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Sumário

Pré História 4
Períodos da Pré-história 5
Paleolítico 5
Mesolítico 6
Neolítico 6
Idade dos Metais 6

Idade Antiga 7
Civilização Egípcia 8
Mesopotâmia 10
Fenícios 12
Hebreus 13
Persas 15

Grécia 16
Roma 23
Divisão e Invasões Bárbaras 29
Idade Média 31
Reinos Bárbaros 32
Império Romano do Oriente ou Império Bizantino 34
Império Islâmico 37
Sociedade Feudal 40

Baixa Idade Média 42


Idade Moderna 48
Renascimento 49
Reforma Protestante 53
Grandes Navegações 57
Mercantilismo 59
Absolutismo 61
A Revolução Inglesa do século XVII 62
Iluminismo 65
Revolução Industrial 69
Independência dos EUA 73

Idade Contemporânea 76
Revolução Francesa 77
Era Napoleônica (1799-1815) 82
Revoluções Liberais (1830-1848) 86
Idéias Socialistas 89
Guerra da Secessão nos EUA 91
Comuna de Paris 92
Unificações 92
Neocolonialismo ou Imperialismo 94
1ª Guerra Mundial 96
Revolução Russa 100
Crise de 1929 (Grande Depressão) 104
Regimes Totalitários 105
Segunda Guerra Mundial 110
Guerra Fria 115
Revolução Chinesa 117
Descolonização Afro Asiática 124
Oriente Médio e o conflito árabe-israelense 130
Nova Ordem Mundial 135
A
o contrário do significado da expressão que nomeia o período inicial
da história humana, a Pré-História não se trata de um período a
parte da História. Este termo foi elaborado por historiadores do
século XIX, que acreditavam ser impossível julgar o passado por documen-
tos que não fossem escritos. No entanto, o período pré-histórico, conta com
um riquíssimo aparato documental que relata as descobertas e costumes do
homem. Além disso, nos traz à tona uma série de questões de interesse atual,
como a que se refere à relação do homem com a natureza.
Pré- História é o período compreendido entre o aparecimento do ho-
mem sobre a Terra (há aproximadamente 2,5 milhões de anos) e o surgi-
mento da escrita, por volta do ano 4000 a. C. Esses mihões de anos ser-
viram para a evolução das espécies humanas, sendo as primeiras espécies
encontradas o Australopithecus e o Homo habilis.
O Australopithecus possuía uma arcada dentária e um esqueleto idên-
ticos aos do homem atual. Além disso já andavam sobre dois pés e possuía
um cérebro pequeno.

Pré História
Já o Homo habilis foi o primeiro a fabricar e utilizar instrumentos para
diversos fins, além de já ter domínio sobre o fogo.
Parece ter sido o Homo erectus a última escala evolutiva até o homem
atual. Foi ele quem primeiro abandonou a África, com seu nomadismo, es-
palhando-se pelo mundo.
Antes de chegar à espécie atual, o Homo sapiens, o homem passou por
uma série de transformações, conforme atestam os fósseis encontrados do Ne-
anderthal, na Alemanha, e do Cro-Magnon, na França.
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Professor Max Dantas

Períodos da Pré-história
A Pré-história pode ser dividida em qua-
tro períodos: o Paleolítico, ou Idade da Pedra
Lascada, o Mesolítico, o Neolítico, ou Idade da
Pedra Polida e a Idade dos Metais:
Paleolítico - é caracterizado pelo uso de
utensílios elaborados a partir da pedra lascada.
Nesse momento, o ser humano era nômade,
subsistindo a partir da coleta, da caça e da pes-
ca. Constituía comunidades onde predominava
a propriedade coletiva dos meios de produção.
Mesolítico - é o período intermediário entre o neolítco nas. Uma das mais importantes descobertas dessa época foi o
e o paleolítco onde o homem conseguiu dar grandes passos fogo. Com esse poderoso instrumento, os homens pré-históri-
rumo ao desenvolvimento e à sobrevivência de forma mais se- cos alcançaram melhores condições de sobrevivência median-
gura. O domínio do fogo foi o maior exemplo disto. Outros te as severas condições climáticas. Além disso, o domínio do
dois grandes avanços foram o início do desenvolvimento agrí- fogo modificou os hábitos alimentares humanos, com a intro-
cola e a domesticação dos animais. dução da caça e vegetais cozidos.
Neolítico - é marcado pelo processo de sedentarização da Sem contar com técni-
espécie humana. A partir do domínio sobre técnicas agrícolas cas de produção agrícola, o
e da criação de animais, formaram-se os primeiros núcleos ur- homem vivia deslocando-se
banos e deu-se a organização das tribos, que correspondem a por diversos territórios. Pra-
formações sociais mais complexas. ticantes do nomadismo, os
Idade dos Metais - foi o momento em que o ser huma- grupos paleolíticos utiliza-
no, aperfeiçoando técnicas de metalurgia, conseguiu elaborar vam dos recursos naturais à
instrumentos de trabalho e armas. Com isso, alguns grupos sua volta. Depois de consu-
passaram a deter a hegemonia sobre outros e as sociedades di- mi-los, migravam para regi-
Predras lascadas
vidiram-se em classes sociais. ões que apresentavam maior
disponibilidade de frutas, caça e pesca. Para fabricar suas ar-
mas e utensílios, os homens
faziam uso de osso, madei-
ra, marfim e pedra. Devi-
do a essas características da
cultura material do período,
também costumamos cha-
mar o Paleolítico de Perío-
do da Pedra Lascada.
Por volta de 40 mil
anos, os povos do paleolí-
tico começaram a viver em
grupos mais populosos. Ao
mesmo tempo, começaram
a criar novas moradias feitas
Vasilha pré histórica pintada
a partir de gravetos e peles
Paleolítico de animal. Uma das gran- Arte rupestre do Paleolítico numa
caverna da Espanha
Conhecido como o mais extenso período da história hu- des fontes de compreensão
mana, o Período Paleolítico abrange uma datação bastante va- desse período é encontrada nas paredes das cavernas, onde
riada que vai de 2,7 milhões de anos até 10.000 a.C.. Despro- se situam as chamadas pinturas rupestres. Nelas temos infor-
vido de técnicas sofisticadas, os grupos humanos dessa época mações sobre o homem pré-histórico referente à suas ações
desenvolviam hábitos e técnicas que facilitavam sua sobrevi- cotidianas.
vência em meio às hostilidades impostas pela natureza. No fim do Paleolítico, uma série de glaciações transfor-
Nesse período, as baixas temperaturas da Terra obriga- mou as condições climáticas do mundo. As temperaturas tor-
vam o homem do Neolítico a viver sob a proteção das caver- naram-se mais amenas e, a partir de então, foi possível o pro-
6
História Geral

cesso de fixação dos grupos humanos. produção que não iria ser utilizada, troca o excesso por peças
de artesanato, roupas e outras utensílios com outras aldeias.
Mesolítico Neste momento deixam de usar peles de animais como
O Mesolítico foi o período pré-histórico situado entre o vestimenta, que dificultam a caça e muitas outras atividades
Paleolítico e o Neolítico. O seu nome significa Idade Média pelo seu peso, e passam a usar roupas de tecido de lã, linho e
da Pedra (do grego mesos=medio e lithos=pedra) por contra- algodão, mais confortáveis e leves. O omem também inventou
posição ao Paleolítico (Idade Antiga da Pedra) e ao Neolítico a roda e desenvolveu meios de transportes como barcas de
(Idade Nova da Pedra). couro e carros puxados por força animal.
É marcado principalmente pelo fim das eras glaciais e ade-
quação da temperatura da terra à prática da agricultura, o que Idade dos Metais
facilita os assentamentos humanos, o homem descobre novos
materiais e técnicas a serem utilizados na confecção das ferra- Considerada a última fase do Neolítico (entre 5.000 a. C.
mentas de trabalho, como instrumentos de caça mais eficien- a 4.000 a. C.), a Idade dos Metais marca o início da domina-
tes e avançados. Os materiais utilizados normalmente eram o ção dos metais por parte das primeiras sociedades sedentárias
sílex, os ossos e os chifres. É durante esse período que encon- da Pré-História. Através do domínio de técnicas de fundição,
tramos as primeiras manifestações do uso da cerâmica. o homem teve condições de criar instrumentos mais eficazes
para o cultivo agrícola, derrubada de floretas e a prática da
Neolítico caça. Além disso, o domínio sobre os metais teve influência
Durante o Neolítico ou Idade da Pedra Polida (8.000 a. C. nas disputas entre as comunidades que competiam pelo con-
a 4.000 a. C.) a prática da caça e da coleta se tornaram opções trole das melhores pastagens e áreas férteis. Dessa maneira, as
cada vez mais difíceis, sendo que, a agricultura e o consequen- primeiras guerras e o processo de dominação de uma comu-
te processo de sedentarização, juntamente, com a domestica- nidade sobre outra contou com o desenvolvimento de armas
ção animal se tornaram práticas usuais entre os grupos hu- de metal.
manos que se formaram nesse período. A estabilidade obtida O primeiro tipo de metal utilizado foi o cobre. Com o
por essas novas técnicas de domínio da natureza e dos animais passar dos anos o estanho também foi utilizado como outro
também possibilitou a formação de grandes aglomerados po- recurso na fabricação de armas e utensílios. Com a junção des-
pulacionais. Essas significativas mudanças ocorridas ao longo ses dois metais, por volta de 3000 a.C., tivemos o aparecimen-
desse período ficaram conhecidas como Revolução Neolítica, to do bronze. Só mais tarde é que se tem notícia da descoberta
ou Revolução agrária, fator decisivo para a sobrevivência dos do ferro. Manipulado por comunidades da Ásia Menor, cerca
povos nesse período, segundo o arqueólogo Gordon Childe. de 1300 a.C., o ferro teve um lento processo de propagação.
Novas formas de organização social surgiam e, assim, as Isso se deu porque as técnicas de manipulação da liga de ferro
primeiras instituições políticas do homem podem ter sido for- eram de difícil aprendizado.
madas nessa mesma época. A criação e o abandono de formas Contando com sua utilização, observamos que a maior re-
coletivas de organização sócio-econômicas podem ser vislum- sistência dos produtos e materiais metálicos teve grande im-
brados no Neolítico. Conforme alguns pesquisadores, as pri- portância na consolidação das primeiras grandes civilizações
meiras sociedades complexas, criadas em torno da emergência do Mundo Antigo. Assim, o uso do metal pôde influenciar
de líderes tribais ou a organização de um Estado, são frutos tanto na expansão, como no desaparecimento de determina-
dessas transformações. das civilizações
Surge também o comércio, e com isso o dinheiro, que fa-
cilita a troca de materiais, e que era na época, representado Anotações
por sementes. Estas sementes, diferenciadas umas das outras,
representavam cada tipo, cada valor. Uma aldeia, ao produzir
mais do que o necessário e, para não perder grande parte da

Pedra polida do Neolítico


I
dade Antiga, foi o período que se estendeu desde a invenção
da escrita (4000 a.C. a 3500 a.C.) até a queda do Impé-
rio Romano do Ocidente (476 d.C.). A passagem da Pré
história para a história, se passa no momento em as organizações
sociais e políticas desenvolvem o domínio da escrita e passam para
um estado organizado
Diversos povos se desenvolveram na Idade Antiga. As civili-
zações de regadio - ou civilizações hidráulicas - (Egito, Mesopotâ-
mia, China), as civilizações clássicas (Grécia e Roma), os Persas
(primeiros a constituir um grande império), os Hebreus (primeira
civilização monoteísta), os Fenícios (senhores do mar e do comér-
cio), além dos Celtas, Etruscos, Eslavos, dos povos germanos (vi-
sigodos, ostrogodos, anglos, saxões, etc) e outros.
A Antiguidade foi uma era importantíssima, pois nessa épo-
ca tivemos a formação de Estados organizados com certo grau de

Idade Antiga
nacionalidade e territórios e organização mais complexas que as
cidades que encontramos antes desse período da história. Algumas
religiões que ainda existem no mundo moderno tiveram origem
nessa época, entre elas o cristianismo, o budismo, confucionismo
e judaísmo.

Tábua e fichas de barro mesopotâmicas registrando receitas e impostos


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História Geral

Civilização Egípcia no desenvolvida pelos faraós é denominada como Monarquia


teocrática. O governante (faraó)
O Egito é uma dádiva do Nilo, dis- era soberano hereditário, absoluto
se Heródoto, historiador grego. A de- e considerado uma encarnação di-
pendência que esta civilização apresen- vina. Era auxiliado pela burocracia
ta em relação ao Nilo é absoluta, pois estatal nos negócios de Estado, ha-
seu vale abrange mais de 1500 Km. vendo uma forte centralização do
Este grande rio têm como ação natural poder com anulação dos poderes
as cheias e vazantes que depositam hú- locais devido à necessidade de con-
mus ao longo de seu leito favorecendo jugação de esforços para as gran-
a agricultura. des construções.
A ocupação do vale por grupos au- O governo era proprietário
tônomos deu-se durante o neolítico, das terras e cobrava impostos das
pelas boas condições agrícolas da ter- comunidades camponesas (servi-
ra. Estes grupos se organizavam em al- dão coletiva). Os impostos podiam
deias, que eram denominadas de No- ser pagos via trabalho gratuito nas
mos, as quais eram coordenadas pelo obras públicas ou com parte da
Mapa do Antigo Egito
nomarca na construção de trabalhos hi- produção.
dráulicos.
Antigo Império (3 200 a 2 000 a.C.):
EVOLUÇÃO HISTÓRICA Tinha como capital a cidade de Ménfis. Os sucessores
A história política do Egito Antigo é tradicionalmente di- de Menés organizaram um sistema monárquico, despótico e
vidida em duas épocas: altamente burocratizado de caráter teocrático. O rei-deus (te-
Pré-Dinástica (até 3200 a.C.): ausência de centralização ocracia) era supremo e todos os outros eram seus servos. Foi
política pois a população estava organizada em nomos (comu- aproximadamente entre 2 700 e 2 600 a.C. que construíram as
nidades primitivas) independentes da autoridade central que grandes pirâmides em Gisé (Quéops, Quéfren e Miqueri-
era chefiada pelos nomarcas. Dois reinos Alto Egito (sul) e nos). Depois dessas monumentais construções, os gastos para
Baixo Egito (norte) surgiram por volta de 3500 a.C. em con- sua manutenção tornaram-se insustentáveis. Os faraós perde-
sequência da necessidade de se unir esforços para a constru- ram o poder e com eles a centralização política, aumentando o
ção de obras hidráulicas. A unificação dos nomos se deu em poder aos nomarcas. O Egito passa, então, por um período in-
meados do ano 3000 a.C., período em que se consolidaram a termediário, onde a paz e a prosperidade foram coisas raras.
economia agrícola, a escrita e a técnica de trabalho com metais
como cobre e ouro.
Dinástica: forte
centralização política.
Menés, rei do Alto Egi-
to, subjugou em 3200
a.C. o Baixo Egito. Pro-
moveu a unificação
política das duas ter-
ras sob uma monarquia
centralizada na imagem
do faraó, dando início
ao Antigo Império, Me-
nés tornou-se o primei-
ro faraó. Os nomarcas Médio Império (2 000 a 1 580 a.C.)
passaram a ser “gover- O faraó recupera o poder, Tebas é a nova capital (Vale
nadores” subordina- dos Reis) e os faraós da XII dinastia ampliaram as obras de
dos à autoridade fara- irrigação devolvendo a prosperidade ao Egito. Apesar dessa
ônica. prosperidade, os Hicsos, oriundos da Ásia menor, com toda
sua superioridade bélica invadem o Egito e reinam no delta
Política por quase dois séculos, mantendo os faraós isolados em Te-
A forma de gover- bas. Nessa época também houve a invasão dos hebreus (se-
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Professor Max Dantas

mitas). social privilegiado. A função


Novo Império (1 580 a 1 100 a.C.) de mediadores entre os deu-
Após a expulsão dos hicsos em 1 580 a.C. por Amosis I, ses e os homens lhes conce-
houve o despertar de um sentimento nacionalista e militarista dia enorme prestígio entre os
que submeteu os hebreus à escravidão até 1 250 a.C. no epi- demais membros da socieda-
sódio conhecido como Êxodo. Foi o apogeu do Egito como de egípcia. Responsáveis pelo
maior império do mundo, Tutmés III (1 480 a 1 448 a.C.) deu equilíbrio das atividades reli-
ao império a maior expansão territorial, até o Eufrates e Ra- giosas, tomavam a tarefa de
msés II (1 292 a 1 225 a.C.) derrotou os hititas na batalha do administrar todos os bens a
Kadesh, assegurando o domínio territorial sobre a Palestina e serem ofertados pelos deu-
a Síria. As novas riquezas obtidas possibilitaram a construção ses. Dessa forma, acabavam
de magníficos templos em Luxor e Karnak, conhecido como acumulando uma expressiva
a morada dos deuses. quantidade de bens materiais
Foi durante Máscara mortuária de Tuntancamon
ao longo de sua vida.
o novo império * Membros da nobreza ou família real: eram originá-
que houve a re- rios da família do Faraó, dos líderes do Exército e dos altos
forma religio- funcionários do governo.
sa monoteísta (1 * Escribas: formavam um setor intermediário da socie-
350 a.C.), reali- dade egípcia. Em razão de sua formação escolar privilegiada,
zada por Ame- em que apren-
nófis IV (1 377 diam a escrita
a 1 358 a.C.), que e a leitura dos
mudou seu nome hieróglifos,
Ramsés II para Akhenaton eram remune-
(aquele que agrada a Aton), anulada após sua morte. rados para au-
xiliarem no de-
Baixo Império (1 100 à 525 a.C.): senvolvimento
Após 1 100 a.C. ocorreu um lon- de várias ativi-
go período de decadência com con- dades comer-
quista de diversos povos, inclusive os ciais e adminis-
Assírios em 622 a.C sob Assurbani- trativas.
pal. * Comerciantes: também tinham grande importância
Psamético I, governante da cida- para o desenvolvimento da economia egípcia ao promoverem
de de Saís, liberta o país dos assírios, a circulação de riquezas entre seu povo e as demais civilizações
conhecido como Renascimento Saíta, vizinhas. Graças à sua ação, era possível o acesso a uma série
dando início ao último período de in- de produtos, como a madeira, utilizada na construção de em-
dependência do Egito que posterior- barcações e sarcófagos; o cobre e o estanho, metais úteis na fa-
mente (525 a.C.) foi conquistado pe- bricação de armamentos militares; e ervas, geralmente empre-
Nefertiti
los persas sob Cambises virando uma gadas na medicina e nos processos de mumificação.
mera província desses *Soldados e artesãos: Compunham uma parcela menos
privilegiada da sociedade egípcia. Os soldados viviam dos pro-
Sociedade dutos recebidos em troca dos serviços por eles prestados e,
No Egito Antigo observamos uma estrutura bastante rígi- em alguns momentos da história egípcia, eram recrutados en-
da, na qual a possibilidade de ascensão era mínima entre seus tre povos estrangeiros. Da mesma forma, os artesãos tinham
integrantes, sendo as profissões cargos e funções transmitidas uma vida bastante simples e trabalhavam nas construções e
por hereditariedade. A sociedade estava assim dividida: oficinas existentes no país.
*Faraó: governante máximo do Estado e adorado como * Felás, escravos e camponeses: faziam parte de seg-
uma divindade viva descendente de Amon-Rá. A função polí- mentos inferiores da sociedade egípcia. Em geral, estes escra-
tico-religiosa por ele ocupada imprimia uma natureza teocrá- vos eram obtidos por meio das conquistas militares. Curio-
tica ao governo egípcio. Para a população, a prosperidade ma- samente, esses não viviam uma condição social radicalmente
terial estava intimamente ligada às festas e rituais feitos em sua subalterna com relação aos seus donos. Mais tolerantes aos es-
homenagem. trangeiros que outros povos, os egípcios tinham o costume de
* Sacerdotes: compunham um primeiro e restrito grupo zelar pela condição de vida dos escravos postos sob o seu do-
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História Geral

mínio. Os camponeses trabalhavam como servos nas terras do retamente relacionada às obras hidráulicas. O Estado (Faraó)
Estado e recebiam pouco pela função que exerciam. comandava as atividades produtivas uma vez que era detentor
das terras. A população camponesa vivia numa estrutura re-
O papel da religião pressiva de servidão coletiva (corvéia real) pagando impos-
A vida dos egípcios estava marcada pela religião e seus tos em produtos ou em trabalho ao faraó. Não havia especia-
deuses. Osíris ensinou a agricultura aos seres humanos mas lizações produtivas regionais e o território era auto-suficiente
acabou traído e morto pelo irmão e rival Seth. Isis, sua mu- com relação às matérias primas básicas. O Estado não se mo-
lher, convenceu os outros deuses a trazer de volta Osíris para netarizou e os objetos eram trocados por objetos. Os arte-
a Terra: era ele que julgava após a morte os egípcios. Ouvia a sãos trabalhavam apenas para enfeitar os palácios e adornos
defesa de cada um e, depois de pesar o coração do indivíduo - pessoais.
para saber se estava mentindo ou não - decidia pela inocência
ou culpabilidade.
A crença na vida após a morte acompanhava o egípcio du- Mesopotâmia
rante toda a sua existência. Desta forma, a construção de gran-
des túmulos, onde estavam acumulado tesouros e objetos de Mesopotâmia, do grego “entre rios” é uma região loca-
uso pessoal do morto, servia para que depois da vida ele man- lizada entre os rios Tigres e Eufrates, onde surgiram as pri-
tivesse a mesma condição material. meiras cidades-Estado e atualmente se situa no território do
Segundo o egiptólogo A. Abu Bakr, a “crença no além foi Iraque. As grandes civilizações que surgiram na sua área, cres-
sem dúvida favorecida e influenciada pelas condições geográ- cente fértil, se originaram pelas boas condições agrícolas da
ficas do Egito, onde a aridez do solo e o clima quente assegu- terra, que se dava quando a neve que cobria as montanhas da
ravam uma notável conservação dos corpos após a morte, o Armênia, degelava e inundava as planícies próximas aos rios
que deve ter estimulado fortemente a convicção de que a vida Tigres e Eufrates, tornando estas terras férteis para o plantio.
continuava no além-túmulo”. Vários povos antigos habitaram essa região entre os sécu-
O politeísmo da religião egípcia foi brevemente interrom- los V e I a.C. Entre estes povos, podemos destacar: babilôni-
pido pela instituição do monoteísmo pelo faraó Amenófis IV cos, assírios, sumérios, caldeus, amoritas e acádios. No geral,
(1380-1362 a.C.) com o culto ao deus Aton. Além de razões eram povos politeístas, pois acreditavam em vários deuses li-
religiosas, o faraó também pretendia diminuir os poderes dos gados à natureza. No que se refere à política, tinham uma for-
sacerdotes, enriquecidos pelo pagamento de tributos, e que ma de organização baseada na centralização de poder, onde
exerciam enorme influência política. Amenófis fundou uma apenas uma pessoa ( imperador ou rei ) comandava tudo. A
nova capital em Tel - El - Armana, perseguiu os sacerdotes economia destes povos era baseada na agricultura e no co-
inimigos da reforma mas não conseguiu obter apoio popular. mércio nômade de caravanas.
Após a sua morte foi restabelecido o politeísmo e a capital re-
tornou para Tebas. Povos Mesopotâmicos
Sumérios: Provavelmente se originaram na Ásia central
Artesanato e cultura por volta do ano 3500 a.C., fixaram-se ao sul da Mesopotâmia,
O artesanato era muito importante. Utilizaram o linho e na região em que os rios Tigres e Eufrates desembocam no
o couro de animais, confeccionavam cerâmicas e durante lar- Golfo Pérsico. Aí estabelecidos, desenvolveram técnicas hi-
go tempo não houve separação entre agricultores e artesãos: dráulicas para armazenar a água que seria usada nos períodos
como o ciclo agrícola era de seis meses (plantio e colheita), o de seca e para controlar as cheias dos dois grandes rios, evi-
restante do tempo era aproveitado nas atividades artesanais e tando a destruição das plantações.
na conservação dos canais de irrigação e dos reservatórios. Os sumérios desenvolveram um sistema de leis basea-
O papiro era abundante às margens do Nilo. As fibras dos nos costumes, foram habilíssimos nas práticas comerciais
da planta foram usadas para fazer embarcações, redes e cor- e criaram o sistema de escrita cuneiforme, assim chamado,
das, mas acabou tendo enorme importância quando utilizado porque escreviam em plaquetas de argila com um estilete em
como matéria-prima para fazer papel. De acordo com o histo- forma de cunha. Organizavam-se politicamente em cidades-
riador J. Yoyotte, o “cultivo intensivo do papiro provavelmen- Estados como Ur, Nipur e Lagash. Cidade-Estado é a co-
te contribuiu para o desaparecimento dos pântanos, refúgio munidade urbana soberana, ou seja, uma unidade política com
dos pássaros, crocodilos e hipopótamos, que, na opinião dos características de Estado soberano.
próprios antigos, davam brilho à paisagem egípcia”. Cada uma dessas cidades era independente e governada
por um Patesi, que exercia as funções de primeiro-sacerdo-
Aspectos econômicos te do deus local, governador, chefe militar e supervisor das
A agricultura de regadio foi a principal ativida- obras hidráulicas.
de econômica no Antigo Egito. É chamada assim por estar di- Acadianos: Um ponto fraco dos Sumérios foi às cons-
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Professor Max Dantas

tantes guerras pelo poder da região. Isso abriu caminho para provocando assim várias revoltas. Em 612 a.C., Nabopolas-
os acádios se fortalecerem. Por volta de 2.550 a.C., começa as sar, rei dos Caldeus ,junto com os Medos , destruíram Nínive
invasões acadianas às cidades sumérias. Comandados pelo rei e iniciaram o 2º império babilônico.
Sargão I, as cidades sumérias foram conquistadas, ele con-
seguiu unificar politicamente o centro e sul da Mesopotâmia,
dando origem ao primeiro império mesopotâmico, que expan-
diu desde o Golfo Pérsico até o norte da Mesopotâmia. Com
essas expansões, Sargão I, tornou-se conhecido como “ o so-
berano dos quatro cantos da terra”. Com essa união de povos
( do império acadiano mais a cultura sumeriana) , o resultado
foi notado na escrita, com destaques para os registros da nova
língua- semítica- junto com caracteres cuneiforme.
Amoritas: Criaram o primeiro Império Babilônico, a par-
tir da cidade de Babilônia,
por isso são conhecidos
como antigos babilônios.
Hamurábi, o mais impor-
tante rei da Babilônia, tor-
Império Assírio
nou-se famoso por ter ela-
borado o primeiro código Caldeus: Com os caldeus, A Babilônia recuperou seu res-
de leis escritas de que se plendor. No reinado de Nabucodonosor, o Novo Império
tem notícia. As punições Babilônico atingiu seu apogeu. Suas terras se estendiam por
previstas pelos Código de quase todo o Oriente Médio, limitando-se com o Egito. A Ba-
Hamurábi variavam de bilônia enriqueceu-se e embelezou-se com grandes obras pu-
acordo com condição so- blicas, como os até hoje famosos jardins suspensos construí-
cial da vítima e do infrator. dos por Nabucodonosor, tornando-se a mais notável cidade
Código de Hamurábi Dele se extraiu a Lei de do Oriente . Em 539 a.C. a Babilônia foi conquistado pelos
Talião: “Olho por olho, dente por dente...” exércitos dos persas. A vitória foi facilitada pelo apoio dos sa-
Assírios: Depois da cerdotes e comerciantes babilônicos, que se aliaram aos inva-
morte de Hamurábi, o esplen- sores em troca da manutenção de seus privilégios.
dor da Babilônia não durou
muito. Anos mais tarde toda Organização política
a Mesopotâmia foi conquista- Os pântanos da antiga Suméria (hoje sul do Iraque) foram
da pelos assírios, povo que vi- o berço das cidades-estados do mundo. As cidades-estados
via nas regiões áridas e infér- pertenciam a um Deus, representado pelo rei. A autoridade do
teis do norte mesopotâmico, rei estendia-se a todas as cidades-estados. Ele era auxiliado por
em cidades como Nínive e sacerdotes, funcionários e ministros.
Touro alado Assírio Assur. A crueldade era uma Legislava em nome das divindades, assegurava as práticas
das principais características dos guerreiros assírios. Para eles a religiosas, zelava pela defesa de seus domínios, protegia e regu-
guerra era essencial, pois viviam do saque, da escravidão e dos lamentava a economia.
impostos e tributos pagos pelos povos que submetiam. Nas
conquistas militares houve alguns destaques: com Sargão II,
os assírios conquistaram o reino de Israel. Com Tiglatfalasar,
invadiram a cidade de Babilônia. Posteriormente, no reinado
de Senaqueribe e de Assurbanipal, eles chegaram no apogeu,
conquistando territórios entre o Golfo Pérsico até o Egito.
Com Senaqueribe, citado até mesmo na Bíblia, a capital foi
Nínive, e com Assurbanipal , foram feitas as últimas grandes
conquistas onde inclui o Egito. Este rei , além de ter um espíri-
to guerreiro era apreciador da ciência e da literatura, tanto que
criou uma grande biblioteca em Nínive.
Após a morte dele(631 a.C.) , o império enfraqueceu , isto
porque os povos conquistados queriam ver- se livres do terror, Torre de Babel
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História Geral

O mais ilustre soberano da Mesopotâmia foi Hamurábi.


Por volta de 1750 a.C., Hamurábi, um rei babilônico, conse- A Escrita
guiu conquistar toda a Mesopotâmia. Fundou um vasto Im- A invenção da escrita é atribuída aos sumérios. Eles escre-
pério, ao qual impôs a mesma administração e as mesmas leis. viam na argila mole com o auxílio de pontas de vime. O tra-
Era uma legislação baseada na lei de Talião (olho por olho, ço deixado por essas pontas tem a forma de cunha (V), daí o
dente por dente, braço por braço, etc.). É o famoso código de nome de “escrita cuneiforme”.
Hamurábi, o primeiro conjunto de leis escritas da História. Com cilindros de barro, os mesopotâmicos faziam seus
contratos, enquanto no Egito se usava o papiro.
Sociedade e Economia Em 1986, foi descoberta por arqueólogos, perto de Bagdá,
Independentemente dos povos que ocuparam a Meso- capital do Iraque, uma das mais antigas bibliotecas do mundo,
potâmia, podemos generalizar e dividir a sociedade, nos di- datada do século X a.C. A biblioteca continha cerca de 150.000
ferentes, em: classes privilegiadas (sacerdotes, nobres, tijolos de argila com inscrições sumerianas. A literatura carac-
militares e comerciantes) e não-privilegiadas (artesãos, terizava-se pelos poemas religiosos e de aventura.
camponeses e escravos). No topo dessa organização social
estava o rei, considerado como representante de um determi- A arquitetura
nado deus na Terra. O edifício característico da arquitetura suméria é o zigu-
As classes privilegiadas os altos cargos públicos e mono- rate, depois muito copiado pelos povos que se sucederam na
polizavam o poder, a riqueza e o saber e viviam ricamente da região. Era uma construção em forma de torre, composta de
exploração do trabalho das massas não-privilegiadas. Cabe sucessivos terraços e encimada por um pequeno templo. Nas
destacar que os cargos e funções eram passadas de pais para obras arquitetônicas os mesopotâmicos usavam tijolos cozi-
filho, e a posição social era definida pelo nascimento, sendo dos (pois a pedra era muito cara) e ladrilhos esmaltados. Pre-
assim podemos denominar esta sociedade como Imobilista e feriam construir palácios. As habitações de escravos e homens
Hierarquizada. de condições mais humildes eram, às vezes, simples cubos de
Na Mesopotâmia as terras cultiváveis pertenciam aos deu- tijolos crus, revestidos de barro. O telhado era plano e feito
ses; por isso a maior parte delas era propriedade dos templos com troncos de palmeira e argila comprimida. As casas simples
e dos governantes. Essas terras eram entregue aos campone- não tinham janelas e à noite eram iluminadas por lampiões de
ses para o cultivo de cevada, trigo, legumes, árvores frutíferas óleo de gergelim.
como a macieira, o pessegueiro, a ameixeira, a pereira e, prin-
cipalmente, a tamareira. Pelo direito de cultivar o solo os cam- Fenícios
poneses eram obrigados a entregar aos sacerdotes parte do
que produziam. Os fenícios localizavam-se na porção norte da Palestina,
Como grandes proprietários e grandes exploradores do onde hoje se encontra atualmente o Líbano. Os povos origi-
trabalho dos camponeses, artesãos e escravos, os sacerdotes nários dessa civilização são os semitas que, saindo do litoral
acumulavam grandes fortunas. Além de serem explorados em norte do Mar Vermelho, fixaram-se na Palestina realizando o
sua mão-de-obra pela elite latifundiária, os camponeses e os cultivo de cereais, videiras e oliveiras. Além da agricultura, a
escravos eram obrigados a trabalhar coletivamente na constru- pesca e o artesanato também eram outras atividades por eles
ção de obras hidráulicas e de obras públicas. desenvolvidas.
A proximidade com o mar e o início das trocas agrícolas
Religião com os egípcios deu condições para que o comércio marítimo
A religião mesopotâmica era politeísta e antropomórfi- destacasse-se como um dos mais fortes setores da economia
ca. Cada cidade tinha seu deus, cultuando como todo pode- fenícia. Ao longo da faixa litorânea por eles ocupada surgiram
roso e imortal. Os principais deuses eram: Anu, deus do céu; diversas cidades-Estado, como Arad, Biblos, Tiro, Sídon e
Shamash, deus do Sol e da justiça; Ishtar, deusa do amor; e Ugarit. Em cada uma dessas cidades um governo autônomo
Marduk, criador do céu, da Terra, dos rios e dos homens. era responsável pelas questões políticas e administrativas.
Além de politeístas, os mesopotâmicos acreditavam e gê- O poder político exercido no interior das cidades fenícias
nios, demônios, advinhações e magias. Procuravam viver in- costumava ser assumido por representantes de sua elite marí-
tensamente, pois achavam que os mortos permaneciam num timo-comercial. Tal prática definia o regime político da fení-
mundo subterrâneo e sem esperanças de uma nova vida. Para cia como uma talassocracia, ou seja, um governo comandado
eles a vida cotidiana e o futuro das pessoas podiam ser de- por homens ligados ao mar. Em meados de 1500 a.C. a ativi-
terminados pela posição dos astros no céu. Os sacerdotes se dade comercial fenícia intensificou-se consideravelmente fa-
aproveitaram das crendices para divulgar a astrologia, elaborar zendo com que surgisse o interesse pela dominação de outros
os horóscopos e monopolizar as previsões diárias através da povos comerciantes.
leitura dos astros. No ano de 1400 a.C.os fenícios dominaram as rotas co-
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Professor Max Dantas

merciais, ante- Hebreus


riormente con-
troladas pelos A civilização hebraica é proveniente da Palestina, região
cretenses, que li- localizada entre o deserto da Arábia, Síria e Líbano. Próxima
gavam a região ao mar Mediterrâneo e cortada pelo rio Jordão, a Palestina fi-
da Palestina ao cou conhecida como um dos principais entrepostos comer-
litoral sul do Me- ciais do mundo antigo. Sendo uma região habitada por dife-
diterrâneo. Na rentes povos, a Palestina é o grande palco da histórica rixa
trajetória da ci- entre árabes e palestinos.
vilização fenícia, Os hebreus organizaram sua população em diversos clãs
diferentes cida- patriarcais seminômades. Esses grupos familiares se dedica-
des imprimiam vam principalmente à criação de gado ao longo dos oásis espa-
sua hegemonia lhados no deserto da Arábia. A história dos hebreus se inicia
comercial na re- a dois mil anos antes de Cristo e convive com outras grandes
gião. civilizações expansionistas do mesmo período. A história he-
Por volta de braica se concentra nos textos bíblicos do Antigo Testamento,
100 a.C. – após que relatam o cotidiano, os hábitos e as crenças dos judeus.
o auge dos cen- Influenciados por um pensamento fortemente religioso,
tros urbanos de o povo hebreu fundou uma crença monoteísta focada na ado-
Ugarit, Sídon e ração do deus Iaweh. Seguindo a liderança de homens desig-
Alfabeto Fenício Biblos – a cida- nados por Iaweh, os hebreus se julgavam uma nação santifica-
de de Tiro expandiu sua rede comercial sob as ilhas da Costa da que deveria manter e expandir a sua população. Por conta
Palestina chegando até mesmo a contar com o apoio dos he- disso, as famílias eram bastante extensas e as mulheres tinham
breus. Com a posterior expansão e a concorrência dos gregos, como função primordial tratar da criação de seus filhos. Os
os comerciantes de Tiro buscaram o comércio com regiões do homens detinham papéis de liderança na administração das tri-
Norte da África e da Península Ibérica. bos e as mulheres eram preparadas para o casamento.
Todo esse desenvolvimento mercantil observado entre os O escravismo era uma prática comum na sociedade he-
fenícios influenciou o domínio e a criação de técnicas e saberes braica. Parte da própria população poderia vir a ser escraviza-
vinculados ao intenso trânsito dos fenícios. A astronomia foi da por conta de algum tipo de acordo ou punição religiosa. Os
um campo desenvolvido em função das técnicas de navegação demais escravos eram provenientes das conquistas militares. A
necessárias à prática comercial. Além disso, o alfabeto fonético condição dos escravos era bastante relativa, sendo que os prin-
deu origem às línguas clássicas que assentaram as bases do al- cípios da lei religiosa permitiam que os mesmos pudessem se
fabeto ocidental contemporâneo. casar; converterem-se à fé judaica; ou estabelecer algum tipo
No campo religioso, os fenícios incorporaram o predomi- de propriedade.
nante politeísmo das sociedades antigas. Baal era o deus asso- A história da política hebraica é dividida em três fases:
ciado ao sol e às chuvas. Aliyan, seu filho, era a divindade das
fontes. Astartéia era uma deusa vinculada à riqueza e à fecun- Fase dos Patriarcas:
didade. Durantes seus rituais, feitos ao ar livre, os fenícios cos- Os hebreus eram dirigidos por patriarcas, estes eram líde-
tumavam oferecer o sacrifício de animais e homens. res políticos, que eram encarados como o “pai” da comunida-
de. O primeiro grande líder, ou patriarca hebreu foi Abraão,
segundo o antigo testamento. Abraão era mesopotâmico, ori-
ginário de Ur, da Caldéia.
Abraão conduziu os hebreus de Ur, rumo a Palestina( ter-
ra prometida). Chegaram por volta de 2000 a. C., viveram na
Palestina por quase três séculos. Durante esse tempo, Abraão
fundou uma cultura religiosa monoteísta. Eles saíram de Ur
em direção a terra prometida confiando na promessa de seu
único Deus Jeová em levá-los a uma terra que emana ‘leite
e mel’.
Depois de Abraão, a liderança foi passando de pai para
filho. De Abraão foi para Isaque e depois para Jacó. Este úl-
timo teve um destaque interessante, pois Jacó teve seu nome
Ruínas de uma cidade fenícia entre os séculos IV e III a.C.
mudado para Israel e tornou-se pai de doze filhos, que deram
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História Geral

origem as doze tribos de Israel. de Saul, conseguiu mostrar eficiên-


Os hebreus tiveram conflitos com cia nos combates militares. Venceu
vizinhos e uma terrível seca que asso- os inimigos, tornou a nação hebrai-
lou a Palestina, obrigando-os a emi- ca forte e estabilizada. Tinham um
grar para o Egito, onde permane- exército brilhante e Jerusalém se
ceram por mais de 400 anos. Eram tornou a capital. Davi conseguiu o
perseguidos e escravizados pelos fara- grande feito de expandir os domí-
ós. Somente a idéia de libertação con- nios do reino.
solou um povo abatido e escravizado. Seu filho, Salomão, o sucedeu
Essa idéia veio por meio de Moisés. em 966 a. C., este ficou conhecido
Os hebreus liderados por ele fugiram na história pela imensa fortuna e sa-
do Egito. Essa fuga é conhecida como bedoria que adquiriu. Tornou-se rei
“Êxodo”. Segundo a Bíblia, na volta muito jovem, segundo a Bíblia, sua
do hebreus à Palestina que Moisés re- primeira esposa foi à filha de faraó,
cebeu as tábuas contendo os dez man- mas depois dela chegou a ter 700
damentos de Deus, no monte Sinai. esposas e 300 concubinas. Ampliou
Podemos ver no êxodo, do relato bí- a participação no comércio, cons-
blico algumas particularidades, como a truiu várias obras públicas, como o
ocasião em que o Deus dos hebreus, Rota do Êxodo Hebreu famoso templo de Jerusalém, dedi-
Jeová, abriu o mar Vermelho. Eles fu- cado a Jeová.
giram do Egito, perambularam 40 anos no deserto e por fim A crise política atingiu seu auge em 935 a.C., momento em
retornaram à palestina. que o rei Salomão faleceu. A disputa entre as tribos causou a
Durante esse período, Moisés não chegou a entrar na Pa- separação dos hebreus em dois diferentes Estados. O Reino
lestina, por isso quem os conduziu até lá foi Josué, sucessor de Judá, formado pelas tribos de Benjamim e Judá, foi contro-
de Moisés. Mas para readquirirem a Palestina, os hebreus ti- lado por Roboão, filho do rei Salomão. As dez tribos restantes
veram que travar intensas lutas com os cananeus e posterior- formaram o Reino de Israel, dominado por Jeroboão, com
mente com os filisteus, povos que ocuparam a região. Foram capital em Samaria. Dessa maneira, a civilização hebraica se di-
quase 2 séculos de lutas e nesse período os hebreus foram go- vidiu entre judeus e israelitas.
vernados pelos juízes. O episódio da divisão política dos territórios abriu por-
tas para que outras civilizações viessem a dominar os hebreus.
Fase dos Juízes: Em 721 a.C., os assírios conquistaram o Reino de Israel pro-
Esta fase se inicia quando Moisés morre e Josué conduz movendo a assimilação dos valores da cultura de seus domina-
os hebreus a Palestina. A região estava habitada por vários po- dores. O Reino de Judá ainda conseguiu manter sua unidade
vos, e como os hebreus estavam divididos em doze tribos, eles até que, em 596 a.C., o rei babilônico Nabucodonosor liderou
escolheram vários juízes para comandá-los na luta com os po- a capturas dos judeus para a Mesopotâmia.
vos pela posse das terras. Os juízes desempenhavam o papel O conhecido Cativeiro Babilônico, que durou meio sé-
de chefes militares, políticos e religiosos que lhe davam pode- culo, foi interrompido quando o rei persa Ciro I conquistou
res, pois eram considerados enviados por Deus, para liderar a a Babilônia e libertou os judeus. A libertação judaica foi inter-
luta. Josué foi o primeiro juiz e iniciou a tomada da Palestina pretada como uma oportunidade de se reconquistar a região
onde conquistou Jericó. Em 1030 a.C. entregaram o comando Palestina. Dessa forma, os judeus buscaram recompor o anti-
a um só rei para diminuir desavenças internas e como estraté- go Reino de Judá. O retorno do povo hebreu à sua terra natal
gia para vencer seus vizinhos. foi seguido por outros processos de dominação. Em 332 a.C.,
o império macedônico formado por Alexandre, o Grande,
Fase dos Reis: dominou a palestina.
Os filisteus ainda representavam uma ameaça aos he- No século I a. C., os romanos conquistaram os judeus de-
breus, visto que lutavam pelo completo controle do território pois de subjugar os territórios anteriormente controlados pe-
da Palestina. Isso fez com que os hebreus instituíssem a mo- los macedônicos. A dominação romana contou com grande
narquia, para que assim centralizassem o poder e tivessem agitação política entre os grupos judeus que não se conforma-
mais força para enfrentar os adversários. vam com a falta de autonomia política de seu povo. Os inten-
O primeiro rei hebreu foi Saul, da tribo de Benjamim. sos conflitos resultaram na violenta destruição da cidade de
Ele, porém não obteve sucesso em enfrentar os inimigos. Ao Jerusalém no ano de 70 d. C.. Depois de destruírem a capital
ver que não conseguiria derrotar seus adversários, ele e seu judaica, o povo judeu foi proibido de retornar à Palestina.
escudeiro se suicidam. Já no século XI a. C. , Davi, sucessor Esse episódio, conhecido como Diáspora, fez com que
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Professor Max Dantas

os judeus ficassem dispersos em pequenas comunidades ao re- Dario I foi eleito o novo imperador persa. Em seu governo
dor do mundo. Ao longo desses séculos, os judeus se preo- foram observadas diversas reformas políticas que fortaleceram
cuparam em manter os traços de sua cultura e religiosidade. a autoridade do imperador. Aproveitando da forte cultura mili-
No século XIX, diversos judeus iniciaram um movimento de tarista do povo persa, Dario I ampliou ainda mais os limites de
criação de um Estado judeu na região da Palestina. No ano de seu reino ao conquistar as planícies do rio Indo e a Trácia. Essa
1948, a Organização das Nações Unidas apoiou a criação des- sequência de conquistas militares só foi interrompida em 490
se novo país. a.C., quando os gregos venceram a Batalha de Maratona.
As justificativas políticas e históricas que sustentaram a A grande extensão dos domínios persas era um grande en-
criação do Estado de Israel sofreram grande oposição das trave para a administração imperial. Dessa forma, o rei Dario I
populações árabes palestinas que habitavam o local durante promoveu um processo de descentralização administrativa ao
todo esse tempo. Os diversos conflitos entre árabes e israelen- dividir os territórios em unidades menores chamadas de satra-
ses se estendem até os dias atuais. pias. Em cada uma delas um sátrapa (uma espécie de gover-
nante local) era responsável pela arrecadação de impostos e o
desenvolvimento das atividades econômicas. Para fiscalizar os
Persas sátrapas o rei contava com o apoio de funcionários públicos
que serviam como “olhos e ouvidos” do rei.
Além de contar com essas medidas de cunho político, o
Império Persa garantiu sua hegemonia por meio da construção
de diversas estradas. Ao mesmo tempo em que a rede de estra-
das garantia um melhor deslocamento aos exércitos, também
servia de apoio no desenvolvimento das atividades comer-
ciais. As trocas comer-
ciais, a partir do governo
de Dario I, passaram por
um breve período de mo-
netarização com a cria-
ção de uma nova moeda,
Império Persa o dárico.
Durante a Antiguidade, a região da Mesopotâmia foi mar- A religião persa, no
cada por um grande número de conflitos. Entre essas guerras início, era caracterizada Mosaico representando o exército persa
destacamos a dominação dos persas sobre o Império Babilôni- pelo seu caráter eminentemente politeísta. No entanto, en-
co, em 539 a.C.. Sob a liderança do rei Ciro, os exércitos per- tre os séculos VII e VI a.C., o profeta Zoroastro empreendeu
sas empreenderam a formação de um grande Estado centra- uma nova concepção religiosa entre os persas. O pensamento
lizado que dominou toda a região mesopotâmica. Depois de religioso de Zoroastro negava as percepções ritualísticas en-
unificar a população, os persas inicialmente ampliaram as fron- contradas nas demais crenças dos povos mesopotâmicos. Ao
teiras em direção à Lídia e às cidades gregas da Ásia menor. invés disso, acreditava que o posicionamento religioso do in-
A estabilidade das conquistas de Ciro foi possível median- divíduo consistia na escolha entre o bem e o mal (manique-
te uma política de respeito aos costumes das populações con- ísmo).
quistadas. Cambises, filho e sucessor de Ciro, deu continui- Esse caráter dualista do zoroastrismo pode ser melhor
dade ao processo de ampliação dos territórios persas. Em 525 compreendida no Zend Vesta, o livro sagrado dos seguidores
a.C., conquistou o Egito – na Batalha de Peleusa – e ane- de Zoroastro. Segunda essa obra, Ahura-Mazda era a divin-
xou os territórios da dade representativa do bem e da sabedoria. Além dele, havia
Líbia. A prematura o deus Arimã, representando o poder das trevas. Sem contar
morte de Cambises, com um grande número de seguidores, o zoroastrismo ainda
no ano de 522 a.C., sobrevive em algumas regiões do Irã e da Índia
deixou o trono persa
sem nenhum herdei- Anotações
ro direto.
Depois de ser
realizada uma reu-
nião entre os princi-
pais chefes das gran-
Este relevo em pedra representa Dario I, o Grande des famílias persas,
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História Geral

Grécia
Helenístico (338-146 a.C.) — Crise da pólis grega, inva-
são macedônica, expansão militar e cultural helenística, a civi-
lização grega se espalha pelo Mediterrâneo e se funde a outras
culturas.

Período Pré-Homérico (séc. XX a séc. XII a. C.)


Este período é caracterizado pela civilização cretense,
que pode ser considerada berço da civilização grega. Segundo
pesquisas arqueológicas, os cretenses teriam se desenvolvido
por volta de 5000 a.C exercendo o controle absoluto do co-
mercio marítimo na região, formando assim um império co-
mercial marítimo.
Creta mantinha intenso comércio com sociedades da Me-
sopotâmia e com a Grécia primitiva, herdou dos fenícios o
Mapa da Grécia Antiga
modelo político (Talassocracia). Os reis de Creta eram cha-
A civilização grega começou a se formar a 2.000 a. C., na mados de Minos, por isso os cretenses são também chamados
península Balcânica, entre os mares Egeu, Jônico e Mediterrâ- de Civilização Minóica. Cnossos era a capital de Creta
neo, e entrou em declínio no século II a. C., quando o territó- Suas cidades eram planejadas, com a arquitetura moderna
rio foi ocupado pelos romanos. Entre os povos que migraram saneamento e a canalização de água que caracterizavam uma
para essa região, merecem destaque os pioneiros: os aqueus, sociedade urbana. Creta ao contrário das sociedades orientais
os jônicos, os dóricos e os eólios —; todos indo-arianos apresentava uma vida marcada por atividades públicas: festas,
provenientes da Europa Oriental. As populações invasoras são touradas, uma vida urbana e confortável.
em geral conhecidas como “helênicas”, pois sua organização A economia era centrada no comércio marítimo, no arte-
de clãs fundamentava-se, no que concerne à mística, na crença sanato, na metalurgia do cobre e do bronze.
de que descendiam do deus Heleno. A última das invasões foi Em 1400 a.C Creta foi invadida pelos Aqueus, povo pri-
a dos dóricos, já em fins do segundo milênio a.C.. mitivo que habitava a Grécia, dando origem a uma nova socie-
A história da Grécia pode ser dividida em cinco períodos: dade batizada Creto-Micênica, ocorre nesse momento a tran-
* Pré-Homérico (1600 - 1200 a.C.) — Período anterior sição do matriacarlismo para o patriarcalismo imposto pelos
a formação do homem grego e da chegada cretense e fenícia. Aqueus.
Nessa época, estavam se desenvolvendo as civilizações Cre- Os Aqueus impuseram sua autoridade pela força, marcan-
tense ou Minóica (ilha de Creta) e a Micênica (continental). do um retrocesso e muitos aspectos da sociedade cretense fo-
Homérico (1200 - 800 a.C.) — Quando acorre a chega- ram suprimidos pelos dominadores.
da de Homero, que foi considerado marco na história por suas Em 1200 a.C a sociedade Creto-Micênica foi arrasada pelo
obras, Odisséia e Ilíada. Período que iniciou a ruralização e avanço dos Dórios vindos da Ásia, com armas de ferro e há-
comunidade gentílica (comunidade na qual um ajuda o outro beis guerreiros. Eles saquearam e destruíram as cidades creten-
na produção e colheita). Só plantavam o que iriam consumir ses, alem de escravizar os sobreviventes, que não haviam fugi-
(quando a terra não estava fértil saíam em busca de terra). do da região (Primeira Diáspora Grega).
Arcaico (800-500 a.C.) — Formação da pólis; coloni-
zação grega; aparecimento do alfabeto fonético, da arte e da Período Homérico (séc. XII a séc. VII a. C.)
literatura além de progresso econômico com a expansão da Esse período ganha esse nome devido ao poeta Homero
divisão do trabalho do comércio, da indústria e processo de que é autor dos poemas épicos Ilíada- sobre a guerra de Tróia
urbanização. É neste período que os vários modelos das pó- e Odisséia que descreve as aventuras do herói Ulisses, maiores
lis constituem-se, definindo assim a estrutura interna de cada fontes históricas da época. Os grupos familiares refugiados da
cidade-estado. primeira diáspora grega, oriundos de um mesmo descendente
Clássico (500-338 a.C.) — O período de esplendor da se uniram em torno da chamada comunidade gentílica ou ge-
civilização grega, ainda que discutível. As duas cidades con- nos. Nesse tipo de organização social, a família se mobiliza-
sideradas mais importantes desse período foram Esparta e va em torno da exploração extensiva das atividades agrícolas.
Atenas, além disso, outras cidades muito importantes foram Cada comunidade contava com um pater, patriarca da família
Tebas, Corinto e Siracusa. Neste momento a História da incumbido de tratar das questões religiosas, judiciárias e admi-
Grécia é marcada por uma série de conflitos externos (Guer- nistrativas.
ras Médicas) e interno (Guerra do Peloponeso). O trabalho nos genos era exercido coletivamente. As ta-
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Professor Max Dantas

refas estavam sob a responsabilidade de qualquer um de seus cia grega. Nessa época, além da hegemonia política dos eupá-
membros e a produção agrícola era dividida igualitariamente. tridas, notamos que o aumento da população causou um gran-
Artesãos ou escravos foram utilizados em casos excepcionais, de problema com relação ao acesso às terras produtivas.
onde os integrantes do genos não atendiam a certas demandas. As populações excluídas no processo de apropriação das
Mesmo contando com vários traços igualitários, as comunida- terras se viram obrigadas a buscar outras regiões onde fosse
des gentílicas se diferenciavam pelo prestigio social do indivi- possível buscar melhores condições de vida. A migração des-
duo em função da proximidade de seu parentesco para com o sas populações gregas para regiões marcou a chamada Segun-
pater. Quanto mais próximo da família do pater, maior presti- da Diáspora Grega. Ocorrida em 750 a.C., essa diáspora am-
gio conferido. pliou os territórios do mundo grego e criou uma importante
Ao longo dos anos, as comunidades gentílicas sofreram rede de comércio de gêneros agrícolas entre as comunidades
grandes transformações. As técnicas agrícolas pouco elabora- gregas.
das passaram a não atender ao aumento populacional dos ge- A consolidação do poder político nas mãos da aristocracia
nos. Os amplos laços coletivos das comunidades gentílicas co- junto com a ampliação das atividades econômicas deu condi-
meçavam a ruir. As famílias restringiram o número de parentes ções para o aparecimento de um novo espaço de representa-
por elas abrigado. O pater e seus parentes próximos passaram ção sócio-política na Grécia: a cidade-estado. As cidades-esta-
a defender o direito de posse sob a terra e as riquezas. Os des- do consistiam em núcleos urbanos onde importantes decisões
cendentes diretos do pater conseguiram, nessa divisão, a pro- políticas e o trânsito de mercadorias acontecia.
priedade das terras mais férteis. Com sua consolidação temos o surgimento de diferen-
Essa experiência trouxe uma diferenciação entre os indi- tes cidades-Estado compostas por práticas sociais, políticas e
víduos e a formação de uma aristocracia rural consolidada em culturais distintas entre si. De tal maneira, o que observamos
torno do controle das terras cultiváveis. Os chamados eupá- dentro do mundo grego será uma configuração política des-
tridas (“bem nascidos”) contavam com seu poder político centralizada. As diferenças de organização no mundo grego
para assim controlarem as armas de guerra, as instituições po- serão notadas com grande destaque quando estudamos, por
líticas e religiosas da época. Nesse processo de apropriação de exemplo, as diferenças entre as cidades-Estado de Esparta e
riquezas uma aristocracia firmou-se no cenário grego exercen- Atenas.
do o domínio sob o instrumento de poder da época. Em con-
trapartida, os Gorgois ou agricultores ficaram com as piores As cidades gregas
terras e os Thetas que eram pequenos agricultores marginali- O Período Arcaíco da história grega caracterizou-se pela
zados ou não possuíam terras, e no decorrer do tempo, muitos formação e desenvolvimento das cidades-Estado. Formaram-
acabaram virando escravos. se aproximadamente 160 cidades em território grego e, a prin-
A fragmentação dos genos vai, de fato, colocar a Grécia a cípio a característica mais marcante foi a soberania de cada
frente de outras práticas e costumes. Ao mesmo tempo, o apa- uma delas. A cidade soberana é aquela que possui seu próprio
recimento das classes e desigualdades sociais será responsável governo, leis e não possui nenhuma estrutura política acima
por um duplo processo: a dispersão de populações para outras dela. A cidade funciona como se fosse um pequeno país. Tra-
áreas da Península Balcânica e da Ásia menor; e a formação de tar da Grécia Antiga neste período significa portanto conhecer
instituições políticas oligárquicas controladas pela aristocracia o desenvolvimento das cidades.
rural. Todo esse conjunto de mudanças encerra o período ho- Não havia na Antiguidade um Estado Grego ou um go-
mérico e abre portas para o surgimento das primeiras cidades- verno grego, mas apesar disso podermos nos referir a uma
Estado gregas. cultura, religião ou a um povo grego; grande parte das cida-
des formaram-se com elementos étnicos semelhantes: Jônios,
Período Arcaico ( séc. VII – séc. VI . C) Aqueus e Eólios além disso formaram-se dentro de um mes-
No período arcaico é onde observamos o processo final mo contexto histórico, quando da crise da sistema gentílico e
das transformações sofridas pelas comunidades gentílicas gre- tiveram um desenvolvimento semelhante
gas. Deixando de adotar o uso coletivo da terra, começava a
aparecer dentro dos genos uma classe de proprietários de terra Esparta
(propriedade privada). Em sua grande maioria, essa classe aris- Esparta foi fundada pelos invasores dórios dominando os
tocrática esteve intimamente ligada aos pater, o líder patriarcal primitivos aqueus da região do Peloponeso, os dórios vindos
presente em cada uma dessas comunidades. da Ásia traziam armas de ferro e grande preparo militar, o que
Essa nova classe social, também conhecida como eupátri- lhes garantia o domínio sobre nativos da região.
das (filhos do pai ou bem-nascidos) formou um restrito gru- Até o ano 800 a.C. Esparta seguiu o mesmo sistema de or-
po de proprietários de terra que irão mobilizar-se em busca da ganização e funcionamento das demais cidades gregas, porém
manutenção de suas posses. Os genos passavam a reunir-se em a s guerras entre Esparta e Messênia alteraram definitivamen-
fratrias e tribos controladas pela dominação da nova aristocra- te o funcionamento de Esparta. Os messenios foram derrota-
18
História Geral

dos e reduzidos a escravidão (Hilotas), mas jamais aceitaram Instituições:


tal humilhação, revoltando-se permanentemente, isso levou os Diarquia: dois reis, com autoridade militar e religiosa.
dóricos a viverem em estado de guerra constante. Eforato: cinco juízes encarregados da administração em
No final do século VI a.C., depois da conquista da Mes- todos os níveis.
sênia, o Estado espartano completou sua organização, trans- Gerúsia: órgão formado por vinte e oito anciãos que le-
formando-se em verdadeiro “acampamento militar”. As gislavam e decidiam todos os assuntos importantes da cidade.
Instituições sócio-políticas espartanas foram atribuídas a um Era considerado o órgão mais importante de Esparta.
legislador lendário, Licurgo, que teria recebido as instruções Apela: assembléia dos esparciatas acima dos trinta anos,
do deus Apolo. Várias das instituições atribuídas a Licurgo já que elegiam os éforos e propunham as leis.
existiam desde há muito, mas adaptaram-se aos novos tempos,
servindo para manter o corpo de cidadãos como uma mino- Atenas
ria dominante, que se sobrepunha e explorava uma população Fundada pelos Jônios, que se submeteram os primitivos
camponesa numerosa. habitantes da Ática, os Aqueus. A evolução de Atenas, próxi-
A educação dos espartanos visava a fazer de cada indi- ma ao mar Egeu, se caracterizou em muitos aspectos seme-
víduo um soldado. O recém-nascido que apresentasse defei- lhantes as demais cidades gregas da época, porem no ano de
to para a vida militar era morto por 800 a.C, ocorreram mudanças em toda Grécia, que levaram
ordem do Estado. Quando os me- Características Atenas a seguir um caminho único e original dentro do mun-
ninos alcançavam os setes anos de da Sociedade do grego.
idade, tornavam-se recrutas e pas- Espartana Atenas passou a exercer a hegemonia política sobre as de-
savam a fazer parte de uma peque- -Militarista
-Conservadora
mais tribos Jônicas da região estabelecendo o conceito de co-
na tropa que, sob as ordens de um -Isolacionista munidade (Sinecismo).
monitor, praticavam diariamente -Agrária e Oligárquica A sociedade ateniense dividia-se nos seguintes grupos so-
exercícios atléticos e ginástica. Aos ciais, sendo que os eupátridas formavam a aristocracia ru-
dezoito anos, o indivíduo passava por uma prova, onde deveria ral, dona das melhores terras que, diferente de Esparta, eram
passar alguns dias na floresta sobrevivendo de coletas e caças, consideradas propriedade individual, e que monopolizavam o
esta, se chamava de Criptia. Aos vinte anos, o jovem ingressa- poder político, tanto no período monárquico, como durante
va no exército, aos trinta, podia casar-se e participar da Ápela. o arcontado (rei, chefe militar e administrador) forma aris-
A vida militar só findava quando o homem espartano chegava tocrática de governo, quando mantiveram a grande maioria da
aos 60 anos de idade. Todos, mesmo os monarcas, antes des- população marginalizada das discussões políticas.
sa idade, eram obrigados a tomar parte nos exércitos militares, Os georgóis formavam uma segunda camada social, com-
que, periodicamente, se levavam a efeito em tempos de paz. posta a princípio por pequenos proprietários rurais, que traba-
A cultura intelectual foi quase nula em Esparta limitan- lhavam com seus familiares e produziam para a subsistência.
do-se ao ensino de poesias sagradas, a cantos de guerra e a Muitos desses homens foram reduzidos à condição de servos
uma eloquência particular que devia expressar muitas coisas e de escravos, juntamente com mulher e filhos e podiam inclu-
em poucas palavras. sive serem vendidos ao estrangeiro.
Os demiurgos formavam a terceira camada social, eram
Organização Social de Esparta artesãos e viviam do próprio trabalho, porém normalmente
Esparciatas - Descendentes dos Dórios eram os donos em uma situação de pobreza. Havia ainda os metecos, estran-
das melhores terras, classe privilegiada, que não trabalhava, de- geiros, normalmente comerciantes e sem direitos políticos. Os
dicava-se ao militarismo e a política, ficando o trabalho a car- thetas formavam a camada inferior, eram trabalhadores bra-
go dos escravos. çais, camponeses, marginalizados econômica e politicamente.
Periecos - Homens livres, sem direitos políticos, viviam A produção de excedente, fez com que a situação dessa cama-
na periferia da cidade, dedicavam-se ao artesanato, comércio e da se deteriorasse, pois em Atenas desenvolveu-se a escravi-
pagavam tributos ao estado. dão por dívida.
Metecos - Estrangeiros sem direitos e constantemente vi- A concentração fundiária, a cunhagem de moeda e a co-
giados pelos espartanos. lonização do Egeu, e a marginalização de georgóis e thetas fo-
Hilotas- servos propriedades do estado, que os cediam ram os fatores responsáveis pelo acirramento da luta de classes,
para o trabalho nas terras dos Espartanos, eram prisioneiros processo que determinou a criação da democracia na cidade. A
de guerra, sem nenhum direito. passagem do arcontado para a democracia foi fruto, portanto
Esparta manteve a estrutura rígida de suas instituições até da luta contra os privilégios da minoria eupátrida, sendo que
o final da historia da Grécia Antiga, manteve uma Oligarquia esse processo completou-se cerca de um século depois.
Agrária no poder e jamais evoluiu para outro sistema político. Os confrontos políticos possibilitaram o surgimento de lí-
19
Professor Max Dantas

deres que tentaram golpes como forma de ascensão política. As reformas de Clístenes tiveram como objetivo eliminar
Como essas lutas ameaçavam não só o poder político dos eu- o controle da aristocracia sobre o poder político. A cidadania
pátridas, mas inclusive a propriedade, a aristocracia foi forçada foi concedida a um número maior de indivíduos, porém ain-
a ceder às exigências de concessão de leis escritas, nomeando da restrita a uma minoria: Homens, livres, maiores de18 anos,
o arconte Drácon para redigir um código de leis. Essas refor- nascidos em Atenas e filhos de pais ateniense. Instituiu o Os-
mas porém mantiveram a escravidão por dívida e os privilé- tracismo, processo que permitia a expulsão de um cidadão
gios da elite, fatos que determinaram a continuidade dos con- da cidade por um período de dez anos, sendo que o nome de
frontos, até a eleição de Sólon para o arcontado. As reformas pessoas consideradas nocivas a cidade eram escritas em um
promovidas por esse legislador foram maiores: abolição da pedaço de argila
escravidão por dívidas, a libertação de todos os devedo- A Democracia Ateniense era uma democracia escravis-
res escravizados o favorecimento a produção artesanal e ta, o trabalho escravo continuava a ser a base da vida econô-
ao comércio e a instituição de uma nova forma de parti- mica e sua exploração tendeu a aumentar.
cipação política, baseada na riqueza, denominada Timo-
cracia. Organização Social de Atenas
Essas reformas desagradaram tanto a elite que perdeu pri- Eupátridas – Cidadãos, grandes proprietários de terras,
vilégios, como os thetas que obtiveram poucas conquistas, filho de pai Ateniense.
acirrando ainda mais a luta de classes, favorecendo o adven- Georgois – Pequenos agricultores.
to da Tirania. Demiurgos - artesãos, comerciantes.
Tirano é o nome dado aos go- Metecos - estrangeiros geralmente ligados ao comercio
vernantes que chegaram ao poder Características Thetas - Homens sem terras
através de golpes e exercem um go- da Sociedade Escravos - Prisioneiros de guerra, ou comprados em mer-
verno pessoal. Considera-se que Ateniense cados do Oriente
a tirania acabou sendo responsá- -Intelectualizada
vel por abrir caminho para o sur- -Cosmopolita
-Educação abrangente
Instituições
gimento da democracia, pois o ti- -Economia Agrária e Marítima Bule - Conselho de 400 homens mais ricos de Atenas in-
rano para poder manter o poder, Comercial dependente da origem da riqueza, assim os ricos comerciantes
teve que atrair as camadas popula- passaram a ter poderes políticos.
res, dando-lhes maior organização e consistência e ao mesmo Eclésia - assembléia popular, que garantia direitos de par-
tempo enfraqueceu a elite, perseguida, sendo que vários aris- ticipação política a todos os homens gregos livres.
tocratas tiveram propriedades confiscadas ou foram expulsos Fim da escravidão por dividas
da cidade. Hilieu - tribunal de justiça aberto a todos os cidadãos
No entanto, a transição para a democracia não foi um pro- Estrategos: dez representantes do Executivo
cesso natural. Os tiranos foram derrubados pela elite, que in-
clusive contou com o apoio de Esparta. No entanto a situação Período Clássico (séc. V a. C. -séc. IV a. C.)
de Atenas caracterizava-se pela decadência: declínio da produ- O Período Clássico da História Grega é normalmente de-
ção, marginalização dos thetas, conquista persa sobre as colô- nominado “Período das Hegemonias”, na prática foi o perío-
nias da Ásia Menor e a presença dos espartanos em apoio a do em que desenvolveu-se o imperialismo das duas maiores
elite. Foi neste contexto que ocorreu uma grande revolta lide- cidades gregas; primeiro Atenas, depois Esparta.
rada por Clístenes, acabou com a tirania e instituiu a demo-
cracia na cidade. A ascensão de Atenas
Desde o século VII a. C. Atenas conheceu grande desen-
volvimento econômico, ampliando suas relações comerciais a
partir do Porto do Pireu, e a escravidão na produção agríco-
la. Como consequência a luta de classes tornou-se mais acir-
rada, forçando mudanças políticas, que determinaram a perda
do monopólio político pela aristocracia; até a criação da demo-
cracia, que beneficiou as camadas populares, mas em especial
os mercadores, pequenos proprietários e artesãos.
A manutenção da escravidão na cidade foi fundamental
tanto para o desenvolvimento da economia, como para a con-
solidação da democracia, possibilitando uma situação política
mais equilibrada, na medida em que as camadas populares ti-
Parthenon veram algumas de suas reivindicações atendidas. Ao preservar
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História Geral

o trabalho escravo, a elite econômica tinha grande disponibi- uma revolta.


lidade de seu tempo para participar das Assembléias e das de- Foi o que bastou para Dário I, rei dos persas, lançar seu
mais atividades políticas. Na estrutura política, a democracia poderoso exército sobre a Grécia Continental, dando início
criou uma nova arma: o ostracismo. às Guerras Médicas ou Guerras Greco-Pérsicas. A causa
Outro fator fundamental para o desenvolvimento de Ate- principal desses conflitos foi a disputa entre gregos e persas
nas foi sua liderança na guerra contra os persas, comandan- pela supremacia marítimo-comercial no Mundo Antigo. Nesse
do a Confederação de Delos desde 478 a.C. Na verdade foi primeiro confronto, para surpresa de todos, 10 mil gregos, li-
durante as Guerras Médicas que se constituiu o imperialismo derados pelo ateniense Milcíades, conseguiram impedir o de-
da cidade, que havia sido a primeira a lutar contra o expansio- sembarque de 50 mil persas, vencendo-os na Batalha de Ma-
nismo persa e foi responsável por promover a grande aliança ratona, no ano de 490 a.C.
das cidades gregas. Em princípio a Confederação de Delos era Os persas, entretanto não desistiram. Dez anos depois
uma aliança militar, onde as cidades participantes forneceriam voltaram a atacar as cidades gregas. Essas, por sua vez, esque-
soldados, mantimentos e riquezas, formando o “Tesouro de ceram as divergências internas e uniram-se, conseguindo com
Delos”. A liderança militar ateniense e o controle sobre as ri- isso vencer os persas nas batalhas de Salamina (480 a.C.) e
quezas destinadas à guerra, aumentou a produção na cidade, Platéia (479 a.C.)
gerou empregos, equilibrou a economia e desta forma criou Conscientes de que os persas poderiam voltar a qualquer
condições de impor seu domínio à demais cidades gregas, si- momento, várias cidades lideradas por Atenas formaram a
tuação vista como necessária para manter o desenvolvimento Liga de Delos, cuja sede ficava na ilha de Delos. Ficou acerta-
até então alcançado do que cada uma dessas cidades deveria contribuir com navios,
soldados e dinheiro.
O Século de Péricles Atenas, porém, aproveitou-se do fato de ser a responsável
Péricles governou Atenas durante trinta anos (461 - 431 pelo dinheiro da Confederação e passou a usá-lo em benefício
a.C.). Representava o Partido Popular e tornou-se ardoroso próprio. Com isso, impulsionou sua indústria, seu comércio e
defensor da democracia escravista. modernizou-se, ingressando numa fase de grande prosperida-
Durante seu governo instituiu a remuneração para os ocu- de, e impondo sua hegemonia ao mundo grego.
pantes de cargos públicos, assim como para marinheiros e sol-
dados, realizou várias obras gerando empregos e estimulou o Guerra do Peloponeso (431 a 403 a. C.)
desenvolvimento intelectual e artístico, principalmente o tea- A rivalidade econômica e política entre Atenas e Espar-
tro, marcado pelo antropocentrismo, característica fundamen- ta e as cidades aliadas desencadeou a guerra do Peloponeso,
tal da cultura grega, em suas tragédias ou comédias a preo- trazendo destruição, conflitos sociais e empobrecimento das
cupação era retratar a vida humana, buscando compreender pólis. Em Atenas, a guerra prolongada arruinou os pequenos
tudo o que cercava o ser humano, na sua história e em seu co- camponeses que foram obrigados a abandonar as terras e a se
tidiano. refugiarem na área urbana. A vitória de Esparta trouxe a insta-
Todo o desenvolvimento da cidade estava baseado na ex- lação de oligarquias em toda a Grécia.
ploração do trabalho escravo e no expansionismo sobre as de- Terminada a Guerra do Peloponeso, o período entre 403
mais cidades gregas, obrigando-as a manter a Confederação e 362 a.C. foi marcado pela hegemonia de Esparta, seguida
de Delos, mesmo após o final da guerra (448 a.C.), quando os pela supremacia de Tebas. O desgaste das cidades com o longo
persas já haviam sido derrotados. Para o líder ateniense, as ci- período de guerras facilitou a conquista da Grécia por Felipe
dades deveriam se reunir em um congresso para tratar de as- da Macedônia em 338 a.C., na batalha de Queronéia. Fe-
suntos comuns, como a reconstrução de templos ou o comba- lipe foi sucedido por seu filho Alexandre (336/323 a.C.), que
te à pirataria. No entanto esse ideal não foi concretizado, pois fundou o Império Macedônico, englobando a Grécia, a Pérsia,
as intensas lutas existentes serviram para reforçar a histórica a Mesopotâmia e o Egito. Chegava ao fim o mais brilhante pe-
separação das cidades, culminando com a Guerra do Pelopo- ríodo da Grécia antiga.
neso, envolvendo praticamente todas as cidades gregas, polari- Passando a integrar o Império de Alexandre, os quadros
zadas entre Atenas e Esparta. políticos, econômico e social da Grécia foram completamente
alterados. Entretanto, a cultura grega, sob o domínio da Mace-
Guerras Médicas ou Guerras Greco-Pérsicas dônia e, mais tarde, de Roma, difundiu-se por terras distantes,
(490- 479 a. C.) aproximando-se das culturas do Oriente, o que deu origem ao
Durante sua expansão em direção ao Ocidente, o podero- período helenístico.
so Império Persa conquistou diversas colônias gregas na Ásia
Menor, entre elas a importante cidade de Mileto. Essas colô- Período Helenístico (séc. IV – séc. II a. C.)
nias, lideradas por Mileto e contando com a ajuda de Atenas, A partir do ano 350 a.C., uma nova civilização começou
tentaram, em vão, libertar-se do domínio persa, promovendo a ascender politicamente e militarmente no Mundo Antigo. A
21
Professor Max Dantas

Macedônia, sob o domínio do rei Felipe II, iniciou um proces- A Cultura Helenística
so de expansão territorial que rompeu com a hegemonia do A cultura helenística resultou da fusão da cultura grega
mundo grego. Tal invasão só foi possível devido às constan- com a cultura oriental, promovida pela expansão do império
tes disputas internas que levaram a enfraquecer o poderio mi- Macedônico com Alexandre.
litar grego. A Grécia não era mais o centro cultural do mundo. Os
Seguindo os passos do pai, o rei Alexandre, o Grande, principais centros da cultura helenística foram Alexandria, no
continuou a expandir os domínios macedônicos até a Ásia Me- Egito, Antioquia, na Turquia, e Pérgamo, na Ásia Menor.
nor, chegando até a Índia. Esse vasto domínio de territórios As principais contribuições para a formação do mundo
controlados por Alexandre foi responsável por formar o cha- ocidental ocorreram:
mado mundo helenístico. Essa região não só definia os limites Artes: se a arte grega caracteriza-se pelo equilíbrio, pela
do império macedônico, mas também indicava um conjunto leveza e pelo humanismo, as artes helenísticas perderam aque-
de hábitos e práticas culturais institucionalizadas pelo gover- las características e passaram a ser dominadas pelo realismo
no alexandrino. exagerado e pelo sensacionalismo. Os artistas helenísticos não
Sendo educado pelo filósofo grego Aristóteles, Alexandre se preocupavam com o belo, mas sim com o grandioso e lu-
entrou em contato com o conjunto de valores da cultura grega. xuoso.
Além disso, suas incursões pelo Oriente também o colocou em Os maiores exemplos disso são o Farol de Alexandria,
contato com outras culturas. Simpático ao conhecimento des- considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo, e o
sas diferentes culturas, o imperador Alexandre agiu de forma a Grande Altar de Zeus, em Pérgamo, com suas estátuas gi-
mesclar valores ocidentais e orientais. É desse intercâmbio que gantescas de deuses, animais ferozes e monstros empenhados
temos definida a cultura helenística. Uma das mais significati- em violentos combates.
vas ações tomadas nesse sentido foi a construção da cidade de Houve, no entanto, pequenas exceções. Alguns esculto-
Alexandria, no Egito. res helenísticos criaram obras de singular beleza, tão singelas
Dotada de complexas obras arquitetônicas, a cidade de quanto as esculturas da época anterior, como as estátuas de
Alexandria abrigava uma imensa biblioteca com um acervo su- Vênus de Milo e Vitória de Samotrácia.
perior a 500 mil obras. Outro hábito implementado pelo impe- A arquitetura caracterizou-se pela construção de luxuo-
rador era a promoção do casamento de seus oficiais e funcio- sos palácios e templos e pela origem de um novo estilo de co-
nários com mulheres de outras culturas. Com isso, Alexandre lunas: o estilo coríntio.
procurou singularizar o seu império transformando seu reina- Filosofia: as mais importantes doutrinas filosóficas hele-
do em um campo de interpenetrações culturais. nísticas foram o estoicismo, criado por Zenon, e o epicuris-
Com sua morte, em 323 a.C., a unidade territorial do im- mo, criado por Epicuro.
pério foi perdida. Não deixando um sucessor direto ao trono, Os estócios afirmavam que o homem não é senhor do seu
as conquistas deixadas por Alexandre foram alvo do interesse destino, só encontrando a felicidade na aceitação do destino
dos seus generais. Dessa disputa houve um processo de esfa- que lhe está reservado. Negavam a existência de diferenças so-
celamento dos domínios macedônicos em três novos reinos. A ciais e pregavam que todos os homens são irmãos, pois são fi-
dinastia selêucida dominou o Egito; os antigônidas ficaram lhos do mesmo deus.
com a Macedônia; e os selêucidas controlaram a Ásia. Os epicuristas, afirmavam que a alma é matéria, que o uni-
A divisão político-territorial enfraqueceu a unidade manti- verso age por si só e que as questões humanas não sofrem in-
da nos tempos de Alexandre. Durante o século II a.C., os ro- tervenção dos deuses.
manos iniciaram seu processo de expansão territorial, resultan- Além disso, os epicuristas faziam a apologia dos prazeres.
do na dominação do antigo Império Macedônico. Não apenas dos prazeres gastronômicos e sexuais, mas tam-
bém dos prazeres intelectuais. Diziam que o mais alto prazer
consiste na serenidade da alma, na ausência completa da dor
física e moral.
Literatura: o destaque especial cabe ao teatro, com Me-
nandro, autor de várias comédias sem cunho social e político,
onde o tema dominante era o amor romântico que culminava
com um casamento feliz.
Na poesia bucólica, autores como Teócrito celebravam a
vida simples e os prazeres do povo do campo.
Ciências: os conhecimentos científicos alcançaram tal ní-
vel de desenvolvimento, principalmente no campo da astro-
nomia e da matemática, que fizeram com que as ciências he-
lenísticas fossem as mais desenvolvidas da História, durante
22
História Geral

várias séculos. Sófocles- Édipo - Rei, Antígona e Electra.


