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A mulher nos sermões do Pe. António Vieira Autor(es): Publicado por: URL p e r

A mulher nos sermões do Pe. António Vieira

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Marques, António Soares

Universidade Católica Portuguesa, Departamento de Letras

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19-Aug-2017 22:28:20

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MÁTHESIS

2

1993

121-141

NOS

SERMÕES

A MULHER

DO

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ANTÓNIO

ANTÓNIO SOARES

1.

INTRODUÇÃO

VIEIRA

MARQUES

Tendo a obra do P.e António Vieira, sob certa perspectiva, sido esquadrinhada até ao tutano, resta-nos ainda a gratificante, porque tra- balhosa, tarefa de contribuirmos para um maior conhecimento da cosmo- visão vieiriana relativamente à Mulher. Nesta peregrinação pelo sermonário de Vieira há que saber jugular subjectividades, há que coarctar juízos de valor inquestionavelmente falazes, há que saber colocar um travão à voz do coração. Tanto melhor

assim, porque, deste modo, há-de fluir na sua rtUdez, na sua crueza e na sua pureza - dir-se-ia, quase que psicocinematograficamente, o mimético

e especular raciocínio de Vieira. Ver-se-á, contudo, se a ciclópica tarefa a que nos propomos, como

é a de proceder à leitura de 202 Sermões, será levada a bom porto e se

conseguiremos entregar a carta a Garcia. Por uma questão meramente metodológica, apresentar-se-ão de uma maneira compartimentada aqueles Sermões, devidamente epigra- fados, onde o tema da Mulher é mais ou menos desenvolvido. Importará referir aqui que a edição utilizada para a feitura deste trabalho foram os SERMÕES do P.e António Vieira, publicados pela LeI/o & Irmãos - Editores, Porto, 1959 1. Guiados pelo fio de Ariadne avancemos, pois, para esta expectante odisseia.

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2.

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2.1 SERMÃO DA QUARTA DOMINGA

DO ADVENTO

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VIEIRA

Estamos perante uma homilia tipicamente oratória, onde é por- menorizadamente glosada, e a vários tons, a necessidade que todo o ser humano tem de fazer penitência. Tal exigência implicaria pri- macialmente as mulheres, porquanto na perspectiva de Vieira elas são mais pecadoras do que os homens, na medida em que gastam os seus dias preocupadas em «agradar e contentar a estes». Esta pro- pensão da «caça ao homem» está, segundo Vieira, arquetipicamente representada na figura de Madalena, senhora que, embora de elevada estirpe social, conheceu publicamente uma vida pautada pela devassidão. Mau grado ter levado uma vida pecaminosa, isso não obstou a que um dia para ela também tivesse chegado o arrependimento. Assim, por mais relapsa e contumaz que seja a preocupação da mulher em agradar, nunca será tarde o momento de fazer penitência. Com efeito, Vieira mantém num pequeno trecho deste sermão, onde a questão é epidecmicamente aflorada, as baterias verdadeiramente assestadas contra aquelas mulheres que pretendem, em vez de uma vida digna, levar uma vida vivida à tripa-forra e que fazem do seu dia-a-dia um «do/ce jarniente». Encontrar uma mulher / MULHER e que na concepção vieiriana passaria por ser uma «verdadeira penitente», isso era coisa realmente rara, de tal modo elas apenas vivem em função de agradar e de contentar os homens, quando tudo isto é vão, já que, mais importante para a mulher do que parecer bem aos homens, deveria estar o seu agrado para com Deus.

2.2

COMENTO OU HOMILIA SOBRE O EVANGELHO DA SEGUNDA-FEIRA DA PRIMEIRA SEMANA DA QUARESMA

Sermão que não chegou a ser acabado por Vieira (pelo menos na versão que hoje possuímos), ele vai divagar sobre a situação e proble- mática da mulher, a partir do julgamento do ser humano no dia do juízo final. Com efeito, aí se refere que naquele dia (será o dies irae) Deus separará, então, o trigo do joio, que é como quem diz os bons, meta- foricamente designados por ovelhas, e os maus, biblicamente tipi- ficados nos cabritos. Assim, à Sua direita, ficarão os bons, e à esquerda,

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obviamente, os maus. Segundo Vieira, a sociedade vigente no outro mundo será manifestamente maniqueísta. Aí só haverá lugar para os bons e para os maus.

Naquela conformidade, em consonância com a opinião do nosso orador, situar-se-ão, à esquerda de Deus-Pai os indivíduos do sexo masculino (os cabritos) e à direita os do sexo feminino (as ovelhas).

E porquê esta bipolarização - perguntar-se-á? Porque, na perspectiva

vieiriana, se hão-de salvar mais mulheres do que homens. E invoca, em defesa da sua tese, a autoridade subjacente a duas parábolas evan- gélicas, ambas abordando a temática das bodas. Na verdade, numa delas, as intervenientes eram dez virgens. Destas foram tantas as admitidas ao banquete nupcial como as excluídas, o que leva Vieira

a concluir metaforicamente que 50% das mulheres salvar-se-ão. Na 2.a. parábola, os convidados, todos do sexo masculino, foram mais os excluídos da boda do que os admitidos. Daqui conclui Vieira que serão menos os homens a salvarem-se do que as mulheres. Não con- tente ainda com esta inferência, vai chamar em seu auxílio o conhecido versículo bíblico de S. Mateus (22,14): Multi sunt vocati, pauci vero electi, ou seja, «muitos são os chamados mas poucos os escolhidos».

