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ARTIGO / ARTICLE

A Experiência da Enfermidade: Considerações Teóricas


Experiencing Illness: Theoretical Considerations

Paulo César Alves 1

ALVES, P. C. Experiencing Illness: Theoretical Considerations. Cad. Saúde Públ., Rio de


Janeiro, 9 (3): 263-271, jul/sep, 1993.
This paper intends to establish some definitions and deal with key concepts and terms related to
the understanding of illness as an experience. At the theoretical level, it aims to analyze the
individual and collective determination of the experience of illness as the mediation between the
macroscopic universe of meaning established in society and the ways in which this universe is
sujectively real to individuals. This inquiry starts with the supposition that illness as an
experience is both a subjetive and intersubjetive reality.
Key words: Illness Experience; Culture and Illness; Illness Behavior; Career of Illness

INTRODUÇÃO os indivíduos e grupos sociais respondem a um


dado episódio de doença. Para analisar este
As crenças e valores médicos constituem conceito, a literatura especializada parte da
respostas socialmente organizadas para a doen- premissa de que as pessoas (re)produzem
ça. Refletem o complexo interativo entre grupos conhecimentos médicos existentes no universo
sociais, instituições, padrões de relacionamento sociocultural em que se inserem. Todavia, a
e um corpo específico de conhecimento. Este interpretação de como os indivíduos se apro-
complexo tem sido tradicionalmente estudado priam de um conjunto de idéias e crenças
pelos sociólogos e antropólogos como formando relativas à doença tem sido problemática para a
uma realidade subjetivamente dotada de sentido Antropologia.
pelos membros da sociedade. Cabe ao pesquisa- Podemos agrupar as diversas teorias que
dor, através de instrumentos teórico-metodológi- procuram explicar este fenômeno em dois
cos apropriados, esclarecer esta realidade. Estas grandes modelos interpretativos ou perspectivas
construções teóricas, contudo, têm sido proble- analíticas. Basicamente, estes modelos diferem
máticas. entre si na ênfase dada à determinação social ou
Os estudos dos fatores socioculturais que a estruturas cognitivas sobre a enfermidade. Por
configuram as crenças e valores médicos dos um lado, autores como Herzlich (1973), Taussig
indivíduos não têm sido satisfatoriamente (1980), Frankenberg (1980), Comaroff (1982),
consistentes e sistemáticos. Há pouca concor- Stacey (1986) e Unschuld (1986) exploram
dância e muita polêmica sobre o significado dos mais diretamente a premissa de que as forças e
termos e conceitos usados pelos estudiosos da relações sociais configuram o conhecimento, as
Sociologia e da Antropologia Médica. A idéia crenças e a escolha de tratamento da enfermida-
de “experiência da enfermidade” é, neste aspec- de. Por outro lado, embora sem negar explicita-
to, um exemplo significativo. Como uma cate- mente esses determinantes, Good (1977) e um
goria analítica, “experiência da enfermidade” é grupo de antropólogos associados com a etno-
um termo que se refere aos meios pelos quais grafia clínica (Kleinman et al., 1978) têm
enfatizado as estruturas cognitivas subjacentes
1
aos relatos individuais sobre a doença.
Centro de Estudos Etno-Epidemiológicos e Sócio-
Antropológicos da Saúde. Departamento de Sociologia,
Estas perspectivas são significativas em si
Universidade Federal da Bahia. Rua Padre Feijó, 29. mesmas e não estabelecem, necessariamente,
Salvador, BA, 40110-170, Brasil. pressupostos antagônicos entre si. Acreditamos

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Alves, P. C.

que, para analisar a experiência da enfermidade, COMPORTAMENTO DO ENFERMO:


