lógica se tiver aos sentidos a captação das características das coisas
dúvida do que seja a indução, a no mundo físico e à razão, os procedimentos de
dedução, a falácia, etc. indução e dedução, capazes de nos aproximar dos
conceitos universais.

Ao investigar a realidade e os conceitos universais, Aristóteles


propôs modos para falar do que existe. Entre esses modos, está a
classificação do ser como ato ou potência.

118

filosofia_2008a.indb 118 3/6/2008 14:33:22


Filosofia

O ser, a coisa, em ato se refere àquilo que existe


agora e que se encontra plenamente realizado. O
ser, a coisa, em potência se refere àquilo que tem
condições de ser realizado, mas que ainda não está
realizado, efetivado, de fato.

Acompanhe um exemplo.

Uma semente de mostarda é pequenina em ato, agora


realizada, mas, em potência, esta semente representa
uma árvore formosa e enorme. A semente representa
o estágio atual deste ser, enquanto a árvore, o estágio
possível, futuro, o qual esta semente encontra-se
passível de atingir.

Veja outro exemplo, que aborda a mesma distinção do ser em ato


e em potência.

Acompanhe o seguinte diálogo entre uma criança,


comendo pêssego, e sua mãe.

- Mãe, de onde vem o pêssego?


- Ora, do pessegueiro meu filho.
- E de onde vem o pessegueiro?
- Do pêssego.
- Quer dizer que dentro de um pêssego tem um
pessegueiro?
- É meu filho, é isso.
- E como uma árvore tão grande pode caber dentro de
uma fruta tão pequena?
Neste momento a mãe, confusa, já não tinha certeza
sobre o que responder ao filho.
- Bem, é que dentro do pêssego tem uma semente
e dentro da semente uma massinha que pode se
transformar em pessegueiro. Satisfeito?

Unidade 4 119

filosofia_2008a.indb 119 3/6/2008 14:33:22


Universidade do Sul de Santa Catarina

-Que legal será que a massinha da semente do pêssego


que eu estou comendo pode se transformar em outra
coisa também? Quem sabe uma bicicleta?
- Não, não pode.
- Por que?
Considerando o que estudou sobre ato e potência, o
que você responderia à criança se estivesse no lugar
da mãe?

Aristóteles responderia que algumas coisas podem se


transformar em outras, mas porque elas já trazem em
si a condição dessa possibilidade. Ou seja, na grande
maioria dos seres e coisas há a possibilidade de que
ocorra uma passagem do que é em potência para
o que é em ato, mas tais seres e coisas não podem
se transformar em qualquer coisa. Obviamente,
esta semente de pessegueiro não poderia jamais
transforma-se em uma bicicleta, um pião, etc.

Bem, para que algo em potência, uma semente por exemplo, se


atualize, se realize, é necessária uma causa. Aristóteles afirma
que conhecemos uma coisa quando conhecemos, de fato, as suas
quatro causas.

Observe com atenção o desenho que segue, que ilustra as quatro


causas que fazem parte do que um ser é, do que uma semente,
por exemplo é. Este figura, especificamente, se refere a uma
estátua.

120

filosofia_2008a.indb 120 3/6/2008 14:33:22


Filosofia

Figura 4.9 – A estátua da vitória da Samotrácia e as 4 causas de Aristóteles


(VALVERDE, 1987b, p. 84)

Observe que Aristóteles estabeleceu quatro causas:

„ material;
„ formal;
„ eficiente;
„ final.

Unidade 4 121

filosofia_2008a.indb 121 3/6/2008 14:33:23


Universidade do Sul de Santa Catarina

Se conhecermos estas quatro causas, poderemos, então,


identificar, conhecer, um determinado ser - a semente da
mostarda, a semente do pêssego, por exemplo, e de que modo
ocorre a passagem de um estado atual para outro estado em ato
(tal como o caso da árvore).

A causa material se refere à matéria da qual a coisa é


feita, sobre a qual se aplica a forma, como o mármore
da estátua.

A causa formal é o que torna o ser exatamente aquilo


que ele é, são suas características essenciais, é o que
dá a forma à matéria, tal como a modelo da estátua.

A causa eficiente é a força externa que provoca a


transformação da causa material para atingir um fim,
como é o caso do escultor na figura da estátua.

A causa final nada mais é do que o objetivo, a


finalidade da transformação da potência em ato, que,
no caso da estátua, é ela ser exibida.

Veja assim que, para Aristóteles, o conhecimento também está


relacionado ao conhecimento das quatro causas, ou causas primeiras.

Saiba mais sobre as atividades de Aristóteles!


Aristóteles foi o mais brilhante
e reconhecido estudioso da
Academia de Platão, mas também
seu maior crítico, especialmente
da teoria das idéias de Platão.
Como físico e botânico que era,
Aristóteles valorizava muito as
ciências físicas e biológica e se
opôs à negação platônica do Figura 4.10 - Alexandre e Aristóteles
valor cognoscitivo da experiência (pt.wikipedia.org)
concreta.
A ciência botânica teve origem no mundo antigo greco-romano, e o
filósofo Aristóteles contribuiu muito para isso, por exemplo, criando a
anatomia comparada. Aristóteles realizou uma extensa obra sobre o
reino animal, que influenciou toda a percepção sobre o tema nos séculos
seguintes, fundamentando a classificação da natureza.

122

filosofia_2008a.indb 122 3/6/2008 14:33:23


Filosofia

Alexandre, o grande, rei da Macedônia, foi aluno de Aristóteles dos


treze aos dezesseis anos, aproximadamente, quando abandonou
a Filosofia para construir seu império. Conta-se que Alexandre, já
homem feito e com o império consolidado, em diversas situações
teria ordenado a seus súditos que colhessem diversos exemplares
de plantas em uma vasta extensão de terra para os estudos de
Aristóteles.

Aristóteles foi o último grande filósofo grego da tradição clássica.


Depois de sua morte, do declínio das cidades gregas e de sua
cultura, houve um período de incertezas que perdurou até o
surgimento do cristianismo. Com este sistema, perdurou um
período de profunda transformação na mentalidade do homem
ocidental.

Durante a Idade Média, sob a influência do pensamento cristão,


a cultura grega foi considerada pagã. Primeiramente, porque
os gregos eram politeístas (acreditavam em vários Deuses),
enquanto que para o cristianismo há um só Deus (monoteísmo);
depois, porque os gregos eram conhecidos pela sua curiosidade
e investigação racional, ou seja, quando se tratava de conhecer a
natureza, eram movidos pela dúvida, enquanto o cristianismo era
baseado na fé.

A separação entre fé e razão foi a questão da Teoria do


Conhecimento que prevaleceu no período medieval e
se tornou a mais conhecida.

Vale lembrar que questão semelhante ocorreu no início da


filosofia na Grécia Antiga: o poder explicativo do mito sobre
a natureza teve sua força atenuada enquanto se desenvolveu
a adoção de explicações oriundas da Filosofia. No período
medieval, porém, prevaleceu a perspectiva religiosa. Dois
dos principais pensadores cristãos foram Santo Agostinho e
São Tomás de Aquino, ambos se basearam na filosofia grega
para fundamentar as verdades da fé. O primeiro baseou-se no
pensamento de Platão e o segundo no pensamento de Aristóteles.

Unidade 4 123

filosofia_2008a.indb 123 3/6/2008 14:33:23


Universidade do Sul de Santa Catarina

Para saber mais sobre o pensamento na Idade Média,


consulte as seguintes referências:

• JEAUNEAU, Edouard. A filosofia medieval.


Portugal: Edições 70, 1963.

• VERGER, Jacques. As universidades na idade


média. São Paulo: Unesp, 1990.

• ANDERY, Maria Amália. et al. Para compreender


a ciência: uma perspectiva histórica. Rio de
Janeiro: Espaço e Tempo, 1998.

Síntese

Nesta unidade, você estudou algumas questões básicas da Teoria


do Conhecimento que percorreram os primeiros períodos da
Filosofia no Ocidente.

Estudou a descoberta da racionalidade e, neste sentido,


identificou os pré-socráticos como os primeiros filósofos,
que procuraram desenvolver uma explicação racional sobre a
realidade, considerando o universo em si mesmo, enquanto um
cosmo ordenado, independente das então vigentes explicações
mitológicas.

Ligada à descoberta da racionalidade, você estudou a


(i)mobilidade do universo e a tradição crítica da filosofia pré-
socrática. Parmênides e Heráclito admitem que é possível
conhecer, mas ambos ofereceram respostas distintas sobre a
(i)mobilidade do universo, de modo que o primeiro privilegiou
a impossibilidade de mudança e criticou as opiniões e os nosso
sentidos; enquanto o segundo defendeu a mudança contínua de
todas as coisas assim como elogiava o uso da razão.

124

filosofia_2008a.indb 124 3/6/2008 14:33:23


Filosofia

Sócrates buscava por conceitos universais, que fundamentassem


o conhecimento. Segundo Sócrates, portanto, não interessam
as opiniões que as pessoas têm a respeito das coisas particulares
e que estão baseadas na experiência concreta, mas as idéias
universais que são capazes de sintetizar a universalidade do
mundo concreto, de modo a evitar a opinião e a alcançar o
conhecimento verdadeiro sobre a realidade.

Platão e Aristóteles representam dois pólos originários da


discussão da Teoria do Conhecimento no pensamento ocidental:
Platão valorizava a perspectiva ideal como única via possível
para o conhecimento verdadeiro, representativa da exigência da
transcendência do mundo sensível e da aspiração de um mundo
puro de realidade ideal e racional.

Aristóteles defendia a perspectiva do concreto, da valorização do


sensível, porque no mundo sensível e na sua história o homem
pode experimentar os dados que lhe servem de guia para
desenvolver seu conhecimento, sistematizados pela lógica.

A questão que faz divergir os pensamentos de Platão e de


Aristóteles continua a ser discutida pela Filosofia, mesmo
depois de sua morte e, mesmo, depois do declínio das cidades
gregas e sua cultura, afinal, são questões clássicas, retomadas
continuamente até os dias atuais, como veremos na próxima
unidade.

Muitas outras questões poderiam ter sido abordadas, também


outros filósofos poderiam ter sido estudados. Porém, a palavra
escrita, mais do que a palavra falada, exige delimitações.
Esperamos que as escolhas que fizemos neste texto tenham
servido de base para você ter um conhecimento inicial sobre o
tema, e que este conhecimento, por sua vez, seja suficiente para
que busque, com seus próprios meios, mais informações sobre as
questões estudadas aqui.

Unidade 4 125

filosofia_2008a.indb 125 3/6/2008 14:33:23


Universidade do Sul de Santa Catarina

Atividades de auto-avaliação

1) Identifique a divergência entre o pensamento de Parmênides e de


Heráclito que deu origem a uma das principais questões da Teoria do
Conhecimento.

2) Caracterize, em poucas linhas, a questão do conhecimento de acordo


com os três principais filósofos gregos clássicos, considerando uma
linha de continuidade entre o pensamento destes filósofos.

3) Assista ao filme “O Nome da Rosa” e destaque aspectos da polêmica


entre a fé e a razão que dominou a Idade Média.

126

filosofia_2008a.indb 126 3/6/2008 14:33:23


Filosofia

Saiba mais

Você pode saber mais sobre o assunto estudado nesta unidade


consultando as seguintes referências:

„ ANDERY, Maria Amália. et al. Para compreender


a ciência: uma perspectiva histórica. Rio de Janeiro:
Espaço e Tempo, 1998.

„ BORNHEIM, Gerd (org.). Os filósofos pré-socráticos.


São Paulo: Cultrix, 1977.

„ FÉLIX, Loiva O.; GOETTEMS, Miriam B. (Orgs.)


Cultura grega clássica. Porto Alegre: UFRGS, 1989.

„ JEAUNEAU, Edouard. A filosofia medieval. Lisboa:


Edições 70, 1963.

„ ROBERT, Fernand. A literatura grega. [Universidade


hoje], São Paulo: Martins Fontes, 1987.

„ VALVERDE, José María. História do pensamento:


filosofia, ciência, religião, política. Vol. I, nº 6, São
Paulo: Nova Cultural, 1987a.

„ . História do pensamento: filosofia, ciência,


religião, política. Vol. I, nº 7, São Paulo: Nova Cultural,
1987b.

„ VERGER, Jacques. As universidades na idade média.


São Paulo: Unesp, 1990.

„ VERNANT, Jean-Peirre. As origens do pensamento


grego. São Paulo: DIFEL, 1984.

Unidade 4 127

filosofia_2008a.indb 127 3/6/2008 14:33:24


filosofia_2008a.indb 128 3/6/2008 14:33:24
5
UNIDADE 5

Questões do conhecimento
no pensamento moderno e
contemporâneo
Maria Juliani Nesi

Objetivos de aprendizagem
„ Identificar características da formação do pensamento
moderno e contemporâneo.

„ Conhecer as questões do conhecimento com que se


ocuparam os filósofos modernos Descartes, Hume e Kant.

„ Identificar a questão do conhecimento científico


contemporâneo, em função da ótica de Kuhn e
Feyerabend.

Seções de estudo
Seção 1 A redescoberta da racionalidade

Seção 2 Caminhos possíveis para o conhecimento

Seção 3 Questões da teoria do conhecimento na


contemporaneidade

filosofia_2008a.indb 129 3/6/2008 14:33:24


Universidade do Sul de Santa Catarina

Para início de estudo


Nesta unidade, você estudará, brevemente, a passagem do
pensamento antigo para o pensamento moderno e de que
modo as mudanças sociais, que compreendem a decadência
do feudalismo e o nascimento do capitalismo, interferiram no
pensamento dos filósofos daquela época.

Também estudará a ruptura que houve com o pensamento


medieval, as velhas formas de concepção do mundo e do homem
e a organização social e econômica baseada no feudalismo.
Compreenderá a passagem para o pensamento moderno através
do Renascimento, que significou o despertar da racionalidade no
Ocidente.

Estudará as principais características da Teoria do Conhecimento


na modernidade, pelo pensamento dos seguintes filósofos
modernos: Descartes, Hume e Kant, no que se refere às bases
modernas para o estudo contemporâneo do conhecimento
científico; e contemporâneos: Kuhn e Feyerabend, no que se
refere às questões da Ciência e aos limites da razão.

Seção 1 – A redescoberta da racionalidade


A tradição da Teoria do Conhecimento iniciada com os filósofos
gregos percorreu a história ocidental inspirando todos os períodos
subseqüentes.

A passagem do pensamento clássico grego para o pensamento


medieval foi marcada por uma controvertida ruptura que alterou
o modo dos homens entenderem a realidade. Por um lado, a
cultura grega incluía uma tradição racionalista e especulativa
no conhecimento da natureza, o que oferecia risco aos dogmas
cristãos. Os gregos cultuavam vários deuses, eram politeístas,
enquanto o cristianismo surgiu como culto monoteísta, isto
é, culto a um único Deus. Por outro lado, a cultura grega era
magnífica, mesmo aos olhos dos dogmáticos doutores da Igreja.

130

filosofia_2008a.indb 130 3/6/2008 14:33:24


Filosofia

Além do que, a dialética dos gregos, sobretudo a platônica,


serviu de poderoso meio de argumentação e fundamentação das
verdades da fé.

Inicialmente, grande parte dos filósofos cristãos da Idade Média se


ocuparam em conciliar fé e razão no conhecimento da natureza.

Há certo consenso entre os estudiosos de que os dogmas


religiosos exerceram uma influência profunda no pensamento
medieval. Sobretudo na primeira parte desse período, a
Escritura Sagrada representava uma das fontes mais confiáveis
de conhecimento.

A natureza era interpretada como uma escritura divina na qual


ciência, moral e realidade se fundiam. Mais do que conhecer e
dominar a natureza, a Ciência deveria ser um modo de ilustrar
a verdade teológica. Não deveria buscar a causa primeira
dos fenômenos, mas decifrar as mensagens divinas expressas
diretamente nos seres da natureza. O homem era considerado
uma criatura privilegiada que poderia ter a alma iluminada pela
verdade divina.

Os religiosos proibiam a investigação da natureza e a aplicação


livre desse conhecimento. Alguns aspectos deveriam continuar
velados aos homens para que não fosse apresentada nenhuma
contradição com as escrituras sagradas. Era o caso da Cosmologia
e da Anatomia, por exemplo.

Saiba mais sobre o período medieval


Poucos sabiam ler e escrever no período medieval,
e os homens letrados participavam do clero. Afinal,
a Igreja dominou os meios de educação e formação
intelectual desde o século IV, quando o imperador
romano Constantino reconheceu e deu liberdade ao
cristianismo, até, aproximadamente, o século XII -
quando todo panorama cultural, político e econômico
do Ocidente começou a mudar.

Unidade 5 131

filosofia_2008a.indb 131 3/6/2008 14:33:24


Universidade do Sul de Santa Catarina

Mas o pensamento medieval não consistiu unicamente na


obediência cega aos dogmas cristãos. A força do pensamento
humano, subordinada a estes dogmas por longa data, não
permaneceu inerte e ressurgiu a partir do que os historiadores
denominaram de Pré-renascimento do século XII.
Patrística refere-se a um núcleo
de estudos dos fundamentos e
Conforme Abbagnano (2000), quando os doutores da Igreja
doutrinas do Cristianismo que retomaram a dialética com a finalidade de fortalecer a fé,
perdurou do século II até o VIII. acabaram influenciando o próprio sistema dogmático, uma vez
Reunia doutores da Igreja cujo que reestruturaram o conteúdo dogmático dentro de um sistema
principal objetivo era fundamentar conceitual coerente.
racionalmente as verdades da fé,
conciliando fé e razão.
A dialética foi introduzida nos debates cristãos pela Patrística e,
mais tarde, foi revitalizada pela Escolástica.
Escolástica refere-se a um núcleo
de estudos cristãos que sucedeu a
Entre os séculos XII e XIII surgiram as primeiras
Patrística, perdurou do século IX universidades, praticamente dominadas pela Escolástica,
até, aproximadamente, o século que ensinavam as sete artes liberais: o trivium, que eram os
XVI e teve o mesmo objetivo da sua conhecimentos literários (Gramática, Retórica, Dialética) e o
antecessora: conciliar a Teologia quadrivium, que eram os conhecimentos científicos (Aritmética,
com a Filosofia e fundamentar as
verdades das escrituras sagradas.
Geometria, Astronomia, Música).
Uma marca da Escolástica é a
influência aristotélica.
Foi neste período,
também, que começaram
a ser traduzidas as
As sete artes liberais que obras gregas que
compreendem o trivium e o haviam sido proibidas
quadrivium constituem um durante quase toda
programa de educação criado a Idade Média, além
por Alcuíno de York, estudioso e das obras árabes sobre Figura 5.1 – Cavaleiros das
catedrático que viveu no século VIII. as ciências da natureza, Cruzadas e a disseminação de
que chegavam à Europa livros “restritos”
por meio dos navios (www.portalplanetasedna.com.ar)
mercantes ou por
cavaleiros que retornavam das cruzadas. Estes fatores,
juntamente com outros de ordem política e econômica,
como a decadência do feudalismo e o crescimento das
cidades, deram início a uma revolução cultural que
ficou conhecida como Renascimento.

De modo geral, o Renascimento foi um período histórico marcado


pelo desejo do homem de produzir conhecimentos e orientar
sua vida de forma autônoma, pela sua capacidade própria de
conhecer, superando o conhecimento mitológico cristão.

132

filosofia_2008a.indb 132 3/6/2008 14:33:24


Filosofia

Saiba mais sobre o


Renascimento
Com o Renascimento, o
conhecimento passou a
espelhar a autonomia do
homem para pesquisar
livremente a natureza.
Este era o foco de atenção
de diversos estudiosos
renascentistas, especialmente
dos anatomistas e astrônomos.
Durante a Idade Média, era Figura 5.2 - Andreas Vesalius e o
anatomismo
proibida a dissecação de corpos
(www.discoveriesinmedicine.com/
humanos, e médicos como General-Informa...)
Claudius Galeano exerciam a
clínica fazendo dissecações e
experimentos em animais. Ele
tratava o corpo humano como suporte da alma e sua obra
foi considerada definitiva para a prática da medicina durante
toda a Idade Média. No Renascimento, porém, cada vez mais
estudiosos, como o médico belga Andreas Vesalius, passaram
a efetuar seus estudos anatômicos diretamente em corpos
humanos e a apontar os erros de anatomistas anteriores.

Se você quiser saber mais sobre as mudanças ocorridas


no século XII, que culminaram no Renascimento Clássico
do século XIV, busque livremente na internet pelos termos
“Renascimento do século XII” e “Renascimento Clássico”.
Sobre este último, pesquise, também por “imagens” e você
encontrará uma série de obras de arte, inventos e personagens
interessantes deste período da história.
Também pode consultar o livro O Renascimento de Nicolau
Sevcenko. Este livro oferece uma leitura introdutória do
assunto e apresenta motivos políticos e econômicos que
favoreceram o Renascimento. Outro livro interessante sobre a
Idade Média é O pensamento medieval, de Inês C. Inácio e Tânia
Regina de Luca.
Sobre a questão cosmológica do Renascimento, busque
livremente na internet pelos termos: Galileu Galilei, Copérnico
e Ptolomeu.

Unidade 5 133

filosofia_2008a.indb 133 3/6/2008 14:33:24


Universidade do Sul de Santa Catarina

A preparação para a Modernidade


A Modernidade não foi fruto somente da transformação
intelectual ocorrida no Renascimento, mas, primeiramente,
das transformações econômicas e políticas que decorreram
daquele período.

Foram mudanças importantes como: a introdução de um


comércio basicamente monetário, que agilizava muito a
circulação de mercadorias e a acumulação de riquezas; a
descoberta de novas terras e as técnicas de navegação na corrida
para a apropriação dessas terras; e a invenção da prensa, que
favoreceu a publicação de documentos e livros.

Estes foram alguns fatores que exigiram e fomentaram um tipo


diferenciado de conhecimento que não era o conhecimento
Figura 5.3 – Esquema da Prensa
de Gutenberg religioso medieval nem o filosófico grego, seja porque o primeiro
(www.sabbatini.com) estava irremediavelmente submetido à censura dos dogmas,
o segundo, vinculado às especulações metafísicas e pouco
concretas para atender às exigências da nova ordem social.
O termo metafísica se refere àquilo
que está além da física, de nossa
realidade. Muitas das filosofias
Nas universidades medievais, centros produtores do
gregas antigas são denominadas conhecimento da época, o debate prevalecia sobre a
metafísicas por procurarem explicar experimentação. As diversas idéias e teorias eram apresentadas e
a realidade a partir de fundamentos as questões divergentes resolvidas, preferencialmente, por meio da
que são difíceis de serem explicados argumentação lógica.
a partir do que percebemos como
realidade.

Não havia demonstração empírica que não fosse para


ilustrar os tratados antigos, validados pela cristandade.
Além disso, os doutores que se envolviam nesses debates
apoiavam-se, além das escrituras sagradas, nas idéias de
Platão e Aristóteles, fundamentalmente naqueles aspectos
que não contrariassem as verdades reveladas.

Este tipo de prática intelectual não dava conta da “vida


real”, que exigia do homem moderno um conhecimento
aplicável e eficiente na invenção de tecnologias de
produção, no domínio e exploração da natureza, na
urbanização das cidades etc.

Francis Bacon, filósofo inglês do século XVI, foi um dos


principais defensores de uma nova ciência, baseada em
experimentações empíricas, que não estivesse presa aos dogmas
religiosos e nem aos enganos do senso comum.
134

filosofia_2008a.indb 134 3/6/2008 14:33:24


Filosofia

Bacon acreditava que o conhecimento dá ao homem poder


sobre a natureza. Neste sentido, a Ciência deveria servir para
o progresso e a expansão do império humano. Enquanto o
conhecimento dos gregos tinha um fim em si mesmo, ou seja,
era conhecer por conhecer, para a Modernidade o conhecimento
tinha um fim prático, de melhoramento das condições da vida
humana, de progresso.

Na sua obra, Novum Organum, Bacon propõe novas bases para


a Ciência. Critica a Filosofia grega e sugere como fonte do
conhecimento as informações objetivas, obtidas por meio da
experimentação. Diz ele (BACON apud VERGEZ, 1984):

Aqueles dentre os mortais, mais animados e interessados,


não no uso presente das descobertas já feitas, mas em ir
mais além; que estejam preocupados, não com a vitória
sobre os adversários por meio de argumentos, mas na
vitória sobre a natureza, pela ação; não em emitir opiniões
elegantes e prováveis, mas em conhecer a verdade de
forma clara e manifesta; esses, como verdadeiros filhos
da ciência, que se juntem a nós, para, deixando para trás
os vestíbulos da ciência, por tantos palmilhados sem
resultado, penetrarmos em seus recônditos domínios.
Ante-sala ou preparação
para a ciência. Aquela, para
Bacon, ainda não era a
ciência propriamente dita.
Como “previu” Bacon, na Modernidade nasceram as
principais ciências que conhecemos hoje, e as questões sobre o
conhecimento permaneceram sendo fundamentais para filósofos
e cientistas desta época tornando-se, inclusive, mais complexas.

De modo geral, a Teoria do Conhecimento, na Modernidade,


foi polarizada por três grandes vertentes que mantiveram vivo o
debate acerca da relação entre sujeito e objeto: o Racionalismo, o
Empirismo e o Criticismo.

As três vertentes guardam entre si semelhanças e diferenças.


Primeiramente, é preciso enfatizar que nenhuma delas nega a
atividade sensível, nem a atividade racional. Além disso, aquilo
que conhecemos não são as coisas mesmas, mas são nossas
representações subjetivas, idéias, das coisas.

No entanto, elas diferem no que se refere à passagem das


sensações para as idéias.

Unidade 5 135

filosofia_2008a.indb 135 3/6/2008 14:33:25


Universidade do Sul de Santa Catarina

Para o Racionalismo, a atividade cognoscente constitui e


organiza o mundo objetivo.

Para o Empirismo, a atividade cognoscente apreende a


constituição e a ordem do mundo objetivo, apreendido pelos
sentidos. Por fim, para o Criticismo, a atividade cognoscente é tal
que jamais poderemos conhecer as coisas mesmas, uma vez que
nossas estruturas e categorias mentais, que são inatas, que fazem
parte do modo humano de conhecer, sempre irão influenciar o
conhecimento das coisas.

