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Cartas Universais

e Hebreus

UNIDADE 1

Hebreus

FACEL

PARA INÍCIO DE CONVERSA

Nesta unidade você poderá compreender os principais pensa- mentos acerca das questões introdutórias do livro de Hebreus e o con- teúdo geral desta obra como marca do período inicial da expansão do cristianismo. Ao concluir este estudo o leitor será capaz de explicar algo mais

a respeito do cristianismo do primeiro século, descrever o conteúdo, a

mensagem e algumas características introdutórias de Hebreus, Tiago, 1

e 2 Pedro, 1, 2 e 3 João, além da carta de Judas. Nesta primeira seção você terá contato com os principais pensa- mentos da epístola de Hebreus que não é propriamente uma epístola, tampouco o que chamam comumente de homilia. Não tem introdução, nem começa com as costumeiras frases de endereçamento e saudações. A matéria contida neste documento neotestamentário prontamente se divide em dois aspectos: o doutrinário e o exortativo. O(a) estudante logo perceberá que o pensamento dominante é a superioridade de Cris- to.

Mais uma vez você está diante de uma leitura fascinante. Pode ter a certeza de que a sua dedicação será grandemente recompensada!

É hora de começar os estudos!

SEÇÃO 1 – O LIVRO DE HEBREUS

Da mesma forma que qualquer outro livro da Bíblia, ao se colo- car diante do texto de Hebreus, o(a) estudante ávido por entendimento percebe logo que diversas perguntas devem ser feitas a respeito da es- crita de um documento bíblico, neste caso do Novo Testamento, muitas das quais, no caso de Hebreus, são impossíveis de ser respondidas com certo grau de certeza. Mesmo assim podem ser sugeridas algumas res- postas, desde que seja vista a possibilidade de sustentá-las com bom senso. No entanto é preciso admitir que, na verdade, não se sabe ao certo quem é o autor deste texto e, da mesma forma, seus destinatários primeiros.

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É preciso dizer ainda que a ignorância a respeito desses e de ou-

tros particulares não pode constituir-se em impedimento para uma boa compreensão do valor teológico e espiritual de um documento que, des- de o princípio, tem comprovado por si mesmo a sua autoridade quando se tem em vista seu valor intrínseco. De fato, afirma Davidson (1997, p.

1345), “a única resposta adequada, dada pela fé cristã a essas perguntas,

é que o próprio Deus é seu Autor primário”. Davidson lembra ainda

que os cristãos “de todos os séculos são os leitores divinamente dese- jados para este texto”. Isto se deve à verdade de que por intermédio deste texto Deus tem falado, e continua falando, ao seu povo por meio

de seu Espírito. Esta é, pois, a maior vindicação do seu lugar no cânon do Novo Testamento.

É oportuno o comentário de Brown a respeito deste documento.

Ele consegue sintetizar em poucas linhas o que pode ser chamado de uma boa descrição do texto de Hebreus:

Em todos os aspectos, essa é uma das obras mais notáveis do NT. Conscientemente retórica, cuidadosamente elabora- da, habilmente redigida em grego primoroso e apaixona- damente entusiasta de Cristo, Hebreus oferece um número excepcional de inesquecíveis noções que modelaram o cris- tianismo subseqüente. (BROWN, 2004, p. 891).

Mesmo assim, ressalta-se que muito do que se pretende saber concernente a Hebreus é um enigma.

Autoria

No corpo do texto mesmo não encontramos indicação alguma

a respeito de seu autor. Ao contrário da maioria dos escritos do Novo

Testamento, o escritor não se identifica. Disso resulta que chamar o tex- to de Hebreus de carta ou epístola já é bastante controverso. Todas as

tentativas de identificar o autor de Hebreus têm sido infrutíferas. E o fato de ser anônimo dificulta a localização do autor.

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Como se pode observar nas cartas encontradas ao longo do cânon do Novo Testamento, é comum que o texto tenha já em sua introdução a identificação de seu autor(es). Em seguida a introdução menciona seus destinatários e termina com uma saudação e ação de graças – há peque- nas variações, mas normalmente o padrão é seguido. Da mesma forma o final das cartas geralmente contém alguns votos e saudações finais. Neste caso o texto de Hebreus termina em forma de carta. Do que foi dito, pode-se concluir que o texto de Hebreus tem

a introdução de um livro, em seu desenvolvimento segue a forma de

sermão – parênese – e termina em forma de carta. É, pois, um texto pe-

culiar. Isto já serve de alerta para o cuidado devido ao fazer afirmações ou chegar a conclusões precipitadas. Uma rápida observação nos escritores cristãos – não canônicos

– primitivos também não fornece testemunho unânime na questão da autoria:

Tertuliano atribui a autoria a Barnabé. Tal afirmação carece de testemunho. Ressalta-se, contudo, que a Epístola de Barnabé – início do século

II – tem o estilo alegórico alexandrino similar ao de Hebreus.

Clemente sugeriu que o apóstolo Paulo a escreveu em hebraico, sendo traduzida para o grego por Lucas. Orígenes admitia que os pensamentos originais eram do após-

tolo Paulo, mesmo que a forma de escrita e a linguagem final não

o fossem.

As conexões do texto ao nome de Paulo contribuíram para que

lhe fosse conferida autoridade apostólica. Dessa forma, desde cedo muitas cópias passaram a circular com o título “A Epístola de Paulo aos Hebreus”. No texto mais antigo de que dispomos hoje – o Beatty 3 Papyrus

II p 46 (início do século III) – o documento faz parte da obra pau-

lina, logo depois de Romanos (CARSON, 1997, p. 437). No entan- to, a aceitação desta obra como sendo de autoria paulina acon- teceu mais lentamente na Igreja ocidental. Em Alexandria, as-

sim como em Roma, nas listas oficiais do final do século IV e

3 Ou Papiro II de Chester Beatly conforme alguns manuais. Veja em HALE, B. D. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 347.

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começo do século V, Hebreus fazia parte do “corpo paulino”, sendo às vezes situada antes das cartas pessoais – ou pastorais. Gradualmente o nome de Paulo foi introduzido no título da obra, aparecendo já na Vulgata (BROWN, 2004, p. 904). Outras sugestões para autoria incluem os nomes de Apolo, Si- las, Áquila (ou Prisca e Áquila) e Filipe, o evangelista. Para Lutero, Apolo era a sugestão mais aceita. A julgar pelo texto de Atos 18. 24-28 ele seria mesmo o tipo de homem que poderia compôr tal texto. Apolo era judeu, nativo de Alexandria, elo quente e versado nas Escrituras Hebraicas. Esta hipótese atraiu grande número de seguidores. Mais uma vez, não há evidência alguma para tal afirmação. A maioria dos eruditos contemporâneos não aceita a autoria paulina. (DAVIDSON, 1997, p. 1345). Hale (2001, p. 338 – 347) discorre bastante a respeito dos possí- veis autores e quais as justificativas. Ele menciona: Paulo, Lucas, Clemente de Roma, Barnabé, Apolo e Silvano. Hale lembra que já Eusébio de Cesaréia, em sua História Eclesiástica vi. 25.11, 14, dizia que “quem escreveu a epístola só Deus sabe certamente” e, para concluir, registra a afirmação contundente de B. F. Wescott; Este último escreveu que qualquer tentativa de colocar um nome para o autor é devida à “má vontade de confessar francamente nossa ignorância sobre uma questão que excita nosso interesse”. Portanto, talvez seja mais sábio contentar-se em dizer “não sabe- mos” e, “satisfazer-nos com a ironia de que o orador mais sofis- ticado e o mais elegante teólogo do NT é um desconhecido:

Para empregar sua própria descrição de Melquisedec (Hb 7. 3), o escritor de Hebreus permanece sem pai nem mãe, nem genealogia. A qualidade de seu grego e seu domínio das Escrituras em grego sugerem que ele era um judeu- cristão com boa educação helenística e algum conhecimen- to das categorias filosóficas gregas. Seu estilo hermenêutico alegórico tem paralelos em Fílon e na interpretação alexan- drina, mas esta era ensinada em outra parte, de modo que a alegação de que o escritor de Hebreus originava-se de Alex- andria não é provada (BROWN, 2004, p. 906).

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Por último, mas não menos importante, é preciso admitir que o próprio texto aponta para uma autoria “não-apostólica”. A perícope de 2. 2-4 fornece uma pista valiosa:

Portanto, convém-nos atentar, com mais diligência, para as coisas que já temos ouvido, para que, em tempo algum, nos desviemos delas. Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição, como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos, depois, confirmada pelos que a ouviram; testificando também Deus com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas, e dons do Espírito Santo, dis- tribuídos por sua vontade? (BÍBLIA, N.T. Hebreus 2:2-4). Grifo Nosso.

É conveniente ficar com a opinião de Orígenes que, sendo um

dos mais letrados da era patrística, “contentou-se em deixar no ano- nimato o verdadeiro escritor […] observando que somente Deus sabe quem escreveu Hebreus” (BROWN, 2004, p. 905).

• Origem e data

Uma vez que a autoria é desconhecida, a origem é mais desco-

nhecida ainda. A única pista explícita é a saudação aos leitores, enviados pelos “da Itália” (13. 24). É bom relembrar algo da presença de judeus romanos em Jerusalém durante o Pentecostes (Atos 2. 10). Contudo, a saudação em 13. 24 e o pedido em 13. 19, quando associados à libertação de Timóteo, enfim, o trecho de 13. 23-24 parece sugerir que o autor es- tava em Roma. Mesmo assim, não se pode afirmar ao certo a localidade correta.

O mesmo pode ser afirmado com relação à data. Contudo, Car-

son (1997, p. 441) propõe algumas sugestões para este debate. Em pri- meiro lugar, destaca-se o fato de os destinatários pertencerem à segun- da geração de Cristãos (2. 3) – já mencionado anteriormente. As passagens em 10. 25 e 12. 4 esclarecem que a igreja estava sen-

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do provada. Poderia ser as perseguições movidas por Nero, ou os con- tratempos da guerra judaico-romana. Descobre-se ainda que Timóteo havia sido encarcerado, mas fora solto (13. 23). A causa de sua prisão não se sabe. Alguns sugerem as datas entre os anos de 66 e 69 d.C., quando os judeus de Alexandria e da Palestina se rebelaram contra o governo de Roma. De outro lado um limite pode ser estabelecido por 1Clemente 36. 1-5 – composta possivelmente no final dos anos 90 – que faz eco a Hebreus 1. 3-5, 7, 13 (BROWN, 2004, p. 907). A data mais sugerida para a redação de Hebreus é entre 60 e 90 d.C. A menção de Timóteo (13. 23) aponta para uma data limite não muito posterior à proposta.

• Os destinatários

Quem são os destinatários do texto? De acordo com os documen- tos mais antigos o documento é dirigido “Aos Hebreus”. Hale (2001, p. 347) menciona que Tertuliano (c. 200) conheceu o título corresponden- te em latim, Ad Hebraeos. Todavia, esta ainda é uma expressão vaga. Um hebreu seria um israelita de nascimento e, segundo a religião, um descendente de Abraão (BÍBLIA, NT Filipenses 3. 5; 2 Coríntios 11. 22). Endereça-se aos hebreus da Palestina, ou de outro lugar? O autor indica que os crentes ainda não haviam resistido até o sangue (12. 4). É bom lembrar que em Jerusalém houve perseguições cruéis contra os discípu- los de Cristo. O fato de Estevão ter sido apedrejado até a morte é uma evidência de que, ao menos a igreja da capital, resistira até o sangue. Dessa forma, a exortação (12. 4) não caberia à igreja de Jerusalém; Con- tudo, poderia ser qualquer outra cidade da região da Palestina. É preciso observar ainda que os irmãos de Jerusalém eram, em geral, pobres. Em outros documentos do Novo Testamento encontra- mos as igrejas gentílicas socorrendo-os em suas necessidades. Da leitu- ra de Hebreus, a impressão que se tem é que os destinatários eram ricos, até mesmo tinham condições de hospedar estranhos (13. 1-2, 16). Pelo menos uma vez eles serviram aos pobres (6. 10). Mais uma vez se enfrenta um enigma. Entretanto, ao julgar pelo

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teor de Hebreus, podem ser levantadas algumas conjecturas no que diz respeito aos primeiros leitores – aos quais se dirigiu o autor. É evidente que o destino refere-se a judeus cristãos helenistas da diáspora. Dificil- mente seria possível identificar os destinatários como judeus converti- dos na Palestina de fala aramaica, a quem se dirige o termo “hebreus” encontrado em Atos 6. 1. Laubach (2000, p. 20) chama a atenção para a realidade histórica de que já era de conhecimento de Tertuliano e dos professores da escola em Alexandria, o título que encabeçava o documento “aos Hebreus”. Na opinião de Carson (1997, p. 444) o autor tem em mente um grupo específico. A exortação encontrada em 5. 11-14 sugere um determinado grupo de fiéis “no âmbito de uma comunidade, do qual estão excluídos os irmãos dirigentes, os líderes da comunidade”. Por volta do ano 200, o titulo “Aos Hebreus” aparece no Beatty Papyrus II (p 46 ). Este documento já estava em uso no Egito e no Nor- te da África e, além disso, nenhum outro título jamais apareceu como destinação. Com base no conteúdo algo sobre o ambiente vivencial dos destinatários pode ajudar o entendimento. Alguns pontos mais relevan- tes podem ser destacados:

a) No início, na avaliação do autor, eles foram devidamente

iluminados […]. A comunidade recebeu a mensagem cristã de evangelizadores cuja obra fora acompanhada pela real-

ização de milagres. A atividade do Espírito Santo era parte daquela experiência (Hb 2,3-4; 6,4-5) […] os destinatários valorizavam a riqueza religiosa do judaísmo. […] b) A se- guir (quando?), os cristãos foram afligidos por um tipo de perseguição, hostilidade e/ou maus-tratos (Hb 10,32-34). Foram privados de propriedades, e alguns foram jogados na prisão.

c) No tempo em que Hebreus foi escrita, a crise de perse-

guição ativa parecia ter passado, mas existia contínua ten- são e desânimo, bem como perigo futuro. Ofensas da parte dos de fora constituíam ainda um problema (Hb 13,13). […] Aparentemente, os afetados […] tinham parado de reunir- se em oração com outros cristãos (10,25) (BROWN, 2004, p. 908, 909).

com outros cristãos (10,25) (BROWN, 2004, p. 908, 909). Muitas outras hipóteses e conjecturas têm sido

Muitas outras hipóteses e conjecturas têm sido levantadas. Des-

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de a região de Jerusalém até Roma podem ser tidas como comunidades destinatárias. Dessa forma, o que emerge da análise a respeito dos des- tinatários é muito vago; as comunidades cristãs de quase todas as cida- des do mundo antigo, em um ou outro período, vêm sendo sugeridas como destinatários de Hebreus.

SAIBA MAIS BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas,

2004.

DAVIDSON, F. O Novo Comentário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova,

1997.

DOCKERY, D. S. Manual Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova,

2001.

EXERCÍCIOS

1. O que pode ser dito a respeito da autoria de Hebreus?

2. Assinale as alternativas corretas:

I – Qual o centro da obra de Hebreus?

a A Lei.

(

)

b O Sacerdócio Levítico.

(

)

c Jesus, o Filho de Deus.

(

)

d A graça.

(

)

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II – Quem foram os destinatários do texto?

a Os judeus que não se converteram ao cristianismo.

(

)

b Os judeus que residiam em Jerusalém.

(

)

c Cristãos oriundos do judaísmo.

(

)

d Nenhuma das alternativas estão corretas.

(

)

III – Qual o documento mais antigo onde encontramos a expressão “Aos

Hebreus”?

a O texto sempre levou este título.

(

)

b Beatty Papyrus II (p 46 ), por volta do ano 200 a.C.

c Beatty Papyrus II (p 46 ), por volta do ano 200 d.C.

(

(

)

)

d Não existem documentos com esta expressão.

(

)

SEÇÃO 2 – TEXTO, CÂNON, PROPÓSITO E ESBOÇO

Diversas são as informações que podem auxiliar na leitura e in- terpretação de Hebreus. Além dos temas de destaque, é preciso antes esboçar a obra como um todo. No entanto, antes de prosseguir, algumas informações históricas também são de bastante relevância para o(a) es- tudante de teologia. Dentre eles, se tratará ainda do texto e de sua acei- tação no cânon.

