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B214I

Randjra. Aiben

Teoria joaal cogn:tv.i : cunccitos bislce* / Albert Unndjr.i. Roberta

Gurgel Azzi, Soely Wydoro

176 p. ; 23 cm.

- I\xxo Altjçre : Artrned. 2006.

"IVadução do inglês dos capítulos 1 ao 5 por Ronaldo Cataldo Costa. ISBN 978-8S 363-1117-3

1. Psicologia Social. 2. Psicologia Cognitiva. I. Aanri, Roberta Gurgrl. II. Itolydorn, Soely. III. Titulo.

CDU 159.922

Catalogaç.V) na pubticaçJo: Juliana Lag6is Coelho

CRB 10/179.1

ALBERT BANDURA ROBERTA GURGEL AZZI SOELY P0LYD0R0

E COLABORADORB

Teoria Social Cognitiva

CONCEITOS BÁSICOS

IVadução:

Ronaldo Cataldo Costa

Supervisão c revisão técnica dos capítulos traduzidos:

Roberta Gurgcl Azzi Soely Polydoro

Ronaldo Cataldo Costa Supervisão c revisão técnica dos capítulos traduzidos: Roberta Gurgcl Azzi Soely Polydoro 2008

2008

Ronaldo Cataldo Costa Supervisão c revisão técnica dos capítulos traduzidos: Roberta Gurgcl Azzi Soely Polydoro 2008

Sumário

Apresentoçôo Roberto Gurgel A.-71 e Soey Aparecido J<ype Potydoro — — — - — -
Apresentoçôo
Roberto Gurgel A.-71 e Soey Aparecido J<ype Potydoro
-
-
9
Prefacia -
-
~
H
José Aloyseo Bzuneck
1.
A evolução da teoria social cognitiva
Albert Bonduco
-
15
2.
O sistemo do srf no determinismo reciproco
Albert BoruJiiro
43
3.
A teoria sociol cognitiva
Albert Bandura
na perspectivo do cgéncia
-
69
4.
Teoria social cognitivo e outo-eficácio: umo vtsâo geral
Fra-i: Pajareí e Fobcn OICJ
97
5.
exercício da ogéncio humana pela efeóo o coletiva
Albert Bandtra
0
115
6.
Modelação
—12 3
Amo Edita Bellico da Costa
7.
Aüío-regulaçòo: aspedos introdutórias
5oeJy Aporecida Jorge Poffdoro e Coberta Gurgd Aa
-
149
8. Desengaiomonkj moral
-
165

Fabio Iglesos

Apresentação A pluralidade teórica da Psicologia é sem dúvida uma das barreiras que o navegador

Apresentação

A pluralidade teórica da Psicologia é sem dúvida uma das barreiras que o

navegador iniciante tem que superar em seus mares. Embora uma ciência ain- da nova, a diversidade de olhares e formas de investigação que contribuem para o entendimento do comportamento e dos processos que o explicam, gera diferentes e múltiplos caminhos a serem percorridos em busca de sua compre- ensão. Dentre a já mencionada pluralidade de enfoques psicológicos, este livro foi escrito na vertente da social cognitive theory (teoria social cognitiva), ela- borada por Albert Bandura.

A teoria social cognitiva é recente e ainda encontra-se em construção. Os

primeiros trabalhos do autor datam da década de 1950 e ele continua publi- cando muito. Bandura trabalha, desde 1963, na Stanford University nos Esta- dos Unidos e construiu uma trajetória profissional de muita contribut o à Psicologia. Contribuição reconhecida mundialmente, seja por sua participação a frente de importantes atividades no cenário da psicologia (foi presidente da American Psychology Association-APA e membro do corpo editorial de virias revistas especializadas, por exemplo) quanto pelos inúmeros prêmios de reco- nhecimento científico que recebeu. As idéias de Bandura foram, ao longo dos anos, mudando e compondo um conjunto de idéias cada vez mais complexo, que em meados da década de 1980 se estrutura sob a denominação de teoria social cognitiva. No Brasil, sua obra disponível consiste em referências mais ou menos longas a suas idéias em capítulos de livros texto de psicologia (psicologia geral, educacional, clínica, etc.), referências a seus trabalhos em teses e dissertações e também um livro dele publicado originalmente em 1969 e no Brasil em 1979, 10 anos depois. Na tentativa de suprir a lacuna identificada na literatura de língua portu- guesa sobre a evolução do pensamento de Bandura organizamos o presente livro.

Para a realização deste livro contamos com a contribuição de autores na- cionais e estrangeiros. Entre os destaques de nossos colaboradores estrangei- ros precisamos mencionar a contribuição do próprio Bandura que nos enviou um capítulo que está também publicado em livro norte-americano, bem como nos cedeu o direito à tradução de artigos de sua autoria. Integram, ainda, o conjunto dos colaboradores estrangeiros, o professor Frank Pajares que coor-

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Bonduro, Ani, Polydoro & cols.

dcna uma importante fonte de consulta sobre o pensamento de Bandura, o professor argentino Fabián Olaz que é co-autor junto com Pajares (neste livro). Durante o processo de revisão deste livro, contamos com a colaboração de componentes do Núcleo de Estudos Avançados em Psicologia Cognitiva e Comportamental e do Grupo de Pesquisa, Psicologia e Educação Superior da Faculdade de Educação/Unicamp. aos quais agradecemos. Esperamos que o leitor se sinta bem orientado nesta jornada e que encon- tre neste livro uma referência segura para caminhar no aporte teórico formu- lado por Bandura.

Rol>erta Gurgel Azzi Soely Aparecida Jorge Polydoro

Prefacio

A presente obra, organizada por Albert Bandura, Roberta Azzi c Soely Polydoro, tem o apreciável mérito de colocar o grande público universitário brasileiro, os psicólogos e os educadores, em contato mais estreito com a teo- ria social cognitiva de Albert Bandura, seus estudos e suas aplicações. Destaca- se a oportunidade da presença do próprio Bandura como co-organizador e autor de diferentes capítulos. Em nome das organizadoras brasileiras, deixo público o agradecimento por sua disponibilidade e efetiva colaboração ao com- por essa parceria. A realização desta obra sobre os principais conceitos da teoria social cognitiva também se deve à cooperação dos professores Frank Pajares, Fabián Olaz, Anna Edith Bellico da Costa e Fabio Iglesias, a quem estendemos nossos agradecimentos. Uma questão legítima que freqüentemente se tem colocado diz respeito à validade funcional de uma teoria, ou seja, questiona-se para que serve uma teoria e, em nosso caso específico, uma teoria psicológica. Para que estudar teorias? Em ciência, toda teoria tem várias funções. A primeira, é organizar em um lodo coerente dados empíricos já disponíveis, e para essa tarefa conta a genialidade do intelectual que se dispõe a cumpri-la. A segunda, é projetar uma luz sobre determinadas aspectos ou componentes daquele conjunto, mos- trando o que é central e critico, estabelecendo relações significativas que po- dem conter até mesmo relações causais. Dessa forma, a teoria propicia uma compreensão lógica e mais rica de um determinado objeto. Mas a mais impor- tante função de uma teoria talvez seja provocar pesquisas, cujos resultados podem confirmá-la ou colocá-la em xeque, porém, em qualquer caso, contri- bui para o avanço e o conhecimento naquela área. Neste último caso, quer se trate de pesquisa qualitativa ou quantitativa, a teoria orienta o pesquisador na formulação de objetivos relevantes, na seleção de variáveis a considerar, na criação dos instrumentos de coleta de dados e, no final, na interpretação dos resultados. Sem uma teoria psicológica como referencial, uma pesquisa, por exemplo, sobre a motivação de alunos ou professores não passará de uma exploração, por vezes até necessária em uma certa contingência, mas de difícil interpretação. O conhecimento científico de um certo objeto supõe uma

12 Bonduro, Azii, Folydoro & cols.

estruturação coerente, nao podendo limitar-se a uma acumulação sucessiva de dados destituídos de significado racional. A teoria social cognitiva de Uandura tem sido considerada uma das pou- cas teorias psicológicas que, desenvolvida nas últimas décadas do século pas- sado, continua a influir consideravelmente os estudos nessa área, empreendi- dos neste novo scculo. Atendo-se ao enfoque psicológico, gerou pesquisas dc aplicação valiosas em áreas tão distintas como educação, saúde, clínica psico- lógica, esportes, organizações e política. Em uma de suas obras. Self-efícacy in changing socitíics, fruto de um memorável seminário com colegas na Alema- nha, editada há cerca de 10 anos, Bandura mostra como políticos, administra- dores e empresários podem manter a motivação e o espírito empreendedor no mundo globalizado atual, no qual muitas decisões são tomadas e novos rumos são palmilhados por iniciativa de agências localizadas em outros pauses e con- tinentes. Tomamos consciência de que vivemos em um mundo diferente de antes, no qual novas posturas psicológicas são exigidas. Nesse caso, as crenças coletivas de eficácia representam uma força que mantém o empenho e a direciona para objetivos novos e realistas. Um aspecto que tornou essa abordagem atraente é a ênfase no interacio- nismo que caracteriza a relação de causalidade recíproca triádica entre os tipos de determinantes - ambientais, pessoais e comportamentais. O ser humano não é mero fruto do seu ambiente, embora receba dele influências significati- vas. Entretanto, pode assumir mais o controle de sua vida por meio de mecanis- mos dc auto-eficácia, do estabelecimento de metas e da auto-regulação. O ambiente sempre representa limitações, desafios e obstáculos, mas um robusto senso de auto-eficácia significa n diferença para a consecução dos objetivos. Como o próprio Bandura explica em seus textos, não é a gravidade objetiva da situação que causará efeitos deletérios, mas o pareamento que a pessoa faz entre o peso da dificuldade de origem externa e sua capacidade de enfren- tamento. A ênfase, portanto, está no papel da agência pessoal ou auto-regulação. Estimo que uma área de aplicação primordial dessa teoria para o nosso meio é a educacional, até porque, desde os anos de 1990, tenho pessoalmente investido em pesquisas e orientações sobre motivação dc professores e alunos sob o enfoque da auto-eficácia. A teoria destaca que a motivação e o estabele- cimento de metas pessoais, quer se trate dc professores em suas funções, quer se trate de alunos diante de tarefas acadêmicas, decorrem do nível dc robustez dessa crença específica. No caso dos professores, que trabalham em meio a contingências frequentemente impeditivas, tem-se comprovado que o fator diferencial é a crença na própria capacidade de colocar ações que conduzam a U.p.s iesuliados. Mais ainda, e pelo fato de trabalharem em uma instituição, io l.tdo de colegas e sob uma direção, eles devem ser alimentados em suas cu 1 nças • oletivas de auto-eficácia. A teoria expõe, com muita propriedade, que esvis crenças são alimentadas por experiências pessoais de êxito, experiências

Teoria socai cognitivo

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vicárias, verbalizações persuasivas e até por reações afetivas. A literatura con- temporânea tem mostrado como lidar com esses fatores, visando, em última instância, aprimorar o trabalho dos professores por meio de sua motivação e, desta forma, melhores resultados com os alunos. Em outras palavras, há um considerável espaço para estudos de intervenção direcionados para incrementar as crenças de auio-eficácia. Ninguém pode alegar que, por se tratar dc uma teoria produzida em um país do primeiro mundo, de outra cultura e de condições socioeconómicas privilegiadas, não possa ter aplicação nem utilidade para o nosso contexto de país emergencial. Se fôssemos alijar, em principio, qualquer produto que não seja genuinamente brasileiro, não teríamos à disposição nenhuma abordagem psicológica importante, desde o behaviorismo às teorias psicanalíticas, passan- do por Piaget e pelo socioculturalismo de Vygotsky, para citar algumas. A teo- ria social cognitiva é sobre o ser humano, dentro de um contexto. Nesse caso, o que cabe a nós, estudiosos brasileiros, em decorrência da função primordial de toda teoria, é produzir pesquisas, sobretudo de caráter aplicativo e que contemplem especificidades de nosso contexto, inspiradas no referencial de Bandura. Aquelas que já foram publicadas em nosso meio atestam sua potencialidade em propiciar respostas aos nossos problemas específicos. Porém, vale assinalar que, em relação a pesquisas sob esse enfoque social cognitivista, dois cuidados precisam ser tomados. Primeiro, que nos instru- mentos de coleta de dados e, no caso de pesquisa quantitativa, na construção de escalas, se busque uma adesão íntima às condições específicas da realidade em foco, isto ó, os itens não podem contemplar generalidades, mas devem fazer referência aos aspectos detalhados e concretos do contexto. Bandura leni, reiteradamente, afirmado que os resultados de pesquisa sobre auto-eficácia que não focalizem tais detalhes da situação, não têm qualquer valor preditivo de comportamentos. É oportuno lembrar a distinção conceituai entre auto- eficácia e autoconceito, que precisa ser respeitada. Portanto, um dos papéis do pesquisador brasileiro é, ao lado do conhecimento profundo da teoria, criar instrumentos que atendam às exigências já preconizadas pelos seus pioneiros. A segunda precaução que deve ser tomada, a meu ver, é cuidar para que as pesquisas em nosso meio não se fracionem em temas desconexos e nunca trabalhados solidariamente até um final apreciável e satisfatório. Isso afeta cada pesquisador em particular, assim como toda comunidade científica. Em outras palavras, os estudos devem ligar-se com continuidade, de modo que no final se chegue a um conjunto de dados que reflita a diversidade de situações c, ao mesmo tempo, a consistência dc resultados. Dessa forma, é de se esperar que suijam preciosas contribuições para a prática, seja educacional, clínica, organizacional, etc. O primeiro passo para tanto é a divulgação das pesquisas na área para conhecimento e retomada, seja em termos de réplica ou avançan- do naquilo que tiver ficado em aberto.

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Bonduro, Azzi, Polydoro & cok.

Em suma, a presente obra representa um marco, no contexto brasileiro, para a exploração crescente do enfoque social cognitivo de Bandura, que se revela promissor para compreendermos melhor o ser humano e tornar sua vida plena de realizações.

Jos é

Aloyse o

Bzunec k

Professor no Departamento de Educação do Centro de Educação, Comunicação c Artes da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

1

A evolução da teoria social cognitiva'

Albert Bandura

Este capítulo documenta a evolução da teoria social cognitiva. Antes de traçarmos essa odisséia teórica, será descrito brevemente o princípio básico que fundamenta a teoria. A teoria social cognitiva adota a perspectiva da agência para o autodesenvolvimento, a adaptação e a mudança (Bandura, 2001). Ser agente significa influenciar o próprio funcionamento e as circunstâncias de vida de modo intencional. Segundo essa visão, as pessoas são auto-organiza- das, proativas, auto-reguladas e auto-reflexivas, contribuindo para as circuns- tâncias de suas vidas, não sendo apenas produtos dessas condições.

A PERSPECTIVA AGÊNTICA DA TEORIA SOCIAL COGNITIVA

A agência humana possui diversas características fundamentais. A pri- meira delas é a intencionalidade. As pessoas formam intenções que incluem

planos e estratégias de ação para realizá-las. A segunda característica envolve

a extensão temporal da agência por meio da antecipação. Isso envolve mais do

que fazer planos direcionados para o futuro. As pessoas criam objetivos para si

mesmas e prevêem os resultados prováveis de atos prospectivos para guiar e motivar seus esforços antecipadamente. O futuro não pode ser a causa do com- portamento atual, pois não tem existência material. «Porém, por serem repre- sentados cognitivamente no presente, os futuros imaginados servem como guias

c motivadores atuais do comportamento.* Os agentes não são apenas planejadores e prognosticadores, mas também são auto-reguladores, pois adotam padrões pessoais, monitorando e regulan- do seus atos por meio de influências auto-reativas. Fazem coisas que lhes tra- zem satisfação e um sentido de amor-próprio, abstendo-se de atos que levem h autocensura. As pessoas não são apenas agentes da ação. Elas são auto-investi- gadoras do próprio funcionamento. Por intermédio da autoconsciência funcio

'Publicado originalmente cm: Bandura. A.The evolunon of social cognitive thfoiy In: Smith,

16 Bcnduro, Azzi, Polydoro & cok.

nal, refletem sobre sua eficácia pessoal, a integridade de seus pensamentos e atos, o significado de suas buscas, fazendo ajustes quando necessários. O pen- samento antecipatório e a auto-influência fazem pane dessa estrutura causal. m O funcionamento humano está enraizado em sistemas sociais.-Portanto, a agência pessoal opera dentro de uma ampla rede de influências socioestrut urais.' Nessas transações agêntkas, as pessoas criam sistemas sociais para organizar, guiar e regular as atividades humanas. As práticas dos sistemas sociais, por sua vez, impõem limitações e proporcionam recursos e estruturas de oportuni- dade para o desenvolvimento e o funcionamento pessoais. Como decorrência dessa bidirecionalidade dinâmica de influências, a teoria social cognitiva rejei- ta o dualismo entre a agência pessoal e uma estrutura social desconectada da atividade humana.

A CENTRALIDADE DA MODELAÇÃO' SOCIAL

O descontentamento com a inadequação das explicações teóricas existen- tes proporciona o ímpeto para a busca de esquemas conceituais que possam oferecer melhores explicações e soluções para fenômenos importantes. O behaviorismo estava bastante em voga na época em que comecei minha carrei- ra.K) processo de aprendizagem ocupava uma posição central nessa forma de teorização, e as análises predominantes da aprendizagem concentravam-se quase inteiramente em aprender por meio dos efeitos dos próprios atoss Os mecanismos explicativos eram colocados em termos de associação entre os estímulos ambientais e as respostas. A teorização behaviorista discordava da realidade social evidente de que grande parte daquilo que aprendemos ocorre por meio do poder da modelação social.«Para mim, era difícil imaginar uma cultura cuja língua, moral, costumes e práticas familiares, competências ocupacionais e práticas educacionais, religiosas e politicas fossem moldadas gradualmente em cada novo membro pelas consequências reforçadoras e pu- nitivas de seus comportamentos de tentativa e erroi Esse processo tedioso e potencialmente perigoso, no qual os erros têm um custo elevado, era encurta- do pela modelação social. Nela, as pessoas padronizam seus estilos de pensa- mento e comportamento segundo exemplos funcionais de outras pessoas.* Os principais proponentes do behaviorismo, Watson (1908) e Thorndike (1898), rejeitavam a existência da aprendizagem observacional, pois, segundo acreditavam, a aprendizagem exigia executar respostas. A noção da aprendiza- gem por observação era divergente demais para ser considerada séria. Esse foi um legado durável. Apesar da centralidade e da onipresença da modelação soaal na vida cotidiana, não havia pesquisas sobre os processos de modelação

N de R.T. No Brasil, a palavra modelação tem sido a tradução de rnedcím#, na perspectiva

da teoria social cognitiva. Já a palavrashaping tem sido traduzida como modelagem, inserida no referencial da análise do comportamento.

Teoria sócia! cognitiva

17

até que Miller e Dollard publicaram Social learning and imitation, em 1941. Os autores reconheciam fenómenos de modelação, mas os interpretavam como

um caso especial de aprendizagem

pista social, o observador executa uma resposta correspondente, e esse refor-

çamento fortalece a tendência de comportar-se de forma imitativa] Considero essa concepção seriamente deficiente no que diz respeito aos determinantes, mecanismos e limites da aprendizagem observacional. Cria- mos um programa de pesquisas sobre aprendizagem observacional, tal qual ela normalmente ocorre, na ausência de comportamentos reforçados, e testa- mos os determinantes da aprendizagem observacional e os mecanismos pelos quais ela se dá.

por discriminação J J m modelo

fornece uma

Em um capítulo intitulado Vicarious processes: a case of no-trial learning (Bandura, 1965), apresento os resultados de nossos estudos,«que mostram que

a Aprendizagem

modelação social ocorria por meio de quatro subfunções cognitivas, abrangen- do processos de atenção, representação, tradução ativa e processos motivacionais (Bandura, 1971a). Fui bastante criticado pelos defensores do condicionamento operante, cujo sistema explicativo não aceitava a modelação sem reforçamento (Baer, Peterson e Sherman, 1967), que afirmavam que o reforço de certas respostas de igualação estabeleceria a imitação como um reforçador condicionado. • Realizamos pesquisas demonstrando que a imitação generalizada é gover- nada por crenças sociais e expectativas de resultados, em vez de por liberação de reforçamento (Bandura e Barab, 1971).«Quando o valor funcional do com-

não exige respostas ou reforçamento* A

observacional

portament o

modelado

foi variado de

maneira

sistemática, as crianças adota-

ram fielmente o comportamento de um modelo feminino que as recompen- sava por fazerem-no, mas logo ignoraram o comportamento de um modelo masculino que não lhes fornecia recompensas. Quando se variou a discri- minabilidade do comportamento modelado e recompensado, as crianças ado- taram respostas motoras recompensadas, discrimináveis. Elas pararam de imi- tar as respostas verbais discrimináveis como não-recompensadas, mas imita- ram as respostas não-recompensadas que não tinham características que as tornassem facilmente discrimináveis das outras classes de respostas recom- pensadas. Nas ocasiões em que as crianças modelaram o comportamento discrimi- nável na classe não-recompensada, essa tendência esteve muito mais sob o con- trole cognitivo. Algumas crianças acreditavam que o modelo exigia ("eu acha- wT), outras faziam imitações não-recompensadas na esperança equivocada de que o modelo que nao recompensava se tornasse mais benéfico ("eu ac/tava que se eu continuasse a tentar muitas vezes, cie se acostumaria e começaria a dar balas, como a moça"), enquanto outras agiam como cientistas experientes, testando hipóteses sobre as contingências resultantes, alterando o seu comportamento sistematicamente e observando os resultados ("às vezes eu fazia e às vexes não, para ver se ganhava uma bula''). F. muito para reforçadores condicionados.

18 Bonduro, Azzi, Polidoro & cols.

Alguns teóricos tendem a se concentrar seletivamente em explicar a cog- nição humana ou a ação humana. Como resultado, os mecanismos que gover- nam a tradução de pensamentos para desempenhos proficientes têm recebido pouca atenção. O sistema de conhecimento dual (Anderson, 1980) - combi- nando o conhecimento declarativo com o procedural que incorpora regras de decisão para resolver tarefas - foi amplamente adotado como solução para o problema da tradução.*Explicar a aquisição de competências em termos do conhecimento factual e metodológico talvez seja adequado para a resolução de problemas cognitivos, em que as ações dc implementação são bastante sim- ples. «Contudo, para se desenvolver proficiência em estilos complexos de com- portamento, o conhecimento procedural não é suficiente. É necessário usar operações auto-reguladoras multifacetadas e sistemas dc feedback corretivos, pelos quais as estruturas de conhecimento são convertidas em desempenhos proficientes. Por exemplo, um novato que recebe informações factuais sobre como esquiar, juntamente com um conjunto completo de regras de procedi- mento e depois se lança montanha abaixo provavelmente acabará em uma clínica ortopédica ou na unidade de tratamento intensivo de um hospital local. Criamos uma série de experimentos para testar a noção de que a tradu- ção comportamental «ocorre por meio de um processo de concepções de igualação (Carroll e Bandura. 1982, 1985, 1987, 1990). As representações cognitivas transmitidas por meio de modelação servem como guias para a pro- dução de desempenhos hábeis e como padrões para fazer ajustes corretivos no desenvolvimento da proficiência comportamentaljCGeralmente, as habilidades são aperfeiçoadas com repetidos ajustes corretivos na igualação dc concepções durante a produção do comportamento/A ação controlada, com feedback ins- trutivo, serve como um veículo para converter concepções em desempenhos proficientes. O feedback que acompanha as ações proporciona as informações necessárias para detectar e corrigir diferenças entre concepções e ações. Dessa forma, o comportamento é modificado com base nas informações comparati- vas, de maneira que as competências desejadas sejam dominadas. Os resulta- dos desses experimentos contribuíram para o nosso entendimento de como as

representações cognitivas, realizações monitoradas e o feedback instrutivo aluam em conjunto no desenvolvimento de competências.

uma teoria psicológica não é julgado apenas por seu poder

explicativo e preditivo/mas por seu poder pratico para promover mudanças no funcionamento humano. A teoria social cognitiva é facilmente indicada para aplicações sociais, pois especifica determinantes modificáveis e a ma- neira como estes devem ser estruturados, com base nos mecanismos pelos quais operam* O conhecimento de processos de modelação oferece orienta- ções informativas sobre como proporcionar que as pessoas efetuem mudan- ças pessoais, organizacionais e sociais (Bandura, 1969, 1997; Bandura e Rosenthal, 1978).

**• O valor de

CORRIGINDO CONCEPÇÕES ERRÓNEAS SOBRE A NATUREZA E OS LIMITES DA MODELAÇÃO

Teofia social cognitiva

19

Havia diversas concepções enóneas arraigadas a respeito da natureza e dos limites da modelação, que podiam desestimular as pesquisas e as aplica- ções sociais dessa poderosa forma de aprendizagem. Portanto, o progresso nessa área exigia pesquisas projetadas não apenas para elucidar os deter minantes e mecanismos da modelação social, mas também para interromper as concepções erradas. Uma dessas concepções equivocadas era que a modelação, interpretada como "imitação", somente produziria mimetismo de resposta. Modelos geral- mente diferem em conteúdo e outros detalhes, mas expressam o mesmo prin- cípio subjacente. Para citar um exemplo simples, a forma passiva de linguagem pode ser expressa em qualquer tipo de afirmação. Pesquisas sobre modelação abstrata (Bandura, 1986; Rosenthal e Zimmerman, 1978) mostram que a modelação social implica abstrair as informações transmitidas por certos mo- delos sobre a estrutura e os princípios subjacentes que governam o comporta- mento. em vez do simples mimetismo de resposta de exemplos específicos. Quando os indivíduos apreendem o princípio condutor, eles podem usá-lo para produzir novas versões do comportamento, que vão além do que viram ou ouviram, e podem adaptar o comportamento para adequá-lo a mudanças em determinadas circunstâncias. Dessa forma, por exemplo, habilidades gerenciais genéricas, desenvolvidas por meio da modelação e de ações orientadas com feedback instrutivo, aperfeiçoam o funcionamento gerencial que, por sua vez, reduz o absenteísmo e a rotatividade dos funcionários e aumenta o nível de produtividade organizacional (latham e Saari, 1972; Porras et al., 1982). Outra concepção errônea, e que exige correção, sustenta que a modelação é oposta à criatividade. Conseguimos mostrar como a inovação pode emergir por intermédio da modelação. Quando expostos a modelos que diferem em seus estilos de pensamento e de comportamento, observadores raramente criam seus padrões de comportamento com base em uma única fonte e não adotam todos os atributos, mesmo de seus modelos preferidos. Pelo contrário, os obser- vadores combinam diversos aspectos de diferentes modelos em novos amálgamas que diferem das fontes modeladas por um modelo individual (Bandura, Ross e Ross, 1963). Assim, dois observadores podem enar novas formas de comportamento inteiramente por meio da modelação, misturando seletivamente características distintas dos diferentes modelos. A modelação aparecia para promover a criatividade de duas maneiras principais. Modos não-convencionais de pensar aumentam o caráter inovador nas pessoas (Harris e Evans, 1973; Gist, 1989). Geralmente a criatividade im- plica sintetizar o conhecimento existente em novas maneiras de pensar e de fazer as coisas (Bandura. 1986). As organizações promovem muito a modelação

20 Bandura, Ani, Polydoro & cols.

seletiva daquilo que consideram efetivo (Bolton, 1993). As pessoas são per- ceptivas demais e não têm o tempo e os recursos necessários para continuar reinventando as características básicas de sistemas, serviços c produtos bem- sucedidos. Elas adoçam elementos vantajosos, fazem melhorias neles, os sinte- tizam em novas formas e os adaptam a suas circunstâncias específicas. Essas linhas de pesquisa proporcionam novas visões sobre como a modelação pode realmente ser a mãe da inovação. Existe outra concepção errônea freqüente sobre os limites da modelação. Muitas atividades envolvem habilidades cognitivas sobre como adquirir e usar informações para resolver problemas. Os críticos argumentam que a modelação não pode construir habilidades cognitivas porque os processos de pensamento são encobertos e não se refletem de maneira adequada em ações modeladas, que são os produtos finais das operações cognitivas. Essa era uma limitação da visão conceituai, em vez de uma limitação inerente à modelação. Meichenbaum (1984) demonstrou que as habilidades cognitivas podem ser facilmente promovidas por modelação verbal, na qual os modelos verbalizam, em voz alta, suas estratégias de raciocínio à medida que executam atividades na resolução de problemas. Dessa forma, tomam-se observáveis os pensamentos que orientam suas decisões e ações. Durante a modelação verbal, os modelos verbalizam seus processos de pensamento e, à medida que avaliam o problema, procuram informações relevantes para ele, produzem soluções alternativas, pe- sam os resultados prováveis associados a cada alternativa e selecionam a melhor maneira de implementar a solução escolhida. Eles também verbalizam as estra- tégias que usam para lidar com dificuldades, corrigir erros e motivar a si mes- mos. A modelação cognitiva se mostrou mais adequada para aumentar a auto- eficácia percebida e criar outras habilidades cognitivas mais complexas e inova- doras do que os métodos tutoriais comuns (Gist, 1989; Gist, Bavetta e Stevens, 1990; Gist, Schwoerer e Rosen, 1989; Debowski, Wood e Bandura, 2001).

A FORÇA E 0 ALCANCE DA MODELAÇÃO SIMBÓLICA

Uma fonte crescente e influente de aprendizagem social é a modelação simbólica global e variada que ocorre por meio da mídia eletrônica. Uma im- portante vantagem da modelação simbólica é que ela pode transmitir de for- ma simultânea uma variedade virtualmente ilimitada dc informações para uma vasta população em locais bastante dispersos. Os extraordinários avanços ob- servndos na tecnologia de comunicações têm transformado a natureza, o al- cancc, a velocidade e os locais de influência humana. Esses avanços tecnológicos alteraram ladicalmente o processo de difusão social. Sistemas de vídeo ali- mentados por satélites de telecomunicações se tornaram o meio dominante para disseminar ambientes simbólicos. Novas idéias, valores e estilos de con- di ü a espalham-se muito rápido cm todo mundo, de maneira que promovem uma consciência globalmente distribuída. A internet possibilita o acesso co-

Teorio sociol cognitiva

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municativo instantâneo a todo mundo. Isso toma a modelação eletrônica um poderoso veículo para mudanças transculturais e sociopolíticas (Bandura, 2002a; Braithwaite, 1994). Nessa função ampliada da difusão social de inovações por meio de mo- delação simbólica, integrei a teoria social cognitiva ao conhecimento da teoria das redes sociais (Bandura, 1986, 2001; Rogers, 1995). As influências so- ciocognitivas instruem as pessoas em novas idéias e práticas e as motivam a adotá-las. Redes sociais multiconectadas proporcionam o caminho potencial para a difusão, pelo qual se espalham e são assistidas. Por intermédio de uma parceria cooperativa (Bandura, 2002), a abor- dagem social cognitiva combinou três componentes principais em um modelo para promover mudanças no âmbito da sociedade. O primeiro componente é um modelo [eórico que especifica os determinantes da mudança psicossocial e os mecanismos pelos quais produzem seus efeitos, esse conhecimento proporciona os princípios condutores. O segundo componente é um modelo dc tradução e implementação, que converte princípios teóricos em um modelo operacional inovador. Ele especifica o conteúdo, as estratégias de mudança e o modo de implementação. Geralmente, os modelos de mudança psicossociais efetivos têm impacto social limitado, devido aos sistemas inadequados para a difusão social. Como resultado, não tiramos proveito de nossos sucessos. O terceiro componente é um modelo de difusão social dc como promover a adoção de programas psicossociais em meios culturais diversos. Cada um desses componentes tem uma função singular, que cxiçe diferentes tipos de habilidades. As aplicações da teoria social cognitiva na Africa, Ásia e América Latina para aliviar alguns dos problemas globais mais urgentes documentam como essas três funções competentes evoluíram, formando um poderoso modelo para a mudança so- cial (Bandura, 2002, no prelo). Há aproximadamente 40 anos, usei a modelação de novos estilos físicos e verbais de agressividade tendo um João bobo como veiculo para estudar os mecanismos da aprendizagem observacional. O João-bobo me segue aonde eu for. Nossas fotografias ainda são publicadas em cada texto introdutório de psicologia, e praticamente todo estudante de graduação cursa introdução à psicologia. Não faz muito, registrei-me em um hotel em Washington e o atendente perguntou: M Você não é o psicólogo que fez o experimento com o João- boboRespondi: "Creio que esse será o meu legado", ao que ele respondeu:

"Essa situação precisa melhorar. Vou colocá-lo na parte calma do hotef. Outro dia, eu estava passando pela alfândega canadense em Vancouver e uma agente olhou meu passaporte e perguntou: "Não foi iwê que fez o estudo com o João- bobo?' . Ela havia se formado em psicologia na universidade de Britisli Columbia. Um dia pela manhã, recebi uma ligação de Miguel Sabido, um produtor da Televisia, da Cidade do México. Ele explicou que eslava filmando uma série longa baseada nos princípios da modelação para promover a alfabetização nacional e o planejamento familiar no México (Sabido, 1981). Esses progra-

22 Bonduro, Azzi, Polydoro 4 cols

mas de televisão dramatizam a vida cotidiana das pessoas e os problemas que elas têm que enfrentar. Os dramas ajudam os espectadores a enxergar uma vida melhor e proporcionam lhes estratégias e incentivos que possibilitam que dêem os passos necessários para alcançá-la. A teoria social cognitiva proporcionou o modelo teónco. Sabido criou o modelo genérico de tradução e implementarão. Com base no sucesso demons- trado dessa abordagem macrossocial, a Population Commnnication International, sediada em Nova York, projetou o modelo de difusão social (Poindexter, 2004). F.les fornecem os recursos, a orientação e o apoio técnico ao pessoal da mídia nos países participantes para criar séries adequadas a suas culturas e aos pro- blemas com os quais estão lutando. Essas aplicações globais promovem a alfa- betização nacional, e o planejamento familiar em países com grande cresci- mento populacional, elevando o sfarus das mulheres em sociedades que as marginalizam ou subjugam, limitando a disseminação da infecção por HÍV/ AIDS, promovendo a conservação do meio ambiente e, de outras maneiras, melhorando a vida das pessoas (Bandura, 2002, no prelo). Muitas vezes, citamos exemplos das ciências naturais e biológicas, em que a busca pelo conhecimento em si traz benefícios humanos imprevistos. Depois de 40 anos e por meio de parcerias interdisciplinares, o conhecimento adquirido com os primeiros experimentos de modelação produziu aplicações globais inimagináveis para aliviar alguns dos problemas globais mais urgentes.