Aristófanes - criador das comedias; As Vespas, As Nu-
Os grandes nomes deste período foram: vens e A Rãs.
Euclides: que desenvolveu de maneira extraordinária os Eurípedes – Medeia, As Troianas, As Bacantes.
conhecimentos de geometria;
Arquimedes: descobridor da lei da alavanca e da hidros- História
tática. Inventou o parafuso tubular para bombear água, a héli- Heródoto - Guerra Medica
ce, as lentes convexas e criou um planetário. Para defender sua Tucidides - Guerras do Peloponeso
cidade, cercada pelos romanos, construiu máquinas poderosas
como catapultas, que atiravam pedras enormes sobre os inimi- Poesia
gos; com um sistema de espelhos, que concentrava os raios so- Homero - Ilíada e Odisséia
lares, conseguiu incendiar vários navios romanos;
Hiparco: estabeleceu os fundamentos da trigonometria, Filosofia
inventou o astrolábio e a representação do globo terrestre; Tales de Mileto
Eratótenes: calculou a circunferência da Terra com uma Diógenes
margem de erro extremamente pequena; Sócrates
Aristarco: criador da teoria heliocêntrica, isto é, a teoria Platão
de que a Terra e os outros planetas giram em torno do Sol, que Aristóteles
não foi aceita na época.
Foi o resultado da fusão da cultura oriental e helenística Medicina
realizada por meio das conquistas de Alexandre Magno, difun- Hipócrates
dindo a cultura em Alexandria, Pérgamo, Rodes, Antioquia e
Siracusa, e findando-se com a conquista do mundo antigo, re- Matemática
alizado por Roma. Tales de Mileto
Pitágoras
Teatro
Ésquilo - pai da tragédia grega com as peças: os persas, Oratória
Os sete contra Tebas e Prometeu Acorrentado. Sólon
Péricles
Demóstene
Fidias (Parthenon)
Miron (O Discóbolo)

Anotações

Deuses Gregos
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Professor Max Dantas

Roma
Período Monárquico (753 a. C. – 509 a. C.)
O mito da fundação de Roma A documentação do período monárquico de Roma en-
Diz a lenda que Roma foi fundada no ano 753 a.C. por contrada até hoje é muito precária, o que torna este período
Rômulo e Remo, filhos gêmeos do deus Marte e da mortal menos conhecido que os períodos posteriores. Várias dessas
Rea Sílvia. Ao nascer, os dois irmãos foram abandonados jun- anotações registram a sucessão de sete reis, começando com
to ao rio Tibre e salvos por uma loba, que os amamentou e os Rômulo em 753 a.C., como representado nas obras de Virgí-
protegeu. Por fim, um pastor os recolheu e lhes deu os nomes lio (Eneida) e Tito Lívio (História de Roma).
de Rômulo e Remo. Depois de matar Remo numa discussão, A região do Lácio foi habitada por vários povos. Além dos
Rômulo deu seu nome à cidade. A história, por sua vez, nos latinos, os etruscos tiveram um papel importante na história
diz que algumas tribos de origem sabina e latina estabeleceram da Monarquia de Roma, já que vários dos reis tinham origem
um povoado no monte Capitolino, junto ao rio Tibre. etrusca.
O rei acumulava a chefia militar, administrativa, jurídica
e religiosa. Era eleito pelo Senado e governava durante toda
vida. Para governar, apoiava-se em duas instituições: O Sena-
do, um conselho de anciãos composto pelos patrícios mais im-
portantes, e a Assembléia Curiatial, que reunia todos os pa-
trícios adultos, membros das trinta cúrias romanas.
A eleição do rei envolvia um complexo sistema, onde ca-
bia ao Senado selecionar um membro de cada tribo e à As-
sembléia Curial escolher um entre os três selecionados para
o cargo.
A partir de 625 a.C., Roma passou a ser governada por reis
etruscos. O último deles, Tarquínio, o Soberbo, foi deposto e
Origem lendária de Roma: Rômulo e Remo
expulso da cidade em 509 a.C., Tarquínio teria se aproximado
das classes mais baixas da sociedade, provocando a ira do pa-
Roma Antiga triciado. Mas o império etrusco já estava em decadência, prin-
Roma Antiga foi uma civilização que se desenvolveu a par- cipalmente pelos constantes ataques dos gauleses e da forte
tir da cidade-estado de Roma, fundada na península itálica du- presença dos gregos na Sicília.
rante o século VIII a.C.. Durante os seus doze séculos de exis- O nascimento da República romana foi uma reação dos
tência, a civilização romana transitou da monarquia para uma patrícios, que procuravam reaver o poder político perdido para
república oligárquica até se tornar num vasto império que os reis etruscos.
dominou a Europa Ocidental e ao redor de todo o mar Medi-
terrâneo através da conquista e assimilação cultural. No entan- Sociedade
to, vários fatores sócio-políticos causaram o seu declínio, e o Os principais grupos sociais que se construíram em Roma
império foi dividido em dois. A metade ocidental, onde esta- eram os patrícios, os clientes, os plebeus e os escravos.
vam incluídas a Hispânia, a Gália e a Itália, entrou em colapso • Patrícios: eram grandes proprietários de terras, rebanhos
definitivo no século V d. C. e deu origem a vários reinos inde- e escravos. Desfrutavam de direitos políticos e podiam de-
pendentes; a metade oriental, governada a partir de Constanti- sempenhar altas funções públicas no exército, na religião,
nopla passou a ser referida como Império Bizantino a partir na justiça ou na administração. Eram os cidadãos roma-
de 476 d.C., data tradicional da queda de Roma e aproveitada nos.
pela historiografia para demarcar o início da Idade Média. • Clientes: eram homens livres que se associavam aos pa-
A civilização romana é tipicamente inserida no grupo “An- trícios, prestando-lhes diversos serviços pessoais em tro-
tiguidade Clássica”, juntamente com a Grécia Antiga que mui- ca de auxílio econômico e proteção social. Constituíam
to inspirou a cultura deste povo. Roma contribuiu muito para ponto de apoio da denominação política e militar dos pa-
o desenvolvimento no Mundo Ocidental de várias áreas de es- trícios.
tudo, como o direito, teoria militar, arte, literatura, arquitetura, • Plebeus: eram homens e mulheres livres que se dedica-
linguística, e a sua história persiste como uma grande influên- vam ao comércio, ao artesanato e aos trabalhos agrícolas.
cia mundial, mesmo nos dias de hoje. • Escravos: Representavam uma propriedade, e, assim, o
senhor tinha o direito de castigá-los, de vendê-los ou de
alugar seus serviços. Muitos escravos também eram even-
24
História Geral
tualmente libertados.
rência das lutas da plebe por seus direitos. Os Tribunos po-
Período Republicano (509 a. C. a 27 a.C.) diam vetar todas as leis contrárias aos interesses dos plebeus,
A substituição da Monarquia pela República foi um ato re- menos em época de guerras ou graves perturbações sociais,
acionário dos patrícios, que afastaram a realeza, cada vez mais quando todas as leis ficavam sob controle exclusivo do ditador.
comprometida com as classes empobrecidas. O monopólio do Os tribunos da plebe eram considerados invioláveis em quem
poder voltou às mãos dos patrícios, com as instituições roma- os agredisse era condenado à morte.
nas assegurando a manutenção desse poder.
Plebeus e escravos continuaram sem direitos políticos, As lutas de classe na República
mas alguns plebeus, enriquecidos com o comércio, chegaram A marginalização política da plebe vinha desde os tempos
a ter certos privilégios resultantes de sua condição de clientes. da Monarquia continuando até a República. Como consequên-
Entretanto, dependiam inteiramente dos benefícios concedi- cia, os plebeus sofriam sérias discriminações. Nas guerras, fi-
dos pelos patrícios. cavam com os piores despojos; quando se endividavam e não
A base da República romana era o Senado, formado por podiam pagar suas dívidas, tornavam-se escravos. Nessa épo-
trezentos patrícios, com a responsabilidade de propor leis. ca, as leis não eram escritas, mas orais, baseadas na tradição,
Os cargos eram vitalícios, abrigando outras funções: garantir a o que concedia grandes privilégios ao patriciado devido à sua
integridade da tradição e da religião, supervisionar as finanças complexa interpretação.
públicas, conduzir a política externa e administrar as provín- O monopólio do poder pelos patrícios (que controlavam
cias. A presidência do Senado era exercida por magistrado, que o Senado, a Assembléia Centuriata e as principais magistratu-
o convocava, podendo ser um cônsul, um pretor ou tribuno. ras), impedindo que os plebeus fossem nomeados cônsules ou
Existiam duas assembléias encarregadas de votar as leis censores, levou a sucessivas revoltas.
sugeridas pelo Senado. A Assembléia Curiata, que perdeu Na primeira delas, ocorrida em 494 a.C., os plebeus de
quase toda sua importância durante a República, e a Assem- Roma realizaram a primeira greve da história. Retirando-se
bléia Centuriata, formada pelas centúrias (divisões políticas para o Monte Sagrado, ameaçaram formar ali uma nova re-
e militares compostas de cem cidadãos), a quem cabia de fato pública, deixando a cidade totalmente desprotegida e à mercê
discutir e votar as propostas. de possíveis invasores. Os patrícios foram obrigados a ceder,
O poder executivo era exercido pelos magistrados, per- criando-se então os Tribuno da Plebe, cargo exercido exclusi-
tencentes na maioria das vezes à classe dos patrícios. Com ex- vamente por plebeus para defender os interesses de classe.
ceção do censor, todos os magistrados eram eleitos pela As- Como os tribunos eram eleitos pelas Assembléias Centu-
sembléia Centuriata para um mandato de um ano. Coletivas, as riatas, onde os patrícios tinham maioria absoluta de votos, a
magistraturas exigiam a presença de dois ou mais magistrados ação dos Tribunos da Plebe ficou bastante limitada. Por isso
para cada cargo. Os magistrados eram os seguintes: os plebeus continuaram a lutar e, em 471 a.C., foi criada a As-
*Cônsules: Detinham o maior poder, equivalente ao dos sembléia da Plebe, composta exclusivamente por membros
antigos reis. Eram dois eleitos para o período de um ano. Ti- das camadas inferiores para escolher seus próprios tribunos.
nham como atribuições comandar o Exército, convocar o Se- Como não havia nenhuma legislação escrita que garantisse
nado e presidir os cultos. Nos períodos de crise, indicavam um os direitos dos plebeus, estes novamente se revoltaram em 450
ditador, que exercia o poder de forma absoluta durante o perí- a.C., Desta vez, o resultado da revolta foi a criação dos decên-
odo máximo de seis meses. viros com a finalidade de redigir novas leis que, prontas, rece-
*Pretores: Ministravam a justiça, existindo dois: uma para beram o nome de Leis das Doze Tábuas.
as cidades, chamado de urbano, e outro para o campo e para Mas, quando a Lei das Doze Tábuas ficou pronta, os ple-
estrangeiros, chamado de peregrino. beus perceberam que a situação anterior pouco havia mudado.
*Censores: Sua função era fazer o recenseamento dos ci- Entre as proibições mantidas, continuava vetado o casamento
dadãos. Calculavam o nível de riqueza de cada um e vigiavam entre patrícios e plebeus, cuja finalidade era preservar a pure-
a conduta moral do povo. za do sangue patrício e, portanto, fixar seu direito exclusivo
*Ques- ao poder. Certos de que com os casamentos mistos poderiam
tores: En- quebrar a hegemonia patrícia, os plebeus passaram a exigir o
car reg ados fim dessa lei, o que foi atendido através da instituição da Lei
de adminis- Canuléia. Mas seu efeito ficou bastante reduzido, já que só be-
trar as finan- neficiou apenas os plebeus ricos.
ças públicas. Os plebeus revoltaram-se pela última vez em 247 a.C.,
*Tribu- quando retornaram para o Monte Sagrado. Dessa vez, os pa-
nos da ple- trícios concordaram que as leis votadas para a plebe na sua As-
be: Surgiram sembléia tivessem validade para todo Estado. Essas decisões
Senado Romano em decor- foram chamadas plebiscito, o que significa “a plebe aceita”.
25
Professor Max Dantas

Embora os progressos entre a primeira e a última revolta víncia romana na África.


tivesses sido grandes, essas leis, na prática, continuaram a be- Crescimento e Crise
neficiar apenas os plebeus ricos, principalmente os comercian- As conquistas militares empreendidas pelos romanos na
tes, que, por casamento, podiam almejar os melhores cargos Península Itálica e posteriormente nas Guerras Púnicas (Roma
da República. A exploração dos pobres, no entanto, continuou x Cartago), expandiu o território romano do Ocidente ao
não havendo a mínima condição de alcançarem o poder. Oriente e deu aos romanos o domínio do mar Mediterrâneo.
Apesar disso, por volta do século III a.C., a República de No entanto, a expansão romana acabou provocando muitas
Roma se caracterizava pelo equilíbrio de poder entre as classes, transformações, que foram responsáveis pela crise da republi-
o que, no fundo, escondia o fato de que havia um Estado Pa- ca romana. Dentre essas mudanças, podemos mencionar:
trício e um Estado Plebeu. 1.O aumento do número de escravos. O crescimento do
número de escravos levou ao aparecimento de revoltas feitas
Guerras Púnicas por escravos, a exemplo dessas podemos mencionar, a revolta
As Guerras Púnicas consistiram numa série de três guer- comandada pelo escravo Espartacus.
ras que opuseram a República Romana e a República de Carta- 2. A concentração de terras nas mãos de uma aristocra-
go, cidade-estado fenícia localizada no norte da África, que por cia.
volta do século III a.C dominava o comércio do Mediterrâneo. 3. A ruína dos camponeses, pois o trabalho escravo pas-
O aditivo “Púnico” deriva do nome dado aos cartagineses pe- sou a dominar a economia.
los romanos (Punici) (de Poenici, ou seja, de ascendência fení- 4. O surgimento de uma grande massa de desemprega-
cia). Os ricos comerciantes cartagineses possuíam diversas co- dos no campo, que passaram a migrar para a cidade (Êxodo
lônias na Sardenha, Córsega e a oeste da Sicília (ilhas ricas na Rural)
produção de cereais), no sul de Espanha (onde explorava mi- 5. Surgimento de uma nova classe social: os cavaleiros ou
nérios como a prata) e em toda costa setentrional da África. “homens novos”. O aparecimento deste grupo social estava
No início das guerras, Roma domina a península Itálica, relacionado ao desenvolvimento do comercio e da manufatu-
enquanto a cidade fenícia de Cartago domina a rota marítima ra, pois a conquista do Mediterrâneo proporcionou aos roma-
para a costa ocidental africana, assim como para a Bretanha e nos a abertura de novos mercados.
a Noruega. Na I Guerra Púnica, que dura de 264 a.C. a 241 6. Surgimento de um Exército profissional. Os soldados
a.C., Roma e Cartago são chamadas para ajudar a cidade de passaram a receber salários (soldos)
Messina, na ilha da Sicília, ameaçada por Hiero II, rei de Sira- Essas transformações desencadearam novas lutas sociais.
cusa. Os romanos, para expulsar os cartagineses da ilha, pro-
vocam a guerra e saem vitoriosos. Sicília, Sardenha e Córsega As lutas civis
são anexadas ao domínio de Roma, e os cartagineses têm res- O regime aristocrático de governo predominante duran-
tringida a influência ao norte da África. te o período republicano foi incapaz de administrar o imenso
A II Guerra Púnica (218 a.C.-201 a.C.) começa na Espa- território conquistado pelo exército romano. O senado con-
nha, onde Cartago amplia seu poder para compensar a perda tinuava exercendo o monopólio sobre as principais decisões
da Sicília. Comandadas por Aníbal, as tropas cartaginesas to- políticas, excluindo do poder a grande massa de habitantes
mam Saguntum, cidade espanhola aliada de Roma: é a declara- das províncias. A passagem do regime republicano ao imperial
ção de guerra. Com 50 mil homens, 9 mil cavalos e 37 elefan- foi marcada, portando, por uma série crise econômica e social
tes, Aníbal atravessa os Pireneus e conquista cidades no norte proveniente do próprio movimento expansionista.
da Itália. Durante essa campanha fica cego de um olho e perde As disputas pelo poder político em Roma tiveram início
metade dos homens. Mesmo assim chega às portas de Roma. com as propostas de reforma apresentadas pelos irmãos Ti-
A falta de reforços e o cerco de Cartago pelas forças roma- bério e Caio Graco, eleitos tribunos da plebe em 133 a 121
nas sob o comando de Cipião, o Africano (235 a.C.-183 a.C.) a.C., respectivamente. Tibério apresentou uma ousada propos-
obrigam Aníbal a voltar para defendê-la. Vencido, refugia-se ta de reforma agrária, causando uma forte reação por parte da
na Ásia Menor, onde se envenena para não ser preso pelos ro- aristocracia patrícia, que mandou assassiná-lo juntamente com
manos. A paz custa caro aos cartagineses: entregam a Espanha muitos de seus seguidores. Caio Graco, inspirado na concep-
e sua esquadra naval, comprometendo-se ainda a pagar por 50 ção de democracia ateniense, procurou transferir as decisões
anos pesada indenização de guerra a Roma. políticas da esfera exclusiva do senado para a Assembléia po-
A III Guerra Púnica tem início em 149 a.C. É fomenta- pular. Seu destino, no entanto, não foi muito diferente do de
da pelo persistente sucesso comercial dos cartagineses, apesar seu irmão, pois uma nova repressão aristocrática pôs fim às
de sua diminuída importância política. Uma pequena violação idéias reformistas, levando-o a cometer suicídio.
dos tratados de paz serve de pretexto para a terceira guerra. O conflito entre os anseios da camada popular e dos mem-
Roma destrói Cartago em 146 a.C. e vende 40 mil sobreviven- bros da aristocracia prossegue. Após a morte dos irmãos Gra-
tes como escravos. A antiga potência fenícia é reduzida a pro- co, a disputa entre Mário - cônsul da República, chefe do par-
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História Geral

tido popular - e Sila 107 a 79 a. C. - representante do senado cidadãos estrangeiros no senado.


- expressava a intensificação das lutas políticas. Mais uma vez, A aristocracia romana, despojada de muitos de seus pri-
na história da política republicana, predominava a força da eli- vilégios e temendo que César concentrasse o poder em suas
te conservadora e Sila tornou-se ditador da República. mãos, tornando-se imperador, resolveu assassiná-lo, procuran-
Durante o governo de Sila, a aristocracia consolidava seu do restaurar o regime republicano. Contudo, a morte de Júlio
poder, a medida que o ditador limitava o poder dos tribunos César revolto a camada popular, tornando ainda mais acirrada
da plebe. Os plebeus responderam prontamente através de a disputa entre os defensores de um governo pessoal e abso-
uma nova revolta, desta feita liderada por Catilina, senador luto e aqueles que defendiam a restauração da republica. Os
de grande prestígio popular, o qual representava os interesses responsáveis pelo assassinato de César - os republicanos Cás-
desta camada social. No entanto, o orador Cícero (cônsul da sio e Brutus - tentaram tomar o poder, mas foram impedidos
República) através de inflamados discursos denunciou a cons- por Marco Antônio, importante líder “cesarista” que instigava
piração de Catilina, acusando-o de tentar um golpe de estado e a massa plebéia contra o senado, evitando a conspiração res-
transformando-o em inimigo de Roma. tauradora.
A ampla utilização de mão-de-obra escrava, trouxe ao Es- Nesse contexto, formou-se o Segundo triunvirato, com-
tado romano, inúmeras rebeliões de cativos, entre as quais a posto por Marco Antônio, Lépido e Otávio, que dividem o
mais importante foi a comandada pelo Gladiador Spartacus, governo das províncias entre si: Marco Antônio comandaria o
de 73 a.C. a 71 a.C., que chegou a ameaçar a própria cidade de Oriente; Otávio, o ocidente; e Lépido, a África. No entanto, a
Roma. Escapando de Cápua, cidade ao sul de Roma, 74 gladia- rivalidade entre os triúnviros logo provoca a passagem da di-
dores refugiaram-se próximo ao vulcão Vesúvio, onde reuni- tadura coletiva para a ditadura pessoal e, consequentemente,
ram mais de 120 mil soldados. desta para a instauração da Monarquia. Lépido é afastado pelas
forças de Otávio, rompendo o equilíbrio do poder e gerando o
Os triunviratos confronto com Marco Antônio. Este rompeu definitivamente
Diante do grave quadro de crise política, três líderes po- com Otávio e, ao se aliar com Cleópatra no Egito, fortaleceu
pulares, Pompeu, Crasso e Júlio César, impuseram-se diante sua base militar no Oriente.
do senado estabelecendo um acordo político (60 a.C.) o Pri- Otávio, visando tomar o Egito, fortalece seu exército e
meiro Triunvirato. Após a morte de um dos triúnviros, Cras- inicia uma campanha para derrotar Marco Antônio. Durante
so, em 53 a.C., os outros dois Pompeu e Júlio César, lutaram a batalha Naval de Cio, 31 a.C., Otávio consegue finalmente
pelo exercício do poder pessoal. afastar o último dos seus oponentes, tornando-se senhor abso-
Contando com o apoio popular luto de Roma. Este, manteve as instituições republicanas, mas
(possuía muito prestígio junto à reduziu o poder do senado e das Magistraturas. Desta forma,
Plebe), César venceu Pompeu e consolidou seu poder pessoal sobre o estado e, ao receber do
tornou-se ditador da república senado o título de Augusto (significa sagrado, divino), torna-se
romana. definitivamente o primeiro imperador romano em 27 a.C
César possuía plenos pode-
res, e seu governo indicava uma Império Romano- 27 a. C. – 476 d. C.
forte tendência à monarquia. No Alto Império- Principado
sentido de atender aos anseios Chamamos de Alto Império o período que inicia na sagra-
da plebe, realizou um conjunto ção de Otávio, em 27 a.C. Basicamente, esse é o período de
de reformas sociais ferindo os consolidação e apogeu do poder romano.
interesses da classe dominante. A ordem política imperial teve como elemento mais im-
Ele procurou unificar o mundo portante a centralização das decisões nas mãos do imperador.
romano ampliando o direito à A manutenção do Senado - necessária por ser ele a mais tra-
Júlio Cesar cidadania romana aos habitantes dicional instituição romana e para impedir a caracterização de
das províncias; promoveu a fun- um regime despótico - foi acompanhada de uma drástica redu-
dação de várias colônias fora da Itália; reformou o calendário ção do seu poder efetivo, restando-lhe apenas a administração
romano utilizando seu nome para designar o sétimo mês (daí a da Itália e das províncias sem guarnições militares (Províncias
denominação Julho); organizou as finanças públicas, proibin- Senatoriais).
do o abuso do luxo, e construiu diversas obras públicas (estra- O imperador controlava a religião, o Exército, as funções
das em todos os domínios do Império, melhorias em Roma, legislativa e judiciária, as finanças do Estado, a política externa
drenagens dos pântanos, etc.). Dentre as novas leis que atin- e as províncias mais importantes. A redução do poder do Se-
giam diretamente os privilégios da aristocracia, devemos des- nado causou choques entre este e o poder imperial, choques
tacar a obrigação de os proprietários empregarem pelo menos que sempre foram resolvidos pelo uso da força militar, na qual
um terço dos homens livres em suas terras e a introdução de se apoiava o imperador.
27
Professor Max Dantas

O Exército, com um efetivo de mais de 300.000 homens, parte, pelo refreamento do ímpeto das conquistas. Se compa-
foi estacionado ao longo das fronteiras do Império, o chama- rado ao período da República, o Império representou muito
do limes, para resguardar Roma dos ataques bárbaros. O Exér- mais uma fase de consolidação das fronteiras e do domínio ro-
cito era composto por uma força profissional (as legiões, de mano do que propriamente de expansão.
recrutamento obrigatório entre os cidadãos romanos) e por Cláudio, que governou entre 41 e 54, conquistou a Mau-
forças auxiliares, de recrutamento provincial. Otávio Augus- ritânia e consolidou o domínio sobre a Bretanha. Trajano (98-
to criou também uma força militar de elite, a Guarda Preto- 117) realizou as últimas conquistas do Império, incorporando
riana, aquartelada em Roma, para a proteção pessoal do im- a Dácia (atual Romênia), a Armênia e a Mesopotâmia. A partir
perador. daí tratava-se apenas de consolidar os domínios do Império.
A sociedade foi dividida em três ordens, segundo um cri- Adriano (117-138) deu início à edificação de grandes muralhas
tério censitário: a Senatorial, que possuía privilégios políticos; de pedra nas fronteiras imperiais; Marco Aurélio (161-180), o
a Equestre, que permitia o acesso aos cargos públicos; e a In- “imperador filósofo”, defendeu as fronteiras do Danúbio das
ferior, que abrangia a maioria dos cidadãos. Com isso, Otávio invasões bárbaras.
ganhava o apoio dos comerciantes ricos, enquanto que, como O fim das conquistas significou, a curto prazo, a plenitude
forma de compensar a perda de poder do Senado, cumulava do Império. Seu efeito imediato foi o da paz interna, da con-
os senadores com regalias que os tornavam dependentes do solidação das fronteiras, com o dinheiro antes usado em guer-
poder imperial. ras sendo utilizado para investimentos na atividade econômi-
O controle sobre a plebe era efetuado por meio da política ca. Não por acaso, o século 2 é o período da Pax Romana, a
de concessão de alimentos, política essa iniciada por Júlio Cé- paz romana, significando o apogeu e a prosperidade de Roma
sar e ampliada por Otávio. A isso se somou a criação de gran- e das províncias.
des espaços públicos para a realização de jogos, corridas de
bigas e combates de gladiadores, de modo a dar à plebe uma Baixo Império - Dominato
forma de diversão que permitisse manter a revolta social em Chamamos de Baixo Império o período final do Império
um nível controlável. Era a política do “pão e circo”. Ao mes- Romano do Ocidente, caracterizado por sua decadência e que-
mo tempo, o controle sobre a massa de escravos era realizado da, em 453, em meio às invasões dos povos germânicos. A
por uma ampla política repressiva, natural num Estado plena- origem mais remota dessa crise está diretamente ligada à com-
mente militarista como era o Império Romano. binação entre a estrutura econômica do Império e sua incapa-
Em termos econômicos, o Império assentava-se sobre o cidade de dar sequência à saga de conquistas, única forma ca-
trabalho escravo e o domínio das províncias. O escravo era a paz de manter os domínios de Roma.
base de toda a produção romana, tanto na agricultura quanto Roma expandiu-se, ao longo da República e início do Im-
na mineração. Era também largamente empregado em ativida- pério, até onde as fronteiras naturais fossem capazes de res-
des não produtivas, notadamente urbanas: professores, servi- guardar seus domínios. Ao sul, a fronteira natural era o Saara,
çais domésticos, músicos, etc. impossibilitando invasões advindas do centro e do sul da Áfri-
Quanto às províncias, eram fundamentais não apenas pe- ca. A oeste, o Império estendia-se até o Atlântico, garantindo
los tributos que pagavam, mas também pelo comércio alta- sua fronteira ocidental com o domínio da Bretanha. A fron-
mente lucrativo que Roma mantinha com elas, permitindo o teira oriental do Império era garantida pelo deserto da Arábia,
escoamento da vasta produção dos latifúndios escravistas. o Cáucaso, o mar Negro e as montanhas do planalto iraniano.
A consolidação do poder romano explica-se, em grande Ao norte, os rios Reno e Danúbio eram os principais compo-
nentes do limes.
Assim, conforme vimos, o Alto Império buscou apenas
consolidar os domínios romanos. Mesmo as conquistas da Dá-
cia e da Mesopotâmia obedeceram ao critério do guarnecimen-
to em fronteiras naturais. No caso da primeira, ela levava o Im-
pério até os montes Cárpatos. A segunda, apenas estendia seus
domínios por um vale imensamente fértil, mas facilmente de-
fensável pela presença dos rios Tigre e Eufrates e pelo caráter
montanhoso e desértico de seu entorno.
Dessa forma, percebemos que as conquistas romanas ces-
saram pela total inexistência de áreas a conquistar. Ao norte do
Império, por exemplo, além do Reno e do Danúbio, estendia-
se uma vasta planície que, praticamente sem interrupções, se-
guia até os montes Urais, criando uma região gigantesca e im-
Coliseu possível de ser defendida.
28
História Geral

Embora fundamental de imediato para consolidar o do- desequilíbrios: entre as despesas do Estado e sua arrecadação;
mínio romano, o fim das conquistas trouxe consigo efeitos entre a produção e o consumo; entre o campo e a cidade; e en-
que, a longo prazo, se revelariam desastrosos para as estrutu- tre a proporção de escravos e a de homens livres.
ras do Império. Toda a estrutura social, econômica e administrativa do Im-
Em primeiro lugar, o ímpeto de conquistas havia gerado pério começava a se desagregar. O enfraquecimento do Exér-
a formação de um gigantesco e dispendioso exército, que só cito tornava o Império mais vulnerável a revoltas de províncias
poderia ser mantido se Roma fosse capaz de garantir a manu- e de escravos, enfraquecendo-o ainda mais. Ao mesmo tempo,
tenção do fluxo de riquezas obtido com as guerras e vitórias. tornava mais desprotegida a extensa fronteira do Império. Era
Assim, a estabilidade das fronteiras tornou-se frágil diante das o princípio da desintegração.
dificuldades de se garantir o abastecimento de todo o exérci-
to. Principais imperadores do Baixo Império
Além disso, o fim das conquistas trouxe um efeito sobre a • Diocleciano (284-305): Para conter a inflação promulgou
estrutura de mão-de-obra do Império. Conforme vimos ante- o Edito de Máximo, através do qual tabelou o preço dos ali-
riormente, grande parte da economia romana assentava-se so- mentos. Para conter as invasões dos bárbaros, realizou uma
bre a mão-de-obra escrava, cuja fonte de abastecimento mais reforma administrativa conhecida como Tetrarquia (go-
forte era o afluxo de prisioneiros de guerra estrangeiros. As verno de quadro). O império passou a ser governado por
péssimas condições de vida, o alto índice de mortalidade, a dois Césares e dois augustos. Empreendeu também, uma
baixa expectativa média de vida, além do pequeno índice de nova perseguição aos cristãos.
natalidade dos escravos, pelo fato de que o número de mulhe- • Constantino (324-337): Reunificou o Império, promulgou
res escravas era sempre mais baixo, geravam um crescimento o Edito de Milão, concedendo liberdade de culto aos
vegetativo negativo. cristãos e fundou no Oriente, a cidade de Constanti-
A esse dado some-se o efeito da pregação cristã, que, ao nopla (antiga colônia grega: Bizâncio).
defender a igualdade e negar a escravidão, servia de estímu- • Teodósio (379-395): Promulgou o Edito de Tessalônica,
lo a fugas e revoltas de escravos. A única forma de repor essa que tornou o cristianismo a religião oficial do Império
mão-de-obra seria por meio das conquistas, cessadas desde o Romano. Dividiu o Império em duas partes: império Ro-
início do século 1. mano do Ocidente e o Império Romano do Oriente.

Crise econômica Anotações


Assim, lentamente, o número de escravos declinou ao lon-
go do Alto Império, chegando, no século 3, a uma situação de
escassez definitiva. E o primeiro efeito da crise do escravismo
foi a crise econômica, gerando alta de preços, escassez e desa-
bastecimento das cidades.
Tal situação obrigava o Império a um aumento sistemáti-
co das importações de produtos agrícolas, inclusive de regiões
de fora do Império. Isso significava um aumento da saída de
moedas do Império, agravado pelo fato de as minas de metais
preciosos estarem esgotadas. Outro elemento agravante era a
alta natural de preços gerada pela escassez. O somatório des-
ses elementos gerou uma grave crise financeira que, por sua
vez, provocou o declínio do comércio e de toda a atividade
urbana.
Algumas medidas foram tentadas para deter a crise. Ain-
da no final do século 3, o imperador Diocleciano decretou o
Edito do Máximo, limitando salários e preços de uma série
de gêneros. Mas eram medidas meramente paliativas ante a di-
mensão de uma crise que, longe de ser passageira, apresentava
um caráter estrutural.
O agravamento da crise passou, já a partir do século 4, a
apresentar efeitos militares e administrativos. Ocorreu o dese-
quilíbrio entre a força do Exército e a massa de bárbaros que
pressionava as fronteiras do Império. Desequilíbrio esse que
era apenas a consequência mais visível de outros importantes
29
Professor Max Dantas

Divisão e Invasões Bárbaras


A desorganização do limites (ou fronteiras) tornava-se
ainda mais grave naquelas regiões onde as fronteiras naturais
do Império (desertos, montanhas, oceano) eram mais frágeis.
E essa fragilidade mostrava-se mais acentuada na fronteira do
Império com a vasta região conhecida como Germânia, a
qual tinha como fronteira básica os rios Reno e Danúbio.
A região conhecida pelos romanos como Germânia abri-
gava uma série de povos, genericamente chamados de ger-
mânicos, como francos, vândalos, visigodos, ostrogodos,
anglos, saxões, jutos, hérulos, burgúndios, lombardos e
vários outros. Tais povos representavam um potencial numé-
rico muito grande e uma ameaça efetiva ao Império, notada-
mente num quadro de retração do seu poderio militar.

Tetrarquia e divisão do Império


A crise econômica teve também uma clara manifestação
administrativa. A redução da arrecadação gerou uma queda
no número de funcionários do Estado, tornando a adminis-
tração mais difícil, principalmente nas províncias mais distan-
tes de Roma.
Numa tentativa de sanar esse problema, o imperador Dio-
cleciano dividiu o Império em duas partes: o Ocidente, com
Saque de Roma
capital em Roma, e o Oriente, com capital em Bizâncio, às
margens do mar Negro. Em cada uma dessas partes havia um miserável, tornando impossível sua permanência em Roma.
imperador, com o título de Augusto, e um outro governante Esses elementos vão gerar um processo de êxodo urbano.
para as regiões mais distantes, com o título de César. Por con- A grande massa que sai das cidades para o campo vai passar a
tar com, na verdade, 4 governantes, essa forma de divisão foi viver e trabalhar naqueles mesmos latifúndios em que, até en-
chamada de Tetrarquia. tão, utilizava-se a mão-de-obra escrava. O declínio da escra-
A Tetrarquia durou pouco tempo. Já no início do século 4, vidão abria espaço, portanto, para o trabalho plebeu, mas em
o imperador Constantino reunificou o Império. Entretan- condições significativamente diferentes.
to, como o risco de invasão fosse maior na parte ocidental, ele Tais latifúndios continuavam com sua mesma extensão,
transferiu a capital para Bizâncio, mais protegida e, na época, sendo necessário que várias famílias vivessem e trabalhassem
mais rica. Ali, ele ergueu uma cidadela para servir de sede ao dentro de uma mesma propriedade. Assim, a paisagem rural
governo, dando a ela o nome de Constantinopla, nome que, do Império, notadamente no ocidente, passou a se caracterizar
durante séculos, acabou designando toda a cidade. por um tipo de propriedade à qual os romanos davam o nome
Durante o século 4, o Império manteve-se unificado, com de vilas, nas quais várias famílias de trabalhadores vivem e tra-
sua sede em Constantinopla. No final do século, o imperador balham numa terra que não lhes pertence.
Teodósio estabeleceu, em 395, a divisão definitiva: Impé-
rio Romano do Ocidente, com capital em Roma, e Impé- Bases do feudalismo
rio Romano do Oriente, também chamado de Império Bi- Esse processo de ruralização apresentava outras caracte-
zantino, com capital em Constantinopla. rísticas. Esses trabalhadores, apesar de serem livres, não eram
proprietários da terra. Ao mesmo tempo, a escassez de moe-
Decadência e êxodo urbano das inviabilizava o pagamento de salários. Dessa forma, a úni-
Ao mesmo tempo em que o Império se debatia com toda ca possibilidade de vida para esses trabalhadores era extrair da
a sorte de dificuldades administrativas e militares, os aspectos terra o seu sustento, entregando ao proprietário um exceden-
econômico e social da crise iam gerando uma nova realidade. te - como forma de pagamento pelo uso da terra. São os pri-
O declínio do comércio gerava uma decadência de toda a ati- meiros rudimentos econômicos do feudalismo, já presentes na
vidade urbana. E a incapacidade crescente do Estado romano crise do Império.
de manter a ordem e a paz internas transformava as cidades Ao lado desses elementos, outra realidade se desenrolava.
em alvo de ataques e saques. Outro elemento era a impossibi- Desde o início do século 3, o Império havia adotado a política
lidade de manter a política de concessão de alimentos à plebe de permitir que tribos bárbaras se instalassem dentro das suas
30
História Geral

fronteiras. Essa relação estabelecia-se com o Império cedendo


a essas tribos terras, chamadas pelos romanos de feudus.
Esses bárbaros eram admitidos na condição de colonos,
segundo a qual, em troca da terra, eles se comprometiam a cul-
tivá-la, pagar tributos ao Império e, por lei, estar presos à terra,
não podendo deixá-la. Isso se explica pela necessidade roma-
na de usar esses povos para a própria defesa das regiões fron-
teiriças. Tanto que esses bárbaros eram também considerados
como federados ao Império, termo que tinha uma conotação
de aliados militares.
Quando a crise no interior do Império agravou-se, no final
do século 3, com Roma cada vez mais dependente da produ-
ção agrícola, o regime de colonato foi estendido para as pró-
prias populações romanas. Tal medida foi baixada pelo impe-
rador Diocleciano, tornando o colonato uma instituição.

Os hunos, os povos germânicos e o fim do Impé-


rio
A partir do final do século 4, a situação do Império tendeu
ao colapso. Já por volta de 370, a presença de um povo asiático
- os hunos - no sul da Europa contribuiu para destruir o frágil
equilíbrio em que ainda se assentava o Império e sua relação
com os povos bárbaros.
Ao longo de quase um século, os hunos assolaram regiões
da Europa, chegando mesmo a sitiar Roma em 452. Ferozes,
saqueadores e extremamente numerosos, eles espalharam ter-
ror por várias regiões da Europa, incluindo a Germânia.
Para vários historiadores, os ataques dos hunos contribu-
íram largamente para pressionar os povos germânicos em di-
reção às terras pertencentes a Roma, acelerando o processo de
invasões. Tais invasões se estenderam ao longo do século 5. Os
visigodos saquearam Roma em 410, e os vândalos em 455;
os francos, após saquearem Roma, ocuparam a Gália; an-
glos, saxões e jutos invadiram a Bretanha; burgúndios, o sul
da França; lombardos, o norte da Itália; e, em 476, os héru-
los, seguidos pelos ostrogodos, depuseram o último impera-
dor, Rômulo Augústulo.
Esse evento assinala oficialmente o fim do Império Ro-
mano do Ocidente. A parte oriental do Império manteve-se
unificada até 1453, quando Constantinopla foi tomada pelos
turcos. Entretanto, a influência do chamado Império Bizanti-
no sobre a Europa foi rapidamente esvaindo-se. As áreas do-
minadas pelos vários povos germânicos deram origem a uma
série de reinos fragmentados, destruindo a unidade imposta
pelos romanos. Também esse evento assinala o início da Idade
Média européia, erigida a partir justamente da integração entre
elementos romanos e germânicos.

Anotações
A
Idade Média compreende o período que parte da
queda do Império Romano, até o surgimento do
movimento renascentista. Longe de ser a chama-
da “idade das trevas”, esse período histórico possui uma diversi-
dade que não se encerra no predomínio das concepções religiosas
em detrimento da busca pelo conhecimento. É durante o período
medieval que se estabelece a complexa fusão de valores culturais
romanos e germânicos. Ao mesmo tempo, é nesse período que ve-
mos a formação do Império Bizantino, da expansão dos árabes,
do sistema feudal e o surgimento das primeiras universidades.
Tradicionalmente se divide esse período entre: Alta Idade Mé-
dia, Baixa Idade Média e paralelamente ocorre a Idade Média
Oriental.

Idade Média
32
História Geral

Reinos Bárbaros Os principais deuses eram: Odim, o protetor dos guerreiros;


A decadência do Império Romano do Ocidente foi ace- Tor, o deus do trovão; e Fréia, a deusa do amor. Acreditavam
lerada pela invasão de povos bárbaros. Bárbaros era a deno- que somente os guerreiros mortos em combate iriam para o
minação que os romanos davam aqueles que viviam fora das Valhala, uma espécie de paraíso. As Valquírias, mensageiras
fronteiras do Império e não falavam o latim. Dentre os grupos de Odin, visitavam os campos de batalha, levando os mortos.
bárbaros destacam-se: As pessoas que morriam de velhice ou doentes iriam para o
• Germanos: de origem indo-européia, habitavam a Euro- reino de Hell, onde só havia trevas e muito frio.
pa Ocidental. As principais nações germânicas eram: os Dos reinos bárbaros que se formaram na Europa, os prin-
visigodos, ostrogodos, vândalos, bretões, saxões, fran- cipais foram:
cos etc. *Reinos dos Visigodos: situado na península ibérica,
• Eslavos: provenientes da Europa Oriental e da Ásia com- era o mais antigo e extenso. Os visigodos ocupavam estrategi-
preendiam os russos, tchecos, poloneses, sérvios, entre camente a ligação entre o Mar Mediterrâneo e o oceano Atlân-
outros. tico, que lhes permitia a supremacia comercial entre a Europa
• Tártaro-mongóis: eram de origem asiática. Faziam parte continental e insular.
deste grupo as tribos dos hunos, turcos, búlgaros, etc. *Reino dos Ostrogodos: localizam-se na península Itá-
lica. Os ostrogodos se esforçaram para salvaguardar o patri-
mônio artístico-cultural de Roma. Restauraram vários monu-
mentos, para manter viva a memória romana. Conservaram a
organização político-administrativa imperial, o Senado, os fun-
cionários públicos romanos e os militares godos.
*Reino do Vândalos: o povo vândalo atravessou a Eu-
ropa e fixou-se no norte da África. Nesse reino houve per-
seguição aos cristãos, cujo resultado foi a migração em massa
para outros reinos, provocando falta de trabalhadores, e uma
diminuição da produção.
*Reino dos Suevos: surgiu a oeste da península Ibéri-
ca e viviam da pesca e da agricultura. No final do século VI, o
reino foi absorvido pelos visigodos, que passaram a dominar
toda península.
Os Germanos *Reino dos Burgúndios: os burgúndios migraram da
A organização política dos germanos era bastante simples. Escandináva, dominaram o vale do Ródano até Avinhão,
Em época de paz eram governados por uma assembléia de onde fundaram o seu reino. Em meados do século VI, os bur-
guerreiros, formada pelos homens da tribo em idade adulta. gúndios foram dominados pelos francos.
Essa assembléia não tinha poderes legislativos e suas funções *Reino do Anglo-Saxões: surgiu em 571, quando os sa-
se restringiam à interpretação dos costumes. Também decidia xões venceram os bretões e consolidaram-se na região da Bre-
as questões de guerra e de paz ou se a tribo deveria migrar para tanha.
outro local. No processo de invasão e formação dos reinos bárbaros,
Em época de guerra, a tribo era governada por uma insti- deu-se ao mesmo tempo, a “barbarização” das populações ro-
tuição denominada comitatus. Essa reunião de guerreiros em manas e a “romanização” dos bárbaros. Na economia, a Eu-
torno de um líder militar, ao qual, todos deviam total obediên- ropa adotou as práticas econômicas germânicas, voltada para a
cia. Esse líder era eleito e tomava o título de Herzog. agricultura, ode o comércio era de pequena importância.
Os germanos viviam de uma agricultura rudimentar, da Apesar de dominadores, os bárbaros não tentaram destruir
caça e da pesca. Não tendo conhecimento das técnicas agrí- os resquícios da cultura romana; ao contrario, em vários aspec-
colas, eram seminômades, pois não sabiam reaproveitar o solo tos assimilaram-na e revigoraram-na. Isso se deu, por exemplo,
esgotado pelas plantações. A propriedade da terra era coletiva na organização política. Eles que tinham uma primitiva organi-
e quase todo trabalho era executado pelas mulheres. Os ho- zação tribal, adotaram parcialmente a instituição monárquica,
mens, quando não estavam caçando ou lutando, gastavam a além de alguns mecanismos e normas de administração roma-
maior parte de seu tempo bebendo ou dormindo na. Muitos povos bárbaros adotaram o latim com língua ofi-
A sociedade era patriarcal, o casamento monogâmico e cial. Os novos reinos converteram-se progressivamente ao ca-
o adultério severamente punido. Em algumas tribos proibia- tolicismo e aceitaram a autoridade da Igreja Católica, à cabeça
se até o casamento das viúvas. O direito era consuetudinário, da qual se encontrava o bispo de Roma.
ou seja, baseava-se nos costumes. Com a ruptura da antiga unidade romana, a Igreja Católi-
A religião era politeísta e adoravam as forças da natureza. ca tornou-se a única instituição universal européia. Essa situa-
33
Professor Max Dantas

ção lhe deu uma posição invejável durante todo o medievalis- » 778 – estabeleceu uma posse franca na Espanha.
mo europeu. » 804 – submeteu os saxões que haviam no norte do seu
reinado.
Reino Franco O êxito de suas conquistas tiveram o apoio da igreja. Em
Os francos já faziam incursões desde o século II, no terri- 800, Carlos Magno recebeu do Papa Leão III a bandeira de
tório da Gália, que era do império romano. A diferença deles Santo Sepulcro, sendo aclamado ‘’ imperador dos romanos’’.
para os outros povos bárbaros foi justamente a sólida estrutu- Seu reino foi o mais extenso da Europa Ocidental.
ra política que ajudou na expansão. Algumas dinastias se desta- Para administrar um império tão grande, Carlos Magno
caram. A primeira foi a Merovíngia. Foi nesta que começou a estabeleceu muitas normas escritas, as chamadas capitulares,
expansão do império Franco. Anexando vários territórios vizi- que funcionavam como leis.
nhos. Seu rei Clóvis(482-511), converteu-se para o cristianis- Entre os administradores estavam:
mo e promoveu uma aliança com a igreja. » Condes: responsáveis pelo cumprimento das capitula-
Isso favoreceu ambas as partes. Pois de um lado o Papa res e pela cobrança de impostos dos condados,ou seja, territó-
fortaleceu o poder do rei e por outro o Papa teve o apoio po- rios do interior;
lítico e militar contra os imperadores bizantinos. » Marqueses: cuidavam dos territórios situados na fron-
Clóvis, era neto de Meroveu ( primeiro líder dos francos) . teira do império, ou seja, das marcas.
Depois da morte de Clóvis, seus quatro filhos dividiram o rei- » Missi-dominici: inspetores do rei, que viajavam por
no, enfraquecendo-o politicamente. A reunificação só ocorreu todo o reino para fiscalizar a atividade dos administradores lo-
no reinado de Dagoberto( 629-639). Mas seus sucessores, não cais.
foram muito exemplares como governantes. Não estavam tão Preocupou-se também, em promover o desenvolvimento
preocupados com a administração do reino, levavam uma vida cultural de seu reino. Então ele , apoiado por intelectuais, abriu
desregrada, em prazeres e divertimento, por isso passaram a escolas e mosteiros, apoiou a tradução e a cópia de manuscri-
ser conhecido por reis indolentes. tos antigos e protegeu artistas. Seu governo foi marcado por
Na prática quem governava o reino era um alto funcioná- atividade intelectual nas áreas das letras, artes e educação. Isso
rio da corte, o prefeito do palácio ou mordomo do paço, este foi chamado de Renascença Carolíngia, que contribuiu para
sim, desempenhava o papel de verdadeiro rei. O mais famoso a preservação e transmissão da cultura da antiguidade clássi-
deles foi Carlos Martel (714-741), que conseguiu deter a inva- ca.
são mulçumana na Europa, vencendo-os em Poiters, em 732. Após a morte de Carlos Magno, em 814, o governo passou
Após sua morte, seus poderes políticos foram passados a seu para seu filho Luis, O piedoso, que permaneceu no poder até
filho, Pepino, o Breve. Em 751, ele destronou o rei Childerico 841. Isso mostra que o grande reino de Carlos Magno não du-
III, o último rei merovíngio e fundou a dinastia Carolíngia. rou muito, pois a partir de seus netos começaram as disputas.
Foi reconhecido rei pelo Papa, por isso lutou contra os Seus netos eram: Lotário, Carlos o calvo e Luis o Ger-
lombardos, povo que ameaçava o poder da igreja. Na vitória mânico. Depois que esgotaram o império os irmãos assinaram
cedeu o território de Ravena e reforçou o poder temporal da o Tratado de Verdum(843), dividindo o reino em três par-
igreja. Isso tudo deu origem ao Patrimônio de São Pedro, que tes. A Luis coube a França Oriental( atual Alemanha); Carlos
se tornou o estado da igreja católica. herdou a França Ocidental( atual França); Lotário ficou com
o território do centro da atual Itália até o Mar do Norte, que
Império de Carlos Magno se chamou Lotaríngia.
O império carolíngio não tinha sede fixa. Ela se locali- Essa divisão do poder real e do território foi acompanha-
zava onde o rei e sua corte se encontravam. Embora a cidade da de uma crescente autonomia e independência dos Condes.
onde o rei passava mais tempo era Aquisgrã, no palácio das A parte que ficou com Luis deu origem a um novo império,
fontes de águas quentes. o Germânico. Até o século X, os grandes senhores feudais
Em 768, Carlos Magno, assumiu o trono e governou até daquela região eram fiéis aos descendentes de Carlos Magno.
814. Realizou muitas conquistas, expandindo as fronteiras do Após o fim da dinastia Carolíngia, a Germânia passou a ser
império. Com isso garantiu a dependência entre poder central controlada por cinco famílias, onde o poder das terras fica-
e nobreza, Porque parte das terras conquistadas eram doadas vam divididas em cinco ducados: Saxônia, Lorena, Francô-
à aristocracia que por sua vez tinha um compromisso de leal- nia, Baviera e Suábia. Entre estes reis não havia sucessão di-
dade para o rei-suserano. nástica.
As vitórias de Carlos Magno expandiram não só seu terri- Os reis germânicos continuaram na tradição Carolíngia e
tório, mas também, a fé católica sobre as outras religiões. aliaram-se ao Papa, levando o nome do império para Sacro
Suas maiores conquistas foram em: Império Romano- Germânico. Este império durou até o iní-
» 773 - derrotou os lombardos anexando em seu território cio do século XIX, quando foi destruído pelas guerras napo-
o norte da Itália. leônicas.
34
História Geral

Império Romano do Oriente ou com a pobreza e mesmo com a miséria, o ouro e os trapos cir-
Império Bizantino culando por perto um do outro.
Enquanto o Império Romano do Ocidente, com capital
em Roma, é extinto em 476, o domínio bizantino estende-se
por vários séculos, abrangendo a península Balcânica, a Ásia
Menor, a Síria, a Palestina, o norte da Mesopotâmia e o nor-
deste da África.
O apogeu do Império Bizantino ocorre no governo de
Justiniano (483-565) que, a partir de 527, estabelece a paz
com os persas e concentra suas forças na reconquista dos ter-
ritórios dos bárbaros no Ocidente. Justiniano constrói forta-
lezas e castelos para firmar as fronteiras e também obras mo-
numentais, como a Catedral de Santa Sofia. Ocupa o norte
da África, derrota os vândalos e toma posse da Itália. No sul
Império Bizantino (ou Bizâncio) foi o nome que recebeu da Espanha submete os lombardos e os visigodos. Estimula a
a parte oriental do Império Romano. No século V, enquanto arte bizantina na produção de mosaicos e o desenvolvimen-
o Império Romano do Ocidente desmoronava devido às in- to da arquitetura de igrejas, que combina elementos orientais
vasões sofridas nos seus territórios, o do Oriente manteve-se e romanos.
firme graças à figura todo-poderosa do imperador. Assim o O Império Bizantino é atacado pelos turcos nos séculos
Império Bizantino tornou-se uma unidade política, cultural e XI e XII, mas estes fracassam na tentativa de tomada do Im-
religiosa que sobreviveu mil anos depois da queda do Impé- pério em virtude da desagregação feudal. Desde 1055 que os
rio Romano do Ocidente, só vindo a cair no século XV, com turcos tinham a direção política do mundo muçulmano e, com
a conquista pelos turcos otomanos. Constantinopla, a ca- a dinastia otomana, fora adotado o título de sultão para o mo-
pital, foi à cidade mais importante da Europa durante a Idade narca. Os territórios ocupados eram divididos em feudos mili-
Média. O Império Bizantino desenvolveu um poder comercial tares, administrados por governadores ou paxás.
notável e acumulou grandes riquezas. A religião cristã ocupava Por causa das guerras externas e civis e das Cruzadas, po-
uma posição fundamental na organização do Império. A influ- rém, Bizâncio continua se enfraquecendo. Em 1203 Constan-
ência da civilização bizantina encontra-se na Rússia, no mundo tinopla é tomada pela Cruzada e sofre o maior saque de relí-
islâmico e na Europa Oriental. quias e objetos de arte que a história da Idade Média registra.
O Império Bizantino é repartido entre os príncipes feudais,
Constantinopla, sede máxima originando os diversos Estados monárquicos.
do Império Bizantino Era de Justiniano
Chamavam assim a cidade de Constantino: a Maçã de Pra- (527-565)
ta. Desde 11 de maio de 330, ela fora a sede máxima do Im- Depois da divisão
pério Romano do Oriente, depois simplesmente designado de do império romano,
Império Bizantino. O imperador, que se convertera ao cristia- pelo imperador Teo-
nismo, sentindo a decadência do lado ocidental dos seus do- dósio em 395, dando
mínios, decidira escolher um outro sítio mais seguro para ser- a parte ocidental para
vir de sua capital. seu filho Honório e a
Nos onze séculos seguintes à sua refundação, ela, rebati- parte oriental para o
zada de Constantinopla - hoje Istambul -, foi uma das mais es- outro Arcádio. Com
plendorosas metrópoles da transição da Época Clássica para a essa divisão, criaram-
Medieval. Esquina do mundo de então, vanguarda da cristan- se muitas dificuldades
dade na fronteira da Ásia Menor, para ela afluiu gente de to- entre os imperadores
dos os cantos. De longe, tratava-se do maior centro financeiro, para manter um bom
mercantil e cultural de toda aquela parte do globo, a referência governo, principal-
Justiniano
viva de um império que no seu apogeu chegou a ter 34,5 mi- mente devido as cons-
lhões de habitantes. tantes invasões bárbaras. Por isso no século V, com o impera-
De certo modo, Constantinopla foi ao seu tempo uma es- dor Justiniano que o Império Bizantino se firmou e teve seu
pécie de mistura de Nova York com Jerusalém. Isto é, uma apogeu.
metrópole que conciliava perfeitamente os negócios e um in- Com Justiniano, as fronteiras de império foram ampliadas,
tenso comércio com os assuntos da fé e da religião. Onde o com expedições que foram até à Península Itálica, Ibérica e ao
luxo ostensivo da corte imperial e do patriciado local convivia norte da África. Com tantas conquistas houveram muitos gas-
35
Professor Max Dantas

tos! Logo já que os gastos aumentaram os impostos também e Roma e sob a autoridade do Papa.
isso serviu de estopim para estourar diversas revoltas, da parte
dos camponeses, que sempre ficava com a pior parte - ou o pa- Decadência do Império
gamento de impostos abusivos ou o trabalho pesado. Depois da morte de Justiniano (565), houve muitos ata-
Uma destas, foi a Revolta de Nika, em 532,mas logo foi ques que enfraqueceram a administração do Império. Bizân-
suprimida de maneira bem violenta pelo governo. Com a mor- cio foi alvo da ambição das cidades italianas. Sendo que Vene-
te de 35 mil pessoas. Mas a atuação de Justiniano foi mais ex- za a subjugou e fez dela um ponto comercial sob exploração
pressiva dentro do governo. Um exemplo, entre 533 e 565, italiana.
iniciou-se a compilação do direito romano- Corpos Júris Ci- Essa queda não foi imediata, levou algum tempo. O im-
vilis. Este era dividido em: pério perdurou até o séc. XV, quando a cidade de Constanti-
• Código: conjunto das leis romanas a partir do século II. nopla, caiu diante dos turcos- otomanos, em 1453, data que
• Digesto: comentários de juristas sobre essas leis. é usada para marcar o fim da idade média e o início da idade
• Institutas: princípios fundamentais do direito romano. moderna.
• Novelas: novas leis do período de Justiniano. As consequências da tomada de Constantinopla foram:
E tudo isso resultou no: corpo do direito civil, no qual ser- • O surgimento do grande império Turco-Otomano, que
viu de base para códigos e leis de muitas nações à frente. Re- também foi uma ameaça para o Ocidente.
sumindo: essas leis determinavam os poderes quase ilimitados • a influência da cultura clássica antiga, preservada em Cons-
do imperador e protegiam os privilégios da igreja e dos pro- tantinopla, e levada para a Itália pela migração dos sábios
prietários de terras, deixando o resto da população à margem Bizantinos.
da sociedade. • com a interrupção do comércio entre Europa e Ásia,
Na política, após a Revolta de Nika, Justiniano consolidou ocorre à aceleração da busca de um novo caminho para
seu poder monárquico absoluto por meio do cesaropapismo. o Oriente.
Cesaropapismo: ter total chefia do estado (como César) e da
igreja(como o papa). Sociedade e economia
O comércio era fonte de renda do império. Sua posição
Organização social e econômica estratégica entre Ásia e Europa serviu de impulso para esse
Os grupos sociais no império Bizantino estavam dividi- desenvolvimento comercial. O estado fiscalizava as atividades
dos da seguinte maneira: no topo da pirâmide o imperador, econômicas por supervisionar a qualidade e a quantidade das
seu parentes mais diretos, e os altos funcionários; o clero; mercadorias. Entre estes estavam: perfumes, seda, porcela-
aristocracia rural; grandes mercadores; e trabalhadores na e peças de vidro. Além das empresas dos setores de pesca,
rurais e urbanos com melhores ou piores condições de vida. metalurgia, armamento e tecelagem.
Havia escravos, mas estes não representavam mais o grosso
dos trabalhadores. O clero tinha grande poder sobre a popu- Religião
lação, mas sofria o controle do Imperador que em algumas A religião bizantina foi uma mistura de diversas culturas,
ocasiões buscava nesse grupo os recursos necessários para pa- como gregos, romanos e povos do oriente. Mas as questões
trocinar as campanhas militares. O Estado também buscou mais debatidas eram:
proteger os pequenos e médios proprietários, mas com o tem- Monofisismo: estes negavam a natureza terrestre de Jesus
po a propriedade da terra tendeu a se concentrar nas mãos de Cristo. Para eles Jesus possuía apenas a natureza divina, espi-
um grupo cada vez menor. Além do comércio e da agricultura, ritual. Esse movimento teve início no século V com auge no
o Império contava com grandes centros manufatureiros como reinado de Justiniano.
Bizâncio, Éfeso, Alexandria, Antioquia, Corinto entre ou- Iconoclastia: para estes a ordem era a destruição das ima-
tras. Já os estrangeiros que quisessem comerciar no território gens de santos, e a proibição do uso delas em templos. Com
do Império pagavam pesadas taxas alfandegárias e impostos. base na forte espiritualidade da religião cristã oriental. Teve
A solidez da economia do Império Bizantino é que permitiu a apoio no século VIII, com o imperador Leão II, que proibiu
superação de várias crises. o uso de imagens de Deus, Cristo e Santos nos templos e teve
forte apoio popular.
Grande Cisma
Essa supremacia do imperador sobre a igreja causou con- Artes
flitos entre o ele e o Papa. Em 1054, ocorreu o cisma do Nas artes os bizantinos souberam combinar perfeitamen-
oriente, dividindo a igreja Católica em duas partes: te combinar o luxo e o exotismo orientais com o equilíbrio e a
Igreja Ortodoxa- com sede em Bizâncio, e com o co- leveza da arte clássica greco-romana. A arquitetura foi uma das
mando do imperador bizantino. artes mais praticadas em bizâncio. Os bizantinos também se
Igreja Católica Apostólica Romana - com sede em destacaram na arte do mosaico uma composição artística feita
36
História Geral

de inúmeros pedaços de pedra e vidro coloridos, e recoberta


por ouro em folha. A escultura bizantina servia aos ideais reli-
giosos. Produziam-se peças de refinado valor, utilizando mate-
riais como vidro, marfim e ouro.

A Derrocada do Império Bizantino


Embora fosse efêmero o Império Latino do Oriente (1204
- 1261) , Veneza e os senhores feudais ocidentais só foram ex-
pulsos pelos bizantinos com a ajuda de Gênova.
Em consequência, o Império Bizantino restaurado pela
dinastia dos Paleólogos (1261-1453) reduziu-se a algumas
ilhas do Mar Egeu, a pequena parte da Ásia Menor e da Penín-
sula Balcânica. Além do mais, seus recursos econômicos eram
limitados, porque os genoveses desfrutavam de isenções fiscais
e liberdade de ação comercial no Império Bizantino.
A agonia do Império prolongou-se por mais dois séculos,
cada vez mais debilitado pelas lutas internas e pelos ataques
dós sérvios, que haviam formado poderoso Estado nos Bálcãs,
e dos turcos otomanos, convertidos em novos senhores do an-
tigo Califado de Bagdá.
Ao longo do século XIV, os turcos otomanos ocuparam
a Ásia Menor, os Bálcãs e reduziram o Império Bizantino uni-
camente à cidade de Constantinopla.
Quando reinava Constantino XI (1448 - 1453), o Sultão
Maomé II cercou a cidade, por terra e por mar. Utilizando-se
de poderosa artilharia abriu brechas nas muralhas defensivas
de Constantinopla e conquistou a cidade, que foi transforma-
da em capital do Império Otomano, com o nome de Istambul
(1453).

Anotações
37
Professor Max Dantas

Império Islâmico árabes, comandados por chefes políticos e religiosos denomi-


nados califas, deram sequência às conquistas iniciadas por Ma-
omé. O profeta islâmico havia conseguido controlar a maior
parte da Arábia ao tomar Meca, em 630.

Também denominado Império Muçulmano, foi iniciado


pelos árabes no séc. VII e se manteve até 1258, quando os
mongóis tomaram o califado de Bagdá. No auge, o Império
Islâmico estendeu-se do oceano Atlântico (Península Ibérica) Maomé
à fronteira da China e controlou todo o Ma r Mediterrâneo. Messiânico profeta árabe nascido em Meca, na atual Ará-
Inicialmente, os árabes não procuravam impor sua religião bia Saudita e na época, era um importante e próspero centro
aos povos conquistados, mas, a partir de 750, com a dinas- comercial e religioso, cujo nome próprio é derivado do verbo
tia Abássida, tornou-se comum a conversão em larga escala hâmada e que significa digno de louvor, fundador da religião
ao Islamismo. muçulmana e do império árabe. Pertencia ao clã dos Hashim,
O domínio árabe sobre de Banu Hashim, um dos ramos da tribo dos coraixitas (Qo-
o Mediterrâneo e as incur- reish, Quraish ou Qoraish), guardiã da Caaba, templo nacional
sões na Europa, iniciadas em do povo árabe que abrigava os ídolos de todas as tribos da pe-
711, intensificaram a deca- nínsula e os deuses da religião de todos os chefes de caravana
dência comercial e a ruraliza- que ali passavam, mais de 360 deuses.
ção européia durante a Idade Órfão muito cedo, foi criado primeiramente pelo avô pater-
Média. No Oriente, onde o no, Abd al-Mutalib, e mais tarde pelo tio, Abu Talib, coletor de im-
Império Islâmico nasceu, os postos e mercador, que o iniciou nas artes do comércio. Preocu-
árabes foram dominados pe- pado com a idéia de restabelecer a religião monoteísta de Abraão,
los turco-seljúcidas, a partir Ibrahim em ára-
do séc. XI, e pelos mongóis, be, teve na reli-
a partir do séc. XIII, até a as- gião sua área de
censão dos otomanos, a partir do séc. XIV. Esses conquista- interesse privi-
dores assumiram a religião muçulmana e deram continuidade legiado, tornan-
à expansão do Islamismo em novos impérios. do-se um polí-
Unificados sob os pilares de uma religião monoteísta, os tico talentoso,
chefe militar e
legislador. Aos
O Profeta Maomé recitando o Alcorão em Meca
25 anos, já com
a reputação de comerciante honesto e bem-sucedido, casou-
se com a rica viúva Cadidja, 15 anos mais velha do que ele. O
matrimônio durou até a morte de Cadidja (617), num castelo
pertencente a Abu Talib, que morreria dois anos após, onde o
profeta estava refugiado.
Segundo a tradição, aos 40 anos recebeu a missão de pre-
gar as revelações trazidas de Deus pelo arcanjo Gabriel. As re-
velações teriam se repetido durante toda a vida do profeta e
logo começaram a ser registradas por escrito e com elas com-
pôs o Alcorão ou Corão (Al no árabe equivale ao nosso arti-
38
História Geral
ada, os islâmicos controlaram todo o Mar Mediterrâneo.
go o). Seu monoteísmo chocava-se com as crenças tradicionais
das tribos semitas e foi obrigado a fugir para Iatribe (622), atu- Dinastia Abássida (750-1258)
al Medina ou Madinat an Nabi, isto é, Cidade do Profeta, onde Assumiu em 750, depois de ter derrubado os omíadas,
as tribos árabes viviam em permanente tensão entre si e com transferiu a capital para Bagdá, na Mesopotâmia (atual Iraque)
os judeus. Estabeleceu a paz entre as tribos árabes e com as e governou até 1258, embora tenha perdido poder a partir de
comunidades judaicas e começou uma luta contra Meca pelo 833, com a fragmentação do Império. Surgiram califados inde-
controle das rotas comerciais. pendentes no norte da África, na Península Ibérica, na Pérsia
Conquistou Meca (630) e, de volta a Medina, morreu dois e em outras regiões. Um desses califados foi governado pelos
anos depois, sem haver nomeado um sucessor, porém deixan- fatímidas, dinastia que se considerava descendente de Fátima,
do uma comunidade espiritualmente unida e politicamente or- filha de Maomé. Essa dinastia reinou no norte da África, no
ganizada em torno aos preceitos do Corão, cuja edição defini- Egito, na Síria e na Palestina, entre 969 e 1171. Sua capital era
tiva seria publicada alguns anos após (650). A nova religião foi o Cairo, no Egito . Em 1258, Bagdá foi tomada pelos mongóis,
chamada islamismo ou Islã, que significa submissão à von- selando o fim da dinastia Abássida.
tade divina, e seus adeptos, muçulmanos, os que se submete-
ram. Conquistas Turcas
Os árabes dominaram a expansão islâmica inicial e cria-
Dinastia Omíada. (661-750) ram o Império Muçulmano. Um grupo estrangeiro, os turcos,
Os primeiros califas, que governaram de 632 a 661, inves- invadiu as terras islâmicas e construiu seu império sobre os
tiram contra os territórios vizinhos, então em poder dos persas destroços da dinastia abássida. Os turco-seljúcidas ocuparam
e dos bizantinos, e ocuparam a Mesopotâmia, a Palestina, a o mundo muçulmano a partir do séc. XI, converteram-se ao
Pérsia, a Síria e o Egito. Apesar das conquistas territoriais, o Islamismo e governaram como sultões. Foi durante o domínio
Império era marcado por guerras entre os clãs, o que culminou seljúcida que os cristãos empreenderam as Cruzadas contra os
no assassinato dos três últimos califas e abriu caminho para o islâmicos.
estabelecimento de dinastias. Em 1258, os mongóis acabaram definitivamente com o
Sob essa dinastia, os islâmicos árabes invadiram a Ásia califado de Bagdá e alteraram a ordem política e social dos pa-
íses muçulmanos orientais. Somente a Anatólia permaneceu
sob autoridade turca. Ali, entre o séc. XIII e início do séc. XIV,
ocorreu a ascensão de uma poderosa dinastia – a dos otoma-
nos.
A partir do séc. XIII, o avanço dos turco-otomanos pos-
sibilitou a conquista e a reunificação de grande parte do mun-
do islâmico. No séc. XV, os turco-otomanos tomaram Cons-
tantinopla (1453), pondo fim ao Império Bizantino. O poderio
otomano expandiu-se rapidamente na Ásia, na Europa, espe-
Meca em dia de peregrinação
cialmente na região dos Bálcãs, e no Egito. Os sultões turcos
Central, chegaram à Índia e até as fronteiras da China. assumiram o título de califas. Lutaram com sucesso contra a
Também lutaram contra os bizantinos na Ásia Menor, captu- Europa cristã até serem detidos em Viena, em 1683. O Impé-
raram as ilhas de Chipre, de Rodes e da Sicília e completaram rio Otomano chegou ao fim definitivamente após a Primeira
a conquista do norte da África. Guerra Mundial.
Em 711, os omíadas invadiram a Espanha, chegando até
o sul da França, onde foram rechaçados em 732 na Batalha Colonialismo
de Poitiers. Muitos historiadores encaram essa batalha como Em 1700, havia três grandes impérios islâmicos: o Impé-
uma das mais importantes da história, uma vez que foi deter- rio Mogol, na Índia, o Safávida, na Pérsia, e o Otomano, na
minante para que o Cristianismo, e não o Islamismo, se tor- Turquia. Os impérios Mogol e Safávida caíram sob a influên-
nasse a religião dominante na Europa – o que teve implicações cia das potências européias, como a Grã-Bretanha e a Rússia, e
sociopolíticas, econômicas e culturais fundamentais para a so- desapareceram aos poucos. A expansão e o controle econômi-
ciedade ocidental. co europeu enfraqueceram o Império Otomano. Em 1900, as
Ao investir contra territórios, tanto no Ocidente quanto potências colonialistas já dominavam grande parte do mundo
no Oriente, os islâmicos não buscavam apenas expandir sua islâmico. A França havia se estabelecido no norte da África e
religião. Eram objetivos também importantes adquirir terras os Países Baixos tomaram a Indonésia. A Grã-Bretanha ocu-
férteis e abrir novas rotas comerciais. Durante a dinastia Omí- pou o Egito, e o Sudão estabeleceu um império na Índia e go-
vernou a Malásia. No séc. XX, a Itália apossou-se de territórios
ao norte da África. Com a Primeira Guerra Mundial, o império
39
Professor Max Dantas

se desmantelou.
Os povos islâmicos conseguiram emancipar-se das potên-
cias européias durante o séc. XX. Desde então, a referência ao
mundo islâmico é religiosa e não política, e os maiores países
islâmicos não são árabes: Indonésia, Paquistão e Bangladesh.

