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Amo Alvarez Kern

RobertJackson

Missões 16éricas Cofoniais:


da Cafijórnia ao Prata

Porto Alegre, 2006


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Tabela 2: Ur6anismo Missioneiro


Construções na Missão de La Purisima, 1788-1812
ArnoAlvarez Kern
Ano Prédio Dimensões
1789 Igreja 60.5' x 16.5'
Sacristia 13.8' x 16.5' Introdução
Silo 88' x 16.5'
Cozinha 13.8' x 16.5'
As pesquisas desenvolvidas na Biblioteca Nacional de Pa-
1790 Sete cómodos 132' x 16.5'
1791 Silo 85.3' x 16.5' ris, I nos quadros do projeto Arqueologia Histórica Missioneira,
Três prédios fora do complexo Não fornecido levaram à descoberta de um novo desenho policrorno, do sítio
1792 Ampliação da izreia 88' x 16.5' arqueológico de São João Batista. Ele nos permite muito bem
1793 Ala 173.3' x 16.5' analisar o processo de implantação dos "Pueblos de Índios",
1794 Quartéi~ilra os soldados 38.5' x 16.5' estas aldeias novas fundadas para a instalação dos Guarani nas
Armazém Não fornecido
fronteiras do império espanhol platino.
Acomodações para hóspedes 22' x 16.5'
Acomodações oara capatazes 33' x 16.5' O objetivo principal deste trabalho será o de apresentar os
Carpintaria 22' x 16.5' resultados ainda parciais, e portanto incompletos, das pesqui-
Selaria Não fornecido sas que se desenvolvem atualrnente tendo como referência este
1795 Silo 85.5' x 19.3' magnífico documento iconográfico de meados do século XVIII.
Escritório 33' x 19.3' O trabalho aqui desenvolvido é uma abordagem contextuai, de
1796 Três armazéns Não fornecido
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caráter crítico e reflexivo, tendo como alvo o processo de urba-
Nova residência para os missionários Não fornecido
1798 Novos quartéis para os soldados Não fornecido nização do povoado missioneiro, e como estudo de caso o povo-
1798-1802 Nova igreja Não fornecido ado de São João Batista. A análise da morfologia e do plano
1799 Cómodo 27.5' x 19.3' destes "Pueblos de Índios" coloniais, relacionado às práticas
Cómodo 27.5' x 19.3' sociais, as mentalidades urbanas e aos aspectos simbólicos sub-
1800 Ala . 192.5' x 19.3' jacentes, é tarefa extremamente dificil. E exige uma aborda-
1804 Novos quartéis para os soldados 110' x 19.3?'
gem complexa de confrontação entre os dados provenientes de
Fonte: Annual Reports, Archivo General de la Nacion, Mexico, D.F.; Zephyrin diversas fontes primárias (iconográficas, da cultura material e
Engelhardt, O.F.M., Mission La Concepcion Purisima de Maria Sasuisima (Santa Barbara, escritas), mas igualmente da bibliografia especializada existen-
1932).
te.'

1 Pesquisas realizadas pelo autor na Seção de Mapas e Planos, da Biblioteca Na-


cional de Paris, França, em 1995.
2 HAROUEL, Jean-Louis. Histcíre de l'uroanisme. Paris: Presses Universitaires de
France, 1995. p. 3.
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semelhanças e as diferenças existentes entre as Missões Iesum.


As Missões Jesuítico-Guaranis: cidade idealou cidade idealizada ,3 co-Guaranis e as experiências realizadas na Europa da Idade
Média, com as construções dos mosteiros medievais.
No século 18, Charlevoiv" escreveu que os jesuítas haviam
estabelecido planos completos, aprovados pelos reis da Espa-
Adoçãodoplano e das normas relativas a ele.
nha, sugerindo que eles seriam uma criação exclusiva, Mais
recentemente se afirmou que todos os planos urbanos destes
As normas relativas ao plano urbano não apenas impõem
povoados missioneiros eram não apenas semelhantes uns aos
mas igualmente propõem uma relação das estruturas materiais
outros, como nas obras literárias utópicas, mas igualmente
observadas, tanto nos levantamentos topográficos realizados no
uma "unidade urbana e rural planificada com rigor".'
sítio arqueológico como no estudo da iconografia descoberta,
Estas in terpretações, pela sua superficialidade, não se dão
com o seu contexto histórico. Os estudos contextuais, sejam
conta da complexa herança histórica, ao mesmo tempo ame-
históricos ou arqueológicos, são abordagens teóricas de médio
ríndia e européia, materializada nestes importantes sítios ar-
queológico. alcance, ultrapassando os estudos pontuais sem atingir as vi-
sões especulativas da totalidade do processo histórico da hu-
Sempre se afirmou que o plano urbano destes povoados
manidade. Eles englobam tanto o cenário do ambiente natural
seguiram as famosas "Leyes de Indias" dos soberanos espa-
como os aspectos sacio-culturais dos personagens históricos em
nhóis. Entretanto, mesmo se esta afirmação muito geral e su- presença.'
perficial é uma verdade histórica, ele não esgota e nem resolve
Não serão desenvolvidos aqui as relações entre o sítio ur-
plenamente o problema. Uma analise mais aprofundada desta
bano e o cenário, o espaço ambiental, ainda a serem estudados
iconografia, nos evidencia as relações muito estreitas com os
nesta pesquisa em andamento.' Nossa análise se desenvolverá
modelos estabelecidos por duas fortes tradições culturais, a
na reconstituição das relações que nos evidenciam os ritmos e
européia e a indígena. Este plano urbano nos evidencia uma
as formas da vida social e da cultura, tanto dos seus aspectos
série de padrões relacionados às normas milenares materiali- materiais como simbólicos.
zadas nas aldeias dos horticultores da floresta tropical e sub-
tropical, e as planificações urbanas inovadoras do Renascimen-
6 Segundo Ian Hodder, uma análise contextuaI arqueológica pode ser assim
to. Entretanto, o que deveremos destacar neste trabalho, são as caracterizada: "Numa primeira abordagem, o contexto a ser analisado se refere
tanto ao Contexto ambiental como ao das sociedades presentes na área em estu-
3 HAUBERT, Máxime. Des indíens et dcs jésuites du Paraguay au temps des missions. dos. Numa segunda abordagem, o contexto se refere tanto aos aspectos ar-
Paris; Hachette, 1967. KERN, Arno Alvarez. Utopias e missões jesuíticas. Porto queológicos da cultura material quanto aos seus significados simbólicos"
Alegre: Editora da UFRGS, 1994. HODDER, Ian. Reading the pasto Current approaches to interpretation ín archaeology.
4 CHARLEVOIX, P. Histoire du Paraguay. Paris; Didot, 1756. Cambridge: Cambridge University Press, 1986. p. 118-46. A abordagem se-
5 A citação se refere ao plano como sendo fruto de um projeto original de im- guida foi plenamente explanada em dois trabalhos do autor: "Aspectos teóricos
plantação de uma nova forma de sociedade, denominada por seu autor de "so- e metodológicos da Arqueologia Histórica do Rio da Prata", nos Anais do VIII
cialisnmo missioneiro". FREITAS, Décio. O Socialismo Missioneiro, Porto Ale- Congresso de Arqueologia Uruguaia (pg. 17) e em "Método e teoria no projeto
gre: Edit. Movimento, 1982. p.44. A crítica a este tipo de análise pode ser en- Arqueologia Histórica Missioneira", no primeiro volume da Coleção Arqueologia
(Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995-96, p. 181-202).
contrada em; MORNER, Magnus. Thepoliticai and economic aaiuities c:f the[esuíts
ín the La Plata region. Estocolmo: Liv. Instit. Estudos Iberoamericanos,1953. p. 7 Estes aspectos da arqueologia espacial podem ser obtidos em BARCELOS,
196. KERN, Arno Alvarez. Missões: uma utopia política, Porto Alegre: Editora Arthur F. "Arqueologia espacial da Redução de São João Batista: uma proposta
Mercado Aberto, 1982. p. 208-13. teórico-metodológica". Coleção Arqueologia (no. 1). Porto Alegre: EDIPUCRS,
1995-96.n ,4,_,,0
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Durante a primeira etapa histórica das incipientes mis-