0 EXERCÍCIO DA AGÊNCIA POR MEIO DE CAPACIDADES DE AUTO-REGUIAÇÃO

Durante a era behaviorista, presumia se que a aprendizagem ocorresse por meio do condicionamento clássico e iastrumental. De acordo com essa concepção, a motivação era regulada por um funcionalismo bruto, baseado em conseqüências reforçadoras e punitivas. Essa abordagem apresentava uma imagem truncada da natureza humana, devido ás capacidades auto-regulado- ras das pessoas em afetar os seus processos de pensamento, de motivação, de estados afetivos e de ações, por meio da influência autodirigida. Como parte do desenvolvimento da teoria da agência do comportamento humano, foi cria- do um programa de pesquisa voltado para elucidar a aquisição e o funciona mento das capacidades de auto-regulação (Bandura, 1971a, 1986). Antes de revisar o desenvolvimento desse aspecto da teoria social cognitiva, descreverei experiências pessoais que informaram minha teorização e experimentação com relação aos mecanismos auto-reguladores. Os teóricos muitas vezes se encontram em um apuro egocêntrico des- concertante, afastando-se da teoria que desenvolvem para explicar como os outros agem. Por exemplo, Skinner afirmava que os seres humanos são molda- do-. e controlados por forças do ambiente. Conforme colocou: "o homem não age sobre o ambiente. O ambiente age sobre ele". Todavia, ele exortava as !*•. ,o.i\ ,i se tomarem agentes da mudança e a moldarem sua sociedade, apli-

Teorio sociol cognitiva

23

cando fielmente os seus métodos de condicionamento operante. É divertido ver pós-modernistas radicais defendendo de forma decisiva a certeza da sua visão de que não existe uma visão certa. A teoria agêntica do autodesenvolvimento e funcionamento humanos aplica-se igualmente ao caminho trilhado. Cresci em uma pequena localidade, Mundare, no norte de Alberta, no Canadá. Infelizmente, a único escola da cidade não tinha muitos recursos educacionais. Como dois professores preci- savam lecionar todo currículo do ensino médio, eles muitas vezes não estavam bem-informados sobre temas fundamentais. Uma vez, furtamos o livro de res- postas de trigonometria, fazendo com que a disciplina terminasse abrupta- mente. Precisávamos assumir o controle do nosso aprendizado. A aprendiza- gem autodirigida era o modo de autodesenvolvimento acadêmico, e não uma abstração teórica. A carência de recursos educacionais tornou-se um fator capacitante, que me serviu bem, em vez de um fator debilitante insuperável. O conteúdo das disciplinas é perecível, mas as habilidades auto reguladoras têm um valor funcional duradouro. Durante as férias escolares de verão, meus pais, que não tinham esco- larização formal, mas valorizavam muito a educação, estimulavam-me a pro- curar experiências além dos confins dessa vila. Trabalhei em uma fábrica de móveis em Edmonton, e as habilidades que adquiri ajudaram a me sustentar na faculdade, trabalhando meio expediente. Durante outras férias de verão, fui para o Yukon, onde trabalhei em um dos acampamentos que mantinham a estrada do Alaska, impedindo-a de afun- dar nos pântanos. No acampamento havia uma mistura interessante de perso- nagens. como cobradores, oficiais de condicional, militares e ex-esposas furio- sas que exigiam o pagamento de pensão. O álcool era o principal nutriente, e eles produziam o que bebiam. Uma manhã, eles saíram cedinho em júbilo para destilar sua mistura fermentada, retornando mais tarde profundamente de- cepcionados. Os ursos haviam feito uma festa com a mistura alcoólica, e era possível ver ursos animados cambaleando bêbados pelo acampamento. Feliz- mente, estavam sem coordenação para fazer muitos danos. A vida nessa subcultura fronteiriça de bêbados e jogadores elevava o valor do desembaraço e da iniciativa para a sobrevivência, proporcionado-me uma perspectiva singu- larmente ampla da vida. Em busca de um clima mais saudável, matriculei-me na universidade de British Columbia, em Vancouver. Na falta da moeda do lugar, trabalhava em uma marcenaria pela tarde e cursava uma pesada carga de disciplinas para me formar logo. Matriculei-me no programa de doutorado da universidade de Iowa, que era o centro da teoria hulliana, a orientação teórica dominante em psicologia na época. Iowa nos equipou com os valores e ferramentas necessários para sermos cientistas produtivos, independentemente do caminho futuro de nossas buscas acadêmicas. Após concluir meus estudos de doutorado, entrei para o corpo docente da universidade de Stanford. Sentia-me abençoado com meus colegas ilustres, estudantes talentosos e um etos universitário que aborda a

24 BorxJuro, Azzi, Potydoro & cols.

erudição não como uma questão de publicar ou perecer, mas com a perplexida- de de que a busca do conhecimento deve requerer coerção. Stanford proporcio- nava uma liberdade considerável para se ir aonde a curiosidade pudesse levar. O exercício da agência pessoal sobre a direção em que o indivíduo leva sua vida varia, dependendo da natureza e da flexibilidade do ambiente. O ambiente não 6 monólito imposto de forma unidirecional sobre os indivíduos. Ambientes operativos assumem três formas diferentes: as impostas, as selecionadas e as cria- das. Há um ambiente físico e sodoestrutural que é imposto sobre as pessoas, gostem elas ou não. As pessoas não têm muito controle sobre a sua presença, mas têm liberdade na maneira como o interpretam e reagem a ele. Para a maioria, o ambiente é apenas uma potencialidade, com possibili- dades e impedimentos, além de aspectos reforçadores e punitivos. O ambiente não existe até ser selecionado e ativado por ações adequadas. Isso constitui o ambiente selecionado. Dessa forma, a pane do ambiente potencial que se tor- nará o ambiente que o indivíduo experimenta verdadeiramente depende da- quilo que as pessoas fazem e selecionam dele. Dado o mesmo ambiente poten- cial, indivíduos com um sentido elevado de eficácia concentram-se nas oportu- nidades que ele proporciona, ao passo que aqueles cuja auto-eficácia é baixa enfatizam problemas e riscos (Krueger e Dickson, 1993, 1994). Finalmente, existe o ambiente que é criado. Ele não existe como uma potencialidade, esperando para ser selecionado e ativado. Pelo contrário, as pessoas criam a natureza de suas condições para servir a seus propósitos. Dife- rentes graus de flexibilidade ambiental exigem níveis crescentes de agência pessoal, variando da agência cognitiva interpretada à agência de seleção e ativação e à agência criadora. As crenças das pessoas em sua eficácia pessoal e coletiva desempenham um papel influente na maneira como organizam, criam

e lidam com as circunstâncias da vida, afetando os caminhos que tomam e o

que se tomam. Em vista da escassez de recursos educacionais e às influências normativas preponderantes no meio rural, os indicadores psicológicos usados provavel- mente preveriam que eu passaria as dias trabalhando nos campos do norte de Alberta, jogando bilhar e me embebedando no bar, que era o principal passa- tempo. Segundo uma perspectiva não agêntica, eu não teria ido para a facul- dade, não teria feito doutorado, não estaria lecionando no meio das perfuma- das palmeiras da universidade Stanford e não estaria escrevendo este capítulo. A trajetória de uma carreira tem muitos co-autores, c houve muitos pon- tos de mudança em que outras pessoas tiveram influência em minha carreira.

O individuo tem muitas atitudes voluntárias para exercer um grau de controle

sobre o autodesenvolvimento e as circunstâncias de sua vida, mas existe muito acaso nos rumos que as vidas tomam. De fato, alguns dos determinantes mais importantes nas histórias da vida ocorrem nas circunstâncias mais triviais. As pessoas muitas vezes são levadas a novas trajetórias de vida, relações maritais

ou carreiras ocupacionais por meio de circunstâncias fortuitas (Austin, 1978; Bandura, 1986; Stagner, 1981).

Teoria social cognitiva

2S

Um evento fortuito é um encontro involuntário entre pessoas desconheci- das. Embora a cadeia de eventos em um encontro fortuito tenha seus deter- minantes causais, a intersecção ocorre de forma fortuita, em vez de ser parte de um plano (Nagel, 1961). Um evento insignificante e aparentemente fortui- to pode movimentar constelações de influências que alteram o rumo da vida. Esses processos ramificados alteram a linearidade, a continuidade e o gradualismo das trajetórias de vida. A profusão de cadeias de eventos na vida cotidiana proporciona inúmeras oportunidades para essas intersecções fortui tas. Isso complica imensamente a previsão do comportamento humano. Eventos fortuitos levaram-me para a psicologia e para minha relação ma- rital. inicialmente, eu planejava estudar ciências biológicas. Eu pegava carona com alguns estudantes de medicina e engenheiros que haviam se matriculado em aulas em um horário desumano. Enquanto esperava por uma aula de in- glês, comecei a folhear um catálogo dc disciplinas deixado na mesa da biblio- teca e encontrei uma disciplina de introdução â psicologia que serviria para preencher essa espera. Matriculei-me na disciplina e encontrei a minha futura profissão. Foi durante meus anos de pós-graduação, na universidade de lowa, que encontrei minha esposa, em um encontro fortuito. Um certo domingo, eu e um amigo nos atrasamos para chegar ao campo de golfe e tivemos que espe- tar os horários da tarde. Havia duas mulheres na nossa frente, que estavam ficando para trás. Nós as estávamos alcançando. Em seguida, havíamos nos tomado um quarteto genial. Conheci minha esposa em uma armadilha de areia. Nossas vidas teriam tomado rumos totalmente diferentes se eu tivesse chegado na hora marcada. Alguns anos atrás fiz uma palestra na Western Psychological Convention sobre a psicologia das encontros fortuitos e caminhos de vida (Bandura, 1982). Na convenção do ano seguinte, o editor contou que havia entrado no auditório quando já estava quase cheio e sentou-se em uma cadeira vazia, perto da por- ta, ao lado da mulher com a qual iria se casar na semana seguinte. Com apenas uma mudança mínima no momento da entrada, teriam sentado em lugares diferentes e essa intersecção não teria ocorrido. Assim, uma parceria marital se formou foituitamente em uma palestra sobre os determinantes fortuitos dos caminhos de vida! As influências fortuitas são ignoradas na estrutura causal das ciências sociais, mesmo que desempenhem um papel importante nos rumos da vida. A maioria dos eventos fortuitos não toca as pessoas, outros têm alguns efeitos duradouros e outros ainda levam as pessoas a novas trajetórias de vida. A ciência psicológica não tem muito a dizer sobre a ocorrência de intersecções fortuitas, exceto que as tendências pessoais, a natureza dos ambientes em que circulamos e os tipos de pessoas que habitam esses ambientes tomam certos tipos de intersecções mais prováveis do que outros. As influências fortuitas podem ser imprevisíveis, mas, após ocorrerem, elas se tomam fatores que con- tribuem cm cadeias causais da mesma forma que as influências preconcebi- das. A psicologia pode adquirir conhecimento para prever a natureza, o alam-

26 Bonduro, Azzi, Polydoro & colj.

ce e a força do impacto que esses encontros têm sobre as vidas humanas. Levei

o caráter fortuito da vida a sério, produzi um esquema conceituai preliminar

para prever o impacto psicossocial desses eventos e especifiquei maneiras em que as pessoas podem capitalizar agenticamente as oportunidades fortuitas (Bandura, 1982, 1998). A casualidade não implica falta de controle de seus efeitos. As pessoas podem fazer as coisas acontecerem, buscando uma vida ativa que aumente o número e o tipo de encontros fortuitos que terão. O acaso favorece os inquisitivos

e os aventureiros, que freqüentam lugares, fazem coisas e exploram novas ati-

vidades. As pessoas também fazem o acaso trabalhar para elas, cultivando seus interesses, possibilitando crenças e competências. Esses recursos pessoais pos- sibilitam que tirem o máximo das oportunidades que surgem de forma inespe-

rada. Pasteur colocou isso muito bem quando disse que: M o acaso somente favorece as mentes preparadas". O autodesenvolvimento ajuda as pessoas a moldarem as circunstâncias de suas vidas. Essas diversas atividades proativas ilustram o controle da casualidade por meio da agência. Em nossa investigação da natureza do autocontrole, nossos estudos de laboratório exploraram os mecanismos da auto-regulação. Nossas aplicações sociais traduziram a teoria para a prática (Bandura. 1986, 1997). Para exerce- rem influência sobre si mesmos, os indivíduos devem monitorar o seu compor- tamento, julgá-lo em relação a algum padrão pessoal de mérito e reagir a ele, auto avaliando se. Alguns dos estudos esclareceram como os padrões pessoais são criados a partir de uma variedade de influências sociais. Outros documen- taram o poder regulador das influências auto-reativas. Os modelos racionais do comportamento humano sugerem a centralidade da agência, mas mesmo eles proporcionaram uma visão truncada da auto-regulaçào, baseada na metá- fora do mercado. Dizia-se que o comportamento é regulado pelo auto-interes- se, considerado quase totalmente segundo custos e benefícios materiais. De- monstramos que a motivação e as realizações humanas não são governadas

apenas por incentivos materiais, mas por incentivos sociais c auto-avaliativos, ligados a padrões pessoais. As pessoas normalmente aceitam alternativas de pouca utilidade ou até sacrificam os ganhos materiais para preservar sua autoconsideração positiva. Alguns dos nossos estudos analisaram a auto- regulação em condições de conflito, nas quais os indivíduos são recompensa- dos por comportamentos que desvalorizam ou são punidos por atos que valo- rizam pessoalmente. Os nâo-conformistas que têm princípios se encontram muitas vezes na segunda situação. Seu sentido de valor pessoal está tão volta- do para cenas convicções que eles se submetem a abusos, em vez de cederem

a algo que consideram injusto ou imoral. Os defensores do comportamento operante definem a auto-regulação fora da existência, rebatizando-a de "controle de estímulos" e situando-a no am- biente externo (Catania, 1975). Em minhas réplicas, recoloquei o autocontrole no agente sensível e revisei o crescente cvqnis de estudos sobre os meias em que os indivíduos exercem o autodirecionamento (Bandura, 1971b).

Teoria sociol cognitivo

27

Essa não era uma época favorável para se apresentar uma teoria do com- portamento humano baseado na agência. Os psicodinâmicos acreditam que o comportamento é motivado inconscientemente por impulsos e complexos. Os behavioristas acreditam que o comportamento é moldado e influenciado por forças ambientais. A revolução cognitiva foi introduzida com base em uma metáfora de computador. Essa concepção desprovia os seres humanos das ca- pacidades de agência, de uma consciência funcional e de uma identidade pes- soal. A mente como manipuladora de símbolo, à semelhança de um computa- dor linear, tornou-se o modelo conceituai para a época. O cognitivismo computadorizado, por sua vez, foi suplantado por modelos paralelos que atuam por meio de subsistemas neuronais interconectados e em camadas múltiplas. Os órgãos sensoriais transmitem informações para uma rede que atua como o maquinário mental que processa os inputs e gera outputs de forma direta e inconsciente. Não eram os indivíduos, mas suas partes subpessoais, que esta- vam orquestrando as atividades inconscientemente. As teorias do controle da motivação e da auto-regulação concentram-se amplamente na correção de erros por meio de circuitos de feedback negativo, em uma metáfora mecânica do funcionamento humano. Todavia, a auto- regulação por discrepância negativa conta apenas parte da história, e não a parte mais interessante. A teoria social cognitiva propõe um sistema de duplo controle na auto-regulação - um sistema proativo de produção de discrepân- cias em conjunto com um sistema reativo de redução de discrepâncias (Bandura, 1991a). Em uma série de estudos, demonstramos que as pessoas são organis- mos ambiciosos e proativos, e não apenas reativos. Sua capacidade de prever lhes possibilita exercer o controle antecipadamente, em vez de simplesmente reagir aos efeitos de seus esforços. Elas são motivadas e orientadas pela previ- são de metas, e não apenas pela retrospectiva de limitações. Nesses estudos, as pessoas se motivavam e orientavam por meio do con- trole proativo, estabelecendo metas desafiadoras e padrões de desempenho difíceis para si mesmas, que criavam discrepâncias negativas a serem do- minadas. Mobilizavam seus esforços e recursos pessoais com base em uma estimativa do que seria necessário para satisfazer esses padrões. O controle reativo entrou em jogo em ajustes subseqüentes do esforço para alcançar os objetivos desejados. Após as pessoas alcançarem as metas que vinham bus- cando, aquelas que tinham uma percepção elevada de eficácia estabelece- ram um padrão mais alto para si mesmas (Bandura e Cervone, 1986). A adoção de outros desafios criou novas discrepâncias motivadoras a serem dominadas. Powers (1991), o principal defensor da teoria do controle, não aceitou uma teoria da auto-regulação governada pela antecipação e por auto-reações afetivas. Nessa visão, o organismo humano não é "nada mais do que uma cone- xão entre um conjunto de quantidades físicas do ambiente (quantidade de iripuO e outro conjunto de quantidades físicas do ambiente (quantidade de output)" (Powers, 1978, p. 421). Os processos cognitivos e afetivas eram con-

28 Bandura, Ani, Polydoro & cais.

siderados irrelevantes, pois "não se está modelando o intenor do sujeito" (p. 432). Avaliamos a adequação desse rígido modelo mecânico da mesma manei- ra que muitas teorias do controle que assumem diferentes formas, dependendo

da mistura de fatores sociocognitivos enxertados no circuito de feedback nega- tivo (Bandura, 1991b; Bandura e I-ocke, 2003).

O objetivo da construção de teorias é identificar um pequeno número de

princípios que possam explicar uma variedade de fenómenos. No interesse da generalidade abrangente, a teoria social cognitiva concentra-se em princípios integrativos os quais operam em diferentes esferas do funcionamento. A gene- ralidade do componente auto-regulador na teoria social cognitiva foi corrobo- rada pelas aplicações variadas desse conhecimento no desenvolvimento edu- cacional. na promoção da saúde, na regulação do afeto, no desempenho atlé- tico e no funcionamento organizacional (Bandura, 1997, 1999, 2004c; Frayne

e Latham, 1987; Zimmerman, 1989). As subfunções componentes que governam a produtividade do comporta- mento atuam de maneira semelhante no exercício da agência moral (Bandura, 1991c). Após as pessoas adotarem um padrão de moralidade, suas auto-sanções, para atos que obedeçam ou violem seus padrões pessoais, servem corno uma auto-influéneia regulatória. As pessoas fazem coisas que lhes trazem satisfa- ção pessoal e um sentido de valor pessoal e não agem de maneira que violem seus padrões morais, pois isso faria com que desaprovassem a si mesmas. Entretanto, os padrões morais não atuam como reguladores internos fixos da conduta. Existem diversos mecanismos psicossociais pelos quais a aceita- ção pessoal moral é desengajada seletivamente da conduta desumana. O de- sengajamento pode implicar em tornar pessoal e socialmente aceitáveis práti- cas prejudiciais, representando as como algo que tem propósitos válidos, exo- nerando a comparação social e transformando a linguagem. FJa pode se con- centrar em obscurecer a agenda pessoal, por meio da difusão e da transferên- cia da responsabilidade, fazendo com que agressores não se considerem res- ponsáveis pelo mal que causam, podendo também diminuir, distorcer ou até questionar o dano causado por seus atos prejudiciais. E pode desumanizar e culpar as vitimas por terem atraído os maus-tratos para si mesmas. Nossa análise da agencia moral mostrou que o desengajamento moral

seletivo atua no nível dos sistemas sociais, e não apenas individualmente. As organizações muitas vezes se encontram em impasses morais, quando seus membros realizam atividades ou produtos que lhes trazem lucros ou outros benefícios com custos prejudiciais para outras pessoas. As auto-exonerações

s ã o necessárias para neutralizar a censura pessoal e preservar o sentido de

valo r pessoal. Analisamos a forma que o desengajamento moral assume e as justificativa s de exoneração e arranjos sociais que facilitam o seu uso em dife- rente s prática s empresariais nocivas (Bandura, 1999,2004a; Bandura, Caprara

tt Zsolnai, 2002).

A >:<-neralidade do .ispeao auto-regulador da teoria social cognitiva tam-

I - i ii lc 'i ilustrada em aplicações desse conhecimento para os efeitos psicossociais

Teono social cogrítiva

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de disfunções na auto-regulação. Dependendo da esfera de enfrentamento. as disfunções na auto-regulação podem abrir caminho para a conduta trans- gressora, abuso de substâncias, transtornos alimentares e depressão crónica (Bandura, 1976, 1997).

A EXTENSÃO TEÓRICA COM 0 COMPONENTE DA AUTO-EFICÁCIA

Quando entrei para o campo da psicologia, a teoria psicodinâmica, espe- cialmente a forma psicanalítica, reinava sobre os campos da personalidade, da psicoterapia e da cultura pop. Os anos que se passaram em meados da década de 1950 testemunharam uma crescente desilusão com essa linha de teorização

e seu modo de tratamento. A teoria não tinha poder preditivo e tinha pouca

efetividade terapêutica. Durante esse período, eu estava investigando os meca-

nismos auto reguladores pelos quais as pessoas exercem controle sobre a mo- tivação, estilos de pensamento e vida emocional. Como pane dessa linha de pesquisa sobre o desenvolvimento e o exercício da agência pessoal, criamos novos modos de tratamento, usando as experiências de domínio como o prin- cipal veículo de mudança. A fala por si só não cura problemas muito difíceis. Por meio de domínio orientado cultivávamos competências, estilos de enfrentamento e crenças pessoais que proporcionavam que as pessoas exerces- sem controle sobre as ameaças que percebiam. Inicialmente, testamos a efetividade dessa abordagem capacitante com diversos indivíduos com fobia a cobras. Quando as pessoas evitavam aquilo que temiam, elas perdiam o contato com a realidade que evitavam. O domínio orientado rapidamente restaura o teste da realidade de duas maneiras, propor- cionando testes para os indivíduos rejeitarem crenças fóbicas, com demonstra- ções convincentes de que aquilo que os fóbicos temem é seguro. Mais impor- tante ainda, proporciona testes que confirmam que os fóbicos podem exercer controle sobre aquilo que consideram ameaçador. Fóbicos obstinados, é claro, não estão dispostos a fazer o que temem.

Portanto, criamos condições ambientais que possibilitavam que os fóbicos tives- sem sucesso, a despeito de si mesmos. Isso foi possível com uma variedade de materiais de apoio (Bandura, Blanchard e Ritter, 1969; Bandura, Jeffery e Gajdos, 1975). As atividades ameaçadoras eram modeladas repetidamente para demonstrar estratégias de enfrentamento e para rejeitar os principais temores das pessoas. Tarefas intimidantes eram reduzidas a subtarefas graduais, com passos dc domínio fácil. O tratamento era conduzido dessa forma gradual até que as atividades mais intimidantes fossem dominadas. O fato de executarem

o comportamento juntamente com o terapeuta proporcionava que pessoas assus

tadas fizessem coisas que se recusavam a fazer sozinhas. Outro método para superar a resistência era solicitar que os fóbicos realizassem a atividade por

um período curto de tempo. À medida que se mostravam mais destemidos, o período de engajamento era estendido. Após a restauração total do funcionainen

30 Bonduro, Azzi, Polydoro & cok.

to normal, havia atividades autodirigidas de domínio, nas quais os clientes lida-

vam com versões diferentes da ameaça por conta própria, sob condições variadas. Esse tratamento se mostrou bastante poderoso, produzindo um robusto senso de eficácia de enfrentamento, transformando atitudes com objetos fóbicos, de repugnância, em emoções positivas, eliminando a ansiedade, as reações biológicas de estresse e o comportamento fóbico. Os fóbicos tinham pesadelos

recorrentes há 20 ou 30 anos. O domínio orientado transformou a atividade de sonhar e acabou com os pesadelos crônicos. Quando uma mulher adquiriu domínio sobre sua fobia de cobras, ela sonhou que uma jibóia ficava sua amiga e a ajudava a lavar os pratos, e os répteis em seguida desapareceram de seus sonhos. As mudanças foram duradouras. Os fóbicos que haviam tido apenas melhoras parciais com modos alternativos de tratamento tiveram recuperação total com o benefício.do tratamento de domínio orientado, independentemen-

te da gravidade de suas disfunções fóbicas (Bandura et al., 1969; Biran e Wil-

son, 1981; Thase e Moss, 1976). Com a década de 1960, vieram grandes mudanças na explicação e na modificação do funcionamento e mudança humanas (Bandura, 2004b). A aná- lise causal voltou-se da dinâmica psíquica para a dinâmica psicossocial

transacional. O funcionamento humano passou a ser interpretado como o pro- duto da inter-relação dinâmica entre influências pessoais, comportamentais e ambientais. As práticas de rotulação social com relação aos problemas da vida mudaram. O comportamento problemático era considerado um comportamen-

to divergente, ern vez de um sintoma de doenças psíquicas. A análise funcional

do comportamento humano substituiu a rotulação diagnostica que categorizava as pessoas em tipos psicopatológicos, com conseqüências estigmatizantes. Es- tudos de laboratório e de campo controlados sobre os determinantes do compor- tamento humano e os mecanismos pelos quais estes atuavam substituíram a análise do conteúdo de entrevistas. Tratamentos orientados para a ação substi- tuíram as entrevistas interpretativas. Os modos de tratamento foram alterados

no conteúdo, lócus e agentes de mudança. Em uma década, o campo se transformou, devido a uma grande mudança paradigmática (Bandura, 2004b). Foram criados novos modelos conceituais e metodologias analíticas, e foram lançados novos periódicos voltados para o fluxo crescente de interesses. Surgiram novas organizações para o avanço das abordagens de orientação comportamental, e novas convenções profissionais proporcionavam um fórum para a troca de idéias. Os psicodinâmicos não apenas consideravam esses novos modos de trata- mento superficiais, mas perigosos. Fui convidado para apresentar nosso pro- grama de pesquisa na clínica Langley Porier, em São Francisco, um reduto dos psicodinâmicos. A sessão começou com uma afrontosa introdução do fato de que "esse jovem recém-chegado quer dizer a nós, analistas experientes, como curar fobias!" Expliquei que a "generosa" apresentação do meu anfitrião lem- brava me um campeonato de futebol americano entre as universidades de Iowa

e Notre Dame, realizado em South Bend. Iowa marcou um touchdown, que

Teoria social cognitivo

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empatou a partida. Quando o jogador correu para marcar o ponto extra, o técnico Evashevski virou para o seu assistente e disse: "Lá vai uma alma cura josa, um protestante tentando uma conversão diante de 50 mil católicos! r Nem todos os críticos do modelo psicodinâmico depositam suas preces no mesmo altar teórico. Alguns tomaram a rota operante, que proporcionava a melhor visão da terra prometida. Outros seguiram a rota sociocognitiva Vigo- rosas batalhas foram travadas por causa dos determinantes cognitivos e sua legitimidade científica (Bandura, 1995, 1996). Os analistas operantes adotam

a visão de que a única atividade científica legítima é a que relaciona eventos

ambientais observáveis diretamente com eventos comportamentais observáveis (Skinner, 1977). Dois tipos de teorias promovem os avanços científicos (Nagel, 1961). A primeira forma procura relações entre eventos diretamente observáveis, mas rejeita os mecanismos que contribuem para os eventos observáveis. A segunda,

tem o foco nos mecanismos que explicam as relações funcionais entre os eventos observáveis. A disputa pelos determinantes cognitivos não dizia respeito à legitimi- dade das causas interiores, mas aos tipos de determinantes interiores que são favorecidos (Bandura, 1996). Ptir exemplo, os analistas operantes cada vez mais atribuem o ónus da explicação a determinantes localizados dentro do organismo, ou seja, a históna implantada de reforçamento. A história implantada é uma causa interior inferida, e não uma causa diretamente observável. A disputa so- bre os determinantes interiores não se dá exclusivamente entre behavioristas e cognitivistas. Há uma fissura crescente entre os analistas operantes com relação

à mudança de ênfase em seu próprio modelo conceituai, de modelos de controle

baseado no ambiente, para o controle baseado no organismo (Machado. 1993). Nlinha entrada no campo da auto eficácia deu-se por acaso. No desenvol- vimento e avaliação do tratamento de domínio orientado, concentramo-nos em três processos fundamentais: o poder do tratamento para promover mu- danças psicossociais, a generalidade ou alcance das mudanças efetuadas e sua durabilidade ou manutenção. Após demonstrar o poder desse modo de trata- mento em cada uma dessas dimensões avaliativas, explorei a possibilidade de uma outra função - o poder de um tratamento de criar resiliència em experiên- cias adversas. O processo de aumentar a resiliència baseia-se no seguinte ra- ciocínio: a rapacidade de uma experiência adversa de restabelecer as disfunções depende amplamente do padrão de experiências em que se insere, em vez de depender unicamente de suas propriedades. Muitas experiências neutras ou positivas podem neutralizar o impacto negativo de um evento adverso e impe- dir a disseminação dos efeitos negativos. Para testar essa noção, após o fun- cionamento ser plenamente restaurado, os ex-fóbicos tiveram ou nào o benefício de experiências de domínio autodirigido com diferentes versões da ameaça. Em uma avaliação de acompanhamento, os participantes expressaram uma profunda gratidão por se livrar de sua fobia, mas explicaram que o tratamento tinha um impacto muito mais profundo. Por 20 a 30 anos, suas vid.is haviam sido debilitadas, do ponto de vista social, recreacional e ocupacional Eles eram

32 Bondufa, Azzi, Po ydoro & cols

perseguidos por pesadelos reincidentes e ruminações perturbadoras. Superar em algumas horas um temor íóbico que havia limitado e atormentado suas

vidas era uma experiência transformadora, que alterava radicalmente suas cren-

ças

em sua eficácia para exercer o controle sobre suas vidas. FJcs agiam segun-

do

sua nova crença de auto-eficácia e, desfrutavam, para sua própria surpresa,

dc

sucesso. Esses resultados preliminares apontam para um mecanismo co-

mum, por meio do qual se exerce a agência pessoal. Preparei um programa de pesquisa multifacetado para adquirir uma com-

preensão mais profunda da natureza e do funcionamento desse sistema de crenças. Para orientar essa nova missão, a teoria abordava os principais aspectos

da

auto-eficácia percebida (Bandura, 1997), incluindo as origens das crenças

de

eficácia, suas estruturas e funções, seus efeitos diversos, os processos pelos

quais produzem tais efeitos, além dos modos de influência em que as crenças

de eficácia podem ser criadas e fortalecidas para a mudança pessoal c social.

