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FILOSOFIA GERAL
PROBLEMAS METAFÍSICOS II
Filosofia
► Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
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Prezado(a) aluno(a),

Seja bem-vindo(a) à disciplina Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II.

Apresentamos a você o nosso material de estudo, que tem como objeti-


vo auxiliá-lo na busca, desenvolvimento e aprimoramento de seu conhecimento.
Os temas foram organizados em capítulos/atividades, e os conteúdos
amplamente abordados por meio de textos básicos e de leituras complementares
sugeridas pelos autores. Ao longo de cada capítulo/atividade você encontrará ques-
tões para reflexão e indicações de fontes de pesquisa e leitura para aprofundar seus
estudos.
Em um curso de educação a distância, você é o principal protagonista,
criando, juntamente com os tutores e colegas de sua rede educacional, possibilida-
des de ser investigador do seu próprio conhecimento e aprendizagem. Por isso, todo
o material foi elaborado com o intuito de contribuir para a construção, ampliação e
aplicação de seu conhecimento.
Assim, faça um planejamento de seus estudos, organize seu tempo e
fique atento à data limite de cada atividade que você deve cumprir. Recorra, sempre,
ao seu professor tutor e participe das atividades propostas, interagindo com seus
colegas.
Desejamos que, ao final da disciplina, você tenha aproveitado ao máxi-
mo cada item abordado e que seus estudos possam refletir diretamente na busca de
novos mercados e desenvolvimento pessoal.

Tenha um ótimo estudo!


SUMÁRIO

FILOSOFIA GERAL - PROBLEMAS METAFÍSICOS II

1. A RUPTURA GNOSIOLÓGICA DE DAVID HUME:


UM REDIRECIONAMENTO DA NOÇÃO DE METAFÍSICA . FGPM II 05
2. UMA PROJEÇÃO FILOSÓFICA DA NOÇÃO
DE METAFÍSICA....................................................................... FGPM II 09
3. SÍNTESE PARA AUTOAVALIAÇÃO ....................................... FGPM II 13
4. A METAFÍSICA INSERIDA NA AÇÃO HUMANA .................. FGPM II 15
5. UMA PROJEÇÃO FILOSÓFICA DA NOÇÃO
DE METAFÍSICA ...................................................................... FGPM II 23
6. SÍNTESE PARA AUTOAVALIAÇÃO ....................................... FGPM II 27
7. DUAS ABORDAGENS CRÍTICAS SOBRE A APLICAÇÃO
DOS PRECEITOS METAFÍSICOS.......................................... FGPM II 29
8. JÜGEN HABERMAS VERSUS RICHARD RORTY ............... FGPM II 33
9. SÍNTESE PARA AUTOAVALIAÇÃO........................................ FGPM II 37
10. SOBRE A NATUREZA DA AÇÃO HUMANA:
UMA ABORDAGEM METAFÍSICA ......................................... FGPM II 39
11. A COMPOSIÇÃO DA AÇÃO HUMANA E SUA
INTENCIONALIDADE ............................................................. FGPM II 43
12. SÍNTESE PARA AUTOAVALIAÇÃO........................................ FGPM II 45
13. A RELAÇÃO METAFÍSICA ENTRE O HOMEM
E A NATUREZA EM B. PASCAL............................................. FGPM II 47
14. UMA ABORDAGEM FILOSÓFICA ANTE
UMA PROBLEMATIZAÇÃO ECOLÓGICA ............................ FGPM II 57
15. SÍNTESE PARA AUTOAVALIAÇÃO........................................ FGPM II 59
REFERÊNCIA CRUZADA

Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II

APOSTILA INTERNET
ATIVIDADE ASSUNTO ATIVIDADE ASSUNTO
A RUPTURA GNOSIOLÓGICA
DE DAVID HUME:
1 UM REDIRECIONAMENTO 1 Videoaula 1
DA NOÇÃO DE METAFÍSICA

UMA PROJEÇÃO
2 FILOSÓFICA DA NOÇÃO 2 Videoaula 2
DE METAFÍSICA

SÍNTESE PARA
3 AUTOAVALIAÇÃO 3 Autoavaliação

A METAFÍSICA INSERIDA
4 NA AÇÃO HUMANA 4 Videoaula 4

UMA PROJEÇÃO
5 FILOSÓFICA DA NOÇÃO 5 Videoaula 5
DE METAFÍSICA

SÍNTESE PARA
6 AUTOAVALIAÇÃO 6 Autoavaliação

DUAS ABORDAGENS
CRÍTICAS SOBRE
7 A APLICAÇÃO 7 Videoaula 7
DOS PRECEITOS
METAFÍSICOS

JÜGEN HABERMAS VERSUS


8 RICHARD RORTY 8 Videoaula 8

SÍNTESE PARA
9 AUTOAVALIAÇÃO 9 Autoavaliação

SOBRE A NATUREZA
DA AÇÃO HUMANA:
10 UMA ABORDAGEM 10 Videoaula 10
METAFÍSICA

A COMPOSIÇÃO DA
11 AÇÃO HUMANA E SUA 11 Videoaula 11
INTENCIONALIDADE

SÍNTESE PARA
12 AUTOAVALIAÇÃO 12 Autoavaliação

A RELAÇÃO METAFÍSICA
13 ENTRE O HOMEM 13 Videoaula 13
E A NATUREZA EM B. PASCAL

UMA ABORDAGEM
FILOSÓFICA ANTE
14 UMA PROBLEMATIZAÇÃO 14 Videoaula 14
ECOLÓGICA

SÍNTESE PARA
15 AUTOAVALIAÇÃO 15 Autoavaliação
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
A RUPTURA GNOSIOLÓGICA DE DAVID HUME: ATIVIDADE 1
UM REDIRECIONAMENTO DA NOÇÃO DE METAFÍSICA
OBJETIVOS

Fazer uma abordagem sobre metafísica, nesta segunda apostila, inicia-se


especialmente pela apresentação de uma espécie de ruptura da história da metafísica em
sua modernidade. Lançar ao leitor, que não esteja familiarizado à dinâmica dos ensaios
filosóficos, um claro posicionamento de reafirmação da metafísica enquanto área do saber
que compõe o pensamento filosófico indiferente a suas implicações de ordem gnosiológica.
Espera-se que o estudante, a partir desta leitura, estabeleça um posicionamento específico
(pró-metafísica / contra-metafísica).

TEXTO

Dos referenciais do pensamento metafísico na modernidade 1

Durante séculos o homem familiarizou-se, não importando necessariamente


com um dado rigor da verdade, com o termo metafísica. Tornou-se comum o uso deste
vocábulo e não houve, na história universal das idéias, nenhuma ruptura desta tradição do
pensar. A força desta convicção embora possa ser comparada às primeiras certezas do
homem, durante centenas de anos, sobre o que se definiu por ‘teoria geocêntrica’, ao con-
trário deste fenômeno, a aceitação geral sobre metafísica não se constituiu propriamente
numa inverdade em que se apresente um oposto como uma posterior ‘ teoria heliocêntrica’,
más numa espécie de abalo sobre o que poderia ser considerado o arcabouço de sua
construção em si. Com o surgimento da filosofia moderna, o embate contra os preceitos
cartesianos gerou uma espécie de redirecionamento da noção geral de metafísica.
Observa-se, de forma geral, em David Hume, a afirmação de um embate
gnosiológico contra a metafísica, que estabelece que as hipóteses para a construção meta-
física sejam desprovidas de fundamento e, desse modo, não teriam validade.
Os princípios racionais, por exemplo, de identidade e de não-contradição,
não são princípios existentes em si e completamente independentes da experiência, por
isso não constituem a metafísica. Porque as ideias nada mais são do que hábitos mentais,
de associações, de impressões semelhantes ou de impressões sucessivas, que se definem
por experiência.
Em outras palavras, a metafísica para Hume, desde seu passado remoto,
tornava-se impossível porque se referira a conteúdos destituídos de sentido, por ausência de
fundamentos sólidos (concretos). Neste aspecto estabelece-se que a metafísica não tem sig-
nificância ‘real’ na aplicação isolado do sujeito e sua percepção sobre o que o atinge através
de suas sensações. Principalmente Hume afirmara que da mesma forma que as ideias de

1 Texto adaptado da obra Metafísica de Richard Teylor.

FGPM II – 7
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 1

seres fantásticos, mitológicos, são criados no entendimento humano por meio da composi-
ção de ideais, haveria uma espécie de fantasia do pensar, gerado pela metafísica, eis então
o decreto de toda uma ‘corrente de pensamento filosófico’ para o fim da metafísica.

Uma projeção filosófica da noção de metafísica

Deve-se se asseverar que o uso da metafísica foi radicalmente modificado


pela história universal das ideias bem antes da modernidade. De tal forma que se os gre-
gos antigos, por determinado tempo, usaram do que se define por pensamento mitológico
‘fantasioso’, algo totalmente diferente disto apresenta-se à metafísica inserida numa filosofia
clássica. O que obviamente não veiculava tais fantasias como afirmara Hume.
Diante da crítica contra a metafísica, observa-se com clareza que o principal
problema decorrente da afirmação empirista apresentou-se pela ausência de uma correta
demonstração de seu objeto num devido rigor. Afinal de contas, considerando-se o efeito
histórico do termo metafísica e de toda a sua extensão própria, seria inevitável que antes
de se lançar tal crítica, no mínimo, dever-se-ia estabelecer, a contento, qual afinal seria sua
gênese (da metafísica), seu campo de aplicação e principalmente sua linguagem. Em outras
palavras, em toda história da filosofia, o conceito de metafísica, como o conceito de lógica,
deve ter um princípio de significância em si. Seria o mesmo que dizer que a significância
das cores teria qualquer validade se expressa por cegos de nascença e que por absurdo
que pareça restasse àqueles que enxergam se disporem a elaborar uma crítica “própria”
sobre a referida noção de cor. Não seria aceitável tal crítica pelo simples fato de que a eti-
mologia da palavra cor não está diretamente relacionada aos que enxergam ou aos que são
cegos, e sim ao fenômeno da visão. Indiferente aos cegos ou aos que enxergam (que se
atribui a utilização da visão) as questões referentes à visão em si se reportam a um fenô-
meno próprio, e dessa forma é que deve ser tratado ante mesmo as influências ou melhor
interpretações passíveis de consideração.
Ocorre com a metafísica o mesmo com as demais áreas do saber humano;
esta sempre estará sob o crivo do sujeito pensante, que deverá optar em aceitá-la em deter-
minados aspectos ou negá-las em outros.
Portanto, afigura-se uma guerra intelectual cujo fim é a definição de tendên-
cias validadas, ou mais objetivamente, da necessidade de se optar por um estilo acadêmico
que não admita paradoxos ou a convivência de contradições.
Em filosofia tal situação é mais aguda, e dir-se-ia, que não se admite o que
não seja decorrente de veracidade. Contudo, este anseio geralmente suprime o trabalho
árduo de demonstração do objeto de pensamento a ser julgado, ante um desenvolvimento
filosoficamente rigoroso. Eis um fato corriqueiro na conduta dos principais empiristas ao se
reportarem à metafísica.
A ausência de ‘demonstração essencial’ de algo, a princípio, gera inevitavel-
mente a fragmentação de sua significância.

FGPM II – 8
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 1

Por este motivo, observam-se muitos teóricos abordarem a metafísica ora


reduzindo-a a ontologia, ora reduzindo-a a uma projeção teologal ou até mesmo a vagas
conceituações epistemológicas. O pior é que os demais segmentos que compõem o conhe-
cimento humano, que estão ‘distantes’ de seu foco, acabam tendo uma impressão distorci-
da do que seja realmente a metafísica.
Mas, indiferente a este agravante, é possível estabelecer que a metafísica
implica não em um recorte de abordagens, más num instrumento de formatação destas.
Como ocorre com a lógica, que gera o mesmo efeito em relação às ideias. Eis o primado da
demonstração da metafísica.
A questão, porém, é: Como então pensar metafisicamente? Como estabele-
cer este ato?
A metafísica não é decorrente de algo implícito no percurso que vai do estado
mentalmente instintivo (em pessoas comuns, sem formação) ao estado de inteligência (em
pessoas instrumentalizadas por uma especificação qualquer de formação) e muito menos
à produção científica ampla (uma espécie de cânone do conhecimento reconhecido na
história das ideias).
Um exemplo deste ‘movimento da metafísica’ se dá quando o homem ousa
compreender o universo, a mais ampla expressão de existência, apenas através de instru-
mentos criados por ele próprio, como a matemática. Isto ocorreu com a primeira descrição
da ‘noção de buracos negros no universo real’. Obviamente nesta época era necessário
haver mais metafísica que matemática para se afirmar algo que implicasse na compreen-
são real de ‘algo’ que não fosse diretamente “perceptível” na existência do universo, que
embora tenha se constituído em um primeiro momento matematicamente, sustentou-se
nestas proporções como uma espécie de especulação (principalmente aos astrônomos),
até que se projetasse para a tradição do conhecimento científico, sua “demonstração real”,
ou seja, após a prova material da existência do primeiro buraco negro no universo. Atual-
mente existem centenas destes fenômenos catalogados pelo conhecimento científico. E,
graças a esta abordagem metafísica sobre os “buracos negros”, gerou-se uma possibilida-
de real de se ponderar de forma diversa sobre o universo.
É importante considerar que a metafísica não possui símile com a razão,
tanto no que diz respeito à sua apropriação, quanto ao seu aprimoramento. Esta afirma-
ção representa o principal foco de fragilidade do empirismo ditado por Hume, ao buscar
simplesmente romper com toda sua tradição gnosiológica, optando assim pelo método de
agravá-lo em um dado sistema de ideias, mesmo que estas estejam atreladas ao universo
natural das sensações.
De forma bem diversa, sua aquisição ocorre pela satisfação de uma neces-
sidade, que se compõe por uma condição do sujeito pensante em reação ao exercício da
interpretação, principalmente ao que se refere ao saber, numa dimensão estritamente hu-
mana. Esta necessidade do homem se apresenta mais especificamente pela busca do “ato

FGPM II – 9
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 1

de compreender”, algo que não se limita à sua relação material no viver, e que ultrapassa
os simples entendimentos entre as ‘coisas’ e sua percepção.
O conhecimento metafísico exige o que Hans George Gadamer definira por
círculo hermenêutico. Neste âmbito, esta maneira diferenciada de acesso ao saber, em
dada realidade, demonstra o acesso à noção do pensar metafísico. Diríamos ainda que
esta noção deverá oferecer algo que não se reporte diretamente a ideias decorrentes da
inteligência, mas relaciona-se ao modo como o fenômeno da inteligência se manifesta. Por
exemplo, é possível, com o trato convencional das ideias avaliar o alcance último de um ato
humano em dada circunstância, porém o mesmo não ocorre ao se dispor a avaliação do
alcance último de um ser humano, considerando-se neste apenas a aquisição de todas as
ideias referentes a uma dada época.
Podemos afirmar que há, no uso da metafísica, uma condição natural da ex-
pressão humana. O que se busca pela metafísica encontra-se efetivamente num dado es-
tado de consciência e não nas fantasias do conhecimento fundamentável, a deriva simples-
mente de comprovações ou valorações. Refere-se unicamente a este estado e seu objeto,
a princípio, é a noção de nexo, de sentido, que se atribua, como forma de fundo, à dinâmica
do pensar em todas as suas possibilidades, eis os atributos do vernáculo ‘compreender’ que
decorre da metafísica.
O ato metafísico, ao pensar, não constitui uma simples decorrência das ope-
rações mentais (como as associações), e dos efeitos da memória (como os referenciais de
identidade). Para compreender algo, seja o que for, deve-se ainda pensar em uma fron-
teira claramente demarcada num mesmo ser entre uma contínua expressão de um indiví-
duo, ‘de forma animalesca e não histórica’ e uma expressão de um indivíduo ‘de formação
humana e histórica’. Contudo, o ato de compreender metafisicamente não se realiza com
a pertinência de um agravante entre estas duas esferas, o senso comum. Este alerta se faz
principalmente ao fático filósofo, seja em suas mais variadas tangências sobre as noções
metafísicas, seja em suas falsas conceituações sobre a mesma, pelo simples fato deste se
considerar um crítico do pensamento metafísico.
A questão, para o exercício de um pensar metafísico, assume uma ordem
prática, ou seja, a disposição de seu acesso implica trabalho contínuo de interpretações e
ajustes de concepções a um dado sistema de pensamento.