Para o Empirismo, quando nascemos a mente é tal e qual uma


tábula rasa, o que significa dizer que nascemos com a mente vazia
e que somente com a experiência algo é escrito nela.

Idéias

Para o Racionalismo, a mente pode, de fato, alcançar as verdades


universais. E isto é possível porque, de algum modo, as idéias
universais podem ser desenvolvidas pelo pensamento racional.

136

filosofia_2008a.indb 136 3/6/2008 14:33:25


Filosofia

Para o Cristicismo, o conhecimento é a síntese do dado na nossa


sensibilidade e daquilo que o nosso entendimento produz por
si mesmo. Porém, o conhecimento nunca é o conhecimento
das coisas “em si”, mas de como elas se dão no sujeito, ou seja,
os objetos do conhecimento são determinados na natureza do
sujeito pensante. O criticismo não propõe uma posição cética,
mas crítica e, digamos, desconfiada, em relação ao conhecimento,
ou, como afirma Kant, o criticismo é o método filosófico que
consiste em investigar as fontes das afirmações e das objeções que
fazemos, bem como, as razões em que as mesmas se baseiam.

Unidade 5 137

filosofia_2008a.indb 137 3/6/2008 14:33:25


Universidade do Sul de Santa Catarina

Seção 2 – Caminhos possíveis para o conhecimento


Nesta seção você estudará, brevemente, alguns caminhos
possíveis sobre o conhecimento, desenvolvidos pelos modernos
René Descartes e sua perspectiva Racionalista, Hume e sua
ótica Empirista, Kant e a proposta Criticista. Também verá as
perspectivas dos filósofos contemporâneos Kuhn e Feyerabend.

Descartes e o Racionalismo
Uma das principais características do
pensamento moderno é a consideração do
sujeito racional como fundamento para
o conhecimento e o reconhecimento da
atividade cognoscente como o princípio
que constitui e ordena o mundo objetivo.

O filósofo René Descartes (1596-


1650), conhecido como fundador do
racionalismo moderno, considera que
Figura 5.4 – René Descartes
apesar da possibilidade inegável de se
(www.ime.unicamp.br/.../
descartes/descartes.html) obter informações dos corpos por meio
dos órgãos dos sentidos, a essência dos
corpos é acessível somente pela razão.

É o caso do conceito de extensão. Podemos definir um corpo


qualquer como uma coisa extensa. As características como
forma, cor, odor, textura, não servem para definir este corpo,
pois elas não permanecem nele. No entanto, a extensão sempre
permanece como seu atributo, visto que todo corpo a tem.

Veja o exemplo.

Considere um ramalhete de rosas brancas esquecido


sobre a mesa. Ao cabo de dez dias suas características
se alteraram, mas mesmo mudando a forma, a cor,
o cheiro etc., é possível continuar afirmando que
estamos diante de uma determinada extensão ou de
determinada quantidade de matéria orgânica vegetal.

138

filosofia_2008a.indb 138 3/6/2008 14:33:25


Filosofia

Alguma coisa se conservou. Se absolutamente nada se conservasse,


se tudo mudasse a todo o instante, o conhecimento seria impossível.

O que se conservou, no caso do ramalhete de flores, foi


justamente a extensão, visto que é um conceito e não uma
simples imagem.

Observe que o ramalhete de flores tem sua extensão alterada


a cada dia que passa, mas a extensão não desaparece. Pensa
Descartes que a extensão dos corpos não decorre da percepção
sensorial, mas somente pode ser captada pelo entendimento.

Os corpos materiais se transformam constantemente e os sentidos


captam destes justamente as características que não permanecem,
enquanto a razão capta as noções essenciais refletidas nas coisas
concretas. Para Descartes, a Matemática é considerada a base do
conhecimento científico porque esta “ciência precisa rigorosa” é a
que melhor nos apoiaria no conhecimento da natureza.

Para Descartes, ser humano é uma junção de:

„ um corpo (res extensa),


„ e uma alma (res cogitans).
O termo cogito significa
pensamento.
A res extensa refere-se à extensão do corpo e nisso os seres
humanos são como as coisas em geral. A res cogitans refere-se à
alma, que é a parte pensante do ser humano, diferindo, então, das
coisas e dos outros animais.

Este pensador defende que os dados obtidos


pelos sentidos são imprecisos demais para serem
tomados como base do conhecimento científico.
Já os conhecimentos obtidos pela via do raciocínio
lógico, sobretudo o matemático, são racionalmente
demonstráveis, precisos, universais e seguros para
sustentar a Ciência.

Os aspectos próprios dos objetos, como forma, textura, cor etc.,


são retirados diretamente dos objetos ou das ações humanas sobre
estes, mas eles não são suficientes para explicar as relações que
estabelecemos quando conhecemos. Os conceitos dos quais não

Unidade 5 139

filosofia_2008a.indb 139 3/6/2008 14:33:25


Universidade do Sul de Santa Catarina

temos referência sensível, como é o caso dos princípios da Física


e da Matemática, as idéias de extensão, infinitude, unidade,
número, espaço, tempo, causalidade etc., somente são alcançados
com a atividade racional.

Descartes iniciou sua investigação sobre o conhecimento


examinando se suas opiniões eram verdadeiras ou se eram
meras ilusões, partindo da identificação do erro, por meio da
radicalização da dúvida.

Qual é a origem do erro? Por que algumas pessoas


erram e outras acertam? Por que uma mesma pessoa
ora acerta, ora erra? Seria possível acertamos sempre?

Sim, responderia Descartes. Para tanto, precisamos reconhecer


que a fonte de nossos erros é a falta de um método perfeito e
definitivo, que nos conduza ao conhecimento verdadeiro e não
nos deixe sucumbir ao erro, pela precipitação e pela prevenção.

As pessoas erram porque se precipitam, não observam e não


refletem pausadamente sobre aquilo que desejam conhecer. Se
o fizessem, então, seriam capazes de encontrar os aspectos do
objeto que não comportam nenhuma dúvida, ou seja, poderiam
encontrar as evidências. A partir destas evidências, seria possível
conhecer o objeto, mas as pessoas costumam emitir juízos
superficiais e tirar conclusões aligeiradas acerca da realidade, e
assim, perdem-se dele.

Também as pessoas erram por prevenção, isto é, se apegam a


preconceitos e opiniões ingênuas e, antes mesmo de abordar
o objeto do conhecimento, acreditam saber algo sobre ele,
deixando, assim, de continuar investigando a realidade.

Porém, uma vez que seja aplicado corretamente o método


perfeito, é possível confiar na veracidade do conhecimento obtido
por meio dele.

Mas qual seria este método?

140

filosofia_2008a.indb 140 3/6/2008 14:33:25


Filosofia

O próprio Descartes responde:

[...] assim, em vez desse grande número de preceitos


de que se compõem a lógica, julguei que me
bastariam os quatro seguintes, desde que tomasse
a firme e constante resolução de não deixar uma
só vez de observá-los. O primeiro era o de jamais
acolher alguma coisa como verdadeira que não
conhecesse evidentemente como tal [...], e de nada
incluir em meus juízos que não se apresentasse tão
clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não
tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida. O
segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que
eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e
quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las. O
terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos,
começando pelos objetos mais simples e mais fáceis
de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por
degraus, até o conhecimento dos mais compostos,
[...] E o último, o de fazer em toda parte enumerações
tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a
certeza de nada omitir. (DESCARTES, 1973, p. 37).

Portanto, o método cartesiano consiste em estabelecer uma


evidência a partir da dúvida, realizar o exercício da análise e
da síntese assim como da enumeração/revisão. Estes são os
procedimentos que, segundo o filósofo, conduzem os homens ao
conhecimento seguro e científico.

Para Descartes, somente podem ser aceitas como verdadeiras


as proposições que se apresentarem à razão como indubitáveis.
Portanto, é necessário antes submeter todo conhecimento
à dúvida, exatamente para descartar o que não resiste a ela.
Observe que o primeiro passo do método cartesiano é a dúvida.

A dúvida cartesiana é a dúvida metódica, isto é,


utilizada como meio para testar o conhecimento e
separar o válido do inválido, o verdadeiro do falso.
É uma dúvida que coloca em cheque as sensações,
as opiniões e os pensamentos, a fim de encontrar
as evidências e não para negar a possibilidade do
conhecimento.

Unidade 5 141

filosofia_2008a.indb 141 3/6/2008 14:33:26


Universidade do Sul de Santa Catarina

Considere a seguinte situação, que lhe permite refletir sobre a


importância da dúvida para conhecermos.

Imagine que você e seus colegas de curso estão


conversando a respeito das aulas e o tema é a
relação entre o desempenho dos professores e a
aprendizagem dos alunos. O diálogo poderia ser mais
ou menos o que segue:

Aluno 1 – Quando o professor explica bem a matéria,


a gente não fica com dúvidas e consegue se sair bem na
prova. Quando o professor fica em dúvida, a gente não
confia no que ele está ensinando.
Aluno 2 – Mas tem professor que explica bem a matéria
e nem sempre responde às perguntas que a gente faz, às
vezes ele também não sabe a resposta. Assim, a gente
tem que perguntar para os colegas, pesquisar e tentar
responder sozinha.
Aluno 1 – Isso é muito chato, a gente pensa, pensa e fica
sem saber qual é a resposta certa. Ora, professor bom é
aquele que não deixa a gente com dúvidas.

Você pensa que a dúvida do aluno deve ser sempre


sanada e a dúvida do professor sempre ocultada?
Será que a ausência da dúvida é sempre sinal de
aprendizagem e de conhecimento? Registre aqui sua
perspectiva.

142

filosofia_2008a.indb 142 3/6/2008 14:33:26


Filosofia

O racionalismo cartesiano teve críticos de valor, como o filósofo


John Locke (1632-1704), considerado o maior representante do
empirismo inglês. Para Locke, o conhecimento é a percepção
da ligação, do acordo e do contraste entre a idéia e a coisa. Esta
conformidade entre idéia e coisa, para o Empirismo, somente é
possível por meio da experiência empírica.

Saiba um pouco mais sobre


o Empirismo, em função das
idéias de John Locke!
Para o Empirismo o objeto é, em
última análise, o que determina o
conhecimento, e por mais que nossa
mente seja habitada por idéias
diversas, nada existe na razão que
não tenha antes passado pelos
sentidos.
Figura 5.5 – John Locke
O Empirismo afirma que os seres (www.biografiasyvidas.com/)
humanos nascem com a mente vazia.
A partir das primeiras experiências
que temos é que surgem as primeiras idéias, que nada mais
são do que representações das coisas concretas, percebidas
através dos órgãos dos sentidos e acumuladas desde o
nascimento.
Segundo o filósofo empirista John Locke, a partir do contato
físico com os objetos a mente transforma os dados obtidos
em idéias simples. Por exemplo, você vê um livro sobre a
mesa, fecha os olhos e percebe que guardou uma imagem
mental idêntica do que viu. Bem, estas idéias simples
vão sendo combinadas pela própria atividade racional e
vão formando outras idéias que são denominadas idéias
complexas. Assim é sucessivamente até que se possa chegar
a idéias com alto grau de complexidade lógica. Mas, por fim,
tudo o que habita a mente humana, de alguma forma, tem
sua origem na experiência concreta.

Unidade 5 143

filosofia_2008a.indb 143 3/6/2008 14:33:26


Universidade do Sul de Santa Catarina

Hume e o Empirismo
Outro conhecido empirista é David Hume (1711-1776). Para este
filósofo, a fonte do conhecimento é a percepção e a associação
mental das idéias que dela decorrem.

Mas você sabe o que é percepção?

Figura 5.6 – David Hume


(www.empiricism.com) As percepções são ocorrências mentais e podem ser de duas
classes, que se diferenciam entre si pelo grau de vivacidade com
que se apresentam ao sujeito do conhecimento. São elas:

„ as impressões ou sensações; e
„ as idéias.

As impressões são consideradas mais vivas e imediatas, pois


penetram com mais força e evidência na consciência. Por exemplo:

Quando vamos à sauna, sentimos em nosso corpo o


calor do vapor e o choque térmico da ducha fria, estas
são sensações externas.
Mas também é possível ter sensações internas, como
um sentimento de ciúmes, que se for forte pode ser
avassalador para o corpo e o pensamento.

Estas são impressões ou sensações que se dão ao sujeito sem


que ele pense nelas, elas não obedecem a qualquer lógica e toda
conclusão que decorre delas são suposições, probabilidades.

Já as idéias nada mais são do que cópias das impressões. As


idéias são consideradas as percepções mais fracas da mente.

144

filosofia_2008a.indb 144 3/6/2008 14:33:26


Filosofia

Retomando o exemplo anterior:

Estando na sauna, podemos lembrar das sensações


que esta nos causou quando estávamos em casa,
podemos antecipá-las pela imaginação, ou podemos
até explicar a sauna como um fenômeno físico-
químico, porém, estas lembranças ou representações
mentais jamais terão a força da sensação original, do
fenômeno vivenciado.
O mesmo ocorre quando lemos um poema de amor
e traição e nos lembramos do sentimento de ciúmes,
não é possível dimensionar a diferença de intensidade
que há entre um e outro.

Preste atenção nas seguintes palavras de Hume.

À primeira vista, nada parece mais ilimitado do que


o pensamento humano [...] examinando o assunto
mais de perto vemos que em realidade ele se acha
encerrado dentro de limites muito estreitos e que o
poder criador da mente se reduz à simples faculdade
de combinar, transpor, aumentar ou diminuir os
materiais fornecidos pelos sentidos e pela experiência
[...] Em resumo, todos os materiais do pensamento
derivam da sensação interna ou externa; só a mistura
e composição destas dependem da mente e da
vontade. (HUME, 1992, p.70).

Para Hume, toda a nossa atividade mental consiste em fazer


associações de percepções derivadas da experiência. A mente
parte de idéias simples, oriundas das impressões sensíveis, e,
por meio de operações associativas, dá origem a outras idéias
complexas.

A possibilidade de combinações de idéias é tão grande que


pode nos levar a crer que algumas idéias nada têm a ver com a
experiência concreta. De fato, há idéias obtidas pela aplicação
do raciocínio, pelas construções das relações lógicas que não
necessitam de experiência prévia e não podem ser verificadas no
mundo concreto. É o caso da Lógica e da Matemática.

Unidade 5 145

filosofia_2008a.indb 145 3/6/2008 14:33:26


Universidade do Sul de Santa Catarina

Os verdadeiros objetos de conhecimento da razão não são aquilo


que percebemos, mas as relações entre as coisas que percebemos.
Elas se dividem em:

„ relações de idéias; e
„ relações ou questões de fato.

Estas relações ou associações não são aleatórias, mas seguem


alguns princípios universais de associação.

As primeiras, as relações de idéias, englobam as proposições


cujas relações acontecem unicamente entre idéias, sem existirem
de fato na natureza (são números, formas geométricas, fórmulas
matemáticas etc.).

Estas relações seguem princípios de:

„ semelhança,
„ contrariedade,
„ graus de qualidade e
„ quantidade ou número.

É possível realizar longos raciocínios a partir delas sem se


alterarem, porque não dependem dos fenômenos concretos. São
proposições consideradas certas por demonstração lógica e por
intuição, independentemente do nível de complexidade a que
são levadas, conservam sempre sua exatidão, produzindo um
conhecimento universal e logicamente necessário, e, por isso
mesmo, não podem ser obtidas por meio de experiência concreta,
já que toda experiência é particular. Portanto, estas relações entre
idéias não tratam do conteúdo do mundo.

As segundas, relações ou questões de fato, englobam as relações


que descrevem os acontecimentos concretos, e estas não estão
sujeitas às regras lógicas, apenas se revelam, da forma como são
percebidas, no momento da experiência vivida. Estas relações
seguem princípios de semelhança, contigüidade (no tempo e no
Que está próximo, é adjacente, que espaço) e causa e efeito.
avizinha.

146

filosofia_2008a.indb 146 3/6/2008 14:33:26


Filosofia

O princípio da semelhança faz com que, ao vermos um objeto,


imediatamente nos remetamos a outro que lhe é semelhante. Por
exemplo, quando um caipira na cidade grande visita um jardim
botânico e lembra de seu sítio, ou quando o vinho derramado na
camisa lembra ao médico uma mancha de sangue.

O princípio de contigüidade faz com que, ao vermos um objeto,


automaticamente venha à mente outro objeto que lhe é contíguo.
Por exemplo, quando vemos alguém se ferir gravemente logo
imaginamos a dor que deve estar sentindo, ou então, quando
visitamos um apartamento de um prédio logo imaginamos os
outros apartamentos.

O princípio de causa e efeito nos leva a relacionar o que antecede


e o que sucede um objeto observado. Por exemplo, quando um
médico legista investiga a causa da morte de alguém, analisa o
ferimento e imagina que instrumento pode tê-lo causado, ou,
quando alguém nos diz que derramou água fervente sobre a mão e
imediatamente supomos que deve ter ocorrido uma queimadura.

No entanto, a relação de causa e efeito que o homem


julga perceber na natureza é fruto da indução, que
não garante a permanência das coisas. Para Hume,
a causalidade somente existe no pensamento e é
decorrente do hábito. Nada existe na experiência
concreta que garanta esta relação. Hume chama
atenção para os equívocos que o hábito pode produzir.

O fato de um fenômeno acontecer muitas vezes faz com que o


homem se acostume com ele e passe a esperar que ele se repita;
assim, se cria o hábito. Todas as vezes que uma pedra é jogada
para cima, ela cai, o homem já se acostumou a ver esse fenômeno
em toda sua vida, mas disto não decorre que este fenômeno
ocorrerá sempre. Pode ser, quem sabe, que um dia ela não caia.
Podemos supor, por exemplo, que daqui a algumas centenas
ou milhares de anos, as condições atmosféricas mudem e a
Lei da Gravidade seja negada. A certeza no que é observado
é conseqüência de nosso treinamento, desde a infância, em
decifrar e classificar as mensagens do meio ambiente, para nossa
adaptação e sobrevivência neste meio.

Unidade 5 147

filosofia_2008a.indb 147 3/6/2008 14:33:26


Universidade do Sul de Santa Catarina

Avisa Hume que o hábito pode nos levar a conclusões


precipitadas sobre as coisas e suas relações.

Se todo conhecimento se origina das percepções, algumas de


impressões sensíveis e particulares e que não servem como
referência universal e outras de idéias complexas que não
derivam da experiência concreta, então o conhecimento humano
não é certo, mas apenas provável. Para Hume, certo seria se
admitíssemos que, realmente, não conhecemos nada.

Observe que Hume nos apresenta uma crítica ao método


indutivo. Ele afirma que não é possível justificar nenhuma das
verdades obtidas por indução. O fato do homem presenciar
fenômenos que se repetem não significa que ele pode inferir que
os fenômenos sempre acorrerão da mesma maneira. Pela indução
a partir de ocorrências particulares não é possível fazer juízos
universais, visto que não é possível experimentar o universal,
apenas o particular e específico.

Reflita!
Pense no seu conhecimento sobre as cores.
Certamente você conhece diversas cores e em
diversos matizes. Imagine que entre tantas cores
que você conhece não está o vermelho; ou seja,
hipoteticamente falando, você simplesmente nunca
viu o vermelho.
Agora imagine que lhe fosse apresentada uma escala
de diversos matizes de vermelho, do mais fraco para o
mais forte, porém, faltando um dos matizes.
O que vai ocorrer é uma distancia maior entre aqueles
dois matizes contíguos em que falta um mais do que
entre os outros matizes da escala.
Responda:
Você pensa que, mesmo sem conhecer a cor vermelha,
seria possível identificar a falta de um matiz na escala
de vermelho? Justifique sua resposta.

148

filosofia_2008a.indb 148 3/6/2008 14:33:26


Filosofia

Segundo Hume sim, visto que a mente humana é capaz de


identificar a descontinuidade e tentar, idealmente, suprir a
falta percebida.

Kant e o Criticismo
Immanuel Kant (1724-1804) é
conhecido como um dos mais rigorosos
filósofos de todos os tempos. No que
se refere à Teoria do Conhecimento,
pode-se dizer que a sua filosofia
ao mesmo tempo em que critica as
teorias anteriores (Empirismo inglês
e Racionalismo cartesiano), de certa
forma, aglutina os seus aspectos mais
Figura 5.7 - Immanuel Kant importantes.
(www.fredsakademiet.dk)
Kant, ao contrário do Empirismo,
considera a existência de idéias a priori,
ou seja, antes da experiência.

De modo diferente do Racionalismo de Descartes, nega que possa


haver conhecimentos seguros que tenham origem na metafísica,
no plano divino, em Deus – pois afirma que desses assuntos não
podem haver provas, de modo que tudo pode ser afirmado.

Unidade 5 149

filosofia_2008a.indb 149 3/6/2008 14:33:27


Universidade do Sul de Santa Catarina

Considera que o fenômeno vivenciado é fonte necessária de


conhecimento, ao contrário do Racionalismo, mas não que seja a
única fonte, ao contrário do Empirismo.

Segundo Kant, o conhecimento inclui o mundo físico


percebido sensivelmente e as faculdades mentais do
sujeito cognoscente, no contexto de uma experiência.

A experiência é o momento em que o sujeito atinge


sensivelmente o objeto e intui a sua existência. Ela é fundamental
para o conhecimento, nutre o entendimento e provoca a
imaginação e as operações mentais do sujeito. De modo geral, o
conhecimento começa com a experiência.

No entanto, não se tem certeza da existência do mundo,


exatamente como ele é, visto que a experiência não nos permite
conhecê-lo, em si. Tudo o que chega do mundo físico ao sujeito
é o que consegue passar pelos seus sentidos e suas faculdades
cognitivas. Aqui está uma questão que interessa a Kant.

Ele está menos interessado na constituição da realidade do


mundo físico do que nas operações mentais e faculdades do
conhecimento do sujeito que conhece.

A participação do sujeito é fundamental no processo do


conhecimento, visto que as categorias de análise da realidade,
pelas quais ela se torna conhecida, estão no sujeito, são forjadas
em sua mente, que é abastecida pelo mundo percebido através dos
sentidos. O meio pelo qual o mundo é percebido, as ferramentas
de organização da experiência externa e interna são, para Kant,
puras, a priori, e é a elas que ele se dedica especialmente.

Ele identifica quatro faculdades do sujeito, pelas quais é


possível produzir o conhecimento. São elas:

„ sensibilidade/intuição,
„ imaginação,
„ entendimento e
„ razão.

150

filosofia_2008a.indb 150 3/6/2008 14:33:27


Filosofia

Segundo Kant, a sensibilização é a capacidade de obter


representações a partir do modo diverso como o objeto nos afeta. E
a sensação é justamente o efeito que o objeto produz sobre os órgãos
dos sentidos e sobre a capacidade de representação do sujeito. Isto
significa que a experiência com o objeto exige condições a priori
de sensibilização, capacidade de representação imediata do sujeito.
Neste sentido, Kant afirma que os objetos aparecem para nós em
função de como estes afetam nossos sentidos.

Kant chama de intuição o modo como o


conhecimento se refere imediatamente ao objeto.

A imaginação é entendida como uma faculdade intermediária


entre a sensibilização e o entendimento e se refere à capacidade
de representar o objeto mesmo quando ele não está presente. É a
capacidade de representação de um objeto intuído, mediante um
conceito, o que significa que, pela imaginação, é possível fazer
uma síntese da multiplicidade das coisas percebidas, ou dadas
Conforme Morente (1970,
pela intuição. p. 229), conceito para
Kant é uma unidade
O entendimento é o que opera as categorias e princípios a priori, mental dentro da qual
que vão permitir realizar a síntese do múltiplo experimentado estão compreendidos um
em conceitos universais. É ele que dá unidade ao trabalho das número indefinido de
faculdades anteriormente citadas. seres e de coisas. Portanto,
é universal e não pode ser
Finalmente, a razão é faculdade que, por natureza, em nada se atingido pela sensação
que somente nos mostra
refere à experiência, mas ao próprio processo do entendimento. a multiplicidade de coisas.
A razão faz, praticamente, a mesma tarefa do entendimento, Por exemplo, os diversos
mas não lida com as representações intuídas e a organização de homens concretos e o
conceitos. A razão lida antes com as regras que dão unidade a conceito único de homem.
estas representações e aos conceitos. É a razão que dá unidade às
regras do entendimento. Por meio de sínteses internas, a razão
pode chegar aos seus próprios princípios, que são idéias puras.

Para Kant, o conhecimento produzido sobre o mundo interno


e externo é expresso pelo sujeito que conhece, por meio de
juízos (que você pode entender aqui como proposições, tal como
estudou na unidade 2). Os juízos são frases formadas por um
sujeito do qual se declara algo e por um predicado que é aquilo
que se diz do sujeito.

Unidade 5 151

filosofia_2008a.indb 151 3/6/2008 14:33:27


Universidade do Sul de Santa Catarina

Segundo Kant, estes juízos podem ser:

„ analíticos ou
„ sintéticos.

Os juízos analíticos não dependem da experiência, estão


ligados aos conceitos e são juízos a priori. Neste caso, o
predicado já está contido no sujeito, ou seja, basta saber quem
é o sujeito para saber, antes de qualquer experiência, o predicado
que se aplica a ele.

Veja o exemplo:

Quando pronuncio a frase: “Nos dias em que neva faz frio”,


o predicado, que é o “faz frio”, já está contido em “Nos
dias em que neva”, que é sujeito da oração. Observe que o
atributo “frio” já está contido, implícito, no conceito “neve”.

Portanto, os juízos analíticos a priori não acrescentam nada de


novo ao conhecimento.

Os juízos sintéticos, pelo contrário, necessitam das


informações intuídas pela sensação para juntá-las, sintetizá-
las. São juízos a posteriori. Eles acrescentam ao sujeito da
oração um predicado novo, que lhe acrescenta uma qualidade,
não incluída no sujeito. Retomando o exemplo anterior para
transformá-lo em um juízo sintético a posteriori, ficaria assim:

“Nos dias em que neva é preciso usar agasalhos”. Neste


caso, o predicado não está previamente dito no sujeito,
pois se não houver a experiência de sentir frio em dias de
neve não é possível afirmar aquele predicado.

