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HERANÇA DO CORAÇÃO

Temporary Husband
Day Leclaire

Especial Grandes Autoras nº 26

Alissa necessitava de um marido para garantir sua herança. E encontrou


Jake, um fazendeiro sexy porém mal-humorado que precisava se casar, pelo
menos no papel. Sonhadora e romântica, Alissa não era o que ele imaginava
como esposa temporária, pois Jake tinha suas botas de cowboy firmemente
plantadas no chão do Texas. Mesmo assim, o casamento significava a
solução para os dois. Só que Jake descobriu que a herança de Alissa não era
dinheiro nem terras, mas dois garotos dispostos a chamá-lo de papai!

Digitalização: Joyce
Revisão: Nelma
Fairytale Weddings
1 – Temporary husband – HERANÇA DO CORAÇÃO (EGA 26.2)
2 – Accidental wife – ESPOSA POR ACIDENTE (Sabrina Noivas 73)
3 – Shotgun marriage – A NOIVA VIRGEM (Sabrina Noivas 119)
4 – *Bridegroom on approval – ???
5 – Long lost bride – MISTERIOSA E SEDUTORA (MI 101)

* Faz parte também da série Salvatore brothers

Em espanhol
(Bodas de cuentos de hada)
1 – (Una herencia sorprendente – Julia 1196)
2 – (Esposa por azar – Julia 1114)
3 – (El baile de Cenicienta – Julia 1015)
4 – (Buscando un marido – Jazmin 1497)
5 – (Una esposa recuperada – Jazmin 1511)
Copyright © 1996 by Harlequin Books S.A.
Originalmente publicado em 1996 pela Silhouette Books,
divisão da Harlequin Enterprises Limited.

Título original: Make Believe Engagement

Copyright © 1996 by Day Totton Smith


Originalmente publicado em 1996 pela Silhouette Books,
divisão da Harlequin Enterprises Limited.

Título original: Temporary Husband

Traduções: Edith Barres Martins

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob


qualquer forma.

Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited,


Toronto, Canadá.
Silhouette, Silhouette Desire e colofão são marcas registradas da Harlequin Enterprises
B.V.

Todos os personagens desta obra são fictícios.


Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.


Rua Paes Leme, 524 - 10° andar
CEP: 05424-010 - São Paulo - Brasil

Copyright para a língua portuguesa: 1997


EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Fotocomposição: Editora Nova Cultural Ltda


Impressão e acabamento: Gráfica Círculo
PRÓLOGO

Townson, Maryland.
Alissa Sommers sentou-se no chão de seu apartamento e franziu as
sobrancelhas.
— Sabe do que eu preciso, Laura?
— Claro que sei — a amiga respondeu, colocando roupas numa caixa de
mudança. — De um médico para examinar sua cabeça, se pretende levar adiante essa
idéia ridícula.
— Não... Preciso de um cavaleiro andante que me proteja.
— Por que não um príncipe encantando, com um palácio e um milhão de
dólares? É impossível, do mesmo jeito. Ora, estou perdendo tempo!
Alissa não se aborreceu com o comentário da amiga.
— Caso tenha esquecido, sei tudo sobre realidade. Mas isso não adiantou
muito. É por esse motivo que quero tentar uma alternativa.
— Mas se casar com um desconhecido...
— Foi o que decidi. Então, nesse caso, por que não escolher um com todas as
qualidades de que preciso?
— É uma loucura. Você está procurando problemas. Por favor, não faça isso.
Tem de haver outra solução.
— Você sabe que não há. Perdi o emprego, o apartamento, e estou sem
dinheiro. É a única opção que resta. Dará certo, você vai ver.
— Está sem dinheiro? O que houve com suas economias?
— Gastei o que tinha comprando o convite para o baile. Era a única maneira de
arranjar um marido até o fim do mês.
O Baile da Cinderela era a resposta para suas preces.
Tinha sido uma sorte ver o anúncio pequeno e elegante num jornal que um
freguês deixara no restaurante onde trabalhava.
"O Baile da Cinderela. Encontre romance. Encontre seu Príncipe Encantado.
Encontre a mulher dos seus sonhos. O Baile da Cinderela oferece a oportunidade de
um casamento imediato. Venha solteiro e saia casado."
Havia um número de telefone para o qual Alissa ligou naquela mesma noite. O
convite para o baile foi caríssimo, e ela teve de responder a um questionário muito
longo. Mas foi aceita, e agora iria comparecer.
Sem poder resistir, Alissa foi até a mesa de jantar no outro lado da sala e olhou
para o envelope grosso subscrito com letras douradas. Havia sido entregue por um
mensageiro naquele dia, junto com um cartão, que dizia "Os Montague desejam que
encontre sua felicidade matrimonial". Respirando fundo, ela tornou a abrir o envelope e
tirou um saquinho de veludo branco. Dentro dele estava o "convite" de ouro, que
brilhou, promissor.
— Desculpe-me, Alissa — disse Laura, atrás dela. — Estou preocupada. Você
não vê as pessoas como são na verdade. Tenho medo de que alguém se aproveite de
você.
— Meu marido cuidará para que isso não aconteça. Escolherei um homem
especial. Ele tem de ser bom e paciente. Carinhoso e justo. Forte.
— Não me casaria com um homem desses.
— Mais uma razão para eu me casar. Sei que as mulheres de hoje não querem
ser protegidas, mas eu sou diferente.
— Você vai contar tudo a ele?
— É justo, não?
— Escute, Alissa, vou ajudá-la a executar esse plano maluco, mas com uma
condição.
— Só uma?
— Você só contará a verdade depois que se casar.
— Mas...
— Veja o que aconteceu quando Brett descobriu. Ele rompeu o noivado.
— Brett não era o homem que eu pensava que fosse.
— Nem Jerry, nem Kevin. Os dois também a abandonaram quando descobriram.
— Há falta de homens fortes hoje em dia.
— Isso mesmo. Se quiser meu conselho, escolha seu par, case-se, vá para a
cama com ele e só depois conte a verdade. Assim, ele não terá outra opção senão
ajudá-la.
— Não posso mentir, Laura.
— Não estou pedindo que minta. Mas não conte toda a história. Falo sério,
Alissa. Quero que me prometa que vai ficar de boca fechada enquanto não estiver com
a aliança no dedo.
Alissa franziu as sobrancelhas, hesitando em se comprometer a fazer uma coisa
tão contrária à sua natureza.
— Prometo só contar depois do casamento... a não ser que ele pergunte. Está
bem assim?
— Acho que sim. Só espero que seu príncipe goste tanto de loiras platinadas
com olhos verdes que não pense em fazer muitas perguntas.
— Vai dar tudo certo.

Chesterfield, Texas.
Jake Hondo fulminou seu advogado com o olhar, apesar de ele ser também seu
melhor amigo. Correção: seu único amigo.
— Você afirmou que podia contornar aquele problema do testamento —disse
Jake, furioso, abrindo uma porta de carvalho onde estava escrito "Dodson, Dodson e
Bryant, Advogados".
— Não esperava que seu primo fosse contestar. — Peter Bryant deu de ombros.
— Se não fosse Randolph, o juiz não teria levado em conta aquela cláusula. Lamento,
Jake, mas fiz o que pude.
— O quê?! Tenho sete dias para arranjar uma esposa, senão perderei a
herança! — Passou a mão nos cabelos pretos e cerrou os dentes, procurando controlar
sua raiva. — Que piada!
— O casamento pode ser uma coisa agradável.
— Que consegui evitar durante trinta e cinco anos. Por que estragar tudo agora?
— Quer tomar alguma coisa?
— Só se for bem forte. Que droga, Peter! O que vou fazer? Que tal um acordo
temporário? Um desses casamentos de conveniência?
Peter pôs uma dose de uísque num copo e deu para Jake.
— Mesmo que encontre a pessoa certa, há ainda outra coisa a considerar.
— O quê?
— As palavras exatas de seu avô foram: "depois do casamento consumado" —
Peter esclareceu, sentando-se à escrivaninha.
— Sei muito bem o que... Não pode estar falando sério!
— Acho que seu avô imaginou que você poderia escapar tramando alguma
coisa, como um acordo temporário. Ele esperava que tudo fosse de verdade, com
mulher e filhos.
— Não me importo com o que vovô esperava. Quero saber uma coisa. Como
vão provar que o casamento foi consumado? Não me diga que chamarão um médico
e...
— Não. A palavra da moça será suficiente.
— Há mais alguma coisa que eu precise saber?
— No que diz respeito ao testamento, não. Mas Randolph poderá tentar alguma
coisa, mas dentro da legalidade. Por isso, tomei providências. — Peter sorriu, tirando
da gaveta um envelope grosso subscrito com letras douradas. — Isso vai ajudá-lo a
encontrar uma noiva temporária.
— O que é? — Jake ergueu uma sobrancelha. — Uma lista de candidatas?
— Quase. — Peter deu um tapinha no envelope. — Tomei a liberdade de fazer
isso assim que Randolph desferiu o primeiro golpe.
— Diga logo o que interessa, Bryant.
— Sente-se. — Ele esperou Jake se acomodar para continuar: — Já ouviu falar
do Baile da Cinderela?
— Não. E não estou com paciência para contos de fadas.
— Não se trata disso. — Peter sorriu. — Mas a idéia é bonita.
— Por favor, me poupe.
— Você é tão cínico... Relaxe. Vou explicar.
— Seja breve.
— Soube disso quando estava na faculdade. Um casal chamado Montague
organiza um baile de cinco em cinco anos, porque foi assim que se conheceram. Amor
à primeira vista. Casaram-se e vivem felizes desde então. Oferecendo o Baile da
Cinderela, eles esperam que outros casais tenham uma oportunidade semelhante.
— Quanta besteira! É difícil imaginar que alguém queira ir a uma coisa tão
ridícula.
—Você ficaria surpreso. Há muitas pessoas solitárias no mundo à procura de um
companheiro. Todos os "convidados" são investigados por uma companhia de seguros
para evitar os psicóticos e os tipos estranhos. Os que são aceitos pagam um dinheirão.
Isso também ajuda a selecionar.
— Mandou meu nome?
— Achei que era uma alternativa viável para que recebesse aquela herança.
— Está muito enganado! — Jake serviu-se de outro uísque. — Tem de haver
outra maneira. Descubra.
— Como advogado, estou dizendo que é a única chance. Como amigo, sugiro
que desista. Deixe Randolph ficar com a herança.
— De jeito nenhum! — A expressão de Jake endureceu.
— Então, você precisa se casar.
— Conte mais sobre essa história.
— Indo ao baile, você irá logo ao essencial. Todos lá querem se casar, por isso é
só encontrar uma moça que tenha os mesmos interesses que os seus. Ninguém se
ofende com a franqueza.
— Tenho então de andar pelo salão conversando com as mulheres para saber
quem quer se casar, dormir comigo e depois ir embora? É isso?
— Isso mesmo. Mas vou avisando: não encontrará nenhuma mulher
interessante.
— E se eu não arranjar uma esposa?
— Nesse caso, não cobrarei o convite — disse Peter, dando de ombros.
— Está bem. — Jake sorriu. — Que tal um contrato Pré-nupcial? Não vou
receber minha herança para depois ter de repartir com alguma desconhecida
gananciosa.
— Posso redigir o documento. Agora, é problema seu fazer com que ela assine.
— Assinará. — Os olhos de Jake brilharam, frios. — Ou terá de arranjar outro
marido.
— A pessoa poderá contestar a legalidade do documento se não tiver um
advogado representando seus interesses.
— Se fizer isso, ela terá de enfrentar muitos problemas — Jake afirmou, com
certeza absoluta. — A mulher com quem vou me casar não será nenhuma sonhadora à
procura de um príncipe encantado, pensando em castelos de contos de fadas e finais
felizes. Será desprovida de beleza, experiente e sensata. E, depois que eu receber a
herança, terá que ir embora sem olhar para trás. Isso eu garanto.
CAPÍTULO I

Assim que Alissa o viu, soube que encontrara seu príncipe. Se ela não
acreditasse em amor à primeira vista, com certeza a partir daquele momento passaria a
acreditar. Forte, imponente, tudo nele sugeria romance. Era a imagem da perfeição.
Reparou em sua presença assim que chegou ao "palácio", uma imponente
mansão construída no meio do deserto de Nevada. Ele estava na entrada, olhando
para a fachada da casa com uma expressão de cínico desdém.
Para Alissa, porém, a mansão significava um sonho que em breve se tornaria
realidade. E nem mesmo a postura arrogante daquele homem a fez mudar de idéia.
Afinal de contas, aquele com quem deveria se casar teria de ter os pés no chão, pois
iria enfrentar a sra. Marsh.
Alissa se aproximou para vê-lo melhor. Naquele momento, seu príncipe se virou
ligeiramente, de modo que os holofotes iluminaram seu rosto, revelando todos os seus
detalhes.
O homem parecia talhado em pedra, tão magnífico e perigoso quanto o deserto
que os cercava. Tinha os cabelos pretos e o rosto anguloso. Os traços eram marcados
demais para ser considerado bonito, mas Alissa não se importou.
Ele ergueu uma sobrancelha como se estivesse surpreso por encontrá-la ao
lado. Alissa manteve a respiração suspensa, presa pelo brilho austero dos olhos
castanho-claros.
— Veio tentar a sorte? — ele perguntou.
— O quê? — Alissa inclinou a cabeça para o lado.
— Está procurando um marido?
— Estou.
— Então, entre logo. Eu não sirvo para você.
Alissa percebeu que estava acostumado a ser obedecido. Mas logo descobriria
que ela não fugia ao primeiro raio nem do ronco de um trovão, pois era isso o que a
expressão dele lhe lembrava: a ameaça de uma tempestade.
— Preciso de um homem forte.
— E eu, de uma esposa na minha cama. Depois de um casamento rápido, cada
um seguirá o seu caminho. — Cruzou os braços. — É isso o que você quer?
— Quero um homem acostumado a vencer. Um lutador.
— Está travando uma batalha?
— Acho que poderia chamar de guerra. Isso mesmo, estou numa guerra. Mas
também preciso de alguém que seja íntegro, sensato e paciente. Um guerreiro gentil.
Jake riu, o divertimento iluminando seus olhos, mas não alterando a dureza das
suas feições.
— Escolheu o homem errado — afirmou, afastando-se com o passo firme.
Alissa não se surpreendeu quando lhe abriram passagem como que diante de
uma força mais poderosa. Era assim que ele agiria com a sra. Marsh, com certeza.
— Você serve — disse ela, com um sorriso. — Serve até demais...
Jake abriu caminho através da multidão que se dirigia para a mansão. Uma a
menos, pensou, sombrio. Teria de entrevistar dezenas de mulheres até encontrar a
mulher certa. Balançou a cabeça, exasperado. Por que concordara com um plano tão
idiota?
Jake olhou para trás enquanto subia a escada que levava ao hall de entrada. A
bonita jovem estava onde a deixou. Foi pena não ter dado certo. Ela era bem
tentadora. No entanto, parecia ser do tipo que esperava um príncipe encantado,
castelos de fadas e um final feliz. Além disso, Jake a achara atraente demais. Bastou
olhar para aqueles cabelos platinados e aqueles olhos muito verdes para saber que
tinha de manter distância. Caso contrário, acabaria carregando-a nos ombros à procura
da próxima saída. Não daria certo.
Franziu as sobrancelhas, afastando da memória o sorriso de ninfa. Tinha um
rosto muito franco, malicioso, inteligente... e vulnerável. O tipo que se introduzia no
coração e na alma de um homem, envenenando-o com fantasias impossíveis, que Jake
havia abolido tempos atrás. Fantasias que nunca se realizavam.
Além disso, se queria receber sua herança, não podia se dar a esse luxo.
Um empurrão despertou Alissa, que estava perdida no mais doce devaneio: um
príncipe moreno, uma casa e filhos. Era um sonho que poderia realizar se conseguisse
vencer um certo obstáculo.
Fitou as costas do obstáculo em questão e ficou muito satisfeita quando ele
olhou por cima do ombro. Sentiu que aquele homem precisava dela. Havia nele um
vazio que Alissa poderia preencher, uma ferida aberta que seria capaz de curar. Seu
príncipe precisava de alguém que percebesse a bondade do seu caráter, que não se
deixasse enganar por sua expressão tempestuosa, pelos olhos amarelados e duros,
por sua atitude independente. Era um homem atormentado por demônios que Alissa
poderia destruir.
Ele precisava dela.
Alissa se dirigiu para a mansão. Não queria ficar muito longe do seu futuro
marido. Só Deus sabia em que encrenca ele poderia se meter por pura ignorância ou
teimosia.
Alissa parou, assombrada, no hall de entrada, todo de mármore, com um
enorme lustre de cristal, colunas decoradas com guirlandas e laços de cetim branco.
Uma escada dupla, com a forma de um coração, levava ao salão de baile.
Alissa subiu os degraus. Foi recebida no andar superior por uma mulher muito
elegante.
— Bem-vinda ao Baile da Cinderela. — cumprimentou, estendendo a mão. —
Sou Ella Montague.
— Alissa Sommers. Muito prazer em conhecê-la.
— Espero que se divirta esta noite. Pode percorrer todos os cômodos do
primeiro e do segundo andar. Há um bufê no térreo, e os jardins estão à disposição dos
convidados. Os casamentos são realizados nas salas ao lado do salão de baile; você
poderá escolher a cerimônia que preferir. Se tiver algum problema ou quiser fazer
alguma pergunta, há empregados para ajudá-la. Estão todos uniformizados de branco
e dourado.
— Obrigada — Alissa murmurou, prosseguindo para cumprimentar um casal
mais idoso.
— Seja bem-vinda, querida — a senhora cumprimentou, pegando a mão de
Alissa entre as suas. — Sou Henrietta Montague. Este é meu marido, Donald.
— Muito prazer — disse Donald, apertando a mão de Alissa. — Desejo que
encontre um bom marido esta noite.
— Já encontrei. Não poderia ser melhor.
— Estou tão contente! — Os olhos de Henrietta se encheram de lágrimas. —
Muita felicidade, minha querida. Com certeza vamos nos ver no ano que vem.
— No ano que vem? — Alissa perguntou, confusa.
— Quando damos nosso baile de aniversário. Todos os que se conheceram e se
casaram no Baile da Cinderela estão convidados a comemorar conosco o primeiro
aniversário.
— Então, vamos nos encontrar — afirmou Alissa, dirigindo-se ao salão de baile.
Jake se encostou numa parede, olhando com impaciência para a multidão. Que
droga! Passara as últimas quatro horas indo de mulher para mulher, mas não
encontrara nenhuma que o agradasse. Havia muitas mulheres, de todas as formas e
tamanhos, mas nenhuma queria uma relação temporária.
Uma morena de olhos duros se aproximou, mas Jake logo descobriu que ela
estava mais interessada na sua conta bancária do que na felicidade conjugal. Depois
de dois minutos, percebeu que a jovem nunca assinaria seu contrato pré-nupcial. Assim
que a moça se afastou, uma ruiva a substituiu.
— Nikki Ashton — ela se apresentou, estendendo a mão.
— Jake Hondo.
— Estou procurando um marido.
— É mesmo? Que coincidência. Estou procurando uma esposa.
— Eu sabia que não ia dar certo. — Nikki corou. — Foi um erro vir aqui.
Desculpe-me desperdiçar seu tempo. E que nunca fiz isso antes. Pensei...
Jake suspirou, percebendo que, se não dissesse logo qualquer coisa, ela se
desfaria em lágrimas.
— Estou procurando uma esposa temporária. Está interessada?
— Pode ser. — Nikki sorriu, relaxando um pouco. — Não me importaria com um
acordo temporário.
— Está falando sério?
— Estou, sim. Preciso de um marido para convencer minha irmã de que estou
muito bem casada.
— E feliz?
— Muito feliz. — Nikki estreitou os olhos. — Você sabe fingir?
— Acho que sim. — Jake esperou um pouco para acrescentar: — Se você
quiser dormir comigo.
— O quê?!
— Preciso de um casamento consumado para herdar a propriedade do meu avô.
E minha esposa terá de admitir isso diante de um juiz. Você faria isso?
Ela começou a pensar. Se não tivesse dito que estava interessada num
casamento temporário, Jake a teria excluído. Bastou olhar para ver que Nikki não
servia. Era bonita demais, tão encantadora quanto sua ninfa, mas talvez mais vibrante.
E Jake costumava manter distância de mulheres bonitas. Além disso, as mãos brancas
e macias de Nikki não deviam saber o que era trabalho pesado desde o dia em que
viera ao mundo. Teriam tanta utilidade numa fazenda quanto uma sela coberta de seda.
Mas Jake não tinha muitas opções. Poderia tolerar aquela mulher, se fosse o
caso. Nikki ficaria sentada na sala, bem vestida e linda, desde que aquecesse sua
cama. Ou melhor, desde que aquecesse sua cama e confirmasse que Jake cumpriu
seu dever conjugal diante do juiz e de várias testemunhas.
— E então, Nikki?
— Não há outra opção?
— Nenhuma, nem outra condição. E você?
— Só mais uma coisa... Além de minha irmã, preciso convencer meu patrão.
Você terá de parecer um marido apaixonado sempre que formos juntos a reuniões
sociais do escritório ou quando estivermos com minha família.
— E onde viverá esse casal muito feliz?
— Em Nova York. Por quê?
— Porque vou ter de administrar uma fazenda. Minha esposa terá que morar
comigo no Texas.
— Preciso que meu marido more comigo em Nova York. — Sorriu, pesarosa. —
Não vai adiantar.
— Parece que não.
— Obrigada por me ajudar. Agora vai ser mais fácil. — Virou-se e desapareceu
na multidão.
— Ela não serviu para você? — uma voz cordial perguntou atrás dele.
Virando-se, Jake se irritou ao ver que sua ninfa havia reaparecido.
— Achei que já tinha me livrado de você.
Alissa deu de ombros, um movimento gracioso que chamou a atenção dele para
a linha escultural do pescoço e dos ombros, realçada pelo cabelo Chanel.
— Ninguém se livra de mim com facilidade. Sou persistente.
— Maçante — disse ele, sorrindo.
— Teimosa.
— Irritante.
— Decidida.
— Pegajosa.
— Nesse caso, vou pegar no seu pé — Alissa respondeu, rindo.
— É disso que tenho medo — Jake murmurou, seco.
— Está sem sorte?
— Mais ou menos. E você?
— Ainda não desisti. Essas coisas demoram.
— O tempo está se esgotando.
— Infelizmente.
Afastando os cabelos do rosto, Alissa encarou Jake. Havia no seu olhar uma
mistura contraditória de prudência e ousadia, e isso o divertiu.
— Vamos lá, mocinha. O que você quer?
— Ainda não nos apresentamos. — Sorriu, insinuante. — Sou Alissa Sommers.
— Jake Hondo.
— Estou morrendo de fome. Vamos até o bufê e, enquanto isso, você me conta
o que espera de uma esposa.
— Já falamos nisso. Quero uma relação temporária. A sua tem de ser
permanente.
— Prefiro permanente. Mas posso chegar a um acordo.
— Quero alguém que não tenha medo de trabalho pesado. — Jake estreitou os
olhos. — Você voaria com a primeira rajada de vento.
— Não vôo com tanta facilidade assim. E quanto ao trabalho pesado... — Alissa
mostrou as palmas das mãos, que eram ásperas, com a pele avermelhada e rachada.
— Sei lidar com um balde e um esfregão.
Jake cerrou os dentes para abafar uma exclamação de fúria. As mãos dela não
deviam estar daquele jeito. Fitou-a, pensativo. Sua ninfa trabalhava pesado para viver.
Teria sido por isso que viera? Para sair daquela vida?
— Você quer um guerreiro gentil, e eu não tenho nada de gentil. — Jake virou o
rosto.
Mas Alissa continuou ao lado dele, esperando, em silêncio. Jake a olhou,
relutante. O tecido do seu vestido era brilhante e tinha a cor de seus olhos. Moldava
suas curvas perfeitas, e Jake teve de reprimir o ímpeto selvagem de arrebatá-la para
um canto escuro e conhecer mais a fundo aquele corpo.
— Não sirvo para ser seu marido.
— Já que não quer ir ao bufê comigo, vamos dançar — Alissa propôs.
Pegá-la nos braços? Tocar aquela pele pálida e aveludada, sentir seu perfume e
encostar-se a ela? Jake cerrou os dentes. Do que sua ninfa pensava que ele era feito?
De pedra?
— Não. Vamos comer alguma coisa.
Jake se achou um tolo por não evitar a armadilha em que caía. Mas alguma
coisa na maneira como Alissa o fitava, a fé absoluta que lia naqueles olhos verdes, lhe
dava vontade de protegê-la de todos os perigos. Não sabia por que o casamento
representava a salvação para aquela moça, mas desconfiava que só via o sonho, e não
a realidade. Jake comprimiu os lábios. Se fosse honesto, admitiria que só se importava
com duas coisas: receber a herança e ter aquela mulher na cama. Jake a desejava.
Queria vê-la no ardor da paixão. Mais que tudo, queria que ela continuasse a fitá-lo
assim, como nunca ninguém tinha feito antes, com adoração e confiança.
Alissa hesitou à porta da sala de jantar, olhando, admirada, para as mesas com
toalhas adamascadas e pratos com todas as iguarias imagináveis.
— Nunca vi tanta comida assim — Alissa murmurou.
— O que você quer?
— Um pouco de tudo. Vou começar pelas sobremesas.
— Não se importa com as calorias? — Jake riu, deliciado, como havia muito
tempo não fazia.
— Não. Tenho muitas maneiras de queimá-las.
— Como? Suas noites são muito movimentadas?
— Muito. — Alissa se serviu de uma fatia enorme de bolo com calda de
chocolate. — Trabalho como garçonete e lavadora de pratos. Isso é... trabalhava.
Isso explicava suas mãos. Quanto à sua insinuação, Alissa parecia não ter
percebido. Com certeza, não podia ser tão ingênua. Jake franziu as sobrancelhas. Ou
era? E se fosse virgem? Droga, seria demais! Virgens esperavam permanência,
compromisso, romance. Jake necessitava de alguém mais experiente. Uma mulher que
soubesse o que fazia, que não se recusasse a cumprir seus devores matrimoniais e
que tivesse coragem de admitir isso diante do juiz Graydon.
Uma mulher que depois fosse embora sem olhar para trás.
— Quantos anos você tem? — Jake perguntou, desconfiado.
— Vinte e seis.
Jake não escondeu seu alívio. Não podia haver muitas virgens com aquela idade
no mundo. Mesmo assim... Havia nela algo puro e inocente que fazia-o se sentir muito
intimidado.
— Você já dormiu com algum homem?
— Isso importa? — Alissa não parecia tão espantada quanto as outras mulheres
para as quais ele fez essa pergunta.
— Sem dúvida.
— Oh! — Alissa pôs uma tortinha de framboesa no prato. — Já estive noiva três
vezes.
Droga! Três homens. Três noivados que deram oportunidade à sua ninfa de ir
para a cama de alguém. Jake devia se sentir aliviado. Mas sentiu um ímpeto
sanguinário.
— Três vezes, então?
— Sim.
Jake leu a verdade nos olhos dela. Três homens que a abandonaram. Eram
cegos, bobos ou malucos? Pegando o prato de Alissa, Jake mostrou a porta.
— Vamos procurar um lugar para conversarmos. Quero resolver isso de uma
vez.
Alissa o acompanhou até o jardim, onde Jake encontrou uma mesa desocupada
num recanto afastado.
— Diga por que você quer se casar.
— Receei que você fosse perguntar isso. — Alissa sentou-se. O luar dava um
brilho de prata aos seus cabelos e aos seus olhos. — Importa-se em responder
primeiro?
— Está bem. É muito simples. Recebi uma herança, que vou perder se não me
casar. E não pretendo perdê-la.
— Que maravilha! — Alissa olhou-o, encantada.
— Estou a ponto de perder minha herança e você acha uma maravilha?
— Não, você não entendeu.
— Explique-se melhor, então.
— Eu também tenho uma herança, mas só poderei ficar com ela se me casar.
Que coincidência, não?
— Por que, então, precisa de um casamento permanente?
— Já disse que não precisa ser duradouro. Só que... — Alissa hesitou, como se
estivesse escolhendo as palavras. — Sabe, há uma mulher, a sra. Marsh, que quer
ficar com a minha herança e faria qualquer coisa para tirá-la de mim. A sra. Marsh
espantou meus três noivos. É por isso que preciso de alguém forte que me ajude a
lutar contra ela.
Isso explicava muita coisa. Os noivos anteriores deviam ser uns patifes, fazendo
promessas que não pretendiam cumprir, embora a atraíssem para suas camas.
— Não me assusto com facilidade — Jake afirmou. — E sempre cumpro minha
palavra.
— Esperava que você dissesse isso. O que só me deixa com um problema.
Claro. Enquanto ele se distraía pensando na parte agradável de tê-la como
esposa, Alissa preparava sua armadilha. E Jake quase caiu. Quando iria aprender?
Tudo tinha o seu preço.
— Qual é o problema?
— Você quer um casamento rápido, e eu não sei quanto tempo vou levar para
convencer a sra. Marsh a não tirar minha herança.
— Não entendo. Depois que estiver casada...
— A herança é minha. Legalmente. Mas se descobrir que é só um casamento
temporário, ela não vai desistir. Tentará recuperá-la depois que nos divorciarmos,
alegando que era tudo uma farsa.
— Essa senhora não precisa saber do divórcio.
— Se ela souber, terei de arranjar outro marido. — Alissa mordeu o lábio.
Jake não tinha razão para se sentir aborrecido. Não era da sua conta o que
Alissa pretendia fazer depois que cumprisse seu dever conjugal. Ele a ajudaria a se
livrar daquela sra. Marsh por algum tempo. Jake hesitou, percebendo que o acordo não
era eqüitativo. Alissa ainda tinha a chance de encontrar outra pessoa para garantir que
a sra. Marsh não voltasse a perturbá-la.
— Não sirvo para você, Alissa. Volte para o salão de baile. Talvez encontre o
homem perfeito, do tipo permanente.
— Já encontrei. — Sorriu.
Jake lhe dera a última chance de escapar. Se ela ficasse, selaria seu destino, e
ele a tomaria com a consciência tranqüila.
— Vá embora, ninfa — Jake insistiu. — Não me queira para marido. Eu só a
feriria.
— Você nunca faria isso — disse ela, erguendo o rosto.
— Acha que não? — Jake tomou-a nos braços. — Por que não descobrimos
juntos?
Incapaz de resistir, ele a beijou.