REFERÊNCIAS

HUME, D. Tratado da natureza humana. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.


. Investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Hedra, 2009.
JAPIASSU, H.; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
NICOLA, U. Antologia ilustrada de filosofia. São Paulo: Globo, 2005.
REALLE,G.; ANTISERI, D. História da filosofia. São Paulo: Paulos, 1991. v. 2 e 3.

FGPM II – 10
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
UMA PROJEÇÃO FILOSÓFICA DA ATIVIDADE 2
NOÇÃO DE METAFÍSICA
OBJETIVO

Apresentar ao estudante um contexto próprio do pensamento metafísico pós-


moderno.

TEXTO

Deve-se se asseverar que o uso da metafísica foi radicalmente modificado
pela história universal das ideias bem antes da modernidade. De tal forma que se os gre-
gos antigos, por determinado tempo, usaram do que se define por pensamento mitológico
‘fantasioso’, algo totalmente diferente disto apresenta-se à metafísica inserida numa filosofia
clássica, o que obviamente não veiculava tais fantasias como afirmara Hume.
Diante da crítica contra a metafísica, observa-se com clareza que o principal
problema decorrente da afirmação empirista apresentou-se pela ausência de uma correta
demonstração de seu objeto num devido rigor. Afinal de contas, considerando-se o efeito
histórico do termo metafísica e de toda a sua extensão própria, seria inevitável que antes
de se lançar tal crítica, no mínimo, dever-se-ia estabelecer, a contento, qual afinal seria
sua gênese (da metafísica), seu campo de aplicação e principalmente sua linguagem. Em
outras palavras, em toda história da filosofia, o conceito de metafísica assim como o con-
ceito de lógica deve ter um princípio de significância em si. Seria o mesmo que dizer que a
significância das cores teria qualquer validade se expressas por cegos de nascença e que
por absurdo que pareça restasse àqueles que enxergam se dispôr a elaborar uma crítica
“própria” sobre a referida noção de cor. Não seria aceitável tal crítica pelo simples fato de
que a etimologia da palavra cor não está diretamente relacionada aos que enxergam ou aos
que são cegos, e sim ao fenômeno da visão. Indiferente aos cegos ou aos que enxergam
(que se atribui a utilização da visão) as questões referentes à visão em si se reportam a
um fenômeno próprio, e desta forma é que deve ser tratado ante mesmo as influências, ou
melhor, interpretações passíveis de consideração.
Ocorre com a metafísica o mesmo com as demais áreas do saber humano,
esta sempre estará sob o crivo do sujeito pensante, que deverá optar em aceitá-la em deter-
minados aspectos ou negá-las em outros.
Nos afigura uma guerra intelectual, cujo fim é a definição de tendências
validadas, ou mais objetivamente, da necessidade de se optar por um estilo acadêmico, que
não admita paradoxos ou a convivência de contradições.
Em filosofia tal situação é mais aguda, e dir-se-ia, que não se admite o que
não seja decorrente de veracidade. Contudo, este anseio geralmente suprime o trabalho
árduo de demonstração do objeto de pensamento a ser julgado, ante um desenvolvimento

FGPM II – 11
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 2

filosoficamente rigoroso. Eis um fato corriqueiro na conduta dos principais empiristas ao se


reportarem à metafísica.
A ausência de ‘demonstração essencial’ de algo, a princípio, gera inevitavel-
mente a fragmentação de sua significância.
Por este motivo observa-se muitos teóricos abordarem a metafísica ora
reduzindo-a a ontologia, ora reduzindo-a a uma projeção teologal ou até mesmo a vagas
conceituações epistemológicas. O pior é que os demais segmentos que compõe o conheci-
mento humano, que estão ‘distantes’ de seu foco, acabam tendo uma impressão distorcida
do que seja realmente a metafísica.
Mas, indiferente a este agravante, é possível estabelecer que a metafísica
implica não um recorte de abordagens, mas num instrumento de formatação destas. Como
ocorre com a lógica, que gera o mesmo efeito em relação às ideias. Eis o primado da de-
monstração da metafísica.
A questão, porém, é: Como então pensar metafisicamente? Como estabele-
cer este ato?
A metafísica não é decorrente de algo implícito no percurso que vai do estado
mentalmente instintivo (em pessoas comuns, sem formação) ao estado de inteligência (em
pessoas instrumentalizadas por uma especificação qualquer de formação) e muito menos
à produção científica ampla (uma espécie de cânone do conhecimento reconhecido na
história das ideias).
Um exemplo deste ‘movimento da metafísica’ se dá quando o homem ousa
compreender o universo, a mais ampla expressão de existência, apenas através de instru-
mentos criados por ele próprio, como a matemática. Isto ocorreu com a primeira descrição
da ‘noção de buracos negros no universo real’. Obviamente nesta época era necessário
mais metafísica que matemática para se afirmar algo que implicasse compreensão real
de ‘algo’ que não fosse diretamente “perceptível” na existência do universo, que embora
se constitua num primeiro momento matematicamente, sustentou-se nestas proporções
como uma espécie de especulação (principalmente aos astrônomos), até que se projetasse
para a tradição do conhecimento científico, sua ‘demonstração real’, ou seja, após a prova
material da existência do primeiro buraco negro no universo. Atualmente existem centenas
destes fenômenos catalogados pelo conhecimento científico. E graças a esta abordagem
metafísica sobre os ‘buracos negros’ gerou-se uma possibilidade real de se ponderar de
forma diversa sobre o universo.
É importante considerar que a metafísica não possui símile com a razão,
tanto no que diz respeito à sua apropriação, quanto ao seu aprimoramento. Esta afirmação
representa o principal foco de fragilidade do empirismo ditado por Hume, ao buscar simples-
mente romper com toda sua tradição gnosiológica, optando assim pelo método de agravá-
lo num dado sistema de ideias, mesmo que estas estejam atreladas ao universo natural das
sensações.
De forma bem diversa, sua aquisição ocorre pela satisfação de uma neces-

FGPM II – 12
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 2

sidade, que se compõe por uma condição do sujeito pensante em reação ao exercício da
interpretação, principalmente ao que se refere ao saber, numa dimensão estritamente hu-
mana. Esta necessidade do homem se apresenta mais especificamente pela busca do “ato
de compreender”, algo que não se limita à sua relação material no viver, e que ultrapassa os
simples entendimentos entre as ‘coisas’ e sua percepção.
O conhecimento metafísico exige o que Hans George Gadamer definira por
círculo hermenêutico. Neste âmbito, esta maneira diferenciada de acesso ao saber, em
dada realidade, demonstra o acesso à noção do pensar metafísico. Diríamos ainda que
esta noção deverá oferecer algo que não se reporte diretamente às ideias decorrentes da
inteligência, mas relaciona-se à maneira como o fenômeno da inteligência se manifesta. Por
exemplo, é possível, com o trato convencional das ideias avaliar o alcance último de uma
ato humano em dada circunstância, porém o mesmo não ocorre ao se dispor a avaliação do
alcance último de um ser humano, considerando-se neste apenas a aquisição de todas as
ideias referentes a uma dada época.
Podemos afirmar que há, no uso da metafísica, uma condição natural da ex-
pressão humana. O que se busca pela metafísica encontra-se efetivamente num dado es-
tado de consciência e não nas fantasias do conhecimento fundamentável, a deriva simples-
mente de comprovações ou valorações. Refere-se unicamente a este estado e seu objeto,
a princípio, é a noção de nexo, de sentido, que se atribua, como forma de fundo, à dinâmica
do pensar em todas as suas possibilidades, eis os atributos do vernáculo ‘compreender’ que
decorre da metafísica.
O ato metafísico, ao pensar, não constitui uma simples decorrência das ope-
rações mentais (como as associações), e dos efeitos da memória (como os referenciais de
identidade). Para compreender algo, seja o que for, deve-se ainda pensar em uma fronteira
claramente demarcada num mesmo ser entre uma contínua expressão de um indivíduo, ‘de
forma animalesca e não histórica’ e uma expressão de um indivíduo ‘de formação humana e
histórica’. Contudo, o ato de compreender metafisicamente não se realiza com a pertinência
de um agravante entre estas duas esferas, o senso comum. Este alerta se faz principalmen-
te ao fático filósofo, seja em suas mais variadas tangências sobre as noções metafísicas,
seja em suas falsas conceituações sobre a mesma, pelo simples fato deste se considerar
um crítico do pensamento metafísico.
A questão, para o exercício de um pensar metafísico, assume uma ordem
prática, ou seja, a disposição de seu acesso implica um trabalho contínuo de interpretações
e ajustes de concepções a um dado sistema de pensamento.

REFERÊNCIAS

HABERMAS, J. Textos e contextos – importado. Lisboa: Ed: Instituto Piaget, 2001.


. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Ed: Martins Fontes, 2002.

FGPM II – 13
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 2

HUME, D. Tratado da natureza humana. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.


. Investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Hedra, 2009.
JAPIASSU, H.; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
NICOLA, U. Antologia ilustrada de filosofia. São Paulo: Globo, 2005.
REALLE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia. São Paulo: Paulos, 1991. v. 2 e 3.

ANOTAÇÕES

FGPM II – 14
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
SÍNTESE PARA AUTOAVALIAÇÃO ATIVIDADE 3

OBJETIVO

Pretende-se que aluno adquira um posicionamento claro sobre a aceitação


ou negação do pensamento metafísico.

TEXTO

Observa-se comumente a aplicação de um certo reducionismo de ideias seja


para conceituar a metafísica, seja para criticá-la.
No entanto, observamos na história universal das ideias que mesmo antes
da definição do termo metafísica, esta “forma do pensamento humano” parece estar inseri-
da desde a gênese do pensamento filosófico.
A noção de “unicidade” à significância de uma realidade externa ao sujeito
pensante e as considerações de um dado estado de consciência parecem compor elemen-
tos que implícita ou explicitamente projetam uma dada dimensão metafísica ao pensar.
Por esse motivo não é tão simples estabelecer uma crítica validável ao pen-
samento metafísico, como também se deve estabelecer o devido rigor quanto são ao con-
trário, ou seja, é também comum deformar a noção de metafísica pelo exagero da lingua-
gem (prolixidade) e pela fantasia de concepções que parecem definir um sentido exclusivo
à sua compreensão.
Diante destas duas possibilidades (do exagero e da inferência nata) resta ao
sujeito pensante uma condição necessária, que se realiza por uma escolha: aceitar a meta-
física e corrigir suas distorções ou negar a metafísica e não só suplantá-la, mas estabelecer
algo suficiente em seu lugar.

ANOTAÇÕES

FGPM II – 15
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 3

ANOTAÇÕES

FGPM II – 16
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
A METAFÍSICA INSERIDA NA AÇÃO HUMANA ATIVIDADE 4

OBJETIVO

Demonstrar ao estudante o significado das noções metafísicas numa esfe-


ra prática da vida, especialmente quanto ao trato das ações humanas e suas extensões.
Espera-se que o estudante possa identificar numa problemática de ordem ecológica os
elementos metafísicos que a compõe.

TEXTO

O situar metafísico no pensamento

Costuma-se dizer que cada um tem a sua filosofia e até que todos os ho-
mens têm opiniões metafísicas. Nada poderia ser mais irreal. É verdade que todos os
homens têm opiniões, e que algumas delas — tais como as opiniões sobre religião, moral
e o sentido da vida — confinam com a filosofia e a metafísica, mas raros são os homens
que possuem qualquer concepção de filosofia e ainda menos os que têm qualquer noção
de metafísica. De maneira mais ostensiva a crítica à metafísica apresenta-se em Teylor,
ao afirmar que não são muitas as pessoas que assim pensam, exceto quando os seus
interesses práticos estão envolvidos. Não têm necessidade de assim pensar e, daí, não
sentem qualquer propensão para o fazer. Excetuando algumas raras almas meditativas, os
homens percorrem a vida aceitando como axiomas, simplesmente, aquelas questões da
existência, propósito e sentido que aos metafísicos parecem sumamente intrigantes. O que
sobretudo exige a atenção de todas as criaturas, e de todos os homens, é a necessidade de
sobreviver e, uma vez isso razoavelmente assegurado, a necessidade de existir com toda a
segurança possível. Todo o pensamento começa aí, e a sua maior parte cessa aí. Sentimo-
nos mais à vontade para pensar como fazer isto ou aquilo. Por isso a engenharia, a política
e a indústria são muito naturais aos homens. Mas a metafísica não se interessa, de modo
algum, pelos “comos” da vida, mas antes apenas pelos “porquês”, pelas questões que é
perfeitamente fácil jamais formular durante uma vida inteira.
Num esforço em se valorar a metafísica William James a definiu algu-
res como “apenas um esforço extraordinariamente obstinado para pensar com clareza”.
Observamos um grande reducionismo teórico, que chega a beira da pobreza de argüição
sobre a temática, mas que, de certa maneira transmite algo um tanto diferenciado das
concepções nominalistas sobre metafísica, que é a noção de “clareza” e “prolixidade” e sua
aplicação.
Por outro lado, se os argumentos apresentados fossem considerados em
sua aplicação prática, seus resultados seriam muito diferentes. Poder-se-ia afirmar nestes

FGPM II – 17
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 4

mesmos termos: “Ao homem basta se alimentar bem, ante as futilidades do que é estudar
para superar-se em suas qualidades...”
Nestes termos acatar a ideia de que se deve bastar a vida e as condições do
viver e nada mais, como princípio desencadeador do pensar representaria, se fosse possí-
vel, manter a humanidade sempre na condição deplorável da barbárie. O que significa que
usar como referência a vida e a segurança, nos termos apresentados, só teriam significân-
cia numa época onde toda a humanidade vivesse nestas condições.
Mas obviamente as gerações humanas até então vem se sobrepondo e, num
mundo onde os moldes de agregação não seguem os padrões da barbárie, tal afirmação
torna-se progressivamente obsoleta de um passado recente até o atual presente e depre-
cia-se totalmente em relação ao futuro.
Pensar metafisicamente é pensar, sem arbitrariedade nem dogmatismo, nos
mais básicos problemas da existência. Os problemas são básicos no sentido em que são
fundamentais e muitas coisas dependem deles. A religião, por exemplo, não é metafísica;
e, entretanto, se a teoria metafísica do materialismo fosse verdadeira, e assim fosse um
fato que os homens não têm alma, então grande parte da religião diluir-se-ia diante desse
fato. Também a filosofia moral não é metafísica e, contudo, se as teorias metafísicas do
determinismo ou do fatalismo fossem verdadeiras, então muitos dos nossos pressupostos
tradicionais seriam refutados por essas verdades. Similarmente, a lógica não é metafísica
e, contudo, se se apurasse que, em virtude da natureza do tempo, algumas asserções não
são verdadeiras nem falsas, isso acarretaria sérias implicações para a lógica tradicional.
Isto sugere, contrariamente ao que em geral se supõe, que a metafísica é um alicerce da
filosofia e não o seu coroamento.
Com efeito seria correto afirmar que o fruto do pensamento metafísico não é
o conhecimento, mas a compreensão. As interrogações metafísicas têm respostas e, entre
as várias respostas concorrentes, nem todas poderão ser verdadeiras, por certo. Se um ho-
mem defende uma teoria materialista e outro a nega, então um desses homens está errado;
e o mesmo acontece a todas as outras teorias metafísicas. Contudo, só muito raramente é
possível provar e conhecer qual das teorias é a verdadeira. A compreensão, porém, é, por
vezes, a parte mais profunda dela, e resulta de se ver dificuldades persistentes em opiniões
que freqüentemente parecem, com outras bases, ser muito obviamente verdadeiras ou
falsas. É por essa razão que um homem pode ser um sábio metafísico sem que, não obs-
tante, sustente suas opiniões e juízos em conceitos metafísicos. Tal homem pode ver tudo
o que um dogmático metafísico vê, e pode entender todas as razões para afirmar o que
outro homem afirma com tamanha confiança. Mas, ao invés do outro, também vê algumas
razões para duvidar. Advirta-se o leitor, neste particular, de que quando ouvir um filósofo
proclamar qualquer opinião metafísica com grande confiança, ou o ouvir afirmar que deter-
minada coisa, em metafísica, é óbvia, ou que algum problema metafísico gravita apenas em
torno de confusões de conceitos ou de significados de palavras, então poderá estar inteira-
mente certo de que esse homem está infinitamente distante do entendimento filosófico.