Texto

No que diz respeito ao texto, os manuscritos mais importantes são alexandrinos em sua imensa maioria (ATTRIDGE, apud CARSON, 1997, p. 449). A tradição bizantina é representada pelos unciais 4 K e L

4 Esse termo é usado para contrastar certos manuscritos (escritos com letras maiúsculas) aos manuscritos chamados “minúsculos” (escritos com letras minúscu- las). Ambos esses tipos de manuscritos eram escritos à mão (como é óbvio), mas o corpo (dimensões) de suas letras variava. “Uncial” significa “letra em caixa alta”. É possível que esse adjetivo se derive do hábito de alguns publicadores romanos usa- rem doze letras por linha. Eles contavam doze polegadas para cada pé, como tam- bém doze onças para cada libra. A palavra latina uncia significava ou “polegada” ou

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(século IX) e diversos minúsculos posteriores. No ocidente o texto de maior destaque é representado por D (Códice Claromontano, século VI) e também pela Antiga Versão Latina. De forma geral, Hebreus está bem preservado. Ainda concernente ao texto, o gênero literário se reveste de im- portância. Mais uma vez se depara com uma questão que ainda faz parte do debate entre os eruditos. Em 1906, por exemplo, W. Wrede publicou uma obra cujo título pode ser assim traduzido “O enigma literário da epístola aos Hebreus”. H.E. Dana (apud Brown, 2004, p. 899) comenta:

“começa como um tratado continua como um sermão e termina como uma epístola” 5 . Todavia, existem alguns problemas com a atribuição de cada um desses gêneros ao texto. Mesmo levando em conta a cuidadosa exposição da superioridade de Cristo, Hebreus não é simplesmente um tratado teológico. A exposição doutrinária carrega o escopo apologético de advertir os destinatários contra o abandono da fé em Cristo. No que diz respeito a considerar Hebreus como sendo um ser- mão, a obra se autointitula “palavra de exortação” (13. 22). Além disso, existem expressões como “estamos falando” (2. 5; 5. 11; 6. 9). Usando as categorias da retórica aristotélica, H. W. Attridge (apud Brown, 2004, p. 900) afirma: “Trata-se claramente de um discurso epidíctico, que ce- lebra a importância de Cristo”. Porém, existe ainda um elemento de retórica deliberativa, haja vista a constatação de que Hebreus chama à ação com fidelidade e perseverança. Quanto a ser uma carta, apenas no capítulo 13 – e de modo mui- to particular – a conclusão em 13. 20-25 fornecem ao texto a aparência do formato carta, tão conhecida nos escritos paulinos. Brown (2004, p. 900) considera a obra com a definição relativamente simples como um sermão ou homilia com final epistolar. O excessivo uso de alegoria tem sido usado por alguns como argumentação para defender que o autor escreveu de Alexandria. Isto porque foi nesta escola que a interpretação alegórica das Escrituras teve

“onça”. E assim, os próprios manuscritos escritos com essas letras graúdas passaram a ser conhecidos como “unciais”, enquanto os demais receberam o nome de “minús- culos”. Quase todos os manuscritos do Novo Testamento até o século X d.C. eram

unciais, mas, depois disso, a situação inverteu-se. Portanto, esses dois tipos de letras nos dão uma maneira aproximada de datar os manuscritos. In CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 6. São Paulo: Hagnos, 2004, p. 525.

5 Já mencionado anteriormente.

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seu maior peso.

• Hebreus e sua Aceitação no Cânon

É importante destacar, antes de tudo, alguns critérios para a ca- nonização dos documentos que compõem o Novo Testamento. Para isso, a seguinte informação parece suficiente:

Não há uma lista formal de critérios que a Igreja primitiva tenha usado para determinar quais livros deveriam fazer parte do Novo Testamento. Mas os estudiosos sugerem três critérios principais. Primeiro, o livro deveria ter sido escrito por um apóstolo ou por alguém próximo de um apóstolo. Segundo, deveria concordar com os ensinamentos tradicio- nais cristãos. Terceiro, deveria ser amplamente usado pelas igrejas e reconhecido por elas como um livro de autoridade (A Bíblia e sua história, 2006, p. 94).

Os primeiros estudiosos da Igreja, bem como os primeiros con- cílios e edições antigas da Bíblia, nem sempre concordavam quanto a quais livros os cristãos deveriam respeitar como sendo autoritativos. O Bispo egípcio, Atanásio, em uma de suas cartas de Páscoa para as igrejas no ano de 367 d.C., foi a primeira pessoa conhecida na história a listar os 27 livros que se encontram hoje no Novo Testamento (A Bíblia e sua história, 2006, p. 96). Deixando de lado os indivíduos e, levando em conta apenas os cânones, traduções e concílios, têm-se que listar os seguintes testemunhos: Marcião (c. 140), Muratório (c. 170), Barocócio (c. 206), Apostólico (c 300), Celtenhão (c. 360), Atanásio (c. 367), Diates- saron – de Taciano – (c. 170), Antiga Latina (c. 200), Códice Sinaitico (c. 325), Antiga Siríaca (c. 400), Nicéia (c. 325-40), Hipo (393), Cartago (397) e, novamente, Cartago (419). Dos testemunhos mencionados, Hebreus consta no Códice Sinaí- tico, Atanásio e no Concílio de Cartago de 397, repetindo-se, é claro, em 419 (A Bíblia e sua história, 2006, p. 96).

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Geisler (2003, p. 111 – 122) propõe a seguinte classificação, no que diz respeito à aceitação canônica:

Homologoumena: A maioria dos livros aceitos pela igreja logo de início, sem objeções; Pseudepígrafos: Escritos falsos; Antilegomena 6 : Escritos com autenticidade questionada por al- guns dos pais da igreja e que, por isso, ainda não haviam sido reconhe- cidos de forma universal por volta do século IV; Apócrifos: Livros que tiveram uma “canonicidade temporal e local”, ou seja, haviam sido aceitos por um número limitado de cristãos, durante um tempo limitado, mas nunca receberam um reconhecimento amplo ou permanente.

No que diz respeito a Hebreus, foi basicamente a anonimidade do autor que levantou dúvidas nos séculos iniciais. O fato de os “mon- tanistas heréticos terem recorrido a Hebreus em apoio a algumas de suas concepções errôneas” contribuiu para a demora na aceitação nos círculos ortodoxos. Por volta do século IV, sob a influência de Jerônimo e de Agostinho, o texto de Hebreus recebeu seu lugar definitivo dentro do cânon (GEISLER, 2003, p. 115).

6 Antilegomena:Vem do grego antilegomena, isto é, «disputado» ou «contra- dito». A palavra era usada pelos primeiros autores cristãos para denotar livros do Novo Testamento, ou relacionados ao mesmo, que, embora geralmente conhecidos entre os cristãos, algumas vezes usados em leituras nas igrejas, não eram realmente aceitos como dignos de fazer parte do cânon. Esses livros eram chamados disputados em contraste com os homologoumena, ou livros universalmente homologados ou acei-

tos. Os antilegomena são: II Pedro, T’iago, Judas, II e III João, Hebreus e Apocalipse. Livros que finalmente não foram incluídos no cânon do Novo Testamento, embora tivessem larga aceitação por algum tempo, foram Barnabé, o Evangelho aos Hebreus,

e a Didache. Aparentemente, Orígenes foi o primeiro a usar o termo «antilegomena»,

e os titulas dados acima identificam os mesmos. Ele considerava como Escrituras Sa- gradas um certo número desses livros. Eusébio (até 340 D.C.), de Cesaréia, proveu

uma tripla, ou talvez uma quádrupla relação de livros: 1. Os homologoumena, os livros universalmente aceitos em sua época. 2. Os antilegomena, aqueles que continuavam sendo disputados, conforme mostramos acima, com diferenças. 3. Os notha, ou es- púrios. Sob esse último título, ele alistava os Atos de Paulo, o Pastor de Hermas, o Apocalipse de Pedro, o evangelho aos Hebreus, a epístola de Barnabé, e a Didache. Nesse grupo ele também incluía o nosso livro canônico Apocalipse de João; embora comentasse que alguns não concordavam com a sua opinião. 4. Os livros totalmente espúrios e ímpios, que supostamente eram obras dos apóstolos, mas não o eram, como

o evangelho de Pedro, Tomé, Matias, os Atos de André, de João e de outros apóstolos.

Esses livros ele considerava criações dos hereges. (Ver Eusébio, História Eclesiástica, III.25). In CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2004, p. 190.

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Propósito

Registre-se que qualquer consideração quanto ao propósito de Hebreus deve estar intimamente relacionada ao entendimento que se tem de quem eram os destinatários. Carson (1997, p. 445) afirma que “não se pode examinar o propósito sem pressupor algumas coisas a respeito dos destinatários e vice-versa”. Este requisito foi abordado an- teriormente. Todos os estudiosos concordam que o livro é escrito para cristãos. Percebe-se ainda que, independentemente de onde viviam os destinatários, eles eram bastante conhecidos pelo autor de Hebreus. Ele os descreve como generosos (6. 10), porém imaturos (5. 11-14). O escri- tor estava bem inteirado da perseguição que sofriam (10. 32-24; 12. 4) e planejava visitá-los depressa (13. 19-23) (DOCKERY, 2001, p. 798). O propósito do escritor era, pois, instar seus leitores a que se mantivessem firmes em sua confissão (3. 6, 14; 4. 14; 10. 23). O texto ainda traz repreensão aos leitores que não se reuniam o bastante (10. 24- 25) e adverte-os de que estavam em perigo de cair no pecado (3. 12-14). Muitos afirmam que seus leitores pudessem ser um grupo de judeus cristãos à parte do grupo principal dos cristãos na região. Alguns come- çavam a considerar o retorno ao judaísmo como uma forma de escapar das perseguições e, dessa forma, o autor escreve para adverti-los contra tal apostasia 7 (6. 4-9; 10. 26-31) e, conclui Dockery (2001, p. 798), “para ajudá-los a voltar ao centro da comunidade cristã”. Nota-se que o autor cita o Antigo Testamento grego como uma pessoa que pressupõe o mesmo conhecimento de seus leitores e que, além disso, estes últimos reconheciam a autoridade dessas Escrituras. Carson (1997, p. 447) aponta para o fato de que mesmo que fossem ten- tados a modificar alguns aspectos de sua crença cristã e a voltar num certo grau a seu compromisso inicial com o judaísmo, não abalariam a sua confiança naquilo que hoje se conhece como Antigo Testamento. Se

7 Apostasia: Deserção, rebelião. O termo clássico grego apostasia traz à mente um contexto político ou militar e refere-se à rebelião contra a autoridade estabelecida. Na maioria das versões em português a palavra apostasia (ARC 5; ARA 2; NVI 2) apa- rece como uma referência à rebelião contra o Senhor. É uma ideia bem presente. No AT o maior pecado nacional de Israel, é a idolatria, ou o abandono do culto ao Senhor (BÍBLIA, A.T. Êxodo 20. 3; Deuteronômio 6. 5,14; 29. 14-28). Para maiores detalhes veja DOCKERY, D. S. Manual Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 800.

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fossem tentados a voltar ao paganismo, pagãos convertidos com certe- za seriam tentados a não mais se submeterem às Escrituras que haviam, de certa forma, contribuído para sua conversão. A opinião de Davidson parece resumir bem o propósito de He-

breus:

O propósito do escritor, por conseguinte, era tornar seus leitores plenamente cônscios, primeiramente, da admirável revelação e salvação dada por Deus aos homens, na pessoa de Cristo; em segundo lugar, deixá-los plenamente cônscios do verdadeiro caráter celestial e eterno das bênçãos assim livremente oferecidas e apropriadas pela fé; e em terceiro lugar, para dar-lhes plena consciência do lugar de sofri- mento e paciente persistência (mediante a fé) no presente caminho terreno até o alvo do propósito de Deus, conforme demonstrado na experiência e na obra do Capitão de nossa salvação e na disciplina de Deus aplicada a todos os Seus filhos. Em quarto lugar, ainda, para proporcionar-lhes con- sciência do terrível julgamento que certamente sobrevirá a qualquer que, conhecendo tudo isso, rejeitar tal revelação em Cristo. Tendo-se esforçado para torná-los cônscios de tudo isso, o propósito complementar do escritor é impeli- los a agir de conformidade com esse conhecimento. Tais propósitos são apresentados através da epístola inteira me- diante o emprego de exposição racional, exortação desafia- dora e solene advertência (DAVIDSON, 1997, p. 1347).

Veja que em quatro afirmações o propósito de Hebreus pode ser bem resumido e, nisso, Davidson, talvez seja bem sucinto sem, contu- do, deixar de lado algum foco de maior relevância.

Esboço

É preciso continuar e, para tanto, é bom esboçar Hebreus de for- ma a colocar diante do(da) estudante uma visão panorâmica de toda a obra. Diversos esboços podem ser sugeridos. O que segue adiante leva em conta o conteúdo:

FACEL

DIVISÃO CONFORME O CONTEÚDO 1. 1 – 2: Fórmula Introdutória 1. 4 – 13: Superioridade de Jesus como Filho de Deus

1.

4 – 2. 18:

em relação aos anjos

3.

1 – 4. 13:

em relação a Moisés

4. 14 – 7. 28: Superioridade do sacerdócio de Jesus 8. 1 – 10. 18: Superioridade do sacrifício de Je sus e seu ministério no tabernáculo celeste, inau- gurando uma nova aliança 8

10. 19 – 12. 29: Fé e paciência: utilidade da obra

sacerdotal de Jesus

10. 19 – 39: Exortação a tirar provei-

to do sacrifício de Jesus

11. Exemplos de fé do AT

12. Exemplo do sofrimento

1 – 40:

1 – 13:

de Jesus e da disciplina do Senhor

12. 14 – 29: Advertência contra a

desobediência por meio de exemplos do AT

13. 1 – 19:

13. 20 – 25: Conclusão: bênção e saudações (BROWN, 2004, p. 893).

Injunção sobre a ação

8 A Antiga e a Nova Aliança. Por definição, uma aliança é um acordo entre duas partes, iguais ou não, um relacionamento onde os dois se comprometem mutuamente, de modo condicional ou incondicional. Teologicamente, o termo foi usado para de-

screver o relacionamento iniciado por Deus através da sua graça entre ele mesmo e

a humanidade, entre ele mesmo e aqueles que desejavam se submeter a essa aliança

através de um compromisso pessoal de fé. Isso de reflete na frase do Antigo Testa-

mento “Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo”. Uma aliança era estabelecida

através de um sacrifício. Por isso a expressão hebraica que descreve o ato de firmar uma aliança é “cortar uma aliança (Gn 15. 7-21). Da perspectiva de Deus, sua aliança

é incondicional e unilateral no seu estabelecimento, mas da perspectiva da humani-

dade, ela é condicional e bilateral. A palavra aliança no Novo Testamento é diatheke e funciona como o equivalente de berit no Antigo Testamento. A frase “nova aliança” é encontrada seis vezes no Novo Testamento: 1 Coríntios 11. 15; 2 Coríntios 3. 6; Hebre-

us 8. 8; 9. 15; 12. 24. A nova aliança é o cumprimento da antiga aliança quanto à morte de Jesus e o estabelecimento da era cristã. É superior à antiga de acordo com Hebreus

A antiga aliança vig-

orou sob promessas inferiores, perdeu sua finalidade e sua eficiência por não ter em si o poder necessário para perpetuar suas condições. Em contraste, a nova aliança é incondicional, definitiva e espiritualmente eficaz. In DOCKERY, D. S. Manual Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 802.

7. 20-22; 8. 6 e a substitui de acordo com Hebreus 8. 13; 10. 9. [

]

Notas:

Notas:

17

Notas:

FACEL

Diante de um esboço como este, já é possível perceber que a cen- tralidade de Hebreus tem seu foco em Jesus Cristo e sua superiorida- de. Aqui, entenda-se superioridade em relação a tudo o que a religião judaica havia revelado até então. Boa parte da contribuição canônica singular a Hebreus, na opinião de Carson (1997, p. 450), encontra-se justamente nas ênfases que distinguem este livro dos demais livros ca- nônicos encontrados no Novo Testamento. Essas ênfases atraem a aten- ção de estudiosos. Hebreus traz um considerável enriquecimento para

a Cristologia, em especial no que diz respeito à obra sacerdotal de Jesus

de Nazaré, sua condição de sacrifício último e definitivo, a natureza e condição de filho de Deus e a importância de sua encarnação.

SAIBA MAIS

CARSON, D. A. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.

BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas,

2004.

GEISLER, N. L.; NIX, W. E. Introdução Bíblica. São Paulo: Vida, 2003.

MILLER, S. M.; HUBER, R. V. A Bíblia e sua história – o surgimento e o impacto da Bíblia. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2006.

EXERCÍCIOS

1. O que, e quais são os documentos canônicos antilegomena?

2. Assinale as alternativas corretas:

I – Quem foi o escritor da epístola aos Hebreus?

FACEL

a

(

)

Paulo.

Notas:

b

(

)

Barnabé.

 
 

c

(

)

Apolo.

d

(

)

Não se sabe ao certo quem é o escritor.

II

– Qual o propósito do autor ao escrever Hebreus?

Tornar seus leitores cônscios da revelação e salvação dada por Deus aos homens, na pessoa de Cristo.

a

(

)

b

(

)

Deixá-los conscientes do verdadeiro caráter celestial e eterno das

bênçãos oferecidas e apropriadas pela fé.

c Mostrar-lhes o lugar do sofrimento e da paciente persistência.

(

)

d Evidenciar o terrível julgamento que sobrevirá àqueles que rejei-

(

)

tarem tal revelação em Cristo.

III

– O esboço de Hebreus mostra de forma panorâmica:

a A superioridade de Jesus Cristo em relação a qualquer aliança.

(

)

b Os exemplos de fé do AT e o sofrimento de Jesus Cristo.

(

)

c Cristo é eternamente supremo a tudo e a todos.

(

)

d Todas as alternativas estão corretas.