sões, percebe-se que o plano urbano já se articula em torno de
uma praça central e da igreja. A distribuição das estruturas já é I'Yo queria evitar estas y otros errares y trazar mi
pueblo metodicamente, según las regias dei urbanismo.
muito precisa e ordenada. Entretanto, não é ainda tão comple-
La primera condición con la cual debia cumplir fue la
xa como posteriormente. Um exemplo deste primeiro ordena- medición y el amonojonamiento de los terrenos para la
mento pode ser constatado em um documento de 1613, escrito construcciõn de las casas con el cordel dei agrimensor.
por Roque Gonzáles," que descreve a implantação de um dos Tuve que assignar a cada grupo de casas el mismo
primeiros povoados construidos no Tape, no arual Rio Grande número de pies a ia largo y a lo ancho como a los
do Sul. Esta fundação de inícios do século 17 refere-se ao espa- oiros. En el centro debia alinear la plaza, dominada
ço da praça central, igreja e à organização das casas retangu-
à por la iglesia y la casa dei párroco. De aqui debian
lares em conjuntos ao redor do espaço central. salir Iodas las calles, siempre equidistantes una de la
Poderíamos pensar inicialmente, que este novo urbanismo otra. Una buena distribuciôn en este sentido
se deve tão somente às "Leyes de Indias". Com efeito, desde o significaba una uentaja extraordinaria y, ai mismo
século 16 os soberanos espanhóis tornam explicitas em leis as tiempo, el mejor adorno para elpueblo". lO
normas que devem organizar as novas cidades coloniais. A ci-
dade deve ser projetada, as ruas e os quarteirões de casas deve-
rão ser traçadas "com régua e corda", caracterizando-se por A implantação do plano urbanístico.
serem inteiramente regulares e geométricas.'
No decorrer do século 18, período do auge destes povoa- A implantação da Missão implica no domínio sobre um
dos, percebe-se que o plano evidencia uma longa reflexão. São determinado território. Na Idade Média, as terras de uma aba-
mantidos muitos dos aspectos formais que tiveram sucesso e dia eram concedidas pelos senhores detentores dos feudos.
foram satisfatórios no passado. Entretanto, o plano é comple- Muitos séculos depois, na América colonial platina, são os go-
tado, sempre tendo em vista a sua coerência. Percebe-se que o vernadores de Buenos Aires e de Assunção que concedem as
complexo conjunto está agora perfeitamente estruturado, nada terras para os "Pueblos de Índios".
ocorrendo por acaso. Poderíamos concluir, afirmando que es- Seus limites nem sempre são claros. As relações territori-
tamos em presença de um modelo que traz consigo uma exi- ais com as demais Missões vizinhas, chegou a ser algumas ve-
gência absoluta, sem deixar de evidenciar, entretanto, que é um zes foi conflituosa. O território que separa cada uma das Mis-
modelo que admite contínuas transformações. Trata-se de dar sões pode ser percorrido em um dia de marcha. Se calcularmos
bases a uma renovação sobre uma continuidade. um ritmo normal de caminhada de cinco quilómetros por hora,
O Padre jesuíta António Sep., o fundador de São João Ba- em oito horas teremos percorrido os trinta quilómetros que
tista nos dá uma idéia das preocupações de sua época com a separavam em média estes povoados entre si.
adoção de um plano para o povoado: A escolha do local para instalação do povoado missioneiro,
exige um extenso e profundo conhecimento sobre os complexos
mosaicos das diversas paisagens que compõem a região. As
florestas são necessárias para o plantio da horticultura indíge-
8 MELIÁ, Bartomeu. Las reducciones jesuiricas del Paraguay: un espacio para
una utopia colonial. Estudios Paraguayos 6 (1): 157-67, 1978. 10SEPP, Antonio. Continuación de las labores apostólicas. Buenos Aires: EUDEBA
9 HAROUEL,]ean-Louis. Opus cit., p. 81. 1973. p. 223.
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na e para as atividades de agricultura européia com o arado.


Os campos servem para a reprodução dos rebanhos de gado e as cidades." Os motivos são muitos: dificuldades de obtenção de
manadas de cavalos. Exige também uma criteriosa escolha do provisões, de manutenção de uma boa administração, etc.
local em função das necessidades de água para o povoado. Há Todo o conjunto se ordena em torno da praça central, a
uma lógica da água relacionada à vida comunitária: captação "plaza mayor" espanhola e ao longo de um eixo que se prolonga
nas fontes de pedra trabalhada, canalização em direção às ofi- da entrada do povoado, atravessando a praça e acompanhando
cinas artesanais e à cozinha, contenção em açudes, irrigação da a linha de maior extensão da igreja. O conjunto se ordena sim-
quinta e limpeza das latrinas, etc. O sítio deve ter de águas bolicamente, pois o eixo separa o povoado em duas partes.
abundantes mesmo em períodos de seca prolongada. Este co-
' ..
nhecimento, apenas os Guarani possuíam. São diversos os sr-
A leste percebemos todos os dias o nascer do sol e a reinstala_
ção das condições propicias à vida. A oeste, podemos observar o
tios escolhidos, ora à beira do rio Uruguai, ora no cimo de coli- por do sol e a gradual expansão das trevas da noite. Tanto pela
nas que se erguem suavemente até quase trezentos metros de manhã como pela tarde, o sol - fonte da vida _ estará sempre
altura como é o caso de são João Batista. Este povoado nos iluminando o interior da igreja, pelas suas aberturas laterais.
' o padrão das reduções localizadas no atual terntono
evidencia . " .
Apesar das afirmações de Azara, não existem muralhas.
do Rio Grande do Sul.
Os mosteiros medievais, os burgos, os castelos e as fOrtificações
As reduções coloniais postularam uma planificação que européias tinham muralhas. O mesmo acontecia com as cidade
tem sempre atraído a atenção dos historiadores: uma constela- da América colonial, construídas em função dos fortes portu-
ção de estabelecimentos satélites (fazendas de gado, zonas, de gueses e espanhóis, como podemos observar em Buenos Aires,
exploração de erva mate, hortas e campos de atividades agrrco- Montevideu, Colônia de Sacramento, etc. Nas Missões, a defesa
las fornos cerâmicos, currais, etc) que envolvem como uma não é feita por muralhas de pedra e elas não existem, quer nos
coroa o povoado missioneiro. Este é uma sede central que diri- levantamento topográficos, quer na documentação iconográfi_
ge o contexto, dividido em diversas unidade de produção. Estas ca. Existe apenas um longo muro em torno da quinta , destina-
.
estão localizadas em uma unidade geográfica concentrada e do mais a proteger as raras espécies européias ali plantadas, do
eqüidistanre, a não mais do que um dia de marcha do povoado. gado e dos animais selvagens. A defesa do conjunto é propicia-
A sede deste conjunto se instala em um cenário bem esco- da pelas tropas e a cavalaria da milícia indígena. A mobilidade
lhido. São João Batista se instala sobre uma suave coxilha. da infantaria e da cavalaria é propiciada pelas ruas largas, con-
O relevo é uma plataforma que se inclina suavemente pelas forme as novas normas militares da Idade Moderna as reco-
encostas da colina. Muitas vezes a topografia exerce algumas - ,
mendações das Leis das Indias e o novo plano urbano moder-
restrições, como no caso de são João, obrigando a adaptação da~ no, criado pelo renascimento. Os novos ideais urbanos e os
estruturas às formas dinâmicas do relevo. Um exemplo disto e novos imperativos da circulação, exigem no século 17 ruas lar-
o deslocamento do "cotiguaçú" (casa das viúvas e dos órfãos), e gas e retas, destinadas a facilitar as comunicações entre os dife-
o falta de alinhamento do conjunto formado pela igreja o cemi- rentes setores do povoado e entre as edificações. 12
tério em relação ao claustro e à oficinas artesanais. Poderíamos nos perguntar se não é paradoxal que a Mis-
O cenário escolhido está di retamente relacionado à con- são, que se propõe à cristianização, à oração e à paz, seja obri-
cepção de urbanismo vigente no século XVII. Limita-se o ta- gada a se armar e a ter tropas? As tropas da milícia indígena
manho do núcleo urbano, ou seja, recusa-se a gigantismo das

