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Pe. José Antonio Bertolin, OSJ

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ Condensação de Estudos sobre a Cristologia 1
Pe. José Antonio Bertolin, OSJ Condensação de Estudos sobre a Cristologia 1

Condensação de Estudos sobre a Cristologia

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Pe. José Antonio Bertolin, OSJ

Jesus, um DEUS ocultado na pele de um carpinteiro

Condenação de Estudos sobre a Cristologia

CONGREGAÇÃO DOS OBLATOS DE SÃO JOSÉ

SEDE DA PROVÍNCIA NOSSA SENHORA DO ROCIO Rua João Bettega, 796 - Bairro do Portão

CEP 81070-000 - CURITIBA PR CAIXA POSTAL 8882 CEP 80611-970 - Curitiba Pr

FONE

0xx41- 229 1181

FAX 0xx41- 229 1017

Curitiba, janeiro de 2003

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APRESENTAÇÃO

Durante o meu curso de Teologia na Pontifícia U- niversidade Gregoriana de Roma, deparei-me com a Cristologia e por ela me encantei. Queria seguir apro- fundado-a depois do bacharelado, porém a urgência dos trabalhos em minha Província brasileira não permitiu- me continuar sentando nos bancos da Universidade Romana. O gosto por esta matéria porém, continuou perseguindo e a impossibilidade de dedicar-me a ela também, por isso supri o desejo com leituras relaciona- das a Jesus Cristo e até cheguei tornar público um li- vreto denominado “Jesus, o infinito presente na história dos homens”. Dentre as várias anotações que fiz sobre o estudo cristológico e que consegui recuperar em meus arquivos já esquecidos, selecionei uma série delas, as quais as “amarrei” para dar uma seqüência um pouco mais lógica e coloquei nestas páginas que seguem. O objetivo deste não é para uma publicação por- que tem muito pouco de meu e quase tudo haurido de diversos autores e de muitos livros, mas sim uma “con- densação” de estudos cristológicos para o meu “deleite”. Para estudos amplos e aprofundados sobre Jesus Cristo existem os bons teólogos. A diversidade de enfoques e de opções de estudiosos neste campo é infindável, basta dizer que dados publicados há não muito tempo, dão conta de que até o ano de 1997 tinham sido contabiliza- dos 65.571 livros escritos sobre Jesus Cristo e que de

1970 até 1997 tinham sido publicados mais de 25.000

livros sobre Jesus, e a cada quatro dias nestes últimos tempos têm surgido aproximadamente 4 livros sobre o

nosso Salvador, Jesus Cristo.

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Sendo as páginas que seguem um resumo de li- vros sobre Jesus Cristo para aprofundamento pessoal, deixo claro se por acaso estas caírem nas mãos de qual- quer afeiçoado em Cristologia, que as mesmas não têm o aprimoramento de um livro que tomamos e lemos na sua seqüência e no esquema do escritos porque tratam justamente de apontamentos pessoal sem qualquer in- tuito de publicações ou de comercialização, por isso, às vezes aparecerão idéias repetidas ou assuntos em que não se nota uma seqüência nas exposições das idéias de um bloco ou de um número para outro. Por fim, coloco como importante que a pessoa de Jesus Cristo é tão ampla, rica e poliédrica que jamais qualquer abordagem, ou um “pequeno resumo” como este poderão dar uma idéia completa sobre ele; este, ali- ás, é apenas um bebericar nas inumeráveis fontes de abordagem daquele que um dia tornou-se o “Deus co- nosco” e quis ocultar-se na pele de um carpinteiro.

Curitiba, janeiro de 2003.

Pe. José Antonio Bertolin, OSJ

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INTRODUÇÃO

Jesus galvanizou o mundo com sua vida e sua história e ninguém como ele conseguiu tamanha proeza, nem mesmo aqueles que são considerados os suportes da expansão do mundo das idéias nos mais diversifica- dos campos espiritual, filosófico, psicológico, físico ou sociológico. Diante dele pensadores como Tomás de A- quino, Agostinho, Kant, Bacon, Hegel, Descartes, ho- mens da ciência, da política, da sociologia, da psicologia como Newton, Darwin, Einstein, Freud, Jung, Viktor, Flankl, Voltaire, Gandhi, Max Weber, Galileu, Shakes- peare, enfim uma gama incontável de personagens ilus- tres que semearam idéias inovadoras, romperam concei- tos, ampliaram horizontes e influenciaram gerações, não tiveram tanto ressonância como Jesus Cristo. Ele dividiu a história em duas partes, com o seu nascimento, ele arrebanhou ao longo dos vinte séculos depois do seu nascimento, bilhões de seguidores fazendo com que incontáveis destes pautassem suas vidas e comportamentos em seus ensinamentos nutrindo por Ele não apenas respeito, mas adoração. A base de sua doutrina fundamentada na sua vi- da é o amor universal para com todos, inclusive aos i- nimigos. A base do relacionamento humano ficou solidi- ficada nos seus ensinamentos, dos quais muitos foram contra a lógica religiosa do seu tempo. A sua personali- dade é a mais espetacular de todos os homens que nesta terra viveram ou vivem. Ele foi um especialista na arte de relacionar-se com os outros, e de expor suas idéias deixando a todos atônitos por onde passava, mesmo à- queles que o rejeitavam fazendo com que os seus inimi-

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gos ficassem perturbados com suas palavras e com o seu comportamento. Ele virou o mundo de cabeça para baixo provo- cando uma revolução no pensamento humano banindo a discriminação social dialogando afavelmente com as prostitutas, comendo com os pecadores, comunicando-

se com os leprosos, declarando bem aventurados na so- ciedade não aqueles que possuem riquezas, status soci- al, cultura, voz e vez na sociedade, mas os pobres, os

sofredores, os abandonados, os operadores da paz

rejeitou a escola dos cultos mudando completamente o modo de encarar o poder. Embora taumaturgo que curava leprosos, aleija- dos, coxos, cegos, surdos, mudos, que expulsava demô- nios, que ressuscitava gente, na verdade apresentava-se como o próprio Deus presente na história dos homens e sendo o próprio “Filho de Deus”, insistia em ser reco- nhecido como “Filho do Homem”, passando-se por desa- percebido, não impondo as suas idéias, tornando-se ser- vo, lavando os pés de seus discípulos, inclusive de quem depois o trairá. Por amor aos homens deixou-se ser perseguido, aprisionado como um malfeitor, interrogado como um fora da lei, espancado, açoitado, zombado, cuspido, feri- do por uma coroa de espinhos cravada em sua cabeça, esbofeteado, abandonado pelos seus discípulos na Get- sêmani, renegado por Pedro. Suou sangue no Jardim das Oliveiras, e por amor aceitou assumir uma pesada cruz carregando-a até o calvário entre insultos e blasfe- mais e por fim deixou-se ser pregado na própria cruz entre dois ladrões e nela permanecer pendurado por 6 horas suportando a mais terrível das dores até que tudo estivesse consumado e nas mãos do Pai entregasse o seu Espírito.

Ele

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Mas o Verbo que se fez carne e habitou entre nós, não terminou sua vida naquela cruz, nem mesmo num sepulcro de pedra onde depois o puseram, pois ele ven- ceu a morte ressuscitando e dando provas de que é o senhor da vida. Ele não é fruto de uma invenção literá- ria, é sim o Filho de Deus, nosso Salvador e é por isso que sua pessoa, sua vida e seus ensinamentos merecem

e precisam ser conhecidos e amados, mas acima de tu-

do serem seguidos e permeados no coração e na vida de cada ser humano.

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I. PARTE

1. O QUE É CRISTOLOGIA.

1.1. A Cristologia é o estudo sobre Jesus Cristo, é um tratado central da teologia sendo que Jesus Cristo é o revelador do Pai e do Espírito Santo. O conteúdo deste tratado pode ser dividido em duas parte: O estudo da pessoa de Cristo como tal, o qual procura-se aprofun- dar o mistério da encarnação do Verbo, ou seja, a união Hipostática e suas propriedades (a graça de Jesus Cris- to, a ciência e a consciência de Jesus, a sua vontade, a sua liberdade, as ações Teândricas). O estudo da obra salvífica de Jesus ou a soteriologia, que compreende a vida pública a morte, a ressurreição, a ascensão de Cristo e o Pentecostes como evento salvíficos. Ao estudar a cristologia podemos seguir dois mé- todo: o da Cristologia Ascendente que parte do aspec- to humano de Jesus, particularmente da figura do servo de Javé, obediente até a morte e que recebe o título de Kýrios após a sua ressurreição. Nesta metodologia não se nega a divindade de Jesus e o método da Cristologia Descendente o qual parte da divindade de Jesus con- siderando-o Deus feito homem. Afirma a sua pré- existência, o seu nascimento humano no seio da Virgem Maria, que viveu neste mundo como homem em tudo menos no pecado e que por fim voltou ao Pai fazendo sua humanidade ressuscitada compartilhar com a glória de Deus. Na cristologia ascendente (de baixo para cima) te- mos alguns trechos bíblicos fundamentais como: Fl 2,6- 11 (Jesus feito homem obediente até a morte de cruz,

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morto e ressuscitado e proclamado como o Senhor). Tam- bém todos os discursos dos apóstolos no livro Atos de Apóstolos nos capítulos 1-5. A cristologia descendente (de cima para baixo) re- fere-se ao Lógos que no princípio existia voltado para o Pai, como Deus, e que se fez carne vindo habitar entre nós. Alguns trechos de São Paulo servem de base para fundamentar este método, como por exemplo 1Cor 1,30; 2,8; Rm 9,4. Destas duas metodologias originaram nos séculos 3º e 4º duas escolas diferentes de teologia. A escola An- tioquena, a qual acentuava a humanidade de Jesus, detendo-se mais no sentido histórico da humanidade de Jesus e a escola Alexandrina, a qual dava preferência para a divindade de Jesus e para o seu aspecto trans- cendental. Ambas com suas próprias metodologias quando permaneceram apenas na suas visões, deram origens a algumas heresias a respeito de Jesus Cristo tal como o Nestorianismo tendo como representante Nestório (+451) o qual enfatizou tanto a humanidade de Jesus que passou a ensinar que existiam duas natureza nele; a natureza humana e a natureza divina. A natureza di- vina com seu eu divino estaria unida à natureza huma- na com o seu eu humano. A outra heresia foi chamada de Monofisismo, esta encabeçada por Dióscoro de Ale- xandria e por Eutiques de Constantinopla que enfatiza- ram a divindade de Jesus e só admitiram nele apenas a natureza divina; esta para eles, teria absorvido a nature- za humana de modo que nele estava somente uma apa- rência de sua divindade. Ambas heresias foram condenadas sendo que a primeira pelo Concílio de Éfeso em 431 e a segunda pelo Concílio de Calcedônia em 451. Naturalmente a Igreja afirmou que Jesus Cristo é o homem perfeito, nascido

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da Virgem Maria e Filho Divino de Deus que realizou a salvação da humanidade. Para conhecer melhor esta doutrina da Igreja, basta conferir o documento conciliar Gaudium et Spes nos números 22 e 41.

A cristologia parte de uma fundamentação bíblica,

pois é sobretudo a partir dos textos dos evangelhos que

devemos extrair a verdadeira imagem de Jesus Cristo, mas para isso precisamos buscar a credibilidade dos evangelhos.

A partir da segunda década do século XIX o mé-

todo História das Formas surgido com alguns teólogos protestantes, chamou atenção sobre o ocorrido entre a pregação de Jesus (anos 27-30) e a fase de redação dos evangelhos (anos 50-100) tempo em que a Boa Nova foi transmitida oralmente. Em cada um dos territórios onde a Palavra foi pregada os evangelizadores estiveram den- tro do chamado sitz in leben, ou seja procuraram fazer com que a mensagem se tornasse resposta adequada ao povo daquela região. Entre os evangelizadores não houve uma preocupação histórica e em conseqüência disso a mensagem de Jesus distanciou-se da sua originalidade.

Isto fez que quando os evangelistas redigiram os evange- lhos já não tivessem mais uma figura de Jesus fiel ao Jesus real do início, ou seja, os primeiros cristãos pro- fessavam o Jesus da fé e não o Jesus da história. Para teólogos protestantes como Bultmann a linguagem dos evangelhos é mítica, imaginosa e por isso seria necessá- rio fazer a demitização dos evangelhos.

A teologia católica admite que o evangelho antes

de ser escrito foi pregado oralmente no início e que os pregadores se preocuparam mais em estruturar a fé dos ouvintes levando a eles a mensagem de salvação. Porém não admite que tenha havido desvio da realidade histó- rica ou o desinteresse pela figura real de Jesus, e por isso, quem crê nos evangelhos não crê naquilo que os

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antigos cristãos imaginavam simploriamente, mas na autêntica mensagem de Jesus Cristo. A fundamentação dessa afirmação podemos tê-la na seguintes considera-

ções:

As primeiras comunidades fundadas foram guia- das e também visitadas pelos apóstolos os quais procu- raram ser fiéis na transmissão e na conservação da mensagem (At 1,15-26; 2,14-40; 3,12-26; 5,29-32; 1Cor 15,6). Os apóstolos foram testemunhas do que viram e ouviram (At 1,8; 2,32; 3,15; 4,20;13,30; 1Cor 15,3-11). Os pregadores tiveram a preocupação de transmitir fiel- mente a mensagem, (1Cor 11,2.23; Fl 2,14; 4,9; 1,12s). A fé cristã é ligada a fatos históricos e objetivos, de modo que não pode ser negada a sua autenticidade. São Paulo afirma que se Jesus não tivesse ressuscitado, seria vazia a pregação e ilusória a fé (1Cor 15,14). Os apóstolos sempre procuraram distinguir entre

o mito e a Palavra da verdade (1Tm 1,3; 4,7; 2Tm 1,4; Pd 1,16). Além do mais, a transmissão da fé foi acompa- nhada pelo Espírito Santo prometido por Jesus (Jo

14,22).

Esclarecendo de uma maneira mais concreta afir-

ma-se que a teologia é a ciência que tem por objeto Deus

e a Cristologia tem por objeto Cristo, sua pessoa e sua

obra. A teologia cristã primitiva é quase que exclusiva- mente uma cristologia. As discussões teológicas se rela- cionaram todas à pessoa de Cristo, à sua natureza por um lado, e a sua relação com Deus. Por outro, por isso o Novo Testamento não fala quase nada da pessoa de Cristo sem que se trate ao mesmo tempo de sua obra. Ao se perguntar quem é Cristo? Pergunta-se também; qual é a sua função? Por isso os títulos Cristológicos re- ferem sempre e ao mesmo tempo, à pessoa e à obra de Cristo.

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A Cristologia não é uma ciência das “naturezas” de Jesus Cristo, mas sim de um acontecimento, de uma história. Não existe história da salvação sem Cristologia, assim como não existe Cristologia sem uma história da salvação que se desenvolve no tempo. Os evangelistas Marcos (8,29) e Mateus (16,15) mostram que Jesus fez aos seus discípulos uma per- gunta decisiva: "E vós quem dizeis que eu sou? ". Na verdade o povo tinha uma idéia de que Jesus era João Batista um profeta, mas Pedro em nome dos discípulos disse-lhe: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo".

A resposta de Pedro pode ser vista como a primei-

ra afirmação cristológica. De fato, ela coincide com o conteúdo da primeira pregação querigmática da igreja apostólica. No dia de Pentecostes, como nos relatam A- tos dos Apóstolos, Pedro dirigiu-se aos judeus fazendo a

primeira pregação cristã com essas palavras: “Que toda a casa de Israel saiba com certeza: esse Jesus que vós

crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2,36). O Cristo, o Senhor, o Filho de Deus, são os três títulos que constituem o núcleo da fé cristológica primitiva. A fé cristã deu a Jesus o título de “ungido”, assim como Bu- da recebeu o título de “O iluminado”, porém há uma di- ferença: Buda pregou uma mensagem de libertação; Je- sus anunciou a Boa-Nova do Reino de Deus. Buda agiu com a autoridade de uma experiência religiosa (nirvana), Jesus agiu com a autoridade de sua experiência tendo Deus como Abba. Buda é para os outros o caminho da libertação, Jesus ao contrário, é o caminho.

A pessoa, a vida, a morte e a ressurreição de Je-

sus Cristo são centrais para o mistério cristão. A pessoa de Jesus e a sua obra constituem a fonte, o centro e o fim de tudo que o cristianismo significa e anuncia. Por isso a teologia cristã é essencialmente cristológica. Jesus Cristo, o Filho encarnado é o caminho para Deus: “Eu

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sou caminho, a verdade e a vida

carnado é o exegeta e o intérprete do Pai; nele Deus se revelada e se manifesta.

Jesus nos descortinou o mistério de Deus como ele o vivenciou em sua consciência humana, embora o Deus revelado em Jesus Cristo permanece um Deus es- condido. Jesus é o caminho para o Pai, o qual em seu eterno desígnio o colocou no centro de seu plano divino para toda humanidade.

(Jo 14,6). Jesus en-

1.2. Métodos da cristologia - Na cristologia um dos métodos que permaneceu até tempos atrás foi o chama- do "dogmático", que tomava com ponto de partida as definições do magistério da Igreja, especialmente as do Concílio de Calcedônia, visando comprovar os elementos essenciais do mistério de Cristo com as citações bíblicas. Este método tem algumas limitações e perigos. Nele o Novo Testamento não aparece como a alma do projeto cristológico, mas como um apoio para as formulações dogmáticas. A base definitiva para interpretar essas formulações é pelo dogma e não pela Palavra de Deus. Ora, tudo isso ocasionava um perigo de dogmatismo, procurando absolutizar o modelo cristológico que levava

a uma cristologia abstrata, que perdendo a relação com

a existência concreta de Jesus, arriscava ser irrelevante

para hoje. Ultimamente tem havido um outro método mais adequado que pode ser chamado de “histórico- evoluti- vo”. Seu ponto de partida é a Sagrada Escritura com especial acento na expectativa messiânica presente no Antigo Testamento e no seu cumprimento na pessoa de Jesus. Este método acompanha o desenvolvimento da reflexão teológica pela tradição pós-bíblica dos Padres da Igreja chegando assim aos Concílios cristológicos, cujo propósito era condenar as heresias cristógicas nascidas

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de duas frentes opostas: o Nestorianismo e o Monofisis- mo. O mérito principal desse método, comparado com o anterior, é o primado atribuído à teologia “positiva”, ou seja, ao estudo das fontes distinto da teologia "especula- tiva". É de se ressaltar que este método implica também o risco de deixar pouco espaço para o pluralismo teoló- gico.

Podemos dizer que ambos os métodos, o dogmáti- co e o histórico- evolutivo, também chamado de genéri- co, servem de motivos para tirar conclusões precisas dos dados cristológicos preestabelecidos. Ambos são especu- lativos porque partem de uma doutrina para aplicá-la à realidade, mas nem sempre com uma ligação à existên- cia real e concreta.

1.3 O problema hermenêutico - Toda a cristologia do

Novo Testamento é uma hermenêutica inspirada na ex- periência pascal dos discípulos, na história de Jesus. As diferentes cristologias representam as diversas interpre- tações do evento à luz da páscoa, sendo cada uma delas condicionadas seja pelo contexto eclesial, seja pela per- sonalidade singular do autor ou do editor do material. Em outras palavras, deve-se levar em consideração o texto, o contexto e o intérprete. Não devemos enten- der por texto somente o dado revelado que está presente na bíblia, mas tudo aquilo que faz parte da chamada memória cristã, a saber, a tradição objetiva. Portanto, o texto contém a Escritura, a Tradição e o Magistério da igreja. Quanto ao contexto, sua constituição varia con- forme os diferentes lugares e períodos da história ,tais como as condições sociais, políticas, culturais e religio- sas. Por fim, quanto ao intérprete, não deve ser levado tanto em consideração o indivíduo mas a igreja local como povo de Deus que vive sua experiência de fé em comunhão com a igreja apostólica. Em outras palavras,

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existe uma interação entre a memória cristã, a realida- de cultural e a igreja local. O contexto age no intérprete por meio da apresentação de problemas específicos e influi na pré-compreensão da fé com a qual o intérprete leu texto. Este por sua vez, age no intérprete, cuja leitu- ra do texto oferecerá uma diretriz à prática cristã e as- sim por diante.

1. 4 As diversas cristologias - Nenhuma teologia parti- cular pode ter validade para todos os tempos e em todos os lugares. A teologia universal consiste na comunhão das diferentes teologias locais. Por isso, a diversidade de contexto elabora tanto a teologia como cristologia. Por exemplo no ambiente do primeiro mundo onde o pro- gresso tecnológico é bastante presente, assim como a secularização, o destinatário da teologia é muitas vezes, o não crente. Já no ambiente do terceiro mundo ou paí- ses em via de desenvolvimento marcado pela pobreza e de subdesenvolvimento, o contexto da teologia não visa o não crente, mas exatamente a “não - pessoa”; portanto será um contexto de teologia da libertação, como por e- xemplo a situação do continente latino-americano. Já no continente asiático caracterizado por pequeno número de cristãos e por um tradições religiosas diversificadas, o acento será sobre o diálogo inter-religioso.

2.

CRISTOLOGIA

ABORDAGENS

BÍBLICAS

a) Abordagem histórico-crítica

E

TEOLÓGICAS

DA

Este método tem o propósito de extrair dos evan- gelhos tudo o que é possível afirmar criticamente a res- peito de Jesus. Um dos importantes expoentes deste mé- todo foi Rudolf Bultmann o qual demonstrou ceticismo

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quanto à possibilidade de se estabelecer alguma coisa com certeza sobre o Jesus histórico, pois as fontes cris- tãs se interessaram de seu aspecto de modo muito frag- mentário e com um tom romanceado. Por outro lado, discípulos de Bultmann como E. Käsemann, demons- trou que existe na tradição sinótica certos elementos que o historiador deve aceitar como autênticos; por isso ele afirma que na história de Jesus emergem traços ca- racterísticos de sua pregação observáveis com precisão e incorporados à sua própria mensagem pelo cristianismo primitivo. Afirma ainda que a questão do Jesus histórico é legitimamente, a questão da continuidade do evange- lho.

A Igreja reconheceu a validade do método históri- co-crítico desde que seja prudente e equilibradamente utilizado. Ela distingue três etapas na formação dos e- vangelhos: o Jesus da história (Formgeschchite), as Tra- dições orais (Traditiongeschichte) e as Tradições escritas (Redactiongeschichte).

b) A abordagem existencial

Este método leva em consideração o pensamento de Bultmann para o qual não interessa o que Jesus po- deria ter pensado ou dito, mas sim que pelo anúncio o homem é levado para uma decisão de fé, mesmo porque as formulações cristológicas do Novo Testamento estão cheias de linguagem mitológica típica do tempo e por isso é necessário desmitolizá-la mediante uma interpre- tação existêncial. Para Bultmann nenhuma continuida- de pode ser estabelecida entre o Kérigma proclamado por Cristo e o Jesus histórico. Em outras palavras, a cristologia de Bultmann não tem o seu real fundamento no Jesus da história, mas pertencendo somente ao Ké-

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rigma, ele é convertido num mito sem consistência his- tórica.

c) Abordagem cristológica pelos títulos

Este método se baseia nos títulos dados a Jesus;

ou seja, nos títulos cristológicos presentes no Novo Tes- tamento. Títulos estes como: Cristo, Servo de Javé, Filho do homem, Profeta, Salvador, Senhor, Filho de Deus,

podemos dizer que existem vários

pontos críticos suscitados por esses títulos deve-se per-

guntar se estes foram mesmo usados por Jesus ou fo- ram aplicados a ele por outros? Esses títulos foram em- pregados no sentido original ou receberam um acrésci- mo de sentido?

Palavra de Deus

3. PERSPECTIVAS TEOLÓGICAS

a) Abordagem crítico-dogmática

Quando falamos da abordagem dogmática da cris- tologia devemos levar em consideração o perigo de abso- lutizar as fórmulas dogmáticas, entendendo a definição cristológica de Calcedônia como única maneira possível de anunciar o mistério de Jesus Cristo e como a única maneira válida. O método crítico-dogmático é uma rea- ção ao dogmatismo cristológico. Na verdade o Magistério nem sempre reconheceu abertamente o caráter relativo das fórmulas dogmáticas; basta lembrar Pio XII que condenou o relativismo dogmático na Encíclica Humani Generis (1950) e Paulo VI na Encíclica Mysterium Fidei (1965) defendeu o valor permanente, imutável e univer- sal das formulações dogmáticas. Mas como afirmou a constituição Gaudium et Spes (62), uma coisa é o pró- prio depósito da fé com as verdades e outra é o modo de

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enunciá-las, conservando-se contudo o mesmo signifi- cado e a mesma sentença. De fato a declaração Myste- rium Ecclesiae (1973) da Congregação para a Doutrina da fé afirmou que o sentido das fórmulas dogmáticas, que permanece sempre o mesmo, e as próprias fórmulas que em si mesmas, dependem de condicionamentos his- tóricos, podem e por isso, requererem enunciados mais profundos e eventualmente, novos.

A abordagem crítico dogmática da cristologia acei- ta que é possível um pluralismo dogmático e até pode ser necessário em situações de mudança cultural, o re- curso de novas formulações, sem se alterar o seu signifi- cado. Nesse sentido , existe uma motivação básica que é inculturação da fé em Jesus Cristo num contexto de evolução cultural e de um encontro com outras culturas.

b) Abordagem histórico-salvífica

Este leva em consideração o evento Jesus Cristo em toda a "economia" das relações de Deus com huma- nidade na história, por sua auto-revelação e entrega. Enfatiza o lugar central que o acontecimento Jesus Cris- to ocupa no desenvolvimento da história da salvação; Jesus não é somente o centro da história mas também o princípio dinâmico da compreensão de toda a história. Diante deste método os teólogos acentuam atenção entre o “já” e o “ainda não” e fazem uma distinção entre a “es- catologia realizada” (Dodd) que acentua o “já” e a “esca- tologia conseqüente” (Schweitzer) e que enfatiza o “ainda não”.

c) Abordagem antropológica

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Afirma que a cristologia começa pela antropologia onde no mistério de Jesus Cristo foi plenamente revela- do o mistério do homem e por ele Deus concretizou a “troca maravilhosa” com a humanidade. Mostra portan- to, o lugar e o papel de Jesus no peregrinar dos homens para Deus. Nesta linha Jesus é enfocado como o "Motor" do processo evolutivo como afirmou Teilhard de Char- din. Jesus Cristo é o ponto ômega da evolução do uni- verso, a causa final que põe em movimento todo esse processo, atraindo-o para si mesmo. É o Cristo evoluti- vo, ou o Cristo cósmico de Paulo. Como também na ou- tra tendência, vendo o homem filosoficamente como ser aberto para a auto-transcendência em Deus e capaz de receber o dom gratuito da auto- comunicação de Deus com ele. Jesus Cristo, no qual se efetuou de modo su- blime a união de Deus com ser humano é o Salvador absoluto da humanidade, o centro da história da salva- ção. Em Jesus Cristo , a abertura do homem para Deus alcançou seu ponto máximo e a sua mais alta realiza- ção.

d) Abordagem da cristologia da libertação

Bultmann acha impossível extrair o Jesus históri- co da interpretação da fé do Kérigma neotestamentário, contudo teólogos posteriores a ele acharam impossível poder recuperar o Jesus da história do ponto de vista teológico e afirmaram a que a cristologia precisava se apoiar em Jesus Cristo. Assim, os estudos cristológicos ultimamente têm tido uma volta ao Jesus da história, à Jesulogia. Nesse sentido, predominou a necessidade de munir a fé cristológica com alicerces críticos, afirmando o que Jesus ensinou e praticou, as suas palavras e a- ções. Este procedimento marca, de maneira especial, a chamada “cristologia fundamental”.