Há, também, os juízos sintéticos a priori. Ocorrem porque


os juízos sintéticos que dependem da experiência, que são
a posteriori (como foi explicado no parágrafo anterior), são
universalizados e tomados como leis da natureza. Kant considera

152

filosofia_2008a.indb 152 3/6/2008 14:33:27


Filosofia

que os juízos sintéticos a priori, apesar de ligados aos conceitos e às


sensações não estão limitados à experiência, por isso são universais
e necessários. Estes são os juízos mais adequados às proposições
científicas. Pode-se dizer que, com estes juízos, Kant junta razão e
experiência.

Saiba mais sobre os juízos kantianos!

Em todo juízo analítico o predicado é tal que este “pertence” ao


sujeito, está contido no sujeito em função da própria constituição do
sujeito. Ex. Todo ser humano é mortal. Veja que o predicado ‘mortal’ faz
parte do sujeito ‘ser humano’. Outro ex. Todo triângulo tem três lados.
Veja que no sujeito ‘triângulo’ já está presente a idéia do que é dito no
predicado ‘ter três ângulos’. Neste tipo de juízo, podemos reconhecer
a verdade ou falsidade do juízo independentemente da experiência
e fundamentalmente a partir da análise do próprio juízo. Todo juízo
analítico é considerado uma tautologia porque, de certo modo, repete no
predicado o que já foi dito no sujeito. Neste sentido, todo juízo analítico é
considerado sempre verdadeiro, necessário e universal. Contudo, eles não
nos proporcionam um conhecimento ‘novo’ sobre a realidade.

Os juízos analíticos são ditos a priori porque sua verdade ou falsidade


independem de experiência.

Nos juízos sintéticos o predicado é tal que não “pertence” ao sujeito, isto
é, o predicado não está contido no sujeito. Porém, o predicado pode ser
dito sobre o sujeito, isto é, podemos atribuir tal predicado ao sujeito. Veja
um exemplo: Sócrates está sentado. Veja que o predicado ‘sentado’ não
faz parte da constituição do sujeito ‘Sócrates’, mas é algo que podemos
expressar sobre a condição do sujeito. Este é um juízo sintético a
posteriori porque a verdade deste juízo depende de certa ‘experiência’,
depende da nossa experiência para podermos dizer se ele é verdadeiro
ou falso. Observe o caráter cambiante de veracidade deste juízo, da
possibilidade, pois uma hora Sócrates pode estar sentado e em outra não.

Nos juízos sintéticos a priori propomos um conhecimento


independentemente da nossa experiência, atribuindo um predicado que
não está dito no próprio sujeito. Estes juízos também expressam algo
necessariamente verdadeiro ou necessariamente falso. Veja um ex. “a
linha reta é a distância mais curta entre dois pontos”. Neste tipo de juízo o
sujeito (reta) e o predicado (pontos) se referem a duas entidades distintas,
o predicado não está contido no conceito do sujeito, mas podemos ‘intuir’
esta lei de modo racional, independentemente da experiência. Este juízo
sintético a priori, acima, expressa uma lei (matemática), verdadeira em todas
as localidades, lugares e épocas, independentemente da experiência de
alguém.

Unidade 5 153

filosofia_2008a.indb 153 3/6/2008 14:33:27


Universidade do Sul de Santa Catarina

A Filosofia de Kant influenciou a ciência moderna até os dias


atuais, pela sua crítica às teorias do conhecimento anteriores, que
polarizaram a discussão moderna sobre o conhecimento, pela sua
própria explicação de como ocorre o conhecimento e pelo brilho
e pela genialidade da lógica interna de seu pensamento.

Seção 3 - Questões da Teoria do Conhecimento na


Contemporaneidade
Descartes, em sua época, e não se pode esquecer que era uma
época de crença no poder da razão, estava preocupado em
construir um método assentado na Matemática, que garantisse
um conhecimento verdadeiro. Hume, por seu lado, estava
preocupado em frear a confiança na razão como fonte única de
conhecimento, questionando a relevância do método dedutivo e
do conhecimento puramente abstrato, questionando, também, a
possibilidade do conhecimento das coisas em si e apontando as
falhas da aplicação do método indutivo.

Estas duas teorias protagonizaram uma questão


primordial para o conhecimento científico
contemporâneo, não tanto pelo seu aspecto teórico,
é claro, mas pelo abalo que elas provocam, ainda
hoje, na confiabilidade que o homem adquiriu no
conhecimento científico.

É preciso lembrar, porém, de uma outra corrente de pensamento,


que buscou sintetizar o empirismo e o racionalismo e estabelecer
a Ciência como um conhecimento positivo sobre a natureza e
definitivo quanto a sua validade. Esta corrente é o Positivismo.

154

filosofia_2008a.indb 154 3/6/2008 14:33:27


Filosofia

Saiba mais sobre o Positivismo

O Positivismo, sistema proposto pelo filósofo Augusto Comte,


propõe levar em consideração tanto a experiência empírica
do mundo físico quanto as formulações lógicas puramente
racionais. Para o Positivismo, a ciência é, entre tantos tipos de
conhecimento desenvolvidos pelo homem, o único conhecimento
universalmente válido.

Neste sistema, acreditava-se ser possível “evoluir” no conhecimento


científico, de modo progressivo e linear.

Entre as principais características do conhecimento científico, de


acordo com o Positivismo, estão a objetividade, a neutralidade
e o progresso - aspectos já abordados quando foram tratados os
tipos de conhecimento, na terceira unidade deste livro.

É interessante salientar que estas características aqui citadas estão


entre as mais criticadas pelos teóricos contemporâneos da Ciência.

Para saber mais sobre o Positivismo, você pode


procurar livremente na internet pelos verbetes:
Positivismo, Augusto Comte, Sociologia. Você também
pode fazer uma busca mais apurada, nos sites
especializados indicados ao final desta unidade.

É inegável que a partir do século XIX o conhecimento científico


tenha se consolidado e determinado significativamente a caminhada
da humanidade. As possibilidades que a Ciência oferece para a
explicação dos fenômenos da natureza, de interferência na ordem dos
acontecimentos naturais e de modificação das maneiras de viver não
têm precedentes.

No entanto, desenvolveu-se juntamente com as descobertas


científicas e as invenções tecnológicas a complexidade das questões
do conhecimento.

Unidade 5 155

filosofia_2008a.indb 155 3/6/2008 14:33:27


Universidade do Sul de Santa Catarina

Assim, surgiram questões como:

Quais são as possibilidades do conhecimento


científico para o homem contemporâneo? Quais
são as conseqüências das descobertas e invenções
científicas para a vida humana e para o meio
ambiente? É possível confiar na objetividade e na
veracidade do conhecimento científico, assim como
defendiam grande parte dos pensadores modernos?

A confiança que a modernidade depositou no conhecimento


científico não permaneceu igual para os cientistas e filósofos
contemporâneos. Os avanços científicos e o impacto destes na
vida humana originaram uma série de indagações quanto aos
procedimentos e a veracidade do conhecimento científico.

Muitos filósofos contemporâneos dedicam-se exclusivamente ao


estudo do conhecimento científico, em outros casos, cientistas,
refletindo sobre seu próprio trabalho, tornam-se teóricos do
conhecimento.

Thomas Kuhn e o paradigma


Um dos mais importantes filósofos da Ciência é o contemporâneo
Thomas Kuhn (1922- 1996). Na realidade, ele é um físico de
formação, ou seja, um cientista. Porém, por uma contingência
de seu trabalho na Universidade, especificamente numa situação
em que teve que preparar um curso de ciências para não
cientistas, Kuhn precisou rever o conhecimento científico em
uma perspectiva história e aproximou-se irremediavelmente da
Figura 5.8 - Thomas Kuhn Filosofia. Foi por este caminho que alcançou notoriedade.
(huizen.daxis.nl/~henkt/kuhn-
thomas-biography.html)
As idéias mais divulgadas de Kuhn acerca da Ciência são a
noção de ciência normal, ciência revolucionária ou revolução
científica e paradigma.

Segundo Kuhn, o desenvolvimento do conhecimento


científico ocorre pela alternância da ciência normal e da
ciência revolucionária. É a idéia de que a Ciência não progride

156

filosofia_2008a.indb 156 3/6/2008 14:33:27


Filosofia

gradualmente de forma linear - como se afirmava e defendia no


Positivismo -, mas através de saltos qualitativos provocados
pelas mudanças de paradigma.

Você sabe o que é um paradigma?

Segundo o autor, o paradigma é um conjunto de princípios,


postulados e metodologias que regem todas as pesquisas de uma
determinada disciplina científica. Um paradigma cientifico é
partilhado pela comunidade científica e representa uma matriz
a partir da qual cada cientista, em sua especialidade, desenvolve
suas pesquisas.

É importante salientar que uma comunidade científica é um


grupo de cientistas de uma determinada área, entre os quais
há o controle do conhecimento produzido e das informações
veiculadas no grupo, que partilham da mesma formação teórica,
dos mesmos juízos profissionais e dos mesmos paradigmas.
Observe que o paradigma acaba direcionando as pesquisas e
apontando sua perspectiva de desenvolvimento e seus limites.

Um paradigma também pode surgir de um conjunto de


realizações científicas concretas, incorporado pela tradição
científica e tornado modelo para outras pesquisas.

O período em que um paradigma é unanimemente aceito pela


comunidade científica é denominado, por Kuhn, de ciência
normal. Nesse período, os cientistas não estão preocupados em
comprovar o paradigma ou em estudar aspectos que fogem a
ele. É um período de aprofundamento no objeto da pesquisa
e que permite a consolidação de resultados e a acumulação de
conhecimentos, não é um período de alteração das “regras do jogo”.

Mesmo que no entendimento de um cientista ou de outro


pairem desconfianças sobre o paradigma que rege suas pesquisas,
raramente um deles suscitará um ponto de desacordo entre
eles. Se não houvesse períodos de estabilidade quanto aos
paradigmas, não seria possível estudar profundamente nenhum
aspecto da realidade.

Unidade 5 157

filosofia_2008a.indb 157 3/6/2008 14:33:28


Universidade do Sul de Santa Catarina

No entanto, pode ser que no desenvolvimento da ciência normal


comecem a aparecer incongruências. Como afirma Kuhn
Ou seja, inconveniências, (2006), para o cientista normal pode ocorrer um problema que
incompatibilidades etc. investiga não só não tem solução, em função do âmbito das regras
em vigor, como o mesmo não pode, por isto ser qualificado de
inepto ou despreparado.

Se essa situação estender-se ao âmbito de outras pesquisas,


sem que os cientistas consigam encontrar soluções para os
impasses, começa a nascer a suspeita de que o paradigma deve
ser substituído, começa um período de crise. Muitas vezes,
as incongruências encontradas nas pesquisas dão origem a
descobertas que promovem o avanço científico, porém, sem que
os paradigmas instituídos sejam alterados.

Os avanços que ocorrem pela mudança de paradigma são de


outra natureza. Observe a citação que segue.

As mudanças revolucionárias são diferentes e bem


mais problemáticas. Elas envolvem descobertas que
não podem ser acomodadas nos limites dos conceitos
que estavam em uso antes delas terem sido feitas. A
fim de fazer ou assimilar uma tal descoberta, deve-
se alterar o modo como se pensa, e se descreve,
algum conjunto de fenômenos naturais [...] Quando
mudanças referenciais desse tipo acompanham
mudanças de lei ou teoria, o desenvolvimento
científico não pode ser inteiramente cumulativo. Não
se pode passar do velho ao novo simplesmente por
um acréscimo ao que já era conhecido. Nem se pode
descrever inteiramente o novo no vocabulário do
velho ou vice-versa. (Kuhn, 2006, p. 25).

Em condições de mudança de paradigma ocorre o que Kuhn chama


de ciência revolucionária. Todos os cientistas que trabalham
sob a luz de um mesmo princípio paradigmático que está sendo
substituído param suas pesquisas e aguardam ou verificam em sua
prática os indícios que invalidem o paradigma em questão.

É necessário um grande esforço para alterar um paradigma,


visto que, apesar dele resolver incongruências aparentemente
insolúveis no interior das pesquisas, também exige a revisão dos

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Filosofia

conhecimentos aceitos como válidos e que foram produzidos sob


a proteção do paradigma que está sendo substituído. Além disso,
o novo paradigma sempre afronta, de alguma maneira, a tradição
e a autoridade de cientistas consagrados dentro da comunidade
científica e defensores do velho paradigma.

Finalizando, segundo Kuhn, cada disciplina científica, em períodos


de “normalidade”, resolve seus próprios problemas dentro de uma
estrutura fechada, pré-estabelecida por pressupostos metodológicos,
convenções lingüísticas e experimentos exemplares acolhidos e
validados pela comunidade científica, até que os cientistas se
deparam com a impossibilidade de resolver um número sempre
maior de problemas na base do paradigma vigente. O acúmulo e
disseminação de problemas não resolvidos criam, por sua vez, uma
situação de crise de onde deve nascer um novo paradigma.

Atenção!
Apesar de Kuhn criticar a crença na acumulação e
no progresso gradativo e natural do conhecimento
científico, ele não nega que a Ciência produz um
conhecimento cumulativo - nos momentos de ciência
normal. Também não nega que os paradigmas, ainda
que provisórios, fundam princípios que, se seguidos,
permitem o desenvolvimento de pesquisas e o
conhecimento da natureza.

Paul Karl Feyerabend e o anarquismo epistemológico


Um dos filósofos contemporâneos mais
críticos em relação à objetividade científica
e à veracidade do conhecimento produzido
pelo método científico é Paul Karl
Feyerabend (1924-1994). Ele é considerado
um crítico radical do positivismo científico,
entre outros motivos, pelo seu anarquismo
epistemológico, por recomendar ao cientista
Figura 5.9 - Paul Karl
Feyerabend um posicionamento anárquico em relação
(www.courses.ex.ac.uk) à rigidez das regras, dos postulados, dos
paradigmas e da tradição científica.

Unidade 5 159

filosofia_2008a.indb 159 3/6/2008 14:33:28


Universidade do Sul de Santa Catarina

Feyerabend acredita que em várias situações da história da


Ciência, em que foram feitas grandes descobertas e invenções,
as regras científicas não foram respeitadas e somente por isto os
cientistas obtiveram êxito. Ele afirma, também, que o cientista
não deve ficar preso entre os limites do método científico, mas
deve utilizar artifícios de qualquer natureza para desenvolver sua
pesquisa e alcançar seu propósito. Segundo ele “todas as idéias
valem”. Também não há regras, ou melhor, a única regra que o
cientista deve seguir, segundo este autor, é que não há regras, pelo
menos não no sentido universal e positivista de método científico.

Um dos livros mais conhecidos de Feyerabend é Contra o método.


Nele, o filósofo expõe suas razões para criticar a submissão
do cientista aos preceitos científicos que são prévios, não
acompanham a dinâmica social, direcionam e restringem a
atividade científica, de certa forma, desumanizam-na.

Para saber mais sobre o conhecimento científico e


questões epistemológicas que o acompanham, você
pode consultar as seguintes referências:
• CHASSOT, Attico. A ciência através dos
tempos. [Polêmica], São Paulo: Moderna, 1994.
• BARBEROUSSE, Anouk; KISTLER, Max; LUDWIG,
Pascal. A filosofia das ciências no século
XX. [Pensamento e Filosofia], Lisboa: Instituto
Piaget, 2001.

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Filosofia

Síntese

Nesta unidade, você estudou a problemática do abandono


dos preceitos religiosos e da Filosofia grega clássica, que
prevaleceram, alternadamente, no pensamento medieval
e renascentista, e o estabelecimento, na Modernidade, de
fundamentos empíricos e racionais para a construção de um novo
conhecimento científico, que atendesse às necessidades e aos
desejos do homem moderno.

Você viu que a fonte e o modo como o homem desenvolve


o conhecimento, sobretudo o científico, foram explicados
diferentemente pelos filósofos modernos Descartes, Hume e
Kant. Constatou que Descartes reconhece a razão do sujeito
como fonte do conhecimento verdadeiro, enquanto Hume,
propõe a experiência como a fonte principal para o conhecimento,
mesmo que pela capacidade racional o homem possa chegar
a desenvolver idéias complexas. Neste cenário, Kant aparece
como um sintetizador destas posições, pois propõe que pela
sensibilidade o homem apreende o mundo físico, e, com a razão,
organiza este conhecimento.

Você também estudou que, em determinados períodos históricos


do pensamento ocidental, um tipo de conhecimento prevaleceu
sobre outros, o que teve implicações sobre o modo de vida dos
homens de cada período. No caso da Modernidade e dos dias
atuais, o conhecimento sobre o qual os teóricos se dedicam
a estudar é o conhecimento científico, provavelmente, pela
abrangência das descobertas e invenções atuais da Ciência.

Unidade 5 161

filosofia_2008a.indb 161 3/6/2008 14:33:28


Universidade do Sul de Santa Catarina

Atividades de auto-avaliação

1) Caracterize a principal polêmica sobre o conhecimento ocorrida na


passagem do pensamento medieval para o pensamento moderno.

2) Baseando-se dos aspectos estudados nesta unidade, identifique


semelhanças e divergências entre o Racionalismo e o Empirismo.

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filosofia_2008a.indb 162 3/6/2008 14:33:28


Filosofia

3) Identifique algumas questões que ocuparam os filósofos da Ciência


Kuhn e Feyerabend.

Unidade 5 163

filosofia_2008a.indb 163 3/6/2008 14:33:28


Universidade do Sul de Santa Catarina

Saiba mais

Aprofunde os conteúdos estudados nesta unidade ao consultar as


seguintes referências:

„ DESCARTES, René. Discurso do método. [Os


pensadores], São Paulo: Nova Cultural, 1996.

„ HUME, David. Investigação acerca do entendimento


humano. [Os pensadores], São Paulo: Nova Cultural,
1996.

„ INÁCIO, Inês C.; LUCA, Tânia Regina de. O


pensamento medieval. São Paulo: Ática, 1994.

„ KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. [Os


pensadores], São Paulo: Nova Cultural, 1996.

„ KUHN, Thomas S. O caminho desde a estrutura. São


Paulo: Unesp, 2006.

„ SEVCENKO, Nicolau. O renascimento. Campinas:


Atual, 1988.

„ SILVA, Porfírio. A filosofia da ciência de Paul


Feyerabend. [Pensamento e Filosofia], Lisboa: Instituto
Piaget, 1998.

„ VERGES, André; HUISMAN, Denis. História dos


filósofos ilustrada pelos textos. Rio de Janeiro: Freitas
Bastos, 1984.

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filosofia_2008a.indb 164 3/6/2008 14:33:28


6
UNIDADE 6

Ética e Moral
Leandro Kingeski Pacheco

Objetivos de aprendizagem
„ Identificar a Ética como uma ciência, cujo objeto de
estudo é a moral.

„ Compreender o surgimento da Ética e a ética de Sócrates.

„ Conhecer as divisões básicas da Ética, como ética


normativa, ética prática e metaética.

Seções de estudo
Seção 1 Ética e Moral

Seção 2 A Origem da Ética e a ética de Sócrates

Seção 3 Ética Normativa, Ética Prática e Metaética

filosofia_2008a.indb 165 3/6/2008 14:33:28


Universidade do Sul de Santa Catarina

Para início de estudo


Quem nunca ouviu falar de ética ou de moral? Ora, vivemos na
dita sociedade do conhecimento. Esta sociedade é caracterizada,
entre outras coisas, pela grande expansão de livros em quantidade
e qualidade; pela Internet com seus inúmeros e-books, artigos,
sons e imagens; pela imprensa extremamente ágil e onipresente,
com inserções “ao vivo e por satélite para todo o mundo”.

Ao vivermos neste tipo de sociedade, tornamo-nos suscetíveis,


direta ou indiretamente, a todo tipo de informação, inclusive
sobre a Ética e a moral. Contudo, ser informado acerca de um
assunto é diferente de conhecê-lo. A verdade é que nem todas as
pessoas conhecem e compreendem a Ética e a moral.

‘Ética’ e ‘moral’ parecem duas palavrinhas tão simples, por


estarem tão presentes em nosso dia-a-dia. Mas afinal, o que é
Ética? O que é moral? Qual a relação entre ambas?

Bom, esta e outras questões são justamente as que você estuda,


nesta unidade, a partir de agora.

Seção 1 – Ética e Moral


Se perguntássemos para os dez maiores filósofos da história da
humanidade o que é Ética, cada um deles proporia uma resposta
diferente para a questão. Este fato permite-nos deduzir que não
há um consenso sobre a definição de Ética. Porém, em função das
várias respostas já oferecidas, no decorrer da história da Filosofia
nós poderíamos detectar muitos pontos em comum e propor a
seguinte definição.

A Ética é a ciência, uma parte da Filosofia, que estuda,


reflete, investiga, pesquisa racional e sistematicamente
a conduta, a ação, os costumes do ser humano
considerados como comportamento moral. Ou seja, a
Ética é a teoria que estuda a moral.

166

filosofia_2008a.indb 166 3/6/2008 14:33:28


Filosofia

Mas, você pode estar se perguntando:

1) O que é um comportamento moral?


2) A Ética é a única ciência que investiga o
comportamento moral?

Acompanhe a resposta a essas perguntas na seqüência.

Veja alguns elementos que permitem entender o que é o


comportamento ‘moral’.

O comportamento moral é todo tipo de


comportamento humano, costume, considerado
obrigatório (que deve ser realizado) ou proibido
(que não deve ser realizado) e que está sujeito ao
julgamento, ao arbítrio da própria consciência
humana.
O comportamento moral é julgado, basicamente, em
função de critérios e valores.
O critério mais utilizado para o julgamento do
comportamento moral é a consideração de, no
mínimo, dois extremos, duas qualidades contrárias,
antagônicas: o certo (o bem) ou o errado (mal).
Os valores, por sua vez, referem-se às escolhas
de determinados comportamentos, que
comportamentos devem ser preferidos, escolhidos, ao
invés de outro. Estes valores podem estar implícitos,
subentendidos ou explícitos.
Em muitas culturas, podemos encontrar alguns
valores comuns que são considerados como dignos de
serem imitados, tais como ‘não roubar’, ‘não mentir’,
‘ser honesto’, etc.
Contudo, observe que os valores que orientam os
comportamentos morais são sempre relativos a
uma cultura, uma civilização, uma época.

Considere estes exemplos que justificam o caráter relativo dos


valores, referentes a um comportamento moral:

Unidade 6 167

filosofia_2008a.indb 167 3/6/2008 14:33:29


Universidade do Sul de Santa Catarina

Hoje, em nossa sociedade, tratar a mulher como


sendo igual ao homem é considerado certo; enquanto
que, em algumas sociedades africanas e asiáticas,
esse nível de igualdade é errado. Por outro lado,
nos primórdios da civilização humana, na idade da
pedra, é bem provável que a moralidade vigente seja
diferente da aceita e cultivada hoje.

Figura 6.1 - A moralidade é relativa

Hoje é considerado errado, inaceitável a escravidão.


Mas, na antiguidade, e mesmo há pouco tempo, no
Brasil, a escravidão era considerada aceitável.

Atenção!
A moral sempre fez parte da história da humanidade.
Todas as civilizações humanas, desde os primórdios,
apresentam um tipo de moral. Contudo, a Ética
(reflexão sobre a moral) surgiu como um fenômeno
posterior à moral. Veja que foi então, a partir de uma
prática moral, de vários costumes e comportamentos
morais já efetivos, vividos, de um contexto fértil que
surgiu a Ética.

Ao estudar estas duas definições, de Ética e de moral, você


deve ter percebido que, basicamente, a Ética é a teoria que
estuda a moral. E a moral refere-se às práticas humanas, aos
comportamentos, que são classificados em função de critérios
como certos (bons) ou errados (maus). A avaliação dos
comportamentos também depende de valores que aceitamos,
estabelecemos ou rejeitamos.

168

filosofia_2008a.indb 168 3/6/2008 14:33:29


Filosofia

A relação entre a Ética e a moral pode ficar mais explícita com


um exemplo.

Suponha que você está em casa, assistindo televisão e, de repente,


surge um noticiário especial:

- Extra, extra! Mãe desempregada é presa em supermercado por


roubar dois pães e uma margarina. A mãe alegou, na confissão,
que roubou para alimentar o filho de dois anos que passa fome.
Maiores detalhes em nosso noticiário da segunda edição.

Você é capaz de perceber a Ética e a moral que permeia, este caso?

Veja que aqui temos, especificamente, um ato moral. O ato moral


refere-se ao roubo, refere-se ao
comportamento moral praticado.
A maior parte da população brasileira
concordaria conosco que roubar é errado,
é algo que não deve ser realizado, ou
seja, é algo que deve ser evitado.

E a Ética? Onde está? Bom, a Ética, como


já vimos, é a teoria que propõe refletir
as condutas morais. Você pode, então,
perguntar: onde está tal reflexão sobre
esta conduta moral: ‘o roubo’?

Ora, a Ética inicia-se justamente quando começamos a analisar


racionalmente este comportamento moral, este ato moral,
considerando, por exemplo, as seguintes questões: é certo ou
errado roubar? O que é o roubo? Mesmo que seja errado roubar, a
mãe que procura sustentar a prole, o filho, não poderia, num ato
insano, desesperado, roubar? É ‘justo’ ou ‘injusto’, ‘certo’ ou ‘errado’,
‘admissível’ ou ‘inadmissível’ o roubo que tem a finalidade de
nutrir a si mesmo e aos filhos famintos? Se for aberta uma exceção
para um caso como este (aceitando que esta mãe possa roubar
para alimentar o filho), o que impede que, em situações análogas,
conflituosas do ponto de vista moral, também não se possa mentir,
humilhar, desrespeitar, ferir, punir, trair ou mesmo matar? O ato de
roubar, afinal, é considerado uma virtude ou um vício?

Veja que a Ética, relativa ao nosso exemplo, torna-se explícita


quando estabelecemos que questões morais devem ser
discutidas, quais critérios, valores e métodos devemos propor
para lidar com tais questões conflituosas, que, por sua vez, fazem
parte da nossa existência.

Unidade 6 169

filosofia_2008a.indb 169 3/6/2008 14:33:29


Universidade do Sul de Santa Catarina

O ato moral em questão, o roubo, representa apenas uma gota de


um oceano repleto de outras situações, referentes às vivências dos
seres humanos. Nossas vidas oferecem inúmeros outros exemplos,
em que nos deparamos com as situações morais mais singelas ou
mesmo insuportáveis, do ponto de vista moral.