não temos que escolher entre os dois modelos A EMERGÊNCIA DE UM CONCEITO
propostos. Esta experiência, em si mesma,
desvela aspectos tanto sociais como cognitivos, Um dos primeiros estudos sobre a experiência
tanto subjetivos (individuais) como objetivos da enfermidade foi desenvolvido por Talcott
(coletivos). A questão chave que deve ser Parsons (1951). A doença, para este autor,
colocada é como tornar “inteligível” o movi- constitui um desvio e deve ser analisada como
mento pelo qual as práxis individuais e a gene- um resultado da inter-relação, determinada por
ralidade do social se constituem e reconstituem direitos e deveres, entre o doente e o terapeuta.
entre si. Assumindo a sua condição de doente, isto é,
Tendo em vista esta questão, o presente artigo adotando o papel de enfermo (sick role), o
propõe estabelecer considerações que possam indivíduo passa a não ser mais considerado
elucidar os processos pelos quais os indivíduos responsável pelo seu estado e fica legitimamen-
se apropriam e integram subjetivamente formas te isento das obrigações sociais normais, desde
convencionais da vida sociocultural. Mais que procure ajuda competente e coopere com o
especificamente, procuramos examinar algumas tratamento indicado. A enfermidade, portanto,
premissas teóricas necessárias para o estudo da não é meramente um estado de sofrimento, mas
experiência da enfermidade enquanto uma também uma realidade social.
realidade construída por processos significativos Em que pese às críticas sobre a teoria de
intersubjetivamente partilhados. Tomando em Parsons, devemos reconhecer que ela abriu um
consideração este objetivo, estabeleceremos espaço significativo para os estudos que procu-
alguns conceitos chaves e termos relevantes das ram analisar os meios pelos quais os indivíduos
literaturas sociológica e antropológica relaciona- e grupos diferem entre si em suas respostas
dos à questão da saúde e da enfermidade. É para a doença. Trabalhos realizados nos Estados
desnecessário dizer que não pretendemos fazer Unidos, principalmente na década de 60, procu-
um levantamento exaustivo desta bibliografia, raram mostrar que grupos sociais, como judeus
nem tampouco oferecer um modelo explicativo e italianos, assumiam o papel de enfermo de
conclusivo sobre como os indivíduos respondem formas diferenciadas. Tais estudos constituem o
a episódios concretos de doença. que, na literatura especializada, denomina-se
Subjacente à nossa proposta de análise, “comportamento do enfermo” (illness behav-
acreditamos contribuir parcialmente para um iour).
dos mais instigantes movimentos no seio da Para Mechanic (1968), um dos primeiros
Antropologia contemporânea: compreender as teóricos a iniciar os estudos sobre esta temática,
dimensões cognitivas e sociais incorporadas nas o termo “comportamento do enfermo” diz
representações individuais. Os antropólogos respeito ao processo pelo qual (1) a dor e os
sempre foram sensibilizados pela dimensão sintomas são definidos, dotados de significação
simbólica da cultura. A Antropologia, todavia, e socialmente rotulados; (2) a ajuda é requisita-
ainda não encontrou, de forma satisfatória, os da; e (3) o regime de vida é transformado.
fundamentos teóricos que lhe permitam respon- É importante observar que estes estudos não
der como os processos cognitivos transformam chegaram a desafiar o conceito parsoniano do
as experiências subjetivas em realidades dotadas papel do enfermo. O foco da atenção, contudo,
de significação. Responder a esta questão, a mudou. Passou-se de uma análise macrossocio-
nosso ver, significa conciliar a visão de cultura, lógica, totalizante, para um nível interpretativo
entendida como parâmetro ou quadro de refe- voltado para comportamentos específicos de
rência que governa a atividade humana, com os grupos sociais. Estes trabalhos, portanto, esta-
processos e formas sociais subjacentes às vam dirigidos para o entendimento de como os
representações mentais. sintomas são percebidos e avaliados por dife-

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A Experiência da Enfermidade

rentes grupos ou tipos de pessoas em diferentes fatores eminentemente morfo-fisiológicos.