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A cristologia da libertação, que defende a volta ao Jesus histórico, não tem contudo o objetivo de recobrar, criticamente, os dados históricos para prover a fé cristo- lógica de seu fundamento histórico, mas de redescobrir na práxis histórica de Jesus, a chave hermenêutica para a prática da libertação na igreja. O objetivo da cristolo- gia da libertação é servir-se da força intrínseca do Jesus histórico para tê-lo como critério de discernimento da prática cristã. Desta forma, a prática histórica de Jesus torna-se, o tema privilegiado da cristologia da libertação:

suas ações, sua mensagem, suas atitudes, suas esco- lhas e opções, seu compromisso social, as implicações políticas e sociais e sua vida e morte. A cristologia da libertação busca na história humana de Jesus um proje- to de uma libertação humana integral realizada por Deus nele.

e) A cristologia em perspectiva inter-religiosa

Esse tipo de cristologia procura ancorar-se na prática do diálogo entre as religiões. Tenta situar o mis- tério de Jesus Cristo no contexto do pluralismo religioso em geral e supõe um diálogo entre as religiões como vem acontecendo entre judeus e cristãos onde autores ju- deus como Lapide, Flusser, Vermes, etc. Evidencia o au- têntico ser judeu de Jesus de Nazaré e, ressaltando a profunda inserção de Jesus na cultura e na prática reli- giosa de seu povo. Ainda que distante da fé cristã em Jesus, esses estudos oferecem excelente contribuição para quem se dedica à cristologia. Na verdade, o estudo da cristologia deve mostrar a originalidade de Jesus, sua diferença, seus traços pecu- liares de sua personalidade em relação ao Jesus no ju- daísmo. Jesus é mais que um profeta, que um tauma- turgo que tem o poder de curar, mais que um simples

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rabi palestino. Não se pode esquecer o que há em co- mum, mas é preciso realçar as divergências e até as contradições entre as raízes históricas de Jesus Cristo no judaísmo e o significado de seu mistério, à luz da fé cristã. Não se deve também limitar-se simplesmente ao diálogo judeu- cristão; deverão ser envolvidas outras di- ferentes tradições religiosas, como o islamismo, o hindu- ísmo, o budismo e toda tradição religiosa em contato com a fé cristã nos outros ambientes. Deve-se encontrar em outras tradições religiosas a ação das “Sementes do Verbo” e interpretá-las não simplesmente como expres- sões da aspiração do ser humano para Deus, mas como sinais de contato inicial de Deus com ele.

4. POR UMA “ABORDAGEM INTEGRAL” DA CRISTO- LOGIA

A Pontifícia Comissão Bíblica usa a expressão “cristologia integral”, referindo-se a uma cristologia que leva em conta o testemunho bíblico por inteiro. Na ver- dade, no estudo da cristologia, é preciso levar em consi- deração toda a tradição bíblica, tanto do Antigo como do Novo Testamento, porque tudo isto é a norma de fé cris- tã. É preciso evitar o risco de um reducionismo, ou de um unilateralismo, pois o mistério cristológico envolve aspectos complementares, muitas vezes opostos, à pri- meira vista, entre si, mas que devem ser tomados con- juntamente. É preciso superar todo o falso dualismo e contradições aparentes entre o Jesus da história e o Cristo da fé, entra a cristologia implícita do próprio Je- sus e a cristologia explícita da igreja, entre a cristologia funcional e a ontologia, entre a soteriologia e a cristolo- gia, entre a salvação e a libertação humana Deve-se levarem consideração a pluralidade de cristologias dado que essa pluralidade, foi sempre orien-

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tada, ao longo da tradição cristã, pelo propósito de in- culturar e contextualizar a fé cristológica. É o que a Constituição Dei Verbum ao se referir ao Sitz in Leben dos evangelhos, que diz que estes foram escritos “com vista à situação das Igrejas” (DV 19). Deve-se levar em consideração que as diferenças culturais proporcionam, no decorrer dos tempos, diver- sas expressões de fé cristológica. Apesar disso, ocorrem vastos espaços de continuidade histórica entre os vários enfoques cristológicos como também nos diferentes perí- odos da tradição, entre as múltiplas heresias e reduções cristológicas. Deve-se considerar que a estrutura do mistério cristológico possibilita duas visões cristológicas: a “as- cendente” e a “descendente”. As duas são legítimas e se complementam mas trazem consigo possibilidades de heresias. A abordagem descendente caracterizada pela escola alexandrina, desenvolveu uma cristologia do Filho encarnado com o perigo de tendências monofisistas. Por outro lado, a abordagem ascendente, caracterizada pela escola antioquena, gerou a cristologia do homem assu- mido com o perigo de levar ao nestorianismo. Basta lembrar que a abordagem descendente tem o perigo de um reducionismo onde é tirado a realidade e o caráter autenticamente humano da humanidade de Jesus. Na tradição antiga, essa tendência provocou o surgimento de várias heresias cristológicas, como o docetismo, o

gnosticismo, o apolinarismo, o monofisismo

Da mesma

forma a abordagem ascendente, apoiada no homem Je- sus corre o perigo do reducionismo consistindo em di- minuir a condição divina de Jesus ou ter em menor con- ta sua identidade pessoal de Filho de Deus. No passado esse reducionismo teve várias faces, como por exemplo os abionitas que viram Jesus como um profeta hebreu igual aos outros. Da mesma forma possibilitou o surgi-

22

mento de heresias cristológicas como a do adocionismo, do arianismo e do nestorianismo. Nesta linha é preciso ter uma cristologia integral,

a qual deve reunir todos os dados complementares, apa-

rentemente contraditórios, do mistério de Jesus Cristo. Cabe nesse sentido para uma abordagem de cristologia integral conjugar as abordagens cristológicas ascenden- te e descendente. Em tudo isto é preciso também consi- derar que a única cristologia real é a do Filho de Deus feito homem na história e por isso é preciso mostrar que as relações pessoais e intratrinitária dão vida a todos os aspectos do mistério cristológico. Nesse sentido a cristo- logia deve incluir o aspecto pneumatológico, que acen- tua a presença operante do Espírito de Deus no aconte- cimento Jesus Cristo. Por fim, é necessário que a “Jesu- logia” e a “Cristologia” andem juntas, porque um Jesus sem Cristo é vazio, um Cristo sem Jesus é mito. Não se deve esquecer também que o mistério de Jesus Cristo é universal, e isto porque ele Filho de Deus, se humanizou

e a sua história humana é história de Deus.

5. A ORIGEM E O DESENVOLVIMENTO DA CRISTO- LOGIA.

a) Jesus na origem da cristologia: do Jesus pré- pascal ao Cristo pascal

Precisamos reconhecer o papel decisivo que a res- surreição de Jesus e a experiência pascal dos discípulos representam para a fé cristológica. Estas assinalam o seu ponto de partida, pois os discípulos não alcança- ram, antes da páscoa, uma verdadeira fé cristológica, o que não significa que não tivesse nenhuma fé em Jesus, mas foi somente depois da ressurreição que eles atingi-

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ram a plena fé em Jesus como o Messias e Filho de Deus. Não é que a experiência pascal deva ser entendida como uma experiência de conversão dos discípulos, mas o fato de ver em Jesus ressuscitado, e que se manifestou eles, certamente foi objeto de suas transformações. Na verdade, a experiência da ressurreição de Je-

sus, fez com que os discípulos passassem da “Jesulogia” para a “cristologia”. Portanto, eles fizeram um itinerário de baixo para cima, que vai do encontro pessoal com Jesus à descobertas do Cristo. Assim sendo, na origem da cristologia, estão as obras e as palavras de Jesus, ou seja, toda a sua missão e a sua existência humana. Durante a sua missão, Jesus apresentou uma i- déia nova e original do Reino de Deus. Para ele a mani- festação do reino era a Boa-Nova e para pertencer a eles é necessário a conversão: “Cumpriu-se o tempo e o reina-

(Mc 1,15). Este Reino cum-

pre se na sua pessoa: “Hoje, esta escrituras se realizou

(Lc 4,21). Este Reino é como uma semente

que precisa se desenvolver. Ele se caracteriza na liber- dade, fraternidade, pois a justiça, opondo-se portanto, ao legalismo opressor dos escribas, da hipocrisia dos fariseus e da exploração do povo pela classe sacerdotal. Este é oferecido preferencialmente aos pobres, aos que são vítimas de estruturas injustas e que sofrem condi- ções desumanas (Lc 6,20). É portanto, de modo surpre- endente, a maneira com que Jesus se relaciona com o Reino de Deus. Ele garante que o Reino, ou seja, o pró- prio Deus, irrompe no povo, graças a ele, à sua vida e missão, à sua pregação e a atividade. Neste reino ele en- sina com autoridade singular, que supera a de Moisés (Mt 5,21-22; Mc 10,1-9). Neste reino, Jesus é o filho predileto e o exemplo mais notável disso é a forma nun- ca vista de invocar Deus como seu pai, chamando de "Abba".

do de Deus aproximou-se

para vós

24

A instauração do Reino de Deus fez com que Jesus encontrasse durante o seu ministério inúmeras oposi- ções levando-o a prever a sua morte violenta como um destino inevitável. Por isso ele se identificou como o “Servo de Deus” (Mc 10,45). A morte violenta que Jesus previa, ele a aceitou não como uma simples e inevitável conseqüência de sua missão profética, mas como uma derradeira expressão de seu amor, e como o ápice de sua pró- existência. Para os discípulos, a morte de Jesus na cruz foi uma experiência terrível, ainda mais porque eles esperavam que com suas ações libertar dia Israel (Lc 24,21). O que podiam esperar eles de seu mestre se- pultado? Se Jesus não tivesse ressuscitado dos mortos, o cristianismo seria apenas um grupo de amigos de Je- sus, uma recordação de seus ensinamentos e na melhor reprodução possível de seus exemplos. Desta forma, o cristianismo não constituiria uma Boa-Nova para a hu- manidade, mas apenas uma moral elevada. Ser cristão não consiste em venerar um mestre falecido, nem em manter sua memória viva, ou ainda em praticar a sua doutrina; ao contrário, significa crer que Jesus está vivo porque ele ressuscitou e por isso está no nosso meio a- gindo pelo seu Espírito. A ressurreição de Jesus é o fun- damento da fé cristã e o marco inaugural da cristologia do Novo Testamento.

b) O desenvolvimento da cristologia do Novo Testa- mento

Com a ressurreição de Jesus inicia-se a chamada cristologia explícita, a qual tem início com a pregação querigmática cristã através do processo de reflexão so- bre o mistério de Cristo que, principiando por uma cris- tologia "de baixo", chega progressivamente a uma cristo- logia “do alto”, ou seja, partindo dos mistérios da vida de

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Jesus desde o seu nascimento humano, e chega até a sua pre-existência. Não possuímos acesso direto aos iní- cios da cristologia da Igreja apostólica, e isto porque os escritos mais antigos do Novo Testamento são dos anos 50 dC, ou seja, de aproximadamente vinte anos após a sua morte e ressurreição. Nas Cartas de Paulo e também nas Cartas pasto- rais encontramos o primeiro Kérigma da Igreja (I Cor

Nestes e em ou-

tros textos encontramos as características importantes

do Kérigma primitivo, tais como: o mistério pascal da

morte e ressurreição de Jesus que constitui o centro do Kérigma, a ressurreição de Jesus não separada de sua morte, assinalando a sua entrada no estado escatológico e na exaltação como Senhor. Os sermões missionários de Pedro e de Paulo, em Atos dos Apóstolos (2,14-39;

dirigidos sobretudo os judeus, de-

mostram com clareza a cristologia do primeiro Kérigma. Estes discursos lembram a ação do Espírito Santo, de

que eles são testemunhas, da qual isto aconteceu se-

Trata-se, portanto de uma cristo-

logia baseada na ressurreição e glorificação de Jesus, a qual é uma ação de Deus sobre Jesus constituído-o Se- nhor e Cristo em favor da humanidade. A ressurreição de Jesus é o acontecimento salvífico e definitivo de Deus; por ela o pecado e a morte foram vencidos. Com ela Jesus entra no fim dos tempos, realiza a esperança escatológica entrando em na glória final. Com ela Jesus atingiu a própria perfeição (Hb 5,9). O que Deus fez a Jesus foi em favor dos homens; para todos os títulos que exprimem a dignidade adqui- rida por Jesus como ressuscitado estão relacionados a nós; Ele é o Senhor de todos (At 10,36); Ele é o nosso Cabeça e Salvador (At 5,31). Com a sua ressurreição foi inaugurada a chegada definitiva da salvação. É o Senhor

gundo as Escrituras

3,13-26; 4,10-12

15,3-7; Rm 1,3-4; 1 Tm 3,16; Hb 6,1

).

),

26

ressuscitado que salva. Portanto, com a ressurreição de Jesus, nasceu a cristologia explícita, porque nela encon- tramos o estágio inicial de uma reflexão ordenada sobre o significado de Jesus Cristo para a fé cristã. Foi com a ressurreição que se deu o ponto de partida de todas as afirmações sobre Jesus; com isso podemos dizer que a primeira cristologia nasceu “de baixo”, porque partiu da realidade humana de Jesus, transformada pela ressur- reição, e não da pré-existência do Filho de Deus que se fez homem. A verdadeira identidade de Jesus para os primeiros cristãos foi revelada por Deus em sua ressur- reição. Afirmamos também que a cristologia do Kérigma primitivo é, essencialmente soteriológica, ou seja, seu ponto central reside na salvação dos homens. Ela con- sistia numa reflexão sobre Jesus, contemplado em suas funções em nosso favor. Só mais tarde, ela se transfor- mará em cristologia "ontológica", buscando uma reflexão sobre Jesus como ele é em si mesmo e sua pessoa na relação com Deus. A cristologia do Filho de Deus na narrativa da in- fância (Lc 1,32) diz apenas que menino nascido de Maria veio de Deus e será chamado "Filho do altíssimo". Não fala portanto de uma filiação eterna e divina de Jesus em sua preexistência. Não se toca na questão ulterior da origem eterna de Jesus como Filho de Deus, como ve- mos em Paulo (Fl 2,6-11; Cl 1,15-20; Ef 1,3-13) e sobre- tudo no Prólogo do evangelho de João (1,1-18).

6. OS TÍTULOS CRISTOLÓGICOS

a) Os títulos de Jesus no Novo Testamento

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1. “Filho do Homem”: é uma expressão semítica que significa o homem, geralmente no seu aspecto frágil e precário (Sl 79; Is 51,12). No livro de Daniel (7,27) essa expressão é identificada com o povo santo do Altíssimo, mas a tradição judaica a interpretou no sentido pessoal chegando a identificá-la como sendo um título messiânico. De fato esse título ocorre 80 vezes na boca de Jesus e está associado ao poder de autoridade como de perdoar os pecados (Mc 2,10) e de ser o Senhor do sábado (Mc 2,28). Indica também a sujeição aos sofrimentos e à paixão (Mc 9,31; 10,33) a sua precariedade(Mt 8,20). Jesus preferiu que esse título porque não tinha conotação política e evitava que ele fosse julgado como um revolucionário opositor ao poder romano.

2. “Senhor”: o Novo Testamento chama Jesus de Kyri- os para exprimir a fé dos primeiros cristãos na sua divindade e na sua transcendência. Ele é o Senhor de todos (At 10,36; 1Cor 12,3).

3. Cristo”: tradução grega do aramaico (Meshiah) que significa ungido. Esse título era dado ao rei e ao filho de Davi por excelência, que viria para salvar o povo. Os discípulos reconhecem Jesus como este rei e por isso deram-lhe este título o qual Jesus aceitou, mas que todavia pedia para que não fosse divulgado, pois o mesmo tinha conotações políticas (Jo 1,41; 4,25; 20,31; Mt 16,16; Mc 8,29s;12,35). Podemos afirmar que Jesus se considerava o Messias (Mt 11,3); Tam- bém se considerou vencedor de todos os males (Mt 11,4).Mas foi sobretudo com a sua ressurreição que este título ficou evidenciado (At 2,36).

4. “Servo de Javé”: é uma expressão hebraica que in- dica um personagem misterioso descrito em Is 42,1- 7; 49,1-6; 50, 4-9;52,13-53,12. Este se apresenta como uma vítima inocente que se oferece em sacrifí-

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cios de expiação pelos pecadores. Jesus se identifi- cou com o Servo de Javé afirmando que veio para dar a vida para a salvação de todos, que o seu san- gue derramado era para a salvação de todos e que se oferecia livremente para cumprir a sua missão salví- fica (Mc 14,24; Lc 22,37; Jo 10,10). 5. “Filho de Deus”: nos evangelhos os próprios demô- nios proclamam Jesus como “Filho de Deus” (Mc 1,34; 3,11). Também o Centurião romano e o próprio Pedro o proclamaram (Mc 15, Mt 16,16). São Paulo afirma enfaticamente que Jesus é o filho de Deus (At 9,20); para ele Deus enviou seu Filho à terra para que fôssemos reconciliado os pela sua morte (Gl 4,4; Rm 8,3). João professa que Ele é Filho Unigênito en- viado pelo Pai para dar a vida eterna (1Jo 4,9; Jo 6,40). Jesus revelou-se como Filho de Deus (Mt 12,27) e chamou a Deus de Paizinho. Tomé o reco- nheceu como Deus (Jo 20, 28), o qual desde o princí- pio e estava junto a Deus (Jo 1,1). Ele é o Deus ben- dito pelos séculos (Rm 9,5), o Grande Deus e Salva- dor (Tt 2,13 ). 6. “Profeta”: aqueles que chamaram Jesus “Profeta” queriam indicar sua profissão, assim como o chama- vam de mestre. Na verdade Jesus aparece não so- mente como profeta, mas como o profeta, ou seja a- quele que devia cumprir toda a profecia no final dos tempos. O antigo profetismo israelita esperava por um profeta escatológico, ele já era anunciado nas pa- lavras dirigidas por Moisés a Israel (Dt 18,15). Na verdade Israel esperava o retorno de Elias, o qual era identificado como o mensageiro para preparar o ca- minho de Javé. Nos evangelhos também João Batista é chamado “o profeta”, colocado no mesmo plano dos profetas do Antigo Testamento. Ele foi considerado como um precursor do Messias e a sua aparição é i-

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dentificada com o retorno de Elias (Mt 17,10). No cântico de Zacarias (Lc 1,76), João Batista é chamado de Profeta do Altíssimo, com isso os primeiros cris- tãos viram nele o Precursor do Messias. É certo que João Batista foi considerado depois de sua morte, como o profeta, como Precursor de Deus. Os próprios discípulos de Jesus e o próprio Jesus o consideraram como o profeta, na qualidade de Precursor do Messi- as, e o próprio João Batista tinha consciência disso. Ele se recusava, porém ser considerado como Messi- as ou como profeta escatológico. No Novo Testamen- to Jesus é denominado de “um Profeta” e também de “o Profeta”. No primeiro caso Jesus aparece na cate- goria dos profetas (Lc 7,16; Mc 6,4; 6,14). Herodes pensava que Jesus era João Batista ressuscitado; ou- tros pensavam que era Elias. Mas segundo o sinóti- cos, Jesus não se considerou como profeta esperado para o fim dos tempos, mas sim foi o povo quem o considerou como tal (Jo 6,14). Na verdade, o caráter único da pessoa e da obra de Jesus indica que ele era um homem que os judeus esperavam como profeta dos últimos tempos. Ele tem autoridade escatológica,

o seu chamado ao arrependimento é absoluto e exige

uma decisão definitiva, dando assim à sua pregação

um caráter absoluto. A autoridade (exousia) com a qual Jesus anunciava o seu evangelho, não era de

um profeta qualquer, mas do profeta por excelência;

o caráter escatológico de sua pregação é incontestá-

vel. Para a esperança judaica, o Reino de Deus se es-

tabeleceria um dia com poder, a partir do momento em que o profeta retornado à terra, completasse seu chamado ao arrependimento. Mas se Jesus era só profeta, então o Reino de Deus ainda não tinha che- gado e não havia portanto, lugar para uma fé no Cristo-kyrios. Contudo, Jesus afirmou que o Reino de

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Deus estava presente (Mt 12,28). Podemos então a- firmar que nem Jesus, nem seus discípulos imediatos aplicaram a noção de profeta à sua pessoa e à sua obra; trata-se portanto de uma opinião popular sobre Jesus. Assim, a noção de profeta para Jesus é dema- siada estreita. 7. “Servo sofredor de Deus”: é um dos títulos mais an- tigos dados à pessoa e à obra de Jesus. O Servo de Deus (Ebed Iahweh) é uma figura forte no judaísmo (Is 42,1-3; 49,1-7; 50.4-11; 52,13-53,12). O Servo do Senhor podia ser identificado com todo o povo de Is- rael, ou também como um indivíduo. No livro de E- noque como nos apocalipse de Esdras e de Baruc, o Messias é identificado como Servo sofredor. Nos do- cumentos Qumran este Servo sofredor é o Mestre de justiça. Devemos perguntar se Jesus considerou seu sofrimento e sua morte como parte integrante de sua missão na execução do plano da salvação. Muitos te- ólogos afirmam que Jesus não teria atribuído à sua morte nenhum valor expiatório, e que na realidade, esta idéia teria sido introduzida pelo apóstolo Paulo. Entretanto Jesus sentia mais chamado, durante a sua vida, a viver a obra expiatória que a ensiná-la. Ele não se limitou a perdoar os pecados, mas a curar os enfermos, dando-lhes o perdão. Jesus colocou também o seu sofrimento e a sua morte como parte integrante da obra da salvação; ele tinha convicção de que devia morrer (Mc 2,18; Lc 13,31; Mt 12,39; Mc 12,7;14,8; Lc 22,37; Mc 10,45). Os estudiosos estão de acordo que a designação de Jesus como “Servo so- fredor” remonta ao próprio Jesus e de que não foi a comunidade primitiva a primeira a estabelecer uma relação da pessoa de Jesus com esse título. Mas, o que dizia o cristianismo primitivo a respeito de Jesus, o “Ebed Iahweh”? Sabemos que a Cristologia do Ebed

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não é propriamente a dos evangelistas. Em Mt

8,16ss, Jesus expulsou os espíritos com uma palavra

e curou os enfermos, a fim de que se cumprisse o que

havia sido anunciado pelo profeta Isaías: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou nossas doen-

ças”. Aqui o evangelista cita textualmente uma pas- sagem de Isaías 53,4, a qual faz referência ao Servo sofredor. Em João 10,11 Jesus se coloca como o bom pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. O mesmo evangelista no capítulo 1, versículos 29 e 36, apre- senta Jesus como o Cordeiro de Deus que tira os pe- cados do mundo. As mesmas referências são feitas em Atos, 8,26 e na primeira carta de Pedro 2,21ss Na verdade, podemos dizer que o judaísmo na época do Novo Testamento, pôs o nome Ebed Iahweh em re- lação com o do Messias, embora no messianismo ju- daico a idéia do Servo sofredor está ausente. Jesus não atribuiu a si o título de Servo de Deus, mas foi

uma aplicação dos evangelistas para ressaltar a idéia do sofrimento e na sua morte. Diante disso o cristia- nismo primitivo conservou esta lembrança de Jesus, Mas a noção de Ebed Iahweh caracteriza sem dúvidas

a obra e a pessoa do Jesus histórico de uma maneira

perfeita com a Cristologia do Novo Testamento. 8. “ Sumo Sacerdote”: a noção de Sumo Sacerdote tem uma estreita relação com aquela de Servo de Deus. A figura do Sumo Sacerdote é essencialmente judaica,

a qual tinha a idéia de um sacerdote ideal que devia

consumar, no final dos tempos, o sacerdote judaico, como o único sacerdote verdadeiro. Segundo os estu- diosos, parece à primeira vista, impossível que Jesus tenha atribuído a si mesmo funções sacerdotais, con- tudo não se descarta a possibilidade de que Jesus tenha aplicado a si ao menos a idéia de Sumos Sa- cerdotes “segundo a ordem de Melquisedeque”, con-

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forme descreve o livro do Gênesis 14,13 e 24. Em Mc 12,35 temos a referência de Jesus, fundamentando- se no Salmo 110 de que Jesus é o sacerdote segundo

a ordem de Melquisedeque. Da mesma maneira a

Carta aos Hebreus no capítulo 7, apoiando-se em Gênesis 14 e no Salmo 110, dá a designação de Je- sus como o verdadeiro Sumo Sacerdote; este não so- mente pôs fim ao antigo sacerdócio judaico, mas o consumou em sua pessoa. Jesus é o Sumo Sacerdote que se oferece como vítima, é portanto também o Servo Sofredor; idéia esta expressa também nas Car-

tas de Pedro (1 Pe 1,19; 2,22). Da mesma forma, o autor da Carta aos Hebreus (4,15) ressalta o sacerdó- cio de Jesus em toda a sua humanidade, inclusive a- firmando que ele foi tentado como nós em todas as coisas; afirmação esta, talvez a mais ousada de todo

o Novo Testamento sobre o caráter absolutamente

humano de Jesus, conforme afirma Oscar Culmann. Segundo a doutrina da Carta aos Hebreus, Jesus o Sumo Sacerdote, graças a sua humanidade, santifi- cou a nossa humanidade e a tornou perfeita (Hb 9,26; 10,10). Em suma, constatamos que a idéia de Cristo sacerdote embora não sendo exclusiva da Car- ta aos Hebreus, pois este título está na base das a- firmações cristológicas de outras passagens do Novo Testamento, devemos admitir que esta noção é rele- vante nesta Carta e se a cristologia sacerdotal se per- petua, devemos muito a este escrito.

b) Títulos Cristológicos referentes à obra futura de Jesus 9. “Messias”: o título messias tem sua raízes antes de tudo na esperança escatológica do judaísmo, onde o adjetivo “messiânico” é empregado quase como sinô- nimo de “escatológico”. Na época de Jesus não existia

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uma concepção única e firme a respeito do messias, pois a esperança de todos os judeus se resumia num redentor, o qual apresentava os traços nacionais ju- daicos. Contudo, na época do Novo Testamento, exis- tia um certo tipo de messias predominante, aquele que poderia ser chamado de “messias político” ou então “Messias judaico”. Para os cristãos messias constituiu-se como um título cristológico por exce- lência. A palavra grega “Cristós”, é a tradução da pa- lavra hebraica “maschiach”, que quer dizer ungido. Para os autores do Novo Testamento “Jesus Cristo” significa “Jesus o messias”. Para os judeus, o rei de Israel era denominado “o ungido de Iahweh”. Porém este título não era unicamente para o rei, pois todo homem de Deus, encarregado de uma missão para com o povo também podia receber esta denominação; assim eram os sacerdotes (1Rs 19,16). O rei natural- mente tinha um caráter divino e este título indicava a origem divina de sua função (2Sm 7,14). Particular- mente durante o exílio foi conferido ao rei de Israel a figura do messias que virá (Ez 37,21). Esperava-se um rei totalmente terreno, político e não um ser ce- lestial que apareceria de uma forma milagrosa. Este seria um rei pacífico e desempenharia um papel polí- tico (Zc 9,9s). Este rei era visto também como o mes- sias que viria para aniquilar os pecadores e dar a sua graça para os bons. Sua missão estaria localizada num plano puramente terreno, como rei político de Israel teria um caráter pacífico ou guerreiro. Teria Jesus se considerado o messias? Em Mc 14,61; Mt 26,64; Lc 22,67, Sumo Sacerdote procura uma decla- ração messiânica pronunciada pelo próprio Jesus, para poder acusá-lo e denunciá-lo aos romanos como agitador político, pois pretender o título e a função de messias, significava que Jesus queria estabelecer o

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trono de Davi e portanto um governo independente. Se Jesus afirmasse que era o messias, o Sumo Sa- cerdote teria o motivo para acusá-lo, se não declaras- se, Jesus ficaria desacreditado diante do povo. Para o evangelista Marcos, Jesus respondeu que sim (eu sou), já para Mateus, Jesus não deu um sim perfei-

tamente claro (tu o disseste), o que quer dizer: “És tu quem o diz, e não eu”, ou seja, Jesus não teria res- pondido claramente nem sim nem não à pergunta capciosa do Sumo Sacerdote. Em Lucas, Jesus se nega a responder por um sim ou por não, e acrescen- ta uma declaração relativa não ao messias, mas ao Filho do Homem “Se vô-lo disser, não o acredita-

Aqui Jesus corrige a pergunta do Sumo Sa-

cerdote, substituindo o título de messias pelo de Fi- lho do Homem. Jesus tinha consciência que as idéias messiânicas judaicas eram políticas e esta não era a maneira de se compreender a sua missão, porém pa- ra sublinhar que tinha a consciência de sua missão, acrescenta a declaração sobre o Filho do Homem, que como um ser celestial, está mais próximo de Deus do que o messias. A recusa ao título de messias não sig- nifica que Jesus renunciou à sua pretensão soterio- lógica, pelo contrário, o título Filho do Homem, no sentido que é dado pelo livro de Daniel, é de um ser celestial que transcende a figura de um messias pu- ramente político. O que Jesus renuncia é portanto, o papel político do messias rei. Em Mc 15,2 encontra- mos a interrogação, desta vez de Pilatos, se Jesus é o rei dos judeus, onde na verdade o governador quer saber se Jesus é o messias, o rei dos judeus. Jesus responde-lhe: “Tu o dizes”, num sentido mais afir- mativo, porém é igualmente é uma resposta evasiva. Por fim ainda em Mc 8,27ss, no texto que concerne à cena de Cesaréia de Felipe, Pedro declara: “Tu és o

reis

”.