CAPÍTULO II

Alissa nunca havia sido beijada com tanto ardor. Pela contração do maxilar e a
força com que Jake a segurava, ela percebeu que ele pretendera assustá-la com um
beijo impiedoso. Mas devia ter mudado de intenção.
Jake gemeu, os lábios quentes devassando, provando, saboreando à vontade,
expulsando todos os pensamentos de sua cabeça, menos um: continuar. Devia ter
percebido como Alissa se entregava, pois seu toque se tomou mais firme, provocando
uma resposta que lhe era desconhecida até então.
Jake desconfiaria de como aquele beijo a abalava, de como era novo e
maravilhoso? Estava tão preocupado com a experiência sexual de Alissa, tão temeroso
de que ela ainda fosse virgem... No entanto, aquele beijo parecia levar essa
possibilidade em consideração, passando da mais leve das carícias a uma união
inebriante.
Alissa estava na ponta dos pés, resolvida a desfrutar daquela delícia inesperada.
Jake a moldava de encontro ao corpo rijo, sua excitação evidente, acariciando-a como
se quisesse guardar cada curva na memória. O toque dele queimava, provocando-lhe
uma reação que se tornava cada vez mais intensa. Alissa tremia, o desejo dominando
suas emoções.
— Jake, por favor!
O grito escapou antes que ela pudesse evitar. Por um instante, Alissa achou que
Jake a possuiria entre os arbustos. Mas ele a afastou, a expressão fria substituindo o
calor abrasador de segundos atrás. Alissa se aborreceu, pois não queria sair dos
braços dele.
— Não podemos continuar, Alissa. Não é o que eu pretendia.
— O que você pretendia?
— Tirá-la da minha cabeça. — A resposta foi abrupta, mas honesta.
— Oh! — Alissa se aconchegou nos braços dele, escondendo o rosto na curva
do ombro largo como se tivesse sido feita para Jake. — Mas não conseguiu.
— Eu sei. Isso significa que estamos comprometidos?
Alissa se forçou a considerar a pergunta de maneira racional, a dominar as
emoções que obscureciam sua mente. Era impossível. Como podia pensar se tudo o
que queria era se perder para sempre dos braços dele?
— Alissa? Mudou de idéia?
— Não. Você disse que estávamos comprometidos. É uma proposta de
casamento?
— De casamento temporário — Jake respondeu, hesitante.
Alissa não conseguiria mais que isso. Por enquanto, pelo menos. Mas não
importava. Não tinha pressa. Afinal, quanto tempo levariam para convencer a sra.
Marsh de que seu matrimônio era real? Uma semana, um mês, seis meses? Esses seis
meses poderiam se tornar seis anos. E seis anos poderiam se tornar sessenta...
— Aceito — Alissa concordou. — Mas poderei ficar mais tempo se você quiser.
— Não quero. Não pense que depois poderá alterar minha decisão, Alissa.
— Como quiser. —Alissa suspirou, acariciando os cabelos escuros. — Quer me
beijar de novo? Eu gostei. Foi bom.
— Bom?
— Gostei tanto que poderia beijá-lo para o resto da noite.
— Vá em frente.
Se Jake queria assustá-la com sua rudeza, falhou. Alissa o olhou, maravilhada,
levantando a cabeça.
— É mesmo? A noite toda?
Jake a afastou, o olhar feroz indicando que pretendia resistir à tentação.
— Tudo o que temos a fazer é levar adiante essa farsa. Tenho um quarto no
Grand Hotel e poderemos ir para lá assim que nos casarmos. Esta noite pode ser tão
longa quanto você quiser.
— Perfeito. — O sorriso dela era luminoso. — Também estou no Grand Hotel.
— Escute, Alissa... — O tom dele pôs fim à sua euforia. — Ainda não chegamos
a um acordo a respeito de uma ou duas coisas.
— Só uma ou duas? — Ela o provocou para esconder seu nervosismo.
— Quando chegarmos ao hotel... espero consumar o casamento. Se você não
concordar, ainda pode desistir.
— Não vou desistir.
Por que deveria? Jake era perfeito. Tinha tudo o que Alissa sempre quisera num
homem. Havia encontrado seu príncipe. Seria feliz com ele enquanto durasse aquele
casamento.
Alissa esboçou um sorriso travesso.
— Uma coisa já está resolvida. O que mais, Jake?
— Quero que você assine um contrato pré-nupcial.
— Não tem problema. Dê-me uma caneta.
— Você não vai assinar nada sem ler.
— Tudo bem, eu leio. O que ele diz?
— Que quando nos divorciarmos, minha herança ficará comigo. — Seus olhos
se encontraram com os dela, inflexíveis. — Toda.
— Claro. É por isso que quer se casar.
— E você, por que quer se casar comigo? — ele insistiu, pegando as mãos dela.
— Já disse que é porque preciso de um marido. Por que mais poderia ser?
— Talvez você esteja cansada de trabalhar tanto e procure alguém com quem
dividir as despesas.
— Entendo. Você acha que sou infeliz porque trabalho muito.
— Não. Apenas acho que quer iniciar uma vida nova.
— Sei por que pensa assim. — Alissa sorriu, aliviada. — Tem razão. Trabalho
muito.
Se Jake soubesse toda a verdade, acharia a situação dela desesperadora. Sem
dinheiro. Sem emprego. Sem ter onde morar. Mas era só uma situação temporária.
— Você quer se casar por causa disso?
— Não — Alissa respondeu, sem hesitar. — Algumas pessoas consideram o
matrimônio uma saída. Mas eu, não. Tenho saúde. O trabalho não me assusta. E
quando as coisas saem erradas, faço o possível para remediar a situação. O
casamento só vai garantir que eu receba minha herança.
Lidaria com os outros problemas quando chegasse a hora, quando o casamento
terminasse. Se terminasse.
— Nada mais?
— Não preciso do seu dinheiro, Jake, ou do que quer que seja sua herança.
Preciso de você. Por isso, se me der o papel e uma caneta, eu assino.
— Era só mais essa condição — disse ele, depois de examiná-la por um
momento. — Se houver mais alguma coisa, diga agora.
— Quero apenas que você me ajude a enfrentar a sra. Marsh. Espero que fique
ao meu lado depois que nos casarmos.
— Você terá o meu apoio incondicional enquanto estivermos juntos.
— Mesmo que leve mais tempo do que você espera?
Jake não gostou da implicação, mas, para alívio de Alissa, não retrucou.
— Sim.
— Espero que esteja falando a verdade.
— Duvida da minha palavra?
— Não é isso. — Deu de ombros, constrangida. — É que nenhum dos meus
noivos cumpriu a promessa. A sra. Marsh os assustou.
— Não sou como eles. Mantenho minha palavra.
Como Jake reagiria quando descobrisse a verdade?
— Tudo acertado, então?
— Tudo.
— Então, Jake, vamos selar nosso acordo com um beijo.
— Não é prudente, ninfa.
— Talvez não. Mas é delicioso.
— Prefiro fazer tudo da maneira correta. Primeiro, o contrato pré-nupcial. Então,
nos casamos.
— E o beijo?
— Depois que estivermos no hotel, na privacidade do nosso quarto, você terá
todos os beijos que quiser — Jake respondeu, o rosto tenso de paixão.
Quantos beijos ela quisesse... Era bom demais para ser verdade. Logo estaria
casada com Jake e faria amor com ele Com a excitação, veio a frágil esperança de que
seu casamento fosse abençoado, de que pudesse preencher o vazio que o oprimia e
derrotar seus demônios.
"Ele precisa de mim", Alissa repetiu em silêncio. "E eu preciso dele."
— Sente-se e leia esse documento, palavra por palavra. — Jake insistiu, ficando
ao seu lado enquanto ela lia com atenção o contrato pré-nupcial.
— O que mais? — Alissa indagou, depois de assinar.
— Teremos de preencher alguns papéis antes de nos casarmos.
Eles logo encontraram uma funcionária municipal na biblioteca que os ajudou
com a papelada, entregando-lhes, por fim, um envelope azul e branco.
— Dêem estes formulários para quem vocês escolherem para oficiar a
cerimônia. A certidão com o selo dourado é só uma recordação. Vocês podem
emoldurar e pendurar na parede, ou jogar dardos nela, não importa. Mas não tentem
apresentá-la como documento, porque não tem nenhum valor legal.
— Está bem — disse Jake. — Obrigado por sua ajuda.
— Não foi nada. Só me façam um favor.
— Claro.
— Sejam felizes. É tudo o que peço. Agora, saiam daqui, porque há outro casal
esperando.
Com os papéis na mão, Jake e Alissa foram para os salões reservados para as
cerimônias de casamento.
— Parece que podemos escolher — ela murmurou. — Religioso, civil...
— Ou qualquer outro tipo. Qual você prefere?
Ela já ia responder, mas, ao olhar para Jake, prendeu a respiração. Ele estava
imóvel, o olhar turbulento, os lábios contraídos, o corpo tenso como esperasse um
golpe. Alissa percebeu que aquela parte era muito difícil para ele. Por quê? Que
recordações dolorosas se escondiam por trás daquela expressão estóica?
Seus olhos se encheram de lágrimas, mas Alissa piscou depressa para que ele
não visse. Jake não gostaria da sua compaixão e poderia até desistir. Se Alissa
quisesse ajudar, teria de ultrapassar essa etapa o mais depressa possível. Ela
suspirou. A vida inteira sonhara em se casar numa cerimônia religiosa, mesmo que
fosse simples. Mas sabia que seria pedir demais.
— Por que não nos casamos só no civil? — ela sugeriu.
Jake concordou, o alívio diminuindo a tensão que o consumia.
Conduziu-a até o local adequado, mas hesitou antes de entrar, A sala estava
decorada de maneira elegante mas formal, com móveis estofados de seda azul-clara e
flores secas em mesinhas de mogno. Em cima de um estrado, um juiz oficiava uma
cerimônia despretensiosa diante de cortinas fechadas.
— O que há, Jake?
— Vamos olhar as outras salas. — Jake se dirigiu para o salão seguinte sem
esperar por resposta.
Parando à porta, Alissa olhou, encantada. Era como se saísse de uma paisagem
de inverno para o calor de uma noite de verão. Luzes suaves iluminavam um salão com
teto abobadado e vigas de madeira. De um lado, havia uma parede com uma série de
janelas e vasos cheios de flores frescas. No meio, um altar. A música de Vivaldi soava
como uma bênção, e ela percebeu no mesmo instante que queria se casar lá. Era o
lugar perfeito para um casamento perfeito.
— Podemos olhar as outras salas — propôs, relutante.
— Não. — Jake meneou a cabeça. — Esta serve.
Um pastor idoso pediu que eles se aproximassem do altar.
— Vocês querem se casar? — ele perguntou, sorrindo.
— Sim, por favor — Alissa respondeu enquanto Jake entregava os papéis.
— Antes de dar início à cerimônia, quero que pensem bem no que estão
fazendo — disse o pastor. — O matrimônio é um compromisso sério. Por isso, peço
que olhem um para o outro e reflitam se fizeram a escolha certa.
Alissa fitou os olhos de Jake. Estavam mais escuros agora, da cor do mel, mas
não deixavam transparecer nenhuma emoção. Jake enfrentava o mundo com
agressividade, com uma ferocidade que desafiava qualquer resistência. Seus olhos
eram os de um animal selvagem, fogoso, indomado e predatório. Seu rosto sugeria
uma natureza austera, sua expressão sombria e inacessível intimidando até as
pessoas mais combativas. Era um ser de trevas e sombras, como se algum incidente
no passado o fizesse recusar qualquer calor humano.
Ou Jake queria que as pessoas pensassem o pior?
Alissa sorriu. Desde logo, sentiu a bondade que ele se esforçava por esconder.
E também a força do seu caráter, sua honradez inata. Jake seria um marido perfeito.
Alissa não precisaria se preocupar. Ela lhe daria sua herança. Melhor ainda, lhe daria o
que mais lhe faltava na vida... amor.
Alissa olhou para o pastor. Estava segura da sua escolha? Sem dúvida
nenhuma. A resposta era "sim".
Jake olhou para Alissa e depois para o pastor, a apreensão contraindo-lhe o
estômago. Estava seguro da sua escolha? Sem dúvida nenhuma. A resposta era "não".
Alissa era desconcertante, macia, doce e muito sensual. Só o seu sorriso já
expulsava todos os pensamentos da sua cabeça. Era uma combinação incrível de fogo
e inocência.
Jake franziu as sobrancelhas, percebendo que desde a adolescência nenhuma
mulher o impressionara tanto. Precisava tomar cuidado.
O que mais o perturbava eram os olhos dela. De um verde vívido, brilhavam com
uma pureza interior que o seu toque só poderia corromper. Pior ainda, eles tinham uma
perspicácia que derrubava todas as barreiras, que desnudava a escuridão da sua alma.
Jake não entendia. Se Alissa o via com tanta clareza, por que ficou? Tornou a fitar
aqueles olhos grandes e lindos e sentiu uma compressão no peito com o que viu.
Alissa podia estar concordando com um casamento temporário, mas seu olhar
prometia para sempre.
— Chegou a uma decisão? — o pastor perguntou.
Jake ia começar a falar, queria terminar aquela farsa antes que fosse tarde
demais, mas percebeu que a pergunta não fora feita a ele. Parecia que o pastor não
duvidava de que Alissa era uma noiva muito satisfatória. Não, a preocupação dele era
se ela não iria se arrepender de se unir a um marido tão pouco promissor, o que não o
surpreendia.
— Por favor, inicie a cerimônia — disse Alissa, calma e controlada.
Por um instante, Jake hesitou entre as opções de se retirar e permanecer em
silêncio, casando-se com Alissa e deixando que ela pagasse o preço pela sua loucura.
Jake cerrou os dentes, indeciso. Como podia permitir que Alissa desse um passo tão
desaconselhável? Esse casamento não seria justo. Ela não ganharia nada, a não ser
um coração partido.
"E a herança?", perguntou uma voz inexorável. Se não se casasse com Alissa,
suas chances de encontrar outra noiva até o prazo final eram quase nulas. Além disso,
ele a queria em sua cama e em sua casa. Naquele momento, Jake a queria quase
tanto quanto à herança.
— Sim — disse Alissa, sorrindo para Jake, os olhos brilhando como um mar
ensolarado.
Jake nem percebeu o que respondeu ao pastor.
— Antes de eu os declarar marido e mulher, poderiam trocar as alianças? Elas
são um símbolo, por isso, se não tiverem trazido, usem qualquer coisa até comprarem
as definitivas.
— Não é preciso. — Jake tirou do bolso uma aliança de ouro. Era de tamanho
médio, mas ficava larga demais em Alissa, que precisou ficar com a mão fechada.
— É linda — ela murmurou, sem se importar. — Vou guardar para sempre.
— Guardará pelo curto espaço de tempo que durar nosso casamento.
— Não. Vou guardar para o resto da vida, porque ela vai me dar tudo o que
sempre quis. E a sua, onde está?
— Não preciso.
Alissa se entristeceu tanto que Jake sentiu as defesas caírem por terra.
E, quando o pastor os declarou marido e mulher, Jake percebeu que tinha
entrado numa enrascada.
Alissa se ajoelhou no carpete, olhando, aborrecida, para a porta do quarto de
hotel. Pela décima vez, tentou encaixar o cartão magnético e pela décima vez o botão
vermelho acendeu, indicando rejeição.
— Por que não usam chaves? Pelo menos elas...
A porta se abriu, de repente, e Alissa quase caiu dentro do quarto.
Laura estava lá, de camisola e roupão.
— Ainda bem que você chegou! Estava preocupada! O que você estava fazendo
no chão?
— Tentava fazer com que isso funcionasse — Alissa respondeu, mostrando o
cartão.
— Você está com uma aliança! Você se casou!
— Casei, mesmo. — Alissa sorriu. — Oh, Laura, que bom que você veio comigo!
Agora posso contar tudo para meu marido. Ele é maravilhoso, é tudo o que eu
esperava!
— Estou tão aliviada... — Os olhos de Laura se encheram de lágrimas. —
Passei a noite com medo de que algum patife com fala macia se aproveitasse de você.
Quem é ele? O que faz? Quantos anos tem?
— Não sei. Mas se chama Jake... Ora, já que estamos casados, eu devia saber
o sobrenome dele. Jake me disse, mas não me lembro.
— Você não se lembra do nome do próprio marido e nem acha que isso seja
importante?
— Não. O que importa para mim é que Jake é perfeito. E o homem mais doce do
mundo. — Hesitou. — Bem, para falar a verdade, essa não é a palavra certa.
— Qual é, então?
— Firme. Forte. Duro como pedra seria uma descrição ainda melhor. A sra.
Marsh vai se dar mal com ele.
— Duro como pedra, hein? Acho que isso é bom. De onde Jake é?
— Não perguntei. — Alissa deu de ombros. — De algum lugar no sul, pela
maneira de falar.
— Não acredito! Você não se lembra do nome dele, não perguntou de onde ele
é, nem o que faz. Nem sabe quantos anos tem. O que sabe sobre esse homem? Por
que Jake precisa de uma esposa?
— Isso eu posso responder. — Alissa sorriu, aliviada. — Precisou se casar para
receber uma herança.
— Do que se trata?
— Não sei. Precisava saber?
— Claro que precisava! E se Jake... — Laura parou, estreitando os olhos. — Há
alguma coisa que você não me contou. O que é?
— Prefiro não dizer.
— Pois eu prefiro que me diga. — Laura cruzou os braços. — Por favor, me
conte. O que está escondendo?
— Espere só até conhecê-lo. Você também vai achá-lo perfeito. E é um homem
bom.
— Alissa! Com que tipo de pessoa você se casou? Firme, duro, forte. Parece
que é um bruto. E não respondeu à minha pergunta. O que está escondendo?
— Não é nada, Laura. E Jake não é um bruto! É o tipo de homem que pode
cuidar da sra. Marsh, mesmo que só queira um casamento temporário. — Percebeu
que a amiga não recebeu bem a informação.
— Um casamento temporário? Gastou todo o seu dinheiro num casamento
temporário? Não acredito! O que vai acontecer quando terminar? Voltará à estaca zero,
Alissa! Sem emprego, nem dinheiro, nem lugar onde morar. O que vai adiantar? A sra.
Marsh acabará vencendo, e você terá passado por tudo isso a troco de nada.
— Jake não vai deixar que isso aconteça. Ele disse que não está interessado
num relacionamento permanente, mas vai mudar de idéia.
— Você vai se arriscar a perder...
— Não vou perder nada — Alissa a interrompeu, a voz mais aguda do que
pretendia. Respirou fundo para se recompor. — Por favor, Laura, não vamos discutir. É
minha noite de núpcias, e estou muito feliz. Quando o conhecer, vai entender por que
tenho tanta certeza de que Jake é o homem certo.
— Vai passar a noite com ele? — Laura perguntou, apreensiva.
— Jake me pediu, e eu concordei. Vim só pegar minhas coisas e ver se está
tudo bem.
— Talvez você...
— Vou voltar para junto do meu marido — disse Alissa, com firmeza.
— Está bem. — Laura ergueu as mãos. — Desisto. A vida é sua.
— Não fique brava. Tente ficar contente também. Sonhei com esse momento a
vida toda. Casei-me com um homem incrível e tenho a vida toda pela frente.
— Só espero que dê certo.
— Vai dar. — Alissa esboçou um sorriso travesso.