situações sociais. Dois grandes modelos são Trata-se de um modelo dominante na nossa
encontrados nestes estudos: o individualista e o sociedade, devido ao processo social pelo qual
coletivista. O primeiro modelo tendeu a reduzir os médicos obtiveram o monopólio em estabele-
o comportamento humano perante a enfermida- cer a jurisdição exclusiva sobre a definição de
de a questões “psicológicas”. Exemplos deste doença e tratamento. Este modelo, contudo, não
modelo seriam os trabalhos de Rosenstock leva em conta os significados sociais atribuídos
(1966), Mechanic & Volkart (1961) e Kosa & ao comportamento do enfermo. Assim, “en-
Robertson (1969). As análises de Zborowski quanto o médico pode usar a ciência biofísica
(1952) e Zola (1973), por outro lado, enfatizam para explicar os sinais que ele rotula como
as diferenças nos valores e atitudes relacionados doença, ele enquanto tal não pode explicar o
à doença como resultantes das diferenças entre comportamento do doente pela referência a esta
as classes sociais, faixas etárias e etnias. Nesta ciência” (Freidson, 1988). A doença deve ser
abordagem coletivista, o papel dos fatores vista como um desvio social e ser analisada
culturais torna-se a parte central da investi- pelo sistema leigo de referência, isto é, pelo
gação. corpo de conhecimentos, crenças e ações,
Os estudos tradicionais do comportamento do através do qual ela é definida pelos diversos
enfermo apresentam alguns problemas teórico- grupos sociais. Tal sistema está baseado em
metodológicos. Devemos observar que trata- premissas que diferem do modelo biomédico e
vam-se de trabalhos voltados a identificar e é resultante de estruturas sociais específicas de
explicar fatores de baixa ou alta utilização dos cada sociedade.
serviços médicos profissionais (McKinlay, Pela compreensão deste sistema, observa
1972). Objetivando entender os fatores sociais Freidson (1988), é que podemos entender o
que pudessem influenciar os padrões de uso dos processo de escolha de tratamento, pois, ao ser
serviços de saúde, estes estudos centraram seu socialmente definido como enfermo, o indiví-
universo de análise em pessoas que estavam ou duo desencadeia uma seqüência de práticas
estiveram sob tratamento médico e, portanto, destinadas a uma solução terapêutica. Freidson
que já tinham tomado a decisão de seguir uma chama este processo career of illness, que
forma de tratamento. Quase nada disseram traduziremos livremente como “itinerário tera-
sobre como e por que as decisões foram toma- pêutico”. Por este itinerário os indivíduos
das. Conseqüentemente, pouca atenção foi dada podem ter experiências com as várias agências
aos diferentes cursos de ação adotados antes da de tratamento, ficando, assim, legitimados a
consulta ou do tratamento. Além do mais, como assumirem um papel de enfermos, pois cada
observa Dingwall (1976), tais estudos prende- uma delas tem um caráter de imputabilidade ao
ram-se ao modelo biomédico como o único atribuir suas próprias noções terapêuticas.
capaz de explicar as experiências da aflição. Embora seja uma abordagem mais elaborada
Uma grande exceção foi o trabalho de Eliot para a compreensão social da doença, a teoria
Freidson (1988). de Freidson (1988) negligencia questões impor-
Uma das principais contribuições de Freidson tantes. Trata-se de uma teoria que, por enfatizar
(1988) para a discussão do comportamento do exclusivamente a existência de estruturas cogni-
enfermo foi a formulação do conceito de “siste- tivas padronizadas em determinados grupos
ma leigo de referência”. Este conceito, em sociais, nada nos diz sobre o modo pelo qual os
alguns aspectos, supera alguns problemas indivíduos empregam o seu saber médico. O
colocados pela teoria de Parsons. Estabelecendo conceito de sistema leigo de referência não
uma distinção entre processos biológicos e as explica como surgem as expectativas sociais
respostas sociais para este processo, Freidson envolvidas com a enfermidade e por que elas
desenvolveu a idéia de um sistema pluralístico diferem entre indivíduos pertencentes a um
de valores para dar conta das diversas defi- mesmo grupo social. Este conceito é apresenta-
nições de “doença”. O modelo biomédico do por Freidson de forma auto-evidente, como
concebe a doença como uma propriedade física um fenômeno externo aos indivíduos. De acor-
do comportamento, isto é, como resultado de do com esta perspectiva, o doente é um ser que

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responde “passivamente” à configuração estrutu- estruturas cognitivas são instrumentos do