A Cultura Islâmica
Os islâmicos constituíram a mais brilhante civilização do
período medieval, registrando importantes avanços na física,
na matemática, na astronomia e em outras ciências. Eles cria-
ram vários observatórios, descobriram novas estrelas e ela-
boraram tabelas astronômicas precisas. Construíram imensas
bibliotecas, onde preservaram obras-primas da literatura he-
lênica, persa, hindu e chinesa. Graças a eles, o pensamento de
Platão e Aristóteles foi divulgado na Europa. Os islâmicos di-
fundiram o conhecimento de outros povos, trazendo da China
para o Ocidente invenções como o papel, a bússola, o astrolá-
bio e a pólvora – fundamentais para as navegações européias
dos séc. XV e XVI.
Os muçulmanos fundaram várias academias e universida-
des, como as de Bagdá, do Cairo e de Córdoba. Estudiosos eu-
ropeus iam às nações muçulmanas, especialmente à Espanha,
estudar Filosofia, Matemática e Medicina. O Cânone da Me-
dicina, de Avicena (980-1037), o maior médico da Idade Mé-
dia, foi adotado até o séc. XVIII. Esta obra descreve órgãos
do corpo humano e propõe tratamentos para doenças fatais,
como a meningite.
Foram os islâmicos que introduziram também os algaris-
mos indianos (ou algarismos arábicos, usados na atualidade) na
Europa e desenvolveram a trigonometria e a álgebra.

Anotações
40
História Geral

Sociedade Feudal vo não se sentia estimulado a aumentar a produção com ino-


vações tecnológicas, uma vez que tudo que produzia de exce-
A sociedade feudal era composta por três estamentos dente era tomado pelo senhor. Por isso, o desenvolvimento
(três grupos sociais com status fixo): o clero, a nobreza e os técnico foi pequeno, limitando aumentos de produtividade. A
camponeses. Apresentava pouca ascensão social e quase não principal técnica adaptada foi a de rotação trienal de culturas,
existia mobilidade social( a Igreja foi uma forma de promoção, que evitava o esgotamento do solo, mantendo a fertilidade da
de mobilidade). terra.
O clero tinha como função oficial rezar. Na prática, exer-
cia grande poder político sobre uma sociedade bastante reli- Tributos e impostos da época
giosa, onde o conceito de separação entre a religião e a política As principais obrigações dos servos consistiam em:
era desconhecido. Mantinham a ordem da sociedade evitando, Corvéia: trabalho compulsório nas terras do senhor em
por meio de persuasão e criação de justificativas religiosas, re- alguns dias da semana;
voltas e contratações camponesas. Talha: Parte da produção do servo deveria ser entregue
A nobreza (tam- ao nobre;
bém chamados de se- Banalidade: tributo cobrado pelo uso de instrumentos
nhores feudais) tinha ou bens do feudo, como o moinho, o forno, o celeiro, as pon-
como principal fun- tes;
ção guerrear, além de Capitação: imposto pago por cada membro da família
exercer considerável (por cabeça);
poder político sobre Tostão de Pedro ou dízimo: 10% da produção do servo
as demais classes. O era pago à Igreja, utilizado para a manutenção da capela local;
Rei lhes cedia terras e Censo: tributo que os vilões (pessoas livres, vila) deviam
estes lhe juravam aju- pagar, em dinheiro, para a nobreza;
da militar (relações de Taxa de Justiça: os servos e os vilões deviam pagar para
suserania e vassala- serem julgados no tribunal do nobre;
Idade Média - Feudalismo
gem). Formariage: quando o nobre resolvia se casar, todo ser-
Os servos da gleba constituíam a maior parte da popula- vo era obrigado a pagar uma taxa para ajudar no casamento,
ção camponesa, eles eram presos à terra e sofriam intensa ex- era também válida para quando um parente do nobre iria ca-
ploração, eram obrigados a prestarem serviços à nobreza e a sar;
pagar-lhes diversos tributos em troca da permissão de uso da Mão Morta: Era o pagamento de uma taxa para perma-
terra e de proteção militar. Embora geralmente se considere necer no feudo da família servil, em caso do falecimento do
que a vida dos camponeses fosse miserável, a palavra “escra- pai da família;
vo” seria imprópria. Para receberem direito à moradia nas ter- Albergagem: Obrigação do servo em hospedar o senhor
ras de seus senhores, assim como entre nobres e reis, juravam- feudal.
lhe fidelidade e trabalho. Muitas cidades européias da Idade Média tornaram-se li-
vres das relações servis e do predomínio dos nobres. Essas ci-
Economia e prosperidade dades chamavam-se burgos. Por motivos políticos, os “bur-
A produção feudal tinha por base a economia agrária, de gueses” (habitantes dos burgos) recebiam frequentemente o
escassa circulação monetária, auto-suficiente. A propriedade apoio dos reis, que muitas vezes estavam em conflito com os
feudal pertencia a uma camada privilegiada, composta pelos
senhores feudais, altos dignitários da Igreja (o clero) e longín-
quos descendentes dos chefes tribais germânicos. As estima-
tivas de renda per capita da Europa feudal a colocam em um
nível muito próximo ao mínimo de subsistência.
A principal unidade econômica de produção era o feudo,
que se dividia em três partes distintas: a propriedade individu-
al do senhor, chamada manso senhorial ou domínio, em cujo
interior se erigia um castelo fortificado; o manso servil, que
correspondia à porção de terras arrendadas aos camponeses e
era dividido em lotes denominados tenências; e ainda o man-
so comunal, constituído por terras coletivas –-- pastos e bos-
ques --- , usadas tanto pelo senhor quanto pelos servos.
Devido ao caráter expropriador do sistema feudal, o ser- Cotidiano da Idade Médai
41
Professor Max Dantas

nobres. Na língua alemã, o ditado Stadtluft macht frei (“O Anotações


ar da cidade liberta”) ilustra este fenômeno. Em Bruges, por
exemplo, conta-se que uma certa vez um servo escapou da co-
mitiva do conde de Flandres e fugiu por entre a multidão. Ao
tentar reagir e ordenar que perseguissem o fugitivo, o conde
foi vaiado pelos “burgueses” e obrigado a sair da cidade, em
defesa do servo, que se tornou livre deste modo.

Ascensão e queda do sistema


O feudalismo europeu apresenta, portanto, fases bem di-
versas entre o século IX, quando os pequenos agricultores são
impelidos a se proteger dos inimigos junto aos castelos, e o sé-
culo XIII, quando o mundo feudal conhece seu apogeu, para
declinar a seguir.
No século X, o sistema ainda está em formação e os la-
ços feudais unem apenas os proprietários rurais e os antigos
altos funcionários Carolíngios. Entre os camponeses ainda há
numerosos grupos livres, com propriedades independentes. A
hierarquia social não apresenta a rigidez que a caracterizaria
posteriormente, e a ética feudal não está plenamente estabe-
lecida.
Entretanto, a partir do ano 1000, até cerca de 1150, o Feu-
dalismo entra em ascensão. O sistema define seus elementos
básicos. A exploração camponesa torna-se intensa, concentra-
da em certas regiões super povoadas, deixando áreas exten-
sas de espaços vazios. Surgem novas técnicas de cultivo, novas
formas de utilização dos animais e das carroças. Com as ino-
vações no campo, a produção agrícola teve um aumento sig-
nificativo e surgiu a necessidade de comercialização dos pro-
dutos excedentes, então a partir do século XI, também há um
renascimento do comércio e um aumento da circulação mo-
netária, o que valoriza a importância social das cidades e suas
comunas. E, com as Cruzadas, esboça-se uma abertura para o
mundo, quebrando-se o isolamento do feudo. Com o restabe-
lecimento do comércio com o Oriente próximo e o desenvol-
vimento das grandes cidades, começam a ser minadas as bases
da organização feudal, na medida em que aumenta a demanda
de produtos agrícolas para o abastecimento da população ur-
bana. Isso eleva o preço dessas mercadorias, permitindo aos
camponeses maiores fundos para a compra de sua liberdade.
Não que os servos fossem escravos; com o excedente produ-
zido, poderiam comprar de seus senhores lotes de terras e, as-
sim, deixar de cumprir suas obrigações junto ao senhor feudal.
É claro que esta situação poderia gerar problemas já que, bem
ou mal, o servo vivia protegido dentro do feudo. A solução
encontrada, quando não se tornavam comerciantes, eram mo-
rar em burgos, dominados por outros tipos de senhores, des-
ta vez, comerciais. Ao mesmo tempo, a expansão do comércio
cria novas oportunidades de trabalho, atraindo os camponeses
para as cidades.
42
História Geral

Baixa Idade Média vento e novas maneiras de se atrelarem os animais, de modo


a permitir que eles fossem utilizados à plena força. Também a
No século X, os substituição do boi pelo cavalo, como animal de tração, trouxe
países europeus dei- vantagens, já que o cavalo é um animal mais ágil e com a mes-
xaram de ser amea- ma força do boi.
çados por invasões. Apesar disso, o pedaço de terra cultivado era muito peque-
Os últimos invasores no, o que gerava uma tendência à expansão do espaço agrícola
- normandos e esla- para além dos limites dos feudos e das aldeias. Com o mesmo
vos - já se haviam es- objetivo ocupavam-se também bosques e florestas.
tabelecido respecti- Ao mesmo tempo, essa população que aumentava tam-
vamente no Norte da bém requeria produtos de outra natureza: tecidos, instrumen-
França (Normandia) tos de trabalho, utensílios domésticos, entre outros. Alguns in-
e no centro-leste da divíduos (vilões) se especializavam na produção de artesanato
Europa (atual Hun- ou na atividade comercial, surgindo então os artesãos e merca-
gria). O continente dores que comercializavam esses produtos e os eventuais ex-
vivia agora a “paz cedentes agrícolas.
medieval”, a qual Alguns deles receberam permissão do senhor feudal para
ocasionou mudan- concentrar-se junto a castelos, mosteiros e igrejas, dando ori-
ças que provocaram gem aos chamados burgos, núcleo das futuras cidades. Por
transformações no essa razão, seus habitantes passaram a ser conhecidos como
panorama europeu. burgueses, uma nova categoria social que se dedicava ao arte-
No período que sanato e ao comércio de mercadorias.
vai do século XI ao século XV - a chamada Baixa Idade Mé- Um fato relacionado com essa evolução foi o surgimen-
dia - percebe-se uma decadência no feudalismo. O aumento to das Cruzadas, ocorridas nos séculos VI a XIII, que tiveram
populacional provocado por essa fase de estabilidade levou grande influência nesse panorama, aumentando as possibilida-
à necessidade de mais terras, nas quais os trabalhadores de- des de comércio da Europa e do Oriente.
senvolveram técnicas agrícolas que lhes facilitaram o trabalho.
Em torno dos castelos começaram a estabelecer-se indivíduos A Importância das Cruzadas
que comerciavam produtos excedentes locais e originários de Quando se denunciou na Europa que os muçulmanos
outras regiões da Europa. A moeda voltou a ser necessária, e maltratavam os peregrinos cristãos que chegavam à Terra San-
surgiram várias cidades importantes junto às rotas comerciais ta, iniciou-se o movimento cruzadista, que recebeu esse nome
e marítimas e terrestres. devido à cruz que usava em seus estandartes e vestuário os que
Ao mesmo tempo, a Igreja, fortalecida, promoveu expe- dele participavam.
dições cristianizadoras ao Oriente - as Cruzadas - tentando Convocadas primeiramente pelo papa Urbano II, em
recuperar a cidade de Jerusalém, então em poder do Império 1095, na França, as Cruzadas foram, então, expedições de cris-
Islâmico. Durante dois séculos, as Cruzadas agitaram toda a tãos europeus contra os muçulmanos ocorridas durante os sé-
Europa, pois além dos aspectos religiosos havia um impulso culos XI a XIII. A missão dos cavaleiros cristãos era libertar
comercial muito grande. a região da Palestina, que na época fazia parte do Império Is-
lâmico.
A Expansão Comercial Além dessa motivação religiosa, entretanto, outros interes-
As invasões que ocorreram do século V ao VIII e a desin- ses políticos e econômicos impulsionaram o movimento cru-
tegração do Império Romano do Ocidente levaram à for- zadista:
mação de um sistema social, político e econômico adaptado às • A Igreja procurava unir os cristãos do Ocidente e do
novas condições - o feudalismo. Da mesma forma, após o sé- Oriente, que haviam se separado em 1054, no chamado
culo X, novos fatos e circunstâncias determinaram outra gran- Crisma do Oriente, surgido a partir daí a Igreja Ortodoxa
de transformação na Europa Ocidental. Grega, liderada pelo patriarca de Constantinopla;
Embora os feudos continuassem a produzir normalmen- • Havia uma camada da nobreza que não herdava feudos
te, com os servos trabalhando a terra e pagando suas obriga- pois a herança cabia apenas ao filho mais velho. Assim, os
ções aos senhores feudais, a produção era insuficiente para ali- nobres sem terra da Europa Ocidental queriam apoderar-
mentar uma população em constante crescimento. se das terras do Oriente;
Nesse período, foram introduzidas várias conquistas téc- • Os comerciantes italianos, principalmente das cidades de
nicas que facilitaram em parte as atividades do campo, como Gênova e Veneza, desejavam dominar o comércio do Mar
o arado e outros instrumentos agrícolas de ferro, moinhos de Mediterrâneo e obter alguns produtos de luxo para co-
43
Professor Max Dantas

mercializarem na Eu- terrestre também ligava as cidades italianas à movimentada re-


ropa; gião de Flandres, mas atravessava toda a França.
• Outros grupos Nos cruzamentos dessas grandes rotas comerciais com
populacionais margi- outros menores, que uniam todos os pontos da Europa, sur-
nalizados tinham in- giram as feiras, grandes mercados abertos e periódicos, para
teresse em conquistar onde se dirigiam comerciantes de várias partes do continente.
riquezas nas cidades Protegidos pelos senhores feudais, que lhes cobravam taxas de
orientais. passagem e permanência, os comerciantes fixavam-se por dias
Oito Cruzadas e semanas em algumas regiões, oferecendo mercadorias, como
foram organizadas tecidos, vinhos, especiarias e artigos de luxo orientais. As feiras
Cruzadas
entre 1095 e 1270, mais famosas foram as da região de Champagne, na França.
que apesar de obterem algumas vitórias sobre os muçulmanos, O desenvolvimento comercial surgido no século XII, fez
não conseguiram reconquistar a Terra Santa. com que o dinheiro voltasse a ser necessário. Porém, com em
Essas expedições envolveram desde pessoas simples e po- cada região cunhavam-se moedas de diferentes valores, apare-
bres do povo até a alta nobreza, reis e imperadores, tendo ha- ceram os cambistas, pesos que conheciam os valores das mo-
vido mesmo uma Cruzada formada apenas por crianças. De- edas e se incumbiam de trocá-las. Posteriormente, tornando-
zenas de milhares de pessoas uniam-se sob o comando de um se as relações mais complexas, surgiram os banqueiros, que
nobre e percorriam enormes distâncias, tendo de obter ali- guardavam o dinheiro dos comerciantes e forneciam-lhes em-
mentação e abrigo durante o percurso. A maioria antes de che- préstimos mediante a cobrança de juros. São dessa época os
gar ao destino era massacrada em combates. sistemas de cheques e as letras de câmbio, que facilitavam as
Em 1099, Jerusalém foi conquistada, mas um século de- transações comerciais feitas a distância, utilizados até hoje.
pois foi tomada novamente pelos turcos muçulmanos, não
tendo sido jamais recuperada. No entanto, os europeus conse- O Ressurgimento das Cidades
guiram reconquistar alguns pontos do litoral do Mar Mediter- Com a expansão comercial desenvolveram-se os burgos,
râneo, restabelecendo o comércio marítimo entre a Europa e que haviam aparecido em volta de castelos, mosteiros e igre-
o Oriente. O contato dos europeus com os povos orientais - jas, além de outros, surgidos nas rotas comerciais, no litoral
bizantinos e muçulmanos - fez com que eles começassem a e à margem de rios. Sua população, como já vimos, era com-
apreciar e a consumir produtos como perfumes, tecidos finos, posta basicamente de artesãos e comerciantes, que ganhavam
jóias, além das especiarias, como eram chamadas a primeira, a cada vez mais importância, em função de sua riqueza e de seu
noz-moscada, o cravo, o gengibre e o açúcar. número.
No século XII, como consequência imediata das Cruza- Os artesãos dedicavam-se à fabricação de tecidos, ins-
das, inicia-se a expansão comercial na Europa e, com ela, o trumentos de ferro, de couro, e de muitos outros materiais.
crescimento das cidades e a decadência do trabalho servil, tí- Suas oficinas, que funcionavam com as portas abertas, serviam
pico do feudalismo. igualmente para vender as mercadorias diretamente, sem in-
termediários.
As Rotas Comerciais e a Feiras Com o rápido crescimento do comércio e do artesanato
A expansão comercial, a partir da reabertura do Mar Me- nos burgos, a concorrência entre mercadores e artesãos au-
diterrâneo, beneficiou principalmente as cidades italianas de mentou bastante. Para regulamentar e proteger as diversas ati-
Gênova e Veneza. Os comerciantes dessas cidades passaram vidades surgiu às corporações. No início eram formados ape-
a monopolizar o comércio de especiarias, comprando-as em nas por mercadores autorizados e exercer seu trabalho em cada
portos orientais de Constantinopla, Alexandria e Trípoli, para, cidade. Posteriormente, com a especialização dos diversos ar-
através do Mediterrâneo, revendê-las no mercado europeu. tesãos, apareceram as corporações de ofício, que tiveram gran-
Mas no norte da Europa, junto as Mar do Norte e ao Mar de importância durante a Baixa Idade Média: corporações de
Báltico, também se formaram regiões de intenso comércio, padeiros, de tecelões, de pedreiros, de marceneiros etc.
servidas em parte delas cidades italianas, que as atingiam tanto Cada umas dessas corporações reunia os membros de uma
pro mar como por terra. Era a região de Flandres, produtora atividade, regulando-lhes a quantidade e a qualidade dos pro-
de tecidos, onde se destacava a cidade de Bruges, e a região do dutos, o regime de trabalho e o preço final. Procuravam assim
Mar Báltico, que tinha como importantes centro Hamburgo, eliminar a concorrência desleal, assegurar trabalho para todas
Dantzig e Lubeck, que ofereciam mel, peles, madeira e peixes as oficinas de uma mesma cidade e impedir que produtos simi-
vindos de regiões próximas. lares de outras regiões entrassem nos mercados locais. Dessa
Para contatar esses pontos, estabeleceram-se diferentes maneira, as corporações de ofício determinavam também as
rotas comerciais. A rota marítima ligava as cidades italianas a relações de trabalho. Em cada oficina havia apenas três cate-
importantes centros comerciais do norte da Europa. Já a rota gorias de artesãos:
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História Geral

• Mestres, que comandavam a produção, sendo donos de A arte medieval também


oficina, dos instrumentos de trabalho e da matéria-prima; era fortemente marcada pela
• Oficiais ou companheiros, que eram trabalhadores espe- religiosidade da época. As pin-
cializados a serviço dos mestres, recebendo em troca um turas retratavam passagens da
salário. Tornavam-se mestres após realizar uma obra que Bíblia e ensinamentos religio-
provasse sua capacidade e habilidade no ofício; sos. As pinturas medievais e os
• Aprendizes, jovens que aprendiam o ofício trabalhando, vitrais das igrejas eram formas
durante anos, e recebendo do mestre apenas casa e comida de ensinar à população um Monge Escriba

até poderem tornar-se companheiros. pouco mais sobre a religião.


Os comerciantes também procuravam organizar-se em Podemos dizer que, no geral, a cultura medieval foi forte-
corporações para manter o mercado de diferentes cidades se mente influenciada pela religião. Na arquitetura destacou-se a
associavam, formando uma liga. A mais famosa foi a Liga construção de castelos, igrejas e catedrais.
Hanseática, que reunia 80 cidades alemãs e que controlava
comercialmente o norte da Europa. Trovadorismo
Com o amplo desenvolvimento mercantil e artesanal e o O marco inicial do Trovadorismo é a “Cantiga da Ribei-
consequente aumento de importância da classe dos burgueses, rinha” (conhecida também como “Cantiga da Garvaia”), es-
a antiga organização feudal, composta por nobres improduti- crita por Paio Soares de Taveirós no ano de 1189. Esta fase da
vos e servos presos à terra, já não era mais adequada. literatura portuguesa vai até o ano de 1418, quando começa o
Os senhores feudais passaram a ganhar com o comércio, Quinhentismo.
pois cobravam dos comerciantes taxas de passagem e de esta- Na lírica medieval, os trovadores eram os artistas de ori-
belecimento em seus feudos. A mão-de-obra servil declina- gem nobre, que compunham e cantavam, com o acompanha-
va, pois, além de um grande número de trabalhadores agríco- mento de instrumentos musicais, as cantigas (poesias canta-
las terem sido desviados para as Cruzadas (século XI e XII), das). Estas cantigas eram manuscritas e reunidas em livros,
muitos servos fugiram para dedicar-se às atividades urbanas. conhecidos como Cancioneiros. Temos conhecimento de ape-
Interessados no aumento da produção e em maiores lucros, os nas três Cancioneiros. São eles: “Cancioneiro da Bibliote-
senhores feudais liberaram os servos do trabalho obrigatório. ca”, “Cancioneiro da Ajuda” e “Cancioneiro da Vatica-
Alguns senhores passam a permitir que os servos vendessem na”.
seus produtos nas feiras e nas cidades, desde que lhes paguem Os trovadores de maior destaque na lírica galego-portu-
uma quantia em dinheiro. Outros ainda começaram a se utili- guesa são: Dom Duarte, Dom Dinis, Paio Soares de Taveirós,
zar de lavradores assalariados, pagos por jornada, chamamos João Garcia de Guilhade, Aires Nunes e Meendinho.
jornaleiros. No trovadorismo galego-português, as cantigas são dividi-
Pouco a pouco, o poder dos senhores feudais diminuiu, das em: Satíricas (Cantigas de Maldizer e Cantigas de Escár-
assim como a submissão das cidades às suas leis e impostos. nio) e Líricas (Cantigas de Amor e Cantigas de Amigo).
Alguns dos mais importantes comerciantes e mestres-artesãos Cantigas de Maldizer: através delas, os trovadores fa-
passaram a organizar-se num conselho, conhecido como co- ziam sátiras diretas, chegando muitas vezes a agressões ver-
muna. Eram eles que administravam as cidades, cobrando ta- bais. Em algumas situações eram utilizados palavrões. O nome
xas e impostos de seus moradores. Foram essas comunas bur- da pessoa satirizada podia aparecer explicitamente na cantiga
guesas que, a partir do século XII, passaram a organizar a luta ou não.
pela autonomia das cidades. Ela foi sendo conquistada aos Cantigas de Escárnio: nestas cantigas o nome da pessoa
poucos, ou de forma violenta, quando se armava e derrotava satirizada não aparecia. As sátiras eram feitas de forma indire-
o senhor feudal da região, ou de forma pacifica, ao comprar a ta, utilizando-se de duplos sentidos.
independência da cidade, recebendo a carta de franquia do se- Cantigas de Amor: neste tipo de cantiga o trovador des-
nhor feudal, que dava ampla autonomia aos núcleos urbanos. taca todas as qualidades da mulher amada, colocando-se numa
A vitória desses movimentos comunais refletia a impor- posição inferior (de vassalo) a ela. O tema mais comum é o
tância cada vez maior da burguesia, fato que iria afetar direta- amor não correspondido. As cantigas de amor reproduzem o
mente os acontecimentos dos séculos seguintes. sistema hierárquico na época do feudalismo, pois o trovador
passa a ser o vassalo da amada (suserana) e espera receber um
Educação, cultura e arte medieval benefício em troca de seus “serviços” (as trovas, o amor dis-
A educação era para poucos, pois só os filhos dos nobres pensado, sofrimento pelo amor não correspondido).
estudavam. Esta era marcada pela influência da Igreja, ensi- Cantigas de Amigo: enquanto nas Cantigas de Amor o
nando o latim, doutrinas religiosas e táticas de guerras. Grande eu-lírico é um homem, nas de Amigo é uma mulher (embora
parte da população medieval era analfabeta e não tinha aces- os escritores fossem homens). A palavra amigo nestas cantigas
so aos livros. tem o significado de namorado. O tema principal é a lamenta-
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Professor Max Dantas
ção da mulher pela falta do amado.
tra os hábitos peca-
As Sujas e Apertadas Cidades Medievais minosos da socie-
Na baixa Idade Média, houve a rápida multiplicação do nú- dade.
mero de cidades, nas quais se exerciam atividades comerciais, Conforme al-
manufatureiras e também artísticas. As cidades eram guarneci- guns pesquisadores,
das por muralhas que serviam para protegê-la das invasões de a peste negra é ori-
nobres e bandidos. Seus habitantes haviam conseguido desvin- ginária das estepes
cular-se parcialmente do controle dos senhores feudais, adqui- da Mongólia, onde
rindo certos direitos e liberdades que atraíam grande número pulgas hospedeiras
de camponeses. Essa imigração aumentou em demasia a popu- da bactéria Yersinia
lação das cidades, tornando necessária a destruição posterior pestis infectaram di-
reconstrução das muralhas, a fim de ampliar o espaço urbano. versos redores que
Esse procedimento, no entanto, só era acessível aos grandes entraram em conta-
centros; nas demais cidades, construíram casas e jardins até to com zonas de ha-
mesmo no alto das largas muralhas. bitação humana. Na
Assim, dentro dos limites cercados das cidades, os ter- Ásia, os animais de
renos eram caríssimos e procurava-se aproveitar cada centí- transporte e as pe-
metro. As construções, em geral de madeira, eram colocadas ças de roupa dos co-
umas às outras, e os andares superiores eram projetados sobre merciantes serviam de abrigo para as pulgas infectadas. Nos
as ruas, que já eram estreitas, tornando-as ainda mais sombrias. veículos marítimos, os ratos eram os principais disseminadores
O perigo de incêndio era constante. dessa poderosa doença. O intercâmbio comercial entre o Oci-
Esse incontrolável crescimento demográfico dificultava a dente e o Oriente, reavivado a partir do século XII, explica a
observância de padrões de higiene e de conforto. As condi- chegada da doença na Europa.
ções sanitárias eram péssimas: o lixo era despejado nas ruas O contato humano com a doença desenvolve-se princi-
e sua coleta ficava a cargo das eventuais chuvas; até que isso palmente pela mordida de ratos e pulgas, ou pela transmissão
ocorresse, formavam-se montes de detrito, resolvidos por cães aérea. Em sua variação bubônica, a bactéria cai na corrente
e porcos. A água dos rios e poços que abasteciam a cidade era sanguínea, ataca o sistema linfático provocando a morte de di-
frequentemente contaminada, ocasionando constantes surtos versas células, e cria dolorosos inchaços entre as axilas e a viri-
de tifo. lha. Com o passar do tempo, esses inchaços, conhecidos como
Em todo o século XIV e até meados do século XV, a Eu- bubões, se espalham por todo corpo. Quando ataca o sistema
ropa enfrentou uma série de circunstâncias que afetaram pro- circulatório, o infectado tem uma expectativa de vida de apro-
fundamente a vida de sua população. Mudanças climáticas ximadamente uma semana.
trouxeram vários anos seguidos de muita chuva e frio, o que Além de atacar o sistema linfático, essa doença também
causou o extermínio de animais e plantações, levando a um pode atingir o homem pelas vias aéreas atacando diretamente
longo período de fome; a peste negra, originária do Mar Ne- o sistema respiratório. Essa segunda versão da doença, conhe-
gro e transmitida por ratos, dizimou milhões de europeus já cida como peste pneumônica, tem um efeito ainda mais de-
enfraquecidos pela fome. vastador e encurta a vida do doente em um ou dois dias. Em
Além disso, a violência gerada pela Guerra do Cem Anos outros casos, a peste negra também pode atingir o sistema san-
fez eclodirem revoltas populares que ceifaram outras tantas guíneo. Desprovida de todo esse conhecimento científico so-
vidas. bre a doença, a Europa medieval explicava e tratava da doença
As precárias condições urbanas agravaram ainda mais os de formas diversas.
problemas gerados por essas crises, pois só a peste negra, pro- Desconhecendo as origens biológicas da doença, muitos
piciada pelas más condições de higiene, fez a Europa perder culpavam os grupos sociais marginalizados da Baixa Idade
mais da metade da sua população. Média por terem trazido a doença à Europa. Alguns registros
da época acusavam os judeus, os leprosos e os estrangeiros de
Peste Negra terem disseminado os horrores causados pela peste negra. No
A peste negra ficou conhecida na história como uma doen- entanto, as condições de vida e higiene nos ambientes urbanos
ça responsável por uma das mais trágicas epidemias que asso- do século XIV são apontadas como as principais propulsoras
laram o mundo Ocidental. Chegando pela Península Itálica, da epidemia.
em 1348, essa doença afligiu tanto o corpo, quanto o imaginá- Na época, as cidades medievais agrupavam desordeira-
rio de populações inteiras que sentiam a mudança dos tempos mente uma grande quantidade de pessoas. O lixo e o esgo-
por meio de uma manifestação física. Assim como a Aids, a to corriam a céu aberto, atraindo insetos e roedores portado-
peste negra foi considerada por muitos um castigo divino con- res da peste. Os hábitos de higiene pessoal ofereciam grande
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História Geral

risco, pois os banhos não faziam parte da rotina das pesso- nos, originando um conflito acentuado caráter feudal.
as. Além disso, os aglomerados urbanos contribuíram enor- Para compreendermos as origens dessa antiga rivalidade
memente para a rápida proliferação da peste. Ao chegar a uma franco-inglesa, é preciso resgatar o Tratado de Paris (1259).
cidade, a doença se instalava durante um período entre quatro Através desse documento, Henrique III da Inglaterra se com-
e cinco meses. prometia, junto a Luís IX da França, a abandonar suas preten-
Depois de ceifar diversas vidas, esses centros urbanos fica- sões territoriais sobre a Normandia, Maine, Anjou, Touraine e
vam abandonados. Os que sobreviviam à doença tinham que, Poitou, mas conservava a Gasconha (feudo concedido pelos
posteriormente, enfrentar a falta de alimentos e a crise sócio- franceses à Coroa inglesa).
econômica instalada no local. Por isso, muitas cidades tenta- No entanto, boa parte do Ducado de Gasconha estava nas
vam se precaver da epidemia criando locais de quarentena para mãos de senhores insubmissos que ignoravam o poder do Rei
os infectados, impedindo a chegada de transeuntes e dificul- inglês. Era comum os vassalos gascões apelarem ao Rei fran-
tando o acesso aos perímetros urbanos. Sem muitas opções de cês contra as decisões impostas pelas autoridades inglesas na
tratamento, os doentes se apegavam às orações e rituais que os região, originando-se aí constantes conflitos entre França e In-
salvassem da peste negra. glaterra.
A intensidade com que a epidemia afetou os centros ur- Mas, o ponto principal de discórdia e rivalidade entre os
banos europeus era bastante variada. Em casos mais extremos, reinos inglês e francês concentrava-se na disputa territorial
cerca de metade de uma população inteira não resistia aos efei- pela região de Flandres. Essa região era economicamente im-
tos devastadores da epidemia. Estudiosos calculam que cerca portante e atraía interesses de ambos, em virtude do seu prós-
de um terço de toda população européia teria sucumbido ao pero comércio e indústria têxtil. Os flamengos eram grandes
terror da peste. Ao mesmo tempo em que a peste negra era consumidores de lãs inglesas, por isso Flandres e Inglaterra
compreendida como um sinal de desgraça, indicava o colapso estabeleceram uma aliança comercial, não aceita pelos france-
de alguns valores e práticas do mundo feudal. ses, também interessados na região. Em suma, Flandres estava
vinculado economicamente à Inglaterra, mas, politicamente,
A peste espalha a morte pela Europa pertencia ao Reino da França, que não admitia a interferência
Nos porões dos navios de comércio, que vinham do inglesa na região.
Oriente, entre os anos de 1346 e 1352, chegavam milhares de Movidos, portanto por ambições territoriais e questões
ratos. Estes roedores encontraram nas cidades européias um dinásticas (problemas de sucessão imperial), os exércitos da
ambiente favorável, pois estas possuíam condições precárias França e Inglaterra provocaram um conflito feudal que se es-
de higiene. O esgoto corria a céu aberto e o lixo acumulava-se tendeu por mais de um século. No entanto, vale lembrar que,
nas ruas. Rapidamente a população de ratos aumentou signi- na prática, houve períodos de paz e de paralisação (inatividade)
ficativamente. dos combates franco-ingleses durante a guerra.
Estes ratos estavam contaminados com a bactéria Pasteu-
rella Pestis. E as pulgas destes roedores transmitiam a bactéria A Crise do Feudalismo
aos homens através da picada. Os ratos também morriam da O crescimento demográfico, observado na Europa a par-
doença e, quando isto acontecia, as pulgas passavam rapida- tir do século X, modificou o modelo auto-suficiente dos feu-
mente para os humanos para obterem seu alimento, o sangue. dos. Entre os séculos XI e XIII a população européia mais
Relatos da época mostram que a doença foi tão grave e fez que dobrou. O aumento das populações impulsionou o cresci-
tantas vítimas que faltavam caixões e espaços nos cemitérios mento das lavouras e a dinamização das atividades comerciais.
para enterrar os mortos. Os mais pobres eram enterrados em No entanto, essas transformações não foram suficientes para
valas comuns, apenas enrolados em panos. suprir a demanda alimentar daquela época. Nesse período, vá-
O preconceito com a doença era tão grande que os doen- rias áreas florestais foram utilizadas para o aumento das regi-
tes eram, muitas vezes, abandonados, pela própria família, nas ões cultiváveis.
florestas ou em locais afastados. A doença foi sendo controla- A discrepância entre a capacidade produtiva e a demanda
da no final do século XIV, com a adoção de medidas higiênicas de consumo retraiu as atividades comerciais e a dieta alimen-
nas cidades medievais. tar das populações se empobreceu bastante. Em condições tão
adversas, o risco de epidemias se transformou em um grave
Guerra dos Cem Anos fator de risco.
Agravando ainda mais o complexo quadro de crise feu- A falta de mão-de-obra disponível reforçou a rigidez an-
dal, temos o conflito entre a França e Inglaterra, conhecido teriormente observada nas relações entre senhores e servos.
como a Guerra dos Cem Anos. Durante um longo período, Temendo perder os seus servos, os senhores feudais criavam
que se estendeu por 116 anos (1337-1453), ingleses e franceses novas obrigações que reforçassem o vínculo dos camponeses
disputaram entre si, principalmente, a propriedade de regiões com a terra. Além disso, o pagamento das obrigações sofreu
economicamente importantes que interessavam aos dois rei- uma notória mudança com a reintrodução de moedas na eco-
47
Professor Max Dantas

nomia da época. Os senhores feudais preferiam receber parte


das obrigações com moedas que, posteriormente viessem a ser
utilizadas na aquisição de mercadorias e outros gêneros agríco-
las comercializados em feiras.
Os camponeses, nessa época, responderam ao aumento de
suas obrigações com uma onda de violentos protestos aconte-
cidos ao longo do século XIV. As chamadas jacqueries foram
umas séries de revoltas camponesas que se desenvolveram em
diferentes pontos da Europa. Entre 1323 e 1328, os campone-
ses da região de Flandres organizaram uma grande revolta; no
ano de 1358 uma nova revolta explodia na França; e, em 1381,
na Inglaterra.
Passadas as instabilidades do século XIV, o contingente
populacional cresceu juntamente com a produção agrícola e as
atividades comerciais. Em contrapartida, a melhoria dos índi-
ces sociais e econômicos seguiu-se de novos problemas a se-
rem superados pelas sociedades européias. A produção agrí-
cola dos feudos não conseguia abastecer os centros urbanos e
os centros comerciais não conseguiam escoar as mercadorias
confeccionadas.
Ao mesmo tempo, o comércio vivia grandes entraves com
o monopólio exercido pelos árabes e pelas cidades italianas.
As rotas comerciais e feiras por eles controladas inseriam um
grande número de intermediários, encarecendo o valor das
mercadorias vindas do Oriente. Como se não bastassem os al-
tos preços, a falta de moedas impedia a dinamização das ativi-
dades comerciais do período. Nesse contexto, somente a busca
de novos mercados de produção e consumo poderiam ame-
nizar tamanhas dificuldades. Foi assim que, nos séculos XV e
XVI, a expansão marítimo-comercial se desenvolveu.

Anotações
U
m mundo em transformação. Essa poderia ser
uma das mais gerais perspectivas que poderí-
amos ter do período que compreende os anos
entre 1453 e 1789. O reaquecimento das atividades comerciais
e o Renascimento marcam o período em que o individualismo e
o enfrentamento do mundo tornam-se práticas vigentes do pen-
samento moderno. A hegemonia do cristianismo católico foi aba-
lada com os movimentos reformistas e a economia deixou de ser
uma prática envolvendo curtas distâncias. As Grandes Navega-
ções e o “descobrimento” da América são um dos mais ricos as-
suntos desta seção.

Idade Moderna
49
Professor Max Dantas

Renascimento Características do Renascimento


O Renascimento ocorreu em maior ou menor grau nas vá-
No período que se configura como a transição do Feuda- rias regiões da Europa. Começou na Itália, como vimos, e se
lismo para o Capitalismo, as artes, o pensamento e o conhe- expandiu para França, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Portu-
cimento científico passaram por um processo de muitas mu- gal e Holanda. Apesar das diversidades regionais, observamos
danças, que foi denominado Renascimento Cultural. O termo características comuns e fundamentais do Renascimento, que
Renascimento deve ser entendido como a retomada (renas- vamos estudar agora.
cer) do estudo de textos da cultura clássica greco-latina. • A retomada da cultura clássica: Denominamos cultu-
Durante a Idade Média, a alegria, o prazer, o riso eram ra clássica o conjunto de obras literárias, filosóficas, históricas
associados às forças inferiores, tanto do ser humano corno e de artes plásticas produzidas pelos gregos e pelos romanos
do mundo sobrenatural. Questionamentos de ordem intelec- na Idade Antiga. Os pensadores do Renascimento queriam,
tual ou tentativas de desvendar o funcionamento da natureza acima de tudo, conhecer, estudar, aprender, e os textos da cul-
eram encarados como heresia. O Renascimento representou tura clássica foram vistos como portadores de reflexões e co-
a redescoberta do conhecimento e do estudo fora do âm- nhecimentos a serem redescobertos. O pensamento criado
bito daquelas matérias permitidas pela Igreja. Os renascentis- pelo Renascimento originou-se da reflexão sobre os textos da
tas preocupavam-se principalmente com as questões ligadas à Antiguidade combinada com os valores culturais herdados da
vida humana. Por isso o movimento é identificado com o Hu- Idade Média.
manismo. • “O homem é a medida de todas as coisas.”: Talvez
A aproximação do Renascimento com a burguesia foi cla- a mais marcante de todas as características do Renascimento
ramente percebida no interior das grandes cidades comerciais tenha sido a valorização do ser humano. O Humanismo ou
italianas do período. Gênova, Veneza, Milão, Florença e Antropocentrismo, como é chamado com frequência, colo-
Roma eram grandes centros de comércio onde a intensa cir- cou a pessoa humana no centro das reflexões. Não se tratava
culação de riquezas e idéias promoveram a ascensão de uma de opor o homem a Deus e medir suas forças. Deus continuou
notória classe artística italiana. Até mesmo algumas famílias sendo soberano diante do ser humano. Tratava-se na verdade
comerciantes da época, como os Médici e os Sforza, reali- de valorizar as pessoas em si, encontrar nelas as qualidades e
zaram o mecenato, ou seja, o patrocínio às obras e estudos as virtudes negadas pelo pensamento católico medieval. Nesse
renascentistas. A profissionalização desses renascentistas foi sentido, o “homem tornou-se a medida de todas as coisas”, ou
responsável por um conjunto extenso de obras que acabou di- seja, aquilo que servia ao ser humano passou a ser visto como
vidindo o movimento em três períodos: o Trecento, o Qua- bom, o que não servia, como não bom. Essa idéia de que o ho-
trocento e Cinquecento. Cada período abrangia respectiva- mem é a medi­da de tudo foi criada pelos gregos e, como tudo
mente uma parte do período que vai do século XIV ao XVI. o que é oriundo daquela cultura, aplicava-se à elite. Na Europa
Durante o Trecento, podemos destacar o legado literário renascentista, a situação era a mesma. Parafraseando os gre-
de Petrarca (“De África” e “Odes a Laura”) e Dante Alighie- gos, podemos dizer que “o homem da elite é a medida de
ri (“Divina Comédia”), bem como as pinturas de Giotto di todas as coisas”.
Bondoni (“O beijo de Judas”, “Juízo Final”, “A lamentação” • O ideal de universalidade: Os renascentistas acredita-
e “Lamento ante Cristo Morto”). Já no Quatrocento, com re- vam que uma pessoa poderia vir a aprender e saber tudo o que
presentantes dentro e fora da Itália, o Renascimento contou se conhece. Seu ideal de ser humano era, portanto, aquele que
com a obra artística do italiano Leonardo da Vinci (Mona conhecia todas as artes e todas as ciências. Leonardo da Vinci,
Lisa) e as críticas ácidas do escritor holandês Erasmo de Ro- que foi considerado o modelo de homem renascentista, domi-
terdã (Elogio à Loucura). nava várias ciências e artes plásticas. Ele conhecia Astronomia,
Na fase final do Renascimento, o Cinquecento, movi- Mecânica, Anatomia, fazia os mais variados experimentos,
mento ganhou grandes proporções dominando várias regiões projetou inúmeras máquinas e deixou um grande número de
do continente europeu. Em Portugal podemos destacar a lite- obras-primas pintadas e esculpidas. Da Vinci foi a pessoa que
ratura de Gil Vicente (Auto da Barca do Inferno) e Luís de mais conseguiu se aproximar do ideal de universalidade. “
Camões (Os Lusíadas). Na Alemanha, os quadros de Alber-
cht Durer (“Adão e Eva” e “Melancolia”) e Hans Holbein Humanismo
(“Cristo morto” e “A virgem do burgomestre Meyer”). A lite- A princípio, o Humanismo foi identificado com a valori-
ratura francesa teve como seu grande representante François zação de disciplinas relacionadas à vida humana, como Mate-
Rabelais (“Gargântua e Pantagruel”). No campo científico mática, Línguas, História e Filosofia laica. Eram os estudos de
devemos destacar o rebuliço da teoria heliocêntrica defendi- humanidades. No primeiro momento, o Humanismo preocu-
da pelos estudiosos Nicolau Copérnico, Galileu Galilei e pou-se em buscar nas pessoas suas belezas, seus aspectos posi-
Giordano Bruno. Tal concepção abalou o monopólio dos sa- tivos, em contrapartida ao pensamento medieval, que entendia
beres desde então controlados pela Igreja. os seres humanos como frutos do pecado”.
50
História Geral

É importante entender que o processo de valorização da pré-requisito também inacessível à população pobre. Possivel-
humanidade não significou uma ruptura com a religião, as pes- mente, uma grande parcela da população que foi contempo-
soas não se tornaram descrentes. O Humanismo renascentista rânea dos renascentistas jamais tenha tocado na capa de um
não rompeu com a idéia criacionista, ou seja, manteve a idéia livro.
de que Deus criou a Terra e as pessoas, mas mudou a relação
entre esses elementos. O mundo não era mais pensado corno O Renascimento Científico
um lugar de sofrimento e sim um lugar de delícias, onde o ser Certo distanciamento adotado pelos renascentistas em re-
humano, a mais perfeita das criações divinas, foi colocado para lação às pregações católicas que condenavam a investigação
ser feliz, para usufruir dos benefícios e das belezas de tudo o científica favoreceu, a partir do século XVI, o desenvolvimen-
que o rodeia, inclusive do próprio corpo. to de vários ramos da ciência. A principal contribuição do Re-
Posteriormente, o Humanismo passou a identificar aque- nascimento ao conhecimento científico foi o desenvolvimento
las que analisavam de forma crítica as condições sociais, bus- da observação e da experimentação. Foi a partir dessas práticas
cando uma outra maneira de viver distanciada daquele univer- que os renascentistas avançaram no conhecimento.
so mágico e sombrio da Idade Média, e mais condizente com As duas principais figuras do Renascimento Científico fo-
a nova realidade social. ram Leonardo da Vinci e Nicolau Copérnico (1473 1543).
Da Vinci inventou inúmeros mecanismos e instrumentos bé-
Um movimento urbano licos. Projetou máquinas novas e aperfeiçoou outras já conhe-
A vida nas novas aglomerações urbanas que surgiram com cidas. Dedicou-se ao estudo da analmumia humana, da Física,
o crescimento do comércio na Baixa Idade Média tinha ca- da Botânica, da Astronomia. Como já foi salientado, ele foi o
racterísticas muito diferentes do modo de vida desenvolvido modelo do renascentista, pois se dedicou a várias áreas de co-
no feudo, o que levou ao estabelecimento de novas formas de nhecimento.
pensar. Portanto, o Renascimento tem sido entendido como Copérnico contribuiu na ampliação do da Matemática, da
um movimento intelectual eminentemente urbano, expressão Mecânica e da Astronomia. Formulou em 1543, a teoria helio-
da sociedade que habitava as cidades livres. cêntrica que afirma,que a Terra gira em torno do Sol, contra-
O berço do Renascimento foram às cidades italianas que riando a doutrina católica medieval que defendia a idéia de que
viviam do comércio, como Veneza, Pisa, Gênova e, princi- a Terra é o centro do universo.
palmente, Florença. Essas cidades italianas mantiveram um Às ciências naturais progrediram graças à contribuição de
contato constante com Bizâncio (Constantinopla), permitindo muitos estudiosos, como Gesner e Rondelet, que investigaram
que os sábios bizantinos, que tiveram de fugir de sua terra por a fauna; o geólogo Georg Bauer, que descobriu novas formas
causa das brigas religiosas que marcaram aquela sociedade, se de aproveitamento dos minérios; na Medicina, André Vesálio e
mudassem para a Península Itálica e fossem responsáveis, em Miguel Servet aprofundaram os estudos de Leonardo da Vin-
grande parte, pelas mudanças culturais. ci sobre anatomia humana e circulação sanguínea, enquanto
Ambroise Paré criava a técnica de usar ataduras para estancar
O mecenato a hemorragia.
Os burgueses que haviam conquistado suas riquezas com
a exploração do comércio e das atividades bancárias, os nobres Artistas e suas obras
que ainda conservavam fortuna ou os reis praticavam o mece- Giotto (1267-
nato. Tratava-se da ajuda financeira a artistas e intelectuais para 1337) Foi o primeiro
que esses pudessem desenvolver seus trabalhos sem a necessi- grande pintor renas-
dade de realizar outra tarefa que garantisse sua subsistência. O centista. Apresentava
mecenas era, em geral, um adepto da nova forma de pensar e trabalhos com moti-
um apreciador das artes, mas muitos mecenas queriam apenas vos naturais e figuras
ganhar prestígio social. humanizadas, desta-
cando-se em afrescos
Um movimento elitista como O Massacre
Esta é uma das questões fundamentais na análise do Re- dos Inocentes, São
nascimento: o seu caráter elitista. Tratou-se de um movimen- Francisco Pregan-
to intelectual e artístico cujas obras estavam ao alcance apenas Deposição de Cristo do aos Pássaros e a
de pessoas muito ricas. As pessoas que podiam se dedicar so- Deposição de Cristo.
mente a estudar grego e latim ou a aprender técnicas de pintu-
ra não trabalhavam. Ou eram muito ricas ou eram financiadas Sandro Botticceli (1444 – 1510) A arte do florentino Bot-
por alguém muito rico. ticelli é inegavelmente muito bonita. Os principais temas de
O estudo pressupunha que a pessoa fosse alfabetizada, sua obre foram as cenas religiosas e as cenas mitológicas. Suas
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Professor Max Dantas

criações mais nitas, e também figuras femininas. Sua obra mais grandiosa e
conhecidas são que expressa seu envolvimento com o pensamento renascen-
aquelas que re- tista é a Escola de Atenas. Rafael também era italiano.
tratam temas da
Mitologia, como Literatura
Nascimento de Dante Alighieri (1265-1321). O italia-
Vênus e Prima- no Dante é considerado pré-renascentista.
vera. Uma de Sua obra mais importante, A Divina Co-
O Nascimento de Vênuas suas imagens sa- média, é considerada o ponto mais alto
cras. Madona da Magnificat, é uma das mais suaves e belas atingi­do pela poesia italiana.
representações da Virgem com o Menino.
Francesco Petrarca (1304-1374) con-
Leonardo da Vinci (1452- siderado pré- renascentista, foi o primeiro
1519). Sua inspiração artística foi escritor humanista, por isso conhecido como o “pai do hu-
notável. Assim como nas ciências, manismo”. Escreveu poesia, valorizando uma temática com-
o italiano Leonardo foi versátil tam- prometida com a existência humana, o amor de um homem
bém nas artes. Era um bom es­cultor, por uma mulher, e apresentando os valores essencialmente
desenhista e pintor genial. Foi o ar- humanos da antiga civilização greco-romana. Dessas obras,
tista que introduziu na pintura o como de muitas outras, originou-se o antropocentrismo, que
contraste claro/escuro, isto é, o jogo situa o homem (do grego ánthropos) como centro das preocu-
entre as partes claras e as sombras. pações e valoriza a razão em detrimento da fé.
Suas obras mais conhecidas são as
telas A Ultima Ceia, Mona Lisa Giovanni Boccaccio (1313-1375). O florentino Boccac-
Mona Lisa (ou La Gioconda) e a Virgem dos cio era escritor e poeta pré- renascentista, e seu texto mais co-
Rochedos. nhecido é O Decameron.

Michelangelo Buonarroti (1475- Thomas Morus (1478-1535). Este chanceler inglês em


1564). Também conhecido como Mi- sua obra Utopia descreve uma ilha onde não existe proprieda-
guel Ângelo. O artista viveu a maior par- de privada, muito menos diferenças sociais.
te de sua vida em Roma e recebeu de
seus contemporâneos o título de divino. François Rabelais (1494-1553). O renascentista fran-
O que conhecemos de seus trabalhos cês tornou-se conhecido por dois textos, Gargantua e Pan-
permite perceber que o título é mereci- tagruel, onde satiriza o comportamento do clero e os dogmas
do. Suas esculturas traduzem movimen- católicos.
to e sentimento, como se o artista, ao
moldar a pedra, lhe desse alma. Como Luís de Camões (1524-1580). A obra mais conhecida
Deus Baco
pintor, Michelangelo também foi bri- do poeta português é Os Lusíadas, um poema épico que nar-
lhante. Suas obras mais conhecidas são ra o heroísmo português na gIaI1de aventura que foi a Expan-
as esculturas Pietá, Moisés e David e as muitas pinturas que são Marítima.
compõem o teto da Capela Sistina.
Miguel de Cervantes (1547 1616). O espanhol Cervan-
Rafael tes escreveu Dom Quixote. unia verdadeira obra-prima literá-
(1483-1520). ria e histórica que narra de forma sensível a impossibilidade de
Raffaello San- manter os valores medievais no mundo burguês em formação,
zio, ou sim- assim como aponta o equívoco histórico da nobreza espanhola
plesmente que. ao modelo de Quixote. tem a mente povoada de fantasias
Rafael como medievais e não desperta para a realidade dos novos tempos.
ficou conhe-
cido, era pin- William Shakespeare (1564-1616). O mais importante
tor e arquíteto. dramaturgo inglês. Seus textos mais conhecidos são Romeu e
Dedicou-se a Julieta, Hamlet, A Megera Domada, Henrique V, Otelo,
A Escola de Atenas pintar imagens Rei Lear e Macheth.
sacras, as quais A Virgem com o Menino é uma das mais bo-
52
História Geral

Pensadores do Renascimento
Erasmo de Roterdã (1466 ou 1467-1536). Nascido nos
Países Baixos, é considerado um dos principais humanistas do
Renascimento. Seu texto mais conhecido é Elogio da Loucu-
ra, no qual faz críticas contundentes aos poderes constituídos,
inclusive à Igreja Católica.

Nicolau Maquiavel (1469-1527). O italiano Maquiavel


ganhou notoriedade por ter escrito O Príncipe, que traça as
diretrizes do poder no Estado moderno.

Thomas Morus (1480-1535). De origem inglesa, esse


pensador escreveu uma notável crítica à sociedade de sua épo-
ca no livro Utopia.

O Juízo Final de Michelangelo - Teto da Capela Sistina

Anotações
53
Professor Max Dantas

Reforma Protestante éis. Já na Idade Média, a Igreja criou o Tribunal da Santa In-
quisição que percorria diversas regiões da Europa, reprimindo
A Reforma Protestante foi um movimento de caráter re- aqueles que ameaçassem seu poderio religioso e ideológico.
ligioso que marcou a passagem do mundo medieval para o Outros intelectuais, nos séculos XIV e XV, também in-
moderno. Entre um dos fatores de grande relevância que as- dicavam como os valores absolutos da Igreja já não tinham
sinalaram esse período de transformações podemos destacar a mesma força mediante as transformações históricas experi-
o novo contexto econômico do período. No ambiente das ci- mentadas:
dades, os comerciantes burgueses eram malvistos pela Igre- * O inglês John Wycliffe redigiu alguns ensaios onde de-
ja. Segundo os clérigos, a prática da usura (empréstimo de di- nunciava as ações corruptas da Igreja e defendia a salvação es-
nheiro a juro) feria o sagrado controle que Deus tinha sobre piritual por meio da fé. Em certa medida, as teorias lançadas
o tempo. por esse pensador viriam a influenciar as obras de Martinho
Lutero, no século XVI.
Antecedentes da Reforma *Jan Huss foi um padre que se preocupou em traduzir
Além dos comerciantes, a própria crise econômica feudal o texto bíblico em outras línguas e denunciou o comporta-
também instigou a população a questionar os dogmas impos- mento dos clérigos católicos. A pregação por ele empreendi-
tos pela Igreja. Os clérigos estavam muito mais próximos das da, ao longo da Boêmia, motivou a violenta reação das au-
questões materiais envolvendo o poder político e a posse de toridades do Sacro-Império Germânico que ordenaram sua
terras, do que preocupados com as mazelas sofridas pela po- morte pela fogueira. A morte de Huss deu origem a um movi-
pulação camponesa. Um dos mais claros reflexos dessa situ- mento popular conhecido como hussismo. A grande maioria
ação pôde ser notado com o relaxamento dos costumes que de seus integrantes eram camponeses pobres insatisfeitos com
incitava padres, bispos e cardeais a não cumprirem seus votos sua condição de vida.
religiosos. O movimento renascentista também deu passos impor-
A crise interna à Igreja era caracterizada pelo comporta- tantes no questionamento do papel exercido pela Igreja Cató-
mento imoral de parte do clero, situação que se desenvolvera lica. A teoria empirista de Francis Bacon; o heliocentrismo
por séculos, desde a Idade Média. A simonia era uma práti- defendido por Nicolau Copérnico; e a física newtoniana des-
ca comum, secular, caracterizada pela venda de objetos consi- centralizou o monopólio intelectual da Igreja. O conhecimen-
derados sagrados ou a venda de cargos religiosos. Os grandes to gerado por esses e outros indivíduos lançava a idéia de que
senhores feudais compravam cargos eclesiásticos como forma o homem não necessitava da chancela de uma instituição que o
de aumentar seu poder ou garantir uma fonte de renda para concedesse o direito de conhecer a Deus ou o mundo.
seus filhos, originando um processo conhecido como “investi- Dessa maneira, se formou todo um histórico de tentati-
dura leiga”, principalmente no Sacro Império. A preocupação vas e fatos que antecederam a consolidação do movimento re-
com as questões materiais -- poder e riqueza- levou principal- formista. Mesmo sofrendo diferentes ofensivas ao longo do
mente o alto clero a um maior distanciamento das preocupa- tempo, a Igreja ainda conservou um conjunto de práticas que
ções religiosas ou mesmo de caráter moral. O nicolaísmo re- complicavam a estabilidade do poder clerical. A venda de in-
trata outro aspecto do desregramento moral do clero, a partir dulgências, a negociação de cargos eclesiásticos e a vida amo-
do qual o casamento de membros do clero levava-os a uma ral ainda foram questões que incentivaram o aparecimento das
preocupação maior com os bens materiais, que seriam deixa- novas religiões protestantes.
dos em herança para os filhos e a partir daí determinavam o A venda de indulgências pode ser considerada como a
comportamento “mundano” dessa parcela do clero. gota d’água para o movimento reformador. No interior do Sa-
Já no século XII apareceram os primeiros movimentos cro Império, o pregador Johann Tetzel era o responsável pela
que questionavam as crenças e práticas do catolicismo. En- venda do perdão; para ele não era preciso o arrependimento
tre outras manifestações, podemos destacar o papel exercido
pelos cátaros, originários da região sul da França. Naquela
região as distinções culturais históricas propiciaram a ascen-
dência de uma fé cristã à parte dos ditames da Igreja Católica.
Realizando uma leitura própria do texto, os cátaros tinham va-
lores morais bastante rígidos que se contrastava com o com-
portamento dos líderes clericais.
No século posterior, vendo a grande presença do movi-
mento religioso, o papa Inocêncio III ordenou a realização de
uma cruzada que – entre 1209 e 1229 – aniquilou o movimen-
to cátaro. Além disso, as acusações de feitiçaria eram bastante
corriqueiras entre indivíduos considerados suspeitos ou infi-
54
História Geral

do comprador das indulgências para que elas fossem eficazes. logo em seguida julgado por uma reunião entre os principies
Oficialmente Tetzel estava levantando fundos para a recons- alemães realizada durante a chamada Dieta de Worms. A opo-
trução da Basílica de São Pedro, em Roma, mas ao mesmo sição dos membros religiosos contou com a resistência de boa
tempo estava a serviço do arcebispo de Mainz, endividado jun- parte dos principies alemães, que refugiaram Lutero no castelo
to ao banco de Fugger. de Wartburg. Nesse período, o monge excomungado se dedi-
Esse foi o momento em que Lutero percebe que as crí- cou à produção de nobres obras teológicas e a tradução da Bí-
ticas internas à Igreja não surtiriam efeito, aliás, críticas que blia para a língua germânica.
eram feitas antes de 1517, quando publicou as “95 teses”, tor- Já em 1527, Lutero, juntamente com Melanchton, elabo-
nando suas críticas publicas e tornando-se uma ameaça à Igre- rou a Confissão de Augsburgo, que estabelecia os princípios
ja de Roma. de sua doutrina. Por ela estabelecia-se:
• Que as Escrituras Sagradas eram o único dogma da nova
Luteranismo religião;
Martinho Lute- • a fé era vista como a única fonte da salvação;
ro era um professor • a livre interpretação da Bíblia passava a ser permitida;
de teologia pertencen- • negava-se a transubstanciação (transformação do pão e do
te à ordem agostinia- vinho no corpo e no sangue de Cristo, presente na fé ca-
na que viveu na cida- tólica) e a crença de que a presença de Cristo na Eucaris-
de de Wittenberg, na tia era espiritual; adotava-se o alemão, e não mais do latim,
região do Sacro Impé- como idioma nos cultos religiosos;
rio Germânico. Duran- • a Igreja passava a ficar submetida ao Estado;
te os seus estudos, ele • e, finalmente, permaneciam apenas dois sacramentos: o
foi fortemente influen- batismo e a eucaristia.
ciado pelas obras de A diferença de interesse por de trás da nova fé pregada
Jan Huss, São Paulo e por Lutero foi percebida quando um grande número de cam-
Santo Agostinho. Nes- poneses começou a invadir terras e destruir igrejas. Os revol-
sa trajetória de estudos teológicos, Lutero acabou formulando tosos, também conhecidos como anabatistas, começaram a
um conjunto de idéias que iam contra muitos dos princípios empreender uma revolução social que ameaçava os interesses
estabelecidos pela igreja romana. dos nobres germânicos. Martinho Lutero não deu apoio ao
No ano de 1517, insatisfeito com a situação da Igreja de movimento popular e defendeu o direito de propriedade dos
sua época, publicou na porta da catedral de Wittenberg as suas nobres e dos clérigos.
95 teses. Entre outros pontos estabelecidos por esse docu- O clima de tensão começou a ser revertido quando, em
mento, Lutero criticava a venda de indulgências e a nego- 1530, Martinho Lutero e Filipe Melanchthon estabeleceram
ciação de cargos eclesiásticos feitas pela Santa Igreja. Além os princípios da religião luterana. Nesta carta, reafirmaram o
disso, Lutero estipulava uma nova forma de relação religiosa princípio da salvação pela fé e afirmavam que a Bíblia era a
onde, entre outras coisas, afirmava-se que o indivíduo obtinha única fonte de consulta para o estabelecimento de dogmas. A
a salvação pela fé, e não pelos seus atos. nova Igreja seria composta por líderes sem distinção hierárqui-
Os princípios defendidos pelo pensamento luterano acaba- ca e os mesmos não teriam que cumprir voto de castidade.
ram tendo grande força no interior do Sacro Império Germâ- Depois de fundar os princípios eclesiásticos do luteranis-
nico. Entre a nobreza havia uma grande tendência de oposição mo, a questão dos conflitos sociais veio a ser resolvida anos
contra o poderio eclesiástico. O Sacro Império era controlado mais tarde. No ano de 1555, os nobres convertidos ao lute-
por meio de um processo eletivo entre os principais proprietá- ranismo sagraram a assinatura da Paz de Augsburg. No do-
rios de terra da região. A Igreja, sendo uma grande proprietá- cumento ficou decretado que cada um dos príncipes alemães
ria de terras, tinha grande poder de interferência nas questões tinha liberdade para seguir qualquer opção religiosa. Por fim,
políticas do Sacro Império. os conflitos diminuíram e uma nova crença se arraigou na Eu-
Por coincidência, a publicação das idéias de Lutero acon- ropa.
teceu no mesmo período em que o papa Leão X organizou
uma venda de indulgências em massa. Segundo um documen- Calvinismo
to da Santa Sé, todo o fiel que contribuísse na construção da O movimento reformista ganhou força em diferentes
catedral de São Pedro teria todos os seus pecados perdoados. partes de uma Europa em intensa transformação. Na Suíça,
Lutero, motivado por esse exemplo flagrante de cobiça entre a burguesia tinha grande influência nas cidades-república de
os eclesiásticos, não se curvou mediante a exigência de retrata- Genebra, Zurique, Basiléia e Berna. No entanto, o poderio
ção imposta pelos líderes da Igreja. econômico dessa nova classe social era tolhido pelos poderes
No ano de 1520, Martinho Lutero foi excomungado e políticos preservados nas mãos dos clérigos que administra-
55
Professor Max Dantas

vam esses mesmos centros ur- Anglicanismo


banos. Ao contrário dos primeiros
Foi nesse contexto movimentos protestantes que to-
que, no início do século maram conta da Europa no sécu-
XVI, o padre Huldrych lo XVI, o anglicanismo surgiu em
Zwingli começou a se torno de questões que envolviam
aproximar das idéias de- diretamente os interesses da mo-
fendidas por Martinho narquia britânica. A monarquia
Lutero. Durante sua vida, Tudor, que na época controlava o
o padre humanista teve trono inglês, buscava meios para
grande atuação entre os reforçar a autoridade real fren-
populares que sofreram com te à forte influência das autori-
o surto de peste bubônica que dades eclesiásticas. Tal disputa se
as- solou as ruas de Zurique. Essa ex- sustentavaHenrique VIII
principalmente no fato da Igreja ter em mãos uma
periên- cia vivida pelo clérigo o alertou para grande extensão de terras sob o seu controle.
a reforma do catolicismo defendendo um tipo de experiência Na Inglaterra, o rei Henrique VIII (1491 – 1547) teve
religiosa mais simples e atuante. grande importância na consolidação da reforma religiosa.
Por iniciativa própria, Zwingli se envolveu em um movi- Henrique VIII e a Igreja já tinham uma relação pouco harmo-
mento reformista que defendia a predestinação absoluta e cri- niosa quando, no ano de 1527, o rei inglês exigiu que o papa
ticava a confissão religiosa nas igrejas. No ano de 1531, Zwin- anulasse seu casamento com a rainha espanhola Catarina de
gli tentou aproximar sua nova perspectiva religiosa dos grupos Aragão. Henrique VIII alegava que sua esposa não teve con-
conservadores da Suíça. Sua tentativa de mudança criou uma dições para lhe oferecer um herdeiro forte e saudável que des-
guerra civil que provocou a morte do líder religioso. Mesmo se continuidade à sua dinastia.
sendo morto, seu esforço resultou na assinatura da Paz de Ka- O papa Clemente VII resolveu não atender as súplicas
ppel, que permitiu a liberdade religiosa no interior da Suíça. do monarca britânico. Isso porque o tio de Catarina de Ara-
A onda reformista atingiu a Suíça como um todo. Na ci- gão, o rei Carlos V, estava auxiliando a Igreja contra o avanço
dade de Genebra, os habitantes conseguiram destituir o poder dos luteranos no Sacro Império Romano Germânico. Incon-
político dos nobres e clérigos. Nessa mesma cidade, o teólogo formado com a indiferença papal, Henrique VIII obrigou o
francês João Calvino (1509 – 1564) empreendeu uma nova Parlamento britânico a votar uma série de leis que colocavam a
compreensão dos princípios religiosos defendidos por Marti- Igreja sob o controle do Estado. No ano de 1534, o chamado
nho Lutero. Na obra “Instituições da religião cristã”, Cal- Ato de Supremacia criou a Igreja Anglicana.
vino defendeu diversos princípios do pensamento luterano e Segundo os ditames da nova Igreja, o rei da Inglaterra teria
reforçou a Teoria da Predestinação Absoluta. o poder de nomear os cargos eclesiásticos e seria considerado
Entre outras idéias, o pensamento calvinista defendia o principal mandatário religioso. A partir dessa nova medida,
princípios morais bastante rígidos e via no trabalho e na pou- Henrique VIII casou-se com a jovem Ana Bolena. Além dis-
pança duas virtudes a serem valorizadas pelo verdadeiro cris- so, realizou a expropriação e a venda dos feudos pertencentes
tão. A valorização do trabalho e a contenção dos lucros foram aos clérigos católicos. Essa medida fez com que os nobres, fa-
princípios que atraiam vários representantes da burguesia su- zendeiros e a burguesia mercantil passassem a exercer maior
íça. Em pouco tempo, Calvino conseguiu uma vertiginosa as- influência política.
censão política e religiosa que o concedeu o controle da nova No governo de Elizabeth I (1533 – 1603), novas medidas
Igreja e do governo suíço. foram tomadas para reafirmar o poder da Igreja Anglicana. Al-
Segundo os pesquisadores da temática religiosa, as idéias guns dos traços do protestantismo foram incorporados a uma
do calvinismo foram de suma importância para que o sistema hierarquia e uma tradição litúrgica ainda muito próxima às do
capitalista se desenvolvesse. A idéia de trabalho árduo e acú- catolicismo. Essa medida visava minimizar a possibilidade de
mulo de capitais, rechaçados por essa nova denominação, im- um conflito religioso que desestabilizasse a sociedade britâni-
pulsionaram o desenvolvimento dos negócios e dos novos em- ca. No seu governo foi assinado o Segundo Ato de Supre-
preendimentos comerciais. macia, que reafirmou a autonomia religiosa da Inglaterra fren-
O calvinismo logo encontrou seguidores fora da Suíça, te à Igreja Católica.
como:
• Inglaterra (Puritanos e Quakers) Contra-Reforma ou Reforma Católica
• Escócia (Presbiterianos) O movimento reformista católico, também conhecido
• França (Huguenotes). como Contra-Reforma, se desenvolveu desde a Idade Média
quando os clérigos já percebiam a necessidade de uma revisão
56
História Geral

nas práticas eclesiásticas. No entanto, a tomada de ações mais que de possibilidades que, antes de tudo, realçava a sua indivi-
incisivas contra a fragmentação do poder religioso só se de- dualidade e seu poder de escolha.
senvolveu com o aparecimento das religiões protestantes. Uma Apesar disso, podemos ver que a sensação de liberdade
das primeiras medidas tomadas pela Igreja foi restabelecer o oferecida pelo próprio protestantismo foi combatida por seus
Tribunal do Santo Ofício, que atuou na Idade Média contra os líderes. A intolerância religiosa e o combate à bruxaria tam-
movimentos heréticos. bém foram responsáveis por um movimento inquisidor entre
Durante o mandato do papa Paulo III (1468 – 1549) foi os protestantes.
organizado um dos mais importantes eventos da história cató-
lica: o Concílio de Trento. Essa reunião teve como principal
objetivo buscar uma definição da Igreja frente ao estabeleci- Anotações
mento das religiões protestantes. Após os debates foi definida
a reafirmação dos dogmas católicos, a preservação de todos os
atos litúrgicos, a confirmação da transubstanciação, do celiba-
to e da hierarquia clerical.
Com relação à crise moral vivida no interior da Igreja, os
participantes do Concílio reprovaram a venda de indulgências
e incentivaram a criação de seminários teológicos responsáveis
por aprimorar a formação religiosa dos futuros integrantes da
Igreja. Em uma das reuniões realizadas pelos líderes católicos,
ficou definido o “Index Librorum Proibitorum”, que con-
sistia em uma relação de obras que não deveriam ser aprecia-
das pelos verdadeiros católicos cristãos.
Entre outros livros relacionados estavam o “Elogio da
Loucura” (Erasmo de Roterdã), as traduções protestantes da
Bíblia, as obras do italiano Boccaccio e o Livro da Oración
(Frei Luís de Granada). Outra ação que marcou o movimento
da Contra-Reforma foi a criação das ordens religiosas. A mais
importante delas foi a Companhia de Jesus (Jesuítas), criada
pelo clérigo Inácio de Loyola, fundada em 1540. Seu papel foi
de grande importância na conversão religiosa dos povos colo-
nizados no continente americano.
A partir de então, a Igreja conseguiu fortalecer os seus la-
ços e conter o galopante avanço da religião protestante. No
entanto, o novo contexto de diversidade religiosa criou um
mundo marcado por diferentes concepções de fé e vida. Des-
sa forma, a identidade do homem moderno se calcava em le-
57
Professor Max Dantas

Grandes Navegações to do comércio, possibilitando a realização de longas viagens


marítimas.
Entre essas invenções, temos:
• A bússola, um instrumento usado para orientação. Cons-
ta de uma agulha imantada voltada para o Norte.
• As caravelas, que tornaram as viagens mais rápidas.
• O astrolábio, outro instrumento de orientação usado
para verificar a altura dos astros.
• A pólvora, usada pelos navegantes para se defenderem
dos ataques, durante as viagens.
• O papel e a imprensa, que permitiram a divulgação dos
acontecimentos sobre Geografia, ciências e Navegações.