Diversas linhas de pesquisa, adotadas por uma variedade de pesquisadores, forneceram novas visões do papel da auto-eficácia percebida nos campos da educação, promoção da saúde e prevenção de doenças, disfunções clinicas (como os transtornos da ansiedade, depressão, transtornos alimentares, abuso de subs- tâncias), realizações atléticas pessoais e de equipe, funcionamento organiza-

cional, e da eficácia dc nossos sistemas sociais e políticos para fazer a diferença

em nossas vidas (Bandura, 1995, 1997; Schwarzer, 1992; Maddux, 1995). Uma questão importante em qualquer teoria da regulação cognitiva da motivação, afeto e ação dizem respeito à causalidade. Uma var iedade de estra-

tégias comportamentais foi usada para verificar que as crenças de eficácia pes- soal funcionam como determinantes de ações, cm vez de ser simples reflexos secundários delas (Bandura, 1997; Bandura e Locke, 2003). O campo da personalidade está profundamente arraigado na visão de traço que caractcnza os indivíduos em gnipos de comportamentos habituais, mensurados por descritores comportamentais descontextualizados em medi- das globais de "tamanho único". Nessa abordagem, a taxonomia comporta- mental substituiu estruturas, processos e funções auto-referentes. Os grupos comportamentais são tratados como determinantes reais da personalidade. Em um capítulo sobre a teoria social cognitiva da personalidade, argumentei que os determinantes da personalidade residem em proccssos de agência pessoal, e não em agrupamentos comportamentais (Bandura, 1999). Recebi um fluxo continuo de c-mails solicitando meu instrumento multiuso para mensurar a auto-eficácia ou alguns traços que pudessem ser inseridos como itens de um questionário global. Dessa forma, outra entrada na agenda

dc

pesquisa foi diferenciar o modelo de agência da personalidade e o modelo

dc

traço (Bandura, 1999). Isso também exigiu eliminar concepções equivoca-

das dos constructos. A auto-eficácia, como julgamento da capacidade pessoal,

não significa auto-cstima, que é um julgamento do amor-próprio, e nem lócus

</r controle , qu e é a crenç a s e o s resultado s sã o causado s pel o comportament o

OU por forças externas.

0 MODELO TRIÁDICO DAAGÊNCIA HUMANA

Teoria soòol cogn t.va

33

A teorização e a pesquisa sobre a agência humana são quase exclusiva-

mente centradas no exercício individual da agência humana. Todavia, essa não

é a única forma em que as pessoas influenciam os eventos que afetam o modo

como \ivem. A teoria social cognitiva estabelece uma distinção entre três dife-

rentes modos de agência humana: individual, delegada c coletiva. As análises precedentes giravam em torno da natureza da agência pessoal direta c dos processos cognitivos, motivacionais, afetivos e de escolha, pelos quai s el a é exercid a par a produzi r determinado s efeitos . F.m muita s esfera s d o funcionamento, as pessoas não têm controle direto sobre as condições sociais e práticas institucionais que afetam suas vidas cotidianas. Nessas circunstâncias, elas buscam o seu bem-estar, segurança e resultados desejadas por intermédio da agência delegada. Nesse modo de agência social, as pessoas tentam, de um jeito ou de outro, fazer com que aqueles que tenham acesso a recursos ou conhecimento ou que tenham influência e poder ajam em seu favor para ga- rantir os resultados desejados. As pessoas não vivem suas vidas de forma autónoma. Muitas das coisas que buscam somente podem ser alcançadas por meio de esforços socialmente interdependentes. Ampliei a concepção da agência humana à agência coletiva, baseada na crença compartilhada das pessoas em suas capacidades conjuntas de produzir mudanças em suas vidas por meio do esforço coletivo (Bandura, 2000, 2001). Isso torna a teoria generalizável para culturas e atividades de orientação coletiva. A teoria da auto-eficácia (Bandura, 1997) diferencia a fonte dos dados (isto é, o indivíduo) e o nível do fenómeno avaliado (isto é. eficácia pessoal ou cficáaa de grupo). Não existe uma mente de grupo que crê.

A eficácia coletiva percebida reside nas mentes dos membros como crenças em

sua capacidade de grupo. Com freqüência, como os membros individuais são a fonte do julgamento da eficácia de seu grupo, a avaliação é interpretada incor- retamente como o nível individual do fenómeno avaliado. É necessário escla-

recer que as avaliações de eficácia pessoal e de grupo representam os diferen- tes níveis de coletividade, e não a fonte do julgamento. Dualismos controversos permeiam nosso campo, jogando a autonomia contra a interdependência, o individualismo contra o eoletivismo e a agência humana contra a estrutura social, materializada como uma entidade des- conectada do comportamento dos indivíduos. Acredita-se amplamente que as teorias ocidentais não podem ser generalizadas para culturas não-oridentais. Essa afirmação comum deve ser abordada empiricamente.

A maior parte de nossa psicologia cultural baseia-se no culturalismo

territorial (Gjerde e Onishi, 2000). Nações são usadas como representantes de orientações psicossociais, que são então atribuídas às nações e seus membros, como se todos pensassem c agissem da mesma forma. Os habitantes do Japão são caracterizados como coletivistas; os dos Estados Unidos, como indivídua listas. As culturas são sistemas dinâmicos e internamente diversos, e não monó-

34 Bonduro, Azzi, Polydoro & cols.

litos estáticos. Existe uma diversidade substancial entre sociedades colocadas

na mesma categoria (Kim. Triaudis, Kàgitçibasi, Choi e Yoon, 1994). Existem

grandes diferenças gci acionais, educacionais e socioeconómicas entre os mem-

bros de uma mesma cultura (Matsumoto, Kudoh e Takeuchi, 1996).

Análises realizadas entre domínios e classes de relações sociais revelaram que as pessoas agem em comunidade em determinados aspectos de suas vidas e individualmente em muitos outros aspectos (Matsumoto, et al., 1996). Elas expressam condicionalmente suas orientações culturais, mais do que depen

dem invariavelmente das condições que as incentivem (Yamagishi, 1988). Em

decorrência da variabilidade intracultural e entre domínios diferentes e da flexibilidade de orientações culturais como função de condições favoráveis, a

abordagem categórica oculta essa grande diversidade. Grande parte da pes- quisa transcultural baseia-se em comparações entre duas culturas, geralmente comparando-se os membros de uma cultura coletivista com os de uma cultura

individualista. Por causa da notável diversidade, a abordagem dicotômica pode produzir muitas generalizações equivocadas.

não são entidades monolíticas como também deixaram de ser

insulares. A conetividadc global está reduzindo a singularidade transcultural. Além disso, as pessoas em todo o mundo estão cada vez mais envolvidas em um cibermundo que transcende o tempo, a distância, o lugar e as fronteiras nacionais. Da mesma forma, influências transnacionais de massa têm homogeneizado certos aspectos semelhantes, polarizando outros e criando muitos híbridos culturais, e fundindo elementos de culturas diversas. Essas novas realidades exigem uma abordagem mais dinâmica aos efeitos culturais 0 paia ampliar os limites de análises transculturais. Essa é outra área em que visões arraigadas desestimularam as pesquisas para testar o alcance da gene- ralização teórica. A teoria social cognitiva distingue as capacidades humanas básicas e a maneira como a cultura molda tais potencialidades em formas diversas apro- priadas para diferentes meios culturais. Por exemplo, os seres humanos desen- volveram uma capacidade avançada de aprendizagem observacional, que é

essencial para o seu desenvolvimento pessoal e funcionamento, independente- mente da cultura em que as pessoas vivem. De fato, cm muitas culturas, a palavra que significa *ensinar" é a mesma usada para 44 mostrar" (Reichard, 1938). A modelação é uma capacidade humana universalizada. Mas aquilo (|u é modelado, a maneira em que as suas influências são estruturadas social- mente e os propósitos que elas têm variam em diferentes meios culturais (Bandura e Walters, 1963). Revisei os resultados de um número crescente de estudos que testavam a 1 -.trutura e o papel funcional de crenças de eficácia em diversos meios cultu-

i com uma ampla variedade de faixas etánas, gênero e diferentes esferas

•!• funcionament o (Bandura , 2002b) . O s resultado s mostra m qu e u m fon e kenso <!«• eficácia tem seu valor funcional generalizado, independentemente il.iv rm.iliçõt s culturais (Early, 1993, 1994; Matsui e Onglatco, 1992; Park et

As culturas

Teor a soaol cognitiva

35

al., 2000). Existe pouco valor evolutivo em ser imobilizado por dúvidas pes- soais e pela percepção de futilidade dos próprios esforços. Contudo, a maneira como as crenças de eficácia são desenvolvidas e estruturadas, as formas que assumem, as maneiras em que são exercidas e os propósitos a que se aplicam variam transculturalmente. Em suma, há algo semelhante nas capacidades de agência e nos mecanismos básicos de operação, mas há diversidade na culturalização dessas capacidades inerentes.

0 PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE TEORIAS

Gostaria de concluir com alguns comentários gerais com relação ao pro- cesso de construção de teonas e progresso do conhecimento. Os teóricos te- riam de ser oniscientes para fornecer uma explicação final para o comporta mento humano logo no início. Eles começam necessariamente com uma teoria incompleta, envolvendo os determinantes de fenômenos selecionados e dos mecanismos pelos quais esses determinantes atuam. Existem poucos ou ne- nhum fator psicossocial que produza efeitos de fornia incondicional. A plu- ralidade dos determinantes do comportamento humano, sua intricada con- dicionalidade e a interatividade dinâmica acrescentam complexidade ã identi- ficação de relações funcionais, que não podem ser elucidadas apenas pela aná- lise intuitiva. As formulações iniciais levam a linhas de experimentação que ajudam a melhorar a teoria. Aperfeiçoamentos teóricos sucessivos nos aproxi- mam do entendimento dos fenómenos de interesse. Este capítulo traçou a evolução da teoria social cognitiva e a maneira em que ela expandiu o seu alcance, generalidade e aplicações sociais. A exposição completa da teoria, que vai além dos limites deste capítulo, especifica como os determinantes e mecanismos básicos atuam em conjunto no autodesenvol- vimento, adaptação e mudança humanos (Bandura, 1986). A construção de teorias tem um lugar social, em vez de ocorrer isoladamente. Portanto, acres- centei os contextos conceituais em que a teoria social cognitiva evoluiu como parte de minha crônica. Existe muita idealização em pronunciamentos sobre como a ciência é conduzida. Um grupo proeminente de cientistas sociais fez um retiro nas mon- tanhas para preparar um relatório sobre como construíam suas teorias. Após alguns dias de demonstrações idealizadas, eles começaram a confessar que não construíam suas teorias por formalismo dedutivo. Um problema desperta- va o seu interesse. Eles tinham algumas idéias preliminares que sugeriam ex- perimentos para testá-las. Os resultados dos testes de verificação levavam a aperfeiçoamentos em sua concepção, que, por sua vez, levava a outros experi- mentos que poderiam fornecer outras idéias sobre os determinantes e os me- canismos que governam os fenômenos de interesse. A construção de teorias é uma atividade difícil e demorada, inadequada pata pessoas apressadas A vei são formal da teoria, que aparece impressa, é o produto modificado de uma

36 Bondura, Aci, Polydoro 4 cok.

longa interação entre a atividade indutiva empírica e a atividade dedutiva conceituai. A verificação dos efeitos deduzidos é central à investigação experimental. As ciências sociais enfrentam grandes obstáculos 110 desenvolvimento do co- nhecimento teórico. As abordagens experimentais controladas ajudam a verifi- car relações funcionais, mas o alcance é bastante limitado, sendo obstruídas por fenômenos que não podem ser reproduzidos no laboratório, pois tais fenó- menos exigem um período longo de desenvolvimento, são produto de conste lações de influências de diferentes fontes sociais que operam de forma interativa, ou são proibidas do ponto de vista ético. Os estudos de campo controlados que alteram fatores psicossociais siste- maticamente em condições da vida real proporcionam maior validade ecológica, mas também têm alcance limitado. Recursos finitos, limites impostos por siste- mas sociais sobre os tipos de intervenções que permitem, flutuações difíceis de controlar na qualidade da implementação e considerações éticas impõem res- trições em intervenções de campo controladas. Dessa forma, a experimentação no campo deve ser complementada com uma investigação das variações natu- rais no funcionamento psicossocial, relacionadas com determinantes iden- tificáveis (Nagel, 1961), abordagem esta indispensável nas ciências sociais. A verificação de relações funcionais exige evidências convergentes de di- ferentes estratégias de pesquisa. Portanto, no desenvolvimento da teoria social cognitiva, empregamos estudos dc laboratório controlados, estudos dc campo controlados, estudos longitudinais, modificação comportamental de disfunções humanas que não possam ser reproduzidas por razões éticas e análises de rela- ções funcionais em fenômenos naturais. Esses estudos envolvem populações de características sociodemográficas diversas, metodologias analíticas múlti- plas, aplicadas em diferentes esferas do funcionamento e em meios culturais diversos. Os testes empíricos de uma teoria envolvem a teoria básica, um conjun- to de pressupostos auxiliares, operações que supostamente criam as condi- ções relevantes e as medidas que supostamente avaliam os fatores funda- mentais. Portanto, não é apenas a teoria básica que é colocada em teste. Evidências de discrepâncias entre os resultados teorizados e observados pro- duzem ambigüidade com relação ao que falta nessa mistura complexa. Consi- derando-se a complexidade causal do comportamento humano, as graves limitações em experimentos controlados e a união da teoria básica com seus complementos, condições e medidas, os quais devem estar bem-fundamenta- dos, a noção de que um único caso em contrário rejeita uma teoria é uma ilusão pretensiosa. Porém, essas dificuldades inerentes não são causa para resignação e desânimo na investigação. As teorias psicológicas diferem em sua capacidade preditiva e operacional. Um programa de pesquisa científica pode melhorar uma teoria para prever o comportamento humano e para pro mover melhoras na condição humana. As teorias fracas não são descartadas porque estão erradas, mas porque foram enfraquecidas por tantas condições

Teor o soool cognitivo

37

limilantes que têm pouco valor preditivo ou operacional. Quando existem alternativas teóricas melhores, pouco há para se ganhar perseguindo a vera- cidade ou falsidade de uma teoria que pode, no máximo, explicar o compor- tamento em uma variedade muito limitada de condições e tem pouco a dizer sobre como efetuar mudanças psicossociais. Uma coisa é produzir idéias inovadoras que sejam promissoras, outra é publicá-las. Assim, o processo de publicação merece comentários breves das trincheiras. Os pesquisadores têm muitas cicatrizes psíquicas de combates ine- vitáveis com revisores de periódicos. Isso representa um problema especial quando há consangüinidade conceituai nas comissões editoriais. O caminho para as realizações inovadoras é repleto de dificuldades e rejeições editoriais. Não é incomum autores de clássicos científicos vivenciarem repetidas re- jeições iniciais a seus trabalhos, algumas vezes, geralmente com ornamentos hostis quando discordam demais do que está em voga (Campanario, 1995). Posteriormente, essas contribuições intelectuais se tornam os pilares do campo de estudo. Por exemplo, John Garcia, que foi exaltado posteriormente por suas descobertas psicológicas fundamentais, uma vez ouviu de um revisor que cos- tumava rejeitar os seus originais que era mais improvável encontrar o fenôme- no que ele descrevia do que excremento de pássaros em um relógio cuco. Gans e Shepherd (1994) solicitaram que economistas importantes, in- cluindo ganhadores do prêmio Nobel, descrevessem suas experiências com o processo dc publicação. Sua solicitação causou um derrame catártico dc narra- tivas de problemas com o processo de publicação, mesmo com suas contribui- ções seminais. As dificuldades de publicação são uma parte inevitável, mas frustrante da atividade dc pesquisa. Na próxima vez que um de seus projetos, idéias ou originais for rejeitado, não se desespere muito. Conforte-se com o fato de que aqueles que chegaram â fama tiveram muita dificuldade. Em seu agradável livro Rcjcction, John White (1982) documenta de forma vivida que as principais características de pessoas que alcançam o sucesso em buscas de- safiadoras é um sentido inabalável de eficácia e uma firme crença no valor daquilo que estão fazendo. Esse sistema de crenças proporciona a força neces- sária frente a fracassos, retrocessos e rejeições impiedosas. Na tentativa de aumentar as possibilidades de sucesso no corredor polo- nês da publicação, os autores cada vez mais utilizam incontáveis citações c adicionam construclos de diferentes teorias. Com freqüência, a abordagem eclética aditiva passa como uma teorização integrativa, supostamente combi- nando o melhor de diferentes abordagens, mas é difícil encontrar uma teoria coerente na mistura conceituai. Para reduzir a proliferação crescente de cita- ções, o novo editor de um importante jornal de psicologia impôs um limite de itens que podem ser citados em um artigo. O progresso científico pode ser melhor alcançado abrangendo fatores plenamente superiores dentro de um arcabouço teórico unificado, do que criando-se modelos aglomerados de constructos advindos de teorias divergentes, com os problemas da redundân- cia, fratíonamento e desconexão teórica.

38 Bonduro, Ani, Polydoro & cols.

A construção de teorias não é uma vocação para indivíduos fracos. Os teóricos devem estar preparados para ver suas concepções e resultados empíricos ser desafiados, interpretados incorretamente ou ridicularizados, às vezes com ornamentações ad hominem. Por exemplo, muitas vezes, divirto-me ao me ver mal-interpretado como um behaviorista ortodoxo e um mentalista dualista! [Bandura e Bussey, 2004). Os teóricos diferem no grau em que permitem que caracterizações controvertidas penetrem em seus espaços. Eysenck raramente deixava críticas sem resposta. Skinner raramente as respondia. De minha par- te, tento resistir ao impulso de responder, a menos que possa aumentar a com- preensão das questões colocadas. Isso é difícil, sabendo-se que uma crítica equivocada sem resposta será lida por muitos que podem concordar com ela. Fala-se muito da validade das teorias, mas, de maneira surpreendente, pouca atenção é dedicada para a sua utilidade social. Por exemplo, se os cien- tistas aeronáuticos desenvolvessem princípios de aerodinâmica em testes com túneis de vento, mas não conseguissem construir um avião que pudesse voar, o valor da teorização seria questionado. As teorias são instrumentos preditivos e operacionais. Em última análise, a avaliação de um experimento científico em ciências sociais estará amplamente baseada em sua utilidade social.

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O sistema do self no determinismo recíproco'

Albert Bandura

Os últimos anos tém testemunhado um grande interesse nas concepções básicas da natureza humana que fundamentam diferentes teorias psicológicas. Esse interesse parte do reconhecimento crescente da maneira como essas con- cepções delimitam as pesquisas a alguns processos selecionados e, por sua vez, são moldadas por paradigmas que incorporam uma visão específica. À medida que se converte o conhecimento psicológico em tecnologias comportamentais, os modelos do comportamento humano que fundamentam as pesquisas assu- mem importantes implicações sociais e teóricas (Bandura, 1974). As explicações sobre o comportamento humano geralmente são expressas em termos de um conjunto limitado de determinantes, que normalmente atuam de forma unidirecional. Os expoentes do determinismo ambiental estudam e teorizam a respeito do modo como o comportamento é controlado por influên- cias situacionais. Aqueles que favorecem o determinismo pessoal procuram as causas do comportamento em fontes disposicionais, na forma de instintos, impulsos, traços e outras forças motivadoras dentro do indivíduo. Os intera- cionistas tentam acomodar os fatores situacionais e disposicionais, mas segun- do uma visão essencialmente unidirecional dos processos de comportamento. Este artigo analisa os diversos modelos causais e o papel das influências d o self no comportamento a partir da perspectiva do determinismo recíproco. O determinismo ambiental unidirecional é levado ao extremo nas formas mais radicais de behaviorismo. Isso não significa que os defensores desse pon- to de vista nunca reconheçam a interdependência entre influencias pessoais e ambientais. De fato, Skinner (1971) costumava comentar sobre a capacidade do contracontrole. Todavia, a noção do contracontrole representa o ambiente como uma força instigante que os indivíduos contrariam. Como mostraremos mais adiante, as pessoas criam e ativam os ambientes, além de refutá-los. Um outro problema conceituai é que, tendo sido reconhecida, a realidade da in- terdependência reciproca é negada, rcafirmando-se repetidamente o controlo proeminente do comportamento pelo ambiente (por exemplo, "a pessoa não

Irxtn originalmente publicado pda Amtrican Psychologist, v 33, n. 4, 1978, p. 143-358

44 Bandura, Azzi, Polydoro & cols.

age sobre o mundo, o mundo é que age sobre ela", Skinncr, 1971, p. 211). Dessa forma, o ambiente se toma uma força autônoma que automaticamente molda, rege e controla o comportamento. Independentemente das alusões fei- tas a processos bidirecionais, a regra ambiental emerge claramente como a metáfora predominante na visão operante da realidade. Não faltam defensores de teorias alternativas que enfatizam a determina- ção pessoal de ambientes: os humanistas e existencialistas, que enfatizam a capacidade humana do julgamento consciente e ação intencional, afirmam que os indivíduos determinam o que se tornam por meio de suas próprias escolhas. A maioria dos psicólogos considera as concepções do comportamento humano segundo o determinismo pessoal unidirecional tão insatisfatórias quan- to as que defendem o determinismo ambiental unidirecional. A afirmação de que a mente cria a realidade não reconhece que as influências ambientais, cm pane, determinam aquilo que as pessoas observam, percebem e pensam. A

afirmação de que os métodos da ciência natural são incapazes de lidar com os determinantes pessoais do comportamento não atrai muito apoio entre aqueles que são mais motivados por evidências empíricas do que pelo discurso filosófico. A teoria da aprendizagem social (Bandura, 1974, 1977b) analisa o com- portamento segundo o determinismo recíproco. O termo determinismo é usado aqui significando a produção de efeitos por eventos, em vez do sentido doutri- nário de que as ações são completamente determinadas por uma seqüência prévia de causas independentes do indivíduo. Em decorrência da complexida- de dos fatores que interagem, os eventos produzem efeitos probabilisticamente,

e não inevitavelmente. Em suas transações com o ambiente, as pessoas não

reagem simplesmente aos estímulos externos. A maioria dns influências exter- nas afeta o comportamento por meio de processos cognitivos intermediários. Os fatores cognitivos determinam em parte quais eventos externos serão ob sorvados, como serào percebidos, se terão algum efeito duradouro, qual a sua valência e eficácia e como as informações que transmitem serão organizadas para uso futuro. A extraordinária capacidade dos seres humanos de usar sím- bolos lhes permite engajar-se cm pensamento reflexivo, criar e planejar cursos

de ação por meio de pensamento antecipatório, em vez de precisarem execu- tar as opções possíveis e sofrer as conseqüências de atos irrefietidos. Alterando

o sou ambiente imediato, criando motivações pessoais e incentivos condicio-

nais para si mesmos, as pessoas podem exercer um certo grau de influência sobre o seu próprio comportamento. Dessa forma, uma ação inclui influências autoproduzidas entre os seus determinantes. É verdade que o ambiente influencia o comportamento, mas o ambiente, em parte, é criado pela própria pessoa. Por meio de suas ações, as pessoas dr « mpenham um papel na criação do meio social e de outras circunstâncias que surgem em suas transações cotidianas. Assim, na perspectiva da aprendi- zagem social, o funcionamento psicológico envolve uma interação recíproca (oniinu.i entre influências comportamentais, cognitivas e ambientais.

Teorio social cognitiva

45

DETERMINISMO RECÍPROCO EINTERACIONISMO

Ao longo dos anos, o lócus das causas do comportamento tem sido deba- tido na psicologia social e da personalidade segundo determinantes disposi- cionais e situacionais da conduta. A maioria dos participantes nessa controvér- sia acabou adotando a posição de que o comportamento resulta da interação entre pessoas e situações, em lugar de apenas um dos fatores (Bowers, 1973; Endler e Magnusson, 1975). Todavia, essas visões do interacionismo e as metodologias que as acompanham essencialmente mantêm uma orientação unidirecional para o comportamento. Os processos interativos são conceituados de três maneiras fundamental- mente diferentes. Essas formulações alternativas estão sumarizadas esque- maticamente na Figura 2.1. Na noção unidirecional de interação, as pessoas e situações são tratadas como entidades independentes que se combinam para produzir o comportamento. Essa visão comum pode ser questionada por ra- zões conceituais e empíricas. Os fatores pessoais e ambientais não funcionam como determinantes independentes. Pelo contrário, eles se determinam uns aos outros. Da mesma forma, as "pessoas" não podem ser consideradas como causas independentes de seus comportamentos. É principalmente por meio de suas ações que as pessoas produzem condições ambientais que afetam o seu comportamento de maneira recíproca. A experiência gerada pelo compor- tamento também determina, em pane, aquilo que os indivíduos pensam, es- peram e conseguem fazer, o que, por sua vez, afeta o seu comportamento subseqüente. Uma segunda concepção da interação reconhece que as influências pes- soais e ambientais são bidirecionais, mas mantém uma visão unidirecional do

Unidirecional

B =

f (f»E)

ftwciolmente bidireòonol

B =

f (P H

E)

Recíproco

FIGURA 2.1

Representação esquemática de três concepções alternativas de interações. B significa compartamento; R os evrnios cognitivas e antros eventos internos que possam afetar as percepções e ações; e E, o

ambiente externo.

46 Bonduro, Axzi, Polydoro & cols.

comportamento. Nessa análise, as pessoas e situações são consideradas causas interdependentes do comportamento, mas o comportamento é tratado como se fosse apenas um subproduto que não figura no processo causai Conforme observado anteriormente, o comportamento é um determinante interativo, e não o simples resultado de uma "interação entre a pessoa e a situação". A metodologia usada para avaliar as conceituações anteriores baseia-se amplamente em modelos fatoriais, que mensuram as respostas de diferentes indivíduos em condições situacionais variadas. Os dados são analisados para determinar quanto da variação do comportamento se deve a características pessoais, quanto a condições situacionais e quanto aos seus efeitos conjuntos. A atenção dos pesquisadores que trabalham segundo esse modelo concentra-se na disputa sobre qual dos componentes - pessoas, situações, ou "pessoa versus situação" - explica a maior parte da variação no comportamento. Todavia, a fraqueza básica do esquema conceituai (isto é, tratar o comportamento como um fator dependente, em vez de interdependente) é amplamente ignorada. Na visão da aprendizagem social da interação, que é analisada como um processo de determinismo recíproco (Bandura, 1977b), o comportamento, os fatores pessoais internos c as influências ambientais operam como determinantes interconectados uns aos outros. Conforme mostra a Figura 2.1, o processo en- volve uma interação reciproca triádica, em vez de um conjunto diádico ou uma interação d indica bidirecional. Já observamos que o comportamento e as condições ambientais funcionam como determinantes que interagem de for- ma recíproca. Os fatores pessoais internos (por exemplo, concepções, crenças, percepções pessoais) e o comportamento também agem como determinantes recíprocos uns dos outros Por exemplo, as expectativas de eficácia e de resul tados das pessoas influenciam a maneira como elas agem, e os efeitos ambientais criados por suas ações, por sua vez, alteram suas expectativas. As pessoas ati- vam diferentes reações ambientais, independentes de seu comportamento, por meio de suas características físicas (por exemplo, tamanho, fisionomia, raça, gênero, beleza) e atributos, papéis e status que lhes são conferidos socialmen- te. O tratamento social diferencial afeta as concepções pessoais e ações do receptor de maneira que mantêm ou alteram as tendências ambientais. A influência relativa que esses três conjuntos de fatores interconectados exercem varia em diferentes indivíduos c sob diferentes circunstâncias. Em determinados casos, as condições ambientais exercem limitações tão podero- sas no comportamento que emergem como os principais determinantes. Por exemplo, quando pessoas são jogadas em águas profundas, todas imediata- mente começam a nadar, por mais variados que possam ser os seus repertórios cognitivos e comportamentais. Existem ocasiões em que o comportamento é o fator central nesse sistema interconectado. Um exemplo disso são pessoas que tocam no piano músicas conhecidas que gostam para criar uma atmosfera sen- sorial agradável. O comportamento é auto-regulado por bastante tempo pelos efeitos sensoriais que produz, ao passo que as atividades cognitivas e os even- tos ambientais contextuais não se envolvem muito no processo.

Teoria social cognitiva

47

Fm outros casos, os fatores cognitivos servem como a principal influência no sistema regulador. A ativação e a manutenção do comportamento defensi- vo é um bom exemplo. Crenças falsas ativam respostas de evitação, que man- têm os indivíduos desconectados das condições ambientais predominantes, criando assim uma forte interação recíproca entre crenças e ações, protegida da influência corretiva do meio. Em casos extremos, o comportamento é tão controlado por contingências internas bizarras que nem as crenças, nem as ações que as acompanham são muito afetadas, mesmo por conseqüências ambientais extremamente punitivas (Bateson, 1961). Em outros exemplos ainda, o desenvolvimento e a ativação dos três fa- tores interconectados são bastante interdependentes. O comportamento de assistir televisão é um exemplo da vida cotidiana. As preferências pessoais influenciam quando e quais programas, entre as alternativas disponíveis, os indivíduos decidem assistir na televisão. Embora o ambiente televisionado potencial seja idêntico para todos os espectadores, o ambiente televisionado real que chega a determinados indivíduos depende do que eles decidem as- sistir. Por meio de seu comportamento, eles influenciam em parte a natureza do ambiente televisionado futuro. Como os custos de produção e exigências comerciais também determinam aquilo que se mostra às pessoas, as opções oferecidas no ambiente televisionado também influenciam em parte as prefe- rências dos telespectadores. Nesse caso, todos os três fatores - preferências do telespectador, comportamento de escolha e ofertas televisionadas - se afetam reciprocamente. A metodologia para elucidar os processos psicológicos exige a análise de interações seqüenciais entre os fatores interdependentes e triádicos do sistema de interconexão. Por enquanto, as investigações dos processos recíprocos rara- mente ou nunca examinaram mais do que dois fatores simultaneamente. Al- guns estudos analisam como as cognições e o comportamento se afetam de modo recíproco (Bandura, 1977a; Bandura e Adams, 1977). Porém, a análise seqüencial geralmente se concentra em como o comportamento social e o am- biente se determinam mutuamente. Nesses estudos de trocas diádicas, o com- portamento cria cenas condições e, por sua vez, é alterado pelas próprias con- dições que cria (Bandura, Lipshere Miller, 1960; Patterson, 1975; Raush, Barry; Hertel e Swain, 1974; Thomas e Martin, 1976). Na perspectiva do determinismo recíproco, a prática comum de procurar a causa ambiental final do comportamento é um exercício inútil, pois, em um processo interativo, o mesmo evento pode ser um estimulo, uma resposta ou um reforçador ambiental, dependendo do ponto na seqüência no qual arbitra- riamente a análise começa. A Figura 2.2, que representa uma seqüência de reações de duas pessoas (A e B), mostra como os mesmos eventos mudaram seu sroxus, de estímulos para respostas e reforçadores ambientais, em diferen- tes pontos de entrada no fluxo da interação bidirecional. Por exemplo, o even- to Aa é um estímulo ambiental no terceiro ponto de entrada, uma resposta na segunda análise e um reforçador ambiental na primeira. Não se pode falar de

48 Bondura, Aci, Polydoro & cols.

 

B,

S'

- >

R

- ¥

 

5

- »

A,

A.

R

- >

s *

S'

- »

R

->

s -

FIGURA 2.2 llusuação de como o mesmo evento comportamental pode ser um estimulo antecedente, uma resposta ou uma conseqüência reforçadora, dependendo do ponto no qual arbitrariamente se começa a análise no tluxo de uma interação sociaL Os As são respostas sucessivas de un a pessoa, e os Rs são respostas sucessivas da segunda pessoa na interação diádica. S' representa estímulo; R representa resposta; e S™ representa reforçador.