Quem nunca deparou-se com um ato moralmente errado na


própria casa, como, por exemplo, o não compartilhar de um doce
ou de um livro, a falta de uma palavra amiga ou, até mesmo, a
proposição de uma ‘mentira’? Quem nunca deparou-se com uma
situação, no trabalho, na escola, na academia ou na praça, em
que um familiar, um amigo ou um colega foi maltratado? Quem
nunca indignou-se com o fato de que muitos brasileiros passam
fome ou insegurança? Você já passou fome ou se sentiu inseguro?
Até que ponto é ‘certo’ sentir fome? O que devemos fazer, ou
antes, o que devemos pensar em relação a esta moralidade que faz
parte de nossas vidas?

Apesar da Ética ser a teoria que estuda a moral, saiba que


existem várias éticas, doutrinas éticas, que foram propostas no
decorrer da história da humanidade. Assim, foram propostos
diferentes modos de refletir sobre os atos morais, inclusive sobre
o caso exposto no exemplo anterior. Nesta e nas próximas duas
unidades, estudaremos algumas destas doutrinas éticas.

De fato, existem inúmeras éticas e elas podem ser agrupadas


e estudadas de vários modos. Tais éticas podem ser reunidas,
por exemplo, em torno de três grandes áreas - em função da
similaridade, semelhança ao refletir sobre a moral - como Ética
Normativa, Ética Prática e Metaética.

Antes de estudar, na seção 3, essas éticas, você aprenderá um pouco


mais sobre a origem da Ética e a proximidade etimológica dos
termos Ética e moral. E, antes de iniciar a seção 2, lembre-se que
você ainda precisa estudar a questão anteriormente formulada:

A Ética é a única ciência que investiga o


comportamento moral?

Não! A Ética não é a única ciência que pesquisa o


comportamento moral. Existem outras ciências que auxiliam a
Ética nesta atividade.

170

filosofia_2008a.indb 170 3/6/2008 14:33:29


Filosofia

Saiba mais sobre outras ciências que também se dedicam a


estudar o comportamento moral

Existem outras ciências que estudam o comportamento moral


como a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia, etc. Cada uma
destas ciências oferece uma contribuição referente às reflexões
sobre a moral.

A Psicologia, por exemplo, entre outras coisas, estuda o


comportamento humano considerando fundamentalmente a
subjetividade, isto é, as motivações psíquicas, interiores, ligadas a
um determinado comportamento. Neste sentido, contribui para
o estudo do comportamento moral ao evidenciar as motivações
subjetivas, os hábitos morais, a gênese da consciência moral, etc.

A Sociologia, entre outras coisas, estuda o comportamento


humano como manifestação social, de uma coletividade,
externada coletivamente na escola, no clube, no sindicato,
no trabalho, etc. Esta ciência contribui para o estudo do
comportamento moral ao atentar para um indivíduo concreto,
existente, que integra uma estrutura social específica e que
mantém um conjunto de relações sociais específicas, etc.

A Antropologia, entre outras coisas, estuda o comportamento


humano em função de uma concepção de homem, condicionado
a uma determinada cultura. A Antropologia contribui para o
estudo do comportamento moral ao justificar que existem várias
perspectivas morais em função de várias culturas distintas. Veja
que, neste sentido, uma cultura não é melhor ou pior que outra,
apenas diferente.

Estas ciências, brevemente comentadas, certamente contribuem


muito para a reflexão ética. Por outro lado, as reflexões éticas não
podem ser reduzidas a um psicologismo1, a um sociologismo2 ou
a um antropologismo3.
Psicologismo: concepção de que
Veja que a Ética diferencia-se a Psicologia pode explicar tudo,
das ciências anteriores porque todas as coisas.
reflete especificamente sobre Sociologismo: concepção de que
o comportamento moral, a Sociologia pode explicar tudo,
agregando, quando considerado todas as coisas.
pertinente e necessário, as
Antropologismo: concepção de
contribuições propostas por estas que a Antropologia pode explicar
e outras ciências. tudo, todas as coisas.

Unidade 6 171

filosofia_2008a.indb 171 3/6/2008 14:33:29


Universidade do Sul de Santa Catarina

Consciência, liberdade e responsabilidade: elementos do


comportamento moral!
Ainda não exaurimos, esgotamos, a explicação sobre a moral. De
fato, nem o faremos em um livro introdutório. Contudo, mais
alguns elementos da moral são agora estudados por você, para
que amplie sua concepção sobre o que é o comportamento moral.

A consciência e a liberdade são dois elementos necessários para


que haja um comportamento moral. Para entender esta idéia,
considere as seguintes situações hipotéticas, suposições.

Você certamente concorda que


é moralmente errado o roubo.
Mas, se o obrigam, coagem,
forçam, constrangem a roubar,
por exemplo, um quadro famoso
de uma galeria de arte, de tal
modo que você não possa escapar
desta situação, então você não
teve liberdade de escolha. Nesse
caso, o ato moral em questão, o
roubo, não pode ser qualificado
como um comportamento
moral, pois sua liberdade estava
suprimida, impossibilitada de
ser manifestada. Para haver um
Figura 6.2 – Gioconda de Leonardo Da Vinci
ato moral é preciso que haja, no (www.arte.go.it)
mínimo, duas alternativas de
ação a serem escolhidas, que haja,
enfim, liberdade.

Pense noutro caso. Você vai ao supermercado e - outro cliente,


sem querer e por acidente, coloca um suco de caju na sua sacola
sem que você veja - após passar pelo caixa, você leva as compras
para casa. Ora, como você não teve consciência do ocorrido,
então você não apresenta, em relação a este acidente provocado
por um terceiro, uma consciência moral. Assim, não se pode
qualificar este ato como um comportamento moral, porque você
não teve consciência deste acontecimento.

172

filosofia_2008a.indb 172 3/6/2008 14:33:30


Filosofia

Atenção!
Observe que não há sentido em falar de um
comportamento moral se você não tem consciência
ou liberdade.

É importante que você saiba que as teorias éticas ainda não


encontraram um consenso, um ponto pacífico, sobre a questão da
liberdade e da consciência moral; e de que modo a liberdade e a
consciência são realmente ‘indispensáveis’ para que se tenha um
comportamento moral. Muitas discussões foram e são geradas
na tentativa de refletir sobre os limites e os alcances da nossa
liberdade moral e, da mesma forma, sobre os limites e os alcances
da nossa consciência moral.

Com estas discussões, relativas à liberdade e à consciência moral,


deparamo-nos com a responsabilidade moral, outro elemento
que acompanha todo comportamento moral. Ora, falar de
responsabilidade moral é considerar até que ponto um sujeito,
você, por exemplo, teve liberdade de escolha e consciência moral
à medida que praticou um comportamento moral.

A questão não é tão simples quanto parece! Veja: se eu não tenho


consciência moral, então eu devo ser considerado moralmente
responsável? Se eu tenho consciência moral, mas não tenho
liberdade de escolha, então eu devo ser considerado moralmente
responsável?

Neste estudo introdutório, é importante que você saiba que a


consciência, a liberdade e a responsabilidade são elementos do
comportamento moral. Por outro lado, os limites e alcances
de cada um destes conceitos fazem parte das reflexões éticas
desenvolvidas por filósofos. Se você quiser aprofundar o
entendimento sobre estas questões, consulte as referências da
seção Saiba Mais, ao final desta unidade.

Unidade 6 173

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Universidade do Sul de Santa Catarina

Seção 2 – A Origem da Ética e a ética de Sócrates


Nem toda ciência tem um início preciso ou surge vigorosa
e inovadora. Contudo, a Ética ocidental teve um início
extraordinário com as idéias radicais de Sócrates, na Grécia
antiga, há aproximadamente 2.500 anos. Muitos, por este
motivo, consideram Sócrates como o fundador da Ética. Mas que
idéias são estas?

Sócrates (470-399 a.C.) inaugura


a Ética ao defender que devemos
pensar, analisar, investigar as nossas
condutas, os nossos comportamentos
(e, em uma escala abrangente, a
conduta do ser humano) julgados,
sobretudo, (como certos ou errados)
em função do que nós próprios
pensamos, em função do exame
racional de nossos comportamentos,
Figura 6.3 - Sócrates em função de nossa autonomia.
(www.philosophyprofessor.com)

“Conhece-te a ti mesmo”, a célebre


frase inscrita no templo de Apolo
e que Sócrates constantemente repetia, representa um símbolo
deste incitamento ao auto-exame racional e moral; e que o
conhecimento de si mesmo é um processo, uma busca contínua
para nos conhecer.

Se, por um lado, os sofistas (filósofos da mesma época que


Sócrates) colocavam-se como sabedores do que era o certo, o
errado e a virtude, Sócrates colocava-se como um investigador
implacável, obstinado e insatisfeito. Sócrates jamais nos propôs
que ‘isso é certo’, ‘aquilo é errado’ ou ‘esta é a virtude’. Sócrates
propôs, porém, que cada um investigue o que é o certo, o que é o
errado, o que é a virtude.

Para Sócrates, a partir da análise racional de nossos costumes,


devemos investigar o que é a virtude, pois, à medida que
soubermos o que é a virtude, podemos tornar-nos melhores,
agindo corretamente, sempre voltados para o bem.

174

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Filosofia

A ética proposta por Sócrates estava ligada à idéia de que você


só pratica o mal porque desconhece o erro. Ou seja, se você
conhecer o que é certo, agirá sempre certo, em função do bem, e,
logicamente, sempre evitará o errado, o mal.

De acordo com este raciocínio, à medida que nos conhecemos,


tornamo-nos virtuosos. Neste sentido, o sábio é justamente
aquele que investiga, de modo autônomo, a virtude e age
corretamente. Por outro lado, a ignorância apresenta-se como a
origem de todos os vícios e erros.

A resposta sobre o que é a virtude deve ser procurada dentro de


cada um de nós, uma vez que Sócrates acredita que temos, dentro
de nós, em nossa alma, conhecimentos inatos e verdadeiros,
que podem ser relembrados, rememorados. Por este motivo, É aquilo que nasce com o
Sócrates - através do diálogo, da ironia e da maiêutica - incita as indivíduo.
pessoas a recordarem, a relembrarem do conhecimento referente à
virtude. A virtude não se ensina, mas brota da alma.

Embora Sócrates enfatize a necessidade de que cada um


investigue no âmago da alma o que é a virtude, ele também
esclarece que a virtude não pode significar várias coisas para
várias pessoas. A virtude deve ser conhecida e válida para todos,
isto é, deve ter um significado comum para todo um universo de
seres humanos. Neste sentido, ao investigarmos o que é a virtude,
então devemos procurar pelo significado universal de virtude, ou
seja, devemos procurar pelo conceito universal de virtude.

Para Sócrates, todo ser humano almeja, tem como finalidade a


felicidade. E nos tornaremos felizes quando formos capazes de
propor-nos, racional e autonomamente, regras de conduta.

Veja que, antes de tais idéias de Sócrates, não há sentido em dizer


que havia Ética. O que havia? Existia um conjunto de tradições,
expressas em narrativas e em poemas (os mitos gregos) que,
vinculados a uma origem religiosa, orientavam como os gregos
deveriam agir moralmente. Assim, os gregos comportavam-se
moralmente em função de orientações metafóricas apresentadas
pelos mitos. Representam uma
linguagem figurada que
expressa uma explicação
através de um exemplo, de
uma analogia.

Unidade 6 175

filosofia_2008a.indb 175 3/6/2008 14:33:30


Universidade do Sul de Santa Catarina

Vamos a um exemplo:

Você já ouviu falar do mito do Titã Prometeu? Segundo a


mitologia grega, Prometeu foi acorrentado no rochedo de
Gibraltar por ter roubado o fogo dos Deuses e tê-lo dado aos
homens.
Por que o Titã agiu deste modo? Bom, Titã estava com pena
dos seres humanos que, antes do fogo, comiam carnes cruas,
passavam frio no inverno, não manufaturavam artefatos nem
instrumentos, etc. Ora, com o fogo, este recurso tão importante,
os homens adquiriram saberes inéditos e, assim, começaram a
menosprezar os Deuses, não rezando tanto quanto antes. Com a
manipulação do fogo pelo homem, este chegou a acreditar que
poderia, por si só, prover o seu conforto e sustento, ignorando a
ajuda divina.
O que os Deuses do Olimpo fizeram? Encheram-se de cólera e
puniram Titã Prometeu, acorrentando-o de tal modo que ele
ficaria aprisionado por toda a eternidade, além de ter o fígado
constantemente dilacerado por uma ave de rapina.

Figura 6.4 - Prometeu acorrentado de Fernando Vilela (www.artebr.com)

Observe que esta história trágica apresenta pelo menos,


implicitamente, duas orientações morais e fundamentais sobre
como o grego deve agir:

„ Os Deuses devem ser respeitados;


„ Não se deve roubar, pois quem roubar será punido
severamente.

176

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Filosofia

Se você quiser conhecer uma pouco mais acerca


do mito relacionado ao Titã Prometeu, leia o texto
Prometeu acorrentado, de Ésquilo. Você pode
pesquisar o texto na Internet ou remeter-se à
referência:
„ ÉSQUILO. Prometeu acorrentado. In: Teatro
grego. Seleção, introdução, notas e tradução
direta do grego por Jaime Bruna. São Paulo:
Cultrix, 1989.

Vamos voltar para Sócrates. Que faz Sócrates? Propõe pensar a


conduta moral desvinculada de mitos tradicionais e religiosos,
livre dos dogmas. Sócrates propõe pensar a moral a partir de
uma perspectiva antropocêntrica, isto é, considerando o próprio São concepções, idéias,
homem, existente, como o agente fundamental que pensa como consideradas como certas
deve agir moralmente. ou inequívocas e que não
devem ser colocadas em
Veja que a conduta moral determinada pelos mitos, pela dúvida.
mitologia grega, é determinada por um modelo moral
teocêntrico. Um modelo moral teocêntrico é aquele em que as
condutas morais são fundamentadas por uma concepção divina.

Observe que Sócrates inaugura a Ética à medida que incita as


pessoas a investigarem a virtude e, portanto, a investigarem
como devemos agir moralmente, considerando a análise
racional e autônoma de nossa consciência. Deste modo, inicia-
se um enfraquecimento do modelo moral fundamentado por
mitos (modelo teocêntrico), que era respeitado e seguido sem
questionamentos ou reflexões.

A ética de Sócrates também atingiu o predomínio dos poderosos


aristocratas. Como? Ora, alguns mitos gregos expressavam a
aliança de certas famílias com os Deuses, assim como descreviam
as aventuras destas famílias.

Para compreender um pouco mais acerca dos mitos


e de como era relação dos aristocratas e dos heróis
gregos com os deuses, leia os poemas mitológicos de
Homero, a Ilíada e a Odisséia. Você pode tentar acessar
tais referências na Internet, em vários endereços,
como este, por exemplo:

„ http://www.dominiopublico.gov.br

Unidade 6 177

filosofia_2008a.indb 177 3/6/2008 14:33:30


Universidade do Sul de Santa Catarina

Você também pode assistir filmes que abordam estas


duas obras de Homero:

„ A ODISSÉIA (The Odyssey, EUA, 1997),


dirigido por Andrei Konchalovsky, 150 min,
da Alpha Filmes.

„ TRÓIA (Troy, EUA, 2004), dirigido por


Wolfgang Petersen, 162 minutos, da Warner
Bros. / Village Roadshow Pictures / Plan B
Films / Radiant Productions.

O fato de Sócrates defender que se deve procurar no próprio


homem o fundamento para a moral, e não mais nos mitos,
contribuiu para o enfraquecimento do poder das aristocracias.

Veja que o termo ‘família aristocrática’ referia-se a um grupo de


pessoas detentoras de saber e de poder que, por sua influência,
direta ou indiretamente, também ‘inspiravam’ um modelo de
conduta. Este modelo de conduta aristocrata certamente inspirava
a perpetuação de uma relação de classe em que:

„ o aristocrata deve manter o poder;

„ e o artesão, comerciante ou estrangeiro devem respeitar


tais aristocratas, pois estes últimos têm um histórico de
elo com o divino.

A ética de Sócrates provocou uma verdadeira revolução, pois, por


um lado, conquistou muitos admiradores enquanto, por outro
lado, provocou muitos descontentamentos (principalmente de
religiosos e de aristocratas).

Diante deste quadro, é compreensível que Sócrates tenha sido


forçado a se justificar, a explicar tais idéias. Contudo, não é
aceitável o fato de que tal explicação tenha sido exigida no
tribunal de Atenas e que Sócrates tenha sido julgado e condenado
à morte, pelos atenienses, por “corromper a mocidade e de não
crer nos deuses em que o povo crê”. (PLATÃO, 1987, p. 11).
A acusação proferida no tribunal, em função da qual Sócrates
foi julgado e condenado à morte, representa, implicitamente,
uma profunda crítica à ética de Sócrates, por questionar a moral
tradicional.

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Filosofia

Se você quiser aprofundar seus conhecimentos sobre


a ética de Sócrates, faça uma pesquisa na Internet
ou em livros. Dois livros de Platão, Laques e Mênon,
são referências para esta compreensão, uma vez que
Sócrates, personagem principal destes livros, investiga
a virtude e a educação como temas centrais.

Figura 6.5 – A morte de Sócrates de Jacques-Louis David

Saiba mais sobre a origem etimológica


das palavras ética e moral
Na seção 1, você estudou uma definição objetiva de Ética e de
moral. É importante que você saiba que alguns autores não
‘gostam’ do modo como distinguimos estes dois conceitos. O
‘gosto’ destes autores fundamenta-se na origem etimológica
dos termos Ética e moral, uma vez que, nos primórdios, eles
apresentam semelhança de sentido.
Etimologicamente, Ética provém do grego, do termo ethos, e
significa costume; por outro lado, Ética também pode significar
caráter, personalidade, modo de ser. Moral, por sua vez, provém
do latim, do termo morus, e também significa costume.
Em função desta origem, alguns autores ‘adotam’ os termos ética
e moral como sinônimos.
Contudo, os termos ética e moral como sinônimos não foram
adotados neste livro didático por considerarmos que tal
procedimento, este modo de pensar, apenas reconhece a origem
etimológica destes termos e não o que, de fato, eles representam
e significam hoje para a Filosofia e para a Ciência.

Unidade 6 179

filosofia_2008a.indb 179 3/6/2008 14:33:31


Universidade do Sul de Santa Catarina

Seção 3 – Ética Normativa, Ética Prática e Metaética


A partir do conteúdo estudado nas seções anteriores, você percebeu
que a Ética é uma reflexão sobre o comportamento moral.

Lembre-se que, na seção 1, propusemos distinguir a Ética


a partir de três áreas de pesquisa – como ética normativa,
ética prática e metaética. Esta distinção pode ser disposta
graficamente:

Ética

Ética normativa Ética prática Metaética

Você deve estar perguntando: afinal, o que é ética


normativa, ética prática e metaética?

Ética normativa

A ética normativa, como o próprio nome diz, procura


estabelecer normas gerais e modelos universais de
comportamentos morais a serem seguidos. Estes
modelos universais deveriam ser válidos para todo um
universo de sujeitos e todo um universo de situações.

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Filosofia

A ética normativa, a fim de propor estas normas gerais, investiga


questões como:

- “Que devemos fazer para sempre praticar o bem?”;


- “Como devemos nos comportar?”;
- “Como podemos ser bons?”;
- “Como podemos ser felizes?”;
- “Nenhum ser humano pode ser privado de sua vida?”.
Atenção! Estas questões são apenas exemplos. As éticas
normativas diferenciam-se muito, por responder a questões
como estas de modo diferente.

Ética prática

A ética prática refere-se à tentativa de aplicação dos


princípios gerais da ética normativa em situações
práticas do nosso dia-a-dia, do nosso cotidiano.

Assim, a ética prática propõe investigar questões como:

Considere a seguinte
situação (hipotética)
prática: existe um amigo
ou parente nosso que está
moribundo, vegetando
e sofrendo no leito do
hospital – com câncer.
O enfermo está infeliz Figura 6.6 – Eutanásia? Que fazer? (sepiensa.org.mx)
porque não pode mais
andar nem mexer os membros; porque só respira com o auxílio de
uma série de aparelhos. Para piorar a situação, não há expectativa
de melhora, apenas de mais sofrimento e de dor, que devem
prolongar-se por dois anos até a sua morte. Em função deste
contexto, o enfermo solicita que sua vida seja interrompida, para
que, então, possa encontrar a paz e a ‘felicidade’.

Unidade 6 181

filosofia_2008a.indb 181 3/6/2008 14:33:31


Universidade do Sul de Santa Catarina

A ética prática discutiria, por exemplo, o que fazer em uma situação


como essa. Neste sentido, a ética prática poderia retomar dois
princípios que fazem parte das reflexões da ética normativa, como por
exemplo:
1) “nenhum ser humano pode ser privado de sua vida”;
2) “devemos ser felizes”.
Ora, com esta questão prática e com estes dois princípios estudados
pela ética normativa, encontramo-nos em um dilema: o que fazer?

Veja as opções básicas:


1) Se a vida do enfermo for interrompida, então ele encontrará
a paz, a felicidade que alega, defende. Contudo, se agirmos
deste modo, estaremos desrespeitando o preceito moral de
que “nenhum ser humano pode ser privado de sua vida”.
2) Se a vida do enfermo não for interrompida, então ele
continuará a sofrer e permanecerá infeliz até o dia de
sua morte. Contudo, se agirmos deste modo, estaremos
desrespeitando o preceito moral de que “devemos
ser felizes”, ou seja, de que o enfermo, mesmo nestas
condições, tem direito a ser feliz.

A questão da eutanásia (o abreviamento da vida de um doente


incurável) é apenas um exemplo de como a ética aplicada retoma
princípios da ética normativa, transpondo questões morais gerais
para o mundo da prática.

Observe que este é apenas um exemplo. As éticas práticas


diferenciam-se por proporem diferentes respostas para este
mesmo dilema relativo à questão da eutanásia. Ainda, as éticas
práticas também se diferenciam ao escolher ou enfatizar alguns
princípios da ética normativa e não outros. Podemos dizer
que existem várias éticas práticas, aplicadas, dentre as quais
destacamos, por exemplo, a ética ambiental e a ética empresarial.

182

filosofia_2008a.indb 182 3/6/2008 14:33:31


Filosofia

Metaética

A metaética, outra área de estudo da ética, estuda


as proposições, as sentenças que estão relacionadas
a um ato moral. Assim, são privilegiadas as reflexões
relativas à verdade, à validade e à lógica de uma
proposição que expressa um juízo moral.

Acompanhe as seguintes questões que fazem parte das discussões


da metaética.

Acerca da verdade de uma proposição que expressa


um juízo moral, podemos ter:
- “A proposição em questão: ‘você não roubou’ é
verdadeira ou falsa?”

Acerca da análise do termo da proposição que


expressa um juízo moral, podemos ter: - “o que
significa ‘roubar’, expresso na proposição anterior?”.
Observe que as discussões da metaética abordam
sistematicamente a linguagem nas reflexões relativas
à moral.

À medida que abordarmos doutrinas éticas nas unidades


seguintes, vamos caracterizá-las conforme esta distinção básica,
como ética normativa, ética aplicada ou metaética.

Unidade 6 183

filosofia_2008a.indb 183 3/6/2008 14:33:31


Universidade do Sul de Santa Catarina

Síntese

Nesta unidade, você aprendeu que Ética e moral são distintas. A


Ética é a teoria que estuda os comportamentos morais. A moral
refere-se aos comportamentos, aos costumes, que são julgados
em função de valores escolhidos por uma determinada sociedade.
Você também estudou que a moral é avaliada em função de
critérios opostos, o certo e o errado, o bem e o mal. A liberdade,
a consciência e a responsabilidade moral foram expostas como
elementos do ato moral, da ação moral.

Você viu, ainda, que a Ética não é a única ciência que estuda
a moral, porém, percebeu que ela é a ciência que tem como
principal atividade o estudo da moral.

Ao estudar a origem da Ética, você aprendeu que a moral é um


elemento integrante da própria história da humanidade. A Ética
surge quando Sócrates propõe uma reflexão sistemática e racional
sobre a moral, ao sugerir que cada um investigue o que é a
virtude, considerando a própria consciência e autonomia humana.
Você também percebeu que a ética socrática provocou uma
revolução cultural ao colocar em dúvida a moral que provinha de
uma concepção mitológica e aristocrática.

Você ainda estudou uma distinção da Ética, muito difundida


hoje, que a distingue em três grandes campos de estudo: como
ética normativa, ética prática e metaética.

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Filosofia

Atividades de auto-avaliação
Ao final de cada unidade, você realizará atividades de auto-avaliação. O
gabarito está disponível no final do livro-didático. Mas, esforce-se para
resolver as atividades sem ajuda do gabarito, pois, assim, você estará
promovendo (estimulando) a sua aprendizagem.

1) Marque com um ‘X’ a passagem que denota, significa, expressa a


definição de Ética. Esta atividade visa exercitar sua capacidade de
identificação e compreensão do conceito de Ética.

a) ( ) “Pode-se dizer que a ética é a disciplina que procura responder


às seguintes questões: como e por que julgamos que uma
ação é moralmente errada ou correta? E que critérios devem
orientar esse julgamento? Hoje várias respostas atendem a
essas perguntas: é possível afirmar que a ação correta é aquela
que (i) maximiza a felicidade de todos, (ii) é praticada por um
agente virtuoso, (iii) está de acordo com regras determinadas,
ou, ainda, (iv) pode ser justificada aos outros de forma razoável.
O procedimento de determinação da ação correta varia conforme
a escola filosófica, bem como de acordo com a razão pela qual se
adota esse procedimento”. (BORGES; DALL’AGNOL; DUTRA, p. 7).

b) ( ) “[...] é possível definir a ética de diferentes maneiras e que,


de fato, assim tem sido definida. Pode-se conceber como
uma ciência do bem e do mal e como a substância das regras
do comportamento, válidas, para um determinado grupo
(comunidade religiosa, povo) ou, universalmente, para todos os
homens”. (HEINEMANN, p. 434).

c) ( ) “A ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos


homens em sociedade. Ou seja, é ciência de uma forma
específica de comportamento humano”. (VÁZQUEZ, p. 12).

d) ( ) “Toda cultura e cada sociedade institui uma moral, isto é, valores


concernentes ao bem e ao mal, ao permitido e ao proibido, e à
conduta correta, válidos para todos os seus membros. Culturas
e sociedades fortemente hierarquizadas e com diferenças
de castas ou de classes muito profundas podem até mesmo
possuir várias morais, cada uma delas referida aos valores
de uma casta ou de uma classe social. No entanto, a simples
existência de moral não significa a presença explícita de uma
ética, entendida como filosofia moral, isto é, uma reflexão que
discuta, problematize e interprete o significado dos valores
morais”. (CHAUI, p. 339).