FGPM II – 18
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 4

Um problema metafísico é inseparável dos seus dados, pois são estes que,
em primeiro lugar, dão origem ao problema. Ora o datum, ou dado, significa literalmente
algo que nos é oferecido, posto à nossa disposição. Assim, tomamos como dado de um
problema certas convicções elementares do senso comum que todos ou a maioria dos
homens estão aptos a sustentar com alguma persuasão íntima, antes da reflexão filosófi-
ca, e teriam relutância em abandonar. Não são teorias filosóficas, pois estas são o produto
da reflexão filosófica e, usualmente, resultam da tentativa de conciliar certos dados entre
si. São, pelo contrário, pontos de partida para teorias, as coisas por onde se começa, visto
que, para que se consiga alguma coisa, devemos começar por alguma coisa, e não se
pode gastar o tempo todo apenas começando. Observou Aristóteles: “Procurar a prova
de assuntos que já possuem evidência mais clara do que qualquer prova pode fornecer é
confundir o melhor com o pior, o plausível com o implausível e o básico com o derivativo,”
(Física, Livro VIII, Cap. 3 ). Exemplos de dados metafísicos são as crenças que todos os
homens possuem, independentemente da filosofia, de que existem, de que têm um corpo,
de que lhes cabe algumas vezes uma opção entre cursos alternativos de ação, de que
por vezes deliberam sobre tais cursos, de que envelhecem e morrerão algum dia etc. Um
problema metafísico surge quando se verifica que tais dados não parecem concordar entre
si, que têm, aparentemente, implicações inconsistentes entre si. A tarefa, então, é encontrar
uma teoria adequada à eliminação desses conflitos.
Convém observar que os dados, como considerados, não são coisas neces-
sariamente verdadeiras nem evidentes em si. De fato, se o conflito entre certas convicções
do senso comum não for tão-só aparente, mas real, então algumas dessas convicções
estão fadadas a ser falsas, embora possam, não obstante, ser tidas na conta de dados até
que sua falsidade se descubra. É isso o que torna emocionante, por vezes, a metafísica; no-
meadamente, o fato de sermos coagidos, algumas vezes, a abandonar certas opiniões que
sempre havíamos considerado óbvias. Contudo, a metafísica tem de começar por alguma
coisa e, como não pode começar, obviamente, pelas coisas que já estão provadas, deve
começar pelas coisas em que as pessoas acreditam; e a confiança com que uma pessoa
sustenta as suas teorias metafísicas não pode ser maior do que a confiança que deposita
nos dados em que aquelas repousam.
O intelecto do homem não é tão forte quanto a sua vontade, e os homens,
geralmente, acreditam no que querem acreditar, particularmente quando essas crenças
parecem dar valor a si mesmos e às suas atividades. A sabedoria não é, pois, o que os ho-
mens buscam em primeiro lugar. Procuram, outrossim, uma justificação para aquilo de que
por acaso gostam. Não surpreende, portanto, que os principiantes em filosofia, e mesmo
os que já não são principiantes, tenham uma acentuada inclinação para se apegarem a
uma teoria que os atraia, em face de dados conflitantes, e neguem por vezes a veracidade
dos dados, apenas por aquela razão. Tal atitude dificilmente se pode considerar propícia à
sabedoria. Assim, não é incomum encontrarmos pessoas que, dizem, querem ardentemen-
te acreditar na teoria do determinismo e que, partindo desse desejo, negam, simplesmente,

FGPM II – 19
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 4

a verdade de quaisquer dados que com ela colidam. Os dados, por outras palavras, são
meramente ajustados à teoria, em vez da teoria aos dados. Mas deve-se insistir ainda que
é pelos dados, e não pela teoria, que se terá de começar; pois se não partirmos de pressu-
postos razoavelmente plausíveis, onde irmos obter a teoria, senão no que os nossos cora-
ções desejam? Mais cedo ou mais tarde poderemos ter de abandonar alguns dos dados
do nosso senso comum, mas, ao fazê-lo, será em consideração a certas outras crenças do
senso comum que temos ainda maior relutância em abandonar e não em deferência pelas
teorias filosóficas que nos atraem.

O uso metafísico das ideias e suas práticas

Segundo Desidério Murcho1 , um sintoma da falta de informação filosófica


entre o público, incluindo o acadêmico, é a noção errada que se tem da metafísica.
A metafísica e a epistemologia são as duas disciplinas centrais da filosofia,
pela simples razão de que praticamente todos os problemas das outras disciplinas filosó-
ficas são problemas epistemológicos ou metafísicos. Contudo, é comum, entre os cientis-
tas, pensar-se que a metafísica é uma espécie de tolice sem solidez acadêmica. Porque
a metafísica sofreu tantos ataques, de Kant aos positivistas lógicos (que usavam a palavra
“metafísica” com um sentido deveras surpreendente), e porque sem uma compreensão só-
lida desta disciplina é impossível ter uma visão clara da realidade, é urgente dar a conhecer
esta disciplina fundamental da filosofia.
Carecer de uma formação mínima em metafísica é tão inaceitável como care-
cer de uma formação mínima em astronomia; nada saber sobre o problema dos universais,
É claro que o homem não se satisfaz com a isolada condição de um sujeito pensante, que
gerasse suas convicções e vontades unicamente pela reação à sua consciência.
O que há de humano no homem representa uma dimensão amplamente pro-
jetável e, portanto, praticamente inacessível em seu todo, e neste caso, usamos da figura
do ‘átomo’ para nos posicionarmos. “...Quando o homem criou o termo átomo, a palavra
representava a menor unidade indivisível que compõe a matéria’, contudo, com o avanço
da ciência o homem não só percebeu que a palavra perdeu sua validade, mas também
que este perdera o controle sobre a definição da menor subpartícula que o compõe, enfim
diante deste impasse, o homem continuou suas pesquisas, só que identificando as orbitais
(ou marcas) deixadas por aquilo que ainda não se conseguia atingir satisfatoriamente...”.
A marca desta figura nos cabe, no trato da metafísica, no que se refere ao
que fazer quando a simples condição pensante reporta-se a princípio a um dado estado de
consciência e que tal condição não é suficiente para se pensar não o homem, mas a huma-
nidade.
Pensar a humanidade!!! Nestes termos, a ciência, como a arte e principal-
mente a filosofia devem se reportar a mecanismos especiais do pensar, no caso da ciência

1 MURCHO, D. Pensar outra vez, filosofia, valor, verdade. Edições Quasi, V.N.Famalicão, 2006.

FGPM II – 20
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 4

o método, da arte à inspiração e, no caso da filosofia, a metafísica se impõe pela sistemati-


zação do pensar. Obviamente, como ocorrera com o átomo a sistematização da metafísica
omite seu objeto central (a condução da compreensão em si) e dispõem-se as possibilida-
des pertinentes à espécie humana. Temos pela sistematização metafísica um meio de sua
projeção, como ocorre com o uso de uma lente de contato, que entre o raio solar e o papel
gera-se o fenômeno da combustão.
Muito diferente de se fragmentar a metafísica, sistematizá-la implica
situá-la no campo do conhecimento. Assim, a virtude de sua sistematização é sua abran-
gência. Por isso, torna-se relevante situar-se quanto aos processos de sistematização,
pois indiferente a suas aplicações estes não expressão essencialmente a metafísica pura
( nuclear) e sim sua possível aplicação (órbita). Um exemplo claro se dá ao que se define
por ‘filosofia concreta’, especificamente a partir de K. Marx redesenha-se toda forma de
subjetividade ao se definir ‘metafisicamente’ que “... não são as ideias que compõe a cons-
ciência do homem e sim o meio onde este habita. Sendo o homem o produto de seu meio.”,
tal afirmação não é empirista, nem positivista, mas supre, ao que se propõe, com a devida
extensão de toda aplicação da metafísica clássica.
Mas, não é o fato de uma sistematização metafísica ser plena e satisfató-
ria em sua extensão que a mesma constitui-se de um aporte diante do crivo filosófico.
Observamos que a validação metafísica pode ser observada em seu efeito sobre
as ações humanas, ou melhor, quanto aos móveis das escolhas que as direcionam. Esta
afirmação nos faz lembrar, na história da filosofia, a figura dos céticos radicais e suas obs-
tinadas disposições em negar a verdade absoluta a partir da inadequabilidade humana de
seu acesso. Contudo o empenho dos considerados céticos, quanto à sustentação de suas
convicções (de forma tão intensa) e o combate implacável aos pensadores dogmáticos,
chegou inevitavelmente a ocupar a mesma condição disposta por seus opositores gnosio-
lógicos, os dogmáticos, com uma diferença; a de que estes só efetuavam tal elemento
de convicção se este representasse a consequência de pensarem justamente aquilo que
era negado pelos céticos a verdade, pois a possibilidade de um paradoxo neste fim último,
implicaria o ‘dissolvimento’ desta ‘convicção. Neste único aspecto (da necessidade de se
aplicar uma intensa convicção como referência ao pensar) omitindo-se, naturalmente, o uso
do termo verdade e falsidade, a estrutura do pensamento cético é metafisicamente simétri-
ca ao pensamento dogmático, pois, ao contrário, como justificar esta mesma intensidade de
convicções em duas formas diversas de objeção (dogmática e cética) em uma dada forma
espontânea de pensar, a ponto de ser proposto por ambas a exclusão de uma pela outra?
O que nos remete à seguinte questão:
É possível mapear uma dada cadeia de efeitos metafísicos ao pensar?
Vamos supor que, na prática, a arguição acima representasse o conjunto de
questões a seguir ao situarmos uma simples referência à maior valoração humana, “a vida”:
Como a humanidade agiu no passado? Como a humanidade age no presente?; e Como
agirá no futuro em relação à vida?

FGPM II – 21
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 4

Considerando-se que estamos no século XXI, e toda trajetória cultural da


humanidade, não se trata de usarmos de adereços formosos e fúteis da linguagem ao afir-
marmos que somente na atualidade surge a necessidade de ações globais no planeta em
relação à vida, e que para isto, dentro de uma análise cientificamente ecológica, as garan-
tias de mudanças quanto à natureza urgem de forma irreversível.
Então, mais do que em qualquer época, nos referimos a uma “humanidade”
e a natureza “uníssima” de sua ação em relação às condições de seu habitat neste planeta
e a vida no futuro.
Mas o que observamos em relação a este conjunto de arguições?
Algo simplesmente indescritível.
Temos, atualmente, uma noção satisfatória da aplicação validável da ciência,
se comparada a quaisquer superstições. Ou seja, embora a ciência seja dinâmica, suas
conquistas são sólidas e impositivas para qualquer afirmação humana.
A ciência declara, em nosso hodierno, que o planeta ecologicamente está
sendo concretamente ameaçado pelos efeitos da exploração humana de um passado re-
moto a um presente contingente, e mais, que é inevitável que se reverta os procedimentos
globais desta ação para um futuro próximo. Isto tudo é apresentado pela ciência de forma
muito objetiva, ou seja, pela mensuração dos efeitos do aquecimento global e os agravantes
do uso da água potável dentre diversos fatores apontados.
Obviamente nos perguntamos, neste contexto particular haveria força argu-
mentativa maior que a ciência? Uma força capaz de desfazer suas implicações seja em
razão de interesses isolados ou globais (não importa quais, de natureza econômica ou étni-
ca)? Seria hoje, a política, a religião, enfim a arte, suficientes para oferecerem artifícios que
desobriguem a humanidade de romperem com esta demonstrada nociva forma de explora-
ção do planeta em prol da qualidade real de sua vida futura?
O pior é encontrarmos na axiologia humana o preceito de que a vida é a
maior de todas as prioridades.
Não há resposta positiva a estas inquisições.
Não temos uma alternativa justificável para não percebermos uma resposta
humana concordante com o proposto pela ciência. Afinal de contas, embora possamos
classificar isto como uma aberração humana, ou seja, a ausência, nestas condições, de
uma eficaz proposta de solução. O fato é que já não expressamos no planeta o velho molde
da barbárie humana. Consideramo-nos no mundo como civilizados.
Uma possível desculpa, para esta opção em se negligenciar a ciência, o pla-
neta e a vida, poderia ser atribuída à ignorância humana.
Ora, o homem, que se julga o ser mais capaz e inteligente do planeta, na
verdade o seria então numa pequena escala, dentre aproximadamente oito bilhões de seus
semelhantes, sendo estes, neste estado, os agentes desta condição absurda de omissão
diante da natureza.
Reportar-se facilmente a uma ignorância que restringiria uma possibilidade

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Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 4

humana sobre o planeta, eis um argumento no mínimo insustentável. Pois nestes termos tal
“ignorância” seria uma condição de “animalização” num desordenado coletivismo humano,
seria a negação do progresso. Definida nos grandes núcleos demográficos e nas regiões
habitáveis, através das chamadas “massas culturais”, que como qualquer “cultura” é, em
si, inacessível (como objeto de mudança) para seus contemporâneos. Mas a fatalidade de
toda uma humanidade negligenciar as ações necessárias para que se corrija no planeta um
agravante cientificamente apresentado, no mínimo, depois de duas guerras mundiais, não
é justificável.
Portanto, o problema ecológico só poderá ser solucionado se abordado
como um problema metafísico.

REFERÊNCIAS

HABERMAS, J. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2002.
. Verdade e justificação: ensaios filosóficos. São Paulo: Ed.Loyola, 2004.
HUME, D. Tratado da natureza humana. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.
. Investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Hedra, 2009.
JAPIASSU, H.; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
NICOLA, U. Antologia ilustrada de filosofia. São Paulo: Globo, 2005.
REALLE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia. São Paulo: Paulos, 1991. v. 2 e 3.