Pioneirismo
Português
A “descober-
ta” do Brasil por
As grandes navegações foram um conjunto de viagens Pedro Álvares
marítimas que expandiram os limites do mundo conhecido Cabral, em 22 de
até então. Mares nunca antes navegados, terras, povos, flora abril de 1500, foi
e fauna começaram a ser descobertas pelos europeus. E mui- o resultado de uma
tas crenças passadas de geração a geração, foram conferidas, persistente e bem
confirmadas, ou desmentidas. Eram crenças de que os ocea- sucedida política
nos eram povoados por animais gigantescos ou que em outros de expansão marí-
lugares habitavam seres estranhos e perigosos. Ou que a terra tima colocada em
poderia acabar a qualquer momento no meio do oceano, o que prática ao longo de
faria que os navios naufragassem. muitos anos pela
O motivo poderoso que fez alguns europeus desafiarem o monarquia portu-
desconhecido, enfrentando medo, foi a necessidade de encon- guesa.
trar um novo caminho para se chegar às regiões produtoras de A construção
especiarias, de sedas, de porcelana, de ouro, enfim, da riqueza. das grandes embarcações e a organização de expedições marí-
Outros fatores favoreceram a concretização desse objetivo: timas que passaram a explorar os oceanos nos séculos 14 e 15
• Comerciantes e reis aliados já estavam se organizando dependeram do progresso da náutica, com o desenvolvimen-
para isso com capitais e estruturando o comércio internacio- to de instrumentos e de técnicas de navegação. Isso apenas se
nal; concretizou à medida que eram destinados expressivas somas
• A tecnologia necessária foi obtida com a divulgação de de riquezas, as quais somente o tesouro de um Estado organi-
invenções chinesas, como a pólvora (que dava mais seguran- zado e forte poderia suportar.
ça para enfrentar o mundo desconhecido), a bússola, e o pa-
pel. A invenção da imprensa por Gutenberg popularizou os Dinastia de Avis
conhecimentos antes restritos aos conventos. E, finalmente, O pioneirismo português nas grandes navegações maríti-
a construção de caravelas, que impulsionadas pelo vento dis- mas - que culminaram nas descobertas de novas terras, na ex-
pensavam uma quantidade enorme de mão-de-obra para re- pansão do comércio e na propagação da fé cristã - se iniciou
mar o barco como se fazia nas galeras nos mares da antigui- em 1385, data da subida ao trono de dom João 1º, conhecido
dade, e era mais própria para enfrentar as imensas distâncias como Mestre de Avis. O reinado de dom João inaugurou em
nos oceanos; Portugal a dinastia de Avis. Ele obteve o apoio da nobreza e
• Histórias como a de Marcopolo e Prestes João aguçavam dos comerciantes do reino, setores sociais que naquele período
a imaginação e o espírito de aventura; eram mais influentes política e economicamente.
• Até a Igreja Católica envolveu-se nessas viagens, interes- Com isso, dom João 1º pôde promover uma acentuada
sada em garantir a catequese dos infiéis e pagãos, que substitui- e progressiva centralização do poder monárquico, o que fez
riam os fiéis perdidos para as Igrejas Protestantes. Portugal surgir como um Estado independente e bem armado
militarmente. O país alcançou a estabilidade política e a paz in-
As Invenções terna, fatores que propiciaram o florescimento e crescimento
Algumas invenções contribuíram para o desenvolvimen- do comércio estimulando, desse modo, as riquezas do reino.
58
História Geral

Essas condições foram fundamentais para colocar em prática Navegações Espanholas


a política de expansão marítima destinando recursos para as A Espanha foi o segundo país a se lançar na aventura das
grandes navegações. grandes navegações. A primeira viagem marítima se deu em
1492, com Colombo - setenta e sete anos depois de os por-
Posição geográfica de Portugal: de cara para o tugueses invadirem Ceuta, no Reino de Fez (atual Marrocos),
Atlântico em 1415.
Em sua origem, a expansão marítima portuguesa esteve Vários motivos levaram a Espanha a esse “atraso” na bus-
associada aos interesses mercantis da burguesia do reino, ávida ca de uma rota para o comércio de especiarias que não pas-
na busca de lucros por meio do comércio marítimo com ou- sasse pelo Mediterrâneo (controlado pelas cidades-Estado de
tras regiões, sobretudo com o Oriente. Gênova e Veneza), nem pela costa africana, conhecida pelos
Essa era uma forma de superar as limitações do mercado portugueses até o Cabo da Boa Esperança, no extremo-sul do
europeu, que estava em crise pela carência de mão-de-obra, continente.
pela falta de produtos agrícolas e a escassez de metais pre- Um desses motivos foi a prioridade dada à reconquista da
ciosos para cunhagem de moeda. Interessava a essa burguesia península, numa luta que se prolongou por 781 anos, a guerra
apoiar o poder real no empreendimento da expansão maríti- mais longa de que se tem notícia. A vitória castelhana sobre o
ma, por meio das navegações oceânicas e dela extrair seus be- Califado de Granada, último reduto muçulmano na península
nefícios. Ibérica, data exatamente de 1492.
Portugal também gozava de uma localização geográfica Outro motivo foi a unificação tardia dos reinos cristãos
privilegiada na península ibérica. Grande parte do seu terri- de Leão, Castela, Aragão e Navarra. O passo mais importante
tório está voltada para o oceano Atlântico. Essa posição geo- nessa direção foi dado somente em 1469, quando o casamen-
gráfica, juntamente com as condições sociais e políticas favo- to de Fernando de Aragão e Isabel de Castela deu origem ao
ráveis, permitiram ao país se projetar como potência marítima. Reino Católico de Fernando e Isabel, núcleo inicial do que vi-
Coube ao infante D. Henrique - filho de D. João 1º - as ini- ria a ser a Espanha.
ciativas para fazer Portugal inaugurar as grandes navegações
oceânicas.

Escola de Sagres
D. Henrique era um amante das ciências e, sob sua inicia-
tiva, foi fundada a Escola de Sagres, que reuniu diversos es-
pecialistas como cartógrafos, astrônomos e marinheiros que
possuíam conhecimento do que de mais avançado se sabia na
época sobre a arte de navegar.
Foi na Escola de Sagres que foram realizados, em 1418,
os primeiros estudos e projetos de viagens oceânicas. Foi nela
que foram aprimoradas embarcações como a caravela e aper- Cristóvão Colombo e seu projeto polêmico
feiçoados os instrumentos náuticos necessários a longas via- Em meados do século 15 acre-
gens, como a bússola e o astrolábio, que haviam sido inventa- ditava-se que a Terra era redonda e
dos no Oriente. plana, um disco. Por isso, quase nin-
Portugal passou a obter sucessivos êxitos no empreendi- guém levava a sério o projeto do na-
mento ultramarino. O marco inicial foi a conquista de Ceu- vegador genovês Cristóvão Colom-
ta, em 1415, localizada na costa do Marrocos. Em seguida, bo, de chegar às Índias perseguindo
empreendeu esforços para chegar às Índias pelo mar, contor- o pôr-do-sol. Isso só seria possível
nando a África. se a Terra tivesse o formato de um
Primeiro os portugueses conquistaram as ilhas atlânticas globo, o que contrariava a concep-
dos arquipélagos dos Açores, Madeira e Cabo Verde (1425- ção dominante na época.
1427) para em seguida explorar a costa africana. Mesmos assim, a idéia de atingir
Em 1488, a esquadra comandada por Bartolomeu Dias o Oriente pelo Ocidente foi arduamente defendida por Co-
conseguiu transpor o Cabo da Boa Esperança, localizado no lombo. Um debate travado entre ele e os padres da Universi-
extremo sul da África. Dez anos depois, a esquadra comanda- dade de Salamanca, em 1486, custou-lhe a exposição ao ridí-
da por Vasco da Gama conseguiu ir adiante e navegar pelo culo, a pecha de louco e quase uma condenação à fogueira da
oceano Índico, aportando em Calicute, extremo sul da Ín- Inquisição, já em plena atividade na Espanha (muito antes do
dia, em 20 de maio. Ambos os navegadores estavam a serviço Concílio de Trento, que viria a ressuscitá-la como reação à Re-
de Portugal. forma protestante, no século 16).
59
Professor Max Dantas

Ainda que tivesse conseguido a adesão de algumas pes- cou sua desvalorização e, consequentemente, um aumento ge-
soas influentes, como a própria rainha, o projeto de circuna- neralizado nos preços.
vegação do então suposto globo terrestre só ganhou credibi- Praticamente sem manufaturas, e com o declínio da produ-
lidade depois que o respeitável Martin Pinzón foi confirmado ção das minas americanas, a Coroa espanhola viu-se em apuros
no comando de uma das três embarcações que comporiam a em meados do século 17. A aventura e os lucros da expansão
esquadra. marítima alçaram o país ibérico à condição de maior potência
da Europa e do mundo. Mas esse posto foi ameaçado e toma-
As caravelas Santa Maria, Pinta e Nina do por duas potências ascendentes, a Inglaterra e a Holanda,
Finalmente, em 3 de agosto de 1492, a bordo da carave- antes que a primeira metade do século chegasse ao final.
la Santa Maria, Cristóvão Colombo partiu do porto de Palos
Mercantilismo
rumo ao oeste, seguido pela Pinta e pela Nina. Setenta dias de-
pois a esquadra chegou à ilha de Guanahani, nas Antilhas, O mercantilismo é um conjunto de idéias econômicas que
rebatizada como San Salvador pelo próprio “Almirante das considera a prosperidade de uma nação ou estado dependente
Índias”. do capital que possa ter. Os pensadores mercantilistas preco-
Colombo faria, nos doze anos seguintes, mais três viagens nizam o desenvolvimento econômico por meio do enriqueci-
à América. Na segunda (1493 a 1496), atingiu as ilhas de Cuba, mento das nações graças ao comércio exterior, o que permite
Jamaica, Espanhola (Haiti e República Dominicana), Borin- encontrar saída aos excedentes da produção. O Estado adquire
quén (Porto Rico), Guadalupe, Dominica e Martinica. Na ter- um papel primordial no desenvolvimento da riqueza nacional,
ceira viagem (1498 a 1500), enquanto os portugueses Vasco ao adotar políticas protecionistas, e em particular estabelecen-
da Gama e Pedro Álvares Cabral chegavam, respectivamen- do barreiras tarifárias e medidas de apóio à exportação.
te, à Índia e ao que viria a ser a costa brasileira, Colombo de-
sembarcava na ilha de Trinidad e na costa norte da América Os princípios do mercantilismo podem ser resu-
do Sul. midos como segue:
Na quarta e última viagem (1502 a 1504), Colombo nave- ♦Metalismo – ou bulionismo: É o fator maior do siste-
gou pela costa da América Central, ainda na esperança de en- ma mercantilista que vai explicar todas as outras característi-
contrar uma passagem para regiões produtoras de especiarias. cas desse sistema. Pensava-se na época que toda a riqueza do
Morreu em 1504, acreditando ter atingido um braço da Ásia e mundo estava nas pedras preciosas e outras riquezas naturais,
contrapondo-se à teoria de que se tratava de um novo conti- principalmente o ouro e a prata. A riqueza de um país media
nente, defendida por Américo Vespúcio, a quem coube a gló- em quanto ouro e prata havia em seu território. Diante disso,
ria de ver seu nome dado, pelo rei Fernando, às terras recém- os países europeus restringem a saída de ouro e prata dos seus
descobertas. territórios, tentando trazer o máximo desses metais para den-
tro se suas fronteiras.
Ouro e prata impulsionaram colonização espa- ♦ Balança comercial favorável: Os países europeus tra-
nhola çaram várias formas de se conseguir essa riqueza em metais.
Na disputa contra a nobreza - aliada do rei da Espanha - Com a balança comercial favorável, exportando-se mais do
pelo governo das novas terras, o descobridor da América le- que se importava, o reina adquiria metais de outros reinos. To-
vou a pior. A ganância por cargos e riqueza aumentou a pres- dos os países europeus tentavam manter esse saldo positivo
são dos nobres sobre o rei, e Colombo caiu no ostracismo. na balança.
Ouro e prata, no México, e prata, no Peru, impulsiona-
ram a colonização espanhola desde a primeira metade do sécu-
lo 16. A organização da mão-de-obra indígena pelo sistema de
encomienda, imposto pelos colonizadores no caso mexicano,
e a adoção da mita, já praticada pelos incas, submeteu grandes
contingentes de nativos a jornadas desumanas nas minas.
Não raro essas jornadas terminavam em morte por exaus-
tão. Ao redor dessas regiões, a agricultura e o pastoreio desti-
navam-se exclusivamente ao abastecimento dos pólos de mi-
neração. No mais, havia um quase vazio demográfico entre
ambos.
O impacto do derrame de metais preciosos na Europa deu
capacidade de importação de manufaturados à Espanha, em
detrimento de seu próprio setor manufatureiro. Em toda a Eu-
Quadro de Claude Lorrain que representa um porto de mar francês de 1638
ropa, o significativo aumento da circulação de moedas provo-
60
História Geral

♦ Colonialismo: Consistia na aquisição matérias-primas França: Produção de artigos de luxo para a exportação.
de alto valor, ouro e prata nas colônias no ultramar e a venda Também conhecido como colbertismo, por causa do minis-
de produtos manufaturados para estas regiões. Era mais uma tro Jean Colbert.
forma de enriquecimento.
♦ Industrialismo: Era o fomento da produção de ma- Inglaterra: Num primeiro momento, a Inglaterra con-
nufaturas, principalmente para exportação, objetivando uma segue acúmulo de capitais através do comércio, principal-
balança favorável. Essa é uma característica mais tardia do mente após o Ato de Navegação de 1651. O grande desenvol-
mercantilismo, dos séculos XVII e XVIII. As unidades fabris vimento comercial vai impulsionar a indústria. Esta última
desse período não são as mesmas da Revolução Industrial, são se tornará na atividade principal para a Inglaterra conseguir o
manufaturas. acúmulo de capitais.
♦ Populacionismo: O poder de uma nação também era
medido pela população que havia no reino. Isso porque a po- Holanda: desenvolve o mercantilismo misto, ou seja,
pulação mostrava o tamanho do exército que o país podia comercial e industrial
montar e a produção de alimentos e manufaturas que esse país
podia ter, especialmente em períodos de guerra. Anotações
♦ Contraste com o liberalismo: A teoria econômica que
surge no final do século XVIII e consolida-se no século XIX,
o liberalismo, nasce da crítica dessas práticas mercantilistas. O
liberalismo defende a não intervenção do Estado na econo-
mia, já que as leis naturais do mercado regulariam automatica-
mente a economia.

Colônias de exploração
A riqueza de um país está diretamente ligada à quantidade
de colônias de exploração deste. Internacionalmente, o mer-
cantilismo indiretamente impulsionou muitas das guerras eu-
ropéias do período, e serviu como causa e fundamento do im-
perialismo europeu, dado que as grandes potências da Europa
lutavam pelo controlo dos mercados disponíveis no mundo.
Sob este aspecto, vale salientar que, nas expansões marítimas e
comerciais das nações, invadir um caminho percorrido cons-
tantemente por um, não poderia ser feito por outro, como no
caso da procura pelas Índias Ocidentais. Isto perdurou até que,
após o descobrimento da América a Inglaterra decidiu “tri-
lhar” o seu caminho. Portugal e Espanha se mostraram insatis-
feitos com o fato, fazendo o rei inglês dizer a célebre frase:
«O sol brilha para todos! E eu desconheço a cláusula do
testamento de Adão que dividiu a terra entre portugueses e es-
panhóis”. Assim, a esquadra inglesa toma seu lugar ao sol.»

Tipos de Mercantilismo
Cada Estado Moderno buscará a acumulação de capitais
obedecendo suas próprias especificidades, segue os principais
exemplos:
Portugal: Mercantilismo agrário, o acúmulo de capitais
virá da atividade agrícola na colônia ( Brasil ).

Espanha: Metalismo, em razão da grande quantidade de


ouro e prata da América. O grande afluxo de metais trouxe
uma alta dos preços das mercadorias e desencadeou uma enor-
me inflação. Este processo é conhecido como revolução dos
preços.
61
Professor Max Dantas

Absolutismo ram o poder universal colaborando para a consolidação do po-


A Idade Moderna é o período de transição entre o feuda- der real.
lismo medieval para o capitalismo contemporâneo. Ape-
sar de formas de trabalho semelhantes à servidão continuarem * Elementos Culturais:
comuns no campo, existe uma burguesia mercantil e manufa- O desenvolvimento do estudo de Direito nas universida-
tureira com certo poder. Em função desse quadro social com- des e a preocupação em legitimar o poder real. O Renascimen-
plexo em que coexistem burguesia e nobreza, existe uma for- to Cultural contribuiu para um retorno ao Direito Romano.
ma própria de Estado, o estado absolutista e uma teoria e
política econômica de forte intervenção do Estado também Mecanismos do Absolutismo Monárquico
restrita a esse período histórico, o mercantilismo. Criação de um Exército Nacional: Instrumento princi-
O nome absolutismo dá a falsa idéia de que o rei tem po- pal do processo de centralização política. Formado por merce-
deres absolutos, totais. Na verdade, o rei serve como um pon- nários, com a intenção de enfraquecer a nobreza e não armar
to de equilíbrio entre os conflitos existentes entre as classes os camponeses.
sociais daquela sociedade – burguesia, nobreza e campesina- Controle do Legislativo: Todas as decisões do reino es-
to. Em função desse quadro contrastante, o rei representava tavam controladas diretamente pelo rei, que possuía o direito
o poder que terminaria com todos os conflitos. Na verdade, de criar as leis.
o rei tinha que jogar com as pressões desses grupos sociais. A Controle sobre a Justiça: Criação do Tribunal Real, sen-
classe hegemônica, no entanto, era a classe que se sustentava a do superior aos tribunais locais ( controlados pelo senhor feu-
partir do controle da terra, ou melhor, a nobreza e o clero. dal ).
Controle sobre as Finanças: intervenção na economia,
mediante o monopólio da cunhagem de moedas, da padroni-
zação monetária, a cobrança de impostos, da criação de Com-
panhias de Comércio e a imposição dos monopólios.
Burocracia Estatal: corpo de funcionários que auxilia na
administração das obras públicas, fortalecimento o controle
do Estado e, consequentemente , o poder real.

Teóricos do Absolutismo Monárquico


Nicolau Maquiavel (
1469/1525 ) - Responsável pela
secularização da política, ou
seja, ele supera a relação en-
tre ética cristã e política. Esta
superação fica clara na tese de
Fatores do Absolutismo sua principal obra, O Príncipe
* Aliança rei - burguesia: ­segundo a qual “os fins justifi-
A burguesia possuía um interesse econômico na centrali- cam os meios”.
zação do poder político: a padronização monetária, dos pesos Maquiavel subordina o in-
e medidas. Adoção de mecanismos protecionistas, garantindo divíduo ao Estado, tornando-se
a expansão das atividades comerciais; a adoção de incentivos assim no primeiro defensor do
comerciais contribuía para o enfraquecimento da nobreza feu- absolutismo.
dal e este enfraquecimento-em contrapartida- garantia a supre-
macia política do rei. Thomas Hobbes (1588
/ 1679) - Seu pensamento está
* Reformas Religiosas: centrado em explicar as origens
A decadência da Igreja Católica e a falência do poder papal do Estado. De acordo com Ho-
contribuíram para o fortalecimento do poder real. Durante a bbes, o homem em seu estado
Idade Média, o poder estava dividido em três esferas: de natureza é egoísta. Este ego-
• Poder local, exercido pelo nobreza medieval; ísmo gera prejuízos para todos.
• poder nacional, exercido pela Monarquia; Procurando a sociabilidade,
• poder universal, exercido pelo Papado. os homem estabelece um pacto:
Assim, o processo de aliança rei -burguesia auxiliou no abdica de seus direitos em favor
enfraquecimento do poder local; as reformas religiosas mina- do soberano, que passa a Ter o poder absoluto. Assim, o esta-
62
História Geral

do surge de um contrato. Levou ao extremo a idéia do


A idéia de contrato denota características burguesas, de- absolutismo de direito divino. Um
monstrando uma visão individualista do homem ( o indivíduo dos principais nomes de seu gover-
pré-existe ao Estado ) e o pacto busca garantir e manter os in- no foi o ministro Colbert, respon-
teresses dos indivíduos. A obra principal de Hobbes é “Le- sável pelas finanças e dos assuntos
viatã”. econômicos.
A partir de seu reinado a Fran-
Jacques Bossuet ( 1627/1704 ) e Jean Bodin ( ça inicia uma crise financeira, em
1530/1596) - Defensores da idéia de que a autoridade real era razão das sucessivas guerras empre-
concedia por Deus. Desenvolvimento da doutrina do absolu- endidas por Luís XIV. A crise será
tismo de direito divino - o rei seria um representante de Deus acentuada com o Édito de Fontai-
e os súditos lhe devem total obediência. nebleau, decreto real que revogou
o Édito de Nantes. Com isto, muitos protestantes abandonam
Absolutismo na Península Ibérica a França, contribuindo para uma diminuição na arrecadação
de impostos.
Portugal A crise do absolutismo prossegue no reinado de Luís XV
Primeiro país a organizar o Estado Moderno. Centraliza- e atingirá o a ápice com Luís XVI e o processo da Revolução
ção política precoce em virtude da Guerra de Reconquista Francesa.
dos ­cristãos contra muçulmanos.
A centralização do Estado Português ocorreu em 1385, Absolutismo na Inglaterra
com a Revolução de Avis, onde o Mestre da Ordem de Avis O apogeu do absolutismo inglês deu-se com a Dinastia
( D. João ), com o apoio da burguesia mercantil consolidou o Tudor, família que ocupa o poder após a Guerra das Duas
centralismo político. Rosas:
Henrique VIII ( 1509/1547 ) - Empreendeu a Reforma
Espanha Anglicana, após o Ato de Supremacia ( 1534 ). Com a reforma,
O processo de centralização na Espanha também está re- o Estado controla as propriedades eclesiásticas impulsionando
lacionado com a Guerra de Reconquista e foi fruto de uma a expansão comercial inglesa.
aliança entre o Reino de Castela e o Reino de Aragão, em Elizabeth I ( 1558/1603 ) -Implantou definitivamente o
1469 e consolidado em 1492 - com a expulsão definitiva dos anglicanismo, mediante uma violenta perseguição aos católicos
mouros da península. e aos protestantes.
Iniciou uma política naval e colonial - caracterizada pela
Absolutismo na França destruição da Invencível Armada espanhola e a fundação da
A consolidação do absolutismo francês está relacionada primeira colônia inglesa na América do Norte - Virgínia (
com a Guerra dos Cem Anos: enfraquecimento da nobreza 1584).
feudal e fortalecimento do poder real. A principal dinastia do Em seu reinado a Inglaterra realiza uma grande expansão
absolutismo francês foi a dos Bourbons: comercial, com a formação de Companhias de Comércio e
Henrique IV ( 1593/1610 ) precisou abandonar o pro- fortalecendo a burguesia.
testantismo para ocupar o trono real. Responsável pelo Édito Com a morte de Elizabeth I ( 1603 ), inicia-se uma nova
de Nantes (1598 ) que concedeu liberdade religiosa aos pro- dinastia ­Stuart - marcada pela crise do absolutismo inglês.
testantes.
Luís XIII ( 1610/1643 ) Em seu reinado, destaque para a A Revolução Inglesa do século
atuação de seu primeiro-ministro o cardeal Richelieu.
A política de Richelieu visava dois grandes objetivos: a
XVII
consolidação do absolutismo monárquico na França e estabe- Inglaterra do século XVII
lecer, no plano externo, a supremacia francesa na Europa. Para Este século foi marcante, visto que o país atravessou dois
conseguir este último objetivo, Richelieu envolveu a França na movimentos revolucionários que sacudiram as bases monár-
Guerra dos Trinta Anos (1618/1648), contra a os Habsbur- quicas. A primeira foi a Revolução Puritana, de 1640, e a
gos austríacos e espanhóis. segunda foi a Revolução Gloriosa, de 1688. As duas fazem
Luís XIV ( 1643/1715 ) -O exemplo máximo do abso- parte do mesmo processo revolucionário. Por isso o motivo de
lutismo francês, denominado o “rei-sol”. Organizou a admi- mencionar revolução e não revoluções da Inglaterra.
nistração do reino para melhor controle de todos os assuntos. Essa revolução foi uma das primeiras manifestações da
Governava através de decretos e submeteu a nobreza feudal e crise do Antigo Regime, ou forma absolutista de governo. Isso
a burguesia mercantil. tudo deu base para o pleno desenvolvimento do capitalismo e
63
Professor Max Dantas

da revolução industrial do século XVIII. De certa forma esta Os atritos entre rei e parlamento ficaram fortes e inten-
pode ser considerada a primeira revolução burguesa da Euro- sos, principalmente depois de 1610. Em 1625, houve a mor-
pa. te do Jaime I e
seu filho , Car-
Vida social antes da Revolução los I, assumiu
Com a Dinastia Tudor, a Inglaterra teve muitas conquis- o poder. Em
tas, que serviram de base para 1628, com tan-
o desenvolvimento econômi- tas guerras, o rei
co do país. Seus maiores repre- viu-se obrigado
sentantes foram os monarcas a convocar um
Henrique VIII e Elisabeth parlamento, que
I, que entre outros feitos con- foi bem hostil,
seguiram: unificar o país, do- até exigiram o
minar a nobreza, afastar-se do Carlso I cumprimento da
Papa além de confiscar os bens “petição dos direitos”. Isto quer dizer, o parlamento queria o
da igreja católica, e ao mesmo controle da política financeira e do exército, além de regulari-
tempo criar a igreja anglicana, zar a convocação do parlamento. A resposta real foi bem cla-
e entrar na disputa por colô- ra: a dissolução do parlamento, que voltaria a ser convocado
nias com os espanhóis. em 1640.
Foram com esses monar- O rei Carlos governou sem parlamento, mas ele buscou o
cas que ocorreu a formação de monopólios comerciais, como a apoio da Câmara Estrelada, uma espécie de tribunal ligado ao
Companhia das Índias Orientais e dos Mercadores Aven- Conselho Privado do Rei. Para reforçar o absolutismo, Carlos
tureiros. Isto serviu para impedir a livre concorrência, embora I aumentou os impostos, ou seja, começou a cobrar impostos
essa ação tenha sufocado alguns setores da burguesia. Como que antes já haviam caído no desuso, como exemplo o ship
por exemplo, os artesões, que se viram obrigados, a pagar mais money, imposto criado para proteger as cidades portuárias de
caro, por alimentos e produtos usados nos seus serviços. Isto ataques piratas, agora com Carlos esse imposto passou a ser
resultou na divisão da burguesia: de um lado, os grandes co- cobrado até mesmo nas cidades de interior, onde dificilmente
merciantes que gostaram da política de monopólio, e de outro um pirata atacaria. Também tentou impor a religião anglicana
a pequena burguesia que queria a livre concorrência. aos calvinistas escoceses( presbiterianos). Isso gerou rebeliões
Outro problema era a detenção de privilégios nas mãos por parte dos escoceses que invadiram o norte da Inglaterra.
das corporações de ofício. Também outra situação problemá- Com isso o rei viu-se obrigado a reabrir o parlamento em abril
tica era na zona rural, com a alta dos produtos agrícolas, as de 1640 para obter ajuda da burguesia e da Gentry. Mas o par-
terras foram valorizadas. Isso gerou os cercamentos, isto é, lamento tinha mais interesse no combate ao absolutismo. Por
os grandes proprietários rurais que aumentavam suas terras isso foi fechado novamente. Em novembro do mesmo ano foi
por ocupar as terras coletivas, transformando-as em privadas. convocado novamente e desta vez ficou como o longo parla-
O resultado foi a expulsão de camponeses do campo e a cria- mento, que se manteve até 1653.
ção de grandes propriedades para a criação de ovelhas e para
a produção de lã. A Revolução Puritana
Para não deixar o conflito entre camponeses e grandes A guerra civil inglesa estendeu-se de 1612 à 1649, e dividiu
proprietários aumentasse o governo tentou impedir os cerca- o país. De um lado havia os cavaleiros, o exército fiel ao rei e
mentos. Claro que com essa ação a nobreza rural, Gentry, e a apoiado pelos senhores feudais. Do outro, os cabeças-redon-
burguesia mercantil foram fortes oponentes. (Gentry era a no- das, visto que não usavam perucas e estavam ligados a gentry,
breza progressista rural, uma nobreza aburguesada.) eram forças que apoiavam o parlamento.
O parlamento foi bastante radical em suas ações. Come-
Dinastia Stuart çou por dissolver a câmara estrelada, proibiu o rei de ter um
Esta dinastia iniciou-se após a morte da rainha Elisabeth, exército permanente, tomou a liderança política e tributária do
em 1603. O primeiro rei foi Jaime I, rei da Escócia. Este dis- país, culpou o rei por um levante na Irlanda católica em 1641.
solveu o parlamento várias vezes e quis implantar uma monar- Em 1642, começava a guerra civil. Oxford tornou-se a
quia absoluta do direito divino. Infelizmente foi radical, pois sede do rei, onde se organizou um exército de 20 mil homens.
perseguiu os católicos e seitas menores, sob o pretexto de es- O apoio veio dos aristocratas do oeste e do norte, juntamente
tes mesmos estavam organizando a Conspiração da Pólvora com uma parte dos ricos burgueses , que estavam preocupa-
em 1605. Muitos que ficaram descontentes começaram a para dos com as agitações sociais. Em contra partida o exército do
a América do norte. parlamento foi comandado por Oliver Cromwell, originado
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História Geral

de uma família de nobres calvinistas. Com ele o exército teve A Restauração Stuart e Revolução Gloriosa
grandes mudanças. Era formado por camponeses, burgueses Com apoio do general Monk, comandante das tropas da
de Londres e a gentry. O mais importante fato neste exército Escócia, o Parlamento-Convenção proclamou Carlos II rei
era que as classes hierárquicas seriam alcançadas não mais por em 1660. Com poderes limitados, ele se aproximou de Luís
nascimento mais sim por merecimento. Isto serviu de gran- XIV da França, tornando-se suspeito para o Parlamento. Uma
de incentivo entre os combatentes. Esse exército foi decisivo onda contra-revolucionária sobreveio favorecida por um Par-
na Batalha final de Naseby em 1645. Carlos I perdeu a guerra lamento de Cavaleiros, composto por nobres realistas e angli-
e fugiu para a Escócia, lá ele foi preso e vendido para o parla- canos em sua maioria. O corpo de Cromwell foi desenterrado
mento inglês, curiosamente pelo parlamento escocês. e pendurado na forca. O poeta Milton foi julgado e condena-
Já entre o vitorioso exército do parlamento, havia uma di- do. Carlos II baixou novos atos de navegação em favor do co-
visão entre os Grandes, ou seja, o alto escalão dos oficiais, e mércio inglês. Sua ligação com Luís XIV levou-o a envolver-se
os niveladores, que avançados para época, eram a maior par- na Guerra da Holanda. O Parlamento baixou então, em 1673,
te dos combatentes. Suas idéias eram: comércio livre para os a Lei do Teste, pela qual todos os que exercessem função pú-
pequenos produtores, proteção às pequenas propriedades, fim blica deveriam professar seu antianglicanismo. Surgiram dois
do pagamento do dízimo à igreja, separação da igreja e do es- partidos: os whigs, contra o rei e pró-Parlamento; os tories,
tado, fim dos cercamentos e direito de votos para todos. defensores das prerrogativas reais.
Tentaram assumir o controle do exército em 1647. Com Jaime II, irmão
toda essa agitação, Carlos I conseguiu fugir, porém com a de Carlos II, subiu ao
união do exército, ele foi capturado e decapitado. O parla- trono mesmo sendo
mento foi desativado, por excluir 96 membros e prender 47. E católico. Buscou res-
com a morte de Carlos I em 30 de janeiro de 1649, a república taurar o absolutismo
foi proclamada em 19 de maio do mesmo ano. e o catolicismo, pu-
nindo os revoltosos,
Governo de Cromwell aos quais negava o
O governo de Oliver Cromwell atendia os interesses bur- habeas-corpus. In-
gueses. Quando começou a haver rebeliões na Escócia e na dicou católicos para
Irlanda, ele as reprimiu com funções importantes. Em 1688, o Parlamento convocou Ma-
brutalidade. Oliver procurou ria Stuart, filha de Jaime II e mulher de Guilherme de Oran-
eliminar a reação monarquis- ge, governador das Províncias Unidas, para ocupar o trono.
ta. Fez uma “limpeza” no Foi um movimento pacífico. Jaime II refugiou-se na França
exército. Executou os líderes e um novo Parlamento proclamou Guilherme e Maria rei e
escavadores( estes eram tra- rainha da Inglaterra.
balhadores rurais que que- Os novos soberanos tiveram de aceitar a Declaração dos
riam tomar terras do estado, Direitos, baixada em 1689, que decretava: o rei não podia can-
nobreza e clero). Com tantas celar leis parlamentares e o Parlamento poderia dar o trono
execuções os menos favore- a quem lhe aprouvesse após a morte do rei; haveria reuniões
cidos ficaram a “mercê da parlamentares e eleições regulares; o Parlamento votaria o or-
sorte” e acabaram por entrar çamento anual; inspetores controlariam as contas reais; católi-
em movimentos religiosos radicais. cos foram afastados da sucessão; a manutenção de um exército
Uma medida para combater os holandeses e fortalecer o em tempo de paz foi considerada ilegal.
comércio foi os Atos da navegação. Essa lei resumia-se no Os ministros passaram a tomar as decisões, sob autorida-
seguinte: o comércio com a Inglaterra só poderia ser feito por de do lorde tesoureiro. Funcionários passaram a dirigir o Te-
navios ingleses ou dos países que faziam negócios com a In- souro e, em época de guerra, orientavam a política interna e
glaterra. externa. Em 1694, formou-se o tripé fundamental para o de-
Em 1653, Oliver autonomeou-se Lorde Protetor, seus po- senvolvimento do país, com a criação do Banco da Inglater-
deres eram tão absolutos quanto de um rei. Mas ele recusou-se ra: o Parlamento, o Tesouro e o Banco.
a usar uma coroa. Embora na prática agisse como um sobera- Abriam-se as condições para o avanço econômico que re-
no. Com apoio dos militares e burgueses, impôs a ditadura pu- sultaria na Revolução Industrial. De um lado, uma revolução
ritana, porque governou com rigidez e intolerância, com idéias na agricultura através dos cercamentos que beneficiou a gen-
puritanas. Ele morreu em 1658 e seu filho Richard assumiu o try. De outro, a expansão comercial e marítima garantida pelos
poder. Mas este logo foi deposto em 1659. Atos de Navegação, que atendiam aos interesses da burguesia
mercantil. Assim se fez a Revolução Gloriosa, que assinalou a
ascensão da burguesia ao controle total do Estado.
65
Professor Max Dantas

Iluminismo tas se espalhavam pela Europa, uma febre de novas descober-


No século XVIII, um grupo de pensadores começou a se tas e inventos tomou conta do continente. O avanço científico
mobilizar em torno da defesa de idéias que pautavam a reno- dessa época colocou à disposição do homem informações tão
vação de práticas e instituições vigentes em toda Europa. Le- diferentes quanto a descrição da órbita dos planetas e do rele-
vantando questões filosóficas que pensavam a condição e a vo da Lua, a descoberta da existência da pressão atmosférica e
felicidade do homem, o movimento iluminista atacou sistema- da circulação sanguínea e o conhecimento do comportamento
ticamente tudo aquilo que fosse considerado contrário a busca dos espermatozóides.
da felicidade, da justiça e da igualdade. A Astronomia foi um dos campos que deu margem às
Dessa maneira, os iluministas preocuparam-se em denun- maiores revelações. Seguindo a trilha aberta por estudio-
ciar a injustiça, a dominação religiosa, o estado absolutista e sos da Renascença, como Copérnico, Kepler e Galileu, o
os privilégios enquanto vícios de uma sociedade que, cada vez inglês Isaac Newton (1642- 1727) elaborou um novo mo-
mais, afastava os homens do seu “direito natural” à felicidade. delo para explicar o universo. Auxiliado pelo desenvolvi-
Segunda a visão desses pensadores, sociedades que não se or- mento da Matemática, que teve em Blaise Pascal (1623 -
ganizam em torno da melhoria das condições de seus indivídu- 1662) um de seus maiores representantes, ele ultrapassou a
os concebem uma realidade incapaz de justificar, por argumen- simples descrição do céu, chegando a justificar a posição e a
tos lógicos, sua própria existência. órbita de muitos corpos siderais.
Por isso, o pensamento iluminista elege a “razão” como o Além disso, anunciou ao mundo a lei da gravitação univer-
grande instrumento de reflexão capaz de melhorar e empreen- sal, que explicava desde o movimento de planetas longínquos
der instituições mais justas e funcionais. No entanto, se o ho- até a simples queda de uma fruta. Newton foi ainda responsá-
mem não tem sua liberdade assegurada, a razão acaba sendo vel por avanços na área do cálculo e pela decomposição da luz,
tolhida por entraves como o da crença religiosa ou pela impo- mostrando que a luz branca, na verdade, é composta por sete
sição de governos que oprimem o indivíduo. A racionalização cores, as mesmas do arco-íris.
dos hábitos era uma das grandes idéias defendidas pelo ilumi- Tanto para o estudo dos corpos celestes como para a ob-
nismo. servação das minúsculas partes do mundo, foi necessário am-
As instituições religiosas eram sistematicamente atacadas pliar o campo de visão do homem. Os holandeses encarrega-
por esses pensadores. A intromissão da Igreja nos assuntos ram-se dessa parte, descobrindo que a justaposição de várias
econômicos e políticos era um tipo de hábito nocivo ao de- lentes multiplicava a capacidade da visão humana.
senvolvimento e o progresso da sociedade. Até mesmo o pen- Outro grande pensador da
samento dogmático religioso era colocado como uma barreira época foi René Descartes (1596-
entre Deus e o homem. O pensamento iluminista acreditava 1650). Nascido na França con-
que a natureza divina estava presente no próprio indivíduo cebeu um modelo de verdade in-
e, por isso, a razão e o experimento seriam seguros meios de contestável. Segundo este autor,
compreensão da essência divina. a verdade poderia ser alcançada
Inspirados pelas leis fixadas nas ciências naturais, os ilumi- através de duas habilidades ine-
nistas também defendiam a existência de verdades absolutas. rentes ao homem: duvidar e re-
O homem, em seu estado originário, possuía um conjunto de fletir, daí sua famosa frase: “Pen-
valores que fazia dele naturalmente afeito à bondade e igualda- so, logo existo”. Nesse mesmo
de. Seriam as falhas cometidas no desenvolvimento das socie- período surgiram proeminentes
dades que teria afastado o indivíduo destas suas características estudos no campo das ciências da natureza que também irão
originais. Por isso, instituições políticas preocupadas com a li- influenciar profundamente o pensamento absolutista.
berdade deveriam dar lugar às injustiças promovidas pelo Es- Tal invento possibilitou a Robert Hooke (1635-1703)
tado Absolutista. construir o primeiro microscópio, que ampliava até 40 vezes
Por essas noções instalava-se uma noção otimista do mun- pequenos objetos (folhas, ferrões de abelha, patas de inse-
do que não teria como interromper seu progresso no momen- tos). Esse cientista escreveu um livro sobre suas observações e
to em que o homem contava com o pleno uso de sua raciona- criou o termo célula, hoje comum em Biologia.
lidade. Os direitos naturais, o respeito à diversidade de idéias e A Biologia progrediu também no estudo do homem, com
a justiça deveriam trazer a melhoria da condição humana. Ofe- a identificação dos vasos capilares e do trajeto da circulação
recendo essas idéias, o iluminismo motivou as revoluções bur- sanguínea. Descobriu-se também o princípio das vacinas — a
guesas que trouxeram o fim do Antigo Regime e a instalação introdução do agente causador da moléstia no organismo para
de doutrinas de caráter liberal. que este produza suas próprias defesas.
Na Química, a figura mais destacada foi Antoine Lavol-
Iluminismo e a Ciência sier (1743-1794), famoso pela precisão com que realizava suas
Nos séculos XVII e XVIII, enquanto as idéias iluminis- experiências. Essa característica auxiliou-o a provar que, “em-
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História Geral

bora a matéria possa mudar de estado numa série de reações Espírito das Leis”. Na mesma obra pregava que os poderes
químicas, sua quantidade não se altera, conservando-se a mes- deveriam ser divididos entre Executivo, Legislativo e Judiciá-
ma tanto no fim como no começo de cada operação”. Atri- rio. O rei deveria ser um mero executor das ações tomadas pe-
buiu-se a ele igualmente a frase: “Na natureza nada se perde, los poderes a serem intuídos nessa forma de governo. Além
nada se cria, tudo se transforma”. disso, acreditava que uma Constituição deveria ser redigida
Além dos nomes citados, houve muitos outros invento- como lei máxima dos governantes e da sociedade.
res e estudiosos que permitiram, por exemplo, a descoberta da Jean-Jaques Rousseau (1712-1778) foi outro pensador
eletricidade; a invenção da primeira máquina de calcular; a for- que, para a época, tinha algumas opiniões de caráter mais radi-
mulação de uma teoria, ainda hoje aceita, para explicar a febre; cal. Contrário a uma vida luxuosa ele afirmou que a proprieda-
a descoberta dos protozoários e das bactérias. Surgiu mesmo de privada originava a desigualdade entre os homens. Em sua
uma nova ciência — a Geologia —, a partir da qual se desen- obra “Discurso sobre a origem e o fundamento da desi-
volveu uma teoria que explicava a formação da Terra, refutan- gualdade entre os homens”, Rousseau defendeu que o ho-
do a versão bíblica da criação do mundo em sete dias. mem era corrompido pela sociedade e que a soberania popular
Tendo herdado o espírito curioso e indagador dos estudio- e a simplicidade deveriam ser princípios básicos na ascensão
sos renascentistas, os pesquisadores dos séculos XVII e XVIII de uma sociedade mais justa e igualitária. No texto “Contrato
construíram teorias e criaram inventos, em alguns casos poste- Social”, defendia o princípio no qual a vontade geral dos ho-
riormente contestados pela evolução da ciência. Sua importân- mens promoveria instituições mais justas.
cia, entretanto, é inegável, tendo sido fundamental para os pro- Outro importante pensador foi Voltaire (1694-1778). Ata-
gressos técnicos que culminaram na Revolução Industrial. cando ferozmente a Igreja e o clero, ele acreditava que Deus
não seria conhecido pelos dogmas religiosos. Somente os ho-
Os filósofos iluministas mens dotados de razão e liberdade seriam capazes de conhecer
O iluminismo foi um movimento que contou com a parti- as vontades e desígnios divinos. Em seu livro “Cartas Ingle-
cipação de diversos pensadores. Mesmo partilhando de noções sas”, criticou as instituições religiosas e a existência de hábitos
e princípios semelhantes, os teóricos do iluminismo trouxeram feudais ainda presentes na sociedade européia. Mesmo sen-
as mais diferentes contribuições em suas obras. Ocupando- do um grande crítico, Voltaire não defendia a revolução como
se de assuntos diversos, seus pensadores trataram de questões instrumento de mudança. A seu ver, as monarquias dotadas
morais, religiosas e políticas. De forma geral, podemos realizar de princípios racionalizantes poderiam renovar suas práticas
uma breve amostra de seus principais personagens. e ações.
John Locke (1632-1704), tem a maior parte de sua obra Diderot e D’Alembert,
caracterizada pela oposição ao autoritarismo, em todos os ní- além de contribuírem com
veis: individual, político e religioso. Acreditava em usar a razão idéias, também se preocupa-
para obter a verdade e determinar a legitimidade das institui- ram em difundir os valores do
ções sociais. Quando Locke escreveu os “Dois Tratados so- iluminismo pela Europa. Atra-
bre o Governo”, a sua principal obra de filosofia política, ti- vés de uma grande compilação
nha como objetivo contestar a doutrina do direito divino dos chamada “Enciclopédia”,
reis e do absolutismo real. reuniram o saber produzido
Também pretendia criar uma teoria que conciliasse a liber- por diferentes pensadores ilu-
dade dos cidadãos com a manutenção da ordem política. Para ministas. Subdividida em trin-
o pensador inglês, o que dá direito à propriedade é o trabalho ta e cinco volumes, essa obra
que se dedica a ela. E desde que isso não prejudique alguém, condensava a perspectiva ilu-
fica assegurado o direito ao fruto do trabalho. Foram essas as minista sobre os mais variados assuntos. Estabelecendo um
bases da idéia de uma sociedade sem a interferência governa- verdadeiro movimento que ganhou o nome de enciclopedis-
mental, um dos princípios básicos do capitalismo liberal. mo, o esforço de ambos conseguiu contar com a colaboração
Publicando em 1721 a obra de mais de cento e trinta diferentes autores.
“Cartas Persas”, o Barão de A disseminação do ideário iluminista foi responsável pela
Montesquieu (1689-1755) re- orientação ideológica dos movimentos que combateram o
alizou uma crítica sistemáti- pacto colonial e o Antigo Regime. A deflagração de processos
ca ao autoritarismo político e como o da Revolução Inglesa e Francesa; e as independências
aos costumes de diversas ins- no continente americano são os maiores exemplos da influên-
tituições européias. No ano de cia do iluminismo na História.
1748, discutiu as formas de go-
verno fazendo uma análise da Economistas do iluminismo
monarquia inglesa no livro “O Os pensadores iluministas que se ocuparam de questões
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Professor Max Dantas

econômicas deram origem a duas grandes correntes de pensa- despotismo esclarecido. Os tronos da Rússia, França, Áustria
mento. A primeira delas foi a fisiocracia, que obteve grande e da Península Ibérica foram os principais focos dessa redefi-
circulação nos fins do século XVIII. Outra teoria mais ampla- nição política.
mente desenvolvida foi o “liberalismo”, que até hoje influen- Sem abandonar as benesses do regime monárquico, os reis
cia fundamentos do pensamento econômico contemporâneo. desses países enxergavam a necessidade do domínio de alguns
A fisiocracia foi responsável pela crítica ao vigente sistema saberes considerados úteis na tomada de decisões político-ad-
econômico mercantilista. Segundo suas idéias, o pensamento ministrativas. O monarca deveria dominar os princípios ilu-
fisiocrata criticava a lógica de exploração e acúmulo de metais ministas ou, no mínimo, estar assessorado por ministros que
preciosos defendida pelo mercantilismo. De acordo com a fi- conhecessem as mais importantes obras do pensamento filo-
siocracia, as práticas mercantilistas não promoveriam o desen- sófico e econômico iluminista. Dessa forma, a razão ganhava
volvimento das riquezas de uma nação. A única real fonte de espaço no cenário político europeu.
riqueza estaria vinculada à terra. As demais atividades econô- A idéia de que o rei era a personificação do Estado cedeu
micas (a manufatura e comércio) seriam mera consequência da lugar para governos que contavam com uma nova diretriz po-
riqueza produzida das atividades agrícolas. lítica capaz de delegar cargos a indivíduos sintonizados com as
Entre seus principais pensadores podemos destacar Fran- necessidades racionais do governo e da população. Ministros e
çois Quesnay (1694 – 1774) e Anne Robert Jacques Tur- filósofos deveriam ser os principais conselheiros da autoridade
got (1727 – 1781). Outro pensador de suma importância foi real. A Igreja, representada pelo Alto Clero, perdeu boa parte
Vincent de Gournay ( 1712 – 1759), autor da célebre frase: de sua influência anteriormente exercida junto às monarquias.
“Laissez faire, lais- Apesar dessas modificações, o despotismo esclarecido ve-
sez passer, lê mon- tava a idéia de se restringir a autoridade monárquica. Os prin-
de va de lui même” cípios democratizantes e liberais do iluminismo eram postos
(Deixe fazer, dei- para fora dos palácios reais. A principal meta desse movimento
xe passar, o mundo de reforma política era a melhoria do funcionamento da má-
vai por si mesmo). quina burocrática. Dessa forma, o poder do Estado e o desen-
Essa frase foi de ex- volvimento da economia nacional alcançariam resultados mais
pressiva importância expressivos e eficientes.
para que fosse lan- Na Prússia, o rei Fre-
çado um dos pontos derico II (1740 – 1786) foi
fundantes do pensa- fortemente influenciado pe-
mento liberal. los ensinamentos de Voltai-
Adam Smith, discípulo de Vincent de Gournay, sistema- re. Durante seu reinado, os
tizou as primeiras premissas do liberalismo econômico. Con- castigos físicos foram bani-
siderado um dos fundadores das ciências econômicas, Smith dos e as leis sofreram refor-
considerou na obra “A riqueza das nações”, que o trabalho mas. A educação básica tor-
era o fruto de toda a riqueza de uma sociedade. Por meio da nou-se obrigatória e todos
intervenção do homem a prosperidade seria alcançada. Defen- os cultos religiosos foram
sor do direito de propriedade, esse pensador ainda acreditava permitidos. Em contrapar-
que a economia era naturalmente guiada por leis próprias e, tida, as tradições feudais e
por isso, não deveria sofrer maiores intervenções do Estado. a irrevogabilidade do poder
Defendendo a adoção de medidas de caráter racional, monárquico foram preservadas. Além disso, contrariando os
Adam Smith enxergava na livre-concorrência e na divisão do princípios liberais do iluminismo, adotou medidas econômicas
trabalho itens fundamentais para o desenvolvimento da econo- de natureza protecionista.
mia. Assentando tais idéias sobre a economia, Smith colocou o Sob o comando do ministro Aranda, a Coroa Espanhola
liberalismo econômico como uma das mais pujantes correntes incentivou a ampliação da indústria têxtil e deu fim às práticas
do pensamento econômico até o início do século XX. comerciais monopolistas no país. Além disso, criou novos car-
gos públicos que facilitaram o controle da Coroa sobre as fi-
Despotismo Esclarecido nanças e gastos empreendidos pelo governo do rei Carlos III.
A proeminência dos ideais iluministas, surgidos durante Na Áustria, José II (1780 – 1790) imprimiu uma forte mudan-
o século XVIII, concebeu um conjunto de transformações ça ao promover a igualdade jurídica de toda a população, con-
que não se limitou ao universo letrado e burguês. As diretrizes cedeu a livre opção religiosa e se opôs à marginalização dos
desse novo movimento também estabeleceram interessantes não-católicos.
transformações no interior de algumas monarquias absolutis- O governo de Catarina II (1762 – 1796), rainha da Rús-
tas européias. Era o início de um movimento conhecido como sia, apresentou as maiores contradições do despotismo escla-
68
História Geral

recido. Por um lado, foi


aconselhada por diversos
filósofos iluministas fran-
ceses e, por isso, promo-
veu a liberdade religiosa
em seu país e incentivou
o refinamento dos costu-
mes das elites russas. Em
contrapartida, ampliou os
direitos dos senhores feu-
dais piorando ainda mais
as condições de vida do
campesinato russo.

Anotações
69
Professor Max Dantas

Revolução Industrial gumas etapas do processo, mas muitas vezes um mesmo arte-
são cuidava de todo o processo, desde a obtenção da matéria-
prima até à comercialização do produto final. Esses trabalhos
eram realizados em oficinas nas casas dos próprios artesãos e
os profissionais da época dominavam muitas (se não todas) as
etapas do processo produtivo.
Com a Revolução Industrial os trabalhadores perderam o
controle do processo produtivo, uma vez que passaram a tra-
balhar para um patrão (na qualidade de empregados ou operá-
rios), perdendo a posse da matéria-prima, do produto final e
do lucro. Esses trabalhadores passaram a controlar máquinas
que pertenciam aos donos dos meios de produção os quais
passaram a receber todos os lucros. O trabalho realizado com
as máquinas ficou conhecido por maquino fatura.
Esse momento de passagem marca o ponto culminante de
uma evolução tecnológica, econômica e social que vinha se
A Revolução Industrial consistiu em um conjunto de mu- processando na Europa desde a Baixa Idade Média, com ên-
danças tecnológicas com profundo impacto no processo pro- fase nos países onde a Reforma Protestante tinha conseguido
dutivo em nível econômico e social. Iniciada na Inglaterra em destronar a influência da Igreja Católica: Inglaterra, Escócia,
meados do século XVIII, expandiu-se pelo mundo a partir do Países Baixos, Suécia. Nos países fiéis ao catolicismo, a Revo-
século XIX. lução Industrial eclodiu, em geral, mais tarde, e num esforço
Ao longo do processo (que de acordo com alguns autores declarado de copiar aquilo que se fazia nos países mais avança-
se registra até aos nossos dias), a era agrícola foi superada, a dos tecnologicamente: os países protestantes.
máquina foi suplantando o trabalho humano, uma nova rela-
ção entre capital e trabalho se impôs novas relações entre na- A classe trabalhadora
ções se estabeleceram e surgiu o fenômeno da cultura de mas-
sa, entre outros eventos.
Essa transformação foi possível devido a uma combina-
ção de fatores, como o liberalismo econômico, a acumu-
lação de capital e uma série de invenções, tais como o mo-
tor a vapor. O capitalismo tornou-se o sistema econômico
vigente.
Ocorrida na Inglaterra, a Revolução Industrial, integra o
conjunto das “Revoluções Burguesas” do século XVIII, res-
ponsáveis pela crise do Antigo Regime, na substituição do ca-
pitalismo comercial para o industrial. Os outros dois movi-
mentos que a acompanham são a Independência dos Estados
Unidos e a Revolução Francesa, que sob influência dos princí-
Crianças na linha de produção nas fábricas de tecelagem do século XIX
pios iluministas, assinalam a transição da Idade Moderna para
Contemporânea. A produção manual que antecede à Revolução Industrial
Em seu sentido mais pragmático, a Revolução Industrial conheceu duas etapas bem definidas, dentro do processo de
significou a substituição da ferramenta pela máquina, e con- desenvolvimento do capitalismo:
tribuiu para consolidar o capitalismo como modo de produ- O artesanato foi a forma de produção industrial caracte-
ção dominante. Esse momento revolucionário, de passagem rística da Baixa Idade Média, durante o renascimento urbano
da energia humana para motriz, é o ponto culminante de uma e comercial, sendo representado por uma produção de cará-
evolução tecnológica, social, e econômica, que vinham se pro- ter familiar, na qual o produtor (artesão) possuía os meios de
cessando na Europa desde a Baixa Idade Média. produção (era o proprietário da oficina e das ferramentas) e
trabalhava com a família em sua própria casa, realizando to-
Contexto Histórico das as etapas da produção, desde o preparo da matéria-prima,
Antes da Revolução Industrial, a atividade produtiva era até o acabamento final; ou seja não havia divisão do trabalho
artesanal e manual (daí o termo manufatura), no máximo ou especialização para a confecção de algum produto. Em al-
com o emprego de algumas máquinas simples. Dependendo gumas situações o artesão tinha junto a si um ajudante, porém
da escala, grupos de artesãos podiam se organizar e dividir al- não assalariado, pois realizava o mesmo trabalho pagando uma
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História Geral

“taxa” pela utilização das ferramentas. vas de carvão, as jazidas inglesas estão situadas perto de por-
É importante lembrar que nesse período a produção ar- tos importantes, o que facilita o transporte e a instalação de in-
tesanal estava sob controle das corporações de ofício, assim dústrias baseadas em carvão. Nessa época a maioria dos países
como o comércio também se encontrava sob controle de asso- europeus usa madeira e carvão vegetal como combustíveis. As
ciações, limitando o desenvolvimento da produção. comunicações e comércio internos são facilitados pela instala-
A manufatura, que predominou ao longo da Idade Moder- ção de redes de estradas e de canais navegáveis. Em 1848 a In-
na e na Antiguidade Clássica, resultou da ampliação do merca- glaterra possui 8 mil km de ferrovias.
do consumidor com o desenvolvimento do comércio monetá- Situação geográfica: A localização da Inglaterra, na par-
rio. Nesse momento, já ocorre um aumento na produtividade te ocidental da Europa, facilita o acesso às mais importantes
do trabalho, devido à divisão social da produção, onde cada rotas de comércio internacional e permite conquistar merca-
trabalhador realizava uma etapa na confecção de um único dos ultramarinos. O país possui muitos portos e intenso co-
produto. A ampliação do mercado consumidor relaciona-se mércio costeiro.
diretamente ao alargamento do comércio, tanto em direção ao
oriente como em direção à América. Outra característica des- O liberalismo
se período foi a interferência do capitalista no processo pro- As novidades da Revolução Industrial trouxeram muitas
dutivo, passando a comprar a matéria-prima e a determinar o dúvidas. O pensador escocês Adam Smith procurou respon-
ritmo de produção. der racionalmente às perguntas da época. Seu livro A Riqueza
A partir da máquina ou mquinofatura, fala-se numa pri- das Nações (1776) é considerado uma das obras fundadoras da
meira, numa segunda e até terceira e quarta Revoluções In- ciência econômica. Ele dizia que o egoísmo é útil para a socie-
dustriais. Porém, se concebermos a industrialização como um dade. Seu raciocínio era este: quando uma pessoa busca o me-
processo, seria mais coerente falar-se num primeiro momento lhor para si, toda a sociedade é beneficiada. Exemplo: quando
(energia a vapor no século XVIII), num segundo momen- uma cozinheira prepara uma deliciosa carne assada, você sabe-
to (energia elétrica no século XIX) e num terceiro e quarto ria explicar quais os moti-
momentos, representados respectivamente pela energia nu- vos dela? Será porque ama
clear e pelo avanço da informática, da robótica e do setor o seu patrão e quer vê-lo
de comunicações ao longo dos séculos XX e XXI (aspec- feliz ou porque está pen-
tos, porém, ainda discutíveis). sando, em primeiro lugar,
Na esfera social, o principal desdobramento da revolução nela mesma ou no paga-
foi a transformação nas condições de vida nos países indus- mento que receberá no fi-
triais em relação aos outros países da época, havendo uma mu- nal do mês? De qualquer
dança progressiva das necessidades de consumo da população maneira, se a cozinheira
conforme novas mercadorias foram sendo produzidas. pensa no salário dela, seu
individualismo será bené-
Pioneirismo Inglês fico para ela e para seu pa-
Acúmulo de capital: Depois da Revolução Gloriosa a trão. E por que um açou-
burguesia inglesa se fortalece e permite que o país tenha a mais gueiro vende uma carne
importante zona livre de comércio da Europa. O sistema fi- muito boa para uma pessoa que nunca viu antes? Porque de-
nanceiro é dos mais avançados. Esses fatores favorecem o acú- seja que ela se alimente bem ou porque está olhando para o
mulo de capitais e a expansão do comércio em escala mun- lucro que terá com futuras vendas? Graças ao individualismo
dial. dele o freguês pode comprar boa carne. Do mesmo jeito, os
Controle do campo: Cada vez mais fortalecida, a burgue- trabalhadores pensam neles mesmos. Trabalham bem para po-
sia passa a investir também no campo e cria os cercamentos, der garantir seu salário e emprego. Portanto, é correto afirmar
ou enclousures (grandes propriedades rurais). Novos méto- que os capitalistas só pensam em seus lucros. Mas, para lucrar,
dos agrícolas permitem o aumento da produtividade e racio- têm que vender produtos bons e baratos. O que, no fim, é óti-
nalização do trabalho. Assim, muitos camponeses deixam de mo para a sociedade.
ter trabalho no campo ou são expulsos de suas terras. Vão Então, já que o individualismo é bom para toda a socie-
buscar trabalho nas cidades e são incorporados pela indústria dade, o ideal seria que as pessoas pudessem atender livremen-
nascente. te a seus interesses individuais. E, para Adam Smith, o Estado
Crescimento populacional: Os avanços da medicina é quem atrapalhava a liberdade dos indivíduos. Para o autor
preventiva e sanitária e o controle das epidemias favorecem o escocês, “o Estado deveria intervir o mínimo possível sobre
crescimento demográfico. Aumenta assim a oferta de trabalha- a economia”. Se as forças do mercado agissem livremente, a
dores para a indústria. economia poderia crescer com vigor. Desse modo, cada em-
Reservas de carvão: Além de possuírem grandes reser- presário faria o que bem entendesse com seu capital, sem ter
71
Professor Max Dantas

de obedecer a nenhum regulamento criado pelo governo. Os mento sindical.


investimentos e o comércio seriam totalmente liberados. Sem
a intervenção do Estado, o mercado funcionaria automatica-
mente, como se houvesse uma “mão invisível” ajeitando tudo.
Ou seja, o capitalismo e a liberdade individual promoveria o
progresso de forma harmoniosa.
Thomas Malthus (1766-1834) elaborou a teoria da po-
pulação, apresentada em seu livro “Ensaio sobre o Principio
da população”, publicado em 1798, Segundo ele, a população
crescia em progressão geométrica (1, 21 4, 8, 169 32, 64), com
maior rapidez que os meios de subsistência, que cresciam em
Cartismo
progressão aritmética (1 2, 3, 4, 5, 61 ... ). 0 resultado era a mi-
séria e a pobreza que se assistia na Inglaterra, devido ao dese- Movimento Cartista (1837-1848)
quilíbrio entre os recursos naturais e as necessidades da po- Em sequência veio o movimento “cartista”, organizado
pulação. pela “Associação dos Operários”, que exigia melhores condi-
Malthus era contrário a qualquer tentativa do Estado em ções de trabalho como:
procurar resolver o problema da miséria, como, por exemplo, • particularmente a limitação de 8 horas da jornada de
através das leis dos Pobres, que serviam apenas como estimulo trabalho
ao aumento da população. Um homem que nasce em um mun- • a regulamentação do trabalho feminino
do já ocupado não tem direito a reclamar parcela alguma de • a extinção do trabalho infantil
alimento. No grande banquete da natureza não há lugar para • a folga semanal
ele. A natureza intima-o a sair e não tarda a executar essa inti- • o salário mínimo
mação”.Essa saída a qual Malthus se referia era o aumento aa Além de direitos políticos como: estabelecimento do su-
mortalidade devido à fome. frágio universal e extinção da exigência de propriedade para se
Em defesa dos interesses industriais, colocou-se David integrar ao parlamento e o fim do voto censitário. Esse mo-
Ricardo (1772/1823)- “Princípios de economia políticas e vimento se destacou por sua organização, e por sua forma de
do imposto”, 1817, desenvolvendo a teoria da renda fundi- atuação, chegando a conquistar diversos direitos políticos para
ária. Ele afirmava que o crescimento da população gerava a os trabalhadores.
necessidade do aumento das áreas de cultivo e como os terre-
nos mais férteis já estavam ocupados, era necessário incorpo- As “trade-unions”
rar novas áreas. Estas, por serem menos férteis, exigiam maior Os empregados das fábricas também formaram associa-
adubagem, e trabalho, o que significava preços mais elevados ções denominadas trade unions, que tiveram uma evolução
para os pro dutos agrícolas em geral. Por conseguinte, aumen- lenta em suas reivindicações. Na segunda metade do século
tavam os rendimentos dos donos dos melhores solos. XIX, as trade unions evoluíram para os sindicatos, forma de
organização dos trabalhadores com um considerável nível de
Movimentos dos trabalhadores ideologização e organização, pois o século XIX foi um perío-
Alguns trabalhadores, indignados com sua situação, rea- do muito fértil na produção de idéias antiliberais que serviram
giam das mais diferentes formas, das quais se destacam: à luta da classe operária, seja para obtenção de conquistas na
Movimento Ludista (1811-1812) relação com o capitalismo, seja na organização do movimento
Reclamações contra as máquinas inventadas após a revo- revolucionário cuja meta era construir o socialismo objetivan-
lução para poupar a mão-de-obra já eram normais. Mas foi em do o comunismo. O mais eficiente e principal instrumento de
1811 que o estopim estourou e surgiu o movimento ludista, luta das trade unions era a greve.
uma forma mais radical de protesto. O nome deriva de Ned
Ludd, um dos líderes do movimento. Os luditas chamaram Principais
muita atenção pelos seus atos. Invadiram fábricas e destruíram avanços da ma-
máquinas, que, segundo os luditas, por serem mais eficientes quinofatura
que os homens, tiravam seus trabalhos, requerendo, contudo, • 1733, John Kay
duras horas de jornada de trabalho. Os manifestantes sofreram inventa a lançadeira
uma violenta repressão, foram condenados à prisão, à deporta- volante.
ção e até à forca. Os luditas ficaram lembrados como “os que- • 1767 James Har-
bradores de máquinas”. greaves inventa a
Anos depois os operários ingleses mais experientes adota- “spinning janny”,
ram métodos mais eficientes de luta, como a greve e o movi- que permitia a um
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História Geral

só artesão fiar 80 fios de uma única vez. Consequências da Revolução Industrial


• 1768 James Watt inventa a máquina a vapor. A partir da Revolução Industrial o volume de produção
• 1769 Richard Arkwright inventa a “water frame”. aumentou extraordinariamente: a produção de bens deixou de
• 1779 Samuel Crompton inventa a “mule”, uma com- ser artesanal e passou a ser maquinofaturada; as populações
binação da “water frame” com a “spinning jenny” passaram a ter acesso a bens industrializados e deslocaram-se
com fios finos e resistentes. para os centros urbanos em busca de trabalho. As fábricas pas-
• 1785 Edmond Cartwright inventa o tear mecânico. saram a concentrar centenas de trabalhadores, que vendiam a
sua força de trabalho em troca de um salário.
Fases da Revolução Industrial: Outra das consequências da Revolução Industrial foi o rá-
A primeira fase da revolução industrial (1760-1850) pido crescimento econômico. Antes dela, o progresso econô-
acontece na Inglaterra. O pioneirismo se deve a vários fato- mico era sempre lento (levavam séculos para que a renda per
res, como o acúmulo de capitais e grandes reservas de carvão. capita aumentasse sensivelmente), e após, a renda per capita e
Com seu poderio naval, abre mercados na África, Índia e nas a população começaram a crescer de forma acelerada nunca
Américas para exportar produtos industrializados e importar antes vista na história. Por exemplo, entre 1500 e 1780 a popu-
matérias-primas. lação da Inglaterra aumentou de 3,5 milhões para 8,5, já entre
A segunda fase da re- 1780 e 1880 ela saltou para 36 milhões, devido à drástica redu-
volução (de 1850 a 1914) é ção da mortalidade infantil.
caracterizada pela difusão A Revolução Industrial alterou completamente a maneira
dos princípios de industriali- de viver das populações dos países que se industrializaram. As
zação na França, Alemanha, cidades atraíram os camponeses e artesãos, e se tornaram cada
Itália, Bélgica, Holanda, Esta- vez maiores e mais importantes.
dos Unidos e Japão. Cresce a Na Inglaterra, por volta de 1850, pela primeira vez em um
concorrência e a indústria de grande país, havia mais pessoas vivendo em cidades do que no
bens de produção. Nessa fase as principais mudanças no pro- campo. Nas cidades, as pessoas mais pobres se aglomeravam
cesso produtivo são a utilização de novas formas de energia em subúrbios de casas velhas e desconfortáveis, se compara-
(elétrica e derivada de petróleo), o aparecimento de novos pro- das com as habitações dos países industrializados hoje em dia.
dutos químicos e a substituição do ferro pelo aço. Também Mas representavam uma grande melhoria se comparadas as
cabe destacar a introdução da linha de montagem nas empre- condições de vida dos camponeses, que viviam em choupanas
sas de Henry Ford, para aumentar a produção de automóveis de palha. Conviviam com a falta de água encanada, com os ra-
(Fordismo). tos, o esgoto formando riachos nas ruas esburacadas.
A terceira fase da revolução industrial é a que vai de O trabalho do operário era muito diferente do trabalho
1914 até os dias de hoje. Caracteriza-se pelo surgimento de do camponês: tarefas monótonas e repetitivas. A vida na cida-
grandes complexos industriais e empresas multinacionais e de moderna significava mudanças incessantes. A cada instante,
pela automação da produção. Desenvolvem-se a indústria quí- surgiam novas máquinas, novos produtos, novos gostos, no-
mica e a eletrônica. Os avanços da robótica e da engenharia ge- vas modas.
nética também são incorporados ao processo produtivo, que
depende cada vez menos de mão-de-obra e mais de alta tec- Anotações
no. Nos países de economia mais desenvolvida surge o desem-
prego estrutural. O mercado se globaliza apoiado na expansão
dos meios de comunicação e de transporte.
• Truste - Grupo de empresas dotadas de autonomia ju-
rídica, mas controladas por uma única sociedade matriz.
O truste também pode ser entendido como uma empresa
poderosa, que controla parte significativa ou todo um se-
tor econômico.
• Cartel - Tipo de truste constituído por um grupo de em-
presas juridicamente distintas, que procuram estabelecer,
em comum, os preços de determinados produtos, em de-
trimento das leis de mercado e do consumidor. É também
conhecido como pool.
• Holding - Sociedade financeira, sem atividade produtiva,
que controla ou dirige, por intermédio de participações,
empresas com personalidade jurídica própria.
73
Professor Max Dantas

Independência dos EUA vam estes produtos para a Inglaterra e trocavam por tecidos e
A Independência dos Estados Unidos é considerada a pri- ferragens, trazidos para o ponto inicial do triângulo. Também
meira revolução americana (a segunda foi a Guerra de Seces- foi muito ativo o triângulo iniciado com o transporte de peixe,
são, também nos Estados Unidos). Ela foi um marco na crise cereais e madeira para Espanha e Portugal, de onde levavam
do Antigo Regime porque rompeu a unidade do sistema co- para a Inglaterra sal, frutas e vinho, trocados por manufatura-
lonial. dos que traziam de volta à América.
As treze colônias As leis inglesas de navegação não impediam o desenvolvi-
americanas se formaram mento da colônia porque não eram aplicadas. Mas quando o
a partir do século XVII. comércio colonial começou a concorrer com o comércio me-
Nos fins do século XVIII, tropolitano, surgiram atritos que culminaram com a emancipa-
havia 680 000 habitantes ção das treze colônias.
no norte, ou Nova Ingla-
terra: Massachusetts, Mudança na política: os atos intoleráveis
Nova Hampshire, Rho- O crescimento do comércio colonial fez a Inglaterra mu-
de Island e Connecticut; dar de política. Um dado conjuntural contribuiu para a mu-
530 000 no centro: Pensil- dança: a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), entre Inglaterra
vânia, Nova York, Nova e França. Vencedora, a Inglaterra se apossou de grande parte
Jersey e Delaware; e 980 do Império Colonial Francês, especialmente terras a oeste das
000 no sul: Virgínia, Ma- treze colônias americanas. O Parlamento inglês decidiu que os
ryland, Carolina do Nor- colonos deviam pagar parte dos custos da guerra. O objetivo
te, Carolina do Sul e Ge- era aumentar as taxas e os direitos da Coroa na América. Os
órgia. Ao todo, mais de 2 ingleses também eram movidos pelo comportamento dos co-
milhões de colonizadores. lonos, que não haviam colaborado com material e homens; ao
contrário, aproveitaram a guerra para lucrar, comerciando com
Desenvolvimento desigual os franceses no Canadá e nas Antilhas.
No centro-norte, predominavam as pequenas e médias A política repressiva dos ingleses, aliada a fatores cultu-
propriedades, tocadas por europeus exilados por motivos po- rais, como a influência do iluminismo, teve papel importan-
líticos ou religiosos. Havia também o trabalho de servos tem- te no processo revolucionário americano. George Grenville,
porários, que trabalhavam de quatro a sete anos para pagar o primeiro-ministro inglês, decidiu colocar na colônia uma força
transporte para a América, financiado pelos proprietários ca- militar de 10000 homens, acarretando uma despesa de 350000
rentes de mão-de-obra. Seus produtos eram semelhantes aos libras. O Parlamento inglês aprovou duas leis para arrecadar
europeus; apenas madeira, produtos de pesca e petrechos na- um terço da quantia: a Lei do Açúcar (Sugar Act) e a Lei do
vais atraíam o interesse do importador inglês. Isto desestimu- Selo (Stamp Act).
lou o comércio da Inglaterra com a região, pois, não havendo A Lei do Açúcar (1764) prejudicava os americanos, pois
carga de torna-viagem, o frete ficava caro. Assim, apesar da taxava produtos que não viessem das Antilhas Britânicas e
proibição de manufaturas nas colônias, os ingleses permitiram acrescentava vários produtos à lista dos artigos enumerados,
aos colonos do centro-norte uma quase autonomia industrial. que só poderiam ser exportados para a Inglaterra. A Lei do
Manufaturas e policultura trouxeram desenvolvimento Selo (1765) exigia a selagem até de baralhos e dados. Os colo-
econômico e o excedente logo buscou os mercados do sul, de- nos protestaram, argumentando que se tratava de imposto in-
pendente da metrópole, para onde exportava tabaco, anil e al- terno, e não externo como de costume, e que não tinham re-
godão e de onde importava manufaturados e demais produtos. presentação no Parlamento que havia votado a lei. Reuniu-se
Com esse tipo de economia, no sul prevalecia a grande pro- então em Nova York, em 1765, o Congresso da Lei do Selo,
priedade escravista, com reduzido trabalho livre e monocultu- que, declarando-se fiel à Coroa, decidiu boicotar o comércio
ra voltada à exportação. inglês. Os comerciantes ingleses pressionaram o Parlamento e
Já os nortistas ultrapassaram as fronteiras coloniais. Or- a Lei do Selo foi revogada.
ganizaram triângulos comerciais. O mais conhecido começava Os colonos continuaram contestando o direito legislativo
com o comércio de peixe, madeira, gado e produtos alimen- do Parlamento inglês. Recusaram­se a cumprir a Lei de Aquar-
tícios com as Antilhas, onde compravam melaço, rum e açú- telamento (1765), que exigia dos colonos alojamento víveres
car. Em Nova York e Pensilvânia, transformavam o melaço e transporte para as tropas enviadas à colônia. Ao substituir
em mais rum, que trocavam por escravos na África. Os escra- Grenville, o primeiro-ministro Charles Townshend baixou
vos iam para as Antilhas ou colônias do sul. Outro triângulo em 1767 atos baseados num princípio: se os colonos não que-
começava na Filadélfia, Nova York ou Newport, com carre- riam pagar impostos internos, pagassem então os externos,
gamentos que trocavam na Jamaica por melaço e açúcar; leva- isto é, impostos sobre produtos importados, como chá, vidro,
74
História Geral

papel, zarcão, corantes. Era impossível burlar a lei, diante da te em setembro de 1774, quando as Leis Intoleráveis determi-
criação da Junta Alfandegária Americana, que ainda executaria naram a convocação do Primeiro Congresso Continental
os odiados Mandados de Busca. O boicote funcionou nova- de Filadélfia, de caráter não-separatista: Ele enviou petição
mente e o comércio inglês se reduziu a um terço do normal. ao rei e ao Parlamento pedindo a revogação daquelas leis, em
Mais uma vez os importadores agiram e, em 1770, foram abo- nome da igualdade de direitos dos colonos. Em 1775, um con-
lidos os Atos Townshend, exceto o imposto sobre o chá. flito em Lexington provocou a morte de alguns colonos e eles
A crise explodiu em 1773 com a Lei do Chá (Tea Act), passaram a or-
que dava o monopólio desse comércio à Companhia das Ín- ganizar-se mili-
dias Orientais, onde vários políticos ingleses tinham interes- tarmente.
ses. A Companhia transportaria o chá diretamente das Índias O rei decla-
para a América. Os intermediários tiveram grande prejuízo e fi- rou os america-
cou aberto um precedente perigoso: quem garantia que o mes- nos em rebeldia
mo não seria feito com outros produtos? A reação não demo- e os colonos
rou. No porto de Boston, comerciantes disfarçados de índios passaram à re-
mohawks destruíram trezentas caixas de chá tiradas dos bar- volta aberta.
cos, no episódio conhecido como A Festa do Chá de Boston Um panfleto
(The Boston Tea Party). de Tom Paine, Bom Senso, exortava à luta por liberdade. Em
Se o Parlamento cedesse, jamais recuperaria o controle da 1776, a Virgínia tomou a iniciativa e declarou-se independen-
situação. Agiu energicamente. Votou as Leis Intoleráveis em te, com uma explícita Declaração dos Direitos do Homem.
1774: o porto de Boston estava interditado até o pagamen- O Segundo Congresso de Filadélfia, reunido desde 1775,
to dos prejuízos; funcionários ingleses que praticassem crimes já manifestava caráter separatista. George Washingtonton,
durante as investigações seriam julgados em outra colônia ou da Virgínia, foi nomeado comandante das tropas americanas
na Inglaterra; o governador de Massachusetts teria poderes ex- e encarregou uma comissão, liderada por Thomas Jefferson,
cepcionais; tropas inglesas ficariam aquarteladas em Boston. de redigir a Declaração da Independência. Em 4 de julho de
Até aqui está evidente a oposição dos grupos mercantis 1776, reunidos na Filadélfia, delegados de todos os territórios
da colônia aos ingleses, bem como as causas. Mas por que os promulgaram o documento, com mudanças introduzidas por
agricultores ficaram ao lado dos comerciantes contra a metró- Benjamin Franklin e Samuel Adams.
pole? A Guerra da Independência começa em março de 1775:
Até 1763, o governo inglês havia estimulado a ocupação os americanos tomam Boston. Tinham força de vontade, mas
das terras rumo ao oeste, como forma de combater as preten- interesses divergentes e falta de organização. Das colônias do
sões francesas e espanholas. Desaparecidas as ameaças, seria Sul, só a Virgínia agia com decisão. Os canadenses permane-
preferível conter a população no litoral, para facilitar o con- ceram fiéis à Inglaterra. Os voluntários do exército, alistados
trole político-fiscal. Além disso, os ingleses controlavam o co- por um ano, volta e meia abandonavam a luta para cuidar de
mércio de peles com os índios e não desejavam a intromissão seus afazeres. Os oficiais, geralmente estrangeiros, não esta-
dos colonos. Por fim, agora que as terras estavam valoriza- vam envolvidos no conflito. Vencidos em Nova York e Fila-
das, a Coroa podia passar a vendê-las. Tais motivos explicam délfia (1777), os colonos ganharam novo ânimo ao ganhar a
a Proclamação Régia de 1776, que demarcava as terras além batalha de Saratoga.
dos Aleghanis como reserva indígena. Em 1764, a Coroa com- A intervenção francesa foi decisiva. Os franceses estavam
pletou a política de contenção do pioneirismo com o Ato de afinados com os ideais de liberdade do movimento, estimula-
Quebec, pelo qual o governador de Quebec passaria a contro- dos pela propaganda feita por Franklin e motivados pela in-
lar grande parte das terras do centro-oeste. tenção de golpear a Inglaterra, que lhes havia imposto pesadas
Os pioneiros iam vendendo suas terras e avançando so- perdas em 1763. Assinaram um tratado, transferindo dinhei-
bre terras virgens. As novas leis decretavam sua falência. O ro aos americanos e buscando a aliança dos espanhóis contra
grande proprietário sulista, também sempre endividado com os ingleses. Com a ajuda marítima francesa, a guerra ampliou-
o comerciante importador e exportador da Inglaterra, sofre- se para o Caribe e as Índias. Em 1779, La Fayette conseguiu
ria igual destino, pois só se salvava ocupando novas terras. A a liberação de 7 500 franceses comandados pelo general Ro-
Lei da Moeda. (Currence Act) de 1764, proibindo a emissão chambeau. Em 1781, sitiado em Yorktown, o exército inglês
de dinheiro na colônia, limitava a alta de preços dos produtos capitulou.
agrícolas e tornava ainda mais difícil a situação dos plantado- O Tratado de Versalhes, em 1783, reconheceu a inde-
res. pendência dos Estados Unidos da América, com fronteiras
nos Grandes Lagos e no Mississipi. A França recuperou Santa
O longo processo (1776-1783) Lúcia e Tobago nas Antilhas e seus estabelecimentos no Sene-
O processo da Independência tem importante anteceden- gal. A Espanha recebeu a ilha de Minorca e a região da Fló-
75
Professor Max Dantas

rida.
Em 1787, os Estados Unidos proclamaram sua primeira
Constituição. Resumia a tendência republicana defendida por
Jefferson, que queria grande autonomia política para os Esta-
dos membros da federação; e a tendência federalista, que lu-
tava por um poder central forte. O presidente seria eleito pelo
período de quatro anos por representantes das Assembléias
dos cidadãos. Duas casas comporiam o Congresso: a Câmara
dos Representantes, com delegados de cada Estado na propor-
ção de suas populações; e o Senado, com dois representantes
por Estado. O Congresso votaria leis e orçamentos. O Senado
velaria pela política exterior principalmente. Uma Corte Su-
prema composta por nove juízes indicados pelo presidente re-
solveria os conflitos entre Estados e entre estes e a União. Em
suas linhas mestras, tais princípios constitucionais permane-
cem até hoje.