Unidade 6 185

filosofia_2008a.indb 185 3/6/2008 14:33:31


Universidade do Sul de Santa Catarina

2) Marque com um ‘X’ a passagem, a seguir, que define, elucida ou


explica o que é a moral. Esta atividade visa exercitar sua capacidade
de identificação e compreensão do conceito de moral.

a) ( ) “Objeto da ética, conduta dirigida ou disciplinada por normas”.


(ABBAGNANO, p. 682).

b) ( ) “o ato moral exige a sua decisão livre e consciente, assumida


por uma convicção interior e não por uma atitude exterior e
impessoal”. (VÁZQUEZ, p. 2).

c) ( ) “A moral não é ciência, mas objeto da ciência; e, neste sentido, é


por ela estudada e investigada”. (VÁZQUEZ, p. 13).

3) Associe as passagens seguintes com as respectivas interpretações. Tais


passagens estão ligadas ao surgimento da Ética e à ética de Sócrates.
Esta atividade visa exercitar sua capacidade de análise e síntese da ética
de Sócrates.

Atenção!

Todas as passagens a seguir foram proferidas


pelo próprio Sócrates no dia em que foi julgado
e condenado à morte pelos atenienses. Elas
estão presentes no diálogo Defesa de Sócrates,
confeccionado por Platão. Este diálogo também é
uma referência importante para compreendermos
a ética de Sócrates, e, ao lê-lo, você ampliará seu
entendimento sobre a matéria, assim como sobre o
papel do filósofo.

Platão, também um grande pensador, foi discípulo de


Sócrates e profundamente influenciado pelas idéias
do mestre, de tal modo que muitos filósofos têm
dificuldade em especificar onde termina a Filosofia de
Sócrates e onde começa a Filosofia de Platão. Aliado
a este fato, Sócrates jamais escreveu um livro e Platão
aparece como a fonte mais rica da filosofia socrática.

Porém, especialistas concordam que este diálogo de


Platão apresenta tão somente as idéias de Sócrates,
pois Platão, na época do julgamento, como um jovem
inteligente e promissor, ainda não tinha concebido
uma Filosofia madura.

186

filosofia_2008a.indb 186 3/6/2008 14:33:32


Filosofia

I) “A ignorância mais condenável não é essa de ( ) através da indagação, do


supor saber o que não se sabe? É talvez nesse diálogo, Sócrates propunha que
ponto, senhores, que difiro do comum dos os atenienses cultivassem a alma,
homens; se nalguma coisa me posso dizer mais a razão, a virtude antes do que
sábio que alguém, é nisto de, não sabendo bens materiais. O filósofo deve até
o bastante [...] não pensar que o saiba. Sei, mesmo ‘cobrar’ dos cidadãos, dos
porém, que é mau e vergonhoso praticar o mal, homens, a aquisição da virtude.
desobedecer a um melhor do que eu, seja deus, Ou seja, o filósofo verifica se os
seja homem [...]”. (PLATÃO, 1987, p. 15). homens adquiriram a virtude.

( II ) “Atenienses, eu vos sou reconhecido e vos ( ) Sócrates defendia que a


quero bem [...] enquanto tiver alento e puder ignorância é a fonte do erro,
fazê-lo, jamais deixarei de filosofar, de vos que muitas pessoas erram por
dirigir exortações1, de ministrar ensinamentos acreditarem que sabem muito
em toda ocasião àquele que de vós eu deparar quando, de fato, nada sabem.
dizendo-lhe o que de costume: ‘Meu caro, tu, O verdadeiro sábio, aquele que
um ateniense, da cidade mais importante e mais age corretamente, deve admitir
reputada por sua cultura e poderio não te pejas2 que pouco sabe, que é errado
de cuidares de adquirir o máximo de riqueza, praticar o mal, e que devemos
fama e honrarias, e de não te importares nem ouvir e obedecer aqueles que são
cogitares3 da razão, da verdade e de melhorar ‘melhores’ que nós.
quanto mais a tua alma?’ ” E se algum de vós
redargüir4 que se importa, não me irei embora
deixando-o, mas o hei de interrogar, examinar 1 Exortar significa aconselhar, encorajar, estimular
e confundir e, se me parecer que afirma ter 2 Pejas, aqui, refere-se à vergonha, ao vexame
adquirido a virtude e não a adquiriu, hei de
3 Cogitares significa pensar, refletir
repreendê-lo por estimar menos o que vale mais
e mais o que vale menos”. (PLATÃO, 1987, p. 15). 4 Redargüir significa responder argüindo, argumentando

( III ) “sou bem um homem [...] dirigindo-me sem ( ) A virtude deve ser
cessar a cada um em particular, como um pai ou investigada. Para sermos
um irmão mais velho, para o persuadir a cuidar virtuosos, precisamos conhecer a
da virtude”. (PLATÃO, 1987, p. 16). virtude através do fundamental
exercício da auto-análise.

( IV ) “Eu que me entreguei à procura de cada um ( ) Sócrates procurava,


de vós em particular, a fim de proporcionar-lhe incessantemente, semear nos
o que declaro o maior dos benefícios [...] cuidar outros a necessidade de investigar
menos do que é seu que de si próprio para vir e cultivar a virtude.
a ser quanto melhor e mais sensato”. (PLATÃO,
1987, p. 21).

( V ) “para o homem nenhum bem supera o ( ) Sócrates propõe o melhor


discorrer cada dia sobre a virtude e outros temas dos benefícios: que cada um
[...] e que a vida sem exame não é vida digna de investigue a si mesmo para ser
um ser humano” (PLATÃO, 1987, p. 22). mais virtuoso e melhor, atenuando
assim a busca mesquinha do
homem pelo simples ‘ter’.

Unidade 6 187

filosofia_2008a.indb 187 3/6/2008 14:33:32


Universidade do Sul de Santa Catarina

Encontre a seqüência que corresponde à associação correta das


passagens com as interpretações. Há apenas uma seqüência correta:

A) I, III, II, V, IV.


B) II, I, V, III, IV.
C) V, III, IV, I, II.
D) III, IV, I, V, II.

4) Identifique as passagens abaixo como ética normativa (N), ética prática


ou aplicada (A) e metaética (M).
a) ( ) Sua “tarefa é o estudo da natureza, função e justificação dos
juízos morais. Precisamente, este último é um problema [...]
fundamental: ou seja, examinar se se podem apresentar [...]
razões ou argumentos para demonstrar a validade de um juízo
moral e, particularmente, das normas morais”. (VÁZQUEZ, p. 9).
b) ( ) “[...] diz respeito à aplicação de princípios extraídos da ética
normativa para a resolução de problemas éticos cotidianos”.
(BORGES; DALL’AGNOL; DUTRA, p. 8).
c) ( ) “[...] se atribui a função fundamental de fazer recomendações e
formular uma série de normas e prescrições morais”. (VÁZQUEZ, p. 15).

5) Acesse o EVA (Espaço UnisulVirtual de Aprendizagem) e, por meio da


ferramenta Exposição, publique o que você pensa sobre o caráter
transitório da moralidade. Você pensa que a moralidade deve ser
a mesma sempre, para todos, ou acredita que a moral deve variar,
conforme as culturas, épocas e povos?

188

filosofia_2008a.indb 188 3/6/2008 14:33:32


Filosofia

6) Desenvolva uma dissertação (com no mínimo 20 linhas e no máximo


30 linhas) sobre o que é a Ética, do que trata e qual a relevância deste
estudo. Também aborde se você reflete sobre as ações morais que
pratica.

Como estrutura básica de dissertação, você pode seguir estes


parâmetros: na introdução, exponha a relação entre a Ética e a moral.
No desenvolvimento, exponha qual a finalidade da Ética para a
humanidade, para nossa sociedade, para nossa família, para você.
Também aborde que a moral não é fixa, mas relativa em função das
épocas, sociedades e culturas. Ainda no desenvolvimento, desenvolva
a idéia de que a moral sempre esteve presente em nossas vidas e de
que fomos educados (e vivemos) em função de uma concepção moral.
Na conclusão, exponha se você ‘pensa’, ‘reflete’ a moral que faz parte
de sua vida, ou seja, se você reflete sobre que comportamento moral
deve ser praticado ou não. Para finalizar, exponha se você se considera
moralmente responsável por seus comportamentos.

Unidade 6 189

filosofia_2008a.indb 189 3/6/2008 14:33:32


Universidade do Sul de Santa Catarina

190

filosofia_2008a.indb 190 3/6/2008 14:33:32


Filosofia

Saiba mais

Se você quiser aprofundar seu conhecimento relativo à distinção


entre Ética e moral, características básicas do comportamento
moral, surgimento da Ética concomitante à ética de Sócrates,
distinção da ética como normativa, metaética e prática, estude as
seguintes referências:

„ BORGES, Maria de Lordes; DALL’AGNOL, Darlei;


DUTRA, Delamar Volpato. Ética. [O que você precisa
saber sobre], Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

„ PLATÃO. Defesa de Sócrates. In: Sócrates. [Os


pensadores], seleção de Textos de José Américo
Pessanha; Traduções de Jaime Bruna, Líbero Rangel
de Andrade, Gilda Maria Reale Strazynski. 4. ed. São
Paulo: Nova Cultural, 1987.

„ VALLS, Álvaro L. M. O que é ética. [Coleção


primeiros passos], 9. ed. São Paulo: Brasiliense, 2006.

„ VÁZQUEZ, Adolfo Sanches. Ética. 12. ed. Rio de


Janeiro: Civilização Brasileira, 1990.

Unidade 6 191

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7
UNIDADE 7

A ética de Aristóteles,
de Kant e de Mill
Leandro Kingeski Pacheco

Objetivos de aprendizagem
„ Identificar características básicas da ética de Aristóteles,
de Kant e de Mill.

Seções de estudo
Seção 1 Aristóteles e a virtude

Seção 2 Kant e o dever

Seção 3 Mill e a utilidade

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Universidade do Sul de Santa Catarina

Para início de estudo


Nesta unidade, você continua a estudar a Ética, ao conhecer,
introdutoriamente, três teorias éticas tradicionais: a de
Aristóteles, a de Kant e a de Mill. Cada uma destas éticas é
considerada tradicional porque forneceu uma resposta inédita
sobre como o homem deve agir moralmente e porque alcançou
certa notoriedade e aceitação nas sociedades ocidentais.

Atente para o fato de que estas teorias foram propostas em um


momento histórico e em um contexto sócio-político-cultural
único, muito diferente do nosso. Simplesmente por conhecer
estas éticas não significa que devemos necessariamente segui-
las. Porém, ao conhecê-las, podemos identificar que respostas
estes grandes pensadores propuseram sobre o agir moral. Assim,
teremos mais alguns elementos para refletir sobre a nossa moral,
de nosso tempo. Bom estudo!

Figura 7.1 – Discussão entre Aristóteles, Kant e Mill


(Alex Xavier)

194

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Filosofia

Seção 1 – Aristóteles e a virtude


A ética de Aristóteles (384-322 a.C.) é considerada, por muitos,
como mais célebre que a ética de Sócrates. Uma das justificativas
para esta posição refere-se ao fato de que Aristóteles desenvolveu
o primeiro estudo profundo e sistemático sobre a Ética.

Aristóteles, tal como Sócrates,


também se dedicou a refletir sobre
a moral. Porém, diferentemente
de Sócrates que nada escreveu (só
conhecemos a filosofia de Sócrates
a partir de registros e testemunhos),
Aristóteles tem uma vasta produção
bibliográfica, sendo que um dos seus
livros, a Ética a Nicômaco, interessa-nos
Figura 7.2 - Aristóteles
(www.anderegg-web.ch)
de modo especial. Por ela, podemos
estudar o cerne da sua ética. A
Ética a Eudemo também é um outro
importante livro de Aristóteles, que
aborda este tema.

Alguns elementos da ética de Sócrates são retomados na ética


de Aristóteles. Sócrates, por exemplo, ao refletir sobre a moral,
fala-nos da virtude, da autonomia e da felicidade – elementos que
também serão alvo de reflexão por parte de Aristóteles.

Se Sócrates pensa a virtude como algo que deve brotar da alma


do sujeito, em função de um conhecimento inato, Aristóteles, por
outro lado, pensa que a virtude não é uma habilidade inata que Que nasce conosco, que
pode ser relembrada. está presente em nós
desde o nosso nascimento
Para Aristóteles, a virtude pode e deve ser adquirida e
desenvolvida pelo exercício. Podemos, então, cultivar a virtude
através de nossa autonomia racional de escolher o que fazer e do
hábito de praticar boas ações.

A virtude, assim, está ligada ao hábito de praticar boas ações,


mas Aristóteles enfatiza que a virtude é conseqüência de nossa
disposição, de nossa escolha racional, de nossa autonomia para
praticar estas boas ações.

Unidade 7 195

filosofia_2008a.indb 195 3/6/2008 14:33:33


Universidade do Sul de Santa Catarina

Se Sócrates não nos propôs o que era a virtude, Aristóteles, por


outro lado, definiu a virtude como o justo-meio, o meio-termo
entre dois vícios, entre duas ações morais contrárias, radicais e
extremas. A virtude, para Aristóteles, é a conseqüência de nossa
escolha deliberada, de nossa disposição em equilibrar duas ações
extremas, dois vícios.

Veja o exemplo.

Imagine que, em determinado


momento de nossa vida,
considerando dois parâmetros
extremos referentes ao prazer,
podemos agir:
„ com libertinagem (isto é,
devemos agir com devassidão?),
que é um vício caracterizado
pelo excesso;
„ ou com insensibilidade (isto é, devemos agir com
indiferença, apatia?), que é um vício caracterizado
pela falta.
Ora, como devemos agir nesta situação?
Para Aristóteles, devemos escolher o meio-termo
relativo a estas duas ações radicais, extremas e
antagônicas, entre estes dois vícios. Ou seja, devemos
agir conforme a temperança (isto é, devemos agir
com moderação). Neste caso, a temperança ou
moderação é o meio-termo, é a virtude que há entre
a libertinagem (vício caracterizado pelo excesso) e a
insensibilidade (vício caracterizado pela falta).

Ao estudarmos a noção de virtude, a própria noção de vício


também fica clara para nós. O que é o vício senão uma atitude
extrema, uma ação moral caracterizada pela falta ou pelo excesso?

196

filosofia_2008a.indb 196 3/6/2008 14:33:33


Filosofia

Aristóteles reflete sobre muitas outras virtudes. Se


você quiser conhecer o raciocínio de Aristóteles sobre
estas outras virtudes, estude a seguinte referência:

„ ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. [a obra-prima


de cada autor], Tradução Pietro Nasseti. São
Paulo: Martin Claret, 2001.

Ou, se você preferir, visualize um quadro sintético


referente às virtudes morais de Aristóteles, na página
453, da seguinte referência:

„ CHAUI, Marilena. Introdução à história


da filosofia. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo:
Companhia das Letras, 2002.

Observe que a ação virtuosa - referente ao nosso exemplo


anterior: a moderação - é resultado da nossa escolha deliberada,
racional e autônoma, uma vez que a ação virtuosa é algo que Examinada, meditada,
está em nosso poder, que está ao nosso alcance. Neste sentido, refletida
Aristóteles destaca que não há um ato moral quando não
podemos escolher ou quando estamos diante de uma situação
marcada pela necessidade (situação em que só podemos agir de
um único modo) ou pela impossibilidade (situação em que não
podemos agir de outro modo).

Este pensador ainda explica que, no domínio da moral, lidamos


com a inexatidão, com irregularidades, pois não há certeza
sobre que ações, de fato, escolheremos. Ora, somos plenamente
capazes de realizar escolhas racionais, virtuosas, mas precisamos
reconhecer, também, que existem inclinações, desejos e paixões
que podem influenciar em muito as nossas escolhas.

Qualquer homem pode concordar que devemos ser vituosos,


até concordar que o meio-termo é um critério adequado para
discernirmos como devemos agir, mas pode, mesmo assim, agir
conforme a sua paixão ou desejo.

Veja como a razão e o hábito são importantes, pois, por meio


da razão, somos capazes de escolher ‘deliberadamente’ qual
ação deve ser praticada; e, através do hábito das ações virtuosas,
acostumamo-nos a frear, a evitar os vícios, assim como nos
acostumamos a praticar boas ações.

Unidade 7 197

filosofia_2008a.indb 197 3/6/2008 14:33:33


Universidade do Sul de Santa Catarina

Aristóteles também defendia que toda ação moral almeja um


fim. E que cada um destes fins, cada objetivo que traçamos,
representa para nós um bem. Ora, se praticarmos uma ação
moral, a honestidade, por exemplo, faz sentido que esta ação
tenha uma finalidade e represente para nós um bem.

Existem inúmeros, incontáveis bens, mas Aristóteles explica que


o maior bem para os seres humanos é a felicidade, pois todos os
outros bens visam, direta ou indiretamente, a felicidade.

Diz o filósofo que a felicidade não é resultado de um consenso,


não é a mesma coisa para todos. A felicidade também não é
algo alcançável de pronto, imediatamente. A felicidade é um
exercício contínuo que se realiza durante toda a vida e que
requer dedicação.

Aristóteles ainda previne que, para o homem agir com virtude e


ser feliz, ele precisa reconhecer que algumas necessidades básicas
devem ser satisfeitas - como ‘certa riqueza’, ‘amizade’, ‘beleza’,
‘boa origem’, ‘família’, - pois ‘não é fácil’ ser virtuoso e feliz sem
estes meios.

Você sabe o que pensa Aristóteles sobre a relação


entre a Ética e a Política?
Aristóteles afirmava que a Ética e a Política estão
extremamente ligadas uma vez que, através delas,
estudamos as práticas do próprio homem. Ainda
afirmava que a Política está um passo além da Ética,
pois o fim almejado por meio do estudo da Ética é a
felicidade do indivíduo. E o fim almejado pelo estudo
da Política é a felicidade pública, a felicidade dos
cidadãos e dos indivíduos, enfim, de todos àqueles
que compõem a polis, a cidade. Por este motivo, ele
propõe que, depois de estudarmos a Ética, devemos
dedicar-nos ao estudo da Política, pensando, assim, na
felicidade de todos.

Você conheceu, introdutoriamente, alguns pontos fundamentais


da ética de Aristóteles, mas atente para o fato de que existem
outros pontos também importantes, que podem ser objeto de seu
estudo se você desejar aprofundá-lo.

198

filosofia_2008a.indb 198 3/6/2008 14:33:33


Filosofia

A ética de Aristóteles fornece uma resposta singular sobre como


devemos agir. Se você ficou impressionado, pode até pensar que
nenhuma ética concorreria com esta. Contudo, a ética de Kant,
assunto da próxima seção, representa uma grande ‘opção’ para o
modo de como devemos agir.

Seção 2 – Kant e o dever


Como estudamos na seção anterior, conforme a ética de
Aristóteles, nós devemos cultivar a virtude com vistas à
felicidade. A ética de Kant (1724-1804), por outro lado, atenua
a importância da felicidade – em relação às ações morais que
praticamos. Para entendermos esta afirmação, precisamos
conhecer alguns elementos da ética de Kant.

Kant é outro grande pensador da


Filosofia e, como tal, escreveu
sobre diversos temas. A essência da
ética de Kant está disposta em seu
livro intitulado Fundamentação da
Metafísica dos Costumes (1785); mas
seu livro Crítica da Razão Prática
(1788) também é importante para
entender a sua ética.

Figura 7.3 - Immanuel Kant


Para Kant, a moralidade vigente
(www.fredsakademiet.dk) não deve impor ao indivíduo o que
ele deve fazer, e sim o indivíduo
deve impor a si mesmo uma moral. Veja que a moral kantiana
procura transcender à história, à cultura e à tradição. Imagine
a revolução que este filósofo deflagrou na Prússia e mesmo na Ultrapassar, elevar-se acima de
Europa, ao colocar em xeque a moral vigente e tradicional - um
pouco antes da Revolução Francesa, no final do século XVIII.

Assim, a ética de Kant prima pela autonomia, pois valoriza o


indivíduo enquanto legislador de sua própria moral e não a
moralidade que nos é exterior. Cada ser humano, racional e livre,

Unidade 7 199

filosofia_2008a.indb 199 3/6/2008 14:33:33


Universidade do Sul de Santa Catarina

pode pensar como deve agir. A moral, na perspectiva kantiana,


tem como base a lei - determinada pelo próprio indivíduo.

Mas a questão é, como podemos determinar esta própria lei


moral? Antes de conhecermos de que modo o indivíduo pode ser
legislador de si mesmo, vamos entender o que é dever e o que é
boa vontade.

O dever, para Kant, é uma obrigação moral que requer, por


definição, liberdade. Assim, o ato de não roubar, por exemplo,
pode ser considerado como uma obrigação moral à medida que eu
tiver liberdade para agir.

Kant pensa que devemos agir considerando o dever, mas que


tal ação deve ser praticada, sobretudo, em função de uma boa
vontade. A boa vontade significa que ‘devemos’ agir por
‘respeito ao dever’, considerando o dever imposto por nossa
própria moral.

Esta boa vontade deve ser aplicada por todos os homens, em


todas as situações e a toda hora. Neste sentido, a boa vontade
deve ser aplicada universalmente, alcançando todos os indivíduos
e situações.

Observe que a compreensão de Kant sobre a boa vontade implica


que temos a ‘obrigação’ de agir sempre por respeito ao dever,
independente do resultado que a ação possa acarretar para nós.

Veja dois exemplos de ações baseadas na boa vontade, em que


agimos por respeito ao dever.

Eu não roubo, pois, em função da boa vontade, eu


respeito o dever.
Eu não minto, pois, em função da boa vontade, eu
respeito o dever (mesmo que eu vá para a cadeia por
tal ação, falando apenas a verdade).

200

filosofia_2008a.indb 200 3/6/2008 14:33:33


Filosofia

Atenção!
Conforme a situação descrita no primeiro exemplo,
muitas pessoas aceitariam agir em função da boa
vontade.
De acordo com a situação descrita no segundo
exemplo, muitas pessoas defenderiam que é um
absurdo agir, neste caso, em função da boa vontade.
Veja que, no exemplo, a minha felicidade ficaria
comprometida se eu fosse preso. Ora, Kant pensa que
mais importante do que a felicidade do indivíduo
é agir por respeito ao dever, conforme uma boa
vontade. Kant não está dizendo que não podemos ser
felizes, mas enfatiza que devemos agir corretamente,
independentemente do fato de sermos felizes. Assim,
devemos agir por respeito ao dever, mesmo que tal
ação nos deixe infelizes.

Observe que a moral kantiana procura transcender às


inclinações, às paixões, às tendências, aos impulsos ou aos desejos
pessoais, pois o homem deve obedecer unicamente à lei moral,
determinada pela própria razão – com base na boa vontade e
assim respeito ao dever.

A partir da idéia de boa vontade, Kant propõe uma máxima


para o indivíduo orientar a constituição de sua própria moral: o
imperativo categórico.

O imperativo categórico expressa que devo agir de tal modo, que


minha ação torne-se um modelo de moralidade, não apenas
para mim, mas para todos os homens e em todas as situações.

O imperativo categórico expressa que a máxima de minha


ação deve tornar-se uma lei universal. Veja que o imperativo
categórico permite que o próprio indivíduo constitua um modelo
universal de conduta, ou seja, uma lei moral.

Assim, o indivíduo torna-se legislador de si mesmo, ao ser


capaz de agir exclusivamente por respeito ao dever, conforme
uma boa vontade e ao obedecer à lei que é determinada por
sua consciência racional e moral, em função do imperativo
categórico.

Unidade 7 201

filosofia_2008a.indb 201 3/6/2008 14:33:33


Universidade do Sul de Santa Catarina

A lei moral é então alcançada pelo homem ao considerar o


imperativo categórico na análise das situações particulares que
vivemos.

Assim, se tivermos dúvidas acerca de que ação moral devemos


praticar, referente, por exemplo, à prática de mentir ou de roubar,
devemos aplicar o imperativo categórico. Mas, lembre-se! A ação
que você determinar para si mesmo praticar é a mesma que você
admitirá como legítima para os outros praticarem.

Saiba mais sobre o significado de imperativo!


Para Kant, ‘imperativo’ indica que uma ação deve
ser praticada. Existem, basicamente, dois tipos de
imperativos, o hipotético e o categórico.
O imperativo hipotético explicita que uma ação
deve ser realizada, mas, para tanto, uma condição
específica, anterior, deve ser satisfeita. Como exemplo,
temos: ‘Se queres respeito, então não roube’.
O imperativo categórico, por sua vez, explicita que
uma ação deve ser praticada e que tal ação, ordem,
não está vinculada a nenhuma condição. O imperativo
categórico é uma ordem formal que nunca está
condicionada à situações ou à particularidades.

Veja que a ética de Kant é formal, pois propõe uma forma de


ação que deve valer para todos os homens. A fórmula de Kant
para a ação não tem um conteúdo específico e nem se refere a
um exemplo particular. Assim, à medida que Kant reflete sobre
as questões morais, ele valorizou um formato, um modelo, um
padrão em função do qual nós devemos orientar nossas ações,
nosso agir.

Conforme o imperativo categórico, a forma da minha ação


tem validade universal, pois se aplica a todas as pessoas, a
todo o universo de seres humanos, e tem validade para todas as
situações. O imperativo categórico expressa que devo agir de tal
forma, que a ação que eu pratico seja válida não apenas para
mim, mas para todos os outros indivíduos.

202

filosofia_2008a.indb 202 3/6/2008 14:33:34


Filosofia

Embora o imperativo categórico tenha validade universal, seja


válido para todos os indivíduos, perceba o quanto ele é vazio
de conteúdo. Ele não diz o que você deve fazer, mas diz de que
forma deve ser a sua ação.

Se você deseja aprofundar seus conhecimentos sobre


a ética de Kant, estude a seguinte referência:

„ KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica


dos costumes e outros escritos. [A obra-prima
de cada autor], Tradução Leopoldo Holzbach. São
Paulo: Martin Claret, 2005.