ANOTAÇÕES

FGPM II – 23
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 4

ANOTAÇÕES

FGPM II – 24
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
UMA PROJEÇÃO FILOSÓFICA DA ATIVIDADE 5
NOÇÃO DE METAFÍSICA
OBJETIVO

Espera-se que o aluno possa distinguir o conhecimento de metafísica dentre


as demais áreas do saber.

TEXTO

Segundo Desidério Murcho1, um sintoma da falta de informação filosófica


entre o público, incluindo o acadêmico, é a noção errada que se tem da metafísica.
A metafísica e a epistemologia são as duas disciplinas centrais da filosofia,
pela simples razão de que praticamente todos os problemas das outras disciplinas filosó-
ficas são problemas epistemológicos ou metafísicos. Contudo, é comum, entre os cientis-
tas, pensar-se que a metafísica é uma espécie de tolice sem solidez acadêmica. Porque
a metafísica sofreu tantos ataques, de Kant aos positivistas lógicos (que usavam a palavra
“metafísica” com um sentido deveras surpreendente), e porque sem uma compreensão só-
lida desta disciplina é impossível ter uma visão clara da realidade, é urgente dar a conhecer
esta disciplina fundamental da filosofia.
Carecer de uma formação mínima em metafísica é tão inaceitável como care-
cer de uma formação mínima em astronomia; nada saber sobre o problema dos universais,
por exemplo, é como nada saber sobre o sistema solar.
É claro que o homem não se satisfaz com a isolada condição de um sujeito
pensante, que gerasse suas convicções e vontades unicamente pela reação à sua consci-
ência.
O que há de humano no homem representa uma dimensão amplamente pro-
jetável e, portanto, praticamente inacessível em seu todo, e neste caso, usamos da figura
do ‘átomo’ para nos posicionarmos. “...Quando o homem criou o termo átomo, a palavra
representava ‘ a menor unidade indivisível que compõe a matéria’, contudo, com o avanço
da ciência o homem não só percebeu que a palavra perdeu sua validade, mas também
que este perdera o controle sobre a definição da menor subpartícula que o compõe, enfim
diante deste impasse, o homem continuou suas pesquisas, só que identificando as orbitais
(ou marcas) deixadas por aquilo que ainda não se conseguia atingir satisfatoriamente...”.
A marca desta figura nos cabe, no trato da metafísica, no que se refere ao
que fazer quando a simples condição pensante reporta-se a princípio a um dado estado de
consciência e que tal condição não é suficiente para se pensar não o homem, mas a huma-
nidade.
Pensar a humanidade!!! Nestes termos, a ciência, como a arte e principal-
mente a filosofia, deve-se reportar a mecanismos especiais do pensar, no caso da ciência

1 MURCHO, D. Pensar outra vez, filosofia, valor, verdade. Edições Quasi, V.N.Famalicão, 2006.

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Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 5

o método, da arte a inspiração e, no caso da filosofia a metafísica se impõe pela sistemati-


zação do pensar. Obviamente, como ocorrera com o átomo a sistematização da metafísica
omite seu objeto central (a condução da compreensão em si) e dispõe-se as possibilidades
pertinentes à espécie humana. Temos pela sistematização metafísica um meio de sua pro-
jeção, como ocorre com o uso de uma lente de contato que entre o raio solar e o papel gera
o fenômeno da combustão.
Muito diferente de se fragmentar a metafísica, sistematizá-la implica situá-la
no campo do conhecimento. Assim, a virtude de sua sistematização é sua abrangência.
Por isso, torna-se relevante situar-se quanto aos processos de sistematização, pois indife-
rente a suas aplicações estes não são uma expressão essencialmente da metafísica pura
(nuclear) e sim sua possível aplicação (órbita). Um exemplo claro se dá ao que se define
por ‘filosofia concreta’, especificamente a partir de K. Marx redesenha-se toda forma de
subjetividade ao se definir ‘metafisicamente’ que “... não são as ideias que compõe a cons-
ciência do homem e sim o meio onde este habita. Sendo o homem o produto de seu meio.”,
tal afirmação não é empirista, nem positivista, mas supre, ao que se propõe, com a devida
extensão de toda aplicação da metafísica clássica.
Mas, não é o fato de uma sistematização metafísica ser plena e satisfatória
em sua extensão que a mesma constitui-se de um aporte diante do crivo filosófico.
Observamos que a validação metafísica pode ser observada em seu efeito sobre as ações
humanas, ou melhor, quanto aos móveis das escolhas que as direcionam. Esta afirmação
nos faz lembrar, na história da filosofia, a figura dos céticos radicais e suas obstinadas dis-
posições em negar a verdade absoluta a partir da inadequabilidade humana de seu acesso.
Contudo o empenho dos considerados céticos, quanto a sustentação de suas convicções
(de forma tão intensa) e o combate implacável aos pensadores dogmáticos chegou inevita-
velmente a ocupar a mesma condição disposta por seus opositores gnosiológicos, os dog-
máticos, com uma diferença; a de que estes só efetuavam tal elemento de convicção se
este representasse a conseqüência de pensarem justamente aquilo que era negado pelos
céticos a verdade, pois a possibilidade de um paradoxo neste fim último, implicaria ‘dissol-
vimento’ desta ‘convicção. Neste único aspecto (da necessidade de se aplicar uma intensa
convicção como referência ao pensar) omitindo-se, naturalmente, o uso do termo verdade
e falsidade, a estrutura do pensamento cético é metafisicamente simétrica ao pensamento
dogmático, pois ao contrário, como justificar esta mesma intensidade de convicções em
duas formas diversas de objeção (dogmática e cética) em uma dada forma espontânea de
pensar, a ponto de ser proposto por ambas a exclusão de uma pela outra?
O que nos remete à seguinte questão:
É possível mapear uma dada cadeia de efeitos metafísicos ao pensar?
Vamos supor que, na prática, a arguição acima representasse o conjunto de
questões a seguir ao situarmos uma simples referencia à maior valoração humana, “a vida”:
Como a humanidade agiu no passado? Como a humanidade age no presente? E Como
agirá no futuro em relação à vida?

FGPM II – 26
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 5

Considerando-se que estamos no século XXI e toda trajetória cultural da


humanidade não se trata de usarmos de adereços formosos e fúteis da linguagem ao afir-
marmos que somente na atualidade surge a necessidade de ações globais no planeta em
relação à vida, e que para isto, dentro de uma análise cientificamente ecológica, as garan-
tias de mudanças quanto à natureza urgem de forma irreversível.
Então, mais do que em qualquer época, nos referimos a uma “humanidade” e
à natureza “uníssima” de sua ação, em relação às condições de seu habitat neste planeta e
a vida no futuro.
Mas o que observamos em relação a este conjunto de arguições?
Algo simplesmente indescritível.
Temos, atualmente, uma noção satisfatória da aplicação validável da ciência,
se comparada a quaisquer superstições. Ou seja, embora a ciência seja dinâmica, suas
conquistas são sólidas e impositivas para qualquer afirmação humana.
A ciência declara, em nosso hodierno, que o planeta ecologicamente está
sendo concretamente ameaçado pelos efeitos da exploração humana de um passado
remoto a um presente contingente e mais, que é inevitável que se reverta os procedimentos
globais desta ação para um futuro próximo. Isto tudo é apresentado pela ciência de forma
muito objetiva, ou seja, pela mensuração dos efeitos do aquecimento global e os agravantes
do uso da água potável dentre diversos fatores apontados.
Obviamente nos perguntamos, neste contexto particular, haveria força ar-
gumentativa maior que a ciência? Uma força capaz de desfazer suas implicações seja em
razão de interesses isolados ou globais (não importam quais, de natureza econômica ou
étnica)? Seria hoje, a política, a religião, enfim a arte, suficientes para oferecerem artifícios
que desobriguem a humanidade de romperem com esta demonstrada nociva forma de
exploração do planeta em prol da qualidade real de sua vida futura?
O pior é encontrarmos na axiologia humana o preceito de que a vida é a
maior de todas as prioridades.
Não há resposta positiva a estas inquisições.
Não temos uma alternativa justificável para não percebermos uma resposta
humana concordante com o proposto pela ciência. Afinal de contas, embora possamos
classificar isto como uma aberração humana, ou seja, a ausência, nestas condições, de
uma eficaz proposta de solução. O fato é que já não expressamos no planeta o velho molde
da barbárie humana. Consideramo-nos no mundo como civilizados.
Uma possível desculpa, para esta opção em se negligenciar a ciência, o pla-
neta e a vida, poderia ser atribuída à ignorância humana.
Ora, o homem, que se julga o ser mais capaz e inteligente do planeta, na
verdade o seria então numa pequena escala, dentre aproximadamente oito bilhões de seus
semelhantes, sendo estes, neste estado, os agentes desta condição absurda de omissão
diante da natureza.
Reportar-se facilmente a uma ignorância que restringiria uma possibilidade

FGPM II – 27
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 5

humana sobre o planeta, eis um argumento no mínimo insustentável. Pois nestes termos tal
“ignorância” seria uma condição de “animalização” em um desordenado coletivismo huma-
no; seria a negação do progresso. Definida nos grandes núcleos demográficos e nas regi-
ões habitáveis, através das chamadas “massas culturais”, que como qualquer “cultura” é,
em si, inacessível (como objeto de mudança) para seus contemporâneos. Mas a fatalidade
de toda uma humanidade negligenciar as ações necessárias para que se corrija no planeta
um agravante cientificamente apresentado, no mínimo, depois de duas guerras mundiais
não é justificável.
Portanto, o problema ecológico só poderá ser solucionado se abordado
como um problema metafísico.

REFERÊNCIAS

JAPIASSU, H.; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
MURCHO, D.; ALMEIDA, A. Textos problemas de filosofia. Lisboa: Plátano, 2006.
NICOLA, U. Antologia ilustrada de filosofia. São Paulo: Globo, 2005.
REALLE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia. São Paulo: Paulos, 1991. v. 2 e 3.

ANOTAÇÕES

FGPM II – 28
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
SÍNTESE PARA AUTOAVALIAÇÃO ATIVIDADE 6

OBJETIVO

Pretende-se que o aluno adquira uma experiência leitora sobre a importância


da metafísica para o pensar e, portanto, para o viver.

TEXTO

A natureza das coisas

“Quando falamos da natureza de uma coisa, nos referimos ao que realmen-


te é essa coisa, para além das mudanças ou das modificações aparentes. Por exemplo,
sabemos que existem muitas raças de cães, mas existe uma definição do que é um cão,
que não dependerá do fato de pertencer a uma raça ou a outra. Quando conhecemos bem
alguém, sabemos reconhecer em seu comportamento o que corresponde realmente à sua
natureza. Talvez exista, apesar da diversidade entre as pessoas, alguma natureza humana
que permanece e que nos define.
Deve-se reconhecer que a definição da natureza varia segundo a cultura. Ao
olhar uma paisagem hoje, não entendemos a mesma coisa que um marinheiro da antigui-
dade ou que um índio da selva amazônica.

Natureza e cultura

O homem não está alheio à natureza. Como ser vivo, também recebe dela
uma ordem a respeitar em nossa existência. Isso significa que não podemos fazer tudo o
que queremos. A natureza é um conjunto que nos envolve e do qual fazemos parte. A na-
tureza está também em nós, como um vínculo que nos une ao mundo e que orienta nossa
forma de viver nele. Para o estoicismo1, o mundo era como um imenso ser vivo, do qual os
indivíduos seriam os órgãos; submeter-se à ordem da natureza não significa renunciar à
razão, mas, pelo contrário, saber viver conforme a natureza.

Dependemos da natureza

A preocupação atual com a ecologia e com a economia sustentável, da qual


nos falam todos os meios de comunicação, é uma forma de recordar que os seres huma-

1 O estoicismo é uma corrente filosófica que surgiu na Grécia no final do século IV a.C. seu principal representante, o
romano Sêneca(século I d.C.), escrevia: “Devemos ter a natureza como guia. É a ela que a razão contempla e consulta.
Viver feliz e viver segundo a natureza são a mesma coisa”.

FGPM II – 29
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 6

nos dependem da natureza. Sabemos também que a natureza é frágil e que depende de
nós.

REFERÊNCIA

Leguizamón, H. Atlas básico de filosofia. In: . Filosofia: origens, conceitos, escolas e


pensadores. Tradução de Ciro Mioranza. São Paulo: Scala, 2008.

ANOTAÇÕES

FGPM II – 30
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
DUAS ABORDAGENS CRÍTICAS SOBRE A ATIVIDADE 7
APLICAÇÃO DOS PRECEITOS METAFÍSICOS
OBJETIVOS

Utilização de uma problematização filosófica para se obter um desenvolvi-


mento filosófico, apresenta-se ao estudante nesta temática duas abordagens de correntes
distintas, mas que se situam em um mesmo âmbito teórico quanto a um posicionamento
crítico do pensamento metafísico tradicional. Espera-se que o estudante sobreponha seu
posicionamento(pró/contra metafísica) às duas abordagens críticas da metafísica, adotando
uma das duas ou não, com vistas à busca de uma solução para o problema ecológico apre-
sentado na segunda parte desta apostila.

TEXTO

A problemática da educação e os pressupostos pragmático-linguísticos 1

Uma das últimas fronteiras aplicada pelo pensamento pragmático é apre-


sentada pelo artifício da educação como referencial para a solução de problemas que
envolvem um contexto humano. Nestes termos, não seria saliente retomar nossa atual
questão ecológica, especialmente quanto à inércia de Ações de âmbito governamentais,
como quanto às ações que inferem o trabalho de diversas Ongs, que não só combatem as
políticas internacionais de exploração energética, como principalmente lançam campanhas
de conscientizações ecológicas, voltadas às mentalidades de diferentes culturas no plane-
ta. Em ambas as tentativas propõem-se um plano educacional como solução ideal para a
obtenção de mudanças efetivas. Mesmo assim, observa-se que tais ações não geram re-
sultados proporcionais a seus agravantes, um exemplo claro consiste nos últimos encontros
de líderes mundiais sobre o problema ecológico no planeta, e o grau de passividade ainda
manifesto intensamente em todas as localidades.
À medida que há uma racionalidade que não pode mais simplesmente expli-
citar um modelo de ensino idealizado ou lógico, introduz-se a possibilidade de reconduzir
as propostas pedagógicas a partir do reconhecimento intersubjetivo e hermenêutico de
conjugação entre a filosofia e uma vida prática. Sob essa lógica, os programas de ensino
contemplariam não somente a teoria filosófica, mas a sua reflexão com a problemática
educacional, possibilitando a comunicação e a articulação dos conhecimentos. Para tanto,
o currículo ao contrário de ser um conjunto de conhecimentos a serem ensinados, necessi-
ta promover rupturas epistêmicas, desenvolvendo discussões seletivas, no qual um grupo
responsavelmente organizado reconhece e aprecia os saberes necessários e significativos

1 Texto adaptado do título Filosofia da educação a partir do diálogo contemporâneo entre analíticos e continentais,
de Cátia Piccolo Viero, Amarildo Luiz Trevisan e Elaine Conte.