CAPÍTULO III

Jake olhava a noite estrelada pela janela do quarto, perdido em seus


pensamentos sombrios. Alissa viria?, ele se perguntava. Ou fugiria, arrependida
daquele casamento apressado? Seu futuro dependia da decisão daquela pequena
ninfa. Enfiou as mãos nos bolsos do roupão. Droga! Não gostava quando as coisas
escapavam tanto ao seu controle.
Ouvindo uma batida rápida à porta, reprimiu um sorriso de satisfação e foi abrir.
— Olá. — Alissa estava lá, os olhos verdes espiando por trás de uma mecha
platinada.
— Olá. — Jake se apoiou no batente da porta, a tensão desaparecendo com o
calor do sorriso dela.
— Receava que eu não viesse?
— A idéia me passou pela cabeça.
— Quando me conhecer melhor, verá que costumo manter minha palavra. —
Alissa entrou no quarto.
— Obrigado por me informar.
Alissa fitou-a, a paixão e a vitalidade tão claras naquele olhar quanto um golpe
físico. Como podia haver tanto ardor num corpo tão pequeno? Ela sempre o
surpreendia.
— Você tomou uma chuveirada, Jake. Posso tomar também?
— Fique à vontade. Há outro roupão atrás da porta.
— Obrigada, mas trouxe uma camisola. — Mostrou a sacola.
— Pode colocá-la, mas não vai usá-la por muito tempo.
Alissa corou violentamente, e Jake se arrependeu por ter sido tão grosseiro. Mas
ela deu de ombros e foi para o banheiro.
— Pretendia perguntar quando entrei — disse ela, hesitando à porta do
banheiro. — Como é mesmo... nosso sobrenome? Eu me esqueci.
— Hondo. Era o nome de minha mãe.
— Hondo... Alissa Hondo. Não combina comigo tão bem quanto com você.
Talvez com o tempo...
Alissa entrou no banheiro, e Jake ficou pensando no que ela queria dizer. Era
melhor que fosse um tempo muito curto, nem um segundo a mais.
Mas o barulho do chuveiro interrompeu seus pensamentos. Cada ruído que
Alissa fazia atravessava as paredes finas. Precisou de toda a sua força de vontade
para não entrar. Alissa protestaria... ou o receberia de braços abertos?
Alissa estaria molhada e macia. Se ela consentisse, Jake a tomaria nos braços e
a tornaria sua. Mas a água parou de correr e ele hesitou, aborrecido por não ter
escolha. Afastou-se da porta e, logo depois, Alissa saiu do banheiro.
Jake prendeu a respiração, maravilhado. Perdia rápido o controle, o desejo
levando-o a um ponto sem retorno. Só uma coisa o impedia de ter o que queria: a
camisola de Alissa.
Ela parou, indecisa, vestida com o tecido transparente, que envolvia como uma
nuvem as curvas graciosas de seu corpo. Mas um detalhe o deteve... a camisola era
branca como a neve, tão imaculada quanto a mulher que a vestia. Três homens, ele
tentou se lembrar. Balançou a cabeça sem poder acreditar. Não podia ser. Como
puderam ir embora depois de tocá-la?
Alissa se movimentou pelo quarto. A luz do abajur revelava a silhueta do seu
corpo, e Jake quase caiu de joelhos. Era a coisa mais sensual que já vira. As curvas
eram perfeitas, a cintura, fina, e as nádegas, arredondadas. Seus seios despontavam
sob a camisola, os mamilos rosados com a forma de pérolas.
Alissa fitava-o, os olhos enormes e sérios, os cabelos despenteados e úmidos.
— Agora entendo por que você quis vestir essa camisola — disse ele,
estendendo-lhe a mão. — É muito provocante.
— É mesmo? Sempre achei muito recatada.
Jake roçou o indicador num dos seios, desenhando círculos em redor do mamilo
enrijecido.
— Podemos apagar a luz? — Alissa pediu, ansiosa, os olhos parecendo uma
floresta sombria.
— Não. Quero vê-la enquanto fazemos amor.
— Não pensei que fosse ficar tão nervosa. Não paro de tremer. Por favor,
apague a luz, só dessa vez...
Contraindo os lábios, Jake se afastou para apagar o abajur. O quarto mergulhou
na escuridão.
— Está melhor assim?
— Muito melhor. — Alissa atravessou o quarto. — Devo ir para a cama?
Percebendo que alguma coisa estava errada, Jake reprimiu uma resposta
cáustica, mas seu desejo era intenso demais.
— Claro. Vá para a cama, se isso a deixar mais à vontade.
— Estou com sede — disse ela, dirigindo-se ao banheiro. — Quero tomar...
Jake bloqueou-lhe o caminho, pegando-a desprevenida. Alissa fitou-o,
assustada, mas ele não hesitou, apoderando-se dos seus lábios com um beijo
devastador. Alissa sussurrou alguma coisa, o corpo rígido.
— Relaxe — Jake murmurou, acariciando-lhe o rosto. — Você também quer.
— Achei que queria, mas agora não tenho tanta certeza.
— Vai mudar de idéia.
Jake beijou-a outra vez, enquanto explorava as curvas delicadas por baixo da
camisola fina. Todos os seus escrúpulos desapareceram diante da necessidade
urgente de possuir a mulher que estava em seus braços. Alissa lhe pertencia agora, e
ele pretendia tomar o que era seu.
Jake abriu a camisola, desnudando-lhe os ombros. O luar iluminou a pele clara,
formando sombras tentadoras entre os seios redondos. Gemeu e baixou a cabeça para
saborear aquela perfeição.
Estremecendo, Alissa afastou os cabelos da testa dele. O brilho da aliança o
distraiu, e Jake ergueu a cabeça. O que viu deixou-o apreensivo. Uma lágrima solitária
escorria pelo rosto dela, fazendo-o recuar, desgostoso com o que estava para fazer.
Apesar disso, seus instintos o impeliam a terminar o que havia começado, a possuí-la.
Jake nunca se considerou nobre ou honrado, mas quase se intimidou ao fitar os olhos
enormes de Alissa, que aceitava aquela situação insustentável.
O que tinha feito, casando-se com ela daquela maneira?
Deu um passo para trás, depois mais outro, até manter uma certa distância.
— Vá para a cama, Alissa.
Ela obedeceu sem dizer nada. Assim que se deitou, Jake percebeu que não
poderia tocá-la, arriscando-se a feri-la. Nem que isso significasse perder a herança que
batalhara tanto para conquistar.
Jake se forçou a virar as costas para Alissa, a olhar pela janela do quarto. A
beleza da paisagem do deserto penetrou em sua alma, acalmando-o, e pôde então se
controlar um pouco. Só os mais fortes sobreviviam naquela região árida do país, como
Jake sobrevivera à aridez da sua juventude com suada força. Mas sua sobrevivência
nunca fora à custa de outra pessoa.
Até agora.
— Jake...
— Durma, Alissa — disse ele, sem se virar. — Amanhã conversamos.
Alissa saiu da cama e se aproximou, pondo a mão gelada no seu braço.
— Fiz alguma coisa errada?
— Fez, sim. — A risada dele foi fria e desprovida de humor. — Casou-se comigo.
— Não! Isso foi a melhor coisa que já fiz.
— Você não percebeu o que aconteceu aqui esta noite? — Virando-se, pegou-a
pelos ombros. — Eu quase a...
— Não diga isso! — Alissa pediu, encostando um dedo nos lábios sensuais. —
Você não fez nada de mais. Sou sua esposa, não se lembra? Nunca poderia me ferir.
— Se acredita nisso, prepare-se para uma surpresa, Não é prudente ficar tão
perto de mim assim. Do jeito que estou, não mereço confiança.
— Não seja tolo. Eu lhe confiaria minha vida. Por favor, venha para a cama
comigo, Jake. Não quero dormir sozinha na nossa noite de núpcias.
— Você não sabe o que está pedindo.
— Acho que não, mas venha. — Alissa inclinou a cabeça para o lado, um sorriso
trêmulo nos lábios apagando todos os traços das lágrimas. — Prometo que não vou me
aproveitar de você.
Carregando-a nos braços, Jake a levou para o leito. Sem poder resistir, tirou a
roupa e se deitou ao lado dela. Queria tomá-la nos braços, mais do que tudo. Mas
sabia que perderia a razão se fizesse isso outra vez.
— Jake?
— Estou aqui. Procure dormir.
— Mas não temos de consumar o casamento esta noite?
— Esqueça. Era uma exigência irracional.
— Você é quem sabe. Se mudar de idéia...
— Não vou mudar.
— Jake?
— O que é?
— Gostei muito de me casar com você.
— Eu também, ninfa — disse ele, com um nó na garganta.
Jake acordou antes do raiar do dia, sem saber o que o perturbava. Voltou a
cabeça ao ouvir um suspiro no outro lado do colchão. Alissa dormia profundamente,
virada para ele. Jake estava casado, e aquela mulher tão pequena era sua esposa.
Alissa murmurou um nome, o seu, talvez, e Jake se apoiou no cotovelo para
examiná-la. Alissa tinha chutado as cobertas durante a noite, e a camisola estava
levantada, envolvendo os quadris. Tinha pernas bonitas e fortes.
Jake pegou primeiro na coxa macia, depois subiu a mão mais um pouco,
deslizando-a com cuidado por baixo da camisola para acariciar a curva dos quadris.
Alissa era divina.
Jake fechou os olhos, dominado pela necessidade de possuir aquela mulher.
Desejava-a com tamanho desespero quanto na noite anterior. Alissa era sua esposa e
podia possuí-la, afinal. Mas se aproveitar dela enquanto dormia era muita patifaria.
Usando toda a força de vontade, Jake afastou a mão e abriu os olhos.
Alissa o fitava, sonolenta mas curiosa.
Jake controlou seu desejo, o rosto, uma máscara inexpressiva. Mas não
adiantou. Alissa suspirou, a compreensão despontando com a primeira claridade da
manhã. Seus olhos primaveris não titubeavam, brilhando de esperança. Ela se
aproximou mais, envolvida por um raio escarlate que entrava pela janela como uma
chama.
— Bom dia, sr. Hondo — cumprimentou-o com um sorriso tímido.
— Bom dia, sra. Hondo. Dormiu bem?
— Dormi. Obrigada por ficar ao meu lado. Receei que você não viesse.
— Quase não vim.
— Por que mudou de idéia?
— Porque você pediu. Como poderia recusar?
Alissa sorriu. Um movimento descuidado fez com que a camisola se abrisse,
expondo seus seios. Eram lindos, claros e redondos, os mamilos da cor de pêssegos
maduros. Incapaz de resistir, Jake estendeu a mão, esperando que ela protestasse.
Mas a única reação de Alissa foi um suspiro, e seus olhos se tornaram escuros e
serenos.
Jake olhou para sua mão, a pele bronzeada contrastando com a brancura do
seio. Alissa era linda e deliciosa. Mas ele se censurou por deixar que o desejo
dominasse o bom senso, e a largou.
— Não pare — Alissa murmurou.
— Está falando sério? — Jake contraiu os lábios.
— Já não tenho mais medo.
— Terá, se eu não parar. Isso eu garanto.
— Você não vai me ferir.
— Tem certeza? Já tivemos essa conversa antes, não se lembra? É só disso
que sou capaz.
— Não acredito.
Alissa acariciou o braço tenso e musculoso. Como Jake não protestou, ela se
encorajou e se aconchegou mais, cobrindo o maxilar áspero com beijos leves.
— Não — Jake conseguiu dizer entre os dentes cerrados.
— Só quis mostrar que não estava com medo.
— Não, mesmo?
Era tão fácil provar que ela estava errada... Mas talvez assim resolvesse aquela
situação de uma vez por todas. Jake não esperou mais, e deitou-a de costas com um
movimento rápido. Pôs as mãos ao lado da cabeça de Alissa, cobrindo-a com o seu
corpo. Só a camisola de algodão os separava. Era uma barreira muito tênue, tanto
quanto o seu autocontrole.
— Está com medo agora, Alissa?
Ela balançou a cabeça, mas ele notou que um pouco da sua segurança havia
desaparecido.
— Devia estar.
— Preciso de você, Jake. E você precisa de mim.
— Por que está fazendo isso? Será que não entende? Esse casamento não
devia ter acontecido. Você corre perigo comigo.
— Porque pode me ferir? — ela perguntou, curiosa. — Tem prazer em ferir os
outros?
— Não.
— Então, não fira.
— Não é tão simples assim.
— Não?
— Não posso... Droga, você está abusando da sua sorte.
— Acho que sim. Mas diga uma coisa: se eu disser que está me ferindo, você
parará?
— Sem dúvida.
— Confio em você, Jake.
Tão simples, tão inocente e tão confiante... E tão devastadora. A carapaça de
pedra que Jake passou a vida inteira formando se despedaçou. Desejava-a desde que
a vira pela primeira vez. Claro que era puro desejo, uma necessidade física, selvagem
e primitiva. Jake não tentou se enganar inventando mentiras bonitas para mascarar a
volúpia. Sempre foi rude e franco, consigo mesmo e com suas mulheres. Tomava o que
queria sem se preocupar com as conseqüências, e depois ia embora, livre e
desimpedido.
Desde que se conhecia, sempre foi assim.
Mas com Alissa...
Ele não podia possuí-la com a mesma desconsideração. Ela não era como as
outras mulheres. Todas sabiam o que as aguardava, e, se esperavam que mudasse de
idéia, Jake logo as desiludia.
— Jake?
— Tem certeza?
— Claro!
— Se quiser que eu pare, é só falar. Só me faça um favor.
— Qual?
— Não espere mais. Não desisto com tanta facilidade assim.
— Não vai ser preciso. — A risada dela era tão provocante quanto uma carícia.
— Eu prometo.
— Espero que leve suas promessas a sério.
Então, Jake baixou a cabeça e beijou-a com ardor. Era melhor saber se a
assustava enquanto ainda podia se controlar. Mas, em vez de recuar, Alissa o abraçou,
correspondendo a todos os seus beijos.
Alissa estava perdida numa avalanche de bocas, beijos e carícias. Ainda estava
deitada de costas, o decote da sua camisola cada vez mais aberto e a bainha subindo
sempre. E as mãos dele deslizando, devassando, explorando a pele nua.
— Roupas demais — Jake murmurou ao ouvido dela.
— Jake... Por favor...
— Quero que você goste. Diga o que quer.
— Espere...
— Quer que eu pare? — A voz dele estava tensa, urgente. — Não brinque
comigo!
— Não... Não pare. Não pare nunca.
Os lábios de Jake procuraram os dela e depois desceram, a língua
acompanhando o contorno de cada curva, saboreando tudo como se fosse um prato
exótico. Suas carícias deixavam uma trilha de devastação em lugares nunca vistos por
um homem, e muito menos beijados. Alissa tremia, consumida por um fogo que Jake
alimentava até ficar insuportável. O desejo tornou-se tão ardente que ela faria qualquer
coisa para saciá-lo.
— Jake!
As mãos dele continuaram a percorrer seu corpo retesado. Percebendo que ela
já não agüentava mais, Jake se posicionou entre suas coxas. Alissa permaneceu
embaixo dele por um momento infindo, tremendo, indefesa, a um passo de algum
cataclismo. Então, Jake penetrou-a.
Ele enrijeceu ao sentir a prova da inocência dela, os olhos brilhando como
chamas douradas.
— O que...
— Tudo bem — Alissa procurou tranqüilizá-lo. — Por favor, Jake!
Ele não entendia? Aquela dor não era nada em comparação com o ardor que a
consumia. Querendo convencê-lo, Alissa movimentou os quadris, ansiando por atingir
aquela satisfação quase ao seu alcance. Percebeu que Jake travava uma batalha
interna, lutando para dominar o mais forte dos impulsos naturais.
Uma batalha que ele não tinha esperança de vencer.
— Não posso, Alissa... Que o céu me ajude, não posso...
Jake fechou os olhos, tentando se conter, procurando fazer com que a
passagem não fosse muito dolorida para ela. Mas também não conseguiu. A respiração
presa explodiu em seu peito com a investida final.
— Desculpe-me, querida. Não queria que isso acontecesse.
Eles prosseguiram juntos até o ápice da paixão, abandonando-se àquela
experiência mágica que fundia corpo e alma. Atingiram o êxtase enquanto o sol os
envolvia num círculo dourado.
Alissa não sabia quanto tempo ficaram abraçados. Mas, depois de a paixão ser
saciada, a sanidade mental voltou. Jake foi o primeiro a se recobrar.
— Você era virgem — ele acusou, libertando-se dos braços de Alissa.
— Achei que você não fosse perceber.
— Claro que percebi!
— Era tão importante assim?
— Conversamos a esse respeito na casa dos Montague — disse ele, apanhando
o roupão que estava no chão. — Eu disse que não queria estar casado com uma
virgem.
— Bem... agora não está mais.
— Não discuta. Eu não queria. O que vou fazer com uma virgem?
— Gostei do que você fez. — Sorriu, maliciosa. — Mas agora já não há mais
esse problema.
— Não foi isso o que quis dizer! Você mentiu para mim. Disse que esteve noiva
três vezes.
— Não menti. É verdade.
— E nenhum deles nunca...
— Nunca.
— Não dá para acreditar. Preciso de uma mulher experiente, que esteja disposta
a admitir no tribunal que eu... que nós...
— Que nós o quê?
— Que nós...
Soou uma batida na porta.
— Tia Alissa! Tia Alissa! Acorde!
— O que é isso? — Jake perguntou, fulminando-a com o olhar. — Alguma coisa
que eu devia saber?
Alissa engoliu em seco, nervosa. Queria ter tido mais tempo para prepará-lo.
Porque suspeitava que o aborrecimento por causa da sua inocência não seria nada em
comparação com a contrariedade que o dominaria. Reunindo toda a sua presença de
espírito, ela sorriu, inocente.
— Essa é a minha herança — ela anunciou.

CAPÍTULO IV

Sem esperar a reação de Jake, Alissa pulou da cama, arrastando o lençol.