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messias”, ao que Jesus proíbe Pedro e os outros dis- cípulos de falar disso, o que indica implicitamente que Ele teria aceitado a confissão messiânica de Pe- dro, porém deixa claro o seu sofrimento como Ebed Iahweh, algo nada compatível com a esperança mes- siânica judaica. Jesus conhecia bem o desejo de seus discípulos de o verem assumindo a função de um messias político; isto esclarece bem o pedido dos fi- lhos de Zebedeu em relação aos lugares de honra no seu reino futuro e até esclarece a razão do porquê e- les o abandonaram no momento de sua prisão que além de uma debilidade humana, pode ter sido tam- bém uma desilusão ao ver que Ele não correspondia àquela imagem judaica do messias rei. Não é errado imaginar também nesta desilusão, a razão subjetiva da traição de Judas Iscariotes. A proibição de Jesus de não dizer que ele era o messias, se explica no sen- tido de se impedir uma proclamação que pudesse fa- vorecer uma falsa interpretação de sua missão, preci- samente a que combatera como uma tentativa diabó- lica. Assim se conclui que Jesus não recusou o título de messias, mas que manifestou para com ele uma grande reserva. Jesus considerou inclusive este título como uma tentação satânica e procurou substituí-lo pela expressão “Filho do Homem”. Este título se opõe à idéia de “Ebed Iahweh”. Portanto não houve por parte de Jesus uma recusa direta a este título, mas uma grande reserva diante das imagens que se con- centravam em torno do messianismo político. A ma- neira como Jesus cumpre a sua missão como messi- as, o mediador, se opõe à esperança judaica.

10. “Filho de Davi”: este título é uma variante do título de messias, o qual designa o messias de acordo com a sua origem: Filho de Davi. Precisamos perguntar:

Jesus é verdadeiramente proveniente da família que a

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tradição fazia ser da casa real de Davi? Considerou Jesus a origem davídica como uma condição essenci- al para a realização de sua missão? Muitos historia- dores negam a existência de uma tradição familiar davídica na família de Jesus e para isto argumentam que esta tradição teria sido criada mais tarde pela I- greja, a fim de responder à polêmica judaica, já que o messias esperado devia sair da família de Davi. Mui- tos estudiosos afirmam que a genealogia dada por Lucas seria aquela de Maria, e aquela dada por Ma- teus seria a de José. Paulo na sua Carta aos Roma- nos (1,3) atesta que a família de Jesus seria proveni- ente da família real de Davi. Sua afirmação se baseia provavelmente numa confissão de fé da comunidade primitiva, o que mostra que a filiação davídica de Je- sus era indiscutível. Com isso pode-se afirmar que a família de Jesus possuía ao menos uma tradição oral, segundo a qual ela pertencia à linhagem de Davi. Mas Jesus se auto-designou como “Filho de Davi”? O evangelista Marcos (12,35ss) faz uma referência a es- te título e a conclusão dos estudiosos é de que Ele não recusou diretamente este título quando os outros davam-lho, mas recusou energicamente a idéia de uma realeza política associada a este título. Contu- do, podemos afirmar que o cristianismo primitivo a- dotou esta terminologia em relação a Jesus assegu- rando que ele apareceu sobre a terra como Filho de Davi, que ele exerce a realeza sobre a comunidade dos fiéis e que virá no fim dos tempos como messias.

11. “Filho do Homem”: este título messiânico é o único segundo os evangelhos sinóticos, que Jesus aplicou a si mesmo. Este título no judaísmo significa aquele que pertence à espécie humana; de fato em aramáico a palavra “Barnascha” significa “Homem”. Este título aparece a primeira vez no livro de Daniel (7,13), mas

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não parece ter uma conotação de caráter messiânico. Só mais tarde passou a ser designado um Salvador escatológico, como por exemplo é designado no livro de Enoque, onde é classificado como um ser celestial sobrenatural. Este “Filho do Homem” aparecerá so- mente no fim dos tempos, sobre as nuvens com o ob-

jetivo de julgar o mundo e de realizar o povo dos san- tos. Jesus qualificou a si mesmo de “Filho do Ho- mem”? Encontramos algumas referências deste título nos evangelhos (Mc 2, 27ss; Mt 12,31; 25.31ss’ Lc

Nos variados textos que fazem referências a

este título cristológico aparece a conotação de que Jesus o aplica à sua missão terrena, expressando as- sim a sua humilhação, como servo sofredor. Embora este título apareça 69 vezes nos sinóticos, encontra- mos também 12 vezes no evangelho de João; eis al- gumas destas referências (Jo 3,13; 5,27; 6,27; 9,35;

Encontramos também em outras

12,10

).

12,23; 13,31

).

partes do Novo Testamento (Ap 1,13).

c) Os títulos Cristológicos referente à obra presente de Jesus

12. “Jesus o Senhor (Kyrios)”: este título melhor do que qualquer outro, expressa o fato de Cristo ter sido elevado à direita Deus e de interceder pelos homens em sua condição de glorificado. Para os primeiros cristãos este título indicava que Jesus não pertencia somente ao passado da história da salvação, e nem era apenas objeto de uma esperança futura, mas também era uma realidade do presente, onde ele es- tava vivo em relação com a sua Igreja. Os primeiros cristãos expressaram esta profunda convicção em sua profissão de fé: Kyrios Iêsous- Jesus é o Senhor. No mundo helenístico o termo “Kyrios” era um título

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reservado aos deuses e deusas; basta lembrar a afir- mação de Paulo na sua primeira Carta aos Corintios “Como há muitos deuses e muitos Kyrioi, para nós

e um só Kyrios, Jesus Cristo” (1Co

8,5ss). O título de Senhor atribuído a Jesus pela fé cristã segundo W Bossuet foi-lhe atribuído por influ- ência do helenismo. No império romano este título es- tava ligado à pessoa do Imperador e tinha um sentido político e jurídico, mas sem implicar a afirmação da divindade do imperador, embora no Oriente, muito

antes da época romana, os soberanos eram honra- dos como deuses. Os Imperadores romanos herdaram esta dignidade divina, onde para os imperadores ro- manos já mortos, eram lhes atribuído por um culto de natureza divina. O imperador era chamado Kyrios como sinal de seu poder político e consequentemente era honrado também como um Deus; portanto este título no mundo helenístico passou do sentido geral

há um só Deus

de “Senhor” para um sentido absoluto de “o Senhor”. O título “Senhor” aplicado a Jesus, só recebeu a sua plena significação depois de sua morte e glorificação, conferindo a Ele também a dignidade de messias. Ele foi “feito Senhor” (Atos 2,36). Marcos dá a Jesus este título apenas uma vez (11,3) e Mateus jamais lhe dá este título, ao passo que em Lucas ocorre freqüente- mente (Atos 2, 36). Podemos também conferir este tí-

tulo em Fl 2,9; Rm 1,3; 1Co 16,22

A confissão de fé

“Senhor Jesus” teve uma grande importância para os cristãos fora da Palestina, principalmente durante as

perseguições, onde estes proclamavam a soberania de Cristo em contraposição à do Imperador (Ap 17,14). Para os primeiros cristãos a soberania de Je- sus indicava que ele estava sentado à direita de Deus e que todos os inimigos lhe estão submetidos (1 Pd

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3,22). Portanto ele é o único soberano e não existe outro além dele.

13. “Jesus o Salvador”: este título aparece uma vez na

epístola aos Filipenses, e encontra-se esporadicamen-

te no evangelho de Lucas e de João e de uma manei-

ra mais freqüente nas Cartas pastorais na segunda

Carta de Pedro. A aparição tardia do título "Salvador" parece ser devido ao fato do papel iminente que de- sempenhou o título de Kyrios. No Antigo Testamento Deus é chamado "Salvador". Mas também este título

é dado para alguns homens de Deus que salvam o

seu povo em seu nome e por sua ordem. Assim foi chamado Moisés que "Salvou" a seu povo; e também

os chefes de Israel foram chamados de "Salvadores".

O messias era considerado como o "Salvador que vi-

rá" para livrar definitivamente o seu povo. Portanto, no Antigo Testamento e no judaísmo, de uma manei-

ra geral, o título Sóter (Salvador) estava ligado essen- cialmente ao Salvador do povo, a heróis que salvaram

o seu povo. Durante sua vida Jesus nunca foi cha-

mado “Sóter” por ninguém e nem chamou a si mes- mo deste modo. Este título encontra-se presente so- bretudo nas Cartas pastorais (1Tm 1.1; 2.3; 4.10; Ti- to 1,3; 2.10; 3,4) e também no evangelho de Lucas

(1,47; 2.11). Trata-se da transferência a Jesus de um atributo que o Antigo Testamento dá a Deus. Jesus é

o Salvador porque salvará o seu povo do pecado (Mt

1,21). Contudo, o alcance teológico do título “Sóter”

terá a sua plena expansão no final da época apostóli- ca, quando este título, associado ao outros atributos importantes do nome de Jesus, tomou lugar na a an- tiga fórmula “Ichthys: Iesous Christós Theon Niós Sotér (Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador).

d) Títulos referentes a preexistência de Jesus

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14. "Lógos": este título ocupa um lugar de destaque na Cristologia da Igreja antiga, contudo no Novo Tes- tamento apenas João o menciona. Este título ocorre mais na filosofia grega de Heráclito e mais tarde no estoicismo. O Lógos aí é a lei suprema do mundo, que rege o universo e que está presente na razão huma- na. No evangelho de João este título, Lógos, só é atri- buído a Jesus no prólogo e em outras duas passa- gens. Este é fruto de uma reflexão teológica que pres- supõe a experiência litúrgica da soberania de Cristo (Jo 1,1). O Lógos é Deus e ao mesmo tempo estava em Deus. O título cristológico Filho de Deus geral- mente foi examinado na dogmática posterior exclusi- vamente do ponto de vista das duas naturezas: "Filho de Deus", o qual indica a natureza divina de Jesus Cristo e "Filho do Homem", que indica a natureza humana de Jesus. Na verdade, o título "Filho de Deus" caracteriza-se de maneira particular e total- mente única a relação entre o Pai e o Filho. A origem desta noção deve ser buscada nas antigas religiões orientais onde os reis em especial, eram considerados como gerados dos deuses. Esta crença estava parti- cularmente espalhada no Egito, onde os faraós pas- savam a ser filhos do deus sol Rá. Na época do Novo Testamento os imperadores romanos tinham o título de “divi filius”. No helenismo este título não era dado somente para os monarcas, mas para gente de todas as classes para quem eram atribuídas forças divinas; todos os taumaturgos eram "Filhos de Deus". A pre- tensão destes homens de serem Filhos de Deus, ba- seava-se na convicção de que eram dotados de forças divinas. No Antigo Testamento esta expressão é apli- cada tanto para o povo de Israel inteiro (Ex 4,22; Is 1,2; 30,1; Jr 31,20), o qual é chamado "Filho de

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Deus", como também para os reis, (2 Sm 7,14; Sl 2,7), ou ainda para os comissionados especiais de Deus, tais como os anjos e também o Messias, como indica o livro Etíope de Enoque. Em resumo, pode- mos dizer que para o Antigo Testamento como tam- bém para o judaísmo, o que caracteriza o Filho de Deus não era primordialmente uma força excepcional e também nenhuma relação de substância com Deus em virtude de haver sido divinamente gerado; mas sim o fato de ser eleito para realizar uma missão di- vina particular, e de obedecer estritamente ao cha- mado de Deus. Será que Jesus considerou-se como "Filho de Deus"? Para muitos teólogos a resposta é negativa (W. Bousset, Bultmann), os quais sustentam o emprego deste título por uma questão de origem helenística. Seria possível portanto, que a comunida- de primitiva tivesse colocado posteriormente este tí- tulo na boca de Jesus, Contudo os Sinóticos deixam claro que durante a sua vida Ele foi reconhecido co- mo "Filho de Deus"; basta lembrar a declaração de Pedro (Mt 16,17) a declaração do diabo (Mt 4,3-6), dos demônios (Mc 3,11; 5,7), a voz celestial no mo- mento do batismo e da Transfiguração, a declaração do Centurião (Mc 15,39). Portanto este título para os Sinóticos parece remontar ao próprio Jesus. É de se notar que Jesus recusou diretamente ou ao menos evitou conscientemente o título de "Messias", mas no caso do título "Filho de Deus", num sentido totalmen- te único e especial, este deve ter sido um elemento essencial da consciência que Jesus tinha desse mes- mo. Devemos lembrar que Jesus preferiu, em virtude do “segredo messiânico”, o título “Filho do Homem” ao de "Filho de Deus". O título “Filho de Deus” con- tém uma afirmação de soberania e de dignidade divi- na excepcional. O título “Filho de Deus”, figurou en-

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tre as primeiras formas de confissão de fé da igreja primitiva (At 8,36-38). Este credo fundamental en- contramos também na primeira Carta de João (1Jo 4,15), assim como em outras passagens do Novo Tes- tamento (Hb 4,14; Rm 1,3s). A carta aos Gálatas (4.4) afirma que Deus enviou seu Filho para nos resgatar, assim como também a Carta aos Romanos (5,10) a- firma que pela morte do Filho de Deus fomos reconci- liados. Paulo menciona também um outro aspecto: a soberania do Filho de Deus, o qual é a imagem de Deus desde o começo (Cl 1,14s), e por isso Deus nos

predestinou a sermos semelhantes à imagem de seu Filho (Rm 8,29). Por fim, Paulo fala da unidade entre

o Pai e o Filho (1Cor 15,28), Deus nestes últimos

tempos, falou-nos pelo Filho” (Hb 1,1s).

15. “Deus”: com o título cristológico “Kyrios” Jesus é considerado Deus enquanto soberano, que desde a sua glorificação rege a Igreja, o universo e a vida de cada indivíduo; enquanto “Lógos” é aquele que se re-

vela desde o começo enquanto Deus porque é aquele que vem do Pai e ao Pai retorna. As passagens onde o nome de “Deus” aparece aplicado a Jesus são pou- cas; Jesus não se chamou a si mesmo de “Kyrios” e nem tampouco se auto-designou “Theós”. No evange- lho de João encontramos duas passagens onde apa- rece claro este título (Jo 1,1; 20,28). Na carta aos Hebreus (Hb 1,8-9) este título vem empregado duas vezes. Paulo também designa a Jesus com título de “Deus”, porém não tão explicitamente como o evange- lista João ou a Carta aos Hebreus, pois a divindade

de Cristo está implícita no título o “Kyrios” (1Cor 8,9;

Fl 2,6; Cl 1,15; 2,9; Rm 9,5).

Em conclusão, pode-se provar logicamente que o centro de toda revelação divina reside na vida terrena e

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na morte de Jesus; ele é o centro da história divina da salvação, o centro indiscutível da revelação de Deus. Es- ta verdade os primeiros cristãos a compreenderam acei- tando o testemunho da vida de Jesus, com os aconteci- mentos de sua paixão e morte e de sua ressurreição e também fazendo a experiência litúrgica e pessoal da presença do “Kyrios”; Senhor da igreja e do mundo. Es- tes meios para o conhecimento de Jesus Cristo são os mesmos para o homem de hoje.

7. O PERFIL CRISTOLÓGICO NO NOVO TESTAMEN- TO

Sendo que fundamentamos a Cristologia nos e- vangelhos, é necessário ter uma visão sintética daquilo que o Novo Testamento nos ensina sobre Jesus. Cada evangelista traça um perfil de Jesus; assim Marcos deli- neia um Jesus autenticamente humano o qual tem sen- timentos de tristeza (3,5), trabalha muito (3,21), mani- festa “sangue quente” ao expulsar os vendilhões do tem- plo (11,15). Marcos denomina Jesus de “Filho do Ho- mem”, título que ocorre 14 vezes nos lábios de Jesus no decorrer do seu evangelho. Este título quer significar simplesmente que Jesus é homem. Este título que se encontra 93 vezes no livro de Ezequiel, está também no livro de Daniel (7,13s) com um sentido messiânico. Por- tanto Jesus é também o Messias que perdoa os pecados, que é Senhor do Sábado; é aquele que deverá consumar a história (Mc 2, 10; 2,28; 13,26). Em Marcos é também característico o título “Filho de Deus”. Ele inicia seu Evangelho com as palavras “Princípio da boa nova de Jesus Cristo, Filho de Deus”(1,1). Jesus é o Filho de Deus que expulsa demô- nios (3,11), é Jesus quem responde afirmativamente ao

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Sumo sacerdote que ele é o Messias, o Filho do Bendito (14,61). Na transfiguração é o Pai quem aponta Jesus como o seu “Filho amado”. Será o Centurião romano quem confessará que Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus (15,39). Marcos enfatiza também a divindade de Jesus ao relatar as obras que realiza, ou seja, os milagres os quais manifestavam o seu poder divino (2,3-12); Nesta passagem Jesus cura o paralítico e também lhe perdoa os pecados e o povo escandaliza-se alegando que somen- te Deus pode fazer tal prodígios. Jesus também realiza milagres evidenciando o seu poder sobre a natureza (4,35), sobre as doenças (6,56) e sobre a própria morte (5,21-43). É importante notar que no evangelho de Mar- cos os milagres representam 31% do texto. Se Jesus não tivesse feito milagres, como explicar o entusiasmo do

povo por ele, a fé dos apóstolos na sua divindade e a de- cisão dos Sacerdotes e fariseus em matá-lo?

O evangelista ainda afirma a divindade de Jesus

relatando que ele pregava e expulsava demônios (1,23- 26; 3,15; 6,7). Jesus expulsa os demônios indicando que

o Reino de Satanás está no fim (3,22-27). Ele perdoa os pecados (2,9).

O evangelista Mateus que escreveu para os judeus

convertidos ao cristianismo, utiliza o Antigo Testamento para demonstrar que Jesus é o Messias prometido pelos profetas. Ele vê no Antigo Testamento as luzes projeta- das sobre Cristo (1,22; 2,5; 2,17; 3,3; 8,17; 11,10; 13,14). Ao relatar a genealogia de Jesus Cristo ele utiliza

o vocábulo Cristo que significa Messias (1,1). Ele apre-

senta Cristo num contexto humano; Ele é Filho de Davi,

o Filho de Abraão, o que significa que ele é o herdeiro do

rei a quem foram feitas as promessas messiânicas (2Sm 7,1-16) e que realiza as promessas feitas a Abraão (Gn 12,3). Jesus é o Filho de Maria por obra do Espírito San-

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to (1,18-25), o que significa que Jesus é a grande novi- dade, o novo Adão. José recebe a incumbência de dar o nome de Jesus ao Filho de sua esposa, o que quer dizer que José é o pai de Jesus segundo a lei da adoção que em Israel conferia plenos e efeitos de paternidade.

O evangelista Mateus evidencia a majestade de Je-

sus, omitindo tudo que possa sugerir alguma limitação decorrente de sua humanidade. Por exemplo, afirma que Jesus faz os milagres que quer (13,58). Ressalta a atitu- de de profunda reverência do povo diante dele (8,2; 9,18; 15,26; 20,20), assim como também a profunda homena- gem a ele (18,26). Ele utiliza também o verbo aproximar- se que significa ter um acesso reverente, como por e- xemplo quem vai pedir-lhe um milagre, aproxima-se dele (8,25; 9,1-20; 28;15-23; 4,3). Os discípulos aproximam- se dele respeitosamente (8,25). Há, portanto uma ênfase majestosa sobre a pessoa de Jesus pois ele é um mestre que ensina uma justiça melhor que a dos fariseu (5,8), ele é o taumaturgo que

realiza milagres (8,9). Ele é o legislador da vida comuni-

tária, o sensor dos escribas e fariseus hipócritas

Para

Mateus Jesus é o Filho de Deus vivo, que tem a igualda- de com o Pai (11,25-27). Jesus manda batizar “em nome do Pai do filho e do Espírito Santo” (28,19). Pedro confes- sa que Ele é o Cristo, o Filho do Deus vivo (16,16;14,32). O próprio Jesus responde ao Sumo sacerdote afirmando que é o Cristo, o Filho de Deus. Jesus chama a Deus de seu Pai (7,21; 12,50). Portanto para Mateus a divindade

de Jesus sobressai com evidência realçando assim a sua transcendência.

O evangelista João se serve do vocábulo grego Ló-

gos para designar o Cristo que tornado carne, habitou no meio dos homens (1,1-14;1Jo 1,1s/ Ap 19,13). Para João o Lógos se fez carne. Com a encarnação de Jesus, Deus santificou e consagrou tudo o que era humano.

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Através de sua natureza humana Jesus comunicou aos homens os dons do Pai (6,54). Com a sua encarnação, Deus se dignou viver a condição humana. Mas o evange- lista também salienta o aspecto transcendental de Jesus (12,3;16,28). Sua transcendência também é revelada pelo evangelista no emprego da expressão “Eu sou”, uma fórmula que faz alusão ao nome Javé, nome com que Deus se revelou no Antigo Testamento (Ex 3,13), indicando assim a igualdade de natureza divina que e- xiste entre o Pai e o Filho (13,19; 8,24.28.58; 10,30.38;14,19;15,26). João enfatiza também a ação salvífica de Jesus; ele veio ao mundo para livrar o ho- mem do domínio de Satanás (12,31; 14,30,16). O apóstolo Paulo tem uma cristologia muito elabo- rada, ele que escreveu suas cartas entre os anos 51 a 67. Para ele o Cristo existia antes de se manifestar aos homens, ele era o próprio Deus igual ao Pai em dignida- de. Ele existia na condição divina e se esvaziou, tornan- do-se servo semelhante aos homens, humilhando-se e tornando-se obediente até a morte e morte de cruz (Fl 2,6-7). Portanto ele preexistia e possuía a natureza e a glória de Deus Pai. Encarnando-se, despojou-se de sua glória para assumir a condição humana e por isso Deus

o exaltou sendo reconhecido como o Senhor. Paulo a-

testa também a preexistência do Filho em Gl 4,4; 1Tm

3,16.

Outra designação que o apóstolo dá a Jesus é de Cabeça do corpo que é a Igreja, (Cl 1,15-20). Para Paulo Cristo é também o segundo Adão, pois assim como todos morreram em Adão, todos hão de reviver em Cristo; ele é

o Pai da nova humanidade, (1Cor 15,22; Rm 5,12-21).

Cristo é também o enviado do Pai (Rm 8,3; Gl 4,4). É também o Senhor (1Cor 8,6; Fl 2,9-11). Na carta aos Hebreus, a qual não é de autoria de Paulo mas de um seu discípulo, a imagem característica

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de Cristo é de Sacerdote e Rei. Ele como Deus feito ho-

mem, se tornou o mediador da nova aliança; como Sumo Sacerdote penetrou uma vez por todas no Santuário ce- leste e ofereceu um sacrifício não com sangue de novi- lhos ou bodes, mas com o seu próprio sangue, obtendo para nós a redenção eterna. extinguiu assim a antiga aliança e ofereceu um sacrifício não pelos próprios pe- cados mas pelos pecados dos homens derramando o seu

sangue, ou seja, dando a sua vida numa entrega total ao Pai (9,1-28;10,5-10). Jesus com o seu sacrifício continua

a sua função de mediador e de intercessor em favor da

humanidade (7,27). Ele é o Sumo Sacerdote misericordi- oso e fiel, que deu a sua vida para a expiar os pecados da humanidade (2,14-17). Jesus é também o Cristo Rei e Sacerdote, com ele o sacerdócio do Antigo Testamento ficou abolido (7,1-4.9-11). O livro do Apocalipse escrito por João por volta do ano 96 durante as perseguições quando os cristãos cor- riam perigo de esmorecer na fé, surge com seu estilo

próprio, cheio de símbolos e com um gênero literário já conhecido pelos judeus após o exílio na Babilônia (587- 538 aC). Este descreve, a intervenção de Deus na histó- ria dos homens para julgar os bons dos maus e acabar com iniqüidade sobre a terra. O livro descreve o Cristo Jesus vencedor da morte, ressuscitado e reconhecido como o Senhor da história (5,8-14). Portanto a imagem do Cristo é exaltada como Kyrios. Outro título dado a Cristo neste livro é de Pantokrátor, ou seja, Todo- Poderoso (1,12-16). Neste trecho vem oferecida uma sín-

tese dos principais títulos de Cristo sob a forma de sím- bolos; ele está vestido com uma túnica, a qual represen-

ta o seu sacerdócio (Ex 28,4); tem um cetro de ouro o

que significa a sua realeza; seus cabelos são brancos o que significa a eternidade (Dn 7,9); seus olhos são o

chamejantes indicando a ciência divina; seus pés de

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bronze, indicam a estabilidade; sua face como sol que brilha, indica a majestade soberana (Dn 10,6); há uma espada afiada, indicando a sua palavra rigorosa e eficaz (Ap 19,15; 2,16). Assim, o Apocalipse põe em relevo a transcendên- cia divina de Jesus enfatizada também em outras pas- sagens onde afirma que Ele é o Alfa e o Ômega, o Viven- te (1,8; 22,13; 1,18). Ele está em pé de igualdade com o Pai e por isso recebe a mesma adoração (5,13; 22,3; 3,21); Ele é ainda chamado Rei dos Reis (19,12;17,14;

11,15).