FGPM II – 31
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 7

para então atuarem, em dada realidade, como sujeito ativos necessários a uma transforma-
ção eminente.
As contribuições pragmático-linguísticas de Rorty e de Habermas podem
clarear as preocupações desenvolvidas no interior da filosofia contemporânea, despertando
novas significações para o estudo filosófico na educação.
A aproximação dos autores às referências teóricas do pragmatismo e da
hermenêutica determina a utilidade e a semântica da teoria para a atividade humana, viabi-
lizando práticas comunicativas que permitem a produção de entendimentos que vão além
dos meios tradicionais.
Através de consensos democráticos, Habermas tenciona desenvolver os
aspectos comunicativos da racionalidade, produzindo um conhecimento universal voltado
aos interesses sociais.
Rorty pretende criar uma sociedade tolerante que acate as reivindicações
dos grupos particulares (gays, prostitutas etc.), admitindo a existência complexa de diferen-
ças.
São alternativas para o conhecimento tradicional que oferecem como ar-
gumento estudos focalizados na aplicação prática e contribuem para a ressignificação do
saber filosófico, alicerçando a produção de um método de análise crítico da realidade de
formação.
O neopragmatismo de Rorty e a ação comunicativa de Habermas auxiliam a
recuperar a reflexão, a crítica e a problemática dos fundamentos da educação, justificando
a necessidade das transformações culturais tomarem parte mais ativa no debate pedagógi-
co atual. Em outros termos significaria “traduzir uma preocupação que oportuniza a possi-
bilidade de se constituir uma pedagogia atenta às necessidades de mudanças na cultura
contemporânea”.

Habermas versus Rorty

Rorty e Habermas são autores que discutem o saber ocidental, produzindo


consensos e dissensos sobre o papel e a finalidade do conhecimento filosófico, reconhe-
cendo no pragmatismo e na hermenêutica a possibilidade de abandonar o modelo menta-
lista de cultura.
Suas discussões tratam principalmente da crise da filosofia moderna apre-
sentada na primeira temática desta apostila, e da necessidade do estudo filosófico trans-
cender a metafísica tradicional.
Ambas as teorias compartilham da crítica ao modelo representativo da filo-
sofia da consciência, oferecendo uma aproximação linguística para a produção do conheci-
mento. Os autores utilizam-se dos pressupostos da conversação, acreditando na possibili-
dade de produzir um saber intersubjetivo relacionado com o agir e com as ações cotidianas.
O debate sobre a verdade refina as teorias precedentes, atendendo às rei-

FGPM II – 32
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 7

vindicações do discurso ocidental preso à problemática da crise da razão. Extremamente


críticos às ciências positivistas e ao domínio da filosofia na atividade produtiva do conheci-
mento, os autores oferecem propostas diferenciadas de entendimento técnico-racional e de
significação prática das experiências comuns. Acreditando na força da linguagem, dizem
poder ressignificar a razão moderna, estabelecendo novos rumos para o pensamento filo-
sófico. As tendências apresentam ideias apoiadas não mais na metafísica, como abordava
a filosofia tradicional, mas na semântica emergida dos jogos de linguagem.
Discordando de Habermas, Rorty diz que a filosofia deveria abandonar suas
pretensões de racionalidade, livrando-se da intenção de querer resolver seus problemas.
Sendo assim, o conhecimento útil necessita ser orientado pelos saberes significativos que
emergem das culturas particulares, jamais pelas pretensões de validade ou pelo consenso
universal.
Desse modo, a questão sobre a verdade tomou o espaço do debate filosó-
fico ocidental, produzindo, além das similaridades, contrapontos que não deixam de ser
importantes para o progresso do conhecimento. Enquanto Habermas acredita na verdade
universal e na reconstrução da razão moderna a partir dos pressupostos de um consenso
comunicativo ideal, Rorty aposta num saber pós-moderno, emergido das interações inter-
subjetivas dentro dos contextos, grupos ou comunidades. Na concepção habermasiana,
o termo ‘verdadeiro’, diferente do termo ‘justificado’, emerge de comunidades linguísticas
ideais, onde “todos se entendem intelectualmente e só fazem isso”. Para Rorty, o termo
‘verdadeiro’ não seria totalmente diferente do termo ‘justificado’, e a justificação não se
distinguiria do verdadeiro pelo simples fato de enunciarmos um campo comunicativo ideal.
O conhecimento deveria partir das justificações e das causas das sentenças e não das
relações representacionais. Sob a ótica de Rorty, a verdade instituída numa comunidade
ideal de entendimento reincide o fundacionismo inútil da modernidade, trazendo de volta às
metanarrativas.
Em oposição a Habermas, Rorty diz que a filosofia na sociedade atual não
tem necessidade de uma teoria universal da verdade. O saber filosófico deve estar voltado
a valores pragmáticos, ajudando a resolver os problemas sociais e políticos dos contextos
particulares. Em sua análise, a filosofia deveria surgir das necessidades, dos desejos e das
crenças das comunidades culturais, e não de uma comunidade regida por princípios ideais.
A intenção de Rorty é utilizar a filosofia para criar uma sociedade igualitária e tolerante, na
qual todos tenham oportunidade de fazer escolhas e expor as diferentes opiniões. Assim,
percebe que o universalismo de Habermas delimita os campos imagísticos e utilitários dos
grupos particulares, trazendo de volta a esperança metafísica dos antepassados. Conforme
o autor, a proposta habermasiana de ir além de uma compreensão contextualista, conduz
ao tema da verdade única, contrariando os propósitos de emancipação e democracia que
todos desejamos.
A proposta de Habermas não é desenvolver um conhecimento finalizado,
mas um saber estratégico que permite o mútuo entendimento e a interpretação da totalida-

FGPM II – 33
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 7

de relacionada ao mundo da vida. Através da cooperação e da fala de uns com os outros, o


autor acredita na possibilidade de orientar pretensões de validade para além dos contextos
particulares, viabilizando probabilidades de fundamentação e de práticas de vida acessíveis
a todos. De acordo com o filósofo, o processo de argumentação racional, sendo mediado
pela comunicação não-distorcida dos indivíduos, permite o estabelecimento de acordos,
anunciando condições deliberativas para a produção do saber democratizado.
Habermas reconhece o valor da historicidade, enfatizando a necessidade de
uma teoria de valor universal, isto é, regras de justificação para todo e qualquer contexto
real. Através da pragmática universal, Habermas acredita poder levar adiante o projeto da
modernidade, reconduzindo os propósitos emancipatórios da racionalidade. Segundo o au-
tor, os conceitos intersubjetivos, produzidos a partir de acordos mútuos, cumprem o destino
da razão, dando oportunidades iguais de discurso e argumentação.

REFERÊNCIAS

HABERMAS, J. Textos e contextos – importado. Lisboa: Ed. Instituto Piaget, 2001.


. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2002.
. O futuro da natureza humana. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2004.
. Verdade e justificação: ensaios filosóficos. São Paulo: Ed. Loyola, 2004.
. A ética da discussão e a questão da verdade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2007.
HUME, D. Tratado da natureza humana. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.
. Investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Hedra, 2009.
JAPIASSU, H.; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
NICOLA, U. Antologia ilustrada de filosofia. São Paulo: Globo, 2005.
REALLE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia. São Paulo: Paulos, 1991. v. 2 e 3.
RORTY, R. Contigência, ionia e solidariedade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2007.

FGPM II – 34
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
JÜGEN HABERMAS VERSUS RICHARD RORTY ATIVIDADE 8

OBJETIVO

Pretende-se que o aluno possa distinguir num contexto metafísico um posi-


cionamento claramente oposto a este (Rorty) e um posicionamento interagido a este (Ha-
bermas).

TEXTO

Rorty e Habermas são autores que discutem o saber ocidental, produzindo


consensos e dissensos sobre o papel e a finalidade do conhecimento filosófico, reconhe-
cendo no pragmatismo e na hermenêutica a possibilidade de abandonar o modelo menta-
lista de cultura.
Suas discussões tratam principalmente da crise da filosofia moderna apre-
sentada na primeira temática desta apostila, e da necessidade do estudo filosófico trans-
cender a metafísica tradicional.
Ambas as teorias compartilham da crítica ao modelo representativo da
filosofia da consciência, oferecendo uma aproximação linguística para a produção do
conhecimento. Os autores utilizam-se dos pressupostos da conversação, acreditando na
possibilidade de produzir um saber intersubjetivo, relacionado com o agir e com as ações
cotidianas.
O debate sobre a verdade refina as teorias precedentes, atendendo às rei-
vindicações do discurso ocidental preso à problemática da crise da razão. Extremamente
críticos às ciências positivistas e ao domínio da filosofia na atividade produtiva do conheci-
mento, os autores oferecem propostas diferenciadas de entendimento técnico-racional e de
significação prática das experiências comuns. Acreditando na força da linguagem, dizem
poder ressignificar a razão moderna, estabelecendo novos rumos para o pensamento filo-
sófico. As tendências apresentam ideias apoiadas não mais na metafísica, como abordava
a filosofia tradicional, mas na semântica emergida dos jogos de linguagem.
Discordando de Habermas, Rorty diz que a filosofia deveria abandonar suas
pretensões de racionalidade, livrando-se da intenção de querer resolver seus problemas.
Sendo assim, o conhecimento útil necessita ser orientado pelos saberes significativos que
emergem das culturas particulares, jamais pelas pretensões de validade ou pelo consenso
universal.
Desse modo, a questão sobre a verdade tomou o espaço do debate filosó-
fico ocidental, produzindo, além das similaridades, contrapontos que não deixam de ser
importantes para o progresso do conhecimento. Enquanto Habermas acredita na verdade
universal e na reconstrução da razão moderna a partir dos pressupostos de um consenso
comunicativo ideal, Rorty aposta num saber pós-moderno, emergido das interações inter-

FGPM II – 35
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 8

subjetivas dentro dos contextos, grupos ou comunidades. Na concepção habermasiana,


o termo ‘verdadeiro’, diferente do termo ‘justificado’, emerge de comunidades linguísticas
ideais, onde “todos se entendem intelectualmente e só fazem isso”. Para Rorty, o termo
‘verdadeiro’ não seria totalmente diferente do termo ‘justificado’, e a justificação não se
distinguiria do verdadeiro pelo simples fato de enunciarmos um campo comunicativo ideal.
O conhecimento deveria partir das justificações e das causas das sentenças e não das
relações representacionais. Sob a ótica de Rorty, a verdade instituída numa comunidade
ideal de entendimento reincide o fundacionismo inútil da modernidade, trazendo de volta as
metanarrativas.
Em oposição a Habermas, Rorty diz que a filosofia na sociedade atual não
tem necessidade de uma teoria universal da verdade. O saber filosófico deve estar voltado
a valores pragmáticos, ajudando a resolver os problemas sociais e políticos dos contextos
particulares. Em sua análise, a filosofia deveria surgir das necessidades, dos desejos e das
crenças das comunidades culturais, e não de uma comunidade regida por princípios ideais.
A intenção de Rorty é utilizar a filosofia para criar uma sociedade igualitária e tolerante, na
qual todos tenham oportunidade de fazer escolhas e expor as diferentes opiniões. Assim,
percebe que o universalismo de Habermas delimita os campos imagísticos e utilitários dos
grupos particulares, trazendo de volta a esperança metafísica dos antepassados. Conforme
o autor, a proposta habermasiana de ir além de uma compreensão contextualista, conduz
ao tema da verdade única, contrariando os propósitos de emancipação e democracia que
todos desejamos.
A proposta de Habermas não é desenvolver um conhecimento finalizado,
mas um saber estratégico que permite o mútuo entendimento e a interpretação da totalida-
de relacionada ao mundo da vida. Através da cooperação e da fala de uns com os outros, o
autor acredita na possibilidade de orientar pretensões de validade para além dos contextos
particulares, viabilizando probabilidades de fundamentação e de práticas de vida acessíveis
a todos. De acordo com o filósofo, o processo de argumentação racional, sendo mediado
pela comunicação não distorcida dos indivíduos, permite o estabelecimento de acordos,
anunciando condições deliberativas para a produção do saber democratizado.
Habermas reconhece o valor da historicidade, enfatizando a necessidade de
uma teoria de valor universal, isto é, regras de justificação para todo e qualquer contexto
real. Através da pragmática universal, Habermas acredita poder levar adiante o projeto da
modernidade, reconduzindo os propósitos emancipatórios da racionalidade. Segundo o au-
tor, os conceitos intersubjetivos, produzidos a partir de acordos mútuos, cumprem o destino
da razão, dando oportunidades iguais de discurso e argumentação.

REFERÊNCIAS

HABERMAS, J. Textos e contextos – importado. Lisboa: Ed. Instituto Piaget, 2001.

FGPM II – 36
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 8

. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2002.


. O futuro da natureza humana. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2004.
. Verdade e justificação: ensaios filosóficos. São Paulo: Ed. Loyola, 2004.
. A ética da discussão e a questão da verdade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2007.
HUME, D. Tratado da natureza humana. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.
. Investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Hedra, 2009.
JAPIASSU, H.; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
REALLE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia. São Paulo: Paulos, 1991. v. 2 e 3.
RORTY, R. Contigência, ironia e solidariedade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2007.

ANOTAÇÕES

FGPM II – 37
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 8

ANOTAÇÕES

FGPM II – 38
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
SÍNTESE PARA AUTOAVALIAÇÃO ATIVIDADE 9

OBJETIVO

Apresentar aos alunos um desenvolvimento temático sobre as escolhas indi-


viduais e suas decorrências.

TEXTO

Existem escolhas que nos envolvem individualmente e outras que nos tor-
nam responsáveis pelo futuro das gerações. No modo de produção capitalista, que se
concretiza por meio da exploração tanto da força de trabalho quanto de recursos naturais
não renováveis, a questão ética e política, expressa no princípio de responsabilidade,
implica o problema da conservação dos meios de existência do planeta e da espécie huma-
na. E essa questão envolve cada indivíduo, no lugar em que se encontra no contexto das
relações sociais: a indiferença também é uma escolha, e qualquer que seja nossa atitude
estamos comprometidos. Por isso, em tempos de fim das grandes utopias, quando parece
não haver alternativa ao capitalismo, torna-se urgente questionar esse sistema que põe em
risco o futuro das gerações. Esse é um dos sentidos da relação entre ética e política.
Perguntar pela liberdade no âmbito moral significa perguntar sobre o que
somos, o que fazemos de nossa vida no contexto em que estamos inseridos, se temos
possibilidade de agir conscientes das determinações que interagem com nossa vontade –
enfim, se somos donos de nosso destino. E esse destino não é individual, mas social, visto
que nas condições atuais da sociedade é de nossas ações e iniciativas que dependem a
preservação e a renovação da vida.

REFERÊNCIA

VÁRIOS autores. Filosofar. São Paulo: Scipione, 2007.

FGPM II – 39
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 9

ANOTAÇÕES

FGPM II – 40
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
SOBRE A NATUREZA DA AÇÃO HUMANA: ATIVIDADE 10
UMA ABORDAGEM METAFÍSICA
OBJETIVOS

Apresentar ao leitor a definição da ação humana, conforme um desenvolvi-


mento filosófico. Pretende-se que o estudante, ao se situar na problemática ecológica (apre-
sentada na segunda temática desta apostila), a fundamente quanto ao tipo de ação humana
a ser possivelmente adotada em relação a uma reafirmação ou negação de pressupostos
metafísicos, situando a questão ecológica à uma determinada condição temática do ho-
mem em relação à natureza.