11 HAROUEL,]ean-Louis. Opus cit., p. 47-9.


12 HAROUEL,]ean-Louis. Opus cit., p. 49.
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(normalmente) e as do exército espanhol (raramente), não são A herança européia dos mosteiros medieoais"
apenas a defesa móvel do povoado. Apesar de ter sido criada
para a defesa dos territórios coloniais espanhóis pia tinos contra Desde a antigüidade, a planificação urbana está sempre
as investidas bandeirantes, desempenham uma função de ata- associada aos projetes de fundação das cidades novas sobretu-
que sempre que necessário. Ataques a Assunção (rebeldia con- do nas colónias gregas e romanas. Um fenómeno se~elhante
tra o governador Hinestrosa), aos índios "infiéis" Charrua (ba- deu nascimento, no mundo romano, aos acampamentos milita-
talha de Jy), aos portugueses da Colónia de Sacramento. res (castrum). Eles são muitas vezes o plano que dá origem a
Os padres jesuítas não são apenas os párocos/xamãs, mas trei- multas CIdades que guardaram o seu na sua fisionomia de ci-
nam esta milícia indígena. Eles a acompanham quando em dade as orientações gerais deste projeto militar de organização
do espaço.
marcha contra os inimigos.
São as milícias indígenas que controlam as idas e as vindas . Mesmo na Idade Média, nas fronteiras do sul da França,
dos visitantes estrangeiros à vida no povoado, e que podem Cidades novas ali fundadas com o nome de Bastides, tiveram o
afastar os neófitos dos verdadeiros objetivos de suas vidas, tra- seu plano urbano planificado. A regularidade do plano contras-
çados pelos missionários jesuítas: a salvação de suas almas e a ta com a irregularidade do tecido urbano das cidades medie-
união com Deus. Este controle impede a introdução de infor- VaIS tradicionais. Estas experiências foram o ponto de partida

mações perniciosas, de distrações e de epidemias, doenças para para os planeiamentos urbanos racionais que forma elaborados
o corpo e para a alma. Este papel de isolamento e proteção era no Renascimento e que foram sugeridos nas "Leyes de Indias".
desempenhado, nas origens da Idade Média, pelas muralhas Em toda a Europa, milhares de Abadias e de Mosteiros de-
que envolviam os mosteiros medievais, protegendo os monges ram ongem à ocupação de novos territórios, "no deserto", como
dos contatos externos, fossem eles fraternais ou belicosos. As se dizia nesta época. Elas forma muitas vezes o núcleo central
normas espanholas, no caso das Missões limitava a uma curta de uma nova experiência urbana. E deram origem a novas ci-
temporada de três dias a permanência de estranhos no territó- dades, como ocorreu na época colonial na América colonial.
rio do povoado missioneiro. Os neófitos guaranis deveriam Cons:rUlr a ordem nesta nova cidade ibero indígena, significa
permanecer no povoado, como os monges permaneciam no tambem a organização de um nova sociedade. Afirmou-se nesta
mosteiro medieval. Ele era uma proteção contra os malefícios época que a cristianização do índio deveria estar integrada à
do contato com o mundo dos brancos. Esta proteção é garanti- sua redução à polis, ou seja, à vida da cidade.
da e ampliada pelo regime económico de autarcia e auto- . Franciscanos, Dominicanos e Jesuítas fazem parte das úl-
suficiência do povoado, pois nele se produz tudo o que é neces- timas ordens religiosas fundadas, profundamente ligadas ao
sário à vida da comunidade. Os beneditinos já salientavam, nas desenvolvimento das Cidades do final da Idade Média e do Re-
suas regras para os mosteiros medievais, que o controle dos nascimento. Nos burgos da Europa, estas ordens vivem a era
contatos dos neófitos com o mundo exterior era um dos ins- das cat:,drais e das universidades, dedicando-se à pregação e à
trumento das boas obras e que eles deveriam portanto, para educaçao. Entretanto, ao partirem para a América e ao se insta-
isto, "... afastar-se das maneiras do século", segundo o capítulo larem junto aos grupos indígenas nas fronteiras do mundo civi-
IV da regra. lI~ado, necessitaram dos modelos rurais de implantação do
cnstIalllsmo. Passaram a se guiar em parte, portanto, pela ex-

Seguiremos
13 • aqui as orientações da obra de'" BOUTTIER M'1Ch e.I Monasteres '
Des purres pour lapriêre (5a. Edição). Paris, Derclée de Brouwer, 1995. p. 23-56.'
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penencia monacal beneditina, dos cistercienses (Ordem de