— Oi, garoto — disse ela para um menino depois que entreabriu a porta. —
Você acordou cedo.
— Não fui eu — reclamou Buster, puxando um menino menor, que estava atrás
dele. — Foi Chick. Ele ficou com medo quando acordou e não viu você.
— Laura não estava lá? — Alissa perguntou, preocupada.
— Ele não queria Laura. — Buster deu de ombros.
— Tudo bem, estou aqui. — Alissa sorriu para Chick, que chupava o dedo. —
Vou me vestir num instante, e depois vocês entrarão para conhecer seu novo tio, está
bem?
— Um tio? — Buster perguntou, trocando um olhar com o irmão.
— Eu me casei com ele ontem à noite. Não saiam daqui. Já volto.
Deixando a porta entreaberta, Alissa pegou a sacola antes de lançar um olhar
nervoso para Jake, parado perto da janela, os braços cruzados. Sua expressão não
prometia nada de bom.
Alissa correu para o banheiro e bateu a porta. Encostando-se na parede fria,
mordeu o lábio inferior. Quanto Jake teria ouvido? Estaria muito irritado? O suficiente,
concluiu, e estava furioso, pelo brilho de seu olhar.
Olhando-se no espelho, Alissa notou os cabelos despenteados e os olhos
transbordantes de felicidade, como se tivesse descoberto a chave de todos os
segredos do mundo. Talvez tivesse mesmo. Descobrira uma vida nova nos braços de
Jake.
— Vamos, ninfa — disse Jake, batendo à porta. — Você não pode se esconder
aí para sempre. Agüente as conseqüências do que fez.
Alissa suspirou, desistindo de suas recordações. Tomou banho e se vestiu,
depressa, feliz, apesar de preocupada. As últimas vinte e quatro horas haviam sido as
mais esplendorosas de sua vida. E a idéia de um futuro cheio desses momentos
maravilhosos a fez sorrir.
Porém, o sorriso desapareceu assim que ela saiu do banheiro.
— Quem é o garoto que está à porta? — Jake perguntou, já vestido.
— É meu sobrinho. Ele é minha herança, mas... Podemos conversar mais tarde?
— Não. Conversaremos agora.
— Então, vamos logo. Os meninos estão esperando.
— O quê? Um instante. Você disse meninos. É no plural? Tem mais de um?
— São dois. Buster e Chick. São filhos de minha irmã. Ela e o marido morreram
no ano passado, e eu fiquei com a guarda deles. Pelo menos é o que diz o testamento
de Tracy. No entanto, a sra. Marsh, que é a outra tia, está fazendo o possível para ficar
com a custódia deles. Eu me casei com você para evitar que isso aconteça. Está muito
aborrecido?
Outra batida soou à porta, e, antes que Jake pudesse tomar fôlego para
protestar, Alissa correu para abrir. Por sorte, Laura estava com os garotos.
— Até que enfim! — ela reclamou, entrando na quarto com uma expressão mal-
humorada que enfeiava seu rosto bonito. — Esses meninos fugiram assim que virei as
costas. Não sei como eles souberam qual era o quarto.
— Perguntamos na recepção — disse Buster. — Não queriam dizer, mas
belisquei Chick, e ele começou a berrar.
— Alguém podia me explicar o que... — Jake deu um passo na direção deles,
mas foi fulminado por quatro pares de olhos ofendidos. — O que está acontecendo?
— Por favor, me diga que este não é o seu marido. — Laura olhou, horrorizada,
para Jake.
— Claro que é! — Alissa franziu as sobrancelhas. — Por quê?
— Oh, não! Não vai dar certo.
— Até que enfim alguém concorda comigo.
— Por que Jake não serve? — Alissa perguntou, olhando para o marido à
procura de algum defeito visível que pudesse ter passado despercebido na noite
anterior. Não havia nenhum. Parecia tão perfeito quanto antes.
— Ele é texano! Conheço esse sotaque!
— Espere aí — Jake protestou. — O que há de errado com os texanos?
— Boa pergunta. Diga, Laura.
— Você ficou maluca, Alissa? — Pegando a amiga pelo braço, Laura a levou
para o outro lado do quarto. — Lace um texano e só encontrará problemas.
— Não seja ridícula! — Alissa riu. — Jake não vai me trazer nenhum problema.
Ele está aqui para me ajudar.
— Pode ter certeza — Jake informou, sem poder acreditar no que ouvia. — Os
problemas vão começar assim que estivermos sozinhos. Você mentiu para mim, e eu
não gosto de mentiras.
— Eu não menti!
— Você escondeu a verdade, o que para mim é a mesma coisa.
— Só omiti um pequeno detalhe.
— O detalhe era que sua herança vinha com braços, pernas e muita amolação.
Por que não me contou na noite passada? — Jake fulminou-a com o olhar. — Porque
você sabia que, se contasse, eu iria embora na mesma hora. Correndo!
— No que você foi se meter... — Laura resmungou.
— Tudo vai dar certo — Alissa insistiu, advertindo os garotos com o olhar. —
Agora, Jake e eu queremos ficar sozinhos para conversar.
— Vai adiantar muito... — Laura deu uma risadinha. — Não se conversa com
texanos. Eles gritam, e você obedece ou agüenta as conseqüências. Eu sei. Lamento
dizer que já fui casada com um. Por sorte, foi por muito pouco tempo. Olhe para ele.
Caso não tenha reparado, esse é um hombre durão. É mais um fora-da-lei do que um
salvador. Aposto como come pregos no café da manhã, couro no jantar e balas de
revólver entre as refeições. Sei o que estou dizendo, Alissa, ele vai fazer picadinho de
você. E os meninos?
— O que tem? — Alissa pôs os braços nos ombros dos sobrinhos.
— Que influência Jake vai exercer sobre Buster e Chick?
— Muito má — Jake admitiu.
— Terrível! Vocês têm de anular esse casamento já. Encontraremos outra
maneira de dar um jeito na sra. Marsh.
— Esqueça, Laura.
— De jeito nenhum.
— Está vendo? — Alissa sorriu para o marido, satisfeita por entrarem num
acordo temporário. — Jake é um homem de palavra. Prometeu me ajudar a ficar com
minha herança, e é o que vai fazer. Está só um pouco surpreso com o que isso
acarreta.
— O pronunciamento do século... — ironizou Jake.
— O que garante que ele não vai fugir como os outros quando a sra. Marsh
aparecer, Alissa?
— Fizemos um trato. Jake é um homem honrado e íntegro, e não vai nos deixar
à mercê da sra. Marsh. Não é verdade, Jake?
— Eu sabia que devia dar o fora assim que você se aproximou de mim. Por que
não fiz isso?
— Porque eu precisava de você, e você precisava de mim. — Alissa sorriu.
— Não. Porque deixei que a parte errada da minha anatomia pensasse por mim.
— Alissa... anule esse casamento antes que seja tarde demais.
— Não posso, Laura. Se eu o deixar, ele perderá sua herança.
— E daí? Jake é forte. É duro. Pode se cuidar.
— Eu sei que pode.
— Então, por que insiste nisso? Você sabe que está errada. Ele não precisa de
você. Um tipo desses não precisa de ninguém.
— É aí que você se engana. Talvez Jake não saiba, mas tenho uma coisa que
ele não tem e que quer.
— Abra os olhos. — Laura gemeu, frustrada. — Veja o que tem a perder se
insistir nisso. Se não quer fazer o que é melhor para você, pense nos meninos.
— Estou pensando neles. Buster e Chick precisam de um homem, alguém que
lhes sirva de exemplo. Alguém que os proteja. — Alissa fitou Jake. — Foi isso o que
arranjei.
— Você não sabe o que diz, Alissa.
— Não, Jake? Laura, por favor, leve os meninos para nosso quarto. Meu marido
e eu precisamos conversar. Irei até lá assim que puder.
— Quer que eu a deixe sozinha com esse... esse texano? — Laura pôs as mãos
nos quadris. — De jeito nenhum.
— Ele não pode me fazer nada que já não tenha feito.
— Não conte com isso — Jake acrescentou.
— E nós? — Buster perguntou, entrando na conversa.
— Esse homem vai ser nosso tio? — Chick quer saber.
— Respondo assim que conversar com Jake — disse Alissa.
— Está bem, Alissa. Farei o que quer... com uma condição.
— Qual é, Laura?
— Olhe bem para esse sr. texano. Você disse que ia se casar com um príncipe
encantado. — Apontou para Jake. — Ele não é nada disso. E provará, se tiver
oportunidade.
Pegando os garotos pela mão, Laura saiu do quarto e bateu a porta.
Alissa aproveitou o silêncio tenso que se seguiu para examinar Jake. Era
verdade que ao primeiro olhar ele era um homem intimidante. Mas onde Laura via um
texano rude, Alissa via um protetor forte e decidido.
A única diferença que ela notava era a expressão de desconfiança, de prudência
misturada com cinismo. Percebeu o que aquele olhar significava. Jake havia tido
alguma experiência penosa e esperava que tudo se repetisse no futuro.
Com ela?
— Por que você exerceria uma má influência sobre os garotos, Jake?
— O quê?
— Laura disse isso, e você concordou. — Alissa sentou-se na beirada da cama.
— Por quê?
— Porque não entendo de crianças e nem sei como tratá-las.
— Você já foi pequeno. Por que não pode...
— Está pensando na minha infância? Não posso servir de pai para alguém de
quem você goste.
— Você magoaria os meninos?
— Sem querer.
— Então...
— A questão não é essa. — Jake passou a mão pelos cabelos, impaciente. —
Fui àquela festa idiota porque precisava de uma esposa temporária para receber minha
herança. Para ser franco, casaria com qualquer uma, desde que ela cumprisse os
termos do testamento.
— Não há nenhum problema.
— Há, sim, e muito grande. Você precisa de um marido de verdade para que
seus sobrinhos tenham um lar estável.
— Poderia ser você.
— Encontrou o homem errado, Alissa. Este não é um casamento de conto de
fadas. Não há nenhum final feliz à nossa espera. Se você tivesse sido franca comigo e
contado qual era sua herança, teria evitado muitos problemas.
— Pode não ter sido o que você esperava, mas...
— Não é o que eu esperava! Quero uma esposa na minha casa e na minha
cama por um período muito breve. Ponto final.
— E eu concordei.
— É mesmo? — Jake pegou-a pelos ombros, levantando-a. — Quero uma
mulher na minha vida enquanto for necessário e depois ela terá de ir embora. Sem
complicações. Sem remorsos. E sem futuro. Quando tudo acabar, você terá de partir
sem olhar para trás.
— Você já me disse.
— Mas não prestou atenção. Vive com a cabeça nas nuvens há tanto tempo que
não sabe mais pôr os pés na terra. E agora estou preso a uma mulher que acredita em
contos de fadas e a dois garotos que precisam de um pai.
— Era o que eu preferia, mas estou disposta a...
— A quê? A continuar com o seu joguinho depois que eu a levar para casa?
Qual é seu plano? Fazer com que eu concorde com alguma coisa mais segura para os
próximos meses?
— Não importa o que eu esperava, Jake. Percebo agora que era um sonho tolo.
Vai ser como você quer.
— Pode ter certeza. Mas para evitar mal-entendidos... quero ouvir a verdade. —
Pegando-a pelo queixo, obrigou-a a encará-lo. — Você não falou dos meninos porque
sabia que era muito arriscado antes de ter uma aliança no dedo. Eu me esqueci de
alguma coisa?
Sua expressão devia revelar que ela se sentia culpada, porque o olhar dele
gelou. Por que concordou com Laura? Foi um erro muito grande.
— Está certo, não falei dos garotos porque já perdi três noivos por causa desse
tipo de honestidade.
— E não me disse nada para que eu me casasse com você. — Jake segurou-a
com força, a irritação transparecendo no seu rosto. — Usou aquela camisola para me
seduzir, sabendo muito bem que eu faria qualquer coisa para possuí-la. E que depois
eu manteria nosso trato. Acertei, minha doce virgem?
— Não, não é verdade. Você disse que precisava consumar o casamento. Eu
só...
— Se sacrificou por causa dos garotos? — Jake esboçou um sorriso. — Quanta
nobreza!
— Fiz tudo o que você queria. — Os olhos dela se encheram de lágrimas. —
Você me avisou que o casamento era uma farsa, e eu aceitei. Quis consumar o
casamento, e eu concordei. O que mais quer de mim?
— Não é difícil. Tente imaginar.
— Vamos continuar casados ou não?
— Não tenho escolha — murmurou, largando-a. — Se eu a deixar, perderei
tudo. E estou perto demais da vitória para permitir isso.
Jake foi até a janela e ficou olhando a paisagem por algum tempo, antes de se
virar.
— Está bem, Alissa. Continuaremos casados. Mas vou avisar: você já me
enganou uma vez. Que isso não torne a acontecer, pois não vai gostar das
conseqüências.
— Ótimo! — Alissa concordou, disfarçando sua alegria. — Só para que você
saiba... Eu teria sido franca a respeito dos meninos se você tivesse perguntado.
— Nunca terei certeza. — Seus olhos se estreitaram, refletindo seu ceticismo. —
Muito bem, e agora? Não posso dizer que seja um começo muito auspicioso para
nosso relacionamento.
— Só quero que você nos proteja da sra. Marsh.
— Devo então matar seus dragões?
— Isso mesmo.
— Quem é a sra. Marsh?
— Ela é tia dos garotos, irmã do meu cunhado.
— Por que a chama de sra. Marsh?
— Ela não admite nenhuma intimidade. E tem dinheiro e força suficientes para
impor suas preferências. Agora está se sentindo maternal e não gostou nada quando
Tracy e Rob me confiaram a guarda dos seus filhos.
— Como eles morreram?
— Num acidente de carro. Chick estava com eles quando tudo aconteceu.
Desde então, só fala com Buster.
— Coitado... Quantos anos eles têm?
— Buster tem oito, e Chick acabou de fazer cinco. São muito ligados.
— Eu percebi. Não estão recebendo nenhum acompanhamento psicológico?
— Estão. Buster melhorou, mas Chick... Além do trauma do acidente, ele tem
medo de ficar com a sra. Marsh de novo.
— De novo?
— Ela cuidou deles durante várias semanas depois do acidente.
— Essa mulher é tão terrível assim?
— Tem boas intenções, acho. — Alissa deu de ombros. — Mas temos nossas
diferenças. Além disso, ela é... muito rígida.
— Mas isso não é mau.
— Você terá de conhecer a sra. Marsh para entender. — Alissa suspirou.
— Ela quer ficar com a guarda deles?
— Quer. Depois que o irmão morreu, a sra. Marsh me ameaçou com o tribunal
para ficar com os sobrinhos. Passei o último ano fazendo tudo o que era possível para
evitar que isso acontecesse.
— Não deve ter sido fácil.
— Não. Há também o problema financeiro. Rob e Tracy deixaram um seguro
para os meninos, mas a sra. Marsh conseguiu que esse dinheiro ficasse indisponível.
Eu não iria tocar nele, estava reservando para a educação dos dois.
— Mas ficou mais difícil sustentá-los.
— Tenho conseguido.
— Você tem trabalhado feito louca.
— É verdade.
— Então sua solução foi se casar?
— Não estava atrás de fortuna, se é isso o que está sugerindo. Casei-me por
causa da sra. Marsh. Se eu tiver um marido, ela não terá o que alegar para tirar os
garotos.
— E se não tiver?
— Ficará muito mais difícil para ela.
— Está bem — Jake concordou depois de pensar um pouco. — Enquanto
estivermos casados, farei o possível para protegê-los da sra. Marsh.
— E eu também cumprirei minha parte.
— Não foi isso o que planejei, você sabe — disse ele, acariciando o rosto dela.
Alissa percebeu a frustração dele, a irritação que Jake ainda não dominava. Mas
seus olhos revelavam outra emoção, o desejo forte e incontrolável. Um forte calor a
invadia com cada batida do seu coração. Uma lassidão paralisava suas pernas. Mesmo
que quisesse, não poderia se libertar das mãos dele.
— Jake...
— Eu sei, ninfa, mas também não entendo.
Jake encostou os lábios no pescoço delicado, e Alissa ofegou, fechando os
olhos. Depois, deslizou as mãos por baixo da camisa aberta, entrelaçando os dedos
nos pêlos do peito forte. Suas palmas formigavam ao acompanhar a linha compacta de
músculos do ombro ao abdome. Jake era maravilhoso, forte e rijo.
— Você me deixa louco, Alissa.
Enfiando as mãos por baixo da blusa dela, Jake desprendeu o sutiã, libertando
os seios para uma exploração mais completa. Mas a blusa ainda era uma barreira.
Para não perder tempo, tirou-a pela cabeça, expondo Alissa ao seu olhar abrasador.
— Jake...
— Não me impeça.
— Não podemos. Laura e os meninos estão esperando.
— Que esperem.
— Eles podem voltar...
— Vou trancar a porta. — Jake acariciou nos seios dela, os olhos como ouro
derretido. — Eles vão entender quando não abrirmos.
— Você não conhece Laura. Ela é insistente.
— Vamos pendurar a placa dizendo "Não Perturbem". Ela não é boba, vai
entender.
— É isso o que me preocupa.
— Esqueça Laura.
Jake a beijou então, e Alissa não conseguiu pensar em mais nada. O desejo
despontou com uma velocidade surpreendente, mais ardente do que nunca. Como era
possível se sentir assim com um homem que conhecia havia tão poucas horas?
— Nunca vi uma mulher mais perfeita. Sem aqueles garotos, o tempo que
passarmos juntos será maravilhoso.
Com essas palavras, Jake destruiu todas as ilusões de Alissa, provando como
estava enganada. Foi como se lhe jogassem um balde de água fria.
— Diga que não está falando sério — murmurou, desolada.
Jake levou um minuto para perceber que ela estava triste e que não
correspondia às suas carícias. Respirando fundo, procurou controlar seu desejo e se
afastou.
— O quê?
— Seu comentário a respeito dos meninos... Diga que não estava falando sério.
— Quer que eu minta? Quer que eu diga que estou encantado por estar
amarrado a uma esposa e a dois garotos que nunca planejei ter? Sinto muito, mas não
posso. Eu a desejo. Quanto a isso, não há dúvida. Mas eu me sentiria muito mais feliz
se você estivesse desimpedida.
— Tudo tem seu preço. — Alissa vestiu a blusa.
— Sei disso muito bem. Mas você só me disse o preço quando era tarde demais
para reconsiderar.
— Nesse caso, você não teria feito a compra?
Jake não respondeu. Atravessando o quarto, pegou uma sacola de lona e seu
chapéu Stetson.
— Está pronta? Não temos mais nada a fazer aqui.
— Estou, Jake. Mas você ainda não disse para onde vamos.
— Sua amiga acertou, vamos para o Texas. Mais precisamente para
Chesterfield. Tenho terras lá.
— Uma fazenda! — Alissa fitou-o, maravilhada. Era bom demais para ser
verdade. — Que lugar excelente para os garotos.
— Não sei, fui criado na cidade. Estou avisando. Farei o possível para que você
se sinta bem com esse casamento, mas não espere que eu dê o que não tenho.
— Amor?
— O amor é uma ilusão. A ilusão é uma coisa estranha. Por mais que você faça,
nunca se torna realidade. Tente e acabará se ferindo.
Dizendo isso, Jake saiu do quarto.

CAPÍTULO V

A pick-up de Jake os esperava na pista de aterrissagem do aeroporto.


— Todos vão na frente — disse ele, olhando para Alissa. — Vai ficar apertado,
mas é mais seguro do que pôr os garotos atrás, com a bagagem. Vamos meninos,
mexam-se.
Alissa prestava atenção a Chick.
— O que houve, Alissa?
— Você não deixa passar nada, não?
— Depende — respondeu, sorrindo. — O que há com Chick?
— Ele costuma ter medo de entrar em carros. Fico contente que tenha entrado
sem hesitar.
— Sendo assim, você poderá dirigir a pick-up enquanto estiver aqui.
— E você?
— Tenho um jipe que posso usar, e também meu cavalo. Todos prontos?
— Estamos, tio Jake — disse Buster. — Onde é a sua fazenda? Chick quer
saber.
— É perto. Chegaremos lá daqui a meia hora.
Vinte minutos depois, passaram numa cidadezinha.
— Esta é Chesterfield — Jake informou, com relutância. Era simples, mas
bonita, com as lojas pintadas de branco.
Havia uma barbearia antiga ao lado de uma loja moderna, uma mercearia do
século passado ao lado de um banco de construção recente. Cavalos estavam
amarrados ao lado de carros estacionados.
— Esta é Chesterfield? — Alissa perguntou, encantada. — Que graça!
— Há uma cidade maior, chamada Two Forks, quarenta minutos ao sul da
fazenda, que tem um bom comércio, cinemas, essas coisas.
— Por que eu iria a Two Forks, se posso vir aqui, Jake?
— Porque eu quero.
Alissa franziu as sobrancelhas. Jake teria de abandonar logo aqueles modos
autoritários. Ela havia sido muito tolerante em vista das circunstâncias do seu
casamento, mas isso não queria dizer que teria que obedecer todas as ordens dele.
— Aquela é a sua fazenda? — Buster perguntou, olhando pelo vidro.
— E ela mesma. Bem-vindos à Fazenda da Trilha Perdida. — Jake lançou um
olhar enigmático para Alissa. — Sei que precisa de alguns consertos...
— Que maravilha! — Alissa exclamou.
— Olhe, Chick. Tem celeiro e tudo o mais! Você tem cavalos, tio Jake?
— Tenho, sim, Buster. E vacas também.
Jake entrou numa estrada de terra que dividia um pasto enorme e parou diante
da casa. Os garotos saíram correndo assim que estacionou e subiram os degraus
bambos da varanda, enquanto Jake tirava as malas. Alissa foi atrás, encantada com a
sua sorte.
Casara-se com um fazendeiro. Viveriam numa casa com dois andares e vários
cômodos, e não num apartamento apertado. Procurou reprimir as lágrimas.
Jake entrou na casa. Seu maxilar tenso e sua postura rígida diziam tudo: a
presença dela não o agradava.
Alissa olhou à volta, suspirando. O sol da tarde acentuava o assoalho gasto e o
papel de parede descascado. Havia teias de aranha nos cantos do teto, e a poeira
cobria todas as superfícies. Os móveis eram de segunda mão.
— Sei que a casa está muito malcuidada...
— Mas é linda, Jake. Só precisa de um trato para ganhar vida nova.
— Parece uma tapera. Acabei de voltar para cá e ainda não tive tempo...
— Veja o tamanho dos cômodos. Em comparação com o apartamento onde
morávamos, é um palácio. O teto é tão alto...
— Sei que está decepcionada, mas será só por pouco tempo.
Jake conduziu Alissa até a cozinha.
— Tem muitas coisas — disse ela, inspecionando os armários.
— Posso contratar alguém para ajudar a limpar a casa.
— Você tem até uma máquina de lavar e uma secadora! Não acredito! Este é
um fogão a lenha? Nunca tinha visto um antes. Como funciona?
— Com lenha. Mas prefiro que não mexa nele. Vou trazer um microondas para
você usar.
— Oh, Jake! Não vai reconhecer esta casa depois de uma boa limpeza.
— Não me casei com você porque precisava de uma empregada.
— Sei por que se casou comigo. — Alissa o enlaçou pelo pescoço. — Minha
maneira de agradecer será limpando esta casa. Ela é perfeita!
Jake se livrou dos braços dela, murmurando alguma coisa entre os dentes.
— Não precisa representar para mim. Não sei como você não fugiu correndo
quando viu toda essa sujeira. — Os lábios dele contraíram. — Mas para onde iria?
— Jake, você não poderia me dar nada melhor.
— Vou sair.
— Está bem. Quando volta?
— Não sei.
— Enquanto isso, vou comprar mantimentos na cidade.
— Não! — Jake cerrou os punhos, procurando se controlar. — Pode comprar o
que quiser no supermercado de Two Forks. Quando chegar ao fim da entrada, vire à
esquerda.
— Está bem.
— Arranjarei alguém para fazer a faxina. E também trarei o jantar. Não precisa
se preocupar com nada.
Por que Jake trazia Alissa para uma casa que devia ter sido condenada anos
atrás, quando podia levá-la para um lugar digno de uma rainha? Ele sabia por quê. Se
a levasse para o outro lugar, estaria criando falsas esperanças. Sugeriria uma
permanência que ele não queria. Alissa não entendia? Jake não era homem para se
casar. Depois a largaria, destruindo todos os seus sonhos. E não agüentaria fitar
aqueles olhos enormes e límpidos quando despedaçasse aquela última ilusão. Não.
Depois de passar algum tempo naquela bagunça, Alissa estaria desesperada para ir
embora.
E talvez um ou dois daqueles sonhos permanecessem intactos.
— Por que você não olha tudo e faz uma lista do que precisa, Alissa? Se quiser
ajuda, procure Dusty. Ele deve estar por aí.
— Dusty?
— Meu capataz.
Sem conseguir se controlar, Jake a tomou dos braços e a beijou.
— Você não devia ter se casado comigo, Alissa. Ainda vai se arrepender. Isso eu
garanto.
— Só quando chegar a hora de eu ir embora.
— Irá, pode ter certeza.
— Tenho outra opção?
— Não — respondeu e saiu.

Jake virou as costas para a janela que dava para o mercado e pôs as mãos nos
bolsos.
— Não vai dar certo, Peter. Esse casamento é um desastre total.
— O que aconteceu? — O advogado fitou-o, assustado. — Alissa não quer
assinar o contrato pré-nupcial?
— Já assinou.
— Ela sabe que o casamento é temporário? Vai criar problemas quando chegar
a hora do divórcio?
— Concordou com o divórcio e não vai criar problemas.
— E quanto às cláusulas do testamento? Vocês consumaram o casamento?
— Já cuidamos disso.
— Sua mulher irá admitir isso no tribunal?
— Alissa ainda não sabe disso. — Os lábios de Jake contraíram. — Mas sei que
fará o que eu quiser.
— Poucas mulheres fariam isso. Qual é o problema? Sua esposa me parece
perfeita.
— Ela é... boa.
— Que problema!
— Não preciso do seu sarcasmo, Bryant. Estou falando sério. Minha situação é
complicada.
— Por quê? Você queria uma mulher sem atrativos, experiente e sensata que
concordasse com um casamento temporário. Não foi isso o que arranjou?
— Não.
— Não? Então ela é bonita?
— É linda. Maravilhosa, doce, inocente.
— Experiente?
— Ainda não percebi. — Jake sorriu. — Decidida. Única. Adorável. Sonhadora.
— Mas é sensata?
— É difícil descrevê-la.

— Esperem um pouco, garotos. Estamos com um problema. — Alissa abriu a


bolsa e pegou a carteira. — Quinze dólares e sessenta e sete centavos. É muito pouco.
— Você não pode pagar com um cheque?
— Fechei minha conta em Maryland, Buster. Talvez...
Pegando os garotos pela mão, e entraram na loja.
— Com licença — disse Alissa para uma mulher que estava atrás da caixa
registradora. — Eu queria falar com o dono.
— Sou eu, querida, Belle Blue. O que deseja?
— Sou Alissa Hondo. E esses são meus sobrinhos, Buster e Chick. Acabamos
de nos mudar para Chesterfield, e vim fazer compras, enquanto meu marido...
— Você disse Hondo? — Belle repetiu, ríspida.
— Isso mesmo. — Alissa sorriu. — Conhece Jake?
— Cabelos pretos, um coração de pedra e olhar terrível? Claro que conheço.
— Você deve estar confundindo com outra pessoa. — Alissa franziu as
sobrancelhas. — Jake tem cabelos pretos, mas é o homem mais bondoso do mundo. E
seus olhos têm o tom de dourado mais bonito que já vi.
— Uma de nós está confusa, com certeza. Quem você disse que era?
— Alissa Hondo.
— O que é de Jake?
— Esposa. Acabamos de nos casar.
— Pode provar? — Belle fitou-a, desconfiada.
— Acho que sim. — Alissa procurou na bolsa o envelope que recebeu da
funcionária municipal.
— Asa, venha ouvir isso — a mulher chamou. — Jake está casado.
Um homem grisalho que se aproximou.
— E Randolph disse que não daria tempo.
Achando a certidão, Alissa a mostrou para Belle e para as pessoas que a
rodeavam.
— Só serve como decoração. Não é um documento legal, mas...
— Querida, qualquer mulher que tenha a coragem de laçar Jake Hondo merece
uma moldura para esse papel, legal ou não. Será um presente de casamento, meu e
de Asa.
— Obrigada. Mas estou com um problema.
— Posso ajudar?
— Só tenho quinze dólares e sessenta e sete centavos e...
— Poremos suas compras na conta de Jake. Não tem problema. — Belle piscou.
— Sabemos onde encontrá-la no fim do mês. A propriedade de Chesterfield é uma
beleza, não?
— O quê?
— A propriedade de Chesterfield. Onde vocês estão morando.
— Ah, é a Fazenda da Trilha Perdida. Os meninos e eu adoramos.
— Vocês estão na casa velha de Jake?
— Bem, precisa ser arrumada. — Alissa ouviu um murmúrio de espanto. — Mas
logo vamos dar um jeito.
— Vão mesmo? — Belle meneou a cabeça e murmurou: — Esse Jake Hondo é
demais...
— Ele é especial — disse Alissa, rindo.

— Alissa é... especial.


— E essa mulher especial é um problema, Jake — Peter acrescentou,
procurando descobrir por que o amigo estava tão descontente. — Não entendo. Alissa
não gostou da Fazenda Chesterfield?
— Não sei. Estamos na minha casa.
— Você a levou para aquela tapera?! Ficou maluco? Leve-a para a Fazenda
Chesterfield. Ela vai se animar.
Se Jake a levasse para a casa de seu avô, Alissa nunca mais iria querer partir.
— Alissa não está aborrecida, Peter. Ela gostou da minha casa. Está feliz em
morar lá. Quer até arrumar tudo... Mas não vou deixar — acrescentou, defendendo-se.
— Preciso contratar alguém para fazer o serviço.
— Não estou entendendo. — Peter franziu as sobrancelhas, confuso. — Você
não gosta dessa mulher, certo?
— Não disse isso.
— Mas não está apaixonado.
Jake serviu-se de uma bebida.
— Não.
— E Alissa está feliz em morar naquele chiqueiro que você chama de casa? E
quer até limpar tudo?
— O apartamento em que morava não devia ser espaçoso. — Jake pensou nas
suas mãos ásperas. — Não tem medo de trabalho pesado.
— E não é feia?
— Alissa é linda — Jake repetiu.
— Quero essa mulher.
— O quê?
— Depois que vocês se divorciarem. Ela deve ser um sonho.
— Não me aborreça, Bryant!