Marcos inicia o relato da vida de Jesus com o seu batismo feito por João Batista. Depois do batismo, Jesus no deserto foi tentado regressando em seguida em Naza- ré para pregar o evangelho e anunciando: "O Reino de

Contemporaneamente forma um grupo

de discípulos e segue para Cafarnaum onde prega na Sinagoga e começa expulsar demônios, curar leprosos,

ajunta-se com os pecadores, sendo que os fariseus o de- saprovam e o criticam também por não observar o sába- do. Entretanto, a sua fama se espalha por toda a Região. Para Marcos o cerne de sua pregação esta caracte- rizada nas parábolas tiradas em grande parte da vida rural. No seu grupo estão pescadores, zelotas, cobrado- res de impostos, judas o traidor. O povo no contato com ele constatam sua força influindo até na natureza, a- calmando a tempestade, multiplicando pães, curando

e o reconhece como um grande profeta, como o

cegos

Deus chegou"

Messias. Durante o seu ministério vai algumas vezes em Jerusalém, e ali é aclamado como rei, expulsa os nego- ciantes do Templo, atrai a atenção dos fariseu e dos sa- duceus, estes o perseguem e prendem. Na véspera de sua paixão abençoa o pão. É interrogado e declara-se o Messias, que é o rei dos Judeus, é espancado, amarrado na cruz e pregado, morrendo. José de Arimatéia o sepul-

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ta, as mulheres vão visitar seu túmulo e constatam sua ressurreição. Após a ressurreição aparece aos discípu- los e por fim foi elevado aos céus. Para Marcos, os títulos de Cristo Messias e Filho de Deus têm uma grande importância, pois ele é aquele que realiza o Reino de Deus (Mc 1,15), por isso ensina como alguém que tem autoridade (Mc 1,22), que tem forças para curar. Mateus liga Jesus ao Antigo Testamento e em seu Evangelho encontramos a metade das palavras de Mar- cos, o que indica que ele usou Marcos como fonte. Para Mateus Jesus teve uma lista invulgar de ancestrais, são precisamente 28 gerações até Davi, mais 14 até Abraão. Ele refere José como o pai nominal de Jesus. Jesus nas- ceu em Belém sob o domínio de Herodes, foi visitado por Magos, Relata a matança dos inocentes por Herodes o que levou José fugir para o Egito, voltando depois para Nazaré (tudo isto coloca como cumprimento do Antigo Testamento). Relata do batismo de Jesus no Jordão, a sua tentação no deserto e em seguida o Sermão da Mon- tanha, as curas, os exorcismos, as parábolas, a paixão, morte e ressurreição de Jesus, finalizando com a missão aos apóstolos para irem no mundo inteiro pregando o Evangelho. Lucas, inicia seu Evangelho afirmando que fez uma investigação apurada para escrever seus escritos, os quais são proclamações de natureza milagrosa de Jesus e de sua autoridade. Coloca como primeiras figuras de seu Evangelho o velho Zacarias e Isabel, enfatizando o nascimento milagroso de João Batista, a concepção vir- ginal de Maria, o Magnificat, o canto de Zacarias, o re- censeamento, o nascimento em Belém, os pastores e Je- sus aos 12 anos. O Sermão da Montanha é colocado mais tarde e uma planície e o relato da paixão é seme-

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lhante a Mateus e Lucas. Enfatiza também os discípu- los de Emaús. Como percebemos, o perfil cristológico apresenta- se claro nos quatro evangelhos canônicos escritos em grego, os quais são a documentação mais vasta sobre Jesus, sua atividade e seus ensinamentos. Estes foram escritos entre os anos 70 100 dC. Os originais destes não existem mais, somente cópias que datam de 100 a 150 anos de distância do texto escrito ou ditado pelo autor. O papiro mais antigo que traz um fragmento de João (Jo 18,31-33.7), o P 52, que descoberto no Egito, remonta à metade do século II e outras folhas de papiro dos evangelhos descobertos no Egito, remontam o sécu- lo III. Os papiros ou fragmentos de papiros do NT são uns 80. Para a validade da pesquisa histórica dos evan- gelhos é preciso estabelecer primeiramente a autoridade do texto mediante o confronto das diversas edições re- produzidas em papiros ou códigos, e este trabalho já tem mais de um século de estudos, confirmados pelas descobertas de outros papiros. Depois, deve-se estabe- lecer o valor histórico das fontes em que se fundamen- tam os evangelhos, assim como o ambiente religioso e cultural do judaísmo e dos testemunhos dos escritos Paulinos. Vem depois a consideração o ponto de vista literário e teológico do escritor (Redaktionsgeschichte).

8. FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICA DA CRISTOLOGIA NO NOVO TESTAMENTO

A teologia católica admite que o evangelho antes de ser escrito foi pregado oralmente no início e que os pregadores se preocuparam mais em estruturar a fé dos ouvintes levando a eles a mensagem de salvação. Porém não admite que tenha havido desvio da realidade histó-

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rica ou o desinteresse pela figura real de Jesus, e por isso, quem crê nos evangelhos não crê naquilo que os antigos cristãos imaginavam simploriamente, mas na autêntica mensagem de Jesus Cristo. A fundamentação dessa afirmação podemos tê-la na seguintes considera- ções:

As primeiras comunidades fundadas foram guia-

das e também visitadas pelos apóstolos os quais procu- raram ser fiéis na transmissão e na conservação da mensagem (At 1,15-26; 2,14-40; 3,12-26; 5,29-32; 1Cor 15,6). Os apóstolos foram testemunhas do que viram e ouviram (At 1,8; 2,32; 3,15; 4,20;13,30; 1Cor 15,3-11). Os pregadores tiveram a preocupação de transmitir fiel- mente a mensagem, (1Cor 11,2.23; Fl 2,14; 4,9; 1,12s). A fé cristã é ligada a fatos históricos e objetivos, de modo que não pode ser negada a sua autenticidade. São Paulo afirma que se Jesus não tivesse ressuscitado, seria vazia a pregação e ilusória a fé (1Cor 15,14). Os apóstolos sempre procuraram distinguir entre

o mito e a Palavra da verdade (1Tm 1,3; 4,7; 2Tm 1,4; Pd 1,16). Além do mais, a transmissão da fé foi acompa- nhada pelo Espírito Santo prometido por Jesus (Jo

14,22).

A historicidade dos evangelhos é comprovada

também por fatos históricos, geográficos, políticos e re- ligiosos da Palestina. Além disso os apóstolos dificilmen- te poderiam mentir naquele ambiente hostil onde a mensagem era pregada. Soma-se a isso o fato de que os evangelistas nunca poderiam ter inventado um Messias do tipo de Jesus, pois não cabia na mente dos judeus a idéia de um Deus feito homem (1Cor 1,23). Devemos considerar também que os apóstolos, eram homens ru- des da Galiléia e que teriam dificuldades em criar a figu- ra de Jesus com uma dimensão tão grande seja intelec- tual, seja moral ou psicológica. Por fim, pregar a mensa-

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gem de Jesus naquele ambiente não era fácil pois era

uma mensagem exigente que exigia a amor aos inimigos,

a renuncia, a proibição

tusiasmava por aquilo que era pregado pelos apóstolos.

E mesmo assim o povo se en-

9. FONTES BÍBLICAS SOBRE JESUS Com a Dei Verbum qualquer investigação sobre um fato que pretendesse ser “histórico” não podia pres- cindir das Fontes, pois só esta na sua qualidade e quantidade, legítima a pesquisa histórica, também para Jesus, um personagem ultra histórico. Daí a pergun- ta: Quais e quantas são as fontes históricas sobre Je- sus? Qual o seu valor e alcance histórico? Diante disso é preciso estabelecer um elenco ordenado dos docu- mentos que hoje nos põem em contato com Jesus e a ressonância destes no meio ambiente. O elenco inclui documentos textuais literário epigráficos e descober- tas arqueológicas. Hoje os documentos são muito supe- riores há dois séculos quando iniciou-se a pesquisa histórica sobre Jesus. Basta lembrar os textos de Qu- mrân e de Nag Hamanadi do Egito, assim como as es- cavações da Palestina, as quais deram aos estudiosos informações que nem Orígines, ou Jerônimo possuíam, embora dispusessem de bibliotecas excepcionais e de contatos com as tradições vivas “in loco”. Depois de 70 dC, ano da destruição de Jerusa- lém e do Templo, os judeus organizaram aos poucos o centro religioso cultural de Jâmnia (Judéia) sob a dire- ção de Johanan ben Zakkai, da escola de Hillel e depois com Aqiba (135) e Judah (200). No período chamado dos Tanaim (repetidores), redigiu-se a “Mishna” onde recolheu-se os ensinamen- tos tradicionais de caráter moral e jurídico. No século III IV deu-se o período dos “Amoraim”, ou seja, dos

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rabinos intérpretes da tradição da Mishna. No século V VI houve o empenho em comentar o Talmude babilô- nico por iniciativa dos rabinos chamados Saboraim (raciocinadores) . Hoje esta massa de tradições judaicas elabora- das em cinco séculos acha-se à disposição por escrito, e é uma fonte preciosa para o conhecimento do ambien- te cultural e religioso em que viveu Jesus. Mas o que dizem sobre Jesus estes documentos? O que dizem os historiadores coetâneos a Jesus a respeito dele e de su- as atividades? Concordam ou divergem de outras fon- tes?

O Evangelista Mateus vem testemunhado por Pa- pias, bispo de Cerápolis na Frígia. Homem fiel a tradi- ção recolheu testemunhas sobre a primeira geração cristã de pessoas que tiveram contatos com os apósto- los. Também Irineu, bispo de Lião e discípulo de Poli- carpo, que por sua vez tinha sido discípulo de João, a- firma em seu livro contra heresias, escrito por volta do ano 180 que Mateus viveu entre os hebreus, publicou o seu evangelho em hebraico. Da mesma forma, Clemente de Alexandria (+220), Orígines (+254) e Tertuliano (+215) testemunharam a favor de Mateus. Portanto é antiquís- sima a tradição de que Mateus escreveu o evangelho e que seu modo de falar é palestinense (Reino de Céus) invés de (Reino de Deus). Mateus fala de si próprio como publicano, os outros falam dele como Levi. O evangelista Marcos é também testemunhado por Papias e Irineu. Clemente Alexandria atesta que o evan- gelho de Marcos foi escrito em Roma. Foi escrito para pagãos e quando cita palavras em língua semítica dá a tradução como por exemplo: “Talitá Cum” (Menina levan- ta-se) “Corbara” (Oferta Sagrada), “Effetá” (Abre-te), “A- ba” (Pai).

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A prova mais antiga do evangelho de Lucas encon-

tra-se no fragmento muratoriano um documento desco- berto em 1740 numa biblioteca de Milão por Ludovico Muratori e faz parte de um catálogo de livros sagrados composto pela Igreja de Roma em 180. Este documento diz que Lucas era médico e que depois da Ascensão de Jesus escreveu o evangelho que o tem como autor, ser- vindo-se do que ouvira de São Paulo. Por fim, o evangelista João tem a confirmação pelo fragmento muratoriano, Clemente de Alexandria, Tertu- liano, Orígines Umas das provas da antigüidade dos evangelhos é a grande quantidade de suas citações nos mais antigos escritos cristãos. Frases inteiras existem nas cartas aos Corintios de São Clemente Romano, terceiro Papa, escri- tas pelos anos 95. Na Didaquê, coletânea anônima de normas morais e rituais da Igreja siríaca escrita nos ano 110-120. Quanto a João, há um fragmento de um antigo papiro egípcio desse evangelho ( papiro de Ryiands) do

ano 130.

O que os evangelistas escreveram foi voltado para a

verdade e não tinham motivos para mentir. Estes eram pessoas equilibradas e se tivessem mentido teriam pes- soas para desmascará-los, já que tinham a oposição dos judeus, foram perseguidos, presos e mal vistos. Ne- nhum dos apóstolos colocou como doutrina sua, o que escreviam, pois eram homens simples e nem tinham fa- cilidades para entender as idéias de Jesus. Além destas referidas fontes fundamentadas nos quatro evangelhos, dispomos igualmente das outras fon- tes denominadas fontes cristãs, as quais ensinam que Jesus é descendente de Abraão (Gl 3,16), é da tribo de Judas (Hb 7,14). Família de Davi ( Rm 1,3), nasceu de melhor (Gl 4,4), ressuscitou (ICor 15,5), transfigurou-se (II Pd 1,16-18), institui a Eucaristia (I Cor 11,23s), pa-

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deceu sob Pilatos ( ITm 6,13), foi crucificado (II Cor 2,2) (I Pd 2,24), subiu aos céus (Ef 4,10).

10. AS FONTES JUDAICAS SOBRE JESUS

Jesus e os seus discípulos nasceram e viveram na Palestina, em um ambiente cultural e religioso, contudo pouco podemos tirar das fontes judaicas palestinenses que seja válido para conhecer Jesus e sua obra. Isto não significa que suas atividades e obras não sejam mencio- nadas na biblioteca tradicional judaica, o Talmude, ou em outros escritos judaicos mais tardios (sec IV V), mas que estas não representam tradições autônomas relativas àquelas em que se colhem nos escritos canôni- cos ou apócrifos, como afirmou J. Maier em sua obra Jesus de Nazaré na tradição Talmúdica” (1978). Maier afirma que o nome de Jesus foi acrescentado e adaptado no século IV, com um resquício da tradição arcaica pa- ralela aos evangelhos como no caso da condenação e execução de Jesus; portanto é preciso precaução. No “Diálogo de Trifon” (151 – 161) Justino acusa os judeus de terem rejeitado Jesus, o Messias e terem- se opostos à difusão do evangelho acusando o cristia- nismo de “heresia ímpia e criminosa”, cuja origem deve a um certo Jesus “Mago e sedutor do povo”. Este testemu- nho de Justino tem uma grande afinidade com o evan- gelho de Mateus, sobretudo quando lembra o episódio do roubo do corpo de Jesus do sepulcro. É um docu- mento de caráter polêmico e não fonte autônoma de pesquisa histórica. Obra polêmica é de Celso “Discurso Verdadeiro(178) onde anota pormenores sobre o nascimento de Je- sus, e segundo esta obra Jesus teria inventado o seu nascimento de uma virgem, mas nasceu de uma aldeã

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pobre da Judéia que acusada de adultério fora repudia- da pelo marido, um carpinteiro de profissão. Adianta ainda que a mãe de Jesus tinha ficado grávida de um soldado de nome Panthera. A história do soldado Pan- thera pode derivar de uma deturpação intencional do autor, com a finalidade polêmica no ambiente judaico da diáspora, onde se ouvia falar do nascimento de Jesus de uma “Parthenos”(Virgem). Portanto, pouco nada se pode deduzir das fontes judaicas diretas; o Talmude, ou indiretas com as cita- ções de autores cristãos sobre a obra histórica de Jesus. Os autores judeus só se interessaram de Jesus depois que o cristianismo estava cristalizado no Império Roma- no e não se podia ignorá-lo, e por isso quando ele foi incluído no Talmude não se tinha mais nenhuma lem- brança precisa e autônoma a seu respeito. Um dos principais testemunhos sobre Jesus nos vem de Flávio Josefo nascido por volta dos anos 37 38 aC na Palestina de uma família sacerdotal. Estudou a Torah”, aderiu ao movimento dos fariseus interessando- se em Jerusalém pela política. Em 64 foi à Roma e vol- tando em 66, acusado pelo exército de Vespasiano, en- tregou-se aos Romanos. Aderiu a Tito, tornou-se livre e assistiu os acontecimentos da guerra que destruiu Jeru- salém, tornou-se cidadão Romano e adotou o nome de Flavius e viveu em Roma as expensas da família imperi- al.

O autor testemunha Jesus em sua obra: “Antigüi- dades judaicas”. Narra os incidentes na Palestina suce- didas no tempo de Pilatos, os protestos dos judeus con- tra a introdução em Jerusalém das insígnias militares que ostentavam a figura do Imperador, a sublevação dos judeus quando souberam do projeto de Pilatos de cons- truir um Aqueduto para Jerusalém à custa do tesouro do Templo. Fala de Jesus como homem sábio, que fazia

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coisas extraordinárias, que arrastou para si muitos ju- deus e gregos e era chamado de Messias. Condenando à morte de cruz por Pilatos ao 3º dia, apareceu vivo. Estes relatos de Flávio Josefo são citados por Eusébio de Ce- saréia (sec. IV) na “História Eclesiastica” e por Jerônimo em “De viris ilustríbus” e por muitos outros. Flávio Josefo narra ainda que Pilatos ordenou a repressão violenta dos samaritanos em conseqüência de uma sublevação no Monte Garizim, e devido a isso Pila- tos teve que ir à Roma prestar contas e foi deposto de seu cargo de governador da Judéia. Portanto, o “tetesmunho Flaviano”, sobretudo so- bre Jesus é aceitável, concorda substancialmente com os dados da tradição cristã, e suas reticências sobre Je- sus e o início do cristianismo é compreensível em vista da situação política contra os judeus e porque quando ele escreveu “Antigüidades”, no 13º ano de Reinado de Domiciano, a atmosfera política não era favorável ao cristianismo que era considerado como suspeito. Além de Flávio Josefo tem-se também o testemu- nho de Tácito um historiador não judeu, escreveu “An- nales” (115 – 117 dC), onde relata o incêndio que Nero provocou em Roma em julho de 64, para culpar os cris- tãos aos quais ele odiava. “Cristo, fundador da seita, cu- jo nome haviam adotado, fora justiçado pelo procurador Pôncio Pilatos, sob o Reino de Tibério”. Ele relata da expansão do cristianismo não só na Judéia, mas também em Roma, e os suplícios dados aos cristãos que “embora culpados e merecedores dos mais graves castigos suscitavam compaixão, como gente sa- crificada, não só ao bem público, mas à crueldade de um só. A descrição de Tácito reflete a mentalidade com que os cidadãos de Roma concebiam os cristãos que o- lhavam com suspeita as seitas estrangeiras.

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Também Thallos historiador samaritano, que es- creveu suas histórias em Roma na metade do século I e relata indiretamente a pessoa de Jesus. Igualmente Sue- tônio menciona o nome Cristo em sua obra “Vidas dos Césares”, afirmando que Claúdio expulsara os judeus de Roma por causa de Cristo, o que corresponde a Atos dos Apóstolos 18,2. Suetônio escreveu por volta do ano 120, há 70 anos de distância, por isso não teve interesse de precisar quem era esse “Cristo”. Plínio, o moço, governador da Bitínia escreveu uma carta por volta do ano 110 a Trajano para pedir- lhe instruções a respeito das medidas a tomar contra os cristãos denunciados nos tribunais é um testemu- nho a existência de Jesus Cristo. Ele via o cristianismo como uma das tantas superstições que dentre as práti- cas religiosas tinha o costume de reunirem-se “num dia fixo para cantar um hino a Cristo, como se fosse deus”. O testemunho de Mara bar Serapion datado do século I, escrito em língua Siríaca, refere a um “Sábio” que os “judeus mataram e por isso foram despojados do próprio Reino”, e desse rei sábio diz-se que sobrevive graças “às novas leis por ele promulgadas”. Portanto, destes historiadores deduzimos que fa- lam da pessoa e obra de Jesus telegraficamente, ou se- ja, que foi fundador de um movimento que a partir do século I está presente em Roma e Províncias, era co- nhecido com o apelativo de Cristo e um judeu conde- nado à cruz na Palestina pelo governador Pôncio Pilatos no tempo de Tibério. Aos olhos destes escritores a obra de Cristo só interessa como movimento religioso que para os romanos era uma superstição, como era todas as outras religiões não oficiais. Seus adeptos eram ju- deus ou estrangeiros mais ou menos detestáveis ou suspeitos. Estas notícias são preciosas se confrontadas

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com as fontes cristãs, onde revelam-se as concordân- cias.

1. Fontes cristãs extra- evangélicas Pode parecer paradoxal, mas a mais antiga docu- mentação cristã, as cartas de Paulo, é a mais sóbria e reticente quanto aos acontecimentos históricos e aos ensinamentos de Jesus. Bornkann, disse que “hoje sa- bemos com toda a probabilidade muito mais sobre o Je- sus histórico do que Paulo”, é que Paulo considera Je- sus numa perspectiva que ultrapassa a vicissitude his- tórica, pois ele mesmo afirmou: “Embora tenhamos co- nhecido Jesus Cristo segundo a carne, agora não o co- nhecemos mais assim” (II Cor 5,16), ou seja, para Paulo os critérios de avaliação não são mais os histórico hu- mano ou carnais, mas a fé em Jesus crucificado e res- suscitado; esta é a metodologia Paulina, o que não sig- nifica que o anúncio de Paulo não seja ancorado soli- damente na pessoa, obra e ensinamentos de Jesus. Paulo que conheceu Jesus através dos formulá- rios tradicionais da comunidade primitiva (I Cor 7,10 ; 9,14; 11,23; 15,3; I Tes 4,15), ele atesta que Jesus é judeu, descendente de Davi, viveu na Palestina, teve irmãos (Tiago) reuniu os doze, dentre os quais Pedro, com o título de Céfas e João, comeu a Páscoa com os discípulos na tarde que antecedeu a sua morte (I Cor 11,23-25), foi entregue pelos chefes dos judeus ( I Ts 2,15) com a autorização da autoridade Romana (I Cor 1,13.23; Gl 3,1.13). Morreu, foi sepultado, ressuscitou (I Cor 15,3-7). Na verdade, Paulo não refere os milagres de Jesus, à sua atividade na Galiléia, às suas parábo- las. Seus escritos são o eco da catequese cristã que se encontra nos evangelhos escritos 20-30 anos mais tar- de (Rm 12,14-15.17; Mt 5,18-48; Gl 5, 17.43).

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11.

O QUE DIZEM OUTROS DOCUMENTOS SOBRE JESUS

Existem alguns documentos denominados apócri- fos, os quais não têm valor histórico ou científico. Um deles escrito por Publius Lentulus, governador da Ju- déia, afirma que Jesus era de uma nobre estirpe e tinha uma aparência a de beleza fora do comum. Sua fronte era lisa e bela, sua barba era curta e espessa. Era ama- do por todos, tinha um estilo de vida austero mas ale- gre, sua conversação era muito amável e mantinha ati- tudes discretas. Sua aparência era semelhante à de sua mãe; era considerado um prodígio em sabedoria por to- dos os habitantes de Jerusalém. Nunca estudou, no en- tanto conhecia toda ciência. Os hebreus diziam que ja- mais ouviram conselhos semelhantes, assim como ins- truções tão elevadas, que ele ensinava com autoridade. Os judeus também o consideravam divino. Ele somente praticava o bem e todos reconheciam que dele só recebi- am curas e benefícios. Era um grande profeta e seus discípulos o chama- vam Filho de Deus. Sua sabedoria superava a dos maio- res gênios; era amável, manso e fascinante. Ninguém jamais o ouviu rir, muitos porém o viram chorar. Uma outra cópia tida como autêntica sobre o pro- cesso de Cristo e que se encontra no museu da Espanha coloca na boca de Pilatos estas palavras: “EU, PÔNCIO PILATOS, aqui presidente do IMPÉRIO ROMANO dentro

do palácio e arqui-residência, julgo, condeno e sentencio à morte Jesus chamado pela plebe CRISTO NAZARENO e Galileo de nação, homem sedicioso, contra a lei mosaica,

”seja amar-

rado e açoitado, e que seja vestido de púrpura e coroado

de alguns espinhos, com a própria cruz aos ombros para

contrário ao grande imperador Tibério César

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que sirva de exemplo a todos malfeitores, e que, junta- mente com ele, sejam conduzidos dois ladrões homici-

E que se conduza Jesus ao monte público da justi-

ça, chamado calvário, onde, crucificado e morto, ficará o seu corpo na cruz, como espetáculo para todos malfeito- res, e que sobre a cruz se ponha, em diversas línguas,

este título: Jesus Nazarenus rex judaeorum Onde esteve Jesus dos 12 aos 30 anos de idade? O evangelho diz que Jesus nos doze anos esteve no templo de Jerusalém entre os doutores (Lc 2,41) depois não diz mais nada sobre Ele até a início de sua vida pública quando tinha aproximadamente 30 anos de idade (Lc 3,23). Alguns procuraram dar explicações conjeturais para este espaço de tempo da vida de Jesus. Por exem- plo a sociedade Rosa Cruz diz que Jesus e estudou com os religiosos da escola do monte Carmelo e quando tinha 14 anos foi levado para a Índia onde permaneceu no mosteiro budista; dali foi levado para o vale do GANGES onde aprendeu sistema terapêutico dos hindus, depois passou para Pérsia e em seguida para a Mesopotânia. Continuou a sua formação na Grécia sempre guiado por magos sendo que depois dirigiu-se para o Egito onde es- tudou em Alexandria e Heliópolis. Finalmente recebeu o título de Mestre indo para a Palestina onde pregou o e- vangelho. Para o Esoterismo neste período da vida Jesus foi para a Índia, depois para o Egito e por fim para Pérsia onde estudou. Visto que ele combatia a distensão de castas na Índia foi perseguido sendo considerado um agitador rebelde, um socialista perigoso e um cidadão indesejável. Depois Jesus voltou para a Israel onde co- meçou a pregar o evangelho. Para as fontes Teosóficas, Jesus neste período de sua vida foi enviado para um mosteiro essênio no deser-

das

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to da Judéia. Ali estudou e depois foi para o Egito e por fim João Batista o batizou tornando-se um novo avatar. Portanto sobre a chamada “vida oculta” de Jesus, os evangelistas não nos relatam nada. Depois de com- pletar seus doze anos até quando se apresenta publica- mente para pregar aos que nele crêem e para formar a comunidade dos 12 apóstolos, a opinião da teologia que ele tenha vivido em Nazaré e trabalhado na carpintaria com José. Entretanto alguns afirmam, sem nenhum fundamento, que ele teria viajado fora da Palestina ten- do ao Egito e até mesmo à Índia. A possibilidade de que Jesus tenha viajado o fora da Palestina é uma hipótese que não tem provas históricas. Alguns chegam a afirmar que Jesus teria inclusive constituído família e tido filhos na Índia. Idéia fantasiosa, assim como aquela que diz que Jesus não teria vindo a este mundo em carne e os- so, mas que foi uma espécie de extraterrestre que des- ceu à terra numa nave espacial, inclusive os defensores desta idéia servem-se de alguns exemplos da arte como a do famoso ícone chamado “a ressurreição de Cristo”, o qual encontra-se em Moscou, para demonstrarem suas convicções, onde nesta obra de arte Jesus aparece num receptáculo que lembra uma espaçonave oval apoiada no chão e do seu exterior sai fumaça espessas que ocul- ta os pés dos anjos. Também o Pantokrátor da fachada da Igreja Moarbes de Ojeda, em Palência, Espanha, re- presenta Jesus Cristo dentro de uma cápsula espacial. Para os adeptos da teoria do Cristo extraterrestre, quan- do Jesus ressuscitou ele subiu para os céus numa nave espacial e a sua segunda vinda acontecerá em uma ou- tra nave espacial. Outros ainda chegam a admitir que Jesus é fruto da mitificação que os evangelistas fizeram dele. Um dos defensores desta hipótese é o racionalista Raimarus, o qual escreveu o livro intitulado “Da pretensão de Jesus e

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seus discípulos” publicado em 1778, onde sustenta que Jesus foi um messias político que morreu na cruz como um fracassado e seus discípulos acreditaram que ele era Messias e por isso roubaram o seu corpo e criaram o mito da ressurreição anunciando que ele voltaria. Nesta mesma linha, Strauss um outro autor de uma obra inti- tulada “Vida de Jesus”, publicada em 1835, afirma que os apóstolos não tinham necessidade de criar o mito de Jesus para evitar a sensação de fracasso e que portanto eles agiram de boa fé e acreditaram na sua ressurreição e na suas aparições, porém o mito surgiu da criação da devoção popular transformando Jesus histórico num personagem modelado pela fé das diversas comunidades cristãs. Portanto Jesus foi idealizado e mitificado pela fé. Foram encontrados entre 1947 e 1956 em 11 ca- vernas de Qunram e nelas 800 documentos, os quais já se encontram quase todos traduzidos, faltando contudo alguns papiros que constituem 15 mil fragmentos, al- guns menores que uma unha. Os manuscritos de Qu- mram são as mais velhas cópias que existem do Antigo Testamento. Estes foram escondidos pelos Essênios com medo dos Romanos, em cavernas e envolvidos em panos de linho e colocados dentro de vasos. O mais an- tigo data de 152 aC e o mais recente do ano 69. Cien- tistas e filósofos que trabalharam neles e já descobri- ram por exemplo: que os Essênios realizavam o batis- mo na água, que tinham a idéia do Messias e a oposi- ção à aristocracia sacerdotal do Templo; estas eram i- déias dos Essênios e que os cristãos absorveram. Não encontraram nada sobre Jesus nestes pergaminhos, por isso, Puechdiz que “Jesus é um pouco a imagem do mundo onde ele nasceu”.