"comportamento" e suas "condições ambientais controladoras" como se esses dois fatores fossem eventos fundamentalmente diferentes. A análise anterior concentra-se apenas nas dependências entre ações e como elas mudam no fluxo da interação de respostas para eventos ambientais. Entretanto, os processos reguladores não são governados unicamente pela in- fluência recíproca de atos antecedentes e conseqüentes. Enquanto agem, as pessoas também estão avaliando cognitivamente a progressão dos eventos. Seus pensamentos com relação aos prováveis efeitos de ações prospectivas determina em parte como os atos são afetados por suas conseqüências am- bientais imediatas. Considere, por exemplo, investigações de comportamentos coercitivos recíprocos em uma interação diádica contínua. Em famílias discor- dantes, o comportamento coercitivo de um membro tende a evocar reações coercitivas dos outros indivíduos, em uma escalada mútua da agressividade (Patterson, 1975). Contudo, a coerção muitas vezes não produz reações coer- citivas. Para aumentar o valor preditivo de uma teoria do comportamento é necessário ampliar a análise, de maneira a incluir os fatores cognitivos que atuam no sistema interconectado. As reações a atas antecedentes são influen- ciadas não apenas por seus efeitos imediatos, mas por avaliações das futuras conseqüências de um determinado curso de ação. Assim, crianças agressivas continuarão ou até aumentarão o seu comportamento coercitivo frente a pu- nições imediatas, na esperança de que a persistência lhes consiga o que dese- jam Todavia, a mesma punição momentânea servirá como um inibidor mais do que a incrementada coersão quando elas acreditarem que a continuação da conduta aversiva não será efetiva. O valor preditivo de conseqüências recíprocas momentâneas deriva em parte das expectativas das pessoas sobre como suas ações provavelmente mu- (I.ti iam .ts conseqüências futuras no decorrer de interações seqüenciais. Os estudo s d e diversas linhas dc pesquisa documentam como os fatores cognitivos alteram a relação funcional entre ações e resultados. O grau em que o compor-

Teoria sociol cognitivo

49

tamento é influenciado por seus efeitos momentâneos depende das crenças das pessoas sobre as ações - contingências de resultados (Baron, Kaufman e Stauber, 1969;Estes, 1972; Kaufman, BaroneKopp, 1966; SpielbergereDeNike, 1966) do significado que atribuem aos resultados (Dulany, 1968) e de suas expectativas de que a persistência em um determinado curso de ação acabe por alterar as práticas de reforçamento das pessoas (Bandura e Barab, 1971). Nos estudos citados, as influências cognitivas servem como controladores, em vez de fatores controláveis. Porém, as condições não ocorrem no vácuo e não funcionam como determinantes autônomos do comportamento. Na análi- se da aprendizagem social do desenvolvimento cognitivo, as pessoas desenvol- vem concepções pessoais sobre si e sobre a natureza do ambiente, verificando- as por meio de quatro processos diferentes (Bandura, 1977b). As pessoas ti- ram grande pane de seu conhecimento da experiência direta com os efeitos de seus atos. Dc fato, a maioria das teorias do desenvolvimento cognitivo, inde- pendentemente de favorecer orientações behavioristas, de processamento de informações ou piagetianas, concentra-se quase exclusivamente na mudança cognitiva por meio do/eedbací; da experimentação direta. Todavia, os resulta- dos dos próprios atos não são a única fonte de conhecimento. Informações sobre a natureza das coisas são extraídas freqüentemente da experiência vicária. Nesse modo dc verificação, a observação dos efeitos produzidos pelas ações de outra pessoa serve como fonte e autenticação de pensamentos. Existem muitas coisas que não saberemos pela experiência direta ou vicária, seja por causa de limites na acessibilidade ou porque as questões envolvem idéias metafísicas que não podem ser submetidas à confirmação objetiva. Quan- do a verificação experimental é difícil ou impossível, as pessoas desenvolvem e avaliam suas concepções das coisas segundo o julgamento formulado por outras

pessoas.

tos, que se baseiam em influências externas, a verificação lógica também entra no processo, especialmente nas fases mais adiantadas de desenvolvimento.

Após as pessoas adquirirem certas regras de inferência, elas podem avaliar a adequação de seu raciocínio e obter, por meio daquilo que já sabem, novos conhecimentos sobre as coisas, que se estendem além dc suas experiências. As influências externas não apenas desempenham um papel no desenvol- vimento de cognições, mas também em sua ativação. Diferentes visões, cheiros

e sons evocam linhas de pensamento bastante diferentes. Assim, mesmo que

seja verdade que as concepções governam o comportamento, as próprias con-

cepções são criadas, em pane, a partir de transações diretas ou mediadas com

o ambiente. Portanto, uma análise completa do determinismo recíproco exige

a investigação de como todos os três conjuntos de fatores - cognitivos, com-

|Kirtamentais e ambientais - interagem reciprocamente entre si. Contrariamente

a uma concepção comum equivocada, a teoria da aprendizagem social não

desconsidera os determinantes pessoais do comportamento. Nessa perspecti- va, esses determinantes são tratados como fatores dinâmicos integrais em pro- cessos causais, em vez de dimensões de traços estáticos.

.Além de fontes diretas, vicárias e sociais de verificação de pensamen-

50 Bonduro, Azzi, Polydoro & cols.

FUNÇÕES AUTO-REGULATÒRIAS DO SISTEMA DO SELF

As diferenças entre as análises unidirecionais e recíprocas ocorTem de forma mais clara na área dos fenómenos auto-regulatórios. Os expoentes do behaviorismo radical sempre rejeitaram qualquer constructo de self, temendo que ele introduzisse agentes psíquicos e desviasse a atenção da realidade física para a realidade experimental. Apesar de abranger uma grande variedade de fatores ambientais, essa abordagem pressupõe que não existem influências auto- geradas ou, se existem, não têm nenhum efeito sobre o comportamento. Os eventos internos são tratados simplesmente como uma ligação intermediária em uma cadeia causal. Como as condições ambientais supostamente criam a conexão intermediária, pode-se explicar o comportamento por meio de fatores externos, sem o recurso de qualquer determinante interno. Por intermédio de uma manobra conceituai, os determinantes cognitivos são excluídos da análise de processos causais. Ao contrário da visão anterior, os determinantes internos do comporta- mento têm ganho atenção crescente nas teorias e nas pesquisas contemporá- neas. De fato, os processos auto-referentes ocupam uma posição central na teoria da aprendizagem social (Bandura, 1977b). Conforme discutiremos a seguir, os eventos autogerados não podem ser relegados a uma conexão expli cativa redundante. No sistema de reciprocidade triádica, eles não apenas agem como determinantes recíprocos do comportamento, como desempenham um papel na percepção e formação das próprias influências ambientais. As influências do self têm sido conceituadas radicionalmente em termos do auioconceito (Rogers, 1959; Wylie, 1974). Nessas abordagens, as autoconcepvões são avaliadas solicitando se que as pessoas classifiquem de um modo ou outro algumas declarações avaliativas que acreditam aplicarem-se a elas. Depois, tes- ta-se a tese principal de que as autoconccpções determinam o funcionamento psicológico correlacionando os autoconceitos ou disparidades entre os sê/vês ideal e real com índices variados de adaptação, atitudes e comportamento. É possível identificar diversas características desse tipo de teorias do self que reduzem o seu poder explicativo e preditivo. Na maior parte, dizem res- peito a auto-imagens globais. Uma visão global daquilo que as pessoas pensam de si mesmas não pode explicar as amplas variações que geralmente apresen- tam em suas reações pessoais em diferentes circunstâncias situacionais, em diferentes atividades e em diferentes momentos. Um suposto determinante interno não pode ser menos complexo do que os seus efeitos. Outra limitação das teorias do self é que elas não especificam em detalhes suficientes como os autoconceitos regulam determinados atos. Na teoria da aprendizagem social, o sistema do self não é um agente psí- quico que controla o comportamento. Pelo contrário, se refere a estruturas cognitivas que proporcionam mecanismos de referência e um conjunto de subfunções para a percepção, avaliação e regulação do comportamento. Antes de passarmos a uma análise reciproca das influências do self, revisaremos bre-

Teoria social cognitivo

51

vemente os processas pelos quais as pessoas exercem algum controle sobre o seu próprio comportamento.

Processos que compõem o aulo-reguloçoo

A Figura 2.3 sumariza os diferentes processos que compõem a auto- regulação do comportamento por meio de contingências autoprescritas. Geral- mente, o comportamento varia em diversas dimensões, algumas das quais es- tão listadas no componente da auto-observação. Dependendo do valor e da significância funcional de determinadas atividades, as pessoas têm atenção seletiva para certos aspectos de seus comportamentos e ignoram variações em dimensões irrelevantes. A simples observação das variações no desempenho do indivíduo já for- nece informações relevantes, mas esses dados, em si, não representam uma base para reações pessoais. O comportamento produz reações pessoais por meio de uma fiinção avaliativa que envolve diversos processos subsidiários. O fato de um determinado comportamento ser considerado meritório ou insa- lisfaiório depende dos padrões pessoais com os quais é comparado. As ações que estão à altura de padrões internos são avaliadas favoravelmente, enquan- to as que não chegam ao seu nível são julgadas insatisfatórias.

não chegam ao seu nível são julgadas insatisfatórias. FIGURA 2.3 Processos que compõem a auto-regulação do

FIGURA 2.3 Processos que compõem a auto-regulação do comportamento por contingências autoprescritas.

52 Bondura, Ani, Polydoro & cols.

Para a maior pane das atividades, não existem medidas absolutas de ade- quação. O tempo em que se cone uma dada distância, o número dc pontos obtidos em um teste de desempenho ou o (amanho de contribuições de carida- de muitas vezes não transmitem informações suficientes para a auto-avalia- ção, mesmo se comparadas com um padrão interno. Quando a adequação é definida de forma relacionai, os comportamentos são avaliados em compara- ção com os de outras pessoas. As comparações dc referência podem envolver as normas padronizadas, os componamentos de determinados indivíduos ou as realizações de grupos de referência. Como referência, costumam ser usados os componamentos anteriores do indivíduo, contra os quais são julgados os comportamentos atuais. Nesse pro- cesso referencial, a autocomparação é o que fornece a medida de adequação. Realizações passadas influenciam as avaliações do desempenho, principalmente por meio dc seus efeitos no estabelecimento de padrões. Após se alcançar um determinado nível de desempenho, ele não representa mais um desafio, par- tindo-se para novos níveis de satisfação pessoal, muitas vezes com a busca de melhoras progressivas. Outro fator importante no componente avaliativo da auto-regulação diz respeito à avaliação das atividades. As pessoas não se preocupam muito com a maneira como realizam atividades que têm pouca ou nenhuma significância para elas, e se esforçam pouco em atividades desvalorizadas. É principal- mente nas áreas que afetam o bem-estar e a auto-estima do indivíduo que as avaliações favoráveis do desempenho ativam conseqüências pessoais (Simon, Nota 2).

As reações pessoais també m variam, dependend o de com o as pessoas per-

cebem os determinantes de seu comportamento. Elas se orgulham de suas realizações quando atribuem seus sucessos às suas próprias habilidades e es- forços. Contudo, não se satisfazem tanto consigo mesmas quando acreditam que seu desempenho depende muito de fatores externos. O mesmo é verdadei- ro para avaliações dc fracasso c conduta censurável. As pessoas respondem dc forma autocrítica a desempenhos inadequados quando se consideram respon- sáveis por eles, mas não àqueles que consideram devidos a circunstâncias inu- sitadas ou capacidades insuficientes. As avaliações de desempenho levam a conseqüências autoproduzidas. Julgamentos favoráveis abrem raminho para reações pessoais gratificantes, ao passo que avaliações desfavoráveis ativam reações pessoais negativas. Os desempenhos que são avaliados como sem significância pessoal não produzem nenhum tipo de reação. Na visão da aprendizagem social, os incentivos auto-regulados alteram o comportamento, principalmente por meio de sua função motivacional (Bandura, 1976). Recompensas pessoais contingentes melhoram o desempenho não por- que fortalecem as respostas precedentes. Quando as pessoas condicionam a satisfação pessoal ou gratificações tangíveis a certas realizações, se motivam para aumentar o esforço necessário para alcançar os resultados desejadas. Tanto

Teoria social cognitiva

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as satisfações previstas com realizações desejadas quanto as insatisfações com realizações insuficientes proporcionam incentivos para ações que aumentam a probabilidade de novas realizações ligadas ao desempenho. Grande pane do comportamento humano é regulada por meio de conse- qüências auto-avaliativas, na forma de satisfação pessoal, orgulho pessoal, in- satisfação pessoal e autocrítica. O ato dc escrever é um exemplo conhecido de um comportamento que é constantemente auto-regulado por meio de reações pessoais avaliativas. Os escritores adotam um padrão para aquik) que constitui um trabalho aceitável. As idéias são geiadas e refoimulad.is no pensamento antes de serem postas no papel. Os autores revisam construções provisórias até que estejam satisfeitos com o que escreveram. Quanto mais exatos os padrões pessoais, mais amplas as melhoras corretivas. As pessoas também fazem coisas que não fariam de outro modo, condicionando certos resultados tangíveis a alcançarem um determinado nível de desempenho. Em programas de mudança autodirigida, os indivíduos me- lhoram e mantêm o comportamento por conta própria durante longos perío- dos, por meio de incentivos que criam para si mesmos (Bandura, 1976; Goldfried e Merbaum, 1973; Mahoney e Thoresen, 1974). Em muitos casos, as ativida- des são reguladas por meio de contingências autoprescritas que envolvem re- compensas pessoais avaliativas e tangíveis. Os autores influenciam o quanto escrevem, fazendo intervalos, atividades recreativas e outras recompensas tan- gíveis contingentes à conclusão de uma determinada quantidade de trabalho (Wallace, 1977), mas revisam e melhoram o que escrevem por meio de suas reações auto-avaliativas.

0 DESVIO CONCEITUAL DO SISTEMA DO SEI/

A noção de que as pessoas podem exercer um certo grau de influência sobre o seu próprio comportamento e mudar o seu meio não foi recebida com entusiasmo pelos defensores do determinismo ambiental unidirecional. Foram propostas concepções alternativas, que explicariam o comportamento sem pos- tular nenhuma influência autoproduzida. Uma solução é redefinir o fenômeno fora da existência. A mudança autodirigida, por meio de incentivos pessoais, foi rotulada novamente como um processo de autoconsciência (Catania, 1975) ou como um estímulo sinalizador de que uma resposta foi executada (Rachlin, 1974). As premissas que fundamentam essas redefinições e as evidências con- trárias já foram discutidas detalhadamente em outro texto (Bandura, 1976) e não precisam ser repetidas aqui. A segunda solução, usada com mais freqüência, é executar uma regressão de causas. Localizando-se um fator ambiental remoto que possa afetar as reações pessoais, as influências autoproduzidas são convertidas em simples operantes. Conforme Stuart (1972, p. 130) coloca dc forma sucinta, "os comportamentos

54 Bandura, A22Í, Polydoro & cols.

que normalmente são atribuídos ao autocontrole podem ser analisados de modo funcional como um subconjunto especial de respostas operantes, que, de fato, estão sob controle situacional". Dessa forma, o organismo se torna um simples receptáculo de respostas do autocontrole, que esperam para ser ativadas ex- ternamente, mas não possui capacidade de gerar guias e incentivos para suas próprias ações. Porém, a regressão causal não é uma disposição mais convin- cente das influências autoprodiizidas do que a mudança de nome, pois, para cada causa ambiental que se evocar, pode-se encontrar uma causa pessoal an terior desse ambiente. Algumas regressões conceituais de influências autoproduzidas em causas situacionais tratam as influências recíprocas como influencias rivais, ou mes- mo como fatores de confusão. Essa visão é exemplificada por Jones, Nelson e Kazdin (1977), que consideram as influências externas como "interpretações rivais plausíveis" das mudanças que as pessoas fazem quando criam incentivos para si mesmas. Os contendores situacionais em análises unidirecionais assu- mem diversas formas. Um candidato bastante citado é a 'história de reforça- mento". Conforme observam Jones e colaboradores (1977), as recompensas pessoais dependem de treinamento prévio sobre como julgar e estabelecer pa- drões de comportamento. Isso certamente é verdade. Valores e padrões genéri- cos de auto-recompensa são extraídos de experiências diversas. A existência de origens externas não deprecia o fato de que, uma vez estabelecidas, as influências autoproduzidas operam como fatores que contri- buem para a regulação do comportamento. A atribuição de uma capacidade generalizável a experiências passadas não pode substituir as influências atuais que ocorrem pelo exercício dessa capacidade, assim como se atribuiriam as obras literárias de Shakespeare à sua formação prévia nas bases da escrita. Um ambientalista unidirecional poderia muito bem afirmar que as criações literá- rias são produtos da soma total de influências situacionais passadas. Apesar de seu limitado valor preditivo, ninguém argumentaria contra a visão de que a criatividade humana incorpora alguns aspectos de experiências passadas. Uma análise da aprendizagem social, todavia, enfatiza as influências recíprocas de fatores pessoais e ambientais no processo de inovação. Por meio de suas ações, as pessoas determinam em parte a natureza de suas experiências. Por meio de sua capacidade de manipular símbolos e do pensamento reflexivo para a ação inovadora, elas podem gerar novas idéias e criar novos ambientes para si e para os outros. Em investigações de laboratório sobre processos de auto-regulação, os padrões de comportamento são transmitidos por conseqüências seletivas (Bandura e Mahoney, 1974; Mahoney; Bandura, Dirks e Wright, 1974) ou por meio de modelação (Bandura, 1976). Em aplicações educacionais e clínicas de práticas de auto-reforça mento, os procedimentos para estabelecer objetivos e regular o próprio comportamento geralmente são transmitidos por instrução. 1'ar.i Jones e colaboradores (1977), instrução de auto-influència pessoal exterioriza o lócus da regulação.

Teoria soool cognitiva

55

A externalização de determinantes em instruções, como a incorporação

do controle em histórias de reforçamento, não faz justiça às complexidades do processo de regulação. Conforme observamos anteriormente, deve-se fazer uma

distinção entre a mecânica e a agência da regulação comportamental. O am- biente pode proporcionar informações para desenvolver habilidades de auto- regulação, mas os indivíduos que as recebem têm o papel ativo de decidir quais informações tiram dos eventos e quando e como usam as habilidades adquiridas. As instruções são simples fontes de informações que se tomam

influências por meio de processos cognitivos, em vez de adoção reflexiva. Não

é incomum as pessoas improvisarem a partir de informações transmitidas por

instruções para criarem seus próprios roteiros de comportamento (Bandura e

Simon, 1977). De fato, um grande desafio para a investigação de processos de auto-regulação, independentemente de envolverem a observação pessoal, o estabelecimento de objetivos, o ensaio cognitivo ou as conseqüências .mtopro- duzidas, é que as pessoas não reagem simplesmente de forma mecânica a in- fluências situacionais - elas as processam e transformam ativamente.

É possível lembrar, a partir de discussões anteriores, que, para regularem

o seu próprio comportamento com incentivos autocontrolados, as pessoas preci-

sam saber o que estão fazendo e comparar o seu comportamento com padrões pessoais daquilo que constitui um desempenho de valor. Assim, o automoni- toramento e o estabelecimento de objetivos são componentes indispensáveis do processo, em vez de componentes auxiliares, que podem ser ligados ou desconectados de um sistema de auto-regulação. Jones e colaboradores (1977) especulam a respeito de como a observação pessoal, o estabelecimento de ob- jetivos e as demandas situacionais podem explicar os efeitos de recompensas pessoais contingentes. Uma questão tão influente não deve ser colocada em termos de determinantes rivais. Existe um grande corpus de evidências o qual mostra que as pessoas que recompensam o seu próprio comportamento alcan- çam níveis significativamente maiores de desempenho do que aquelas que rea- lizam as mesmas atividades sob instrução, mas não recebem reforçamento. As pessoas que realizam as atividades sob instrução, mas não recebem refor- çamento são recompensadas não-contingentemente, ou monitoram o seu com- portamento e estabelecem objetivos, mas não recompensam suas realizações

(Bandura e Perloff, 1967; Bellack, 1976; Felixbrod e 0'Leary, 1973; Glynn, 1970; Jeffrey, 1974; Litrovvnik, Franzini e Skendcrian, 1976; Mahoney, 1974; Montgomery e Parton, 1970; Speidel, 1974; Svvitzky e Haywood, 1974).

A observação exclusiva de eventos físicos em concepções behavioristas

resulta na negligência do papel de reações auto-avaliativas na regulação do comportamento. Considere, por exemplo, a visão proposta por Jones c colabo- radores (1977, p. 164) de que "embora o automonitoramento muitas vezes seja avaliado independentemente do auto-reforçamento, o inverso não ocorre''. A primeira pane da afirmação é questionável, e a segunda é inconcebível. O

automonitoramento apenas pode ser considerado independente do auto- reforçamento se a análise limitar-se inteiramente às conseqüências pessoais

56 Bandura, Aai, Polydoro & cols.

materiais da ação. De fato, é difícil para as pessoas monitorarem seus compor* lamentos sem estabelecerem objetivos para si mesmas e responderem de for- ma avaliativa ao seu comportamento. A maioria das pessoas valoriza mais o auto-respeito e a satisfação pessoal que deriva de um trabalho bem feito do que valorizaria sinais de reforçamento. Ignorar o influente papel das reações auto-avaliativas na auto-regulação do comportamento é negar uma capacida- de singularmente humana. O auto-reforço nunca foi avaliado independentemente do automonito- ramento, e não existe perspectiva de que um dia seja, simplesmente porque isso seria uma façanha inalcançável. As pessoas não podem recompensar suas realizações comportamentais de forma condicional se não souberem o que es- tão fazendo. A observação do próprio comportamento é uma precondição ne- cessária para a auto-recompensa contingente, e não um componente útil, mas que pode ser desconectado. Além disso, pelas razões expostas, as reações auto- avaliativas também não podem ser dissociadas facilmente de operações de auto monitoramento e estabelecimento de objetivos. Para reafirmar a tese central deste artigo, as influências autoproduzidas não podem ser extirpadas dos determinantes do comportamento humano sem sacrificar uma parte conside- rável do poder explicativo e preditivo. Pode-se argumentar que. após o estabelecimento de funções auto-re- gulatórias, o sistema do self opera de forma totalmente automática. Os estímu- los ambientais desencadeiam o mecanismo regulador para produzir resultados previsíveis, à maneira do controle cibernético. Se isso fosse verdade, seria pos- sível estabelecer relações funcionais entre estímulos ambientais e respostas sem saber muita coisa sobre as características e os processas do sistema do self. Todavia, essa análise baseia-se em diversos pressupostos improváveis. Os limi- tes operacionais do modelo cibernético são numerosos demais para proporcio- narem uma narrativa adequada da mudança autodirigida. Considere apenas algumas das complexidades envolvidas. Na primeira etapa, um sistema auto- regulador exige o monitoramento minucioso e confiável do comportamento. Na realidade, é difícil codificar a maior parte dos comportamentos, pois eles são multifacetados, com cada aspecto variando em diversas dimensões rele- vantes. Conseqüentemente, deve-se contar com o julgamento integrativo em vez de sensores mecânicos predefinidos. Além das complexidades envolvidas na leitura do comportamento, a observação pessoal costuma ser episódica, em vez de continua. Quanto menor a qualidade da auto-observação, mais difícil será para se alcançar a mudança autodirigida (Kazdin, 1974; Mahoney, Moore, Wade e Moura, 1973). As demandas sobre o julgamento pessoal são ainda maiores nas opera- ções referenciais, que não podem se basear unicamente nas propriedades pre- determinadas do sistema. Os comportamentos devem ser avaliados em termos da variedade de circunstâncias em que ocorrem e comparados com padrões de referência que sintetizem várias fontes de informações comparativas. Estamos

Teoria social cognitiva

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lidando aqui com julgamentos avaliativos e comparativos compostos, em vez do um comparador mecânico, que compara as leituras de um sensor com um critério pré-programado, como no modelo do controle cibernético. Também não há nada de automático na quantidade, no tipo e na administração tempo- i.d de conseqüências pessoais. Para automatizar um sistema de auto-regulação, seria necessário pré-pro- gramar (a) um conjunto elaborado de sensores intricados, que decifrariam instantaneamente as informações contidas em novas combinações de variáveis relevantes que ocorrem em variações múltiplas, (b) um comparador que conti- vesse todos os padrões de referência possíveis, derivados dos vários fatores comparativos na rede relacional, e (c) um dispositivo pelo qual sinais compa ratívos diferenciais selecionariam automaticamente e desencadeariam auto- reações específicas, a partir de uma ampla variedade de respostas possíveis. É claro que o sistema exigiria um automonitoramento preciso e constante. Essas condições podem ser alcançadas em sistemas mecânicos e biológicos, que rea- lizam uma função rotineira e limitada e, assim, apenas envolvem algumas res- postas possíveis, reguladas por poucas variáveis. Um termostato, por exemplo, apenas é sensível a variações de temperatura, podendo apenas ligar e desligar, e está sempre atento as mudanças. Por causa da complexidade do funcionamento comportamental no input, thruughpiit e output, o processamento cognitivo ocupa o lugar da mecânica reflexiva. Quanto mais complexas são as atividades auto-reguladas, e quanto menos particularizadas as regras de decisão, mais fatores avaliativos entram no processo, e mais o processo se afasta da metáfora servo-cibcrnética me- cânica. A pré programação incompleta tem alguns benefícios claros. Um sistema de self psicocibernético totalmente automatizado produziria respostas comple- tamente previsíveis, mas com o elevado custo da rigidez. Quando as demandas adaptativas variam significativamente entre as situações e momentos, como normalmente fazem, aquilo que é funcional em um conjunto dc circunstâncias se torna disfuncional sob circunstâncias diferentes. A sensibilidade do feedback pré-programado aos benefícios imediatos produziria conseqüências adversas de longa duração. Um autômato que é autodirigido pelo feedback instantâneo de referenciais internos fixos levaria repetidamente a dificuldades sérias ou mesmo ao fim de sua existência. Na verdade, a auto-regulação atua em termos de propriedades básicas predeterminadas, mas também se baseia no julga- mento reflexivo para avaliar eventos comportamentais, para fazer compara- ções com referenciais e para selecionar respostas pessoais. Para se alcançar a plena automaticidade, também seria necessária a automatização do julgamen- to. Aqueles que têm uma visão totalmente "robótica" do processo enfrentam a tarefa de explicar como os autômatos programam autômatos e se uma regres- são dos programadores levaria a não-autômatos criativos, com a capacidade do pensamento reflexivo.

58 Bonduro, Ani, Polydaro & cols.

A INFLUÊNCIA RECÍPROCA DE FATORES EXTERNOS SOBRE FUNÇÕES AUTO-REGULADORAS

A teoria da aprendizagem social não considera as influências autopro duzidas como reguladores autônomos do comportamento, mas como influên- cias que contribuem para um sistema de interação recíproca. A variedade de fatores externos serve como influência recíproca na operação do sistema do self. Eles podem afetar os processos de auto-regulação de pelo menos três mo- dos principais: estão envolvidos no desenvolvimento das funções que com- põem os sistemas de auto-regulação; proporcionam amparo parcial para a ade são a contingências autoprescritas; e facilitam a ativação e desativação seleti- vas de contingências internas que governam a conduta.

0 desenvolvimento de funções auto-reguladoras

O desenvolvimento de capacidades de auto-reação exige a adoção de pa-

drões contra os quais o comportamento possa ser avaliado. Esses critérios in- ternos não ocorrem no vácuo. Os padrões comportamentais são estabelecidos por preceito, por conseqüências avaliativas que acompanham diferentes de- sempenhos e pela exposição aos padrões auto-avaliativos modelados por ou- tras pessoas (Bandura, 1976, 1977b; Masters e Mokros, 1974). As pessoas não absorvem seus padrões de comportamento passivamente dos estímulos ambientais que atuam sobre elas, mas extraem padrões genéricos da varieda-

de dc reações avaliativas que são exemplificadas e ensinadas por diferentes

indivíduos ou pelos mesmos indivíduos em diferentes atividades e diferentes cenários (Bandura, 1976; Lepper, Sagotsky e Mailer, 1975). Portanto, as pes- soas devem processar as informações divergentes e chegar a padrões pessoais, contra os quais possam avaliar o seu comportamento. As preferências associativas acrescentam outro elemento recíproco ao pro- cesso de aquisição. As pessoas às quais o indivíduo se associa regularmente influenciam em pane os padrões dc comportamento que ele adota. As orienta- ções dos valores, por sua vez, exercem influência seletiva sobre as escolhas de

suas atividades e seus associados (Bandura e Walters, 1959; Krauss, 1964).

Apoios cxlernos para sistemas de auto-regulação

Ao analisar a regulação do comportamento por meio de conseqüências autoproduzidas, deve-se distinguir duas fontes diferentes de incentivos que atuam no sistema. Em primeiro lugar, existem contingências de auto-recom pensa para que comportamentos designados criem incentivos proximais a fim

dc que o indivíduo se envolva nas atividades. Em segundo, existem incentivos

mais distais para se aderir às contingências autoprescritas.

Teoria social cognitiva

59

A adesão aos requisitos comportamentais para uma auto-recompensa é parcialmente sustentada por influências ambientais periódicas, que assumem uma variedade de formas (Bandura. 1977b). Primeiramente, existem as san- ções negativas para auto-recompensas não-merecidas. Quando os padrões estão sendo adquiridos ou quando são aplicados inconsistentemente, é pro- vável que recompensas indevidas por determinados comportamentos evo- quem reações criticas das outras pessoas. Sanções ocasionais por auto-re- compensas não-merecidas aumentam a probabilidade de que as pessoas não

se recompensem até que os comportamentos sejam adequados aos seus pa-

drões (Bandura, Mahoney e Dirks, 1976). As sanções pessoais também atuam promovendo essa adesão. Depois que as pessoas adotam códigos de conduta, quando desempenham inadequadamente ou violam seus padrões elas ten-

dem a engajar-se em auto-criticas e em outra linha de pensamentos pertur- badores. A antecipação da perturbação causada por esses pensamentos rela- cionados com comportamentos indevidos fornece um incentivo interno para

o indivíduo permanecer com seus padrões pessoais de comportamento

(Bandura, 1977b). Os incentivos negativos, sejam pessoais ou sociais, não são a base mais

confiável para fundamentar um sistema de auto-regulação. Felizmente, exis- tem razões mais vantajosas para exercer influência sobre o próprio comporta- mento por meio de incentivos auto-produzidos. Alguns desses benefícios são extrínsecos ao comportamento, enquanto outros derivam dele mesmo. As pessoas são motivadas a instituir contingências comportamentais para

si mesmas quando o comportamento que buscam mudar é adverso. Para pes-

soas obesas, os desconfortos, as doenças e os custos sociais da obesidade criam incentivos para controlar a sua hiperfagia. De maneira semelhante, os estu- dantes são levados a melhorar seu comportamento de estudar quando os fra- cassos nos trabalhos de curso tornam a vida acadêmica suficientemente difícil. Tornando a auto-recompensa condicional às realizações atingidas, os indiví- duos podem reduzir os comportamentos aversivos, criando benefícios naturais para seus esforços. Os benefícios da mudança auto-regulada podem ser incentivos naturais para a adesão a prescrições pessoais para atividades valorizadas, assim como para atividades desagradáveis. As pessoas freqüentemente se motivam com incentivos condicionais para promover suas habilidades em atividades que as- piram dominar. Nesse caso, os benefícios pessoais derivados do aumento da proficiência levam à prescrição de auto-contingências. Os incentivos auto- produzidos são especialmente importantes para garantir o progresso contínuo cm atividades criativas, já que as pessoas devem desenvolver seus próprios horários dc trabalho. Não existem cartões para bater ou supervisores para dar ordens. Ao analisar os hábitos de escrita e a disciplina pessoal de romancistas. Wallace (1977) documenta como romancistas famosos regulam sua produção escrita, condicionando gratificações à conclusão de uma certa quantidade de trabalho lodos os dias, independentemente da própria disposição.

60 Bandura, Azzi, Pbtydoro & cols.

Se as sociedades de baseassem unicamente em benefícios inerentes para

sustentar o uso de contingências pessoais, nunca aprenderíamos muitas ativi- dades que são cansativas e desinteressantes antes de adquirirmos proficiência nelas. Portanto, a manutenção de padrões é promovida socialmente por um vasto sistema de recompensas, incluindo elogios, reconhecimento social e hon- rarias. Poucas pessoas recebem louvores por auto-recompensarem seus com- portamentos medíocres. Receber elogios diretos ou enxergar alguém ser reco-

nhecido em público por excelência promove a adesão a padrões elevados de desempenho (Bandura, Grusec e Menlove, 1967).