— Esta deve ser a cidade mais cordial do mundo, Buster — disse Alissa,
empurrando o carrinho com as compras.
— Por que ninguém nos cumprimentava quando fazíamos compras em
Maryland, tia?
— Acho que é costume no Texas. — Parou para ler vários anúncios. — Haverá
uma feira de caridade no próximo fim de semana. Será que Jake doou alguma coisa?
Talvez eu possa fazer um bolo.
Chick puxou o braço dela.
— Chick quer que você faça biscoitos em vez de bolo — Buster explicou.
— Para vocês comerem. — Alissa riu. — Está bem. Peguem chocolate e nozes.
Estão na última prateleira. Peguem bastante. O dia de Ação de Graças está chegando,
por isso vou ter de preparar muitas coisas. Mas primeiro, arrumarei a casa, certo?
Prometi para Jake. Os biscoitos vêm em segundo lugar.

Jake olhava mal-humorado pela janela, sem tomar conhecimento das perguntas
de Peter. Uma pick-up estava estacionada no outro lado da rua, e ele a conhecia.
— Que droga! Alissa mentiu para mim. Prometeu que ia a Two Forks! Vou
estrangulá-la! Juro que vou!
— O que ela fez?
— Está aqui na cidade.
— E daí?
— Disse para ir a Two Forks, e Alissa me desobedeceu.
— Estou louco para conhecer sua mulher. Já começo a gostar dela.
Jake pôs o chapéu na cabeça e se dirigiu para a porta.
— Depois acabamos nossa conversa. Agora, tenho que encontrar Alissa antes
que ela crie mais problemas.
— Espere um pouco, Jake! E o testamento do seu avô? Precisamos marcar uma
data para ir ao tribunal. Alissa precisa...
— Mudei de idéia. Não vou permitir que minha mulher compareça ao tribunal
para contar para toda a cidade como foi nossa noite de núpcias. Convença o juiz
Graydon e Randolph para termos uma conversa em particular. Pode ser durante um
jantar.
— Um jantar? O que pretende? Fazer com que Alissa sirva o prato principal
dizendo: "Por falar nisso, Jake e eu fizemos amor na noite de núpcias. Passe o sal, por
favor"?
— Não vou permitir que Alissa se sinta constrangida ou humilhada, entendeu? O
juiz não pode perguntar como foi nossa noite de núpcias? Ela pode dizer que foi ótima
e ponto final.
— Então foi ótima?
— Se você não fosse meu advogado, eu lhe daria um soco no nariz!
— Uma última pergunta.
— Qual é?
— Essa é sua esposa temporária, que vai deixá-lo assim que os termos do
testamento forem cumpridos, pela qual você não está apaixonado?
— São três perguntas, Bryant, e nenhuma delas é da sua conta. Mas marque o
jantar, entendeu?
— Está bem, mas você precisa falar com Alissa.
— Vou falar.
Alissa se dirigia para a saída da loja com o carrinho cheio de compras quando
um homem bloqueou seu caminho.
— Soube que se casou com Jake — disse ele, em vez de cumprimentá-la. — É
verdade?
— Se está se referindo a Jake Hondo, sou esposa dele, sim. — Estendeu a
mão. — Meu nome é Alissa.
Ele continuou com os polegares enfiados nas alças do cós da calça.
Alissa baixou o braço.
— Jake só se casou com você para ficar com a minha herança.
— Sua herança? — Alissa levantou as sobrancelhas, surpresa.
— Randolph, por favor — disse uma mulher, com olhos tristes, puxando-o pelo
braço.
— Sou Randolph Chesterfield, e Jake que se apropriar de terras que me
pertencem.
— A herança dele são essas terras?
— Só depois de um casamento consumado.
— Então não há problema. — Alissa riu.
O comentário dela o deixou mais furioso ainda.
— Se o conhecesse bem, não diria isso. — Aproximando-se, Randolph
empurrou o carrinho para o lado.
— Conheço Jake muito bem, sr. Chesterfield.
— Então sabe as cláusulas do testamento do seu avô. Sabe que ele só se casou
para ficar com as minhas terras.
— Com as terras dele — corrigiu, com um sorriso luminoso. — Claro que sei por
que Jake se casou comigo. Além de ser honesto, Jake é o homem mais terno, mais
bondoso e mais generoso que uma mulher pode querer. Se não fosse ele, não poderia
ficar com meus sobrinhos. — Pôs os braços nos ombros dos garotos. — Para mim, ele
é um anjo!
A boca de Randolph se abriu e se fechou enquanto ele tentava digerir a análise
que Alissa fez do caráter de Jake.
— Não sei se devo cumprimentá-la ou lamentar sua sina. — disse Randolph, por
fim. — Mas vou dizer uma coisa: Jake não se importa com vocês. Assim que conseguir
o que quer, serão despachados pare bem longe.
— Randolph, por favor...
— Cale-se, Evie. Só estou falando a verdade. Alguém tem de dizer a ela que
Jake é um homem sórdido, uma cobra venenosa, antes que ele a fira e aos garotos.
— Tio Jake não é uma cobra. E não vai nos ferir. Ele gosta de nós! — Buster
gritou, com o rosto vermelho de raiva. — Se falar mal dele, chuto você!
— Tudo bem, querido — Alissa apertou o ombro do sobrinho. — O sr.
Chesterfield não conhece Jake tão bem quanto nós. — Olhou para Randolph. — Está
enganado. Meu marido é um homem honrado. E se continuar a falar coisas
desagradáveis a respeito dele, ainda vai se arrepender. Agora, saia da minha frente.
— Só por curiosidade... Quanto Hondo está pagando para você ir para a cama
com ele? Deve ser uma fortuna.
Alissa sentiu que ia explodir de raiva. Mas aquilo não era nada em comparação
com a fúria do homem que estava parado à porta.

CAPÍTULO VI
— Pelo visto já conhece minha esposa, Chesterfield — disse Jake, os olhos
dardejando, a voz mais aterradora pelo seu controle mortífero.
— Hondo! Eu... — Randolph virou-se, empalidecendo.
— Se tornar a falar com ela sem minha permissão, vai perder para sempre
essas feições bonitinhas. — Aproximando-se, Jake o encurralou contra a parede. —
Entendeu?
— Escute, Jake... Só estava...
— Não quero nem que olhe para Alissa! — Jake agarrou-o pela camisa.
Randolph acenou com a cabeça, concordando, a testa molhada de suor.
— Faz bem em concordar. Porque, se voltar a se meter comigo, acabo com a
sua vida. Pode ter certeza, primo. — Virando-se para Alissa, ele mostrou a porta com a
cabeça. — Vamos embora.
Alissa passou sem dizer nada. Buster a seguiu, mostrando a língua para
Randolph. Não querendo ficar atrás, Chick deu um pontapé nas canelas dele antes de
sair correndo.
Jake olhou para as pessoas ali reunidas, mas poucas enfrentaram o seu olhar.
— Só para ficar claro — disse ele, frio —, protejo o que é meu.
— Ninguém duvida — foi a resposta de Belle. — Mas não se preocupe com
Alissa. Ela fez sucesso enquanto esteve aqui.
— Fico contente em saber. — Vendo a mulher de Randolph, Jake pôs a mão no
chapéu. — É sempre um prazer, Evie.
— Deixe minha mulher em paz, Hondo. Agora que tem uma esposa, não precisa
da minha.
Vendo que os olhos de Evie se enchiam de lágrimas, Jake lamentou que a raiva
do primo se voltasse contra ela. Randolph devia estar desesperado.
— Pela primeira vez na vida, você tem razão, Chesterfield. — Jake inclinou a
cabeça. — Agora tenho uma esposa.
Virou-se e saiu, indo encontrar-se com Alissa.
— O que veio fazer aqui? — Jake perguntou, furioso, enquanto a ajudava a pôr
as compras na pick-up. — Disse para você ir comprar os mantimentos em Two Forks.
— Disse mesmo.
Alissa estava de costas, e uma rajada de vento descobriu sua nuca. O desejo
fez com que as entranhas dele se retorcessem. Ela era tão delicada, tão vulnerável... E
tão imprevisível...
— Por que não foi?
— Era longe, Jake. Além disso, os meninos pediram para vir aqui, e não vi nada
de mais.
— Suba e vá para casa, Alissa. Seguirei atrás, no jipe.
Dez minutos depois, chegaram à entrada da Trilha Perdida. Assim que pararam,
Dusty saiu do celeiro e se aproximou de Jake.
— É ela? — olhou para Alissa, apreensivo. — De onde surgiram esses garotos?
Você não disse que eles também vinham, Jake.
— Minha esposa é cheia de surpresas. Esta é apenas uma delas. Venha, vou
apresentá-la.
— Depois — disse Dusty, olhando para o celeiro. — Na próxima semana ou no
próximo mês. Que tal quando estiver arrumando as coisas para ir embora?
— Não. Tem de ser agora. Quero que fique de olho nos garotos enquanto
converso com Alissa.
— Não sou babá — Dusty protestou.
— E como capataz não é lá essas coisas. Cale-se e vá. — Um pensamento lhe
ocorreu de repente. — E respeite minha mulher.
Alissa girava a aliança no dedo enquanto procurava alguma coisa para dizer.
— O pessoal de Chesterfield é muito simpático, Jake. E a loja de Belle é bem
movimentada. Você queria que eu fosse para Two Forks porque as lojas de lá são mais
vazias?
— Errado. A loja de Belle ficou cheia porque se espalhou a notícia de que a sra.
Hondo estava lá fazendo compras. Todos quiseram conhecer a mulher que teve a
coragem de se casar comigo. Quis que você fosse para Two Forks para evitar essas
pessoas simpáticas mas curiosas. Em especial Randolph.
— Com exceção dele, o pessoal de Chesterfield foi muito cordial. Acho que
conheci todos. — Olhou-o de esguelha. — Por que Randolph não gostou de mim?
— Ele disse.
— Então a história da herança não era mentira?
— Não.
— Você deve ter ouvido tudo, Jake...
— O suficiente.
— Jake...
— Embora ele negue o parentesco, Randolph é meu primo distante. É isso que
queria saber?
— Por quê?
— Por que o quê? — Jake suspirou.
— Por que Randolph nega o parentesco?
— Porque meu pai, Weston Chesterfield III, não era casado com minha mãe.
Nosso parentesco não é legítimo, e é disso que Randolph se ressente. Posso ter o
sangue dos Chesterfield, mas não sou um deles de acordo com a lei.
— Não é só isso, é?
— Não. Randolph ficou furioso quando meu avô deixou a fazenda para mim,
com uma condição.
— O casamento?
— Isso mesmo.
— E se você não se casasse?
— A fazenda iria para Randolph.
— Por que seu avô impôs essa condição tão estranha?
— Porque era um velho intrometido que queria bisnetos.
— Mas...
— A conversa acabou. — Jake foi para baixo de um choupo enorme e desligou o
motor. As terras se estendiam em todas as direções.
— Onde estamos?
— Ao norte da minha propriedade. Só meus empregados vêm até aqui, e eles
agora estão trabalhando nas terras de meu avô. Temos esta estrada só para nós.
Viemos aqui porque quero que você treine bastante.
— Treinar o quê?!
— Dirigir a pick-up. Não pense que não notei sua insegurança ao volante. Mas
tudo bem. Para quem não está acostumado, não é assim tão simples.
— Então aqui não vou atropelar ninguém?— Alissa provocou.
— É muito mais seguro este lugar do que a estrada para Chesterfield. Está
pronta?
Para surpresa de Alissa, em vez de sair do veículo, Jake deslizou no banco e a
colocou no seu colo, abraçando-a.
— Não estou me queixando. — Alissa aconchegou-se nos braços dele. — Mas
pensei que você fosse me ensinar a dirigir esta pick-up.
— Estou ensinando.
— Vai ser difícil aprender sentada no seu colo.
— É a posição perfeita.
— Não alcanço os pedais.
— Não precisa. Você já sabe onde estão todas as peças. Agora é só aprender
como funcionam juntas.
— Você ainda está falando de dirigir? — Alissa perguntou, com a voz rouca.
— Do que mais poderia ser?
— Vamos começar.
— Ótimo. Falemos da primeira marcha. — Jake a acomodou melhor no colo, o
hálito quente acariciando-a. — Você começa com a primeira marcha. É como... bem...
como o primeiro beijo.
— Um beijo...
— O primeiro beijo.
— Qual é a diferença? — Alissa perguntou, inclinando a cabeça para o lado.
— Se você quiser que tudo corra bem, o primeiro beijo tem de ser lento e suave.
Assim. — Os lábios dele roçaram os dela.
— Lento e suave...
— Isso mesmo. Se você começar com um toque leve, entra na marcha certa
sem nenhuma resistência. — A língua de Jake penetrou os lábios de Alissa,
acariciando-os. — Está vendo?
— Sim... Mas quero ter certeza. Por que não me mostra de novo?
Sem precisar de outra sugestão, Jake lhe ensinou todas as complexidades da
primeira marcha.
— Acho que estamos entrando na segunda — Jake murmurou depois de alguns
minutos.
— Como sabe?
— Quanto mais perto se chega, mais o motor ronca. Quando começa a falhar, é
sinal que se deve engatar a marcha seguinte.
— A segunda? — Alissa inclinou a cabeça para trás, dando-lhe acesso à
depressão na base do pescoço.
— Certo. — Jake percorreu toda a extensão do pescoço dela com os lábios. —
Se a primeira é um beijo, a segunda é um toque. — A mão se moveu para baixo do
ombro. — E só o início de coisas mais excitantes.
— Demora muito? — perguntou, trêmula.
— Depende de onde você estiver. — Jake mexeu nos botões da blusa dela. — E
dos empecilhos que encontrar. Se você for interrompida, pode até ter que voltar para a
primeira.
— E se não tiver nenhum empecilho?
A blusa se abriu.
— Deve acelerar para ir mais depressa — disse ele, acariciando a borda do
sutiã com o indicador. — Se o motor começar a falhar de novo, engate a terceira.
— Como é a terceira?
— É um toque mais ousado.
— Como? — Alissa umedeceu os lábios.
— Assim. — Jake desprendeu o sutiã. — Você está ganhando velocidade na
estrada, e com a terceira o ritmo é mais acelerado.
— Eu me lembro. — Alissa estremeceu, escondendo o rosto no ombro dele. —
Mas nunca passei da terceira. Tive medo de ir depressa demais.
— Então, vamos passar para a quarta juntos. — Virou-a de frente, fazendo com
que os joelhos de Alissa envolvessem seus quadris. — Depois da quarta, não há como
voltar. O carro vai a toda velocidade, é uma delícia. Por um momento, pensa-se que se
quer ficar assim para sempre.
As mãos dele acariciaram lugares mais adequados para a escuridão de uma
noite de luar. Alissa ofegava. Apesar de se dirigir para um pico inatingível, ela sabia que
não ia chegar lá. Não naquele lugar e àquela hora.
— Quero mais, Jake.
— É quando você engata a quinta. — Jake a estreitou mais, de modo que
qualquer movimento que fazia repercutia no seu corpo. — A quinta é a libertação. E
quando se chega ao fim da estrada.
Alissa fechou os olhos, o cheiro másculo penetrando em suas narinas, o gosto
dele adoçando sua língua. Ela não queria se mexer para não romper aquela união.
— E depois da quinta, Jake? — Sua voz estava quase inaudível.
— Só há uma opção.
— Qual?
Jake introduziu a língua entre os lábios dela, acariciando-os.
— Você pode dar marcha a ré e começar tudo de novo.
— Sim! — A palavra escapou num suspiro. — Leve-me outra vez.
— O que está acontecendo? — Jake saiu da pick-up, depressa. Dusty, Buster e
Chick estavam parados, roçando o chão com os pés e com os olhos baixos.
— Acabei de encontrar Fogoso galopando num campo a dois quilômetros daqui.
Como ele saiu?
Silêncio.
— Meu melhor garanhão está no pasto com meu touro premiado e ninguém diz
nada? Não sabem que os dois podem acabar se matando? — Jake olhou de um rosto
para o outro. — E então? Quem vai falar primeiro?
— Acho que sou eu. — Dusty se adiantou. — Foi... um acidente.
— Fogoso escapou da cocheira trancada com cadeado por acidente? Como
conseguiu? Criou asas?
— Buster, ele está falando com você — disse Alissa, aproximando-se de Jake.
— O que aconteceu?
— Desculpe-me, tio Jake. — Os olhos do garoto estavam cheios de lágrimas. —
Eu só queria mostrar para Chick como se anda a cavalo.
— Você soltou Fogoso? — Jake perguntou, empalidecendo. — Você?
— Achei a chave e quis ver se ele me deixava montar — disse Buster, infeliz. —
Ele é muito manso. Saiu como um cordeirinho.
— Esse cordeirinho é o maior perigo. Se não desse crias tão boas, acabaria com
a vida dele. — Jake fechou os olhos, tentando não pensar no que poderia ter
acontecido.
Soltando um soluço, Chick abraçou os joelhos de Jake, quase derrubando-o.
— A culpa foi minha, patrão — Dusty murmurou. — Quando vi o garoto perto de
Fogoso, perdi a cabeça. Comecei a gritar, o cavalo se assustou e começou a dar
coices. Mas o menino tem bons reflexos. Largou o cavalo, pegou o irmão e foram
juntos para a varanda.
— Você devia estar tomando conta deles, Dusty!
— Só me distraí um minuto, juro. Estava mostrando a fazenda para os dois,
explicando como as coisas funcionam, mas de repente eles sumiram.
— Oh, Buster! — Alissa exclamou, com um suspiro. — Você sabe que não pode
fazer isso. E também que não deve mexer nas coisas dos outros sem permissão.
— Se não aprendeu antes, vai aprender agora! — Jake afirmou, furioso. —
Vocês dois! Vão para o celeiro e me esperem lá.
—O que vai fazer com eles? — Alissa perguntou, apreensiva.
— Vamos ter uma conversa de homem para homem. E se tiverem sorte, vão
conseguir se sentar nesta semana! — Sem esperar uma resposta, virou-se para Dusty.
— Quanto a você... se não quiser perder o emprego, reúna os homens e vá pegar
aquele cavalo.
— Já estou indo.
— Jake? — Alissa tocou o braço dele, mas Jake continuou de costas.
Se olhasse para ela, não seria capaz de castigar os garotos. Aqueles olhos
suplicantes derreteriam suas boas intenções como se estas fossem gelo ao sol de
meio-dia.
— O que é?
— Faça com que eles entendam o que fizeram de errado. Senão não vão
aprender nunca.
— O que disse?
— Eles ainda não perceberam que uma fazenda no Texas é muito diferente de
um apartamento em Maryland.
Jake se virou para encará-la e quase perdeu o controle ao notar a confiança que
havia na sua expressão calma.
— Não tem medo de eu os fira, Alissa?
— Não seja tolo! — Ela riu. — Sei que nunca faria isso, apesar do que Randolph
disse. Buster não devia ter tocado em Fogoso. É por isso que quero que fale com ele.
— Não vou demorar.
— Não há pressa. Enquanto, isso vou começar a fazer o jantar.
Jake não soube responder. Acenando com a cabeça, dirigiu-se ao celeiro. Buster
estava na frente do irmão, com uma expressão estóica.
— Sinto muito, tio Jake. Não vai acontecer de novo, eu prometo.
Chick olhava apreensivo, chupando o dedo.
— É bom que seja assim. — Jake inclinou a cabeça. — Porque, se eu não puder
confiar em vocês, terão de ficar trancados em casa em vez de ajudar na fazenda.
— É mesmo? Nós podemos ajudar? — Buster perguntou, maravilhado.
— Claro, se se comportarem.
— Nós prometemos! Faremos tudo o que você quiser.
Chick puxou o ombro do irmão e murmurou alguma coisa.
— Está bem, vou perguntar. — Buster olhou para Jake. — Meu irmão quer saber
se ele poderá ir mesmo.
— Sim. Uma fazenda deste tamanho precisa de todos os braços disponíveis. —
Jake olhou para Buster, com severidade. — Mas há muitos animais e equipamentos
perigosos por aqui. Ao menor descuido, vocês poderão se ferir. Por isso, têm de tomar
muito cuidado.
— Está bem.
— E não façam nada sem pedir permissão primeiro. Certo?
— Certo.
Chick também acenou com a cabeça.
— O único problema é que, com a brincadeira de hoje, Dusty e os homens vão
ter trabalho extra e não poderão executar suas tarefas.
— Podemos fazer alguma coisa? — Buster não hesitou.
— Vamos ver... — Jake fingiu que pensava. — Está bem, é uma boa maneira de
vocês se redimirem. Vamos ver se sabem carregar o feno.
Os dois meninos obedeceram correndo. Jake sorriu, satisfeito. Um pouco de
trabalho pesado e eles ficariam cansados demais para aprontar mais alguma coisa. Ao
menos, assim esperava...