TEXTO

A definição de ação humana e sua composição metafísica

Nos remetemos então à compreensão da natureza da ação humana, para


então situá-la sob o enfoque da metafísica.
Segundo Peter Smith e O.R. Jones1, um bom modo para começar uma
investigação acerca da natureza da ação humana é a partir da questão levantada por
Wittgenstein: “O que sobra se eu subtrair o fato de o meu braço se ter erguido ao fato de
eu ter erguido o meu braço?”. Evidentemente, o teu braço pode ter-se erguido sem que o
tenhas feito intencionalmente subir; talvez o teu cotovelo se tenha mexido, alguém puxe por
fios amarrados ao teu pulso ou alguém esteja a dar choques elétricos aos músculos do teu
braço. Nem todas as ocasiões em que o teu braço se ergue são ocasiões em que tu agiste:
por isso o que marca a diferença entre o erguer do braço que corresponde a ações genuí-
nas das que não o são?
Como resposta inicial, podemos dizer algo deste tipo: “Para que meu braço
se erga sem que eu ativamente o erga, tem que haver uma causa exterior para esse movi-
mento – uma rajada de vento que arraste o guarda-chuva que eu seguro, alguém que mexa
no meu cotovelo, ou outras situações do gênero. Se eu próprio erguer o braço, contudo, não
há necessidade de uma causa exterior que mova o meu braço: a causa será interna. O mo-
vimento dever-se-á à contração dos meus músculos, que por sua vez se deverá a impulsos
nervosos, e por aí fora. Em resumo, a diferença entre um mero movimento corporal e uma
ação genuína é a diferença entre causalidade interna e externa.”
Mas, certamente, esta perspectiva não é suficiente; contrações musculares,
espasmos, tiques nervosos e movimentos reflexos têm causas internas, mas ainda não são
o tipo de coisas a que queremos designar por ações.
De fato, se não houvesse mais qualquer coisa numa ação do que causalida-

1 Texto adaptado de: SMITH, P.; JONES, O. R. The philosophy of mind: an introduction. Cambridge: Cambridge Uni-
versity Press, 1986. p. 119-134.

FGPM II – 41
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 10

de interna, não haveria nenhuma razão ao qual o movimento das plantas causado interna-
mente ou mesmo os movimentos de um relógio, não contassem como verdadeiras ações.
Ainda assim, parece fácil emendar a nossa definição de ação de modo a evi-
tar tais abstrusidades: as ações intencionais são, num certo sentido, coisas em que a nossa
mente está envolvida – portanto seguramente aquilo que necessitamos de dizer é que, num
sentido último, as ações têm de ter causas mentais internas. Um espasmo muscular reflexo,
como o movimento de uma planta ou de um relógio, tem (num sentido amplo) uma causa
interna: mas uma ação genuína tem antecedentes mentais – a tua mente tem um papel a
desempenhar na execução da ação.
Note-se que, enquanto podemos dizer que todas as ações têm causas men-
tais, não podemos reverter esta afirmação e dizer que todos os movimentos com causas
mentais são ações. Como tal, a ansiedade pode fazer a tua mão tremer ou o embaraço
pode provocar-te contrações musculares, mas estas tremuras e contrações não são ações,
apesar dos seus antecedentes mentais. Portanto a presença de causas mentais é apenas
uma condição necessária da ação genuína, mas não é uma condição suficiente. […].
Quais são os antecedentes mentais da ação? Que tipo de acontecimentos ou
estados mentais são as causas iniciadoras de uma ação intencional?
O nosso primeiro pensamento pode ser que a ação resulta sempre do dese-
jo. Por outras palavras, as ações são coisas que fazes ou porque queres fazê-las ou porque
acreditas que elas são o meio para chegares a outras coisas que desejas.
Quando ativamente ergue-se o braço, isso ocorre porque simplesmente exis-
te um ‘querer’ que ele se erga, ou porque o subir do braço seja necessário para outra coisa
qualquer desejada. Por contraste, as não-ações, como espasmos ou contrações muscula-
res, acontecem independentemente dos desejos.
Mas existe uma aparente dificuldade com este primeiro pensamento plausível
que pode ser explicitado pelo seguinte argumento:
(D) Os nossos desejos – ou pelo menos os mais básicos – não são estados
sobre os quais tenhamos muito controle; não depende usualmente de nós sentirmos sede
e querermos beber, ou desejarmos estar mais quentes, ou termos desejos sexuais. As
nossas crenças, de igual modo, não estão sobre o nosso controle voluntário; muitas são
adquiridas perceptivamente e a percepção envolve um processo causal que não depende
de nós. Portanto, se caracterizarmos as ações como fazeres causados por desejos (em
conjunto com as crenças apropriadas), isto sugere que há estados que não dependem de
nós automaticamente, que produzem ações sem a nossa intervenção; e isto implicaria que
as nossas ações também não dependem de nós. Esta conclusão põe em causa todo o
conceito de ação tal como é definida comumente […].
Seguindo Anscombe, a nossa sugestão fundamental é que uma ação é
intencional apenas se é feita com razões à luz das quais o comportamento de um agente
pode ser compreensível.
Especificar as razões que fazem um comportamento ser compreensível é

FGPM II – 42
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 10

especificar o desejo ou pró-atitude relevantes e uma crença de que o efeito da ação con-
duza ao desejo esperado. Necessitamos, contudo, de destacar um aspecto que até agora
foi deixado implícito. De modo a explicar a ação de alguém, não é suficiente especificar um
desejo e uma crença que o agente tenha que torna a ação compreensível; se queremos
ter uma explicação correta, a ação tem que ter sido feita por causa desse desejo e dessa
crença.
O pensamento essencial em D era que se tentarmos definir ações como fa-
zeres que explicamos recorrendo a desejos, dado que os desejos não “dependem de nós”
o mesmo se aplicará supostamente às nossas ações intencionais. Bom, aceitemos que as
nossas necessidades mais básicas não estão sob o nosso controle – não podemos fazer
nada quando temos sede, por exemplo. Mas muitos dos desejos ou pró-atitudes envolvidos
na explicação da ação humana ou talvez mesmo a maior parte depende de algum modo de
nós (pelo menos no sentido vulgar dessa expressão).
Juntando os fios da nossa discussão, podemos concluir dizendo que um fa-
zer é uma ação quando apenas se envolve algo feito intencionalmente, isto é, algo realizado
por causa de uma pró-atitude apropriada e de uma crença respectiva. Parece, portanto, que
chegamos finalmente […] à formulação correta do núcleo de uma teoria causal da ação – as
causas mentais desses episódios comportamentais que contam como ações intencionais
são simplesmente crenças e desejos. De modo a responder à questão de Wittgenstein: a
diferença entre o teu braço se erguer e tu ergueres o teu braço é uma questão de causalida-
de através de crenças e desejos.
Podemos afirmar que, embora o sujeito pensante tenha alcançado, pela
sistematização metafísica, uma espécie de aporte para a construção de convicções ‘vali-
dáveis’ na história das ideias, tal situação ainda é insuficiente em si para uma abordagem
filosófica sobre uma dada projeção de futuro, por exemplo, em relação à vida e a seu agra-
vante ecológico em uma abrangência de ordem planetária.
O conflito gerado entre a conceituação das ideias e a consideração, nestas,
de um sentido metafísico, mesmo através do que se poderia definir ‘sistemas metafísicos’
nos impõe, agora, uma busca detalhada sobre suas próprias possibilidades ou limites.

REFERÊNCIAS

HABERMAS, J. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2002.
. Verdade e justificação: ensaios filosóficos. São Paulo: Ed. Loyola, 2004.
JAPIASSU, H.; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
NICOLA, U. Antologia ilustrada de filosofia. São Paulo: Globo, 2005.
REALLE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia. São Paulo: Paulos, 1991. v. 2 e 3.

FGPM II – 43
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 10

ANOTAÇÕES

FGPM II – 44
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
A COMPOSIÇÃO DA AÇÃO HUMANA ATIVIDADE 11
E SUA INTENCIONALIDADE
OBJETIVO

Pretende-se que o aluno identifique a identificação de ideias nas ações como


um procedimento do pensar metafísico.

TEXTO

Seguindo Anscombe, a nossa sugestão fundamental é que uma ação é


intencional apenas se é feita com razões à luz das quais o comportamento de um agente
pode ser compreensível.
Especificar as razões que fazem um comportamento ser compreensível é
especificar o desejo ou pró-atitude relevantes e uma crença de que o efeito da ação con-
duza ao desejo esperado. Necessitamos, contudo, de destacar um aspecto que até agora
foi deixado implícito. De modo a explicar a ação de alguém, não é suficiente especificar um
desejo e uma crença que o agente tenha que torna a ação compreensível; se queremos
ter uma explicação correta, a ação tem que ter sido feita por causa desse desejo e dessa
crença.
O pensamento essencial em D, era que se tentarmos definir ações como fa-
zeres que explicamos recorrendo a desejos, dado que os desejos não “dependem de nós”
o mesmo se aplicará supostamente às nossas ações intencionais. Bom, aceitemos que as
nossas necessidades mais básicas não estão sob o nosso controle – não podemos fazer
nada quando temos sede, por exemplo. Mas muitos dos desejos ou pró-atitudes envolvidos
na explicação da ação humana, ou talvez mesmo a maior parte, dependem de algum modo
de nós (pelo menos no sentido vulgar dessa expressão).
Juntando os fios da nossa discussão, podemos concluir dizendo que um
fazer é uma ação apenas se envolve algo feito intencionalmente, isto é, algo realizado por
causa de uma pró-atitude apropriada e de uma crença respectiva. Parece, portanto, que
chegamos finalmente […] à formulação correta do núcleo de uma teoria causal da ação – as
causas mentais desses episódios comportamentais que contam como ações intencionais
são simplesmente crenças e desejos. De modo a responder à questão de Wittgenstein: a
diferença entre o teu braço se erguer e tu ergueres o teu braço é uma questão de causalida-
de através de crenças e desejos.
Podemos afirmar que, embora o sujeito pensante tenha alcançado, pela
sistematização metafísica, uma espécie de aporte para a construção de convicções ‘validá-
veis’ na história das ideias, tal situação ainda é insuficiente em si para uma abordagem filo-
sófica sobre uma dada projeção de futuro, por exemplo, em relação à vida e seu agravante
ecológico em uma abrangência de ordem planetária.

FGPM II – 45
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 11

O conflito gerado entre a conceituação das ideias e a consideração, nestas,


de um sentido metafísico, mesmo através do que se poderia definir ‘sistemas metafísicos’
nos impõe, agora, uma busca detalhada sobre suas próprias possibilidades ou limites.

REFERÊNCIAS

HABERMAS, J. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2002.
. Verdade e justificação: ensaios filosóficos. São Paulo: Ed. Loyola, 2004.
JAPIASSU, H.; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
NICOLA, U. Antologia ilustrada de filosofia. São Paulo: Globo, 2005.
REALLE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia. São Paulo: Paulos, 1991. v. 2 e 3.

ANOTAÇÕES

FGPM II – 46
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
SÍNTESE PARA AUTOAVALIAÇÃO ATIVIDADE 12

OBJETIVO

Apresentar ao aluno uma reflexão que mostre a relação entre intencionalida-


de, ação humana e metafísica.

TEXTO

Pensar implica um movimento de ideias que gera algo que não pode se redu-
zir a meras representações.
O pensar implica também referência única que o homem tem para qualificar
ou julgar o efeito final deste procedimento. O ato humano.
No entanto, não basta se apropriar da afirmação anterior de forma axiomáti-
ca ou evidente. Esta condição ainda se apresenta insuficiente para que o homem diante de
seu ato, seja qual for este, possa ter o devido grau de consciência do que realiza ou do que
pretende realizar.
Assim, cabe à metafísica oferecer ao sujeito pensante a solução desta espé-
cie de indeterminação, que impede que este possa gerir todas as possibilidades do seu agir.
A metafísica, neste contexto, produz a noção de “intencionalidade” e esta fer-
ramenta, aplicada em razão de uma diretriz do pensamento, satisfaz então a necessidade
do homem de (através de seus atos) pensar enquanto parte de uma humanidade.
Não há como evitar a necessidade do homem de conceber a noção de hu-
manidade e também de identificar-se a esta. Desta forma, compreende-se porque o ho-
mem ao ser coercitivamente isolado da convivência com outros seres humanos (de forma
radical) vem inevitavelmente a se desumanizar.

ANOTAÇÕES

FGPM II – 47
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 12

ANOTAÇÕES

FGPM II – 48
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
A RELAÇÃO METAFÍSICA ENTRE O HOMEM ATIVIDADE 13
E A NATUREZA EM B. PASCAL
OBJETIVO

Apresentar ao estudante uma proposta de entendimento da relação do ho-


mem com a natureza, esta proposta dispõe também ao leitor um contato com os reflexos de
uma produção metafísica ao pensar, o que justifica a escrita do filósofo com uma aborda-
gem contemporânea sobre a temática do homem em relação à natureza e a seu adequado
encaminhamento num âmbito metafísico.

TEXTO

Absolutamente não seria a ignorância humana o fator decisivo para se jus-


tificar a problemática não só de uma contínua destruição da natureza disposta no planeta,
mas, acima de tudo, a lacuna existente entre o móvel das ações humanas e seus fins. Em
outras palavras, a ausência de sentido (nexo metafísico) que impera sobre a humanidade e
a torna cega, quando não perdida, pois o homem (humanidade) é uma extensão da nature-
za ao qual deve se referir como parte e não como existência à parte.
Eis o primado da metafísica, ao conduzir o homem a sua verdadeira noção
de humanidade em que, segundo Blaise Pascal1, a primeira coisa que se oferece ao ho-
mem ao se contemplar a si próprio, é seu corpo, isto é, certa parcela de matéria que lhe é
peculiar. Mas, para compreender o que ela representa a fixá-la dentro de seus justos limites,
precisa compará-la a tudo o que se encontra acima ou abaixo dela. Não se atenha, pois,
a olhar para os objetos que o cercam, simplesmente, mas contemple a natureza inteira na
sua alta e plena majestosidade. Considere esta brilhante luz colocada acima dele como
uma lâmpada eterna para iluminar o universo, e que a Terra lhe apareça como um ponto
na órbita ampla deste astro e maravilhe-se de ver que essa amplitude não passa de um
ponto insignificante na rota dos outros astros que se espalham pelo firmamento. E se nossa
vista aí se detém, que nossa imaginação não pare; mais rapidamente se cansará ela de
conceber o que a natureza revelar. Todo esse mundo visível é apenas um traço perceptível
na amplidão da natureza, que nem sequer nos é dado a conhecer de um modo vago. Por
mais que ampliemos as nossas concepções e as projetemos além de espaços imagináveis,
concebemos tão somente átomos em comparação com a realidade das coisas2.
Que o homem, voltado para si próprio, considere o que ele é diante do que
existe; que se encare como um ser extraviado neste pequeno setor da natureza, e que da
pequena cela onde se acha preso, do universo, aprenda a avaliar em seu valor exato a
terra, os reinos, as cidades e ele próprio.

1 Extraído do volume Pensadores franceses, da Coleção Clássicos Jackson, volume XII. Tradução de J. Brito Broca
e Wilson Lousada. Trecho da parte dois do livro póstumo Pensamentos.
2 Esta é uma esfera cujo centro se encontra em toda parte e cuja circunferência não se acha em alguma. E o fato de
nossa imaginação perder-se neste pensamento constitui, em suma, a maior manifestação da onipotência de Deus.

FGPM II – 49
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 13

Que é um homem diante do infinito?