(

)

SEÇÃO 3 – CONTEÚDO E MENSAGEM

O conteúdo de Hebreus só pode ser devidamente apreciado em relação a seu propósito. O escritor considera as Escrituras Sagradas que chamamos de Antigo Testamento como plenas de figuras e antecipações sobre as autênticas realidades do propósito de Deus em Cristo Jesus. É assim que ele as usa continuamente para fundamentar seu tema a fim

de

ilustrá-lo, desenvolvê-lo e ainda conceder-lhe uma base solidamente

revestida de autoridade divina (DAVIDSON, 1997, p. 1348).

19

Notas:

Conteúdo

FACEL

O tema geral do texto parece nunca ter sido motivo de debates:

a supremacia incontestável do Filho de Deus, Jesus Cristo. Supremacia esta que não é questionada, nem por seres angelicais nem por seres humanos. O autor apresenta uma série de correlações da “Nova Alian- ça” com a “Antiga Aliança”, sempre procurando demonstrar que Jesus Cristo é “superior” à aliança que o precedeu. Dessa forma, o autor afir- ma que o sacerdócio de Cristo é “melhor” do que o Levítico, o sacrifício oferecido por ele é “melhor” que aqueles recomendados na lei mosaica. Na verdade, até mesmo o propósito da revelação antecedente foi uma forma de apontar para Cristo e para todas as bênçãos dele provenien- tes. Esse tema da supremacia de Jesus não é, de forma alguma, um arti- go abstrato; Carson (1997, p. 434) salienta que o propósito é “repetidas vezes revelado pelos trechos parenéticos 9 (2. 14; 3. 7–4. 11; 4. 14–16; 5. 11 – 6. 12; 10. 19–39; 12. 1 – 13. 17)”. Estas parêneses advertem os des- tinatários a não se voltarem para as formas de piedade outrora conhe- cidas, correndo o risco de abandonar a fé cristã. Propomos então como palavras chave para Hebreus: Antiga Aliança, Nova Aliança, superior e melhor. Fica patente desde o início que Hebreus abre diante de seus lei- tores a “glória da nova aliança em contraposição à antiga, e resume a magnitude do sacrifício de Jesus que sobrepuja a tudo, em contraposi- ção a todos os sacrifícios do AT”, por intermédio da fórmula “quanto mais” (9. 14). De uma maneira muito peculiar o texto enfatiza o caráter único da ação redentora de Jesus Cristo. O autor desenvolve essa “gló- ria extraordinária da revelação de Deus na nova aliança por meio de três grandes ideias”. A primeira seção da carta (1. 1 – 5. 10), conforme

9 O material parenético é de origem judeu e helenístico. Com efeito, o cristian- ismo nascente teve necessidade de enraizar-se no cotidiano concreto e isso suscitou não poucos problemas para os missionários do Evangelho, pois, para a maioria das situações não havia “um preceito do Senhor” (BÍBLIA, N.T. 1 Coríntios 7. 25). A co- munidade assumia os costumes então vigentes e a eles imprimia um espírito cristão. O material parenético inclui os catálogos de vícios e de virtudes, a moral familiar e também os catálogos de deveres, normalmente relacionados à moral. Prediz diretrizes para a boa conduta no cotidiano do discípulo de Cristo. Para maiores detalhes veja em SILVA, C. M. D. da. Metodologia de exegese bíblica. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 185 – 229 “Gêneros Literários”.

FACEL

esboçado anteriormente, apresenta a majestade da pessoa de Jesus, o Filho de Deus. Ele é superior aos poderes celestiais, aos mundos ange- licais e, de igual modo, aos grandes personagens do passado hebraico:

Moisés, Josué e Arão. Na segunda seção (7. 1 – 10. 18) o autor coloca a obra de Jesus ao lado desse pensamento e apresenta Jesus como o Sumo

Sacerdote eterno e misericordioso. Na última seção (11. 1 – 12. 29) vem

à tona a realidade de que o encontro vivo com a pessoa de Cristo e a

experiência pessoal de sua obra de salvação devem tornar-se “eficazes na vida das pessoas, a saber, na fé e na santificação” (LAUBACH, 2000, p. 27).

Portanto, claro está que as reflexões teológicas não são um fim em si mesmas. Ao contrário, elas apontam para alguns breves trechos em que o escritor chama a atenção dos fiéis que experimentaram Cris- to em suas vidas, para o imenso alcance de sua responsabilidade. O alvo prático da carta, assevera Laubach (2000, p. 27) “são as exortações, que sucedem a cada uma das seções principais”. Dando sequência à se- gunda seção, onde já expusera a superioridade do sumo sacerdócio de Jesus com relação ao santuário, o sacerdócio e os sacrifícios só Antigo Testamento, notadamente em Levíticos, ele adverte-os novamente para o pecado proposital e exorta os leitores a perseverarem firmemente na tribulação (10. 19-39). Finalmente cabe ressaltar que o texto acrescenta à

terceira seção, na qual tratara da fé e da santificação (11. 12), exortações práticas sobre seguir a Jesus Cristo com fé (13). Outrossim, a estrutura da carta proposta no esboço traçado anteriormente revela que a descri- ção do sumo sacerdócio eterno de Jesus (7. 1 – 10. 18) constitui a peça central da obra. Em sua exposição o autor mostra que a posição de Mediador ocupada pelo Sumo Sacerdote não é apenas importante. Muito antes

a oração de intercessão do Sumo Sacerdote eterno perante Deus em fa-

vor de sua igreja (7. 25), significa para ele que o auxílio decisivo no sofrimento, bem como o penhor de que os leitores alcançarão o alvo da glória (LAUBACH, 2000, p. 27). Diante disso, o esboço proposto por Dockery marca bem as ênfa-

ses no tema da superioridade:

I. A superioridade de Cristo sobre os profetas

Notas:

Notas:

21

Notas:

FACEL

do Antigo Testamento (1. 1-3)

II. A superioridade de Cristo sobre os anjos

(1. 4 – 2. 18)

III.

A superioridade de Cristo sobre Moisés (3.

1-19)

IV.

A superioridade de Cristo sobre Josué

(4.

1-13)

V.

A superioridade de Cristo sobre Arão

(4.

14-10.

18)

VI.

A prática da perseverança espiritual

(10. 19 – 12. 29)

VII. Últimas exortações

(DOCKERY, 2000, p. 798)

(13. 1-1-25)

Agora que a ênfase está bastante clara diante do estudante, po- de-se partir para alguns temas de relevância encontrados em Hebreus.

Exórdio – A Palavra Final de Deus por Meio de Jesus

O

exórdio vai aqui inserido para demonstrar que desde o início

de seu texto, o autor de Hebreus destaca o caráter superior e peremp- tório da revelação divina manifestada em Jesus Cristo, o Filho de Deus. O versículo 4 serve de transição para abrir o caminho para o primeiro e longo argumento em favor da superioridade de Jesus: “ele é superior aos seres angélicos (1. 5 – 14)” (CARSON, 1997, p. 435).

A Superioridade de Jesus em Relação aos Anjos, Moisés e Josué

O

trecho inicial (1. 4 – 4. 13) já apresenta uma cristologia extre-

mamente desenvolvida. Essa cristologia é aplicada à superioridade do Filho em relação aos anjos e a Moisés. Para desenvolver a argumentação

FACEL

da superioridade em relação aos anjos (1. 4 – 2. 18) o autor insere uma cadeia ou série de sete citações do Antigo Testamento em 1. 5-14, que tem sua correspondência às designações do Filho na descrição introdu- tória de 1. 1-3. A posição “sobreangélica” de Jesus Cristo como o Filho de Deus é, sem dúvida alguma, sublime exaltação, se puder lembrar de que, no pensamento judaico, anjos eram “filhos de Deus”. Gundry (1998, p. 248) ressalta também a ênfase dada pelo autor de Hebreus, em que Cristo é superior aos anjos, a quem os seus contem- porâneos judeus reputavam como mediadores da legislação mosaica, no Monte Sinai (BÍBLIA, NT Atos 7. 53; Galátas 3. 19); porque Cristo é o Filho divino e criador eterno, mas os anjos são apenas servos e seres criados (1. 3 – 2. 18). Ressalta-se ainda que o fato de Ele ter se tornado menor que os anjos, mediante a encarnação e a morte, esta foi uma ocor- rência meramente temporária. Era necessário que Ele se tivesse tornado um ser humano. Somente dessa maneira ele estaria qualificado como aquele que, por Sua morte, “pudesse elevar o homem decaído àquela dignidade que originalmente lhe fora propiciada por Deus, quando da criação. Por causa de Seu ato expiatório, Cristo foi revestido de imensa honra”. De acordo com Brown (2004, p. 892, 893) nos Manuscritos do Mar Morto, dois anjos, “que eram respectivamente os espíritos da ver- dade e da falsidade, dominavam toda a humanidade; os anjos eram os mediadores da Lei”. Muito significativo é o trecho de 1. 8-9, onde, mencionando o Salmo 45. 7-8, o autor faz Deus endereçar a Jesus palavras que jamais dirigiu a um anjo: “O teu trono, ó Deus, é para os séculos dos séculos […], por isso, ó Deus, te ungiu o teu Deus com o óleo da alegria”. Este consiste, portanto, em um dos trechos do Novo Testamento em que Je- sus Cristo é chamado Deus. Parece que naquele tempo havia um peri- go, entre alguns, de considerar os anjos superiores a Jesus, contudo é preciso cautela quanto a esse pressuposto entre o público destinatário primeiro de Hebreus. Com a intenção de confirmar a posição de Cristo, para o escritor “a superioridade em relação aos anjos pode ter parecido um esclarecimento” (BROWN, 2004, p. 893). Na opinião de Laubach (2000, p. 41, 42) o escritor apresenta os anjos como servos que Deus criou para ministrarem aos fiéis (1. 14). Enquanto em 1. 5, 6 o escritor destaca as características da dignidade –

Notas:

Notas:

23

Notas:

FACEL

o Filho é o Primogênito, os anjos são entes que o adoram – em 1. 7-12

ele ressalta as insígnias de serviço, ou seja, os anjos são servos de Deus (v.14), o Filho é o Rei e Criador do mundo, ele criou e também governa. As passagens do Antigo Testamento são referidas diretamente à pessoa

e obra de Jesus Cristo. Jesus é o Filho (v.5), ele é Deus (v.8), e ainda, ele

é o Senhor (v.10); ele serve como Profeta (v.2), como Sacerdote (v.3) e como Rei (v.8, 9). Em fim, é superior aos anjos. Perceba a densidade do texto. Se alguém pretende aprofundar-se em cada uma dessas afirma- ções está claro que se faz necessário um estudo particular. Carson (1997, p. 435) demonstra que a esses argumentos segue a primeira seção em forma de advertência: se essa revelação é superior, é, pois, de vital importância que os leitores não se afastem do evangelho que a superioridade de Cristo traz, notadamente quando se tem em mente a condenação terrível que caiu sobre quem desconsiderou a re- velação da Antiga e inferior Aliança (2. 1-4). Eis aí então a admoestação:

o autor insta para que os leitores originais da epístola não declinassem

da sua profissão cristã. Em 2. 5-18 Hebreus nos traz a verdade histórica da encarnação, humilhação e exaltação do Filho de Deus. Ao enfatizar que “Todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés” o escritor fundamenta-se nos Salmos 8. 7 e 110. 1, que estão estreitamente interligados (BÍBLIA, NT 1Coríntios 15. 25-27; Efésios 1. 20-22). Por consequência não há quem possa esquivar-se da autoridade de Jesus, o Rei celestial. Cristo detém “poder sobre toda a carne” (BÍBLIA, NT João 17. 2). Contudo, agora sua soberania universal ainda não está visível. Laubach (2000, p. 55) menciona que o “ainda não” (v.8) aponta para o futuro e tem paralelos no Novo Testamento (BÍBLIA, NT Marcos 13. 7; 1 João 3. 2; Apocalip- se 17. 10, 12). Essa expressão “ainda não” evidencia a tão conhecida tensão entre o cristianismo presente e o futuro. O caminho da Igreja, enquanto Corpo de Cristo, situa-se entre a humilhação e a exaltação de Jesus, já realizadas, e a irrupção iminente de seu domínio mundial, ain- da não abertamente manifesto. Dessa forma, a vida dos fiéis com Cristo realiza-se, do ponto de vista humano, no abscôndito. A comunhão do

discípulo com o Mestre será tornada evidente perante todo o mundo somente no momento de sua volta (BÍBLIA, NT Colossenses 3. 1-4). É assim que, “antes da chegada das dificuldades, da aflição e da perse-

FACEL

guição de fora, bem como das tribulações de dentro” o escritor busca inculcar em seus leitores a verdade de que também Cristo passou pelo sofrimento até a glória (2. 9). Para seus seguidores existe somente esta mesma trajetória. Na posição de divino Filho sobre a casa de Deus, Jesus Cristo é superior a Moisés, um servo na casa de Deus (3. 1-6). A exortação, pois, visa a evitar incorrer no juízo de Deus, como resultado da incredulida- de. A geração de israelitas que saiu do Egito sob a liderança de Moisés, mas morreu no deserto por causa da indignação divina contra a rebe- lião deles serve como uma terrível ilustração e ainda um severo exem- plo de advertência (3. 7-19). Isto é exposto mediante a citação de Salmos 95. 7-11 (Hebreus 3. 7-11) e também da relação entre o descanso a que os leitores do Salmo são convidados, qual seja, o descanso intrínseco à entrada na terra da Canaã e até mesmo o descanso que Deus desfruta desde a época em que concluiu sua obra criadora inicial (3. 7 – 4. 11) (CARSON, 1997, p. 435). O autor enfatiza que Cristo é melhor do que Josué. Embora Josué tenha feito Israel entrar na terra de Canaã, Cristo conduzirá aos fiéis ao lugar de repouso eterno, nos céus, onde Deus descansa de Sua obra criativa (4. 1 – 10). Ele ressalta que Josué não conseguiu fazer Israel en- trar nesse repouso celestial; Para tanto ele menciona que muito tempo depois de Josué ter vivido e morrido, Davi falou do lugar de repouso de Israel como lugar ainda não atingido (BÍBLIA, AT Salmo 95. 7 – 8). A comparação entre Jesus e Josué é bem mais impressionante no Novo Testamento grego, pois o apelativo hebraico “Josué” assume a forma “Jesus”, no grego (GUNDRY, 1998, p. 249). Vale lembrar que o texto grego desconhece a distinção entre o nome próprio Josué, do Antigo Testamento, e o nome próprio Jesus, do Novo Testamento. Dando prosseguimento à sua argumentação, o autor exorta os seus leitores a entrarem no descanso celestial, mediante sua fidelidade à sua profissão da fé cristã (4. 11-16). Ao enfatizar a total suficiência da obra expiatória de Jesus elimina qualquer implicação de que a continu- ação das boas obras, na vida do crente, merece a salvação. Entretanto, as boas obras e o desviar-se da apostasia são coisas necessárias para demonstração da genuinidade da profissão de fé cristã. O versículo 12 “contém a famosa comparação da Palavra de Deus com uma espada de

Notas:

Notas:

25

Notas:

FACEL

dois gumes, que penetra e desnuda o ser mais interior do homem”. É assim que os discípulos de Cristo devem “provar que sua externa pro- fissão de fé se origina de uma realidade interna” (GUNDRY, 1998, p.

249).

SAIBA MAIS

HALE, B. D. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001.

BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas,

2004.

GUNDRY, ROBERT H. Panorama do Novo Testamento. São Paulo:

Vida Nova, 1998.

LAUBACH, F. Carta aos Hebreus: comentário esperança. Curitiba: Es- perança, 2000.

EXERCÍCIOS

1. Coloque em rápidas palavras o conteúdo geral de Hebreus:

2. Assinale as alternativas corretas:

I

– .Quais podem ser as Palavras-chaves de Hebreus?

a

(

)

Antiga Aliança, Nova Aliança, Lei mosaica e graça.

b

(

)

Antiga Aliança, Nova Aliança, sacerdócio Levítico e de Cristo.

c

(

)

Antiga Aliança, Nova Aliança, superior e melhor.

d

(

)

Antiga Aliança, Nova Aliança, superior e maior.

II

– Nesta primeira análise o texto ressalta que Jesus é superior:

a

(

)

Aos anjos.

FACEL

b (

)

A Moisés.

c (

)

A Josué.

d

(

)

Todas as alternativas estão corretas.

III – Por que a leitura do texto grego deixa o texto mais impressionante?

a O nome hebraico “Josué” assume a forma “Jesus”, no grego.

(

)

b Podemos ter uma visão mais correta da intenção do autor.

(

)

c Ele ressalta que na realidade, Josué e Jesus possuem o mesmo

(

)

nome.

)

d (

As alternativas “a” e “c” estão corretas.

SEÇÃO 4 – TEMAS CENTRAIS

Dando continuidade à análise dos temas encontrados em He- breus, passamos agora a perceber que o longo trecho que vai de 4. 14 a

7. 28 trata da superioridade do sacerdócio de Jesus e segue em 8. 1 – 10. 18 argumentando a respeito da superioridade do sacrifício de Jesus e de seu ministério no tabernáculo celeste, inaugurando uma nova aliança. Após estes longos trechos, o conteúdo e tema passam para uma abor- dagem da fé e da paciência como fruto da obra sacerdotal de Jesus. Para tanto o autor discorre também sobre diversos exemplos ou modelos

de fé fazendo uso, mais uma vez, das Escrituras do Antigo Testamen-

to. Aborda o sofrimento de Cristo e a disciplina do Senhor, advertindo seus leitores contra a desobediência por meio de exemplos do Antigo

Testamento. A partir de 13. 1, finalmente, o escritor traz injunções sobre

a ação e conclui com benção e saudações, desta feita, em gênero literário epistolar. Vejam então, de forma resumida, os diversos temas encontra- dos a partir de Hebreus 4. 14.