CAPÍTULO VII

Jake olhou para a correspondência e para as contas empilhadas na escrivaninha


do avô. Tinha vindo à Fazenda Chesterfield em busca de sossego. Nada de cavalos
fugindo, nem capataz rabugento, nem garotos que o adoravam como se fosse um
herói, nem uma esposa que achava que o sol levantava e se punha por sua causa.
Mas, em vez de trabalhar, Jake fitava o vazio, pensando numa mulher com um
sorriso travesso, cabelos platinados e olhos verdes grandes e apaixonados. Na última
semana, Jake vinha sentindo uma necessidade incontrolável de estar com Alissa
sempre que possível, recordando aquela aula de direção. Pior ainda: quando não
estava preocupado com a esposa, pensava em alguma atividade nova para os meninos
ou em como conseguir que Chick falasse.
O telefone tocou, e Jake atendeu, aliviado por interromper aquele devaneio
tentador.
— Achei que você estava aí — disse Peter. — Falei com o juiz Graydon, e ele
concordou com o jantar.
— Ainda bem.
— Quanto à data... o juiz concorda com sábado à noite. Nem preciso dizer que
Randolph está protestando. Mas Graydon prefere sua sugestão a uma audiência
pública.
— Acredito que meu primo terá de comparecer.
— Receio que sim. Sugeri que levasse Evie. Espero que ela o controle.
— Não acredito. Mas desde que ele fique de boca fechada na frente de Alissa...
— Duvido que Randolph comece alguma discussão. O incidente na loja de Belle
foi bastante embaraçoso. Já falou com Alissa? Ela sabe o que a espera?
— Eu cuido disso, Peter, preocupe-se com a parte legal.
— Está bem. — Houve uma pausa significativa. — Gostaria de conhecê-la. O
pessoal daqui só fala nela. Cada um tem uma história para contar.
— Como assim?
— As contribuições que Alissa faz para caridade, as visitas aos doentes, a
maneira como cuida dos sobrinhos e como defende sempre você. — Peter deu uma
risada. — Pobre de quem fala mal de Jake Hondo perto dela...
— É mesmo? — Jake sorriu.
— Quando chegar a hora, terá de expulsar os pretendentes de vara na mão.
— Quando chegar a hora? — O sorriso desapareceu. — Hora de quê? E que
pretendentes? Do que está falando?
— Randolph tem espalhado pela cidade que esse casamento é uma farsa. E
que vocês vão se divorciar assim que o juiz der a aprovação final. O que é verdade,
não?
— A duração do meu casamento não é da conta de ninguém.
— É de Alissa também. Além disso, todos os rapazes solteiros num raio de cem
quilômetros estão loucos para se aproximar da futura ex-senhora Hondo. Não vejo a
hora de conhecê-la.
Jake cerrou os punhos. Futura ex-senhora Hondo?!
— Se começar a lançar olhares para Alissa, você não vai ser só meu ex-
advogado, mas também meu ex-amigo, com uma porção de ex-dentes na boca.
Batendo o telefone, Jake se recostou na cadeira. O problema era que... Peter
tinha razão. A maioria dos homens consideraria Alissa a resposta para seus sonhos,
apesar dos sobrinhos. E eles também estariam tão interessados quanto Alissa num
casamento que durasse para sempre.
Sem conseguir conter sua agitação, Jake começou a andar pela casa. Tinha de
admitir que gostava da fazenda quase tanto quanto de seu avô. Mas era um amor
misturado com raiva e ressentimento. A Fazenda Chesterfield representava tudo quanto
lhe fora negado quando criança. Só entrara naquela casa quando já era quase um
adulto. E depois, quando já era tarde demais, tudo lhe fora oferecido.
A casa era bonita, e exigia uma família. O ar parecia viciado sem o cheiro de
biscoitos assando no forno ou o perfume de uma mulher. E as salas estavam tão bem
arrumadas, sem brinquedos espalhados pelo chão... Se fechasse os olhos, poderia
imaginar como ficaria com Alissa e os garotos.
A imagem era tentadora demais.
Se não saísse já daquela casa, faria alguma bobagem. Como trazer Alissa e os
meninos, e transformá-la num verdadeiro lar.
— Alissa? Você está aí? — Jake tirou as botas enlameadas, uma coisa que
nunca fazia até uma semana atrás, e abriu a porta da cozinha. — Ninfa?
— Cuidado, Jake! Não entre!
— Por que não? O que está fazendo em cima da mesa?
— Oi, tio Jake — cumprimentou Buster de cima da geladeira.
— Posso saber o que está acontecendo? — Jake perguntou, olhando de um
para o outro.
A porta de um armário se abriu, e Chick, que estava sentado numa prateleira,
apontou para o chão.
Virando-se para olhar, Jake deu um pulo para trás, soltando uma imprecação.
— Eu tentei avisar... — disse Alissa.
— Da próxima vez, grite "cobra", que eu entenderei. — Jake olhou para o réptil
enrolado no chão e assobiou. — É a maior cascavel que já vi.
— Não sabíamos que cobra era, por isso não quisemos arriscar.
— Foi esperta, querida. Alguém foi picado?
— Não, estamos bem.
Como se quisesse participar da conversa, a cobra levantou a cabeça e sacudiu
a cauda. Jake ficou imóvel. Como estava longe demais para ser atingido por um bote
inesperado, recuou devagar até a porta e calçou as botas o mais depressa que
possível.
— Pode me explicar como essa cascavel entrou aqui, Alissa?
— Devia estar na caixa de lenha perto do fogão. Nós íamos fazer biscoitos,
então abri a caixa para pegar lenha e...
— Entendo. Escute, Alissa, tenho de ir até o depósito, mas voltarei assim que
puder. Não se mexam, certo?
— Não se preocupe. — Alissa tentou sorrir.
Jake correu até o depósito, pegou um rifle, armou-o e voltou para a cozinha.
Parou à porta e olhou para o réptil, que continuava enrolado, aquecendo-se ao sol.
— Não olhem — Jake ordenou.
— O que vai fazer com esse rifle?
— O que acha, Alissa? Vou despachar essa cobra para o reino do céu.
— Aqui? Na cozinha?
— Agora mesmo. Fechem os olhos.
— Não, Jake! Não faça isso na frente dos garotos!
— Por que não? — Buster perguntou. — Queremos ver tio Jake matar a cobra!
Chick acenou com a cabeça, os olhos azuis entusiasmados. Depois tirou o
polegar da boca e fez mira com o indicador.
— Jake, prefiro que você mate esse bicho lá fora. Para falar a verdade... não
quero que a mate. — Alissa olhou para Jake. — Não podia levá-la para outro lugar?
— Esta é a segunda cobra mais venenosa dos Estados Unidos — disse Jake,
baixando o rifle. — Sabe o que isso significa?
Alissa balançou a cabeça, com os olhos arregalados.
— Significa que ela vai morrer. E se eu encontrar outra por aqui, terá o mesmo
destino. Mas por que estou falando tanto, quando deveria estar agindo?
— Mas...
— Esqueça — Jake a interrompeu. — Você quer que algum dos meninos seja
mordido? É o que pode acontecer se eu não matá-la.
— É claro que não quero. Mas... não pode fazer isso lá fora?
— Como vou tirá-la daqui?
Nesse momento, Dusty entrou.
— Por que tanta confusão? — ele perguntou. — Você saiu correndo daqui como
se estivesse com a calça pegando fogo. — Vendo a cobra, recuou.
A chegada de Dusty foi demais para a cascavel, que foi na direção dele,
sacudindo furiosamente a cauda.
— O que está esperando, patrão? Mate essa desgraçada!
— Sinto muito, minha mulher não deixa.
— Não tem graça, Jake. Vamos, atire logo!
— Só se Alissa concordar.
— Ela vai me morder! Atire de uma vez!
— Alissa?
— Patrão!
— Está bem! Atire! Atire! — Alissa berrou, caindo da mesa. A cobra correu em
sua direção, preparando o bote. Foi o último movimento que fez.
O tiro foi ensurdecedor. Olhando entre os dedos, Alissa viu Dusty caído de
costas numa nuvem de poeira.
— Dusty! — ela sussurrou, em pânico. — Oh, não, o que eu fiz? Dusty, fale
comigo. Você foi picado? Levou um tiro? O que ele tem, Jake?
— Desmaiou. Excitação demais, acho.
Com um gemido, o capataz se sentou e olhou à volta.
— Vou ganhar um cinto novo — disse ele, vendo a cobra. — E talvez uma tira
para o chapéu.
Jake largou o rifle e levantou Alissa do chão, abraçando-a.
— Você quase me matou de medo, sabia? — Jake murmurou. — Não posso
deixá-la cinco segundos sozinha que se mete em alguma encrenca.
Alissa o envolveu pela cintura e deitou a cabeça no peito forte. Uma letargia
conhecida a invadiu, deixando-a cega e surda para tudo, menos para Jake. Era sempre
assim quando ele a tocava.
— Na próxima vez, é melhor que você atire logo.
— Sem ouvi-la? Está bem. É o que vou fazer. — Jake olhou para os meninos. —
Desçam. O espetáculo acabou.
— Que legal! Você me ensina a atirar com o rifle, tio?
— De jeito nenhum, Buster — Alissa respondeu, saindo, relutante, dos braços de
Jake.
— Agora, vão arrumar as malas.
— As malas? — Os quatro olharam para Jake.
— Aqui na Trilha Perdida não é seguro. Vamos nos mudar para a fazenda de
meu avô.
— Você ficou maluco? — Dusty interviu. — Vai mudar todo mundo para a
Fazenda Chesterfield só por causa de uma cobrinha?
— Vou.
— Por quê? Há cascavéis em todo o Texas. Elas também entram lá.
— Vamos nos mudar e ponto final. — Jake fulminou o capataz com o olhar,
desafiando-o. — Alguma outra objeção?
— E os meus biscoitos? — disse Alissa.
— O quê?
— Preciso acabar de fazê-los. —Apontou para uma tigela de louça sobre a
mesa. — A massa já está pronta. Oh! Eu já ia me esquecendo.
Alissa pegou a aliança, que estava perto da tigela.
— Por causa daquela cobra, nem me lembrei que tinha caído.
— Vamos mandar ajustar antes que você a perca — disse Jake. — Quanto aos
biscoitos, leve a massa e asse na casa de meu avô. Vamos, temos muito que fazer.
— Primeiro, moramos aqui — Dusty murmurou, balançando a cabeça. —
Depois, nos mudamos para a casa do sr. Chesterfield quando ele ficou doente. Então,
voltamos para a Trilha Perdida porque você iria se casar. Nem se passaram dez dias, e
agora vamos voltar para lá. Resolva logo, patrão!
A mudança para a Fazenda Chesterfield demorou mais tempo do que o
esperado, e só terminou no dia do jantar.
Colocando uma pilha de pratos num aparador da sala de jantar, ela olhou em
volta, satisfeita. Cabiam doze pessoas à mesa, o que convinha a seus planos. Também
seria perfeito para o dia de Ação de Graças.
— Olá? Há alguém em casa? — Um homem apareceu, carregando um buquê
de flores enorme, e parou espantado ao vê-la. — Você é Alissa, a esposa de Jake?
— Sou — respondeu, perguntando-se por que ele estava tão surpreso. — E
você é...
— Sou Peter Bryant, advogado e amigo ocasional de Jake — disse ele, sorrindo.
— Desculpe-me por ter olhado daquele jeito, mas você é diferente do que eu esperava.
Não sabia que Jake tinha tanto gosto.
— Muito prazer em conhecê-lo. Por que ocasional?
— O quê?
— Você disse que era amigo ocasional. Por quê?
— De vez em quando brigamos.
— E aí não são mais amigos?
— É o que Jake diz.
— São para mim? — Alissa perguntou, olhando as flores.
— Claro. Para lhe dar as boas-vindas. Um pouco tarde, acho. Na verdade, são
uma desculpa para encontrá-la antes do jantar desta noite.
— Você não precisa de nenhuma desculpa — disse Alissa, rindo. — E nem
precisava trazer as flores. Será sempre bem-vindo.
— Na verdade, queria me certificar de que está tudo preparado para esta noite.
— Acho que sim. Foi tudo ao mesmo tempo, a mudança, o jantar... Sabe que é a
primeira noite que passamos aqui?
— Jake falou qualquer coisa a respeito. Não pude acreditar quando contou que
vocês estavam se mudando para cá. Mas você não respondeu à minha pergunta.
— Se me preparei para esta noite? Estou arrumando a mesa. A comida não é
problema e...
— A casa está muito bonita, e tenho certeza de que o jantar será perfeito —
Peter a interrompeu, com uma ruga na testa. — O que eu queria perguntar era se você
não estava aborrecida com a razão desse jantar.
— A razão... — Alguma coisa no tom de voz Peter advertiu-a a tomar cuidado. —
Quer uma xícara de café?
— Com aqueles biscoitos de que tenho ouvido falar tanto? — Peter perguntou,
com um sorriso maroto, acompanhando-a até a cozinha. Tirou duas xícaras de um
armário e serviu o café que Alissa tinha acabado de fazer. — Como você gosta?
— Com leite e açúcar.
— Jake lhe falou desta noite, Alissa?
— Claro. — Pôs os biscoitos num prato e se sentou à mesa ao lado dele. —
Fiquei um pouco surpresa quando soube que Randolph viria.
— Ele não deixaria de vir por nada deste mundo. Ainda espera ficar com a
herança de Jake. — Mordeu um biscoito. — Está uma delícia!
— Obrigada. Não entendo uma coisa, Peter. Jake e eu estamos casados, certo?
Por que Randolph ainda acha que pode ficar com a herança?
— Porque o juiz Graydon ainda não reconheceu o casamento. E só vai
reconhecê-lo depois que falar com você e confirmar... que você e Jake... Você sabe.
Pensei que Jake tivesse explicado tudo.
Alissa tomou um gole de café, percebendo de repente que havia muita coisa que
ela não entendia.
— Acho que me esqueci.
— Se não houvesse tanta coisa em jogo, até que seria engraçado. Antes de
Jake se casar com você, estava tudo acertado. Ele escolheria uma mulher sem
atrativos, experiente e sensata, se casaria com ela e a levaria ao tribunal.
— Experiente? Não é de admirar que você tivesse ficado surpreso quando me
viu.
— O único requisito vital era que essa esposa estivesse disposta a fazer a
declaração necessária diante do juiz e de meio mundo. Jake está preocupado com
essa cláusula desde que a trouxe para cá.
— Você disse que Jake estava preocupado com essa parte do testamento. Por
quê?
— Jake acha que seria muito embaraçoso para você. Por isso, pediu que eu
convencesse o juiz a aceitar uma reunião mais reservada. — Peter deu de ombros,
contrafeito. — Pelo menos, não terá de comparecer ao tribunal para informar a toda
Chesterfield que o casamento foi consumado. Embora também não seja agradável
dizer isso num jantar.
— Eu terei de... — Alissa empalideceu.
— Inacreditável, não? — Peter balançou a cabeça. — O sr. Chesterfield devia
estar maluco. Mas queria que Jake estivesse casado em todos os sentidos da palavra.
— Por quê?
— Pergunte a Jake. Desculpe-me por comer e ir embora. Mas eu precisava ter
certeza de que tudo estava acertado.
— Gostei de você ter vindo.
— Obrigado por sua hospitalidade. Até mais.
Depois que Peter saiu, Alissa acabou de arrumar a mesa, pensando na conversa
que haviam tido.
Tudo ficou pronto no meio da tarde. As pratas brilhavam, a mesa de cerejeira
estava polida, e as flores que Peter trouxera, arrumadas num vaso. Alissa só precisava
tomar banho e se vestir.
Jake entrou no quarto quando ela saía do banheiro.
— A mesa está muito bonita. Obrigado.
— Não quero que Randolph encontre nenhum defeito.
— Isso não vai impedi-lo de resmungar.
— Dusty e os garotos já foram embora, Jake?
— Acabaram de sair. Adoraram a idéia de passar a noite num acampamento
com caubóis de verdade. Chick estava tão excitado que achei que fosse falar.
— Agora não vai demorar muito. Todos têm sido tão bons para ele... O mais
importante é que Chick se sente seguro com você.
— Ainda bem. O pobrezinho sofreu um trauma muito grande. — Jake respirou
fundo, como se estivesse reunindo toda a sua coragem. — Escute, preciso falar com
você. — Aproximou-se por trás, tirando a toalha da cabeça dela.
"Agora ele vai dizer a verdade a respeito desse jantar", Alissa pensou.
— Algum problema, Jake?
— Nenhum. Só queria avisar que... o juiz pode fazer algumas perguntas para
você?
— De que tipo?
— Sobre nosso casamento. O juiz é muito indiscreto, por isso, não leve a sério.
— Quer que eu responda às perguntas dele?
— Quero. Mas não vou deixar que ele vá longe demais.
Alissa se virou, pensando em revelar o que Peter lhe dissera. Mas fitou os olhos
de Jake, e as palavras morreram em seus lábios. Vendo o orgulho e a determinação
refletidos nos olhos dourados, descobriu no mesmo instante as respostas para suas
perguntas. Ele não disse a verdade sobre aquele jantar porque queria protegê-la,
Alissa percebeu, assombrada, como quando Randolph a interpelou na loja de Belle,
como tinha feito com a cobra. E Jake esperava que ela nem percebesse a razão
daquele jantar.
— Jake... Já lhe agradeci por ter entrado na minha vida?
— Todos os dias, ninfa.
— Não é suficiente.
Alissa o enlaçou pelo pescoço. Incapaz de resistir, beijou-o.
— Temos tempo agora? — Jake perguntou, abraçando-a.
— Acho que não. Precisamos receber nossos convidados.
— Podemos deixar a porta da frente aberta. Se demorarmos um pouco, o juiz
nem precisará perguntar...
— O que estávamos fazendo?
— É.
— Como podem duvidar? Que mulher resistiria a um homem como você?
— Você é que é irresistível. Vista-se, enquanto tomo uma chuveirada. Senão,
mandarei nossos convidados embora e passarei as próximas vinte e quatro horas com
você na cama.
— Não me tente, sr. Hondo.
Jake beijou-a, então, com tanta paixão que lhe dizia o quanto ele a queria. Isso
lhe deu esperança.

CAPÍTULO VIII

— Você deve ter ficado muito assustado quando viu a cascavel, Jake — disse o
juiz Graydon.
— Tão assustado como quando Buster quis montar em Fogoso.
— Ter uma família é muita responsabilidade.
— Foi o que descobri, juiz.
— Mas vale a pena?
— Vale — Jake respondeu, fitando Alissa.
— Por favor — interferiu Randolph, aborrecido. — O que mais ele poderia dizer?
Jake faria qualquer coisa para ficar com esta propriedade. Até mentir.
— Jake não mente — Alissa replicou. — Nem eu. E, para que fique sabendo,
Jake e eu não dormimos juntos na nossa noite de núpcias. Foi na manhã seguinte.
Portanto, consumamos o casamento. Agora que já esclarecemos isso, aceitam mais
um pedaço de bolo?
— Quem contou a ela? — Jake se levantou de repente, o olhar abrasador
fixando-se em cada um dos convidados até parar em Peter. — Foi você, não?
— Estive aqui antes — o advogado confessou. — Mas só para ter certeza de
que tudo estava pronto para esta noite.
— Seu...
— Espere aí — Peter protestou. — Por que está tão transtornado? Alissa não
sabia o que devia fazer?
— Não!
— Você disse que ia explicar a ela.
— Eu menti!
— Estão vendo? Ele mente — disse Randolph.
— Por que não contou para ela? — Peter perguntou, exasperado. — O que
esperava que fosse acontecer hoje?
— Achei que o juiz fosse fazer perguntas discretas. — Jake cruzou os braços. —
Tão discretas que Alissa nem perceberia.
— Por que escondeu dela, Jake? — O juiz Graydon franziu a testa, preocupado.
— Queria poupá-la.
— Ele quis me proteger — Alissa respondeu, sorrindo, radiante, para o marido.
— Jake é muito nobre.
— Esse homem não tem um único osso nobre no corpo. — Levantando-se,
Randolph apontou o dedo para Jake. — E também não se importa com os sentimentos
de ninguém. Jake manteve silêncio a respeito dessa cláusula porque sabia que
qualquer mulher normal preferiria deixá-lo a falar em público de coisas tão íntimas.
— Deixá-lo?! — Alissa empurrou a cadeira para trás, os olhos brilhando como
pedras preciosas. — Acha que me sinto envergonhada ou humilhada ao admitir que
sou mulher de Jake no verdadeiro sentido da palavra? Estou orgulhosa! E anunciaria
para o mundo inteiro se ele me pedisse.
— Você deve estar cega para não ver que ele a está usando.
— Se acredita nisso, sr. Chesterfield, é porque não conhece Jake muito bem.
— Conheço-o há anos. Se acha que Jake é um gato manso, está muito
enganada. Esse homem é um predador que sempre andou fora da linha. E, assim que
você lhe voltar as costas, vai despedaçá-la.
— Por favor, Chesterfield. — Jake se sentou de novo, com um sorriso. — Pode
atacar, não se constranja. Há anos que você quer dizer o que pensa. Aproveite a
oportunidade.
— Tem razão. — Randolph cerrou o maxilar, o corpo tenso. — Com o juiz como
testemunha, você não ousará me atacar por dizer a verdade.
— Sua versão da verdade.
— Minha e de todos na cidade. Você não presta, Hondo, e está sempre
querendo se aproveitar das coisas, como sua mãe. A única diferença é que ela não
teve a sua sorte. Se o velho não quisesse tanto um neto, nunca o teria aceito.
— Não está dizendo nenhuma novidade, Chesterfield. — Jake deu de ombros.
— Meu avô deixou muito claro. Se tivesse netos legítimos, teria me deixado na sarjeta,
onde me encontrou. Nunca o procurei. Se o tribunal não tivesse reforçado seu pedido,
eu teria continuado onde estava.
— Mas você voltou com ele, E entrou na cidade resolvido a se vingar de todos
que sabiam que sua mãe...
— Fui trazido para cá. Ou melhor, arrastado, pois vim contra a minha vontade.
— Você queria se vingar porque não interferimos quando Chesterfield expulsou
sua mãe das terras dele.
— Ele não precisou expulsá-la. — Jake riu. — Só lhe atirou algumas moedas, e
ela saiu por conta própria, feliz com o que recebeu.
— Mesmo assim, você voltou para se vingar porque ninguém quis ajudá-la.
Bateu em todo o mundo e abusou de todas as mulheres que pôde.
— Pare com isso, Randolph — disse Evie, levantando-se para ficar ao lado do
marido. — Você não sabe o que diz.
— Sei muito bem. E está na hora da doce e fiel sra. Hondo saber também. Está
gostando de saber a verdade?
— Que verdade? Que Jake é filho ilegítimo? — Alissa deu de ombros. — Ele me
contou. Ninguém pode responsabilizá-lo por isso.
— Mas Jake é responsável por tudo o que fez desde que chegou a esta cidade.
Ou você não se importa que ele fale com os punhos e não mereça a confiança de
nenhuma mulher honesta?
— Se pensa que estou chocada, está muito enganado. Sei que Jake gosta de
brigas. — Alissa sorriu, orgulhosa. — Ele é um guerreiro nato. Esta foi uma das razões
por que me casei.
— Não pode estar falando sério!
— Claro que estou. E quanto às mulheres... posso assegurar que Jake nunca
abusaria de ninguém. Ele não precisa.
— Sei que Jake abusou. — Randolph riu, com desprezo.
— Por favor, não diga mais nada — Evie pediu ao marido. — Não vai mudar
coisa nenhuma.
Alissa se recusava a ceder. Randolph estava falando mal de seu marido, e ela
não admitia isso. Levantando-se, pôs o guardanapo de linho na mesa como se o
desafiasse para um duelo.
— Talvez algumas mulheres tenham alegado que Jake abusou delas, mas só
porque não tiveram a coragem de admitir a verdade.
— Que verdade?
— Que se deixaram seduzir pela ovelha negra da cidade.
— É mentira! — disse Randolph, enrubescendo.
Jake se manteve em silêncio. Apenas ergueu seu copo de vinho num brinde, a
ternura de seu olhar penetrando no coração de Alissa, Era todo o encorajamento de
que ela precisava.
— É a mais pura verdade, sr. Chesterfield. Quantas mulheres que não olhariam
para o meu marido em público foram para a cama dele na calada da noite? Cinco, dez?
— Olhando para Jake, ergueu uma sobrancelha. — Mais?
— Foi antes de eu conhecê-la, ninfa — disse Jake, sem se defender. — Espero
que você não se ofenda.
— Não estou ofendida. Foram elas que saíram perdendo.
— Quando é o próximo Baile da Cinderela? — Peter perguntou. — Quero uma
mulher como essa.
— Alissa está mentindo! — afirmou Randolph, furioso. — Deseja tanto Hondo
que inventa qualquer coisa para protegê-lo. Pode ter sido uma presa fácil, mas minha
mulher não era!
— Randolph! — Evie gritou.
Percebendo que Jake queria bater no primo, Alissa deu a volta na mesa e se
jogou nele para detê-lo. Mas foi a súplica de Evie que o impediu de bater em Randolph.
— Jake, por favor, não toque nele. Randolph não sabe o que diz.
— Saia da minha casa, Chesterfield. — Jake respirou fundo, tentando controlar
a sua raiva. — E nunca mais ponha os pés aqui.
Pondo o braço nos ombros de Evie, Randolph saiu da sala.
— Vá ver se ele irá embora sem causar mais problemas, Peter. Amanhã
conversamos.
— Está bem.
— Ouviu o que interessava, juiz? Porque não vou responder a mais nenhum
pergunta. Nem minha mulher.
— Calma, Jake. Não há mais nenhum problema a respeito do testamento. A
propriedade é sua. Mas, para seu próprio bem, espero que Randolph esteja enganado.
— A respeito de quê?
— Você não poderia arranjar uma mulher melhor. Não é da minha conta, mas
espero que esse casamento não seja uma farsa.
— Tem razão, não é da sua conta. Meu avô não devia ter posto uma cláusula
tão absurda no testamento.
— Ele fez isso para o seu bem, Jake.
— Bobagem! Estava obcecado com a idéia de deixar descendentes.
— Talvez isso tenha influenciado na sua decisão, mas havia uma razão mais
importante. Seu avô queria que lhe dar uma coisa que você nunca teve.
— O quê?
— Sinto muito, Jake, mas não vou dizer. — O juiz olhou para Alissa.
— Ele queria me dar uma esposa? — Jake perguntou, frustrado. Não fazia
sentido. — Filhos legítimos? Eu mesmo poderia cuidar disso. Não seria difícil.
— Essas coisas não se compram, Jake — Alissa sussurrou.
— Não? — Jake sorriu, cínico. — Meu avô passou a vida inteira demonstrando o
contrário.
— Mas no fim, entendeu que nem todos estavam à venda.
Virando-se para o juiz, Alissa estendeu a mão.
— Muito obrigada por ter vindo. Peço desculpas se a noite foi um tanto agitada.
— Era de se esperar. — Graydon apertou a mão de Alissa.
— Muito prazer em conhecê-la. Espero que nos encontremos mais vezes no
futuro.
— Só o tempo dirá...
Depois que Graydon saiu, Jake voltou para a sala.
— Que jantar, sra. Hondo! Vamos tomar um drinque na biblioteca?
— Vamos, sim.
A biblioteca era um cômodo espaçoso e aconchegante.
— Quer que eu acenda a lareira? — Jake perguntou, entregando-lhe uma dose
de conhaque.
— Quero. — Alissa apagou a luz, enquanto Jake ateava o fogo. — Assim não
fica melhor?
— Muito melhor. Ainda bem que esse jantar acabou.
— É mesmo. É tão estranho os garotos não estarem aqui...
— Sua irmã devia saber que você gostava muito deles.
— Sem dúvida. Faria qualquer coisa pelos dois.
— Até se casar comigo.
— Foi a decisão mais fácil que tomei. — Alissa sorriu. — Assim que o vi, percebi
que você era o homem perfeito.
— Para matar dragões?
— Não foi só por isso. Era o homem perfeito porque...
"Porque vi logo que tipo de homem você era. Porque, no momento em que fitei
seus olhos dourados, me apaixonei irremediavelmente." Mas não podia dizer isso, Jake
não estava pronto para ouvir. Por isso, deu a única resposta possível.
— Casei-me com você porque precisávamos um do outro.
— Por mais algum tempo. — As palavras dele continham uma advertência
impiedosa.
— Jake...
— Sobre o que quer conversar? Meu avô? Meus pais? Meu ataque incontido às
mulheres da cidade?
— Acho que já resolvemos isso.
— Obrigado por sua defesa exaltada.
— Não fique tão surpreso. É ridículo acreditar que você tivesse de recorrer à
força quando pode seduzir qualquer mulher com um simples olhar.
— As vezes é preciso mais que isso.
— Pode ser. Mas uma aula de como dirigir sua pick-up teria vencido qualquer
hesitação que ela tivesse.
— Não, meu bem. — Jake se apoiou no cotovelo, balançando a cabeça. — Você
é a única a quem ensinei a dirigir daquela maneira.
— Ainda bem. — Aproximando-se, Alissa acariciou-lhe a coxa. — Conte o resto,
Jake, para tirar o peso do peito, e depois nunca mais tocaremos nesse assunto.
— Quer ouvir todos os detalhes gloriosos da minha vida?
— Você vai se sentir melhor depois que falar.
— Por quê?
— Não vou sair gritando de horror quando souber seus segredos. Não virarei as
costas enojada nem o tratarei com compaixão. E também não vou me introduzir na sua
cama durante a noite e fingir que somos estranhos assim que amanhecer. Não me
contou ainda porque não sabia como eu iria reagir?
— Droga!
— Eu sei. Você se esforçou tanto para construir suas defesas, firmando cada
parede para que sua fortaleza fosse invulnerável... E agora uma esposa irritante bate à
porta do castelo, e você tem de deixá-la entrar.
— Tenho mesmo?
— Só dessa vez. — Alissa deu um sorriso travesso. — Depois, poderá botá-la
para fora e não tomar mais conhecimento dela.
— É difícil não tomar conhecimento de você. Está bem, eu falo, mas você já
ouviu quase tudo. — Levantando-se, pôs mais lenha na lareira. — Meus pais se
conheceram e passaram um verão se divertindo. Como não tomaram cuidado, fui
concebido. Quando percebeu que estava grávida, minha mãe foi procurar meu pai.
"Sinto muito", disse ele, "mas acabei de ficar noivo de outra moça, por isso,
desapareça" Para garantir que isso iria acontecer, meu avô lhe deu algum dinheiro.
— Ele a comprou.
— Ajudou-a a escolher uma profissão.
— Oh, Jake.. — Alissa murmurou.
— Sem compaixão, lembra? Quando eu tinha dezesseis anos, ela morreu, e fui
para a rua. Meu pai também tinha morrido sem deixar nenhum outro filho. Meu avô
ficou desesperado. Lembrando-se daquela moça grávida que havia comprado tantos
anos atrás, foi me procurar.
— E voltou para Chesterfield com um adolescente furioso e ressentido.
— Não era o neto que meu avô sonhava. Não escondia que o desprezava por
sua hipocrisia. Em troca do meu ódio, ele me deu tudo o que possuía. Comida, roupas,
um teto... Tudo o que o dinheiro podia comprar. Mas eu me recusava a lhe dar a única
coisa que pedia em troca.
— O seu nome — disse ela, imaginando o que Jake havia suportado.
— Durante anos, vovô pediu que eu mudasse meu nome para Chesterfield. Mas
me recusei.
— Era a única maneira de você preservar sua identidade.
— Eu era Jake Hondo, e não ia mudar as circunstâncias do meu nascimento
chamando-me Chesterfield.
— Aprendeu a gostar de seu avô apesar do que ele fez para sua mãe?
— Sim. Era um homem orgulhoso e solitário, que cometeu muitos erros na vida.
E nenhuma vez tentou justificar esses erros ou culpar outra pessoa. Assumiu-os, e eu o
respeitava por causa disso.
— Mas não ficou com ele.
— Imagino que esteja perguntando a respeito da Trilha-Perdida.
— Estou.
— Assim que cheguei a Chesterfield, comecei a trabalhar e a economizar para
comprar um rancho para mim. Tive sorte. Aos vinte e tantos anos, pude comprar as
terras vizinhas. Era um local muito pequeno em comparação com o do meu avô, mas
comprei aos poucos as propriedades ao redor até ficar com um rancho respeitável.
— Mas Dusty disse que você voltou para a casa de seu avô.
— Pouco depois da compra, os médicos descobriram que ele estava com
câncer. O mais eu podia fazer?
— Você, nada, mas outra pessoa poderia ser mais insensível.
— Sou insensível, você sabe disso... — Jake a olhou com frieza. — Podia tê-la
trazido para cá depois do casamento. Mas preferi levá-la para Trilha Perdida. Quer
saber por quê? Não queria que você tivesse esperança de ficar, nem que se sentisse
muito confortável vivendo comigo. Assim, não se aborreceria na hora de ir embora.
— Achava que eu iria sentir mais falta do rancho do que de você?
— A maioria das mulheres sentiria. Eu sei, você não é igual a elas. Talvez deva
anotar para não me esquecer. Já terminou?
— Só mais uma ou duas perguntas. Fale de Randolph.
— Ele é alguns anos mais velho que eu e se considerava o herdeiro de tudo,
apesar de ser parente distante. Quando apareci, levou um choque e resolveu tornar
minha vida um inferno.
— E Evie?
— Desculpe-me, esse assunto é particular.
— Não tem importância. Faço idéia do que aconteceu.
— Por que isso não me surpreende?
Jake tomou um gole de conhaque, como se quisesse tomar coragem, o que era
ridículo. Jake era o homem mais corajoso que Alissa conhecia.
— O que há, Jake?
— Você não deixa escapar nada, não é mesmo?
— Tento não deixar — confessou, dando de ombros. — Há mais alguma coisa
que você queira me contar?
— Só quero agradecer.
— Pelo quê?
— Por esta noite. — Jake pegou o rosto de Alissa, o polegar acompanhando a
curva da sua boca. — E quero pedir desculpas. Eu devia ter contado o motivo desse
jantar. Não contei porque...
— Porque não queria me deixar constrangida.
— Não. O motivo não foi esse, na verdade. Tive medo de falar dessa cláusula do
testamento de meu avô porque não sabia o que você iria fazer.
— Não entendo. Você não tem medo de nada.
— Não tinha, até conhecê-la. Você me apavora, meu bem.
— Tem medo de mim? — Alissa murmurou, abalada. — Por quê?!
— Você foi a primeira pessoa que acreditou em mim incondicionalmente. Vê as
pessoas com tanta clareza... E, no entanto, quando me olha, vê alguém que eu não
conheço. Você não entende? Essa imagem, esse homem que você criou para si
mesma não é real. E o que existe só pode feri-la.
— Um de nós está errado, mas não sou eu.
— O que vou fazer com você?
A resposta tremulou nos lábios de Alissa.
— Amor.
— Não vai ser difícil. Venha cá — disse Jake, atraindo-a para seus braços.
As bocas se uniram, e os corpos se entrelaçaram, numa urgência.
Alissa fora feita para o fogo, Jake descobriu. O brilho das chamas iluminava
seus seios.
A mão bronzeada parecia uma nódoa de encontro à perfeição da pele muito
clara, o contraste tão assustador quanto indesejável.
Como Alissa não havia percebido?, Jake se perguntou, desesperado. Ela era a
luz celestial combatendo a escuridão, a terra rica e quente lutando contra a pedra, os
tijolos e o cimento. Alissa oferecia a esperança eterna da primavera durante o rigor do
inverno. Era tudo o que Jake sempre quis, mas que nunca poderia ter.
— Não — Alissa murmurou.
Jake se afastou, mas ela sorriu.
— Não foi isso o que quis dizer. Não pense. Não analise. Não questione. —
Tomou a iniciativa, abraçando-o. — Por que não deixa a tristeza de lado só por esta
noite?
— Não. Estará me esperando ao amanhecer.
— Amanhã nos preocuparemos com isso.
Alissa tinha razão. Aquele momento era uma trégua entre batalhas, e Jake seria
tolo se não aproveitasse.
O desejo veio com ardor, tornando seus beijos mais urgentes e suas carícias
mais agressivas. Jake saboreou a mistura deliciosa de calor e maciez, impelido por
uma força irresistível. Ouviu os suspiros dela, atendeu a pedidos incoerentes, querendo
mais do que nunca lhe dar a satisfação que Alissa desejava tanto. Por fim, movimentou
os quadris, fundindo seus lábios nos dela. Os músculos de Alissa se retesaram. Nesse
instante, seus olhos se encontraram.
O que Jake viu foi como uma punhalada na sua alma. Ali estava o amor. Um
amor permanente, puro, fiel e absoluto. Percebeu então que Alissa oferecia um amor
duradouro para um marido temporário.
E os temores voltaram, tempestuosos.