Cister) e cluniacenses (Ordem de Cluny). Passaram a seguir
algumas das linhas gerais dos traçados dos monastérios benedi- A Igreja
tinos medievais, adaptando-os aos "Pueblos de Indios" ameri-
canos, fundados igualmente "no deserto" do mundo pagão. . Entre todos os prédios da Missão a igreja é o lugar mais
Os planos geométricos e racionais das missões jesuítico- Importante, como o era nos mosteiros medievais, quer pelo seu
guaranis, guardam a idéia de ordem e de centralização social volume estrutural face aos demais prédios, quer por suas di-
em torno da igreja, como já o previra o "plano beneditino" me- mensões, quer pelo lugar privilegiado que ocupa face à praça
dieval. Este plano monacal se caracteriza por uma série de do povoado.
construções, de volumes integrados entre si e que interagem . É o prédio no qual se materializam a produção arquitetô_
num grande conjunto.
nica e artísllca: pias batismais esculpida e ornamentadas, deta-
Podemos tentar algumas aproximações, entre a organiza- lhes arquitetõnicos em pedra e madeira finamente trabalhados
ção dos mosteiros e de certos setores da missão colonial, como escultur_as, portas e janelas trabalhadas em arenito esculpido:
hipótese de trabalho. Entretanto, é necessário esclarecer sem- decoraçoes para os altares, pilares e colunas com entalhes, na-
.
pre que o modelo urbano aqui aplicado não se resume a um ves Imensas e torres sineiras, além de fachadas finamente tra-
sonho de vida isolada em um monastério, mas na definição de balhadas e profusamente pintadas.
relações institucionais entre todos os integrantes deste micro- Sua forma é basilical. Desde o final do Império Romano
cosmos, sejam padres ou leigos, jesuítas ou guaranis. até o século 11, a basílica romana era o modelo de base da;
Por outro lado, não podemos igualmente esquecer a série igrejas. Ela assume a partir de então a forma de uma cruz, com
de ideais urbanos modernos que a partir do século 17 se mate- o transepto COrtando transversalmente o eixo da nave. No oci-
rializaram nestes povoados: o alinhamento das ruas e a regula- dente europeu, as igrejas cruciformes predominaram até o iní-
ridade das fachadas .. A cidade deve ser pensada como uma cio do século XX, quando este plano começou a ser substituído
decoração teatral, onde o essencial são as fachadas e a aparên- por Outras formas mais ousadas. A Ordem Jesuítica, entretanto,
cia. Quando penetramos em um povoado missioneiro, por uma marca o retorno ao plano basilical, desde a construção da igre-
larga rua, percebemos a perspectiva monumental que forma Ja-tIpo da Cia de Jesus em Roma. O edifício volta a ser retangu-
com as duas capelas situadas na entrada da praça e, ao fundo, o lar, com uma nave principal e duas naves laterais destinadas a
conjunto formado pela fachada da igreja e as duas portas insta- facilitar a circulação dos fiéis. '
ladas frente ao claustro e ao cemitério. Esta perspectiva mo- A extremidade da nave, oposta às portas de entrada, é um
numental não deve nada à Idade Média, mas é uma nova idéia espaço fechado ("septum") parcialmente isolado, destinado aos
de urbanismo da Idade Moderna. O povoado, para ser belo, padres e seus auxiliares. Neste espaço se encontra o altar mar
necessita corresponder a uma figura geométrica." o ponto focal do interior do edifício e a sua própria razão de
ser. Ele é ladeado por dois altares laterais. Trata-se de um con-
Junto carregado de símbolos e de significado, de um cenário
destInado a uma expressão litúrgica.
. :' própria orientação norte/sul da igreja torna tangível o
mlste,no da morte e da ressurreição de Cristo, nesta linguagem
14 HAROUEL,]ean-Louis. opus cit., p. 53. s~mbo1Jca',E neste POnto, a linguagem cristã em muito se apro.
xima da lInguagem simbólica dos Guarani. O ocaso do sol, a
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oeste simboliza a morte do Cristo, enquanto que o nascer do sol
a leste, pela manhã, representa a ressurreição de cristo, que sai objetos de culto e de procissões, além dos livros que são utili-
zados nas missas.
da noite do seu túmulo para iluminar o mundo e o livrar do
pecado. Para os Guarani, o nascer do sol (Quarai) representava A estética cisterciense medieval se pautava por uma arte
austera, baseada no despojamento e simplicidade dos edifícios
igualmente o fim da noite e da morte que se haviam instalado
monacais. A estética dos jesuítas é fruto não do Barroco mas do
na terra com o ocaso do dia anterior.
A Igreja ("eclesia") materializa no seu conjunto a própria Maneirismo, e por isto temperada pela contenção das formas
comunidade dos fiéis unida a Cristo. O edifício é sempre cons- sugerida. pelo Concílio de Trento. Na decoração das igrejas
mlsslOnelras, aceita-se o testemunho dos sentidos, característi-
truído com muito cuidado e beleza, como pode ser muito bem
co da condição humana. E parte-se de uma certa exuberância
observado em São João nos detalhes em arenito finamente tra-
balhados das aberturas das laterais. A fachada da igreja nos de formas e cores para influenciar os neófitos e garantir a sal-
vação dos fiéis. Não mais se recusam as esculturas e as cores,
demonstra igualmente a profusão de cores que dá alegria e
como nas origens beneditinas do monasticismo medieval.
convida os fiéis a entrar.
A torre da igreja tem uma dupla função. Por um lado, seu No povoado de São João Batista, a igreja nos apresenta de-
talhes em pedra lavrada, nas aberturas, com os movimentos de
sentido vertical indica a relação dos habitantes do povoado
formas contorcidas do barroco. Mas o que mais nos impressio-
com a divindade. Por outro lado, seus sinos soam ao longo da
jornada, estabelecendo ao ritmo das horas que passam, um na, é o extraordinário colorido da fachada. As suas formas e
volumes tem inequívocas semelhanças com a imagem que se
emprego do tempo que se reflete na vida de todo o povoado.
obteve com a reconstituição da igreja de São Luiz Gonzaga."
Desde a época dos mosteiros medievais até a dos povoados mis-
sioneiros, esta regulamentação do tempo é a responsável por E também com as igrejas que os jesuítas construíram entre os
muitas das atividades diárias. Os sinos soam quotidianamente, Chiquitos. Trata-se de uma capela ampliada, afastando-se de-
desde o despertar matinal até a noite. São as chamadas às reu- cididamente do estilo que o arquiteto jesuíta Primoli materia-
lizou na igreja de São Miguel. No século 18, praticamente na
niões, ao culto ou às orações. São as indicações das horas de
trabalho manual, as chamadas ao almoço e à janta. E, quando mesma
. . época em que este desenho policromo foi elaborado, a
Igreja de são João Batista foi assim descrita:
necessário, o alarma chamando a atenção para os incêndios ou
para os ataques inimigos. Pode-se afirmar que os sinos do po-
"O templo deste Povo não é da arquitetura da Igreja
voado foram, como já haviam sido nos mosteiros medievais,
de São Miguel, nem da suagrandeza; porém um pou-
um dos elementos fundamentais da gestão do cotidiano." co menos. As suas paredes são de taipa. No interior
A sacristia tem seu nome do latim eclesiástico sacristia, que tem três naves, com colunas (. ..) de madeira entalha-
significa uma relação com o sagrado. Ela é um anexo da igreja, da, tudo de pintura e dourado?"?
que serve de comunicação com o claustro. Por ela os padres
podem passar da residência para a igreja, a fim de poder pre-
parar-se para a missa. Trata-se de uma pequena peça, mobilia-
da por alguns armários e cómodas, onde estão guardados os 16 SCARAMELLA, Giovani; SCARAMELLA, Nidia; MAZUCO, Rose Maria.
R~constituição hipotétic~ e parcial da Igreja da Redução de São Luiz Gonzaga,
RIO Grande do Sul, Brasil. Historical Archaeology in Latin America 13: 99-114.
17 "Diário" de José Custódio de Sá e Faria, transcrito em; GOLIN, Luis Carlos.