Quero, porém, apresentar-lhe outro prodígio igualmente assombroso, colhido
nas coisas mais delicadas que conhece. Eis uma lêndea, que na pequenez de seu corpo
contém partes incomparavelmente menores, pernas com articulações, veias nessas per-
nas, sangue nessas veias, humores neste sangue, gotas nesses humores, vapores nestas
gotas; dividindo-se essas últimas coisas esgotar-se-ão suas capacidades de concepção,
do homem, e estaremos, portanto, ante o último objeto a que pode chegar nosso discurso.
Talvez imagine, então, seja essa a menor coisa da natureza. Quero mostrar-lhe, porém,
dentro dela um novo abismo. Quero pintar-lhe não somente o universo visível, mas também
a imensidade concebível da natureza dentro desta parcela de átomo. Aí existe uma infinida-
de de universos, cada qual com o seu firmamento, seus planetas, sua terra em iguais pro-
porções às do mundo visível; e nessa terra há animais e neles essas lêndeas onde voltará
a encontrar o que nas primeiras observou. Deparará assim, por toda a parte, sem cessar,
infindavelmente, com a mesma coisa, e perder-se-á nessas maravilhas tão assombrosas
na sua pequenez quanto as outras na sua magnitude. Pois como não se admirar de que
nosso corpo, antes imperceptível no universo, imperceptível no todo, se torne um colosso,
um mundo, ou melhor, um todo em relação ao nada a que se pode chegar?
Quem assim raciocinar há de se apavorar de si próprio e, considerando-se
suspenso entre esses dois abismos do infinito e do nada, tremerá à vista de tantas maravi-
lhas; e creio que, transformando sua curiosidade em admiração, preferirá contemplá-las em
silêncio a investigá-las com presunção.
Afinal que é o homem dentro da natureza? Nada, em relação ao infinito; tudo,
em relação ao nada; um ponto intermediário entre o tudo e o nada. Infinitamente incapaz
de compreender os extremos, tanto o fim das coisas quanto o seu princípio permanecem
ocultos num segredo impenetrável, e é-lhe igualmente impossível ver o nada de onde saiu e
o infinito que o envolve.
Que poderá fazer, portanto, senão perceber alguma aparência das coisas
num eterno desespero de não poder conhecer nem seu princípio nem seu fim? Todas as
coisas saíram do nada e são levadas para o infinito; Que haverá além desses assombrosos
limites? O autor das maravilhas o sabe, ninguém mais.
Por não haver meditado sobre esses infinitos, puseram-se os homens te-
merariamente a investigar a natureza, como se tivessem alguma proporção com ela. E é
estranho que tenham querido compreender os princípios das coisas, e assim chegar ao
conhecimento do todo através de uma presunção tão infinita quanto o seu objeto. Pois não
há dúvida de que é impossível conceber tal desígnio sem presunção ou sem a capacidade
infinita da natureza.
Quando se estuda, compreende-se que tendo a natureza gravado sua ima-
gem e a de seu autor em todas as coisas, todas participam de seu duplo infinito. Todas as
ciências são infinitas na amplitude de suas investigações, pois quem duvidará, por exemplo,
de que a geometria tenha uma infinidade de teoremas a serem expostos? São infinitas tam-

FGPM II – 50
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 13

bém na multidão e na delicadeza de seus princípios, pois quem não percebe que aqueles
que se consideram últimos não se sustentam sozinhos, mas se apóiam em outros, os quais,
tendo por sua vez outros por apoio, nunca são os últimos? Nós, porém, consideramos
últimos aqueles princípios que a razão nos aponta como últimos, tal qual fazemos com as
coisas materiais, em que, para nós, um ponto invisível é aquele que, por se achar mais lon-
ge de nossos sentidos, não pode ser percebido, embora continue divisível indefinidamente
por sua própria natureza.
Desses dois infinitos da ciência, o infinitamente grande é o mais sensível; por
isso nós o conhecemos imediatamente por inteiro. “Vou falar de tudo”, dizia Demócrito.
Porém, o infinitamente pequeno é muito pouco visível. A ele pretenderam
chegar os filósofos, entretanto; e nisso é que tropeçaram todos. Isso é que deu azo a títulos
tão frequentes quanto estes: Do princípio das coisas, do princípio da filosofia e quejandos,
tão pretensiosos e de efeito bem maior, embora não o pareça, do que esse outro que entra
pelos olhos: De omni scibili.
Acreditamos muito naturalmente sermos mais capazes de alcançar o centro
das coisas do que de abraçar a circunferência; a extensão visível do mundo ultrapassa-nos
manifestamente; porém, como ultrapassamos as coisas pequenas, acreditamo-nos mais
capazes de possuí-las; entretanto, não nos falta menos capacidade para chegar ao nada
do que chegar ao todo; para um, como para outro, falta-nos uma capacidade infinita, e
creio que quem tivesse compreendido os princípios últimos das coisas chegaria também a
conhecer o infinito. Uma coisa depende da outra, e uma conduz à outra3.
Conheçamos, pois, nossas forças; somos algo e não tudo; o que temos que
ser priva-nos do conhecimento dos primeiros princípios que nascem do nada; e o pouco
que somos nos impede a visão do infinito.
Nossa inteligência, entre as coisas inteligíveis, ocupa o mesmo lugar que o
nosso corpo na magnitude da natureza.
Limitados em tudo, esse termo médio entre dois extremos encontra-se em
todas as nossas forças. Nossos sentidos não percebem os extremos: um ruído demasiado
forte nos ensurdece, demasiada luz nos deslumbra, demasiada distância ou demasiada
proximidade impede-nos de ver, demasiada longitude ou demasiada concisão do discurso
o obscurece, demasiada verdade nos assombrosa (sei de alguém que não pode com-
preender que quem de zero tira quatro fica zero); os primeiros princípios têm demasiada
evidência para nós outros, demasiado prazer incomoda, demasiada consonância aborrece
na música, e demasiado benefício irrita, pois queremos ter com que pagar a dívida: Be-
neficia eo usque laeta sunt dum videntur exsolvi posse; ubi multum ante venere, pro gratia
odium redditur. (Os benefícios são agradáveis enquanto pensamos poder devolvê-los; além
o reconhecimento se transforma em ódio. – Tácito, citado por Montaigne, XXX, 8). Não
sentimos nem os extremos calor nem o frio extremo; as qualidades excessivas são nossas
inimigas, não as sentimos, sofremo-las. Demasiada juventude ou demasiada velhice tolhem

3 Esses extremos se tocam e se unem, à força de se afastarem, encontrando-se em Deus, somente em Deus.

FGPM II – 51
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 13

o espírito; assim como demasiada ou insuficiente instrução. Em suma, as coisas extremas


são para nós como se não existissem, não estamos dentro de suas proporções: escapam-
nos ou lhes escapamos.
Eis o nosso estado verdadeiro; é o que nos torna incapazes de saber com
segurança e de ignorar totalmente. Nadamos num meio termo vasto, sempre incertos e flu-
tuantes, empurrados de um lado para o outro. Qualquer objeto a que pensemos apegar-nos
vacila e nos abandona, e se o perseguirmos foge à perseguição. Escorrega-nos entre as
mãos numa eterna fuga. Nada se detém por nós. É o estado que nos é natural e, no entan-
to, nenhum será mais contrário à nossa inclinação; ardemos de desejo por encontrar uma
plataforma firme e uma base última e permanente para sobre ela edificar uma torre que se
erga até o infinito; porém os alicerces ruem e a terra se abre até o abismo.
Não procuremos segurança e firmeza. Nossa razão é sempre iludida pela
inconstância das aparências e nada pode fixar o finito entre os dois infinitos que o cercam e
dele se afastam.
Creio que a concepção deste inevitável fará que o homem se conforme com
o estado em que a natureza o colocou e o mantenha tranquilo. Esse termo médio que nos
coube por destino, situa-se sempre os dois extremos, de modo que pouco nos importa
tenha o homem maior ou menor inteligência das coisas. Se a tiver as verá apenas de um
pouco mais alto. Mas não se achará sempre infinitamente afastado da meta, e a duração de
nossa vida não o estará também, infinitamente, afastada da eternidade, embora durem dez
anos mais?
Se tivermos em mente estes infinitos, todos os finitos serão iguais; e não vejo
razão para assentar a imaginação em um deles e a preferência ao outro. A simples compa-
ração entre nós e o infinito nos acabrunha.
Se o homem procurasse conhecer a si mesmo, antes de mais nada, perce-
beria logo a que ponto é incapaz de alcançar outra coisa.
Como poderia uma parte conhecer o todo? Mas a parte pode ter, pelo me-
nos, a ambição de conhecer as partes, as quais cabem dentro de suas próprias proporções.
E como as partes do mundo têm sempre relações íntimas e intimamente se encadeiam,
considero impossível compreender, mas sem alcançar as outras e sem penetrar o todo.
O homem, por exemplo, tem relações para durar, de movimento para viver,
de elementos que o constituam, de alimentos e calor que o nutram, de ar para respirar; vê a
luz, percebe os corpos; em suma, tudo se alia a ele próprio. Para conhecer o homem, por-
tanto, mister se faz saber de onde vem que precisa de ar para subsistir; e para conhecer o
ar é necessário compreender donde provém essa sua relação com a vida do homem etc. A
chama não subsiste sem o ar; o conhecimento de uma coisa se liga, pois, ao conhecimento
de outra. E como todas as coisas são causadoras e causadas, auxiliadoras e auxiliadas,
mediatas e imediatas, e todas se acham presas por um vínculo natural e insensível que une
as mais afastadas e diferentes, parece-me impossível conhecer as partes sem conhecer
o todo, bem como conhecer o todo sem entender particularmente as partes. (A eternidade

FGPM II – 52
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 13

das coisas, em si mesmas ou em Deus, deve assombrar a nossa ínfima duração. A imo-
bilidade fixa e constante da natureza, em comparação com a transformação contínua que
se verifica em nós, deve causar o mesmo efeito). E o que completa a nossa incapacidade
de conhecer as coisas é o fato de serem simples em si enquanto nós somos complexos de
natureza antagônica e de gêneros diversos, alma e corpo. Pois é impossível que a parte
raciocinante de nós mesmos não seja unicamente espiritual; e se pretenderem que somos
tão somente corporais, mais afastarão ainda de nós o conhecimento das coisas, porquan-
to nada mais será inconcebível do que a matéria conhecer-se a si própria; não podemos
conceber de que maneira se conheceria. Assim, se somos simplesmente materiais nada
podemos conhecer; e se somos compostos de espírito e matérias não podemos conhecer
perfeitamente as coisas simples, espirituais ou corporais.
Donde a confusão generalizada entre os filósofos que misturam as ideias das
coisas, falando espiritualmente das coisas corporais e corporalmente das coisas espirituais.
Dizem, ousadamente, que as coisas tendem a cair, que tendem para o
centro, que fogem à sua destruição, que temem o vácuo, que tem inclinações, simpatias,
antipatias, qualidades todas que somente ao espírito pertencem. E, referindo-se ao espírito,
consideram-no como se estivesse em determinada espaço, e lhe atribuem a capacidade de
movimentar-se, coisas que pertencem apenas aos corpos. Em vez de recebermos a ideia
pura das coisas, tingimo-la com nossas qualidades e impregnamos de nosso ser composto
todas as coisas simples que contemplamos.
Que não há de supor, ao nos ver juntar as coisas do espírito e do corpo, que
tal mescla nos é muito compreensível? No entanto, é essa a coisa que menos se compre-
ende. O homem é, em si mesmo, o objeto mais prodigioso da natureza; pois não se pode
conceber nem o que é corpo, nem, menos ainda, o que é espírito, e, ainda menos, de que
modo um corpo pode se unir a um espírito. Essa a sua dificuldade máxima, e, não obstante,
a sua própria essência: Modus quo corporibus adhaerent spiritus comprehendi ab homi-
nibus non potest, et hoc tamem home est. (A maneira por que se acha o espírito unido ao
corpo não pode ser compreendida pelo homem, e, não obstante, é o homem. Santo Agosti-
nho, citado por Montaigne).
Mas, para concluir a prova de nossa fraqueza, terminarei com estas duas
considerações.
Quando penso na pequena duração da minha vida, absorvida na eternidade
anterior, no pequeno espaço que ocupa, fundido na imensidade dos espaços que ignora
e que me ignoram, aterro-me e me assombro de ver-me aqui e não alhures, pois não há
razão alguma para que esteja aqui e não alhures, agora e não em outro qualquer momento.
Quem me colocou nessas condições? Por ordem e obra e necessidade de quem me foram
designados esse lugar e esse momento?Memoria hospitis unius diei praetereuntis. (A lem-
brança de hóspede de um dia que passa. Sabedoria, V, 15.
Ante a cegueira e a miséria do homem, diante do universo mudo, do homem
sem luz, abandonado a si mesmo e como que perdido nesse rincão do universo, sem cons-

FGPM II – 53
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 13

ciência de quem o colocou aí, nem do que veio fazer, nem do que lhe acontecerá depois
da morte, ante o homem incapaz de qualquer conhecimento, invade-me o terror e sinto-
me como alguém que levassem, durante o sono, para uma ilha deserta, e espantosa, e aí
despertasse ignorante de seu paradeiro e impossibilitado de se evadir. E maravilho-me de
que não se desespere alguém ante tão miserável estado. Vejo outras pessoas ao meu lado,
aparentemente iguais; pergunto-lhes se se acham mais instruídas que eu, e me respon-
dem pela negativa; no entanto, esses miseráveis extraviados se apegam aos prazeres que
encontram em torno de si4. 
O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora.
Quantos reinos nos ignoram!
Por que são limitados meu conhecimento, minha estatura, a duração de
minha vida a cem anos e não a mil? Que motivos levaram a natureza a me fazer assim, a
escolher esse número em lugar de outro qualquer, desde que na infinidade dos números
não há razões para tal preferência, nem nada que seja preferível a nada?

Uma abordagem filosófica ante uma problematização ecológica5

O criticismo kantiano, com a noção de número, de algum modo traçara já


fronteiras para um conhecimento diferenciado de metafísica. Questionava-se nomeada-
mente que, com a identificação do homem como um microcosmos, ele conhecesse – ainda
que analógica e poeticamente – o mundo, na sua totalidade, a partir de uma contemplação
interior.
Já nos Prolegómenos, a afirmação de que “as leis gerais da natureza podem
ser conhecidas a priori” conduz-nos, quase que automaticamente, como ele nos diz tam-
bém, à ideia de que “a legislação suprema da natureza se deve encontrar em nós”.
Por isso, “é a natureza que é derivada das leis da possibilidade da experiên-
cia em geral e confunde-se absolutamente com a simples conformidade universal desta em
relação às leis. Mas neste contexto, ou seja, no âmbito de um conhecimento da natureza, o
que está em jogo não é a natureza das coisas em si, é antes “a natureza enquanto objeto de
uma experiência possível”. Por exigências ditadas pelos próprios princípios da cientificidade,
designadamente o da universalidade, encontramos o mundo fenomenal. Mundo que, para
Kant, encerra o “protótipo do ser”, segundo o que nos diz Lévinas . Na Crítica da Faculdade
de Julgar, Kant procede ainda à analítica do sublime apresentando-nos aí esta categoria
estética como a que mais adequadamente exprime o sentimento – misto de espanto e de
medo – experimentado diante de uma natureza que se reflete em nós. O sentimento do
sublime – acrescente-se – surge na conjugação do tremendum com o> fascinans, condicio-
nando a experiência do poético através do qual o ser da natureza é filtrado pela experiência

4 Quanto a mim, não consigo afeiçoar-me a tais objetos e, considerando que no que vejo há mais aparência do que outra
coisa, procuro descobrir se Deus não deixou algum sinal próprio.
5 Texto adaptado do título de Adalberto Dias de Carvalho.