Notas:

Notas:

27

Notas:

FACEL

• A Superioridade do Sacerdócio de Jesus sobre Arão

Em 2. 17 o autor de Hebreus chamou Jesus de sumo sacerdote.

Agora ele desenvolve este conceito, provando a superioridade de Jesus sobre os sacerdotes do Antigo Testamento (BOYD R. G. 2005, p. 68).

A partir deste, ponto no verso inaugural (4. 14), é declarado o tema

dominante: “Tendo, pois” – essas palavras são enfáticas – “um grande sumo sacerdote”, ou seja, sumo sacerdote eminente; alguém que tem sua grandeza na sua natureza essencial: Ele é verdadeiro homem e ver- dadeiro Deus. Brown (2004, p. 895) chama a atenção para o fato de que:

Embora Hebreus e João partilhem a noção de uma encarna- ção, não encontramos em João uma descrição da realidade da humanidade de Jesus comparada à apresentada por essa seção de Hebreus. Sumo sacerdote que é capaz de com- padecer-se de nossa fraqueza, Jesus foi provado em tudo, como nós, exceto no pecado (Hb 4,15). Tal qual o sumo sac- erdote israelita, Cristo não se exaltou, mas foi escolhido por Deus, um aspecto ilustrado pelos salmos de coroação real (Hb 5:1-6). Descrevendo os sofrimentos de Jesus nos dias de sua carne, quando apresentou orações e súplicas àquele que tinha o poder de salvá-lo da morte (Hb 5,7-9), o escritor afirma que Jesus aprendeu a obediência, não obstante fosse o Filho […] Quando ele foi levado à perfeição, transformou- se em fonte de eterna salvação pata todos os que lhe obede- cem […] (BROWN, 2004, p. 895).

Cristo é, pois, superior a Arão e seus sucessores no ofício sumo

sacerdotal (5. 1 – 12. 29). O autor da epístola aos Hebreus primeiramen-

te destaca dois pontos semelhantes entre os sacerdotes levíticos e Jesus

Cristo:

À semelhança de Arão, Cristo foi divinamente nomeado ao sumo sacerdócio; Ao compartilhar da experiência humana, Cristo adquiriu pelo ser humano uma simpatia pelo menos, isto é, no mínimo igual à de Arão (5. 1 – 10). O maior exemplo desses sentimentos de Jesus é que Ele instintivamente procurou até furtar-se da morte, quando orava no jardim do Getsêmani – embora jamais do terror da morte, como se fosse

FACEL

culpado, e, obviamente, também não houve a recusa de aceitar a cruz (GUNDRY, 1998, p. 249). Veja que assim como o sumo sacerdote tinha de atravessar o san-

tuário terreno, a fim de prestar serviço no lugar santíssimo – ou santos dos santos – assim também Jesus “penetrou nos céus” (4. 14) para che- gar à presença de Deus. A fraqueza do ser humano designa sua cadu- cidade tanto no aspecto do corpo como na fé (4. 15). Uma vez que Jesus Cristo, o Filho de Deus, abriu o caminho até Deus, também se deve trilhá-lo agora. Portanto, o fato de ter um sacerdote junto a Deus que intercede, também dá o direito de chegar em oração a Deus com alegre confiança. Em seguida, o autor traz ao centro a ordem de Deus para o sumo

sacerdócio na terra (5. 1). Com as palavras “dentre os humanos

vor dos seres humanos” (ex anthrőpon

u`pe.r avnqrw,pwn) os leitores são confrontados pelo privilégio e limitação, incumbência e responsabilidade do sumo sacerdócio terreno em Israel. Para oferecer apropriadamente sacrifícios por outras pessoas, o sumo sacerdote precisava “condoer-se dos ignorantes e dos que erram”. É um “sentir com os” (metriopatheín metriopaqei/n) (5. 2). Este vocábulo cons- ta somente aqui no Novo Testamento e ressalta que o sumo sacerdote terreno era repetidamente exortado por sua própria culpa e fraqueza, a ser comedido em sua indignação e ira pelas incessantes transgressões do povo de Deus. Aí está a diferença essencial entre a mentalidade do sumo sacerdote Arão e a mentalidade do Sumo Sacerdote celestial Cris- to. A expressão “sentir com” remete de volta à expressão usada em 4. 15 para Cristo: é o compadecer-se (sympathēsai sumpaqh/sai) 10 , literalmen- te simpatizar-se. Durante sua vida terrena Jesus conheceu a dimensão absoluta da susceptibilidade humana à tentação e à culpa, embora te- nha permanecido sem pecado e sem falhas. É aí que se encontra o fun- damento de sua profunda e cordial misericórdia pelos seres humanos, que mesmo os já salvos, continuam suscetíveis à tentação e vulneráveis para o pecado (LAUBACH, 2000, p. 87).

a fa-

hypér anthrőpon - evx avnqrw,pwn

10 Ressalta-se que esta “simpatia”, ou “ter compaixão” não é uma comiseração

mas um ‘sentir com’, o qual resulta da familiaridade

total com a seriedade da situação e também tem condições de incluir a culpa que para nós mesmos está oculta. W. Michaelis, Ki-ThW, vol. v, p. 935 – 936. Apud Laubach (2000, p. 87).

compreensiva que tolera tudo

Notas:

Notas:

29

Notas:

FACEL

No trecho que vai de 5. 11 a 6. 20 encontram-se dois temas de profunda relevância. A critica contra a imaturidade espiritual (5. 11-14) e a impossibilidade de renovar o arrependimento; sendo o último tema bastante controvertido. Quanto à imaturidade espiritual, o autor de Hebreus retorna à exortação, desta feita repreendendo a imaturidade de seus primeiros leitores, que, segundo ele escreve, precisam beber leite, mostrando-se incapazes de absorver alimento sólido (BROWN, 2004, p. 895). É evi- dente que todo crescimento necessita de tempo, tanto na vida espiritual quanto na física. Dessa forma, embora a crítica do escritor seja inegável, ela também contém, ao mesmo tempo, uma indicação da maravilhosa possibilidade divinamente concedida aos cristãos; existe, na acepção mais correta, um “exercitar-se na vida espiritual”, são os bons hábitos que não deveriam faltar nas vidas dos filhos de Deus. Na concepção de Brown a “enumeração de seis pontos da doutrina elementar em He- breus 6. 1-2 é um pouco vexatória para os cristãos de hoje”. No trecho de 6. 1 – 8 alguns afirmam que aí se encontra o ensino de que um verdadeiro cristão pode perder sua salvação. Este é um tema controvertido. Que apostasia é uma preocupação do autor fica evidente em 6. 4 – 8 (da mesma forma que em Hebreus 10. 26 – 31), quando ele declara que não existe arrependimento depois da iluminação. Dockery (2001, p. 802) lembra que essa passagem estaria então em contradição com outras passagens do Novo Testamento como João 10. 27 – 29, Ro- manos 11. 29 e Filipenses 1. 6. Há também aqueles que veem a adver- tência como hipotética e não real. É importante que se estude essa passagem à luz de seu paralelo mesmo em Hebreus 10. 26 – 32, que torna a interpretação pouco pro- vável. O texto se dirige a pessoas “que uma vez foram iluminadas”. Trata-se, portanto, de um acontecimento de fé caracterizado como úni- co. Em 10. 32 encontra-se: “Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores, em que, depois de iluminados (photisthénias fwtisqe,ntaj). Em ambas as passagens o verbo está no aoristo passivo; isto indica que: a) o aoristo descreve uma ação indefinida que normalmente ocorre no passado. Da mesma forma que o imperfeito é sempre contínuo, o aoristo é sempre indefinido. Ele informa ao leitor que a ação aconteceu, mas nada mais

FACEL

a respeito da ação. Isso significa que na tradução pode ser empregado

o português no pretérito perfeito: “estudei”, e não “estudava”. Contu- do, apesar de ser comum ouvir dizer que os verbos no aoristo denotam uma ação completada, acabada, mas nem sempre é essa a intenção do texto. Sempre devem ser evitados os extremos e, ao invés de fixar-se meramente no verbo, observar o contexto 11 ; b) o verbo está no passivo, indicando uma ação externa. Ou seja, os cristãos não obtiveram a ilumi- nação por si mesmos, mas “foram iluminados” por uma ação exterior. Esta é a ação de Deus por meio do Espírito Santo, através da fé em Cris- to Jesus. Laubach (2000, p. 99) salienta que se comparar com o texto em 2 Coríntios 4. 6, onde o apóstolo Paulo descreve o mesmo acontecimento, pode-se levar à conclusão de que a iluminação que acontece uma única vez deve estar se referindo mesmo à fundação da fé, isto é, ao recebi- mento do Espírito Santo na conversão e no renascimento. Veja que as palavras subsequentes parecem depor em favor dessa leitura. A ênfase pode estar na realidade de que o perigo da apostasia acompanha a tra- jetória do discípulo como uma “possibilidade”. A apostasia não deve ser entendida como um “pecado qualquer”, mas sim como uma ruptura completa da vida com Jesus, o abandono da verdade divina experimen- tada. Portanto, uma pessoa que interrompeu radicalmente as pontes até Jesus Cristo jamais poderá retornar a ele. Dessa forma a palavra do es- critor faz eco às palavra do próprio Jesus em Marcos 3. 29 “aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não tem perdão para sempre!” (LAU- BACH, 2000, p. 101). Em 6. 9-20 vem assim o incentivo e ânimo para que os discípulos perseverem nas promessas de Deus. Brown (2004, p. 896) lembra que

Deus é fiel às promessas, e isso é a garantia para a eficácia da intercessão de Jesus no interior do santuário celeste, como sumo sacerdote segundo

a ordem de Melquisedeque, este é outro tema interessante. O que fica

por aqui é a certeza inabalável da salvação, bem como da confiança na redenção já experimentada e eternamente válida. Jesus mesmo, em João 10. 28, declara em vista das pessoas que o seguem com verdadeira obe- diência de fé: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém

11 Para um estudo um tanto mais acurado a respeito do aoristo, veja MOUNCE,

W. D. Fundamentos do grego bíblico: livro de gramática. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 233 – 267.

Notas:

Notas:

31

Notas:

FACEL

as arrebatará da minha mão”. Em João 17. 24 ele afirma : “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste,

De acordo com

Laubach, essas palavras atestam o inabalável refúgio que o ser humano pode experimentar em meio ao mundo pela fé em Cristo Jesus (LAU- BACH, 2000, p. 109). Contudo, deve ficar claro que não se trata de uma promessa sem premissas, Deus espera que a pessoa se arrependa cons- ciente de sua absoluta perdição.

para que vejam a minha glória que me conferiste [

]”.

• A Superioridade do Sacerdócio de Jesus sobre Melquisedeque

O autor de Hebreus resgata a história de Melquisedeque 12 (BÍ- BLIA, AT Gênesis 14. 17-20) para explicar a natureza do sacerdócio de Cristo. O Salmo 110. 4 é a única passagem que faz referência ao miste- rioso relato de Gênesis (DOCKERY, 2001, p. 802). A Bíblia não registra nem o início nem o fim de sua vida. Mas, acima de qualquer especula- ção, o que deve ficar patente aos olhos do estudante é que Melquise- deque 13 é superior ao patriarca Abraão, ao seu descendente Levi e aos sacerdotes de Arão. Os levitas descendem de Arão; Melquisedeque é de origem celestial; os levitas recebem dízimos de seus irmãos; Melqui- sedeque recebeu o dízimo do ancestral; Também os levitas estão obri- gados a entregar o dízimo a Melquisedeque, pois seu ancestral Levi es- tava nos “quadris” do patriarca Abraão quando este se encontrou com Melquisedeque; No final Melquisedeque abençoou Abraão e, portanto,

12 Pelos Manuscritos do Mar Morto – 11Q Melquisedec ficamos sabendo um

pouco mais a respeito do misticismo que envolvia Melquisedec como figura celeste. KOBELSKI, P.J. Apud BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo:

Paulinas, 2004. p. 896.

13 É sugerido que os conversos da comunidade do Mar Morto levaram algumas

de suas crenças para o cristianismo (Yigael Yadin, The Scrolls and the Epistle to the

Contudo, uma leitura cui-

dadosa de Hebreus e do documento 11 Q Melq. Revela uma ampla discrepância de

pensamento básico. Parece que o autor de Hebreus não obteve esta informação sobre Melquisedeque na comunidade essênica, mas no Antigo Testamento. O Melquised-

de Hebreus aparece como a figura histórica na história de Israel, e não como

uma figura angelical, conforme acreditado pelos essênios. O conceito essênio de Mes- sias, em sua relação com a linha real de Davi e o sacerdócio araônico, não se iguala favoravelmente com o de Hebreus, embora sejam usados termos semelhantes. Veja em HALE, B. D. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 349.

eque [

Hebrews – Os Rolos e a Epístola aos Hebreus – p. 38). [

]

]

FACEL

esta bênção não pode ser invertida. O cumprimento da esperança do Antigo Testamento por uma nova ordem sacerdotal inclui que alguém que pela lei de Moisés não tem nenhuma promessa para isto pode vir

a ser sacerdote. Não é mais Levi, mas Judá é a Nova Aliança, a casa de onde procede o sacerdócio. Portanto, afirma Laubach (2000, p. 130), o sumo sacerdócio de

Jesus, bem como no sacerdócio da igreja, não estão fundamentados so- bre a lei do Antigo Testamento, mas, assim como Melquisedeque, sobre

a riqueza interior da pessoa bendita do Senhor Jesus Cristo, sobre sua

glória divina: “… não com base numa lei de determinações humanas, porém com base e no poder de uma vida indissolúvel”. É assim que o estudante deve ver sua vida pessoal nessas grandes correlações, que se ordenam todas sob a mão de Deus num plano perfeito e, por isso mes- mo, louvar e adorar a Deus por tudo isto.

• A Superioridade do Ministério Sacrificial de Jesus e do Ta- bernáculo Celeste, Inaugurando uma Nova Aliança

Em 8. 1 – 10. 18 se observa que a ideia de que Jesus é um sumo

sacerdote perante Deus leva à pensar num tabernáculo celeste. É escla- recedora a afirmação de Koester (2005, p. 292) de que na interpretação do Antigo Testamento o escritor de Hebreus segue o método alegóri- co alexandrino, conhecido por meio das obras de Fílon de Alexandria

– Paulo também conhecia este método como se lê em 1 Coríntios 10.

1-13, por exemplo. Além da alegoria, Hebreus ainda tem com comum

com Fílon uma cosmovisão platônica, ou seja, a transitoriedade terrena

é sombra e cópia da realidade celeste. Nos textos do Antigo Testamento

usados para referir-se ao tabernáculo (BÍBLIA, AT Êxodo 25. 9-40; 26. 30, dentre outros) o autor pôde inspirar-se em uma longa tradição de interpretação. Os correlatos mais próximos para suas declarações exe- géticas, bem como para seu método interpretativo, encontram-se nos

escritos de Fílon de Alexandria. Contudo, não é possível demonstrar alguma dependência direta de Fílon (KOESTER, 2005, p. 293). Os textos do Antigo Testamento mencionados narram como

Notas:

Notas:

33

Notas:

FACEL

Deus mostrou a Moisés o modelo celeste segundo o qual o tabernáculo terreno deveria ser construído. Em Hebreus 8. 2-7, esse santuário ante- rior pode estar influenciado mesmo pelo esquema platônico da reali- dade. Neste esquema Brown (2004, p. 897) menciona que o tabernáculo celeste, erigido por Deus é verdadeiro, enquanto o tabernáculo terreno é uma cópia ou uma sombra. Ao usar o esquema platônico, afirmando que a Antiga Aliança com seus sacrifícios do santuário não era senão uma sombra da rea- lidade celestial, o escritor fornece em contraste a realidade de que o sacrifício de Cristo, que estabeleceu a Nova Aliança, foi sua entrada no templo ou tabernáculo celeste verdadeiro. É por isso que a Nova Alian- ça está firme. Parece que o argumento não é dirigido contra o judaísmo, mas contra o gnosticismo, que nega a realidade da morte de Cristo. Veja que o texto afirma que essa entrada na realidade do templo celeste foi realizada por Cristo por meio de sua própria carne, ou seja, sua morte física humana real (KOESTER, 2005, p. 295).