Seção 3 – Mill e a utilidade


O londrino John Stuart Mill (1806-1873) defendeu uma ética
utilitarista, principalmente através do seu livro Utilitarismo.
É viável falar em uma ética utilitarista, pois há várias éticas
utilitaristas produzidas, conforme as especificidades defendidas
por alguns outros filósofos.

Porém, em toda ética utilitarista a utilidade é o critério que deve


orientar a escolha da ação moral.

Na ética de Mill, especificamente,


defende-se que toda ação moral deve
visar à utilidade em vista da realização
da felicidade. A felicidade, por sua vez,
é o maior bem que podemos almejar
e está ligada fundamentalmente à
ausência de dor e presença de prazer,
mas não apenas isso, pois, para sermos
felizes, também necessitamos cultivar a
virtude e aprimorar o caráter.
Figura 7.4 - John Stuart Mill
Assim, toda ação moral deve considerar (www.bun.kyoto-u.ac.jp)
o critério da utilidade com vistas à

Unidade 7 203

filosofia_2008a.indb 203 3/6/2008 14:33:34


Universidade do Sul de Santa Catarina

realização da nossa felicidade. E as ações morais são avaliadas -


como corretas (boas) ou como incorretas (más) - à medida que se
constituem meios para se alcançar a felicidade.

Ainda, as ações morais não devem visar à felicidade de um único


indivíduo, de modo egoísta, e sim devem visar à felicidade do
maior número possível de indivíduos.

Logo, a bondade da ação moral depende da ‘maior’ felicidade,


para o ‘maior’ número de pessoas.

Então, como devemos agir moralmente?

Segundo Mill, nossa ação moral deve considerar a utilidade como


citério para a escolha da ação moral, com vistas à realização da
felicidade, para o maior número de indivíduos.

Vamos a um exemplo.

Considere que você está em uma festa e, em função


do contexto, tem a possibilidade de agir de inúmeros
modos, por exemplo, com libertinagem, moderação
ou com apatia, etc. A questão é:

- Como você deve agir, conforme o


utilitarismo de Mill?

Ora, você deve considerar a utilidade como critério


para a escolha da ação moral, com vistas à realização
da felicidade, para o maior número de pessoas.

Observe que, conforme a ética de Mill, não precisamos agir


de modo rígido, fi xo, formal - como é o caso da ética kantiana
– pois para diferentes situações e diferentes indivíduos a utilidade
das ações apresenta-se variável, mutável, diversa.

204

filosofia_2008a.indb 204 3/6/2008 14:33:34


Filosofia

Se para Kant a felicidade não é o fim mais importante que


orienta nossa ação moral, para Mill a felicidade representa o fim
mais alto, em função do qual devemos agir. Por outro lado, tanto
na ética de Mill quanto na ética de Aristóteles, a felicidade é
considerada como um fim da ação moral.

Embora a ética de Mill seja bem mais complexa do que aqui


expomos, ela é de fácil entendimento e aplicação, razões que
contribuem para sua grande aceitação.

Atenção!
Observe, com cuidado, que o utilitarismo de Mill
implica que nada é ‘proibido’ e que ‘todas as normas
são relativas’ - o que é extremamente delicado para o
nosso harmônico convívio social.
Ora, se a bondade da ação depende da maior felicidade,
para o maior número de pessoas, então o que garante
que a felicidade da maioria não possa causar danos à
felicidade de um número menor de pessoas?
Vamos a um exemplo. Imagine um hospital com
cinco pessoas na UTI. Destas, quatro morrerão se não
receberem imediatamente pelo menos um órgão de
algum doador. A outra pessoa presente na UTI é um
doador universal que está em fase de recuperação.
Veja que, na perspectiva do utilitarismo, justificaria-
se abreviar a vida deste último para salvar a vida dos
outros quatro.
Em nossa sociedade, esta perspectiva utilitarista é,
neste caso, inaceitável. Veja, então, que a aplicação do
utilitarismo para “certas situações” é complicada, para
não dizer absurda.

Se você desejar conhecer mais sobre o utilitarismo de


Mill, consulte a seguinte referência:
„ MILL, John Stuart. Utilitarismo. Coimbra: Atlântida
Editora, 1976.

Unidade 7 205

filosofia_2008a.indb 205 3/6/2008 14:33:34


Universidade do Sul de Santa Catarina

Síntese

Nesta unidade, você estudou a ética de Aristóteles, a de Kant e


a de Mill. Ao conhecer alguns elementos da ética de Aristóteles,
identificou que devemos cultivar a virtude através da razão e do
hábito; e que a virtude é a nossa escolha deliberada e autônoma
do meio-termo entre dois vícios estremos. Viu que os vícios
são ações morais marcadas pela falta ou pelo excesso. Também
estudou que toda ação moral humana visa um bem, e que o
maior bem a ser desejado e alcançado é a felicidade. Assim, para
agirmos corretamente, devemos cultivar a virtude.

Com a ética de Kant, você estudou que o indivíduo deve agir por
respeito ao dever em função da boa vontade. A felicidade é então
atenuada, pois mais importante é agir conforme o imperativo
categórico, máxima formal que generaliza as ações morais que
devem ser racionalmente escolhidas e praticadas. Deste modo,
o indivíduo torna-se legislador de si mesmo, escolhendo ações
morais autônomas e evitando uma moralidade que lhe é exterior,
que é tradicional. Assim, mesmo diante das particularidades
de ações morais específicas vividas pelos indivíduos, é possível
agir de modo moralmente correto considerando o imperativo
categórico.

Com a ética de Mill, você estudou que a utilidade é o critério


que deve nortear nossa ação, com vistas à realização de nossa
felicidade. Ainda viu que a ação é julgada como correta ou
incorreta em função da maior quantidade de felicidade alcançada,
para o maior número de indivíduos.

Observe que as três éticas - a de Aristóteles, a de Kant e a


de Mill - são éticas normativas, pois procuram estabelecer e
normatizar como deve ser a ação para todos.

206

filosofia_2008a.indb 206 3/6/2008 14:33:34


Filosofia

Atividades de auto-avaliação
Ao final de cada unidade, você realizará atividades de auto-avaliação. O
gabarito está disponível no final do livro-didático. Mas, esforce-se para
resolver as atividades sem ajuda do gabarito, pois, assim, você estará
estimulando a sua aprendizagem.

1) Cace as palavras. Esta atividade visa exercitar sua capacidade de


identificação de alguns termos fundamentais relativos à ética de
Aristóteles. Observação! Você precisa selecionar, no texto abaixo, estes
termos fundamentais:

„ três locuções formadas por duas palavras.


„ oito palavras.

A ética de Aristóteles considera fundamental a escolha racional e o


hábito como fundamentais para cultivar a virtude. Tal prática da virtude é
conseqüência de nossa disposição autônoma em detrimento das nossas
inclinações, paixões ou desejos. A virtude consiste, propriamente, na
ação moral que considera o justo-meio como um equilíbrio entre dois
vícios extremos. Tais vícios são marcados pela radicalidade da ação, seja
pela falta ou pelo excesso. A prática da virtude tem sempre um fim, que
representa um bem para o próprio indivíduo, e o bem mais alto que
podemos almejar e encontrar é a felicidade.

P A S E D A S D I S A B E M T U T J T
R I U Q A R I D S E M A C A V E Ó U R
A R E R C I D S E M A I V B R O N S S
F A T L U S S A X A R P E R I O N T N
V F E F I T A Í R É T I C A R A R O R
Í I R E Z Ó Q T Ó N E R R S I S T M E
C M N L S T A M Z G E J E T R E J E A
I O X I T E C Z V I R T U D E C A I D
O Q R C T L E R A S D E F G H I J O A
M Ã L I M E R A R R Ô H Á B I T O T P
E I T D A S M U I O I M S B O C R I E
R E R A S K C L R R P R A T P A V N S
Z A Á D A L B R É N Z E S X S U S E A
S A N E S C O L H A R A C I O N A L A
I S S R I T N E M A I R A T P U T H P
E D I S P O S I Ç Ã O A U T Ô N O M A

Unidade 7 207

filosofia_2008a.indb 207 3/6/2008 14:33:34


Universidade do Sul de Santa Catarina

2) Associe as passagens seguintes com as respectivas interpretações. Para


tanto, estude e interprete cada uma das passagens referentes à ética de
Aristóteles, que foram extraídas do livro Ética a Nicômaco. Esta atividade
visa exercitar sua capacidade de análise e síntese da ética de Aristóteles.

I) “tanto o vulgo como os homens de cultura superior dizem ( ) Para ser virtuoso e feliz,
que esse bem supremo é a felicidade [...] porém, divergem o homem precisa satisfazer
a respeito do que seja a felicidade [...] Voltemos ao bem [...] certas necessidades básicas,
ele é a finalidade em todas ações e propósitos, pois é por sua até mesmo materiais. A
causa que os homens realizam tudo o mais. Se, pois, existe uma prosperidade alcançada a
finalidade visada em tudo o que fazemos, tal finalidade será o partir destes meios, permite,
bem atingível pela ação, e se há mais de uma, serão os meios mais facilmente, praticar a
atingíveis por meio dela”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 19-25). virtude e alcançar a felicidade.

II) “o bem do homem vem a ser a atividade da alma em ( ) A virtude não é inata.
consonância com a virtude [...] Mas é preciso acrescentar ‘em Mas, em função da natureza
uma vida inteira’, pois uma andorinha não faz verão, nem um dia humana, é possível ser vituoso.
tampouco; e da mesma forma um dia só, ou um curto espaço de A vitude é uma capacidade
tempo, não faz um homem feliz”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 27). que se desenvolve com
o hábito, e que deve ser
exercitada.

III) “[...] a felicidade necessita igualmente dos bens exteriores, pois


( ) Esta passagem relaciona
é impossível, ou pelo menos não é fácil, praticar atos nobres sem
bem e felicidade. O ‘bem’
os devidos meios. Em muitas ações usamos como instrumento
representa a finalidade de
os amigos, a riqueza e o poder político; e há coisas cuja ausência
todas as nossas ações. E, a
empana1 a felicidade - como a estirpe2, a boa descendência3, a
felicidade é o bem supremo
beleza. De fato, o homem de muito má aparência, ou mal-nascido,
que todos os homems aspiram.
ou solitário e sem filhos, não tem muitas probabilidades de ser
Contudo, a felicidade não é
feliz [...] Como dissemos, pois, o homem feliz parece necessitar
consenso para todos.
também desse tipo de prosperidade”. (ARISTÓTELES, 2001, p. 30).

IV) “Não é, portanto, nem por natureza nem contrariamente


( ) O homem é virtuoso
à natureza que as virtudes se geram em nós; antes devemos
à medida que se propõe
dizer que a natureza nos dá a capacidade de recebê-las, e tal
escolher deliberadamente,
capacidade se aperfeiçoa com o hábito [...] não foi por ver ou
com a razão, o que fazer; e a
ouvir repetididamente que adquirimos a visão ou a audição,
vitude, neste sentido, é o meio-
mas, pelo contrário, nós as tínhamos antes de começar a usá-las,
termo entre dois vícios, que,
e não foi por usá-las que passamos a tê-las. No entanto, com as
por sua vez, estão marcados
virtudes dá-se extamente o oposto: adquirimo-las pelo exercício”.
pelo excesso ou pela falta.
(ARISTÓTELES, 2001, p. 40).

V) “A virtude é, então, uma disposição de caráter relacionada com


( ) As ações virtuosas sempre
a escolha de ações e paixões, e consistente numa mediania, isto
visam um bem. Mas, para
é, a mediania relativa a nós, que é determinada por um princípio
ser feliz, o homem necessita
racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. É um
de uma vida inteira de ações
meio-termo entre dois vícios, um por excesso e ourto por falta”.
virtuosas.
(ARISTÓTELES, 2001, p. 49).

1 encobre, esconde
2 refere-se às gerações anteriores
3 refere-se às gerações posteriores

208

filosofia_2008a.indb 208 3/6/2008 14:33:34


Filosofia

Encontre a seqüência que corresponde à associação correta das passagens


com as interpretações. Há apenas uma seqüência correta:

A) I, III, II, V, IV.


B) II, III, IV, I, V.
C) V, III, IV, I, II.
D) III, IV, I, V, II.

3) Associe as passagens seguintes com as respectivas interpretações. Para


tanto, estude e interprete cada uma das passagens referentes à ética
de Kant, que foram extraídas do livro Fundamentação da Metafísica
dos Costumes. Esta atividade visa exercitar sua capacidade de análise e
síntese da ética de Kant.

I) “devo agir sempre de modo que possa querer ( ) O respeito ao dever é


também que minha máxima se converta em lei uma condição necessária e
universal”. (KANT, 2005, p. 29). fundamental na ética kantiana;
respeito ao dever que, sem o
qual, não se pode falar em boa
vontade.

II) “compreendo também que a necessidade ( ) Aqui se explicita que


de minhas ações, por puro respeito à lei [...] o imperativo categórico
é o que consitui o dever perante o qual tem não depende de nenhuma
de se inclinar qualquer outro fundamento outra ação moral. Também é
determinante, pois ele é a condição da boa explicito que tal imperativo
vontade em si, cujo valor a tudo supera”. (KANT, indica ‘a’ necessária obrigação
2005, p. 31). moral.

III) “o imperativo categórico [...] não é limitado ( ) Para agir, devemos


por nenhuma condição e se pode chamar considerar nossa racionalidade
propriamente mandamento absoluto, posto que e autonomia. Todo aquele que
praticamente necessário”. (KANT, 2005, p. 44-47). não pensa por si mesmo, é
dirigido por outro indivíduo.

IV) “Esclarecimento significa a saída do homem ( ) Esta é a formulação


de sua menoridade, da qual o culpado é ele clássica do imperativo
próprio. A menoridade é a incapacidade de categórico. Esta passagem
fazer uso de seu entendimento sem a direção de exprime que a ação moral
outro indivíduo. O homem é o próprio culpado que eu pratico deve sempre
dessa menoridade se a sua causa não estiver na almejar uma forma, um
ausência de entendimento, mas na ausência de modelo, de ação válida para
decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem todos os indivíduos.
a direção de outrem. Sapere aude! Tem a ousadia
de fazer uso de teu próprio entendimento”.
(KANT, 2005, p. 115). Ouse saber!

Unidade 7 209

filosofia_2008a.indb 209 3/6/2008 14:33:35


Universidade do Sul de Santa Catarina

Encontre a seqüência que corresponde à associação correta das passagens


com as interpretações. Há apenas uma seqüência correta:
A) I, II, III, IV. B) II, III, IV, I. C) III, IV, I, II. D) IV, III, II, I.

4) Estude e interprete as seguintes passagens referentes à ética de


Mill, contidas na obra Utilitarismo. Esta atividade visa exercitar sua
capacidade de análise e síntese da ética de Mill.

A) “A convicção que aceita a utilidade o princípio da maior


felicidade como o fundamento da moral admite que as ações são
corretas na proporção em que promovem a felicidade, e erradas
na medida em que poduzem o contrário da felicidade” (MILL,
1987, p. 16 apud BORGES; DALL’AGNOL; DUTRA, 2002, p. 33).

B) “O utilitarismo somente pode atingir os seus fins pelo cultivo


geral da nobreza de caráter”. (MILL, 1987, p. 22 apud BORGES;
DALL’AGNOL; DUTRA, 2002, p. 35).

5) Esta atividade visa exercitar sua capacidade de distinguir a ética de


Aristóteles, de Kant e de Mill. Para tanto, marque as sentenças seguintes
com ‘A’, ‘K’ e ‘M’ ao identificar uma tese correspondente à ética de
Aristóteles, de Kant ou de Mill.

a) ( ) a bondade da ação depende da maior felicidade, para o


maior número de indivíduos.
b) ( ) a virtude pode ser cultivada através da razão e do hábito.
c) ( ) a boa vontade significa que devemos agir por respeito ao
dever.
d) ( ) a utilidade deve nortear a nossa ação moral.
e) ( ) a virtude é o meio-termo entre dois vícios.
f) ( ) o imperativo categórico é a máxima que deve orientar as
nossas ações morais.

210

filosofia_2008a.indb 210 3/6/2008 14:33:35


Filosofia

6) Caro aluno, em função dos estudos desenvolvidos nesta unidade,


você deve ter percebido que a ação moral correta (boa) ou incorreta
(má) depende de criérios, de regras, de fundamentos, que variam
conforme a respectiva ética. As três éticas que você estudou são
propostas de como devemos agir. Certamente, no percurso da
história da humanidade, muitas outras teorias éticas ainda surgirão.
O aparecimento de outras éticas depende da vontade de pensarmos
nas éticas já existentes e de propormos alternativas. Bom, o desafio
(desafio nada fácil) que lhe propomos é o seguinte: como podemos
ser melhores?
Ao responder esta pergunta, indique (mínimo 20 e no máximo 30
linhas) uma ética alternativa, ao expor um critério em função do
qual nossas ações devem ser orientadas e ao expor um motivo que
justifique agirmos de modo moralmente bom. Esta atividade visa
exercitar sua autonomia, reflexão, crítica e criatividade.

Unidade 7 211

filosofia_2008a.indb 211 3/6/2008 14:33:35


Universidade do Sul de Santa Catarina

212

filosofia_2008a.indb 212 3/6/2008 14:33:35


Filosofia

Saiba mais

Você pode aprofundar o seu entendimento sobre a ética de


Aristóteles, a de Kant e a de Mill ao estudar as seguintes
referências:

„ ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. [A obra prima de


cada autor], Tradução Pietro Nasseti. São Paulo: Martin
Claret, 2001.

„ BORGES, Maria de Lordes; DALL’AGNOL, Darlei;


DUTRA, Delamar Volpato. Ética. [O que você precisa
saber sobre], Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

„ CHAUI, Marilena. Introdução à história da


filosofia. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Companhia da
Letras, 2002.

„ KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica


dos costumes e outros escritos. [A obra-prima de cada
autor], Tradução Leopoldo Holzbach. São Paulo: Martin
Claret, 2005.

„ VÁZQUEZ, Adolfo Sanches. Ética. 12. ed. Rio de


Janeiro: Civilização Brasileira, 1990.

Unidade 7 213

filosofia_2008a.indb 213 3/6/2008 14:33:35


filosofia_2008a.indb 214 3/6/2008 14:33:35
8
UNIDADE 8

Questões da Ética Contemporânea


Leandro Kingeski Pacheco

Objetivos de aprendizagem
„ Identificar algumas considerações éticas dos seguintes
filósofos contemporâneos: Nietzsche, Foucault, Rawls e
Singer.

Seções de estudo
Seção 1 O martelo de Nietzsche

Seção 2 Foucault e o cuidado de si

Seção 3 A teoria da justiça de Rawls

Seção 4 Singer e a ética prática

filosofia_2008a.indb 215 3/6/2008 14:33:35


Universidade do Sul de Santa Catarina

Para início de estudo


Enfim chegamos à última unidade. Parabéns por seu empenho
e comprometimento nos estudos. Você continuará a estudar a
Ética, agora considerando, brevemente, algumas reflexões de
quatro filósofos contemporâneos: Nietzsche, Foucault, Rawls
e Singer. Estas respectivas reflexões modificaram e ampliaram
nosso olhar sobre como devemos agir moralmente e, por isso, são
agora estudadas por você.

Embora estes filósofos situem-se, historicamente, mais próximos


de nós, não deixam de nos causar espanto com seus pensamentos
inéditos e radicais. A grosso modo, o homem contemporâneo -
que presencia tantas guerras, ganâncias e brutalidades - desconfia
até de si mesmo, pois as relações parecem estar cada vez mais
extremas, delicadas, perigosas ou estúpidas.

Por que vemos nos noticários notícias inadmissíveis, referentes à


ação moral? Por que um juiz, uma pessoa de ‘reputação ilibada’ -
que utiliza a razão (além da doutrina, é claro) para julgar casos de
nossa sociedade - mata à bala, futilmente, um vigia (desarmado)
de um supermercado, só porque o estabelecimento estava
fechado, e não poderia ser reaberto?

Por que um engenheiro, um indivíduo com ‘formação superior’,


atropela e mata a própria esposa (indefesa), desconsiderando,
ainda, a companhia de dois filhos dentro do próprio carro?

Tais atrocidades, crueldades, não se justificam. Jamais...


Contudo, infeliz e tragicamente, os exemplos anteriores têm,
como fonte, casos verídicos de nossa sociedade e de nosso tempo,
e não apenas meras hipóteses de estudos.

Na contemporaneidade paira certa desconfiança sobre o homem e


sua razão, como ser ‘capaz’ de agir racional e moralmente melhor;
ou como ser que ‘quer’ agir moralmente melhor. Bom, vamos aos
quatro filósofos e as suas reflexões.

216

filosofia_2008a.indb 216 3/6/2008 14:33:35


Filosofia

Seção 1 – O martelo de Nietzsche


A ética de Nietzsche (1844-1900) pode ser comparada à ação
de um martelo, pois com um martelo podemos destruir. Mas a
questão é:

O que a ética de Nietzsche propõe destruir?

Ídolo, para Nietzsche, é


Nietzsche propõe destruir a então vigente moralidade européia todo tipo de símbolo que é
adorado excessivamente.
ocidental e contemporânea, fundamentada em ídolos vazios
e valores que só oprimem e anulam o homem. Em função
de tal moral frustrante, castradora e limitadora - o homem
contemporâneo vive o niilismo, vive para o nada, pois cada vez
mais se anula. Niilismo é uma palavra
derivada de nihil, que, por
Para entender o parágrafo anterior, sua vez, significa nada.
precisamos remeter-nos às Assim, niilismo significa o
características básicas da moral que sistema que nadifica, que
Nietzsche critica e que quer demolir anula todas as coisas, seres
e situações.
com seu ‘martelo’. Tal moral está
associada, principalmente, à moral
cristã e à filosofia metafísica de
Platão. Mas, por que a moral cristã
e a filosofia metafísica de Platão
são alvos do martelo de Nietzsche?
Vamos por etapas.

Segundo Nietzsche, a moral cristã, Figura 8.1 - Friedrich Wilhelm Nietzsche


(pt.wikipedia.org)
a moral do rebanho de ovelhas
defende o cultivo de certos valores
como, por exemplo, a humildade (os humilhados serão exaltados)
e a mansidão (os mansos herdarão a terra). Para o filósofo,
estes valores que fundamentam a ação moral estão anulando o
homem, pois este se mantém a todo instante passivo, conformado
e resignado. Assim, estes e outros valores da moral cristã não
merecem aprovação.

Unidade 8 217

filosofia_2008a.indb 217 3/6/2008 14:33:35


Universidade do Sul de Santa Catarina

Para Nietzsche, a concepção moral cristã de bem


e de mal está dissociada da realidade, do mundo,
da existência do próprio indivíduo; assim como
está fundamentada em inexistentes planos divinos
ou infernais. Em função da moral cristã, a moral
dos ‘fracos’, dos ‘escravos’ é preferível à moral do
forte. Por outro lado, a ação moral e os modelos de
conduta cristãos desvalorizam os belos, os ricos e
os fortes. Nietzsche propõe, então, destruir todos
os tipos de ‘ídolos’ cristãos que entorpecem a visão
moral do homem.

Nietzsche também propõe destruir os ‘ídolos’


que têm como fonte a filosofia metafísica de
Platão. Para o primeiro, toda fi losofia metafísica
Figura 8.2 – Martelo de Nietzsche
(Alex Xavier)
é desprovida de fundamento, uma vez que suas
explicações não correspondem à realidade, não
passando de uma mera ilusão.

Considere a seguinte explicação, para entendimento da crítica de


Nietzsche à ‘filosofia metafísica’ de Platão.

Embora Platão não tenha discorrido especificamente


sobre uma ética em seus escritos, está evidente
que todo homem racional deve agir considerando
a idéia universal de ‘Bem’, que, por sua vez, orienta
as condutas morais do homem. Assim, para Platão,
se o homem agir conforme a idéia de ‘Bem’, agirá
corretamente. Contudo, Nietzsche expõe que não
existe uma idéia universal de ‘Bem’, que não existe
mesmo nada metafísico, nem mesmo uma idéia, que
possa orientar a nossa ação.
Aquilo que está além da física, de nossa realidade.
Nietzsche critica ainda a filosofia de Platão, porque
esta filosofia condena os nossos sentidos. Ora, ele
valoriza e elogia justamente a nossa existência, o
nosso corpo e as nossas sensações.

Em função da crítica dirigida aos ‘ídolos’ cristãos e platônicos-


metafísicos, Nietzsche propõe a necessidade de destruirmos
totalmente o sistema de valores vigente. Neste sentido, ele propõe
uma transvaloração dos valores.

218

filosofia_2008a.indb 218 3/6/2008 14:33:36


Filosofia

Que significa a transvaloração dos valores?

Significa que devemos destruir todos os valores que conduzem


o homem ao niilismo; e que devemos continuar agindo, mas,
agora, a partir de uma outra concepção moral, fundamentada no
homem, em sua própria existência, conforme, sobretudo, a sua
respectiva vontade de poder.

Vontade de poder refere-se a nossa vontade de viver, a nossa


energia de fazer, de criar, de agir; refere-se ao nosso ‘querer’
muito antes de tantos ‘deveres’. Para Nietzsche, a vontade de
poder do homem nunca foi manifestada, pois estava impedida
pelas moralidades associadas aos ‘ídolos’.

Como crítica à moral niilista e conforme a vontade de poder,


devemos valorizar a riqueza, a beleza, a força como perspectivas
de um agir ativo, guerreiro, audacioso, existencial, humano.

Uma vez que nossa vontade não é fi xa, também nossa


moralidade deve apresentar um caráter cambiante, mutável.
Assim, nenhum valor metafísico, idealizado, cristalizado,
nenhuma essência deve orientar as ações morais humanas. Por
outro lado, todas as ações morais humanas devem ter como
princípio a própria vontade de poder.

Quando cada homem comum for capaz de fazer escolhas de


acordo com a sua vontade de poder, ele se transformará em
um super-homem. ‘Super-homem’, denominação de um outro
estágio a ser alcançado pelo homem, representa a superação do
atual estado em que o homem se encontra.