CAPÍTULO IX

Jake despertou algumas horas depois, sem saber onde estava, os músculos
doloridos. O fogo se extinguira, e Alissa dormia aninhada junto ao seu corpo.
Movimentando-se com cuidado, tentou aliviar a cãibra que sentia na perna.
— Que horas são? — Alissa murmurou, acordando.
— Hora de ir para a cama. Quer ficar em seu quarto ou prefere dormir comigo?
— Não sei por que ainda pergunta.
— Porque estamos numa casa nova. E depois do jantar...
— Ficarei onde você estiver — disse Alissa, com firmeza, aconchegando-se nos
seus braços.
As palavras dela reviveram os momentos de amor. Jake lembrava-se da
expressão nos olhos de Alissa, que falava de milagres, finais felizes e eternidade.
Aquela certeza havia voltado. Estava também na sua voz, no seu toque, nos seus
beijos. A necessidade de se distanciar tornou-se irresistível.
— Seu lugar pode ser ao meu lado agora — Jake advertiu, áspero —, mas
dormir na minha cama não vai fazer com que eu a conserve mais que o necessário.
Quanto tempo será? Alguns dias, uma semana, um mês?
— Não importa quanto tempo ainda temos. — A insensibilidade de Jake passou
despercebida para Alissa. — Quero que tudo seja maravilhoso, uma bela recordação
quando eu for embora e você começar a me esquecer.
Sua generosidade irrestrita era pior que lágrimas e recriminações. Levantando-
se, Jake a carregou.
— Vamos para a cama. Podemos ter apenas um curto período, mas quantas
recordações guardaremos...
— Quando não restar mais nada? — completou, tristonha.
Mas Jake não foi capaz de responder.
Os meninos voltaram tarde no dia seguinte, exaustos e excitados, querendo
contar suas aventuras para Alissa e Jake.
— E então aquele touro enorme foi para cima de Dusty — disse Buster, com as
pernas abertas e o chapéu para trás, numa imitação perfeita da postura de Jake. —
Achei que ele estava liquidado.
Chick puxou o braço do irmão, murmurando algo.
— Mas Dusty nem se mexeu. Só cuspiu. Foi tão legal...
— Vocês correram perigo? — Alissa perguntou, assustada.
— Não. Os caubóis não deixaram que nos aproximássemos. Mas ainda não
acabei minha história. Dusty pegou uma corda e laçou o bicho no mesmo instante.
Você me ensina a fazer isso, papai? — Ao perceber o que dissera, Buster se calou de
repente, empalidecendo. Depois, lançou um olhar assustado para Alissa e saiu da sala
correndo.
— Vou falar com ele.
— Por favor, Jake, eu mesma falo.
Jake assentiu, e ela foi atrás do sobrinho, levando Chick.
Alissa ouviu os soluços antes mesmo de entrar no quarto de Buster. Sentando-
se na cama, Chick afagou os cabelos do irmão.
— Você está bem, querido?
— Eu não queria falar aquilo, titia — disse o garoto, entre lágrimas. — Sei que
tio Jake não é meu pai. Você nos disse que só íamos ficar um pouco, como se fosse
um emprego de verão. Mas eu não quero ir embora.
— Sei disso.
— Por que não podemos ficar? — Buster levantou a cabeça para fitá-la. —
Gosto daqui. Chick também.
Chick acenou com a cabeça, o olhar suplicante.
— Não seria justo para com Jake. — Alissa engoliu em seco, esforçando-se para
manter a compostura. — Prometi que só ficaríamos durante algum tempo. Tenho de
manter a palavra.
— Não pode pedir que ele mude de idéia? Se tio Jake consentir, você não estará
faltando com a palavra. — Buster se jogou nos braços de Alissa. — Por favor, deixe-
nos ficar. Vamos nos comportar e não criaremos mais problemas, prometo.
Percebendo o desespero do sobrinho, Alissa fechou os olhos. Recusar o pedido
de Buster era a coisa mais difícil que fazia na vida, ainda mais porque era o que ela
também queria.
— Sinto muito — Alissa murmurou, reprimindo o pranto. — Por favor, tente
entender. Eu não posso. Quando chegar a hora, teremos de partir.
Jake examinou outro recibo e conferiu o total, um som distante interrompendo
sua concentração. Havia horas se trancara no escritório, trabalhando. Era uma bênção
não precisar pensar, nem sentir, cumprindo a rotina diária como um autômato.
O som se repetiu, e Jake franziu as sobrancelhas, jogando o lápis na mesa. O
que era aquilo? Abriu a porta, e o barulho o assustou tanto que ele gelou. Um outro
soluço de partir o coração o fez atravessar o hall e ir correndo para a cozinha. Alissa
estava sentada no chão, chorando, com as mãos no rosto. Jake se ajoelhou ao lado
dela. Com exceção daquela lágrima na noite de núpcias, nunca havia visto Alissa
chorar.
— O que houve? — Jake perguntou, receando tocá-la. Alissa mostrou a mão,
soluçando.
Jake examinou-a. Não havia cortes nem ferimentos. Não estava inchada.
— Onde você se machucou, Alissa?
— Não me machuquei.
— Então, por que está chorando?
— Eu perdi! — Alissa levantou a cabeça, mostrando a mão. — Caiu no ralo.
Jake olhou para a mão de Alissa e, por fim, entendeu.
— A sua aliança caiu no ralo?
O pranto tornou a correr dos olhos dela, e Jake a tomou nos braços.
— Não chore. Compraremos outra.
— Não quero outra! Quero nossa aliança. A que você me deu quando nos
casamos.
Antes que Jake pudesse responder, Buster e Chick apareceram à porta,
seguidos por Dusty.
— O que houve? — o capataz perguntou.
— A aliança dela caiu no ralo — Jake explicou. — Vá buscar uma chave inglesa,
por favor.
— Seria melhor uma pá. Vamos ter de cavar todo o esgoto para encontrá-la.
Alissa estremeceu nos braços de Jake.
— Se eu quisesse saber sua opinião, teria perguntado, Dusty. Ande logo!
— Já estou indo. Não precisa ficar bravo. — Dusty lançou para os garotos um
olhar ameaçador. — Tomem cuidado. Uma desgraça nunca vem sozinha.
Infelizmente, ele tinha razão. Nem uma hora depois, Jake quebrou a mão
tentando tirar o cano. E no dia seguinte...
— Chamem Jake no celeiro — Alissa disse aos garotos, enquanto a sra. Marsh
descia do carro que alugou. — Depois, vão brincar lá em cima. Jake e eu queremos
conversar com ela em particular.
— O que a sra. Marsh veio fazer aqui? — Buster perguntou, apreensivo.
— Ela quer conhecer Jake e ver como vocês estão passando.
— Vai nos levar embora?
— Claro que não. — Alissa abraçou os garotos. — Dará tudo certo. A sra. Marsh
só veio nos visitar. Agora, vão chamar Jake.
Ele encontrou Alissa na cozinha.
— Aquela mulher que está na sala é o seu dragão?
— Você vai ver, Jake. Não se deixe enganar pelo sorriso nem pelas covinhas. A
sra. Marsh é tão dura quanto uma sola de sapato.
— Qual é o nome dela?
— É Kitty; mas nem os meninos podem chamá-la assim. Jake pegou a bandeja,
sorrindo.
— Vá na frente, donzela. Tenho de matar um dragão. Jake levou trinta segundos
para descobrir que Alissa tinha razão.
A sra. Marsh, uma mulher de aparência frágil, com quarenta e poucos anos,
tomou um gole de chá, fixando seus olhos azuis em Jake e mostrando as covinhas.
— Não gosto de perder tempo — disse ela. — Por que não vamos logo aos
negócios?
— Não sabia que tínhamos um negócio a tratar. — Jake ergueu a sobrancelha.
— Não tínhamos. — Kitty encarou Alissa. — Até pouco tempo.
— Então, fale. — Jake deu de ombros. — Estou ouvindo.
— Você tem uma bela fazenda. Para quem gosta delas...
— Então você não gosta.
— Não. Mas soube que é um dos melhores fazendeiros que há por aqui. Deve
ser por isso que se casou. Uma cláusula do testamento do seu avô, não?
— Isso mesmo. E daí?
— Agora que recebeu sua herança, não precisa mais de uma esposa. É o que
dizem todos na cidade. Logo porá Alissa e os garotos para fora de casa.
— Ouviu isso, ninfa? — Ignorando as regras da boa educação, Jake pôs o pé na
mesinha de centro. — As pessoas daqui acham que vou pôr você para fora junto com o
lixo.
Alissa murmurou alguma coisa descortês, e Jake ficou na dúvida se dirigia à sra.
Marsh ou a ele.
— Por favor, sr. Hondo, seja franco. — Kitty Marsh se encostou na cadeira e
cruzou as pernas. — Agora que sua herança está segura, não precisa mais fingir que
tem uma família. Mais cedo ou mais tarde, se livrará deles. E eu pretendo pagar para
que seja logo.
— Quanto? — perguntou, por curiosidade.
Alissa abriu a boca, sem poder acreditar, mas Jake continuou encarando Kitty,
que estava sentada à sua frente.
— Quanto gostaria de receber? — A sra. Marsh sorriu, triunfante.
— Não sei... Para ser franco, tenho mais do que o suficiente para gastar a vida
toda.
— Talvez possa oferecer outra coisa — disse ela, com um sorriso provocante. —
Aceito sugestões.
— Não se dê ao trabalho de seduzi-lo — Alissa interviu. — Jake não se
interessa por mulheres casadas.
— Só por uma — disse Jake, calmo.
— Então, vamos ficar nos bens materiais. O que quer em troca dos meninos?
— Por que quer ficar com eles?
— Por que uma pessoa quer brilhantes ou peles ou um carro novo? — Kitty deu
de ombros. — É uma vontade incontrolável. Instinto maternal ou alguma coisa assim.
"Instinto maternal, é? Sei!"
— Esqueça — disse Jake, cansado daquela conversa.
— Não respondi direito — Kitty insistiu, — Vamos ver... — Lágrimas falsas
brotaram nos olhos dela. — Eles foram tudo o que restou do meu pobre irmão. Tenho
tanta coisa para lhes dar... E como não tenho filhos...
— Por favor! — Alissa a interrompeu. — Você nunca quis ter bebês. Dizia que
estragariam seu corpo, que faziam muita desordem.
— Não entendem?! Assim é muito melhor. Sem gravidez, nem crianças
chorando. E eles já estão educados. Quanto quer, sr. Hondo?
— Não estou à venda, nem eles.
— Você não entendeu. — A voz dela endureceu. — Estou disposta a fazer
qualquer coisa para ficar com os garotos.
— É Brad quem quer, não? — Alissa adivinhou.
— É. — A fúria tirou toda a sua beleza. — Depois desses anos todos, meu
marido resolveu que quer filhos, e estou desconfiada de que ele está procurando uma
mulher mais moça. Buster e Chick são minha única esperança.
— Pouco me importam seus problemas conjugais. Os meninos vão ficar aqui.
— Já que é essa a resposta final, vou tomar providências.
— Posso saber quais? — Jake perguntou, despreocupado.
— Se não me derem meus sobrinhos, vou levar Alissa ao tribunal.
— Alegando o quê?
— A segurança dos garotos. Desde que chegaram ao Texas, foram obrigados a
ficar numa tapera quando podiam vir para cá. Tentaram andar no cavalo mais perigoso
da região. E quase foram picados por uma cobra. Faltou alguma coisa?
— Como descobriu tudo isso? — Alissa indagou, em pânico.
— Randolph! — Jake não precisou perguntar.
Kitty voltou a atenção para Alissa.
— Farei uma proposta. Se me entregar os garotos, poderá continuar a vê-los.
Mas, se eu tiver de ir para o tribunal, nunca mais os verá.
— Isso é uma ameaça.
— Na verdade, sr. Hondo, é uma promessa, que pretendo manter. — Pegou a
bolsa e se levantou. — Conversem à vontade e, quando chegarem a uma conclusão,
me procurem na cidade.
— Não quer ver seus sobrinhos antes de ir embora? — Jake perguntou, irônico.
— Não é preciso. Eles estarão comigo antes do dia de Ação de Graças. Por
favor, não se incomodem. Sei onde é a saída.
— Quer me tirar o prazer de botá-la para fora de casa?
— É uma ameaça?
— Eu também não ameaço. Só faço promessas.
— Quebrou a mão numa briga? — Kitty perguntou, recuperando a compostura.
— Minha lista está cada vez mais longa. O que só aumenta a preocupação com meus
sobrinhos.
— Se acha que Jake vai bater neles, está muito enganada — disse Alissa,
defendendo-o. — Ele é o homem mais meigo e bondoso do mundo.
— Desista, ninfa. Até eu tenho dificuldade em engolir essa.
— Como todos que o conhecem — acrescentou a sra. Marsh. — Espero que
entrem em contato comigo. Adeus.
Os meninos subiram para o quarto sem fazer barulho.
— Venha, Chick. Tenho um plano — disse Buster. — Ela não poderá nos levar
se não nos encontrar. Vamos nos esconder até a sra. Marsh desistir e ir embora.
Chick murmurou alguma coisa.
— É, eles vão ficar preocupados — Buster respondeu. — Deixaremos um
bilhete, mas não diremos onde estamos. Assim, ninguém poderá nos obrigar a ficar
com a sra. Marsh.
— O que vamos fazer? — Alissa tentava não entrar em pânico.
— Esperar, por enquanto.
— E as ameaças que ela fez?
— Mesmo que nos leve ao tribunal, duvido que vença — Jake deu de ombros.
— Ainda estamos juntos, apesar dos comentários.
Alissa não ousou perguntar por quanto tempo.
— E quanto às outras queixas, o cavalo e a cobra, por exemplo?
— Estamos no Texas, Alissa. Não há um único menino por aqui que não tenha
caído de um cavalo ou enfrentado uma cobra. Espero que o juiz a considere uma tia
amorosa, mas preocupada demais. Kitty sabe representar esse papel, não?
— É mestra — Alissa assegurou. — Convence qualquer pessoa com aquelas
covinhas. E quando não consegue, começa a chorar.
— Eu vi. Que o céu me proteja das mulheres choronas.
Alissa olhou para o anular da mão esquerda e mordeu o lábio.
— Desculpe-me, querida. Não me referia a você, pois tinha um motivo para
chorar. Como queria ter encontrado aquela aliança...
— A culpa não foi sua. Eu devia ter mandado arrumá-la.
— Vamos até a cidade comprar outra que sirva. — Jake, abraçou-a. — Talvez
isso ajude a convencer a sra. Marsh a... Só estou piorando tudo, não?
— Não seria a mesma coisa, Jake. Aquela aliança fazia parte do Baile da
Cinderela, do dia em que nos conhecemos. — Deu de ombros. — Acho que não sei
explicar.
Jake fechou os olhos. Alissa não precisava explicar. Ele entendia mais do que
ela podia imaginar. Alissa estava sofrendo, e Jake não podia fazer nada.
No fim do dia, ocorreu a Jake uma solução.
— Já acabamos, Jake? — Dusty perguntou. — Ou continua se castigando?
— Os empregados têm reclamado?
— Ainda não. Mas não foi por isso que perguntei — Dusty respondeu, olhando
para o norte.
Jake guardou as ferramentas e foi procurar Alissa.
— Venha comigo, ninfa. Quero lhe mostrar uma coisa.
— O que é?
— Já viu o vento norte?
— Nem sei do que se trata.
Jake levou-a para a varanda e mostrou as nuvens negras que se acumulavam
no horizonte. Enquanto Alissa olhava, as nuvens encheram o céu cristalino.
— É perigoso, Jake?
— Pode ser, se nos descuidamos. Esses ventos vêm de repente e sopram com
muita força. A temperatura cai depressa, e chove.
— Vou mandar os meninos se agasalharem.
— Boa idéia. — Jake a atraiu para junto de si, os olhos dourados brilhando. —
Isso pede uma lareira; o que acha? Assim, você não precisará pôr roupas quentes.
Aliás, não precisa pôr roupa nenhuma.
— Quer que eu sinta frio? — perguntou, com um olhar inocente.
— Darei um jeito nisso. Depois do jantar, poderemos mandar os garotos para a
cama, abrir uma garrafa de vinho e comemorar a chegada do inverno.
— Que tipo de comemoração você tem em mente? — Alissa o abraçou pela
cintura.
— Algum ritual pagão. Daqueles em que os participantes ficam nus e correm em
círculos. Você pode ser a ninfa da floresta, e eu, o sátiro.
— Pensei que esse fosse o ritual da primavera...
— Não tem importância. — Jake roçou a boca no pescoço dela.
— Chame os garotos enquanto começo a fazer o jantar.
— Achei que eles estavam em casa com você — ele perguntou, desnudando o
ombro dela.
Alissa retesou o corpo.
— Não estão?
— Buster e Chick disseram que iam ajudá-lo, Jake.
— Quando?
— Logo depois que a sra. Marsh...
Jake foi depressa para o quarto dos meninos. Antes de ver o bilhete, já sabia
que eles tinham fugido. As gavetas da cômoda estavam abertas, e as roupas,
espalhadas pelo chão e pela cama. O retrato dos pais deles também tinha
desaparecido.
Alissa entrou no quarto atrás dele e pegou o bilhete sobre o travesseiro. Leu em
voz baixa, cobrindo a boca com a mão trêmula; depois se jogou nos braços de Jake.
— Vamos encontrá-los — afirmou ele, tentando tranqüilizá-la. — Organizarei
uma busca. Os meninos não podem estar muito longe daqui.
— Você disse que essas frentes frias chegam depressa. Quanto tempo ainda
temos?
— Umas duas horas.
Gastaram trinta minutos procurando em casa e na fazenda, mas Buster e Chick
não foram encontrados. Por fim, Jake chamou Dusty de lado.
— Reúna os homens e partam a cavalo. — Olhou para o céu. — A frente fria
está se aproximando mais depressa do que eu imaginava. Não temos muito tempo.
— Vou até a Trilha Perdida para ver se estão lá — Dusty se ofereceu.
— Boa idéia.
Jake voltou para casa, depressa. Já esperara demais. Agora tinha de agir. Iria
pedir ajuda pela primeira vez na vida. Só esperava que os habitantes de Chesterfield
não o decepcionassem. Pegando o telefone, teclou um número.
— Aqui é Belle Blue. O que deseja?
— Jake Hondo — disse ele, respirando fundo. — Belle, preciso de ajuda.
— Você?! Qual é o problema?
— Os garotos fugiram.
— Oh céus! Jake, o vento norte vem aí.
— Eu sei! — Fechou os olhos lutando para manter a calma. — Você forma uma
equipe de busca para mim? Precisamos encontrar logo esses meninos.
— É para já. Jake? Não fiquem preocupados — disse ela com mais ternura do
que nunca. — Eles vão ser localizados.
— Obrigado — murmurou, desligando.
CAPÍTULO X

— O que vamos fazer, Jake? — Alissa perguntou, tentando se controlar.