A modelação é um meio poderoso para estabelecer o comportamento,

mas foi raramente estudada como um fator de manutenção. Considerando que o comportamento humano é amplamente regulado por influências modeladas, existem muitas razoes para esperar que, quando um individuo observa outras pessoas regulando o seu próprio comportamento por meio dc incentivos condi- cionais, é provável que aumente a adesão do observador às contingências autoprescritas observadas. Embora as funções auto-reguladoras sejam desenvolvidas e sustentadas ocasionalmente por influências externas, isso não nega o fato de que o exercí- cio dessa função determina em pane a maneira como as pessoas agem. No caso de tarefas difíceis, os estímulos ambientais não conseguem, isoladamen- te, produzir mudanças, ao passo que os mesmos incentivos, juntamente com auto-rccompcnsas condicionais se mostram bem sucedidos (Bandura e Perloff, 1967; Bellack, 1976; Mahoney, 1974; Switzky e Haywood, 1974; Flaxman e Solnick, Nota 1). As competências desenvolvidas por meio de auto-recompen- sas proporcionam que as pessoas ativem influências ambientais que, de outra forma, não entrariam em jogo. Isso se dá porque a maior pane das influências ambientais é apenas uma potencialidade, até que seja realizada pela ação ade- quada. Em outros casos, o componamento moldado por auto-recompensas leva as pessoas a alterarem importantes aspectos de seu meio. Como os determinantes pessoais e ambientais se afeiam de forma recí- proca, as tentativas de atribuir prioridade causal a essas duas fontes de influência se reduzem ao debate do "ovo ou galinha". A busca pelo determinante ambiental final de atividades reguladas pela influência pessoal se toma um exercício regressivo, que não pode produzir vencedores em contextos explicativos, pois, para cada causa ambiental evocada, é possível encontrar ações anteriores que ajudaram a produzi-la.

Ativoçõo e desativação seletivas de influências auto-reathras

A terceira área dc pesquisa sobre o papel de fatores externos na auto-

regulação gira em torno da ativação e desativação seletivas de influências auto

reativas (Bandura, 1977b). As teorias da internalizaçâo que retratam entida- des incorporadas (por exemplo, a consciência ou o superego códigos morais)

Too na sociol cognitiva

61

como supervisores internos constantes da conduta geralmente não conseguem explicar a operação variável do controle interno e a perpetração de atos desu- manas por pessoas que, de outra forma, são humanitárias. Na análise da aprendizagem social, pessoas ponderadas cometem atos recrimináveis por causa da dinâmica recíproca entre os determinantes pessoais

e situacionais do comportamento, em vez de defeitos em suas estruturas mo-

rais. O desenvolvimento de capacidades de auto regulação não cria um meca- nismo de controle invariável dentro da pessoa. As influências auto-avaliativas não atuam, a menos que sejam ativadas, e muitas dinâmicas situacionais in- fluenciam sua ativação seletiva. Depois da adoção de padrões de conduta ética e moral, as reações anteci- padas dc censura pessoal pela violação de padrões pessoais geralmente ser- vem como restrições pessoais contra atos repreensíveis (Bandura e Walters, 1959). É provável que as conseqüências restritivas sejam ativadas com mais força quando a conexão causai entre a conduta e os efeitos prejudiciais que ela produz não seja ambígua. Todavia, existem vários meios pelos quais é possível dissociar as conseqüências auto-avaliativas do comportamento repreensível. A Figura 2.4 mostra os diversos pontos no processo em que pode haver desengajamento. Um conjunto de práticas desativadoras atua no nível do componamento. Algo que é recriminável pode se tornar honrável por meio de justificativas morais e caracterizações paliativas (Gambino, 1973; Kelman, 1973). Nesse processo, a conduta repreensível se torna pessoal e socialmente aceitável, re- tratando-a a serviço dc finalidades morais ou benéficas. Essa reestruturação cognitiva do comportamento é um desinibidor especialmente efetivo, pois não apenas elimina restrições autoproduzidas, mas ativa recompensas pessoais a serviço do componamento. Outro conjunto de práticas dissociativas atua obscurecendo ou distorcendo

a relação entre as ações e os efeitos que causam. Deslocando e difundindo a

ações e os efeitos que causam. Deslocando e difundindo a FIGURA ?.4 Mecanismos pelos quais o

FIGURA ?.4 Mecanismos pelos quais o componamento é desengajado das consequências auio-av.ilintivas em diferentes pontas do processo comportamrntal.

62 Bandura, Azzi, Polydoro & cols.

responsabilidade, as pessoas não se consideram pessoalmente responsáveis por seus atos e, assim, abstêm-se das reações autoproibidas (Bandura, Underwood e Fromson, 1975; Milgram, 1974). Outras maneiras de enfraquecer as reações auto-restritivas é desconsiderar ou obscurecer as conseqüências das ações. Quando as pessoas partem para uma linha de ação que desaprovam para obter ganhos pessoais, ou por causa de outros incentivos, evitam enfrentar o mal que causam. É improvável que as reações de autocensura sejam ativadas enquanto as pessoas desconsiderarem os efeitos prejudiciais de sua conduta. O conjunto final de práticas de desativação atua no nível das pessoas que recebem os efeitos nocivos. A força das reações auto-avaliativas depende em parte de como são consideradas as pessoas para as quais as ações se dirigem. É menos provável que o abuso dc individuos considerados subumanos ou infe- riores produza aulo-reprovação do que se eles fossem vistos como seres huma- nos com qualidades dignificantes (Zimbardo, 1969). As interações prejudiciais geralmente envolvem uma série de ações reciprocamente incrementais, nas quais as vitimas raramente são inocentes. Sempre se pode selecionar, na ca- deia de eventos, um exemplo de um comportamento defensivo do adversário como sendo a instigação original. Culpando as vitimas, as próprias ações são desculpáveis. A desativação do controle interno, seja pelo meio que for, não é alcançada apenas por meio da deliberação pessoal. As pessoas têm apoio social nesse processo, por intermédio da doutrinação, expiação e estereotipação pe- jorativos de pessoas desfavorecidas. Como fica evidente na discussão antenor, o desenvolvimento de funções auto-reguladoras não cria um sistema dc controle automático, assim como as iníluências situacionais não exercem controle mecânico. Os julgamentos pes soais que atuam em cada subfunção impedem a automação do processo. F.xis- te liberdade para julgar se um determinado padrão comportamental é aplicá- vel. Devido à complexidade e à ambigüidade inerente na maioria dos eventos, existe ainda mais liberdade no julgamento do comportamento e dc seus efei- tos. Para aumentar ainda mais a variabilidade do processo de controle, a mai- oria das atividades ocorre dentro de arranjos coletivos que obscurecem a res- ponsabilidade pessoal, permitindo liberdade para julgar o grau dc agência pessoal em efeitos que são socialmente produzidos. Em suma, em uma dada atividade, existe um espaço considerável para fatores avaliativos pessoais in- fluírem ou não na ativação das influências auto-regulatórias.

A INFLUÊNCIA RECÍPROCA DE FATORES PESSOAIS NOS EFEITOS DO REFORÇAMENTO

O reforçamento costuma ser visto como um processo mecânico, no qual as respostas são modeladas de forma automática e inconsciente por suas con- seqüências imediatas. A premissa de automação do reforçamento é crucial para o argumento do controle ambiental unidirecional do comportamento. Somente se pode prescindir do chamado elo interno em cadeias causais conce-

Teorio sociol cognitivo

63

bendo-se que as pessoas respondam de forma mecânica aos estímulos exter- nos. POrém, as evidencias empíricas não sustentam essa visão (Bandura, 1977b; Bower, 1975; Mischel, 1973; Neisser, 1976). As influências externas agem prin- cipalmente por meio de processos cognitivos. Durante o reforço, as pessoas fazem mais do que simplesmente emitir respostas. Elas desenvolvem expectativas a partir de regularidades observadas sobre os resultados que provavelmente serão derivados de seus atos em deter- minadas situações. Contrário a alegações de que é controlado por suas conse- quências imediatas, o comportamento está relacionado com os seus resultados no nível de conseqüências agregadas, em vez de efeitos momentâneos (Baum, 1973). As pessoas processam e sintetizam informações contextuais e relacio- nadas com os resultados a partir de longas seqüências de eventos, com relação aos padrões de ação que são necessários para produzir certos resultados. A noção de que o comportamento é governado por suas conseqüências aplica-se melhor a conseqüências previstas do que a conseqüências reais (Bandura, 1977b). Já revisamos pesquisas que demonstram como as mesmas conseqüências ambientais têm efeitos notavelmente diferentes sobre o com- portamento, dependendo das crenças das pessoas sobre a natureza das rela- ções entre ações e resultados e do significado dos resultados. Quando a crença difere da realidade, o que é comum, o comportamento é pouco influenciado por suas conseqüências reais, até que se desenvolvam expectativas mais realis- tas por meio das experiências repetidas. Porém, nem sempre são as expectati- vas que mudam na direção da realidade social. A ação com base em expecta- tivas errôneas pode alterar a maneira como os outros agem, moldando assim a realidade social na direção das expectativas. Quando passam por experiências de reforçamento, as pessoas estão fa- zendo mais do que aprender as relações probabilísticas entre ações e resulta- dos. Elas observam o progresso que estão fazendo e tendem a estabelecer obje- tivos de melhora progressiva para si mesmas. Os pesquisadores que avaliaram

o estabelecimento de objetivos pessoais, além de mudanças no comportamen-

to, verificaram que os incentivos externos influenciam o comportamento, em parte por meio de seus efeitos sobre o estabelecimento de objetivos (Locke, Bryan e Kendall, 1968). Quando variações em objetivos pessoais são excluídas, os efeitos dos incentivos sobre o comportamento são reduzidos. As realizações de desempenho obtidas também proporcionam uma importante fonte de infor- mação de eficácia, usada para o julgamento das capacidades pessoais do indi- viduo. As mudanças na percepção de auto-eficácia, por sua vez, afetam as escolhas que as pessoas fazem de atividades, quanto esforço dedicam e quanto tempo persistem frente a obstáculos e experiências aversivas (Bandura, 1977a; Brown e Inouye, 1978). Devido aos determinantes pessoais dos efeitos do reforçamento, rastrear

o comportamento até os "reforços" ambientais não leva à conclusão da regres- são explicativa. Para prever como os resultados afetam o comportamento, deve se saber como o indivíduo os processa cognitivamente. Para entender plena

64 Bandura, Ani, Polydora & cols.

mcnlc os mccanismos pelos quais as conseqüências mudam o componamento, deve-se analisar as influências recíprocas dos fatores cognitivos.

0 DETERMINISMO RECÍPROCO COMO PRINCÍPIO ANALÍTICO GENÉRICO

Até aqui, a discussão abordou principalmente questões relacionadas com as interações recíprocas entre o componamento, o pensamento c os eventos ambientais, como ocorrem no nível individual. A teoria da aprendizagem so- cial trata o determinismo recíproco como um princípio básico para analisar fenômenos psicossociais em diferentes níveis de complexidade, variando do desenvolvimento intrapessoal ao desenvolvimento interpessoal, e ao funciona- mento interativo de sistemas sociais e organizacionais. No nível intrapessoal, as concepções das pessoas influenciam aquilo que elas percebem e fazem, c suas concepções são alteradas pelas efeitos de suas ações e pelas conseqüên- cias observadas nos outros (Bandura, 1977a; Bower, 1975). Os modelos do processamento de informações dizem respeito principalmente a operações mentais internas. Uma teoria abrangente também deve analisar a maneira como as concepções se convenem em ações, que fornecem alguns dos dados para as concepções. Na teoria da aprendizagem social, as pessoas desempenham o papel ativo de criar experiências que produzem informações, além de proces- sar e transformar os estímulos informativos que recebem. Isso envolve transa- ções recíprocas entre o pensamento, o comportamento e os eventos ambientais, que não são plenamente explicadas pela metáfora do computador. As pessoas não apenas percebem, aprendem e agem, elas também reagem a si mesmas, com capacidades para a autoconsciência reflexiva que geralmente são omiti- das nas teorias do processamento de informações baseadas em modelas de computador para o funcionamento humano. No nível do componamento interpessoal, já examinamos como as pes- soas determinam reciprocamente as ações umas das outras (Bandura ct al., 1960; Patterson, 1975; Raush et al., 1974). Embora a mutualidade do com- portamento possa ser o foco de estudo, os processos recíprocos envolvem a cognição além da ação. No nível da sociedade mais ampla, os processos recí- procos são refletidos na interdependência de elementos organizacionais, subsistemas sociais e relações transnacionais (Bandura, 1973; Keohane e Nye, 1977). Nesse caso, as questões de interesse são os padrões de interdependência entre sistemas, os critérios e os meios usados para medir desempenhos sistêmicos, os mecanismos que existem para exercer influência recíproca e as condições que alteram o grau e o tipo de controle recíproco que um sistema pode exercer sobre outro. É dentro do arcabouço do determinismo recíproco que o conceito de li- berdade adquire significado (Bandura, 1977b). Como as concepções das pes- soas, seu comportamento e seus ambientes são determinantes recíprocos entre si, os indivíduos não são objetos impotentes controlados por forças ambientais

Teoria sociol cognitiva

65

c nem agentes livres que podem fazer tudo o que quiserem. As pessoas podem

ser consideradas parcialmente livres até quando moldam condições futuras, influenciando suas linhas dc ação. Criando mecanismos estruturais de influên cia recíproca, como sistemas organizacionais de verificação e comparação, sís- temas legais e procedimentos eletivos c processuais adequados, as pessoas

podem influenciar umas às outras. Dessa forma, os mecanismos institucionais recíprocos não apenas proporcionam proteção contra o controle social unilate- ral, como os meios necessários para mudar as instituições e as condições da vida. No processo de determinismo recíproco, reside a oportunidade para as pessoas moldarem seus destinos, bem como os limites do autodirecionamento.

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3

A teoria social cognitiva na perspectiva da agência'

Albert Bandura

INTRODUÇÃO

Ser um agente significa fazer as coisas acontecerem de maneira intencio- nal, por meio dos próprios aios. A agência incorpora as características, siste- mas de crenças, capacidades de auto-regulação e estruturas, além de funções pelas quais o individuo exerce influência pessoal, em vez de consistir em uma entidade discreta que ocupa um determinado lugar. As características básicas da agência propiciam às pessoas desempenhar um papel em seu desenvolvi- mento, adaptação e renovação com o passar do tempo. Antes de apresentar a perspectiva da agência da teoria social cognitiva, a mudança de paradigma que o campo da psicologia atravessou em sua história merece uma breve dis- cussão. Nessas transformações teóricas, as metáforas básicas mudaram, mas,

em

sua

maioria,

as teorias propiciam

capacidade de agência.

aos seres

humano s

pouca

ou

nenhum a

MUDANÇAS DE PARADIGMA NA TEORIZADO PSICOLÓGICA

Inicialmente, grande parte da teorização psicológica baseava-se em princí- pios behavioristas que defendiam um modelo de input-ourput, conectados por um conduto interno que possibilita o comportamento, mas que não exerce ne- nhuma influência sobre o seu próprio comportamento. Segundo essa visão, o comportamento humano era moldado e controlado automatica e mecanicamen- te por estímulos ambientais. Essa linha de teorização acabou sendo descartada |H'lo advento do computador, que comparou a mente a uma calculadora biológi- ca. Esse modelo preenchia o conduto interno com diversas operações represen- tativas e computadorizadas, criadas por pensadores inteligentes e criativos. Sc os computadores são capazes de realizar operações cognitivas para resolver problemas, não há mais como negar o pensamento regulador dos se-

70 Bonduro, Ani, Polydoro & coU.

res humanos. O modelo dc input-output foi substituído por um modelo de input- linear throughput-output. A mente, assim como um computador digital, tor- nou-se o modelo conceituai da época. Embora o organismo irracional tenha se tornado mais cognitivo, ele ainda não tinha consciência e capacidade de agên- cia. Durante décadas, a metáfora do computador que predominava para o fun- cionamento humano era um sistema computacional linear, no qual as informa- ções eram inseridas cm um processador central que produzia soluções de acor- do com regras predeterminadas. A arquitetura do computador linear da época ditava o modelo conceituai do funcionamento humano. O modelo linear, por sua vez, foi substituído por modelos que realizam operações múltiplas de formas simultânea e interativa, de maneira a reprodu zir melhor o modo como o cérebro humano funciona. Nesse modelo, o input ambiental ativa um throughput dinâmico multifacetado que produz o output. Esses modelos dinâmicos envolvem redes neurais em níveis múltiplos, com funções intencionais dispostas em uma rede executiva subpessoal que opera

sem nenhuma consciência, por meio de subsistemas inferiores. Os órgãos sen- soriais transmitem informações para uma rede neural que age como o aparato mental, que interpreta, planeja, motiva e regula de forma não-consciente. Harre (1983) observa, em sua análise computacional, que não são as pessoas, mas sim suas partes componentes subpessoais que estão regendo seus cursos de ação. O nível pessoal envolve a consciência dos fenômenos e o uso propositado de informações e meios auto-reguladores para fazer acontecer aquilo que deseja. - A consciência é a substância fundamental da vida mental, que não apenas torna a vida pessoalmente administrável, mas também faz com que viver valha

a pena. Uma consciência funcional envolve o acesso propositado e o proces-

samento deliberado de informações para selecionar, interpretar, regular e ava- liar possíveis cursos de ação. Isso é alcançado pela mobilização intencional e pelo uso produtivo de representações semânticas e pragmáticas de atividades, objetivos e outros acontecimentos futuros. Em seu perspicaz livro sobre a ex- periência da cognição, Carlson (1997) enfatiza o papel central que a consciência desempenha na regulação cognitiva da ação e no fluxo de eventos mentais. Houve tentativas dc reduzir a consciência a um subproduto epifenomenal de atividades no nível subpessoal, a um subsistema executivo do aparato de processamento de informações, ou a um aspecto da atenção no processamento de informações. Como o legendário elefante que passa despercebido, nessas

narrativas subpessoais da consciência, não existe uma pessoa que concebe fina- lidades e age de forma propositada para realizá-las. Todavia, essas narrativas redutoras permanecem conceitualmente problemáticas, pois omitem os princi-

pais aspectos do ser humano, como a subjetividade, a auto-orientação deliberada

e a auto-reação reflexiva. Por razões que comentaremos em seguida, a consciên-

cia não pode ser reduzida ao subproduto não-funcional do output de um proces- so mental, realizado mecanicamente em níveis inferiores não-conscientes. Por que uma consciência epifenomenal que não pode fazer nada evoluiria e resisti- ria como um ambiente psíquico importante nas vidas das pessoas? Sem uma

Teoria socoí cogn tivo

71

consciência fenomenal e funcional, as pessoas essencialmente são autómatos superiores, que agem sem nenhuma subjetividade ou controle consciente. Is ses seres também não possuem uma vida fenomenal significativa ou uma identidade constante, derivada do modo como vivem suas vidas e refletem sobre elas. Green e Vervaeke (1996) observaram que, originalmente, muitos conexio- nistas e computacionalistas consideravam seus modelos conceituais como apro- ximações das atividades cognitivas. Contudo, mais recentemente, alguns se tornaram materialistas eliminatórios, comparando os fatores cognitivos com o vetusto fiogístico. De acordo com essa visão, as pessoas não agem seguindo suas crenças, aspirações e expectativas. Mo contrário, a ativação de sua estru tura de rede em um nível subpessoal as leva a agir. Em uma crítica ao climi- nativismo, Greenwood (1992) observa que as cognições são fatores psicológi- cos satisfatórios, cujo significado não depende das proposições explicativas em que aparecem. O (logístico não tinha nenhuma base de evidências ou valor preditivo. Por outro lado, os fatores cognitivos prevêem o comportamento hu- mano e são a base de intervenções efetivas. Para conseguirem sobreviver em um mundo complexo, repleto de desafios e perigos, as pessoas precisam fazer julgamentos corretos sobre suas capacidades, prever os efeitos prováveis de diferentes eventos e cursos de ação, avaliar oportunidades e limitações so- ciocstruturais c regular o seu comportamento de maneira adequada. Esses sistemas de crença são um modelo de trabalho do mundo, que propicia que as pessoas alcancem os resultados desejados c evitem os resultados desfavorá- veis. Portanto, as capacidades de prever, produzir e refletir são vitais para a sobrevivência e o progresso do ser humano. Os fatores da agência que são explicativos, preditivos e de valor funcional demonstrado podem ser traduzidos e modelados em outra linguagem teórica, mas não podem ser desconsiderados (Rottschaefer, 1985, 1991).

A TEORIA FISICAUSTA DAAGÊNCIA HUMANA

Conforme já discutimos, as pessoas não são apenas hospedeiras e espec- tadoras de mecanismos internos regidos pelos eventos ambientais. Elas são agentes das experiências, ao invés de simplesmente serem sujeitas a elas. Os sistemas sensorial, motor e cerebral são ferramentas que as pessoas usam para realizar as tarefas e as objetivos que conferem significado, direção e satisfação às suas vidas (Bandura, 1997; HarTC c Gillet, 1994). As pesquisas sobre o desenvolvimento cerebral enfatizam o influente pa- pel que a ação agente desempenha ao moldar a estrutura neuronal e funcional do cérebro (Diamond, 1988; Kolb e Whishavv, 1998). O que conta não é ape- nas a exposição a estímulos, mas a ação agente dc explorar, manipular e influen- ciar o ambiente. Regulando sua motivação e suas atividades, as pessoas produ- zem as experiências que formam o substrato ncurobiológico funcional de ha- bilidades simbólicas, sociais, psicomotoras c outras habilidades. É claro que a

72 Bandura, Ani, PoJydoro & cols.

natureza dessas experiências depende, em grande parte, dos tipos de ambien- tes sociais e físicos que as pessoas selecionam e constroem. A perspectiva da agência proporciona linhas de pesquisa que trazem novas visões sobre a cons- trução social da estrutura funcional do cérebro humano (Eisenberg, 1995). Esse é um campo de investigação em que a psicologia pode fazer contribuições fundamentais para a compreensão biopsicossocial do desenvolvimento, adap- tação e mudança do ser humano. A teoria social cognitiva defende um modelo de agência interativa emer- gente (Bandura, 1986, 1999a). Os pensamentos não são entidades imateriais desconectadas, que existem separadas dos eventos neurais. Os processos cognitivos são atividades cerebrais emergentes, que exercem influência deter- minante. As propriedades emergentes diferem qualitativamente de seus ele- mentos componentes e, assim, não podem ser reduzidas a eles. Usando a ana- logia de Bunge (1977), as propriedades emergentes singulares da água, como fluidez, viscosidade e transparência, não são simples propriedades agregadas de seus microcomponentes dc oxigênio e hidrogênio. Por intermédio de seus efeitos interativos, são transformadas em novos fenômenos. É importante distinguir as bases físicas do pensamento de sua construção deliberada e uso funcional. A mente humana c produtiva, criativa, proativa e reflexiva, c não apenas reativa. O dignificado enterro do dualista Descartes nos força a abordar o formidável desafio explicativo em busca de uma teoria fisicalista da agência humana e um cognitivismo não-dualista. De que maneira

as pessoas agem como pensadores dos pensamentos que determinam seus atos?

Quais são os circuitos funcionais da antecipação, proação planejada, aspira- ção, auto-avaliação e auto-reflexão? E, ainda mais importante, como esses cir- cuitos são recrutados intencionalmente? Os agentes cognitivos regulam suas ações por meio da causação cognitiva descendente, além da ativação ascendente por estimulação sensorial (Sperry, 1993). As pessoas podem, de forma intencional, conceber eventos singulares e

novos, além de diferentes cursos de ação, decidindo qual deles executar. Por exemplo, com um ímpeto indefinido para criar algo novo, é passível construir deliberadamente um cenário extravagante, com um gracioso hipopótamo vesti- do de smoking, voando sobre crateras lunares, enquanto canta a louca cena da ópera Lúcia di Lammermoor A intencionalidade e a agência levantam a questão

fundamental de como as pessoas criam atividades sobre as quais exercem con- trole pessoal e que ativam eventos neurofisiológicos subpessoais para compre- ender determinadas intenções e aspirações. Assim, ao agirem segundo a cren- ça razoável de que a prática de exercidos promove a saúde, os indivíduos se levam a fazer atividades físicas que produzem eventos biológicos que promo vem a saúde, sem observar ou saber como os eventos ativados funcionam no nível subpessoal. O resultado para a saúde é produto da causalidade da agên- cia e da causalidade dos eventos, atuando em diferentes fases da seqüência. Nossa disciplina psicológica segue por duas rotas divergentes principais.

A primeira linha de teorização visa esclarecer as mecanismos básicos que go-

Teoria social cognitivo

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vernam o funcionamento humano. Essa linha de investigação está amplamen- te baseada em microanálises do funcionamento interior da mente ao proces- sar, representar, recuperar e usar informações codificadas para lidar com di- versas demandas e em localizar onde a atividade cerebral ocorre para tais eventos. Geralmente, esses processos cognitivos são estudados de forma desconectada da vida interpessoal, de atividades intencionais e da auto-refle- xão. As pessoas são seres sensíveis e propositados. Quando enfrentam certas demandas em suas atividades, elas agem de forma intencional para fazer com que as coisas desejadas aconteçam, em vez de simplesmente se submeterem a acontecimentos em que forças situacionais ativam suas estruturas subpessoais para produzirem soluções. Em situações experimentais, os participantes ten- tam descobrir o que se espera deles, constroem hipóteses e testam sua adequa- ção reflexivamente, avaliando os resultados de seus atos. Eles estabelecem objetivos pessoais e se motivam para agir de maneira que agradem ou impres- sionem os outros ou lhes tragam satisfação pessoal. Quando enfrentam dificul- dades, falam consigo mesmos de formas auiocapacitantes ou autodebilitantes. Se considerarem que seus fracassos representam desafios que possam ser su- perados, dobram os seus esforços, mas se desanimam se lerem seus fracassos como indicadores de deficiências pessoais. Se acreditarem que estão sendo explorados, coagidos, desrespeitados ou manipulados, respondem de forma apática, opositora ou hostil. Esses fatores motivadores e outros fatores auto- reguladores que governam a maneira e o nível de envolvimento pessoal em atividades prescritas são considerados óbvios na ciência cognitiva, em vez de ser incluídos nas estruturas causais (Carlson, 1997).

A segunda linha de teorização gira em torno do funcionamento macroar.a-

lítico de fatores sociais no desenvolvimento, adaptação e mudança humanos. Dentro desse arcabouço teórico, o funcionamento humano é analisado como socialmente interdependente, abundantemente contextualizado e condicional- mente orquestrado dentro da dinâmica de subsistemas sodais variados e sua complexa inter-relação. Todavia, os mecanismos que relacionam os fatores socioestruturais com a ação nessa abordagem macroanalítica ficam sem expli- cação. Uma teoria abrangente deve amalgamar o dualismo analítico, integran- do focos pessoais e sociais de causação dentro de uma estrutura causal unificada. Nas vias de influência, influências socioestruturais operam por meio de meca- nismos psicológicos para produzir efeitos comportamentais. Retornaremos mais adiante a essa questão e ao caráter bidiredonal da influênda entre a estrutura sodal e a agência social.

AS CARACTERÍSTICAS BÁSICAS DA AGÊNCIA HUMANA

As características básicas da agência pessoal envolvem aquilo que signifi ca ser humano. As principais características da agência são discutidas nas ses soes n seguir.

76 Bonduro, Aza, Polydoro & cols.

pessoas apresentam um autodirecionamento considerável frente a influências distintas. Após adotar padrões pessoais, as pessoas regulam o seu comporta- mento por meio de auto-avaliações, que podem aumentar ou reduzir a in fluência de resultados externos.

Aulo-reatividade

Um agente não deve ser apenas um planejador e antecipador, mas um motivador e auto-rcguladon Após adotar uma intenção e um plano de ação, não se pode simplesmente relaxar e esperar que surjam os comportamentos adequados. Assim, a agência não envolve apenas a capacidade deliberada de fazer escolhas e planos de ação, mas a capacidade de dar forma a cursos de ação adequados e de motivar e regulara sua execução. Esse autodirecionamento multifacetado atua por meio de processos de auto-regulação que conectam o pensamento à ação. A auto-regulação da motivação, do afeto e da ação é go- vernada por um conjunto dc subfunções auto-referentes, que incluem o monitoramento pessoal, a orientação pessoal do comportamento e as reações pessoais corretivas (Bandura, 1986, 1991b). O monitoramento do próprio padrão de comportamento e das condições cognitivas e ambientais em que ele ocorre é o primeiro passo para fazer algo para afetá-lo. As ações abrem caminho para influências auto-reativas. pela com- paração do desempenho com objetivos e padrões pessoais. Os objetivos, basea- dos em um sistema de valores e cm um sentido de identidade pessoal, confe- rem significado e propósito às atividades. Os objetivos motivam, não de forma direta, e, sim por meio do envolvimento auto-avaliativo dc condições de igua- lação aos padrões pessoais, os indivíduos dão direção aos seus objetivos e criam auto-incentivos para mante r seus esforços na realização de seus objetivos. Fa- zem coisas que lhes dão satisfação e um sentido de orgulho e auto-valor, e não agem de maneira que lhes traga insatisfação, depreciação e censura. Os objetivos não ativam de forma automática as influências pessoais que governam a motivação c a ação. O auto-envolvimento avaliativo, pela criação de objetivos, é afetado pelas características dos objetivos, ou seja, sua espe- cificidade, nível de desafio e proximidade temporal. Os sub-objetivos gerais são indefinidos e descomprometidos demais para servirem como guias e in- centivos, mas o interesse e a absorção cm atividades são motivados por obje- tivos desafiadores. A efetividade auto-reguiadora dos objetivos depende em grande parte do quanto eles são projetados no futuro. Os sub objetivos próxima is mobilizam influências pessoais e direcionam aquilo que o indivíduo faz no aqui e agora. Os objetivos distais, por si só, estabelecem o curso geral das buscas do individuo, mas são muito distantes no tempo para representarem incentivos e guias efetivos para a ação no presente, se houver outras atividades que interessem o indivíduo. O progresso rumo a futuros valorizados pode ser melhor alcançado por meio de sistemas de objetivos estruturados de forma

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hierárquica, combinando aspirações distais com o autodirecionamento proximal. Os objetivos que têm propriedades auto-envolventes servem como grandes motivadores da ação (Bandura, 1991b; Locke e Latham, 1990).

A agência moral forma uma parte importante do autodirecionamento. As

teorias psicológicas da moralidade concentram-se no raciocínio moral, cm de- trimento da conduta moral. Uma teoria completa da agência moral deve conectar

o conhecimento e o raciocínio morais com a conduta moral. Isso exige uma

teoria da moralidade baseada na agência, ao contrário de uma teoria que se limite, principalmente, a cognições sobre a moralidade. O raciocínio moral é traduzido em ações por meio de mecanismos de auto-regulação, incluindo o julgamento moral na conduta do que é certo ou errado, avaliado contra pa- drões pessoais e circunstâncias situacionais e contra as auto-sanções que per- mitem o exercício da agência moral (Bandura, 1991a). No desenvolvimento da competência e das aspirações, os padrões pes- soais de mérito são identificados progressivamente à medida que o individuo

expande seu conhecimento e suas competências e vence desafios. Na conduta social e moral, os padrões de auto-regulação são mais estáveis. As pessoas não mudam aquilo que consideram certo ou errado e bom ou mau de uma semana para outra. Depois de adotarem um padrão de moralidade, as sanções negati- vas das pessoas para ações que violem seus padrões pessoais e suas sanções positivas para a conduta fiel a seus padrões morais servem como influências reguladoras (Bandura, 1991b). A capacidade para auto-sanções confere signi- ficado à agência moral. As auto-reações pessoais avaliadas antecipadamente provêem os reguladores motivacionais e cognitivos da conduta moral. As auto- sanções mantém a conduta em ordem com os padrões pessoais. Indivíduos que têm uma fone ética comum agem para promover o bem-estar dos outros, mes- mo ás custas de seus interesses pessoais. Frente a pressões situacionais para agir de forma desumana, as pessoas podem escolher agir de modo contrário, exercendo influência pessoal oposta. Não é incomum que indivíduos baseiem tanto o seu autovalor tão fortemente em certas convicções tão fortemente que

se submetam a tratamentos severos ou punitivos em vez de cederem ao que consideram injusto ou imoral.