Unidade 8 219

filosofia_2008a.indb 219 3/6/2008 14:33:36


Universidade do Sul de Santa Catarina

Se você quiser aprofundar seus conhecimentos


relativos à ética de Nietzsche, você pode estudar a
seguinte referência:
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou
Zaratustra. [A obra-prima de cada autor], Tradução
Pietro Nasseti. São Paulo: Martin Claret, 2002.
Este livro pode ser baixado, em espanhol, no seguinte
site:
http://www.dominiopublico.gov.br
Observe que há, ainda, outros livros de Nietzsche que,
também, podem ser consultados nesse site.

Seção 2 – Foucault e o cuidado de si


Em toda obra de Foucault (1926-
1984) há uma forte conotação
moral. Contudo, Foucault
concentra seus estudos sobre a
Ética ao final de sua carreira, pouco
Foucault acentua que as relações antes de morrer. Na entrevista
humanas são permeadas por
intitulada A Ética do Cuidado de Si
relações de poder. Nestas relações
de poder, entre os próprios como Prática da Liberdade, de 1984,
humanos, pode haver atenuação da Foucault expõe objetivamente o que
Figura 8. 3 - Michel Foucault
liberdade e obstrução da resistência. pensa sobre a Ética, assim como
(www.foucaultsociety.org)
Em tais relações há um “estado sobre a prática moral do sujeito.
de dominação”, pois a liberdade
de uma das partes envolvidas Neste texto, o filósofo expõe que suas pesquisas iniciaram ao
encontra-se limitada.
investigar o sujeito emaranhado em relações de poder (relações
que, muitas vezes, expressavam práticas coercitivas) - relativas à
psiquiatria e ao sistema penitenciário.

220

filosofia_2008a.indb 220 3/6/2008 14:33:36


Filosofia

Porém, suas pesquisas agora atentam para a prática de si, a


prática de autoformação do sujeito - questão relacionada
diretamente à ética.

Esta autoformação do sujeito, esta prática de si, é detectada como


um fenômeno de origem greco-romana antiga. Foucault trata esta
autoformação do sujeito como o cuidado de si, enquanto cerne de
sua ética.

O cuidado de si não é uma prática moral de simples


renúncia, mas é um exercício, uma prática moral
de si sobre si mesmo, que permite ao sujeito
transformar-se e atingir um modo de ser.

O cuidado de si é um exercício em que o sujeito pratica a


liberdade. A liberdade é vista, por sua vez, como condição básica
para a existência da ética. E a ética é entendida como a prática
refletida, racional da liberdade.

Se, por um lado, o cuidado de si é uma prática em que se exercita Autocontrole, moderação,
a liberdade, por outro lado esta liberdade não significa liberdade prudência, comedimento.
absoluta, mas, antes, autodomínio1 , autoconhecimento2, além Conhecimento de si
do conhecimento de certas regras de conduta e prescrições3 mesmo.
morais. Normas, regras.

Observe, ainda, que o cuidado de si não significa amor exagerado


por si mesmo, nem negligência pelos outros, nem abuso dos
outros, mas, também, cuidado dos outros. Contudo, o cuidado
dos outros é, para Foucault, um momento posterior ao cuidado de
si. Assim, à medida que eu exercitar o cuidado de mim mesmo,
desenvolvo condições para também cuidar dos outros.

A ética de Foucault é um convite para a autoformação do sujeito,


para o cuidado de si, entendido como uma prática moral, um
exercício autônomo da liberdade, relativo ao modo como devemos
agir. Observe, porém, que não há aqui a proposição de uma
norma rígida sobre como deve ser a nossa conduta moral.

Unidade 8 221

filosofia_2008a.indb 221 3/6/2008 14:33:36


Universidade do Sul de Santa Catarina

Se você quiser aprofundar seus conhecimentos


relativos à ética de Foucault, você pode estudar a
seguinte referência:
• FOUCAULT, Michel. A Ética do cuidado de si como
prática da liberdade. In: Ética, sexualidade, política.
[Ditos e escritos; V] Organização e seleção de textos
Manoel Barros da Motta; tradução Elisa Monteiro,
Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2004.

Seção 3 – A teoria da justiça de Rawls


John Rawls (1921-2002) propôs,
em 1971, Uma teoria da justiça, um
estudo que abrange tanto o campo da
Ética, quanto o campo da Política.
Esta teoria abrange a Ética no que
tange às reflexões pertinentes às
ações morais relativas a uma pessoa,
e Política no que tange às reflexões
pertinentes às ações dos cidadãos,
organizados socialmente. Para Rawls,
a justiça, em questão, decorre de um
Figura 8.4 - John Rawls
contratualismo moral.
(educaterra.terra.com.br)

Neste livro, Rawls afirma que uma


Concepção na qual a sociedade e o concepção qualquer de justiça exprime uma concepção de pessoa,
Estado têm origem em um pacto
ou contrato social, livremente
de relações e de sociedade. E, se aceitarmos os princípios que
estabelecido por seus integrantes. embasam esta concepção de justiça, então, por conseqüência,
aceitaremos o respectivo ideal, modelo de pessoa e de relações.

A partir deste argumento, o norte-americano convida-nos


a pensar em uma sociedade bem ordenada, fruto de uma
concepção de justiça ideal, coerente com o tipo de pessoa que
queremos ser e a forma de sociedade em que queremos viver.

222

filosofia_2008a.indb 222 3/6/2008 14:33:36


Filosofia

Nesta teoria, a sociedade bem ordenada fundamenta-se em uma


concepção de justiça social, que decorre de um debate ético de
pessoas racionais e morais. Rawls propõe que:

Sociedade bem ordenada é aquela regulada por


um conceito público de justiça, onde todos sabem e
aceitam os mesmos princípios de justiça.

A sociedade bem ordenada é


formada por pessoas morais,
livres e iguais. Morais porque
apresentam um senso de justiça
e porque vêem os outros nesta
mesma perspectiva; iguais
porque admitem para si e para
os outros o direito de determinar
os princípios que devem nortear a estrutura social; livres porque
admitem para si e para os outros o direito de serem livres e,
mesmo, de discutir a finalidade das instituições sociais.

Para exisitir, a sociedade bem ordenada necessita de princípios


de justiça que orientem a ação. Estes princípios de justiça são
necessários porque permitem arbitrar os diferentes arranjos
sociais; atribuir direitos e deveres à estrutura básica da
sociedade; e especificar como as insituições devem distribuir Composta pelas instituições
os frutos da cooperação social. Observe que, nesta concepção sociais fundamentais
de sociedade bem ordenada, a sua estrutura básica é o objeto
primário de justiça.

Os princípios de justiça para a sociedade bem ordenada


expressam o seguinte (o primeiro princípio tem prioridade sobre
o segundo):

1) todos têm direitos iguais de liberdade;

2) as desigualdades sociais e econômicas estão


condicionadas:

a) ao maior benefício para os menos favorecidos;

b) aos cargos e empregos para todos, com mesmas


condições de oportunidade de acesso.

Unidade 8 223

filosofia_2008a.indb 223 3/6/2008 14:33:36


Universidade do Sul de Santa Catarina

Entre as razões que justificam estes dois princípios de justiça,


adequados à sociedade bem ordenada, está a de que eles
estabelecem a proteção dos interesses fundamentais dos membros
de tal sociedade.

Mas, de que modo surgiriam tais princípios de justiça?

Estes princípios de justiça decorreriam de uma situação


hipotética, denominada posição original. Especificamente,
os princípios de justiça decorrem das escolhas e deliberações
Momento em que ainda não há um
contrato fundamental que garanta feitas pelas pessoas morais, livres e iguais - com a finalidade
o convívio político e social. de estabelecer o governo da estrutura básica da sociedade.
Observe que tais princípios constituem, por sua vez, a base
de um contrato social (acordo estabelecido por cada um dos
contratantes, que representam as várias facetas da sociedade).

Rawls destaca a necessidade de haver um véu de ignorância


sobre as pessoas, quando estas escolhem os princípios de justiça,
pois à medida que os contratantes desconhecerem suas respectivas
condições particulares na sociedade, de modo mais imparcial
encontrariam os princípios de justiça já mencionados.

Embora se estabeleçam princípios de justiça, primariamente, para


a estrutura básica da sociedade, de uma sociedade bem ordenada,
é inegável que estes princípios influenciam a ação moral das
ditas pessoas morais, livres e iguais, uma vez que as mesmas, ao
formularem tais princípios, os aceitam e os conhecem.

224

filosofia_2008a.indb 224 3/6/2008 14:33:36


Filosofia

Conforme Borges, Dall’Agnol e Dutra (2002), os princípios de


justiça, além de estarem sujeitos ao véu de ignorância, também
estão sujeitos a restrições formais. Veja as características formais
que cada princípio deve apresentar:

„ Generalidade - pois o princípio deve abranger a generalidade


das circunstâncias e não se circunscrever a uma circunstância
em particular.

„ Universalidade - pois deve ser válido para todas as pessoas


morais.

„ Publicidade - pois deve ser conhecido por todos.

„ Ordenação de reinvindicações conflitantes - pois deve


estabelecer uma ordenação de justiça, impedindo outra
ordenação que tenha origem, por exemplo, na força ou na
astúcia.

„ Finalidade - pois não há uma regra anterior e, assim, o


princípio deve ser respeitado diretamente. E, uma vez
escolhido, deve ser cumprido.

Se você quiser aprofundar seus conhecimentos


relativos à teoria da justiça de Rawls, consulte as
seguintes referências:

• BORGES, Maria de Lordes; DALL’AGNOL, Darlei;


DUTRA, Delamar Volpato. Ética. [O que você
precisa saber sobre], Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

• OLIVEIRA, Nythamar. Rawls. [Passo-a-passo], Rio de


Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

Unidade 8 225

filosofia_2008a.indb 225 3/6/2008 14:33:36


Universidade do Sul de Santa Catarina

Seção 4 - Singer e a ética prática


Basicamente, Peter Singer (1946)
investiga a aplicação da ética a
questões práticas, que fazem parte
das discussões de nosso cotidiano,
como a igualdade para as mulheres,
o tratamento de minorias étnicas,
a preservação do meio ambiente, a
eutanásia, o aborto, o uso de animais
em pesquisas e na fabricação de
alimentos, etc.
Figura 8.5 – Peter Singer
As reflexões de Peter Singer sobre (www.princeton.edu/~psinger/)
a ética podem ser encontradas,
fundamentalmente, em seu livro Ética
Prática. Neste livro, Singer expõe o que pensa sobre a ética, o
método que acredita ser o mais adequado para tratar das ações
morais, assim como estabelece uma série de reflexões relacionadas
à ética prática. Em um dos textos deste livro, Singer propõe,
conforme seu modo de pensar, o que a ética é e o que não é.

Veja, primeiro, algumas considerações sobre o que a ética não é.

O que a ética não é


Para Singer, a ética não pode ser encarada como um sistema de
irritantes proibições cotidianas, nem pode ser encarada como um
código específico de moralidade, que nos diria, especificamente,
o que fazer ou não fazer.

Por outro lado, a ética não se reduz a uma série de restrições


ligadas ao sexo. Segundo o filósofo, é fácil perceber este caráter,
pois as questões morais relacionadas ao sexo envolvem outras
considerações, muito mais relevantes do ponto de vista da ética,
como a honestidade, a prudência, etc.

226

filosofia_2008a.indb 226 3/6/2008 14:33:37


Filosofia

A ética também não é uma teoria fantástica, que não tenha


aplicação prática. Para Singer, a função fundamental de um juízo
ético é justamente orientar a prática moral.

A ética também não se reduz a um sistema de normas simples e


breves, como: “não minta”, uma vez que tal regra não se ajusta
às complexidades da vida. Assim, em certas situações práticas,
mentir pode ser considerado moralmente correto. Neste sentido,
veja um exemplo do autor, que já se tornou clássico:

Se você está na Alemanha nazista, na época da 2ª


Guerra Mundial, e se a Gestapo bate à sua porta a
procura de judeus, é correto mentir para salvar a
família de judeus que está econdida no seu sótão.
Observe que o cumprimento cego da regra “não
mentir” implicaria um desastre para a vida de cada um
dos integrantes da família judia.

Singer também afirma que a ética não se resume ou reduz à


religião, concepção religiosa, pois a prática moral refletida, a
ética, independe de crença religiosa.

À medida que Singer caracteriza o que a ética não é, ele já


prepara o terreno, vamos assim dizer, para especificar o que a
ética é, ou seja, nosso próximo tópico. Observamos, contudo,
que Singer desenvolve, ainda, alguns outros tópicos além dos
abordados aqui, acerca do que a ética não é.

O que é a ética é: uma concepção


Entre outras coisas, a concepção de ética prática, defendida por
Singer, estabelece a razão como fundamental nas decisões éticas.

Para Singer, as pessoas vivem de acordo com padrões éticos


quando fornecem uma razão para o que praticam moralmente,
para viver deste ou daquele modo, quando defendem ou
justificam racionalmente o que fazem. Singer observa que viver

Unidade 8 227

filosofia_2008a.indb 227 3/6/2008 14:33:37


Universidade do Sul de Santa Catarina

de modo ético significa raciocinar sobre que ações morais devem


ser praticadas, independentemente das ações morais escolhidas,
“certas” ou “erradas”. Por outro lado, as pessoas não vivem de
acordo com padrões éticos quando são incapazes de justificar as
ações morais que praticam.

Ainda é especificado que a defesa racional, ética, de uma ação


moral deve pautar-se pelo critério de universalidade. Esta
universalidade implica que os atos morais de uma pessoa devem
procurar conciliar os seus interesses com um público maior,
tanto quanto possível. Embora o critério de universalidade
procure ampliar a aplicação de um juízo moral, Singer lembra
que um juízo ético qualquer não tem aplicação universal, pois,
conforme sua concepção de ética, consequencialista, a ação
moral varia conforme as conseqüências, os objetivos que são
estabelecidos na situação prática particular, específica.

Singer admite que sua concepção de ética é uma forma de


utilitarismo, próxima àquela que você estudou na unidade
anterior, a ética de Mill. Ou seja, diante das inúmeras e
insólitas situações que vivemos, das questões práticas, devemos
racionalmente considerar o nosso interesse, assim como o do
maior número de pessoas possíveis, à medida que consideramos
os objetivos e as conseqüências de nossas ações.

Se você quiser saber mais sobre o que Peter Singer


pensa sobre ética, leia o texto Sobre a ética, do livro
Ética Prática. A referência é a seguinte:

• SINGER, Peter. Sobre a ética. In: Ética prática. São


Paulo: Martins Fontes, 2006.

Há, ainda, neste mesmo livro, outros textos


confeccionados pelo autor, que lidam com este tema,
ética prática. Se você preferir, acesse a página pessoal
do professor, no endereço:

• http://www.princeton.edu/~psinger/

228

filosofia_2008a.indb 228 3/6/2008 14:33:37


Filosofia

Síntese

Nesta última unidade, você estudou questões éticas levantadas


por quatro filósofos contemporâneos: Nietzsche, Foucault, Rawls
e Singer.

Você viu que a ética de Nietzsche é uma crítica aos ídolos, à


passividade, à resignação e à justificação dos atos morais por
uma concepção de mundo supraterrena. Diz o fi lósofo que
devemos transvalorar os valores da moral que conduz o homem
ao niilismo, ao nada. A vontade de poder é proposta como o
critério que norteie esta outra moralidade. Só quando o homem
for capaz de fazê-lo, superará o atual estágio em que se encontra,
tornando-se um super-homem.

Você estudou que a ética de Foucault incita-nos ao “cuidado de


si”, de modo que, ao fazê-lo, também devenvolvemos a habilidade
de cuidar dos outros. Porém, viu que o cuidado de si é uma
condição para o cuidado dos outros. A fundamental prática
da liberdade, aliada ao autodomínio, ao autoconhecimento,
ao conhecimento de algumas regras morais, são elementos
determinantes para uma adequada prática moral.

Para Rawls, a ética está extremamente próxima de reflexões


políticas. O americano supõe uma posição original, na qual
todas as pessoas morais, livres e iguais, sob o véu da ignorância,
escolheriam, conjuntamente, princípios de justiça que regulariam
a estrutura básica da sociedade bem ordenada. Embora estes
princípios sejam pensados, primariamente, para atender as
instituições sociais básicas, nem por isso deixam de espelhar um
modo de agir moral, que é consenso para as próprias pessoas
morais.

Singer defende que a ética lida com questões práticas relacionadas


à moral humana, como a igualdade das mulheres, o aborto, a
eutanásia, o respeito ao meio ambiente, etc. Singer posiciona-
se sobre o que a ética é e o que não é. Para ele, a ética não é
um código específico de moralidade, nem proibições irritantes,
não tem como foco central o sexo, não é uma teoria fantástica,
nem tem como fonte legitimadora a religião. A ética refere-
se ao uso da razão, para justificar quais atos morais devem ser

Unidade 8 229

filosofia_2008a.indb 229 3/6/2008 14:33:37


Universidade do Sul de Santa Catarina

praticados. As questões práticas são o cerne desta reflexão,


a ética. A universalidade é pensada como um critério que
transcende os interesses da pessoa, de modo que mais pessoas
sejam contempladas pela realização de uma determinada ação
moral. Singer admite, ainda, que sua concepção ética é uma
forma de utilitarismo, pois ele acredita que ela permite lidar com
as conseqüências da ação moral, as quais, por sua vez, são muito
mais importantes que simples ordenamentos ou regramentos
morais.

Você lembra da classificação que propusemos na unidade 7,


referente à Ética como normativa, prática ou metaética? Pois
bem, conforme aquela disposição, a ética de Nietzsche, a de
Foucault e a de Rawls podem ser consideradas normativas à
medida que propõem como devemos agir moralmente. Destas
três éticas, a de Foucault “tende” a não se encaixar perfeitamente
nesta classificação, uma vez que este pensador não propõe um
fundamento normativo sobre como devemos agir moralmente,
mas um modo de agir.

A ética de Singer fica melhor classificada como prática, como o


próprio filósofo intitula sua investigação, embora este pensador
admita que sua ética é uma forma de utilitarismo (que, por sua
vez, é uma ética normativa).

Atividades de auto-avaliação
Ao final de cada unidade, você realizará atividades de auto-avaliação. O
gabarito está disponível no final do livro didático. Mas, esforce-se para
resolver as atividades sem ajuda do gabarito, pois, assim, você estará
promovendo (estimulando) a sua aprendizagem.

1) Associe as passagens seguintes com as respectivas interpretações. Para


tanto, estude e interprete cada uma das passagens referentes à ética
de Nietzsche, que tem origem nos livros Crepúsculo dos Ídolos, Assim
falou Zaratustra e Genealogia da Moral. Esta atividade visa exercitar sua
capacidade de análise e síntese da ética de Nietzsche.

230

filosofia_2008a.indb 230 3/6/2008 14:33:37


Filosofia

Exame
I) “Este pequeno livro é uma grande declaração de guerra; ( ) Nietzsche critica a moral minucioso
e, quanto ao escrutínio1 de ídolos, desta vez eles não cristã por associar o bom e o
são ídolos da época, mas ídolos eternos, aqui tocados bem com valores escravos, ditos Pomposo,
com o martelo como se com um diapasão - não há, invertidos. Para o filósofo, na ostentador
absolutamente, ídolos mais velhos, mais convecidos, mais moral cristã, aquele que não
empolados2 ... E tampouco mais ocos... Isso não impede se encaixa no perfil da moral
que sejam os mais acreditados [...]”. (NIETZSCHE, 2006, p. ‘escrava’ age moralmente
8). errado.

II) “ ‘Eu vos anuncio o Super-homem’. ‘O homem é ( ) A superação da atual


superável’ [...] Que é o macaco para o homem? Uma condição que o homem se
zombaria ou uma dolorosa vergonha. Pois é o mesmo encontra, a superação do
que deve ser o homem para o Super-homem [...] Noutro niilismo e do cristianismo, só terá
tempo foste macaco, e hoje é ainda mais macaco que êxito se tornarmos livre a nossa
todos os macacos [...] O Super-homem é o sentido vontade e não mais a anularmos.
da terra. Diga a vossa vontade: seja o Super-homem
[...] Exorto-vos, meus irmãos, a permanecer fiéis a
terra e a não acreditar em que vos fala de esperanças
supraterrestres [...] Qual é a maior coisa que vos pode
acontecer? Que chegue a hora do grande menosprezo,
a hora em que vos enfastie a vossa própria felicidade,
de igual forma que a vossa razão e a vossa virtude. A
hora em que digas: ‘Que importa a minha felicidade! É
pobreza, imundície e conformidade lastimosa. A minha
felicidade, porém, deveria justificar a minha existência!”.
(NIETZSCHE, 2002, p. 25-26).

III) “Esse homem do futuro, que nos salvará não só do ( ) Nietzsche afirma que
ideal vigente, como [...] do grande nojo, da vontade atacará com o ‘martelo’ os ídolos,
do nada, do niilismo [...] que torna novamente livre a pois estes são insignificantes
vontade, que devolve à terra sua finalidade e ao homem para a vida do homem, e,
sua esperança, esse anticristão e antiniilista, esse portanto, devem ser destruídos.
vencedor de Deus e do nada – ele tem que vir um dia...”.
(NIETZSCHE, 2003, p. 84-85).

IV) “[...] os judeus [...] ousaram inverter a equação de ( ) Nietzsche nos propõe uma
valores aristocráticos (bom = nobre = poderoso = belo analogia, na qual o homem é
= feliz = caro aos deuses), e com unhas e dentes [...] se superior ao macaco, e o Super-
apegaram a esta inversão, a saber, ‘os miseráveis somente homem é superior ao homem.
são os bons, apenas os pobres, impotentes, baixos são O homem atual é visto como
bons, os sofredores, necessitados, feios, doentes são sendo fortemente influenciado
os únicos beatos, os únicos abençoados, unicamente por crenças supraterrestres
para eles há bem-aventurança – mas vocês, nobres e - crenças religiosas ou crenças
poderosos, vocês serão por toda a eternidade os maus, metafísicas - de tal modo que
os cruéis, os lascivos, os insaciáveis, os ímpios [...] os se encontra inferior a todos os
desventurados, malditos e danados!...’ [...] A propósito macacos. A condição de Super-
[...] com os judeus principia a revolta dos escravos na homem é a melhor coisa que
moral: aquela rebelião que tem atrás de si dois mil anos pode acontecer ao homem, mas
de história, e que hoje perdemos de vista, porque foi isto só acontecerá quando o
vitoriosa...”. (NIETZSCHE, 2003, p. 26). mesmo repudiar suas atitudes
conformadas diante da realidade
e passe a constituir a felicidade a
partir da própria vontade, a partir
da própria existência.

Encontre a seqüência que corresponde à associação correta das passagens


com as interpretações. Há apenas uma seqüência correta:
A) I, II, III, IV. B) II, III, IV, I. C) III, IV, I, II. D) IV, III, I, II.

Unidade 8 231

filosofia_2008a.indb 231 3/6/2008 14:33:37


Universidade do Sul de Santa Catarina

2) Associe as passagens seguintes com as respectivas interpretações. Para


tanto, estude e interprete cada uma das passagens referentes à ética de
Foucault, que tem origem na entrevista A Ética do Cuidado de Si como
Prática da Liberdade. Esta atividade visa exercitar sua capacidade de
análise e síntese da ética de Foucault.

I) “[...] o que é a ética senão a prática da liberdade, a prática ( ) Nas relações humanas
refletida da liberdade? [...] A liberdade é condição ontológica sempre há alguma relação de
da ética. Mas a ética é a forma refletida assumida pela poder. Estas relações não são
liberdade.”. (FOUCAULT, 2004, p. 267). fixas e podem ser alteradas. Para
alterar essas relações de poder,
é preciso praticar a liberdade.
Mesmo as relações de poder
dos ditos estados de dominação
podem ser alteradas.

II) “[...] sobretudo nos gregos -, para se conduzir bem, para ( ) Cuidar de si mesmo implica
praticar adequadamente a liberdade, era necessário se o conhecimento de si além de
ocupar de si mesmo, cuidar de si, ao mesmo tempo para se regras de conduta.
conhecer [...] e para se formar, superar-se a si mesmo, para
dominar em si os apetites que poderiam arebatá-lo. [...]”.
(FOUCAULT, 2004, p. 268).

III) “Não é possível cuidar e si mesmo sem se conhecer. O ( ) O cuidado de si não é amor
cuidado de si é certamente o conhecimento de si [...] mas exagerado por si mesmo, nem
é também o conhecimento de um certo número de regras negligência ou abuso dos outros.
de conduta ou de princípios que são simultaneamente
verdades e prescrições.”. (FOUCAULT, 2004, p. 269).

IV) “Não se deve fazer passar o cuidado dos outros na ( ) O cuidado de si implica a
frente do cuidado de si; o cuidado de si vem eticamente em prática da liberdade, a ocupação
primeiro lugar, na medida em que a relação consigo mesmo e a formação de si mesmo,
é ontologicamernte primária. [...] o cuidado de si não pode de modo que o sujeito possa
em si mesmo tender para esse amor exagerado a si mesmo superar-se e, então, dominar os
que viria a negligenciar ou outros ou, pior ainda, a abusar do apetites.
poder que se pode exercer sobre eles.”. (FOUCAULT, 2004, p.
271-273).

V) “[...] nas relações humanas, quaisquer que sejam elas ( ) A liberdade é uma condição
[…] o poder está presente [...] essas relações de poder são para a própria existência da ética.
móveis, ou seja, podem se modificar, não são dadas de E a ética é a prática refletida da
uma vez por todas [...] só é possível haver relações de poder liberdade.
quando os sujeitos forem livres [...] para que se exerça uma
relação de poder, é preciso que haja sempre, dos dois lados,
pelo menos uma forma de liberdade. Mesmo quando a
relação de poder é completamente desiquilibrada, quando
verdadeiramente se pode dizer que um tem poder sobre o
outro, um poder só pode se exercer sobre o outro à medida
que ainda reste a esse último a possibilidade de se matar,
de pular pela janela ou de matar o outro. Isso significa que,
nas relações de poder, há necessariamente possibilidade
de resistência [...] se há relações de poder em todo o
campo social, é porque há liberdade por todo lado. Mas há
efetivamente estados de dominação. Em inúmeros casos,
as relações de poder estão de tal forma fixadas que são
perpetuamente dessimétricas e que a margem de liberdade
é estremamente limitada.”. (FOUCAULT, 2004, p. 276-277).