15 PRESSOUIRE, Léon. Le reve cistercien, Paris: Gallimard, 1990. p. 53. José Custódio de Sá e Faria e a Guerra Guaranítíca (Dissertação de Mestrado). Porto
Alegre: PUCRS, 1996.3 vol., p. 373
184
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Estas considerações nos abrem horizontes inesperados pa- medieval, é hoje em dia tradicionalmente aceito entre os estu-
ra as pesquisas de história da arte missioneira. diosos."
Além destas considerações sobre a sua função imediata de
o Claustro ordem prática, o claustro se reveste de um sentido simbólico
multo mais elevado, por estar à disposição dos padres jesuítas.
Vamos agora penetrar no espaço exclusivamente reservado A figura fechada do quadrado orienta e dirige tanto as fachadas
aos padres jesuítas, denominado genericamente de "clausura". das construções como os olhares para o seu centro interior.
Ele representa uma barreira aos intrusos do exterior. Se o po- O claustro exprime perfeitamente o desejo de isolamento do
voado já é protegido pelas leis espanholas que limitam a per- século, ou seja, do mundo considerado em seus aspectos laicos:
manência de estranhos no interior do povoado, a clausura é profanos, materiais e utilitários. Ele representa a possibilidade
uma segunda barreira existente, pois seus limites são intrans- dos padres de se centrar espiritualmente sobre a presença da
poníveis, a não ser por bispos da igreja ou governadores espa- divindade entre eles. A única grande abertura deste espaço está
nhóis, ou seja, importantes representantes da Igreja e do Esta- voltada para o céu. Ele é, igualmente, um espaço de liturgia,
do. Nesta clausura se encontram o claustro e a residência con- como um prolongamento da igreja, pois nele os padres podem
ventual dos missionários. realizar pequenas procissões e as orações quotidianas com o
Assim como a igreja, o claustro tem uma importância capi- r~sáno ou o breviário. Este local propicia igualmente a medita-
tal no conjunto arquitetônico herdado da Idade Média. O ter- çao silenciosa, pois o recolhimento que ali se observa é obtido
mo vem do latim, claustra, que significa espaço fechado. Ele é pelo silêncio que ali reina. Afirmou-se mesmo que o claustro
igualmente um dos elementos geradores do plano de conjunto, para os cristãos, era uma prisão livremente escolhida um;
pois uma série de construções se agrupam e se organizam em prisão de portas abertas. I' '
seu entorno. Algumas vezes ele é denominado com uma certa Nos mosteiros europeus, o claustro exibe muitas vezes be-
impropriedade de "pátio da residência" ou "pátio do colégio", líssimas obras de arte românicas e góticas, pois os pilares as
porém é erróneo considerá-lo um mero espaço agregado, sem colunas e os capitéis são esculpidos. Os claustros missioneiros
importância própria. Ele tem por si só uma função importante são extremamente despojados, segundo as orientações da Con-
e uma tradição já milenar nas construções européias deste tipo. tra-Reforma. As galerias laterais são abrigadas por telhados,
Tanto a Igreja como a residência tem uma série de aberturas sustentados po~ uma estrutura de madeira que repousa sobre
para o claustro. pilares retas e lisos, com bases trabalhadas singelamente. Uma
O espaço do claustro é geralmente quadrado, transformado ornamentação esculpida em madeira, com volutas decora as
em jardim e rodeado de uma galeria, uma varanda coberta de laterais dos capitéis. '
telhas, cuja função imediata é uma circulação mais cómoda de O claustro é erroneamente den~minado "pátio do colégio",
uma peça para a outra, ao abrigo do sol e da chuva. Ele propi- por muitos autores regionais, inclusive arquitetos. Os edifícios
cia igualmente um lugar de proteção e recolhimento, ao abrigo que os jesuítas construíram sob a denominação de colégios, nas
do burburinho e da agitação do povoado guarani-missioneiro. cidades portuguesas e espanholas, são verdadeiras escolas para
A analogia deste plano com aquele da casa romana, que as elites dirigentes européias e iberoamericanas, sendo muito
agrupa as suas salas em torno de um átrio (atrium) é evidente.
A filiação destes dois elementos, o átrio romano e o claustro
18 BOUTTlER. Michel. opus cit., p. 32.
19 PRESSOUIR, Léon. Opus cit.,p. 47.
186
187
conhecidos tanto na Europa como na América. Possuem cara_c-
terísticas diferentes, pois os edifícios assim denominados sao muito alegres e grandes, com uma muito boa casa de refeitório.
E pela Frente e oposto lado, correndo largas e espaçosas galeri-
de grande porte, algumas vezes com diversos andares e com
as, com colunas e balaustradas escadas de pedra lavrada"."
finalidades exclusivamente educativas. O fato de haver eventu-
Ela está também ao lado da Igreja, pois esta arquitetura
almente uma sala para o aprendizado dos filhos dos caciques
compacta foi planejada desde a Idade Média, de maneira que
missioneiros, próximo ao claustro, não altera a denominação
se esteja sempre próximo ao lugar onde se realiza a opus dei.
nem a especificidade deste espaço, conhecido por sua Impor-
Isto significa "a obra de Deus", ou seja, a tarefa mais importan-
tãncia desde a Idade Média.
te de todas as que realizam os missionários.
Nos mosteiros medievais, não existe nenhuma fachada ex-
terna, embelezada e decorada, pois o claustro não está destina- Nos mosteiros medievais beneditinos, os dormitórios são
salas gigantescas. Ele ocupa todo o segundo andar da residên-
do à recepção de estranhos. Este fato nos coloca um problema
importante em relação ao grande pórtico que se observa no cia monacal. Ali dormem em conjunto os monges, sob a vigi-
muro que separa o claustro da grande praça central. Será um lância dos mais velhos. O mesmo não acontece nos claustros
missioneiros, onde estes espaços são salas com uns, nas quais
pórtico falso, uma mera decoração para completar um conjunto
formado juntamente com a fachada da Igreja e o grande portico dormem os dois ou três padres e os jovens índios que os ser-
vem, ocupando assim seus respectivos dormitórios. No espaço
que dá acesso ao cemitério? Ou realmente o pórtico se. abre
comunitário monacal, uma luz permanecerá sempre acesa até
para o povoado, permitindo a entrada ao claustro dos mISSIO-
nários? Será esta a entrada de aparato, destinada aos bispos e o raiar do dia, o que também acontece na residência dos rnis-
sionários, como nos descreve Sepp em seu diário. Ao fim da
governadores, representantes da Igreja e do Estado em visita ao
Idade Média já se concebia a coabitação total como excessiva e
povoado? . . .
oposta à nova espiritualidade do Renascimento, que levava em
O isolamento do claustro, nas abadias cistercienses, nos
conta o primado do indivíduo sobre o grupo. O dormitório co-
mostra como "a aspiração a uma vida com base na ascese, na
letivo foi então dividido por cortinas separando os leitos. Mais
meditação, na oração e no trabalho, nunca deixou de interessar
tarde, foram criadas as células individuais, com uma porta
aos homens". 20 O mesmo poderíamos afirmar em relação aos
garantindo a privacidade e uma janela aberta para a luz. Volta-
missionários jesuítas. Entretanto, sua função de párocos. em
uma pequena cidade colonial, nos mostra como eles pOdlan:
va-s~ desta maneira a estabelecer um lugar solitário, onde o
religioso poderá se retirar para ler, rezar e dormir. Este é, pois,
estar ao mesmo tempo separados e sempre presentes face a
o hábito mantido pelos jesuítas em suas residências missionei-
sociedade missioneira. raso
Desde os mosteiros medievais, próximo aos dormitórios
A residência dos jesuítas deveriam ficar as latrinas, em um lugar isolado, servidas de
uma canalização de água para a limpeza. Nas residências dos
Uma das construções erguida em função do grande qua- povoados missioneiros, as latrinas deveriam ficar atrás da resi-
drado do claustro, é a residência dos missionários, sempre mui- dência, voltadas para a quinta. Como pode ser observado nas
to espaçosa para seus dois ou três ocupantes. A residência de pesquisas de campo em São Lourenço, as águas captadas dos
São João Batista foi assim descrita, na época: "Os aposentos são

