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A culpa não é da Rússia

Viriato Soromenho Marques – DN 04/01/17

Ao suspender a retaliação diplomática contra os EUA, anunciada pelo seu ministro Sergei
Lavrov, Putin revela que as leis da cinemática, aplicadas nas artes marciais, também servem
na política internacional. Obama decidiu expulsar 35 diplomatas russos por alegada
interferência nas eleições presidenciais norte-americanas. Ao não aplicar o clássico
princípio da reciprocidade, que levaria à expulsão de 35 diplomatas norte-americanos,
Putin agiu como se estivesse num combate de karaté, fazendo que o ainda presidente
americano se estatelasse no chão, desequilibrado pelo facto de o seu próprio impulso não
ter encontrado resistência.
Se é verdade que Trump é o mais atípico presidente-eleito da história norte-americana,
Obama parece destinado a uma das mais desastradas saídas de cena. A sua russofobia é
um sinal de profunda fraqueza. Primeiro, um estadista não confunde a política eleitoral e
partidária com a política externa. Admitir que os russos podem ter mudado a trajetória
eleitoral em novembro de 2016, é uma confissão pública de fragilidade da democracia
americana, inadmissível em alguém que já ensinou direito constitucional. Segundo, se é
verdade que os russos, ou quaisquer outros serviços estrangeiros, têm acesso a
informações domésticas delicadas, um verdadeiro estadista faz rolar cabeças nos serviços
de segurança, como já deveria ter sido o caso quando a chanceler Merkel descobriu que os
aliados de Washington gostavam tanto de si que não se cansavam de lhe escutar todas as
conversas telefónicas. Terceiro, a inação de Putin, acentuou a situação de lame duck (pato
manco) em que Obama se encontra. Putin mostrou não querer perder tempo com quem
vai sair de jogo no dia 20 de janeiro.
Mas o modo como a Rússia está a ser objeto daquilo que em psicologia se denomina
"atribuição causal externa" não se limita aos EUA. A próxima vaga de eleições decisivas
para o futuro europeu (Holanda, França e Alemanha) arrisca-se a ser marcada pela sombra
da "interferência russa". Mais uma vez trata-se de um claro sintoma de fraqueza. Não foi a
Rússia que conduziu a UE para a agonia lenta de uma união monetária onde uma parte
significativa dos Estados integrantes se sente como num avião capturado por piratas do ar.
Um sítio muito desagradável, mas do qual não se pode sair sob pena de morte certa. Não
foi a Rússia que armou fundamentalistas islâmicos no Afeganistão e na Bósnia, as escolas
dos terroristas que hoje flagelam o Ocidente. Não foi a Rússia que iniciou esta vaga
ingovernável de sofrimento humano, traduzida nas multidões rompendo as fronteiras da
Europa em 2015, forçando a UE a acordos com Ancara que nos envergonham. Foram G.W.
Bush e Blair com a ignóbil invasão do Iraque, em 2003. Foram Sarkozy e Cameron, com a
cumplicidade de uma NATO que há muito entrou em roda livre, derrubando e assassinando
Kadafi (com quem a UE tinha assinado em 2010 um positivo acordo sobre refugiados). Foi
o próprio Obama, deixando Hillary Clinton ensarilhar-se, ao lado de Hollande e Cameron,
no caos da Líbia e no inferno da Síria.
Putin, olhando no espelho dos czares, representa os interesses permanentes de uma
Rússia determinada a quebrar um longo ciclo de declínio. Mas a Rússia, além do seu
arsenal nuclear, só vale 10% do PIB da UE e tem pouco mais de um quarto da
população dos 28! A Rússia só mete medo a uma Europa à deriva, governada por
líderes imaturos, que não sabem quem são, quem representam, nem para onde
devem ir.