O exercício da agência moral tem dois aspectos - um inibitório e um

proativo (Bandura, 1999b). A forma inibitória se manifesta na capacidade de não agir de forma desumana. A forma proativa de moralidade se expressa na capacidade de agir de forma humana. Entretanto, os padrões morais não funcionam como reguladores internos fixos da conduta. Os mecanismos de auto-regulação não atuam a menos que sejam recrutados em determinadas atividades. Existem muitas manobras psicossociais que podem desengajar seletivamente as auto-reações mornis da conduta desumana (Bandura, 1991b). Vários desses mecanismos de desconexão moral baseiam-se na reinterpretação cognitiva da própria conduta. Isso pode ser alcançado tomando a conduta prejudicial pessoal e socialmente aceitável, retnitando-a como algo que têm propósitos socialmente meritórios ou morais,

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Bonduro, Ani

Polydoro & cob.

mascarando-a cm uma linguagem com cufemismos sanitizadores e criando uma comparação com desumanidades piores. Outros mecanismos reduzem o sentido de agência pessoal para a conduta nociva pela difusão e deslocamento da responsabilidade. As auto-sanções morais também são enfraquecidas ou desconectadas no ponto final do processo dc controle, ignorando, minimizando ou questionando os efeitos prejudiciais da própria conduta. Um último grupo de práticas dcsconccta as auto-sanções rcstringentes. desumanizando a viti- ma, atribuindo-lhe qualidades bestiais e culpando a por causar o próprio sofri- mento. Os indivíduos que exercitam muito desengajamento moral sentem pouca culpa por sua conduta nociva, são menos pró-sociais e mais propensos a rumi- nação vingativa (Bandura et al., 1996b). Pelo desengajamento seletivo da agên- cia moral, as pessoas que, de outra forma, comportam-se corretamente e com consideração cometem transgressões e desumanidades em outras esferas dc suas vidas (Bandura, 1999b; Zimbardo, 1995).

Aulo-reflexáo

As pessoas não apenas são agentes da ação, mas auto-examinadores do

próprio funcionamento. A capacidade metacognitiva de refletir sobre si mes-

mo e sobre a adequação dos próprios pensamentos e ações é mais uma carac-

terística humana fundamental da agência. Pela auto-consáéncia reflexiva as pessoas avaliam suas motivações e valores, bem como o significado dps buscas

de suas \idas. É nesse nível superior de auto-reflexão que os indivíduos abor-

dam conflitos entre incentivos motivocionais e decidem agir em favor de um

ou outro. A verificação da solide/, do próprio pensamento também está ampla-

mente baseada em meios auto-reflexivos (Bandura, 1986). Nessa atividade metacognitiva, as pessoas julgam a adequação de seu pensamento preditivo e operativo contra os resultados de seus atos, os efeitos que os atos de outras pessoas produzem, aquilo em que os outros acreditam, deduções a partir do

conhecimento estabelecido c, consequentemente, o que ele acarreta. Entre os mecanismos da agência pessoal, nenhum é mais central ou pene- trante do que as crenças pessoais em sua capacidade de exercer uma medida de controle sobre o seu próprio funcionamento e as eventos ambientais (Bandura, 1997). As crenças de eficácia são a base da agência humana. A menos que as pessoas acreditem que podem produzir os resultados que desejam e prevenir os

resultados prejudiciais por meio de seus atos, elas terão pouco incentivo para agir ou perseverar frente a dificuldades. Independentemente de outros fatores que possam operar como guias e motivadores, elas se baseiam na crença básica

dc que é preciso ter poder para produzir efeitos por meio das próprias ações.

Algumas metanálises testemunham o papel de influência que as crenças de efi-

cácia desempenham no funcionamento humano (Holden, 1991; Holden et al., 1990; Multon et al., 1991; Stajkovic e Luthans, 1998).

Teoria social cognitivo

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A percepção de auto-eficácia ocupa um papel fundamental na estrutura

causal da teoria social cognitiva, pois as crenças de eficácia afetam a adapta

ção e a mudança, não apenas diretamente, mas por intermédio de seu impacto em outros determinantes (Bandura, 1997; Maddux, 1995; Schwarzer, 1992). Essas crenças influenciam se as pessoas peasam de forma pessimista ou otimis ta e de maneira que ajudem ou atrapalhem o indivíduo. As crenças de eficácia desempenham um papel central na auto-regulação da motivação, por meio de objetivas desafiadores c expectativas de resultados. Parcialmente, com base nas crenças de eficácia, as pessoas escolhem os desafios que querem enfrentar,

quanto esforço devem dedicar nesse sentido ou quanto tempo devem perseve- rar frente a obstáculos e fracassos, e se os fracassos são motivadores ou desmora- lizam es. A probabilidade de as pessoas agirem na direção dos resultados que esperam que seus desempenhos antecipados produzam varia de acordo com as crenças sobre se podem ou não produzir aqueles desempenhos. Um sentido de eficácia forte reduz a vulnerabilidade ao estresse e à depressão em situa- ções difíceis e fortalece a resiliéneia à adversidade. As crenças de eficácia também desempenham o papel fundamental de moldar os rumos que as vidas tomam, influenciando os tipos de atividades e ambientes em que as pessoas decidem se envolver. Qualquer fator que influen- cie a escolha comportamental pode afetar profundamente o rumo do desenvol- vimento pessoal. Isso se dá porque as influências sociais que atuam nos am- bientes selecionados continuam a promover certas competências, valores c in- teresses muito depois do determinante da decisão ter exercido o seu efeito inicial. Dessa forma, escolhendo e moldando os seus ambientes, as pessoas podem influenciar aquilo que se tornam

A velocidade das mudanças em informações, sociais e tecnológicas au-

menta o valor da eficácia pessoal para o desenvolvimento e a renovação pes- soais ao longo da vida. No passado, o desenvolvimento educacional dos estu- dantes era amplamente determinado pelas escolas onde estudavam. Atual- mente, a internet proporciona vastas oportunidades para que os estudantes controlem o seu próprio aprendizado. Eles têm hoje as melhores bibliotecas, museus, laboratórios e instrutores na ponta dos dedos, sem limitações de tem- po e de espaço. Indivíduos que são bons auto-reguladores expandem o seu conhecimento e suas competências cognitivas, enquanto os que são mau-regu- ladores são deixados para trás (Zimmerman, 1990). A auto-regulação também está se tornando um fator fundamental na vida ocupacional. No passado, os empregados aprendiam uma determinada ocupa- ção e a realizavam da mesma maneira e na mesma organização durante toda vida. Com o rápido ritmo de mudança, o conhecimento e as habilidades técnicas são ultrapassados velozmente, a menos que sejam adaptados para se encaixarem às novas tecnologias. No local de trabalho moderno, os trabalhadores precisam assumir o controle de seu desenvolvimento pessoal para uma variedade de posições e de carreiras ao longo de suas vidas de trabalho. Devem cultivar

80 Bandura, Ani, Polydoro & cols

competências múltiplas para satisfazer as inconstantes exigências e papéis ocupacionais. A adaptabilidade da agencia coletiva se aplica tanto no nível organizacional quanto no nível da mão-de-obra. As organizações devem ser apren- dizes rápidos e buscar a inovação de maneira contínua para, assim, sobreviver e prosperar com as tecnologias e mercados globais, que mudam de forma muito veloz. Elas enfrentam o paradoxo de se prepararem para a mudança no ápice do sucesso. Aqueles que são lentos para mudar, tornam-se grandes perdedores. A saúde ilustra a auto-regulação em outra esfera importante da vida. Nos últimos anos, houve uma grande mudança na concepção da saúde, de um modelo de doença para um modelo de saúde. A saúde humana é muito influen- ciada por hábitos relacionados com o estilo de vida e pelas condições ambientais. Isso possibilita que as pessoas exerçam um grau de controle sobre o seu estado de saúde. De fato, pelo autocontrole dos hábitos de saúde, as pessoas reduzem riscos e vivem vidas mais saudáveis e produtivas (Bandura, 1997). Se os imen- sos benefícios desses poucos habitas relacionados com o estilo de vida pudes- sem ser colocados cm uma pílula, isso seria uma descoberta espetacular no campo da medicina.

0 CONTROLE DA CASUALIDADE POR MEIO DA AGÊNCIA

As pessoas tem bastante controle sobre o seu desenvolvimento e as cir- cunstâncias de suas vidas, mas também existe muita casualidade nos rumos que as vidas tomam. De fato, alguns dos determinantes mais importantes de caminhos de vida ocorrem nas circunstâncias mais triviais. As pessoas, muitas vezes, começam trajetórias evolutivas, parcerias maritais, carreiras ocupacionais ou caminhos indesejáveis em suas vidas por causa de circunstâncias fortuitas. Considere a influência de eventos fortuitos na formação de relacionamentos conjugais. Um vôo atrasado por uma tempestade inesperada cria um encontro fortuito para duas pessoas que se sentam lado a lado no aeroporto, esperando que o tempo melhore. Esse acontecimento fortuito pode acabar em casamen- to, em uma mudança geográfica ou mudança em trajetórias profissionais, que não teriam ocorrido se o vôo não tivesse se atrasado por causa da tempestade súbita (Krantz, 1998). Um editor de livros entra em um auditório quase lotado para uma palestra sobre.a "Psicologia dos encontros fortuitos e caminhos de vida", e senta-se em uma cadeira peno da porta. Alguas meses depois, casa-se com a mulher que estava sentada ao seu lado. Com apenas uma mudança mínima no momento da entrada, os arranjos de lugares teria sido alterados, e suas vidas teriam rumos bastante diferentes. Formou-se um relacionamento marital de modo fortuito, em uma palestra dedicada aos determinantes fortui- tos de caminhos de vida (Bandura 1982)! Um evento fortuito em acontecimentos sociais é definido como um en- contro involuntário de pessoas desconhecidas. Embora as cadeias de eventos

Teoria sodol cognitiva

81

separadas em um encontro que ocorre ao acaso tenham os seus próprios determinantes, sua intersecção ocorre dc maneira fortuita, em ve/. de inten- cionalmente (Nagel, 1961). Isso não significa dizer que um evento fortuito não tenha uma causa, mas que, muito pelo contrário, existe muita aleatoriedade nas condições que determinam a sua intersecção. Entre os inúmeros elemen- tos fortuitos encontrados na vida cotidiana, muitos apenas tocam as pessoas levemente, outros deixam efeitos mais duradouros e outros ainda lançam as pessoas em novas trajetórias de vida. O poder das influências mais fortuitas não está tanto nas propriedades dos eventos, mas na constelação de influên- cias transacionais que mobilizam (Bandura, 1982, 1998). No lado pessoal, os atributos, os sistemas de crenças, os interesses e as competências das pessoas influenciam se um determinado encontro casual será convertido em um rela- cionamento duradouro. No lado social, o impacto de encontros fortuitos de- pende parcialmente do poder de retenção e moldagem dos meios sociais cm que as pessoas são iniciadas de forma casual. A casualidade não significa falta de controle sobre os efeitos. Existem maneiras em que as pessoas podem capitalizar o caráter fortuito da vida, fa- zendo o acaso acontecer, buscando uma vida ativa que aumente o nível e o tipo de encontros fortuitos que terão. O acaso favorece as pessoas inquisitivas e aventureiras, que vão a lugares diferentes, fazem coisas e exploram novas ati- vidades (Austin, 1978). As pessoas também fazem o acaso trabalhar para elas, cultivando seus interesses, possibilitando crenças pessoais e competências. Es- ses recursos pessoais possibilitam que aproveitem as oportunidades que sur- gem inesperadamente de tempos em tempos. Pasteur (1854) formulou bem essa questão quando disse que o "acaso favorece apenas a menre preparada". O desenvolvimento pessoal ajuda mais as pessoas a moldarem o seu destino nos caminhos de vida que trilham. Essas diversas atividades proativas ilustram o controle da casualidade pela agência. Os fatores fortuitos recebem pouca atenção na análise causal de trajetó- rias evolutivas, mas aparecem de forma proeminente em prescrições para rea- lizar futuros valorizados e proteger contra futuros prejudiciais (Bandura, 1995, 1997; Hamburg 1992; Masten et al., 1990; Rutter 1990). No lado do desenvol- vimento pessoal, os esforços envolvem cultivar recursos pessoais que propor- cionem que os indivíduos explorem casualidades promissoras. No lado da pro- teção, os indivíduos são amparados para expandir as capacidades auto-regula- doras que lhes possibilitam resistir a armadilhas sociais que levam a caminhos prejudiciais, e para se livrar desses apuros, caso se envolvam neles.

MODOS DE AGÊNCIA HUMANA

A teorização e a pesquisa sobre a agência humana têm se limitado essen- cialmente «*o exercido individual da agência humana Contudo, essa não é a

82 Bandura, Azxi, Polydofo & cols.

única forma em que as pessoas influenciam os eventos que afetam o modo como vivem suas vidas. A teoria social cognitiva diferencia três modos diferen- tes de agência humana: pessoal, delegada e coletiva. As análises anteriores giravam em torno da natureza da agência pessoal direta e dos processos cognitivos, motivacionais, afetivos e de escolha pelos quais é exercida para produzir determinados efeitos. Em muitas esferas do funcionamento, as pessoas não têm controle direto sobre as condições sociais e práticas institucionais que afeiam suas vidas cotidianas. Nessas circunstâncias, buscam o bem-estar, a segurança e aquilo que desejam pelo exercício da agên- cia delegada. Nesse modo de agência socialmente mediada, as pessoas ten- tam, dc um modo ou de outro, fazer com que indivíduos que tenham acesso a recursos ou conhecimentos ou que tenham influência e poder ajam em seu nome para garantir os resultados que desejam. Ninguém tem o tempo, a ener gia e os recursos necessários para dominar todas as áreas da vida cotidiana. O funcionamento bem sucedido envolve necessariamente que o indivíduo tenha um grau de agência delegada em certas áreas do funcionamento para liberar tempo e esforços para lidar diretamente com outros aspectos da sua vida (Baltes, 1996; Brandtstiidter, 1992). Por exemplo, as crianças necessitam dc seus pais, os parceiros, de seus cônjuges, e os cidadãos, de seus representantes legislativos para agir por eles. A agência delegada baseia-se amplamente na percepção de eficácia social para recrutar a intersecção de outras pessoas. As pessoas também podem buscar o controle delegado em áreas nas quais possam exercer influência direta. Quando não desenvolveram os meios para tal, acreditam que outras pessoas possam agir melhor, ou não querem se sobre- carregar com os aspectos incômodos que o controle direto acarreta. O controle pessoal não é um impulso inerente ou universalmente desejado, como se afir- ma normalmente, possuindo um lado oneroso que pode acabar com o apetite por ele. O exercício do controle efetivo envolve desenvolver conhecimentos e habilidades que somente são obtidos com longas horas de trabalho árduo. Além disso, para manter a proficiência nas condições inconstantes da vida, é necessário um investimento contínuo de tempo, esforço e recursos para a auto-renovação. Além do árduo trabalho do desenvolvimento pessoal, o exercício do con trole pessoal muitas vezes traz grandes responsabilidades, estressores e riscos. As pessoas não estão especialmente ávidas para carregar o fardo da respon- sabilidade nos ombros. Com freqüência, cedem o controle a intermediários em atividades sobre as quais px»deriam ter influência direta, de maneira a se liber- tarem das exigências e das responsabilidades onerosas que o controle pessoal acarreta. A agência delegada pode ser usada de maneira que promova o de senvolvimento pessoal ou impeça o cultivo de competências pessoais. No segundo caso, pane do preço da agência delegada é uma segurança vulne rávcl, que se baseia na competência, no poder e nos favores de outras pessoas. As pessoas não vivem suas vidas em isolamento. Muitas das coisas que el.is buscam somente podem ser alcançadas por meio de esforços socialmente

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interdependentes. Dessa forma, elas precisam trabalhar em coordenação com outras pessoas para obter aquilo que não conseguem realizar por con- ta própria. A teoria social cognitiva amplia a concepção de agência humana para a agência coletiva (Bandura, 1997). A crença comum das pessoas em seu poder coletivo para produzir resultados desejados é um ingrediente fundamental da agência coletiva. As realizações do grupo não apenas são produto das inten- ções. conhecimentos e habilidades compartilhadas de seus membros, mas tam-

bém da dinâmica interativa, coordenada e sinergísrica de suas transações. Como

o

desempenho coletivo de um sistema social envolve a dinâmica transacional,

a

eficácia coletiva percebida é uma propriedade emergente no nível do grupo,

e

não a simples soma das crenças de eficácia de membros individuais. Todavia,

não existe uma entidade emergente que opere independentemente das cren- ças e das ações dos indivíduos que formam o sistema social. São as pessoas, agindo em conjunto segundo uma crença comum, e não uma mente de grupo desincorporada, que percebem, aspiram, motivam e regulam. As crenças de eficácia coletiva têm funções semelhantes às funções das crenças de eficácia pessoal e atuam por processos semelhantes (Bandura, 1997).

Evidências obtidas por meio de diversas linhas de pesquisa confirmam o impacto da percepção dc eficácia coletiva sobre o funcionamento de grupos (Bandura, 2000). Alguns desses estudos avaliaram os efeitos da percepção de eficácia coletiva instilada de forma experimental em diferentes níveis. Outros estudos examinaram os efeitos de crenças de eficácia coletiva desenvolvidas naturalmente sobre o funcionamento de sistemas sociais diversos, incluindo sistemas educacionais, organizações empresariais, equipes atléticas, equipes de combate, bairros urbanos c grupos dc ação política. Vistos em conjunto, os resultados mostram que quanto mais forte for a percepção de eficácia coletiva, maiores serão as aspirações do grupo e o seu investimento motivacional em suas atividades, mais forte será a sua resistência frente a impedimentos e retro- cessos, mais elevado o moral e a resiliència a estressores, e maiores serão as suas realizações. As teorias sobre a agência humana e as coletividades estão repletas de dualismos opositores, que a teoria social cognitiva rejeita. Essas dualidades incluem agência social versus estrutura social, agência autocentrada versus sen- tido de comunidade, e individualismo versus coletivismo. A dualidade agência- MKioestrutural postula as teorias psicológicas e as teorias socioestruturais como concepções rivais do comportamento humano ou que representam diferentes níveis e proximidade temporal de causação. O funcionamento humano baseia-

se nos sistemas sociais e, portanto, a agência pessoal atua dentro de uma am-

pla rede de influências socioestruturais. Em sua maior pane, as estruturas so- ciais representam sistemas autorizados dc regras, práticas sociais e sanções que visam regular as relações humanas. Essas funções socioestruturais são

conduzidas por seres humanos que ocupam papéis autorizados (Giddens, 1984).

84 Bonduro, Ani, Polydoro & cols.

Demro das estruturas de regras dos sistemas sociais, existe muita varia- ção pessoal em sua interpretação, fiscalização, adoção, formas de burlai; e até mesmo na oposição ativa a elas (Burns e Dietz, 2000). Essas transações não envolvem a dualidade entre uma estrutura social materializada e desconectada das pessoas e a agência social, mas uma inter-relação dinâmica entre os indiví- duos e aqueles que presidem as operações institucionalizadas dos sistemas sociais. A teoria social cognitiva explica o funcionamento humano em termos da causação recíproca triádica (Bandura, 1986). Nesse modelo de causalidade recíproca, fatores pessoais internos, na forma de eventos cognitivos, afetivos e biológicos, padrões comportamentais e influências ambientais atuam como determinantes que interagem e se influenciam mutuamente de forma bidirecional. O ambiente não é uma entidade monolítica. A teoria social cognitiva diferencia três tipos de estruturas ambientais (Bandura, 1997), incluindo o ambiente imposto, o ambiente selecionado e o ambiente construído. Essas di- ferentes estruturas ambientais representam graus de mutabilidade, exigindo o exercício de limites e focos diferentes para a agência pessoal. Na teoria social cognitiva, os fatores socioestruturais atuam por meio de mecanismos psicológicos do sistema do self para produzir efeitos comporta- mentais. Assim, por exemplo, as condições econômicas, o status socioeconómico

c as estruturas familiares afetam o comportamento principalmente por meio

de seu impacto sobre as aspirações, o sentido de eficácia, os padrões pessoais, os estados afetivos e outras influências auto-reguladoras das pessoas, c não de forma direta (Baldwin et al., 1989; Bandura, 1993; Bandura et al., 1996a,

2000a; Élder e Ardeit, 1992). Do mesmo modo, os determinantes socioes-

adequadament e cm in-

fluências remotas e proximais. A pobreza, indexada como síafus socioeconómico baixo, não é tinia questão de causação múltipla ou distai. A falta de dinheiro para proporcionar a subsistência da família afeta completamente a vida coti- diana de maneira bastante proximal. A multicausalidade envolve a co-deter- minação do comportamento por diferentes fontes de influência, e não por de- pendências causais entre níveis diferentes. O sistema, do self não é um simples conduto para influências socioes- truturais- Embora o self tenha uma constituição social, pelo exercício da auto- influência, os agentes humanos agem de forma operativa e proativa, e não apenas reativamente, para moldar o caráter de seus sistemas sociais. Nessas transações agentes, as pessoas são produtoras, além de produtos de sistemas sociais. A agência pessoal e a estrutura social atuam de maneira inter- dependente. As estruturas sociais são criadas pela atividade humana, e as prá- ticas socioestruturais, por sua vez, impõem restrições e proporcionam recursos capacitantes e estruturas de oportunidade para o desenvolvimento e funciona

truturais e psicológicos

nã o podem

ser dicotomizados

mento pessoais. Outra dualidade questionável compara inadequadamente a auto-eficácia

e o individualismo autocentrado que alimenta o egoísmo, opondo-a a vínculos

Toono soòol cognitiva

35

comunitários e à responsabilidade cívica. O sentido de eficácia não exalta o self ou leva necessariamente a um estilo de vida, identidade ou moralidade indivi- dualisias que desprezam o bem-estar coletivo. Por meio do exercício incansá- vel de uma imperiosa auto-eficácia, Gandhi mobilizou uma grande força cole- tiva, que levou a importantes mudanças sociopolíticas. Ele viveu dc forma ascética, mas não auto-indulgente. Se a crença no poder para produzir resulta- dos for colocada a serviço dc objetivos relacionais e de propósitos sociais bené ficos, ela promoverá a vida comunitária, em vez de erodi-la. De fato, os estu- dos do desenvolvimento mostram que um sentido elevado de eficácia promove uma orientação pró-social, caracterizada pela cooperação, obsequiosidade e compartilhamento, com um interesse no bem-estar de todos (Bandura et al., 1996a, 1999, 2000b). Outra antítese dualista compara inadequadamente a auto-eficácia com o individualismo, e a joga contra o coletivismo no nível cultural (Schooler, 1990). As culturas não são entidades monolíticas estancas, como cenas representa- ções estereotipadas podem fazer crer. Essas classificações culturais globais mascaram a diversidade intracultural, assim como os tantos atributos comuns entre pessoas de diferentes origens culturais. Os sistemas socioculturais indivi- dualistas e coletivistas ocorrem em uma variedade de formas (Kim et al., 1994). Existe uma grande heterogeneidade de gerações e socioeconómica no caráter comunitário entre indivíduos em diferentes sistemas culturais, e uma variação intra-individual ainda maior nas relações sociais com familiares, amigos e co- legas (Matsumoto et al., 1996). Além disso, as pessoas expressam suas orienta- ções culturais dc forma condicional, em vez de invariavelmente, comportan- do-se como uma comunidade com determinadas estruturas de incentivos e de modo individualista com outras (Yamagishi, 1988). As comparações biculturais, que relacionam indivíduos de um lugar coletivista com indivíduos de um lugar individualista segundo índices globais, podem produzir muitas generalizações enganosas. Para que as pessoas possam reunir seus recursos e trabalhar juntas, os membros de um grupo devem assumir seus papéis e suas atividades coordena- das com um sentido elevado de eficácia. Não se pode alcançar uma coletivida- de eficaz com membros que vivem a vida consumidos por dúvidas pessoais importunas com relação à sua capacidade de sucesso e sua resistência frente a dificuldades. A eficácia pessoal é valorizada, não por causa da reverência ao individualismo, mas porque um sentido fone de eficácia é vital para o funcio- namento, independentemente de ser alcançado individualmente ou por mem- bros de um grupo trabalhando em conjunto. De fato, um sentido forte de eficá- cia pessoal para lidar com as circunstâncias da vida e para ajudar a influenciar as mudanças na sociedade contribui substancialmente para a percepção de eficácia coletiva (Femandez-Ballesteros et al., 2000). A pesquisa transcultural reafirma o valor funcional geral das crenças de eficácia. A percepção de eficácia pessoal contribui para o funcionamento pro-

86 Bonduro, Azri, Polydoro & cols.

dutivo dc membros de culturas eoletivistas, assim como faz para o funciona- mento de pessoas criadas em culturas individualistas (Barley, 1993, 1994). Entretanto, o envolvimento cultural molda a maneira em que as crenças de eficácia se desenvolvem, os propósitos aos quais se aplicam e os arranjos socioestruturais cm que melhor ocorrem. As pessoas de culturas individualis- tas se sentem mais eficazes c têm melhor desempenho em um sistema de orien- tação individual, ao passo que as de culturas eoletivistas se julgam mais efica- zes e trabalham de forma mais produtiva em um sistema de orientação grupai. Um sentido pobre de eficácia na vida é tão estressante em culturas eoletivistas quanto em culturas individualistas (Matsui e Onglatco, 1991). Existem eoletivistas em culturas individualistas e individualistas em cul- turas eoletivistas. Independentemente de sua origem cultural, as pessoas al- cançam maior eficácia pessoal e produtividade quando a sua orientação psico- lógica é congruente com a estrutura do sistema social (Barley, 1994). Tanto no nível de análise da sociedade quanto no individual, uma percepção forte de eficácia promove o esforço de grupo e as realizações. As culturas já não são mais insulares. As interdependências transnacionais

e as forças econômicas globais tem enfraquecido os sistemas normativos so- ciais e culturais, reestruturado as economias nacionais e moldando a vida po- litica e social das sociedades (Keohane, 1993; Keohane e Nye, 1977). Vínculos sociais e compromissos comunitários que não possam ser negociados são espe- cialmente vulneráveis à erosão pelas forças do mercado global, livres de obri- gações sociais. Por causa da ampla intereonexão global, o que acontece econo- mica e politicamente em uma parte do mundo pode afetar o bem-estar dc vastas populações cm outras partes. Além disso, as tecnologias avançadas de telecomunicações disseminam idéias, valores e estilos de comportamento en tre as nações em uma velocidade sem precedentes. O ambiente simbólico que se alimenta de satélites de comunicação está alterando as culturas nacionais e homogeneizando a consciência coletiva. Com o desenvolvimento contínuo do cibermundo, as pessoas estarão cada vez mais mergulhadas em ambientes sim- bólicos globais. Além disso, as migrações de pessoas em massa têm mudado as paisagens culturais. Essa diversidade étnica crescente confere valor funcional

à eficácia bicultural, para lidar com as demandas da cultura étnica própria do

indivíduo e da sociedade mais ampla. Essas novas realidades exigem ampliar os limites de análises transculturais, voltando o foco nas forças sociais que atuam dentro dos limites de determina- das sociedades para as forças externas que atuam sobre elas. Com o crescente envolvimento internacional e a interdependência das sociedades, e o enreda mento na cultura simbólica da internet, as questões de interesse giram em torno de como as forças nacionais e globais interagem para moldar a natureza da vida cultural. À medida que a globalização aprofunda-se cada vez mais nas vidas das pessoas, um sentido forte de eficácia coletiva para fazer os sistemas transacionais trabalharem para elas se torna crucial para promover os seus

interesses comuns.

Teoria sociol cognitivo

87

IMPEDIMENTOS À EFICÁCIA COLETIVA FRENTE ÀS MUDANÇAS DA SOCIEDADE

Os revolucionários avanços verificados nas tecnologias eletrônicas trans- formaram a natureza, o alcance e os locais de influência humana. Essas novas realidades sociais proporcionaram grandes oportunidades para as pessoas in- fluenciarem o seu desenvolvimento pessoal c para moldarem seu futuro social.

Todavia, muitas das condições contemporâneas da vida atrapalham o desen- volvimento e a manutenção da eficácia coletiva. As influências transnacionais distais têm amplos efeitos locais sobre as vidas das pessoas. É difícil desemba- raçar-se dessas forças transnacionais, e mais ainda controlá-las. Elas desafiam

a eficácia de sistemas governamentais para exercer uma influência determinante sobre sua vida econômica e nacional. À medida que aumenta a necessidade

por uma ação cívica coletiva e eficaz, também cresce o sentido de impotência coletiva. Sob as novas realidades do controle transnacional crescente, os Esta- dos Nacionais aumentam o seu poder de controle, fundindo-se em unidades regionais mais amplas, como a União Européia. Todavia, esses casamentos regionais não ocorrem sem um preço. De maneira paradoxal, para adquirir controle internacional, as nações precisam negociar pactos recíprocos que exi- gem uma certa perda da autonomia nacional e mudanças em modos de vida tradicionais (Keohane, 1993).

A vida cotidiana é cada vez mais regulada por tecnologias complexas, que

a maioria das pessoas não entende ou não acredita que possa influenciar. Para- doxalmente, as próprias tecnologias que criam para controlar o seu ambiente podem se tornar uma força restritiva que, por sua vez, controla o modo como pensam e agem. O aparato social da sociedade também representa um grande

desafio. Os beneficiários das práticas socioestruturais existentes controlam a sua influência para manter os seus interesses. As longas demoras entre a ação

e os resultados visíveis desestimulam iniciativas de mudanças de importância

social. Nas metafóricas palavras de John Gardner, "agir socialmente não é tra- balho para indivíduos com pouca energia". As iniciativas sociais para mudar vidas para melhor exigem fundir interes-

ses pessoais diversos, em favor de valores e objetivos básicos comuns. Os últi- mos anos testemunharam uma crescente fragmentação social em grupos de interesses divididos, cada um exibindo sua própria eficácia faccionaria. O pluralismo tem assumido a forma de um faccionalismo militante. Como resul- tado, as pessoas estão exercendo maior influência faccionária, mas realizando menos coletivamente, por causa da imobilização mútua. Além disso, a migra- ção em massa também pode contribuir para a fragmentação social. Dessa for- ma, as sociedades estão se tomando mais diversas e difíceis de unir cm tomo de uma visão e de propósitos nacionais.

A magnitude dos problemas humanos também reduz a percepção de efi-

cácia para encontrar soluções efetivas para eles. Problemas mundiais dc mag- nitude crescente instilam um sentido de paralisia, de que existe pouco que .is pessoas possam fazer para reduzir tais problemas. Os efeitos globais sáo pro

88 Banduro, Ani, Polydaro & cob.

dutos de ações locais. A estratégia de "pensar globalmente e agir localmente" é uma tentativa de restaurar nas pessoas um sentido de eficácia de que elas podem fazer alguma diferença. As aplicações macrossociais de princípios sociocognitivos pela mídia eletrônica ilustram como pequenos esforços coleti- vos podem ter um impacto substancial em problemas globais tão urgentes como o alarmante crescimento populacional (Bandura, 1997; Singhal e Rogers, 1999).