Contudo estes documentos mencionam um fa- moso mestre de justiça que praticou a pobreza, a penitência, a humildade, o amor ao próximo e que

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era considerado o Messias. Ele foi objeto de hostili- dades do sacerdotes do partido dos Saduceus e foi condenado ao suplício.

Podemos dizer que todas estas explicações sobre os anos obscuros de Jesus acima mencionadas não têm fundamento exegético- bíblico; estas são tendências o- cultistas ou teosófista com sabor de fantasia e não de raciocínio científico. Mas por que os evangelhos ignoram este espaço da vida de Jesus? Por que os evangelistas nunca tencionaram escrever uma vida de Jesus com um caráter de biografia? Porque eles procuraram fazer eco escrito à pregação moral dos apóstolos a respeito de Je- sus e anunciado em primeiro lugar a sua paixão, morte e ressurreição como evento salvífico para o homem. De- pois porque os evangelistas foram levados a narrar as grandes linhas da doutrina ensinadas por Cristo duran- te os três anos de sua vida pública e se não relataram nada entre os 12 até os 30 anos de sua existência não é porque ignoravam o que Jesus tinha feito, mas porque isso não interessava diretamente na finalidade catequé- tica e pastoral dos apóstolos. Portanto pode-se dizer que Jesus viveu este período de sua vida em Nazaré traba- lhando na carpintaria com José. É importante afirmar que a expansão do cristia- nismo e portanto do nome de Cristo, deve-se muito a Saulo de Tarso (5 aC 64dC), cidadão romano e culto, o qual à revelia de Tiago, irmão de Jesus e chefe dos judeus cristãos em Jerusalém, pensou o cristianismo como uma reforma religiosa do “povo eleito”, batizando judeus e gentios. Durante dezesseis anos ele percorreu 20 mil Km a pé fundando comunidades na Síria, na Á- sia, na Grécia e em Roma e escreveu catorze cartas à estas comunidades. No ano de 56 foi acusado de intro- duzir os gentios no Templo e no ano 60 foi à Roma en- contrar-se com Pedro. Em 64 houve o incêndio de Ro-

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ma, encaminhado por Nero para destruir a cidade e os cristãos foram acusados, perseguidos, torturados. Pe- dro foi crucificado e Paulo como cidadão romano, teve o privilégio de ser decapitado. A esta altura da história havia mais cristãos fora da Palestina do que nela e o cristianismo tinha se inculturado conquistando o mun- do.

12.AS ORIGENS E O GÊNERO LITERÁRIO DOS E- VANGELHOS

Os sinópticos foram escritos 30-40 anos depois de Cristo e o evangelho de João 70 anos depois de Cristo. Os apóstolos na evangelização formaram uma coletânea de lembranças sobre Jesus em forma de catequese o- ral, como havia no judaísmo. Os apóstolos não tiveram

a

preocupação de compilar uma vida de Jesus ordenada

e

com detalhes, mas preocuparam-se principalmente em

transmitir as palavras e os gestos dele para as comuni- dades cristãs. Estas recordações que depois formaram blocos, foram unificadas pelos evangelistas conforme suas visões, o que explica as divergências de datas e lu- gares. Mas as imprecisões não são só quanto as datas e os lugares, mas também quanto ao conteúdo, o qual se explica tendo em vista a situação concreta em que foi formada a tradição oral, ou seja, as situações vitais. As recordações contidas nos evangelhos foram transmitidas pela Igreja quando esta estava empenhada em três ativi- dades: No primeiro anúncio da Fé aos cristãos (Kerig- ma), no aprofundamento da Fé (catequese) e na oração comunitária (liturgia). Em outras palavras: quando a Igreja vivia a dimensão da missão, da catequese e do culto. Por isso a redação dos evangelhos receberam in- fluência destes três níveis no empenho de sua colabora- ção. Além disso, cada evangelista teve uma sensibilidade

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específica, a redigir o seu evangelho, por exemplo Ma-

teus dirigindo-se aos hebreus, quis provar que o Cristo é

o Messias e mostrou que tudo aconteceu para que se

cumprisse a profecia, por isso lembrou de particulares, tais como: o preço da traição (26,15), o vinagre na cruz como cumprimento do Salmo 69 (27-34), Jesus entran- do em Jerusalém numa jumenta (Mateus 21,7) para cumprir Zacarias 9,9, etc. Já Marcos escrevendo aos romanos, homens de ação, sensíveis à força, enfocou mais a força de Jesus nos milagres. Enquanto que Lu- cas escrevendo para os pagãos, apresentou o Cristo co- mo misericordioso (Lc 15), cheio de perdão pelos pecado- res. Basta lembrar o episódio da pecadora pública (7, 36-50), de Zaqueu (19,1-10), o bom Ladrão (23, 40-

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Claro que a visão teológica de cada evangelista não esclarece tudo sobre a diversidade nos evangelhos, por isso precisamos ver agora os "Gêneros literários" dos mesmos. Sabemos que duas pessoas de civilizações diferen- tes podem reagir de modo diferente diante de uma situ- ação. Por exemplo, o Hindú ficará com fome, mas não comerá carne de vaca, considerado para ele um animal sagrado. Já para um ocidental isto é absurdo. Gênero literário é um determinado modo de escre- ver próprio de um ambiente. Existem vários tipos de lin-

guagem; política, jornalística, acadêmica, etc. Portanto, para se compreender o sentido exato de uma afirmação,

é preciso compreender a linguagem a que pertence. A

Bíblia é inspirada, não ditada, mas o autor sagrado es- creveu de acordo com a sua mentalidade, sua cultura e os gêneros literários de seu tempo e de seu ambiente. A Bíblia se exprime por linguagem humana. Deus "falando por meio do homem, fala à maneira dos homens." Ora os evangelhos por serem antigos, usaram gêneros literários

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que não nos são familiares hoje. Por exemplo: o gênero apocalíptico apresentado em (Marcos 13, Lucas 21,5-33, Mateus 24, 1-44) procura exprimir a presença de Deus com termos abstratos, através de acontecimentos sobre- naturais (voz, trovão, nuvem). Este é um procedimento literário judaico, com artifícios literários. Os evangelhos nasceram de uma catequese primiti- va para convencer e converter, por isso não podemos limitar nossa confiança neles, somente baseando-os na pura crônica, ou no relatório oficial. Até a história mo- derna, escrita com o mais austero rigor científico, sem- pre envolve elementos subjetivos e pessoal. Por exemplo uma vida de Napoleão escrita por um homem com inte- resse militar, tem ótica diferente daquele que tenha um interesse político ou econômico, isto porque em toda história está presente a problemática e a personalidade de quem escreve, conferindo-lhe uma tonalidade especi- al, sem com isso falsear a realidade. Sabendo que foram as comunidades cristãs que de- ram forma à tradição oral da qual os evangelistas se serviram, é possível ainda falar de historicidade dos e- vangelhos? Já vimos que as imprecisões não significam que os evangelhos sejam lendários, além do mais, os dados da geografia, história, arqueologia são claros indí- cios de sua credibilidade. Podemos falar então de histo- ricidade essencial dos evangelhos e esta historicidade essencial é corroborada como dizem os teólogos pela "concordância discorde" que existe entre elas sinalada pela antigüidade de seu conteúdo e apego à Tradição da Igreja. Sabemos que os evangelistas nem sempre são concordes em referir as palavras e atos de Jesus, o que significa que eles não copiaram um do outro nem atingi- ram partes comuns, mas apesar disto conservam uma profunda unidade.

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Além do conteúdo, também o ambiente em que formaram os evangelhos depõe a favor de sua historici- dade, e neste sentido a Igreja Primitiva foi super apega- da à Tradição. O evangelista Lucas salienta que (1,1-4) antes de escrever fez uma acurada investigação, portan- to não escreveu sem ter fundamento; de fato o primeiro discurso sobre a ressurreição de Jesus, tem os apósto- los como testemunhas, (At 2,32; 3,15). Quando tratou de escolher o sucessor de Judas, Pedro propôs um que tinha acompanhado os apóstolos desde o tempo de Je- sus ( At 1,21-22 ). A condição para ser apóstolo era ter testemunhado a vida de Jesus (At 10,39-41). Também Paulo, que não foi testemunha ocular, ensina que transmite o que recebeu (I Cor 11,23) e os doze apósto- los foram as primeiras testemunhas da ressurreição (At. 1,8-22). Em conclusão podemos afirmar que embora os e- vangelhos não sejam livros de história mas de cateque- se, estes transmitiram o verdadeiro pensamento de Cris- to, os traços de sua personalidade e os acontecimentos de sua vida, Por meio deles podemos entrar em contato com o Cristo histórico ao menos no que se refere ao es- sencial.

a) A linguagem do meio eclesial primitivo Mesmo admitindo a continuidade da tradição entre

a comunidade pré e pós-pascal, não está provado que o

meio ambiente eclesial com o tempo manteve-se fideli-

dade a Jesus. Mesmo estabelecendo que os evangelistas

foram substancialmente fiéis a suas fontes, apesar da liberdade redacional, temos de reconhecer por trás das fontes escritas sempre uma mesma e única fonte que foi

o meio eclesial no qual formou e desenvolveu a tradição

evangélica. Qual é a qualidade do meio eclesial? A Formgeschichte estudá-la submetida ao meio sociológico

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(sitz im leben externo) da Igreja primitiva em suas ativi- dades litúrgicas, missionária e catequética, mas, o mais importante é conhecer suas atitudes interiores, assim como o espírito e a mentalidade que inspirou o seu comportamento exterior. Trata-se de perceber quais as reflexões espontâneas da comunidade primitiva a respeito de Jesus e de sua palavra e a estrutura psicológica e mental desta comu- nidade. Isto é possível pelas vias da semântica, partindo dos vocábulos freqüentes que cobrem todo o horizonte da Igreja cristã, e para isto serve-se dos textos que des- crevem o meio eclesial mais primitivo, a saber, as cartas de Paulo e os Atos dos Apóstolos. Uma comunidade ou um indivíduo se revela pela sua linguagem, no emprego de certos textos. Precisa saber se a mentalidade revelada em tais vocábulos usados com freqüência vai no sentido de fidelidade a Jesus ou foi uma fabulação criadora. Conseguindo por meio destes vocábulos privilegia- dos determina o Sitz im leben interno da comunidade, estaremos de posse de um critério importante para a- preciar a qualidade do meio eclesial onde se formou e desenvolveu a tradição. A fidelidade dos evangelistas à Igreja tem por garantir a mesma fidelidade da Igreja a Jesus. Entre os vocábulos distinguimos três grupos: os que ligam-se à idéia da tradição de receber e transmi- tir; os que dizem respeito aos colaboradores imediatos de Jesus, ou seja, testemunha, apóstolo, serviço; e os que dizem respeito sobre a atividade mais vasta dos pre- gadores do Evangelho (ensinar, proclamar, evangelizar). Aqui precisa uma investigação semântica precisa. O verbo transmitir em Paulo é repetido cento e vin- te vezes em sentido diversos e a palavra tradição em sentido de transmissão, doze vezes. Paulo era fariseu fiel à Torá e declara que submeteu o seu Evangelho à Igreja

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de Jerusalém para ser confirmada a sua autenticidade (Gl 2,1-6). Ele estabelece uma correspondência estrita entre receber e transmitir (1Cor 15,3; 11,23) e fala que sua exortação é como se Deus mesmo exortasse por meio de nós (2Cor 5,20). Pede para ser fiel às tradições que aprenderam (2Ts 2,15; 3,6) e para pôr em prática o que receberam dele (Fl 4,9; 1Cor 11,2; Col 2,6-7). Para Paulo abandonar a tradição do evangelho é o mesmo que abandonar o Cristo. Não se trata para ele de criar ou de inovar, mas de transmitir. Na tradição rabínica a Torá escrita tinha fidelidade na retransmissão devido as escolas de copistas profis- sionais, sempre em treinamento e das escolas elementa- res onde se ensinava a ler e decorar sem alterar o texto. Para o transmissão da lei oral, existiam escolas, além dos tannaim que eram especialistas da memorização, bibliotecas vivas. Estes memorizavam sob a direção de um mestre repetindo indefinidamente, e para conservar o texto inalterado como “ipsissima verba”, faziam resu- mos, paralelismos, palavras chaves e a repetição; ti- nham a lei sempre nos lábios. Sabemos que também na origem dos evangelhos existiu uma tradição oral que se manteve mesmo depois da fixação por escrito dos evan- gelhos. Em suma, podemos afirmar que o Cristianismo não começou com a pregação da Igreja, mas com Jesus e a tradição de seus ditos e gestos. É a Boa Nova trazida por ele. O próprio Jesus não poderia ser compreendido sem a tradição Judaica. Ele desde o começo é conside- rado mestre e para isso usou os métodos de ensino da época, levando os discípulos a memorizar, o que contri- buiu para garantir a transmissão fiel de seus ditos e gestos. Os doze ficaram em Jerusalém por 15 ou 20 a- nos durante a formação da tradição evangélica e os fi- éis eram assíduos ao ensinamentos dos apóstolos (At. 2,

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42). A tradição desenvolveu pela forma do Midrash a interpretação da escritura à luz do ensinamento de Je- sus e da experiência eclesial nova e sob forma das ques- tões doutrinais e problemas na comunidade, assim co- mo das respostas tiradas da tradição de Jesus e das Es- crituras. Assim os Logia de Jesus são evocados e repe- tindo como se fazia nos círculos rabínicos. A Igreja a- tribuiu a Jesus como mestre uma autoridade superior a dos rabinos. Outras civilizações tiveram suas tradições transmi- tidas oralmente. É o caso dos Vedas, livros sagrados do induismo (1000-2000 AC), onde a fidelidade é assegura- da por severos mestres e estudantes. Estes livros foram transmitidos oralmente graças à técnicas rigorosas co- mo a metrificação e contagem das palavras, repetição etc. Também a tradição oral africana particularmente no Congo foram transmitidos com fidelidade. Testemunhar caracteriza a atividade apostólica a- pós a ressurreição. Estes foram escolhidos por Deus como profetas (At 1,26). Eles viram e ouviram o Cristo (At 4,20) e foram-lhe íntimo (At 1,21-22). Por isso possu- íram uma experiência direta de sua pessoa e dos seus ensinamentos. Eles receberam a missão de Cristo para testemunhar (At.10,41). Eles anunciaram a palavra com segurança, isto é, com coragem e sem medo (1Jo 1,1-3). Para suceder Judas foi preciso que Matias fosse compa- nheiro dos apóstolos (At 1,26). Os apóstolos foram tes- temunhas oculares e auriculares desde o batismo no Jordão até a ressurreição (At 4, 21-26; 10,39). Foi Je- sus quem mandou que os apóstolos fossem testemu- nhas. (At 10,42-43; 2, 32-33). Paulo se apresenta como "apóstolo do Cristo" (1Ts 2,7), isto é, como embaixador, como aquele que exerce uma missão em nome de alguém que tem autoridade. Ele é encarregado de anunciar o evangelho (1Ts 4,4;

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2,9), é embaixador (2Cor 5,20). Para Lucas os apóstolos não são embaixadores, mas testemunhas qualificadas da ressurreição. Paulo se apresenta como diákonos do evangelho (Cl 1,15), como servidor de Cristo (2Cor 11,23). Diakonia é essencialmente ministério da palavra. Ele, em Atos dos Apóstolos 6,4, fala também da diakonia tou logou. Dai uma das funções principais dos apóstolos

é estar a serviço da palavra (At 6,2-4), e estar à serviço

é testemunhar tudo sobre Jesus desde o batismo até a Ressurreição.

b) Obstáculos à revelação do mistério de Jesus Devemos admitir que alguns obstáculos dificultam

a revelação do mistério de Jesus e dentre estes salien-

tamos os seguintes: A mentalidade religiosa de então que considerava como essencial a obediência à lei de Deus promulgada por Moisés, e pouco inclinada a refle- tir sobre Deus e sua natureza; A mentalidade religiosa moldada no embate com a idolatria e para a qual tudo

que não coincidisse com Dt 6,4 era idolatria; A mentalidade religiosa estruturada pelo pensa-

mento escatológico apocalíptico para a qual o fim de tudo era eminente. Em vista destes pontos a revelação do mistério de Jesus devia ser progressiva e passada pelo filtro da mentalidade dos discípulos. Além do mais, Jesus embora sendo Deus, não se identificava com Deus e também confessava o monoteísmo da fé de Israel (Dt 6,4; Mc 12,29). Por isso, numa primeira etapa Jesus, de sua pessoa e de seus ensinamentos revelará não tudo aquilo que poderia ser compreendido, mas tudo o que podia ser aceito e assimilado sem erros, considerando a mentalidade de então. Num segundo estágio ele formará

o grupo de discípulos, os quais atraídos pela sua perso- nalidade, se encontrarão num pré-julgamento favorável que permitirá aceitar algum ensinamento que lhes pare-

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ça chocante e que ainda não compreendam. Num tercei- ro estágio selecionará dentro desse grupo dos discípulos alguns privilegiados aos quais poderá confiar uma dou- trina mais elevada. Podemos portanto, precisar que Jesus primeira- mente procurara ensinar publicamente através de suas pregações e já aqui encontrou resistência sendo acusado de blasfemador pelo povo porque se fazia Deus (Mt 26,65; Mc 14,64; Lc 22,71). A blasfêmia consistia em fazer-se como Deus, e em perdoar os pecados (Mc 2,7; Mt 9,3). Na literatura bíblica os reis pagãos eram acusa- dos de usurpar as prerrogativas de Deus (Ez 28,2; 2Mc 9,12), o que caracterizava algo muito sério. Se com isso não bastasse, Jesus coloca-se acima de Moisés com o

direito de modificar a própria lei (Mt 5,21-27.31.33-38).

Ele utiliza a expressão: “Eu porém vos digo

a qual

não tem nenhum paralelo no AT. Jesus não afirma como Moisés em Dt 6,1 são estes os mandamentos, as leis e

mas dispõe da lei e da tradição, interpretando-

Nem como os profetas: “Assim fala

as ordens de Javé

Javé

a, corrigindo-a, igualando-se a Deus. Ele exige que o prefira em relação a seus pais e aos próprios filhos (Mt

”,

”,

10,37).

Portanto, quando Jesus falava a um vasto auditório manifestava que tinha com Deus um vínculo de proxi- midade, superior aos outros enviados e que dispunha de um poder que pertence a Deus como o de perdoar os pecados. É de se notar que somente uma vez Jesus se

designará como o Filho de Deus (Mc 12,6-8). A progressiva revelação da divindade de Jesus ele o fez partindo das multidões, de fato os evangelistas ser- vem-se da a expressão "dizia às multidões", "dizia aos discípulos". (Mt 11,7; Mc 7,14; Lc 5,3; 7,9; Mt 9,37; 10,1; 15,32). Na primeira parte de seu ministério na Ga- liléia, Jesus dedicou-se principalmente às multidões e

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somente depois dirige-se aos discípulos (Mc 13,32; Mt 24,36; Mt 11,25-27; Lc 10,21-22). Nas palavras dirigidas somente aos discípulos revela o mistério de sua relação com o Pai, tendo com Ele uma relação de intimidade e de proximidade, uma proximidade acima dos anjos do céu, pois Ele conhece o Pai como o Pai conhece o Filho. Entre Ele e o Pai existe uma intimidade que não tem ne- nhuma analogia na relação dos homens com Deus, pois chama Deus de Abá (Mt 11,25). Por fim um grupo de privilegiados contam com a re- velação íntima da divindade de Jesus, a exemplo dos três discípulos no Monte Tabor. Experiência que depois se fortificou com a experiência da ressurreição, por isso após a Páscoa nas comunidades cristãs, a atitude do fiel para com Jesus ressuscitado era idêntica à do judeu em relação a Javé; Jesus é invocado como Senhor, e o nome do Senhor aplica-se não mais a Javé, mas a Jesus (At 2,21). O fiel se converte ao Senhor Jesus e não mais a Javé (At 9,35), crê nele como se crê em Javé (At 3,36). Jesus é o Senhor perante o qual todo joelho deve dobrar (Fl 2; 6,11). Portanto se reconhece a divindade de Cris- to, e não só a divindade, mas também a sua preexistên- cia (cf Fl 2,6-7; 1Cor 8,6; 2Cor 8,9). Desta forma, a fé na preexistência e divindade do ressuscitado, é presente nas comunidades cristãs, em menos de 20 anos após a Páscoa. Ressaltamos que nessa época começava a evan- gelização do mundo pagão, e o influxo dos cristãos de origem pagã era desprezível, logo a idéia da divinização de Jesus nasceu no meio judeu. Ora, o meio judeu era contra uma semelhante doutrina, portanto tal doutrina só pode ter vindo de Jesus que a ensinou e que Deus confirmou com a ressurreição. A crença proclamada a- pós a ressurreição sobre a divindade de Jesus foi corro- borada pela vinda do Espírito Santo (Jo 16,12-13; 14,25-26), pois a semente depositada por Jesus caiu

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num solo não apto para acolhê-la e fazê-la germinar, para tanto foi necessário a Páscoa e o Pentecostes (DV

19).

c) A compreensão de Jesus na Igreja

A compreensão de Jesus Cristo na Igreja foi possí-

vel mediante algumas fontes dentre as quais a Patrísti- ca. A época patrística que compreende o Ocidente com os autores cristãos até Gregório Magno (+604) e para o Oriente até João Damaceno (+749). Produziu uma gran- de quantidade de escritos de bispos, padres, diáconos, monges e leigos. Particularmente os Padres foram os au- tores dos primeiros escritos sobre Jesus Cristo. Estes eram conhecidos como Pais em vista do discípulo ser chamado de filho (ICor 4,15). Todos estes escritos sem a distinção de um grau hierárquico, eram considerados, pois escritos por mestres aprovados, que possuíam a ortodoxia da doutrina, a santidade de vida e a aprovação eclesiástica.

A primeira língua da literatura patrística foi o gre-

go, isto é até o século III, porque a civilização helenísti-

ca tinha conquistado o mundo Romano. Depois disto o grego foi substituído no Oriente pelo Siríaco, o Copto e o Armenio e no Ocidente pelo latim. Na verdade, o grego da literatura patrística não era o grego clássico, mas a Koiné, um meio termo entre o clássico e o popular, isto valeu também para o Novo Testamento e perdurou até o início do século IV. Existem três fontes principais para se conhecer o pensamento dos Padres sobre a fé em Jesus e a compre- ensão de sua pessoa. Primeira: A vastíssima literatura patrística de variado gênero literário, como o atos dos mártires, as cartas endereçadas a pessoas e comunida- des, os escritos apostólicos, os comentários dos livros da bíblia, as homilias, as catequeses, as regras para co-

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munidades nomásticas, etc. Segundo: Os textos de vá-

e as profissões de

fé (símbolos de fé apostólica usados em Roma pelo ano

200, o credo do Concílio na Nicéia, do Concílio de Cons- tantinopla, etc. Terceiro; Os documentos de Concílios Ecumênicos, as Cartas dos Papas e dos Sínodos nacio-

nais e regionais. Outra fonte para a compreensão de Cristo é o uso

da Sagrada Escritura, pois ignorar a Escritura é ignorar Cristo. A Patrística manteve um constante contato com

a Sagrada Escritura meditando e comentando-a para

penetrar na divindade de Jesus. Por fim, a reflexão dos Padres apostólicos, pois os

estudos realizados por eles tiveram um caráter pastoral

e trouxeram um testemunho importante de fé cristã, so-

bretudo porque eles pertenciam a regiões diversificadas

(Ásia Menor, Síria, Roma).São testemunhos escritos em circunstâncias particulares e nestes destacam-se uma forte convicção de que a segunda vinda de Cristo será eminente; uma lembrança calorosa da pessoa de Cristo por causa dos contatos diretos de seus autores com os

apóstolos e dentre estes uma das testemunhas mais vi- vas é Inácio de Antioquia (+110). Nos séculos II - III com os apologistas gregos a re- flexão se coloca sobre o Verbo e dentre os mais destaca- dos apologistas, temos Justino, o mártir (+165), grande filósofo que um dia se convenceu que a filosofia não sa- ciava seu coração e voltou-se para os profetas come- çando refleti-los e a tê-los como única filosofia verdadei- ra. Para ele o Lógos é o medidor entre Deus e o homem, Deus comunica-se com o mundo pelo seu intermediário,

é o Lógos que instrui o homem. Todo homem possui na

própria razão uma semente do Lógos. No final do II século, difundia-se um sincretismo religioso com o nome de gnoticismo, o qual propunha

rias liturgias (grega, romana, copta

)

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que a matéria e o corpo humano são um princípio infe- rior do qual se deve libertar. Nega-se assim a ressurrei- ção dos mortos, a parusia, o juízo final, o inferno. Con- tra estes polenizou Irineu de Lião, discípulo de Policar- po.

Ainda por volta do ano 200 haverá numa extraordi- nária vitalidade no campo apostólico da literatura ecle- siástica, nascendo a escola teológica de Alexandria com Clemente, Irineu, Dionísio, Cirilo, etc.

13. A GALILÉIA NO TEMPO DE JESUS

A Galiléia é a região onde Jesus viveu quase toda sua vida e foi o primeiro palco de sua missão, por isso é o lugar de sua formação e de seu amadurecimento hu- mano religioso. É importante que tenhamos antes de tudo uma visão de toda a Palestina, um país que no tempo de Jesus possuía 240 km em linha reta, com lar- gura de aproximadamente 65 km. Este possuía um cli- ma subtropical e mesmo sendo assim pequeno apresen- tava quatro zonas climáticas diferentes. A zona litorâ- nea, a região montanhosa, o deserto Negeb e a depres- são do Jordão. Possuía na verdade praticamente duas estações: o verão seco que se estendia de maio a outu- bro e o inverno que tomava os meses de novembro a a- bril. Possuía também planícies, tais como: a de Ulata e de Esdrelão e elevações como o monte Tabor com 588 metros, o monte Garizim com 388 metros, o monte Silo com 915 metros. Em Jerusalém situada a 700 metros de altitude, estavam os montes Scopus com 38 e 831 me- tros, o das Oliveiras com 818 metros, o Moriá com cerca de 40 metros, o Sião de com 70 metros, etc. Possuía também algumas zonas desérticas e áridas.