Anotações
A
Idade Contemporânea é um tempo histórico em
aberto. Compreendendo o final do século XVIII
até os dias atuais, a contemporaneidade atrai o in-
teresse de muitas pessoas devido à emergência e o apelo que as
questões históricas e filosóficas observadas neste período trazem à
tona. O desenvolvimento do capitalismo e a ascensão dos valores
de um mundo em “progresso ininterrupto” figuram importantes
fatos e correntes de pensamento do século XIX. No último sé-
culo, os problemas e transformações de um mundo globalizado
fizeram desta época, conforme apontado pelo historiador Eric J.

Idade Contemporânea
Hobsbawn, um século “breve”.
77
Professor Max Dantas

Revolução Francesa Primeiro Estado -


Foi um processo social e político ocorrido na França entre era o clero francês e es-
1789 e 1799, cujas principais consequências foram à queda de tava dividido em alto e
Luís XVI, a abolição da monarquia e a proclamação da Repú- baixo. O alto clero era
blica, que poria fim ao Antigo Regime. composto por elemen-
As causas determinantes de tal processo estavam na inca- tos vindos das ricas fa-
pacidade das classes dominantes (nobreza, clero e burguesia) mílias da nobreza, pos-
de enfrentar os problemas do Estado, a indecisão da monar- suíndo toda a sorte de
quia, o excesso de impostos que pesavam sobre os campone- privilégios, inclusive o
ses, o empobrecimento dos trabalhadores, a agitação intelec- de não pagar impostos.
tual estimulada pelo Século das Luzes e o exemplo da Guerra O baixo clero era o po-
da Independência norte-americana. bre, estando ligado ao
A Revolução é considerada como o acontecimento que povo em geral e não à
deu início à Idade Contemporânea. Aboliu a servidão e os di- nobreza, como o pri-
reitos feudais e proclamou os princípios universais de “Liber- meiro.
O Terceiro-Estado carregando o Primeiro e o
dade, Igualdade e Fraternidade” (Liberté, Egalité, Frater- Segundo Estado - Segundo Estados nas costas.
nité), frase de autoria de Jean-Jacques Rousseau. Para a França, era a nobreza em geral. Os privilégios eram incontáveis, sendo
abriu-se em 1789 o longo período de convulsões políticas do que o mais importante era a isenção de impostos. Ha que se
século XIX, fazendo-a passar por várias repúblicas, uma dita- salientar aqui que a nobreza também estava dividida: a nobre-
dura, uma monarquia constitucional e dois impérios. za cortesã, que vivia no palácio, e outros setores da nobreza,
que viviam na corte, recebendo pensões do Rei, onerando os
A situação da França antes da revolução seus castelos, no campo, as custas do trabalho de seus servos.
A economia À medida que a crise aumentava, essa nobreza que viviam no
A situação econômica da França era crítica. A maioria da campo aumentava a pressão sobre seus servo, favorecendo o
renda vinha da agricultura, onde as técnicas eram atrasadas em clima de insatisfação.
relação ao consumo do país. Dos 26 milhões de habitantes, 20 Terceiro Estado - era constituído de todos aqueles que
milhões viviam no campo em condições de vida extremamen- não pertenciam nem ao Primeiro nem ao Segundo Estado.
te precárias. Uma parte dos camponeses estava ainda sob o re- Afinal, o que era o Terceiro Estado?
gime de servidão. Era o setor da sociedade francesa composto pela maioria
Um comerciante, para transportar suas mercadorias de esmagadora da população, sobre cujos ombros recaia todo o
um lado para outro do país, teria que passar pelas barreiras al- peso de sustentação do reino francês. Esse setor era composto,
fandegárias das propriedades feudais, pagando altíssimos im- na sua maioria, pelos camponeses que, com um árduo traba-
postos, o que impedia os comerciantes de venderem livremen- lho, forneciam os alimentos para toda a França, além de terem
te suas mercadorias. de pagar pesadíssimos impostos.
Para piorar a situação, parece que ate a natureza ajudou a Finalmente, os membros mais destacados do Terceiro Es-
revolução: entre os anos de 1784 a 1785 houve inundações e tado, quanto à liderança: a burguesia. Esta se dividia em peque-
secas alienadamente, fazendo com que os preços dos produ- nos burgueses (pequenos comerciantes, artesãos), uma camada
tos ora subissem, não dando condições para que os pobres média (composta de lojistas, profissionais liberais) e a alta bur-
comprassem, ora descessem, levando alguns pequenos pro- guesia (grandes banqueiros, comércio exterior).
prietários à falência. O Terceiro Estado será aquele que, pelo peso das respon-
A situação da indústria francesa não era melhor, pois par- sabilidades, se levantará contra a opressão do Estado Absolu-
te dela ainda estava sob o sistema rural e doméstico, e as cor- tista. Os camponeses terão papel importante, os pobres das
porações (grêmios) impediam o desenvolvimento de novas cidades também, mas a liderança e os frutos dessa revolução
técnicas. Como se não bastasse, o governo francês assinou caberão a uma fração do Terceiro Estado: a burguesia.
o seguinte tratado com o governo inglês: os franceses vende- A política na França pré-revolucionária mostrava os sinais
riam vinhos para os ingleses, e estes venderiam panos para os da decadência acumulada dos outros Reis absolutos, principal-
franceses, sem pagar impostos, o que levou as manufaturas mente um déficit crônico no reinado Luís XVI, que subiu ao
francesas a não suportarem a concorrência dos tecidos ingle- trono em 1774.
ses, entrando numa grave crise. As críticas ao regime aumentavam dia-a-dia. Os intelec-
tuais, baseando-se nas teorias dos iluministas, não poupavam
A sociedade seus escritos para criticar desesperadamente o regime.
A sociedade francesa, na época, estava dividida em três
partes, conhecidas como Estados:
78
História Geral

A revolta aristocrática dual, pois contava com 578 deputados, contra 270 da nobreza
A indústria sofreu séria crise a partir dê 1786. Um trata- e 291 do clero, ou seja, tinha maioria absoluta. E ainda conta-
do permitiu quê produtos agrícolas franceses tivessem plena va com os votos de 90 deputados da nobreza esclarecida e 200
liberdade na Inglaterra em troca da penetração dê produtos in- do baixo clero.
gleses na França. A principiante indústria francesa não aguen-
tou a concorrência.
A seca de 1788 diminuiu a produção de alimentos. Os pre-
ços subiram e os camponeses passavam fome. Havia miséria
nas cidades. A situação do tesouro piorou depois quê a Fran-
ça apoiou a Independência dos Estados Unidos, aventura que
lhe custou 2 bilhões de libras. O descontentamento era geral.
Urgiam medidas para sanear o caos. Luís XVI encarregou o
ministro Turgot de realizar reformas tributárias, mas os no-
bres reagiram e ele se demitiu. O rei então indicou Calonne,
que convocou a Assembléia dos Notáveis, de nobres e clérigos
(1787). O ministro propôs que esses dois estados abdicassem
dos privilégios tributários e pagassem impostos, para tirar o
Estado da falência. Os nobres não só recusaram como provo-
caram revoltas nas províncias onde eram mais fortes. Seção Inaugural dos Estados Gerais
O novo ministro, Necker, convenceu o rei a convocar a
Assembléia dos Estados Gerais, que não se reunia desde O terceiro estado queria que a votação fosse individual,
1614. As eleições dos candidatos para a Assembléia realiza- por deputado, porque, contando com votos do baixo clero e
ram-se em abril de 1789 e coincidiram com revoltas geradas da nobreza liberal, conseguiria reformar o sistema tributário
pela péssima colheita desse ano. Em Paris, os panfletos dos do reino. Ante a impossibilidade de conciliar tais interesses,
candidatos atacavam os erros do Antigo Regime e agitavam os Luís XVI tentou dissolver os Estados Gerais, impedindo a en-
sans-culottes, isto é, os sem-calções, em alusão a peça de roupa trada dos deputados na sala das sessões. Os representantes do
dos nobres, que os homens do povo não usavam. Terceiro Estado rebelaram-se e invadiram a sala do jogo da
péla (espécie de tênis em quadra coberta), em 15 de junho de
A Assembléia Constituinte 1789, e transformaram-se na Assembléia Nacional, jurando só
Os deputados dos três estados eram unânimes em um se separar após a votação de uma constituição para a França
ponto: desejavam limitar o poder real, à semelhança do que se (Juramento da Sala do Jogo da Péla). Em 9 de julho de 1789,
passava na vizinha Inglaterra e que igualmente tinha sido asse- juntamente com muitos deputados do baixo clero, os Estados
gurado pelos norte-americanos nas suas constituições. No dia Gerais autoproclamaram-se Assembléia Nacional Consti-
5 de maio, o rei mandou abrir a sessão inaugural dos Estados tuinte.
Gerais e, em seu discurso, advertiu que não se deveria tratar de O rei decidiu reagir fechando a Assembléia, mas foi impe-
política, isto é, da limitação do poder real, mas apenas da reor- dido por uma sublevação popular em Paris, reproduzida a se-
ganização financeira do reino e do sistema tributário. guir em outras cidades e no campo.
O Conde de Artois (futuro Carlos X) e outros dirigen-
Sessão inaugural dos Estados Gerais, em Versa- tes reacionários, defrontados a tais ameaças, fugiram do país,
lhes (1789). transformando-se no grupo dos émigrés. A burguesia pari-
O clero e a nobreza tentaram diversas manobras para con- siense, temendo que a população da cidade aproveitasse a que-
ter o ímpeto reformista do Terceiro Estado, cujos representan- da do antigo sistema de governo para recorrer à ação dire-
tes comparecem à Assembléia apresentando as reclamações do ta, apressou-se a estabelecer um governo provisório local, a
povo, materializadas nos “Cahiers de Doléances”. Os depu- Comuna. Este governo popular, em 13 de julho, organizou a
tados da nobreza e do clero queriam que as eleições fossem Guarda Nacional, uma milícia burguesa para resistir tanto a
por estado (clero, um voto; nobreza, um voto; povo, um voto), um possível retorno do rei, quanto a uma eventual mais vio-
pois assim, já que clero e a nobreza comungavam os mesmos lenta da população civil, cujo comando coube ao deputado
interesses, garantiriam seus privilégios. da Assembléia e herói da independência dos Estados Unidos,
Em maio de 1789, os Estados Gerais se reuniram no Pa- Marie Joseph Motier, o Marquês de La Fayette.
lácio de Versalhes pela primeira vez. O terceiro estado foi in- Enquanto isso, os acontecimentos precipitaram-se e a agi-
formado de que os projetos seriam votados em separado, por tação tomou conta das ruas: em 13 de julho constituíram-se as
estado. Isto daria vitória à nobreza e ao clero, sempre por 2 a Milícias de Paris, organizações militares-populares. No dia 14
1. O terceiro estado rejeitou a condição. Queria votação indivi- de julho, populares armados invadiram o Arsenal dos Inváli-
79
Professor Max Dantas

necesse em seu posto.


A partir daí uma grande agitação tem início, pois seria vo-
tada e aprovada a Constituição de 1791. Esta constituição esta-
belecia, na França, a Monarquia Parlamentar, ou seja, o Rei fi-
caria limitado pela atuação do poder legislativo (Parlamento).
Neste poder, o legislativo era escolhido através do voto
censitário e isso equivalia dizer que o poder continuava nas
mãos de uma minoria, de uma parte privilegiada da burguesia.
Resumindo, o que temos é uma Monarquia Parlamentar do-
minada pela alta burguesia e pela aristocracia liberal, liderada,
por exemplo, pelo famoso La Fayette, é o total afastamento do
povo francês.
Os setores populares estavam descontentes, porque con-
tinuavam ainda sob o despotismo, não o da monarquia abso-
Queda da Bastilha (1789) luta, mas o despotismo dos homens do dinheiro, setores tradi-
dos, à procura de munições e, em seguida, invadiram a Basti- cionais da nobreza e do clero conspiravam, com a anuência do
lha , uma fortaleza que fora transformada em prisão política, Rei, para tentar restaurar o antigo regime.
mas que já não era a terrível prisão de outros tempos. Dentro
da prisão, estavam apenas sete condenados: quatro por roubo, Os grupos políticos organizavam-se para definir
dois nobres por comportamento imoral, e um por assassínio. suas posições:
A intenção inicial dos rebeldes ao tomar a Bastilha era se apo- No recinto da Assem-
derar da pólvora lá armazenada. Caiu assim um dos símbo- bléia, sentava-se à esquer-
los do Absolutismo. A Queda da Bastilha causou profunda da o partido liderado por
emoção nas províncias e acelerou a queda dos intendentes. Or- Robespierre, que se apro-
ganizaram-se novas municipalidades e guardas nacionais. ximava do povo: eram os
Jacobinos ou Montanhe-
Assembléia Nacional Constituinte (1789-1792) ses (assim chamados por se
A partir de então, a revolução estendeu-se ao campo, com sentarem nas partes mais al-
maior violência: os camponeses saquearam as propriedades tas da Assembléia); ao lado,
feudais, invadiram e queimaram os castelos e cartórios, para um pequeno grupo ligado
destruir os títulos de propriedade das terras (fase do Gran- aos Jacobinos, chamados
de Medo). Temendo o radicalismo, na noite de 4 de agosto, a Cordeliers, onde apareceram nomes como Marat, Danton,
Assembléia Nacional Constituinte aprovou a abolição dos di- Hebert e outros; no centro, sentavam-se os constituciona-
reitos feudais, gradualmente e mediante amortização, além de listas, defensores da alta burguesia e a nobreza liberal, grupo
as terras da Igreja haverem sido confiscadas. Daí por diante, a que mais tarde ficará conhecido pelo nome de planície; à di-
igualdade jurídica seria a regra. reita, ficava um grupo que mais tarde ficará conhecido como
Um dos atos mais importantes da Assembléia foi o con- Girondinos, defensores dos interesses da burguesia francesa e
fisco dos bens do clero francês, que seriam usados como uma que temiam a radicalização da revolução; na extrema direita,
espécie de lastro para os bônus emitidos para superar a crise encontram-se alguns remanecentes da aristocracia que ainda
financeira. Parte do clero reage e começa a se organizar Como não emigrara, conhecidos pelo nome de negros ou aristocra-
resposta, a Assembléia decreta a Constituição Civil do Cle- tas, que pretendiam a restauração do poder absoluto.
ro isto é, o clero passa a ser funcionário do Estado, e qualquer
gesto de rebeldia levara a prisão. Convenção Nacional
A situação estava muito confusa. A Assembléia não con- (1792-1795)
seguia manter a disciplina e controlar o caos econômico. O A mobilização dos exércitos
Rei entra em contato com os emigrados no exterior (principal- populares gerou uma nova etapa
mente na Prússia e na Áustria) e começam a conspirar para in- na Revolução Francesa. Dispondo
vadir a França, derrubar o governo revolucionário e restaurar das armas e favoráveis à radicali-
o absolutismo. zação do processo revolucioná-
Para organizar a contra-revolução, o monarca foge da rio, os sans-cullotes tornaram-se
França para a Prússia, mas no caminho e reconhecido por maioria nas sessões da assembléia
camponeses, é preso e enviado à Paris. Na capital, os setores francesa. Em consequência ao
mais moderados da Assembléia conseguiram que o Rei perma- predomínio das alas radicais, o
80
História Geral

novo governo ordenou a execução de Luís XVI em janeiro de


1793. Assustados com a radicalização do processo, os países
absolutistas resolveram se mobilizar contra a revolução.
A Inglaterra, que temia a concorrência comercial de uma
fortalecida burguesia francesa, financiou os exércitos da Pri-
meira Coligação. Formado por tropas, espanholas, austríacas,
prussianas e holandesas um exército internacional se juntou
contra a revolução. Ao mesmo tempo em que esses exércitos
se organizavam, a instabilidade política e econômica tomava o
país de assalto.
Em junho de 1793 os jacobinos impeliram os sans-cu-
Execução de Robespierre, marcou o fim do Terror e do poder jacobino
lottes a perseguir e prender os girondinos. Com isso, Marat,
Hébert, Danton e Robespierre formaram a chamada Con- torno da Alta Burguesia ao poder e pelo aumento do prestí-
venção Montanhesa ou Jacobina. Nessa nova etapa, a Con- gio do Exército apoiado nas vitórias obtidas nas Campanhas
venção passou a contar com uma série de comitês responsá- externas.
veis por diferentes tarefas. Uma nova constituição entregou o Poder Executivo ao
O Comitê de Salvação Nacional era responsável por Diretório, uma comissão constituída de cinco diretores elei-
conter as revoltas internas. O Comitê de Salvação Pública tos por cinco anos. Esta carta previa o direito de voto mas-
comandava os exércitos e administrava as finanças públicas, li- culino aos alfabetizados. O poder legislativo era exercido por
derado por Robespierre. Por último, o Tribunal Revolucioná- duas câmaras, o Conselho dos Anciãos e o Conselho dos Qui-
rio prendia e julgava os traidores da revolução. nhentos.
A instabilidade política e o clima de desordem pioraram Era a república dos proprietários que enfrentavam uma
entre 1793 e 1794. Sob o mando de Robespierre o chamado grave crise financeira. Registra-se uma oposição interna ao go-
Era do Terror se instalou nas ruas de Paris. Várias pessoas, verno devido à crise econômica e à anulação das conquistas
consideradas traidoras do ideal revolucionário, foram julgadas sociais jacobinas. Tentativas de golpe à direita (monarquistas
e executadas sumariamente. Várias leis de forte apelo popular ou realistas) e à esquerda (jacobinos) ocorreram neste perío-
foram instauradas. do.
O tabelamento dos preços, estabelecido pela Lei do Pre- As ações contra o novo governo se sucediam. Em 1795,
ço Máximo ou Máximo Geral, tentava controlar o processo um golpe realista foi abortado em Paris. Aproveitando o des-
inflacionário da economia com o objetivo de ajudar as clas- contentamento dos sans-culottes, os remanescentes jacobinos
ses desfavorecidas. Vários bens da Igreja e da nobreza foram tentaram organizar em 1796 a chamada Conjuração ou Cons-
vendidos em leilões públicos. O ensino público gratuito tam- piração dos Iguais, liderada por François Noël Babeuf (mais
bém foi outra grande medida dos revolucionários girondinos. conhecido como Graco Babeuf). Os seguidores desse movi-
No plano exterior, ordenaram o fim da escravidão colonial in- mento popular, com algumas pinceladas socialistas, desejavam
centivando novos processos de independência no continente não apenas igualdades de direitos (igualdade perante a lei), mas
americano. também igualdade nas condições de vida. Babeuf achava que
A onda de prisões e assassinatos, a pressão das forças mi- a única maneira de alcançar a igualdade era com a abolição da
litares externas e o enfraquecimento da economia causaram propriedade privada. A insurreição foi denunciada antes mes-
a desorientação dos radicais. A desordem chegou a tal ponto mo de se iniciar e seus líderes, Graco Babeuf e Buonarroti, fo-
que os próprios jacobinos foram vitimas de perseguição políti- ram condenados à guilhotina. As idéias de Babeuf, entretanto,
ca. Perdidos no calor dos problemas que afligiam a revolução serviram de base para a luta da classe operária no século XIX.
os jacobinos pereceram frente ao golpe político organizado Externamente, entretanto, o exército acumulava vitórias
pela burguesia. contra as forças absolutistas de Espanha, Holanda, Prússia e
Em 27 de julho de 1794, os girondinos retiraram Robes- reinos da Itália, que, em 1799, formaram a Segunda Coliga-
pierre do comando da Convenção na Reação Termidoria- ção contra a França revolucionária.
na. Com a volta do projeto político da alta burguesia, as leis O governo não era respeitado pelas outras camadas so-
populares foram revogadas e uma nova constituição elabora- ciais. Os burgueses mais lúcidos e influentes perceberam que
da. Os setores populares foram excluídos dos quadros políti- com o Diretório não teriam condição de resistir aos inimigos
cos. O novo governo seria exercido por um diretório escolhi- externos e internos e manter o poder. Eles acreditavam na ne-
do por cinco membros escolhidos pelos deputados. cessidade de uma ditadura militar, uma espada salvadora, para
manter a ordem, a paz, o poder e os lucros.
Diretório Nacional- (1795-1799) A figura que sobressai no fim do período é a de Napo-
O Diretório foi uma fase conservadora, marcada pelo re- leão Bonaparte. Ele era o general francês mais popular e fa-
81
Professor Max Dantas

moso da época. Quando estourou a revolução, era apenas um


simples tenente e, como os oficiais oriundos da nobreza aban-
donaram o exército revolucionário ou dele foram demitidos,
fez uma carreira rápida. Aos 24 anos já era general de brigada.
Após um breve período de entusiasmo pelos jacobinos, che-
gando até mesmo a ser amigo dos familiares de Robespier-
re, afastou-se deles quando estavam sendo depostos. Lutou na
Revolução contra os países absolutistas que invadiram a Fran-
ça e foi responsável pelo sufocamento do golpe de 1795.
Enviado ao Egito para tentar interferir nos negócios do
império inglês, o exército de Napoleão foi cercado pela mari-
nha britânica nesse país, então sobre tutela inglesa. Napoleão
abandonou seus soldados e, com alguns generais fiéis, retor-
nou à França, onde, com apoio de dois diretores e de toda a
grande burguesia, suprimiu o Diretório e instaurou o Consu-
lado, dando início ao período napoleônico em 18 de Bru-
mário (10 de Novembro de 1799).

Anotações
82
História Geral

Era Napoleônica (1799-1815) história francesa e, consequentemente, da Europa: a Era Na-


poleônica.
Napoleão Bonaparte Pode-se dividir seu governo em três partes:
Napoleão Bonaparte tornou- • Consulado (1799-1804)
se uma figura importante no ce- • Império (1804-1815)
nário político mundial da época, • Governo dos Cem Dias (1815)
já que esteve no poder da Fran-
ça durante 15 anos e nesse tem- Consulado (1799-1804)
po conquistou grandes partes do Instalou-se o governo do consulado de Napoleão após a
continente europeu. Os biógrafos queda do Diretório. O período do consulado possuía caracte-
afirmam que seu sucesso deu-se rísticas republicanas, além de ser centralizado e dominado por
devido ao seu talento como estra- militares. No poder Executivo, três pessoas eram responsá-
tegista, empolgando os soldados veis: os cônsules Roger Ducos, Emmanuel Sieyès e o próprio
com promessas de riqueza e glória Napoleão. Apesar da presença de outros dois cônsules, quem
após vencidas as batalhas, além do mais tinha influência e poder no Executivo era Napoleão, que
seu espírito de liderança. foi eleito primeiro-cônsul da República.
O governo do Diretório foi derrubado na França sob o Criavam-se instituições novas, com cunho democrático,
comando de Napoleão Bonaparte, que, junto com a burguesia, para disfarçar o seu centralismo no poder. As instituições cria-
instituiu o consulado, primeira fase do governo de Napoleão. das foram o Senado, o Tribunal, o Corpo Legislativo e o
Este golpe ficou conhecido como ‘Golpe 18 de Brumário’ Conselho de Estado. Mas o responsável pelo comando do
(data que corresponde ao calendário estabelecido pela Revo- exército, pela política externa, pela autoria das leis e quem no-
lução Francesa e equivale a 9 de novembro do calendário gre- meava os membros da administração era o primeiro-cônsul.
goriano) em 1799. Muitos historiadores alegam que Napoleão Quem estava no centro do poder na época do consulado
fez questão de evitar que camadas inferiores da população su- era a burguesia (os industriais, os financistas, comercian-
bissem ao poder. tes), e consolidaram-se como o grupo dirigente na França.
Abandonaram-se os ideais “liberdade, igualdade, fraternidade”
da época da Revolução Francesa, e mediante forte censura à
imprensa e ação violenta dos órgãos policiais, desmanchou-se
a oposição ao governo.

Reforma dos setores do governo francês


Durante o período do consulado, ocorreu uma recupera-
ção econômica, jurídica e administrativa na França.
* Economia - criou-se o Banco da França, em 1800, re-
gulando-se a emissão de moedas, reduzindo-se a inflação. As
tarifas impostas eram protecionistas (ou seja, com aumento
de impostos para a importação de produtos estrangeiros); o re-
sultado geral foi uma França com comércio e indústria for-
talecidos, principalmente com os estímulos à produção e ao
consumo interno.
* Religião - com o objetivo de usar a religião como ins-
trumento de poder político, Napoleão assinou um acordo, a
Concordata de 1801, entre a Igreja Católica e o Estado.
Era napoleônica O acordo, sob aprovação do Papa Pio VII, dava direito ao
A sociedade francesa estava passando por um momento governo francês de confiscar as propriedades da Igreja e, em
tenso com os processos revolucionários ocorridos no país, de troca, o governo teria de amparar o clero. Napoleão reconhe-
um lado com a burguesia insatisfeita com os jacobinos, for- cia o catolicismo como religião da maioria dos franceses, mas
mados por monarquistas e revolucionários radicais, e do outro se arrogava o direito de escolher bispos, que mais tarde seriam
lado as tradicionais monarquias européias, que temiam que os aprovados pelo papa.
ideais revolucionários franceses se difundissem por seus rei- * Direito - estabeleceu-se o Código Napoleônico, um
nos. Código Civil, em 1804, representando em grande parte inte-
O fim do processo revolucionário na França, com o Gol- resses dos burgueses, como casamento civil (separado do reli-
pe 18 de Brumário, marcou o início de um novo período na gioso), respeito à propriedade privada, direito à liberdade indi-
83
Professor Max Dantas

vidual e igualdade de todos ante a lei. Está em vigor até hoje,


embora com consideráveis alterações legislativas posteriores.
Napoleão também instituiu em 1809 um Código Penal,
que vigorou até 1994, quando a Assembléia Nacional aprovou
o novo Código.
* Educação - reorganizou-se o ensino e a prioridade foi
a formação do cidadão francês. Reconheceu-se a educação pú-
blica como meio importante de formação das pessoas, prin-
cipalmente nos aspectos do comportamento moral, político
e social. Batalha de Trafalgar firmou a superioridade britânica no mar
* Administração - Indicavam-se pessoas da confiança de
Napoleão para cargos administrativos. Expansão territorial militar
Jacques-Louis David: O Primeiro-Cônsul Napoleão cru- Neste período, Napoleão realizou uma série de batalhas
zando dos Alpes no passo de Grand-Saint-Bernard, 1800 para a conquista de novos territórios para a França. O exérci-
François Gérard: Napoleão I em regalia, 1805 to francês aumentou o número de armas e de combatentes, e
Após uma década de conflitos gerais no país, com a Revo- tornou-se o mais poderoso de toda a Europa.
lução Francesa, as medidas aplicadas deram para o povo fran- Pensando que a expansão e crescimento econômico-mili-
cês a esperança de uma estabilização do governo. Os resulta- tar da França era uma ameaça à Inglaterra, os diplomatas ingle-
dos obtidos neste período do governo de Napoleão agradaram ses formaram coligações internacionais para se opor ao novo
à classe dominante francesa. Com o apoio desta, elevou-se Na- governo francês e a seu expansionismo. Também acreditavam
poleão ao nível de cônsul vitalício em 1802, podendo indicar que o governo francês poderia influir em países que estavam
seu sucessor. Esta realização implicou na instituição de um re- sob doutrina absolutista e assim causar uma rebelião. A primei-
gime monárquico. ra coligação formada para deter os franceses era formada pela
Inglaterra, Áustria, Rússia e Prússia.
Império (1804-1815) Em outubro de 1805, os franceses usaram a marinha para
A opinião pública foi mobilizada pelos apoiadores de Na- atacar a Inglaterra, mas não obtiveram êxito, derrotados pela
poleão, que levou à aprovação para a implantação definitiva do marinha inglesa, comandada pelo almirante Nelson, batalha
governo do Império. Em plebiscito realizado em 1804, apro- que ficou conhecida como Batalha de Trafalgar, firmando-
vou-se a nova fase da era napoleônica com quase 60% dos vo- se o poderio naval britânico.
tos, reinstituiu-se o regime monárquico na França e indicou-se Ao contrário do malogro com os ingleses, os franceses
Napoleão para ocupar o trono. venceram seus outros inimigos da coligação, como a Áustria,
Realizou-se uma festa em 2 de Dezembro de 1804 para em 1805, na Batalha de Austerlitz, além da Prússia em 1806 e
se formalizar a coroação do agora Napoleão I na catedral de Rússia em 1807.
Notre-Dame. Um dos momentos mais notórios da História
ocorreu nesta noite, onde, com um ato surpreendente, Napo- Bloqueio Continental
leão I retirou a coroa das mãos do Papa Pio VII, que viajara es- Na busca de outras maneiras para derrotar ou debilitar os
pecialmente para a cerimônia, e ele mesmo se coroou, numa ingleses, o Império Francês decretou o Bloqueio Continen-
postura para deixar claro que não toleraria autoridade alguma tal em 1806, em que Napoleão determinava que todos os paí-
superior à dele. Logo após também coroou sua esposa, a im- ses europeus deveriam fechar os portos para o comércio com a
peratriz Josefina. Inglaterra, debilitando as exportações do país e causando uma
Concederam-se títulos nobiliárquicos aos familiares de crise industrial.
Napoleão, por ele mesmo. Além disso, colocou-os em altos Um problema que afetou muitos países participantes do
cargos públicos. Formou-se uma nova corte com membros da Bloqueio era que a Inglaterra, que já passara pela Revolução
elite militar, da alta burguesia e da antiga nobreza. Para cele- Industrial, estava com uma consolidada produção de produtos
brar os triunfos de seu governo, Napoleão I construiu monu- industriais, e muitos países europeus ainda não tinham produ-
mentos grandiosos, como o Arco do Triunfo que, como outras ção industrial própria, e dependiam da Inglaterra para impor-
grandes obras da época, por sua grandiosidade e por criar em- tar este tipo de produto, em troca de produtos agrícolas.
pregos, melhorava a imagem de Napoleão ante o povo. A França procurou beneficiar-se do bloqueio com o au-
O Império Francês atingiu sua extensão máxima neste pe- mento da venda dos produtos produzidos pelos produtores
ríodo, em torno de 1812, com quase toda a Europa Ocidental franceses, ampliando as exportações dentro da Europa e no
e grande parte da Europa Oriental ocupadas, possuindo 150 mundo. A fraca quantidade de produtos manufaturados dei-
departamentos, com 50 milhões de habitantes, quase um terço xou alguns países sem recursos industriais.
da população européia da época.
84
História Geral

Derrota francesa na Rússia a abdicar.


Em 1812, a aliança franco-russa é quebrada pelo czar Ale-
xandre, que rompe o bloqueio contra os ingleses. Napoleão Governo dos Cem Dias (1815)
empreende então a campanha contra a Rússia. Sem saída a O fracasso da campanha da Rússia incita os inimigos de
Rússia usa uma tática de guerra chamada Terra Arrasada, que Napoleão a aliar-se e a dar-lhe batalha. Em Leipzig, na chama-
consistia em destruir cidades inteiras para criar um campo de da Batalha das Nações, em 1813, as tropas francesas são der-
batalha favorável aos defensores. Aliada com o inverno rigoro- rotadas pelos austros-russos. “Só o general Bonaparte pode
so, a Rússia consegue vencer o Exército Napoleônico que sai agora salvar o imperador Napoleão”, diz ele próprio. Mas en-
com apenas 10.000 homens. Enquanto isso, na França, o gene- gana-se. Pouco depois, 600 000 russos, alemães e ingleses inva-
ral Malet, apoiado por setores descontentes da burguesia e da dem a França e, em Março de 1814, entram em Paris. Ao saber
antiga nobreza francesas, arma uma conspiração para dar um que José capitulou ante os generais inimigos, comenta “Que
golpe de Estado contra o imperador. Napoleão retorna ime- covardia!”, e acrescenta “Desde que eu não esteja, só fazem
diatamente a Paris e domina a situação. disparates.” Abandonado pelos seus marechais, vê-se obrigado
a abdicar e é desterrado para a ilha de Elba. A grande aventura
Fuga da Família Real portuguesa para o Brasil parecia ter chegado ao fim.
O governo português dependia muito da Inglaterra para Napoleão cai e Luís XVIII restaura a dinastia bourbonica.
seus negócios, e abdicar da importação de produtos industriais As dissensões surgidas no interior do país levam-no a regressar
ingleses não deixaria a situação fácil. Pressionados por Napo- a França. No dia 20 de Março de 1815 entra triunfalmente em
leão, os portugueses não tiveram escolha: como não podiam Paris. Confrontadas novamente com os exércitos aliados (Grã-
abandonar os negócios que tinha com a Inglaterra, não parti- Bretanha, Áustria e Prússia), são as forças napoleônicas defini-
ciparão do Bloqueio Continental. tivamente derrotadas em Waterloo pelo general Wellington,
Insatisfeito com a decisão portuguesa, o exército francês em 18 de Junho de 1815. O imperador entrega-se aos Ingleses
começou a dirigir-se a Portugal. Sem alternativas de negocia- e é por estes deportado para Santa Helena, uma pequena ilha
ção e sabendo que a nobreza francesa, arma uma conspira- perdida no Atlântico sul, “para lá de África”, como dizem os
ção para dar um golpe de Estado contra o imperador. Napo- seus carcereiros. Ali, sozinho com as suas reflexões, dirá: “O
leão regressa imediatamente a Paris e controla a situação, que infortúnio também encerra glória e heroísmo. Se tivesse mor-
rido no trono, com a auréola da onipotência, a minha história
ficaria incompleta para muita gente. Hoje, mercê da desgraça,
posso ser julgado por aquilo que realmente sou.”
Em 5 de Maio de 1821, com uma violenta tempestade as-
solando a ilha, Napoleão morre, segundo a opinião do médico
que o assistiu, não de um cancro no estômago, como seu pai,
mas de uma úlcera provocada por uma má dieta e, sobretudo,
pela ansiedade. Um antigo companheiro de armas envolve-o
no capote que usou na Batalha de Marengo.

Congresso de Viena- (1815- 1830)


Embarque para o Brasil do Príncipe Regente de Portugal, D. João VI, e de A derrota de Napoleão na famosa batalha de Waterloo, em
toda a família real junho de 1815, representou uma derrocada nos ideais de liber-
não teria como vencer as tropas, a Família Real portuguesa, in-
cluindo o príncipe-regente D. João VI, que chefiou a operação,
fugiu para o Brasil, instalou e operou o governo português di-
retamente de lá, do Rio de Janeiro em 1808.
Quase 10 mil pessoas fugiram para o Brasil, transferin-
do praticamente todo o quadro do aparelho estatal. Além de
pessoas do governo muitos nobres comerciantes ricos, juízes
de tribunais superiores, entre outros, vieram junto. O exérci-
to de Napoleão atravessou Portugal sem encontrar uma só re-
sistência.

Invasão dos aliados e derrota de Napoleão


Tem início então a luta da coligação européia contra a
França. Com a capitulação de Paris, o imperador é obrigado
85
Professor Max Dantas

dade, igualdade e fraternidade que desde a Revolução France- rica Latina, com o propósito de reprimir os diversos levantes
sa ecoavam por toda a Europa. De fato, desde a derrota fran- emancipacionistas que ameaçavam o colonialismo. Interes-
cesa nos campos nevados da Rússia, em 1812, representantes sados na expansão comercial e em garantir novos mercados
do Antigo Regime vislumbravam condições para tocar adian- aos seus produtos industrializados, os ingleses desaprovavam
te um movimento restaurador, consolidado com o chamado a presença militar nas colônias americanas, postando-se contra
Congresso de Viena. a política intervencionista da Santa Aliança.
Com o propósito de restaurar o Antigo Regime e comba- Além disso, em 1823 os Estados Unidos proclamaram a
ter os ideais de liberalismo e nacionalismo que se instalaram Doutrina Monroe, declarando que as conjunturas políticas
nas nações européias no rastro deixado por Napoleão, reuni- relativas ao continente americano deveriam ser resolvidas in-
ram-se em Viena os principais representantes do conservado- ternamente. Assim, sob o princípio da “América para os ame-
rismo político, dentre os quais o czar Alexandre I da Rússia, ricanos”, abriram franca oposição aos propósitos restaurado-
o príncipe Hardenberg da Prússia, o ministro Talleyrand da res da Santa Aliança, iniciando uma relação de forte influência
França, o príncipe Metternich da Áustria e o Lorde Castlerea- política sobre o continente.
gh, representando os interesses ingleses sobre o continente. Anotações
Três princípios básicos guiaram as negociações travadas
entre monarcas e diplomatas reunidos no Congresso: a restau-
ração do Antigo Regime e do absolutismo; o reconhecimento
da legitimidade das dinastias depostas pela política expansio-
nista de Napoleão Bonaparte; e o restabelecimento do equilí-
brio político-militar entre as nações européias, promovendo a
preservação da paz.

Os reis voltam ao trono


O princípio da legitimidade garantiu o retorno ao trono de
algumas das antigas dinastias européias, como os Bourbon em
Nápoles, Espanha e França, a dinastia de Orange na Holan-
da, os Bragança em Portugal, os Sabóia no Piemonte, além
do restabelecimento do papa nos Estados Pontifícios. Além
disso, uma vasta política de compensações territoriais buscou
redesenhar o mapa da Europa, redefinindo as fronteiras esta-
belecidas pelas guerras napoleônicas.
Pelas intervenções de Talleyrand, a França - que saíra der-
rotada com a queda de Napoleão - garantiu sua integridade
territorial, restaurando suas fronteiras de antes de 1792. A In-
glaterra garantiu sua supremacia naval, com possessões no
além-mar (como as ilhas de Malta e Ceilão), além de consoli-
dar seus interesses econômicos, com o fim da política de Blo-
queio Continental. A Prússia praticamente dobrou sua exten-
são territorial, incorporando partes da Saxônia, da Pomerânia
e da Polônia, assim como a Rússia, que garantiu a anexação da
Finlândia, da Bessarábia e de parte da Polônia.

A Santa Aliança
Além disso, no âmbito do Congresso de Viena gestou-
se um pacto militar, batizado de Santa Aliança, pelo qual as
nações envolvidas comprometiam-se a reprimir movimentos
sediciosos que colocassem em xeque os propósitos da políti-
ca restauradora. Graças a esse pacto, diversos movimentos li-
berais foram reprimidos, como em Nápoles e na Espanha em
1822, ou o movimento de cunho nacionalista, que buscava a
unificação da Alemanha em 1821.
O pacto militar começou a ruir a partir da saída da Ingla-
terra, contrária aos propósitos de envio de tropas para a Amé-
86
História Geral

Revoluções Liberais (1830-1848) • o nacionalismo, que procurou unir politicamente os


povos de mesma origem e cultura;
Revoluções de 1830 • o socialismo, força nova, surgida nos movimentos de
A reação européia, conduzida pelo Congresso de Viena 1830, que pregava a igualdade social e econômica me-
e pela Santa Aliança, não conseguiu estancar o movimento diante reformas radicais.
revolucionário iniciado na segunda metade do século XVIII. Fatores mais imediatos podem ser mencionados. Entre
As revoluções da América luso-espanhola foram bem-sucedi- 1846 e 1848, a Europa teve péssimas colheitas. A situação da
das e a Grécia se libertou do julgo turco. pobreza piorou. A indústria entrou em crise e chegou à su-
Por volta de 1830, uma nova onda revolucionária abalou perprodução. O empobrecimento dos camponeses provocou
a Europa: na França, Carlos X, sucessor de Luís XVIII, foi a queda no consumo de tecidos. As fábricas pararam e dispen-
obrigado a abdicar do poder; a Bélgica, dominada pela Holan- saram operários. Salários foram reduzidos enquanto os preços
da, rebelou-se, proclamando sua independência; na Itália, as dos alimentos dispararam. Os Estados precisaram empregar
associações revolucionárias impuseram uma Constituição; na recursos na compra de trigo; as atividades das grandes indús-
Alemanha eclodiram movimentos liberais constitucionalistas; trias e a construção de estradas de ferro ficaram paralisadas.
a Polônia tentou obter sua independência. Estagnação geral.
Essas revoluções provocaram um golpe violento na rea- A crise variava: na Itália e Irlanda, agrária; na Inglaterra,
ção representada pela Santa Aliança, aniquilando-a. Além dis- França e Alemanha, industrial. Camponeses e proletários re-
so, outros fatores podem ser arrolados para explicar o pro- clamavam maior igualdade de recursos. Faziam reivindicações,
blema. Entre 1846 e 1848, as colheitas na Europa Ocidental no fundo, socialistas. Mas não havia um partido que pudessem
e Oriental foram péssimas. Os preços dos produtos agrícolas seguir. A oposição ao governo coube aos liberais e nacionalis-
subiram violentamente e a situação das classes inferiores pio- tas (burgueses esclarecidos). Sem orientação própria; a massa
rou. apoiou estes homens.
Ao mesmo tempo, verificava-se uma crise na indústria,
particularmente no setor têxtil. O aumento da produção oca- França
sionou a superprodução. A crise na agricultura diminuiu ainda O ano de 1848 mar-
mais o consumo dos produtos manufaturados pelo empobre- cou o continente europeu
cimento dos camponeses. A paralisação das atividades fabris com movimentos revolu-
resultou em dispensa dos trabalhadores e redução nos salários, cionários que, a partir de
exatamente quando os preços dos gêneros de primeira neces- Paris, tiveram rápida pro-
sidade subiam vertiginosamente. pagação nos grandes cen-
Os recursos financeiros dos países europeus foram car- tros urbanos. A consolida-
reados para a aquisição de trigo na Rússia e Estados Unidos. ção do poder político da
Isto afetou os grandes empreendimentos industriais e a cons- burguesia e o surgimento
trução das estradas de ferro, em franco progresso na opor- do proletariado industrial
tunidade. A paralisação das atividades nestes setores arrastou enquanto força política fo-
outros, provocando a estagnação econômica geral. ram os reflexos mais im-
A crise variou de país para país. Na Itália e Irlanda foi mais Rei Luís Filipe de Orleans portantes daquele ano, que
agrária; na Inglaterra e França, industrial, bem como na Ale- também foi marcado pela publicação do “Manifesto Comunis-
manha. A miséria gerou o descontentamento político. A mas- ta” de Marx e Engels.
sa dos camponeses e proletários passou a reclamar melhores Em 1830, com a chegada ao poder de Luís Filipe de Or-
condições de vida e maior igualdade de recursos. leans, conhecido como “o rei burguês”, os financistas viam-
No fundo, constituíam-se idéias socialistas, mas como não se representados, uma vez que o próprio monarca era oriundo
existia um partido socialista organizado que pudesse orien- daquelas fileiras. No entanto, diversos eram os grupos de opo-
tar estas classes, coube aos liberais e nacionalistas, compostos sição que, organizados em partidos, nutriam o mais vivo inte-
pela burguesia esclarecida, exercerem a oposição ao governo, resse em ampliar seu poder político:
contando com o apoio da massa, sem orientação própria. • Os legitimistas, conservadores representantes da
antiga nobreza, vislumbravam restituir a dinastia dos Bour-
Primavera dos Povos (1848) bon;
Antecedentes das jornadas de 1848 • Os republicanos, representavam os profissionais li-
De modo geral, as revoluções de 1848 se devem a três fa- berais e as classes médias, empunhando bandeiras nacionalis-
tores: tas;
• o liberalismo, contrário às limitações impostas pela • Os bonapartistas, liderados pelo sobrinho de Na-
monarquia absoluta; poleão (Luis Bonaparte), representavam a pequena burguesia
87
Professor Max Dantas

descontente;
• E os socialistas representavam a crescente classe O 18 brumário de Luis Bonaparte- II Império
operária, que a despeito da organização muitas vezes precária, Francês (1852 – 1871)
fazia-se notar enquanto força política considerável. Em novembro de 1852, Luis Bonaparte pôs em marcha
um golpe de Estado que ficaria conhecido como seu 18 Bru-
Banquetes oposicionistas mário, tornando-se imperador da França, sob o título de Na-
Em 1847, grupos políticos de oposição ao governo de poleão III. Tal episódio levaria Karl Marx a afirmar: “Hegel
Luís Filipe, impedidos de realizar manifestações públicas, de- faz notar algures que todos os grandes acontecimentos e per-
cidiram pela realização de banquetes, com o objetivo de dis- sonagens históricos ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Es-
cutir não apenas a grave crise econômica enfrentada pelo país queceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a se-
- as secas afetaram toda a cadeia econômica - mas para discu- gunda como farsa”.
tir propostas de ação e meios de obter mais representativida- As agitações ocorridas na França rapidamente se espalha-
de política. ram por diversas nações européias, inspirando movimentos de
Para o dia 22 de fevereiro de 1848, foi marcado um gran- sublevação contra as monarquias sobreviventes do Congresso
de banquete, que contaria com a presença de representantes de Viena.
dos partidos de oposição advindos de toda a França, com o O golpe de Estado de 1851 surge da vontade dos bona-
objetivo de protestar contra os boatos de corrupção no gover- partistas reporem o sufrágio universal. Seguiu-se o restabeleci-
no e contra a política repressiva do primeiro-ministro Gui- mento do império hereditário. Cedo começaram a ser tomadas
zot, que paulatinamente cerceava os direitos políticos. medidas conservadoras. O imperador fez-se rodear por uma
No entanto, este banquete foi impedido por ordem do pró- elite de políticos e administrativos realistas, apoiando-se tam-
prio Guizot, o que provocou uma violenta reação dos prole- bém no clero católico e na burguesia, que vivia a prosperidade
tariados parisienses. O movimento foi imediatamente seguido da década de 50. O governo imperial apoiou a renovação da
pela quase totalidade da população de Paris, incluindo elemen- banca e do crédito, o alargamento da rede ferroviária e as re-
tos da Guarda Nacional. Após três dias de luta, com centenas novações urbanísticas empreendidas por Haussman, em Paris,
de ruas tomadas por barricadas, os revoltosos conseguiram a e Vaisse, em Lyon. Por outro lado, tomou medidas restritivas
abdicação de Luís Filipe, dando lugar ao estabelecimento de como a Lei da Imprensa. O bonapartismo viu-se depois for-
um governo provisório, que proclamaria a República. çado a avançar para um regime mais liberal devido à perda do
apoio dos católicos e ao avanço crescente da industrialização
A República Social britânica. O governo imperial procurou apoiar-se na peque-
O novo governo dividiu-se sob a influência de bonapartis- na burguesia e na classe operária, optando por uma educação
tas, socialistas e republicanos, e cedendo aos protestos do pro- anticlerical e fazendo concessões na prática parlamentar e nas
letariado, organizou a criação de Oficinas Nacionais, com a liberdades de imprensa e de associação. O regime autoritário
intenção de dar combate ao enorme desemprego. Este perío- foi-se transformando paulatinamente num regime liberal. Mas
do inicial da revolução, também chamado de República Social, nem isso o parecia salvaguardar dos ataques da oposição. Após
foi marcado pela provisoriedade e pela intensa disputa entre os o plebiscito de 1870, o regime torna-se autoritário e o seu fim
diferentes interesses envolvidos na consolidação do poder. vem com a derrota de Sédan (Setembro de 1870) após a de-
Nas eleições convocadas para abril, os moderados repu- claração de guerra contra a Prússia.
blicanos, representantes da burguesia industrial, obtiveram a
maioria na Assembléia Constituinte, graças aos votos não só Itália
dos conservadores, mas dos proprietários rurais e dos cam- A Itália, em 1848, estava dividida em vários Estados, todos
poneses. Mais uma vez, reativamente, dando lugar a diversas eles com governo tipicamente
manifestações do proletariado urbano. O fechamento das Ofi- despótico. A crítica a este regi-
cinas Nacionais em junho determinou o início de um novo me era conduzida pelas socie-
movimento de sedição. As batalhas travadas entre os operá- dades secretas, principalmen-
rios rebelados e a Guarda Nacional tiveram como saldo cerca te a Carbonária. Ao mesmo
de 3 mil fuzilados e mais de 15 mil deportados para colônias tempo, reformas liberais visa-
francesas. vam à unificação dos Estados
À frente do chamado Partido da Ordem, e aproveitando- italianos. Para tanto, seria pre-
se do prestigioso nome de seu tio, Luís Bonaparte venceu as ciso expulsar os austríacos, que
eleições de dezembro com cerca de 73% dos votos. No entan- desde o Congresso de Viena
to, no legislativo, houve uma vitória expressiva dos monarquis- adquiriram supremacia sobre
tas no ano seguinte, estabelecendo um quadro de constante a Itália.
Victor Emanuel II
tensão entre o novo presidente e a Assembléia.
88
História Geral

Em janeiro deu-se uma revolta no Reino das Duas Sicí- Anotações


lias. O rei Fernando II foi obrigado a conceder uma Consti-
tuição, o mesmo ocorrendo na Toscana e no Estado papal.
No reino de Lombardia iniciou-se séria oposição aos aus-
tríacos. O rei de Piemonte, Carlos Alberto, tomou a liderança
da revolta, declarando guerra aos austríacos. Os exércitos aus-
tríacos obtiveram duas vitórias (Custozza e Novara), forçando
Carlos Alberto a abdicar em nome de seu filho Victor Ema-
nuel II. A repressão implantada pelos austríacos foi violenta
em toda a península. A tentativa liberal e nacionalista dos ita-
lianos tinha sido frustrada.

Alemanha
A Alemanha, depois do Congresso de Viena, passara a
constituir uma Confederação composta por numerosos esta-
dos, cuja política exterior era coordenada por uma Assembléia
que se reunia em Frankfurt. A Prússia e a Áustria lideravam
esta Confederação.
Visando à maior integração entre os Estados germânicos
foi criado, em 1834, o Zollverein, espécie de liga aduaneira
que liberava a circulação de mercadorias nos territórios dos
membros componentes, em torno da Prússia e sem a partici-
pação da Áustria.
Esta política econômica estimulou o desenvolvimento in-
dustrial, que por sua vez acentuou o nacionalismo germânico,
o desejo de independência e de união política. O mesmo as-
pecto liberal e nacionalista que vimos aparecer na Itália tam-
bém se manifestava lá.
Na Prússia, em 18 de março de 1848, verificou-se extraor-
dinária manifestação popular diante do palácio real, provocan-
do a reação das tropas. O movimento alastrou-se e Frederico
Guilherme, rei da Prússia, teve de se humilhar prometendo
uma Constituição ao povo insurgido.
Vários Estados juntaram-se ao movimento, aproveitando
a oportunidade para tentar a unificação política. Em março,
reuniu-se em Frankfurt uma assembléia preparatória para um
Parlamento representativo, que deveria iniciar seus trabalhos
legislativos em maio.
Os príncipes alemães aproveitaram-se da divisão entre os
revolucionários para retomar o poder abalado. Em novembro
de 1848, Berlim foi tomada e a Constituinte dissolvida pelo
exército. O movimento liberal fora abafado.
A Assembléia de Frankfurt decidiu eleger como impe-
rador o rei da Prússia, que recusou por se considerar rei por
vontade de Deus. Propôs, entretanto, aos príncipes alemães a
criação de um império. A Áustria, em 1850, impôs à Prússia o
recuo nesses projetos e em qualquer mudança da ordem exis-
tente.
89
Professor Max Dantas

Idéias Socialistas e cooperação.


Saint-Simon (1760 – 1825), acreditava que uma socieda-
No final da primeira metade do século XIX, diversos mo- de dividia-se entre os produ-
vimentos contra as monarquias nacionais contaram com a tores e ociosos. Por isso, de-
participação do operariado de diferentes países. Por meio da fendeu outra sociedade onde
derrubada desses regimes absolutistas, a figura do trabalhador a oposição entre operários e
representava as contradições e os anseios de um grupo social industriais deveria ser reconfi-
subordinado ao interesse daqueles que concentravam extenso gurada. Para isso, ele pregava a
poder econômico em mãos. Foi nesse período em que novas manutenção dos privilégios e
doutrinas socialistas ofereceram uma nova perspectiva sobre do lucro dos industriais, desde
a sociedade capitalista e a condição do trabalhador contem- que os mesmos assumissem os
porâneo. impactos sociais causados pela
prosperidade. Dessa forma, ele
Socialismo Utópico acreditava que no cumprimen-
No século XIX, diferentes pensadores tentaram refletir to da sua responsabilidade so-
sobre os problemas causados pelas sociedades capitalistas em cial, o industriário poderia equilibrar os interesses sociais.
desenvolvimento. Ainda fortemente calcados nas idéias do Levantando determinados pressupostos, os socialistas utó-
pensamento iluminista, esses pensadores continuaram a bus- picos sofreram a crítica dos socialistas científicos. Para os últi-
car no racionalismo a saída para as contradições geradas no mos, o socialismo utópico projetava uma sociedade sem antes
interior do pensamento capitalista. No entanto, esses não fa- devidamente avaliar as condições mais enraizadas que cons-
ziam uma crítica radical ao capitalismo, pois ainda defendiam tituíam o capitalismo. Com isso, os socialistas ambicionavam
a manutenção de suas práticas mais elementares. definir a natureza do homem e, a partir disso, indicar o cami-
Chamados de socialistas utópicos, esses pensadores de- nho entre a harmonia e os interesses individuais.
ram os primeiros passos no desenvolvimento das teorias so-
cialistas. Os seus principais representantes são Robert Owen, O ‘Socialismo Científico’ ou Marxista
Saint-Simon e Charles Fourier. Entre eles, podemos perce- A Origem
ber claramente a construção de uma sociedade ideal, onde se O Socialismo Científico foi desenvolvido no século XIX
defendia a possibilidade de criação de uma organização onde por Karl Marx
as classes sociais vivessem em harmonia ao buscarem interes- e de igual ma-
ses comuns que estivessem acima da exploração ou da busca neira Friedrich
incessante pelo lucro. Engels. Rece-
O industriário britânico Robert Owen (1771 – 1858) be também, por
acreditava que o caráter humano era fruto das condições do motivos óbvios,
local em que ele se formava. Por isso, defendeu que a ado- a denominação
ção de práticas sociais que primassem pela felicidade, harmo- de Socialismo
nia e cooperação poderiam superar os problemas causados Marxista. Ele
pela economia capitalista. Seguindo seus próprios princípios, rompe com o
Owen reduziu a jornada de trabalho de seus operários e defen- Socialismo Utó-
deu a melhoria de suas condições de moradia e educação. pico por apre-
Charles Fourier (1770 – 1797) criticou ferrenhamente a Karl Marx e Friedrich Engels sentar uma aná-
sociedade burguesa. Em seus escritos, defendeu uma socieda- lise crítica da realidade política e de igual maneira econômica,
de sustentada por ações cooperativas. Nelas, o talento e o pra- da evolução da história, das sociedades e de igual maneira do
zer individual possibilitariam uma sociedade mais próspera. A capitalismo. Marx e de igual maneira Engels enaltecem os utó-
sociedade burguesa, marcada pela repetição e a especialidade pico pelo seu pioneirismo, porém defendem uma ação mais
do trabalho operário, estava contra este tipo de sociedade ide- prática e de igual maneira direta contra o capitalismo através
al. Além disso, Fourier era favorável ao fim das distinções que da organização da revolucionária classe proletária. Para a for-
diferenciavam os papéis assumidos entre homens e mulheres. mulação de suas teorias Marx sofreu influência de Hegel e de
Por meio do cooperativismo, do prazer e das liberdades igual maneira também dos socialista utópicos.
de escolha a sociedade iria criar condições para o alcance do Segundo Marx a infra-estrutura, modo como tratava a
socialismo. Nesse estágio, a comunhão entre os indivíduos se- base econômica da sociedade, determina a superestrutura que,
ria vivida de maneira plena. Sem almejar a distinção ou a dis- claro é dividida também em ideológica (idéias políticas, religio-
puta, as famílias de trabalhadores viveriam nos falanstérios, sas, morais, filosóficas) e de igual maneira política (Estado, po-
edifícios abrigados por 1800 pessoas vivendo em plena alegria lícia, exército, leis, tribunais). Portanto a visão que, claro temos
90
História Geral

do mundo e de igual maneira a nossa psicologia são reflexo da O anarquismo foi um movimento que surgiu na mesma
base econômica de nossa sociedade. As idéias que, claro sur- época em que emergiu o so-
giram ao longo da história se explicam pelas sociedades igual- cialismo de Marx e Engels,
mente nas quais seus mentores estavam inseridos. Elas são tendo em Pierre-Joseph
oriundas das necessidades das classes sociais daquele tempo. Proudhon, autor do livro
“Que é a propriedade?”, um
Dialética de seus primeiros teóricos. A
A dialética se opõe à metafísica e de igual maneira ao ide- primeira base da teoria anar-
alismo por completo. Engels e de igual maneira Marx “pegam quista é o fim da proprieda-
o ‘núcleo racional’ de Hegel, mas rejeitam a sua parte idealista de privada, pois segundo o
imprimindo-lhe um caráter científico moderno”. próprio Proudhon, a mesma
O modo dialético de pensamento pondera que, claro ne- era o suicídio da sociedade.
nhum fenômeno será compreendido se analisado isoladamen- Destacou-se também, o tra-
te e de igual maneira independente também dos outros. Eles balho do intelectual e revo-
Mikhail Bakunin
são processos e de igual maneira não são coisas perfeitas e lucionário russo Mikhail
de igual maneira acabadas; estão também em constante mo- Bakunin, responsável pela sistematização de muitos princí-
vimento, transformação, desenvolvimento e de igual maneira pios, idéias e valores que vão compor a ideologia anarquista.
renovação e de igual maneira não também em estagnação e de Bakunin inspirou inúmeros movimentos anarquistas por todo
igual maneira imutabilidade. O mundo não pode ser entendi- o continente.
do como um conjunto de coisas pré-fabricadas, mas sim como O segundo termo fundamental da teoria é o fim do Esta-
um complexo de processos. Estes estão também em três fases: do, já que existe a crença de que o mesmo é nocivo e desneces-
tese, antítese e de igual maneira síntese. Pela contradição sário para a sociedade e que favorece exclusivamente as classes
das duas primeiras (tese e de igual maneira antítese) surge a dominantes – no caso da época, a burguesia. A terceira carac-
terceira (negação da negação) que, claro representa um estágio terística do anarquismo é a crença na liberdade e ordem obti-
superior. Esta, por sua vez, será negada, surgindo uma nova da de forma espontânea, sem a intervenção do Estado através
síntese e de igual maneira assim por diante. É importante lem- de leis.
brar que, claro a antítese não é a destruição da tese, pois se as- Para os anarquistas, deveria haver uma sociedade sem Es-
sim fosse não haveria progresso. tado, equilibrada na ordem, na liberdade de forma voluntária e
O processo de desenvolvimento resultante com a anterior na autodisciplina. No caso, o Estado seria uma abstração, uma
acumulação de mudanças quantitativas apresenta evidentes ficção, uma mentira, que defendia apenas as classes mais altas
mudanças qualitativas. Assim, vemos que, claro o desenvolvi- e deveria ser extinto. Entretanto, os anarquistas são a favor de
mento não segue um movimento circular, mas sim progressivo uma forma de organização voluntária, sendo que os seres hu-
e de igual maneira ascendente, indo do inferior ao superior. manos deveriam ter a liberdade espontânea sem ter que seguir
diretrizes partidárias.
Luta de classes Assim, a própria comunidade deveria se reunir para tomar
A história do homem é a história da luta de classes. Para decisões de seu interesse, desenvolvendo a responsabilidade
Marx a evolução histórica se dá pelo antagonismo irreconci- pelo seu grupo social, ou seja, sem a existência do Estado e de
liável entre as classes sociais de cada sociedade. Foi assim na leis, pois para os anarquistas, as instituições sociais de caráter
escravista (senhores de escravos - escravos), na feudalista (se- autoritário impedem que o ser humano desenvolva uma pers-
nhores feudais - servos) e de igual maneira assim é na capita- pectiva cooperativa.
lista (burguesia - proletariado). Entre as classes de cada socie-
dade há uma luta constante por interesses opostos, eclodindo Anotações
também em guerras civis declaradas ou não. Na sociedade ca-
pitalista, a qual Marx e de igual maneira Engels analisaram
mais intrinsecamente, a divisão social decorreu da apropria-
ção também dos meios de produção por um grupo de pessoas
(burgueses) e de igual maneira outro grupo expropriado pos-
suindo apenas seu corpo e de igual maneira capacidade de tra-
balho (proletários). Estes são, portanto, obrigados a trabalhar
para o burguês. Os trabalhadores são economicamente explo-
rados e de igual maneira os patrões obtém o lucro através da
mais-valia.
Anarquismo
91
Professor Max Dantas

Guerra da Secessão nos EUA çaram seu auge quando os sulistas, reunidos em Montgomery,
resolveram implementar um projeto separatista. Dessa reunião
Depois de al- ficou acertada a criação dos Estados Confederados da Amé-
cançar sua indepen- rica, formado por nações da região sul. Mesmo estando em
dência, os Estados menor quantidade, os separatistas esperavam o reconhecimen-
Unidos se depara- to do novo Estado. No entanto, os yankees prepararam uma
ram com um inten- grande ofensiva contra os separatistas. Dava-se assim, início à
so debate em tor- Guerra de Secessão.
no de suas políticas Contando com uma população maior e uma tecnologia
de desenvolvimento bélica bem mais potente, os nortistas tinham melhores con-
econômico. Ao lon- dições de vencer a batalha. Enquanto os conflitos se desen-
go de sua história os modelos econômicos das antigas treze volviam, o então presidente Abraham Lincoln toma provi-
colônias eram dotados por diferenças históricas que dividiam a dências para garantir a manutenção do território por meio de
região entre as colônias do norte e do sul. Tal disparidade acar- medidas que desestabilizavam a economia sulista. Em 1862,
retou em uma intensa disputa na esfera política que acabou le- decretou o Homestead Act, que concedia o acesso das ter-
vando a jovem nação norte-americana a resolver suas conten- ras a oeste com base em um modelo de pequena e média pro-
das através de uma violenta guerra civil. priedade. No mesmo ano, decretou a abolição da escravidão
De forma geral, a demanda política dessas duas regiões da no país.
economia norte americana criou um campo de tensões onde o Com o apoio do governo central e a superioridade militar
favorecimento de uma significava a ruína da outra. Os estados nortista, os confederados assinaram o termo de rendição em
do norte desenvolveram uma economia voltada para a produ- nove de abril de 1865. O modelo econômico do norte prevale-
ção industrial, o incentivo das atividades comerciais, mão-de- ceu frente os interesses dos grandes proprietários do sul. Mes-
obra assalariada e a produção agrícola em pequenas proprieda- mo trazendo a predominância de uma economia sustentada
des. Em contra partida os sulistas priorizaram uma economia pelo incentivo à indústria e o comércio, a sociedade estaduni-
agroexportadora, fundamentada no latifúndio e na mão-de- dense sofreria com novos problemas. A inserção do negro na
obra escrava. sociedade e a criação de movimentos racistas foram polêmicas
Os nortistas, também conhecidos como yankees, priori- que se arrastaram na história desse povo até a atualidade.
zavam a constituição de altas tarifas alfandegárias que impe-
dissem a dominação do mercado interno pelas manufaturas
estrangeiras e incentivasse o desenvolvimento da indústria na-
cional. Já os sulistas almejavam uma política alfandegária com
valores baixos que permitisse o acesso dos estados do sul a
uma maior quantidade de produtos industrializados. Median-
te as negociações, os valores das taxam variavam entre 20 e 30
por cento.
Outra delicada questão girava em torno das políticas agrá-
rias nos Estados Unidos. Os nortistas defendiam um modelo
calcado na pequena propriedade e na diversificação produtiva
vinculada ao aumento da matéria prima disponível. O sul am-
bicionava a limitação ao acesso, pois via na pequena proprieda-
de uma ameaça direta ao interesses dos grandes proprietários
interessados em ampliar o número de terras destinadas às mo-
noculturas agroexportadoras. Soldados confederados mortos na batalha de Fredericksburg
Um último ponto de discórdia tratava da questão do escra-
vismo nos Estados Unidos. Os nortistas eram interessados no Anotações
fim dessa relação de trabalho. Muitos deles, influenciados pela
ideologia iluminista, viam na libertação dos escravos a amplia-
ção do mercado consumidor interno no momento em que os
ex-escravos fossem convertidos em trabalhadores assalariados.
Nessa questão, o sul se colocava inflexivelmente contra, pois
toda força de trabalho dos latifúndios eram sustentadas pelo
sistema escravista.
As animosidades criadas pelas diferenças políticas alcan-
92
História Geral