20 PRESSOUlRE, Léon. Opus cit., p. 19. 21 "Diário" de José Custódio de Sá e Faria. ln: GOLIN, Luis Carlos. Opus cit., 3
vai, p. 373.
188
189
telhados da igreja podem ter sido aproveitadas tanto para a
irrigação da quinta como para a limpeza das latrinas, situadas única parede exposta, voltada para a quinta, a sala de armas é
atrás da Igreja. protegida por uma estreita seteira. Seu piso é diferente das
Uma ou duas salas são reservadas às leituras e aos traba- demais salas e revestido de resistentes lajes retangulares de
lhos intelectuais, como é habito desde a Idade Média. Ali se arenito. Deveria ser equipada de prateleiras para o armazena_
encontram mesas e armários com livros, papéis, tinteiros, etc. men~o das armas e dos recipientes de pólvora. Nas escavações
São denominados de scriptorium, do latim scriptor, aquele que de Sao Lourenço, ela foi localizada no extremo oeste da resi-
escreve. Nelas se elaboraram muitas das "Cartas Ânuas'', hoje dência, próximo à igreja, mas separado desta por um amplo
importantes documentos históricos produzidos pelos jesuítas espaço. Esta extremidade da residência é a mais mais afastada
missioneiros, nas quais todos os anos relatavam os principais do setor freqüentado pelos índios que estavam constantemente
em atividades no pátio dos artífices.
acontecimentos ocorridos nos povoados missioneiros. Nestas
salas os missionários devem ter tomado decisões importantes O refeitório foi outro polo importante da vida social dos
para a vida do povoado. Devem ter discutido entre eles, deci- missionários, como já havia sido nos mosteiros da Idade Média.
dindo por uma maior ou menor ingerência de sua autondade Antes de penetrar neste recinto, monges medievais ou missio-
paternal na vida dos seus paroquianos. Nestas trocas de idéias, nários da idade moderna, deveriam lavar as mãos e o rosto em
devem ter oscilado entre o dirigismo, fenômeno que pode levar um lavabo. Gestos simples, mas carregados de sentido espiritu-
à resistência e à fuga dos indígenas para longe das reduções, e o al, pOIS deve-se pensar na purificação do coração e dos pensa-
desgoverno, que pode levar à desorganização da vida no povoa- mentos, para se receber a alimentação necessária tanto ao cor-
do. po como ao espírito. Poderíamos mesmo pensar na correlação
Dormitórios ou escritórios, as salas devem ser bem ilumi- que existe entre o batistério e a igreja, por um lado, e entre o
nadas, e de fácil acesso, como a sala escavada na Missão de São lavabo e o refeitório, de outro." Esta sala retangular se encon-
Lourenço, dotada de ampla janela gradeada e de duas portas. tra no extremo da residência, afastado portanto da igreja, ao
Uma delas permitia o acesso ao claustro e à igreja. A outra, lado do conjunto de salas destinadas às atividades artesanais.
estava voltada para a quinta e provavelmente permitia o acesso Seu mobiliário é simples. Nas mesas do refeitório não se sen-
às latrinas. A janela estava voltada para a quinta, o que permi- tam apenas os missionários, mas é o local onde são recebidos os
tia uma certa privacidade e possuía dois bancos laterais, como visitantes ilustres, dignitários da igreja ou do estado." Sob as
se observa em muitos edifícios deste tipo. Todas as salas eram tábuas do assoalho do refeitório, encontramos sempre as evi-
revestida de ladrilhos cerãmicos hexagonais ou retangulares. dências de um porão, no subsolo. Trata-se de um espaço retan-
Uma das salas mais importantes da residência foi criada gular como o refeitório, de pouca altura. É um local sempre
em função das necessidade geopolíticas e da situação de fron- fresco e onde a temperatura é constante, destinado à conserva-
teira das reduções iesuítico-guaranis, face ao império portu- ção dos alimentos perecíveis, do vinho, dos cereais, etc. Trata-
guês em expansão. gradual rumo ao Rio da Prata. Trata-se da
sala de armas (armeria), onde deveria ser armazenado uma par- 22 BOUTTIER, Michel. opus cir., p. 44.
te considerável do poderio bélico do povoado: armas de fogo, 23Veja-se o diário de José de Sá e Faria, que narra a recepção dada no refeitório
barricas de pólvora, proiéteis, pontas metálicas de flechas e de de São João Batista aos comandantes dos exérictos espanhol e portugues,
lanças. Ela só possui uma porta de entrada, voltada para o quando ali estiveram quando da Guerra Guaranítica. GOLIN, Luis Carlos.
claustro e perfeitamente controlada pelos missionários. Na Opus cit., P. 372. "Depois, os (comandantes espanhol e português) levaram aos
se us aposentos, e lhes pediram os padres quisessem Suas Excelências fazer-lhes
a honra de jantar com eles no seu refeitório, onde já tinham tudo pronto".
190
191
se, portanto, ao mesmo tempo de uma adega e de um celeiro.
A proximidade do refeitório e da cozinha limi ~a a necesslda~e Esta situação de autonomia se deve não apenas às distâncias
de deslocamentos e de transporte. Sua instalação sob o refeito- dos centros políticos e económicos da América Colonial ibéri-
rio significa igualmente um controle de seu conteúdo, pelos ca, mas igualmente à sua condição de colónias de povoamento
missionários, pois ele se encontra dentro da clausura. Er~one­ na fronteira do mundo cristão e civilizado da época.
amente, a crendice popular imaginou muitas vezes a exisrencia Os jesuítas, entretanto, não são os criadores deste modelo,
de um subterrâneo neste local. As observações rea1Jzad_as nos visando tornar os trinta Povos independentes ou mesmo com o
trabalhos arqueológicos de campo, em São Lourenço, Sao MI- objetivo de estabelecer as bases de um socialismo inovador,
guel e São Nicolau, comprovam a funçâo de porão ou de adega antecipando-se às diversas correntes socialistas do mundo con-
destes limitados espaços. . temporâneo. Outras ordens religiosas, em especial os cisterci-
Ao lado do refeitório, está instalada a cozinha. Ela se en- enses e beneditinos, foram destaques neste tipo de povoamento
contra em realidade em uma sala pertencente a um outro con- fronteiriço, implantando mosteiros e abadias, em plena Idade
junto de construções, destinadas às atividades artesa,nals, vol- Média. Fundados nas fronteiras da Europa cristã, em plena
tada portanto para o pátio dos artifices. EXIste uma loglc~ fun- expansão territorial, muitos destes mosteiros foram verdadeiras
cional nesta localização, que aproxima o local da produçao dos colónias de povoamento, funcionando em regime económico-
alimentos ao local de seu consumo. Este raciocínio, entretanto, social autónomo, uma exploração típica de autarcia.
não explica porque a cozinha está completamente separada do Devemos igualmente destacar um importantíssimo traço
refeitório nâo existindo nenhuma porta que possa facilitar a de união entre as duas experiências. Os mosteiros medievais
circulação. Nas pesquisas de campo realizadas em São Louren- foram na prática uma ruptura completa com o sistema senho-
ço, observamos "in situ" apenas um passa pratos retangular que rial dominante em todo o Medievo feudal europeu." De ma-
permite esta ligação. Poderíamos pensar em uma tentativa de neira semelhante, as reduções jesuítico-guaranis foram uma
impedir que cheguem ao refeitório os ruídos, as fumaças e ~s recusa histórica ao sistema escravista estabelecido na América
odores da cozinha? Existe aqui, igualmente, um sentido simbó- Colonial pelas metrópoles ibéricas.
lico que explica esta localização e a cozinha não podena estar Sabemos que a autarcia não era completa. Havia igual-
em outro lugar, pois a parede que separa o refeitono da COZI- mente uma complementaridade entre os diversos povoados
nha delimita a clausura dos missionários, sendo vedado por- missioneiros, na medida em que alguns davam maior ênfase na
tanto o acesso ao refeitório das mulheres índias que trabalham produção de certos produtos, em função das possibilidades do
na cozinha. Nela deve se encontrar sempre um bom co~duto e ambiente natural. O regime de autarcia, portanto, era variável
um depósito de água, para facilitar as tarefas da cocçao e da segundo as disponibilidade de matérias primas, solo, cobertura
lavagem dos recipientes e dos equipamentos. vegetal, micro-clima local, etc. Na Idade Média, o mesmo acon-
tecia com muitas abadias cistercienses, pois se o domínio mo-
nacal era bem administrado e produzia acima de suas necessi-
As oficinas artesanais dades, procurava trocar ou comercializar os seus excedentes.
Para facilitar o intercâmbio de produtos, muitos mosteiros
O regime económico da Redução é de uma autarcia, ou se-
dispunham já desde o século 12 de representações nas cidades,
ja, de uma unidade auto-gerida e auto-suficiente, _aten~endo a cuja finalidade era o de facilitar as relações comerciais. Um
todas as necessidade do povoado e de sua populaçao. Sao limi-
tadas as necessidades que exigem a importação de produtos.
24 PREESSOUYRE. Léon.Opus cit., p. 16-7.
192
193