ral de uma dada rede de referência leiga. Os entendimento, atualizados através de enfoques
atores sociais de Freidson, como argúi Dingwall performativos concretos de indivíduos e grupos
(1976), “não criam e usam sua cultura, mas sociais, e não meramente saberes proposicionais
são criadas e usadas por ela”. tipificados e estereotipados. Devemos observar
É inegável que tanto Parsons (1951) como que tais estruturas formam complexos processos
Freidson (1988) contribuíram significativamente de interpretação pelos quais os indivíduos, em
para a compreensão da determinação social da suas contingências históricas e biográficas,
experiência da enfermidade. Porém, ambos atribuem significados às suas aflições.
confinaram suas teorias a um alto nível de
abstração. Por desenvolverem uma perspectiva
com pretensões à universalidade objetiva, não O CONCEITO DE MODELO EXPLICATIVO
puderam oferecer instrumentos mais operacio-
nalizáveis para a análise de experiências e Trabalhos sócio-antropológicos mais recentes
práticas concretas dos indivíduos. Ambos têm procurado superar os problemas teórico-
partiram do pressuposto de que o comportamen- metodológicos dos estudos tradicionais do
to do doente expressa uma realidade sociocultu- comportamento do enfermo. Dentre esses
ral objetiva que deve ser decodificada. A cultu- trabalhos, destacaremos apenas os que se rela-
ra, para eles, resolve-se, em última instância, cionam com o conceito de “modelo explicativo”
em uma estrutura — um código — que perma- (ME).
nece oculta perante as ações concretas dos Esse conceito foi inicialmente desenvolvido
indivíduos. Assim, cabe ao pesquisador procurar por Byron Good (1977) em “The heart of
a regularidade através da diversidade das ações what’s the matter: Semantics and illness in
humanas. Ou, em outras palavras, o que se pede Iran”. O trabalho de Good foi, em grande parte,
ao cientista social é que desenvolva modelos responsável pela formação de um grupo de
interpretativos que possam dar conta das reali- pesquisadores preocupados com a etnografia
dades determinantes subjacentes às versões clínica. Kleinman (1981), um dos mais influen-
subjetivas dos informantes locais. Trata-se, tes representantes deste grupo, define modelo
portanto, de uma perspectiva teórica que tende explicativo da enfermidade como “as noções
a admitir, implicitamente, procedimentos meto- sobre um episódio de doença e seu tratamento
dológicos conclusivos. Se a estrutura cultural é que são empregadas por todos aqueles engaja-
apreendida como algo pré-dado, ela é tanto dos em um processo clínico”. Assim, o modelo
previsível como dedutível, pois pela generali- explicativo é um conjunto de proposições ou
zação concluímos o particular. Esta perspectiva generalizações, explícitas ou tácitas, sobre a
de análise social chamaremos de estrutural. enfermidade.
A abstração e a decodificação, tomadas em Ao explicarem a enfermidade, os modelos
seus extremos pela perspectiva estrutural, explicativos “determinam o que é considerado
tendem a reduzir o mundo cultural a processos como evidência clínica relevante e como esta
sem sujeitos, isto é, sem atores historicamente evidência é organizada e interpretada para
datados que interagem em contextos sociais abordagens racionalizadas de tratamento
específicos. A concepção superorgânica de específico” (Kleinman, 1981). Estruturalmente,
cultura subjacente à perspectiva estrutural trata estes modelos diferem entre si na resposta que
o conhecimento cultural como uma forma de dão à etiologia, ao tempo e modo do apareci-
“consenso” em que os mundos de significados mento de sintomas, à patofisiologia, ao curso da
são reduzidos a agregados estatísticos de opi- doença (grau de severidade) e ao tratamento.
niões ou valores individuais. Neste aspecto, Trata-se de um conceito que objetiva estabe-
tomando-se esta perspectiva isoladamente, o lecer um quadro analítico capaz de conduzir
pesquisador perde o contato com as diversida- comparações entre culturas e sistemas de trata-
des e idiossincrasias humanas sobre os quais mento. Os MEs da enfermidade são essencial-
repousam as “realidades estruturantes” do mente vistos como estando ligados a conjuntos
mundo social. Não se leva em conta que as específicos de conhecimentos e valores funda-

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A Experiência da Enfermidade