O versículo remete, segundo Vieira, para os homens e não para as mulheres, sinal, pois, de que a quantidade de homens a salvar-se será incomparavelmente menor que a das mulheres. Aliás, e citando ainda

o nosso orador, apoiado no testemunho da Santa Madre Teresa, não

é por acaso que Cristo se comunicava mais às mulheres do que aos

homens. Um outro argumento (e de peso), que segundo Vieira é determi- nante para a salvação de mais mulheres do que de homens, radica no facto de habitualmente as mulheres morrerem mais frequentemente confortadas com todos os sacramentos do que os homens. É que estes, em virtude da sua profissão e pelo facto de serem mais propensos e atreitos aos negócios, morrem sistematicamente sem o bálsamo do sacramento da confissão. É o que acontece nas guerras, nos naufrá- gios, nas brigas, nos desafios, etc. Vieira contrapõe este estatuto ao das mulheres, as quais não incorrem naquele perigo, não só em vir- tude de serem manifestamente ineptas para as actividades empresa- riais, como ainda pelo facto de elas não serem «nem juízes, nem advo- gados, nem presidentes, nem ministros de reis, nem bispos, nem sacer- dotes» (II, p. 275). É que todas estas profissões são muito propensas ao pecado. Daí que as mulheres estejam, assim, mais livres de ofen- derem a Deus. Vieira remata o seu raciocínio, trazendo à liça outros argumentos, afirmando, sem subterfúgios, que a salvação das mulheres

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decorre ainda de outros factores. Por um lado, porque elas são dotadas de uma «ignorância invencível» e, por outro, porque têm ainda «menos entendimento e menos malícia» do que os homens (II, p. 275). E como

a Divina Misericórdia costuma ser - refeTe Vieira - mais compla-

cente para com os mais fracos, eis uma das razões porque a mulher

está fatal e atavicamente mais vocacionada para a salvação.

2.3

SERMÃO

DA

PRIMEIRA

SEXTA-FEIRA

DA

QUARESMA

Pregado no Convento de Odivelas em 1644, Padre António Vieira vai tecer as suas considerações a respeito da mulher, partindo do tema bíblico do amor aos inimigos. Começa por afirmar peremptoriamente que o amor é falso e que por ele tudo se perde. Deambula mentalmente até ao Paraíso, para chegar à conclusão de que, logo à partida, foi o amor de uma mulher (Eva) que levou o primeiro homem (Adão) à perdição. Do desvairado acto de uma mulher se perdeu, pois, tudo: o Paraíso perdeu-se a si

e

perdeu-nos a nós,

os seus descendentes.

Mas não é de admirar esta atitude de uma mulher, já que esta

é,

segundo Vieira, um ser verdadeiramente inconstante, característica

que, desgraçadamente, haveria de transmitir ao homem, em virtude de este ser filho de mulher. Logo, para Vieira, tão inconstantes são os homens como as mulheres, salvaguardando, contudo, que a mulher

o é por idiossincrasia, ao passo que o homem só o é por nasci- mento. Que a mulher é um ser inconstante por condição, dedu-lo Vieira, arrimado no exemplo bíblico da figura da Samaritana, que, aquando do encontro com Cristo, junto ao poço de Jacob, já ia no sexto homem, como o orador conclui das palavras de Jesus referidas por S. João (4.18):

Quinque ~'iros habuisti: et nunc, quem habes, non est tuus vir. Desta citação se aproveita Vieira para, à guisa de trocadilho, jogar um pouco com a situação, levando, deste modo, a água ao seu moinho. Assim, acaba por concluir que, se foram os cinco homens a dei- xarem sucessivamente a Samaritana, fiem-se as mulheres no amor dos homens; se foi ela a rejeitá-los, vão lá os homens fiar-se no amor das mulheres! Termina Vieira por amarguradamente reafirmar que aquilo a que vulgarmente se chama de Amor, isso não passa de uma quimera, é um engano, é doença de imaginação. «Isso é uma cousa que não há, nem é» (II, p. 303).

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2.4 SERMÃO DO DEMÓNIO MUDO

VIEIRA

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Estamos na presença de uma notável homilia pregada no Convento

de Odivelas às Religiosas do Patriarca S. Bernardo, em 1661.

É irrefragavelmente o Sermão onde o p.e António Vieira aborda mais prolixa e percucientemente a problemática da mulher. O «leit- -motiv» que subjaz a estaprédica, encontra-o· o orador no Evangelho de S. Lucas (11,14): «Erat Jesus eiiciens daemonium, et illud erat mutum». «Estava Jesus a expulsar um demónio e ele era mudo». Parafraseando S. Pedro, Vieira começa por afirmar que o Diabo anda à solta, e passeando-se sobretudo pelos claustros, pelos corre- dores, pelas celas e pelos dormitórios das instituições religiosas. E não é de admirar tal apetência do Demónio por estes domínios, porquanto, constituindo as virgens consagradas a Deus a nata do rebanho de Cristo, logo tendem a ser o alvo preferencial do ataque de Belzebu.

Este acaba, insinuantemente, como é seu timbre, por se dissimular através dos espelhos existentes nas celas das freiras. Vieira afirma taxativa e insofismavelmente que «o espelho é o Diabo mudo».

O espelho estava para a vaidade da mulher como o demónio no corpo

de um possesso. Assim, Vieira aconselha todas as mulheres a esti- lhaçarem os espelhos que as tomavam verdadeiramente vaidosas, tarefa que se afiguraria tão ingente quanto a de Cristo ao expulsar os demónios mudos. E está de tal maneira agarrado o espelho ao coração da mulher, que nenhumas orações e jejuns conseguirão, de

per si, extirpar tão terrível quisto. Na perspectiva homilética de Vieira, não há coisas mais parecidas, criadas por Deus, como o demónio e

o espelho. Com efeito, aquele, antes de ser demónio, fora anjo, e

o espelho, de instrumento de conhecimento próprio, acabou por tor- nar-se em amor-próprio, «qúe é a raiz de todos os vícios». Vieira, nesta sua abordagem, tem ainda o topete de afirmar que não pode ser mulher, nem sequer pode ser considerada filha de Eva, aquela que está umbilicalmente casada com o espelho. É que este é

a fonte de todos os males. Ademais, se porventura houvesse espelhos no Paraíso, teria sido tal instrumento o móbil utilizado para a primeira queda de Eva, pelo que substituiria e dispensaria a serpente melíflua

e insinuante que enganou aquela tal mulher. Vieira vai especulando nestas suas lucubrações sobre o pecado original, afirmando desassombradamente que se Eva fosse colocada e tivesse que optar entre as falazes promessas de uma serpente e as hipo- téticas palavras de um espelho que lhe dissesse: «verás em mim tua