• Fé e Paciência: Utilidade da Obra Sacerdotal de Jesus

Após apontar para a realidade da superioridade de Cristo, o escritor volta-se para a exortação à fé e à paciência (10. 19 – 12. 29). Agora é necessário manter-se firme na confissão deste sumo sa-

cerdote, Jesus Cristo, e não mais cair no pecado (10. 19-31). Como os lei- tores antes permaneceram fiéis no sofrimento, afirma Kümmel (1982, p. 513), devem agora esperar a vinda do Senhor Jesus com paciência firme

e perseverante (10. 32-39). É aí que o escritor insere uma longa e mag-

nífica lista de fiéis do Antigo Testamento. O autor trata de uma “multi- dão”, uma “nuvem” de testemunhas, iniciando com Abel e terminando em Jesus Cristo, o inaugurador – autor – e o realizador – consumador

– da fé, cuja missão é fortalecer a fé que espera bênçãos e graças futuras,

e que pode ter absoluta certeza e confiança nas coisas que são invisíveis

(11. 1 – 12. 3). Ele convida seus leitores a olhar para Jesus (aphorõntes eis tòn tês písteos archegòn kaì teleiotèn, Iesoyn - avforw/ntej eivj to.n th/j pi,stewj avrchgo.n kai. teleiwth.n VIhsou/n), o pioneiro (fundador) e aperfeiçoador

FACEL

da fé (12. 1-3). Jesus é aquele que abriu o caminho para Deus e concluiu tudo o que era necessário. Dessa forma, todas as tribulações que eles en- frentaram devem ser suportadas como disciplina proveniente da mão amorosa de Deus (12. 4-11); qualquer queda por falta de perseverança é como equiparar-se a Esaú (CARSON, 1997, p. 436, 437). Veja que o texto em (12. 16) traz pórnos, è Bébelos, hos Esay (po,rnoj( h’ be,bhloj( w`j VHsau/) onde o autor lhe dá os adjetivos de impuro – imoral, veja a raiz da pa- lavra pornografia – e profano As palavras “incontinente ou impuro” – também adúltero ou ímpio – evidentemente devem ser entendidas aqui no sentido figurado como “renegado e de mentalidade baixa”. Veja que no Antigo Testamento o adultério muitas vezes é usado como figura do afastamento de Deus (BÍBLIA, AT Ezequiel 16. 1-43). Dessa forma, Laubach (2000, p. 213) exorta os estudantes a que se recordem mais uma vez de Moisés, que constitui um exemplo para a igreja pelo fato de haver preferido “ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado” (11. 25).

• Exortação Final e Conclusão

Por fim, o escritor chega aos momentos finais de sua obra: (13. 1-19) Exortação final e (13. 20-25) como uma espécie de conclusão. Tra- ta-se de uma conclusão epistolar, saudações pessoais e a bênção. Na opinião de Carson (1997, p. 437) as exortações finais, sem dú- vida, são elaboradas de forma a impedir maneiras específicas em que a apostasia incipiente dos leitores primeiros corre o risco de se manifes- tar. Ele dá instruções éticas (13. 1-6); exorta-os a seguir o exemplo da- queles que foram os primeiros a lhes trazer o evangelho (13. 7-8) e a que se submetam a seus líderes atuais (13. 17). Aqui ele insere um incentivo prático contrastando com os sacrifícios de louvor da Antiga Aliança, visto que estes foram cumpridos no sacrifício de Jesus Cristo, ocorrido “fora do acampamento” (13. 9-16). Subentende-se que é infinitamente melhor participar de sua desgraça do que se afastar de sua graça. E sua graça é esta: que na aflição estamos seguros e que sob o nosso fardo encontramos a paz. O escritor encerra com um pedido de oração (13. 18-

Notas:

Notas:

35

Notas:

FACEL

19), insere sua própria oração e doxologia 14 (13. 20-21), menciona alguns conhecidos e termina com as saudações finais e a bênção (13. 24-25).

A oração final resume a estreita conexão entre os aspectos dou-

trinários e éticos do tema inteiro. Menciona a natureza de Deus – o Deus de paz, a ressurreição de Cristo, a função de Cristo – pastor, o sangue da aliança, e a aplicação prática – cumprir a vontade de Deus.

O pensamento básico que sustenta todas as afirmações do au-

tor é que Jesus Cristo é o Filho de Deus desde toda a eternidade. De igual modo ele é ser humano e nos traz a palavra de clemência de Deus. Como Sumo Sacerdote ele ofereceu-se pessoalmente a Deus como ofer-

ta de sacrifício; Foi assim que ele efetuou a nossa salvação que possui um valor de vigência eterna. Depois da morte na cruz, Cristo foi aper- feiçoado pela ressurreição e ascensão tornando-se o precursor, o líder

e consumador de sua igreja. Como Senhor vivo ele convida seus dis-

cípulos para fora deste mundo. Ele congrega todos os fiéis, formando

o povo de Deus migrante da Nova Aliança, colocando-o no caminho

que acaba diante do trono de Deus, onde está a verdadeira pátria. É exatamente pelo fato de os cristãos não terem cidade permanente neste mundo, que o lugar deles é onde Jesus sofreu. Este é o desafio de He- breus para os fiéis de todos os tempos que procuram seu lugar em uma salvação celestial.

SAIBA MAIS

BOYD R. G. In Comentário Bíblico Mundo Hispano. Tomo 23: Hebre- os, Santiago, 1 y 2 Pedro, Judas. El Paso, Texas: Mundo Hispano, 2005.

GUNDRY, ROBERT H. Panorama do Novo Testamento. São Paulo:

Vida Nova, 1998.

KOESTER, H. Introdução ao Novo Testamento. Vol. 2. São Paulo: Pau- lus, 2005.

KÜMMEL, W. G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus,

1982.

14 Vem dos termos gregos doxa, «louvor», «honra», «glória», e logos, «palavra»,

ou seja, algo dito que expressa louvor, atribuindo glória e honra a alguém, a alguma circunstância ou a algum estado. In CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teo- logia e Filosofia. Vol. 2. São Paulo: Hagnos, 2004, p. 229.

FACEL

EXERCÍCIOS

Notas:

1.

Qual a relevância de Jesus Cristo ser um sacerdote segundo a ordem

 

de

Melquisedeque?

2.

Assinale as alternativas corretas:

I – O sacrifício de Cristo foi mais eficaz que o Levítico porque:

a Foi oferecido no tabernáculo celeste.

(

)

b O santuário Levítico era apenas uma “sombra” do celestial.

(

)

c Jesus ofereceu-se a si mesmo de uma vez por todas.

(

)

d

(

)

Todas as alternativas são corretas.

II – Qual o propósito de Deus nas provações?

a Desenvolver santidade.

(

)

b Produz justiça.

(

)

c Deus não tolera um estilo de vida desobediente e egocêntrico.

(

)

d Dá ao cristão persistência e reverência.

(

)

III

– Como Jesus mostrou sua disposição em ajudar o ser humano?

a Participou voluntariamente de nossas limitações.

(

)

b Escolheu participar da natureza dos anjos.

(

)

c Enviou os sacerdotes para realizarem os sacrifícios. Ofereceu-se a si mesmo como sacrifício único, suficiente e defi-

nitivo.

d (

(

)

)

37

Notas:

RESUMO DA UNIDADE

FACEL

O estudo de Hebreus demonstrou que o escritor planejou cui- dadosamente a sua obra. Sempre que digressões ocorrem na sequência do seu pensamento, não interfere no desenvolvimento principal do seu argumento. O texto é muito rico e procura apresentar a seus leitores o caráter do Filho de Deus, sem, contudo, esquecer de sua humanidade através da encarnação. Ele faz referências ao sofrimento terreno de Je- sus Cristo. Ao final o escritor enfatiza que, mesmo sob o aspecto huma- no, Jesus foi perfeito. Hebreus esclarece definitivamente que Jesus é o Cristo exaltado. Sua superioridade em relação aos anjos, Moisés, Josué, Arão e o sacerdócio levítico é evidenciado nas inúmeras comparações e ilustrações utilizadas pelo escritor. O texto de Hebreus serve como encorajamento à fé evocando fi- guras do passado, os “heróis da fé”. Sua principal menção, é claro, recai sobre a pessoa e obra de Jesus como o mais extraordinário exemplo de paciência diante dos sofrimentos. Para o escritor, às vezes o sofrimento é disciplina, além de se constituir em sinal de filiação divina. Ao final de sua obra o escritor põe em relevo a superioridade do novo pacto. O Novo Pacto está fundamentado sobre o sangue de Cris- to derramado na cruz do calvário e aspergido no santuário celestial. Assim o escritor exorta seus leitores ao amor mútuo, à hospitalidade, à simpatia, ao uso saudável da moral, ao perigo da avareza, à imitação dos líderes que andam segundo o exemplo de fé de nosso Senhor Jesus Cristo. Há também um alerta contra ensinamentos distorcidos e à acei- tação conformada da perseguição; às ações de graças e à oração perse- verante. A superioridade de Cristo deve ser o fator preponderante para evitar a apostasia. Veja que a quantidade de temas faz de Hebreus um documento riquíssimo para aqueles que querem ser aperfeiçoados levando em con- ta o alto preço pago por Jesus ao ser crucificado e ter seu sangue derra- mado para remissão dos pecados de todos aqueles que tomam a firme decisão de seguí-lo na totalidade de seus ensinamentos e na imitação de sua vida.

FACEL

Parabéns! A primeira Unidade foi concluída e você deve ter sido enriquecido!

Vá em frente

Notas:

Notas:

39

Cartas Universais

e Hebreus

UNIDADE 2

A Epístola de Tiago

FACEL

PARA INÍCIO DE CONVERSA

A partir desta unidade o interesse se voltará para aqueles docu-

mentos que, desde Eusébio 15 , no início do século IV, têm sido denomi- nadas como as sete epístolas católicas ou gerais, designação que – ao menos no cristianismo oriental – foi considerada apropriada para obras

endereçadas à Igreja universal, quais sejam: Tiago, 1 e 2 Pedro; 1, 2 e 3 João; e Judas. 16

A epístola de Tiago é a primeira de um grupo de setes livros

do Novo Testamento denominado “Epístolas Gerais” ou Católicas. As igrejas protestantes e evangélicas são um tanto hesitantes em usar o ter- mo “Católicas” para nomear estas sete cartas. É preciso saber, contudo, que o termo em si é uma transliteração do adjetivo grego katolikό, que vertido para o português significa “geral” ou “universal”. Em latim, dois adjetivos traduzem a palavra grega perfeitamente: generalis e uni- versalis, porém, a Vulgata apenas transliterou o grego como catholicas. É assim que o título “Epístolas Católicas” tornou-se a designação comum entre os diversos tradutores e estudiosos. Um comentário anônimo do século VIII sobre a epístola de Tiago afirma que o termo foi usado porque estas cartas são encíclicas, isto é, não são endereçadas a igrejas ou pessoas individuais, mas escritas de forma coletiva para todas as igrejas. Todavia, esta descrição geral pode valer para Tiago, 1 e 3 Pedro, 1João e Judas. Já 2 e 3 João são endereça- das a um grupo, ou pessoa particular e, dessa forma, não caem dentro da definição. Mas estas duas últimas cartas foram consideradas anexas a 1João e, por isso, estão agrupadas juntamente com ela (HALE, 2001, p.

360, 361).

15 Esta é a história de Tiago, do qual se diz que é a primeira “carta” das chama-

das católicas. Mas deve-se saber que não é considerada autêntica. Dos antigos não são muitos os que a mencionam, assim como a chamada de Judas, que é também uma das sete chamadas católicas. Ainda assim, sabemos que também estas, junto com as

restantes, são utilizadas publicamente na maioria das igrejas. In Eusébio de Cesaréia. História Eclesiástica. São Paulo: Novo Século, 2002, p. 47.

16 História Eclesiástica 2. 23, 25: “as sete [epístolas] chamadas católicas”. No uso

cristão ocidental, “católico” tem a conotação de “canônico”. A ordem canônica foi

ditada provavelmente pela lista dos “pilares” da Igreja de Jerusalém em Gálatas 2:9

– “Tiago, Cefas [=Pedro] e João” –, tendo Judas como apêndice. Nas listas de algu-

mas Igrejas orientais, essas epístolas aparecem de forma bastante lógica entre Atos e

o corpus paulino. Apud BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo:

Paulinas, 2004, p. 919.

Notas:

Notas:

43

Notas:

FACEL

Vejamos então cada uma dessas sete cartas separadamente. Lembre-se de que sua dedicação será recompensada com bons frutos!

Prossiga!

SEÇÃO 1 – TIAGO

A epístola de Tiago pode ser muito bem classificada entre a lite- ratura que, na Bíblia, recebe o nome de “literatura de sabedoria”. É fácil perceber isto quando se leva em conta o seu propósito. Este é caracterizado por instruções para o bem viver, para o coti- diano, para uma compreensão das perplexidades da vida. Exemplos de literatura sapiencial no Antigo Testamento são os livros de Jô, Provér- bios e Eclesiastes. Hale (2001, p. 360) chama a atenção para o fato de que “entre todos os livros do Novo Testamento, Tiago é o menos doutriná- rio e o mais prático”. Este foi um dos motivos pelo qual este documento foi muito negligenciado e, até mesmo, considerado num nível inferior aos demais documentos do Novo Testamento. Mesmo assim, o conteú- do do livro é portador de um encanto maravilhoso de alguém que deve ter sido muito próximo do Senhor Jesus durante seu ministério terreno, de alguém que pode tê-lo compreendido erroneamente de princípio, mas acabou reconhecendo-o como o Senhor da glória. Lembre-se de que de acordo com a classificação de Eusébio a epístola de Tiago pertence aos cinco “livros disputados” (antilegomena antilegomena) do Novo Testamento: Tiago, 2Pedro, 2 e 3 João, e o Apo- calipse. 17 Mesmo assim, o próprio Eusébio aceitava este documento como autêntico e canônico. Na igreja de fala latina a carta não aparece até Hilário (357), Jerônimo e Agostinho – final do século IV. Também não consta no cânon Muratoriano, a lista dos livros do Novo Testamen- to aceita pela igreja em Roma durante o século II. Sabe-se, contudo, que a primeira designação encontrada na igreja síria está no manuscrito Peshita Siríaco do século V (c. 412). Na igreja de fala grega, Orígenes é

17 História Eclesiástica, II, xxiii, 24, 25. Apud HALE, B. D. Introdução ao Novo

Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 349.

FACEL

o primeiro a mencionar a carta pelo título. Todavia, parece haver ecos

de Tiago em Clemente de Roma (95 d.C.) e Hermas (início do século II), mas são obscuros demais para se tirar conclusões definitivas. Foi na época de Atanásio (367 d.C.) que a carta foi recebida no cânon como sendo de autoria de Tiago, o irmão de Jesus Cristo. Mesmo havendo alguma contestação no que diz respeito a seu valor, ela acabou sendo aceita como genuína (HALE, 2001, p. 361).

• Autoria e Data

Quem é este que se apresenta simplesmente como: VIa,kwboj qeou/ kai. kuri,ou VIhsou/ Cristou/ dou/loj (Iákobos Theoy kai kyríou Iesoy Christoy doylos) “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo”? De acordo com Hale (2001, p. 361) nos registros do Novo Testamento encontram-se pelo menos quatro homens (KÜMMEL, 1982, p. 539, 540 enumera cinco) que receberam este nome:

Tiago, filho de Zebedeu (Marcos 1. 19; 3. 17 e paralelos; Atos 12. 2); Tiago, filho de Alfeu (Marcos 3. 18 e paralelos); Tiago, pai do apóstolo Judas (Lucas 6. 16; Atos 1. 13). Tiago, o Menor (Marcos 15. 40 e paralelos, filho de uma tal Maria, conforme Marcos 16. 1); Tiago, irmão de Jesus, filho de José e de Maria (Marcos 6. 3 e pa-

ralelos; 1 Coríntios 15. 7, Gálatas 1. 19; 2. 9,12; Atos 12. 17; 15. 13; 21. 18; Judas 1);

O primeiro, filho de Zebedeu foi o primeiro dos doze a ser mor-

to, tendo sido decapitado por Herodes Agripa I (BÍBLIA, NT Atos 12. 1, 2) por volta de 44 d.C.

O filho de Alfeu era o filho de outra Maria (Marcos 15. 40). Logo

após a lista dos apóstolos em Atos 1. 13 ele não mais é mencionado no Novo Testamento. Tiago, pai de Judas é chamado Tadeu (BÍBLIA, NT Mateus 10. 3

e Marcos 3. 17). Ele é desconhecido, a não ser como o pai de Judas – não

o Iscariotes. Nada mais se sabe a seu respeito. Da mesma forma, nada se sabe sobre Tiago “o menor”.