mentados nos diferentes setores do sistema teiras definidas entre si. Embora não formem
médico. A comparação entre estes setores uma totalidade funcionalmente integrada, os
(assim como a análise de suas inter-relações) é subsetores podem ser interconectados de diver-
essencialmente um estudo dos seus diferentes sas formas. Assim, eles podem coexistir com
modelos explicativos. Como diz Kleinman pouca capacidade de excluirem-se mutuamente.
(1978), “os relacionamentos no cuidado à Por outro lado, é também importante observar,
saúde (por exemplo, as relações paciente- como chama a atenção Comaroff (1978), que as
família ou paciente-terapeuta) podem ser estu- relações entre as interpretações subjetivas dos
dados e comparados como transações entre indivíduos e os modelos explicativos dos siste-
diferentes MEs e os sistemas cognitivos e mas médicos não são necessariamente enqua-
posições na estrutura social nos quais eles dradas de acordo com um modelo integrativo e
estão ligados”. coerente. Conforme observa Last (1981), em
Como regra, os teóricos dos MEs observam um sistema médico pluralista, as pessoas podem
que os subsetores de um sistema médico são se engajar em processos terapêuticos sem saber
compartimentalizados: “certos tipos de prática ou querer saber sobre a lógica interna do siste-
são mais adequadas a explicar e, portanto, ma escolhido. Para este autor, sob certas con-
curar certos tipos de doença” (Harrel, 1991). dições, o não saber ou não querer saber pode-se
Desta forma, em um contexto pluralístico, os tornar institucionalizado como parte de uma
subsistemas médicos tendem a se tornar ligados cultura médica.
a doenças específicas, de tal forma que os A interpretação que as pessoas elaboram para
padrões de procura de auxílio (pathways of uma dada experiência de enfermidade é o
resort) podem ser delineados por diferentes resultado dos diferentes meios pelos quais elas
tipos de situações de enfermidade. adquirem seus conhecimentos médicos. Tais
A idéia dos modelos explicativos é um pode- conhecimentos são diferentes entre as pessoas,
roso instrumento teórico que permite explorar por serem originados em situações biográficas
questões como aderência a tratamentos, escolha determinadas. Conseqüentemente, os conheci-
e avaliação de terapias. Acreditamos, contudo, mentos médicos construídos pelos membros
que o conceito de ME responde apenas parcial- ordinários da sociedade devem ser “localizados”
mente à questão da experiência da enfermidade. em um contexto compreensivo mais amplo do
Os teóricos dos MEs tendem a explicar os que aquele oferecido pelos diversos subsetores
conhecimentos e crenças médicas em termos de de um sistema médico.
um conjunto singular de estruturas cognitivas O conhecimento médico de um indivíduo tem
subjacentes aos setores do sistema médico. Na sempre uma história particular, pois é constituí-
procura de uma lógica interna dos significados do de e por experiências diversas. Assim, é de
atribuídos à enfermidade, e dentro de um inte- se esperar que este conhecimento exista em um
resse essencialmente clínico, Kleinman e seus fluxo contínuo e quo mesmo seja passível de
seguidores não dão a devida atenção ao fato de, mudanças, tanto em termos de extensão como
geralmente, as pessoas atribuírem, ao mesmo em termos de estrutura. A interpretação da
tempo, diferentes interpretações para as suas enfermidade tem uma dimensão temporal não
aflições. As percepções, crenças e ações dos apenas porque a doença, em si mesma, muda
indivíduos são geralmente heterogêneas, com- no decorrer do tempo, mas também porque a
plexas e ambíguas. sua compreensão é continuamente confrontada
É importante observar que as crenças, valores por diferentes diagnósticos construídos por
e práticas existentes em um sistema médico não familiares, amigos, vizinhos e terapeutas. O
estão constituídas necessariamente por catego- conhecimento médico de um indivíduo está
rais lógicas coerentes. As incoerências e contra- continuamente sendo reformulado e reestrutura-
dições tornam-se, muitas vezes, mais visíveis do, em decorrência de processos interativos
no contexto de um sistema médico pluralístico, específicos. Assim, como argumenta Young
com realidades clínicas muitas vezes conflitan- (1981, 1982), é esperado que o indivíduo pro-
tes. Nestes contextos, os diversos subsetores duza mais do que um tipo de explicação sobre
terapêuticos usualmente não estabelecem fron- sua enfermidade, porque seu conhecimento é