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formosura», ela deixar-se-ia inquestionalmente arrastar pelo espelho

e pela sua força magnética. Vieira vai ainda mais longe nesta sua diatribe contra a mulher

e no ataque à sua vaidade. É que, segundo ele, não seria de todo desarrazoado pensar que, se uma mulher fosse confrontada entre a «glória e a idolatria de estar contemplando a sua formosura e a digni- dade e a divindade de ser como Deus» (II, p. 329), mais uma vez ela se inclinaria iniludivelmente pela primeira alternativa. Neste seu «mefis- tofélico raciocínio tem até o arrojo de afirmar que a mulher é seme- lhante a Lúcifer, que ficou tão satisfeito ao contemplar a sua formosura que, por isso, até renunciou a Deus». Diga-se, aliás, que numa outra homilia (SERMÃO DÉCIMO TERCEIRO), Vieira continua a vituperar a vai- dade e o apetite das mulheres, defeitos que, na sua óptica, contribuem para induzir os homens ao endividamento e ao roubo. Invoca ainda a opinião de Tertuliano, segundo o qual, se houvesse espelhos no Paraíso, isso seria a maior tentação de Eva, como aliás acaba por acontecer com as suas filhas: «Há tantas no mundo (e fora do mundo) que gastam as horas e perdem os dias inteiros em se estar vendo e contemplando no espelho, como se não tiveram, nem espera- ram outra glória» (III, p. 330). Na perspectiva de Vieira, as mulheres vivem no meio de dois mundos. Com efeito, para além daquele em que todos nós vivemos, há ainda um outro mundo aparte, materializado nos «enfeites das mulheres», com os seus característicos excessos, as suas vaidades e os seus apetites. Daí que Vieira exclame, quiçá epifonematicamente: «bem-aven- turado o tempo em que o uso dos espelhos estava vedado às mulheres cristãs. É que as mulheres de agora, essas, têm o seu rosto por ídolo. Passam a vida a pintar-se como as gentias e como as cristãs idólatras» (III, p. 331). Na verdade, esta apetência mulheril pelo espelho é ainda, na óptica vieiriana, uma atitude verdadeiramente ímpia e sacrí- lega. Invoca, como exemplo, o daquelas mulheres nórdicas, que até no meio dos livros de orações chegam a colocar espelhos quando vão à Igreja rezar. Por outro lado, os verdadeiros espelhos da natureza são os olhos, designadamente a menina do olho. Partindo desta referência (menina), Vieira acaba por concluir que os espelhos foram feitos para alimentar

a vaidade da mulher e não para os homens. Se há coisa que as mulheres mais prezam, são os espelhos, conclui o orador.

 

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2.5

SERMÃO

NO SÁBADO QUARTO DA QUARESMA

 

Ao comentar a parábola evangélica da mulher adúltera que tinha sido trazida à presença de Jesus em virtude de ter sido apanhada em situação de flagrante delito, Vieira adverte-nos que Cristo não con- denou apenas unilateralmente aquela mulher. É que, para haver adultério, terá que haver, pelo menos, mais outra pessoa, neste caso um homem. Daí que Jesus Cristo questione os fariseus do tempo, perguntando-lhes o porquê de pretenderem condenar uma mulher só, quando haviam sido dois os prevaricadores. É que na perspectiva de Vieira, mau grado a mulher ser «o sexo mais fraco», não era justo que aqueles homens se limitassem tendenciosamente a condená-la, ilibando o outro interveniente no adultério.

2.6 SERMÃO DA

RESSURREIÇÃO DE CRISTO

Partindo do conceito predicável No/ite expavescere (não temais), Vieira exalta encomiasticamente as mulheres, porquanto, em cora- gem, chegam por vezes a suplantar os próprios homens. Enquanto estes, por medo de represálias, não ousaram deslocar-se ao túmulo de Jesus, na manhã da Ressurreição, as mulheres foram infrenes e destemidas e acabaram por ser as primeiras a testemunharem a Ressur- reição. Como refere Vieira, essas Marias eram «mulheres pouco mulheres» (não podia faltar a insinuação subtil da fraqueza feminina), «eram mulheres varonis, eram umas mulheres tão homens» (V, p. 177). Se é permitida uma incursão pessoal a este domínio, diga-se que a mulher varonil era o paradigma da mulher ideal segundo a cosmovisão italiana da época e que Vieira, por ter jomadeado por aquelas paragens, obviamente aqui vai defendendo.

2.7

SERMÃO DA

ASCENSÃO DE

CRISTO SENHOR

NOSSO

A mulher, como vimos, é comummente concebida a Imagem e semelhança de Eva, com todo o seu cortejo de misérias e desgraças. Assim, nesta homilia, a· mulher é-nos retratada como um ser astu- cioso e matreiro, defeitos consubstanciados na primeira mulher. Segundo o célebre orador, foram o apetite, a ambição e· a curiosidade, vícios manifestamente femininos, que levaram aquela mulher à perdição e

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automaticamente

referência afirmando que também na astúcia Eva provou ser mulher.

ao desterro do

homem.

Vieira termina esta breve

2.8 SERMÃO DO ESPÍRITO SANTO

Defensor estrénuo da tese de que o lugar da mulher é em casa, Vieira aponta, pelo contrário, que o campo é que compete ao homem. À mulher está destinado o remanso do lar, acompanhada da sua can- deia, alumiando e ensinando doutrina, na medida em que também ela recebeu o Espírito Santo no Cenário. Todavia, refere Vieira, seja qual for o seu estado, ela deve ter como principal escopo a salvação das almas. Metaforicamente, Vieira, e para chegar a esta conclusão, vai evocar a parábola evangélica da mulher que, perdendo uma dracma, não descansou enquanto não a encontrou, após o que fez uma grande festa com as amigas, porque a dracma perdida foi reencontrada.