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A palavra Galiléia significa “terra dos pagãos”, por isso é também chamada de Galiléia dos gentios (Mt 4,13-16). No tempo de Jesus era habitada em grande parte pelos hebreus. Nela Jesus transcorreu a maior parte de sua existência, vivendo mais precisamente na região da baixa Galiléia, em Nazaré e ao longo das mar- gens do lago de Genesaré. Ali Jesus realizou grande par- te de sua pregação (Mc 6,6; Lc 8,1; Mt 4,23). A Galiléia no tempo de Jesus era constituída geograficamente de um território com cerca de 40 a 50 km de largura por 100 Km de comprimento. A tese de que era constituída de um ambiente bastante popular, ligado à “am há-arez” (a gente da terra), ou seja, a parte mais inculta e pobre da população, hoje não tem mais consistência diante de pesquisas rigorosas conduzidas por estudiosos hebreus contemporâneos. Para uma melhor visualização desta região usa-se dividi-la em Alta Galiléia, Baixa e Galiléia. A Baixa Gali- léia, região onde viveu Jesus era bastante povoada e fér- til, cortada por estradas comerciais e um importante centro administrativo. Sendo irrigada por chuvas, pos- suía terras férteis com por exemplo a planície de Esdre- dom, a qual era grande produtora de cereais e de horta- liças. Da mesma forma eram férteis as colinas e as pla- nícies do mar do que o Tiberíades; um verdadeiro paraí- so, na expressão de Flávio Josefo. Possuía o lago Gene- saré abundante em peixes. Na a Alta Galiléia existia a cidade de Cafarnaum, a 8 km do Jordão (Mt 8,5), a qual possuía um destacamento de soldados romanos, co- mandado por um centurião, o qual construiu uma Sina- goga. Existia também a cidade de Séforis com uma po- pulação de aproximadamente 35.000 habitantes e tam- bém o Tiberíades, um outro centro populoso. Nazaré não distava mais do 7 quilômetros de Séforis. De Nazaré par- tiam uma estrada em direção para Tiberíades e outra em

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direção para Citópolis, a mais importante cidade grega do lado de cá do Jordão. Estudos mostram que as cidades de língua grega formavam como que um grande círculo ao redor da Gali- léia, e com isso podemos afirmar as influências culturais nesta população, ou seja, de não conceber uma Galiléia somente de cultura aramaica. Segundo estudiosos da população judaica da Galiléia no tempo de Jesus não deveria superar os 150.000 habitantes. Existia, como afirmamos, um relacionamento tan- to comercial como cultural entre os hebreus e os gentios dentro da Galiléia, mas o sentimento da população ju- daica e a suas leis sobre a pureza contribuíram muito para a manutenção da própria identidade judaica quan- do em contato com os gentios. As cidades gregas vizi- nhas da Galiléia e da Judéia tinham os seus antigos deuses asiáticos, mas a rigidez monoteísta não permitia uma contaminação. Esta opinião é defendida por Schu- rer ao afirmar: “Quanto mais vigorosa e persistente era a pressão do paganismo na Palestina, tanto mais enérgica era a resistência oferecida pelo judaísmo. Não se pode evitar o avanço da cultura pagã, mas as vigilantes auto- ridades religiosas estavam alertas contra qualquer coisa que pudesse ofender a lei. Para o judaísmo era questão de vida ou de morte manter máxima vigilância a esse respeito”. Portanto, as normas sobre a pureza e outros costumes judaicos eram reais barreiras contra o perigo da helenização. Além do mais, os fariseus que na época de Jesus eram aproximadamente 6.000 em toda a Pales- tina, os quais tinham muita influência sobre o povo; e- ram defensores dos antigos costumes e das leis religio- sas. O mesmo se pode dizer sobre os essênios que na época constituíam um grupo de aproximadamente 4.000 pessoas.

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Uma figura que se destaca na Palestina é o rei He- rodes, o qual no ano de 37 conquistou Jerusalém tor- nando-se rei. Por sua habilidade na política externa, e por sua sagacidade em pacificar e reconstituir o Reino para que tivesse os mesmos limites do tempo de Davis, assim como pela magnificência de suas construções e pela sua sábia administração, não obstante a sua com lealdade, ele mereceu o título de “Grande”. Schurer a- firma que Herodes possuía quatro inimigos e conseguiu vence-los e controlá-los: o povo, a nobreza, a família dos asmorreus e Cleópatra do Egito. Herodes era cruel e mandou matar não somente Mariana, sua mulher, mas também a sua mãe e Ales- sandra. Antes já havia assassinado Jônatas Aristóbulo III, o irmão de Mariana e sumo sacerdote, e o velho Hir- cano II. Herodes foi um bom administrador construindo em honra de Augusto a cidade de Cesaréia e reconstruiu Samaria dando-lhe o nome de Sebaste. Construiu tam- bém a fortaleza Herodium em Massada construindo um palácio de três andares na rocha. Mas a sua obra mais famosa foi a reconstrução do Templo de Jerusalém. “A grandeza desta obra gigantesca é testemunhada pelos seguintes números: nela foram empregados não menos de 10.000 leigos, e 1.000 sacerdotes foram preparados expressamente para os trabalhos das partes internas, nas quais os e israelitas, isto é, os leigos, não podiam en- trar. O trabalho teve a duração de nove anos e meio, dos quais oito anos para se levantar as loggias e o pátio ex- terno e outro meio do ano para o próprio Santuário. Essas cifras mostram que a obra principal foi a terraplanagem do terreno para o Santuário. Semelhante trabalho exigiu o uso extraordinário de forças, energia e técnicas para o seu planejamento e execução” (Schalit) . Mas, as obras de Herodes não param por aí, ele construiu ainda em Jerusalém um teatro, um anfiteatro e um hipódromo,

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construções que desagradaram os judeus tradicionalis- tas. Construiu também para si um esplêndido palácio, ornamentado com mármore e ouro. Não deixou de cons- truir também numerosos templos pagãos enfeitando-os com estátuas. A Galiléia era cortada por várias estradas e tinha um bom movimento proveniente da Mesopotânia. Em Damasco começava a Via Maris, a qual atravessava a Galiléia; esta importante estrada começava em Damas- co, na Síria, e chegava ao Egito. Ela é lembrada em Isaí- as (8,23) e também em Mateus (4,12-17).Também Sidô- nia tinha comunicação com Alta Galiléia. Embora o povo judeu defendia fortemente a sua própria identidade religiosa em toda a Palestina, foi grande a influência do helenismo, causada sobretudo por sua cultura e língua, assim como por suas institui- ções civis. Hengel em seu livro: “O Judaísmo e Helenis- mo. Estudo sobre seu encontro na Palestina durante o antigo período helenista”, relata que: “na própria Palesti- na, virtualmente todo habitante esteve em estreito contato com os novos senhores, fossem eles soldados, oficiais, mercadores ou proprietários. O próprio Hengel ainda afirma que: “o enquadramento das parábolas de Jesus, com seus grandes proprietários, exatores, administrado- res, agiotas, trabalhadores diários e fiscais alfandegá- rios, com especulações de grãos, escravidão por dívidas e a apropriação de áreas, só poderão ser compreendidos levando-se em consideração que as condições econômicas introduzidas pelo helenismo na Palestina”. Ora, diante dessa realidade é natural que tenha havido a difusão do conhecimento por meio da língua. Séforis, uma cidade no interior da Baixa Galiléia, era muito helenizada. Esta juntamente com Tiberíades era a maior a cidade da região e uma importante fortale- za. Nela foi encontrado um teatro romano cujo semi-

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círculo possuía 74 m. Com uma capacidade para colher aproximadamente 4.000 a 5.000 espectadores e isto num lugar distante apenas 7 km de Nazaré. Neste teatro não se representavam comédias ou tragédias aramaicas, por não existirem, mas sim as gregas de algum escritor grego da região. Diante desta realidade podemos afirmar que existia um bom número de judeus que freqüenta- vam esta cidade. Estudiosos chegam a afirmar que Séfo- ris chegava a ter no tempo de Jesus 30.000 habitantes entre judeus, árabes, gregos e romanos. Disto também se pode concluir que as aldeias da vizinhança deviam ser as principais fontes que supriam de cereais, óleo, hortaliças e produtos pecuários para a cidade Tiberíades, construída em o honra do Imperador Tibério, por Herodes Antipas, entre os anos 17 e 20, possuía uma população mesclada, em grande parte for- mada por gregos. Nazaré, situada na baixa Galiléia localizava-se no cruzamento de estradas secundárias, todas ligadas aos principais caminhos entre os quais a Via Maris, que passava 10 km a oeste. Por ela passavam outras estra- das que permitiam a ida a Jerusalém por várias dire- ções. Segundo estudos esta cidade possuía uma popula- ção no tempo de Jesus com cerca de 1.600 a 2.000 ha- bitantes. Encontrava-se a apenas 7 km de Séforis de modo que não podia deixar de sentir a influência desta importante cidade. É de supor que José e Jesus tenham prestado seus serviços de carpinteiro ou até como operá- rios na construção desta cidade. Nazaré, como localida- de agrícola, deve ter sido uma das principais fornecedo- ras de grãos, óleos, vinho, hortaliças e produtos artesa- nais para os mercados Séforis.

14. O MUNDO SOCIAL EM QUE VIVEU JESUS

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É evidente que a geografia física influi muito no caráter e no comportamento de uma pessoa, mas tam- bém a geografia humana feita de sua cultura, das ativi- dades de trabalho e do intercâmbio com as pessoas in- flui e igualmente. No que toca à geografia física e huma- na de Jesus podemos dizer que ele nasceu e cresceu numa família em Nazaré, uma pequena aldeia perdida nas colinas da Galiléia onde viveu e assimilou naquele contexto a cultura da gente do seu tempo. Toda a sua juventude foi na verdade marcada pelo ambiente rural desenvolvido particularmente nos limites de sua aldeia. Este é o período que os evangelistas chamam “de vida escondida”. Mas, mesmo neste período da juventude de Jesus e ele não viveu a sua vida encerrada na sua pe- quena aldeia; basta dizer que hoje os estudos, as esca- vações arqueológicas nos informam que Cafarnaum no tempo da juventude de Jesus era um florescente centro comercial com uma notável atividade artesanal, particu- larmente a pesca, as qual possuía uma organização de tipo industrial. Da mesma forma a cidade de Séforis possuía um teatro com cerca de 4.000 lugares com am- biente bastante incrementado para a cultura judaica e helenista. Jesus, menino e adolescente, viveu neste con- texto e por isso sofreu também a suas influências. Sabemos que Jesus não deixou nada por escrito, também se tinha freqüentado as escolas das Sinagogas do seu tempo. Os evangelhos não fazem descrições sobre Jesus, pois o interesse deles era querigmático, ou seja, de anunciar o evangelho, o que não significa que não há a historicidade no que escreveram. O Novo Testamento não fornece um enquadramento e histórico dos aconte- cimentos, por isso as principais fontes históricas para a formação de um quadro geral da Palestina no tempo de Jesus, devemos buscar em fontes extra bíblicas, tais

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como as do historiador Flávio Josefo, sem deixar de con- siderar os trechos mais antigos das fontes rabínicas. Qual era realmente o mundo social de Jesus? Ao responder a esta pergunta precisamos levar em conside- ração de que Jesus tenha pertencido a uma classe se- melhante as classes médias do mundo urbano de então (A.R.Batey, Jesus & the forgotten City. New Light on Sepphoris and the Urban World od Jesus, Grand rapids, Michigan, Backer Book House,1991). Na verdade, não podemos conceber Jesus unicamente inserido no con- texto judeu, por isso a suposição de Bultmann e de ou- tros teólogos de que havia uma grande separação entre o cristianismo do mundo judaico e o cristianismo do mundo grego, não é sustentável, como também não é a teoria da mitização por ele proposta. Hoje tem-se à dis- posição dados historicamente sólidos a respeito do tem- po de Jesus e sobre os primeiros discípulos dele que nos dão informações consistentes sobre o ambiente em que Ele viveu e dados suficientes para delinear o próprio significado da vida e da pregação dele e dos seus discí- pulos. Hoje não se pode mais conceber Jesus como sen- do um personagem impreciso, ou como um mito ou até pensar, como autores racionalistas do século XIX e do início do passado, que ensinavam que o cristianismo foi uma criação mitológico - teológica paulina.

15.

O AMBIENTE DE JESUS E A SUA PRESENÇA NE-

LE

Estudiosos afirmam que o status de Jesus não é o que comumente ouvimos falar por aí; Ele não era po- bre sem meios para a subsistência, mas um trabalhador independente e reconhecido, que mesmo não sendo rico, vendia e comercializada seus produtos e oferecia seus

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trabalhos de carpinteiro; Ele era o filho do carpinteiro (Mt 13.55) e Ele mesmo era carpinteiro (Mc 6,3). As úl- timas descobertas induzem a ver no Tékton a figura do construtor, em lugar de simples carpinteiro; ou então um mestre de obras ou até um operário especializado. O conceito Tékton se aplicava, ao que parece, a uma certa habilidade e experiência no trabalho de produzir com madeira, desde objetos de uso cotidiano e até obras mais complexas. Justino interpreta a palavra Tékton como o que fabricava principalmente arados e cangas. Contudo não se pode negar que o profissional Tékton tinha um trabalho de construção de móveis para as ca- sas mais prósperas da região e a fabricação de seus pró- prios instrumentos de trabalho, como também fazia o trabalho em verdadeiras e próprias construções públi- cas. Hengel é da idéia de que não se pode excluir que, exatamente na condição de carpinteiro, Jesus tenha trabalhado na reconstrução de Séforis. De fato, Séforis, fora construída por Antípas como uma verdadeira capi- tal com o espírito e a aparência greco-romano. Tratava- se de uma verdadeira metrópole, uma cidade cosmopoli- ta que devia ter aproximadamente 30.000 habitantes e que continuou a ser a maior cidade da Galiléia no tempo de Jesus, mesmo depois da construção de Tiberíades. Esta possuía bancos, arquivos, ginásios e como falamos, um teatro para 4.000 espectadores. Batey, que trabalhou nas recentes escavações de Séforis, concluiu: “que Jesus tenha tido freqüentes e sig- nificativos contatos com a vida de Séforis, é uma hipótese provável. A proximidade da capital com Nazaré, junta- mente com sua importância cultural e política, tornava Séforis acessível e atraente. Embora, Séforis tivesse sido construída seguindo o modelo helenista, seus habitantes, na maioria, eram judeus e para aí haviam mudado há pouco tempo, para reconstruir a cidade. Vários líderes

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sacerdotais tinham um relacionamento especial com os chefes dos sacerdotes de Jerusalém. Não existe razão plausível para que um jovem de Nazaré não a tivesse freqüentado. É totalmente possível que José e Jesus te- nham trabalhado em suas construções. E se não o fize- ram, tinham conhecimento do andamento dos trabalhos, sendo informados pelos trabalhadores. Esses contatos ajudam a dar forma ao mundo em que Jesus cresceu, e também ajudam em sua compreensão” (R.A Batey, “Is not the carpenter?” NTS,30 (1984), pg 255). Séforis, reconstruída, teve suas Sinagogas, como Nazaré possuía a sua. Certamente Jesus não tinha mui- to trabalho em Nazaré, a qual era uma cidadezinha de aproximadamente 2.000 habitantes. Por isso devia ir buscar trabalhos nas aldeias ao redor das cidades. Di- ante disto é aceitável reconhecer que Jesus tenha tra- balhado em Séforis. Fica claro, portanto que no tempo de Jesus a Gali- léia se comunicava com os viajantes que por ela passa- vam e também com os seus habitantes, usando o grego da Koiné. Dentre estes não podemos esquecer daquele um milhão e meio ou 2 milhões de judeus da diáspora que tinham naquele tempo, pelo menos metade deles, o grego como a língua mãe e que faziam sempre as suas peregrinações ao templo de Jerusalém. Os habitantes da Galiléia falavam o aramaico e talvez um pouco de he- braico. Diante desta realidade Jesus consequentemente também conhecia outras línguas. Na verdade hoje é a opinião comum de numerosos estudiosos da existência de um certo trilingüismo na Palestina. Por isso não só o aramaico era tido como a língua usada pelo povo, mas também o grego e o hebraico, línguas estas faladas por ao menos certo número de judeus cultos. Além disso, muitos habitantes deviam relacionar-se com as cidades da costa ou da Decápolis, onde era usado o grego.

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De 300 a 200 aC, a Palestina foi dominada pelos Ptolomeus e muitos judeus emigraram para o Egito, es- pecialmente para a Alexandria, ora tudo isso importava em uma crescente presença da língua grega também na Palestina judaica. Com o rei Antíoco, o Grande (223- 187), a Palestina ficou sob o domínio da Síria e teve iní- cio a um período de forte helenização que chegou até a ser imposta pela força. Numerosas palavras gregas pe- netraram nos escritos sagrados hebraico. Devemos con- siderar também que obras literárias em grego ou tradu- zidas para o grego por judeus e para os judeus torna- ram-se importantes desde o século III antes de Cristo. Basta lembrar que a tradução da bíblia hebraica para o grego ou na versão chamada dos LXX. Para o grego fo- ram traduzidos também os livros deuterocanônicos, dentre os quais, o último, o da Sabedoria foi composto e planejada em grego na primeira metade do século I an- tes de Cristo. Flávio Josefo escreveu primeiro em aramáico, e depois traduziu para o grego a sua obra “Guerra Judai- ca”. Já antes do século I encontramos centenas de ins- crições gregas na Palestina que atestam o quanto esta língua era usada pelo povo. Alguns estudiosos afirmam que no decorrer do século I, durante o reinado de Hero- des, havia a existência de escolas primárias de grego em Jerusalém. Conforme afirma o estudioso Rabin, “Uma vez que podemos assumir que em Jerusalém e na Judéia o hebraico da Mishná era a língua corrente e o aramaico ocupava o segundo lugar, esta situação devia ser diferen- te em áreas como a planície da Costa e da Galiléia. Aqui o aramáico, e possivelmente o grego, eram as línguas do- minantes faladas pelo povo de todas as classes, ao passo que o hebraico funcionava unicamente como língua literá- ria” (Ch, Rabin, Hebrew and Aramaic in the first cen- tury, in: Safari&Stern).

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O estudioso Schwank afirma: ”Pudemos obter, a- través das escavações do teatro de Séforis, pela primeira vez e de modo totalmente inesperado, uma compreensão dos conhecimentos lingüísticos dos extratos populares na Galiléia no tempo do Novo Testamento. Então o povo da Galiléia falava mais de uma linguagem. E isso não é pa- ra causar admiração quando se lembra que a Galiléia foi judaizada pela primeira vez, pela força, ao redor de 100 aC, pelos asmoreus. Desde o fim do século 8º aC era o território dos pagãos”. Jesus dialogava com as pessoas que falavam grego sem a necessidade de intérpretes, basta lembrar a conversa com Pilatos, com o centurião pagão, com os Gerasenos, com os habitantes da Decápo-

lis, com a mulher cananéia

grego em At 10, com o centurião. Podemos concluir a possibilidade de que Jesus se dirigisse aos Galileus tan- to em aramaico como em grego. Novamente Batey nos afirma que “As escavações arqueológicas em Séforis con- tinuam, produziram a certeza de uma sofisticada cultura urbana, o que coloca Jesus em um ambiente radicalmente diverso, que muda as presunções tradicionais sobre sua vida e seu ministério. O retrato tradicional de Jesus como um camponês crescido em relativo isolamento e em uma pequena aldeia de quatrocentas pessoas, longínqua Na- zaré, deve ser refeito com a entrada em cena de uma flo- rescente metrópole greco-romana, há pouco descoberta, que se vangloria de seus 30.000 habitantes judeus, á- rabes, gregos e romanos. Séforis poderosa, próspera,

amante da paz, mantinha relacionamentos com os outros centros greco-romanos das rotas comercias do leste, que

O novo testemunho desconheci-

falavam a língua grega

do de Séforis vem mudar as precedentes interpretações sobre Jesus e requer uma nova imagem do homem e do movimento que ele fundou”.

O próprio Pedro fala em

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O tempo em que Jesus viveu se fixa entre 7 aC e 39 dC; caracteriza-se como uma época de instabilidade política, a qual Herodes, o Grande conseguiu minorá-la com sua tirania, mas que depois desembocou na guerra judáica de 66 dC. As causas desta situação peculiar deve-se a vários fatores dentre os quais assinalamos os seguintes:

As divisões administrativas com provação de dispu- tas entre as diversas regiões.

A

população da Palestina heterogênea e com interes-

ses de grupos opostos, entre os quais os pagãos, os

judeus helênicos, os judeus cumpridores da lei, etc.

A

excessiva exploração do povo por impostos, os dí-

zimos, os tributos ao Templo, as contribuições para

Herodes, o Grande e seus filhos, o trabalho territorial

César, a manutenção do exército, as alfândegas, etc.

a

A

repressão dos grupos populares que se revoltavam

contra a aristocracia, contra os governantes e o po-

der romano.

A

indolência dos filhos de Herodes e dos Procurado-

res Romanos.

As lutas internas pelo poder das famílias reais.

As lutas por postos rendosos do Templo e do Siné- drio.

O

confronto entre os grupos religiosos e políticos.

Devido ao clima reinante na Palestina do tempo de Jesus, fomenta-se alguns acontecimentos importantes nesta época, os quais podem ser elencados assim:

A

rebelião por ocasião da morte de Herodes, o Gran-

de, a qual teve como finalidade impedir a sucessão

de seus filhos e sacudir o Império Romano.

A repreensão romana com a imposição da força do Império resultando em 2.000 crucificados além dos

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mortos de guerra e os prisioneiros vendidos como es- cravos.

A organização e consolidação dos zelotas sob a dire- ção de Judas, o Galileu, e do fariseu Sadoc, discí- pulo de Shammai.

As revoltas no ano 6 dC contra Arquelau e o paga-

mento de tributos a César. O contexto sócio, político, religioso, ideológico e e- conômico levou contudo a notáveis mudanças e transfor- mação na vida deste povo; eis algumas causas e conse- qüências mais notáveis:

A morte de Herodes, o Grande e a sucessão de seus filhos controlada por Augusto.

O desterro de Arquelau, no ano 6 dC e a transforma- ção de seus territórios (Judéia, Idumeia, Samaria) em província pela procuradoria imperial, o que significou a sujeição do Sinédrio ao Procurador Romano, a qual passou a nomear os sumo sacerdotes.

A

morte de Felipe no ano 34 e anexação de seus terri-

tórios à Província da Síria.

A

destituição de Pilatos e Caifás (dC 36 e 37) e o exílio

de Herodes Antipas na Galia em 39dC.

A consolidação das duas escolas rabínicas farisáicas;

a liberal de Hillel e a rigorista de Shammai.

A radicalização das teses zelotas sob a influência de alguns discípulos rigoristas de Shammai e dos essê- nios de Qumrân. É de se notar que a Palestina no tempo de Jesus possuía uma economia baseada na agricultura, na pe- cuária, no artesanato e na pesca no Mar da Galiléia. A região da Judéia por ser montanhosa, entretanto quase não se prestava para a agricultura, porém contribuía muito com a criação de gado, de suínos e de caprinos. Havia também um grande incentivo para o trabalho na construção e na arte. A Galiléia por ser uma região fértil

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com chuvas freqüentes, tinha preponderantemente o cultivo de cereais, da vinha, de frutas e legumes, do li- nho, do couro, a pesca no Tibiríades com emprego de redes de até 50 metros. É importante salientar que exis- tia um ágil no comércio particularmente devido as duas rotas de comércio que atravessavam a Galiléia; uma de- nominada de Ptolomeida - Damasco e a outra Damasco - Jerusalém. Deve-se salientar que as técnicas agrícolas, pecua- ristas e artesanais eram bem rudes, contudo estas evo- luíram com a reconstrução do Templo por Herodes. Haviam aldeias constituídas de pequenos proprie- tários camponeses que se sustentavam, assim como ha- via os latifúndios onde trabalhavam, os assalariados e os escravos. Nas cidades havia artesãos e comerciali- zantes. Os latifundiários, os comerciantes e arrecadado- res de impostos que não eram sacerdotes; estes consti- tuíam a aristocracia leiga e faziam parte do Sinédrio:

“Senadores” ou “Anciãos”. O evangelista Lucas (Lc 19,47) fala deles como chefes do povo. A aristocracia sacerdotal era composta por Sumo Sacerdotes em função e pelos ex-sumo sacerdotes, além do chefe do Templo, 7 vigias e 3 tesoureiros. Esta for- mava a comissão permanente do Sinédrio. Os 24 chefes dos turnos semanais, e os 158 chefes dos turnos diários também faziam parte da aristocracia sacerdotal, mas não pertenciam ao Sinédrio. O NT os designa global- mente como “Sumo Sacerdotes” e a maioria vivia em Jerusalém. Durante o reinado de Herodes, o Grande, haviam muito latifundiários e muitos trabalhadores braçais pa- rados e desejosos de vender sua jornada de trabalho por um denário (Mt 20,4), o salário insuficiente para uma família de dois filhos. Existiam também os grandes co- merciantes principalmente em Jerusalém, comerciali-

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zantes de gado. Neste comércio Anás tinha exclusivida- de para a venda dos animais que eram usados nos 329 sacrifícios no Templo, além do trigo, do vinho, do azeite, da madeira, das jóias. Existiam igualmente numerosos cobradores de impostos que rendiam especulação, as- sim como havia o imposto a César, o imposto ao exérci- to protetor, os impostos aduaneiros, o imposto para o Templo e o dizimo aos Sacerdotes. Em todas as cidades haviam postos para cobrar o imposto a César, e ao exército protetor. Nas fronteiras e nas portas das cidades e mercados, cobravam-se os im- postos aduaneiros. Salienta-se que os romanos escolhi- am para cobrar impostos os anciãos do Sinédrio e as famílias ricas de Jerusalém. Cada posto de tributo e ta- xas tinha um preço de arrendamento fixado pela esti- mativa de arrecadação. Os ingressos superiores à norma estabelecida eram dados como ganho pessoal do arren- datário, o que contribuía para a corrupção. A renda dos impostos ia para a caixa do Senado Romano, para o pa- gamento de pensões militares, e outras despesas. Para o Império Romano o imposto supunha um censo e o cadastro onde cada cidadão declarava o que possuía, além disso havia impostos indiretos de alfân- dega, de pedágios, etc. O dízimo era 1/10 do produto do solo e se pagava no verão a cada 3 anos através de um levantamento da dívida (Dt 14,28). O imposto ao Templo era pago todo ano a partir dos 20 anos de idade (Mt 17,24) o equivalente a dois denários dois dias de trabalho do campo. O dízimo dividido em Primícias visto que Deus é proprietário do solo; devia-se consequentemente doar algo por ocasião da primeira colheita. Também dava-se o dízimo sobre o gado (Nm 18,21) para sustento dos levitas e o dizimo em dinheiro para o sustento dos pobres (Dt 14,26-27).

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A estrutura da Palestina era de cunho patrimonial. O Pai dava ordens; a ele cabia castigar, pronunciar as orações, e ensinar. Já a mulher era inferior em tudo ao homem. “Louvado sejas porque não me fizestes pagão! Louvado sejas porque não me fizeste mulher, louvado sejas porque não me fizeste ignorante!” Para o culto no Templo havia um átrio para os ho- mens e outros com 15 degraus abaixo para as mulhe- res. Nas Sinagogas existiam as separações e até entra- das separadas. Só era celebrado o culto na Sinagoga

quando havia ao menos uma dezena de homens, pois não se considerava o número das mulheres. Elas não tinham direito de ler nada na liturgia da Sinagoga. Quem ensina a Torá a sua filha, ensina-lhe tolices”, As mulheres portanto eram tidas como incapazes de rece- ber instruções. A Torá não obrigava as mulheres do mesmo modo que aos homens. Elas estavam isentas de peregrinarem a Jerusalém nas grandes festas do ano, de recitarem o Shemá, de usarem os filactérios e da a- ção de graças à mesa. Neste contexto cultural e religioso a viúva não ti- nha proteção. A adolescente até 12 anos não tinha ne- nhum direito, sendo que o pai podia escolher-lhe o ma- rido. Na vida conjugal a mulher depende do marido e era considerada objeto de prazer e instrumento de fecundi- dade. A mentalidade machista permitia a poligamia e o repúdio da mulher por qualquer motivo (feiura, má pre-

A mulher devia cozinhar, moer,

paração da comida

tecer, lavar e até lavar os pés do marido. Ela não parti- cipava da vida pública e trazia o rosto coberto. Não po- dia parar para conversar com homem e não era ouvida como testemunho público. Não ocupava função pública. Não podia servir-se do trabalho de um escravo judeu. Os motivos desse tratamento eram ligados, em grande parte, aos preceitos de puro, impuro. Dentre o

).