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sempre recorrente e processual. Conseqüente- doença e, por outro lado, põe em movimento a
mente, os modelos explicativos da enfermidade nossa capacidade de transformar esta experiên-
são apenas uma entre as diversas formas de cia em um conhecimento. É através das im-
conhecimento médico, não estando os mesmos pressões sensíveis produzidas pelo mal-estar
necessariamente implícitos em todas as ex- físico e/ou psíquico que os indivíduos se consi-
pressões que os indivíduos fazem sobre as suas deram doentes. Não poderíamos saber a priori
aflições. Como nenhum conjunto singular de que estamos doentes sem que a sensação de que
estruturas cognitivas pode ser tomado como “algo não vai bem” tenha sido revelada ante-
fonte última das expressões do indivíduo, riormente. Assim, esta sensação constitui o
nenhuma forma é, a priori, o autêntico conheci- primeiro passo para designar, de modo conve-
mento dos fatos médicos do indivíduo. niente, o sentido da enfermidade (Telles &
Pollack, 1981). Neste aspecto, a enfermidade é
um processo subjetivo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS Antes de prosseguirmos, é importante ressal-
tar que nem toda alteração ou disfunção orgâni-
Nas páginas precedentes, procuramos exami- ca ou psíquica desperta necessariamente uma
nar alguns pontos básicos da literatura sócio- experiência de sentir-se mal. Processos ou
antropológica que são pertinentes ao entendi- estados patológicos podem estar presentes no
mento da questão da enfermidade. Ao apresen- nosso corpo sem que tenhamos consciência
tá-los de forma um tanto sistemática, podemos deles. As perturbações fisiológicas, tomadas em
observar que estes estudos não estabelecem de si mesmas, constituem o objeto da investigação
forma satisfatória os fundamentos teóricos que biomédica. Só quando transformada em sinto-
lhes permitam responder como os processos mas, em impressões sensíveis, é que a doença
cognitivos sobre a enfermidade são socialmente torna-se uma enfermidade.
construídos. Para respondermos a esta questão, A enfermidade, por outro lado, é mais do que
a nosso ver, é necessário descermos ao nível uma situação emotiva decorrente de uma reação
dos microfundamentos da experiência da enfer- corporal. Ela estende-se para além dos limites
midade, para que possamos atingir o domínio do mundo sensível. Se a enfermidade se inicia
dos macroprocessos sociais (padrões de com- com a experiência, isso não prova que toda ela
portamento, quadros culturais de referência, derive da experiência. O corpo humano, durante
instituições, etc.). Assim, sem se perder em um um processo patológico, pode fornecer um
“torvelinho de relativismo cultural”, torna-se somatório de informações heterogêneas, como
necessário “descer aos detalhes, além das dor de cabeça, vômito, febre, fraqueza, etc.
etiquetas enganadoras, além dos tipos metafísi- Cada informação constitui um “fato” isolado e,
cos, além das similaridades vazias, para apre- portanto, fechado. Uma dor de cabeça, por
ender corretamente o caráter essencial não exemplo, é uma simples informação entre tantas
apenas das várias culturas, mas também dos outras e, em si mesma, nunca permitirá compre-
vários tipos de indivíduos dentro de cada ender outra coisa que não ela própria. Tomadas
cultura “ (Geertz, 1978). isoladamente, as simples informações não
Nas páginas seguintes, procuraremos estabele- significam quase nada. Por outro lado, não é
cer algumas premissas teóricas que julgamos pela percepção de uma miríade de sensações
serem necessárias para a compreensão da coligadas que podemos garantir a validade da
enfermidade. Evidentemente, esta análise não nossa apreensão da enfermidade. A multidão de
será exaustiva, mas esperamos que ela possa experiências diversas precisa ser organizada em
estimular a discussão crítica de se trabalhar uma totalidade sintética, isto é, em configu-
com o conceito de experiência da enfermidade. rações globais dotadas de sentido. Neste aspec-
Acreditamos que o ponto de partida para a to, a idéia de enfermidade não aponta apenas
compreensão da enfermidade é que ela está para as impressões sensíveis, e sim para o
necessariamente presa a uma experiência. É a sentido atribuído a elas. Torna-se necessário,
experiência de sentir-se mal que, por um lado, portanto, circunscrever as reações corporais em
origina, por si mesma, as representações da sistemas significantes.

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A Experiência da Enfermidade