2.9

SERMÃO DA

SANTA

CRUZ

Mulher quando ama de verdade, ama mesmo, diz Vieira. E o exemplo mais acabado desta axiologia é o de Madalena, que, aquando da prisão e morte de Cristo, se portou heroicamente aguentando firme e acompanhando Cristo até ao fim, enquanto os doze discípulos deser- taram atemorizados. Segundo Vieira, a força e a perseverança dos comportamentos humanos não está no valor dos braços mas sim nas veias. Todavia, o nosso orador não vai deixando de afirmar intencional- mente que comportamentos deste jaez não são genericamente inerentes ao espírito mulheril, porquanto, todas as vezes que se vai referindo a

esta problemática, não deixa de utilizar algumas locuções concessivas,

}),

«Madalena, como ilustre, posto que mulher

cujo factor restritivo é deveras notório: «Madalena, ainda que mulher

})

2.10 SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO (Tomo VII, Maranhão, 1657)

Há duas coisas no mundo que, na perspectiva vieiriana, levam o homem à perdição: a mulher e o dinheiro. Enquanto uns se perdem pelas dracmas, outros perdem-se pelas damas, proclama Vieira num jogo de palavras manifestamente fone-

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mático. A cobiça (entenda-se o dinheiro) cega a uns e a sensualidade (a mulher) cega a outros. Então quando a cobiça e a sensualidade se encontram, não há ninguém que lhes escape. O seu poder de sedução cega a quase todos. «Estes - reitera Vieira - são os dous feitiços que levam após si o mundo e o trazem perdido» (VIII, p. 286). Para o notável pregador, que extrapola o seu discurso a partir da reflexão de parábolas evangélicas, a mulher constitui um claro empecilho à entrada do homem para o banquete que Deus lhe tem preparado. A mulher não só surge no caminho do homem a impedir o aCesso à felicidade total, como ainda se configura como um laço armado pelo Demónio para prender e perder o homem. E tanto assim era que, logo no início da criação, no Éden, uma só mulher deu a volta à cabeça de um homem. Daí a necessidade de o homem se pôr em guarda contra os cantos maviosos da mulher, porquanto «se a mulher botou a perder a Adão, quando não havia no mundo outra mulher, que será quando há tantas e tais!» (VII, p. 287). Que a mulher é causa da perdição do homem, refere-o inques- tionavelmente Vieira, ao discretear sobre a cena da negação de Cristo por Pedro. Com efeito, das três vezes que Pedro negou o Mestre, em duas ocasiões esteve presente uma mulher. Esta é, pois, a principal fonte de ocasião de pecado. E se Pedro não Se tem afastado daquela mulher, conclui Vieira que «assim como negou três vezes, havia de negar trinta: as três em cumprimento da profecia e as demais por força da ocasião» (VII, p. 299), ou seja, por causa da presença da mulher. Desta concepção ressalta à saciedade que Vieira não perde «pitada» para ir desfrechando as suas diatribes contra o comportamento de certas mulheres, por vezes mefistofelicamente retratadas, como é o caso vertente.

2.11 SERMÃO DA RAINHA

SANTA

ISABEL

Neste Sermão, proferido por Vieira em Roma, em 1674, na Igreja de Santo António dos Portugueses, questiona-se sobre se haverá no mundo uma «mulher forte, uma mulher varonil, uma mulher como homem, sinal da raridade da descoberta» (VII, p. 387). Como, na perspectiva de Vieira, tal tarefa seria tão difícil como a de Diógenes com a lanterna a bater as praças de Atenas, o orador permite-se con- cluir que de tal insólita constatação decorre o facto de, também no domínio da santidade, designadamente do alcandoramento ao estatuto da canonização, é mais difícil ser rainha e santa do que rei e santo.

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É que não é por acaso que na hagiografia romana encontramos mais reis e santos do que rainhas e santas. A causa desta situação encon- tra-a Vieira no facto de a mulher ser muito mais vaidosa do que o homem. Nas rainhas «os fumos da coroa não sobem para o Céu, descem para a cabeça» (VII, p. 391). Ao terminar, Vieira aponta um extenso cardápio de mulheres terrificamente famosas sobre as quais mais pôde sempre a vaidade do que a virtude: Atalaia, Jesabel, Vasti, Micol, Betsabé e Eva.

2.12

SERMÃO

DA

DEGOLAÇÃO

DE

S.

JOÃO

BAPTISTA

Não é despicienda nem anódina a circunstância de este sermão ser pregado em Odivelas. Com efeito, se há homilias onde a temática da Mulher é mais prolixamente abordada, elas serão a prédica do DEMÓNIO MUDO e estoutra que aqui iremos parafrasear. Num e noutro caso, registe-se que Vieira tem pela frente um auditório exclusivamente feminino. Partindo do tema bíblico da degolação de S. João Baptista, Vieira traz à colação a satânica figura de uma mulher, Herodias, a partir da qual se vai aproveitar para tecer largas e profundas considerações sobre a psicologia feminina. Liminarmente começa por apregoar que as mulheres são sempre perniciosas aos homens, embora umas mais do que outras. O grau de intensidade e de variabilidade decorre apenas do facto de essa mulher ser a própria ou a alheia. A mulher é como o vinho. Ambos são elementos altamente perturbadores do tino do homem. A mulher e o vinho são as duas coisas mais poderosas do mundo, refere Vieira, porquanto «ambos rendem o domínio de tal sorte aos homens, que lhes tiram o juízo» (VIII, p. 227). E evoca, como é seu timbre, as figuras de Adão e Noé, que, na sua óptica, acabaram por perder o juízo, tirado, respectivamente por uma mulher e pelo vinho. Cotejando estes dois elementos, refere que tal como o vinho, tanto o próprio como o alheio, faz perder o juízo, o mesmo se passa com a mulher. Foi o caso de David, que perdeu não apenas o juízo, como também o seu Reino. E tudo por causa de quem? Por amor de Betsabé que, ademais, era mulher alheia. Mas se ter mulher já é para o homem algo de insuportável, ter mulher própria e mulher alheia então isso é ainda mais perigoso, situação que Vieira vai tipificar na figura de Sansão. Com efeito, teve este

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duas mulheres, uma alheia, Dalila, e uma outra legítima, cujo nome a Escritura não refere. Com as duas foi extremamente infeliz. É que, quer uma quer outra o enganaram, ambas lhe foram infiéis, ambas ingratas, ambas traidoras, ambas cruéis, ambas inimigas. Enfim, teve Sansão sofrimento redobrado. Mas se a mulher própria já é de per si perniciosa, mulher alheia é-o em muito maior grau. Esta acaba por ser a causa de todos os males. Com efeito, constata Vieira, a ela se devem: «os escândalos particulares e públicos, a ruína das casas, a infâmia das pessoas, as mortes violentas na paz, o sangue correndo a rios nas guerras, a des- truição de cidades, a assolação de reinos inteiros» (VIII, p. 229).