sistema muito semelhante ao dos "Ofícios das Missões", espécie


de escritórios de representação comercial, que se mantinham
"... cincuenta carpinteros, veinte tejedores, cuatro constructores,
em Buenos Aires e Assunção para atender ao comércio missio-
doce armeros, seis escultores, diez pintores, acho picapedreros, doce
neiro, vendendo seus produtos e comprando o que necessita-
ladrilleros, ochenta obreros par lafabrica de ladrillos, dos panaderos,
vam.
dos cocineros, seis enfermeros, cuatro sacristanes, un zapatero, doce
Existe uma lógica relacionada às tarefas quotidianas, mui-
curtidores (. ..), dos alfareros, dos torneros, tres toneleras, dos fabri-
to comum nos estabelecimentos religiosos cristaos, desde a cantes de laúdesy arpas (. ..)"25.
Idade Média, relacionados com estas características do sistema
de auto-suficiência: Ora et labora. Uma das conseqüências é a
A organização das atividades artesanais, aqui descritas, se-
de que a inatividade e a falta de ocupações são inimigas da
guem um modelo já milenar, existente na Idade Média euro-
alma. Outra é a de que quem não trabalha com suas próprias
péia, pois nos mosteiros medievais, eram os monges que se
mãos, não deve comer. Nos mosteiros medievais, estas ativida-
dedicavam a estas atividades. A importância destas atividades
des eram sempre realizadas pelos monges e nos povoados mis-
no povoado missioneiro, foi assim sintetizada por Neumann:
sionários pelos neófitos guaranis. Assim, além das instalações
"A existência de artesãos qualificados, com excelentes co-
rurais, voltadas para as atividades agrícolas e de pecuária, exis-
nhecimentos sobre as artes mecânicas, colocada as reduções
te toda um série de ofícios e de atividades artesanais que se
administradas pela Companhia de Jesus como uma organiza-
desenvolvem em torno do povoado e no pátio dos artífices.
ção social diferenciada no mundo do trabalho local, devido ao
As construções que abrigam as atividades artesanais e os espa-
alto grau de aprimoramento que atingiram as técnicas fabris e
ços a elas correspondentes obedecem à esta lógica das tarefas
pela transmissão destes conhecimentos entre as várias gerações
que regula a vida comunitária. de guaranis"."
Os fornos de produção da cerâmica, o forno metalúrgico e
Estas oficinas devem ser exploradas em função da oferta
o moinho para a moagem de grãos e para as atividades meta-
de matérias primas, mas devem igualmente se ocupar da for-
lúrgicas, se encontram mais distantes do povoado. Entretanto,
mação dos próprios artesãos e do desenvolvimento das capaci-
uma série de atividades se desenvolvem nas oficinas que se
dades necessárias para a realização das atividades de cada se-
distribuem em torno do pátio dos artífices. Ali se realizam tra-
tor. Isto significa uma educação artesanal pela prática, que
balhos em madeira, metal, pedra, couro, tecidos, etc. São reali-
terminou formando artífices capazes de atender mais tarde às
zadas atividades artesanais muito delicados e de grande quali-
próprias necessidade do mercado interno das cidades espanho-
da de artística, tais como esculturas de santos, instrumentos las da região.
musicais, elementos decorativos para a igreja, etc. .
O padre Antônio Sepp nos relata quais eram as diversas
profissões existentes no povoado de São João Batista e desem-
penhadas pelos neófitos guaranis. Dentre estas atividades po-
demos destacar os seguintes artesãos:

25 SEFP, Antonio. Opus cit. . p. 267.


26NEUMANN, Eduardo. Guaranis missíonciros em Buenos Aires (1640 _ 1750)
(Dissertação demestrado). Porto Alegre: UFRGS, 1995. p. 77.
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houve necessidade de ampliar a hospedaria, para atender às


As enfermarias
novas necessidades. Algumas destas hospedarias possuíam uma
capela para os hóspedes. Em São João, o "tambo" poderia ser a
Fala-se algumas vezes na existência de um hospital, ou se-
casa com capela situada à direita da praça, junto à ampla rua
ja, um local para acolher a população do povoado, em especial
que dava acesso aos povoado e pela qual chegariam os visitan-
os enfermos e os velhos. Além do quarto para os doentes, deve tes.
haver uma sala para guardar os remédios. E um pequeno jar-
Em São Miguel, uma hospedaria ampliada foi construída
dim, provavelmente junto à quinta, para as plantas medicinais.
para tropas militares, com currais para os carros e para os cava-
Os doentes serão tratados dentro dos princípios da fraternidade
los. Deveria haver um depósito para guardar os alimentos dos
cristã. Devido às epidemias que assolavam algumas vezes a
animais e ainda um bebedor para estes. Essas tropas podiam
população das reduções, principalmente doenças transmitidas
descansar, refazer as suas forças e tornar a partir, quando fos-
pelos brancos, deveria haver um setor mais isolado para evitar
sem milícias de outros povoados. Em São Miguel, uma única
o contágio. No desenho policromo em estudos não há indicação
porta de acesso à hospedaria e ao pátio interno, pode ser Con-
do local onde poderia estar o hospitaL Segundo as informações
trolada por uma portaria, pois é uma área cercada. Não deveria
de Sepp", foram construídos dois galpões com ladrilhos como
existir a capela para os hóspedes, pois havia não apenas a Igre-
assoalho, para as mulheres e os homens enfermos . Em vez de
ja aberta ao público, mas ainda as duas capelas da entrada da
leitos tinham locais para se estender redes. Devenam se loca-
praça. Neste povoado, segundo os documentos históricos da
lizar nos arredores do povoado, pois as quarentenas obrigavam
época, acamparam tropas espanholas após a Guerra Guaraníti-
o afastamento dos doentes e o seu isolamento. Talvez as enfer- ca, possivelmente na hospedaria.
marias estivessem localizadas nas duas casas construídas em
São João atrás da Quinta, pois os doentes estariam isolados e
próximos das plantações de frutas e ervas medicinais. A quinta

Em todos os mosteiros da Idade Média, a quinta desempe-


A hospedaria (Tambo)
nhou importante papel, pois nela se plantava um pomar de
árvores frutíferas. Era um local protegido, de consumo especí-
Nos Mosteiros medievais, havia um monge porteiro insta-
fico para os monges. Ela está sempre localizada atrás da igreja,
lado na portaria, único lugar de acesso através do muro de pro-
do cemitério e dos edifícios que envolvem o claustro e o pátio
teção do mosteiro. E, junto à portaria, havia a hospedaria. dos artífices.
Nos povoados missioneiros havia igualmente uma hospe-
No povoado missioneiro, a quinta foi em primeiro lugar
daria, ou seja, um "tambo", um local para acolher os VIajantes
um local de aclimatação de plantas européias, trazidas pelos
ou os hóspedes que chegavam eventualmente. Normalmente
missionários. Foi também um pomar, mas serviu igualmente
era uma casa, simples como as demais, junto à praça.
como horta e jardim. Nela se plantavam flores, hortaliças e
Na Idade Média era necessário acolher os grupos de pere-
plantas medicinais. Possuímos a descrição da quinta de São
grinos que vinham ao mosteiro onde existiam relíquias sagra-
João Batista, fornecida pelo seu fundador Padre Antônio
das ou o túmulo de algum dos santos da Igreja. Algumas vezes,