232

filosofia_2008a.indb 232 3/6/2008 14:33:37


Filosofia

Encontre a seqüência que corresponde à associação correta das


passagens com as interpretações. Há apenas uma seqüência correta:
A) I, II, III, IV, V. B) II, V, III, IV, I. C) III, IV, I, V, II. D) V, III, IV, II, I.

3) Associe as passagens seguintes com as respectivas interpretações. Para


tanto, estude e interprete cada uma das passagens referentes à ética
de Rawls, que tem como origem a Teoria da Justiça. Esta atividade visa
exercitar sua capacidade de análise e síntese da ética de Rawls.

I) “[…] uma sociedade bem ordenada é ( ) Um princípio de justiça


efetivamente regulada por um conceito público de estabelece liberdade igual
justiça. Ou seja, é uma sociedade na qual todos os para todos, enquanto o outro
membros aceitam e sabem que os outros aceitam princípio procura estabelecer uma
os mesmos princípios (a mesma concepção) de ‘desigualdade justa’.
justiça.”. (Rawls apud Oliveira, 2003, p. 51).

II) “[...] os membros de uma sociedade bem- ( ) A justiça apropriada para


ordenada são, eles mesmo, pessoas morais livres e uma sociedade bem ordenada é
iguais.”. (RAWLS apud OLIVEIRA, 2003, p. 52). aquela resultante de um acordo
eqüitativo entre as pessoas morais,
livres e iguais.

III) “Enunciarei agora [...] os dois princípios de ( ) O conceito público de justiça


justiça [...] 1. Cada pessoa tem um direito igual regula uma sociedade bem
ao mais extensivo esquema de liberdades ordenada. Nesta sociedade, todos
fundamentais iguais compatíveis com um aceitam e conhecem os princípios
esquema semelhante de liberdade para todos. de justiça.
2. As desigualdades sociais e econômicas devem
satisfazer duas condições: elas devem ser (a) para o
maior benefício esperado dos menos favorecidos;
e (b) vinculadas a cargos e posições abertas a
todos em condições de oportunidade eqüitativa.
O primeiro desses princípios deve ter prioridade
sobre o segundo [...]”. (RAWLS apud OLIVEIRA,
2003, p. 58).

IV) “[...] idéia da posição original: supus que ( ) A sociedade bem ordenada
a concepção de justiça apropriada para uma é composta por pessoas morais,
sociedade bem-ordenada é aquela que seria livres e iguais.
acordada numa situação hipotética que fosse
eqüitativa entre indivíduos concebidos como
pessoas morais livres e iguais, isto é, como
membros de uma tal sociedade.”. (RAWLS apud
OLIVEIRA, 2003, p. 63).

Encontre a seqüência que corresponde à associação correta das


passagens com as interpretações. Há apenas uma seqüência correta:

A) I, II, III, IV. B) II, III, IV, I. C) III, IV, I, II. D) III, IV, II, I.

Unidade 8 233

filosofia_2008a.indb 233 3/6/2008 14:33:37


Universidade do Sul de Santa Catarina

4) Associe as passagens seguintes com as respectivas interpretações.


Para tanto, estude e interprete cada uma das passagens referentes à
ética de Singer, com base no texto Sobre a Ética, do livro Ética Prática.
Esta atividade visa exercitar sua capacidade de análise e síntese da
ética de Peter Singer.

I) “O tema deste livro é a ética prática, ou seja, a aplicação da ética ( ) Singer admite que a ética
ou da moralidade (usarei indiferentemente essas duas palavras) à que ele propõe é uma variação
abordagem de questões práticas, como o tratamento dispensado do utilitarismo. Em função da
às minorias étnicas, a igualdade para as mulheres, o uso de animais perspectiva utilitária, defende a
em pesquisas e para a fabricação de alimentos, a preservação do necessidade de que se universalize
meio ambiente, o aborto, a eutanásia e a obrigação que têm os a ação moral, pensada a partir do
ricos de ajudar os pobres.”. (SINGER, 2006, p. 9). indivíduo.

II) “[...] há uma abordagem sempre válida da ética que ( ) Para Singer, viver de acordo
praticamente não é afetada pelas complexidades que tornam com padrões éticos depende,
as normas simples difíceis de serem aplicadas: a concepção sobremaneira, da utilização da
conseqüencialista. Os seus adeptos não partem de regras morais, razão, da justificação e defesa de
mas de objetivos. Avaliam a qualidade das ações mediante certas ações morais. Por outro
uma verificação do quanto elas favorecem esses objetivos. O lado, quando não justificamos as
utilitarismo é a mais conhecida das teorias consequencialistas [...] ações morais realizadas, vivemos
Para o utilitarista, mentir será mau em algumas circunstâncias e desvinculados de padrões
bom em outras, dependendendo das conseqüencias que o ato éticos. Neste sentido, a ética é
acarretar.”. (SINGER, 2006, p. 11). compreendida como uma reflexão
racional sobre os atos morais.

III) “A idéia de viver de acordo com padrões éticos está ligada a ( ) Singer defende que uma
idéia de defender o modo como se vive, de dar-lhe uma razão de abordagem ética adequada
ser, de justificá-lo. Desse modo, as pessoas podem fazer todos é aquela que privilegia as
os tipos de coisas que consideramos erradas, mas, ainda assim, conseqüências de uma ação
estar vivendo de acordo com padrões éticos, desde que tenham moral e não se limita a simples
condições de defender e justificar aquilo que fazem. Podemos ordenamentos ou regras morais.
achar a justificativa inadequada e sustentar que as ações estão Entre as teorias que privilegiam
erradas, mas a tentativa de justificação, seja ela bem sucedida ou as conseqüências da ação moral
não, é suficiente para trazer a conduta da pessoa para a esfera situa-se o utilitarismo, uma vez
do ético, em oposição ao não-ético. Quando, por outro lado, as que as ações são escolhidas
pessoas não conseguem apresentar nenhuma justificativa para o considerando-se, entre outras
que fazem, podemos rejeitar a sua alegação de estarem vivendo coisas, as conseqüências da ação.
de acordo com padrões éticos, mesmo se aquilo que fazem estiver
de acordo com princípios morais convencionais.”. (SINGER, 2006,
p. 18).

IV) “o modo de pensar que esbocei é uma forma de utilitarismo. ( ) A investigação de Singer
Difere do utilitarismo clássico pelo fato de “melhores lida com a aplicação da ética a
conseqüências” ser compreendido como o significado de algo questões polêmicas, que fazem
que, examinadas todas as alternativas, favorece os interesses dos parte das práticas dos seres
que são afetados, e não como algo que simplesmente aumenta humanos. Práticas que, enquanto
o prazer e diminui o sofrimento [...] A postura utilitária é uma tais, também se referem aos
posição mínima, uma base inicial à qual chegamos ao universalizar animais e ao meio ambiente.
a tomada de decisões com base no interesse próprio.”. (SINGER, Singer denomina esta investigação
2006, p. 22). de ética prática.

Encontre a seqüência que corresponde à associação correta das


passagens com as interpretações. Há apenas uma seqüência correta:

A) I, II, III, IV. B) IV, III, II, I. C) III, IV, I, II. D) III, IV, II, I.

234

filosofia_2008a.indb 234 3/6/2008 14:33:38


Filosofia

Saiba mais

Se você quiser aprofundar seus conhecimentos sobre a ética,


considerando as reflexões de Nietzsche, Foucault, Rawls ou
Singer, então consulte as seguintes referências:

„ BORGES, Maria de Lordes; DALL’AGNOL, Darlei;


DUTRA, Delamar Volpato. Ética. [O que você precisa
saber sobre], Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

„ FOUCAULT, Michel. Ética, sexualidade, política.


[Ditos e escritos; V] Organização e seleção de textos
Manoel Barros da Motta; tradução Elisa Monteiro,
Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2004.

„ OLIVEIRA, Nythamar. Rawls. [Passo-a-passo], Rio de


Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

„ NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou


Zaratustra. [A obra-prima de cada autor], Tradução
Pietro Nasseti. São Paulo: Martin Claret, 2002.

„ . Genealogia da moral: uma polêmica. São


Paulo: Companhia das Letras, 2003.

„ . Crepúsculo dos ídolos: ou como se filosofa


com o martelo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

„ SINGER, Peter. Ética prática. São Paulo: Martins


Fontes, 2006.

E os seguintes sites:

„ http://www.dominiopublico.gov.br
(site do governo brasileiro que disponibiliza uma biblioteca digital e que
contém e-books grátis de alguns filósofos).

„ http://www.princeton.edu/~psinger/
(site do professor e filósofo Peter Singer).

Unidade 8 235

filosofia_2008a.indb 235 3/6/2008 14:33:38


filosofia_2008a.indb 236 3/6/2008 14:33:38
Para concluir o estudo

Parabéns pelos estudos desenvolvidos, necessários para que você


chegasse até aqui. Seu comprometimento, disciplina e dedicação
foram combustíveis para o seu bom êxito.

Ao concluir os estudos da disciplina, você deve ter percebido


que o sentido da Filosofia é mais amplo do que é difundido
costumeiramente. Observamos que tal sentido é, ainda, mais amplo
do que foi abordado neste livro.

Você pode passar uma vida inteira investigando a Filosofia e,


certamente, a cada novo dia de investigação um novo argumento,
detalhe, experiência, entendimento ou “vivência”, transformará e
alargará a sua compreensão sobre o que é Filosofia.

Dizem que bom conselho é aquele que não é dado. Porém, não
podemos deixar, aqui, de incitá-los a pesquisar a Filosofia, de
estudar os originais dos próprios filósofos, de estudar outros livros,
compêndios e dicionários sobre Filosofia.

Também, não podemos nos furtar de alertar você a exercitar


as habilidades de autonomia, reflexão, crítica e criatividade -
importantes habilidades para um estudante universitário e para
um cidadão. Desejamos ainda que, de algum modo, os temas e
conteúdos aqui reunidos sob o viés da Teoria e do Conhecimento e
da Ética tenham encontrado abrigo em seu coração, mente e ações.
Podemos construir um mundo melhor. Para tanto, precisamos nos
preparar.

Desejamos sucesso em sua caminhada de estudos.

Um forte abraço,

Professor Leandro Kingeski Pacheco e Professora Maria Juliani Nesi

filosofia_2008a.indb 237 3/6/2008 14:33:38


filosofia_2008a.indb 238 3/6/2008 14:33:38
Referências

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Tradução Pietro Nasseti. São Paulo: Martin Claret, 2001.

„ BACON, Francis. Novum Organum. [Os pensadores], São Paulo:


Nova Cultural, 1999.

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„ BLANCHÉ, R.; DUBUCS, J. História da lógica. Tradução


António P. Ribeiro, Pedro E. Duarte. Lisboa: Edições 70, 1996.

„ BORGES, Maria de Lordes; DALL’AGNOL, Darlei; DUTRA,


Delamar Volpato. Ética. [O que você precisa saber sobre], Rio de
Janeiro: DP&A, 2002.

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Paulo: Cultrix, 1977.

„ CHALMERS, Alan F. O que é a ciência, afinal? Trad. Raul


Fiker. São Paulo: Brasiliense, 1993.

„ CHÂTELET, F. História da filosofia, idéias, doutrinas. (8 vol.),


Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1973.

„ CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 8. ed. São Paulo: Ática,


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„ ______. Introdução à história da filosofia. 2. ed. rev. e ampl. São


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„ DESCARTES, René. Discurso do método. [Os pensadores], São


Paulo: Nova Cultural, 1996.

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„ FOUCAULT, Michel. Ética, sexualidade, política. [Ditos e escritos; V]


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„ HUME, David. Investigação acerca do entendimento humano. [Os pensadores],


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„ HUSSERL, Edmund. Investigações lógicas - sexta investigação: elementos de


uma elucidação fenomenológica do conhecimento. [Os pensadores], São Paulo:
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„ KIRK, G. S.; RAVEN, J. E.; SCHOFIELD, M. Os filósofos pré-socráticos.


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240

filosofia_2008a.indb 240 3/6/2008 14:33:38


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„ NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra. [A obra-


prima de cada autor], Tradução Pietro Nasseti. São Paulo: Martin Claret,
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„ ______. Crepúsculo dos ídolos: ou como se filosofa com o martelo. São


Paulo: Companhia das Letras, 2006.

„ ______. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das


Letras, 2003.

„ NOVAES, Adauto (org.). Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

„ NUNES, César Aparecido. Aprendendo filosofia. Campinas: Papirus,


1986.

„ OLIVEIRA, Nythamar. Rawls. [Passo-a-passo], Rio de Janeiro: Jorge


Zahar, 2003.

„ PEIRCE, C. S. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2000.

„ PLATÃO. Defesa de Sócrates. In: Sócrates. [Os pensadores] Seleção


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Rangel de Andrade, Gilda Maria Reale Strazynski. 4. ed. São Paulo: Nova
Cultural, 1987.

241

filosofia_2008a.indb 241 3/6/2008 14:33:38


Universidade do Sul de Santa Catarina

„ POPPER, Karl. Conjecturas e refutações. Brasília: UnB, 1972.

„ REALE, G. História da filosofia antiga: Platão e Aristóteles. São Paulo: Loyola,


1994a.

„ ______. História da filosofia antiga: os sistemas da era helenística. São Paulo:


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„ ROBERT, Fernand. A literatura grega. [Universidade hoje], São Paulo: Martins


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„ SEVCENKO, Nicolau. O renascimento. Campinas: Atual, 1988.

„ SILVA, Porfírio. A filosofia da ciência de Paul Feyerabend. [Pensamento e


Filosofia], Lisboa: Instituto Piaget, 1998.

„ SINGER, Peter. Ética prática. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

„ VALLS, Álvaro L. M. O que é ética. [Primeiros passos] 9. ed. São Paulo:


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„ VALVERDE, José María. História do pensamento: filosofia, ciência, religião,


política. Vol. I, nº 6, São Paulo: Nova Cultural, 1987a.

„ ______. História do pensamento: filosofia, ciência, religião, política. Vol. I, nº 7,


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„ VÁZQUEZ, Adolfo Sanches. Ética. 12. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
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„ VERNANT, Jean-Peirre. As origens do pensamento grego. São Paulo: DIFEL,


1984.

„ VERGER, Jacques. As universidades na idade média. São Paulo: UNESP, 1990.

„ VERGES, André; HUISMAN, Denis. História dos filósofos ilustrada pelos


textos. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1984.

242

filosofia_2008a.indb 242 3/6/2008 14:33:38


Sobre os professores conteudistas

Leandro Kingeski Pacheco é bacharel (1994), licenciado


(1997) e mestre (2005) em Filosofia, pela Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC). Junto ao Centro de
Educação a Distância (CEAD) da Universidade do Estado
de Santa Catarina (UDESC), atuou (2001-2005) como
professor de Filosofia, de Direitos Humanos e Cidadania,
de Educação e Meio Ambiente, de Tecnologia, Educação e
Aprendizagem e de Metodologia da Educação a Distância,
assim como desenvolveu atividades de Supervisor Pedagógico.
Por esta universidade é co-autor dos livros didáticos Filosofia
Moderna e Contemporânea; Direitos Humanos e Cidadania;
Globalização e Cidadania. Atualmente, é designer instrucional
da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), junto
ao campus UnisulVirtual.

Maria Juliani Nesi é licenciada em Filosofia pela UFSC


(1992), especialista em Arte – Educação pela UDESC
(1996), Mestre em Engenharia de Produção – Mídia e
Conhecimento pela UFSC (2002). Junto a UDESC, entre
1993 e 2006, atuou na FAED, CEFID, CEART e CEAD
como professora de Filosofia, Estética, Dramaturgia, Direitos
Humanos e Cidadania, Teoria do Conhecimento. Ainda
na UDESC atuou como membro do Comitê de Apoio ao
Ensino do CEAD. Também atuou como professora da UFSC
(1996) como professora de Introdução à Filosofia e de Ética.
Atualmente, na UNISUL, exerce a função de assistente
pedagógica junto ao curso de Administração e Negócios /
(Unisul Business School) UBS.

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Respostas e comentários das
atividades de auto-avaliação

UNIDADE 1

1) a, c, e.

2) Nenhuma das alternativas anteriores se encaixa no que pede o


enunciado da questão. Ou seja, nenhuma das concepções de Filosofia,
filósofo e filosofar apresentadas nesta questão coincidem exatamente
com o significado etimológico de Filosofia.

3) a) Resposta pessoal.
b) Resposta pessoal.
c) Resposta pessoal.
d) Resposta pessoal.

4) Resposta pessoal, que depende de pesquisa livre sobre uma definição


de Filosofia. Não esqueça de publicar sua resposta no Espaço UnisulVirtual
de Aprendizagem (EVA), através da ferramenta exposição.

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Universidade do Sul de Santa Catarina

UNIDADE 2
1)

V
I VIII P R E M I S S A S
L N
Ó III T
II G R É C I A I
I R G
C IV R A C I O C Í N I O
A S
T
Ó
T
E VII
L P IX
E R XII C
VI S I L O G I S M O
P N N
O D C
S U L
I T U
Ç I S
XV Ã V Ã
P XI D E D U T I V O O O XIII
A F
X R E L A Ç Ã O D E C O N S E Q U Ê N C I A
A L
XVI D I L E M A Á
O C
X I
O XIV S O F I S M A

2) I, III, IV, V, VIII, IX, X.

3)
I) D II) I III) D IV) I

4) a) Resposta pessoal.
b) Resposta pessoal.
c) Resposta pessoal.
d) Resposta pessoal.

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Filosofia

5) Resposta pessoal, que depende de pesquisa livre sobre um exemplo


de falácia ou de sofisma. Não esqueça de publicar sua resposta no Espaço
UnisulVirtual de Aprendizagem (EVA), através da ferramenta exposição.

UNIDADE 3

1) Resposta pessoal.

2.1) Você deve observar que na primeira afirmação o conhecimento


é resultado da vivência e está relacionado com a tradição, com o
ensinamento dos antigos. Neste caso, o conhecimento incorpora, em
parte, as crendices populares, a autoridade e a tradição. Essa afirmação
pode ter sido feita por um homem do senso comum. Na segunda
afirmação, o conhecimento é resultado de uma investigação consciente
e metódica. O objetivo principal desse conhecimento não é resolver os
problemas simples do cotidiano, mas compreender e explicar a realidade.
Essa afirmação pode ter sido feita por um cientista. Na terceira afirmação,
o conhecimento é revelado ao homem, provavelmente por um ser divino
que “ilumina a alma”. Essa afirmação pode ter sido feita por um religioso.

2.2) A Filosofia se caracteriza por ser um conhecimento independente


de qualquer objetivo que não seja o de refletir. Não tem a finalidade
de explicar dogmaticamente os problemas cotidianos, existenciais do
homem, a natureza - assim como não depende de prova. A Filosofia não se
conforma com as respostas já dadas, com o óbvio, mas, pelo contrário, ela
julga, questiona e procura ampliar a visão de mundo, problematizando e
respondendo constantemente sobre a realidade. Portanto, não se limita à
crítica, mas propõe algo novo. Retomando a primeira Unidade deste livro,
“O verdadeiro filósofo não se contenta em evidenciar os ‘equívocos’, e
então propõe evidenciar ‘acertos’, uma solução”.

2.3) Diferentemente do conhecimento de senso comum, a Filosofia,


comumente, rejeita as explicações míticas, não tem a finalidade de
solucionar decisivamente os problemas práticos do homem e não está
presa a uma experiência particular, mas busca alargar a compreensão
da realidade, de modo universal. Diferentemente da ciência, a Filosofia
não depende da prova como critério de verdade. A Filosofia também
não é cumulativa, ou seja, enquanto é possível observar certo progresso
no conhecimento científico, na Filosofia as clássicas questões nunca têm
uma resposta definitiva e são sempre retomadas por diversos filósofos em
tempos e espaços diversos.

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Universidade do Sul de Santa Catarina

3)
a) Resposta pessoal.
b) De modo geral, acredita-se que os cientistas, quando estão fazendo
pesquisa, não têm outro interesse que o de conhecer a realidade e
inventar tecnologias. Por isso, não se imagina, a princípio, que eles
podem ser responsabilizados pela aplicação do conhecimento produzido
e pelas conseqüências que suas descobertas e invenções provocam.
Este, provavelmente, é o raciocínio das crianças citadas no exercício,
assim como também é o raciocínio do homem comum, a menos que
reflitam profundamente sobre a polêmica questão ética que envolve o
conhecimento científico.

UNIDADE 4

1) Parmênides assume uma posição que é possível denominar de


racionalista. Ele transfere a lógica das idéias para a realidade concreta e
constata que esta não segue, necessariamente, a lógica, pois é instável.
Então, ele opta pela evidência lógica dos conceitos em detrimento das
coisas concretas como fonte de conhecimento. Para ele o ser é estável,
imóvel. Já, Heráclito assume uma posição mais empirista e afirma que o
ser é dinâmico, móvel. Toda a realidade, na verdade, é um constante “vir-a-
ser”, pois está mudando continuamente.

2) Uma das linhas de continuidade entre o pensamento destes três


filósofos é o reconhecimento da razão ou dos sentidos, na busca por
conceitos universais. Sócrates, aplicando a maiêutica, levava seus
interlocutores a argumentarem a fim de encontrar a verdade. Sendo
assim, eles buscavam a verdade nos conceitos. Além disso, Sócrates
evidenciava o erro das opiniões advindas das experiências particulares em
contraposição com as idéias universais. Platão reforça esta teoria e separa
completamente as coisas das idéias (separa então o “mundo sensível” de
um “mundo inteligível”) e, por conseguinte, separa a razão dos sentidos,
optando pela primeira, em detrimento do segundo. Aristóteles, por sua
vez, resgata a importância dos sentidos na produção do conhecimento. Ele
concorda com seus antecessores na busca por conceitos universais, mas
afirma, diferente deles, que as idéias universais são abstraídas a partir das
coisas concretas que experimentamos.
3) Neste filme, é possível identificar a manipulação da fé pelos doutores
da Igreja medieval. Estes escondiam obras gregas que consideravam

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Filosofia

ameaçadoras, provenientes de idéias de filósofos que pudessem


colocar em questão ou contradizer as verdades “reveladas”. A Igreja
também perseguia estudiosos que, por meio da argumentação lógica,
confrontavam as verdades dogmáticas da religião católica.

UNIDADE 5

1) A polêmica é relativa à necessidade que os pensadores modernos


sentiam de desenvolver um conhecimento livre dos dogmas cristãos e da
metafísica grega; de desenvolver um conhecimento útil para a explicação
objetiva da realidade, para a resolução dos problemas reais e dos impasses
que impediam o progresso da sociedade. Enquanto os doutores da Igreja,
ainda ameaçados pela possibilidade da negação das escrituras sagradas,
boicotavam sistematicamente as investidas racionais e empíricas para
conhecer a realidade.

2) Estas correntes de conhecimento se assemelham porque nem


uma nem outra negam completamente a relevância da razão e dos
sentidos na produção do conhecimento, e diferem no que se refere ao
estabelecimento de uma fonte para este conhecimento. Enquanto para o
racionalismo, esta fonte é fundamentalmente a razão, para o empirismo
são os sentidos.

3) Kuhn ocupou-se, entre outras coisas, com a questão do progresso


científico, negando o progresso linear e afirmando um progresso por
saltos que ocorrem por meio das revoluções científicas. Também se
preocupou com a força da tradição e do controle do conhecimento
científico pela comunidade científica. Feyerabend preocupou-se,
especialmente, com as limitações e o direcionamento que a rigidez do
método e dos preceitos científicos produzem na atividade científica, e com
o controle que a comunidade científica exerce sobre o cientista.

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Universidade do Sul de Santa Catarina

UNIDADE 6

1) a, b, c, d.

2) a, b, c.

3) B.

4)
a) M. b) A. c) N.

5) Resposta pessoal, que depende do posicionamento do aluno sobre o


caráter transitório da moralidade. Não esqueça de publicar sua resposta
no Espaço UnisulVirtual de Aprendizagem (EVA), através da ferramenta
exposição.

6) Resposta pessoal, referente à confecção de uma dissertação sobre o que


é Ética, do que trata, qual a relevância deste estudo, e se você reflete sobre
as ações morais que pratica. Como dica, considere a proposta de estrutura
básica de dissertação.

UNIDADE 7

1)
A ética de Aristóteles considera fundamental a escolha racional e o
hábito como fundamentais para cultivar a virtude. Tal prática da virtude
é conseqüência de nossa disposição autônoma em detrimento das
nossas inclinações, paixões ou desejos. A virtude consiste, propriamente,
na ação moral que considera o justo-meio como um equilíbrio entre
dois vícios extremos. Tais vícios são marcados pela radicalidade da ação,
seja pela falta ou pelo excesso. A prática da virtude tem sempre um fim,
que representa um bem para o próprio indivíduo, e o bem mais alto que
podemos almejar e encontrar é a felicidade.

250

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Filosofia

P A S E D A S D I S A B E M T U T J T
R I U Q A R I D S E M A C A V E Ó U R
A R E R C I D S E M A I V B R O N S S
F A T L U S S A X A R P E R I O N T N
V F E F I T A Í R É T I C A R A R O R
Í I R E Z Ó Q T Ó N E R R S I S T M E
C M N L S T A M Z G E J E T R E J E A
I O X I T E C Z V I R T U D E C A I D
O Q R C T L E R A S D E F G H I J O A
M Ã L I M E R A R R Ô H Á B I T O T P
E I T D A S M U I O I M S B O C R I E
R E R A S K C L R R P R A T P A V N S
Z A Á D A L B R É N Z E S X S U S E A
S A N E S C O L H A R A C I O N A L A
I S S R I T N E M A I R A T P U T H P
E D I S P O S I Ç Ã O A U T Ô N O M A

2) D.

3) B.

4)
A) Para Mill, a felicidade representa a finalidade da ação e a utilidade é o
critério para distinguir as ações corretas das ações incorretas.
B) Para Mill, a ação moral também depende do cultivo da virtude.

5)
a) M. b) A. c) K. d) M. e) A. f) K.

6) Resposta pessoal, referente à confecção de uma dissertação sobre como


podemos ser melhores. Como dica, considere a proposta de estrutura
básica de dissertação.

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Universidade do Sul de Santa Catarina

UNIDADE 8

1) D) IV, III, I, II.


2) D) V, III, IV, II, I.
3) C) III, IV, I, II.
4) B) IV, III, II, I.

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