Obsidiantemente vai Vieira referindo a figura da primeira mulher, Eva, como arquétipo intemporal de todas as mulheres. É que, na sua perspectiva, mau grado terem transcorrido tantos séculos, continua

a pairar sobre toda a mulher o anátema da maldição lançada por Deus no Paraíso. Nesta conformidade, para Vieira, a mulher é, hoje como ontem,. a Diaboli ianua, ou seja, a porta por onde entra o Diabo no homem, e é ainda aquela que se atreveu a convencer o homem, já que o Diabo não ousou acometê-lo directamente: «quae eum suasisti, quem Diabolus aggredi non valuit» (VIII, p. 242). E não é de admirar que o homem normal se deixe perder pelas mulheres, porquanto estas fazem até apostatar os sábios, como se pode verificar no Ec1esiastes (19,2) mulieres apostatare faciunt sapientes. Termina Vieira declarando destemidamente que, afinal, as mulheres não passam de meros ídolos. Não se infira, contudo, que Vieira ande para aqui a estigmatizar

e a vituperar todas as mulheres - Deus nos valha! Na sua opinião,

salvam-se apenas as nossas mães, quando defende que é preciso haver

todo o «respeito e reverência devida ao sexo de que todos nascemos» (VIII, p. 230).

2.13 SERMÃO DE SANTA TERESA E DO SANTíSSIMO SACRAMENTO

Nesta homilia pregada na Igreja da Encarnação em Lisboa, em 1644, Vieira começa por defender que homem e mulher através do casamento formam um só. Não obstante serem dois pela criação, eles ficarão um só pelo matrimónio. De seguida, inverte a agulha do seu sermão para comentar, à sua maneira, a parábola evangélica em que o Reino dos Céus é seme-

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lhante a dez virgens, das quais cinco eram prudentes e cinco néscias. Vieira afirma não concordar com esta bipartição e ousa inverter a lógica percentual de Jesus Cristo. Com efeito, na sua perspectiva, não deve- riam ser em igual número as prudentes e as néscias, de tal modo anda

o mundo desconcertado. É que «não andava mal governado, nem fora tão louco o mundo, se de cada dez mulheres se pagava o dízimo à prudência» (VIII, p. 328). Na verdade, a Vieira pareceria mais lógico e mais consentâneo com a psicologia feminina o conteúdo bíblico da cena da cura dos leprosos por Jesus Cristo. É que tendo o Divino Mestre procedido à cura de 10 leprosos, apenas um dentre eles veio manifestar a Jesus

a sua gratidão. Daí que também na circunstância da parábola das

virgens, normal seria, e por paralelismo, encontrar apenas uma mulher

prudente no meio daquelas dez. E numa curiosa interrogação retó- rica, Vieira questiona o seu auditório: «E se em dez homens se acham nove ingratos, como não seria mais verosímil que em dez mulheres

Não há dúvida que, segundo a condíção

humana, este número era o mais próprio» (VIII, p. 328). Não tivéramos nós em conta a formação escolástica de Vieira, e aquilo que a crítica alemã designa por Zeitgeist e um atestado de chauvi-

nismo masculino a descambar para a misoginia, não seria mal atri- buído a Vieira.

se achassem nove néscias?

2.14 SERMÃO DE TODOS OS SANTOS

Nesta prédíca, verifica-se, à semelhança de tantas outras, uma telegráfica referência à situação e estatuto da mulher. Estando na presença de um sermão cujo conteúdo temático se prende com a exaltação das virtudes heróicas dos cristãos, Vieira sustenta que o paradigma da mulher heróica reside nessa imensa cons- telação de virgens que constam das hagiografias e dos martirológicos,

e que seria entediante estarmos aqui a enumerar. Tal heroicidade advém do facto de tudo haverem sacrificado:

matrimónio, jóias, honrarias, reinos, riquezas, coroas, impérios, etc. Ao invés, souberam sacrificar-se através das afrontas, dos açoutes, dos cárceres, dos grilhões, das fogueiras e das feras. Vieira termina a sua homilia defendendo que mulher heróica era não apenas aquela que se mantinha em estado virginal no matrimónio, mas também a que fazia do seu casamento um caminho para a santi- ficação.

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2.15 SERMÃO DE SANTA

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Neste sermão, pregado na Universidade de Coimbra em 1663, Vieira parte de um tema bíblico já por si desenvolvido anteriormente (vide Sermão de Sta Teresa e do SSmo Sacramento) e que é a Parábola das virgens néscias e prudentes. Começando por se referir ao casamento, Vieira proclama enfatica- mente que de cada dez mulheres que se casam cinco são fátuas e as outras cinco são prudentes. E por mais voltas que dê o mundo, nunca as mulheres néscias deixarão de o ser, nem que passem a vida em convívio com as sábias e com os seus exemplos. Grande espanto é - diz Vieira - que as mulheres sábias não sejam pervertidas com a companhia das néscias, dada a sua atávica fraqueza. Para este fenómeno de relapsia concorre o facto de ser extre- mamente ineficaz a pregação por parte das mulheres, bem como a sua capacidade de persuasão. Não foi por acaso - refere Vieira- que «S. Paulo fiou tão pouco do género feminino que a todas as mulheres proibiu o mister de ensinar: Docere autem mulieri non permitto (Epist.

a Timóteo, 2,12). Embora este preceito não seja muito bem aceite

por Vieira, em virtude da prescrição remeter para a parte «mais sensitiva»

(sic) do género humano, o notável orador vislumbra tal proibição logo nos primórdios da criação. Com efeito, no Paraíso, demonstrou Adão ser um homem de entendimento, ao passo que a mulher, Eva, facilmente se deixou levar. Estribado em S. Paulo, Vieira sustenta que a tarefa mais adequada

à mulher é a de aprender e de calar: Mulier in si/entio disca! (Jbi- dem, 2,11). Esta é, segundo a sua axiologia, a lei natural da criação. A única mulher que conseguiu aguentar-se «tu cá, tu lá», com os homens e ademais perante 50 filósofos, foi Santa Catarina. Mas para Vieira esta é a excepção que confirma a regra.

2.16 SERMÃO SÉTIMO

Este sermão insere-se num conjunto de 30 dedicados a Maria, Rosa Mística, e nele Vieira aborda questões como a sensualidade, a luxúria, a desonestidade, pecados capitais e defeitos emblematicamente corporizados na mulher, e para quem se tomam mais perigosos, mais afrontosos e mais perniciosos do que para os homens. Todos os estragos que têm surgido no mundo tiveram a sua génese aqueles pecados e a causa de tudo isso reside numa mulher: Eva.