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que produzia impureza estava tudo aquilo que tinha a ver com a vida sexual e a mulher encontrava-se ciclica- mente em estado de impureza devido a menstruação. Após o parto era conservada a impureza por quarenta dias se tivesse dado à luz a um menino e oitenta se fos- se uma menina (Lev 12,2s); durante este período não podia entrar nem mesmo no átrio do Templo dos pa- gãos. Neste ambiente marcado preponderantemente pe- los preceitos religiosos os filhos eram educados com ri- gidez e eram considerados dons de Deus vendo na cri- ança a benção de Deus. Nos primeiros anos a mãe cui- dava dos filhos e aos quatro anos começava a instrução

do filho na lei feita pelo pai, com o Shemá. A freqüência

a escola dava-se por volta dos seis anos. Na puberdade

iniciava-se o aprendizado completo da Torá. Até aos 12

anos o pai podia fazer a filha casar. A sociedade permitia às famílias ricas disporem de escravos os quais eram comprados como mercadorias. Podia-se tornar o escravo por castigo ou para compen- sar pagamento de dívidas, mas somente podiam ser es-

cravos os adultos, as filhas menores de 12 anos, o filho

e

a esposa não podiam. A filha era libertada aos 12 anos

e

o homem após seis anos (ano sabático). O escravo pa-

gão não possuía nada, mas podia ser circuncidado e tinha direito de descanso no sábado. Os evangelhos não são biografias, mas podemos captar a “ipsissima vox ex facta”. Mas o importante é descobrir as intenções originais de Jesus (ipsiossimo intentio); devemos descobrir as intenções que evidenci- am suas decisões e escolhas. Uma delas é que Jesus quis ser batizado por João Batista, preferiu seguir João Batista ao invés de qualquer liderança ou movimento de seu tempo e com isso compreendemos a direção do pen- samento de Jesus.

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Os romanos tomaram a Palestina em 63 aC tor- nando-a sua Colônia e nomeando seus governantes Herodes, o Grande que morreu 4 aC, sendo seu reino dividido pelos seus filhos Herodes (Judeia Samaria), Herodes Arquelau (Judeia Samaria) Herodes Antipas (Galiléia Pereia), Herodes Felipe (regiões mais ao nor- te). Quando Jesus tinha 12 anos, Arquelau foi deposto e o substituiu um procurador Romano para governar Ju- deia-Samaria; este foi o começo da última e mais turbu- lenta época da história da nação Judeia, época que terminou quase com a destruição do Templo, da cidade de Jerusalém e da nação, em 70 dC e depois uma des- truição completa no ano 135 dC. Essa época começou com uma rebelião causada pelo problema da a cobrança de impostos. Os romanos com o recenseamento começaram um inventário dos recursos do país para fins de taxação. Os judeus se re- voltaram, com isso e o líder foi Judas, o galileu que fundou um movimento de inspiração religiosa, com pessoas que lutavam pela liberdade. Os romanos abafa- ram a rebelião e crucificaram dois mil homens. O mo- vimento chamado Zelotas pelos judeus e de bandidos pelos romanos, continuou. Era um movimento de resis- tência, organizado em facções e algumas vezes, inclusi- ve de união com Sicários que se especializam em assas- sinatos. Durante 60 anos os zelotas atormentaram os romanos com levantes e guerrilhas ocasionais, trans- formando-se em um exército revolucionário. Em 66 dC (30 anos após a morte de Jesus), com o crescente apoio popular derrubaram os romanos e tomaram o governo no país. Quatro anos mais tarde um exército poderoso de Roma destruiu-os com um massacre sem piedade, alguns resistiam em sua fortaleza em Massada até 73 dC quando quase mil deles preferiam suicidar-se a se entregarem.

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Os zelotas formavam um movimento religioso, pois julgavam que Israel era uma teocracia, isto é, uma nação escolhida por Deus, onde Ele era o único Rei, e a terra e os recursos pertenciam somente a Ele. Aceitar os romanos era infidelidade a Deus. Pagar impostos a César seria dar o que era de Deus. Também os fariseus pensavam assim, por isso seis mil fariseus recusaram assinar um juramento de obediência a Ce- sar, e os romanos tiveram que desistir desta exigência. Mas a maioria dos fariseus não se sentia compelido pe- gar armas contra os romanos, pois sabiam que as pos- sibilidades eram-lhes contra portanto tinham como principal preocupação a Reforma do próprio povo de Israel, admitindo que Deus tinha permitido que caíssem nas garras dos romanos por causa da infidelidade de Israel em relação à lei e às tradições. Os fariseus paga- vam impostos a Roma sob protesto, e se isolavam de quem não era fiel à lei e às tradições. Formavam co- munidades fechadas, e eram separados, isto é, diziam formar a verdadeira comunidade de Israel. Tinham uma moral legalista e burguesa e acreditavam que Deus lhes enviaria o Messias libertador. Os Essênios foram mais longe que os judeus na busca da perfeição; estes viviam uma vida ascética, fo- ra da comunidade, no deserto. Preocupavam mais que os fariseus com a impureza ritual e com a contamina- ção com os impuros. Observavam diariamente e meticu- losamente os rituais de purificação prescritos pelos sa- cerdotes. Rejeitavam quem não pertencia a sua seita, dedicavam amor somente aos membros do grupo, acre- ditavam no eminente fim do mundo onde com a vinda do Messias os filhos das trevas, e dentre estes os pri- meiros seriam os romanos, seriam destruídos. Eram tão belicosos como os zelotas e por volta do 66 dC parece que se uniram aos zelotas contra os romanos.

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No meio deste contexto religioso, os saduceus e- ram os mais conservadores, agarravam-se às antigas tradições hebráicas e rejeitavam todas novidades, tanto na crença como no ritual. Não aceitavam a ressurreição e eram colaboradores dos romanos. Eram em grande parte membros da aristocracia, chefes dos sacerdotes e anciãos, assim como alguns rabinos eram os líderes e formavam a classe dominante. Havia também um pequeno grupo de escritores anônimos que se dedicavam à literatura apocalíptica, eram videntes que acreditavam ter o segredo do plano de Deus. Tais escritores escribas possivelmente perten- ciam ao grupo dos os fariseus e dos essênios. Eram a- nônimos. Em meio a estes movimentos e especulações polí- tico-religiosa, estava João Batista, profeta de condena- ção e destruição que profetizava a condenação e destru- ição de Israel. O longo silêncio da voz dos profetas foi quebrado por João Batista no deserto com um estilo de vida de profeta austero. A mensagem de João Batista é que Deus estava irado com o povo e pretendia castiga- lo, com um castigo semelhante a um incêndio na flores- ta onde as víboras fogem (Mt 3,7), as árvores são quei- madas (Mt 3,10) e as pessoas mergulhadas num batis- mo de fogo (Mt 3,11). O julgamento sobre Israel seria executado por um ser humano (Mt 3,11; 11,3). O jul- gamento dependeria da resposta dos homens, ou seja, se se arrependessem. Era dirigido aos pecadores, às

(Lc 3.12-14; Mt 21,32). Ele

prostitutas, aos fariseus

questionou até Herodes Antipas (Mc 6,18). Para João Batista a conversão devia ser pessoal com o batismo (Mc 1,5), um batismo para perdão dos pecados (Mc 1,4) isto é, para ser poupado do castigo, da cólera de Deus. João Batista, contudo não pregava uma mudança na prática da pureza ritual, da observância do sábado, do

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pagamento de impostos (Lc 3 11-14). Criticou Herodes (Lc 3,19) o qual para casar-se com Heodiades, divor- ciou-se da filha de Aretas II, Governador do reino dos Nabateus, coisa considerada uma quebra de aliança po- lítica e também um insulto. Os nabateus estavam pre- parados para a guerra e João Batista só piorava a situ- ação criticando o casamento, portanto Herodes mandou prender João Batista por razões políticas foi decapitado porque falou em público contra Herodes. João Batista foi o único que impressionou Jesus e por isso juntou-se a ele e a aceitação de seu batismo é a prova de aceita- ção de sua profecia. Jesus mostra assim que discorda com todos os que rejeitam João Batista e seu batismo. Jesus também via uma eminente catástrofe para Israel (Lc 19,43-44; 21,20-23; 13,1-3; Mc 13,14-20). É possível que Jesus tenha começado seguir o e- xemplo de João Batista, e tenha batizado algumas pes- soas. (Jo 3,22-26) mas não seguiu esta prática (Jo 4,1- 3). Invés disso foi à procura das ovelhas perdidas de Is- rael. Esta é a segunda decisão ou o primeiro indício pa- ra descobrirmos o seu pensamento. Ele decidiu para algo que tinha a ver com os pobres, os pecadores, os coxos, os leprosos, os famintos, os cegos, as prostitutas, os coletores de impostos, os endemoniados, as multi- dões, os pequenos, os últimos, as crianças (Mc 1,23.32.34.40; 2,3.15.17; 3,1 ; 9,17.18-42; 12,40-42, Lc 4,18; 5,27; 6,20-21; 7,34.37.39; 10,21; 11,46; 14,13- 21; 15,1; 13,22; Mt 5,10-12; 8,28; 9,10-14; 10,3.15.42; 11,28; 19,30; 20,16). Estes Jesus os tinha como po- bres, pequenos, enquanto que os fariseus os tinham como pecadores e ralé. Os pobres primeiro de tudo eram os mendigos não tinham como sustentar-se, pois não havia assistência social e pensões, depois, as viúvas e os órfãos que não tinham nenhum modo de ganhar a vida. Também entravam nesta categoria os operários

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diaristas não qualificados e os camponeses. Em geral todos estes não morriam de fome, mas o principal so- frimento deles era o desprezo (Lc 16.3). No Oriente Mé- dio o prestígio e a honra eram mais importantes que a comida ou a própria vida. Por isso pobres significa todos os oprimidos que dependiam da misericórdia de outro. Os pecadores eram os párias sociais, qualquer pessoa que desviasse da lei, dos costumes tradicionais da clas- se média; nestes estavam incluídos os que tinham pro- fissões pecaminosas ou impuras (prostitutas, coletores de impostos), ladrões, pastores, jogadores e também os cobradores de impostos porque decidiam a quantia de impostos que se devia jogar e muitos eram desonestos. Os pastores também entravam nessa categoria porque conduziam suas ovelhas por terras alheias. Pecadores eram também os que não pagavam o dízimo aos sacer- dotes, os que eram negligentes quanto a observância do sábado e da pureza ritual. Os analfabetos eram imorais e sem lei, os “am haares”, camponeses não educados (Jo 7,49), incapazes de virtudes e de piedade. Ser peca- dor era destino da pessoa, assim as prostitutas podiam tornar-se novamente puras por meio de um complicado processo de arrependimento, mas isso custava dinheiro, e o dinheiro ganho na profissão não podia ser usado. O coletor de impostos devia deixar a profissão e restituir o dinheiro com 1/5 a mais a tudo que tivesse lesado. Os instruídos teriam que se submeter a um longo processo de educação e sentiam-se frustados porque sabiam que nunca seriam aceitos para o convívio com as pessoas respeitáveis porque não tinham estima social, nem mesmo o consolo de que estavam nas boas graças de Deus, e o resultado era um complexo de culpa. Os pe- cadores eram muito predispostos à doenças não só por causa das suas condições físicas, mas também por cau- sa das suas condições psicológicas. Muitos sofriam do-

100

enças mentais que por sua vez provocavam condições psicossomáticas como a paralisia e a dificuldades na fala. Assim se explica também as possessões, tendo em visa que para o judeu o corpo é na morada de um espí- rito e outros espíritos podiam também habitar no corpo de uma pessoa (espírito bom, ruim). Por isso sempre que uma pessoa não estivesse em si era considerada que alguma coisa tinha entrado nela, assim o compor- tamento patológico de uma pessoa mentalmente doente era definido como possessão por um espírito mau. Uma epilepsia era considerada possessão (Mc 9,17-27; Mc 1,23-26; Mc 5,2-5). Doenças físicas e psicomáticas eram também consideradas obra do espírito mau (Lc 13, 10-17; Mc 9,17-25; 7,35), por isso a febre da sogra de Pedro é chamada de espírito mau (Lc 4,3s). São doenças que chamamos de disfunções. A lepra não era tida como o- bra do espírito impuro, porém era tida como resultado do pecado. O filho de uma união ilegítima era conside- rado pecado por dez gerações. Os pobres não podiam receber nenhum cargo de honra, postos de confiança, ou cargos públicos. Era o mundo dos perseguidos e dos cativos (Lc 4,18). Os ar- tesãos, carpinteiros e pescadores eram profissões res- peitáveis e pertenciam à classe média. Os fariseus, es- sênios e zelotas eram da classe média; gente instruída. A classe alta e governante era imensamente rica e vivia em grande luxo e esplendor, a esta pertenciam as famílias aristocráticas, os sacerdotes, os chefes e os anciãos. Jesus era da classe média, mas a desvantagem de Jesus é de que era Galileu e os judeus de Jerusalém tendiam menosprezar até os judeus de classe média provenientes da Galiléia. Ele se tornou um pária por opção e isto por compaixão (Mt 14,14; Mt 9,36; Mc 1,41;

101

Mt 20,34, Mc 8,2). A palavra compaixão do verbo “s-

plagchnizomai”, indica movimento que brota das entra- nhas da pessoa, uma reação das tripas. É um senti- mento eminentemente humano, os evangelistas não ti- nham razões apologéticas para atribuírem isso a Jesus. Os médicos eram raros e caros e os pobres não

podiam consulta-los. Existiam contudo os curandeiros e os exorcistas. Jesus não usava ritual para curar, por isso foi acusado de que curava por Belzebu. Ele exigia a fé (Mt 21,22) não usava fórmula mágica. Com a fé o homem torna-se, como Deus, Todo-Poderoso (Mt 17,20;

Mc 11,23; Mt 17,19-20).

Jesus misturou-se com os pecadores (Lc 15,2; Mc 2,15; Mt 9,10; Lc 5,29; 7,34), recebeu pecadores em sua casa e muito embora dormisse nas estradas e em casas de amigos, tinha em Cafarnaum uma casa (Mc

1,21.29.35; 2,1-2). Como pode ter sido acusado de re- ceber pecadores se não tivesse uma casa? Ao receber os marginalizados, Jesus deu-lhes um senso de dignidade

e ao sentar à mesa com os pecadores, era implícito o

perdão dos seus pecados. Os pecados eram dívidas que se deviam a Deus (Mt 6,12; 18,23-35), contraídos por conta própria ou pelos antepassados. O perdão signifi- cava o cancelamento da dívida para com Deus; perdoar

(aphiemi) significa o cancelar, libertar. Sendo a doença conseqüência do pecado, a cura era considerada uma conseqüência do perdão. A motivação para Jesus curar

era a compaixão. O poder de curar era o tamanho da fé

e as multidões se maravilhavam não porque estes pode-

res haviam sido dados a Jesus, mas sim aos homens

(Mt 9,8). Qualquer pessoa com fé suficiente podia ter feito o mesmo. Jesus disse à pecadora: “Teus pecados

estão perdoados, tua fé te salvou” (Lc 7,45-50). Na dinâmica do Reino de Deus, Jesus tinha como programa a libertação (Lc 4,16-21) dos oprimidos (Lc

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6,20-21; Mt 5,1-12).A atividade de Jesus despertou nos pobres grandes esperanças, mas não tinha nada a ver com o céu como lugar de felicidade e recompensa após a morte. Céu para os judeus era sinônimo de Deus. O Reino dos Céus significa Reino de Deus; ter recompensa no Reino do Céu significa estar em boas graças com Deus. Para os judeus todos os mortos iam para o Sheol (túmulo) a crença no céu veio com a ressurreição de Je- sus.

Os judeus eram contrários à dominação romana. Jesus foi acusado de revolucionário, impedindo que se pagasse o imposto a César e declarando-se Messias (Lc 23,2). Na sua cruz foi colocada a inscrição INRI. Jesus era culpado ou não? Para um grupo ele era culpado porque se proclamava Messias, e incitou uma revolução para derrubar os romanos. Iniciou um movimento políti- co-religioso semelhante a dos zelotas, um dos seus 12 discípulos era conhecido como Simão Zelota (At 1,13) conforme Atos 5, 34-39. Outros afirmavam que era inocente das acusa- ções. Jesus era precavido, pois proclamava-se Messias espiritual dos judeus e pregava mensagem espiritual. A sua acusação foi inventada pelos líderes judeus. Jesus queria a libertação do jugo romano como queria todo judeu, porém os evangelistas não estavam interessados com a opinião de Jesus a este respeito, porque depois do 70 dC não era questão relevante. Entretanto Lucas ba- seou-se num documento escrito antes do 70 dC, chama- se Proto-Lucas, de onde muitas passagens de seu evan- gelho e de Atos dos Apóstolos, provém desta fonte. O Proto-Lucas refere-se constantemente à libertação políti- ca de Israel (Lc 2,38; 2,25; 1,68; 1,71.74). Porém para o Proto-Lucas Jesus queria salvar Israel não do modo dos zelotas, mas persuadindo Israel a mudar, sem isso seria impossível a libertação.

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Jesus queria uma libertação diferente daquela dos zelotas, estes queriam a mera troca do governo, ao contrário Jesus queria a mudança que afetava a estru- tura da vida, queria um mundo qualitativamente dife- rente. Jesus enxergou que existia mais exploração e o- pressão dentro do judaísmo que fora dele, pois os ju- deus de classe média oprimiam os pobres, por isso o pretexto contra opressão dos romanos era hipocrisia. A organização cívica das multidões de judeus, seus far- dos, sua opressões dependiam muito menos do Impera- dor Romano e muito mais da teologia que reinava nos

grupos de escribas e fariseus. Além disso os zelotas lu- tavam não para a verdadeira libertação, mas por na- cionalismo, por racismo judeu. A revolução de Jesus era muito mais radical que qualquer coisa dos zelotas. Jesus questionava radicalmente, os aspectos da vida política, social, econômica e religiosa.

O âmago do conteúdo do anúncio de Jesus desti-

na-se aos pobres (Mt 5; Lc 6,20-23), os quais são bene-

ficiários da felicidade que percorre toda a história bíbli- ca, desde o Êxodo até os profetas do exílio. É para os pobres que viria o enviado de Deus (Is 61,1-2), eles são os primeiros beneficiários da intervenção de Deus (Mq 4,6-7). Os pobres são os beneficiários, e estes não são só os miseráveis, os privados de bens para a vida, os famintos, os aflitos e os perseguidos, mas também as crianças, os pecadores e pagãos.

O Reino de Deus não é só manifestação da graça

de Deus, mas também da misericórdia. De fato os peca- dores também fazem parte dele, assim como os publi- canos, suspeitos de desonestidade e qualificados como impuros, pois Jesus é amigo dos pecadores (Mt 11,19). Também os pagãos são objetos do Reino, uma posição diferente da tradição de Hillel onde o pagão só se con-

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verteria se se tornassem um prosélito, membro da co- munidade de Israel. As linhas mestras das atividades de Jesus são de- lineadas nos evangelhos onde os sinópticos referem as situações conflituosas nas quais Jesus enfrenta os es- cribas, os fariseus (Mt 9,3; 11; 12,2), os saduceus (Mt 16,1; 22,23), os herodianos (Mt 22,15-16; Mc 3,6), os anciãos (Mt 21,23) e o Sinédrio (Mc 14,53.55; 15,1). Todas essas situações Jesus viveu dentro das ins- tituições e dos costumes judaicos (festas, peregrinações, Templo, sinagogas). Dentre as coisas que contrapõem Jesus com o judaísmo, estão a observância dos costu- mes religiosos (jejum, sábado, pureza, ritual, os alimen- tos e interpretação das Escrituras e da tradição em al- gumas crenças, tais como: a ressurreição dos mortos, o mandamento principal e o tributo ao Imperador (Mc 2,1-3.6; 7,1-23; 12,13-34). Quanto ao sábado este era um dos dez preceitos da aliança (Ex 20,8-11) e observá-lo era obrigação do povo de Deus (Is 56,2-6). Nos escritos de Qumran dizia se que se um animal caísse no buraco no sábado, não se podia tirá-lo, até mesmo se fosse uma pessoa. Jesus invés cura o homem de mão seca no sábado (Mc 3,1-6), faz outras curas (Lc 13,10-17; 14,1-6; Jo 5,5-6; 9,6.13- 16), colhe espigas (Mc 2,23-28). Outra realidade onde aparece o contraste entre Jesus e os observantes judeus é o da pureza ritual, em especial no que se referem aos alimentos e à convivência na mesa. A legislação sobre a pureza ritual funda-se em Lev 11,11-47; Dt 14,3-21 e a pureza ritual era um sinal de pertença a Deus, esta foi estendida para todo povo e não somente aos sacerdotes, daqui a escrupulosa obser- vância. Jesus denuncia este formalismo (Lc 11,39) e propõe a pureza interior (Lc 11,40-41; Mt 15,11); Ele senta-se à mesa com os impuros (Lc 7,34; Mc 2,13-17).

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Outro ponto nevrálgico da religiosidade e da iden- tidade nacional judaica é o Templo de Jerusalém, pois era à volta dele que se concentrava a reforma espiritual; este era o símbolo da liberdade religiosa e nacional. O Templo no tempo de Jesus era o segundo Templo reno- vado pela restauração de Herodes, o Grande a partir dos anos 19-20 aC e continuado até às vésperas de sua des- truição em 66-70 dC. Para ele dirigiam os peregrinos judeus para as festividades nas diversas estações do a- no. Todos os dias celebravam-se o culto de sacrifícios de manhã e à tarde com os sacerdotes e com delegações de leigos. No átrio externo do Templo transcorria a vida so- cial e cultural; ali vendiam-se animais, faziam-se os câmbios de moedas e os mestres ensinavam. Ao Templo estavam ligados as classes sociais e as grandes famílias de Jerusalém, cujo prestígio e fortuna estavam ligados a ele. Os escribas faziam as normas atinentes à vida do Templo, já os grupos de orientação farisaica tinham o interesse na observância da pureza ritual e dos com- promissos religiosos; tais como o dízimo e as primícias.

O culto do Templo não era contestado nem mesmo pelos

monges de Qumrân, mas o que se contestava era a in- dignidade do alto clero que o presidia. Jesus estava presente no Templo onde ensinava e

fez ali algumas curas (Mt 21,14; Jo 18,20), expulsou os vendedores e compradores (Mc 11,15), e anunciou a sua destruição (Mc 13,2; Lc 13,34-35). Jesus não anunciou

a destruição do Templo como fizeram os profetas, ou

seja, por causa da infidelidade do povo, nem uma sua reforma, conforme propunham as classes sacerdotais e farisaicas, mas a superação do Templo com a instalação do Reino, pois para ele o Templo encontrava-se onde se atuava uma nova relação com Deus (Jo 4,23). Nenhum personagem é tão falado, estudado e lembrado em vida e depois da morte como Jesus. Ne-

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nhum livro foi exposto tanto à crítica quanto os Evange- lhos que falam Dele e é a sua fonte principal. Sua vida foi singular e um parodoxo, tentam ma- tá-lo quando ainda criança de berço, o perseguem du- rante a sua vida pública, respondem com pedras à sua lógica, e por fim pregam-no numa cruz, para Dele li- vrar-se, mas o temem também quando morto e colocam estupidamente os guardas no sepulcro para o guarda- rem.

Depois de sua morte, no curso de 20 séculos, uma soma ininterrupta de inimigos continuou a perse- guição sempre mais refinada, atormentando e perse- guindo os seus seguidores, renegando o seu evangelho, suas obras. Mas depois de 20 séculos Ele continua em nosso meio como um sinal de contradição. Por que? Porque junto com o número de seus perseguidores. E- xistem também um grupo sempre mais crescente de amantes apaixonados, de Sua pessoa e de sua mensa- gem, que vivem e morram por ele em todo o mundo. A mesma coisa se dá com o seu evangelho, todas as ana- tomias e sofisticações da crítica não conseguiram dila- cerá-lo. Hoje assistimos infelizmente com o coração triste uma crise de fé, uma indiferença quanto ao seu ensi- namento que também é presente entre seus seguidores e que se tornou uma práxis. Trata-se da fé Nele que é sacudida pela crise do pensamento. Mas esta crise de fé tem seus precedentes já no passado, abrindo-se abre no século XVIII, onde a preocupação dos autores deste pe- ríodo era de eliminar da vida de Jesus o elemento so- brenatural e reduzí-lo a um mito (Strauss), de tê-lo co- mo um homem de alto sentimento moral (escola liberal), como um pregador da paternidade e Deus e da fraterni- dade (Harnack), como um homem encantador (Renan),

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ou como um obssessionado do fim do mundo (Sche- weitzer). Mas depois de um itinerário aventuroso de 20 sé- culos a crítica confirma substancialmente a doutrina católica sobre a pessoa de Jesus e seu Evangelho. Por- tanto, o “Jesus Praedicans” e o “Christus Praedicatus”,

o Jesus de Nazaré é o Cristo kerigmático, é uma mesma

realidade. Podemos, portanto ter os evangelhos como documentos históricos, para encontrar o Cristo, cuja existência é também atestada por fontes profanas bem notáveis: tais como: Svetonio, Plinio, Flavio Josefo e so-

bretudo Tácito que nos seus Anais insere Cristo na his- tória de Roma com tais afirmações: “O autor desta de- nominação (cristãos), Cristo sob o imperador Tibério foi condenado ao suplício pelo procurador Poncio Pilatos Por isso mesmo Schwietzer disse que de “poucas perso- nalidades do mundo antigo possuímos tantas notícias e discursos, seguramente históricos quanto a de Jesus”. Mas a prova mas verídica da historicidade de Je- sus é a Igreja uma instituição de 20 séculos. Esta revo- lucionou o mundo, criou um direito, uma mística, uma arte admirável, uma cultura, uma civilização que se en- carnou em todas as raças e sobre toda a terra. A Igreja

e o cristianismo fazem parte das civilizações de quase

todo o mundo, também se em alguns lugares existem perseguições aos cristãos. Isto demonstra não só a exis- tência histórica de Jesus, mas também a sua presença operante nos séculos. A mentalidade de Herodes foi mais grega do que hebraica fazendo-se rodear sempre por literatos gregos. Ele irritou muitos judeus mandando colocar uma águia romana sobre a porta do templo. Os últimos anos de sua vida foram conturbados e por desconfiança mandou ma- tar os seus dois filhos, Alexandre e Aristóbulo e ficou desconfiado até de seu filho predileto Antípater, o qual

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mandou matá-lo também. Apesar de tudo isso, Herodes teve o mérito de assegurar na Palestina um período de paz com a sua boa administração. Herodes morreu no o ano 4 aC e logo em seguida

a o Imperador Augusto concedeu ao seu filho Arquelau o

título etnarca da Judéia, Samaria e Induméia, deu também a administração a Herodes Antipas da Galiléia e da Pereia e para Herodes Felipe, as regiões além do Jor- dão: Batanéia, Traconítide, Auranítide com Panéias e também Ituréia.