Para que a “matéria bruta” das impressões va. Telles & Pollack (1981), por exemplo,
sensíveis seja organizada é necessário que ela observam que o processo através do qual os
seja “apreendida”, isto é, fundamentada pela indivíduos interagem com outros, no curso da
“tomada de consciência” de uma condição. enfermidade, envolve quatro estágios: “a) os
Tomar consciência de uma dada situação é outros sugerem, verificam ou negam que a
organizar um somatório de fatos em algo com- pessoa está doente; b) ou outros indicam que
preensivo e, portanto, significativo. A sensação tipo ou quantidade de sentimentos são aceitá-
de sentir-se mal encontra-se intrinsecamente veis; c) os indivíduos encontram meios para
acompanhada de uma compreensão do seu demonstrar a validade dos seus sentimentos, um
significado. Significar, como observa Sartre processo para o qual outros contribuem; e d)
(1972), “é indicar outra coisa, indicá-la de tal outros dirigem o indivíduo para os legitimado-
forma que desenvolvendo a significação se vá res oficiais”. Neste sentido, que podemos dizer
encontrar precisamente o significado”. A enfer- que a consciência de sentir-se mal é sempre
midade, neste sentido, constitui-se em uma uma “consciência em situação”, pois está rela-
interpretação e em um julgamento sobre a cionada com projetos e contextos existenciais
matéria bruta das impressões sensíveis produzi- específicos. Assim, para uma compreensão
das pelo corpo. Enfermidade não é um fato, adequada da enfermidade, deve-se levar em
mas significação. conta tanto seus aspectos subjetivos, o que
A noção de significado, como enfatiza a determina um mundo de diferenças interpretati-
filosofia hermenêutica, é sempre “significado vas, como sues aspectos intersubjetivos, o que
para” alguém. O componente subjetivo da a torna “objetiva” para os outros.
enfermidade, como visto, está fundamentado no Ao afirmarmos o caráter intersubjetivo da
ato individual de perceber uma experiência enfermidade, pressupomos a existência de
interior como problemática. Contudo, a cons- certos parâmetros ou quadros de referência
trução do significado desta experiência não graças aos quais é construído o significado da
ocorre como um processo isolado. A consciência experiência da enfermidade. Estes quadros de
não constitui seus objetos ex nihilo, pela referência são internalizados pelos indivíduos
autonomia da interioridade subjetiva, mas a através de processos concretos de interação
partir de processos interpretativos adquiridos na social. Neste aspecto, os padrões culturais que
vida cotidiana. A enfermidade é subjetivamente as pessoas utilizam para interpretar um dado
dotada de sentido, na medida em que é afirma- episódio de doença são criações sociais, ou seja,
da como real para os membros ordinários da são formados a partir de processos de definição
sociedade. É real porque é justamente originada e interpretação construídos intersubjetivamente.
no mundo do senso comum. Como observa Só dentro das coordenadas estabelecidas pelo
Schutz (1973), o mundo da vida cotidiana mundo intersubjetivo do senso comum é que a
funciona como um código de referência para os experiência da enfermidade é admitida como
indivíduos. É importante lembrar que todo facticidade evidente por si mesma e compulsó-
significado só é lógico para o indivíduo porque ria.
é socioculturalmente legitimado pelos seus
semelhantes.
A produção dos significados é resultante não AGRADECIMENTOS
de um instante pontual do “eu”, mas de toda
uma história do “eu”. Uma história que, neces- Este trabalho não teria sido possível sem a
sariamente, constitui-se por processos de inte- importante colaboração da Dra. Miriam Rabelo
ração e comunicação com os outros. No dizer e companheiros do CESAME, aos quais agrade-
de Husserl, a consciência é, para um indivíduo, ço.
a possibilidade que tem o sujeito de constituir-
se em objeto para si mesmo e para os demais.
O uso de vocabulários e técnicas apropriadas
de representação legitima socialmente o significado
que o indivíduo atribui à sua experiência afliti-

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Alves, P. C.

RESUMO KLEINMAN, A., 1978. Concepts and model for the


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ALVES, P. C. A Experiência da tems. Social Science and Medicine, 12B: 85-94.
Enfermidade: Considerações Teóricas. Cad. _________ , 1981. Patients and Healers in the
Saúde Públ., Rio de Janeiro, 9 (3): 263-271, Context of Culture. Berkeley: University of
jul/set, 1993. California Press.
KLEINMAN, A.; EISENBERG, L. & GOOD, B.,
O presente trabalho estabelece algumas 1978. Culture, illness and care: Clinical lessons
definições e o tratamento de conceitos chaves from anthropological and cross-cultural research.
e termos relevantes para a compreensão da Annals of Internal Medicine, 88: 251-258.
experiência da enfermidade. Objetiva analisar, KOSA, J. & ROBERTSON, L. S., 1969. The social
em um nível teórico, a determinação aspects of health and illness. In: Poverty and
individual e coletiva desta experiência. A Health (J. Kosa & T. Zola, eds.), pp. 40-79,
análise aponta para a relação entre o universo Cambridge: Harvard University Press.
macroscópico de significados estabelecidos LAST, M., 1981. The importantance of knowing
pela sociedade e o mundo subjetivo dos about not knowing. Social Science and Medicine,
indivíduos. O trabalho parte do pressuposto de 15B: 387-392.
que a experiência da enfermidade é uma McKINLAY, J. B., 1972. Some approaches and
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