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Para Vieira, a mulher é um ser intemperante, responsável por todos os desmandos. E se uma só mulher esteve na base de tantos dislates, então quando elas se juntam a coisa fia mais fino, como, aliás, questiona Vieira: «E se uma só mulher ao longo da história, Helena em Tróia, Semíramis na Babilónia, Cleópatra no Egipto, Lucré- cia em Roma, foi causadora de tantos males, o que não será a intem-

perança de muitas mulheres juntas?» (XI, p. 52). Com efeito, as mulheres, ao longo da história, foram a causa da ira divina ao assolar

a humanidade com os mais terríveis castigos. Foram elas, com a sua «descompostura que corromperam as virtudes dos filhos de Deus» (XI, p. 52).

2.17 SERMÃO DÉCIMO SÉTIMO

o conteúdo desta homilia gravita à volta do local mais aconse- lhável para fazer oração. E a questão que Vieira coloca é a de saber se se deve rezar em casa, só, ou em grupo, nas Igrejas. Todavia, a

interrogação é meramente retórica, porquanto Vieira é a esse respeito manifestamente peremptório e maniqueísta, ao defender soluções diferentes para os homens e para as mulheres. No primeiro caso,

é seu entendimento que é perfeitamente legítimo que os homens possam rezar ou na Igreja, ou em casa, em suma, onde quiserem, conquanto se sintam à vontade e em comodidade. Quanto às mulheres, pres- creve a obrigatoriedade de rezarem em casa «e de nenhum modo fora dela». Com efeito, podem os homens rezar em grupo, mas a mulher

que o faça sempre só, recolhida na sua tebaida. Justifica Vieira esta diferenciação por uma questão de conveniência e de decoro. É que

a mulher, quando vai à Igreja com a intenção de rezar, é apenas como pretexto para sair e não para orar. A mulher não foi criada para andar a cirandar. Segundo Vieira, desde a sua origem, a mulher não é um bem móvel, como comprova

in

mulierem. E o notável orador insiste sobre o valor semântico da

forma verbal aedificavit, para proclamar que a mulher foi edificada

e tal como o edifício não se move do lugar onde o colocaram, assim

deve ser a mulher. Nesta conformidade, o lugar da mulher é em casa e entre a mulher

e a casa deve existir sempre uma relação umbilical, na medida em que

através de uma citação do Génesis (2,22): Aedificavit

costam

«mulher e casa são a mesma cousa».

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Discreteando sobre esta questão, Vieira chega à conclusão de que a mulher, mau grado ser um edifício, não passa de uma construção sem alicerces. Daí que o maior apetite da mulher seja andar e sair,

desejo que é, aliás, atávico e idiossincrásico e que se manifestou logo no acto da Criação. Partindo da citação do versículo do Génesis

(Ibidem): Aedificavit

et adduxit (sublinhado nosso) eam ad Adam, e enfatizando, como é aliás apanágio vieiriano, o valor semântico inerente à forma verbal sublinhada, o notável orador constata que a mulher não foi mostrada ou sequer entregue ao homem, mas que foi Deus que a trouxe (adduxit), sinal, portanto, de que ela estaria noutro local. Logo, no exacto momento da sua criação, a mulher não fez outra coisa senão sair e andar, apesar de haver boas razões para que a mulher permanecesse no local da sua criação, porquanto era lá que estava o seu criador, bem como o seu esposo, de cuja costela havia sido formada. Mas, para Vieira, exigir que a mulher permaneça num local, durante muito tempo, isso seria autêntico suplício de Tântalo. Com efeito, «é tal a inclinação e tão impaciente na mulher o apetite de sair e andar, que por sair e andar deixou Eva o esposo, e por sair e andar deixou a Deus. Oh, quantas vezes, por este mesmo apetite vemos deixado a Deus, e os esposos pior que deixados!» (XI, p. 415). Na óptica de Vieira, o gosto da mulher pela vida fora de casa

costam, quam tulerat de Adam, in mulierem:

é a causa da sua perdição, porque ela é «tão vagabunda nos olhos

como nos passos» (XI, p. 416), e se, às vezes, saem com boa tenção tudo pode acabar em tentação. É que, mulher que sai à rua para conviver com outras mulheres, acaba fatalmente por ser vista também pelos homens e logo aí começa a perigar a sua honra, a sua pessoa e a sua família. Quantas vezes, exclama Vieira, citando Marcial, as mulheres saem como Penélopes e acabam por retornar a casa como Helenas! E de nada valerá às mulheres «dourarem a pílula» tentando justi- ficar as suas saídas sob pretexto da sua devoção, «porque muitas vezes as que se chamam devoções, são verdadeiramente devassidões»

(XI, p. 417), na medida em que acabam por ver e falar daquilo que não devem. Na verdade, mulher que sai à rua, enganando o marido com a justificação da oração do Rosário, comete sacrilégio e não passa

de uma insofismável hipócrita. E concluindo o seu pensamento exclama

Vieira: «Quantas vezes a mulher faz um voto para cumprir na Igreja

e acaba por encontrar um devoto» (XI, p. 418) (sublinhado nosso). Que o lugar mais indicado para a mulher deve ser no recolhimento da sua casa, para tal encontra Vieira boas razões, quer no ~xodo (34,23) quer no conhecido Frei Jerónimo de Azambuja, o Oleastro. Com

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efeito, se preceituava naquele livro bíblico do Antigo Testamento, a obrigatoriedade de todos irem três vezes por ano ao Templo. Toda- via, tal imperativo era apenas extensivo ao género masculino, estando portanto vedado às mulheres, e o legislador lá teria as suas razões. Jerónimo de Azambuja, evocado por Vieira, justifica a restrição daquela lei, alegando que Deus pretende determinar que as mulheres não deveriam sair de casa, ainda que com pretexto de piedade e de religião, «porque a gente deste género é muito amiga de sair e de andar por fora; e porque talvez lho proibam os que têm o mando da casa, fingem devoções falsas e mentirosas» (XI, p. 419). Curiosa é a expressão utilizada pelo Oleastro para qualificar as mulheres. Com efeito, adjectiva-as com o apodo nada abonatório nem edificante de licen- tiosum genus, ou seja, «género licencioso», só porque a mulher se apro- veita da ida aos ofícios religiosos como ocasião para vaguear. A mulher honrada é, na cosmovisão vieiriana, aquela que faz da solidão o seu principal estado da vida. Só assim será possível atingir a santificação. Mas também depois de atingir este estatuto terá forço- samente de estar só, na medida em que só assim se conservará na per- feição e em pureza de vida. Em suma, a mulher estaria inelutavel- mente condenada à clausura.