Comuna de Paris dade de Paris e a Guarda Nacional tratou de organizar suas


forças em pontos estratégicos para que os republicanos não
retomassem o poder. Dessa forma, tinha início à chamada Co-
muna de Paris.
O governo popular chegava ao poder sobre forte inspira-
ção dos escritos do pensador socialista Karl Marx e do anar-
quista Joseph Proudhon. Entre outras medidas, os chamados
“assaltantes do céu” promoveram a separação entre Igreja e
Estado, aboliu os aluguéis e os ricos palacetes saqueados. En-
quanto isso, os republicanos assinaram um acordo com a Prús-
sia pelo qual viabilizaram a formação de um exército com mais
de 170 mil soldados.
No dia 21 de maio, as tropas republicanas deram início à
chamada “Semana Sangrenta” que deu fim à comuna. De-
pois de experimentarem o poder durante setenta e dois dias, 20
mil dos revolucionários foram mortos e outros 35 mil encarce-
Barricadas erquidas pelos communards em Paris
rados pelas tropas do general Thiers. Sem eleger heróis máxi-
O século XIX foi palco de transformações políticas e eco- mos, a Comuna de Paris veio a inspirar outras experiências de
nômicas que marcaram a ascensão da burguesia e o apareci- profunda transformação, como a Revolução Russa de 1917.
mento dos movimentos socialistas. Esses dois fatos históricos
perfilavam a configuração de um cenário bastante contraditó- Unificações
rio em Paris, capital da França. A cidade aproveitava os capitais
de seu processo de industrialização para abrir bulevares, cons- Unificações Nacionais – Itália, Alemanha e EUA
truir grandes palácios e belos jardins. Em contrapartida, seus As unificações italiana e alemã alteraram profundamente
trabalhadores viviam em cortiços insalubres e mal cheirosos. o quadro político da Europa no século XIX, rearticulando um
Essa distinção social acontecia em meio ao governo de equilíbrio de forças que resultaria na I Guerra Mundial (1914­
Napoleão III, que buscava ampliar os interesses do Estado e - 1918). Na base desses processos estavam os movimentos li-
da burguesia com acordos diplomáticos e guerras que nem de berais, acentuadamente nacionalistas nestes países. No mesmo
longe tratavam dos interesses de seus mais humildes trabalha- contexto, de consolidação dos Estados Nacionais, insere-se a
dores. Em 1870, Napoleão III se envolvia em uma guerra con- Guerra de Secessão nos EUA.
tra a Prússia, com o interesse de conquistar alguns territórios
de uma Alemanha em pleno processo de unificação territorial. O Caso Italiano
No entanto, seus planos não foram muito bem sucedidos. A configuração
A derrota na chamada Guerra Franco-Prussiana custou político-territorial
a destituição de Napoleão III da monarquia francesa e a ins- da Itália, no início de
tituiu um regime republicano controlado pelo general Louis- século XIX, sofreu
Adolph Tiers. A humilhação militar e a conturbação política grande intervenção
da época serviram de incentivo para que a população se mobi- por parte das me-
lizasse contra aquela situação vexatória. Em março de 1871, a didas firmadas pelo
população pegou em armas e expulsou a tropas prussianas que Congresso de Vie-
pretendiam controlar a capital da França. na. Com os acordos
Depois de defender de forma vívida a soberania do Esta- consolidados, a atual
do Nacional francês, a população parisiense recebeu a notícia região da Itália ficou
do aumento de impostos e aluguéis. Inconformada com tama- dividida em oito estados independentes, sendo que alguns de-
nha arbitrariedade de um governo que mal sabia se defender, les eram controlados pela Áustria.
os trabalhadores saíram às ruas reivindicando melhores condi- Nesse mesmo período de recondicionamento da sobera-
ções de vida. Assustado, o governo ordenou que a combalida nia monárquica, movimentos nacionalistas afloraram em di-
Guarda Nacional sufocasse o protesto. No entanto, os solda- ferentes partes da Itália. Ao mesmo tempo, as motivações e
dos resolveram apoiar os manifestantes. projetos desses grupos nacionalistas eram bastante variados.
O caso de insubordinação inflou ainda mais o movimento Envolvendo grupos de trabalhadores urbanos e rurais e alcan-
de origem popular. Em resposta, o governo francês ordenou a çando até mesmo a burguesia nacional, o Risorgimento ma-
execução sumária dos generais Clément Thomas e Lecomte. nifestava-se em ideais que passavam por tendências republica-
Logo em seguida, uma série de barricadas tomou conta da ci- nas e, até mesmo, monárquicas.
93
Professor Max Dantas

Outra interessante manifestação nacionalista também zação das monarquias européias deu origem à formação da
pôde ser contemplada com o aparecimento dos carbonários. Confederação Alemã. Tal confederação consistia em uma re-
A ação dos carbonários se estabeleceu ao sul da Itália sob a li- gião formada por 38 Estados independentes comprometidos
derança do comunista Filippo Buonarotti. Lutando contra a a defenderem a soberania das monarquias dos estados parti-
ação dos governos absolutistas, o carbonarismo foi um dos cipantes. Dentro desse aglomerado de monarquias, Áustria e
mais importantes movimentos nacionalistas de bases popular Prússia sobressaiam-se enquanto as mais influentes nações da
da Itália. Confederação.
Em 1831, Giuseppe Mazzini liderou outro movimento Por um lado, os austríacos tinham seu desenvolvimento
republicano representado pela criação da Jovem Itália. Mes- econômico sustentado pelo seu forte setor agrícola. De outro,
mo não obtendo sucesso, o nacionalismo italiano ainda teve a Prússia via no processo de unificação política dos estados
forças para avivar suas tendências políticas. No ano de 1847, confederados um importante passo para o desenvolvimento
uma série de manifestações anti-monárquicas tomaram conta econômico daquela região. Buscando efetivar seu interesse, a
da região norte, nos reinos de Piemonte e Sardenha, e ao sul Prússia criou uma zona aduana chamada de Zollverein, que
no Reino das Duas Sicílias. No Reino da Lombardia conso- aboliu as taxas alfandegárias entre as monarquias envolvidas
lidou-se um dos maiores avanços republicanos quando o rei no acordo.
foi obrigado a instituir um Poder Legislativo eleito pelos ci- Alheia a esse processo de industrialização e unificação, a
dadãos. Áustria foi excluída do acordo. Prestigiado com o cargo de pri-
Mesmo com a agitação dessas revoltas, a presença austría- meiro-ministro da Prússia, o chanceler Otto Von Bismarck
ca e o poder monárquico conseguiram resistir à crescente ten- tomou a missão de promover o processo de unificação alemã.
dência republicana. Só com o interesse da burguesia industrial Em 1864, entrou em guerra contra a Dinamarca e assim con-
do norte da Itália, politicamente patrocinada pelo primeiro- quistou territórios perdidos durante o Congresso de Viena.
ministro piemontês Camilo Benso di Cavour, que o proces- No ano de 1866, Bismarck entrou em conflito com a Áus-
so de unificação começou a ter maior sustentação. Angariando tria e, durante a Guerra das Sete Semanas, conseguiu dar um
o apoio militar e político dos Estados vizinhos e do rei fran- importante passo para a unificação com a criação da Confe-
cês Napoleão III, em 1859, a guerra contra a Áustria teve seu deração Alemã do Norte. Com isso, a Prússia passou a deter
início. maior influência política entre os estados germânicos, isolan-
Temendo a deflagração de movimentos de tendência so- do a Áustria. Com a deflagração de um desgaste político entre
cialista e republicana, o governo Francês retirou o seu apoio ao a França e a Prússia, o governo de Bismarck tinha em mãos a
movimento de unificação. Ainda assim, Camilo di Cavour con- última manobra que consolidou o triunfo unificador.
seguiu unificar uma considerável porção dos reinos do norte. Com a vitória na Guerra Franco-Prussiana, em 1870, a
Nesse mesmo período, ao sul, Giuseppe Garibaldi liderou Prússia conseguiu unificar a Alemanha. O rei Guilherme I foi
os “camisas vermelhas” contra as monarquias sulistas. Para coroado como kaiser (imperador) da Alemanha e considerado
não enfraquecer o movimento de unificação, Garibaldi decidiu o líder máximo do II Reich Alemão. Conquistando na mes-
abandonar o movimento por não concordar com as idéias de- ma guerra as regiões da Alsácia e da Lorena, ricas produtoras
fendidas pelos representantes do norte. de minério, o império alemão viveu a rápida ascensão de sua
Dessa maneira, os monarquistas do norte controlaram a economia.
unificação estabelecendo o rei Víctor Emanuel II. No ano de O processo de unificação da Alemanha, junto com o ita-
1861, o Reino da Itália era composto por grande parte do seu liano, simbolizou um período de acirramento das disputas en-
atual território. Entre 1866 e 1870, após uma série de confli- tre as economias européias. A partir do estabelecimento dessas
tos, as cidades de Veneza e Roma foram finalmente anexadas novas potências econômicas, observamos uma tensão política
ao novo governo. A unificação da Itália teve seu fim no ano gerada pelas disputas imperialistas responsáveis pela monta-
de 1929, quando após anos e anos de resistência da autorida- gem do delicado cenário preparatório da Primeira e da Segun-
de papal, o Tratado de Latrão completou a formação da na- da Guerra Mundial.
ção italiana.
Apesar de representar uma luta histórica ao longo do sé-
culo XIX, a unificação italiana não conseguiu prontamente
criar uma identidade cultural entre o povo italiano. Além das
diferenças de cunho histórico, linguístico e cultural, a diferença
do desenvolvimento econômico observado nas regiões norte e
sul foi outro entrave na criação da Itália.

O Caso Alemão
Depois da queda de Napoleão, o processo de reorgani-
94
História Geral

Neocolonialismo ou Imperialismo
A industrialização do continente europeu marcou um in-
tenso processo de expansão econômica. O crescimento dos
parques industriais e o acúmulo de capitais fizeram com que
as grandes potências econômicas da Europa buscassem a am-
pliação de seus mercados e procurassem maiores quantidades
de matéria-prima disponíveis a baixo custo. Foi nesse contexto
que, a partir do século XIX, essas nações buscaram explorar
regiões na África e Ásia.
Gradativamente, os governos europeus intervieram po-
liticamente nessas regiões com o interesse de atender a de-
manda de seus grandes conglomerados industriais. Distinto do
colonialismo do século XVI, essa nova modalidade de explo-
ração pretendia fazer das áreas dominadas grandes mercados
de consumo de seus bens industrializados e, ao mesmo tem-
po, pólos de fornecimento de matéria-prima. Além disso, o
grande crescimento da população européia fez da dominação
afro-asiática uma alternativa frente ao excedente populacional Anteriormente a Conferência de Berlim, inúmeros territó-
da Europa que, no século XIX, abrigava mais de 400 milhões rios africanos já pertenciam aos europeus, porém esse período,
de pessoas. quase 90 % do continente africano ficou nas mãos dos euro-
Apesar de contarem com grandes espaços de dominação, peus. Segue sua reconfiguração:
o controle das regiões alvo da prática neocolonial impulsionou • A Bélgica ficou com o Congo (ex-Zaire)
um forte acirramento político entre as potências européias. Os • A Espanha ficou com a Guiné Equatorial, o Saara Es-
monopólios comerciais almejados pelas grandes potências in- panhol e outras regiões
dustriais fizeram do século XIX um período marcado por for- • Os Italianos conquistaram a Líbia, a Eritreia e a re-
tes tensões políticas. Em consequência à intensa disputa dos gião autónoma da Somália; a Somalilândia
países europeus, o século XX abriu suas portas para o primeiro • Como tiveram uma participação tardia na corrida da
conflito mundial da era contemporânea. colonização, os alemães ganharam as regiões correspondentes
Somado aos interesses de ordem político-econômica, a aos atuais Togo, Camarões, Tanzânia, Ruanda, Burundi e Na-
prática imperialista também buscou suas bases de sustentação míbia. Ao contrário do que as pessoas acham, a colonização
ideológica. A teoria do darwinismo social, de Hebert Spen- alemã na África foi mais leve que as demais. Um dos principais
cer, pregava que a Europa representava o ápice do desenvol- motivos disto foi que ao contrário dos ingleses eles não colo-
vimento das sociedades humanas. Em contrapartida, a África caram tribos rivais para guerrear contra elas mesmas apoiando
e a Ásia eram um grande reduto de civilizações “infantis” e só um lado e destruindo a outra.
“primitivas”. Influenciado por esse mesmo conceito, o escritor • A Fran-
britânico Rudyard Kipling defendia que o repasse dos “desen- ça dominou a
volvidos” conceitos da cultura européia aos afro-asiáticos re- Argélia, a Tuní-
presentava “o fardo do homem branco” no mundo. sia e o Marro-
cos, formando
Partilha da África a África Oci-
Com relação à África, podemos destacar a realização da dental France-
Conferência de Berlim (1884 – 1885) na qual, várias potên- sa.
cias européias reuniram-se com o objetivo de dividir os ter- • A Ingla-
ritórios coloniais no continente africano. Nessa região pode- terra dominou
mos destacar o marcante processo de dominação britânica, o Egito, o Su-
Conferência de Berlim
que garantiu monopólio sob o Canal de Suez, no Norte da dão, a África
África. Fazendo ligação entre os mares Mediterrâneo e Ver- do Sul e a antiga Rodésia
melho, essa grande construção foi de grande importância para
as demandas econômicas do Império Britânico. Na região sul, Partilha da Ásia
os britânicos empreenderam a formação da União Sul-Africa- Na Índia, a presença britânica também figurava como uma
na graças às conquistas militares obtidas na Guerra dos Bôe- das maiores potências coloniais da região. Após a vitória na
res (1899 – 1902). Guerra dos Sete Anos (1756 – 1763), a Inglaterra conseguiu
95
Professor Max Dantas

formar um vasto império marcado por uma pesada imposição


de sua estrutura político-administrativa. A opressão inglesa foi
alvo de uma revolta nativa que se deflagrou na Guerra dos Si-
paios, ocorrida entre 1735 e 1741. Para contornar a situação, a
Coroa Inglesa transformou a colônia indiana em parte do Im-
pério Britânico.
Resistindo historicamente ao processo de ocupação, desde
o século XVI, o Japão conseguiu impedir por séculos a domi-
nação de seus territórios. Somente na segunda metade do sé-
culo XIX, que as tropas militares estadunidenses conseguiram
forçar a abertura econômica japonesa. Com a entrada dos va-
lores e conceitos da cultura ocidental no Japão, ocorreu uma
reforma político-econômica que industrializou a economia e
as instituições do país. Tal fato ficou conhecido como a Re-
volução Meiji.
Com tais reformas, o Japão saiu de sua condição econômi-
ca feudal para inserir-se nas disputas imperialistas. Em 1894,
os japoneses declararam guerra à China e passaram a contro-
lar a região da Manchúria. Igualmente interessados na explora-
ção da mesma região, os russos disputaram a região chinesa na
Guerra Russo-Japonesa, de 1904. Após confirmar a domina-
ção sob a Manchúria, os japoneses também disputaram regiões
do oceano Pacífico com os EUA, o que acarretou em conflitos
entre essas potências, entre as décadas de 1930 e 1940.
Um dos processos mais destacados durante o avanço do
imperialismo foi a abertura dos mercados chineses, primeiro
através da Guerra do Ópio (1839-42), que terminou com a
derrota da China, que foi forçada a aceitar o Tratado de Nan-
quim, pelo qual os chineses se comprometiam a abrir cinco
portos ao comércio inglês, destacando-se Xangai e Cantão, e
além disso cediam o de Hong Kong. Na década de 50, uma in-
tervenção franco-britânica obrigou o governo chinês a fazer
novas concessões. Pelo Tratado de Pequim (1860) abriram-se
11 outros portos no país e foram ampliadas as vantagens aos
comerciantes estrangeiros.
Outras guerras e conflitos foram frutos do neocolonialis-
mo. Entre elas, podemos inclusive destacar a Primeira e a Se-
gunda Guerra Mundial. Por fim, percebemos que a solução
obtida pelas nações industriais frente à questão de sua super-
produção econômica teve consequências desastrosas. O impe-
rialismo foi responsável por uma total desestruturação das cul-
turas africanas e asiáticas. Na atualidade vemos que as guerras
civis e os problemas sócio-econômicos dessas regiões domina-
das têm íntima relação com a ação imperialista.

Anotações
96
História Geral

1ª Guerra Mundial ção, a Alemanha tornou-se uma grande potência industrial. Os


produtos de suas fábricas tornaram-se mundialmente conheci-
dos, inclusive com enorme aceitação no mercado inglês. For-
talecida, a Alemanha passou a pressionar para que houvesse
uma nova repartição do mundo colonial. A Inglaterra, por sua,
vez, mostrava disposição em manter suas conquistas a qual-
quer custo.
*A rivalidade franco-alemã: Na França, o antigerma-
nismo também era muito forte, devido à derrota francesa na
Guerra Franco-Prussiana e à perda da Alsácia e da Lorena para
a Alemanha.
*A rivalidade austro-russa: A Rússia desejava dominar
o Império Turco-Otamano, a fim de obter uma saída para o
mar Mediterrâneo, e, também, controlar a península Balcâni-
ca. Para justificar esse expansionismo, criou o pan-eslavismo
movimente político segundo o qual a Rússia tinha o “direito”
de defender e proteger as pequenas nações eslavas da penín-
sula Balcânica.
Antecedentes *O nacionalismo da Sérvia: A Sérvia era uma pequena
Nas últimas décadas do século XIX, o mundo assistiu à ex- nação eslava inde-
plosão de uma Guerra Civil na Iugoslávia que resultou no des- pendente, situada
mantelamento desse país e no surgimento da Eslovênia, Croá- na região dos Bál-
cia e Bósnia-Herzegovina, como nações independentes. cãs, que almejava
O conflito entre sérvios, croatas e bósnios irrompeu em libertar e unificar
função das diferenças étnicas, religiosas e políticas existentes os territórios ha-
entre eles. bitados pelos po-
As pretensões imperialistas ganharam profundos contor- vos eslavos desta
nos a partir de 1870, pois, nessa época, a Europa Ocidental e região. Opondo-
também os Estados Unidos expandiram sua política econômi- se aos austríacos e
ca e organizaram poderosos impérios, devido à concentração aos turcos, a Sér-
de capitais procedentes do monopólio e da fusão das empre- via aproximou-se
sas. As indústrias pesadas exigiram a união das empresas, a fim cada vez mais da Rússia, que comprometeu-se a apoiá-la e a
de garantirem maiores lucros e bons preços. Por esse motivo, protegê-la militarmente. Quando, em 1908, a Áustria ocupou a
tornou-se acirrada a disputa de mercadoria e de fontes de ma- Bósnia-Herzegovina, a Sérvia passou a conspirar abertamente
térias-primas. contra a Áustria.
Desde o Congresso de Viena, em 1815, a preocupação dos
principais países europeus passou a ser a busca da estabilidade Alianças
internacional. Para isso, as nações buscaram o prestígio nacio- Os anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial não
nal e o fortalecimento militar, mantendo constante vigilância foram marcados por nenhum conflito entre as nações euro-
para impedir o crescimento das forças contrárias e a formação péias. No entanto, entre o final do século XIX e o início do
de alianças entre países afins. Esta inquietação ocorria median- século XX, as principais nações envolvidas nas disputas impe-
te o “equilíbrio de poder”. rialistas realizaram uma grande corrida armamentista. A tecno-
Durante a metade do século XIX, as nações imperialistas logia bélica sofreu grandes avanços nessa época, e grande par-
dominaram povos e territórios em diversas partes do mundo. te desses armamentos eram testados nas possessões coloniais
Assim, em poucas décadas, acumularam riquezas e aumenta- espalhadas pelos continentes asiático e africano.
ram muito sua capacidade de produzir mercadorias. Da disputa As potências imperialistas de maior porte, como Inglater-
por mercados consumidores entre essas nações nasceu a riva- ra e França, utilizavam das armas para conter as revoltas em
lidade. E desta, a Primeira Guerra Mundial. Além da disputa suas zonas de dominação imperialista. Por outro lado, Itália e
por mercados, existiram também outras razões para a eclosão Alemanha – que possuíam domínios de menor riqueza – tam-
da guerra. Abaixo, as mais importantes: bém participaram dessa corrida bélica com o objetivo de bus-
*A rivalidade anglo-alemã: A origem dessa rivalidade car novos domínios que atendessem suas ambições econômi-
entre a Inglaterra e a Alemanha foi a competição industrial e cas. A ampliação do arsenal das grandes potências não causou
comercial. Em apenas três décadas, a contar de sua unifica- diretamente a guerra, mas configurou o cenário para a luta.
97
Professor Max Dantas

Antes de 1914, as nações européias realizaram um grande deu os primeiros passos no sentido de implementar seu pro-
número de alianças que polarizaram as disputas econômicas jeto da “Grande Sérvia”; a Albânia tornou-se um Estado in-
entre as nações. No ano de 1882, a Alemanha, o Império Aus- dependente.
tro-Húngaro e a Itália formaram a chamada Tríplice Aliança. Em 28 de junho de
Nesse acordo ficava estabelecido que caso um dos países de- 1914, o arquiduque
clarasse guerra, os demais envolvidos se comprometiam a per- Francisco Fernando de
manecerem neutros. Além desse ponto, outras questões mili- Habsburgo, herdeiro do
tares ficaram pré-estabelecidas. trono austro-húngaro, vi-
Caso os franceses atacassem a Itália, austríacos e alemães sitava Sarajevo, capital da
deveriam apoiar a Itália em um provável confronto. Se a Ale- Bósnia, com sua esposa,
manha fosse vítima de uma invasão militar francesa, somente a quando ambos foram as-
Itália seria obrigada a apoiar militarmente os alemães. Por fim, sassinados por um jovem
se qualquer um dos envolvidos desse tratado fosse afronta- Arquiduque Francisco Fernando bósnio cristão ortodoxo
do por duas nações européias, os outros envolvidos deveriam (a imensa maioria dos bósnios era muçulmana), partidário da
apoiar o aliado com exércitos e armas. união com a Sérvia. A Áustria-Hungria, alegando envolvimen-
Esses acordos que previam uma série de conflitos hipotéti- to do governo sérvio no crime, apresentou uma série de exi-
cos, de fato, podem ser vistos como consequência das disputas gências que foram rejeitadas pela Sérvia.
que ocorriam no período. Na África, os alemães procuravam Em 28 de julho, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sér-
controlar mercados anteriormente dominados pelos ingleses. via. No dia seguinte, a Rússia pôs suas tropas em estado de
A pressão econômica e colonial exercida pela Alemanha obri- prontidão, e a Alemanha fez o mesmo em 30 de julho. Na ma-
gou a Inglaterra a interromper seu longo isolamento em rela- drugada de 1º de agosto, a Alemanha declarou guerra à Rússia,
ção à França, até então sua maior concorrente comercial. sendo imitada pelo governo austro-húngaro.
No ano de 1904, a Entente Cordial firmou um primeiro Grã-Bretanha e França, surpreendidas pela rapidez dos
acordo entre Inglaterra e França. Segundo esse primeiro trata- acontecimentos, não se moveram. Mas a Alemanha, cujos pla-
do, a Inglaterra teria total liberdade de exploração econômica nos de campanha estavam prontos desde 1911, declarou guer-
na região do Egito, enquanto os franceses teriam seus interes- ra à França em 3 de agosto. Na madrugada de 4, as tropas ale-
ses garantidos no Marrocos. A Alemanha não reconheceu es- mãs invadiram a Bélgica – que era neutra – para surpreender
ses acordos estabelecendo resistência à dominação francesa no os franceses com um ataque vindo de direção inesperada. A
Marrocos. Entre 1905 e 1911, aconteceram pequenos conflitos Bélgica, militarmente fraca, não conseguiria conter os invaso-
nas regiões de Agadir e Tanger. res, os quais deveriam alcançar rapidamente o Canal da Man-
No continente asiático, França e Inglaterra disputavam o cha. Alarmado com essa perspectiva, o governo britânico de-
controle de posições em territórios da atual Tailândia. Ao mes- clarou guerra à Alemanha na noite de 4 de agosto.
mo tempo, os ingleses tinham problemas com os interesses
dos russos na exploração econômica de regiões do Oriente Fases da Guerra
Médio, do Tibet e da Ásia Central. Em 1907, a intermedia- Primeira Fase: (1914). Esse período caracterizou-se por
ção diplomática francesa conseguiu equilibrar as disputas en- movimentos rápidos envolvendo grandes exércitos. Certo de
tre russos e britânicos. que venceria a guerra em pouco tempo, o exército alemão in-
O acordo entre essas três nações possibilitou a assinatura vadiu a Bélgica, e , depois de suplantá-la, penetrou no territó-
da Tríplice Entente. Essa aliança estabeleceu um processo de rio francês até as proximidades de Paris. Os franceses contra-
polarização política, militar e econômica entre as grandes po- atacaram e, na Primeira Batalha do Marne, em setembro de
tências européias. Nesse contexto se institui a chamada “paz 1914, conseguiram deter o avanço alemão.
armada”, um equilíbrio diplomático que poderia se esfacelar Segunda Fase: (1915-
ao menor conflito que pudesse justificar a luta direta entre as 1916) Na frente ocidental, essa
duas alianças formadas. Foi quando, em 1914, um incidente fase foi marcada pela guer-
terrorista nos bálcãs despertou as rivalidades historicamente ra de trincheiras: os exérci-
fomentadas. tos defendiam suas posições
utilizando-se de uma exten-
O início da guerra sa rede de trincheiras que eles
Até 1912, o enfraquecido Império Otomano ainda con- próprios cavavam. Enquanto
servava nos Bálcãs uma faixa territorial que se estendia de Is- isso, na frente oriental, o exér-
tambul (antiga Constantinopla) ao Mar Adriático e incluía a cito alemão impunha sucessi-
Albânia. Entre 1912 e 1913, porém, perdeu quase todas essas vas derrotas ao mal-treinado
terras para a Grécia, Bulgária e sobretudo para a Sérvia, que e muito mal-armado exérci-
98
História Geral

to russo. Apesar disso, entretanto, não teve fôlego para con- peus vitoriosos, movida pelo revanchismo, que exigia medidas
quistar a Rússia. Em 1915, a Itália, que até então se mantivera duras sobre os derrotados, como a cobrança de indenizações
neutra, traiu a aliança que fizera com a Alemanha e entrou na e a tomada de territórios; (III) a incerteza sobre o futuro dos
guerra ao lado da Tríplice Entente. Ao mesmo tempo que foi territórios do antigo Império Russo devido à guerra civil de-
se alastrando, o conflito tornou-se cada vez mais trágico. No- sencadeada pela Revolução Comunista.
vas armas, como o canhão de tiro rápido, o gás venenoso, o No início da Conferência, Wilson parecia deter uma po-
lança-chamas, o avião e o submarino, faziam um número cres- sição de dominância devido ao poder econômico norte-ame-
cente de vítimas. ricano e à imagem moralmente positiva que os EUA tinham
Terceira fase: (1917-1918). Em 1917, primeiro ano dessa adquirido na Europa. O seu projeto para o mundo pós-guerra
nova fase, ocorreram dois fatos decisivos para o desfecho da ficou conhecido como wilsonianismo ou internacionalismo li-
guerra: a entrada dos Estados Unidos no conflito e a saída da beral norte-americano, de forte cunho idealista: uma ordem in-
Rússia. Os Estados Unidos entraram na guerra ao lado da In- ternacional liberal que, por meio de uma Liga das Nações sob
glaterra e da França. Esse apoio tem uma explicação simples: hegemonia norte-americana, garantisse a autodeterminação
os americanos tinham feitos grandes investimentos nesses pa- dos povos, a democracia, a liberdade econômica, a seguran-
íses e queriam assegurar o seu retorno. Outras nações também ça coletiva e a paz mundial. A Liga das Nações, especialmente,
se envolveram na guerra. Turquia e Bulgária juntaram-se à Trí- deveria ser o pilar desse projeto; qualquer desvio que ocorresse
plice Aliança, enquanto Japão, Portugal, Romênia, Grécia, Bra- na Conferência, qualquer injustiça que ela cometesse, pensava
sil, Canadá e Argentina colocaram-se ao lado da Entente. A sa- Wilson, seria no futuro corrigida pelas ações da Liga. Assim, o
ída da Rússia da guerra está relacionada à revolução socialista mais importante no projeto wilsoniano era garantir a criação
ocorrida em seu território no final de 1917. da Liga das Nações. Por essa razão, o presidente norte-ameri-
O novo governo alegou que a guerra era imperialista e cano buscou um compromisso com as outras potências fazen-
que o seu país tinha muitos problemas internos para resolver. do concessões aos interesses colonialistas e revanchistas dos
A Alemanha, então, jogou sua última cartada, avançando so- seus aliados. O resultado foi a criação da Liga das Nações e a
bre a França antes da chegado dos norte-americanos à Europa. imposição de 5 tratados às potências derrotadas: o Tratado de
Entretanto, os alemães foram novamente detidos na Segunda Versalhes (Alemanha), o Tratado de Saint Germain (Áus-
Batalha do Marne e forçados a recuar. A partir desse recuo, os tria), o Tratado de Neuilly (Bulgária), o Tratado de Trianon
países da Entente foram impondo sucessivas derrotas aos seus (Hungria) e o Tratado de Sévres (Império Turco). Todos eles
inimigos. A Alemanha ainda resistia quando foi sacudida por implicaram em perdas territoriais, responsabilidades financei-
uma rebelião interna, que forçou o imperador Guilherme II a ras (as reparações de guerra) e restrições militares às Potên-
abdicar em 9 de novembro de 1918. Assumindo o poder ime- cias Centrais. Os tratados decepcionaram a opinião pública da
diatamente, o novo governo alemão substituiu a Monarquia França, da Grã-Bretanha e da Itália, que os consideraram por
pela República. Dois dias depois rendeu-se, assinando um do- demais brandos, mas tiveram o efeito contrário entre os derro-
cumento que declarava a guerra terminada. tados, que os acharam exageradamente severos, causando um
forte ressentimento, sobretudo nos alemães e húngaros. Os
Os tratados de paz EUA não assinaram os tratados e – o que foi mais importante
A Conferência de Paz de Paris (1919-1920) – acabaram não entrando na Liga das Nações.
Foi uma assembléia que reuniu os vitoriosos (32 países A Conferência de Paris reconheceu a independência de
Aliados e Associados) para formular os acordos de paz e cons- várias nações mas ela não conseguiu criar uma “paz justa sem
truir a nova ordem internacional pós-guerra. Nenhum repre- vencedores e derrotados” e nem uma ordem internacional es-
sentante das Potências Centrais foi convidado para participar tável, principalmente na Europa Oriental. A redistribuição de
das discussões e a Rússia revolucionária, mergulhada na guer- territórios nem sempre seguiu o princípio da autodetermina-
ra civil, não compareceu. As negociações foram dominadas ção nacional e não resolveu os problemas das minorias étnicas
até abril de 1919 pelos “Quatro Grandes”: Wilson (presi- – ao contrário, acabou agravando-o como no caso dos alemães
dente dos EUA), Clemenceau (primeiro-ministro da França, que viviam na Tchecoslováquia e na Polônia, e dos húngaros
que presidiu a Conferência), Lloyd George (primeiro-minis- na Romênia. A chamada “Questão Nacional” manteve-se in-
tro da Grã-Bretanha) e Orlando (primeiro-ministro da Itália). conclusa no Leste Europeu e transformou-se em uma das
As discussões foram dificultadas pelos seguintes fatores: (I) principais causas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
os conflitos entre os objetivos divergentes dos “Quatro Gran-
des”, sobretudo entre os ideais de Wilson expressos nos “14 Tratado de Saint-Germain
Pontos” e os interesses imperialistas dos seus aliados. A Itália, Tratado de paz acordado entre os Aliados e a Áustria de-
por exemplo, retirou-se da Conferência em abril de 1919, em pois da I Guerra Mundial, assinado em Saint-Germain-en-
protesto por não ter conseguido todos os territórios que espe- Laye, em França, a 10 de Setembro de 1919. Este tratado exi-
rava ganhar; (II) a pressão da opinião pública dos países euro- gia da Áustria, o último reduto do Império Austro-Húngaro,
99
Professor Max Dantas

o reconhecimento da soberania da Hungria, a cedência de ter- de determinada tonelagem de carvão à França, Bélgica e Itá-
ritórios ao reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, que depois lia; como “culpada pela guerra”, pagaria, no prazo de 30 anos,
tomou o nome de Jugoslávia, à Checoslováquia, Polónia, Ro- os danos materiais sofridos pelos Aliados, cujo montante seria
ménia e Itália, e também a aceitação dos regulamentos que calculado por uma Comissão de Reparações (em 1921, foi fixa-
obrigavam a respeitar as minorias étnicas dentro das frontei- do em 400 bilhões de marcos); concessão do privilégio alfan-
ras austríacas. degário de “nação mais favorecida” aos Aliados;
As cláusulas militares permitiram à Áustria um exército 4) Cláusulas diversas: reconhecimento da independên-
voluntário de 30 000 homens, mas a Marinha austro-húngara cia da Polônia e da Tchecoslováquiá; proibição de se unir à
foi destruída e distribuída entre os Aliados. Foram igualmente Áustria (“Anschluss”); responsabilidade pela violação das leis
estabelecidas compensações econômicas pelos prejuízos cau- e usos da guerra: utilização de gases venenosos e atrocidades
sados pela guerra, embora o dinheiro nunca tenham sido pa- diversas; reconhecimento dos demais tratados assinados.
gas.
O Artigo 88, que proibia qualquer acto que comprometes-
se a independência austríaca, foi criado para precaver uma fu-
tura aliança com a Alemanha. Este artigo foi responsável pelo
clima de tensão nas relações da Alemanha com a Áustria nos
anos trinta, que culminaram com a anexação da Áustria por
Adolf Hitler, em 1938.

O Tratado de Versalhes
Regulava a paz com a Alemanha, sendo composto de 440
artigos; ratificado pela Alemanha em 28 de junho de 1919, na
Galeria dos Espelhos. Seus artigos dividiam-se em cinco ca-
pítulos:
1) o Pacto da Sociedade das Nações;
2) Cláusulas de segurança;
3) Cláusulas territoriais;
4) Cláusulas financeiras e econômicas;
5) Cláusulas diversas. Eis as principais estipulações: Anotações
1) Cláusulas de segurança (exigidas pela França, que te-
mia a desforra dos alemães: proibição de fortificar ou alojar
tropas na margem esquerda do Reno, totalmente desmilitari-
zada; fiscalização do seu desarmamento por uma comissão in-
teraliada; em caso de agressão alemã à França, esta receberia
auxílio anglo-norte-americano; redução dos efetivos militares;
supressão do serviço militar obrigatório, sendo o recrutamen-
to feito pelo sistema do voluntariado; supressão da marinha de
guerra e proibição de possuir submarinos, aviação de guerra e
naval, e artilharia pesada;
2) Clausulas territoriais: devolução da Alsácia e da Lo-
rena à França, de Eupen e Malmédy à Bélgica, do Slesvig à
Dinamarca; entrega de parte da Alta Silésia à Checoslováquia;
cessão da Pomerânia e dá Posnânia à Polônia, garantindo-lhe
uma saída para o mar, mas partindo em dois o território ale-
mão pelo corredor polonês; renúncia a todas as colônias que
foram atribuídas principalmente à França e à Inglaterra; entre-
ga de Dantzig, importante porto do Báltico, à Liga das Nações,
que confiou sua administração à Polônia;
3) Cláusulas econômico-financeiras: a título de repara-
ção, deveria entregar locomotivas, parte da marinha mercante,
cabeças de gado, produtos químicos; entrega à França da re-
gião do Sane, com o direito de explorar as jazidas carboníferas
aí existentes, durante 15 anos; durante dez anos, fornecimento
100
História Geral

Revolução Russa processo revolucionário russo.


Dessas discussões surgiram duas diferentes orientações
No século XIX, a Rússia era um enorme império que partidárias no interior do POSDR. De um lado, Georgy
abrangia os mais diferentes grupos nacionais e tinha uma es- Plekanov e Yuly Martov lideravam a ala menchevique, de-
trutura política controlada pelas mãos do czar, autoridade má- fensora da idéia de que um governo democrático-burguês de-
xima da monarquia russa. Em seu extenso território, com mais veria dar lugar ao czarismo. Segundo os mencheviques, essa
de 22 milhões de quilômetros, mais de 80% da população vivia reforma no poder traria as condições necessárias para que o
no campo subordinada ao poderio de uma nobreza detentora país superasse seu atraso econômico para só depois a revolu-
de terras. Nesse contexto, a Rússia era um país de caracterís- ção proletária acontecer.
ticas feudais sem visíveis condições para superar o seu atraso Em outra facção estavam os bolcheviques, grupo encabe-
econômico. çado por Vladmir Lênin, favorável à instalação de uma revo-
Em 1860, buscando aliviar as tensas condições de explo- lução proletária imediata. Esse outro grupo político acreditava
ração que imperavam no campo, o czar Alexandre II resol- que os trabalhadores russos deveriam ser organizados com o
veu abolir o sistema de servidão que tradicionalmente orien- intuito de promo-
tava as relações entre camponeses e latifundiários. Contudo, ver urgentemente
essa reforma política não foi suficiente para que os campone- todas as mudanças
ses alcançassem uma vida melhor ou tivessem acesso às terras que um governo
férteis. Paralelamente, o governo tentava introduzir um com- de orientação bur-
plicado processo de industrialização em uma economia com guesa
traços agrícolas. não teria o in-
O parque industrial russo começou a ser formado a par- teresse de realizar.
tir de uma política que permitiu a entrada de empresas estran- Dessa forma, o ce-
geiras interessadas em explorar as riquezas do país. Com isso, nário político rus-
a modernização da economia russa não poderia prosseguir a so tomou diferen-
Vladimir Lênin
passos largos tendo em vista a fuga de capitais ocasionada pelo tes orientações.
interesse de empresas estrangeiras. Além disso, a chegada des-
sas empresas foi responsável por elaborar um grande contin- Ensaio Revolucionário de 1905
gente de trabalhadores urbanos submetidos a opressivas con- No início do século XX, os vários problemas que assola-
dições de trabalho. vam a Rússia tornavam cada vez mais urgentes a superação das
Dessa maneira, campo e cidade se tornaram diferentes pó- dificuldades impostas por um governo autoritário. No entan-
los de um contexto em que as camadas populares tinham sua to, desconsiderando as necessidades imediatas da população,
força de trabalho explorada e não possuía nenhum tipo de par- o governo do czar Nicolau II resolveu envolver-se na disputa
ticipação política. Em pouco tempo, idéias revolucionárias e por zonas de ação imperialista para que dessa forma pudesse
antimonarquicas ganharam corpo em meio a esses trabalha- amenizar as dificuldades presentes. Com isso, em 1904, o go-
dores. Diversas sociedades secretas formavam grupos de opo- verno russo declarou guerra aos japoneses com a intenção de
sição que planejavam derrubar o governo e promover a re- controlar a região da Manchúria.
novação do país por meio de orientações políticas de caráter O conflito, mais popularmente conhecido por Guerra
socialista e anarquista. Russo-Japonesa, acabou no ano seguinte sem atender os in-
Na década de 1880, as visíveis tensões sociais ganharam teresses do regime czarista. Derrotada, a nação russa viu sua
maior força com o atentado que assassinou o czar Alexandre crise econômica ganhar maiores proporções. Ainda durante o
II, em 1881, e o crescimento exponencial dos grupos revo- conflito militar contra os japoneses, as forças de oposição con-
lucionários. No governo de Nicolau II, a situação da Rús- tra a monarquia se inflamou em meio à miséria e opressão
sia piorou sensivelmente. O novo rei tinha claras intenções de intensificadas por uma economia débil e um cenário político
preservar a estrutura política centralizada e, com isso, enfren- despótico e conservador.
tou uma série de revoltas nas colônias que não mais aceitavam Em dezembro de 1904, os trabalhadores da usina de Pu-
a colonização do Império Russo. tilov, localizada em São Petesburgo (naquela época capital do
No ano de 1898, as inquietações políticas das camadas po- governo czarista), decidiram elaborar um ofício reivindican-
pulares ganharam maior expressão com a criação do Partido do aos dirigentes da empresa melhores condições de trabalho.
Operário Social-Democrata Russo (POSDR), que se tor- Em resposta, os proprietários da usina ignoraram completa-
nou o principal palco de discussões sobre a situação política, mente o pedido e demitiram todos os envolvidos com o ato.
econômica e social do país. Sendo duramente perseguido pe- No início do ano seguinte, vários segmentos do operariado re-
las autoridades governamentais, este partido realizou diversos solveram organizar uma manifestação reivindicando melhorias
congressos no interior com o intuito de discutir a condução do a todos os trabalhadores.
101
Professor Max Dantas

Os manifestantes organizados pelo padre Gapon partici-


param de uma pacífica passeata, rumo ao Palácio de Inverno,
local onde ofereceriam ao czar Nicolau II uma petição conten-
do diversas reformas sociais, políticas e econômicas. Contudo,
as tropas oficiais abriram fogo contra os participantes, ceifan-
do a vida de vários trabalhadores. O trágico episódio ficou co-
nhecido como “Domingo Sangrento” e, em seguida, serviu
para que várias rebeliões de camponeses e operários se espa-
lhassem pelo território russo.
Naquele mesmo ano, um dos mais expressivos levantes
que aconteceram contra o governo mobilizou os marinheiros
do Encouraçado Potemkin. A tensão causada a partir daquele
levante forçou o governo russo a desistir da Guerra Russo-Ja- Dispersão dos protestos na Avenida Nevsk em Julho de 1917
ponesa, ao assinar o Tratado de Portsmouth. Nesse acordo,
os russos foram obrigados a reconhecer a soberania japonesa em favor do irmão, o grão-duque Miguel, e este, de sua par-
nos territórios da Coréia; e entregar partes dos territórios da te, abdicaria no dia seguinte.
Ilha de Sacalina e da Península de Liaotung.
Pressionado com tantas revoltas, o czar Nicolau II prome- Sovietes
teu um amplo conjunto de reformas em um documento co- Enquanto isso, os bolcheviques reviviam os sovietes
nhecido como “Manifesto de Outubro”. Entre outros pon- (conselhos populares que haviam surgido em 1905 e eram for-
tos, o monarca se comprometeu a garantir as liberdades civis mados de camponeses e operários). Os soldados foram incita-
e promover a reforma agrária no país. Além disso, instituiu a dos a participar, o que colocou o Exército sob o controle dos
criação de uma monarquia constitucional que dividiu os pode- sovietes, e não do governo provisório. Os sovietes passaram a
res com a Duma, assembléia de representantes populares que opor-se a cada medida do governo provisório, especialmente
deveria criar uma nova constituição no país. depois que Lênin, o líder bolchevique, voltou do exílio e pro-
Entretanto, o conservadorismo do czar transformou a as- meteu ao povo “Pão, Paz e Terra”.
sembléia russa em uma instituição tolhida pelos amplos po- A primeira tentativa bolchevique de tomar o poder veio a
deres garantidos ao rei. Para isso, Nicolau II utilizou do voto fracassar (o que obrigou Lênin a esconder-se), mas o governo
censitário para que somente os representantes das tradicionais provisório se enfraqueceu ainda mais, pela insistência em man-
elites nacionais pudessem adentrar o recém-criado poder legis- ter a Rússia na guerra e pelos desentendimentos entre o novo
lativo. Paralelamente, os movimentos populares começaram a primeiro-ministro, Kerenski, e o comandante-chefe do Exér-
tomar maior volume com a consolidação dos sovietes, espécie cito, Larv G. Kornilov.
de conselhos populares onde se discutiam a ação política das
classes subalternas. Outubro vermelho
Com isso, as pretensões de mudança na Rússia ainda se Lênin liderou outra revolta contra o governo provisório, e
mostravam latentes mesmo depois das ações empreendidas os bolcheviques tomaram o Palácio de Inverno, assumindo o
pelo próprio governo czarista. As reformas e o autoritaris- poder em 25 de outubro (7 de novembro no nosso calendário).
mo pareciam não exprimir com grande eficácia as diversas de- Por isso, pode-se muito bem afirmar que a Revolução de Ou-
mandas da população russa. A ausência de ações de efeito por tubro foi, na verdade, um golpe de Estado. Os bolcheviques
parte da falsa monarquia constitucional e o crescimento das transferiram o controle das fábricas para os operários, proibi-
tendências políticas revolucionárias constituiu os pilares das ram o comércio particular e confiscaram as terras da Igreja e
revoluções que tomaram o país doze anos mais tarde. de todos que consideravam “contra-revolucionários”.
No dia 5 de dezembro (a partir de agora, usaremos apenas
Revolução de Fevereiro e Revolução de Outubro o nosso calendário), estabeleceu-se o cessar-fogo entre o Exér-
Em 22 de fevereiro de 1917 (ou, no nosso calendário, 8 de citos russo e o alemão. Em 3 de março de 1918, os bolchevi-
março), greves e motins estouraram em Petrogrado (a antiga ques assinaram Tratado de Brest-Litovsk, um acordo de paz
São Petersburgo, que tinha sido rebatizada logo no início da em separado com a Alemanha (ou seja, a Rússia abandonava
guerra, porque o nome “Petersburgo” soava alemão demais). seus antigos aliados e saía da guerra antes do final do confli-
Dois dias depois, os soldados da Guarda Imperial junta- to). Em 10 de março, a capital se transferiu de Petrogrado para
ram-se aos revoltosos. A Duma (o Parlamento russo) formou Moscou. Em julho, aprovou-se a nova Constituição.
então o primeiro governo provisório, presidido pelo príncipe Também em julho, Nicolau 2º, a esposa, os cinco filhos
Lvov, que garantiu a abdicação do czar Nicolau 2º em 27 de (quatro meninas e um menino), três empregados e o médi-
fevereiro (15 de março no nosso calendário). Nicolau abdicou co da família foram executados pela Tcheka, a polícia secreta
102
História Geral

bolchevique. O objetivo era afastar qualquer possibilidade de Governo de Stálin


volta da monarquia, o que implicava eliminar também os her- A morte de Vladmir Lê-
deiros da família real. (Os comunicados oficiais informaram a nin, em 1924, promoveu uma
execução do czar, mas ocultaram a da família, afirmando que a intensa agitação política no in-
czarina e os filhos “estavam em local seguro”.) terior do Partido Comunista
Russo. Afinal de contas, qual
Guerra Civil seria a liderança capaz de dar
No começo, a Revolução de Outubro foi recebida com prosseguimento às conquistas
apatia, mas as forças militares contra-revolucionárias começa- iniciadas em 1917? Nessa épo-
ram a articular-se em dezembro de 1917. Assim, iniciou-se uma ca, dois participantes do pro-
guerra entre o “Exército Branco” (contra-revolucionário) e cesso revolucionário disputa-
o “Exército Vermelho” (organizado por Trotsky, um dos ram o governo prestigiando
principais líderes bolcheviques), assim chamado por causa diferentes perspectivas de ação
das bandeiras vermelhas que, desde o século 19, simbolizavam política. De um lado estava Leon Trótski, segundo homem da
o comunismo (algumas dessas bandeiras também traziam es- revolução com destacado papel militar; do outro Joseph Stá-
tampada a imagem de uma foice e um martelo, representando lin, secretário-geral do Partido Comunista.
a união entre os trabalhadores do campo e das fábricas). Trotsky acreditava que o ideário da revolução deveria ser
A guerra civil se entendeu por quase três anos. O Exérci- propagado para outras nações, transformando a experiência
to Branco recebeu apoio de potências estrangeiras (Inglaterra, russa no início de uma “revolução permanente”. Em contra-
EUA, Japão...) que temiam que a revolução se espalhasse pelo partida, Stálin tinha o objetivo de concentrar seu governo nas
resto do mundo, mas acabou sendo derrotado pelo Exército questões internas da Rússia, promovendo o “socialismo em
Vermelho. um só país” e, só depois disso, promover a expansão revolu-
No final de 1921, Lênin foi afastado do poder, após um cionária em outras partes do mundo. Em 1924, após a conven-
derrame que o deixou semiparalisado. (Ele morreria em 1924, ção comunista, os líderes bolcheviques optaram pelas propos-
e Petrogrado passaria a chamar-se Leningrado.) Em 1922, Sta- tas de Joseph Stálin.
lin assumiu o cargo de secretário-geral do Partido Comunista; Inconformado, Trotsky começou a apontar as falhas e ris-
eram os primórdios do stalinismo, uma ditaduras mais cruéis cos que o regime stalinista ofereceria ao processo revolucio-
do século 20. nário. Em contrapartida, Stálin empreendeu a subordinação
dos sovietes às diretrizes do Partido Comunista. Paralelamen-
URSS, ou União das Repúblicas Socialistas Sovi- te, criou mecanismo de repressão
éticas política com a criação da GPU, po-
O final do mesmo ano marcou o surgimento da União lícia política encarregada de com-
Soviética, ou, mais propriamente, da União das Repúblicas bater os críticos de seu governo.
Socialistas Soviéticas (URSS). De início, ela era formada da Tendo seus poderes ampliados,
Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia e Federação Transcauca- Stálin prendeu, exilou e executou
siana. Depois, foi acrescida de muitas outras “repúblicas” (na todos os seus opositores.
prática, estavam todas sob severo controle de Moscou e não Depois de ser condenado ao
tinham autonomia nenhuma). exílio, Trotsky continuava a criti-
car as ações stalinistas, acusando o
O significado da Revolução Russa novo líder russo de ter “prostituí-
De um lado, estão aqueles que consideram a Revolução do o marxismo”. Mesmo fora de
Russa o acontecimento político mais importante do século 20, seu país, Trotski foi perseguido como uma séria ameaça aos
tendo levado ao nascimento da URSS, que veio a tornar-se planos stalinistas. Em 1940, um agente da GPU deu fim às
uma superpotência militar, científica e tecnológica. Do outro contundentes críticas troskistas ao assassinar o incendiário in-
lado, estão os críticos do regime instalado pela Revolução Rus- telectual no México. Com isso, o poder de Stálin não teria di-
sa, que se dividem em dois grupos: os que defendem o capita- ficuldades à definitiva ampliação dos poderes do Estado sovi-
lismo e os que, mesmo sendo socialistas, condenam o tipo de ético.
socialismo implantado na URSS. Para os primeiros, o socialis- A política econômica de Stálin empreendeu a coletiviza-
mo, tanto na teoria quanto na prática, é uma ameaça à demo- ção das propriedades agrárias com a criação dos sovkhozes
cracia e à liberdade. Para os segundos, os soviéticos traíram e (propriedades estatais) e os kolkhozes (propriedades cole-
distorceram os ideais de um mundo justo e igualitário. tivas). Além disso, incentivou o desenvolvimento de indústria
de base a partir do financiamento dos setores de educação e
103
Professor Max Dantas

tecnologia. Tais ações eram orientadas pelos chamados planos


quinquenais, que orientavam em médio prazo as diretrizes es-
senciais da economia russa.
No campo da política externa, Stálin recebeu apoio in-
ternacional de diversos partidos comunistas espalhados pelo
mundo. Com isso, as diretrizes políticas dos movimentos co-
munistas de várias nações foram orientadas pelo “Komin-
tern”, congresso que discutia as questões do comunismo in-
ternacional. Em 1934, a entrada da União Soviética na Liga
das Nações indicou o reconhecimento político das nações ca-
pitalistas.
No contexto da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945),
o regime stalinista teve que combater a oposição dos regimes
nazi-fascistas contrários ao comunismo e o socialismo. Tendo
decisiva participação nos destinos deste conflito internacional,
o governo soviético se consolidou no cenário político estabe-
lecendo várias zonas de influência política, ideológica e econô-
mica com a instalação da ordem bipolar.
Anotações
104
História Geral

Crise de 1929 (Grande Depressão) mero de mendigos


aumentou. A que-
Após a primeira guerra mundial (1918), os EUA eram o bra da bolsa afe-
país mais rico do planeta. Além das fábricas de automóveis, os tou o mundo intei-
EUA também eram os maiores produtores de aço, comida en- ro, pois a economia
latada, máquinas, petróleo, carvão.... norte-americana era
Nos 10 anos seguintes, a economia norte-americana con- a alavanca do capita-
tinuava crescendo causando euforia entre os empresários. Foi lismo mundial. Para
nessa época que surgiu a famosa expressão “American Way termos uma idéia,
of Life” (Modo de Vida Americano). O mundo invejava o logo após a quebra
estilo de vida dos americanos. A década de 20 ficou conhe- da bolsa de Nova
cida como os “Loucos Anos 20”. O consumo aumentou, a in- York, as bolsas de
dústria criava, a todo instante, bens de consumo, clubes e boa- Londres, Berlin e
tes viviam cheios e o cinema tornou-se uma grande diversão. Tóquio também
Os anos 20 foram realmente uma grande festa! Nessa quebraram.
época, as ações estavam valorizadas por causa da euforia eco- A crise fez com
Florence Owens Thompson, mãe de sete crian-
nômica. Esse crescimento econômico (também conhecido que os EUA impor- ças, de 32 anos de idade, março de 1936, em
como o “Grande Boom”) era artificial e aparente, portanto tassem menos de busca de um emprego ou de ajuda social para
sustentar sua família.
logo se desfez. outros países, como
De 1920 até 1929, os americanos iludidos com essa pros- consequência os outros países que exportavam para os EUA,
peridade aparente, compraram várias ações em diversas em- agora estavam com as mercadorias encalhadas e, automatica-
presas, até que no dia 24 de outubro de 1929, começou a pior mente, entravam na crise.
crise econômica da história do capitalismo. Em 1930, a crise se agravou. Em 1933, Roosevelt foi elei-
to presidente dos EUA e elaborou um plano chamado New
Vários fatores causaram essa crise: Deal. O Estado passou a vigiar o mercado, disciplinando os
• Superprodução agrícola: formou-se um excedente de empresários, corrigindo os investimentos arriscados e fiscali-
produção agrícola nos EUA, principalmente de trigo, que não zando as especulações nas bolsas de valores.
encontrava comprador, interna ou externamente. Outra medida foi à criação de um programa de obras pú-
• Diminuição do consumo: a indústria americana cresceu blicas. O governo americano criou empresas estatais e cons-
muito; porém, o poder aquisitivo da população não acompa- truiu estradas, praças, canais de irrigação, escolas, aeroportos,
nhava esse crescimento. Aumentava o número de indústrias portos e habitações populares. Com isso, as fábricas voltaram
e diminuía o de compradores. Em pouco tempo, várias delas a produzir e vender suas mercadorias. O desemprego também
faliram. diminuiu. Além disso, o New Deal criou leis sociais que prote-
• Livre Mercado: cada empresário fazia o que queria e nin- giam os trabalhadores e os desempregados.
guém se metia. Para acabar com a superprodução, o governo aplicava me-
Quebra da Bolsa de Nova York: de 1920 a 1929, os didas radicais que não foram aceitas por muitas pessoas: com-
americanos compraram ações de diversas empresas. De re- prava e queimava estoques de cereais, ou então, pagava aos
pente o valor das ações começaram a cair. Os investidores agricultores para que não produzissem. O New Deal alcançou
quiseram vender as ações, mas ninguém queria comprar. Esse bons resultados para a economia norte-americana.
quadro desastroso culminou na famosa “Quinta-Feira Ne- Essa terrível crise que atravessou a década ficou conhecida
gra” (24/10/1929 - dia que a Bolsa sofreu a maior baixa da como Grande Depressão. Os efeitos econômicos da depres-
história). são de 30 só foram superados com o inicio da Segunda Guerra
Se o valor das ações de uma empresa está desabando, o Mundial, quando o Estado tomou conta de fato sobre a eco-
empresário tem medo de investir capital nessa empresa. Se ele nomia ajudando a ampliar as exportações. A guerra foi então,
investe menos, produzirá menos; se produz menos, então, não uma saída natural para a crise do sistema capitalista.
há motivo para tantos empregados, o que levará o empresário Na década de 30, ocorreu a chamada “Política de Agres-
a demitir o pessoal. são (dos regimes totalitários – Alemanha, Itália e Japão) e Apa-
Muitos empresários não sobreviveram à crise e foram à ziguamento das Democracias Liberais (Inglaterra e França)”.
falência, assim como vários bancos que emprestaram dinheiro A política de agressão culminou em 1939 quando a Ale-
não receberam de volta o empréstimo e faliram também. manha nazista invadiu a Polônia dando por iniciada a Segunda
A quebra da bolsa trouxe medo, desemprego e falência. Grande Guerra.
Milionários descobriram, de uma hora para outra, que não ti-
nham mais nada e por causa disso alguns se suicidaram. O nú-
105
Professor Max Dantas

Regimes Totalitários Mundial, serviu para que esses grupos extremistas fossem ba-
nidos do poder com o amplo apoio dos grupos simpáticos à
Com o fim da Primeira Guerra Mundial, a Europa teve reconstrução da democracia e dos direitos civis.
de enfrentar uma de suas piores crises econômicas. O uso do
território europeu como principal palco de batalha acarretou Nazismo
na redução dos setores produtivos e inseriu a população de Após a der-
todo continente em um delicado período de pobreza e miséria. rota na Primeira
Além dos problemas de ordem material, os efeitos da Grande Guerra Mundial
Guerra também incidiram de forma direta nos movimentos (1914-1918), a
políticos e ideologias daquela época. Alemanha foi for-
Como seria possível retirar a Europa daquela crise? Essa çada a assinar o
era uma questão que preocupava a população como um todo Tratado de Ver-
e, com isso, diversas repostas começaram a surgir. Em um pri- salhes, em 1919.
meiro momento, a ajuda financeira concedida pelos Estados De acordo com
Unidos seria uma das soluções para aquela imensa crise. No seus termos, o
entanto, as esperanças de renovação sustentadas pelo desen- país perdeu gran-
volvimento do capitalismo norte-americano foram completa- de parte de seu
mente frustradas com a crise de 1929. território, além de
Dessa maneira, a sociedade européia se mostrava comple- sofrer fortes res-
tamente desamparada com relação ao seu futuro. As doutri- trições no campo
nas liberais e capitalistas haviam entrado em total descrédito militar. Foi proi-
mediante sucessivos episódios de fracasso e indefinição. Pa- bida de desenvol-
ralelamente, socialistas e comunistas – principalmente após a ver uma indústria
Pronunciamento de Hitler no encontro da juventu-
Revolução Russa de 1917 – tentavam mobilizar a classe traba- de nazista em Nuremberg (Setembro 1934)
bélica, de exigir
lhadora em diversos países para que novos levantes populares o serviço militar
viessem a tomar o poder. obrigatório e de possuir um exército superior a cem mil ho-
A crise, somada às possibilidades de novas revoluções po- mens. Para piorar, deveria pagar aos aliados uma vultosa inde-
pulares, fez com que muitos vislumbrassem uma nova onda de nização pelos danos provocados pelo conflito.
instabilidade. Foi nesse momento em que novos partidos afas- O Tratado de Versalhes foi considerado humilhante pelos
tados do ideário liberal e contrários aos ideais de esquerda co- alemães e vigorou sobre um país arrasado e caótico, tanto no
meçaram a ganhar força política. De forma geral, tais partidos aspecto político quanto no econômico. O período de crise es-
tentavam solucionar a crise com a instalação de um governo tendeu-se de 1919 a 1933. Nesse panorama conturbado, o na-
forte, centralizado e apoiado por sentimento nacionalista exa- zismo surgiu e se fortaleceu. Aos poucos, chegou ao governo
cerbado. do país, impondo-lhe uma ditadura baseada no militarismo e
Apresentando essa perspectiva com ares de renovação, tais no terror.
partidos conseguiram se aproximar dos trabalhadores, profis- Diante da eminente derrota para os aliados, na Primeira
sionais liberais e integrantes da burguesia. A partir de então, Guerra, o imperador alemão, Guilherme 2º, abdicou ao tro-
alguns governos começaram a presenciar a ascensão de regi- no no final de 1918. Em 9 de novembro, foi proclamada a Re-
mes totalitários que, por meio de golpe ou o apoio de setores pública na Alemanha. Estabeleceu-se um governo provisório,
influentes, passaram a controlar o Estado. Observamos dessa liderado pelo Partido Social-Democrata, que assinou a paz
forma o abandono às liberdades políticas e ideológicas sendo com as outras nações e convocou eleições para uma Assem-
enfraquecidas pelo apelo e a coesão requeridas por governo de bléia Nacional Constituinte.
caráter autoritário. Entretanto, chefiados por Rosa Luxemburgo e Karl Lie-
Na Itália e Alemanha, países profundamente afetados pela bknecht, os comunistas alemães viam na crise uma oportuni-
crise, o nazismo e o fascismo ascenderam ao poder sob a dade de tomar o poder, por meio de uma rebelião. Porém, o
liderança de Benito Mussolini e Adolf Hitler, respectiva- governo e as forças armadas acabaram sufocando o levante,
mente. Na Península Ibérica, golpes políticos engendrados cujos líderes foram mortos. Nem por isso, o governo repu-
por setores militares e apoiados pela burguesia deram início ao blicano deixou de enfrentar uma oposição de esquerda e de
franquismo, na Espanha, e ao salazarismo, em Portugal. direita, na medida em que era incapaz de lidar com a precária
Em outras regiões da Europa a experiência totalitária tam- economia alemã, que sofria uma terrível escalada hiperinfla-
bém chegou ao poder pregando o fim das liberdades civis e a cionária.
constituição de governos autoritários. Na grande maioria dos A sociedade alemã empobrecia cada vez mais. Isso ape-
casos, a derrocada do nazi-fascismo após a Segunda Guerra nas fazia aumentar a tensão social e política, já muito grande.
106
História Geral

Em novembro de 1923, o marco alemão estava tão desvalori- com as posições nacionalistas de Hitler. Os grandes capita-
zado, que um único dólar equivalia a 4 bilhões e 200 milhões listas alemães, por sua vez, acharam conveniente financiar os
de marcos. nazistas, que aparentavam protegê-los da ameaça comunista.
Assim, de 1930 a 1932, o número de deputados do Partido
Inflação na Alemanha pós-guerra Nazista no Parlamento alemão passou de 170 para 230.
O Partido Nacional-Socialista foi fundado, em 1920,
por Adolf Hitler, um antigo cabo do exército alemão, de ori- Adolf Hitler e o início do 3º Reich
gem austríaca. Defendia exagerados ideais nacionalistas, que No Parlamento, o próprio Hitler que se mostrou compe-
também se misturavam ao militarismo. Nos primeiros mo- tente no plano das negociações políticas. Desse modo, a 30 de
mentos, o grupo era inexpressivo. Reunia inconformados com janeiro de 1933, o líder nacional-socialista foi nomeado Chan-
a derrota alemã e os que não acreditavam no regime republi- celer, ou Primeiro-Ministro, o principal cargo executivo da Re-
cano. pública alemã. Popularmente, já era chamado de “Fuhrer”
Em 1923, aproveitando-se dos níveis estratosféricos da hi- (condutor). Tinha início o que os nazistas chamavam de III
perinflação, Hitler e seus correligionários decidiram seguir o Reich (Terceiro Império), designação que se refere ao Sacro
exemplo dos comunistas, organizando uma revolta armada na Império Germânico, da Idade Média, e ao Segundo Império,
cidade de Munique. Tal como o levante socialista de 1918, po- que se estendeu da Unificação dos Estados germânicos, em
rém, o golpe nazista fracassou e Hitler foi preso. Permaneceu 1871, à República, em 1918.
na cadeia durante oito meses. Nesse tempo, passou suas idéias Ideologicamente, Hitler se apropriou de idéias nacionalis-
para o papel, com o auxílio de Rudolf Hess, um companheiro tas já em voga na Alemanha, radicalizando-as. Defendia a ne-
de partido. Assim surgiu o livro “Minha Luta” (“Mein Kam- cessidade de unidade nacional, garantida por um Estado go-
pf ”), que se transformaria numa espécie de Bíblia da Alema- vernado por um partido único, o Nazista, do qual ele era o
nha nazista. líder supremo. Identificado com a própria nação, Hitler pas-
Entre 1924 e 1929 as idéias de Hitler não encontraram eco sou a ser cultuado como um super-homem pela imensa maio-
na sociedade alemã. O nacional-socialismo só viria a obter res- ria do povo alemão.
paldo popular após o advento da grande depressão mundial O nazismo proclamava também a “superioridade bio-
em 1929. Então, a já combalida economia da Alemanha entrou lógica da raça ariana” (a que pertenceria o povo alemão)
em colapso, com a falência de milhares de empresas, o que ele- e, consequentemente, a necessidade de dominar as “raças in-
vou para 6 milhões o número de desempregados. feriores”. Entre estes, colocavam-se os judeus, os eslavos,
os ciganos e os negros. Também era necessário extinguir os
considerados “doentes incuráveis”: homossexuais, epiléticos,
esquizofrênicos, retardados, alcoólatras, etc. Com a ascensão
de Hitler ao poder, a ideologia nazista passou a influenciar
também a ciência do país, que se dedicou a inventar teorias su-
postamente biológicas para o racismo e o anti-semitismo.