A PRIMAZIA EMERGENTE DA AGÊNCIA HUMANA NA COEVOUJÇÃO BIOSSOCIAL

Existe uma inquietação crescente com relação à alienação progressiva de diferentes aspectos da psicologia para a biologia. Os determinantes biológicos do comportamento humano têm sido amplamente anunciados, e as dinâmicas psicossociais s5o degradadas como neurodinámica. Teme-se que, à medida que cedermos cada vez mais da psicologia para disciplinas mais abaixo na cadeia alimentar, não sobrará nenhuma disciplina psicológica básica. A fragmentação

disciplinar, a dispersão e a absorção na neurociência, segundo nos dizem, talvez sejam o destino de nossa disciplina. Ao contrário das proclamações desses orá- culos, a psicologia é uma disciplina que singularmente abrange a inter-relação complexa entre os determinantes intrapessoais, biológicos, interpessoais e socioestruturais do funcionamento humano. A psicologia, portanto, é mais ade quada para promover o entendimento da natureza biopsicossocial integrada dos seres humanos e como eles controlam e moldam o mundo cotidiano ao seu redor. t. irônico que uma disciplina fundamental integrativa, que lida com toda

a pessoa, agindo dentro e sobre os ambientes, cogite fracionar e redistribuir

partes subpessoais para outras disciplinas. O campo da psicologia deveria estar articulando uma visão ampla dos seres humanos, e não uma visão fragmentária. Essa linha de pensamento de desapropriação é alimentada pelo redu- cionismo conceituai, o dualismo analítico entre genética e ambiente e o evo- lucionismo unilateral. Conforme observado anteriormente, os eventos mentais são atividades cerebrais, mas a fisicalidade não implica a redução da psicolo- gia à biologia. O fato de sabermos como funciona o aparato biológico pouco nos fala sobre como orquestrar esse aparato para propósitos diversos. Para usar uma analogia, o "software psicossocial" não pode ser reduzido ao "hardware biológico". Ambos são governados por seu próprio conjunto de princípios, que

deve ser estudado por seus méritos próprios. Grande parte da psicologia diz respeito a descobrir princípios sobre como estruturar ambientes para promover determinadas mudanças psicossociais c níveis de funcionamento. Esse tema exógeno não tem um correlato na teoria neurobiológica e, assim, as leis psicológicas não podem ser derivadas dele. Poi exemplo, o conhecimento da localização e de circuitos cerebrais que auxiliam

a aprendizagem pouco tem a dizer sobre como criar condições de aprendiza

gem em termos do nível de abstração, novidade e desafio; como proporcionai incentivos para que as pessoas observem, processem e organizem informações

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relevantes; de que modo as informações devem ser apresentadas; e se a apren- dizagem ocorre mais de forma independente, cooperativa ou competitiva. As melhores condições devem ser especificadas por princípios psicológicos.

O mapeamento da ativação dos circuitos neuronais que auxiliaram Martin

Luther King a fazer o discurso "Eu tenho um sonho" pouco nos fala de seu poderoso caráter socialmente inspirador, do esforço agente deliberado que le-

vou à sua criação e da paixão cívica que energizou a sua criação e declaração pública. Da mesma forma, análises nos níveis molecular, celular e bioquímico não explicam essas atividades da agência. Há pouco no nível neuronal que possa nos orientar como desenvolver pais, professores, executivos ou reformadores sociais eficazes. Os princípios psicológicos não podem violar as capacidades neurofisio- lógicas dos sistemas que os auxiliam. Contudo, os princípios psicológicos de-

vem ser perseguidos por seus próprios méritos. Se fôssemos entrar no escorre gadio terreno do reducionismo, a viagem atravessaria a biologia e a química e, finalmente, acabaria em partículas subatômicas. Devido às propriedades emer- gentes em diferentes níveis de complexidade, nem os pontos intermediários e nem a chegada às partículas subatômicas fornecem as leis psicológicas do com- portamento humano.

A biologização da psicologia, que ulnmamente tornou-se um grande mo-

dismo, também está sendo promovida pela adoção indiscriminada do evolucionismo unilateral. De forma a não ser ultrapassada, a genetização do comportamento humano tem sido promovida de forma mais fervente por evolucionistas psicológicos do que por evolucionistas biológicos (Buss c Schmitt, 1993; Bussey e Bandura, 1999). Nessas análises, o comportamento humano é prontamente atribuído a uma programação ancestral determinante e traços universalizados. Os evolucionistas biológicos enfatizam as pressões diver- sificantes da seleção para adaptação a diferentes tipos de meios ecológicos (Dobzhansky, 1972; Eausto-Sterling, 1992; Gould, 1987). Os meios sociais di- ferem de forma tão marcante que nenhum modelo de adaptação social se en- caixa em todas as situações.

A origem ancestral das estruturas corporais e das potencialidades biológi-

cas e os determinantes que governam as práticas sociais e os comportamentos contemporâneos são questões bastante diferentes. Como as potencialidades evoluídas podem ter diversos propósitos, a origem ancestral não determina o funcionamento social atual ou nenhum arranjo socioestnitural singular. Com freqüência, a multicausalidade do comportamento humano é colocada erronea- mente em termos da divisão da variação comportamental em uma percenta- gem hereditária e urna percentagem ambiental. Esse dualismo analítico está errado por diversas razões: desconsidera a interdependência intricada do hc- icditário e do ambiental. Além disso, o ambiente socialmente construído tem influência sobre a genética.

A teoria social cognitiva reconhece o influente papel dos fatores evoluídos na adaptação e mudança humanas, mas rejeita o evolucionismo unilateral.

90 Bonduro, Azzi, Polydoro & cols.

segundo o qual a biologia evoluída molda o comportamento, mas as pressões seletivas das inovações sociais e tecnológicas sobre a evolução biológica são ignoradas. Na visão bidirecional dos processos evolutivos, as pressões ambientais promoveram mudanças em estruturas biológicas e a postura ereta, que condu- ziram ao desenvolvimento e ao uso de ferramentas. Essas capacidades adquiri- das proporcionaram que o organismo manipulasse, alterasse e construísse no- vas condições ambientais. Inovações ambientais de complexidade crescente, por sua vez, criaram novas pressões seletivas para a evolução de capacidades cognitivas e de sistemas biológicos especializados para a consciência funcio- nal, o pensamento, a linguagem e a comunicação simbólica. A evolução humana proporciona estruturas corporais e potencialidades biológicas, e não ditames comportamentais. As influências psicossociais ope- ram por meio desses recursos biológicos para produzir formas adaptativas de comportamento. Tendo evoluído, as capacidades biológicas avançadas podem ser usadas para criar culturas diversas - agressivas, pacíficas, igualitárias ou autocráticas. Gould (1987) faz uma fone defesa de que a biologia impõe limi- tes que variam em natureza, grau e força sobre diferentes domínios de ativida- de, mas, na maioria das esferas do funcionamento humano, a biologia permite uma ampla variedade de possibilidades culturais. De maneira convincente, o autor argumenta que as evidências favorecem uma visão potencialista sobre uma visão determinista. Nessa análise criteriosa, a principal disputa explicativa não é entre a genética e o ambiente, mas se a genética opera como determinista ou potencialista. Por exemplo, os indivíduos altos têm o potencial de se torna- rem jogadores de basquete beni-succdidos. Contudo, a altura não predispõe á busca do basquete. Duvido seriamente que a composição genética dos nazistas alemães que cometeram uma barbárie sem precedentes seja realmente dife- rente da formação dos pacíficos suíços, que residiam na região alemã da Suíça. As pessoas possuem o potencial biológico para a agressividade, mas a resposta de agressividade à variação cultural está mais na ideologia do que na biologia. Gould ainda faz a interessante afirmação de que o determinismo biológi- co muitas vezes se disfarça na linguagem do interacionismo, para tomar-se mais palatável. Reconhece-se a coevolução bidirecional entre cultura e biolo- gia, mas a biologia evoluída é retratada como a força dominante. O lado cultu- ral dessa causação bidirecional, segundo a qual a composição genética é mol- dada pelas pressões adaptativas de ambientes socialmente construídos, recebe pouca atenção. O determinismo biológico também costuma se disfarçar na linguagem da mutabilidade: a maleabilidade de disposições evoluídas é reco- nhecida, mas atribui-se a potência determinante a elas, com cautela contra tentativas de mudar os arranjos e práticas socioestruturais existentes, suposta- mente determinados pelas disposições evoluídas. Essas iniciativas não apenas são consideradas fadadas ao fracasso, como socialmente prejudiciais, pois vão contra a regra da natureza (Wilson, 1998). Na visão dc Gould (1987), a biologia conduz a cultura em uma "rédea frouxa", ao passo que Wilson afirma que a biologia conduz a cultura em uma

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"rédea curta". O modo como se interpreta a natureza humana determina o nível em que as obstruções a mudanças socioestruturais são procuradas em desajustes genéticos ou em interesses pessoais arraigados. Os deterministas biológicos favorecem a regra da natureza, ao passo que os potencialistas bioló- gicos, que acreditam que a natureza humana permite uma variedade de possi- bilidades, atribuem maior peso a oportunidades, privilégios e poderes distri- buídos. Dessa forma, uma visão determinista biológica enfatiza restrições e limitações inerentes, enquanto a visão potencialista biológica enfatiza as possi- bilidades humanas. Existe muita homogeneidade genética em culturas, mas uma vasta diver- sidade em sistemas de crença e conduta. Devido a essa variabilidade, a co- dificação genética que caracteriza os seres humanos enfatiza o poder do am- biente regido por meio da agência. A agressividade, que tem uma suposta pro- gramação genética como um univerail biológico, é um bom exemplo. A ampla diversidade cultural desafia a visão de que as pessoas são inerentemente agres- sivas. Existem culturas bélicas que fomentam a agressividade, modelando-a universalmente, atribuindo a ela prestígio e valor funcional para obter sratus social, benefícios materiais e controle social. Também existem culturas paci- ficas, nas quais a agressividade interpessoal é uma raridade, pois é desvalori- zada, raramente modelada e não tem valor funcional (Alland, 1972; Bandura, 1973; Sanday, 1981). A diversidade intracultural também questiona a agressividade como uma natureza humana inata. Os Estados Unidos são uma sociedade relativamente violenta, mas os Quakers americanos, que estão plenamente imersos na cultu- ra. adotam o pacifismo como modo de vida. A terceira forma de variabilidade envolve a rápida transformação dc sociedades bélicas em sociedades pacíficas. Os suíços eram os principiais fornecedores de guerreiros mercenários na Euro- pa, mas, à medida que se transformaram cm uma sociedade pacifica, seus vestígios militaristas apenas são evidentes na plumagem da guarda do V&ticano. ftir eras, os vikings pilharam outras nações. Após uma prolongada guciTa com a Rússia, que exauriu os recursos da Suécia, a população se levantou e forçou uma mudança constitucional que proibiu os vikings de iniciar guerras (Moerk, 1995). Esse ato político prontamente transformou uma sociedade guerreira em uma sociedade pacífica, que atua como mediadora para a paz entre nações em guerra. Essa rápida metamorfose cultural enfatiza o poder do ambiente. Em comparações transculturais, a Suécia aparece com os menores níveis em todas as formas de violência. A visão determinista biológica tem ainda mais problemas por causa da velocidade das mudanças sociais. As pessoas mudaram pouco geneticamente nas últimas décadas, mas mudaram notavelmente por meio da rápida evolu- ção cultural e tecnológica em suas crenças, sua moral, seus papéis sociais e seus estilos de comportamento. Os sistemas sociais e estilos de vida têm sido alterados por meios sociais, em vez dos lentos e restritos processos de seleção biológica. Como Dobzhansky (1972) coloca sucintamente, a espécie humnn.i

92 Bonduro, Axzi. Polydoro & cols.

foi selecionada por sua capacidade de aprender e sua plasticidade de compor- tamento adaptativo a habitats notavelmente diversos, e não por fixação com- portamental. O ritmo das mudanças sociais presta testemunho de que a biolo- gia, de fato, permite inúmeras possibilidades. Dizer que uma das marcas dos seres humanos é a sua plasticidade não significa dizer que eles não tenham um componente natural (Midgley, 1978), ou que não tenham estrutura e sejam biologicamente ilimitados. A plasticidade, que é intrínseca à natureza dos seres humanos, depende de estruturas e de mecanismos neurofisiológicos especializados que evoluíram ao longo do tempo. Esses sistemas neurais avançados são especializados para canalizar a atenção, detectar a estrutura causal do inundo exterior, transfor- mar essas informações em representações abstratas e integra-las e usá-las para propósitos adaptativos. Esses sistemas evoluídos de processamento de infor- mações proporcionam a capacidade para características da agência que são distintamente humanas - a simbolização, a antecipação, a auto-regulação avaliativa, a autoconsciência reflexiva e a comunicação simbólica. Os sistemas neurofisiológicos foram moldados por pressões evolutivas, mas as pessoas não são apenas produtos reativos de pressões seletivas. Outras espécies são naturalmente programadas para a sobrevivência estereotipada em um determinado habitat. Em comparação, os estilos de vida humanos são, em grande medida, construídos pela experiência dentro de limites biológicos, em vez de já virem prontos. O exercício das capacidades da agência é um importante ator no processo de coevolução humana. As pessoas não apenas reagem às pressões seletivas, mas produzem novas pressões em uma velocida- de cada vez mais estonteante. ftjr meio da agência, as pessoas criam maneiras de se adaptar de forma flexível a ambientes geográficos, climáticos e sociais notavelmente diversos, descobrindo maneiras de tirar vantagem de limitações físicas e ambientais, reprojetando ou construindo ambientes conforme a sua vontade, criando esti- los de comportamento que lhes proporcionem realizar resultados desejados, e repassando os que são efetivos para outras pessoas, por meio da modelação social e de outros modos experimentais de influência. Por esses meios criati- vos, as pessoas aumentam suas chances no jogo da aptidão à sobrevivência. O crescimento do conhecimento cada vez mais aumenta o poder humano de con- trolar, transformar e criar ambientes de complexidade e conseqüências cres- centes. Construímos tecnologias físicas que alteram drasticamente a maneira como vivemos nossas vidas cotidianas. Criamos dispositivos mecânicos que compensam imensamente as nossas limitações sensoriais e físicas. Desenvol- vemos métodos médicos e psicológicos que nos proporcionam exercer algum grau de controle sobre nossas vidas físicas e psicossociais. Por intermédio da capacidade contraceptiva, que separou o sexo da procriação, os seres huma- nos superaram e assumiram o controle sobre o seu sistema reprodutivo evoluí- do. Carl Djerassi, que criou a pílula anticoncepcional, prevê que novos avanços em tecnologias reprodutivas separarão o sexo da fertilização, armazenando

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óvulos e injetando espermatozóides para reinserção uterina e parto em um momento de escolha pessoal (Levy, 2000). Os seres humanos criaram biotecnologias para substituir genes defeituo- sos, trocando-os por genes modificados, e para mudar a configuração genética de plantas e animais, implantando genes de diferentes fontes. Em uma nova tecnologia, que está avançando de maneira que deixa de lado os processos genéticos evolutivos, estamos criando clones e explorando métodos que po- dem alterar os códigos genéticos dos seres humanos. À medida que as pessoas criam tecnologias cada vez mais poderosas, que lhes possibilitam criar deter minados aspectos de sua natureza, o lado psicossocial da coevolução está ga- nhando preponderância. Assim, por intermédio da engenharia genética agêntica, os seres humanos estão se tomando os principais agentes de sua própria evolu- ção, para melhor ou para pior. Com o desenvolvimento da tecnologia, enxergamos a perspectiva de que uma construção social mais direta da natureza humana, por meio do projeto genético de seres humanos visando obter propriedades desejadas, cada vez mais chame a nossa atenção e levante questões éticas. 1\ido que é tecnologicamente possível acaba por ser aplicado. Conforme observado anteriormente, os fatores genéticos apenas propiciam possibilida- des, c não os atributos psicossociais terminados. Contudo, não faltam indiví- duos com os recursos necessários e crença no determinismo genético para fa- zer experimentos com a engenharia genética da natureza humana. Os valores em que acreditamos e as sistemas sociais que criamos para supervisionar os usos que nossas poderosas tecnologias recebem terão um papel fundamental naquilo que nos tomaremos e em como moldaremos o nosso destino.

AGRADECIMENTOS

A preparação deste capítulo c algumas das pesquisas citadas tiveram o apoio financeiro da Grant Foundation, da Spencer Foundation e da Jacobs Foundation. Algumas seções do capítulo incluem material revisado, atualiza- do e ampliado dos seguintes livros: Social foundations or thought and action: a social cognitivc theory, Prentice-Hall 1986; Sclfcfficacy: the excrase of control, Freeman 1997; e "A Social Cognitive Theory of Personality" in Handbook of Pcrsonality, ed. L Pervin, O John (2nd ed.), Guilford. Visite o site da Annual Revicws no endereço www.AnnualReviews.org

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Teoria social cognitiva e auto-eficácia:

uma visão geral

INTRODUÇÃO À TEORIA SOCIAL COGNITIVA

Frank Pajares

Fabian OUz

Em 1941, Neal Miller e John Dollard propuseram uma teoria, com base na aprendizagem social e na imitação, que rejeitava as noções behavioristas de associacionismo em favor dos princípios da redução de impulsos. Duas déca- das depois, Albert Bandura e Richard Walters (1963) ampliaram as fronteiras da teoria da aprendizagem social, com os hoje familiares princípios da apren- dizagem observacional e do reforço vicário. Sua visão da aprendizagem social não dependia de processos psicanalíticos; como a identificação; ou de pressu- postos behavioristas relacionados com a necessidade de reforço direto, hm vez disso, Bandura e Walters concentraram-se no papel crítico que os modelos sociais desempenham no funcionamento humano. Contudo, na década de 1970, Bandura compreendeu que faltava um elemento fundamental, não apenas nas teorias que predominavam à época, mas em sua própria teoria da aprendiza- gem social. Em 1977, com a publicação de Sclf-cfficacy: toward a unifying lheory of behaiioral change, ele identificou esse importante elemento que faltava - que os indivíduos criam e desenvolvem percepções pessoais sobre si mesmos, as quais se tornam instrumentais para os objetivos que perseguem e para o controle que exercem sobre o seu próprio ambiente. Uma década depois, com a publicação de Social foundaríons of thought and action: a social cognitive theory, Bandura (1986) começou a promover uma visão do funcionamento humano que previa um papel central para os proces- sos cognitivos, vicários, auto-reguladores e auto-reflexivos na adaptação e mudança humanas. Bandura mudou o rótulo de sua teoria, de aprendizagem social para social cognitiva, de maneira a distanciá-la das teorias da aprendiza- gem social preponderantes à época e para enfatizar o poderoso papel que a cognição desempenha na capacidade das pessoas de construir a realidade, auto-regularem-se, codificar informações e executar comportamentos Além disso, o rótulo havia se tornado enganoso, pois se aplicava a diversas teorias

98 Bandura, Aci, Polydoro & cols

baseadas em princípios dessemelhantes, incluindo a teoria do impulso de Miller e Dollard (1941), a teoria da expectativa de Rotter (1954) e a teoria operante de Gewirtz (1971). Na teoria social cognitiva de Bandura (1986), os indivíduos são auto- organizados, proativos, auto-reflexivos e auto-regulados, em vez de organis- mos reativos que são moldados e orientados por forças ambientais ou movidos por impulsos interiores encobertos. O pensamento humano e n ação humana são considerados produtos de uma intcr-relação dinâmica entre influências pessoais, comportamentais e ambientais. A maneira como as pessoas interpre- tam os resultados de seu próprio comportamento informa e altera os seus am- bientes e os fatores pessoais que possuem, os quais, por sua vez, informam e alteram o comportamento futuro. Essa é a base da concepção de Bandura (1986) do determinismo reciproco a visão de que:

a) fatores pessoais, na forma de cognições, afetos e eventos biológicos;

b) influências comportamentais;

c) ambientais criam interações que resultam em uma reciprocidade triádica.

A natureza recíproca dos determinantes do funcionamento humano na teoria social cognitiva possibilita que as intervenções terapêuticas sejam direcionadas para fatores pessoais, ambientais ou comportamentais. Por exem- plo, as estratégias usadas para aumentar o bem estar podem ser voltadas para aperfeiçoar os processos emocionais, cognitivas ou motivacionais que formam as bases dos fatores pessoais do indivíduo. Ou podem ser voltadas para melhorar capacidades e habilidades comportamentais ou ainda para alterar as condições sociais cm que as pessoas vivem e trabalham. Na escola, por exemplo, os profes- sores trabalham para promover a aprendizagem e a confiança acadêmica dos alunos sob seus cuidados. Usando a teoria social cognitiva como referência, os professores podem trabalhar para melhorar os estados emocionais de seus alu- nos e para corrigir suas autocrenças e hábitos negativos de pensamento (fato- res pessoais), melhorar suas habilidades acadêmicas e práticas aiito-regulatórias (comportamento) e alterar as estruturas da escola e da sala de aula que pos- sam atuar de maneira a minar o sucesso dos estudantes (fatores ambientais).

a minar o sucesso dos estudantes (fatores ambientais). Comportamento liumofio FIGURA 3.1 Modelo Ilustrando m

Comportamento

liumofio

dos estudantes (fatores ambientais). Comportamento liumofio FIGURA 3.1 Modelo Ilustrando m «'Lições entre

FIGURA 3.1 Modelo Ilustrando m «'Lições entre determinantes na causação recíproca triádea

Teorio social cognitiva

99

A teoria social cognitiva de Bandura opõe-se claramente a teorias do fun- cionamento humano que exageram o papel dos fatores ambientais no desen- volvimento da aprendizagem e do comportamento humano. As teorias behavioristas, por exemplo, demonstram pouco interesse em processos do self, pois os teóricos pressupõem que o funcionamento humano é causado por estí- mulos externos. Como se acredita que os processos interiores transmitem o comportamento, em vez de causá-lo, eles são rejeitados como um fator redun- dante nos processos de causa e efeito do comportamento e não merecem in- vestigação psicológica. Para Bandura, uma psicologia sem introspecção não pode aspirar a explicar as complexidades do funcionamento humano. Somen- te examinando a sua própria mente consciente, as pessoas tiram sentido de seus processos psicológicos. Para prever como o comportamento humano é influenciado por fatores ambientais, é crítico compreender como o indivíduo processa e interpreta esses fatores cognitivamente. Há mais de um século,

William James (1892/1985) afirmava que "antes de tudo e sempre, devemos nos basear na observação introspectiva" (p. 185). Conforme observou Bandura (1986), "uma teoria que nega que os pensamentos podem regular as ações não consegue explicar comportamentos humanos complexos" (p. 15). De maneira semelhante, a teona social cognitiva difere de teorias do funcio- namento humano que enfatizam a influência de fatores biológicos no desenvol- vimento e adaptação humanos. Embora reconheça a influência de fatores evolutivos na adaptação e mudança humanas, ela rejeita o tipo de evolucionismo que considera o comportamento social como produto da evolução biológica, mas não consegue explicar a influência que inovações sociais e tecnológicas (que criam novas pressões seletivas ambientais por adaptação) têm na evolução bio lógica (Bussey e Bandura, 1999). Pelo contrário, a teoria defende uma influência bidirecional, na qual pressões evolutivas alteram o desenvolvimento humano, de mineira que os indivíduos criam inovações ambientais cada vez mais comple- xas, as quais, "por sua vez, enam novas pressões seletivas para a evolução de sistemas biológicos especializados para consciência funcional, linguagem e co- municação simbólica" (p. 683). Essa influência bidirecional resulta na notável diversidade interculturaí e intracultural que é evidente em nosso planeta. A teoria social cognitiva baseia-se em uma visão da agência humana, se- gundo a qual os indivíduos são agentes que podem fazer coisas acontecerem com seus atos e se envolvem de forma proativa em seu próprio desenvolvimen- to. Fundamental a esse sentido de agência, há o fato de que, entre outros tatores pessoais, os indivíduos possuem autocrenças que lhes possibilitam exer- cer um certo grau de controle sobre seus pensamentos, sentimentos e ações, que "aquilo que as pessoas pensam, crêem e sentem afeta a maneira como se comporiam" (Bandura, 1986, p. 25). De fato, as crenças que as pessoas têm sobre si mesmas são elementos críticos em seu exercício de controle e agência (xvssoal. Assim, os indivíduos são produtos e produtores de seus ambientes e

Mstem . i s sociais. Como as vidas

lundum expandiu a concepção de agência humana para incluir a concepção

humanas não são vividas em isolamento,

1 0 0

Bonduro, Ani, Pofydoro 4 cok.

de agencia co/efiva. As pessoas trabalham juntas, com base em crenças com- partilhadas sobre suas capacidades e aspirações comuns, para melhorar as suas vidas. Essa extensão conceituai torna a teoria aplicável à adaptação e mudan- ça humanas em sociedades de orientação coletiva ou individual. O ambiente e os sistemas sociais influenciam o comportamento humano por meio de mecanismos psicológicos do sistema do seif. Assim, a teoria social cognitiva postula que fatores como condições econômicas, status socioeconómico e estruturas educacionais e familiares não afetam o comportamento humano diretamente. Esses fatores afetam o comportamento na medida em que in- fluenciam as aspirações, autopercepções, padrões pessoais, estados emocio- nais, atitudes e outras influências auto-regulatórias das pessoas. De um modo geral, a visão social cognitiva do funcionamento humano e coletivo teve uma profunda influência no pensamento e nas teorizações de estudiosos durante as duas últimas décadas do século XX e no novo milênio.

CAPACIDADES HUMANAS BÁSICAS

Enraizada na perspectiva social cognitiva de Ba n d ura, há a compreensão

ile que os indivíduos são imbuídos de certas capacidades que definem o que significa ser humano, principalmente as capacidades de simbolizar, planejar estratégias alternativas (antecipação), aprender com experiências vicárias, auto- regular e auto-refletir. Essas capacidades proporcionam aos seres humanos os meios cognitivos pelos quais influenciam e determinam o seu próprio destino. Os seres humanos possuem uma capacidade extraordinária de simbolizar. Usando suas capacidades simbólicas, conseguem tirar significado do seu am- biente, construir roteiros de ação, resolver problemas cognitivamente, defen- der linhas de ação antecipadamente, adquirir novos conhecimentos por meio do pensamento reflexivo e comunicar-se com os outros a distância no espaço e no tempo. Para Bandura, os símbolos são o veículo do pensamento e, simboli- zando suas experiências, as pessoas podem proporcionar estrutura, significa- do e continuidade para suas vidas. A simbolização também proporciona que as

pessoas armazenem as informações

tos futuros. É através desse processo que são capazes dc modelar o comporta- mento observado. - Pelo uso de símbolos, os indivíduos resolvem problemas cognitivos, en- gajam-se em autodirecionamento e antecipação. As pessoas planejam linhas de ação, prevêem as conseqüências prováveis dessas ações e estabelecem obje- tivos e desafios pessoais, de modo que possam motivar, orientar e regular as suas atividades. É por causa da capacidade de planejar estratégias alternativas que se podem prever as conseqüências de um ato, sem chegar a executá-lo. As pessoas não aprendem apenas com a sua experiência, mas também observando os comportamentos de outras pessoas. Essa aprendizagem vicária permite que os indivíduos aprendam um novo comportamento sem passar pelo

necessárias para orientar com porta me n

Teono social cognitiva

101

processo de tentativa e erro necessário para executá-lo. Em muitas situações, isso as protege do risco de cometer enganos potencialmente fatais. A observa- ção é simbolicamente codificada e usada como um guia para ação futura. A aprendizagem observacional é governada pelos processos de atenção, reten- ção e motivação. A atenção refere-se à capacidade do individuo de observar as ações de um modelo seletivamente. De sua parte, os comportamentos observa- dos somente podem ser reproduzidos se forem retidos na memória, um proces- so possibilitado pela capacidade humana de simbolizar. A produção refere-se ao processo de realizar o comportamento observado. Finalmente, se a realiza- ção do comportamento observado produzir os resultados desejados, o indivi- duo se sente motivado para adotar o comportamento e repeti-lo no futuro. Os indivíduos possuem mecanismos auto-reguladores que propiciam o potencial para mudanças autodirigidas em seu comportamento. A maneira e o grau em que as pessoas auto-regulam seus atos e comportamentos envolvem a precisão e coerência de sua auto-observação e automonitoramento, os julga- mentos que fazem com relação a suas ações, escolhas c atribuições e, final- mente, as reações avaliativas e tangíveis que têm ao seu próprio comporta- mento, por meio do processo de auto-regulação. Essa última subfunção inclui

o próprio self do individuo (seu autoconceito, auto-estima, valores pessoais) e

autoinotivadores tangíveis que atuam como incentivos pessoais para se com- portarem de maneiras autodirigidas. Para Bandura (1986), a capacidade que é mais "distintamente humana" (p. 21) é a da auto-reflexão, tornando-a um aspecto proeminente da teoria social cognitiva. Por intermédio da auto-reflexão, as pessoas tiram sentido de suas experiências, exploram suas próprias cognições e crenças pessoais, auto- a valiam-se e alteram o seu pensamento e seu comportamento.

CRENÇAS DE AUTO-EFICÁCIA

Entre todos os pensamentos que afetam o funcionamento humano, locali-

zadas no núdeo fundamental da teoria social cognitiva, destacam-se as crenças dc auto-eficácia, "julgamentos das pessoas em suas capacidades para organizar

e executar cursos de ação necessários para alcançar certos tipos de desem-

penho" (p. 391). Essencialmente, as crenças de auto-eficácia são percepções que os indivíduos têm sobre suas próprias capacidades. Essas crenças de com- petência pessoal proporcionam a base para a motivação humana, o bem-estar

e as realizações pessoais. Isso porque, a menos que acreditem que suas ações

possam produzir os resultados que desejam, as pessoas terão pouco incentivo para agir ou perseverar frente a dificuldades. Hoje, muitas evidências empíricas

sustentam a afirmação de Bandura de que as crenças de auto-eficácia influen- t iam praticamente todos os aspectos das vidas das pessoas - independente- mente de pensarem de forma produtiva, autodebilitante, pessimista ou otimis- ta , o quanto elas se motivam e perseveram frente a adversidades, sua

1 0 2

Bandura, Axzi, Polfdoro & cols.

vulnerabilidade ao estresse e à depressão e as escolhas que fazem em suas vidas. A auto-eficácia também é um determinante crítico de como os indivíduos regulam o seu pensamento e o seu comportamento.

O funcionamento humano é influenciado por muitos fatores. Os sucessos

ou fracassos que as pessoas encontram à medida que executam as muitas tare- fas que compreendem a sua vida naturalmente influenciam as muitas decisões que devem tomar. Além disso, o conhecimento e as habilidades que possuem certamente desempenharão papéis críticos no que decidem fazer e não fazer. Entretanto, é importante enfatizar que os indivíduos devem interpretar os re- sultados de suas realizações, assim como devem fazer julgamentos sobre a qualidade do conhecimento e das habilidades que possuem. Imagine, por exem- plo, um estudante que fica em terceiro lugar ao final do período acadêmico. Por si só, o fato de ficar em terceiro lugar não tem nenhuma propriedade cau- sal inerente. O que podemos prever sobre o quanto o fato de receber essa classificação pode afetar um determinado estudante? Um estudante que, ante- riormente, já havia ficado em primeiro lugar e que trabalhou arduamente 110 decorrer do período académico considerará ficar em terceiro de maneira bas tante diferente de um estudante que ficou em décimo lugar e que se dedicou

no mesmo nível. Para o primeiro, a classificação será vista com decepção; para

o outro, o terceiro lugar provavelmente seja recebido com entusiasmo. É pro-

vável que o estudante acostumado a ser o primeiro tenha a sua confiança pre-

judicada, ao passo que o estudante que normalmente fica em décimo certa- mente terá um aumento na confiança.

O argumento básico de Bandura (1997) com relação ao papel das crenças

de auto-eficácia no funcionamento humano é que a "nível de motivação, os estados afetivos e as ações das pessoas baseiam-se mais no que elas acreditam do que no que é objetivamente verdadeiro" (p. 2). Por essa razão, pode-se prever melhor a maneira como as pessoas agirão por meio de suas crenças em suas capacidades do que pelo que são realmente capazes de realizar, pois essas

percepções de auto-eficácia ajudam a determinar o que os indivíduos fazem com o conhecimento e as habilidades que possuem. Isso ajuda a explicar por que os comportamentos das pessoas às vezes não estão relacionados com suas capacidades reais e por que o seu comportamento pode diferir amplamente, mesmo que tenham conhecimentos e habilidades semelhantes. Por exemplo,

muitas pessoas talentosas sofrem crises frequentes (e às vezes debilitantes) de dúvidas pessoais com relação a capacidades que claramente possuem, assim como muitas indivíduos são confiantes 110 que podem realizar, apesar de pos- suírem um repertório modesto de habilidades. As crenças e a realidade nunca

se encaixam perfeitamente, e os indivíduos geralmente são orientados por suas

crenças quando se envolvem com o mundo. Como conseqüência, as realiza ÇÕes das pessoas geralmente são melhor previstas por suas crenças de auto eficácia do que por realizações anteriores, conhecimentos ou habilidades. K claro que nenhum grau de confiança ou de autocompicensão pode produzir o

sucesso na ausência de habilidades e conhecimentos necessários.