2.18

SERMÃO

VIGÉSIMO SEGUNDO

Enquanto na homilia anterior Vieira criticava as mulheres que faziam da sua vinda à Igreja um mero pretexto para conversas e encon- tros pouco recomendáveis, neste sermão acaba por censurar as mulheres que, por simples vaidade, e só por isso, exigiam confessar-se, comungar

e ouvir missa lá em casa. Na perspectiva vieiriana, enquanto esta situação era apenas admissível por razões de enfermidade, começava agora a generalizar-se, só por extrema vaidade. Em vez de serem

as mulheres a visitar Deus, era Este que tinha de se deslocar a suas casas. Segundo Vieira, estes exageros não poderiam tolerar-se. Só uma mulher vulgar é que poderia alinhar por estes extremos, já que uma mulher a sério terá de ser forçosamente um ser equilibrado. Como é habitual em Vieira, também no confronto com os homens

a mulher nada tem a ganhar. Assim, ela é considerada neste sermão como sendo menos inteligente que o homem. A razão, descortinou-a Vieira no facto de aquando da vinda do Espírito Santo e ao infundir

a Sua ciência, Ele ter escolhido discípulos e não discípulas. Enquanto aqueles receberam um indeclinável mandato de ensinar e de pregar,

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tal tarefa estaria liminarmente vedada às mulheres, como refere S. Paulo na primeira Epístola a Timóteo (2,12): Docere autem mu/ieri non per-

mitto (vide

Em abono da sua tese vai Vieira recorrer às figuras veterotesta- mentárias de Sara e de Abraão, iniciaJmente designadas por Sarai

e Abraão, respectivamente. Como se pode constatar, Deus, ao apo- copar o grafema i a Sarai e ao introduzir paragogicamente um a em Abraão, Ele lá teria as suas razões. Vieira faz uma leitura pessoal de tais operações, referindo que, aos homens, Deus acrescenta as letras, enquanto às mulheres ousa até retirá-las. Vieira termina esta abordagem afinando pelo diapasão da meno- ridade intelectual das mulheres quando, a propósito de uma discussão sobre se os ofícios divinos deveriam ser celebrados em vulgar ou em Latim, afirma que esta língua é mais fácil de aprender pelos homens do que pelas mulheres, em virtude de estas serem menos bafejadas pela inteligência.

SERMÃO

DE

SANTA

CATARINA).

2.19 SERMÃO HISTÓRICO E PANEGÍRICO

FRANCISCA

ISABEL

DE SABÓIA

NOS ANOS DA

RAINHA

D.

MARIA

Ao longo de todos os 202 Sermões, que demonstram à saciedade a longevidade e a prolixidade literárias do p.e António Vieira, a única mulher que mereceu honras de ser salientada, em termos de persona- lização, foi inequivocamente D. Maria Francisca Isabel de Sabóia. Com efeito, a tão controversa personagem dedica Vieira dois dos seus mais belos sermões, a propósito da comemoração do seu aniversário

e mais adiante aquando do seu falecimento. Na homilia em epígrafe, onde, aliás, podemos encontrar aquela tão famigerada definição de GUERRA, e após ter defendido a posição da Rainha nas questões envolventes ao seu divórcio, Vieira proclama que a principal função da mulher reside simplesmente na pro- criação. No que concerne ao seu estatuto familiar, a mulher está, desde o acto da sua criação, inelutavelmente subjugada ao homem, em con- sonância perfeita com o imperativo bíblico do Génesis (3,17): sub potestate viri eris. Daí que, para Vieira, à mulher caiba o poder de sugerir e ao homem, naturalmente, o direito de mandar. Ainda nesta perspectiva, o notável orador continua a defender uma tese que lhe é muito cara: homem e mulher formam um só a partir do matrimónio. Tal indissociabilidade faz com que não haja entre os

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esposos diferença de pessoas. Servindo-se de um conceito deveras curioso, Vieira afirma: «eu quer dizer tu, e tu quer dizer eu: e como não há diferença de bens, meu quer dizer teu, e teu quer dizer meu» (XIV, p. 394-395). Assim, só através desta total simbiose e quase que anulação das partes será possível que o casamento alcance o dese- jável sucesso.

2.20

SERMÃO DO FELIcíSSIMO NASCIMENTO DA SERENfsSIMA INFANTA TERESA FRANCISCA JOSEFA

Estamos na presença de um dos raros sermões gentelíacos de Vieira e que constituiu o seu verdadeiro canto do cisne, porquanto, decorrido algum tempo, acabou por falecer. Profundamente regozijado com o nascimento da filha de D. Pedro II

e de D. Maria Sofia de Neuburg, Vieira parte do princípio de que não é de todo indiferente o nascimento de um homem ou de uma mulher. Para o nosso orador, a mulher está logo, desde o momento do seu nascimento, em plano de desigualdade relativamente ao homem.

E até os próprios pais reagem também diferentemente, na medida em

que, reitera Vieira, não há maior alegria para os progenitores do que

o «nascimento dos filhos se são filhos». Como é seu timbre, vai estribar

a sua tão ousada afirmação numa inesgotável constelação de exemplos, tirados da Sagrada Escritura, continuando a defender que o nascimento

mais desejado é sempre o do puerlfilius masculus. Ademais, vai sempre referindo que desde os oráculos e os profetas até às Escrituras, não há ninguém que não exalte e não cante hossanas ao nascimento de uma criança, desde que ela seja homem. Se, pelo contrário, «o nascimento for o de uma mulher, os oráculos não res- pondem, os profetas emudecem e até as Escrituras não falam». (XV, p. 159). É, pois, incontroverso, que, na perspectiva vieiriana,

o nascimento de um rapaz é mais bem aceite do que o de uma rapariga. Se mais exemplos não houvesse, (e há), Vieira vai evocar o exemplos do patriarca Jacob, que teve doze filhos e apenas uma filha. Enquanto aqueles acabaram todos por ser patriarcas e chefes de outras tantas tribos, uma filha bastou, porém, «para cobrir de luto as cãs do pai, para tingir de sangue as mãos dos irmãos» (XV, p. 159-160), para desonrar, em suma, toda a sua família. Por outro lado, continua Vieira, mal tinha o mundo acabado de nascer e logo ele estava perdido e destruído por obra e graça de uma mulher apenas, Eva.