A conquista do “espaço vital”


Com fundamento nesses princípios, o propósito nazista
era construir um império ariano, puro e forte, centralizado em
torno de Hitler. O passo decisivo para esse projeto se tornar
realidade seria a expansão territorial e a integração de todas as
comunidades germânicas da Europa num “espaço vital” úni-
Cédula, de 1923, de 50 milhões de Marcos. Dois meses depois ela só valia
o equivalente à 1 Dolar. co. Além da própria Alemanha, isso incluiria a Áustria, a Tche-
coslováquia, a Prússia (oeste da Polônia) e a Ucrânia.
O desespero gerado pela miséria e a incerteza quanto ao
futuro, à facilidade humana de acreditar na demagogia e nas Concorrência comunista
soluções autoritárias, a necessidade de resgatar a auto-estima Porém, para triunfar, o nazismo precisava combater seu
nacional depois das humilhações do Tratado de Versalhes fo- principal concorrente ideológico, o socialismo revolucionário
ram alguns dos fatores que fizeram da Alemanha um terreno ou comunismo, com o qual teria de disputar a adesão popu-
fértil a ser semeado pelos nazistas. O discurso de um líder ca- lar. Igualmente totalitário, o comunismo também se arvorava
rismático como Adolf Hitler oferecia segurança e a perspecti- a construir uma sociedade perfeita, não só na Alemanha, mas
va de melhores dias, com promessas e ilusões demagógicas. no mundo. Entretanto, no lugar de uma raça superior, coloca-
Além da classe média, dos camponeses e do operariado va uma classe social - o proletariado - à frente do processo. Por
em desespero, as Forças Armadas também se identificavam isso, o anticomunismo constituía um ponto central do pensa-
107
Professor Max Dantas

mento de Hitler. sivos do ser humano e canalizou o ódio dos alemães particu-
Desenvolvendo uma propaganda agressiva e eficiente, ad- larmente contra os judeus, pois existia uma tradição anti-semi-
ministrada por Joseph Goebbels, o Partido Nazista se infiltrou ta entre os povos nórdicos. Desse modo, os judeus serviram
em toda a sociedade alemã e controlou a imprensa, a rádio, o como bode expiatório para todos os males alemães. A partir
teatro, o cinema, a literatura e as artes. Conseguiu incutir na de 1934, o anti-semitismo tornou-se uma prática do governo,
mentalidade do povo a visão de mundo nazista e a devoção além de nacional. Os judeus foram proibidos de trabalhar em
incondicional ao Fuhrer. A educação da infância e juventude, repartições públicas. Suas lojas e fábricas foram expropriadas
em especial, foi usada como uma ferramenta do Estado, para pelo governo. Além disso, eram obrigados a usar braçadeiras
gravar no cérebro e no coração de crianças e adolescentes o com a estrela de Davi, para poderem ser facilmente discrimi-
orgulho de pertencer à raça ariana, bem como a obediência e a nados.
fidelidade ao “Fuhrer”. A radicalização do anti-semitismo oficial forçou mais da
Mas a vitória do nazismo não se deveu exclusivamente metade da população judaico-alemã a deixar o país, à procura
ao trabalho ideológico, Hitler também empregou a força para de exílio. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, restavam
conquistar a Alemanha. Nesse ponto manifesta-se o caráter apenas 250 mil judeus na Alemanha, menos de 0,5% da popu-
essencialmente militarista do nacional-socialismo que, desde lação total. Com a Guerra, tanto estes quanto os judeus dos
o início, contou com a participação de organizações parami- países ocupados por Hitler foram enviados para os campos
litares próprias. de extermínio, o que resultou no holocausto - o massacre de 6
Para começar, foram criadas as SA (“Sturmapteilun- milhões de pessoas.
gen”), ou Divisões de Assalto, uma espécie de milícia par- Rumo à Segunda Guerra Mundial
ticular nazista. Composta por desempregados, ex-militares, Inglaterra, França e Estados Unidos, as três potências de-
desajustados de qualquer espécie e até criminosos comuns, es- mocráticas, não se preocuparam em deter a ascensão do nazis-
palhavam o terror junto aos inimigos de Hitler, por meio da mo. Acreditavam que uma Alemanha forte funcionaria como
surra, da tortura e do assassinato. O grupo quase saiu do con- um cordão de isolamento, livrando o Ocidente da influência da
trole dos líderes e precisou ser transformado numa nova insti- União Soviética. Esta, por sua vez, assinou um pacto de não-
tuição a SS (Schutzstafell), ou Tropas de Proteção, um grupo agressão com a Alemanha, em agosto de 1939, em que se com-
de elite que contava com homens selecionados e disciplina- prometiam a não atacar uma à outra e se manterem neutras
dos. caso uma delas fosse atacada por uma terceira potência.
A partir de 1929, sob o comando de Heinrich Himmler, a Desse modo, a Alemanha logo começou a contar com cré-
SS cresceu e chegou a contar com um exército próprio, a Wa- dito e recursos internacionais e passou a prosperar. Surgiram
ffen SS (SS Armada), independente do Exército alemão. Além empresas industriais poderosas, de minério, petróleo, borra-
disso, também absorveu a Gestapo, a polícia secreta nazista, cha, etc., da noite para o dia. Foram construídas grandes obras
em 1939, juntamente com a qual comandaria os campos de públicas, como estradas e aeroportos, reduzindo rapidamente
concentração e extermínio nos países ocupados. e logo acabando (ou quase) com desemprego.
A recuperação econômica deu cada vez mais popularidade
As vítimas preferenciais do nazismo: os judeus aos nazistas. Ao mesmo tempo, o grosso da população alemã
Nos seis anos anteriores à Segunda Guerra Mundial, inicia- recuperava autoconfiança. Aproveitando-se disso tudo, Hitler
da em 1939, os nazistas institucionalizaram a violência, pren- gradativamente deixou de respeitar as cláusulas do Tratado de
dendo arbitrariamente e executando seus inimigos políticos: Versalhes. A partir de 1935, a indústria bélica foi reconstruída
comunistas, sindicalistas e líderes esquerdistas de modo geral. e o serviço militar tornou-se obrigatório.
O nacional-socialismo soube manipular os instintos agres-
Fascismo
Com o fim da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), a
Itália foi ignorada nos tratados que selaram o conflito. O des-
gaste social e econômico mal recompensado mobilizou dife-
rentes grupos políticos engajados na resolução dos problemas
da nação italiana. No ano de 1920, uma greve geral de mais de
dois milhões de trabalhadores demonstrava a situação caótica
vivida no país. No campo, os grupos camponeses sulistas exi-
giam a realização de uma reforma agrária.
A mobilização dos grupos trabalhadores trouxe à tona o
temor dos setores médios, da burguesia industrial e dos con-
servadores em geral. A possibilidade revolucionária em solo
italiano refletiu-se na ascensão dos partidos socialista e comu-
108
História Geral

cos (exceto o fascista) foram colocados na ilegalidade, os cami-


sas negras incorporaram as forças de repressão oficial e a pena
de morte foi legalizada. O Estado fascista, contando com tan-
tos poderes, aniquilou grande parte das vias de oposição po-
lítica. Entre os anos de 1927 e 1934, milhares de civis foram
mortos, presos ou deportados.
O apelo aos jovens e à família instigou grande apoio po-
pular ao regime do “Duce”. Em 1929, os acordos firmados
com a Igreja no Tratado de Latrão aproximaram a popula-
ção católica italiana ao regime totalitário. Ao mesmo tempo, o
crescimento demográfico e o incentivo às obras públicas co-
meçaram a reverter os sinais da profunda crise que tomava
conta da Itália. O setor agrícola e industrial passou a ganhar
Hitler e Mussolini em Veneza, 1934
considerável incremento, interrompendo o processo inflacio-
nista. De um lado, os socialistas eram favoráveis a um processo nário da economia.
reformador que traria a mudança por vias estritamente parti- Com a crise de 1929, a prosperidade econômica vivida nos
dárias. Do outro, os integrantes das facções comunistas enten- primeiros anos do regime sofreu uma séria ameaça. Tentando
diam que reformas profundas deviam ser estimuladas. contornar a recessão econômica, o governo de Benito Musso-
O processo de divisão ideológica das esquerdas acontecia lini passou a entrar na corrida imperialista. No ano de 1935, os
enquanto os setores conservadores e da alta burguesia pleite- exércitos italianos realizaram a ocupação da Etiópia. A pres-
aram apoio ao Partido Nacional Fascista. Os fascistas lide- são das demais potências capitalistas resultaria nas tensões que
rados por Benito Mussolini louvavam uma ação de comba- desaguaram na deflagração da Segunda Guerra Mundial (1939
te contra os focos de articulação comunista e socialista. Desse – 1945), momento em que Mussolini se aproxima do regime
modo, o “fasci di combattimento” (fascismo de combatimen- nazista alemão.
to) passou a atacar jornais, sindicatos e comícios da esquerda
italiana. O eixo nazi-fascista
Criando uma força miliciana conhecida como “camisas Em 1938, Hitler aliou-se ao ditador italiano Benito Mus-
negras”, os fascistas ganharam bastante popularidade em solini formando o eixo nazi-fascista. Ainda no mesmo ano,
meio às contendas da economia nacional. A demonstração de passou a controlar a totalidade das finanças alemãs, colocan-
poder do movimento se deu quando, em 27 de outubro de do-se à frente do Banco do Reich. Também anexou a Áustria
1922, os fascistas realizaram a Marcha sobre Roma. A mani- e os Sudetos, na Tchecoslováquia. Eram regiões de numerosa
festação, que tomou as ruas da capital italiana, exigia que o rei população germânica, ricas em matérias-primas e complexos
Vitor Emanuel III passasse o poder para as mãos do Partido industriais. As potências democráticas e a URSS mantinham-
Nacional Fascista. Pressionado, a autoridade real chamou Be- se na passiva posição de simples observadores, mas os aconte-
nito Mussolini para compor o governo. cimentos se precipitavam rapidamente na direção de uma Se-
Inserido nas esferas de poder político central, os fascistas gunda Guerra Mundial.
teriam a oportunidade de impor seu projeto político autoritá-
rio e centralizador. Já nas eleições de 1924, os representantes Salazarismo
políticos fascistas ganharam a maioria no parlamento. Os so- No início do século XX, Portugal
cialistas, inconformados com as fraudes do processo eleitoral, sofreu uma reforma política que insti-
denunciaram a estratégia antidemocrática fascista. Em respos- tuiu um governo de caráter republica-
ta, o socialista Giacomo Matteotti foi brutalmente assassinado no. A nova forma de organização do
por partidários fascistas. cenário político não foi capaz de resistir
Mussolini já tomava ações no sentido de minar as insti- a todos os problemas sofridos no con-
tuições representativas. O poder legislativo foi completamen- tinente europeu com a Primeira Guerra
te enfraquecido e o novo governo publicou a Carta de La- e a crise de 1929. A situação calamitosa
voro, que declarava as intenções da nova facção instalada no da população trabalhadora acabou ins-
poder. Explicitando os princípios fascistas, o documento de- taurando um cenário politicamente ins-
fendia um Estado corporativo onde a liderança soberana de tável aproveitado pelos militares, que realizaram um golpe de
Mussolini resolveria os problemas da Itália. No ano de 1926, Estado em 1926.
um atentado sofrido por Mussolini foi a brecha utilizada para Inspirado em idéias de extrema direita, o governo ditato-
a fortificação do estado fascista. rial impunha suas ações e realizava franca oposição os movi-
Os órgãos de imprensa foram fechados, os partidos políti- mentos socialista e comunista do país. Esse processo de cisão
109
Professor Max Dantas

política alcançou seu auge quando o general Antonio Carmo- balhadores que não aceitavam o surgimento de uma ditadura
na assumiu o poder do governo lusitano. Fortemente influen- em território espanhol.
ciado pelo ideário nazi-fascista, elaborou a constituição de um Em contrapartida, o domínio dos militares sobre as forças
Estado forte aclamado pelas elites nacionais. armadas do país estabeleceu uma polarização política que deu
Ao ocupar o cargo de primeiro-ministro em Portugal, Car- início à chamada Guerra Civil Espanhola. Enquanto os mi-
mona convocou Antônio de Oliveira Salazar para que ocu- litares tinham o apoio de monarquistas e fascistas na tentativa
passe a pasta do Ministério da Fazenda. Durante o tempo em de instalação da Ditadura; os grupos republicanos contaram
que ocupou a função, Salazar promoveu um conjunto de ações com a participação de socialistas, trabalhadores e tropas inter-
econômicas que favorecia diretamente a grande burguesia lu- nacionais vindas de países como a União Soviética e a França.
sitana. O apoio concedido a esse setor acabou por conduzi-lo Observando a possibilidade de ascensão de mais um regi-
ao governo português em 1932. me totalitário, chefes de outros regimes conservadores, como
Na condição de chefe de governo, Antonio Salazar impôs Adolf Hitler, Benito Mussolini e Antonio Salazar cederam tro-
uma nova carta constitucional com traços explicitamente ins- pas em favor dos militares golpistas. Além disso, governantes
pirados nos ditames do fascismo italiano. O novo documento como Hitler e Mussolini aproveitaram do conflito para testar
estabeleceu a censura dos meios de comunicação, a proibição o potencial destrutivo do grande arsenal militar que haviam
dos movimentos grevistas e a criação de um sistema político formado. Em 1937, por exemplo, as forças alemãs comanda-
unipartidário. A partir de então, se instalava uma das mais du- ram um bombardeio aéreo que destruiu a cidade espanhola de
radouras ditaduras criadas na Europa. Guernica.
Somente com a morte de Salazar, acontecida em 1970, um No início de 1939, os militares conseguiram vencer a guer-
movimento revolucionário de caráter liberal tomou conta do ra civil e estabelecer um governo totalitário comandado por
cenário português. Em 1974, o movimento de transformação Francisco Franco. O seu regime teve longa duração, sendo
política atingiu seu auge com a deflagração da chamada Revo- destituído somente no ano de 1975. A partir de então, o cha-
lução dos Cravos. Somente após esse episódio, Portugal con- mado “franquismo” demonstrou caráter autoritário e persona-
seguiu dar fim a um dos mais trágicos momentos de sua his- lista do governo do general-ditador que dominou a Espanha
tória. por várias décadas.

Franquismo Anotações
Após a crise de 1929, a Espanha pas-
sou a viver um agitado cenário político
marcado pela atuação de setores de esquer-
da e direita. No ano de 1931, um governo
republicano foi instalado com o objetivo
de renovar as práticas políticas espanho-
las e prover uma solução aos problemas
econômicos que assolavam o país. Nesse
contexto, conservadores e socialistas se al-
ternavam no poder demonstrando a ausência de um grupo po-
lítico hegemônico.
Os comunistas dominaram o governo espanhol até 1934,
quando os setores de direita conseguiram chegar ao poder.
Dois anos mais tarde, os liberais, republicanos, socialistas e
comunistas formaram uma grande frente de coalizão chamada
de Frente Popular. Buscando garantir a democracia e atender
os anseios dos trabalhadores, esse grupo de esquerda conse-
guiu voltar ao poder na Espanha. Imediatamente, os conser-
vadores de extrema direta passaram os militares na instalação
de uma ditadura.
Em 1936, membros do exército espanhol como Gonzalo
Queipo, Emilia Mola, José Sanjuro e Francisco Franco lidera-
ram uma tentativa de golpe. Para dar sustentação à ação golpis-
ta, buscaram o apoio de um grupo de ultra-direita composto
por conservadores chamado Falange. No entanto, a tentativa
de tomada do poder foi impedida pela ação de milícias de tra-
110
História Geral

Segunda Guerra Mundial quando a Itália de-


clara guerra à Fran-
A humilhação sofrida pela Alemanha com o Tratado de ça e ao Reino Unido,
Versalhes cria as condições ideais para a germinação do nacio- o conflito está restri-
nal-socialismo – nazismo – alemão e a ascensão de Hitler ao to aos três países. A
poder, em 1933. O nacional-socialismo toma o poder pela vio- Alemanha invade e
lência, elimina as dissensões internas com métodos violentos e ocupa a Noruega, a
combate a divisão do mundo produzida pela 1a Guerra, quan- Bélgica, a Holanda e
do os mercados mundiais são repartidos entre França, Bélgi- a França.
ca, Reino Unido, Holanda, Itália, Japão e Estados Unidos. A Domínio ale-
política alemã não deixa dúvidas quanto aos desejos de Hitler: mão – O domínio
o carvão e o ferro da Sibéria; o petróleo da Rumânia e Cáuca- alemão na Europa
so; o trigo da Ucrânia. E, especialmente, o reordenamento do fica patente com a
mundo colonial. expulsão dos ingle-
Reação mundial ao nazismo – As potências ocidentais ses de Dunquerque
têm uma posição dúbia em relação ao nazismo. Pressentem o e os armistícios as-
perigo representado por Hitler, mas permitem o crescimento sinados pela França
Tropas germânicas em uma das Reuniões de
da Alemanha nazista como forma de bloquear a União Sovié- com a Itália e Ale- Nuremberg, ocorrida em 1935.
tica. A invasão da Polônia, em 1º de setembro de 1939, por manha, em junho de
tropas e aviões alemães, não surpreende a Europa. Todos es- 1940, que dividem o território francês em duas partes. Nesse
tão à espera da guerra. momento, a Alemanha nazista controla a Áustria, Tchecoslo-
Origens do Eixo – Itália e Alemanha têm regimes políti- váquia, Dinamarca, Noruega e a maior parte da França. Toda
cos semelhantes, mas o que mais as aproxima é o limitado es- a costa ocidental da Europa pertence ao III Reich e não res-
paço territorial de que dispõem e a acirrada competição pelos ta nenhuma tropa inglesa no continente. Os ingleses, violen-
mercados internacionais. No período após a 1a Guerra, algu- tamente bombardeados, dia e noite, resistem aos nazistas. Na
mas nações são favorecidas no plano internacional. É o caso Batalha da Inglaterra, no verão de 1940, a aviação inglesa, RAF
do Reino Unido e da França, donos de vastos impérios colo- (Royal Air Force), consegue rechaçar os ataques da Luftwaffe
niais; dos Estados Unidos, avançando rapidamente na disputa (aviação alemã).
pelo mercado mundial; e da União Soviética, rica em recursos França ocupada – Com a divisão da França, o primeiro-
naturais e em acelerado processo de desenvolvimento. Já Ale- ministro francês, marechal Henri Phillipe Pétain, assume po-
manha, Itália e Japão situam-se em uma área de 4 milhões de deres ditatoriais em 1940 e transfere a capital para Vichy, uma
quilômetros quadrados e possuem uma população superior à vez que Paris está ocupada pelas tropas alemãs. O governo de
do Reino Unido e Estados Unidos, somados. Assim, o Japão Vichy é anti-republicano, conservador, e colabora estreitamen-
pretende dominar a Ásia; a Itália ocupa a Albânia e a Abissínia te com os nazistas, sobretudo de janeiro de 1941 até a ocupa-
(Etiópia); a Alemanha militariza a Renânia, em 1936, e anexa ção alemã, em novembro de 1942.
a Áustria, em 1938. Na Conferência de Munique, em 1938, da A “França Livre” de De Gaulle – Enquanto isso, um
qual participaram a França, a Alemanha, a Itália e a Inglater- grupo de franceses, sob a liderança de Charles De Gaulle, reti-
ra, Hitler consegue a cessão dos Sudetos (região da Checoslo- ra-se para Londres e apresenta-se como governo alternativo a
váquia). No ano seguinte, o fuhrer alemão cria o protetorado Vichy. O movimento, chamado “França Livre”, entra em con-
da Boêmia e anexa o porto lituano de Memel, no mar Báltico. tato com as organizações de resistência aos alemães na Fran-
Stalin percebe que as anexações alemãs caminham em direção ça ocupada, a “Resistência”, em busca de apoio nas colônias
à União Soviética e firma com Hitler o Pacto Germano-Sovi- francesas da África.
ético, em 1939, pelo qual anexa a Lituânia, Letônia, Estônia e Charles André Joseph Marie de Gaulle (1890-1970), esta-
parte da Polônia e Finlândia. dista francês, nasce em Lille e frequenta a Escola Especial Mili-
tar de Saint-Cyr. Aos 23 anos ingressa na Infantaria e participa
Começa a Guerra da 1a Guerra Mundial. Depois de alcançar as patentes de ma-
Em abril de 1939 Hitler exige a anexação de Dantzig, o jor e general, assume o seu primeiro cargo político em 1940,
“corredor polonês”, e a concessão de uma rede rodoviária e como secretário de Estado da Defesa Nacional. Durante a 2a
ferroviária que cruze a província polonesa da Pomerânia. A Po- Guerra, organiza a resistência em Londres. Governa a Fran-
lônia, sem condições de resistir, é invadida por tropas nazistas ça de 1958 a 1969. A Constituição que promulga dura mais de
no dia 1o de setembro. O Reino Unido, comprometido com a 30 anos. No seu governo a Argélia se torna independente. Em
defesa da Polônia em caso de agressão, declara guerra à Alema- 1968 acontecem várias manifestações estudantis e operárias.
nha. Horas depois, é seguida pela França. Até junho de 1940, Renuncia um ano depois, após sair derrotado de um plebiscito
111
Professor Max Dantas

para a reforma constitucional que pretendia fazer. locado para o chamado “front oriental”, virando o centro da
A “Nova Ordem” na Europa – A Alemanha nazista im- Guerra para a Batalha de Stalingrado, que recebeu, a exemplo
planta sua “Nova Ordem” nos territórios ocupados, que são da Revolução Espanhola, comunistas, anarquistas e antifascis-
explorados segundo os interesses do III Reich. As tropas inva- tas do mundo inteiro. Aqui no Brasil, Carlos Drummond de
soras apoderam-se dos estoques de matéria-prima e manufatu- Andrade, por exemplo, publicou uma ODE à vitória de Stalin-
ras e reativam as indústrias paralisadas. Os povos conquistados grado, que mudou toda a abordagem da guerra.
são obrigados a trabalhos forçados. Praticamente abandonada pelos Ocidentais, Stalin não se
Campanha da Rússia – A primeira fase da guerra termi- cansava de enviar mensagens pedindo suporte humano com
na com o ataque alemão à União Soviética, em junho de 1941. a abertura de um importante “Front Ocidental” que dividis-
Em consequência, as divergências ideológicas entre capitalistas se as forças fascistas, após muitas perdas humanas - Stalingra-
e comunistas são colocadas em segundo plano. Hitler invade a do, além do nome emblemático e simbólico do então Líder
URSS, por um lado por ter o Comunismo como um inimigo da União Soviético, constituía-se em principal porta de entra-
(para seus parâmetros) tão insidioso quanto os judeus e ain- da aos ricos territórios russos, particularmente terras férteis e
da, segunda alguns autores, porque percebe a impossibilidade petróleo - a URSS coloca-se definitivamente na vanguarda do
de ganhar a guerra no oeste sem uma vitória no leste europeu. Comando Aliado.
Nesse momento, 1 milhão de soldados alemães ocupam os O poderoso e numeroso Exército Vermelho conseguia
Bálcãs. A Wehrmacht (Exército alemão) já domina a Romênia, sucesso após sucesso: todos os países da Europa (Polônia,
Bulgária e Hungria e conquista a Iugoslávia e a Grécia. A in- Hungria, Romênia, Bulgária, Tchecoslováquia, etc), iam sendo
vasão do território soviético é levada a efeito em aliança com a libertados o Exército Vermelho foi o primeiro exército vito-
Finlândia, Hungria e Romênia. Com a subsequente aliança en- rioso a entrar efetivamente em Berlim. A Bandeira Vermelha,
tre a União Soviética e as potências ocidentais, produzida pelo com uma foice e um martelo a tremular no alto de importan-
ataque nazista, a Alemanha empenha-se numa guerra em duas tes prédios políticos alemães, como o Bundestag, em meio a
frentes, para a qual não está bem preparada. A estratégia da um mar de gente comemorando tornou-se o emblema maior
blitzkrieg (guerra-relâmpago) deixa de ser novidade e despon- da vitória aliada sobre os fascistas de Hitler.
tam contradições no próprio comando nazista. Nestas circunstâncias, não restava aos ocidentais outra al-
ternativa que um desembarque também (a dúvida era Dun-
A Reviravolta querque ou Normandia) sob a pena de ver o Exército Ver-
Batalha de melho libertar também a Holanda, a Bélgica, a França, etc.
Stalingrado – 1941 Decidiu-se o Desembarque na Normandia, principalmente
marca a Batalha de para garantir os interesses dos aliados ocidentais na Europa.
Stalingrado, MAR- Seu erro de cálculo foi imaginar que o mais poderoso exército
CO do início da da Europa até então, a Wehrmacht e a Luftwaffe, venceriam os
derrota nazista. En- Socialistas sem grande dificuldade. Os Socialistas transforma-
quanto os aliados ram rapidamente fábricas de tratores em fábricas de tanques
ocidentais lutavam de guerra, fábricas de canos em fábricas de metralhadoras, fu-
contra as potências zis e canhões e, em defesa de um regime e um idealismo acima
do Eixo no Norte de qualquer interesse mesquinho dos fascistas ou dos aliados
da África e, no má- ocidentais, dedicaram-se de corpo e alma ao esforço de guerra,
ximo, prestavam al- de resto ocorrendo em seu território!
gum apoio moral A vitória dos Soviéticos sobre os Nazistas e consequen-
principalmente pe- te libertação dos países do Leste Europeu constituiu na maior
las rádios BBC de surpresa dos aliados ocidentais que precipitaram o “Desem-
Reunião dos Líderes aliados da 2º Guerra Mun- Londres e Voice of barque na Normandia”, como se disse, para garantir e preser-
dial, na Conferência de Ialta America, dos EUA, var seus interesses econômicos na Europa...
aos Aliados. A Guerra era travada na Europa exclusivamente
por comunistas e partisans, anti-fascistas em geral, com apoio Pearl Harbor
pífio dos aliados ocidentais. Acredita-se que os aliados ociden- O ataque japonês à base norte-americana de Pearl Harbor,
tais, sabendo que o Nazismo é uma forma autoritária de en- colônia norte-americana situada no Havaí, em 7 de dezembro
caminhar o Capitalismo enquanto o Socialismo constitui uma de 1941, levou os Estados Unidos a declararem guerra ao Eixo
forma autoritária de encaminhar o Comunismo, pensavam em e fez com que o conflito se alastrasse a praticamente todo o
permitir que Hitler e seus assassinos destroçassem o Socialis- mundo. Em junho de 1942 o Japão já ocupa a Indochina Fran-
mo para, somente então, iniciar a luta contra o autoritarismo. cesa e detém a supremacia naval no Pacífico. Em seguida, toma
Fato é que o grosso do maquinário bélico nazista foi des- Hong Kong, Malásia, Cingapura, Índias Orientais Holandesas,
112
História Geral

Bornéu, Filipinas, Andamãs e Birmânia. As duas facções beli- Dia D – Em 6 de junho de 1944, chamado de “Dia D”
gerantes estão definidas: os países do Pacto Anticomintern (o pelos Aliados, sob o comando do general Eisenhower, é feito
Eixo) – Alemanha, Itália e Japão – contra os Aliados – Ingla- o ataque estratégico que daria o golpe mortal nas forças nazis-
terra, Estados Unidos, União Soviética e China. A China já se tas que ainda resistem na Europa. Cinquenta e cinco mil solda-
encontra em guerra contra o Japão desde 1931. dos norte-americanos, britânicos e canadenses desembarcam
Guerra de máquinas – A 2ª Guerra Mundial é uma guer- nas praias da Normandia, noroeste da França, na maior opera-
ra de máquinas, aviões, tanques, colunas motorizadas, artilha- ção aeronaval da História, envolvendo mais de 5 mil navios e
ria pesada, navios e submarinos. Antes da explosão do confli- mil aviões. Os combates são pesados, com numerosas baixas,
to, os Estados Unidos esforçam-se por desenvolver a indústria até 27 de junho, quando o I Exército norte-americano toma o
de guerra e reúnem uma produção bélica 50% mais podero- porto de Cherbourg. Em 9 de julho forças britânicas e cana-
sa do que as da Alemanha e Japão juntos. Nos anos de 1943 denses entram em Caen, abrindo caminho para a passagem de
e 1944, os Estados Unidos fabricam um navio por dia e um tanques pelas defesas alemãs. Paris é libertada em 25 de agos-
avião a cada cinco minutos. to, Bruxelas em 2 de setembro. A fronteira alemã anterior ao
Kamikazes – É como são chamados os aviões japone- início da guerra é cruzada pelos Aliados em Aachen em 12 de
ses carregados de explosivos e dirigidos por um piloto suicida setembro. Ao mesmo tempo, os Aliados lançam bombardeios
que com ele se atira sobre o alvo inimigo. É usado pelo Japão aéreos pesados contra cidades industriais alemãs. No início de
principalmente no final da 2a Guerra e é também o nome do 1945 os soviéticos (pelo leste) e os norte-americanos e britâni-
piloto. O nome vem da expressão “tempestade providencial” cos (pelo oeste) fazem uma verdadeira corrida para ver quem
e é como os japoneses chamam as duas tempestades que em chega primeiro a Berlim.
1274 e 1281 destruíram frotas de invasores mongóis, livrando Dwight Eisenhower (1890-1969), militar e político norte-
o país da guerra. americano. Em novembro de 1942, com a patente de general,
Sofrimentos e a estratégia dos Aliados Ocidentais comanda as forças anglo-americanas na invasão do norte da
O conflito se torna uma guerra de desgaste. O Eixo tenta África. Um ano depois é escolhido para comandar as forças
subjugar a Inglaterra, cortando suas linhas de abastecimento aliadas durante a invasão da Europa ocidental. Desempenha
no Atlântico e no Mediterrâneo. As bases de Gibraltar e Mal- papel importante na derrota do exército alemão na frente oes-
ta são constantemente bombardeadas. Em 1940 a Itália fra- te. Em 1951 é o comandante supremo da Organização do Tra-
cassa na campanha da África e, na primavera de 1941, os ale- tado do Atlântico Norte (OTAN) na Europa, quando os Es-
mães assumem o controle das operações com o Afrikakorps, tados Unidos resolvem apoiar o tratado. O prestígio o leva à
comandado pelo general Rommel. Com Rommel, os ingleses presidência norte-americana. Após quatro anos, reelege-se por
sofrem duras perdas e a ameaça nazista continua sobre o canal maioria absoluta. Desenvolve uma política de impostos baixos
de Suez e o Egito. Hitler, entretanto, mais preocupado com a e intervenção mínima nos Estados. Nas relações externas, ga-
guerra na Europa, não dá o apoio necessário ao Afrikakorps e,
em outubro de 1942, as tropas de Rommel são atacadas pelo
8o Exército Inglês, do general Montgomery, em El Alamein,
no Egito. Os alemães retiram-se rumo à Tunísia e a operação
consuma-se em maio de 1943, quando os norte-americanos
desembarcam na região e os Afrikakorps rendem-se incondi-
cionalmente. Cerca de 250 mil soldados alemães e italianos são
aprisionados.
Contra-ofensiva na África e Itália – Em julho de 1943
os Aliados desembarcam na Sicília e, em setembro, avançam
até Nápoles. Mussolini é destituído em julho e a Itália muda de
lado. Tropas alemãs ocupam Roma, o centro e o norte do país,
mas a ofensiva aliada toma a capital em junho de 1944 e chega
ao norte de Florença em setembro. Em abril de 1945 as forças
alemãs na Itália se rendem.
Contra-ofensiva nos Bálcãs – O avanço soviético che-
ga à Romênia em abril-maio de 1944 e a liberta em setem-
bro. A Bulgária é libertada entre setembro e outubro. Também
em outubro os exércitos guerrilheiros da Iugoslávia passam à
ofensiva, com o apoio de tropas soviéticas. Na Albânia e na
Grécia, os guerrilheiros (partisans) realizam levantes e forçam
a retirada das tropas alemãs durante o ano de 1944.
113
Professor Max Dantas

rante a hegemonia dos Estados Unidos. Seu governo é consi- A 2a Guerra Mundial deixa um saldo de 50 milhões de mor-
derado um dos mais bem-sucedidos deste século. tos - Mais de 20 milhões de Soviéticos e quase 6 milhões de
Guerra no Pacífico – No Pacífico, a situação também se judeus foram mortos nesse período negro da história humana.
inverte com a vitória das tropas norte-americanas na batalha Burgueses preocuparam-se em arrolar os “custos financeiros”
naval de Midway e em Guadalcanal, em 1942. Os Estados Uni- da Guerra e chegaram à conclusão de que foi de cerca de US$
dos partem para a reconquista da Ásia. No Pacífico central, os 1,40 trilhão.
norte-americanos conquistam as ilhas Aleutas, Gilbert, Mar-
shall e Marianas entre maio de 1943 e março de 1944 e as Fi- A Europa e sua reconstrução
lipinas entre outubro de 1944 e fevereiro de 1945. A Birmânia As negociações entre os Aliados para regularizar a situa-
(atual Mianmá) é reconquistada entre o final de 1944 e o iní- ção mundial começaram antes do fim do conflito.
cio de 1945 por tropas britânicas, norte-americanas e chinesas. Os destinos da Europa no pós-guerra foram estabelecidos
Em fevereiro de 1945 ocorre o primeiro desembarque norte- principalmente em três referências: a Conferência de Teerã
americano no Japão, na ilha de Iwojima. (Irã); a de Ialta (Ucrânia); e a de Potsdam (Alemanha).
Ataque a Hiroshima e Nagasaki – Com a Guerra contra o - Conferência de Teerã (novembro de 1943): Durante
Japão praticamente terminada e vitoriosa, os estadunidenses, a Conferência,os representantes das potências, a saber: Roose-
para marcar posição e intimidar os Soviéticos, dando início as- velt, Stalin e Churchill, definiram a fronteira da Polônia em re-
sim à Guerra Fria, a 6 de agosto de 1945 é lançada a primeira lação a União Soviética. Anexaram a ela ainda os países bálti-
bomba atômica sobre Hiroshima, deixando mais de 100 mil cos e projetaram a divisão da Alemanha em vários estados.
mortos e 100 mil feridos. A partir de 8 de agosto tropas sovié- - Conferência de Ialta (fevereiro de 1945): o ditador
ticas expulsam os japoneses da Mandchúria e da Coréia e ocu- soviético Stalin se beneficiava do rápido avanço das suas tro-
pam as ilhas Kurilas e Sakalina. Em 9 de agosto é lançada a se- pas, por isso teve vantagem para negociar. Os três governantes
gunda bomba atômica, dessa vez sobre Nagasaki, com saldo anunciaram princípios gerais, como a autodeterminação dos
de vítimas semelhante ao de Hiroshima. povos e a democratização, sem definir o caráter da democra-
cia a ser instalada. A Alemanha seria privada do governo e di-
vidida em zonas de ocupação, assim como a Áustria. A Polô-
nia perderia regiões conquistadas à Rússia em 1921 e receberia
compensações em direção ao rio Oder.
- Conferência de Potsdam (julho-agosto de 1945): Em
clima de tensão, realizou-se a Conferência de Potsdam, nela o
resultado foi: a divisão da Alemanha em zonas de ocupação:
norte-americana, soviética, inglesa e francesa, foi igualmente
fragmentada em quatro partes. Os vencedores impuseram aos
alemães uma reparação de guerra de 20 bilhões de dólares, dos
quais a metade seria destinada a União Soviética. A indústria
bélica alemã foi eliminada, a produção de aço limitada, e certas
fábricas desmontadas. Foi decidido o julgamento dos lideres
nazistas por um tribunal internacional

O Julgamento de Nuremberg
Nasce a ONU e (re)surge o Estado de Israel
Terminado o conflito, os vitoriosos decidem julgar os lí-
O Final da Guerra deres nazistas num inédito tribunal internacional de crimes de
Consta que Hitler tenha dado ordem a um Korporaal guerra. A iniciativa contribui para a descoberta dos campos de
(Cabo) que o matasse com um tiro e enrolasse seus corpos em concentração e extermínio. A sede escolhida é a cidade alemã
pneus, incinerando-os e tornando qualquer identificação im- de Nuremberg, que nos anos 30 havia sido palco dos maiores
possível para os recursos científicos da época. Há quem diga comícios nazistas. São realizados 13 julgamentos entre 1945 e
que cometeu suicídio (difícil ter certeza histórica quanto a este 1947. Os juízes são norte-americanos, britânicos, franceses e
ponto. Mas seus restos mortais jamais foram encontrados) em soviéticos. Dos 177 alemães indiciados, 25 são condenados à
30 de abril, com a chegada das tropas soviéticas a Berlim, e o morte, 20 à prisão perpétua e 97 a penas mais curtas de pri-
almirante Doenitz forma novo governo e pede o fim das hos- são. São absolvidos 35. No julgamento principal, de novembro
tilidades. A capital alemã é ocupada em 2 de maio. A Alema- de 1945 a setembro de 1946, os réus são os 21 principais líde-
nha se rende incondicionalmente em 7 de maio, em Reims. A res nazistas capturados. Dez deles são executados por enfor-
capitulação do Japão acontece em 2 de setembro, em Tóquio. camento na madrugada de 16 de outubro de 1946; o marechal
114
História Geral

Hermann Goering suicida-se com veneno em sua cela - for-


necido por um oficial estadunidense simpatizante do nazismo
- poucas horas antes; para o aristocrata Goering seria uma in-
fâmia ser enforcado...
Como saldo maior do tribunal, o nascimento da ONU -
Organização das Nações Unidas - em 1946 e o ressurgimento,
após quase dois milênios, do Estado de Israel que, infelizmen-
te, JAMAIS cumpriu as determinações da ONU quanto aos
palestinos, repetindo, ao povo palestino, o tratamento que ti-
veram dos nazistas...

Anotações
115
Professor Max Dantas

Guerra Fria A rivalidade entre aliados e soviéticos na Conferência de


Potsdam, pela divisão do mundo em áreas de influência, inau-
A Guerra Fria foi o período de tensão que ocorreu entre o gurou uma nova política internacional que conduziria, muito
final da Segunda Guerra Mundial e a queda da União Soviéti- rapidamente, à Guerra Fria. Em 1946, Winston Churchill, já
ca (1947 a 1991), marcada pelo estado de tensão entre as duas não era mais o primeiro-ministro britânico, mas ainda um lí-
potências mundiais da época, os EUA (capitalistas) e a URSS der da resistência antinazista, tornou-se líder anti-soviético ao
(socialista), no qual se confrontavam com doutrinas ideológi- preferir violento discurso, nos EUA, defendendo, pela primei-
cas antagônicas destinadas a fortalecer-se a si próprio e a en- ra vez, a necessidade de uma política de controle e de vigilân-
fraquecer o adversário por meio de constantes dissídios e po- cia da URSS. Era preciso uma cortina de ferro em torno dela
líticas de alianças, corrida armamentista, mas sem chegar ao para evitar que entendesse seus domínios no leste europeu e
confronto armado. na Ásia. Conclamava os EUA a assumirem a liderança mundial
O fim da Segunda Guerra Mundial foi marcado por uma contra a sovietização do mundo.
série de inúmeros tratados que dividiram o mundo em duas
áreas de influência, uma sob controle capitalista liderado
pelos EUA e outra sob controle socialista liderado pela
URSS. Na Conferência de Teerã, em 1943, Roosevelt (presi-
dente dos EUA), Stálin (líder da URSS) e Churchill (primeiro-
ministro britânico) definiram a fronteira da Polônia em rela-
ção à União Soviética, garantindo a esta a anexação dos países
bálticos e projetaram a divisão da Alemanha. Vendo próxima a
derrota alemã, os três grandes se reuniram de novo na Confe-
rência de Yalta em 1945. Stálin se beneficiou do rápido avanço
soviético. Os três anunciaram princípios gerais, como a auto-
determinação dos países e a democratização, sem definir qual
democracia. Privada de governo, a Alemanha seria dividida em
zonas de ocupação, bem como a Áustria; o ocidente admitiu a
instalação do governo socialista de Tito na Iugoslávia; a Polô-
nia perdia regiões conquistadas à Rússia em 1921 e receberia Anos 40 e 50: A Guerra Fria Clássica
compensações em direção ao Rio Oder; os soviéticos se com- Reconstrução da Europa Ocidental
prometiam a guerrear o Japão em troca de Port-Artur, sul das Missão gigantesca diante da destruição causada pela guer-
ilhas Sakhalinas e ilhas Kurilas. ra. Só em perdas humanas a URSS teve 17 milhões; a Alema-
Findar a guerra, parecia muito alto o preço pago aos sovi- nha, 5,5 milhões; a Polônia, 4 milhões; a Iugoslávia, 1,6 mi-
éticos. Em clima de tensão, reuniu-se a Conferência de Pots- lhão; a França, 535 mil; a Itália, 450 mil; os Estados Unidos,
dam, em 1945, agora com Truman, Stálin e Churchill. Os so- 410 mil; e o Reino Unido, 396 mil.
viéticos haviam ocupado a maior parte da Europa central; não
queriam que o ocidente se envolvesse na reorganização políti- Hegemonia dos EUA
ca da região. O Ocidente não queria que a União Soviética se Conquistada em virtude do fortalecimento dos Estados
intrometesse nas questões mediterrâneas e africanas. A Alema- Unidos durante a guerra, concomitante ao enfraquecimento
nha foi dividida em zonas de influência, dadas a americanos, relativo das potências européias. A economia norte-america-
soviéticos, ingleses, e franceses. Berlim, a capital, que ficava no na se expande internacionalmente. Suas Forças Armadas de-
setor soviético, foi igualmente dividida em quatro partes. Os têm o monopólio da bomba atômica e disseminam bases pelo
vencedores impuseram aos alemães uma reparação de guer- mundo. Washington dita a política no Ocidente e disputa a
ra de 20 milhões de dólares: 50% para a URSS, 14% para a hegemonia no resto do planeta. A supremacia econômica é
Grã-Bretanha, 12,5% para os EUA e 10% para a França. A in- alcançada com a exportação de capitais, empresas, produtos
dústria bélica alemã foi amputada, a produção de aço limitada industriais e agrícolas e tecnologia. As empresas norte-ame-
e certas fábricas desmontadas em favor dos aliados. Os princi- ricanas tornam-se multinacionais, com filiais espalhadas por
pais chefes alemães seriam julgados, para desnazificar o país. todo o mundo. Exercem influência sobre as economias nacio-
Além disso, o término da Segunda Guerra mudou o pano- nais e determinam seu rumo. A busca da hegemonia política
rama político e econômico internacional. As perdas materiais tem por base a Doutrina Truman.
e humanas da Europa e do Japão rebaixaram a posição das an-
tigas potências. Surgem novas nações e novas organizações in- Expansão Soviética
ternacionais, como a ONU, o Banco Mundial e o Fundo Mo- Apesar das perdas humanas e materiais, a URSS sai da
netário Internacional, criados em 1945. guerra como grande potência econômica e militar. Aumenta
116
História Geral

a centralização política, a pretexto de uma rápida recuperação ton fornece matérias-primas, produtos e capital, na forma de
econômica e do perigo de uma nova guerra, desta vez contra créditos e doações. Em contrapartida, o mercado europeu evi-
as potências ocidentais, tendo os Estados Unidos à frente. Sta- ta impor qualquer restrição à atividade das empresas norte-
lin centraliza em 1946 as funções de secretário-geral do Par- americanas. A distribuição dos fundos é realizada por meio da
tido Comunista, primeiro-ministro e ministro da Defesa. Re- Organização Européia de Cooperação Econômica (OECE),
organiza os organismos de repressão política e intensifica a fundada em Paris, em 1948. Entre 1948 e 1952, o Plano Mar-
perseguição aos opositores. A economia é restaurada através shall fornece US$ 14 bilhões para a reconstrução européia, na
da planificação centralizada, com prioridade para a indústria forma de fundos, créditos e suprimentos materiais a juros ir-
pesada. Em 1950 a produção industrial e agrícola atinge os ní- risórios.
veis anteriores à guerra. As regiões industriais no oeste do país
são reconstruídas e tem início a exploração da Sibéria. Intensi- OTAN
fica-se a mecanização agrícola e as áreas de cultivo são amplia- Em 1949, os Estados Unidos fazem uma aliança militar
das. Entra em execução um plano de massificação do ensino com outros países europeus para combater a influência da
básico e técnico e tem início o rearmamento. O V Plano Quin- União Soviética. Estava
quenal, entre 1951 e 1955, é voltado para a realização de obras nascendo a OTAN, Or-
energéticas e de irrigação e transporte fluvial. São executados ganização do Tratado
projetos de armas modernas, centradas em artefatos nucleares do Atlântico Norte, que
e foguetes, e começa a pesquisa espacial. completava, no campo
militar, a Doutrina Tru-
Doutrina Truman man. Criou-se um exérci-
Em resposta à atitude britânica, o então presidente nor- to conjunto dos seguintes
te-americano, Harry S. Truman, pronunciou, em 12 de Mar- Bandeira da OTAN países: EUA, Alemanha
ço de 1947, diante do Congresso Nacional daquela nação, um Ocidental, Bélgica, Canadá, Dinamarca, França, Grã-
violento discurso assumindo o compro- Bretanha, Grécia, Islândia, Holanda, Itália, Noruega,
misso de “defender o mundo capitalis- Portugal e Turquia.
ta contra a ameaça comunista”. No iní-
cio de 1947, estava dado o passo inicial da Pacto de Varsóvia
política da Guerra Fria, quando os Esta- Em 1955, a União Soviética organizou um pacto de defe-
dos Unidos decidiram substituir a Ingla- sa mútua com todos os países que estavam sob sua influência.
terra no controle da região do Mediterrâ- Esse pacto foi assinado na cidade de Varsóvia, na Polônia, e
neo Oriental, principalmente na Grécia e consistia em ajuda mútua em caso de agressão armada, con-
na Turquia, contra o avanço soviético. sulta sobre problemas de segurança e questões políticas. Eram
Assim, estava lançada a base da Doutrina Truman. Se- membros do Pacto de Varsóvia: URSS, Romênia, Tche-
gundo a qual a URSS apresenta um antagonismo inconciliável coslováquia, Bulgária, Polônia, Hungria e, posterior-
com o mundo capitalista, e a sua tendência expansionista só mente, a Alemanha Oriental.
poderia ser mediante a hábil e vigente aplicação de uma contra
força em uma série de pontos geográficos e políticos em cons- Bloqueio de Berlim
tante mudança correspondente às mudanças e manobras das A Doutrina Truman inviabilizou o projeto de reunificação
políticas soviéticas. Pela Doutrina Truman, era necessário blo- da Alemanha nos primeiros anos do pós-guerra. O Plano Mar-
quear o expansionismo soviético ponto a ponto, país por país, shall, visando reconstruir a economia de mercado nas zonas de
em todos os lugares que eles se manifestasse. ocupação das potências capitalistas, ameaçava desestabilizar o
controle soviético do lado oriental do país.
Plano Marshall A resposta soviética não demorou. Uma série de pequenos
O Programa de Reconstrução da Europa (ERP) é elabora- incidentes entre EUA e URSS, como bloqueio de abastecimen-
do em 1947 pelo secretário de Estado tos e de trânsito entre as áreas de controle, serviu para acirrar
norte-americano George C. Marshall ainda mais as rivalidades.
(1880-1959), com base na Doutrina Após a ocupação da sua zona, o exército soviético, proce-
Truman. Os Estados Unidos deci- deu a normalização política, permitindo a formação de vários
dem abandonar a colaboração com a partidos, iniciando a reforma agrária e nacionalizando os gran-
URSS e investir maciçamente na Eu- des monopólios alemães. Mas o acirramento das disputas entre
ropa ocidental para barrar a expansão os antigos aliados levou a URSS a atuar no sentido de favore-
comunista e assegurar sua própria he- cer uma solução socialista para a sua zona de ocupação.
gemonia política na região. Washing- Berlim também foi divida em quatro zonas de ocupação
117
Professor Max Dantas

após a guerra. Assim, mesmo se localizando na porção sovi- A Coréia do Norte é devastada. Os suprimentos enviados
ética, a cidade não poderia ser ocupada por nenhuma das po- pela União Soviética são interceptados pelas forças das Na-
tências vitoriosas. À medida que as relações entre os antigos ções Unidas. Durante quase três anos, o povo coreano, uma
aliados iam-se tornando tensas, a URSS pressionava para que das mais notáveis culturas da Ásia, é envolvido em uma bru-
o setor ocidental da cidade fosse abandonado pelas outras po- tal guerra fratricida. Milhares de prisioneiros amontoados em
tências. Mas os soviéticos não conseguiram alcançar seu inten- campos de concentração esperam ansiosamente por um ar-
to. Em 1961, os soviéticos construíram um muro dividindo a mistício. Com a ajuda da China, as forças das Nações Unidas
cidade, para impedir a evasão de mão de obra especializada da são rechaçadas para a Coréia do Sul. A luta pelo paralelo 38
República Democrática Alemã (socialista) para a República Fe- continua. Em Seul, as tropas são visitadas por artistas que ten-
deral Alemã (capitalista). tam elevar seu moral.
O General MacArthur, insistindo em um ataque direto à
Guerra da Coréia China, é substituído, em abril de 51, pelo General Ridway. Em
Um dos momentos mais tensos dessa primeira fase foi 23 de junho começam as negociações de paz, que duram dois
a Guerra da Coréia. Em 1950, cinco anos depois de derrotar anos e resultam num acordo assinado em Pamunjon, em 27 de
a Alemanha nazista, os Estados julho de 53. Mas, o único resultado é o cessar fogo. Na guerra
Unidos e a União Soviética, ex- coreana morreram cerca de três milhões e meio de pessoas. O
aliados, entram em conflito pelo tratado de paz ainda não foi assinado, e a Coréia continua di-
controle da Coréia, uma nova vidida em Norte e Sul. A oportunidade chegou em junho de
zona de influência, arriscando 1950, com os conflitos entre o sul e o norte da Coréia, na re-
provocar uma terceira guerra gião dividida pelo paralelo 38. As duas partes reivindicavam
mundial. A península da Coréia para si a hegemonia sobre todo o país.
é cortada pelo paralelo 38, uma Os Estados Unidos, liderando uma força multinacional da
linha demarcatória que divide ONU, enviaram, em setembro, suas tropas em auxílio ao go-
dois exércitos, dois Estados: a verno sul-coreano. Ao mesmo tempo, fizeram grandes enco-
República da Coréia, no sul, mendas ao Japão, que ficou encarregado de fabricar roupas e
e a República Popular Demo- suprimentos para as tropas na frente de batalha. Dessa forma,
crática da Coréia, no norte. o Japão pôde iniciar a reconstrução de sua economia. A Guer-
Essa demarcação, existente des- ra da Coréia durou três anos e matou pelo menos três milhões
de 1945 por um acordo entre Moscou e Washington, dividiu o e quinhentas mil pessoas. No final, tudo como antes. As fron-
povo coreano em dois sistemas políticos opostos: no norte o teiras permaneciam as mesmas, no paralelo 38, e os regimes
comunismo apoiado pela União Soviética, e, no sul, o capita- dos dois países também: o norte sob o domínio dos comunis-
lismo apoiado pelos Estados Unidos. tas pró-soviéticos e o sul controlado pelos capitalistas pró-Es-
Em 3 de julho de 1950, depois de várias tentativas para tados Unidos.
derrubar o governo do sul, a Coréia do Norte ataca de sur- Após a guerra os Estados Unidos passaram a injetar na
presa e toma Seul, a capital. As Nações Unidas condenam o Coréia do Sul milhões de dólares todo o ano na intenção de
ataque e enviam forças, comandadas pelo general americano impedir a volta do socialismo naquele país, como fez em vários
Douglas MacArthur, para ajudar a Coréia do Sul a repelir os in- outros países que circundavam a URSS. Com tanto dinheiro
vasores. Em setembro, as forças das Nações Unidas começam entrando nos cofres públicos, a Coréia do Sul foi se desenvol-
uma ambiciosa ofensiva para retomar a costa oeste, ocupada vendo, e com a entrada do capital japonês despontou como lí-
pelo exército norte-coreano. Em 15 de setembro, chegam ines- der dos Tigres Asiáticos no final da década de 80 e por toda a
peradamente em Inchon, perto de Seul, e algumas horas de- década de 90. Porém o grande salto tecnológico e desenvolvi-
pois entram na cidade ocupada. Os setenta mil soldados norte- mentista do pós-guerra da Coréia configura uma grande dife-
coreanos são vencidos pelos cento e quarenta mil soldados das rença sócio-econômica entre o país sulista e a Coréia do Norte,
Nações Unidas. Cinco dias depois, exatamente três meses após um dos fatos que dificulta a reunificação.
o início das hostilidades, Seul é libertada.
Com essa vitória, os Estados Unidos mantêm sua supre- Revolução Chinesa
macia no sul. Mas, para eles isso não basta. Em primeiro de
outubro, as forças internacionais violam a fronteira do parale- A República chinesa não conseguiu fazer frente às po-
lo 38, como os coreanos haviam feito, e avançam para a Coréia tências estrangeiras e nem aos chefes militares locais, chama-
do Norte. A capital, Piongiang, é invadida pelo exército sul- dos “os senhores da guerra”. Eles possuíam enorme poder
coreano e pelas tropas das Nações Unidas, que, em novembro, nas províncias e controlavam, juntamente com outros grandes
aproximam-se da fronteira com a China. Ameaçada, a China proprietários de terra, cerca de 88% das áreas produtivas.
envia trezentos mil homens para ajudar a Coréia do Norte. Em 1921, com a disposição de organizar os operários, os
118
História Geral

artesãos e os 30 mi- grande esforço industrial e forte repressão contra os oposicio-


lhões de collies existen- nistas. A experiência fracassa e faz crescer os atritos ideológi-
tes no país, foi criado cos com a URSS, que resultam, em 1960, na retirada da assis-
o Partido Comunista tência tecnológica soviética. A postura chinesa mais agressiva
Chinês (PCC). Seus leva a uma guerra de fronteira com a Índia em 1961.
principais fundado- Revolução cultural: Movimento popular liderado por
res foram o intelectual Mao entre 1966 e 1969 contra seus opositores no aparelho do
Chen-Tu-xiu, o edu- Estado e no Partido Comunista, acusados de tentar restaurar
cador Peng-Pai e o o capitalismo. Todos os hábitos, costumes e tradições passa-
ativista político Mao dos são considerados burgueses e reacionários. Os intelectuais
Tse-tung. A princí- são perseguidos e enviados para o campo, a fim de “reeducar-
pio, esse partido aliou- se” por meio de trabalhos forçados. Surge a Guarda Verme-
se ao Partido Nacional lha, formada por estudantes que se guiam pelo livro de cita-
do Povo. Essa aliança, ções de Mao . A partir de 1967, com a instauração da Comuna
porém, durou pouco. de Xangai, a luta pelo poder se transforma em conflito entre
Mao Tse-tung Em 1927, o gene- diferentes facções que se proclamam intérpretes fiéis de Mao.
ral Chiang Kai-shec assumiu o comando das tropas do Parti- A Revolução Cultural termina em 1969 com a destituição do
do Nacional do Povo, disposto a submter os chefes militares presidente Liu Xiaoqi.
locais e impor-se ao país todo. Durante as lutas que então se Transição: Choques entre comandos rivais do EPL ame-
travaram, Chiang Kai-shec voltou-se também contra os comu- açam envolver o país numa guerra civil. Mao envelhece. O pri-
nistas, ordenando que os massacrassem. A partir daí, a união meiro-ministro Chou Enlai, no cargo desde 1949, melhora as
entre os nacionalistas e os comunistas cedeu lugar a uma guer- relações entre a China e o Ocidente e leva o país a entrar na
ra entre eles. ONU em 1971. O grupo do ministro da Defesa, Lin Piao, ten-
Um dos episódios marcantes dessa guerra foi a Longa ta um golpe de Estado em 1973. A disputa se agrava em 1976,
Marcha, uma caminhada de 10 mil quilômetros que o princi- quando morrem Chou Enlai e Mao. São presos Chiang Ching,
pal líder comunista, Mao Tse-tung, empreendeu com mais de viúva de Mao, e seus aliados da chamada Gangue dos Quatro,
100 mil pessoas em direção ao noroeste do país com o objeti- que haviam desempenhado papéis importantes na Revolução
vo de escapar ao cerco inimigo. Durante a caminhada, muitas Cultural. A transição se completa em 1978, com o afastamento
pessoas morreram, outras ficaram pelo caminho organizando do secretário-geral do PC, Hua Guofeng, e a ascensão ao po-
os camponeses, que haviam se transformado na principal base der do vice-presidente do partido, Deng Xiaoping.
de apoio dos comunistas. Apenas 9 mil chegaram ao destino Chiang Ching atriz na juventude e a quarta esposa do diri-
final, a província de Shensi, onde se ergueu o quartel-general gente comunista chinês Mao Tse-tung, com quem se casa em
das tropas maoístas. 1939. Fica mundialmente conhecida a partir de 1965, como a
A prolongada guerra entre nacionalistas e comunistas foi principal dirigente da Revolução Cultural chinesa e uma das
interrompida apenas duas vezes. A primeira, em 1937, quando organizadoras da Guarda Vermelha, organização paramilitar
se uniram para lutar contra o Japão que havia invadido a Man- da juventude maoísta. Com a morte de Mao em 1976, é afasta-
chúria, no norte do país. A segunda, durante a Segunda Guerra da do poder e presa. É condenada à morte em 1981, durante o
Mundial, para enfrentar as forças nazi-fascistas. processo contra a chamada Gangue dos Quatro – os dirigen-
Com o final da Segunda Guerra, os japoneses foram ex- tes da Revolução Cultural –, acusada de mandar matar milha-
pulsos do território chinês e as tropas de Chiang Kai-shec, res de oposicionistas. Em sua defesa, afirma que limitava-se a
com o apoio bélico dos Estados Unidos, lançaram uma ofensi- cumprir ordens de Mao: “Eu era apenas o seu cachorrinho”.
va contra os “vermelhos” de Mao Tse-tung, reiniciando, então, Sua pena é comutada para prisão perpétua em 1983. Doente a
o conflito armado. partir de 1988, suicida-se em 1991.
Mesmo sem a ajuda da maior potência comunista, a União Deng Xiaoping: Sucessor de Mao Tse-tung no comando
Soviética, dirigida na época por Stálin, as forças de Mao con- da China. Com 16 anos integra um programa de estudo e tra-
seguiram a vitória. Em 1º de outubro de 1949, conquistaram balho na França, onde adere ao Partido Comunista. De volta
o poder e proclamaram a República Popular da China. Chiang ao país passa a organizar forças a favor de Mao Tse-tung. Parti-
Kai-shec e o que restava de seu governo refugiaram-se na ilha cipa da Longa Marcha com Mao mas depois passa a ser acusa-
de Formosa (Taiwan), onde instalaram a China Nacionalista. do de ser pouco ortodoxo em relação aos princípios maoístas.
Entre os principais fatos e personalidades políticas, decor- Em 1966 é demitido do cargo de secretário-geral do partido e
rentes da Revolução Chinesa: destaca-se: submetido à humilhação pública pela Guarda Vermelha. De-
Grande Salto à Frente: Em 1958 Mao adota um plano de pois de algumas tentativas frustradas, volta à política depois da
comunização radical, com a coletivização forçada da terra, um prisão da Gangue dos Quatro e da mulher de Mao. Recupe-
119
Professor Max Dantas

ra a liderança no final da década de so, um programa de ajuda econômica aos países da América
70 e internacionalmente passa a ser Latina, objetivando ampliar a dependência destes em relação a
considerado o responsável pela mo- Washington. Mais do que isso, os EUA passaram a apoiar gol-
dernização do país. Começa a perder pes militares e a instalação de regimes ditatoriais, vistos como
popularidade na década de 80 ao de- únicas armas eficazes na contenção da ameaça comunista.
fender posições da ala mais radical Cuba, por sua vez, adotou uma política de “exportar” a
do partido. Em 1989 manda repri- revolução para outros países, por meio do apoio a movimen-
mir com violência as manifestações tos guerrilheiros ou mesmo da criação de focos de comba-
pacíficas de estudantes na Praça da te em algumas regiões. Fez parte dessa política a criação, em
Paz Celestial em Pequim. 1967, da Organização Latino-Americana de Solidariedade
(OLAS), voltada a estimular a formação de focos guerrilhei-
Deng Xiaoping
A crise dos mísseis em Cuba ros em algumas regiões. Essa política teve na figura de Ernesto
Ainda no início da década de 1960, outro fenômeno acir- “Che” Guevara seu maior ícone, morto na Bolívia, em 1967.
rou sobremaneira os ânimos entre as superpotências. A recém- Em 1963, John Kennedy foi assassinado em Dallas, num
ocorrida Revolução Cubana demonstrava um fôlego inespera- episódio até hoje mal explicado. No ano seguinte, em função
do para os EUA. O movimento, originalmente nacionalista e dos revezes de sua política externa, principalmente pela humi-
antiimperialista, ante o embargo econômico norte-americano lhação na questão dos mísseis cubanos, Kruschev foi derruba-
caminhou em direção a uma aproximação com a URSS. do do poder na URSS. Dessa forma, dois novos líderes assu-
Dentro do contexto da Guerra Fria, essa aproximação ge- miam o poder nas duas superpotências: Lyndon Johnson, que
rou uma reação mais intensa por parte dos EUA. Eram os pio- assumira após a morte de Kennedy, e Leonid Brejnev, o novo
res temores da histeria anticomunista que pareciam se confir- chefe de Estado da URSS.
mar, ainda mais se levando em consideração a proximidade
geográfica de Cuba com os EUA e o fato de que, até então, a Macarthismo
ilha nada mais fora do que um quintal do imperialismo norte- Movimento iniciado pelo
americano. senador Joseph McCarthy, em
Em 1961, após romper relações com o governo cubano, o 1951, com a organização de co-
presidente John Kennedy autorizou a invasão de Cuba por um missões de investigação que acu-
grupo de exilados cubanos com o apoio da Agência de Inteli- sam de atividades antiamericanas
gência dos EUA (CIA). Essa tentativa foi facilmente rechaçada qualquer pessoa suspeita de liga-
pelo governo cubano na Baía dos Porcos, mas selou de modo ção com movimentos ou organi-
definitivo a ruptura entre os dois regimes. Não por acaso, em zações consideradas comunistas.
dezembro do mesmo ano, Fidel declarou sua adesão ao comu- Realiza uma caça às bruxas na
nismo, consumando sua aproximação com a URSS. área cultural, atingindo artistas,
Em reação a isso, o governo dos EUA pressionou seus alia- diretores e roteiristas que duran-
dos no continente a aprovarem a expulsão de Cuba da OEA te a guerra manifestam-se a favor da aliança com a União So-
(Organização dos Estados Americanos), ao mesmo tempo em viética e, depois, a favor de medidas para garantir a paz e evitar
que decretava um total bloqueio ao comércio com a ilha. Por nova guerra. Charlie Chaplin é o mais famoso entre os artistas
outro lado, ao aderir ao bloco socialista, Cuba tornava-se um perseguidos pelo macarthismo. Sindicalistas, cientistas, diplo-
aliado estratégico fundamental para a URSS, que procurou am- matas, políticos e jornalistas também são alvo de perseguições.
pliar sua presença militar na região. Em 1960 o Senado reconhece que as atividades das comissões
Em 1962, os soviéticos instalaram mísseis nucleares em dirigidas por McCarthy colocam em risco a ação do governo.
Cuba, sob a alegação de que eles teriam meramente a função
de defender a ilha de um eventual ataque norte-americano. Projeto Guerra nas Estrelas
Tratava-se de uma evidente mentira, uma vez que a natureza Quando o presidente dos Estados Unidos, Ronald Rea-
ofensiva dos mísseis era clara. Contra isso, o governo dos EUA gan, anunciou em março de 1983 o projeto Iniciativa de De-
reagiu, exigindo a imediata retirada dos mísseis de Cuba, sob fesa Estratégica (IDE), mais conhecido como “guerra nas es-
pena de um ataque sobre a ilha. Poucas vezes, durante todo o trelas”, esse ambicioso plano já tinha sua central de operações.
período da Guerra Fria, a perspectiva de um enfrentamento di- Localizava-se no arenoso atol de Kwajalein, nas ilhas Marshall
reto entre as duas superpotências pareceu tão próxima. (Micronésia, Pacífico Norte), e consistia numa base secreta de
Kruschev foi obrigado a recuar, retirando os mísseis, mas alta tecnologia. Ali, um grupo selecionado de cientistas civis e
o episódio deixou marcas que acentuaram as investidas de am- militares pesquisava e desenvolvia sistemas antibalísticos e de
bos os lados. Os EUA, temendo a disseminação do “perigo rastreamento no espaço. Ali também ocorreu a façanha pio-
vermelho” no continente, lançaram a Aliança para o Progres- neira que consistiu em explodir, com um míssil teleguiado, ou-
120
História Geral

tro projétil nuclear em pleno ar (...). nalistas vietnamitas, sob orientação do Viet-minh (a liga viet-
Pela primeira vez desde que se iniciou a corrida espacial, namita), lutaram contra os colonialistas franceses, entre 1946
conseguia-se interceptar um míssil na alta atmosfera. Torna- a 1954. No segundo, uma frente de nacionalistas e comunistas
va-se possível explodir ogivas atômicas no espaço, durante o - o Vietcong - enfrentou as tropas de intervenção norte-ame-
curto intervalo em que elas se dirigem para o alvo. Era, afinal ricanas, entre 1964 e 1975. Com um pequeno intervalo entre
a prova da viabilidade do projeto “guerra nas estrelas”, que os finais dos anos 50 e início dos 60, a guerra durou quase 20
prevê o uso do espaço cósmico para a instalação de escudos anos.
defensivos antimísseis. Seu papel inicial: proteger o território e Na verdade, devido a sua irradiação, seria melhor dizer
as instalações militares americanas contra os 1.400 mísseis ba-
lísticos intercontinentais do arsenal soviético, presumivelmen-
te baseados em terra.
A chave da tecnologia da IDE consiste no uso de armas
de energia dirigida: feixes de partículas atômicas ou raios laser,
que têm velocidade superior à dos mísseis convencionais (de
dezenas de quilômetros por segundo até a velocidade da luz,
300.000 km/s, contra apenas alguns quilômetros por segun-
do dos mísseis). Segundo os defensores do projeto, seria essa
a única forma de neutralizar um ataque nuclear nos cinco pri-
meiros e cruciais minutos a partir do seu lançamento: os sis-
temas antibalísticos então vigentes se baseavam em foguetes
capazes de destruir as ogivas atacantes no dois últimos minu-
Kim Phuc, 9 anos, nua, sob bombardeio de napalm. Vietnã, 1972
tos de sua trajetória, quando os projéteis reingressam na at-
mosfera. Guerra da Indochina, do qual o Vietnã é uma das partes. A In-
dochina, região assim chamada por ser uma zona intermediária
CIA X KGB entre a Índia e a China, ocupa uma península do sudoeste asiá-
As duas tico e está dividida entre o Vietnã (subdividido em Tonquim e
grandes agên- Conchinchina), o Laos e o reino do Camboja. Toda essa região
cias de espiona- caiu sob domínio do colonialismo francês entre 1883-5 e assim
gem, a KGB so- ficou até a ocupação japonesa, entre 1941-45. Com a queda
viética e a CIA da França em 1940, formou-se o governo colaboracionista de
americana, trei- Vichy, aliado dos nazistas. Em vista disso os japoneses permi-
navam agentes tiram uma certa autonomia administrativa feita por franceses.
para atos de sa- Mas em 1945, com a derrota do Japão, os franceses tentaram
botagem, assassinatos, chantagens e coleta de informações. recolonizar toda a Indochina.
Nos dois lados criou-se um clima de histeria coletiva, em que
qualquer cidadão poderia ser acusado de espionagem a servi- Conjuntura norte-americana
ço do inimigo. Na União Soviética, Stalin contribuiu para esse Johnson completou o mandato de Kennedy até 1964 e foi
clima, confinando muitos de seus adversários em campos de eleito para o mandato de 1964 até 1968. Ele ampliou de for-
concentração na Sibéria. Nos Estados Unidos, o senador an- ma intensa a intervenção armada dos EUA no Vietnã, além de
ticomunista Joseph McCarthy promoveu uma verdadeira caça procurar conter de modo mais efetivo o que era visto como a
às bruxas, levando ao desespero inúmeros intelectuais e artis- ameaça comunista, chegando a intervir militarmente na Repú-
tas de Hollywood, acusados de colaborar com Moscou. blica de Santo Do-
mingo, buscando
A Guerra do Vietnã deter o movimen-
Inicialmente, foi um conflito interno. De um lado existiam to de esquerda que
os guerrilheiros do Vietnã do Sul, chamados genericamente de ameaçava tomar o
vietcongs, que queriam derrubar o governo sul-vietnamita. Es- poder no país.
ses guerrilheiros eram apoiados pelo Vietnã do Norte, comu- Ao mesmo tem-
nista desde 1954. E, de outro lado, os Estados Unidos apoia- po, internamente,
vam o governo do Vietnã do Sul. teve que lidar com o
A Guerra do Vietnã foi o mais longo conflito militar que crescente movimen-
ocorreu depois da II Guerra Mundial. Estendeu-se essa guerra to de repulsa à par-
Martin Luther King
em dois períodos distintos. No primeiro deles, as forças nacio- ticipação na Guerra
121
Professor Max Dantas

do Vietnã e com o crescimento do movimento negro, liderado


pelo pastor Martin Luther King. Nixon
O agravamento das tensões internas, num momento par- Ante o clima de
ticularmente rico em contestações que vinham de todos os la- incerteza e o des-
dos, provocou o surgimento de grupos radicais como os Pan- gaste de Lyndon
teras Negras, negros muçulmanos que se opunham à política Johnson, a reação
de Luther King, que, inspirado em Gandhi, defendia a não vio- da população dos
lência como forma de conquistar direitos sociais. Crescia tam- EUA, majoritaria-
bém o movimento hippie, com tudo o que ele significou em mente conservado-
termos de contestação aos valores da sociedade americana e ao ra, foi a de eleger
engajamento dos EUA na guerra. para a presidência
Esse mesmo radicalismo provocou ainda dois eventos o republicano Ri-
traumáticos, os assassinatos de Robert Kennedy, irmão de chard Nixon, de
John e candidato do Partido Democrata nas eleições presiden- passado altamen-
ciais de 1968, e do próprio Martin Luther King, por um extre- te conservador. Na biografia do novo presidente constava ter
mista branco. sido o principal auxiliar de Joseph MacCarthy na caça às bru-
xas dos tempos mais agudos da Guerra Fria.
Guerra Fria - distensão No entanto, a realidade que esperava Nixon inviabilizava a
Nos últimos anos da década de 1960 o mundo todo explo- postura internacional que sua biografia anunciava. Eram tem-
dia num quadro de contestação à ordem vigente. Era a gera- pos marcados pela dramaticidade das contestações à guerra em
ção do pós-guerra, que vivera sob a ameaça de uma hecatom- todo o mundo, tempos nos quais a própria Europa Ocidental,
be nuclear e que já crescera sobre os escombros da Segunda até então uma aliada quase incondicional dos EUA, premida
Guerra. Agora, adulta, essa geração buscava afirmar sua bus- pela pressão de suas próprias sociedades, buscava soluções que
ca por novos valores sociais e políticos, fazendo do final dos apontassem no caminho da paz.
anos sessenta um dos períodos mais ricos da história em ter-
mos sociais. Os acordos Salt
As manifestações espalharam-se pelo mundo todo: os es- Ao mesmo tempo, a economia da URSS começava a dar
tudantes, em Paris, criaram barricadas contra o governo de os primeiros sinais de desaquecimento, fruto da ineficiência da
Charles de Gaulle; na América Latina, mais especificamente máquina burocrática que controlava o Estado e dos imensos
no Brasil, ocorreram as manifestações mais agudas da luta es- gastos militares que absorviam a maior parte dos recursos do
tudantil e operária contra a ditadura militar; no Leste Europeu, país e impossibilitavam os investimentos necessários à moder-
as manifestações se alastravam por diferentes países. nização das atividades produtivas. Com isso, era fundamental
A Primavera de Praga para a URSS reduzir a corrida armamentista, o que motivou
Na Tchecoslováquia, um dos países da Cortina de Fer- entendimentos entre as duas potências para a limitação das ar-
ro, diretamente sob o domínio da URSS, iniciou-se um movi- mas nucleares.
mento liberalizante que teve na figura do presidente Alexander Visando aproveitar-se do crescente desentendimento en-
Dubcek seu principal líder. Defendendo o que ficou conheci- tre Pequim e Moscou, Nixon buscou uma aproximação com
do como “socialismo de face humana”, o movimento, chama- a China. Em 1971, por pressão dos EUA, a ONU aprovava a
do de Primavera de Praga, propunha uma liberalização do re- entrada da China e a expulsão de Formosa. No ano seguinte,
gime, maiores liberdades políticas e uma menor dependência Nixon visitou Pequim, conferenciando com Mao Tsé-Tung.
em relação aos ditames de Moscou. Imagem 12 Fortalecido com essa aproximação da grande rival da URSS,
Entretanto, o reformismo tcheco ameaçava os interesses Nixon, em 1972, visitou Moscou, iniciando um processo de
soviéticos. Em meio às contestações ao governo norte-ameri- distensão que resultou na assinatura dos acordos Salt (Strate-
cano no mundo todo, Brejnev via uma possibilidade imensa de gic arms limitation treaty - Tratado de limitação de armas es-
crescimento da influência soviética no planeta, sendo que, para tratégicas).
isso, seria necessário manter cada vez mais rígido o controle Por outro lado, essa distensão na relação com as potências
soviético sobre as áreas já então sob sua influência. comunistas não significou um abrandamento da política dos
O risco de uma rebelião ao domínio soviético dentro da EUA no seu quintal, a América Latina. Não apenas o governo
Cortina de Ferro era intolerável a Moscou. Assim, em agosto dos EUA seguiu apoiando ditaduras como a do Brasil, como
de 1968, tropas do Pacto de Varsóvia invadiram a Tchecoslo- também patrocinou diretamente o golpe militar no Chile que
váquia, prenderam os líderes do movimento, inclusive Dub- depôs o presidente socialista Salvador Allende e levou ao po-
cek, impondo no poder Gustav Husák, um títere a serviço de der o regime sangrento do general Augusto Pinochet.
seus amos soviéticos.
122
História Geral

Watergate Oriente Médio.