— Continuar procurando — ele respondeu, exausto.
— Não entendo como aqueles dois ainda não voltaram. Podem ser travessos,
mas não são tolos. Não ficariam fora de casa com esse tempo. E a Trilha Perdida?
Talvez eles...
— Dusty já procurou lá.
— É uma longa caminhada. Talvez ainda não tivessem chegado na casa, ou
podem ser que se escondido de Dusty.
— Está bem. Vou procurar de novo.
— Irei com você.
— Pegue casacos e cobertores. Se os encontrarmos, estarão gelados de frio.
Como Jake estava com a mão quebrada, Alissa dirigiu a pick-up.
— Alissa! Estou vendo uma luz — disse Jake ao avistar a casa.
Ela pisou no acelerador, e a pick-up atravessou o gramado aos trancos. Parando
à porta da cozinha, saiu e correu para a casa. O que viu quase a fez cair de joelhos. Os
meninos estavam abraçados, imóveis, diante do fogão a lenha, que estava aceso,
aquecendo um pouco a cozinha gelada.
— Buster? Chick? — ela chamou, aproximando-se, devagar, com medo do que
poderia encontrar.
Ouvindo a voz da tia, eles se moveram. Alissa soltou uma exclamação de horror
ao ver os rostos pálidos e azulados.
— Oi, tia Alissa — disse Buster, com a voz enfraquecida. — Que bom que você
veio.
Ela os abraçou com carinho, contendo sua emoção.
— Tentamos ligar, mas o telefone não funcionava.
Jake entrou, então, e jogou os casacos e cobertores aos pés dele. Chick ergueu
os braços.
— Tio papai! — ele murmurou. — Eu sabia que você vinha me buscar!
Aquilo foi demais. O mais negro desespero produzia um milagre. Alissa inclinou
a cabeça e rompeu em lágrimas. Jake carregou Chick e escondeu o rosto nos cabelos
sedosos do menino, as mãos tremendo incontrolavelmente.
— Ligue o motor da pick-up e ponha o aquecedor no ponto mais alto enquanto
agasalho os garotos — Jake ordenou, com a voz tensa. — Precisamos levá-los ao
hospital o mais depressa possível.
— Eles vão ficar bem? — Alissa perguntou, ansiosa.
— Espero que sim. Vamos.
Alissa tentou engatar a marcha, mas o motor afogou. Pela primeira vez, Jake a
ouviu soltar uma imprecação.
— Calma, querida. Sei que você está assustada. Mas vai dar certo. Prometo.
— Não posso! Chick está falando, e eu não consigo me controlar.
— Os meninos estão bem. Mas têm de ser examinados por um médico.
— Estamos bem agora, tia Alissa — Buster repetiu. — Não precisa ficar com
medo.
— Não precisa, não — Chick confirmou.
— Agora, vá com calma, como eu ensinei. Lembra-se? A primeira marcha é um
beijo.
Alissa assentiu, reprimindo as lágrimas. Então, respirou fundo e ligou o motor.
Dessa vez, conseguiu engatar a primeira.
— Isso mesmo. Agora o toque leve.
— O hospital fica muito longe, Jake?
— O mais próximo é em Two Forks.
— Jake...
— Não entre em pânico. Você conseguirá. Passe para a terceira.
— Um toque mais ousado — disse ela, com a voz trêmula.
— Isso mesmo. Agora, volte ao toque leve para fazer a curva. Muito bem.
Quando parou diante da porta do pronto-socorro, as mãos de Alissa não
soltavam o volante. Por isso, quando conseguiu sair da pick-up, os garotos já haviam
sido levados.
— Seus filhos já estão sendo examinados, sra. Hondo — disse uma enfermeira,
entrando na sala de espera. — Trouxe alguns papéis para a senhora preencher.
Enquanto Alissa escrevia, esperando para saber notícias dos dois, Jake
procurou um telefone público para avisar que os meninos já haviam sido encontrados.
— Foram todos procurar — disse ele, quando voltou. — Todos os homens. Até
Randolph.
O médico apareceu trinta minutos depois.
— Trago boas notícias. Buster e Chick estão bem. Foi uma sorte o mais velho
ter acendido o fogo.
— Podemos vê-los? — Alissa perguntou.
— Claro. Mas ficarão em observação durante esta noite. Os garotos estavam na
pediatria, deitados lado a lado.
Alissa abraçou Chick com tanta força que ele reclamou. Jake se sentou na cama
de Buster.
— Você está bravo, tio Jake?
— Claro que estou, Buster. Por que fugiram?
— Ouvimos a sra. Marsh dizer que ia nos levar. Então, achei melhor nos
escondermos até ela ir embora.
— Vocês não confiam no tio Jake?
— O que, tia Alissa? — Buster olhou para ela, confuso.
— Deviam saber que ele cumpriria sua promessa. Jake disse que nos protegeria
da sra. Marsh, e é o que pretende fazer.
— Alissa — Jake começou. — Não acho...
— É importante que eles saibam. Eles precisam confiar em você. Entenderam?
— Certo — disse Chick, sem hesitar, aconchegando-se nos braços dela.
— Desculpe-me não ter confiado em você, tio Jake — disse Buster, arrependido.
— Nunca mais vou fazer isso de novo.
Apertando as mãos, Jake se encostou na cabeceira da cama e fechou os olhos.
Como iria sair dessa?

A sra. Marsh apareceu logo de manhã cedo.


— Soube o que aconteceu com meus sobrinhos — disse ela, entrando na casa
como se esta lhe pertencesse.
— E veio ver como eles estão — Jake completou por ela.
— Errado. Vim fazer um ultimato.
— Outro? — Alissa perguntou.
— O derradeiro. Agora não há dúvida de que vou ganhar a custódia dos garotos.
Eles passaram por muitos perigos com vocês. Por isso, vou lhes dar mais...
— Diga logo o que quer — Jake a interrompeu.
— Está bem. Vocês se casaram rápido em Nevada, agora quero que se
divorciem mais depressa ainda no México. Se fizerem isso, permitirei que Alissa visite
os meninos. Se não aceitarem, ela nunca mais os verá. Exijo uma resposta imediata.
Jake sabia o que gostaria de dizer. Mas bastou olhar para Alissa, que tentava
esconder o medo que sentia, para desistir da idéia.
— E então? — Kitty perguntou, impaciente.
— Meu casamento em troca dos garotos, é isso o que quer? — Jake cerrou os
punhos.
— Isso mesmo.
— Concordo: com uma condição.
— Jake, não! — Alissa enxugou com a mão as lágrimas que brotaram nos seus
olhos. — Não faça isso.
— Diga.
— Preciso de tempo.
— Está bem. Dou-lhe três dias.
— Pode demorar mais.
— Você tem dinheiro. Use-o. Essas coisas se resolvem com facilidade... desde
que se pague o preço certo.
— Ah, tenho outra condição. Vou viajar hoje, mas preciso que você prometa que
não vai agir enquanto eu não voltar.
— Espero três dias, nem um segundo a mais. Estamos combinados?
— Está bem.
— Não foi tão difícil quanto eu imaginava. — Kitty soltou um suspiro exagerado
de alívio. — É um prazer fazer negócios com o senhor, sr. Hondo.
— Não acho.
— Na próxima vez em que nos encontrarmos, espero que esteja com os papéis
do divórcio na mão. Não me desaponte. Não vai querer me ver irritada. — Lançando
um olhar de triunfo para Alissa, ela saiu da sala.
O silêncio reinou por um minuto. Jake olhou para o chão, preparando-se para
enfrentar as lágrimas, a desilusão, as súplicas.
— Jake...
Ele a interrompeu com o olhar.
— Não temos escolha, você sabe. Precisamos resolver o problema do nosso
casamento de uma vez por todas.
— Mas...
— Não quero ouvir. Os meninos vêm em primeiro lugar. Quer perdê-los? Aquela
mulher não está brincando. Está desesperada e com a faca e o queijo na mão.
— Você prometeu! Fizemos um acordo!
— Prometi cuidar do dragão, e é isso o que vou fazer. Mas tem de ser à minha
maneira.
Alissa fez menção de falar, mas hesitou. Aproximou-se dele passo a passo,
olhando-o como se estivesse enxergando sua alma. As perguntas dançavam em seu
olhar, tremulavam nos seus lábios. Mas não disse nada. Havia confiança absoluta nos
seu olhar.
— Cuide de tudo, Jake.
— Só isso? Sem perguntas nem queixas?
— Adiantaria?
— Não.
— Se você vai passar três dias fora, precisa levar roupas. Quer que ajude a
arrumar sua mala?
— Sim, obrigado. Mas primeiro quero falar com os garotos. Depois de explicar
para Buster e Chick que ia viajar a negócios, Jake pegou algumas peças de roupa que
Alissa arrumou numa valise.
— Tenho de ir, Alissa.
— Boa viagem. Vejo-o daqui a alguns dias. Certo?
— Certo. Você vai me ver de novo. — Pegando a valise, Jake se dirigiu para a
porta, mas achou que não podia partir assim. A valise caiu ao chão. — Venha cá.
Alissa correu para os braços dele, quase derrubando-o.
Reunindo todas as suas forças, deslizou as mãos pelo peito musculoso. Sua
boca tocou o rosto áspero, depois pousou nos lábios dele. Jake a beijou com um
desespero que não a enganou.
— Preciso ir agora, Alissa. Confia em mim?
— Sempre confiei. E sempre confiarei.
— Nunca ninguém confiou em mim antes.
— É porque você não estava casado comigo.
— Você não sabe como está se arriscando...

O juiz Graydon bateu o martelo, impondo ordem na sala lotada do tribunal.


— Já esperamos demais — disse ele, olhando para Alissa.
— Tem notícias de Jake?
— Ainda não.
Não recebera nenhuma notícia do marido nos cinco dias intermináveis que se
passaram desde que ele partiu. Durante esse tempo, Alissa construiu uma muralha ao
redor das suas emoções, não deixando que nada penetrasse, a não ser seus
sobrinhos. E o tempo todo agarrou-se à sua esperança e à sua fé, descobrindo nas
horas tardias da noite que elas eram companheiras muito frias.
— Vamos ter de começar sem ele. — O juiz suspirou. — Mas quero deixar bem
claro que esses não são os trâmites legais.
Graydon olhou primeiro para Peter, que estava ao lado de Alissa, depois para o
advogado que acompanhava a sra. Marsh. — Vamos ter apenas uma conversa
amigável para ver se é possível um acordo.
— Larry Livingston Jr., meritíssimo — o outro advogado se apresentou,
levantando-se. — Posso garantir que não é possível.
— Sente-se e fique calado — disse o juiz, apontando o martelo para ele. — Direi
quando estiver interessado em saber sua opinião, entendeu?
— Entendi, meritíssimo.
— Muito bem. Verifiquei as queixas da sra. Marsh. Ninguém pode alegar que os
incidentes que ela menciona não aconteceram. O próprio Jake me falou do cavalo e da
cobra.
— Protesto, meritíssimo. — Livingston se levantou de novo. — Há um conflito de
interesses por causa do seu relacionamento com o réu. Por isso solicito...
— Sente-se! Já disse que esta é apenas uma conversa amigável.
— Mas, meritíssimo...
— Vou lhe dar um conselho, sr. Livingston. Como sou o único juiz da cidade,
sugiro que não crie problemas. Isso não vai ajudar sua cliente, entendeu?
— Entendi, meritíssimo.
— Peço permissão...
— Seja rápido, sr. Bryant.
— Sim, meritíssimo. Só quero dizer que todos os garotos fazem travessuras.
— Muita perspicácia de sua parte, Peter — disse o juiz, com desdém. — Só que
esses incidentes foram um pouco mais sérios.
— Não é só o perigo — disse a sra. Marsh, parecendo muito preocupada. —
Levando em consideração as circunstâncias do casamento de Alissa, não sei como
alguém pode dizer que meus sobrinhos devem ficar com ela.
— Que circunstâncias são essas? — o juiz perguntou, levantando uma
sobrancelha.
— Todos sabem que o relacionamento deles é uma farsa. O sr. Hondo só se
casou para ficar com a Fazenda Chesterfield. Isso não é segredo, como também não é
segredo que vão se divorciar. Ela não terá marido, nem lar, nem recursos para
sustentar os meninos.
— Nunca acreditei em boatos. — Graydon franziu as sobrancelhas. — E a
senhora também não deve acreditar. Pelo que sei, não se fala em divórcio.
— O senhor está enganado. É por isso que Jake não está aqui. Está se
divorciando enquanto conversamos.
Um burburinho percorreu a sala.
— Quer dizer que sabe onde Jake está?
— Tente o México. Ou talvez o Haiti. Onde quer que ele consiga um divórcio
rápido.
— Sabia que Jake está tratando do divórcio? — O juiz voltou sua atenção para
Alissa.
— Não. Porque não é verdade.
— Agora tudo muda de figura. Uma diz que ele está, e a outra, que não. Vamos
resolver isso.
— Com licença, meritíssimo. — Randolph se levantou no fundo da sala. —
Posso falar?
— Não precisamos de sua ajuda, Chesterfield.
— Pretendia dizer alguma coisa a favor de Jake. — Randolph levantou as mãos
para abafar as exclamações de dúvida ao seu redor. — Sei que é a primeira vez. Mas
descobri há pouco que estive enganado a respeito dele, que o acusei de coisas que
nunca fez. Meu... primo nunca pôs as mãos em Evie, apesar de tudo o que eu disse no
passado. Foi só um enorme mal-entendido. Vi Jake deixar Evie uma noite, ouvi que ela
chorava e presumi... Evie tentou me explicar na ocasião, mas não acreditei. Acho que
queria pensar o pior de Jake. Vocês sabem por quê.
— O que o fez mudar de idéia? — Alissa perguntou.
— Você e Evie. A maneira como vocês duas o defenderam. Depois do jantar na
semana passada, minha esposa pôs-se a falar disso, e eu não tive remédio senão
escutar. Não quero mais tirar conclusões a respeito de Jake. Se Alissa diz que ele não
vai se divorciar dela, Jake terá de dizer o contrário para eu acreditar.
— Falou bem — o juiz Graydon aprovou. — Mas isso não altera o fato de que
Jake não está aqui, e temos informações discordantes a respeito das suas intenções.
Alissa o que seu marido disse antes de partir?
— Tenho de responder?
— Receio que sim.
Respirando fundo, ela confessou:
— Jake falou que não tinha opção. Que ia resolver a questão do casamento de
uma vez por todas.
Um murmúrio de espanto se espalhou pela sala.
— Isso não indica que Jake pretende se divorciar? — o juiz Graydon perguntou,
gentil.
— Confio em Jake. Ele não faria isso comigo. Sabe que preciso de um marido
para conservar meus sobrinhos.
— O fato é que Jake está se divorciando de Alissa. — Asa Blue se levantou. —
Nós o conhecemos bem. Sabemos por que se casou e que pretendia se divorciar
depois que recebesse a herança.
Ninguém discordou.
— Vamos agora ao que interessa — Asa continuou. — Alissa diz que a irmã lhe
confiou a guarda dos filhos no testamento. A sra. Marsh diz que, sem um marido, um lar
e um emprego, os garotos ficariam em melhor situação com ela. Portanto, se Alissa
tiver o que precisa, não haverá mais problemas.
Um rumor de aprovação soou na sala.
— Ouçam o que proponho — disse Asa. — Belle e eu oferecemos a Alissa um
emprego. Quanto a um lar... se ela não se casar de novo, nós alugaremos uma casa
para Alissa na cidade. Só falta o marido. — Examinou a sala, com as mãos nos
quadris. — Quem estiver interessado em se casar com Alissa, levante-se para que ela
possa escolher.
— Esperem um pouco — interferiu a sra. Marsh. — Isso é uma loucura!
— Por quê? — O juiz Graydon piscou, malicioso. — A senhora impôs certos
requisitos para Alissa ficar com os sobrinhos, e nós estamos providenciando para que
sejam atendidos.
— Só há uma problema — Alissa o interrompeu. — Eu não concordei ainda.
— Querida — disse Belle. — A solução de Asa é perfeita.
— Jake e eu ainda estamos casados.
— Gostaria de acreditar, mas você tem de ser realista. Sabe que tipo de homem
Jake é, e que ele só queria um casamento temporário. Suas próprias palavras o
condenam. Embora seja difícil, chega uma hora em que temos de encarar os fatos.
— Você tem razão, Belle — disse Alissa, olhando á volta. com a exceção de
Randolph, todos lhe lançaram olhares compassivos. — Considerando as evidências,
tudo indica que Jake vai se divorciar de mim.
Jake, que estava parado à porta da sala, pegou no braço da mulher que estava
ao seu lado antes que ela pudesse revelar sua presença.
— Fique quieta — ele murmurou. — Deixe que ela acabe.
— Mas...
Alissa estava com a cabeça abaixada. Jake queria afagar seus cabelos sedosos
e beijá-la. Mas não se mexeu. Esperou, inabalável na sua convicção.
— E óbvio para todos aqui que Jake vai se divorciar de mim — Alissa afirmou,
com a voz firme e envolvente. — Mas não acredito. Vocês todos estão enganados.
Acho que Jake me ama. E sei que o amo. Por isso, tenho de recusar sua oferta
generosa enquanto ele não entrar aqui com os papéis na mão. Mas agradeço o seu
apoio.
Era tudo o que Jake precisava ouvir. Atravessou o tribunal sem olhar para os
lados. O tempo todo manteve os olhos fixos na única pessoa do mundo que importava
para ele. Jake a beijou como se não houvesse passado nem futuro, com toda a paixão
de um homem que viveu uma vida de vazio e desespero; beijou-a até que os últimos
dias desaparecessem da sua mente.
Jake sentiu as lágrimas que corriam pelo rosto de Alissa, ouviu o som glorioso
de seu nome pronunciado por seus lábios.
— Eu te amo — Jake murmurou no ouvido dela. — E juro que nunca mais
precisará duvidar de mim.
— Com licença! — disse a sra. Marsh, com a voz cortante. — Podemos
continuar?
— Claro. — Jake posicionou-se entre Alissa e Kitty. — Posso saber o que está
acontecendo aqui?
— Estamos escolhendo um marido para sua esposa — disse uma voz no outro
lado da sala.
— Minha esposa já tem um marido, e não precisa de outro. — Os olhos de Jake
brilharam perigosamente.
— O quê? — Surgiram manchas vermelhas no rosto de Kitty. — Você disse que
ia obter o divórcio! Fizemos um acordo.
— Que acordo é esse?
— Não acho que seja relevante, juiz — disse Kitty, empalidecendo.
— Pois eu desconfio que seja muito relevante. — O juiz estreitou os olhos. —
Mas trataremos disso mais tarde. Importa-se de responder a algumas perguntas,
Hondo?
— Pode começar.
— Correu o boato de que ia haver um divórcio. Acho que você não se importa de
nos esclarecer.
— Um divórcio? — Jake fingiu surpresa. — Seria o meu? — Fixou em Kitty os
olhos frios. — Quem disse que eu ia me divorciar?
— Afirmaram que você estava no México. — O juiz também fitou a sra. Marsh.
— Na verdade, estive em Nevada.
— Sei que não se consegue um divórcio em Nevada em cinco dias. O que foi
fazer lá?
— Comprar presentes para minha mulher — ele respondeu, tirando dois
pacotinhos do bolso.
— Você passou os últimos cinco dias comprando presentes para sua mulher em
Nevada?
— Só podia ser lá. Eram coisas importantes.
— Posso abrir agora? — Alissa perguntou, ansiosa.
— Claro, ninfa.
Alissa tirou a fita e o papel e levantou a tampa de veludo vermelho. Dentro
havia, um par de alianças trabalhadas.
— Oh, Jake!
— Sabe do que foram feitas?
— Dos convites para o Baile da Cinderela — ela respondeu, reprimindo as
lágrimas.
— Você disse que sua aliança não podia ser substituída, porque fazia parte
daquele baile.
— Então foi isso. Você trouxe um par!
— Está na hora de eu também usar, não? — Jake tirou as alianças e pôs a
menor no dedo dela. — Não vá perder.
— Você já não é mais um marido temporário?
— Acho que nunca fui. Isso é para ninguém duvidar.
Jake lhe entregou o segundo presente, um pacotinho achatado.
Abrindo, Alissa viu um saquinho de veludo branco. Dentro havia dois convites.
As palavras "Baile de Aniversário" estavam escritas nas placas douradas. As lágrimas
caíram, grossas e tempestuosas.
— Alguém mais tem dúvida da validade do meu casamento?
— Isso não altera nada, sr. Hondo — a sra. Marsh insistiu, com a voz estridente.
— Ainda há o problema da segurança dos meus sobrinhos. Esse é um homem
perigoso. Olhem para a mão dele. Nem quero saber como a quebrou.
— Como você quebrou a mão, Jake? — o juiz indagou.
— Procurando a aliança de Alissa.
— O quê?
— Ela deixou cair no ralo, e eu não conseguia tirar o cano, por isso...
— Você ficou irritado e quis tirar à força.
— Mais ou menos. Alissa estava chorando.
— O que fazemos para deixar nossas esposas felizes... — O juiz balançou a
cabeça. — Agora, só temos uma coisa a fazer.
— Meritíssimo... — Kitty começou.
— É a minha vez — o juiz Graydon a interrompeu. — Gostaria de lhe dar um
conselho, sra. Marsh. É claro que pode prosseguir com o processo, mas sugiro que
reconsidere. Porque, se continuar insistindo, prometo que vou descobrir qual foi esse
acordo misterioso ao qual Jake se referiu. Depois, passarei a informação às partes
interessadas. Espero que sua visita ao Texas seja breve.
A sala toda aplaudiu.
— Amo você, Jake Obrigada.
— E eu devo amá-la muito. — Jake apontou para alguém. — Senão, não a traria
comigo.
— Laura! O que está fazendo aqui?
— Seu marido é muito persuasivo, e me convenceu a dar outra oportunidade
para o Texas,
As pessoas se aproximaram para cumprimentá-los. Mas Jake só deu a mão
para um homem.
— Obrigado pelo que disse, primo.
— A família deve se manter unida — disse Randolph, dando de ombros.
— Concordo. Por que você e Evie não vêm passar o dia de Ação de Graças
conosco? Temos muito que comemorar.
— Será um prazer, primo.

DAY LECLAIRE e sua família vivem no meio de uma floresta, numa pequena ilha
na costa da Carolina do Norte. Apesar das tempestades violentas e da freqüente falta
de energia elétrica, eles apreciam o clima excelente, a pesca abundante e a vista
maravilhosa do mar. Depois que se mudaram para a ilha Hatteras, uma das suas
primeiras aquisições foi um gato chamado Fuzzy.