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Focalizando O seu raciocínio sobre o conceito predicável, que serve de «motor de arranque» a este sermão e que é o versÍCulo do Génesis (5,8): Genuit filios, et filias, Vieira sustenta que não é arbitrária, nem despicienda, nem anódina a colocação daquelas palavras na frase. Com efeito, constatamos em primeiro lugar a referência ao género masculino (filios) e só em plano secundário, ao nível da estrutura sintagmática, nos deparamos com o lexema mulheres (filias), indi- cador, portanto, da subalternidade destas desde o momento da sua criação. Como se a dependência das mulheres já não bastasse, outro não menor estigma paira sobre todas elas: o da maldição. Na verdade, segundo a mundividência vieiriana, aliás, corroborada em De Civitate Dei de Sto Agostinho, todo o género humano se reparte através de duas gerações, provenientes, respectivamente de SETH e de CAIM, ambos filhos de Adão e de Eva. Os descendentes de Seth eram considerados filhos de Deus, e eram os homens. Da parte de Caim descendiam os filhos dos homens que eram as mulheres. Nesta perspectiva, eram

os .homens abençoados, ao passo que as mulheres eram amaldiçoadas

por causa do anátema lançado por Deus sobre Caim, a propósito do fratricídio cometido sobre Abel.

2.21 PALAVRA DE DEUS EMPENHADA NO SERMÃO DAS EXÉQUIAS DA RAINHA MARIA FRANCISCA ISABEL DE SABÓIA

Se há sermão onde Vieira alcandora uma mulher ao panteão da imortalidade, este é inequivocamente um deles. Já exaltada aquando de uma homilia pregada na comemoração do seu aniversário, D. Maria Francisca é aqui, em tom panegírico, guindada ao estrelato.

Estamos, com efeito, na presença de Um notável sermão, todo ele incidindo sobre a controversa figura de D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, algum tempo após a sua morte. Impressionante, cora- josa e destemida a atitude de Vieira, que assim reabilita, de algum modo, uma mulher nem sempre bem compreendida pelos seus coetâ- neos. Na verdade, num ambiente dominado por um tartufismo cego

e farisaico, a voz insuspeita de Vieira contribui para que esta mulher consiga «post-mortem» atingir as raias do fastígio. D. Maria Francisca é assim, nesta oração fúnebre, encomiástica

e laudatoriamente retratada pela pena de um tão notável e brilhante pregador, como aliás o não foi nenhuma outra ao longo de toda a prolixa parenética vieiriana.

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Em tom inflamado, Vieira impõe ao seu auditório D. Maria Francisca como o mais rematado exemplo de esposa e de rainha, aliás esparsamente apodada de santíssima e de prudentíssima. Nesta modelar mulher se congraçaram - refere Vieira - a piedade, a cons- tância, a justiça, a misericórdia e a religiosidade. Não admira, pois, que a sua morte tenha sido verdadeiramente sentida: «choraram os pobres, choraram as viúvas, choraram os cristãos, choraram os mise- ráveis, e necessitados de todo o género» (XV, p. 362). Como esposa, ela e o marido formavam realmente um só: «Na agudeza do entendimento, na presteza do discurso, na madureza do juízo, na compreensão dos negócios, no acerto das resoluções, na eleição dos meios e fins e em todas as parte da perfeição e consumada prudência não pareciam el-rei e a rainha duas almas se não uma só» (XV, p. 365-366). Na concepção de Vieira, nunca ao longo de toda a história de Portugal terá havido um Rei que tivesse tido como conselheiro uma mulher de tão notável gabarito. Hiperbolicamente tem até o topete de afirmar que a morte desta tão santa e prudente mulher representa para Portugal o mesmo que, por hipótese, representaria para o Mundo se a Lua lhe faltasse. Para Vieira, D. Maria Francisca é um «planeta eclipsado». Termina o orador convidando todos os seus ouvintes e leitores a tomarem como exemplo de vida as virtudes de uma tão pia e tão santa mulher.

3.

CONCLUSÃO

Passados que foram à fieira os 202 Sermões que saíram da pena do P.e António Vieira, poder-se-á chegar à conclusão de que a proble- mática da MULHER não constitui tema obsidiante na parenética viei- riana, nem sequer é motivo de exclusividade em qualquer sermão. Face a tal constatação, houve necessidade de procedermos ao levantamento das principais homilias e aí procurarmos as esparsas e avulsas referências ao tema em agenda. Se, por um lado, e passe qualquer intenção comiserabilista, não andámos muito longe de procurar agulha em palheiro, ficou-nos, por outro, a gratificante sensação de passarmos a conhecer mais pro- fundamente a obra de um dos nossos mais brilhantes prosadores, por vezes injustamente esquecido.

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No que respeita à cosmovisão vieiriana relativamente à MULHER, encontramos uma concepção irrefragavelmente maniqueísta. Com efeito, ela ou é paradigmaticamente representada pela figura da Virgem Maria, ou pode surgir arquetipicamente consubstanciada e retratada

nas personagens bíblicas, algo prostibulares, da Samaritana e de Maria Madalena, por sua vez ambas emblematicamente tipificadas na pri- meira mulher: Eva. Ademais, se tivéssemos que sopesar os dois pratos da balança, a tara penderia inquestionavelmente para o lado de Eva, de tal modo ela é adrede e obsessivamente citada na maior parte do sermonário vieiriano. Como quer que seja, a lógica discursiva de Vieira, de pendor manifestamente dicotómico, bipolarizador e dilemático, permitirá concluir pela existência nos seus sermões de dois tipos antipódicos de

mulher: a

MULHER/DIABO versus MULHER/MARIANA.