Teoria social cognitiva

103

É importante observar que as crenças de auto-eficácia são determinantes críticos de como conhecimentos e habilidades são inicialmente adquiridos^A afirmação de que as crenças de auto-eficácia são um ingrediente crítico do funcionamento humano condiz com a visão de muitos filósofos e estudiosos que argumentam que o poderoso caráter afetivo, avaliativo e episódico das crenças faz delas um filtro pelo qual se interpretam novos fenómenos (por exemplo, Aristóteles, James, Dewey, Kant. Maslow, Spinoza). Não se devem confundir as crenças de auto-eficácia das pessoas com seus julgamentos sobre as conseqüências que o seu comportamento produzirá. Geral- mente, é claro, as crenças de auto-eficácia ajudam a determinar os resultados que se esperam. Os indivíduos confiantes prevêem resultados bem-sucedidos. Estudantes confiantes em suas habilidades sociais prevêem encontros sociais bem-sucedidos. Aqueles que têm confiança cm suas habilidades acadêmicas es- peram tirar notas altas em exames e que a qualidade de seu trabalho lhes traga benefícios pessoais e profissionais. O oposto é verdadeiro para aqueles que não têm confiança. Estudantes que duvidam de suas habilidades sociais prevêem que serão rejeitados ou ridicularizados, mesmo antes de estabelecerem contato social. Aqueles que não têm confiança em suas habilidades acadêmicas já prevêem no- tas baixas antes de começarem o exame ou de se matricularem na disciplina. Qs resultados esperados desses comportamentos imaginários serão previstos de mãineira diferente: sucesso social ou mais opções de carreira para os primeiros, isolamento social ou poucas possibilidades acadêmicas para os últimos. Como as nossas próprias expectativas de resultado decorrem de nossa avaliação do que podemos realizar, é improvável que elas contribuam para prever o comportamento. Além disso, julgamentos de eficácia e de resultado são, algumas vezes, inconsistentes. Todavia, um sentido de eficácia elevado pode não resultar em comportamentos condizentes com essa crença se o indi- viduo também acreditar que aquele comportamento trará efeitos indesejáveis. Uma estudante com alta auto-eficácia com relação às suas capacidades acadê- micas talvez prefira nem tentar entrar para uma determinada universidade cujos requisitos de admissão desestimulam até os mais corajosos. Também é passível a coexistência de baixa auto-eficácia e expectativas de resultados po- sitivos. Por exemplo, estudantes podem compreender que é essencial ter habi- lidade em matemática para se obter um bom escore em um teste para entrar para a pós-graduação, e isso, por sua vez, pode garantir um estilo de vida confonável, mas é provável que a pouca confiança na habilidade em matemá- tica os afaste de certos cursos e carreiras. No campo social, um jovem pode entender que maneiras sociais agradáveis e atração física são essenciais para galantear uma jovem que foi vista por seus olhos, e isso pode levar a um interlúdio romântico e até a um relacionamento duradouro. Contudo, se tiver pouca confiança em suas capacidades sociais e dúvidas quanto à sua aparência física, ele não fará contato e, assim, perderá uma oportunidade promissora. Como os individuas agem coletiva e individualmente, a auto-eficácia é um constructo pessoal e social. Os sistemas coletivos desenvolvem um sentido

1 0 4

Bandura, Ani, Polydoro 4 cols.

de eficácia coletiva - a crença compartilhada pelo grupo em sua capacidade de alcançar objetivos e realizar tarefas desejadas. Por exemplo, as escolas desen- volvem crenças coletivas sobre a capacidade de seus estudantes de aprender, de seus professores de ensinar e de melhorar as vidas de seus alunos, e de seus administradores e conselhos de criar ambientes que levem a essas tarefas. As organizações que têm um fone sentido de eficácia coletiva exercem influências empoderadoras e vitalizadoras em seus participantes, e esses efeitos são palpá- veis e evidentes.

COMO SÃO CRIADAS AS CRENÇAS DE AUTO-EFICÁCIA

Os indivíduos formam suas crenças de auto eficácia interpretando infor- mações de quatro fontes principais. A fonte mais influente é a interpretação do resultado do comportamento anterior do individuo, ou experiência dc domínio. A medida que as pessoas realizam tarefas e atividades, elas interpretam os resultados de seus atos, usam as interpretações para desenvolver crenças sobre sua capacidade de participar de tarefas e atividades subseqüentes e agem dc acordo com as crenças criadas. Resultados interpretados como bem-sucedidos aumentam a auto-eficácia, ao passo que os que são interpretados como fracas sos a reduzem. Claro que pessoas com um sentido baixo de auto-efkácia mui- tas vezes fazem pouco caso dc seus sucessos, em vez de mudarem a crença. Mesmo depois de alcançar um objetivo por meio de seus esforços persistentes, alguns indivíduos continuam a duvidar dc sua eficácia para fazer um esforço semelhante. Conseqüentemente, as experiências de domínio são apenas dados brutos, e muitos fatores influenciam a maneira como tais informações são pro- cessadas cognitivamente e afetam a auto-avaliação do individuo. Além de interpretar as resultados de seus atos, as pessoas formam suas crenças de auto-eficácia por meio da experiência vicária de observar outras pessoas executando as tarefas. Essa fonte dc informações é mais fraca do que a experiência de domínio para ajudar a criar crenças de auto-eficácia, mas, quando as pessoas não estão certas de suas próprias capacidades ou quando tiveram pouca experiência anterior, elas se tomam mais sensíveis a ela. Os efeitos da modelação são particularmente relevantes nesse contexto, especialmente quan- do o individuo tiver pouca experiência com a tarefa. Contudo, mesmo indiví- duos experientes e auto-eficazes aumentam a sua auto-eficácia se modelos lhes ensinarem maneiras melhores de fazer as coisas. A experiência vicária é particularmente poderosa quando observadores enxergam semelhanças em alguns atributos e acreditam que o desempenho do modelo é diagnóstico de sua própria capacidade. Por exemplo, uma garota aumenta a sua percepção de eficácia física ao ver uma mulher apresentar força física, mas não ao ver um homem fazê-lo. Nesse caso, o gênero é o atributo da suposta similaridade. A observação do sucesso desses modelos contribui para as crenças dos observa- dores em suas próprias capacidades ("Se eles conseguem, cu também consi-

Teorio sociol cognitivo

1 0 5

go! n ). Da mesma forma, assistir modelos com atributos semelhantes fracassa rem pode prejudicar as crenças dos observadores em sua própria capacid.ide de sucesso. Quando as pessoas consideram os atributos dos modelos como muito diferentes dos seus, a influência da experiência vicária é bastante redu zida. Cabe observar que as pessoas procuram modelos que possuam as quali- dades que admiram e capacidades às quais aspiram. Um modelo importante na vida do individuo pode ajudar a incutir crenças pessoais que influenciarão

o rumo e o sentido que a vida deve tomar. Os indivíduos também criam e desenvolvem crenças de auto-eficácia como resultado de persuasões sociais que sofrem de outras pessoas, podendo envol- ver a exposição a julgamentos verbais que os outros fazem. Os persuasores desempenham um importante papel no desenvolvimento das crenças de um indivíduo. Porém, as persuasões sociais não devem ser confundidas com elo- gios ou louvores vazios. Os persuasores efetivos devem cultivar as crenças das pessoas em suas capacidades, enquanto garantem que o sucesso imaginado é alcançável. E, assim como as persuasões positivas podem encorajar e empoderar, as persuasões negativas podem funcionar de modo a frustrar e enfraquecer as crenças de auto-eficácia. De fato, geralmente é mais fácil enfraquecer crenças de auto-eficácia por meio de avaliações negativas do que fortalecer tais cren- ças por meio de encorajamentos positivos. Estados somáticos e emocionais, como a ansiedade, o estresse, a excitação

e os estados de humor, também proporcionam informações sobre as crenças de auto-eficácia. As pessoas podem avaliar o seu grau de confiança por seu estado fisiológico enquanto pensam em uma determinada ação. Reações emocionais fortes a uma tarefa fornecem pistas sobre a previsão de sucesso ou fracasso. Quando as pessoas têm pensamentos negativos c temores sobre suas capacida des, as reações afetivas podem reduzir as percepções de auto-eficácia e desen- cadear mais estresse e agitação, que ajudam a causar o desempenho inadequa- do e temido. Uma maneira de aumentar as crenças de auto-eficácia é promo- ver o bem-estar emocional e reduzir estados emocionais negativos. Como os indivíduos têm a capacidade de alterar seus próprios pensamentos e sentimen- tos, a promoção de crenças de auto-eficácia pode influenciar poderosamente os próprios estados fisiológicos. Conforme observou Bandura (1997), as pes- soas vivem em ambientes psíquicos que, antes dc tudo, são sua própria cria- ção. Um século antes, James (1892/1985) observou que "nosso sentimentos pessoais estão sob nosso poder" (p. 55). As fontes de informação para a auto-eficácia não se traduzem diretamen- te em avaliações de competência. Os indivíduos interpretam os resultados dos acontecimentos, e essas interpretações proporcionam as informações que fun- damentam seus julgamentos. Os tipos de informações as quais as pessoas pres- tam atenção e usam para fazer julgamentos de eficácia, bem como as regras que empregam para avaliá-los c integrá-los, formam a base dessas interpreta çóes. Assim, a seleção, integração, interpretação e recordação de informações influenciam os julgamentos de auto-eficácia.

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Bandura, Aci, Polydoro & cols.

COMO AS CRENÇAS DE AUTO-ÉFICÁCIA INFLUENCIAM O FUNCIONAMENTO HUMANO

Fones crenças de auto-eficácia promovem as realizações humanas e o bem-estar de incontáveis maneiras. Os indivíduos confiantes abordam tarefas difíceis como desafios a serem dominados, em vez de ameaças a serem evita- das. Eles tem maior interesse e absorção nas atividades, estabelecem objetivos difíceis para si mesmos e mantém um forte compromisso com esses objetivos, aumentando e mantendo seus esforços frente ao fracasso. Também recuperam a confiança mais rapidamente após fracassos ou retrocessos e atribuem o fra- casso a esforços insuficientes ou conhecimentos deficientes, e habilidades que podem ser adquiridas. As crenças de auto-eficácia ajudam a determinar quan- to esforço as pessoas dedicarão a uma atividade, quanto tempo elas persevera- rão quando confrontarem obstáculos e o quanto serão resilientes frente a situa- ções adversas. Quanto maior o sentido de eficácia, maior o esforço, a persis- tência e a resiliéneia. Como conseqüência, as crenças de auto-eficáda também influenciam as escolhas que as pessoas fazem e os cursos de ação que procu- ram. Os indivíduos tendem a selecionar tarefas e atividades em que se sintam competentes e confiantes e evitam aquelas em que não se sentem assim. A menos que as pessoas acreditem que seus atos terão as conseqüências deseja- das, elas têm poucos incentivos para se envolver nessas ações. Por exemplo, até que ponto o interesse em arquitetura levará um estudante que se sinta incapaz em geometria? Independentemente dos fatores que operam para in- fluenciar o comportamento, eles estão enraizados na crença básica de que se tem a capacidade necessária para executar esse comportamento. As crenças de auto-eficácia também influenciam a quantidade de estresse e ansiedade que os indivíduos sentem à medida que se envolvem em uma ativi- dade. Altas crenças de auto-eficácia ajudam a criar sentimentos de serenidade ao se abordarem tarefas e atividades difíceis. De maneira contrária, pessoas com baixa auto-eficácia podem acreditar que as coisas são mais difíceis do que realmente são, crença esta que provoca ansiedade, estresse, depressão e uma visão limitada sobre a melhor forma de resolver um problema. Essa função das crenças de auto-eficácia também pode criar um tipo de profecia auto-realizá- vel, na qual o indivíduo alcança aquilo que acredita que consegue alcançar. Ou seja, é provável que o esforço, a persistência e a perseverança associados à auto-eficácia elevada levem a um desempenho melhor, que, por sua vez, au- menta o sentido de eficácia e a disposição do indivíduo ainda mais, ao passo que a desistência associada h baixa auto-eficácia ajuda a garantir o próprio fracasso que reduz a confiança e o ânimo. Todavia, a influência das crenças de auto-eficácia sobre o funcionamento humano é afetada por diversos fatores. Pode haver desincentivos e limitações ao desempenho; ou seja, mesmo pessoas muito auto-eficazes e habilidosas podem decidir não se comportar de acordo com suas crenças e habilidades porque simplesmente não têm incentivo para fazê-lo, pois não possuem os

Teoria social cognitivo

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recursos necessários ou porque percebem limitações sociais para o caminho ou resultado que imaginam. Nesses casos, a eficácia não conseguirá pn-ver o de- sempenho. Um indivíduo pode se sentir capaz, mas não fazer nada porque se sente impedido por essas limitações reais ou imaginárias. Não é incomum que indivíduos superestimem ou subestimem as suas capa- cidades e sofram as conseqüências de tais erros de avaliação. Essas consequências do julgamento erróneo desempenham um papel no processo contínuo de auto- avaliação da eficácia. Quando as conseqüências são leves, os indivíduos podem não sentir a necessidade de reavaliar suas capacidades e podem continuar a se envolver em tarefas além de sua competência. Nessas situações, a relação entre as avaliações de eficácia e o comportamento subseqüente será confundida pela avaliação incorreta das habilidades. A aulo-eficácia também deve ser verificada periodicamente, para se avaliar o efeito das experiências sobre a competência, pois o grau de relação entre a auto-eficácia e a ação é afetado por disparidades temporais. Fortes crenças de auto-eficácia são resistentes e previsíveis, porque geralmente são produtos do tempo e de experiências múltiplas. As crenças Áti- cas, por sua vez, exigem uma reavaliação constante para servirem como indica- dores. Mas ambas, ó claro, são suscetíveis a experiências ou conseqüências pode- rosas, produzidas por uma determinada ação ou conjunto de ações. Embora as crenças de auto-eficácia exerçam uma poderosa influência na ação humana, diversos fatores podem afetar a força da relação. É importante conhecer a natureza precisa das habilidades necessárias para realizar um de- terminado comportamento, pois a avaliação errada das sub-habilidades neces- sárias resulta em discrepâncias entre a auto-eficácia e o desempenho, e o pro- blema piora quando os indivíduos precisam fazer avaliações da eficácia de suas próprias habilidades cognitivas. De maneira semelhante, quando os indi- víduos não estão certos da natureza de sua tarefa, suas avaliações de eficácia podem enganá-los. Tarefas percebidas como mais difíceis do que realmente são resultam em leituras imprecisas de pouca eficácia, ao passo que as percebi- das como menos difíceis podem resultar em um excesso de confiança. Os indi- víduos muitas vezes percebem que apenas dominam suas capacidades parcial-. mente, sentindo-se mais competentes com relação a alguns componentes do que a outros. A maneira como enfocam e avaliam esses componentes afetará muito o seu sentido de eficácia com relação à tarefa a ser realizada. Se houver a percepção de obstáculos Obscuros e ambigüidade no desempe- nho, a auto eficácia será de pouca utilidade para prever resultados com- portamentais, pois os indivíduos não têm uma idéia clara de quanto devem se esforçar, quanto tempo devem manter o seu esforço e como corrigir passos erra- dos e avaliações incorretas. Os objetivos de uma tarefa e os níveis de desempe- nho exigidos para a execução devem ser avaliados cuidadosamente para que os julgamentos de auto-eficácia sirvam como reguladores e indicadores do desem- penho. Esse fator é especialmente relevante em situações em que as "realizações do indivíduo são socialmente julgadas por critérios mal-definidos. de modo que seja necessário contar com outras pessoas para descobrir como se está indo"

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Bonduro, Ani. Polydoro & eols.

(Bandura, 1986, p. 398). Nessas situações, as pessoas não possuem a experiên- cia necessária para avaliar precisamente o seu sentido de eficácia e não têm opção senão mensurar suas capacidades com base no conhecimento dc outras experiências, que muitas vezes são indicadores fracos do desempenho necessá- rio. Esse autoconhecimento deficitário pode ter resultados imprevisíveis. Finalmente, em sistemas mal-estruturados, os indivíduos podem verificar que não existe quantidade de esforço e habilidade capaz de levar aos resulta- dos desejados. Nesses casos, as pessoas podem possuir a capacidade e a auto- eficácia necessárias, mas podem não apresentar um bom desempenho porque não têm incentivo. Quando limitações sociais e recursos inadequados impe- dem os esforços do individuo e dificultam a realização de uma atividade, a auto-eficácia pode exceder o desempenho, não porque os indivíduos não sai- bam como fazer o que acreditam que sabem, mas porque são impedidos de fazer o que sabem que sabem.

AVALIANDO AS CRENÇAS

DE AUTO-EFICÁCIA

Não há como não superenfatizar que, ao se explorar a relação entre a eficácia e o comportamento, devemos estar certos em avaliar as crenças de auto-eficácia relevantes para o comportamento em questão, e vice-versa. A avaliação incorreta de percepções pessoais ou de desempenho criará uma rela- ção ambígua. Dc qualquer maneira, devem-se criar medidas da auto-eficácia específicas para o domínio do funcionamento que está sendo investigado. Além disso, Bandura (1997) advertiu aos pesquisadores que tentam prever resulta- dos comportamentais a partir de crenças de eficácia que, para aumentar a precisão da previsão, as "crenças de auto-eficácia devem ser mensuradas em termos de julgamentos particularizados de capacidades que podem variar cm diferentes áreas de atividade, diferentes níveis de exigências dentro de uma mesma área de atividade e em diferentes circunstâncias' (p. 6). Além disso, deve-se avaliar a auto-eficácia em um nível ótimo de espe- ciíicidade que corresponda exatamente à tarefa sendo avaliada e ao domínio do funcionamento que está sendo analisado. As crenças de eficácia variam em nível, força e generalidade, e essas dimensões se mostram importantes para determinar a avaliação adequada. Imagine que um pesquisador está interessa- do em avaliar a confiança dos estudantes para escrever um ensaio expositivo. I in primeiro lugar, existem diferentes níveis de exigência dentro de um dado domínio que o pesquisador pode investigar. Nesse caso, eles podem variar do nível inferior de escrever uma sentença simples, com pontuação e estrutura Xi.«miatiçai adequadas, ao nível superior de escrever sentenças compostas e complexas, também com pontuação e estrutura gramatical adequadas, ou or- ganizar sentenças em um parágrafo, de maneira a expressar claramente um icm.i ou idéia. Os estudantes devem então avaliar a força de sua crença na capai idade de cumprir com os diversos níveis identificados. Se os pesquisado-

Tcoòo sociol cognitivo

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res identificaram adequadamente os níveis relevantes de escrita dc um ensaio expositivo, a avaliação da auto-eficácia deve proporcionar diversos itens espe rificos de dificuldade variada, que avaliem coletivamente a capacidade de es crever ensaios expositivos. Além disso, os itens nesse caso devem ser prototi pos da escrita tle ensaios no nível escolar dos estudantes (por exemplo, nível médio, universidade) em vez de aspectos minuciosamente específicas da escri-

ta (confiança cm ordenar as letras). Finalmente, os itens devem ser formula-

dos com o termo posso, um julgamento de capacidade, ao contrário de vou,

uma declaração de intenção.

Como as crenças dos estudantes diferem em generalidade no domínio da escrita, para comparar essas crenças com a escrita real desses estudantes, a próxima tarefa do pesquisador é selecionar uma escrita que corresponda à utilizada no julgamento de confiança - cm outras palavras, um ensaio expositivo (em vez de um poema ou crônica ou a tarefa anual de línguas). Os estudantes podem não se considerar eficazes em todos os tipos de atividades lingüísticas ou mesmo em todos os tipos de escrita. As crenças de eficácia diferem em poder preditivo, dependendo da tarefa que devem prever e do contexto em que ocorrem. De um modo geral, elas podem prever os comportamentos que mais correspondem a essas crenças. Assim, a compreensão de que as crenças diferem em generalidade é crucial para se entender a avaliação de eficácia. As avaliações de auto-eficácia mais gerais consistem em um instrumento abrangente que visa mensurar um sentido geral de eficácia ou confiança. Essas medidas gerais criam problemas de relevância preditiva e são obscuras com relação ao que está sendo avaliado. Instrumentos de auto eficácia geral forne- cem escores globais que descontextualizam a correspondência entre a auto- eficácia e o resultado e transformam a auto-eficácia em um traço generalizado

dc personalidade, ao contrário da avaliação específica para o contexto que ela

é. Essencialmente, esses instrumentos avaliam a confiança geral das pessoas

de que podem fazer certas coisas cm certas situações, sem especificar quais são

essas coisas ou situações. Mesmo as medidas para domínios específicos são problemáticas se forem usados escores compostos de escalas múltiplas de subseções diferentes do domínio em questão. Bandura (1982,1986) afirma que avaliações de capacidade razoavelmente precisas, correspondentes a um determinado resultado, garantem a melhor pre- visão e oferecem as melhores explicações para resultados comportamentais, pois

são as tipos de julgamento que os indivíduos usam quando enfrentam tarefas comportamentais. Essa é uma questão especialmente crítica em estudos que vi- sam estabelecer relações causais entre crenças e resultados. HKIO isso significa dizer que as capacidades avaliadas e as capacidades testadas devem ser capacida- des semelhantes. Como as avaliações da auto-eficácia muitas vezes não possuem a especificidade de medição e a coerência com a tarefa-critério que otimiza o poder preditivo das crenças de auto-eficácia, os resultados minimizam a influên-

cia da auto-eficácia. Porém, é importante enfatizar que os julgamentos de auto-

eficácia não devem ser operarionalizados de forma tão microscópica que sua

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Bondoro, Azzi, Polydoro & cob.

Teorio sodcl cognitivo

avaliação perca todo o sentido de utilidade prática. Não se deve interpretar a especificidade do domínio incorretamente como uma especificidade situacional extrema, e não há necessidade de reduzir as avaliações de auto-eficácia a pro- porções atomistas. Lent, Lopez e Bieschke (1993) mostraram como as avaliações de eficácia podem ser projetadas para níveis variados de resultados acadêmicos e, ainda assim, permanecerem altamente preditivas. Os autores comparam a

confiança dos estudantes em seu sucesso em disciplinas relacionadas com mate- mática com três resultados relacionados com suas carreiras - intenção de cursar disciplinas listadas no instrumento, as notas obtidas nas disciplinas relacionadas com matemática que os estudantes cursarão no período subsequente e o interes- se em disciplinas de matemática listadas no instrumento. As crenças de auto- eficácia mostraram-se preditivas em todos os casos. De um modo geral, a pergunta de pesquisa orientará o nível desejável de avaliação da auto eficácia. Em muitos casos, níveis intermediários de especi- ficidade proporcionam o equilíbrio adequado entre o rigor e a relevância. Con- tudo, não existe nenhum índice contra o qual comparar a adequação e a preci- são de uma determinada medida usada para avaliar julgamentos de eficácia. E, embora a correspondência entre a crença e o desempenho seja crítica em estudos que visam estabelecer uma conexão empírica entre os dois, as exigên- cias de especificidade diferem, dependendo da questão de interesse e da natu- reza das variáveis usadas para comparar as crenças de auto-eficácia. Para que sejam explicativas e preditivas, as medidas da auto-eficácia devem ser projetadas especificamente para as áreas do funcionamento que serão analisadas e devem

variada s dentr o dess a área . F.m últim a análise , a avalia -

refleti r a s exigência s

ção da adequação de uma medida de auto-eficácia exigirá um julgamento teo- ricamente informado e empiricamente sólido, que reflita uma compreensão do domínio sob investigação e suas diferentes características, dos tipos de capaci- dades que o domínio exige e da variedade de situações às quais essas capacida- des podem ser aplicadas. Esses entendimentos podem ser usados para avaliar

uma medida de eficácia pelo nível de especificidade de seus itens e a variedade de demandas que ela envolve.

RESULTADOS DE PESQUISAS SOBRE CREN<£S DE AUTO-EFICÁCIA

Desde que Bandura introduziu o conceito de auto-eficácia em 1977, as pesquisadores têm conseguido demonstrar que as crenças de auto-eficácia dos indivíduos influenciam fortemente as suas realizações em campos diversos (ver Stajkovic e Luthans, 1998, para uma metanálise de pesquisas sobre a relação entre crenças de auto-eficácia e realizações). Em seu livro de 1997, chamado Self-efficacy: the exercise ofcontrol, Bandura apresenta os princípios de sua teo- ria da auto eficácia e suas aplicações para diversos campos de atividade huma- na. Nesse volume, Bandura também situa a auto-eficácia dentro da teoria social cognitiva de agência pessoal e coletiva, que atua em conjunto com outros fato-

res sociocognitivos para regular as realizações e o bem-estar humanos. Bandura também aborda os principais aspectos da agência - a natureza e a estrutura das crenças de auto-eficácia, suas origens e efeitos, os processos pelos quais essas crenças pessoais operam e os modos em que podem ser criadas e fortalecidas. Além disso, o autor revisou um vasto corpus de pesquisa sobre cada um desses aspectos da agência em diversas aplicações da teoria. Uma busca pelo termo "auto-eficácia" na maioria dos bancos de dados acadê- micos revela que, no ano de 2004, mais de 3 mil artigos foram escritos sobre esse importante constructo psicológico. Em uma pesquisa típica na internei, o termo aparece em quase 350 mil páginas. A auto eficácia gerou pesquisas em áreas tão diversas quanto é diverso o desenvolvimento ao longo da vida, educa-

ção, negócios, esportes, medicina e saúde, estudos midiáticos, mudanças sociais

e políticas, desenvolvimento moral, psicologia, psiquiatria, psicopatologia e re-

lações internacionais. Na psicologia, ela têm sido focada em estudos sobre pro- blemas clinicas como fobias, depressão, habilidades sociais, assertividade e ta- bagismo. A auto-eficácia é especialmente proeminente em estudos de constructos educacionais, como realizações acadêmicas, atribuições de sucesso e fracasso, estabelecimento de objetivos, comparações sociais, memória, resolução de proble-

mas, carreira, ensino e formação de professores. De um modo geral, os pesquisado- res estabeleceram que as crenças de auto-eficácia e as mudanças de comportamen to e resultados estão altamente correlacionados e que a auto-eficácia é um exce- lente preditor do comportamento (ver Bandura, 1997; Pajares e Schunk, no pre- lo; Pajares e Urdan, no prelo; Stajkovic e Luthans, 1998). A profundidade desse suporte levou Graham e Weiner (1996) a concluir que, particularmente em psi- cologia c educação, a auto eficácia mostiou ser um indicador mais consistente de resultados comportamentais do que qualquer outro constructo motivacional. Os pesquisadores têm conseguido demonstrar que as crenças de auto- eficácia mediam o efeito de habilidades, de experiências prévias, da capacida- de mental ou de outros coastructos motivacionais sobre as realizações subse- quentes, o que significa dizer que elas agem como um filtro entre determinantes e realizações subseqüentes (ver Pajares e Urdan, no prelo). Em uma metanálise, Stajkovic e Luthans (1998) verificaram que a correlação ponderada média entre a auto-eficácia e o desempenho relacionado com o trabalho era de (G)r

- 0,38, o que se traduz em um ganho impressionante de 28% no desempenho.

Na área da educação, uma metanálise de estudos publicados entre 1977 e 1988 revelou que as crenças de eficácia estavam positivamente relacionadas com as realizações acadêmicas (Multon, Brown e Lent, 1991). As crenças de auto-eficácia estavam relacionadas com resultados acadêmicos (r u - 0,38) e foram explicadas por 14% da variância. Os tamanhos de efeito foram superio- res em estudos em que os pesquisadores desenvolveram índices de auto-eficá- ei.i 'desempenho com concordância elevada e os administraram ao mesmo tem- |x>. o que fala da importância de se avaliarem as crenças de auto-eficácia de

um modo que corresponda adequadamente aos resultados que supostamente prevêem. As crenças de auto-eficácia também apresentaram alta capacidade

112 Bonduro, Aza, Polydoro & cols.

dc prever as escolhas de cursos e carreiras por estudantes universitários (ver

Hackett, 1995). Em estudos que analisaram a auto eficácia no nível do item ou da larcfa, correspondendo â tarefa-critério, as correlações entre a auto eficácia e o desempe- nho acadêmico variaram de 0.49 a 0,70, e em estudos dc paih analisis, os efeitos diretos variaram de \\ = 0,349 a 0,545 (ver Pajares, 1996, 1997). Os resultados tendem a ser maiores em estudos dc matemática do que de outras áreas, como línguas. Todavia, mesmo em áreas como a matemática, as relações serão consi- deravelmente maiores do que as obtidas anteriormente, se os critérios pelos quais

os estudantes avaliam seus julgamentos de auto-eficácia forem os mesmos crité-

rios usados para avaliar os ensaios ou a compreensão da leitura (ver Pajares,

2003). Schunk (1991) apresenta uma visão geral da pesquisa sobre o efeito da

auto-eficácia na motivação acadêmica, especificamente o papel de variáveis como

a percepção de controle, expectativas de resultados, valor, atribuições e o

autoconceito. O autor conclui que todos representam **um tipo de pista" (p. 211) que os indivíduos usam para avaliar suas crenças de eficácia (ver Schunk, 1995). Por conta das similaridades conceituais, os pesquisadores prontamente têm apontado as diferenças entre as crenças do autoconceito e da auto-eficá- cia. Bong e Skaalvik (2003) examinaram minuciosamente as propriedades empíricas dos dois constructos e concluíram que eles diferem em aspectos im- portantes. As crenças de auto-eficácia são julgamentos cognitivos de compe- tência, referenciados por objetivos, relativamente específicos ao contexto e orientados para o futuro, e são relativamente maleáveis devido à sua depen- dência da tarefa. Por outro lado, as crenças relacionadas com o autoconceito são percepções pessoais principalmente afetivas, bastante normntivas, geral- mente agregadas, hierarquicamente estruturadas e orientadas para o passado,

e que são relativamente estáveis devido ao seu sentido de generalidade. Se-

gundo Bong e Skaalvik, a auto-eficácia age como um precursor ativo do desen- volvimento do autoconceito. Isso condiz com a teoria do autovalor de Covington (1984, 1992), que propõe uma visão do autoconceito em que as crenças de competência são centrais para o sistema do self, de modo que os individuas são

motivados pela necessidade de se perceberem como competentes. Como a so- ciedade moderna atribui um grande valor às realizações, os indivíduos querem ser percebidos como capazes e definem o autovalor em termos dessa capacida- de. Segundo Covington (1984), a necessidade de proteger a percepção mental de competência muitas vezes abre caminho para crenças atribucionais exter nas e estratégias de autolimitação, que servem para proteger o indivíduo dc possíveis sentimentos de incompetência.

CODA

À medida que a humanidade entra em um novo milênio, é estimulante ver a teoria social cognitiva dc Albert Bandura (1986), assim como seu

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constructo característico da auto-eficácia, tornarem-se os movimentos psico- lógicos predominantes do momento. Ela ó uma teoria do funcionamento hu- mano que enfatiza o papel crítico tias crenças pessoais na cognição, motiva- ção e comportamento humanos. Rejeitando a indiferença dos behavioristas aos processos do self, a teoria social cognitiva atribui proeminência a um sistema do self que possibilita que os indivíduos exerçam um grau de controle sobre seus pensamentos, sentimentos e ações. Ao promover essa visão, Bandura revigorou o foco, quase abandonado no estudo dos processos humanos, que William James havia proposto quase um século antes. Essa é uma perspectiva psicológica agente e empoderadora, na qual os indivíduos são proativos e auto-reguladores, em vez de reativos e controlados seja por forças ambientais ou biológicas. Pelo contrário, as crenças que as pessoas têm sobre si mesmas é que são os elementos fundamentais em seu exercício de controle e realiza- ções pessoais, culturais e sociais. De fato, é por causa de suas crenças com relação às suas próprias capacidades que as pessoas conseguem exercer a influência pessoal necessária para contribuir parcialmente para os tipos de pessoas que se tornam e as realizações que obtêm. O poeta romano Virgílio observou que "são capazes aqueles que pensam que são capazes". O roman cista francês Alexander Dumas escreveu que, quando as pessoas duvidam de si mesmas, elas garantem o próprio fracasso, sendo as primeiras a se conven- cer dele. Atualmente, existem amplas evidências para sugerir que Virgílio e Dumas estavam absolutamente certos.

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