Notas:

Notas:

45

Notas:

FACEL

Finalmente, há Tiago, irmão do Senhor Jesus – termo usado por Paulo em Gálatas 1. 19. Ele está relacionado entre os irmãos de Jesus Cristo em Marcos 6. 3 e Mateus 13. 55. Parece ter tido alguma influên- cia na igreja primitiva, e, após a morte de Tiago, o filho de Zebedeu ele tornou-se o porta-voz da igreja em Jerusalém, posição mantida até a sua morte, por volta de 62 d.C. (HALE, 2001, p. 361). É verdade que no cristianismo primitivo havia apenas um Tiago que era bastante conhecido e que ocupava uma posição bem significa- tiva; a ponto de ser designado simplesmente pelo nome de Tiago, o ir- mão do Senhor, o que demonstra ser ele bem conhecido. Kümmel (1982, p. 540) destaca que o documento de Tiago reclama para si a honra de ter sido escrito por ele. Depois de haver permanecido na retaguarda du- rante a vida terrena de Jesus 18 , esse Tiago se converteu logo após a Pás- coa, por uma aparição do Senhor ressuscitado (BÍBLIA, NT 1 Coríntios 15. 7). Como irmão de Jesus veio a tornar-se o líder da igreja primitiva (BÍBLIA, NT Atos 12. 7; Gálatas 1. 19; Atos 21. 18). No que diz respeito à data da escrita e levando-se em conta as di- versas semelhanças entre os ensinos de Tiago com o Sermão na Monta- nha em Mateus, nota-se que o autor conhece, mesmo usando linguagem diversa, o tipo de ensinamento de Jesus encontrado nos evangelhos. Para Brown (2004, p. 965) esse relacionamento estreito com a tradição de Jesus e, assumindo que este Tiago seja de fato o irmão do Senhor,

18 Pelos evangelhos, parece que Tiago e seus três irmãos não eram simpati-

zantes ao ministério de seu outro irmão, Jesus, e às suas ideias acerca de sua natureza e ministério. Algumas vezes eles estiveram, com sua mãe e irmãs, acompanhando Jesus em seu ministério itinerante; contudo não aceitavam ou não puderam aceitar

sua obra. Lê-se em Marcos 3. 20-33 (Mateus 12. 46-50 e Lucas 8. 19-21) que a família de Jesus foi tentar levá-lo para casa, acreditando que ele estivesse fora de si. Em João 7. 1-9, os irmãos ridicularizaram Jesus, “porque não criam nele” (7. 5). Os irmãos tinham tão pouca simpatia por ele que, quando ele estava na cruz, cumprindo o dever de filho mais velho, encomendou sua mãe ao apóstolo João (João 19. 26, 27). É em Paulo que lemos o relato interessante de que Jesus apareceu particularmente a Tiago após sua ressurreição (1 Coríntios 15. 7). Em algum momento, entre a morte de Jesus e aquele aparecimento, Tiago veio a crer em Jesus. Atos 1. 14 narra que os irmãos de Jesus es- tavam presentes no cenáculo quando o sucessor de Judas Iscariotes foi escolhido. [ ] Paulo escreveu que, quando da sua volta para Jerusalém, vindo de Damasco, ele só viu Pedro e “nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor (Gálatas

Na última visita de Paulo a Jerusalém (Atos 21. 18, Tiago está definitiva-

1. 19). [

mente a cargo da igreja naquela cidade. Ele era tido em alta estima pelos judeus em toda parte e reconhecido como um homem justo, a tal ponto de ser chamado “o justo” por eles. História Eclesiástica, II, xxiii, 24, 25.HALE, B. D. Introdução ao Novo Testa- mento. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 362, 363.

]

FACEL

pode situar o documento talvez antes de 62 d.C. Isto está em sintonia com os escritos de Flávio Josefo (Antiguidades, xx, ix, i). Josefo traz a in- formação de que Tiago foi morto por ordem do sumo sacerdote Anano, depois da morte do procurador romano Festo e antes da chegada de seu sucessor Albino.

Anano [

saduceus, que, como dissemos, são os mais severos de todos judeus e os mais rigorosos nos julgamentos. Ele aproveitou

o tempo da morte de Festo, e Albino ainda não tinha chega-

do, para reunir um conselho, diante do qual fez comparecer Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo, e alguns outros; acusou-os de terem desobedecido às leis e os condenou ao apedrejamento (JOSEFO, F. 2004, p. 939).

era homem ousado e empreendedor, da seita dos

]

Eusébio de Cesaréia é ainda mais meticuloso ao narrar a morte de Tiago e lança algumas informações que não encontramos em Josefo:

E assim os mencionados escribas e fariseus puseram Tiago

em pé sobre o pináculo do templo e disseram-lhe aos gritos:

“O tu, o justo!, a quem todos devemos obedecer, posto que o povo anda extraviado atrás de Jesus o crucificado, diga- nos quem é a porta de Jesus.” E ele respondeu com grande voz: “Por que me perguntam sobre o Filho do homem? Ele também está sentado no céu à direita do grande poder e há de vir sobre as nuvens do céu.” E sendo muitos os que se convenceram completamente e ante o testemunho de Tiago, irromperam em louvores dizendo: “Hosana ao filho de Davi!”. Então os mesmos escribas e fariseus novamente disseram uns aos outros: “Fizemos mal em proporcionar tal testemunho a Jesus, mas subamos e lancemo-lo para baixo, para que tenham medo e não creiam nele.” E puseram-se

a

gritar dizendo: “Oh! Oh! Também o Justo extraviou-se!”

E

assim cumpriram a Escritura que se encontra em Isaías:

Tiremos de nosso meio o justo, que nos é incômodo. Então com- erão o fruto de suas obras. Subiram pois e lançaram abaixo o Justo. E diziam uns aos outros: “Apedrejemos a Tiago o Jus- to!” E começaram a apedrejá-lo, porque ao cair não chegou

a morrer. Mas ele, virando-se, ajoelhou-se e disse: “Eu te peço Senhor, Deus Pai: Perdoa-os, porque não sabem o que fazem. E quando estavam assim apedrejando-o, um sacer-

dote, um dos filhos de Recab, filho dos Recabim, dos quais

o profeta Jeremias havia dado testemunho, gritava dizendo:

Parai, que estais fazendo? O Justo roga por vós! E um deles,

Notas:

Notas:

47

Notas:

FACEL

tecelão, agarrou o bastão com que batia os panos e deu com este na cabeça do Justo, e assim foi que sofreu o martírio. Enterraram-no naquele lugar, junto ao templo, e ainda se conserva sua coluna naquele lugar ao lado do templo. Tiago era já um testemunho veraz para judeus e para gregos de que Jesus é o Cristo. E em seguida Vespasiano os sitiou.” (EUSÉBIO, 2002, p. 46, 47)

Tiago, juntamente com outros, foi acusado de transgredir a lei e, por isso, foi apedrejado até a morte em 62 d.C. (HALE, 2001, p. 363).

• Pano de Fundo

Para os estudos aqui propostos é importante compreender o contexto ou pano de fundo. A carta mostra a imagem de Tiago como um judeu cristão conservador e leal observador da Lei. Todavia, ele não era um legalista extremado, pois tanto em Atos 15 quanto Gálatas 2 há concordância que ele ficou ao lado de Paulo ao declarar que os gen- tios não precisavam ser circuncidados quando viessem a crer em Cristo. Contudo, afirma Brown (2004, p. 947), “o discurso que aparece em seus lábios em Atos 15. 13-21 apresenta motivos mais tradicionais para a aceitação dos gentios”. Veja que para os gentios aplicam-se os preceitos de Levíticos 17 – 18, válidos para estrangeiros que viviam em Israel. A decisão tomada em Jerusalém significou para Paulo a indi- cação de liberdade perante a Lei para os gentios convertidos; Mesmo assim em Antioquia “alguns homens vieram da parte de Tiago” e ques- tionaram a mesa comum entre judeus cristãos e gentios cristãos por não observarem as leis alimentares. De acordo com a narrativa em Atos 21. 18-25, quando Paulo chegou a Jerusalém (c. 58 d.C.) Tiago contou- -lhe quantos judeus haviam-se convertido na cidade, e aconselhou-o a purificar-se e ir ao templo (BROWN, 2004, p. 947, 948). É bem provável que a carta tenha sido escrita em Jerusalém du- rante o período que Tiago liderou a igreja cristã naquela cidade. O con- texto social e econômico que perpassa a carta diz respeito aos leitores e ao autor. Da mesma forma coaduna com uma procedência palestina:

comerciantes que percorrem imensas regiões em busca de lucro (4. 13-

FACEL

17), proprietários de terras que residiam em outros locais e acabavam tirando vantagem da força operária que se tornava cada vez mais pobre e desprovida de terras (2. 5-7; 5. 1-6) e acalorada controvérsia religiosa (4. 1-3). Estas pistas parecem corroborar para Jerusalém como local de origem (CARSON, 1997, p. 459). Além disso, ainda pode-se destacar a especial sensibilidade pelos pobres, conhecimento da tradição de Jesus, referências as primeiras e às últimas chuvas, típicas do clima palesti- nense (5. 7). Brown (2004, p. 966) destaca que “de acordo com Hegesi- po (História Eclesiástica 3. 19-20), os descendentes da família de Jesus (chamados desposinos)”, especialmente os netos de Judas, “seu irmão segundo a carne”, dirigiam as igrejas da Palestina até o tempo de Traja- no (c. 98-117 d.C.).

Destinatários

No que diz respeito aos destinatários, Brown (2004, p. 966) obser- va que a exortação moral em Tiago é obviamente direcionada a comuni- dades como uma voz contra a cultura dominante (1. 27). Entretanto, ele não era sectário, mas estava principalmente preocupado em corrigir os cristãos de dentro, os quais eram seus conhecidos. Além disso, o caráter marcadamente judaico do texto sugere um escritor e um público desti- natário de judeus cristãos. Hale (2001, p. 368) menciona o próprio texto em que Tiago ende- reça sua carta “às doze tribos que são da Dispersão” (taîs dódeka phylaîs taîs en tê diasporâ tai/j dw,deka fulai/j tai/j evn th/| diaspora/|) 19 (1. 1). A “Dispersão” ou “Diáspora” 20 era um termo usado para os judeus que

19 O termo diáspora aparece apenas cinco vezes no Novo Testamento Grego e

com diferentes formas: João 7. 35; Atos 8. 34; 11. 19; 23. 10; Tiago 1. 1 e 1 Pedro 1. 1. Somente em João 7. 35; Tiago 1. 1 e 1 Pedro 1. 1 é que o vocábulo assume o sentido de judeus dispersos no mundo helênico

20 Esse termo é usado pelos historiadores para referir-se às colônias judaicas

(forçadas ou não), que eles estabeleceram em outras partes do mundo, fora da Pales- tina. A palavra é grega e significa «dispersão». Equivale ao vocábulo hebraico golah. O termo inclui os movimentos voluntários de emigração de judeus para outras terras, mas também se refere às colônias judaicas que resultaram de guerras, exílios e apris- ionamentos. Os descendentes dos exilados e deportados também vieram a fazer parte da diáspora. Os Oráculos Sibilinos (cerca de 250 a.C.) refletem a extensão da dispersão dos judeus, afirmando que cada terra e que cada mar estava repleto de judeus. Nos

Notas:

Notas:

49

Notas:

FACEL

estavam espalhados pelo mundo gentio; E, a expressão “as doze tribos” era usada pelos judeus como um sinônimo para expressar a unidade do povo eleito de Deus (BÍBLIA, NT Mateus 19. 28; Atos 26. 7). Por fim, deve-se concluir que os destinatários eram judeus cristãos que viviam fora da Palestina. Indica, portanto, um cristianismo judaico que se ha- via formado no mundo helenístico.

SAIBA MAIS

BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004.

DOCKERY, D. S. Manual Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2001.

HALE, B. D. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001.

EXERCÍCIOS

1. Qual o pano de fundo da carta de Tiago?

2. Assinale as alternativas corretas:

I – Qual Tiago escreveu a epístola que tem esse nome?

a (

)

Tiago, filho de Zebedeu.

b (

)

Tiago, pai do apóstolo Judas.

c

(

)

Tiago, o Menor.

d

(

)

Tiago, o irmão de Jesus, filho de José e de Maria.

tempos do Novo Testamento, havia mais judeus vivendo fora da Palestina do que dentro dela. O número de judeus dispersos, naquela época. têm sido calculado entre três a cinco milhões de pessoas. In CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teolo- gia e Filosofia. Vol. 2. São Paulo: Hagnos, 2004, p. 141.

FACEL

II – Na igreja de fala grega quem foi o primeiro a mencionar a carta pelo

título?

a

(

)

Clemente de Roma.

b

(

)

Atanásio.

c

(

)

Barnabé.

d

(

)

Orígenes.

III – Com quem e quando a epístola de Tiago foi recebida no cânon?

a Desde a igreja primitiva, por todos os apóstolos.

(

)

b Com Hermas no segundo século depois de Cristo. Na época de Atanásio (367 d.C.).

d (

c (

(

)

)

)

Agostinho e Jerônimo na produção da Vulgata.

SEÇÃO 2 – PROPÓSITO, ESBOÇO E MENSAGEM

Em epístola de Tiago não pode ser tomada como uma carta pro- priamente dita, mas uma circular geral em forma de parênese. Koester (2005, p. 173) salienta que ela parece “uma compilação de ditos tradicio- nais, de admoestações, instruções e normas proverbiais de conduta reu- nidas livremente. Percebe-se, de fato, que arranjos temáticos entrelaçam diversos ditos em cada caso. Os conteúdos derivam da parênese do ju- daísmo helenístico. Existem também alguns ecos de ditos que ocorrem nos Evangelhos, a bênção dos pobres (BÍBLIA, NT Tiago 2. 5; Lucas 6. 20) e o dito de exaltação e humilhação (Tiago 4. 10; Lucas 14. 11).

Propósito

O texto de 5. 12 é especialmente surpreendente ao trazer a ex- pressão da proibição de jurar numa forma que parece ser mais antiga

que a própria formulação de Mateus 5. 35-37. Percebe-se que Tiago esta-

va bem inteirado dos ensinamentos anteriores à redação dos sinóticos.

Notas:

Notas:

51

Notas:

FACEL

O autor pretende defender a observação da lei e à tradição parenética judaica em uma igreja em desenvolvimento em todo o mundo. Ao mes- mo tempo, também ataca aqueles que afirmam possuir sabedoria do alto: compreende-se melhor a rejeição peculiar da falsa sabedoria em

3. 13-18 como crítica aos círculos gnósticos. Traz ainda, a exortação de que a moralidade da diáspora judaica deveria ser de grande valor para

a promoção de uma vida cristã piedosa, inteligente e responsável. Cabe

ainda mencionar o pensamento de Hale (2001, p. 370) que afirma que Tiago exortava seus leitores a transcenderem o judaísmo formalístico na prática, como já o haviam transcendido em sua fé no Senhor Jesus Cristo. Eles haviam crido em Jesus como “O Cristo” – Messias; agora deveriam portar-se como verdadeiros discípulos do Mestre da Galiléia

e não como os discípulos do grupo farisaico. O texto visa corrigir erros que os irmãos praticavam contra a conduta genuinamente cristã. No entanto, eles precisavam de carinho:

sofriam castigos e eram vítimas de opressão. Eles são exortados man- samente por Tiago que reconhece seus sofrimentos. O objetivo parece ser um encorajamento, pois disserta sobre o valor da vitória sobre a tentação (1. 24); frisa a origem do pecado (1. 12-18) e finaliza o capítulo exortando a prática da Palavra de Deus. Tiago aconselha seus leitores a como se conduzirem diante de estranhos, como recebê-los e considerá- -los (2. 1-6). Admoesta-os a que tenham sua fé acompanhada de boas obras e termina o texto com algum material variado de cunho prático. Como principais temas teológicos podem ser destacados: Deus, escato- logia, fé, obras e justificação, a lei, vida cristã, a sabedoria, a pobreza e a riqueza.

Esboço

Para este componente das Epístolas Gerais pode ser proposto um esboço que bem parece ter a estrutura de um sermão:

FACEL

SAUDAÇÃO (1. 1)

REALIDADE CONTRA IMITAÇÃO

III. Realidade em Caráter (Contra Imitação)

(1. 2-18)

II. Realidade em Culto Público (Contra Imitação)

(1. 19-27)

III. Realidade em Amor (Contra Imitação)

(2. 1-13)

IV. Realidade em Fé (Contra Imitação)

(2. 14-26)

(1. 2-2:26)

MESTRES (3:1-18)

Responsabilidade Maior e Perigo Maior

II. Sabedoria

Imitada

(3. 1-12)

Verdadeira

Contra

Sabedoria

(3. 13-18)

O MUNDO CONTRA DEUS

(4. 1-5:20)

III.

Prazeres (Como o Alvo da Vida) Contra

Deus

(4. 1-10)

II.

Submissão Contra a Presunção (4. 11-5:6)

III.

A Conduta Cristã Neste Mundo Transitório

(5. 7-20)

Esboço resumido da estrutura proposta por HALE (2001, p. 371, 372)

Com a estrutura apresentada fica mais fácil ter uma visão pano- râmica do conteúdo global para que em seguida se possam tratar alguns pormenores que merecem maior destaque. Observe que o esboço é um auxílio para o estudante da Bíblia. Nas ponderações que se seguem não se seguirá necessariamente este esboço. Com isso procura-se enriquecer as possibilidades de diferentes leituras para esta carta.

Notas:

Notas:

53

Notas:

Mensagem

FACEL

Em toda a carta há 54 imperativos. Isto demonstra que o autor escreve e exorta como um pastor, a partir de sua experiência pessoal,

para ajudar seus leitores no viver uma vida cristã prática. O tema básico da primeira seção é a verdade contrastada com a hipocrisia ou imitação. A atitude e o tema refletem de maneira forte os escritos sapienciais do Antigo Testamento adaptados a uma mentalidade escatológica e com- binados com a ênfase nos ensinamentos de Jesus, como o memorável Sermão na Montanha (BÍBLIA, Mateus 5 – 7), por exemplo. Em 1. 2-27 o escritor lembra Jesus advertindo seus seguidores de que eles sofreriam provações e tribulações, durante as quais necessitariam muito crer no poder divino de ir ao encontro das necessidades deles (Mateus 5. 11; 24.