27 SEPP, Antonio. Opus cito . p. 155.


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S c roduzidos diversos tipos de
epp 28 Durante todo o ano sao p . flores' saladas diversas tos, onde as últimas orações são proferidas antes do enterra-
. s medicinais e . . mento.
legumes, temperos, erva . , .a) repolhos, nabos, espllla-
(
en divia, alface repolhuda, chlcor s' pepinos lírios, girassol, Na pesquisa arqueológica, não é apenas o achado arqueo-
d funcho me l:oe " .
fres, salsa, erva- oce, , res frutíferas, podemos destacar. lógico que é importante para as análises, mas igualmente o que
violetas, etc. Dentre as arvor esse ueiros limoeiros, laran- não é mais encontrado. As urnas funerárias, onde os guaranis
macieiras, pereiras, nogueiras, p g de ~inhedo. Diversas enterravam seus mortos em posição fetal, como uma espécie de
. eiras, etc. Existia igualmente I uml'ngdrl~g~nas foram plantadas
J
retorno ao útero da mãe-terra, desaparecem completamente.
. hecidas pe os , . "
plantas nativas, con h d época a quinta tena ... Os enterramentos todos obedecem ao ritual cristão, o que nos
na quinta. Segundo um testemun o's paa'tios ~ de fundo muito indica a profunda mudança ocorrida em certas práticas rela-
. que os d oI , "
de compndo o mesmo . . . . limoeiros, e multas ar- cionadas ao sagrado e aos princípios religiosos.
mais.. Com várias ruas de laranjeiras c
vares de fTU ta .29
II Entretanto, enCOntramos aqui um Contraste e uma hesita-
ção, entre os princípios de igualdade e de unanimidade entre
os homens e o princípio de hierarquia. O cemitério abriga os
o cemitério corpos dos indígenas guaranis, enquanto que os de seus páro-
cos serão enterrados no espaço fronteiro ao altar. Na Idade
A tradição medIe;al d~s p~ q I do da igreja. Esta zona e
. ó uias e dos monastérios, des: Média, estes princípios eram igualmente seguidos, diferenci_
tinava ao cemitério a area situa ~ ao mortos ao lado da cidade ando os enterramentos no cemitério e no corpo da igreja.
aquela que estabelece a cidade os mantém-se a localização
dos mIsslOnelros, . Conclusões
dos vivos. Nos povoa . uítas um pórtico de acesso
original. Na estética barro:a dos {re:nte à 'residência dos padres.
a este local, simétnco ao p~rt~co m relação à fachada da igre- Nos povoados missioneiros, podemos perceber a racionsj],
.' ão simetncos e . .'
Ambos os pórticos s . di , 'a o cenário arquitetornco dade dos planos urbanos que nos são conhecidos desde a Anti-
ja e compões de maneira extraor inan
güidade até o Renascimento. É necessário reconhecer, igual-
da praça maior. ." rbanismo do século 17 nos mos- mente, as origens medievais de uma parcela deste plano urba-
Entretanto, as Ideias do u _ voltada para as novas eXI- no, a partir do plano-tipo das abadias beneditinas. E, além dis-
gtram uma profunda tra~s~orm~:~os aqui também uma orga- to, nós podemos ali observar também a permanência dos hábi-
ências de salubndade. erce ticula em alas e áreas sepa- tos sociais dos Guarani, nas casas comunais independentes que
. Id aço que se ar I .
nização raciona o esp tores que se articulam num abrigam as famílias extensas, como nas aldeias neolíticas tradi-
d d funtos em se cionais no continente sul-americano.
radas, separan
conjunto. o os doe cerni. téer ia percebemos a capela dos mor-
Ao fundo
Com certeza, a visão de regularidade e de simetria do con-
junto do povoado, nos faz lembrar uma ordem perfeita e defini-

-
---------:----:--::--~
. desJésuitesdu Paraguay au tcmps
desMissíons
' •.
tiva. As ruas se estendem em linhas retas e paralelas, entrecor-
tando-se em ângulos retas. A igreja ocupa o lugar central da
28 HAUBERT Máxime. Des Indiens et . _ d Sepp se encontra em seu diana
' 1967 P 200 A descrição e ."
Paris: Hachette, .. '., trabalhos apostólicos . . praça e sua fachada com põe um cenário extraordinário que se
Pu blicado como "Viagem às m'ssocFs e I . GOLIN Luis Carlos. Opus cir., p.
29 "Diário" de JOSé Custo
Sdi10 de Sá e ans. n. , completa com as portas e arcadas em face do claustro e do ce-
373. ' . 5t-2.
mitério. A igreja está centralizada em relação ao claustro e pe-
3D HAROUEL,]ean-LoUls. Opus ctt., p. las oficinas artesanais, por um lado, e pelo cemitério e () r-or i.,
198
199

guaçu, por outro. No centro do povoado, a "p.aza mayor", orgu- as sociedades européias e I'n díigenas se en
t
lho das cidades do renascimento na Espanha, está cercada de am, em complexas relações interétní contram e se confron.
casas (ocas) dos Guarani, isoladas umas das outras à maneira lento ~as dinâmico passar do tem nicas. !'odemos observar, no
amazónica. Mesmo que os jesuítas tenham em sua residência uma smtese cultural com I po histórico, a emergência de
aposentos privativos, assim como os indígenas dispõem de suas de vida do Guarani n~ao' e' p exa, na qual a persistência do modo
ibé . menos imporj d
casas, missionários e neófitos terminam por se encontrar nos I encas da Idade Média e ante o que as tradições
grandes espaços de uso comunitário do povoado, principalmen- derna, as novas malllfestações da era mo-
te na praça e na igrej a. E, mais uma vez, nós - hist .
Trata-se de um conjunto de construções ao mesmo tempo sUfj~reendidos com a riqueza d~:~dores e arqueólogos - somos
funcionais e despojadas, constituídas de materiais tangíveis e história, sempre nova e se ovos panoramas desta nossa
mpre renovada.
com base em um módulo humano de neófitos guaranis. Seu
ll•
objctivo, entretanto, é "civilizar" e 1Tcr isti an izar Procura con-
duzir os indígenas guaranis à transcendência divina, sem es-
quecer, entretanto, as dificuldades do mundo e os interesses
geopolíticos da conquista ibérica do Rio da Prata.
A releitura que pode ser feita, tanto a partir das informa-
ções iconográficas, como das observações "in situ", é agora mui-
to clara. O povoado se materializa como uma síntese cultural
de influências não apenas européias e indígenas, mas igual-
mente medieval, moderna e indígena.
Mesmo que estes povoados missioneiros contenham ape-
nas uma sociedade restrita, limitada a alguns missionários e
dezenas de famílias guaranis, esta sociedade é um verdadeiro
microcosmo humano que resume a diversidade e a complexi-
dade do mundo e da humanidade.
As possibilidades de analisar e interpretar os importantes
processos de longa duração" desta região platina, apenas se
tornam possíveis a partir dos dados que tanto a Arqueologia
como a História nos fornecem. Partindo do estudo da dinâmica
das interaçõcs sócio-culturais destes povoados missioneiros,
bem como da sua persistência no tempo histórico, podemos
analisar as ações e as reações que caracterizam este complexo
processo de desenvolvimento. No imenso cenário da região
missione ira, do Guairá ao Tape, de Assunção a Buenos Aires,

31 «Dialectique de la longue durée» são palavras muito conhecidas do historiador


francês Braudel. BRAUDEL, Fernand. Ecnts SUl' í'Hístoire, Paris: Plammarion,
1969. p. 43.