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Imagens cimeiras da guerra

Imagens

A guerra foram os rastos verdes na noite. A guerra foi uma estátua a cair do pedestal
como um prémio. E antes disso foi uma cimeira respeitável de senhores respeitáveis.
Agora essa mesma guerra volta nas imagens de arquivo, ainda no registo dos videojogos
mortais, ainda como história não acabada. Mais realistas mas sempre à distância, as
conhecidas imagens do site wikileaks.org mostram o assassinato de onze civis em Julho
de 2007. Na mesma acção militar ficam feridas gravemente duas crianças que estavam
num camião que tentou socorrer as vítimas do primeiro raide. Entre a emoção
voyeurista e a voz excitada dos assassinos fica pouco espaço para as vítimas, esses
“bastardos” que morreram e que ainda por cima traziam os filhos para a guerra.

A outra mesma guerra também são imagens. Agora são drones. E sempre que as
imagens escapam à mentira da guerra limpa trazem a obscenidade do reality videojogo.
Vão parar ao youtube e fazem género: o pornodrone. No Afeganistão, os aviões não
tripulados, a arma fetiche da administração Obama, registam execuções sumárias de
suspeitos/as por julgar e de civis. Sempre vidas colaterais filmadas de longe que não
preenchem o ecrã nem ficam na memória.

As imagens da guerra do nosso tempo são por excelência cimeiras. De cima e ao longe
mostram a morte sem lugar para as vidas que roubam.

Mentiras

Os/as outros/as nem cabem nas imagens e muitos/as nem nas estatísticas. Só de algumas
destas vítimas colaterais ficam as histórias que escaparam às versões oficiais: como a
dos dois irmãos que trabalhavam para o governo afegão e das três mulheres mortos em
Khataba quando celebravam um nascimento; ou a dos oito jovens estudantes entre onze
e os dezoito anos tirados das camas, algemados e executados como fabricantes de
bombas; ou a dos/as 21 afegãos/ãs que viajavam em conjunto para um hospital e que
foram bombardeados/as mesmo depois de tentar avisar que eram civis; ou a das noventa
vítimas de uma trica de negócios (uma denúncia falsa não verificada sobre uma reunião
de talibãs que afinal era uma cerimónia fúnebre) e do bombardeamento americano. A
lista é inútil, os números teriam de crescer. Em comum a mesma mentira que acabou
desmascarada. Para cada mentira desmascarada quantas mentiras ocultas?

Esta guerra é a ideologia do securitarismo anti-terrorista e a realidade da droga. O ópio


foi uma das armas que os EUA e os seus aliados fundamentalistas utilizaram para
derrotar os soviéticos. Ironicamente, quando nas encruzilhadas da história, já na era dos
talibãs, chegou o tempo de se confrontarem entre si, a desesperada proibição da cultura
do ópio na esperança de salvar o regime fê-lo apenas colapsar mais depressa. E depois a
história é conhecida: os senhores da guerra em que os EUA se apoiaram eram
traficantes de heroína, o que contrastava com a mentira oficial da proibição de cultivar
ópio. A seguir à invasão das forças da Nato, o Afeganistão passou (confirmar aqui:
http://www.tomdispatch.com/blog/175225/) de 185 para 8.200 toneladas de produção.
Domínio sempre tanto central quanto colateral desta guerra, a produção de heroína
continua a fazer as suas vítimas para além das vítimas directas da guerra. Hoje mais do
que antes porque o Afeganistão é o narco-estado que produz 90% do ópio do mundo, o
que corresponde a 53% do PIB do país, envolvendo cerca de 20% da população na
produção desta cultura. A guerra da Nato alimenta o ciclo vicioso da droga: a guerra e a
violência empobrecem e coagem os/as camponeses/as não deixando lugar para outra
solução que a cultura de ópio o que favorece os senhores da guerra de ambos os lados
que acabam sempre a lucrar com o negócio.

As mentiras da guerra do nosso tempo estão seguras da força das armas e do fluxo
ininterrupto de informação-espectáculo que mata a possibilidade do pensamento. Afinal
a imagem é agora o ópio do povo tal como o ópio é a imagem desta guerra.

E cimeiras

Os senhores respeitáveis vêm aí. A guerra vai desfilar por Lisboa em cimeira. Longe
das vítimas colaterais, sem o cheiro a ópio, a cimeira é a faceta elegante da guerra. As
guerras nas cimeiras são limpas, justas e necessárias. São o ponto de vista elevado de
quem faz os seus cálculos por sobre as vidas dos outros.

A guerra vai passar por Lisboa em cimeira. Cá desfilaremos para que não passe
despercebida.