9 – 13). Brown (2004, p. 949) destaca o discurso de 1. 9 – 11 àqueles de

condição humilde e aos ricos, contrastando-lhes o destino. Tiago apro- xima-se do conteúdo de Lucas 6. 20 – 24 da bem-aventurança para o

pobre, seguida de infortúnio para o rico. Outras passagens em Tiago (2.

1 – 9; 5. 1 – 6) atacam os ricos. Desta maneira pode-se dizer que o tema

pobres/ricos provavelmente reflete uma situação social conhecida pelo autor em sua igreja, através da qual ele extrapola para outras. Outro ensinamento de Tiago, em linguagem similar ao dualismo entre luz e trevas dos Manuscritos do Mar Morto, é chamar a Deus “o Pai das luzes” (1. 17). O sentido geral parece ser algo como o que segue:

sendo o Pai das luzes que concede dons preciosos e perfeitos, Deus não tenta levar as pessoas à prática do mal, alterando a forma como ele lida com as pessoas. Para Tiago Deus gera seguidores de Cristo pela pala- vra da verdade e quer que eles sejam como as primícias que, na liturgia judaica, pertencem ao Senhor (1. 18). Para tanto, os leitores não podem ser apenas ouvintes; Devem demonstrar seu efeito em suas vidas. Não existe nada de teórico na religião defendida por Tiago (1. 27), ao con- trário, a verdadeira religião se manifesta no cuidar das viúvas e órfãos necessitados e no conservar-se sem ser contaminado pelo mundo (BRO-

WN, 2004, p. 950).

FACEL

• Ricos e Pobres, Fé e Obras

Aqui se abordará do trecho que vai de 2. 1 – 26. O versículo 1, na NRSV foi escrito como pergunta – para a qual se espera uma resposta negativa: “Meus irmãos e minhas irmãs, será que com seu favoritismo por algumas pessoas vocês estão de fato crendo em nosso glorioso Se- nhor Jesus Cristo”? (OMANSON, 2010, p. 489). Observe que é quase uma interpretação, mas mesmo assim traduz muito bem o sentido do texto. Tem-se a impressão de que os leitores de Tiago viviam em uma comunidade que se reunia em uma sinagoga (2. 2) – Neste verso ARA é mais fiel, trazendo mesmo “sinagoga” ao invés de ajuntamento como ACF, por exemplo. 21 Nessas reuniões os ricos tendiam a ser recebidos com gentileza e atenções especiais. É de um alto relevo, de modo particular, a afirmação de que os cristãos ricos “vos” oprimem e “vos” arrastam aos tribunais. Brown (2004, p. 951) resume bem a realidade de que, da mesma forma que para Jesus (BÍBLIA, NT Mateus 22. 39-40; e Levítico 19. 18), “agora também para Tg 2. 8-10 o amor ao próximo resume a Lei e os mandamentos, e ofender esse ponto torna alguém culpado de infringir a Lei em sua totalidade”. 22 A expressão “no,mou evleuqeri,aj” 2. 12 (nómoy eleythe- rías – Lei de Liberdade) traz um desafio à dicotomia entre lei e liberda- de tão pregado nos púlpitos. Ao tratar da fé e obras o escritor inicia com a diatribe 23 greco- -romana. Ao trazer um exemplo imaginário ele ilustra os resultados de- sastrosos da indiferença em relação às boas obras. Em seguida ele evoca

21 NRSV: New Revised Standard Version; ARA: Almeida Revista e Atualizada;

ACF: Almeida Corrigida Fiel.

22 Tiago jamais menciona as “obras da lei” ou a circuncisão, como o faz Paulo;

tampouco se refere às leis rituais. A “lei” nessa seção significa a lei moral do Antigo Testamento e da tradição de Jesus, contrastada com a parcialidade discriminatória. C. H. Felder (Journal of Religious Thought 39, 51-69, 1982-1983) Apud BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 951.

23 A diatribe é uma forma retórica que usa um método abusivo. A palavra vem

do grego diatribe, «desgaste». Essa maneira de falar era usada com perfeição por al-

guns dos primeiros filósofos gregos. Bíon de Borístenes [

merece o crédito de ser o

seu inventor. Dion Crisóstomo (cerca de 40-120 D.C.), um filósofo grego, desenvolveu ainda mais esse estilo. Infelizmente, muitos pregadores evangélicos modernos usam mais da diatribe do que da prédica homilética. In CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 2. São Paulo: Hagnos, 2004, p. 143.

]

Notas:

Notas:

55

Notas:

FACEL

exemplos bíblicos como Abraão e Raabe. Na concepção de Brown (2004, p. 952) Tiago traduz na prática a advertência de Cristo de que não é aquele que diz “Senhor, Senhor” que entrará no reino do céu (BÍBLIA, NT Mateus 7. 21). A qualquer tempo, os de fora poderiam julgar os cris- tãos pelo bom padrão, segundo o qual a fé sem obras é morta. SAIBA MAIS

BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004.

HALE, B. D. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001.

KÜMMEL, W. G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982.

EXERCÍCIOS

1. Como devem ser entendidas as provações e aflições?

2. Assinale as alternativas corretas:

I – A que tipo de literatura se assemelha Tiago?

a (

)

Narrativa.

b (

)

Parábola.

c (

)

Sabedoria.

d

(

)

Profecia.

II – Pode uma fé sem obras produzir salvação?

a

(

)

Uma fé constituída de palavras amáveis não é salvífica.

b

(

)

Palavras sem oferta de ajuda não produz salvação.

c

(

)

A fé meramente afirma uma crença. Se não produzir mudança de

vida é morta.

d (

)

Todas as alternativas estão corretas.

FACEL

III – De acordo com a epístola de Tiago o que produz a paciência?

a (

)

As tentações.

b (

)

Tribulações.

c (

)

Perseguições.

d Uma vida de oração.

(

)

SEÇÃO 3 – MENSAGEM

Dando continuidade à análise geral da mensagem esta seção prossegue a partir do capítulo 3. É aí que Tiago começa a tratar dos problemas que dividem uma comunidade. Era um fato nas comunida- des, já nos primeiros tempos, assim como tem sido uma realidade nas comunidades cristãs de hoje. Dessa forma, os leitores pós-modernos de Tiago nem precisam contextualizar a hermenêutica de certos trechos, basta apenas lê-los e aplicá-los imediatamente à suas vidas.

• Falhas que Dividem a Comunhão entre os Cristãos

O texto segue com uma série de parágrafos repletos de exemplos

em que Tiago trata dos pecados e dos defeitos que são particularmente ameaçadores para a harmonia exigida pelo mandado do amor mútuo. Ele procura apontar para um cristão moderado, uma vez que o discípu-

lo de Jesus é moderado quando sabe que nem todos são aptos para en-

sinar. Quantas são as pessoas que começam a ensinar sem que tenham a aptidão ou o dom e por isso carecem de coerência para ensinar. Brown (2004, p. 952) aponta para o fato de que Tiago, a exemplo de um mestre sapiencial do Antigo Testamento, em 3. 1 – 12 traz um feixe de exem- plos – freios na boca de cavalo, leme num navio, fogo, veneno, água salgada – e descreve de forma eloquente o perigo que uma língua solta

pode causar, principalmente da parte dos mestres.

O cristão moderado é aquele que já aprendeu a controlar a sua

língua e pode ser considerado maduro. Da mesma forma, pode ainda

Notas:

Notas:

57

Notas:

FACEL

controlar qualquer outra parte do seu corpo. Da mesma forma que a fé precisa ser manifesta em obras, a língua demonstra como a sabedoria demonstra o que vai à mente dos mestres. Jesus disse que “Pelos seus frutos os reconhecereis” (BÍBLIA, NT Mateus 7. 16), assim, afirma Bro- wn (2004, p. 952), a sabedoria do alto é identificada por seus frutos – pura, pacífica, moderada. Essa ênfase na conduta do sábio leva à condenação da cobiça e dos desejos que dividem as pessoas e as torna infelizes (4. 1 – 10) – de- sejos que são o oposto do espírito de bem-aventurança. Essa passagem apresenta uma advertência séria contra uma vida cristã de concessões e convoca os leitores ao arrependimento. Na linguagem bíblica, moicali,dej (moichalides - adúltera) é um vocábulo usado em sentido metafórico para falar sobre Israel como a esposa infiel do Senhor Deus 24 e, de modo semelhante, no Novo Testamento, em Mateus 12. 39; 16. 4 e Marcos 8. 38. O cristão apaixonado por Deus é aquele que deve aprender a la- mentar pelos pecados cometidos. Após humilhar-se diante de Deus ele experimenta a exaltação. Para evitar o risco de leitores entenderem uma tradução literal como referência ao casamento, talvez seja preferível tra- duzir o texto por “gente infiel” 25 ou “vocês não estão sendo fiéis para com Deus!” (OMANSON, 2010, p. 493). Para permanecer fiel ao texto é preferível mesmo inserir uma nota, explicando a linguagem bíblica empregada. Depois de tratar da sabedoria celeste, das contendas, procuran- do manter a paz que procede da humildade de Deus, Kümmel (1982, p. 530) ressalta o problema da murmuração. Portanto, a seção termi- na com uma exortação final sobre a fala (4. 11 – 12) “não murmureis” (CARSON, 1997, p. 454). No verso 12 a palavra nomoqe,thj (nomothétes - legislador) alerta para o perigo do julgamento. Um discípulo de Cristo deixa o julgamento do seu semelhante por conta do Senhor. Na medida em que não se respeita a tarefa de Deus e colocam-se como juízes há pe- rigo de ocorrer muitas dissensões e divisões entre o povo do Senhor. Há quem consiga arrasar as pessoas com suas palavras e pecam por querer serem deuses.

24 Veja Salmo 73. 27; Isaías 54. 5; Jeremias 3. 20, Ezequiel 16, 23; e Oséias 9 .1,

para citar algumas.

25 Como na Nova Tradução na Linguagem de Hoje.

FACEL

• Planejar sem Consultar a Deus – Corrupção por Causa da Riqueza

Parece que para Tiago também consiste em um combate a Deus fazer planos para o futuro sem levá-lo em conta. Os negociantes judeus iriam aos centros comerciais da época, ou seja, Antioquia, Alexandria, Damasco e outras grandes cidades, e em cada uma dessas deveriam gas- tar um considerável tempo (DAVIDSON, 1997, p. 1397). Tiago trata da “Solene Incerteza”. A vida é incerta demais, afirma Hale (2001, p. 371), e o cristão não deve usurpar a prerrogativa divina de planejar o futuro. A precariedade da vida não permite ter certeza do amanhã. Tiago não está condenando o fazer planos. É bom lembrar que Jesus ensinou aos seus discípulos serem prudentes e previdentes. A condenação está em fazer planos sem considerar a Deus. Por isso ele acrescenta a pergunta “Que é a vossa vida? (v.14). A pergunta na verdade é uma reprimenda e a resposta é dura e inflexível. Tiago lembra seus leitores que eles não são senhores da própria vida, portanto, ao formulardes vossos planos, não vos esqueçais de que estais diante de Deus (v.14 – 16). O tema dos ricos, já tratado anteriormente, retorna como causti- cante ataque em 5. 1-6. A seção apresenta uma severa denúncia contra os ricos que têm granjeado prosperidade mediante a opressão. Tiago traz reminiscências das maldições proféticas conta eles (BÍBLIA, AT Amós 8. 4 – 8) e da pregação de Jesus. 26 Davidson (1997, p. 1397) informa que a principal oposição aos cristãos naquela época, partia dos ricos. Tiago es- pecifica outras razões de queixa e mostra como as riquezas deles se têm corrompido. Os ricos não somente fechavam as portas da compaixão pelos pobres, mas os salários justos e legais, devidos aos trabalhadores que ceifavam em suas terras eram retidos por eles (4). Ao pintar esse quadro de luta entre capital e trabalho Tiago não hesita em acusar de fraude os opressores. Mesmo que o gemido dos oprimidos encontrasse ouvidos cerrados por parte de seus opressores, penetravam os ouvidos do Senhor dos Exércitos. Assim, Kümmel (1982, p. 531) afirma: Tiago

26 Defraudar os trabalhadores de seus salários é condenado em Levítico 19. 13;

Deuteronômio 24. 14 – 15. Além disso, Tiago reflete as queixas contra os maus-tratos do justo na literatura sapiencial como, por exemplo, em Sabedoria 2. 18-20. In BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 953.

Notas:

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Notas:

FACEL

insere o imperativo “ricos, reconhecei vossa culpa e vosso castigo me- recido (5. 1 – 6). No trecho de 5. 7-11 Tiago apela à paciência, até a vinda do Se- nhor, relacionando com a expectativa de que os pobres obterão justiça das mãos dos ricos deste mundo (BROWN, 2004, p. 953). O texto exorta para que os leitores sejam pacientes tendo em vista o próximo julga- mento de Deus. Eis aí o reconhecimento de que Deus, quando da volta do Senhor, julgará os ricos ímpios e recompensará os justos. É um tema escatológico. Nogueira ressalta ainda mais o contraste entre o rico e o pobre como tema dominante em toda a carta:

Outro texto que contrasta o rico e o pobre é 4.13-5. 6. Ali o

rico é condenado por oprimir o pobre, por reter seu salário e por sua postura arrogante. Também neste texto a aparência

e os demonstrativos de status são destacados. O rico glo-

ria-se (kauchaomai) de sua riqueza e dos lucros que planeja alcançar. Na sua destruição os bens que o distinguem na sociedade (roupas, ouro, prata, tesouros), mostrando, por- tanto tratar-se de uma pessoa honrada, são destinados para

a destruição. A forma como a experiência de opressão é sen- tida é de humilhação do pobre (ver que 1. 9 não contrasta

o rico e o pobre, mas o rico e o humilde!). A demonstração

ostensiva de status social do rico (bem ao gosto das aristoc- racias do mundo greco-romano) ofende profundamente ao pobre. Já a sua humilhação pública, que de alguma forma

deve ter ocorrido [

faz com que ele clame aos céus por

justiça (NOGUEIRA, 1998, p. 105 in RIBLA 31).

]

Veja que os pobres oprimidos devem esperar com paciência. O texto traz como estimulo à paciência a ênfase na parusia. Na vinda do Senhor os pobres serão honrados e a corrupção causada pela riqueza será destruída.

• Premissas para uma Cosmovisão Cristã

Ao final (5. 12), juramentos, oração e correção dos desviados são os assuntos que encerram a carta; aparentemente ainda no contexto do

FACEL

julgamento final vindouro. A postura negativa e enfática com relação

a juramentos novamente aproxima Tiago do Sermão na Montanha (BÍ- BLIA, NT Mateus 5. 33-37).

Em 5. 17-18 Tiago trata do poder da oração de intercessão. Ele

já vinha tratando do tema da oração desde 5. 13-15, onde ele estimula

os cristãos a que orem – ungindo os doentes – evn tw/| ovno,mati tou/ kuri,ou (en to onómati toy kyríoy – em nome do Senhor), ou seja, o poder vem de Deus e assim deve ser feita a oração para que haja cura e perdão dos pecados. A oração de uma pessoa obediente a Deus tem muito poder (5. 16). Agora (5. 17), mais uma vez, Tiago evoca um grande nome do passado de seu povo: Elias. E para deixar claro aos seus leitores que

a oração é poderosa – e que o poder não está na pessoa de quem ora,

ele lembra que VHli,aj a;nqrwpoj h=n o`moiopaqh.j h`mi/n (Elias ánthropos hén homoiapathès hemîn) Elias era homem sujeito às mesmas paixões, ou seja, (homoiapathès) com a mesma natureza, sujeito às mesmas condições. As últimas linhas de Tiago (5. 19-20) surgem como uma surpre- sa: ele demonstra preocupação em reconduzir e perdoar aqueles que se desviaram. A epístola termina abruptamente. Davidson (1997, p. 1400) destaca que não há palavras de despedida, mas há uma última exor- tação “Se algum entre vós planhqh/| avpo. th/j avlhqei,aj (planethê 27 apo tês aletheías – se desviar da verdade)” (v.19), é dever e privilégio do cris- tão procurar restaurá-lo. Aquele que o fizer, mostra que compreende que “aquele que converte um pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele, e cobrirá multidão de pecados”. Dessa forma, a fé operosa evidencia-se não somente em devoção ao Senhor, mas tam- bém no interesse pelo bem dos outros, particularmente pelos irmãos em Cristo. São muito honrados os cristãos restauradores. Estes se mantêm firmados na verdade da Palavra de Deus e tem como meta trabalhar na recuperação dos cristãos afastados. Eles atuam e conseguem com a aju- da de Deus reintegrar aqueles que se afastaram; sua tarefa experimenta

o perdão dos pecados. Tiago faz uso do mesmo vocábulo encontrado

em Mateus 18. 12, onde Jesus conta a parábola da ovelha perdida. Por-

27 Aquele que se desvia da verdade é chamado aqui de “errante”, alguém que

caminha de forma desorientada; Sem perspectiva de onde veio e sem a certeza de para onde está indo. Veja que a palavra lembra o vocábulo português planeta. A raiz vem de plane: desvio, erro, ilusão, engano. In GRINGRICH, F. W. DANKER, F. W. Léxico do Novo Testamento Grego / Português. Vida Nova: 1993, p. 167.