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Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 13

que empreendemos em torno do próprio espetáculo do mundo. O devir da natureza trans-


figura-se num devir para a consciência – um fim segundo Hegel – e, mais concretamente,
na Enciclopédia das Ciências Filosóficas –, a natureza acaba por não ser mais do que um
momento que a dialética da ideia superará necessariamente, circunstância que, em última
instância, converte a sua filosofia da natureza numa filosofia do espírito: “A ideia produz-se
na natureza sob a forma de uma existência estranha a ela própria.
Como é a ideia que procede dessa maneira à negação dela mesma, e que
se torna exterior a si mesma, a natureza não deve ser considerada como uma existência ex-
terior relativamente à ideia, nem mesmo relativamente à sua existência subjetiva, quer dizer
ao espírito, mas deve-se considerar esta maneira de ser exterior como uma determinação
em que ela existe como natureza”.
Curiosamente, Espinosa, seguindo um percurso distinto do de Hegel, chega-
ra todavia também a um sistema racional unificado mas em que, em vez da ideia, a enti-
dade aglutinadora é a própria natureza. Em relação a esta não há qualquer exterioridade,
apesar das insistentes ilusões da imaginação sobre a atribuição de um finalismo para além
da ordem e do necessitarismo naturais. Como afirma na ética, “nada é contingente na na-
tureza, mas tudo é dado nela pela necessidade da natureza divina em existir e em produzir
todo o efeito de uma certa maneira” .
A exterioridade radical da natureza, em termos de projeto cognitivo e de
ação, vem a ser admitida pelo positivismo em nome da objetividade do conhecimento e, a
partir daí, da eficácia da ação. Isto é, a afirmação de uma alteridade ontológica, que suporta
a relação da representação com o objeto material, valida os juízos científicos porquanto as
representações em que estes assentam garantem, na sua adequação, a correta ligação do
homem ao meio: um meio que é, sobretudo, o lugar da sua intervenção técnica. O determi-
nismo natural, esboçado na ciência moderna já desde o mecanicismo, vai agora legitimar,
sob a égide da ciência positivista, a regularidade da ação adaptativa do homem que o evo-
lucionismo, entretanto, aprofundará favorecendo, inclusive, a ideologia do progresso.
Ora, a dimensão utópica da perspectiva ambiental privilegia como seu ele-
mento central a noção de responsabilidade do homem perante uma natureza que passa a
revelar uma fragilidade essencial.
Esta sua característica distingue-a definitivamente, aliás, da conotacão que
assumia na concepção cosmológica onde a natureza era, de uma só vez, fundamento,
meio, origem e sede do absoluto.
As intervenções no ambiente exigem agora uma percepção científica e
filosófica da sua organização acrescida de preocupações éticas. O papel da educação
é, por isso, decisivo. A consciência ecológica, essa, é assim uma consciência construída,
elaborada segundo determinados valores e objetivos. É, pois, como o indica Lévinas, uma
consciência ética. Nunca é, com certeza, uma consciência espontânea ou até, se se quiser,
natural...

FGPM II – 55
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 13

A relação homem-natureza: uma abordagem metafísica

Considerando-se a problemática do homem em relação a um agravante eco-


lógico de grandes proporções (planetário), observamos que a metafísica deve ser aplicada
de forma instrumental.
O que significa que urge a necessidade de se estabelecer uma forma de
aplicação desta com sua devida extensão.
Em nossa atualidade a principal maneira de se estabelecer este “instrumen-
tal” seria pela educação e seus canais, próprios de desenvolvimento.
Obviamente não seria simplesmente uma questão de aplicação pedagógi-
ca, o que se deveria buscar é justamente resgatar no homem uma condição pensante, de
ordem metafísica, que o situe em toda sua espécie quanto à natureza que o compõe.
Assim nos dispomos diante de uma condição dual homem-natureza, que
remete a problemática ecológica lançada a um campo próprio de ação, a educação.
A educação ambiental, nomeadamente, constitui uma frente decisiva das
atuais propostas pedagógicas, que não poderá ficar à mercê de discursos escatológicos
ou de práticas militantes, sob pena de entrar, mais cedo ou mais tarde, em choque com
aquelas que são as suas autênticas finalidades antropológicas. Disseminada pelos diversos
projetos de intervenção educativa ou tentando erguer-se como um corpo coerente e exaus-
tivo de propostas dotado de identidade própria, a pedagogia ambiental aspira, em todas as
circunstâncias, a impulsionar, precisamente, a formação de comportamentos individuais e
coletivos de respeito para com a natureza. Tudo bem de acordo com os grandes princípios
que informam as propostas ecológicas dominantes. Equilíbrio, interação e interdependên-
cia, que surgem então como autênticos valores, cujo respeito dependerá a sobrevivência do
planeta e da humanidade e, uma vez essa assegurada, a qualidade da vida.
Em outras palavras, há um apelo no sentido da construção de um pacto com
a natureza na exata medida em que, constituindo-se a ecologia, num só movimento, como
um saber e como uma atitude onde se exprime, designadamente, a consciência do risco
do desconhecimento, se procura transfigurar o medo em ação, mas em ação natural e não
apenas artificial.
Dessa forma, procura-se configurar a ação humana como prolongamento da
ação natural, entretanto, mediatizada por uma consciência antropológica que surge, antes
de tudo, como uma consciência cosmológica. Ou seja, ainda, em vez de o medo suscitar
a entre posição do absoluto como meio para se assegurar a realização do sentido antro-
pológico ou de se alimentar apenas uma atitude de submissão ou de fuga, eis que, pelo
contrário, a consciência é ecológica enquanto é portadora, no homem, do próprio sentido
da natureza.
Condição de uma atitude de respeito, tratar-se-á, portanto, à partida, não tan-
to de um sentido objetivo e autônomo da natureza (se ele existe...), mas da representação
que dela faz o homem (como ser natural...). Em todos os casos, as teorias ecologistas e,

FGPM II – 56
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 13

por via delas, a educação ambiental, acabam por fazer um apelo constante à solidariedade,
mesmo antes de esta se tornar uma finalidade ética. Trata-se, então, como se disse, so-
bretudo de uma estratégia de sobrevivência. Resta saber se esta opera como uma ruptura
real com o antropocentrismo que percorre a ciência moderna (e que é apontado como um
pressuposto negativo a eliminar), sem que se caia nas ilusões do naturalismo tradicional.
Na verdade, o tema da natureza surge no mundo contemporâneo com um
vigor que não pode de forma alguma ser escamoteado, assim como não pode também ser
a originalidade relativa dos seus fundamentos.
sujeitos de um sistema, seus produtos e seus autores, no curso de
um interminável circuito de recorrência. Mas se a consciência ecológica foi inicialmente, so-
bretudo, apanágio do saber científico e, assim, consciência científica, tornou-se progressi-
vamente consciência política e, nos nossos dias, revela-se cada vez mais como consciência
filosófica, que só poderá se efetuar por uma apropriada abordagem metafísica.

REFERÊNCIAS

HABERMAS, J. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2002.
. O futuro da natureza humana. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2004.
. A ética da discussão e a questão da verdade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2007.
JAPIASSU, H.; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
NICOLA, U. Antologia ilustrada de filosofia. São Paulo: Globo, 2005.
PASCAL, B. Pensamentos (Pensées). In: MILLIET, S. (Trad. e org.); DES GRANGES, C. M.
(introdução e notas). . Rio de Janeiro: Tecnoprint Gráfica S.A., 1966.
REALLE,G.; ANTISERI, D. História da filosofia. São Paulo: Paulos, 1991. v. 2 e 3.

ANOTAÇÕES

FGPM II – 57
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 13

ANOTAÇÕES

FGPM II – 58
Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
UMA ABORDAGEM FILOSÓFICA ANTE UMA ATIVIDADE 14
PROBLEMATIZAÇÃO ECOLÓGICA
OBJETIVO

Demonstrar ao aluno a noção de metafísica na contemporaneidade.

TEXTO

O criticismo kantiano, com a noção de número, de algum modo traçara já


fronteiras para um conhecimento diferenciado de metafísica. Questionava-se nomeada-
mente que, com a identificação do homem como um microcosmos, ele conhecesse – ainda
que analógica e poeticamente – o mundo, na sua totalidade, a partir de uma contemplação
interior.
Já nos Prolegómenos, a afirmação de que “as leis gerais da natureza podem
ser conhecidas a priori” conduz-nos, quase que automaticamente, como ele nos diz tam-
bém, à ideia de que “a legislação suprema da natureza se deve encontrar em nós”.
Por isso, “é a natureza que é derivada das leis da possibilidade da experiên-
cia em geral e confunde-se absolutamente com a simples conformidade universal desta em
relação às leis. Mas neste contexto, ou seja, no âmbito de um conhecimento da natureza, o
que está em jogo não é a natureza das coisas em si, é antes “a natureza enquanto objeto de
uma experiência possível”. Por exigências ditadas pelos próprios princípios da cientificidade,
designadamente o da universalidade, encontramos o mundo fenomenal. Mundo que, para
Kant, encerra o “protótipo do ser”, segundo o que nos diz Lévinas . Na crítica da faculdade
de julgar, Kant procede ainda à analítica do sublime apresentando-nos aí esta categoria
estética como a que mais adequadamente exprime o sentimento – misto de espanto e de
medo – experimentado diante de uma natureza que se reflete em nós. O sentimento do
sublime – acrescente-se – surge na conjugação do tremendum com o fascinans, condicio-
nando a experiência do poético através do qual o ser da natureza é filtrado pela experiência
que empreendemos em torno do próprio espetáculo do mundo. O devir da natureza trans-
figura-se num devir para a consciência – um fim segundo Hegel – e, mais concretamente,
na Enciclopédia das Ciências Filosóficas –, a natureza acaba por não ser mais do que um
momento que a dialética da ideia superará necessariamente, circunstância que, em última
instância, converte a sua filosofia da natureza numa filosofia do espírito: “A ideia produz-se
na natureza sob a forma de uma existência estranha a ela própria.
Como é a ideia que procede dessa maneira à negação dela mesma, e que
se torna exterior a si mesma, a natureza não deve ser considerada como uma existência ex-
terior relativamente à ideia, nem mesmo relativamente à sua existência subjetiva, quer dizer
ao espírito, mas deve-se considerar esta maneira de ser exterior como uma determinação
em que ela existe como natureza.”
Curiosamente, Espinosa, seguindo um percurso distinto do de Hegel, chega-

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Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
ATIVIDADE 14

ra também a um sistema racional unificado mas em que, em vez da ideia, a entidade aglu-
tinadora é a própria natureza. Em relação a esta não há qualquer exterioridade, apesar das
insistentes ilusões da imaginação sobre a atribuição de um finalismo para além da ordem
e do necessitarismo naturais. Como afirma na ética, “nada é contingente na natureza, mas
tudo é dado nela pela necessidade da natureza divina em existir e em produzir todo o efeito
de uma certa maneira”.
A exterioridade radical da natureza, em termos de projeto cognitivo e de
ação, vem a ser admitida pelo positivismo em nome da objetividade do conhecimento e, a
partir daí, da eficácia da ação. Isto é, a afirmação de uma alteridade ontológica, que suporta
a relação da representação com o objeto material, valida os juízos científicos porquanto as
representações em que estes assentam garantem, na sua adequação, a correta ligação do
homem ao meio: um meio que é, sobretudo, o lugar da sua intervenção técnica. O determi-
nismo natural, esboçado na ciência moderna já desde o mecanicismo, vai agora legitimar,
sob a égide da ciência positivista, a regularidade da ação adaptativa do homem que o evo-
lucionismo, entretanto, aprofundará favorecendo, inclusive, a ideologia do progresso.
Ora, a dimensão utópica da perspectiva ambiental privilegia como seu ele-
mento central a noção de responsabilidade do homem perante uma natureza que passa a
revelar uma fragilidade essencial.
Esta sua característica distingue-a definitivamente, aliás, da conotacão que
assumia na concepção cosmológica onde a natureza era, de uma só vez, fundamento,
meio, origem e sede do absoluto.
As intervenções no ambiente exigem agora uma percepção científica e filo-
sófica da sua organização acrescida de preocupações éticas. O papel da educação é, por
isso, decisivo. A consciência ecológica, essa, é assim uma consciência construída, elabora-
da segundo determinados valores e objetivos. É, pois, como o indica Lévinas, uma consci-
ência ética. Nunca é, com certeza, uma consciência espontânea ou até, se quiser, natural.

REFERÊNCIAS

HABERMAS, J. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2002.
. O futuro da natureza humana. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2004.
. A ética da discussão e a questão da verdade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2007.
JAPIASSU, H.; MARCONDES, D. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Ed. Zahar,1996.
KANT, E. Crítica da razão prática. São Paulo: Brasil Editora, 1959.
NICOLA, U. Antologia ilustrada de filosofia. São Paulo: Globo, 2005.
REALLE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia. São Paulo: Paulos, 1991. v. 2 e 3.

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Filosofia Geral - Problemas Metafísicos II
SÍNTESE PARA AUTOAVALIAÇÃO ATIVIDADE 15

OBJETIVO

Pretende-se que o aluno perceba de forma objetiva a importância da metafí-


sica na construção do pensamento filosófico contemporâneo.

TEXTO

Embora seja comum abordarmos a questão da metafísica em razão de um


conflito de diferentes correntes filosóficas, outra forma a se estabelecer esta abordagem
consiste num ensaio, onde se propõe a exclusão deste modelo a do pensar (sem a substi-
tuir por outro pensamento) para então se avaliar suas viabilidades.
A questão passa a ser: excluindo-se totalmente qualquer consideração meta-
física de um pensamento filosófico, este manteria sua estrutura “filosófica”?
Por isso observamos, na pós-modernidade, filósofos como Habermas cons-
truírem um sistema de pensamento “mais distanciado” do uso clássico da metafísica, porém
inevitavelmente mantendo uma âncora nesta (que se refere ao conceito universal de verdade).
O estudante de filosofia deve exercitar desde seus primórdios o trato rigoroso
das ideias, neste sentido fica o alerta; não é tão razoável substituir o que se define por pen-
samentos metafísicos por operações mentais em diferentes graus de abstração. Isto quer
dizer, a símile ou a noção de causa e efeito e mesmo a operação mental da associação de
ideias, entre outros, não são suficientes para substituir a estrutura metafísica que compõe o
pensar. Essa substituição, da metafísica para as operações mentais não passa, portanto, de
uma espécie de “reducionismo filosófico”.
Segundo Kant, não é possível aprender qualquer filosofia, pois onde se
encontra, quem a possui e segundo quais características se pode reconhecê-la? Só é
possível aprender a filosofar, ou seja, exercitar o talento da razão, fazendo-a seguir os seus
princípios universais em certas tentativas filosóficas já existentes, mas sempre reservando à
razão o direito de investigar aqueles princípios até mesmo em suas fontes, confirmando-os
ou rejeitando-os.

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ATIVIDADE 15

ANOTAÇÕES

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ATIVIDADE 15

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ATIVIDADE 1
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