Entretanto, Nixon via-se às voltas com graves problemas
internos. Em 1972, pouco antes das eleições que o levariam a Guerra Fria - últimos anos
mais um mandato, o jornal Washington Post iniciou uma série Enquanto Jimmy Carter intensificava as negociações para
de denúncias que envolviam uma tentativa do Partido Republi- limitar a produção de armas nucleares, a URSS estava às voltas
cano de colocar escutas telefônicas na sede do Partido Demo- com graves problemas econômicos internos e enfrentava con-
crata, situada no edifício Watergate, em Washington. testações ao seu domínio dentro de seus satélites europeus.
A partir daí, as denúncias se alastraram, passando a envol- Em 1979, começava a surgir na Polônia um movimen-
ver altos funcionários do governo e o próprio presidente. Mes- to sindical, a partir da cidade de Gdansk, que deu origem ao
mo reeleito, Nixon teve que enfrentar uma crescente oposição, sindicato Solidariedade, tendo como principal líder o operá-
além da indignação de uma população ainda ciosa da moralida- rio Lech Walesa. Tratava-se de um movimento reivindicatório,
de pública. Cada vez mais desgastado e sofrendo um processo por melhores condições de vida, e, ao mesmo tempo, políti-
de impeachment no Congresso, Nixon foi obrigado a renun- co, questionando o modelo de gestão soviética e requerendo
ciar, deixando o poder para seu vice, Gerald Ford. maior liberdade política.
Durante esse período, enfraquecido interna e externamen- Era a terceira grande contestação ao domínio soviético,
te, Nixon fora obrigado a negociar a saída dos EUA da Guerra depois da Hungria e da Tchecoslováquia. Mas, diferente das
do Vietnã. Ford, enfrentando a perda de prestígio causada pela anteriores, essa ocorria num momento em que a capacidade da
derrota na guerra e pelo escândalo envolvendo seu partido, URSS de reagir já era significativamente menor, em função de
não conseguiu reeleger-se presidente, sendo derrotado pelo suas crescentes dificuldades econômicas.
democrata Jimmy Carter. Mesmo assim, o governo soviético procurava tirar partido
desse momento de indefinição da política externa norte-ameri-
Governo Carter cana, buscando ampliar sua influência em algumas regiões. Em
Carter assumiu num momen- 1980, os soviéticos invadiram o Afeganistão, visando apoiar
to de repulsa da sociedade ameri- um governo comunista na região. Em represália, o governo
cana ao escândalo de Watergate Carter adotou sanções econômicas contra os soviéticos.
e, ao mesmo tempo, recebendo Entretanto, já era tarde para Carter reverter a sensação de
os ecos da contestação dos anos que seu governo fora responsável pelo enfraquecimento da
sessenta. Seu governo foi marca- posição internacional dos EUA. O efeito disso foi sua derro-
do por uma mudança no discur- ta na eleição presidencial para o candidato republicano Ronald
so e em determinadas atitudes da Reagan.
política externa dos EUA.
No plano do discurso, ocupa Governo Reagan
um lugar de destaque sua postura Representando um momento de regresso conservador da
em favor dos direitos humanos, sociedade americana, Reagan foi fiel ao sentimento que o le-
o que, na prática, significava um vou à presidência, iniciando um vigoroso endurecimento nas
relativo afastamento do governo norte-americano em relação relações com a URSS, à qual ele por várias vezes referiu-se
às ditaduras da América Latina e em outras partes do mundo, como o “império do mal”, e buscando ampliar o papel dos
como o regime iraniano, então dominado pelo xá Reza Pah- EUA no cenário internacional, particularmente na Europa.
levi. Fez parte dessa política a adoção de sanções severas con-
Tal postura acabou revelando-se desastrosa para os inte- tra a URSS, em represália à invasão do Afeganistão e à repres-
resses dos EUA. Dois aliados fundamentais, Anastácio Somo- são ao movimento Solidariedade, e também a instalação de
za, na Nicarágua, e o governo iraniano foram derrubados por mísseis nucleares na Europa, visando reforçar as defesas da
mobilizações sociais violentas e fortemente antiamericanas. OTAN e intimidar seu adversário.
Na Nicarágua, a Revolução Sandinista colocou no poder um Paralelamente, a economia soviética dava sinais de claro
governo nacionalista e com inclinações socialistas, ao passo esgotamento. Na primeira metade da década de 1980, o cres-
que no Irã a liderança coube às autoridades islâmicas, tendo à cimento da economia caiu à taxa de meros 2% ao ano, contra
frente o aiatolá Khomeini, colocando o fundamentalismo islâ- uma população que crescia a índices de 2,5% e gastos militares
mico pela primeira vez no poder. sempre maiores.
Ao mesmo tempo, o governo Carter intensificou as nego- A ineficiência da administração burocrática da economia
ciações para limitação da produção de armas nucleares com a era tal que a URSS passou, no início dos anos 1980, de maior
URSS e em seu governo celebraram-se os acordos de Camp exportadora de petróleo do mundo para importadora, mesmo
David, iniciando os entendimentos entre os países árabes e contando com gigantescas reservas na Sibéria, as quais, entre-
Israel, com vistas a colocar um ponto final nos conflitos do tanto, eram impossíveis de ser exploradas, dado o caráter ob-
123
Professor Max Dantas

soleto da tecnologia do país. ele estabelecidos: a Perestroika (reestruturação, utilizada no


A morte de Brejnev, em 1982, substituído por Yuri An- sentido econômico) e a Glasnost (transparência em russo, sig-
dropov (1982-84) e Konstanty Chernenko (1984-85) não nificando uma maior abertura política, com a liberalização do
trouxe qualquer alteração nesse quadro que apontava na dire- regime).
ção do colapso econômico do país, com suas óbvias decorrên- Gorbatchev empreendeu um amplo processo de desmon-
cias políticas e sócias. tagem da estrutura repressiva, incluindo o fim do regime de
Entretanto, também o governo Reagan sofria sérios reve- partido único e a redução drástica dos poderes da KGB. Ao
zes. Em 1986, a imprensa norte-americana denunciou que o mesmo tempo, reduzia drasticamente a presença de tropas so-
governo, através da CIA, vendera armas ao governo xiita ira- viéticas nos países da Europa Oriental, reduzindo assim o con-
niano, para obter recursos para financiar a guerrilha anti-san- trole soviético sobre eles.
dinista na Nicarágua. Cabe lembrar que, desde o episódio dos Os efeitos foram imediatos, tanto interna quanto externa-
reféns norte-americanos no Irã, o Congresso aprovara sanções mente. As reformas internas geravam oposição de todos os se-
ao governo iraniano que impediam qualquer negociação com tores, da velha guarda do partido descontente com o que era
o país, quanto mais a venda de armas a um regime hostil. visto como a negação do comunismo, e de setores que que-
Enfraquecido pelas denúncias e sofrendo o risco de impe- riam um apressamento das reformas em direção à restauração
achment, Reagan perdeu grande parte do apoio para manter pura e simples do capitalismo. Ao mesmo tempo, o enfraque-
sua política agressiva em relação a URSS, tanto mais que essa cimento da máquina militar, através da qual a URSS mantivera
já não representava a ameaça de outros tempos. o domínio sobre o Leste Europeu, gerou um rapidíssimo pro-
cesso de desmontagem da Cortina de Ferro.
Mikhail Gorbatchev, a Perestroika e a Glasnost Entre 1989 e 1991, todos os países do Leste Europeu pas-
Outro dado contribuiu sen- saram por revoluções internas que varreram os antigos gover-
sivelmente para essa mudança nos comunistas apoiados pela URSS. Além de Hungria, Polô-
na belicosidade dos EUA. Em nia, Tchecoslováquia, Bulgária e Albânia, casos mais graves ou
substituição a Chernenko, mor- emblemáticos foram representados pela Alemanha Oriental e
to em 1985, assumia o poder na pela Iugoslávia.
URSS um líder surpreendente- Na Alemanha Oriental, o colapso do regime foi atestado
mente jovem, se comparado a pela queda de Eric Honecker, ao mesmo tempo em que caía
seus antecessores: Mikhail Gor- também aquele que fora o maior símbolo da Guerra Fria, o
batchev. Muro de Berlim. Em 1991, a própria Alemanha Oriental deixa-
Embora sempre tivesse va de existir, tendo sido unificada à Alemanha Ocidental.
sido um membro da burocracia Na Iugoslávia, o fim do governo Tito, ao mesmo tempo
dirigente, Gorbatchev era fruto em que a URSS deixava de ter a força de outros tempos, pro-
de um novo momento, no qual o colapso da economia e a ine- vocou as mudanças mais violentas da região. A rígida centra-
ficiência da máquina burocrática não mais podiam ser oculta- lização mantida pelo regime comunista foi eliminada, abrindo
dos. Herdando uma situação interna caótica, na qual a produ- espaço às lutas nacionais que geraram a desintegração da fe-
ção soviética era incapaz de sustentar as demandas do país em deração e também uma série de conflitos nacionais, étnicos e
qualquer setor no qual a tecnologia fosse minimamente neces- religiosos. Esses conflitos geraram a independência da Eslová-
sária, e às voltas com o risco de que a ineficiência administra- quia, da Croácia, da Bósnia-Herzegovina e também os movi-
tiva provocasse a fome generalizada no país, Gorbatchev tinha mentos separatistas na região de Kosovo.
clara a necessidade de amplas reformas em todos os níveis da Uma nova era se abria. Mesmo com a queda de Gorba-
vida do país. tchev, originalmente a partir de um golpe desfechado pela dire-
Gorbatchev sabia, acima de tudo, que seriam necessários ção do partido comunista, mas rechaçado por um amplo mo-
pesados investimentos na modernização tecnológica, o que re- vimento social liderado por Boris Yeltsin, o fim do regime
queria recursos que o país teria que tirar de algum setor. A úni- soviético era irreversível.
ca opção seria reduzir drasticamente as despesas monstruosas A derrota soviética foi largamente empregada como um
do Estado com o setor militar, o que implicava não apenas na símbolo do triunfo dos ideais capitalistas. A ausência de um
redução da capacidade ofensiva do exército como também no adversário poderoso consolidou mais do que nunca a posição
desmantelamento da máquina repressiva interna, com o enfra- dos EUA no cenário mundial, posição que só encontra, atual-
quecimento de órgãos como a KGB, fundamentais para a re- mente, focos isolados de reação, como o fundamentalismo is-
pressão aos focos de descontentamento. lâmico e algumas posturas de líderes como Hugo Chávez ou
Assim, Gorbatchev tinha claro que seria impossível uma Evo Morales, incapazes entretanto de neutralizar a preponde-
reestruturação econômica sem uma reestruturação política. rância norte-americana e seus frutos mais diretos no campo
Essa é a razão da indissociabilidade dos dois programas por econômico: o neoliberalismo e o processo de globalização.
124
História Geral

Descolonização Afro Asiática • estudar os problemas econômicos, sociais e culturais dos


países participantes;

• discutir a política de discriminação racial, o colonialismo


e outros problemas que ameaçassem a soberania nacional;

• definir a contribuição dos países afro-asiáticos na pro-


moção da paz mundial e na cooperação internacional.
No fundo, a Conferência de Bandung firmava a existência
de um bloco multinacional, não alinhado, o denominado Ter-
ceiro Mundo, sem definir uma política concreta para a supera-
ção do subdesenvolvimento e das heranças coloniais.

A ebulição política e social após a Segunda Guerra Mun-


dial se estabeleceu também nas regiões em processo de des-
colonização, pois o fim da guerra fria demarcava, na pratica,
ó fim dos impérios coloniais. A partir de 1945, o ideal de in-
dependência dos povos colonizados transformou-se num fe-
nômeno de massas, com o surgimento de vários países politi-
camente livres, que, no entanto mergulharam na dependência
econômica, determinando o subdesenvolvimento, o terceiro-
mundismo. Descolonização Ásia
Entre 1950 e 196, mais de quarenta países afro-asiáticos Independência da Índia
conseguiram sua independência, impulsionados pelo naciona- Movimento que leva ao fim da dominação do Reino Uni-
lismo, pelo declínio do poderio europeu após a guerra e pelo do sobre a Índia, em 1947. Desde o século XVI, portugueses,
apoio da Organização das Nações Unidas, que reconhecia ingleses, holandeses e franceses exploram o país. Em 1690, os
seus direitos. Além disso, havia a posição favorável dos Esta- ingleses fundam Calcutá, mas só depois de uma guerra contra
dos Unidos e da União Soviética, que viam em tal processo um a França (1756-1763) o domínio do Reino Unido consolida-
forma de ampliar suas áreas de influência. se na região. Oficialmente, a dominação britânica começa em
No processo de descolonização firmaram-se duas opções: 1857, após um motim de soldados, seguido por uma rebelião
a libertação por meio da guerra, em geral, com a adoção do so- da população civil em diversas partes da Índia.
cialismo, ou independência gradual concebida pela metrópole, No século XIX, os britânicos esmagam várias rebeliões
que passaria o poder político à elite local; esta articulada com anticolonialistas. Paradoxalmente, a cultura britânica torna-se
o mundo capitalista, manteria a dependência econômica num um fator de união entre os indianos. Com o inglês, os india-
regime neocolonialista. nos adquirem uma língua comum. A organização política que
Em 1955, a Conferência de Bandung, na Indonésia, de- governaria a Índia independente, o Partido do Congresso (I),
bateu os problemas do Terceiro Mundo e a questão do não- é criada em 1885 por uma elite nativa de educação ocidental e
alinhamento, reunindo vinte e nove nações afro-asiáticas, que funciona como um fórum para a atividade política de caráter
declararam apoiar o anticolonialismo e combater o racismo e nacionalista em toda a Índia.
o imperialismo. A implantação do estilo ocidental de educação superior
Bandung substituiu o conflito leste-oeste qntre capitalis- começa em 1817 em Calcutá, com a criação do Colégio Hindu.
mo e socialismo pelo norte-sul entre os países industrializados As classes médias atingidas pela educação ocidental são atra-
ricos e os países pobre e exportadores de produtos primários. ídas pela ideologia do nacionalismo e da democracia liberal.
As nações reunidas definiram publicamente quatro objetivos Inicialmente entusiastas em relação ao domínio britânico, tais
básicos: classes tornam-se cada vez mais críticas.
• ativar a cooperação e a boa vontade entre as nações afro- O governo estipula limitações às associações representa-
asiáticas e promover seus mútuos interesses; tivas dos indianos nas legislaturas dos Atos do Conselho de
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Professor Max Dantas

1909. Promete efetuar o que chama de “realização progressiva do Paquistão como Estado autônomo, compreendendo as áre-
de um governo responsável” em 1917 e transfere algumas res- as de maioria muçulmana no noroeste e leste da Índia, é satis-
ponsabilidades aos ministros eleitos nas províncias pelo Ato feita em 1947. Em 15 de agosto deste ano, a Índia, declarada
de Governo da Índia, de 1919. independente, é dividida em dois Estados soberanos: a União
Nos anos 20 cresce a luta nacionalista sob a liderança do Indiana e o Paquistão A partilha, baseada em critérios religio-
advogado Mohandas Gandhi, do Partido do Congresso. Pre- sos, provoca o deslocamento de mais de 12 milhões de pesso-
gando a resistência pacífica, Gandhi desencadeia um amplo as. Choques entre hindus e muçulmanos deixam 200 mil mor-
movimento de desobediência civil que inclui o boicote aos tos. O Paquistão, de população muçulmana, é formado por
produtos britânicos e a recusa ao pagamento de impostos. Jun- dois territórios separados por cerca de 2 mil quilômetros de
tamente com o líder político Nehru, Gandhi consegue abalar a distância: o Paquistão Oriental e o Paquistão Ocidental. Em
estrutura da dominação britânica através de campanhas suces- 1971, o Paquistão Oriental torna-se um novo Estado indepen-
sivas contra o pagamento de impostos e contra o consumo de dente, com o nome de Bangladesh.
produtos manufaturados ingleses, entre outros.
Protestos organizados Indonésia
por Gandhi contra a lei da re- Desde o princípio da colonização, em algumas áreas da
pressão levam ao massacre de Indonésia houve resistências ocasionais contra a dominação
Amritsar. A campanha de não- holandesa, mas apenas no início do séc. XX surgiu um movi-
cooperação deslanchada por mento nacionalista importante: o Grande Empenho, fundado
Gandhi almeja conquistar o em 1908. Em 1912, a Associação Islâmica, que era comercial,
autogoverno (swaraj) e obtém tornou-se uma agremiação política e passou a constituir um
o apoio do movimento Khila- foco de oposição aos Países Baixos. Numa tentativa de esva-
fat (muçulmano, contra o tra- ziar o movimento nacionalista, os holandeses criaram o Con-
tamento severo dispensado aos selho Popular, com alguns representantes indonésios, mas seu
califas e ao império otomano poder era limitado. O Partido Comunista da Indonésia (PCI),
após a I Guerra Mundial). Em fundado em 1920, organizou uma série de revoltas nacionalis-
1930, Gandhi lidera seguidores tas entre 1926 e 1927, sem sucesso. Depois de 1926, surgiram
Mohandas Gandhi
numa marcha de 300 quilôme- vários partidos anticolonialistas, entre eles o Partido Naciona-
tros até o mar, onde tomam em mãos o sal, desafiando as leis lista da Indonésia, fundado por Sukarno, em 1927.
britânicas que proíbem a posse do produto não adquirido do Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, forças ja-
monopólio governamental. O Movimento de Desobediência ponesas ocuparam a região. Em 1945, depois que o Japão se
Civil (1930-34), que exige a independência, e o Movimento rendeu aos Aliados, os dirigentes do Partido Nacionalista de-
Saiam da Índia, que se segue ao encarceramento de Gandhi clararam a independência da Indonésia, não reconhecida pela
e de outros líderes em 1942, consolidam o apoio popular ao Holanda, e elaboraram uma Constituição para o país, que pas-
Congresso. sou a ser governado por Sukarno. Em novembro de 1949,
Após a II Guerra Mundial, os britânicos abrem negocia- pressionados pela Organização das Nações Unidas (ONU), os
ções para a transferência do poder. O objetivo é preparar a in- holandeses concordaram em conceder a independência a to-
dependência com a criação de uma Assembléia Constituinte e das as Índias Orientais Holandesas, exceto a Nova Guiné Oci-
a formação de um governo de transição indiano, que preserve dental (atual Irian Ocidental). Em 1950, a Indonésia filiou-se à
a unidade do território e assegure os inúmeros interesses eco- ONU e adotou uma nova Constituição.
nômicos do Reino Unido na região. Em 1959, Sukarno, apoiado pelo Exército, restabeleceu a
O vasto subcontinente, no entanto, habitado por muçul- Constituição de 1945, que lhe outorgava mais poderes. Em
manos e hindus, passa por lutas internas que levam ao rom- 1960, substituiu o Parlamento eleito por um nomeado. Em
pimento de sua unidade. Desde 1880, os muçulmanos poli- 1963, foi declarado presidente vitalício pelo Congresso Con-
tizados esperam proteger seus interesses contra a possível sultivo do Povo. Em 1962, os Países Baixos passaram o con-
usurpação do poder pela maioria hindu. A Liga Muçulmana, trole temporário de Irian Ocidental à ONU que, no ano se-
de Mohamed Ali Jinnah, fundada em 1905, coopera com o guinte, reconheceu a região como parte da Indonésia. Em
Partido do Congresso em 1916, mas depois de 1937 enfatiza 1965, Sukarno retirou o país da ONU em protesto contra a
as aspirações distintas dos muçulmanos e em 1940 exige uma eleição da Malásia para o Conselho de Segurança. Durante seu
pátria muçulmana separada, o Paquistão. Os muçulmanos re- governo, a economia da Indonésia passou por uma grave crise.
presentam 24% da população e entram em choques constantes As exportações diminuíram e a dívida externa aumentou rapi-
com os hindus. A rivalidade é incentivada pelos colonizadores damente. A inflação elevou os preços de forma descontrolada
britânicos, como forma de dividir a população e enfraquecer e o poder aquisitivo da população diminuiu.
os movimentos de desobediência civil. A exigência da criação No início dos anos de 1960, o PCI ampliou de forma sig-
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História Geral

nificativa sua força política. Em 1965, um grupo de oficiais do veis aos norte-americanos e aos soviéticos. Já na época da in-
Exército indonésio tentou dar um golpe de Estado, sendo acu- dependência, o príncipe Norodom Sihanuk procurou man-
sado de pertencer a um complô comunista. A repressão aos ter-se neutro em relação à Guerra do Vietnã, atitude que não
rebeldes foi confiada ao tenente-general Suharto, do Exército, agradou aos Estados Unidos. Por esse motivo, o príncipe foi
pelo alto comando das Forças Armadas. deposto em 1970 e em seu lugar assumiu um governante de
Suharto tomou o poder e anulou a nacionalização da ex- confiança dos norte-americanos. A resistência, então, organi-
ploração de petróleo. Em fevereiro de 1968, foi formalmente zou-se, reunindo comunistas e adeptos do príncipe Norodom,
declarado presidente da República, dando início a um governo formando a Frente Nacional da Kampuchea (FUNK).
ditatorial que perduraria até o final da década de 1990. A rebelião estendeu-se por grandes áreas do Camboja,
Em 1975, o Exército indonésio invadiu o Timor Leste, onde se registrou interferência norte-americana, em maio de
aproveitando-se do fato de que a ilha estava se tornando in- 1970. Entretanto, protestos realizados pela população norte-
dependente de Portugal. A região de Timor Leste foi trans- americana no interior do território de seu país obrigaram o in-
formada numa província da Indonésia. O governo de Suharto vasor a abandonar o local. Contudo, a ajuda dos Estados Uni-
ignorou a condenação da invasão feita pela ONU. Teve início, dos continuou em forma de bombardeios às regiões ocupadas
então, a luta da Frente Revolucionária do Timor Leste Inde- pelos guerrilheiros. Não obstante, em abril de 1975, o Khmer
pendente (Fretilin) contra o domínio indonésio. Vermelho (nome da oposição liberada por Sihanuk) tomou o
No governo Suharto, a Indonésia voltou a integrar a ONU poder, instalando a República Democrática da Kampuchea. O
e abandonou a política nacionalista adotada por Sukarno, pas- projeto político não se efetivou devida às diferentes facções,
sando a integrar o país à economia global. Durante os anos de surgindo a liderança de Pol Pot em oposição à anterior. Novos
1980, a Indonésia passou a fazer parte do segundo grupo dos e violentos conflitos, envolvendo a população urbana, trou-
Tigres Asiáticos, conhecido como Novos Tigres. Para manter xeram a morte de muitos e a aproximação da China à revolu-
o ritmo do desenvolvimento econômico, durante a década de ção. Em 1978, a Frente Unida para a Salvação de Kampuchea
1990, o governo de Suharto buscou atrair investimentos es- iniciou sua luta, culminando com a deposição de Pol Pot em
trangeiros, passando a depender cada vez mais do capital es- 1979.
peculativo internacional. Em 1997 o país foi atingido pela cri-
se financeira que abalou o Sudeste Asiático. Por conta disso,
o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou um plano
de ajuda econômica ao país e, em contrapartida, exigiu o cum-
primento de algumas medidas, tais como o desmantelamento
dos monopólios estatais e o fim dos incentivos fiscais. A im-
plementação do pacote do FMI e a elevação de tarifas públicas
gerou uma série de protestos reprimidos com violência. Mais
de 500 pessoas morreram. Em maio de 1998, diante da inca-
pacidade de controlar o caos social em que se transformou a
Indonésia, Suharto renunciou e foi substituído pelo vice-presi-
dente, Bacharuddin Jusuf Habibie.
Em 7 de junho de 1999, o país realizou sua primeira elei-
ção democrática depois de 31 anos de governo ditatorial. O Milhares de pessoas eram enterradas em covas coletivas durante a guerra
cívil no Camboja
líder islâmico Abdurrahman Wahid, do Partido do Despertar
Nacional (PKB), tornou-se presidente e Megawati Sukarnopu- Descolonização Africana
tri, filha de Sukarno, vice-presidente. Ainda em 1999, a rede- Argélia
mocratização possibilitou a realização de um referendo no Ti- A Argélia é obrigada a enfrentar uma guerra prolongada
mor Leste, em que a maioria da população local votou a favor de libertação em virtude da resistência dos colonos franceses
da independência. (apelidados na metrópole de pieds noirs, ou pés pretos), que
dominam as melhores terras.
Camboja Em 1947, a França estende a cidadania francesa aos ar-
O Camboja fica no sul da Ásia, no sudoeste do Vietnã. gelinos e permite o acesso dos muçulmanos aos postos go-
Essa região pertenceu à França, no contexto imperialista, e vernamentais, mas os franceses da Argélia resistem a qualquer
durante a Segunda Guerra foi dominada pelos japoneses. Em concessão aos nativos. Nesse mesmo ano é fundada a Frente
1955, ela tornou-se independente, instalando-se em suas fron- de Libertação Nacional (FLN), para organizar a luta pela in-
teiras uma Monarquia constitucional. dependência. Uma campanha de atentados antiárabes (1950-
Também esse país passou pela conjuntura revolucionária 1953) desencadeada por colonos direitistas, tem como reação
da Guerra Fria, evidenciando-se a presença de forças favorá- da FLN uma onda de atentados nas cidades e guerra de guer-
127
Professor Max Dantas

rilha no campo. proibindo nomes ocidentais e cristãos. Como parte da cam-


Em 1958, rebeldes exilados fundam no Cairo um gover- panha, muda em 1971 o nome do país para Zaire e da capital
no provisório republicano. A intervenção de tropas de elite da para Kinshasa (ex-Leopoldville). Ele próprio passa a se cha-
metrópole (Legião Estrangeira e pára-quedistas) amplia a guer- mar Mobutu Sese Seko Koko Ngbendu wa za Banga, que sig-
ra. Ações terroristas, tortura e deportações caracterizam a ação nifica “o todo-poderoso guerreiro que, por sua resistência e
militar da França. Os nacionalistas e oficiais ultradireitistas dão inabalável vontade de vencer, vai de conquista em conquista
um golpe militar na Argélia em 1958. No ano seguinte o pre- deixando fogo à sua passagem”.
sidente francês, Charles de Gaulle, concede autodeterminação Líderes rivais unem-se em 1988 para organizar a oposi-
aos argelinos. Mas a guerra se intensifica em 1961, pela entrada ção, mas são presos ou exilados. Pressões internacionais levam
em ação da organização terrorista de direita OAS (Organiza- Mobutu a adotar o pluripartidarismo em 1990. Em outubro
ção do Exército Secreto), comandada pelo general Salan, um de 1991, o líder oposicionista Etienne Tshisekedi é nomeado
dos protagonistas do golpe de 1958. Ao terrorismo da OAS a como primeiro-ministro, mas recusa-se a prestar juramento a
FLN responde com mais terrorismo. Nesse mesmo ano fra- Mobutu e é substituído. Os EUA põem em dúvida a legiti-
cassam as negociações franco-argelinas, por discordâncias em midade do governo e a Alemanha corta a ajuda financeira ao
torno do aproveitamento do petróleo descoberto em 1945. país. Em dezembro, Mobutu cancela as eleições. Tshisekedi é
Em 1962 é acertado o Armistício de Evian, com o re- reconduzido ao cargo no ano seguinte. Em 1993, o Alto Con-
conhecimento da independência argelina pela França em tro- selho da República, criado pela conferência nacional, ordena
ca de garantias aos franceses na Argélia. A República Popular o desligamento de Mobutu dos negócios de Estado e convo-
Democrática da Argélia é proclamada após eleições em que a ca greve geral.
FLN apresenta-se como partido único. Ben Bella torna-se pre- Mobutu ignora a resolução. No final do mês, o Exército
sidente. amotina-se quando ele tenta pagar os soldos com notas de 5
milhões de zaires (cerca de US$ 2), já recusadas em 1992 por
Congo não terem valor. Mobutu responsabiliza Tshisekedi pela rebe-
O movi- lião, que deixa mais de mil mortos, e nomeia um governo de
mento naciona- união nacional. EUA e União Européia não o reconhecem e
lista tem início apóiam a instalação de um regime de transição formado pela
nos anos 50 sob aliança oposicionista liderada por Tshisekedi. Em junho de
liderança de Pa- 1995, o período de transição é prolongado por dois anos. Elei-
trice Lumumba. ções gerais, previstas para o mês seguinte, não se realizam.
Em 30 de junho Em 1994, mais de 1 milhão de ruandeses (em sua maio-
de 1960, o Con- ria hutus) foragidos do genocídio em seu país ingressam no
go conquista leste do Zaire. A chegada dos refugiados desestabiliza a re-
a independên- gião, habitada há mais de 200 anos pelos tutsis baniamulenges,
cia com o nome inimigos históricos dos hutus. Sentindo-se negligenciados por
de República Mobutu - que tolera a presença dos hutus na região -, os bania-
Patrice Lumumba do Congo - em mulenges iniciam uma rebelião em outubro de 1996, liderados
1964 é acrescentado o adjetivo “democrática”. Lumumba as- por Laurent-Désiré Kabila.
sume o cargo de primeiro-ministro e Joseph Kasavubu, a Pre- O movimento conta com o apoio decisivo da vizinha
sidência. A maioria dos colonos europeus deixa o país. Em Uganda e do regime tutsi de Ruanda, e ganha rapidamente a
julho de 1960 eclode uma rebelião contra Lumumba, liderada adesão da população, insatisfeita com a pobreza e a corrupção
por Moise Tshombe. Antes do final do ano, Kasavubu afasta no governo. Nos meses seguintes aumentam os choques entre
Lumumba do cargo de primeiro-ministro num golpe de Esta- a guerrilha, batizada de Aliança das Forças Democráticas pela
do. Lumumba é sequestrado e assassinado em janeiro de 1961. Libertação do Congo-Zaire (AFDL) e o Exército, que enfren-
Tropas de diversos países (incluindo o Brasil) são enviadas pela ta deserção em massa. A escalada da ofensiva coincide com a
ONU para restabelecer a ordem, o que ocorre em 1963, com a ausência de Mobutu, que vai para a Europa em agosto subme-
fuga de Tshombe. As tropas da ONU retiram-se em junho de ter-se a tratamento médico para câncer na próstata. Apesar de
1964. Dias depois ocorre uma reviravolta: Tshombe regressa muito doente, retorna ao território em dezembro com o obje-
e assume a Presidência com apoio da Bélgica e dos EUA. Em tivo de deter a rebelião. Em 1997, a guerra civil alastra-se pelo
novembro de 1965, ele é derrubado num golpe liderado por território, nos sentidos norte-sul e leste-oeste. Em fevereiro,
Mobutu Joseph Désiré. a Força Aérea bombardeia as cidades de Bukavu, Shabunda
Mobutu estabelece uma ditadura personalista, tornando o e Walikale, sob controle rebelde. Mobutu propõe cessar-fogo
país um estratégico aliado das potências capitalistas na África. à guerrilha em março, mas a AFDL não negocia. No mesmo
No início dos anos 70 lança sua política de “africanização”, mês conquista Lubumbashi, Kisangani (as duas maiores cida-
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História Geral

des depois de Kinshasa) e Mbuji-Mayi, a “capital dos diaman- seu 1º Congresso, onde se proclamou como sendo um parti-
tes”. do marxista-leninista, adotando o nome de MPLA-Partido do
Os rebeldes propõem ao Exército a ocupação pacífica de Trabalho.
Kinshasa e, em 17 de maio de 1997, entram na capital sob A guerra continuava a alastrar por todo o território. A UNI-
aplausos da população. Kabila assume o poder, forma um go- TA e a FNLA juntaram-se então contra o MPLA. A UNITA
verno de salvação nacional, promete eleições gerais e retoma começou por ser expulsa do seu quartel-general no Huambo,
o antigo nome do país - República Democrática do Congo sendo as suas forças dispersas e impelidas para o mato. Mais
-, adotado entre 1964 e 1971. No dia anterior à tomada de tarde, porém, o partido reagrupou-se, iniciando uma guerra
Kinshasa, Mobutu parte para o Palácio Gbadolite (o “Versa- longa e devastadora contra o governo do MPLA. A UNITA
lhes” africano), na selva, de onde foge para o exílio no Togo. apresentava-se como sendo anti-marxista e pró-ocidental, mas
Morre em setembro, no Marrocos. tinha também raízes regionais, principalmente na população
Ovimbundu do sul e centro de Angola.
Angola No início dos anos 80, o número de mortos e refugia-
Na sequência do derrube da ditadura em Portugal (25 de dos não parou de aumentar. As infra-estruturas do país eram
abril de 1974), abriram-se perspectiva imediatas para a inde- consecutivamente destruídas. Os ataques da África do Sul não
pendência de Angola. O Governo português abriu negocia- pararam. Em Agosto de 1981, lançaram a operação “Smoke-
ções com os três principais movimentos de libertação (MPLA shell” utilizando 15.000 soldados, blindados e aviões, avançan-
– Movimento Popular de Libertação de Angola, FNLA – do mais de 200 km na província do Cunene (sul de Angola).
Frente Nacional de Libertação de Angola e UNITA – União O governo da África do Sul justificou a sua acção afirman-
Nacional para a Independência Total de Angola) o período de do que na região estavam instaladas bases dos guerrilheiros da
transição e o processo de implantação de um regime democrá- SWAPO, o movimento de libertação da Namíbia. Na realidade
tico em Angola (Acordos de Alvor, Janeiro de 1975). tratava-se de uma acção de apoio à UNITA, tendo em vista a
A independência de Angola não foi o início da paz, mas o criação de uma “zona libertada” sob a sua administração. Estes
início de uma nova guerra aberta. Muito antes do dia da Inde- conflitos só terminaram em Dezembro de 1988, quando em
pendência, a 11 de Novembro de 1975, já os três grupos nacio- Nova Iorque foi assinado um acordo tripartido (Angola, Áfri-
nalistas que tinham combatido o colonialismo português luta- ca do Sul e Cuba) que estabelecia a Independência da Namíbia
vam entre si pelo controle do país, e em particular da capital, e a retirada dos cubanos de Angola.
Luanda. Cada um deles era na altura apoiado por potências es- As eleições de Setembro de 1992, deram a vitória ao MPLA
trangeiras, dando ao conflito uma dimensão internacional. (cerca de 50% dos votos). A UNITA (cerca de 40% dos vo-
A União Soviética e principalmente Cuba apoiavam o tos) não reconheceu os resultados eleitorais. Quase de imedia-
MPLA, que controlava a cidade de Luanda e algumas outras to sucedeu-se um banho de sangue, reiniciando-se o conflito
regiões da costa, nomeadamente o Lobito e Benguela. Os armado, primeiro em Luanda, mas alastrando-se rapidamente
cubanos não tardaram a desembarcar em Angola (5 de outu- ao restante território.
bro de 1975). A África do Sul apoiava a UNITA e invadiu An- Em Novembro de 1994, celebrou-se o Protocolo de Lu-
gola (9 de Agosto de 1975). O Zaire, que apoiava a FNLA, in- saka, na Zâmbia entre a UNITA e o Governo de Angola
vadiu também este país, em Julho de 1975. A FNLA contava (MPLA). A paz parecia mais do que nunca estar perto de ser
também com o apoio da China, mercenários portugueses e in- alcançada. A UNITA usou o acordo de paz de Lusaka para
gleses, mas também com o apoio da África do Sul. impedir mais perdas territoriais e para fortalecer as suas forças
Os EUA que apoiaram inicialmente apenas a FNLA, não militares. Em 1996 e 1997 adquiriu grandes quantidades de ar-
tardam a ajudar também a UNITA. Neste caso, o apoio man- mamentos e combustível, enquanto ia cumprindo, sem pressa,
teve-se até 1993. A sua estratégia foi durante muito tempo di- vários dos compromissos que assumira através do Protocolo
vidir Angola. de Lusaka.
Em Outubro de 1975, o transporte aéreo de quantidades
enormes de armas e soldados cubanos, organizado pelos sovi- Moçambique
éticos, mudou a situação, favorecendo o MPLA. As tropas sul- A partir de 1960, com a nova política colonial portuguesa,
africanas e zairenses retiraram-se e o MPLA conseguiu formar as mudanças políticas e a crise do regime de Salazar levaram a
um governo socialista uni partidário. várias reformas políticas e econômicas nas colônias, como no
Já em 1976 as Nações Unidas reconheciam o governo do caso de Moçambique. A nova forma do colonialismo portu-
MPLA como o legítimo representante de Angola, o que não guês introduziu formas que impediam o desenvolvimento da
foi seguido nem pelos EUA, nem pela África do Sul. população negra, seja ela pertencente à burguesia, agricultura
Em Maio de 1977, um grupo do MPLA encabeçado por ou comércio.
Nito Alves, desencadeou um golpe de Estado, que foi afogado Nessa década, diversas manifestações contra o domínio
num banho de sangue. No final deste ano, o MPLA realizou o colonial foram feitas no país através da literatura, arte e greves
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Professor Max Dantas

de trabalhadores. Essas manifestações tomaram proporções ma de segregação racial atingiu o auge. Foram abolidos defini-
maiores e mais radicais com o desenvolvimento dos movimen- tivamente alguns direitos políticos e sociais que ainda existiam
tos nacionalistas armados: FRELIMO, Frente de Libertação em algumas províncias sul-africanas.
de Moçambique. As diferenças raciais foram juridicamente codificadas de
Fundada no exílio, o FRELIMO iniciou a luta armada pela modo a classificar a população de acordo com o grupo social a
libertação nacional de Moçambique a partir de 1964. Sua es- que pertenciam. A segregação assumiu enorme extensão per-
tratégia era a criação das “zonas libertadas”, áreas do território meando todos os espaços e relações sociais. Os casamentos
moçambicano fora do controle da administração portuguesa. entre brancos e negros foram proibidos.
Assim, os revolucionários criavam seu próprio sistema de ad- Os negros não podiam ocupar o mesmo transporte coleti-
ministração, como se fosse um Estado dentro de outro. vo usado pelos brancos, não podiam residir no mesmo bairro
O combate propriamente dito foi lançado oficialmente em e nem realizar o mesmo trabalho, entre outras restrições. Os
25 de Setembro de 1964, com o ataque ao posto administrati- brancos passaram a controlar cerca de 87% do território do
vo de Chai, em Cabo Delgado. O conflito contra as forças co- país, o que sobrava se compunha de territórios independentes,
loniais se expandiu para outras províncias como Niassa e Tete mas paupérrimos, deixados aos grupos sociais não-brancos.
e durou cerca de 10 anos. Assim que as forças revolucionárias
assumiam um território, elas estabeleciam as zonas libertadas, Declínio do apartheid
para garantir bases seguras, abastecimento em víveres e vias de O apartheid é o único caso histórico de um sistema onde
comunicação. a segregação racial assumiu uma dimensão institucional. Essa
A guerra findou-se com a assinatura dos “Acordos de Lu- situação permite definir o governo sul-africano como uma di-
saka”, em Setembro de 1974. Nesse período foi estabelecido tadura da raça branca.
um governo provisório composto por representantes da FRE- Na década de 1970, o governo da África do Sul tentou em
LIMO e do governo português, até que no dia 25 de Junho de vão encontrar fórmulas que pudessem assegurar certa legiti-
1975, foi proclamada oficialmente a independência nacional midade internacional. Porém, tanto a ONU (Organização das
de Moçambique. Nações Unidas) como a Organização da Unidade Africana,
Após a independência e com a saída “brusca” do apara- votaram inúmeras resoluções condenando o regime.
to português, o país começou a passar por sérias dificuldades No transcurso dos anos 70, a África do Sul presenciou
para preencher os lugares deixados pelos portugueses. Nessa inúmeras e violentas revoltas sociais promovidas pela maioria
época, Moçambique tinha uma população com uma porcen- negra, mas duramente reprimidas pela elite branca. Sob o go-
tagem de 90% de analfabetos, além disso, empresas e bancos verno de linha dura, liderado por Peter. W. Botha (1985-1988),
portugueses procederam ao repatriamento do ativo e dos sal- tentou-se eliminar os opositores brancos ao governo e as re-
dos existentes, criando assim um rombo na economia de Mo- voltas raciais foram duramente reprimidas.
çambique. Porém, as revoltas sociais se intensificaram bem como as
pressões internacionais. Em 1989, Frederic. W. de Klerk, assu-
África do Sul miu a presidência. Em 1990, o novo presidente conduz o re-
Colonizada por holan- gime sul-africano a uma mudança que põe fim ao apartheid.
deses (Boêrs), esta região foi Neste mesmo ano, o líder negro Nelson Mandela, que desde
submetida aos poderes ingle- 1964 cumpria pena de prisão perpétua por ser líder do Con-
ses em 1902, após a Guerra gresso Nacional Africano (CNA que desde 1912 fazia oposi-
dos Boêrs. Depois de algum ção ao regime), é posto em liberdade. Nas primeiras eleições
tempo, forjou-se um pacto livres, ocorridas em 1993, Mandela é eleito presidente da Áfri-
entre holandeses e ingleses, ca do Sul e governa de 1994 a 1999.
que passaram a ser chama-
dos de Africânderes, visando Anotações
criar um governo com base
no Aphartheid.
O apartheid foi estabe-
lecido oficialmente na África
do Sul em 1948 pelo Natio-
nalist Party (Partido dos Nacionalistas) que ascendeu ao poder
e bloqueou a política integracionista que vinha sendo praticada
pelo governo central.
O Nationalist Party representava os interesses das elites
brancas, especificamente da minoria boêrs. Após 1948, o siste-
130
História Geral

Oriente Médio e o conflito árabe- gião, começou, em 1948, uma guerra entre Israel e a Liga Ára-
israelense be, criada em 1945 e que reunia Estados Árabes que pro-
curavam defender a independência e a integridade de seus
Origem dos problemas membros. A guerra foi liderada pela Jordânia e pelo Egito. Is-
Os conflitos que hoje assolam o Oriente Médio têm dife- rael venceu o conflito e ocupou áreas reservadas aos palesti-
rentes motivos. O principal deles diz respeito ao território: isra- nos, ampliando para 75% o domínio sobre as terras da região.
elenses e palestinos lutam para assegurar terras sobre as quais, O Egito assumiu o controle sobre a Faixa de Gaza e a Jordânia
segundo eles, têm direito milenar. Outra questão diz respeito criou a Cisjordânia.
à cultura e à imposição de valores ocidentais às milenares tra- Em 1956, o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser de-
dições orientais. Pode-se ainda mencionar o fator econômico clarou guerra a Inglaterra, França e Israel com o objetivo de
- talvez o preponderante: potências capitalistas desejam esta- assumir definitivamente o controle sobre o canal de Suez, em
belecer um ponto estratégico, na mais rica região petrolífera do mãos européias desde sua construção. Para isso contou com
planeta. E ainda existe a questão política. o apoio da União Soviética, país que, no contexto da Guerra
As tensões perduram há séculos. Expulsos da Palestina pe- Fria, apoiava todas as iniciativas de libertação nacional a fim de
los romanos já no século 1 da Era Cristã, os judeus acalentaram conquistar aliados para o bloco socialista. Durante o conflito,
durante séculos o sonho de retornar à “Terra Prometida”, en- Israel ocupou a Península do Sinai, mas, devolveu-a logo em
frentando todo tipo de discriminação e perseguição. Todavia, o seguida, devido à pressão norte-americana.
território, durante sua ausência, foi ocupado por outros povos
que, igualmente, sentem-se no direito de nele permanecer de Organização para a Li-
modo autônomo. bertação da Palestina
Durante o domínio britânico sobre a região, os ingleses (OLP)
permitiram a compra de terras na Palestina por ricos judeus de Para defender a luta pa-
todo mundo que começaram a reocupar a região. Essa maci- lestina no sentido da cria-
ça migração de judeus para a Terra Santa chamou-se Sionismo, ção de um Estado autôno-
em referência à Colina de Sion, em Jerusalém. mo, foi criada a Organização
Os ingleses após a Primeira Guerra Mundial, comprome- para a Libertação da Palestina
teram-se a ajudar os judeus a construir um Estado livre e inde- (OLP), em 1964, tendo como
pendente em território palestino, buscando, assim, enfraquecer líder Iasser Arafat. Nas filei-
os árabes e conquistar vantagens econômicas na região. Entre ras da OLP, surgiu o Al Fa-
os anos 1930 e 1940, intensificou-se consideravelmente a imi- tah, braço armado da organização que prega a luta armada
gração judaica para a Palestina. e o terrorismo para destruir Israel. A OLP só recentemente
O descontrolado ingresso de judeus na Palestina acarretou foi reconhecida por Israel como representante dos interesses
sérios problemas já às vésperas da Segunda Grande Guerra: as palestinos na questão territorial. Até então, quando havia ne-
áreas de assentamento judeu e palestino não foram delimitadas gociações de paz, seus membros ingressavam em delegações
e grupos de características étnicas e religiosas tão diferentes ti- de países árabes como Egito e Jordânia.
veram que compartilhar o mesmo território, de onde resultam Em 1967, novo conflito eclodiu entre árabes e israelenses.
graves hostilidades entre ambos. Após a retirada das tropas da ONU que guardavam a frontei-
Com o holocausto promovido pelos nazistas durante a Se- ra entre Egito e Israel, soldados israelenses avançaram sobre
gunda Guerra, a opinião pública, sensibilizada com os sofri- a Península do Sinai, a Faixa de Gaza e as colinas de Golã. As
mentos dos judeus, concordou com a criação de um Estado sucessivas ocupações de Israel sobre áreas de população pales-
judeu na Palestina. A recém-criada Organização das Nações tina obrigaram-na a refugiar-se em países vizinhos - sobretudo
Unidas estabeleceu que a solução para os problemas do Orien- ao sul do Líbano - onde passaram a viver em condições subu-
te Médio seria sua prioridade, com a anuência dos Estados manas, acarretando problemas para esses países. Além disso,
Unidos e da Inglaterra, interessados em estabelecer um aliado a partir do sul do Líbano, a OLP, passou a bombardear alvos
na região, já que não confiavam nos Estados árabes que a cer- israelenses na Galiléia, levando o Exército de Israel a realizar
cavam. Os palestinos, por sua vez, também almejavam a cria- violentas operações de represália contra o território libanês a
ção de um Estado independente em território palestino e, para partir de 1972.
isso, contavam com o apoio dos países árabes. A OLP adotou o terrorismo como estratégia de luta con-
Em 1947, a ONU estabeleceu a divisão do território pales- tra Israel que, por sua vez, com amplo apoio das potências oci-
tino entre judeus, que ocupariam 57% das terras com seus 700 dentais, desenvolvia respeitável aparato bélico.
mil habitantes, e palestinos, cuja população de cerca de 1,3 mi- Como resposta às invasões israelenses de 1967, no feriado
lhão de habitantes ocuparia os restantes 43% do território. judeu do Yom Kippur (Dia do Perdão) de 1968, Egito e Síria
Com a retirada das tropas britânicas que ocupavam a re- desfecharam ataque simultâneo a Israel que revidou pronta-
131
Professor Max Dantas

mente, vencendo as forças agressoras. Nas áreas que iam sen- um comício pela paz na Praça dos Reis, em Tel Aviv, um estu-
do ocupadas por Israel, principalmente em Gaza e na Cisjor- dante judeu de 27 anos, membro de uma organização parami-
dânia, surgiram colônias judaicas protegidas por soldados litar de extrema direita, assassinou Itzhak Rabin.
israelenses. A estratégia visava consolidar o domínio sobre o As negociações de paz não avançaram depois da eleição
território. Atualmente, mais de 170 mil judeus vivem em assen- de Benjamin Netanyahu, do Likud, partido de direita israelen-
tamentos nos territórios ocupados por Israel. se, para o cargo de primeiro ministro. Netanyahu não estava
disposto a fazer concessões aos palestinos. Todavia, em 1999,
Acordos de paz realizaram-se eleições gerais em Israel e o Partido Trabalhista,
Quando o presidente Anuar Sadat assumiu a presidência representado agora por Ehud Barak, foi reconduzido ao po-
do Egito, assumiu uma postura de distanciamento da União der, reabrindo as negociações de paz para a região. O grande
Soviética e de aproximação dos Estados Unidos. Daí resulta- obstáculo nesse momento é decidir sobre a situação de Jeru-
ram conversações de paz entre egípcios e israelenses que re- salém, cidade sagrada tanto para judeus quanto para muçul-
sultaram num acordo formalizado em Camp David, em 1979. manos.
Assinaram o acordo, sob os olhos do presidente norte-ameri- Todavia, em setembro de 2000, um episódio marcaria o
cano Jimmy Carter, o presidente egípcio, Sadat, e o primeiro- acirramento das tensões entre palestinos e israelenses, quan-
ministro israelense, o ultra-direitista, Menahem Begin. O acor- do Ariel Sharon, líder do Partido Conservador e principal ex-
do previa que Israel devolveria o Sinai para o Egito até 1982 e poente do conservadorismo judeu, “visitou” a Esplanada das
que em Gaza e na Cisjordânia nasceria uma “autoridade autô- Mesquitas em Jerusalém. O ato pareceu uma forte provocação
noma”, da qual a OLP não participaria, e que governaria essas aos árabes e deu início à “nova intifada”. Ataques terroristas e
regiões por 5 anos, até a retirada definitiva de Israel. O acordo confrontos diretos entre palestinos e israelenses tornaram-se
não agradou nem aos judeus instalados nas colônias do Sinai, cada vez mais frequentes, ameaçando perigosamente as con-
de Gaza e da Cisjordânia, nem muito menos aos árabes que versações de paz.
esperavam maiores concessões por parte dos israelenses. Por A situação, porém, tornou-se mais violenta quando, no
isso, Sadat, considerado por muitos, traidor da causa árabe no início de 2001, o mesmo Ariel Sharon foi eleito Primeiro Mi-
Oriente Médio, foi assassinado em 1981. nistro de Israel, revelando o sentimento dominante entre os is-
raelenses de não retomar as negociações para a criação do Es-
Intifada tado Palestino enquanto durar a intifada.
Na década de 1980, as negociações sobre o futuro do Diante da violência dos atentados terroristas promovidos
Oriente Médio não avançaram. De um lado, os árabes iniciam pelo Hamas e pelo Hezbolah, grupos extremistas árabes que
a Intifada, rebelião popular em Gaza, cujo estopim foi o atro- pregam o extermínio dos judeus, as ações do exército israelen-
pelamento e morte de quatro palestinos por um caminhão do se também têm sido cada vez mais cruéis, atingindo, inclusive,
exército israelense, em 1987. Adolescentes, munidos de paus e a população civil das regiões dominadas.
pedras, enfrentaram, nas ruas, os soldados de Israel e o levante
se alastrou. A repressão israelense foi brutal. Desde então, os Guerra Irã-Iraque
choques entre palestinos e colonos nas áreas de ocupação isra- Em 80, Irã e Ira-
elense têm sido frequentes. que iniciaram uma
Em 1992, porém, a eleição de Itzhak Rabin, membro do guerra sangrenta,
Partido Trabalhista, para Primeiro Ministro de Israel, favore- que teve forte moti-
ceu a retomada das conversações de paz entre árabes e israe- vação no fundamen-
lenses. Simultaneamente, Arafat, enfraquecido pelas dissidên- talismo religioso e na
cias internas a OLP, já adotava uma postura menos belicista e presença dos EUA
mais conciliadora. no Oriente Médio.
A disposição de ambos levou-os, em 1993, a um encon- O conflito, que ter-
tro em Oslo, onde ficou decidido que, de forma gradual, Israel minou no dia 20 de
devolveria a Faixa de Gaza (área pobre onde se espremem 800 agosto de 1988, sem
mil palestinos) e de Jericó, na Jordânia, para a administração vencedores, é um
direta e autônoma dos palestinos, apesar dos cerca de 100 mil fato histórico que
colonos judeus ali instalados permanecerem protegidos pelo ajuda a entender importantes conflitos posteriores no Oriente
exército israelense. Médio, a exemplo da Guerra do Golfo (1991) e da Guerra do
Ao acordo, opuseram-se as facções palestinas hostis a Ara- Iraque (2003).
fat, alegando que as concessões de Israel eram pequenas frente Até 1979, o Irã era um dos maiores aliados dos Estados
aos desejos dos palestinos, e os israelenses que habitam as re- Unidos na região - estratégica por abrigar a maior parte das re-
giões a serem devolvidas. Em 4 de novembro de 1995, durante servas mundiais de petróleo. Neste ano, o país sofreu a Revo-
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História Geral

lução Islâmica, que resultou na deposição do Xá (imperador) e definitiva. Para isso, usou armas químicas, que mataram cerca
Reza Pahlevi e na posse do aiatolá (chefe religioso) Ruhollah de 5 mil habitantes da aldeia de Halabja.
Khomeini como líder máximo do país. Completamente esgotados, Irã e Iraque cessaram fogo em
1988, por sugestão da ONU (Organização das Nações Uni-
Xiitas no poder das). As fronteiras permaneceram exatamente as mesmas de
O Irã deixava de ser uma monarquia alinhada ao Ociden- antes do conflito. Desta forma, é possível afirmar que as víti-
te para se tornar uma brutal ditadura fundamentalista islâmica. mas da guerra -cerca de 300 mil iraquianos e 400 mil iranianos-
O fato de a população ser de maioria xiita (islâmicos radicais) morreram em vão.
explica a maciça adesão à revolução. Khomeini defendia a ex- Depois da guerra, Saddam não obteve mais apoio logístico
pansão da revolução, o que criou atritos com outras nações do ou financeiro dos EUA e dos outros países árabes, que deixa-
Oriente Médio, e criticava abertamente os EUA, acusando-os ram de ver o Irã como uma ameaça a seus interesses. Mesmo
de corromper os valores islâmicos. assim, o ditador manteve sua política agressiva para com seus
vizinhos. A próxima vítima de Saddam foi o Kuait, invadido
Consequências da Revolução Islâmica e anexado em 1990. A ação acarretou a Guerra do Golfo em
Uma das principais consequências da revolução foi o rom- 1991, opondo o Iraque a uma coalizão liderada pelos EUA, o
pimento do Irã com os Estados Unidos, que desde então não ex-aliado. Mas essa é outra história.
mantêm relações diplomáticas. Os americanos se viram sem
um de seus maiores aliados. Para compensar a perda do Irã, os Guerra do Golfo
EUA se aproximaram do país vizinho, o Iraque, onde o jovem Foi um conflito que teve início em agosto de 1990, entre
vice-presidente havia tomado o poder recentemente por meio o Iraque e o Kuwait na região do Golfo Pérsico. Mas que tam-
de um golpe de estado. Seu nome? Saddam Hussein. Pois é. bém envolveu os Estados Unidos e alguns países do Oriente
Inicialmente, o ditador iraquiano foi um aliado estratégico dos Médio.
americanos no Oriente Médio. O objetivo do Iraque era de anexar seu vizinho Kuwait ao
A guerra começou em 1980 por um motivo que, teorica- seu território como uma província, de forma a controlar o pe-
mente, não seria suficiente para iniciar hostilidades entre Irã e tróleo kuwaitiano. Com isso em 1990, começaram os ataques
Iraque: o controle do Chatt-el-Arab, um canal que liga o Ira- da imprensa de Bagdá contra o pequeno país.
que ao Golfo Pérsico, por meio do qual é escoada a produção Aparentemente era mais uma das diversas tensões do
petrolífera do país. Embora a margem oriental do canal fosse Oriente Médio. Em 1991, se dá a invasão iraquiana de 100 mil
controlada pelos iranianos, qualquer embarcação podia atra- soldados no Kuwait. Boa parte da família real kuwaitiana con-
vessá-lo sem problemas rumo ao Iraque. Mesmo assim, Sa- seguiu fugir. Somente a força aérea do Kuwait demonstrou al-
ddam Hussein reivindicou o controle total do estreito. Diante guma resistência durante a ocupação.
da recusa iraniana em ceder seu território, tropas de Saddam A força do corpo de elite iraquiana era tão grande que nem
invadiram o Irã e destruíram o que era então a maior refinaria se pode dizer que foi uma guerra, mas sim uma manobra mili-
de petróleo do mundo, em Abadã. tar. Com isso o Kuwait foi anexado ao Iraque como a 19ª pro-
E assim dois países pobres, altamente dependentes da ex- víncia do país. Veio da ONU a primeira reação concreta, um
portação do petróleo, mantiveram um conflito que se dava embargo econômico contra o Iraque. O que significava que os
principalmente por meio de batalhas de infantaria, custando países não podiam comprar do Iraque nem vender para ele.
a vida de milhares de soldados e das populações das regiões No entanto, poucos tinham esperança de que o embar-
fronteiriças. O Iraque, que sofreu um pesado contra-ataque go seria o suficiente para retirar as tropas iraquianas. Então a
iraniano em 1982, foi apoiado principalmente pelos EUA e ONU estabeleceu um prazo de até 15 de janeiro de 1991 para
por outras nações do Oriente Médio, como a Arábia Saudita, a retirada das tropas que ocupavam o Kuwait. Mas, antes disso,
cujas elites não viam com bons olhos a expansão do funda- os Estados Unidos já preparavam um contra-ataque. Até o fim
mentalismo islâmico, representado pelo Irã. do prazo estabelecido, as tropas da ONU começavam a chegar
aos países vizinhos como Turquia e Arábia Saudita.
Massacre dos curdos Enquanto isso, o Iraque tentava tornar a invasão do
O conflito, travado majoritariamente em solo iraquiano, se Kuwait uma guerra contra o Ocidente e contra Israel. Saddan
caracterizou por vitórias alternadas de ambos os lados, confi- Hussein cometeu dois erros básicos; ele não esperava a rea-
gurando um equilíbrio entre os beligerantes, embora o Irã ti- ção do Ocidente diante da invasão e contava com um maciço
vesse uma população três vezes maior. Em 1985, o Iraque teve apoio árabe na guerra.
de enfrentar a sublevação da minoria étnica dos curdos, con- O ditador não levou em consideração que o mundo vivia
centrada principalmente no norte do país. Para evitar um con- uma situação Pós-guerra Fria, ou seja, os Estados Unidos es-
flito em duas frentes, Saddam resolveu liquidar os separatistas tavam livres para agir na área sem a pressão soviética, envolvi-
curdos, inimigo mais fraco que os iranianos, de maneira rápida da na crise. Um dia após o término do prazo legal dado pela
133
Professor Max Dantas

ONU, iniciava-se o bombardeio ao Iraque. Os grupos populares muçulmanos do Líbano começaram


Na tentativa de envolver outros países árabes, os iraquia- então a enfrentar os cristãos, ocasionando uma devastadora
nos atacaram Israel com mísseis scund, de fabricação soviética. guerra civil que se estendeu por quase dez anos (1975 - 1985).
Tendo em vista a idéia de que se Israel respondesse ao ataque, Em 1982, tropas israelenses foram enviadas para o sul do
provavelmente os outros países árabes iriam apoiar o Iraque e Líbano pelo ministro da Defesa Ariel Sharon, numa operação
se retirariam da aliança anti-Iraque. No entanto, a diplomacia denominada “Paz na Galiléia”, com o objetivo de neutralizar
e o dinheiro norte-americano foram fundamentais. Pois com as forças palestinas instaladas no sul do país. Os combates se
isso os EUA conseguiram convencer Israel de não contra-ata- estenderam até meados dos anos 1980, quando foi organizado
car e premiaram-no com baterias antimísseis patriot. um governo de maioria cristã e pró-Síria.
Outro recurso iraquiano, denominado de eco terror, foi o
despejo de petróleo no golfo Pérsico e, quase ao final da guer- Guerra no Afeganistão
ra, incêndio das instalações petrolíferas do Kuwait. Cerca de O Afeganistão é um país pobre do sudeste asiático. Não
um mês após o início da guerra, o Iraque, submetido a pesa- possui saída para o mar, seu solo é pobre, seu clima rigoroso. A
dos bombardeios e a um avanço rápido das tropas terrestres da maioria de sua população confessa a religião islâmica.
aliança, anunciava a devolução do Kuwait pela rádio de Bagdá, Durante o século XIX, o Afeganistão foi dominado pela
em 28 de fevereiro de 1991. Inglaterra até conquistar a independência, em 1919. A emanci-
Com essa atitude, o Iraque conseguiu perder a guerra sem pação, porém, não trouxe liberdade para os afegãos. Ao longo
perder território ou sequer tirar Saddan Hussein do poder. A do século XX, a vida política do país foi marcada pela suces-
rápida derrota do Iraque surpreendeu o mundo, que esperava são de ditaduras.
uma resistência muito maior e o uso de todo o arsenal de Sa- Terminada a Segunda Guerra, o ditador Mohammad Da-
ddan. Dessa guerra saíram diversos vencedores, entre eles os oud Khan procurou manter o país neutro em relação aos
Estados Unidos assumindo seu papel de única potência mun- blocos geopolíticos que se formaram durante a Guerra Fria.
dial, o Egito por ter apoiado os EUA ganhou prestígio e força. Tensões na fronteira do Paquistão, porém, levaram-no a apro-
Em compensação o Iraque, além de ter perdido a guerra, ainda ximar-se da União Soviética, de quem obtinha auxílio eco-
saiu enfraquecido, perdendo o seu prestígio. nômico e militar. Havia, no entanto, grupos de oposição que
agiam no sentido de desestabilizar o governo de Daoud Khan,
Guerra no Líbano que, juntamente com o embaixador dos Estados Unidos em
A guerra civil no Líbano foi resultado das tensões e con- Cabul, foi assassinado em 1979.
flitos entre árabes e israelenses pela posse do território da Pa- O novo governo procurou então uma aproximação com
lestina. o governo norte-americano e, em represália, o governo sovi-
Até 1943, o Líbano era colônia francesa e estava anexado ético determinou a invasão e ocupação do país. A resistência
à Síria. A conquista da independência, porém, não significou afegã, ancorada no apoio dos Estados Unidos e do Paquistão,
o surgimento do Estado nacional libanês, já que, além da Síria foi, todavia, incansável.
não reconhecer a emancipação do país, divisões religiosas in-
ternas inviabilizaram o exercício de um poder centralizado. O Talibãn
A ascensão ao
Divisões internas no Líbano poder soviético de
Os libaneses dividiam-se em uma minoria de cristãos ma- Mikhail Gorbatchev,
ronitas, herdeiros da tradição das cruzadas que haviam con- em 1985, trouxe pro-
quistado Jerusalém na Idade Média, que controlavam a econo- fundas mudanças
mia e eram aliados do Ocidente, e muçulmanos, ligados à Síria. para o mundo so-
Cada região era governada por um grupo, cristão ou islâmico, cialista. O novo go-
que organizava a defesa, cobrava tributos e exercia a justiça de verno reduziu dras-
acordo com seus interesses. ticamente os gastos
Antagonismos entre os grupos sempre houve, todavia as militares, enfraquecendo o controle do país sobre o Afeganis-
sucessivas guerras entre árabes e israelenses na região criaram tão e favorecendo o avanço dos mujahidin (guerrilha islâmica
um cenário propício à eclosão de uma guerra civil. A ocupação que lutava contra a ocupação do país). Entre eles destacava-se
israelense sobre a quase totalidade do território palestino obri- o grupo Talibã formado por jovens estudantes. Em 1989, as
gou um imenso contingente populacional a buscar refúgio nos tropas soviéticas desocuparam o Afeganistão.
países vizinhos. Milhares de palestinos migraram para o sul do Aos poucos, o Talibã foi conquistando espaço político e,
Líbano, onde passaram a viver em situação precária e, o que é em 1996, chegou ao poder na pessoa de Mohammad Omar,
pior, de onde grupos radicais islâmicos iniciaram ataques mili- líder radical islâmico que pretendia abolir todos os sinais de
tares contra o norte de Israel. modernidade, impondo à população a miséria e a opressão.
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História Geral

Foi este governo que abrigou um terrorista saudita que, desde do governo norte-americano contra outros possíveis inimigos
o domínio soviético, lutava no país: Osama Bin Laden. Foi ele dos EUA. O chamado “eixo do mal” teria como alvos princi-
quem criou a Al Qaeda, cujo objetivo, segundo seus dirigen- pais alguns países como Irã, Coréia do Norte e Iraque. Este
tes, é defender os interesses dos povos muçulmanos diante da último, comandado por Saddam Hussein, foi o primeiro a ser
opressão e da sedução do Ocidente e cujo maior inimigo são investigado pelos EUA.
os Estados Unidos. No ano de 2002, o presidente George W. Bush iniciou
Diversos aten- uma forte campanha contra as ações militares do governo ira-
tados terroristas quiano. Em diversas ocasiões, denunciou a presença de armas
foram praticados de destruição em massa que poderiam colocar em risco os Es-
contra os norte- tados Unidos e seus demais aliados. Após denunciar a produ-
americanos, mas ção de armas químicas e biológicas no Iraque, os EUA conse-
o pior estava por guiram que uma delegação de inspetores das Nações Unidas
acontecer. Em 11 investigasse o estoque de armamentos controlados por Sa-
de setembro de ddam Hussein.
2001, aviões co- Em fevereiro de 2003, os delgados da ONU chegaram
merciais dos Es- à conclusão que não havia nenhum tipo de arma de destrui-
tados Unidos, se- ção em massa no Iraque. Contudo, contrariando a declaração
questrados por do Conselho de Segurança da ONU, o presidente George W.
terroristas da Al Bush formou uma coalizão militar contra os iraquianos. No
Qaeda atingiram dia 20 de março de 2003, contando com o apoio de tropas bri-
as Torres Gêmeas tânicas, italianas, espanholas e australianas, os EUA deram iní-
do World Trade Center, em Nova Iorque e parte do edifício cio à guerra do Iraque com um intenso bombardeio.
do Pentágono em Washington. Milhares de pessoas morreram Em pouco tempo, a força de coalizão conseguiu derrubar
nesses atentados e o mundo assistiu estupefato à ousadia de o governo de Saddam Hussein e instituir um governo de na-
Bin Laden. tureza provisória. Em dezembro de 2003, o governo estadu-
A reação norte-americana caiu sobre o Afeganistão, refú- nidense declarou sua vitória contra as ameaçadoras forças ira-
gio do terrorista. Em semanas, o combalido território afegão quianas com a captura do ditador Saddam Hussein. A vitória,
foi duramente atacado pelos militares dos EUA, causando uma apesar de “redimir” as frustradas tentativas de se encontrar
terrível devastação. O governo do Talibã foi substituído por Bin Laden, estabeleceu um grande incômodo político na me-
um grupo opositor, a Aliança do Norte. dida em que os EUA não encontraram as tais armas químicas
e biológicas.
Guerra do Iraque- 2003 Passados alguns meses, a população iraquiana foi levada
Após os atentados às urnas para que escolhessem figuras políticas incumbidas de
de 11 de setembro de criar uma nova constituição para o país. Passadas as apurações
2001, os Estados Uni- uma nova carta foi criada para o país e o curdo Jalal Talabani
dos entraram em aler- foi escolhido como presidente do país. Em um primeiro mo-
ta contra seus possíveis mento, tais episódios indicariam o restabelecimento da sobera-
inimigos. Empreende- nia política do país e o fim do processo de ocupação das tropas
ram uma guerra contra norte-americanas.
os afegãos derrubando No entanto, o cenário político iraquiano esteve longe de
o governo talebã, mas uma estabilização. Os grupos políticos internos, sobretudo do-
não conseguiram cap- minados por facções xiitas e sunitas, se enfrentam em vários
turar o terrorista Osa- conflitos civis. Ao longo desses anos de ocupação, os Esta-
ma Bin Laden. Parale- dos Unidos vem empreendendo uma batalha que não parece
lamente, o presidente ter fim, pois as ações terroristas contra suas tropas continuam
George W. Bush criou ocorrendo. Em 2008, com o fim da era George W. Bush exis-
a Lei Antiterrorismo, te uma grande expectativa sobre o fim da presença militar dos
pela qual o Estado teria o direito de prender estrangeiros sem EUA no Iraque.
acusação prévia e violar determinadas liberdades individuais.
Nesse mesmo período, o governo norte-americano conse-
guiu a liberação de fundos do orçamento para o investimento
em armas, no valor de 370 bilhões de dólares. Com o passar do
tempo, o fracasso na captura de Bin Laden direcionou atenção
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Professor Max Dantas

Nova Ordem Mundial voluções liberais, o liberalismo, o qual era uma das bases do
movimento intelectual iluminista. Essa doutrina, o liberalismo,
A Nova Ordem Mundial foi desenvolvida por filósofos da época e se dividia em vários
é um conceito sócio-econômi- campos, mas a mais importante é sua análise na economia.
co-político que faz referência No campo econômico temos como principal filósofo
ao contexto histórico do mun- Adam Smith, pai do liberalismo econômico e do capitalismo,
do pós-Guerra Fria. A expres- além de outros como Malthus, Ricardo e Mill. Eles defendiam
são foi pela primeira vez usada a ampla liberdade econômica e a não intervenção do Estado na
pelo presidente norte-america- economia. Acreditavam que as relações econômicas podiam
no Ronald Reagan na década ser deixadas em cargo da “mão invisível’’ (expressão usada por
de 1980, referindo-se ao pro- A. Smith) do mercado”. Acreditavam também que a economia
cesso de queda da União Sovi- era uma ciência que podia ser explicada através de leis natu-
ética e ao rearranjo geopolítico rais, como exemplo, a lei da oferta e da procura e a lei da livre
Ronald Reagan foi o primeiro presi- das potências mundiais. Essa concorrência.
dente a usar a expressão “Nova Or- definição, o presidente Bush Porém, com a crise de 1930 houve um enfraquecimento
dem Mundial”
chamou de ordem multipolar, no sistema capitalista, forçando assim as grandes potências da
onde novos pólos econômicos estavam surgindo, entre eles, época, como os E.U.A., a adotarem métodos a fim de resolver
Japão, China, Rússia e União Européia. Quando deu início a esse problema.
nova ordem mundial, a rivalidade entre os sistemas econômi- Assim, tomando como exemplo o governo norte-ameri-
cos opostos, a classificação dos países em 1º, 2º e 3º mundo e cano, a partir do ‘’New Deal’’, o Estado passou a intervir na
a ordem bipolar, EUA e URSS, deixaram de existir. economia, regulamentando e direcionando as relações e tran-
O termo Nova Ordem Mundial tem sido aplicado de for- sações econômicas. Essa idéia reformista para o sistema foi
ma abrangente, dependendo do contexto histórico, mas de um desenvolvida pelo liberal Keynes, na qual ele afirma que o ca-
modo geral, pode ser definido como a designação que preten- pitalismo é um sistema socioeconômico essencialmente instá-
de compreender uma radical alteração, e o surgimento de um vel e tende para o desequilíbrio. Essa nova doutrina originou
novo equilíbrio, nas relações de poder entre os estados na cena o Welfare State.
internacional. Após atravessar a crise dos anos 70, países desenvolvidos
Num contexto mais moderno, percebe-se muitas vezes passavam a ter problemas como inflação, recessão e desem-
esta referência ser feita a respeito das novas formas de contro- prego caracterizando a decadência da teoria keynesiana, para
le tecnológico das populações, num mundo progressivamente a economia, e do Welfare State, originando a adoção do neo-
globalizado, descrevendo assim um cenário que aponta para liberalismo.
uma evolução no sentido da perda de liberdades e um maior O neoliberalismo defendia que a atuação do Estado retar-
controle por entidades distantes, com o quebramento da auto- dava o processo de realocação dos capitais dos setores indus-
nomia de países, grupos menores em geral, e indivíduos. triais ultrapassados para aqueles surgidos com a terceira revolu-
Esta descrição ganha por vezes traços de natureza conspi- ção industrial. Defende assim completa liberdade de mercado
rativa, mas pode também não ser necessariamente esse o caso. e total afastamento do Estado na produção e na intermediação
Este conceito é muitas vezes usado em trabalhos acadêmicos, das relações entre patrão e empregado.
notavelmente no domínio das Relações Internacionais, onde As principais críticas a atual
se procura traçar cenários realistas, com base em fatos, acerca doutrina são ditas em vários pla-
do impacto de novos elementos da sociedade moderna e de nos. Primeiramente no econô-
como esta evolui. Um exemplo de um tema nesta disciplina mico, vive-se a etapa conhecida
é a chamada revolução dos assuntos militares, em que se pro- como monopolista, marcada pela
cura discutir o impacto das novas tecnologias na forma de se ação de grandes conglomerados
fazer a guerra. empresariais.
Pelas teorias neoliberais eco-
Neoliberalismo nômicas sabe-se que somente as
O neoliberalismo, hoje em dia, é a ideologia adotada em grandes empresas sobrevivem no
quase todo o mundo. Essa ideologia está difundida em vários mercado. Além disso, ocorreu, e
planos, principalmente nos planos político e econômico. Mas ainda ocorre, o aumento da questão social, ou seja, a elevação
para entendermos melhor essa doutrina seria mais adequado dos índices de desemprego e pobreza nas nações ricas, sem
analisar historicamente suas raízes e ver como o sistema capi- contar com as crises em países periféricos, graças à má distri-
talista chegou a esse estágio. buição de renda.
Nos séculos XVII e XVIII, foi adotado, para base de re- Por todos esses pontos, as idéias neoliberais não são tão
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História Geral

atraentes para a maioria da população. Elas podem ser até fa- de acordo com os interesses dos países desenvolvidos. Enfim,
voráveis para soluções do mercado, mas são um influente fator a globalização demonstra a face e a fase mais contemporânea
nos problemas sociais do nosso século. dos meios de exploração.

Globalização Blocos Econômicos


Existe no mundo uma desigualdade muito grande entre Com o fenômeno da
os países, pois há uma concentração de riquezas nos países ri- globalização o mercado in-
cos e industrializados, enquanto a metade da população mun- ternacional se tornou bas-
dial vive com menos de 2 dólares por dia, as 500 maiores for- tante competitivo, diante
tunas do mundo ultrapassam a renda da metade da população disso, somente os mais for-
mundial. tes prevalecem. O que acon-
A soma da fortuna das três pessoas mais ricas do mundo tece é uma interrupta dispu-
é superior ao PIB de 48 países juntos. Os aspectos citados de- ta por mercados em âmbito
monstram claramente a principal característica da globalização global.
que está no empobrecimento da maioria e enriquecimento da Com o intuito de for-
minoria. talecer economicamente,
A globalização provoca disparidades econômicas, princi- muitos países se unem para
palmente por parte dos países centrais que criam medidas de alcançar mercados e vertica-
exportação e importação sempre favoráveis a eles, muitas ve- lizar a sua participação e in-
zes querem a retirada de tarifas alfandegárias dos países perifé- fluência comercial no mundo. A criação de blocos econômicos
ricos para entrada de seus produtos provocando um desequilí- estreitou as relações econômicas, financeiras e comerciais en-
brio na balança comercial de tais países. tre os países que compõe um determinado bloco econômico.
Outra característica marcante do processo de globalização Atualmente existem muitos blocos econômicos, a formação
está na diferença tecnológica, os países periféricos não conse- dos mesmos acontece há décadas.
guem acompanhar a aceleração dos avanços da tecnologia. As O MERCOSUL (Mercado Comum do Sul) foi fundado
principais diferenças remetem ao tipo de produção entre os em 1991, constituído por Brasil, Paraguai, Uruguai e Argenti-
países ricos e pobres, o primeiro é exportador de tecnologias na que são membros, além da perspectiva de ingresso do Chi-
enquanto que o segundo é produtor primário. le, Bolívia e Venezuela.
A educação é, sem dúvida, uma condição fundamental A União Européia (UE) foi instituída no final dos anos
para o desenvolvimento, o ponto de partida das possíveis mu- 50, embora tenha sido oficializada somente em 1992, os paí-
danças dos países subdesenvolvidos está presente na educação ses que fazem parte são: Alemanha, França, Reino Unido, Ir-
e na pesquisa. landa, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Itália, Espanha, Portugal,
Mas isso não tem ocorrido, o Brasil, por exemplo, enfren- Luxemburgo, Grécia, Áustria, Finlândia e Suécia, nesses países
ta vários problemas na área de educação, como falta de salas corre uma moeda única, o euro.
de aula e superlotação, carência de cursos pedagógicos, falta de Exemplos como a UE e o MERCOSUL ocorrem a partir
valorização dos profissionais da área e evasão. de acordos comerciais estabelecidos entre os países membros,
Fazendo algumas considerações notamos que a globaliza- nesse caso implantam medidas que eliminam total ou parcial-
ção é extremamente excludente. Pois proporciona integração mente as barreiras alfandegárias, como eliminação de tributos,
do espaço mundial, promove a inserção dos países dominantes além da circulação de mercadorias, capitais, serviços, pessoas e
e a exclusão dos dominados, as decisões políticas são sempre outros pontos que o bloco julgar necessário.
O que se espera com a formação de blocos econômicos
é a intensificação econômica e a flexibilização comercial entre
os integrantes.
Existem outros órgãos comerciais, como por exemplo, a
OMC (Organização Mundial do Comércio), que integram to-
dos os países que participam do comércio internacional, essas
instituições têm como objetivo fiscalizar e mediar as relações
comerciais para que não haja partes favorecidas.
Os principais blocos econômicos do mundo são União
Européia (UE), MERCOSUL (Mercado Comum do Sul), Apec
(Cooperação Econômica da Ásia e do Pacifico) e o NAFTA
A característica mais notável da globalização é a presença de marcas (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio).
mundiais. Na foto Times Square em Nova York