Notas:

Notas:

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Notas:

FACEL

tanto, da mesma forma que no decorrer de toda a carta, Tiago encerra com admoestações correlatas aos ensinos de Jesus.

SAIBA MAIS

CARSON, D. A. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.

BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004.

KÜMMEL, W. G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982.

EXERCÍCIOS

1.

Explique as ideias de Tiago no que diz respeito ao poder, obstinação

e

sobre uma língua incoerente:

2.

Assinale as alternativas corretas:

I – Uma vida mundana pode afetar a vida de oração?

a A vida pessoal nada tem que ver com a oração.

(

)

b Pela graça de Deus a oração de qualquer pessoa é ouvida.

(

)

c A oração dos justos resolve qualquer problema.

(

)

d

(

)

Não se pode coadunar uma vida mundana com uma vida de

oração.

II

– De que forma a certeza da volta de Cristo traz forças para enfrentar

o

sofrimento?

a

(

)

Lembra de que o sofredor deve desejar a justiça divina.

b

(

)

Os que sofrem por amor a Cristo terão sua justa recompensa.

c

(

)

Sofrer não traz esperança para ninguém.

FACEL

d (

)

O sofrimento não é assunto de cunho escatológico.

III – Sobre a oração pode ser dito que:

a

(

)

Tiago afirma que a oração pela cura é sempre atendida.

b

(

)

A oração de uma pessoa obediente a Deus é poderosa.

c

(

)

A oração poderosa não indica que a pessoa é especial.

d

(

)

As alternativas “b” e “c” estão corretas.

SEÇÃO 4 – REFLEXÕES RELEVANTES

Na última seção desta unidade serão retomados alguns textos

de Tiago e analisados de forma mais pormenorizada. O objetivo aqui

é proporcionar um aprofundamento em temas de grande relevância e

também, se possível, dirimir algumas dúvidas e desfazer alguns mal- -entendidos nas leituras realizadas neste documento precioso de nosso Novo Testamento.

• Relação com os Ensinos de Jesus

Gundry (1998, p. 254) destaca a notável semelhança dos ensi- nos de Tiago com os de Jesus. A epístola de Tiago contém numerosas alusões a afirmações de Jesus, também registradas nos evangelhos, so- bretudo material associado ao Sermão na Montanha. Como exemplo, o contraste em Tiago 1. 22, entre ouvintes e praticantes da palavra. Este contraste evoca a parábola do homem sábio, que edificou sua residência sobre um sólido alicerce, por ter ouvido e posto em prática as palavras de Jesus, e do homem insensato, que edificou sobre a areia, por ter ou- vido, mas não praticado as Suas palavras (BÍBLIA, NT Mateus 7. 24-27

e

Lucas 6. 47-49). É intrigante e notável a proximidade entre o conteúdo de Tiago

e

de várias seções de Mateus que apresentam os ensinamentos de Jesus.

Notas:

Notas:

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Notas:

FACEL

Brown (2004, p. 955 – 958) oferece uma extensa lista que aqui inserida em forma de tabela para facilitar a visualização e comparação:

Tg 1. 2: [

 

]

tende por motivo de

Mt 5. 11-12: Felizes, sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Ale- grai-vos e regozijai-vos.

grande alegria o serdes submeti- dos a múltiplas provações.

Tg 1. 4: [

]

a fim de serdes perfei-

Mt 5. 48: Portanto, deveis ser per- feitos como o vosso Pai celeste é perfeito.

tos e íntegros, sem nenhuma defi- ciência.

Tg 1. 5: [

 

]

peça-a a Deus, que a

Mt 7. 7: Pedi e vos será dado.

concede generosamente a todos sem recriminações.

Tg 1. 19-20: Que cada um esteja

Mt 5. 22 [

]

todo aquele que se en-

[

]

lento para encolerizar-se; pois

colerizar contra seu irmão [/irmã] terá de responder no tribunal.

a cólera do homem não é capaz de cumprir a justiça de Deus.

Tg 1. 22: Tornai-vos praticantes da Palavra e não simples ouvin- tes, enganando-vos a vós mes- mos.

Mt 7. 24: [

]

aquele que ouve es-

sas minhas palavras e as põe em prática.

Tg 2. 5: Não escolheu Deus os po- bres em bens deste mundo [ ]

Mt 5. 3: Felizes os pobres em espíri- to, porque deles é o Reino dos Céus. Veja ainda Lc 6. 20: Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus.

para serem [ [ ]?

]

herdeiros do reino

Tg 2. 10: [

 

]

aquele que guarda

Mt 5. 19: Aquele, porventura, que violar um só desses menores man- damentos e ensinar os homens a fazerem o mesmo, será chamado o menor no Reino de Deus.

toda a Lei, mas desobedece a um só ponto, torna-se culpado da transgressão da Lei inteira.

Tg 2. 13: [

]

o julgamento será

Mt 5. 7: Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

sem misericórdia para quem não

pratica a misericórdia.

 

FACEL

Tg 3. 12: [

]

pode a figueira pro-

Mt 7. 16: [

]

colhem-se uvas dos

duzir azeitonas ou a videira pro- duzir figos?

espinheiros ou figos dos cardos?

Tg 3. 18: Um fruto da justiça é se- meado pacificamente para aque- les que promovem a paz.

Mt 5. 9: Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados fi- lhos de Deus.

Tg 4. 4: [

]

aquele que quer ser

Mt 6. 24: Não podeis servir a Deus

amigo do mundo torna-se inimi- go de Deus.

e

ao Dinheiro.

 

Tg 4. 10: Humilhai-vos diante do Senhor e ele vos exaltará.

Mt 5:4: Felizes os mansos, porque herdarão a terra.

Tg 5. 2-3: Vossa riqueza apodreceu

e as vossas vestes estão carcomidas pelas traças. Vosso ouro e vossa

Mt 6. 19-20: Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e

o

caruncho os corroem e onde os

prata estão enferrujados [

].

Ente-

ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros no céu.

sourastes [=punição] como que um fogo nos tempos do fim.

Tg

5.

9

[

]

não murmureis uns

Mt 7. 1: Não julgueis para não ser- des julgados. Pois com o julgamen- to com que julgais sereis julgados.

contra os outros, para que não se- jais julgados.

Tg 5. 10: [

]

tomai como exemplo

Mt 5. 12: [

]

foi assim que perse-

de vida de sofrimento e de paci- ência os profetas.

guiram os profetas, que vieram antes de vós.

Tg 5. 12: [

]

não jureis, nem pelo

Mt 5. 34-37: [

]

não jureis em hi-

céu nem pela terra, nem por outra coisa qualquer. Antes, seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não.

pótese nenhuma; nem pelo céu [ ]

nem pela terra [

].

Seja o vosso

“sim”, sim, e o vosso “não”, não.

Fora do Sermão na Montanha, estes são possíveis paralelos: Tg 1. 6 = 21. 21 (fé, dúvida, mar); Tg 2. 8 = Mt 22. 39 (amar o próximo como a si mesmo); Tg 3. 1 = Mt 23. 8 (contra os mestres); Tg 3. 2ss = Mt 12. 36-37 (contra o falar displicente); Tg 5. 7 = Mt 24. 13 (perseverar até o fim); Tg 5. 9 = Mt 24. 33 (Juiz/Filho do Homem às portas). 28

28 SHEPHERD, M. H. JBL 75, 40-51, 1956. Apud BROWN, R. E. Introdução ao

Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 955.

Notas:

Notas:

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Notas:

FACEL

Perceba que apesar da proximidade da mensagem e do sentido dos ensinamentos, nem a linguagem dos paralelos e nem a ordem na qual aparecem são as mesmas. Por conseguinte, muitos eruditos afir- mam que Tiago não tinha conhecimento do texto do Evangelho escrito por Mateus, mas conhecia muito bem a tradição de Jesus que era fami- liar também a Mateus e semelhante a Q 29 . 30

• Tiago e Paulo – Obras e Fé

Alguns textos em Paulo (BÍBLIA, NT Gálatas 2. 16; Romanos 3. 28) declaram de forma enfática que o ser humano não se justifica pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo. Afirma ainda que o indivíduo é justificado pela fé, sem a prática da Lei. Contrastando com os ensinos de Paulo, em Tiago e lê 2. 24 “o`ra/te o[ti evx e;rgwn dikaiou/tai a;nqrwpoj kai. ouvk evk pi,stewj mo,nonÅ” (horate hoti ex érgon dikaioytai ánthropos kai oyk ek písteos mónon) – “Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé”. Perceba que a linguagem é bastante próxima e, ambos apelam para o mesmo exemplo de Abraão (BÍBLIA, AT Gênesis 15. 6). Diante dessas circunstâncias Brown (2004, p. 954) afirma que “o problema da fé/obras é bastante importante para Paulo em Gálatas e Romanos, enquanto que para Tiago é mais circunstancial”. É importan-

29 Q é uma fonte hipotética, postulada pela maioria dos estudiosos para explicar

o que anteriormente foi denominado Dupla Tradição, ou seja, concordância (muitas vezes nas palavras) entre Mateus e Lucas em material não encontrado em Marcos. Por trás da hipótese está a pressuposição plausível de que o evangelista mateano não conheceu Lucas e vice-versa, de modo que devem ter tido uma fonte comum. É pre- ciso muitas precauções antes de reconstituir Q. BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 193. Julga-se que a designação “Q”, do alemão Quelle, “fonte”, tenha sido criada por J. Weiss em 1890. Cf. F. Neirynck, ETL 54, 119 – 125, 1978. Apud BROWN, R. E. In- trodução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 193.

30 De acordo com os post-bultmannianos, o material representado pelo docu-

mento “Q”, e encontrado atualmente nos evangelhos de Lucas e Mateus e em peque- na porção em Marcos, onde este coincide com “Q”, é o substrato escrito mais antigo dos evangelhos, até mesmo do que Marcos. Por este motivo, “Q” é situado por volta do ano 50 d.C. O documento “Q” consta principalmente de discursos, mas também deve ter contido narrativas (BÍBLIA, N.T. Lucas 4. 2-13; 7. 1-10; 7. 17-23; 11. 29-32) In BITTENCOURT, B. P. A Forma dos Evangelhos e a Problemática dos Sinóticos. São Paulo: Imprensa Metodista, 1969, p. 146, 147.

FACEL

te compreender então que Paulo argumentava que a “observância ritu- al” das obras prescritas pela Lei mosaica, particularmente a circuncisão, não justificaria os gentios; pelo contrário, exigia a fé naquilo que Deus realizou em Cristo, uma fé que requeria o envolvimento da vida. O que se vê no texto de Tiago é a demonstração da genuinidade da fé mediante as boas obras produzidas pela fé (2. 14-26). Tiago escre- ve acerca da justificação pelas obras como evidência externa, perante os homens, daquela fé interna. Dessa forma, ele não contradizia a Paulo. Este, por igual modo, salienta as boas obras como consequência da ver- dadeira fé (GUNDRY, 1998, p. 254). Agora se pode ver que Tiago pensa nas pessoas que já são discí- pulas de Jesus Cristo, isto é, crêem em Jesus, já são cristãs e, portanto, salvas. Todavia, não traduzem tal crença na prática da vida; ele insiste em que as obras (não se trata de obras rituais prescritas pela Lei mosaica, mas o comportamento que reflete o amor) precisam, necessariamente, corresponder à fé. Veja que isto é algo que Paulo concorda plenamente. Isto pode ser facilmente observado nas seções “imperativas” de suas cartas que insistem nas atitudes. 31 É possível afirmar que se o escritor de Tiago tivesse lido Romanos perceberia que o apóstolo Paulo e ele não estavam lidando com o mesmo problema. Diante disso, é bom que fique claro que Paulo não proclamou a justificação somente mediante uma fé que não implicava viver como Cristo deseja que seus seguidores vivam (BROWN, 2004, p. 955).

• Unção dos Enfermos

Como último tópico desta seção se voltará ao tema da unção com óleo. A passagem em (5. 13) é um convite à oração como resposta para

31 Cf. Gálatas 5. 6: “fé agindo pela caridade (amor)”; 1 Coríntios 13. 2: “[

que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse a caridade (o

não são os que ouvem a lei que são justos

perante Deus, mas os que cumprem a Lei”; e a insistência na obediência em Romanos 6. 17; 16. 19.26; 2 Coríntios 10. 6; Filemon 21. Contudo, podemos estar bem seguros de que Paulo jamais teria formulado seu imperativo positivo acerca do comportamento na linguagem de Tiago 2. 24 – “obras, e não simplesmente a fé”. In BROWN, R. E. In- trodução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 954, n. 26.

amor), nada seria”; Romanos 2. 13: “[

] ainda

]

Notas:

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Notas:

FACEL

o sofrimento humano, e louvor a Deus com cantos, como resposta ao

sentimento de alegria. A preocupação está, contudo, em que esta é a resposta apresentada para aquele que está doente. É importante saber

que na prática posterior da Igreja, a cura dos doentes pela unção feita por um sacerdote foi considerada um sacramento e, por isso, inevita- velmente o texto de Tiago afetou os debates entre os reformadores e Roma. Sabe-se que a Igreja Romana instituiu, em vista dessa passagem,

a extrema-unção 32 na Seção XIV do Concílio de Trento (1716 – 1719)

considerando como uma instituição de Cristo promulgada por Tiago, decidindo que os presbíteros, não são simplesmente membros idosos da comunidade, mas os sacerdotes ordenados pelo bispo. Brown (2004, p. 959) lembra que “ungir com óleo em nome do Senhor é a primeira coisa na sequência do que se espera que os presbíte- ros façam”. Na antiguidade o óleo de oliveira era usado como remédio

(BÍBLIA, AT Levítico 14. 10-32) e, além disso, era prescrito no ritual da purificação da lepra. O texto de Isaías 1. 6 mostra que as feridas são amolecidas ou aliviadas com óleo. Em Jeremias 8. 22 pressupõe-se o poder curativo do bálsamo de Gileade. O Novo Testamento (BÍBLIA, NT Marcos 6. 13) narra um aspecto da obra dos apóstolos enviados por

Jesus em Marcos 6. 7 em que “[

eles curavam muitos enfermos, un-

gindo-os com óleo”. Observe que em Mateus 10. 1 indica que a cura de doentes e enfermos era uma ordem dada por Cristo. Quanto ao mais, é importante ficar claro que a oração da fé sobre

o enfermo salvará (curará?) este, e o Senhor o soerguerá. Além disso,

se tiver cometido pecados, estes lhes serão perdoados (Tiago 5. 15). Por último, Brown (2004, p. 960) lembra que a visita aos enfermos e a ora-

ção pelos amigos doentes eram encorajadas no Antigo Testamento (BÍ-

BLIA, AT Salmo 35. 13-14 33 ). Orar a Deus pela cura de um doente tinha muitas vezes um acento especial porque o pecado era visto como raiz

e causa da enfermidade. Isto pode ser facilmente observado no pen-

samento dos amigos de Jô que queriam orar por e com ele, pedindo-

]

32 Designação surgida durante a Idade Média quando a Igreja Ocidental – roma-

na – restringiu a unção aos gravemente enfermos ou doentes terminais. In BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 958, n. 29.

33 Quanto a mim, porém, estando eles enfermos, as minhas vestes eram pano

de saco; eu afligia a minha alma com jejum e em oração me reclinava sobre o peito, portava-me como se eles fossem meus amigos ou meus irmãos; andava curvado, de luto, como quem chora por sua mãe (ARA).

FACEL

-lhe que reconhecesse seu pecado, para que Deus o pudesse curar. A “Oração de Nabônidas”, nos Manuscritos do Mar Morto, descreve o rei afligido por uma tendência maligna orando ao Deus Altíssimo e sendo perdoado de seus pecados. Nos evangelhos, Jesus apresentava-se como médico (BÍBLIA, NT Mateus 9. 12; Lucas 4. 23), e para aqueles que ele curava, ser “salvos” muitas vezes implicava a cura da enfermidade e ainda o perdão dos pecados. É com esse pano de fundo que Tiago mos- tra-se bastante coerente: a oração da fé salva o doente de modo duplo – soergue-o da doença e perdoa-lhe os pecados. Vale ressaltar aqui que os presbíteros eram os membros mais idosos da comunidade, e a ora- ção e unção com óleo eram simplesmente a atividade deles, nada tinha que ver com autoridades ou o equivalente primitivo a “clero”, ou seja, função eclesiástica. O pensamento cristão está dividido no que diz respeito à unção dos enfermos. Contudo, não se pode negar que Tiago retomou e deu prosseguimento à cura, uma preocupação importante que provinha de Jesus Cristo. Também Paulo mencionou o dom de cura (BROWN, 2004, p. 971). Fica aqui um ponto extremamente relevante para reflexão:

A maioria dos cristãos não julga ter recebido um dom especial para curar. “Que responsabilidade eles têm na continuação da ênfase cristã primitiva na cura e no cuidado dos doentes, especialmente em uma cultura que confia cada vez mais a cura à medicina profissional e às organizações de saúde?”

SAIBA MAIS

CARSON, D. A. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.