16. A EDUCAÇÃO FAMILIAR E SOCIAL DE JESUS

Jesus viveu a sua adolescência em Nazaré, um lugarejo de 1.600 habitantes e quase todos analfabetos. A primeira educação entre os judeus era recebida na família, a qual era prosseguida nas Sinagogas, as quais eram usadas também como escolas especialmente para a instrução primária. Em Nazaré existia uma esco- la elementar que funcionava na Sinagoga. As Sinagogas eram centros de aprendizagem. O Jesus ia à Sinagoga nos sábados o que indica que desde a infância tinha uma familiaridade com ela. Jesus recebeu a educação de José seu pai. O Talmude de Jerusalém ensina que entre

o deveres dos pais para filhos estava o de ensinar-lhes

uma profissão, de dar-lhes o casamento, e os primeiros rudimentos do conhecimento da Sagrada Escritura en- sinando-lhes a lei e as mais importantes orações tradi- cionais.

Jesus fazia parte de um povo que sabia rezar e por isso todos os dias recitava o Shemá (Dt 6,4-7), ora- ção esta obrigatória para todos de sexo masculino com idade 13 anos para cima e que era receitada pela manhã

e pela tarde. Esta era o mínimo da prática religiosa. A- lém desta havia também uma tríplice oração chamada

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tefila, a qual era recitada pela manhã, a tarde e ao anoi- tecer, obrigatória também para as mulheres, as crianças e os escravos. Em vista destas obrigações de orações di- árias, o piedoso israelita usava os tefilim, pequenas cai- xas amarradas no antebraço esquerdo e na fronte e que continham a alguns trechos bíblicos como Ex 13,1- 10.11-16; Dt 6,4-9;11,15.21; Nm 15,36-41. Alguns des- ses carregavam fitas coloridas nas bordas dos mantos, chamadas zizit, com o significado de chamar atenção para a observância dos mandamentos. Usava-se tam- bém publicamente os Mezuzôth, ou seja, pequenos pe- daços de pergaminho com textos do Shemá, que eram colocados nas portas de locais públicos para chamar a atenção de todos para a oração e observância da lei. Muitos estudiosos afirmam que o Shemá e a tefila foram orações habituais de Jesus, as quais eram excitadas em hebraico. A descoberta do teatro em Séforis, a poucos qui- lômetros de Nazaré, com 4.000 ou 5.000 lugares, mostra que ali havia um vasto e difuso conhecimento do grego também para as aldeias circunvizinhas. Face a isso os estudiosos afirmam que Jesus falava o grego, além do aramáico e compreendia o hebraico. Os estudiosos ex- cluem que Jesus tenha freqüentado escolas superiores de rabinos, mas freqüentou sim, escolas elementares, visto que nas Sinagogas, desde os tempos antigos, exis- tiam lugares para a instrução. Fílon chama a Sinagogas de escolas (didaskaléia) onde era ensinado todo o gênero de virtudes.

17. JERUSALÉM NO TEMPO DE JESUS

Uma descrição bastante completa sobre Jerusa- lém, nos é dada pelo teólogos Joaquim Jeremias em seu

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livro “Jerusalém no tempo de Jesus”, a qual era compre- endida socialmente por uma população de classes altas dentre as quais o alto clero, a nobreza leiga e a classe superior dos escribas. Depois, as classes médias com- preendiam os grandes e pequenos comerciantes, os ar- tesãos proprietários de oficinas, os funcionários e servi- dores administrativos. Para estes, os peregrinos eram uma grande fonte de receitas tanto para o fornecimento de alimentação como de animais para o sacrifício. Nessa classe existiam muitos artesãos. O Templo era uma das principais receitas sendo que naquele tempo calcula-se

a existência de 2.000.000 judeus, dos quais 1.500.000

viviam na diáspora e o restante na Palestina. Supondo que um terço dos homens adultos pagasse de taxa o meio ciclo, o qual valia dois denários, o salário de 2 dias de um operário, chegava-se à soma de um milhão de

denários, uma enorme soma, e a isso juntavam se as doações espontâneas. Por fim, vinham as classes pobres

e constituídas de trabalhadores braçais, mendigos e es-

cravos. Os escravos eram vendidos; em Jerusalém existe uma pedra sobre a qual se expunham os escravos para serem vendidos como mercadorias. Para que tenhamos uma visão mais ampla do am- biente de Jerusalém abordaremos alguns aspectos que faziam parte do panorama desta cidade no tempo de Je- sus, a saber: as profissões, as construções, a religião e o culto, a nobreza leiga e por fim a situação social da mu- lher.

As Profissões No judaísmo as profissões eram muito valorizadas, por isso usava-se dizer que “Quem não ensinava uma profissão ao filho, era como se lhe ensinasse o banditis- mo”. As profissões mencionadas no Talmud eram várias desde fabricantes de prego, comercializantes de linho,

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padeiros, curtidores, arquitetos, comercializantes, etc. Era comum encontrar na Judéia, artigos de lã, inclusive existiam 80 jovens que teciam para o Templo em Jerusa- lém, embora esta profissão era quase que exclusivamen- te feminina, pois esta profissão era considerada despre- zível. É interessante salientar a existência da profissão de pisoeiro, a qual consistia em tornar a lã impermeável

e os que a exerciam eram na maioria não judeus. Salien-

ta-se ainda que a curtição de couros era um serviço que não faltava porque as peles das vítimas oferecidas em sacrifício eram aproveitadas sobretudo pelos sacerdotes.

As profissões dos oleiros e ferreiros também eram bas- tante comuns. Havia também a profissão dos médicos (Mc 5,26). Era comum igualmente a profissão de copis- tas.

Entre os produtos alimentícios estava em 1º lugar

o óleo, produzido nos arredores de Jerusalém, ricos em

oliveiras devido ao solo propício. De fato em Jerusalém haviam muitos lugares que inclusive prensavam as azei- tonas trazidas da Pereia. Getsemani significa lagar, ou seja, um instrumento onde se espremiam azeitonas, u- Este era um trabalho muito considerado. Em Jerusalém havia também os carregadores de água, pois segundo Flávio Josefo este comércio era forte no tempo de seca. Antes da chegada de Tito, a fonte de Siloé tinha secado assim como outras da cidade, e preci- sava portanto comprar água em ânforas. Marcos (14,13) refere-se a um transportador de água numa bilha. Em Jerusalém também se confeccionava bálsamo

vas

e resinas, pois os bosques tinham árvores como o cina- momos que quando queimadas exalavam perfumes a- gradáveis, inclusive suas folhas eram usadas entre os perfumes queimados no Templo. Era, portanto comum a venda de bálsamo. As mulheres compraram aromatas

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para ungir o mestre (Mc 16,1). Nicodemos veio ao sepul- cro “trazendo uma mistura de mirra e aloés (Jo 19,39). Os comerciantes de bálsamo representavam um papel importante sobretudo para a corte de Herodes o Grande, assim como a do artesanato artístico, sobretudo de enfeites femininos. Estes enfeites eram comprados pelo povo durante as peregrinações à Jerusalém como forma de lembranças.

As construções Herodes o Grande (373 aC) foi um grande cons- trutor e dentre as suas obras destacam-se a restauração do Templo; a construção do palácio de Herodes (2919aC / 62 64dC) com suas Três Torres (Hippicus, Fa-

sael e Mariana); a Fortaleza Antonia; o suntuoso túmulo

de Herodes; o Teatro e aqueduto; Agripa I (4133dC)

este governador construiu de interessante uma formidá- vel muralha (com 5,25 m de espessura) no lado mais setentrional de Jerusalém com aproximadamente 3.530

m de cumprimento. Agripa II (50-53 dC) dedicou-se ao

término do Templo de Jerusalém (6264 dC), para o qual

usou mais de 18 mil homens. Mandou calçar as ruas de Jerusalém com pedras brancas. É de se notar que para as construções o material mais utilizado era a pedra e que as construções reais eram quase sempre monumentos estilizados, utilizando

para isso os melhores profissionais, assim como os ar- tistas, os escultores, os tecelões artísticos, os projetistas

de jardins, os artífices para o trabalho com ouro e a pra-

ta, os fabricantes de mosaicos

Para a construção do Templo de Jerusalém o qual

foi iniciado em 29-19 aC e terminado em 62-64 quando

era governador Albino, no começo foram contratados 10 mil operários e mil sacerdotes foram transformados em

artesãos. Construindo em mármore preto, branco e a-

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marelo, com madeira proveniente do Líbano e com ce- dro, este foi construído com a maior ostentação possível. Herodes queria recobri-lo todo de ouro e mesmo onde não tinha ouro brilhava de modo a cegar (Josefo), sendo todo equipado com utensílios sacros de ouro e prata. Sua fachada (27,5m) era recoberta de placas de ouro

(Josefo), e correntes de ouro caiam das traves do teto, e

a mesa era em ouro maciço. O ouro era tão abundante

em Jerusalém, especialmente no Templo, que após a tomada da cidade, uma imensa oferta deste material in- vadiu todo a Siria e a libra de ouro passou ser vendida

pela metade de seu preço (Josefo).

O culto e a religião Durante os 82 anos de restruturação do Templo o culto nunca foi interrompido. Não faltavam no Templo os encarregados pelo fornecimento da água, os barbeiros para as cerimônias dos votos de nazir, da consagração dos levitas e da purificação após a cura da lepra. Existi- am médicos no Templo para os sacerdotes e os pães da proposição eram preparados pela família Gramo e a fa- bricação dos perfumes era do encargo da família de En- tiros.

O Templo constituía o centro de uma colônia de profissões durante os serviços litúrgicos contínuos. Os trabalhadores ganhavam bem com pagamentos feitos

pelo tesouro do Templo, inclusive o tesouro era obrigado

a suprir as necessidade dos operários desempregados e

foi certamente por isso que após a restauração do Tem- plo empreendeu-se a pavimentação das ruas de Jerusa- lém. Algumas famílias tinham cargos vitalícios como a de preparação dos pães e perfumes para queimar. Jerusalém situava-se numa região desfavorável às profissões e pedra era a única matéria prima encontrada com abundância nos arredores. Nas montanhas da Ju-

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déia os rebanhos produziam peles e lã, a oliveira, a mandioca e a azeitonas. A argila era de má qualidade e faltava água, pois Jerusalém dispunha de uma única fonte importante, a de Siloé. Na época da seca precisava comprar água. Jerusalém no tempo de Jesus tinha 25 mil habi- tantes e era uma cidade em que fluía muito dinheiro, pois do mundo inteiro chegavam as taxas previstas pela lei, taxas sob forma do imposto da didracma, do comér-

O fluxo de estrangeiros dava

boa renda com as peregrinações durante as festas. Todo israelita piedoso tinha de gastar em Jerusalém um dé- cimo do rendimento de sua terra, este era o chamado 2º dízimo. Havia ainda rendimentos dos impostos. Segundo Josefo, Arquelau arrecadava anualmente da Induméia, da Judéia e da Samaria, 6 milhões de dracmas. Diante deste oásis material é claro que Jerusalém atraia os ho- mens que possuíam grandes capitais, os importantes

negociantes, os editores de impostos, da mesma forma, os judeus da diáspora que se tornavam ricos e vinham morar ali. O Templo dava um grande suporte financeiro, pois com os fundos do Templo pagava-se a manutenção dos edifícios da cidade, a limpeza, a pavimentação e até o serviço de água da cidade. A esmola representava grande papel na piedade judaica: “muitas esmolas, muita paz”, ensinava Hilel. Ter compaixão do próximo era sinal que permitia reco- nhecer a descendência de Abraão. “O sol da riqueza é a prática da caridade”. Era uso corrente dos peregrinos praticarem a caridade em Jerusalém, estes gastavam em Jerusalém com beneficência certa parte do segundo dí- zimo.

Em Jerusalém havia pessoas encarregadas de procurar roupas e alimentos para as pessoas em trânsi-

cio das vítimas, dos votos

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to. O At 4,37; 5,2 fala de colaboradores voluntários na distribuição dos bens. At 6,2 fala dos comandantes que alimentavam os pobres. O Tamhûy (prato dos pobres) era distribuído igualmente todos os dias aos pobres em trânsito (pão, favas, frutas), o Qûppah (cesta dos po- bres), era distribuída igualmente toda semana contendo

alimentos e roupas. O judeu fiel costumava devia dar aos pobres após deduzir as taxas prescritas, um décimo dos produtos que lhe restavam. Havia no Templo, duas salas denominadas “Sala dos silenciosos” e “Sala dos utensílios”. Na sala dos si- lenciosos ou dos pecadores, as pessoas temendo o peca- do, depositavam suas dádivas em silêncio (secretamente)

e os pobres de boas famílias (pobreza envergonhava) e-

ram atendidos em segredo. As pessoas podiam colocar o dinheiro também no cofre do Templo (2Mc 3,4 6,10-

11). As viúvas e órfãos serviam-se do cofre (2 Mc 3,10). Era proibido gastar o segundo dízimo fora de Jerusalém.

O culto constituía a principal fonte de renda para

Jerusalém, este garantia o meio de vida da nobreza sa- cerdotal, dos sacerdotes e dos funcionários do Templo.

O povo hebreu viveu muitas calamidades; em 163

aC Jerusalém foi assediada, os campos não produziam,

o que agravou a fome. Houve também uma seca violenta

em 65 aC. Em 64 aC um tufão destruíra colheitas em todo o país. Em 37 aC com o cerco de Jerusalém a fome grassou com violência em Jerusalém. No ano 13º de He- rodes houve uma seca persistente que tornou o país im- produtivo e nele planta alguma brotava, faltando ali- mentos, e diversas epidemias se espalharam como uma espécie de peste que matava violentamente. Havia falta de roupas porque os rebanhos foram dizimados ou transformado em alimento, deixando de existir a lã e ou- tras matérias primas para tecelagem.

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O Sumo Sacerdote era a personagem mais impor- tante do povo. Sua função habilitava cumprir a expiação pela comunidade enquanto mandatário de Deus. Esse caráter oriundo de sua função era-lhe conferido pela investidura, com a tradição dos paramentos pontificais compostos de 8 peças. Esta veste possuía uma virtude expiatória, cada uma destas 8 peças expiava pecados determinados. Assim sendo, tal veste constituía para os judeus o símbolo da religião. Somente o Sumo Sacerdo- te podia penetrar um dia do ano Santo do Santo, o lugar sacrossanto, vazio e silencioso. No momento da distribu- ição das coisas santas do templo entre os sacerdotes em serviço, o Sumo Sacerdote podia selecionar aquilo que desejasse, tinha licença de escolher para si em sacrifício pelos seus pecados (animais ou aves) um sacrifício de reparação, uma porção de oferendas alimentares, 4 ou 5 ou até mais dentre os 12 pães da preposição distribuí- dos cada semana, e por fim um couro do holocausto. A lei previa um único dever para o Sumo Sacerdo- te; aquele de oficiar no dia da expiação (Lv 16) que entre as obrigações tinha que ser ofertado um novilho imolado pelos pecados no dia da expiação. A lei proibia de tocar num defunto, de participar de um enterro e de deixar crescer os cabelos em desalinho. Na semana precedente ao dia da expiação o Sumo Sacerdote devia submete-se por 7 dias à cerimônia de purificação (Nm 19,11-16) e por 7 noites devia instalar-se e passar a noite num cô- modo do Templo, para proteger-se da possibilidade de qualquer contágio de impureza, em particular de sua mulher. Este costume deu-se por volta do ano 20 dC quando o Sumo Sacerdote Shimeon recebe nas vésperas do dia das expiações o escarro de um árabe e ficou inap- to par oficiar. O Sumo Sacerdote para preservar a pure- za só podia casar com uma jovem virgem; não podia ser nem viúva, nem repudiada, nem prostituta (Lv 21,13-

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15). Esta virgem devia ter a idade entre 12 a 13 anos e filha de um sacerdote, ou de um israelita de descendên- cia legítima. O Sumo Sacerdote devia ter uma apresen- tação particularmente cuidada na sociedade. Se o Sumo Sacerdote não pudesse oficiar no dia das expiações, um sacerdote o substituía e passava a ser contado na lista de Sumo Sacerdote, embora fosse apenas um substituto por algumas horas. Se o Sumo Sacerdote fosse deposto do cargo como foi Yohua (63-65), Anan (62 dC) conser- vava o seu prestígio, conservava o seu “charater indele- bilis”, pois possuía uma santidade eterna. O Sumo Sa- cerdote transmitia o pontificado a seus descendestes, embora no tempo dos Romanos, estes eram investidos, contudo os políticos não davam muita importância às prescrições como Herodes que investiu Aristóbulo como Sumo Sacerdote em 35 aC com 17 anos quando a idade canônica era de 20 anos. Herodes ousou nomear e desti- tuir Sumos Sacerdotes. Assim, sob os Romanos o cargo deixou de ser vitalício e hereditário. Neste período os Sumos Sacerdotes de idéias saducéias tiveram que calar suas opiniões no Sinédrio. Entretanto, casos de repor- tismo, conquistas abusivas, transgressões nas prescri- ções para seu próprio matrimônio, prática de comércio na esplanada do Templo, era falta de formação teológi- ca, contribuíram para diminuir o prestígio dos Sumos Sacerdotes. Entretanto, no século I de nossa era a im- portância do Sumo Sacerdote foi reforçada considera- velmente. Enquanto chefe do Sinédrio e representante do povo, neste período em que não havia mais rei, os Sumos Sacerdotes representavam os judeus perante os Romanos. Eram homens influentes como Anás e Caifáz,

O

fato de serem eles os únicos a poderem entrar no San-

to

dos Santos os exaltavam acima dos demais.

O sacerdote de grau mais elevado a do Sumo Sa- cerdote, era o comandante do Templo e sua função liga-

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da ao culto no Templo durante as cerimônias solenes, era de assistente do Sumo Sacerdote e ocupava lugar de honra. Se o Sumo Sacerdote não pudesse exercer as funções no dia das expiações ele era substituído. Não podia ser nomeado Sumo Sacerdote sem antes não ter sido comandante do Templo e estes eram escolhidos en- tre as famílias de Aristrocracia Sacerdotal. O coman- dante devia fiscalizar o serviço de culto no Templo e po- dia efetuar as prisões que quisesse. Foi um deles que prendeu o apóstolo Pedro no pórtico do Templo (At 5,24-

26).

Depois do comandante do Templo em ordem de importância vinha os chefes das seções sacerdotais hebdomadárias em número de 24 e os chefes das ses- sões cotidianas abrangendo cerca de 156. Esses sacer- dotes viviam na Judéia e Galiléia, só estavam presentes em Jerusalém uma semana em 24 semanas quando ti- nham o serviço com as funções determinadas para o culto cotidiano. Estes realizavam as cerimônias de puri- ficação para os leprosos e para as mulheres particular- mente na porta de Nicanor, porta de comunicação entre

o átrio das mulheres com a dos israelitas. Foi um des-

tes que recebeu o sacrifício de Maria (Lc 2,24), era tam- bém nesta porta que o sacerdote hebdomadário devia

fazer a mulher suspeita de adultério, beber as águas amargas (Nm 5,16). Havia também os tesoureiros do Templo que cui- davam das finanças do Templo e que compreendia, pois imóveis, quantias em dinheiro, jóias, administração de

taxas e ofertas, assim como capitais particulares ali de- positados, a fiscalização das aves e outros gêneros para

o sacrifício. Cuidavam ainda da administração e con-

servação dos aspectos em ouro e prata dos quais 93 e- ram utilizados num único serviço diário. Portanto, um

vasto campo de atividades com um grande número de

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funcionários. Eram três os que se ocupavam das opera- ções financeiras, os quais administravam as rendas do Templo, tais como as doações e os impostos (Mt 17,24). Administravam também as despesas de compra de le- nha, do vinho para as libações e da farinha. Em suma, as funções na cerimônia no Templo exi- gia muita gente, além do Chanceler (encarregado de re- ceber o pagamento de ofertas de uma libação), o Ahia (encarregado das libações), o Pethaia (encarregado dos sacrifícios de aves), o Bem Ahia (médico do Templo), o Bem Arza (chefe dos músicos), o qual dava o sinal aos levitas do meio do culto, o Hugdas (cerimoniário do co- ro).

Paralelamente à aristocracia sacerdotal encontra- mos uma multidão de sacerdotes divididos em 24 clas- ses cumprindo alternadamente uma semana de traba- lhos em Jerusalém de sábado a sábado. O conjunto dos sacerdotes compunha de 24 sessões hebdomadaria divi- didos aproximadamente em 156 sessões cotidianas, que eram os encarregados dos sacrifícios públicos cotidia- nos, dos sacrifícios dos perfumes, do holocausto de um cordeiro, da oferta alimentar. Calcula-se sem exageros a ocupação de 50 sacerdotes para uma seção cotidiana sendo que uma sessão hebdomadaria compreendia 6 sessões cotidianas, ou seja: 50x6 = 300 sacerdotes para uma sessão hebdomaria. 24 sessões hedomadarias x 300 sacerdotes = 7.200 sacerdotes mais os levitas, dos quais eram necessários 200 para fechar as portas do Templo juntamente com os guardiões em serviço numa sessão hebdomadaria. Além dos levitas cantores e músi- cos que também eram em número de 200, portanto 400 x 24 sessões = 9.600 levitas. Concluiu-se que no tempo de Jesus existia um clero no total de 18.000 entre sa- cerdotes e levitas.

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As funções dos sacerdotes se limitavam a duas semanas por ano e às três festas anuais de peregrina- ção. Portanto os sacerdotes viviam em suas casas de 1014 meses (conforme a distância que estavam de Jerusa- lém). Além disso o sacerdote podia declarar puro um le- proso após a cura (Mt 8,4; Lc 17,14), antes de ir à Jeru- salém para oferecer o sacrifício pela própria purificação. Os sacerdotes tinham o dízimo, mas era insuficiente pa- ra viver, portanto precisavam trabalhar. Só Herodes na reconstrução do Templo utilizou mil carpinteiros sacer- dotes, visto que suas profissões eram variadas, tais co- mo: talhadores de pedras, comerciantes, açougueiros, criadores de gado Os levitas constituíam o baixo clero e sendo inferi- ores aos sacerdotes não participam do serviço sacrificial, somente eram encarregados da música do Templo e dos serviços inferiores no mesmo. Também divididos em 24 sessões heldomadarias revezavam cada semana para os serviços que eram dirigidos por um chefe. Eles se dividi- am em músicos e servidores do Templo. Os músicos e- ram superiores e acompanhavam as liturgias. No serviço cotidiano o chefe do coro dos levitas e os levitas músicos e cantores, assim como os 12 tocado- res de flautas na Páscoa e na festa das Tendas, ficavam em cima de um estrado que separava o átrio dos sacer- dotes e dos Israelitas. Os sacerdotes do Templo incumbiam-se de fun- ções inferiores de sacristãos e ajudavam os sacerdotes a se vestirem e se despirem de suas vestes sacerdotais, preparavam o livro das leituras bíblicas, cuidavam da limpeza do Templo, mas não podiam entrar no átrio dos sacerdotes, visto que este os mesmos sacerdotes limpa- vam. Eram também os seguranças do Templo, intercep- tando a passagem das pessoas para os lugares proibi- dos. Montavam guarda dia e noite no Templo e tinham

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até autoridade para prender. As autoridades para pren- der Jesus (Mc 14,43; Mt 26,47) comandada pelo chefe do Templo (Lc 22,52) eram compostas por esta seguran- ça levítica, reforçada pela Corte do Sumo Sacerdote (Mc 14,17) e também por soldados romanos (Jo 18,3-12). Tanto a função do sacerdócio como do levita era transmitida por herança, através de um levantamento de suas genealogia e se um sacerdote tinha um casa- mento ilegítimo seus filhos não podiam ser sacerdotes. No Templo de Jerusalém havia um arquivo das genealogias do clero sempre atualizado. Muitas destas genealogias desapareceram com as guerras sob Antíoco

Epifanio, Pompeu, Vespersino, Tito

de um sacerdote tinha 20 anos, o Sinédrio sediado no Templo na sala de pedras talhadas, do lado sul do átrio dos sacerdotes, examinava-o quanto as suas condições físicas e a legitimidade de sua origem para ser ordena- do. Só depois e com um banho de purificação, impu- nham-lhe a veste sacerdotal (veste longa de bisso, calça do mesmo tecido, faixa e turbante); ofereciam depois uma série de sacrifícios aos quais se acrescentavam ce- rimônias particulares, ao todo esse ato solene durava sete dias. Para os levitas também se fazia um exame de sua origem para poder admiti-lo na função e devia ter a idade entre 20 até 30 anos. Se um sacerdote ou levita cantor se casava, era preciso examinar a genealogia de sua esposa, a fim de que um nascimento legítimo garantisse aos sacerdotes ou levitas a dignidade. Examinavam também se os seus pais, avós e bisavós eram de sangue puro. Freqüente- mente um sacerdote casava com a filha de um sacerdo- te, basta lembrar o exemplo do Sumo Sacerdote Zacarias da classe sacerdotal de Abia, que desposou Isabel, filha de sacerdote (Lc 1,5).

Quando um filho

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O comércio Os agricultores da região traziam eles mesmos seus produtos para Jerusalém onde pagavam uma taxa ao cobrador de alfândega do mercado. Porém, Jerusalém tinha comércio com a Grécia, importava madeira do Lí- bano, vidros de Sidon, escravos da Siria, tecidos valiosos

da Babilônia, perfumes da Arabia

qualidade da Galiléia era utilizado no Templo. A maioria do trigo vinha de regiões da Palestina. As frutas e verdu- ras eram produzidas pelas cercanias. Os animais de corte vinham da Transjordânia, basta dizer que um comerciante denominado Buta, con- temporâneo a Herodes o Grande, fez vir 3.000 cabeças de animais de pequeno porte para venda para os holo- causto e sacrifícios pacíficos. Havia no átrio dos gentios um comércio florescente de animais para o sacrifício, talvez dirigido pela família de Anás (cf. Jo 2,14). Por ocasião da Páscoa usava-se uma enorme quantidade de espetos de romanzera para milhares de vítima. Para o sacrifício diário serviam-se da figueira, do pinho e da nogueira. A oliveira e sarmento eram impró- prios.

O trigo de primeira

As montanhas de Jerusalém com suas grutas e- ram um terreno favorável ao banditismo (Lc 10,30-37). Em Jerusalém o nível de vida faustoso dos reis impu- nha grandes gastos. Quando Herodes construiu o seu palácio fez vir do mundo inteiro os melhores materiais; este palácio sobrepujava o Templo em esplendor. Jeru- salém também era bem freqüentado por banqueiros (Mq 2,1-5; Is 5,8). O agricultor impelido pela necessidade, via-se obrigado a hipotecar suas terras e sua colheita. Jerusalém consumiu uma grande quantidade de mate- rial de qualidade para a restauração do Templo, pois deste exigia-se o maior brilho e portanto material de primeira qualidade, tais como: mármores em preto,

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branco, amarelo e grande quantidade de ouro. Para o culto no Santuário usava-se lenha, vinho, óleo, trigo, incenso de primeira qualidade. Os Sumos Sacerdotes tinham vestes com tecidos preciosos provenientes da Índia. Todos os dias uma grande quantidade de novi- lhos, bezerros, carneiros, cabras, rolas eram oferecidos como sacrifícios públicos. No tempo da Páscoa ofereci- am-se diariamente dois vitelos e sete cordeiros em holo- causto e um bode como sacrifício expiatório, assim como os sacrifícios privados, basta dizer que para comemorar

o término do Templo, Herodes mandou sacrificar 300 bois.

Três vezes por ano o Templo atraia enormes mul- tidões de peregrinos (Dt 16,1-16). Os judeus chegavam de toda parte do mundo, especialmente para a Páscoa. Era preciso alimentar essa massa humana, que vinha com seu segundo dízimo, isto é com o décimo de todos os produtos colhidos para gastar em Jerusalém. O nú- mero de vítimas imoladas eram aos milhares (256 500 vítimas pascais), diz Josefo. Os estrangeiros vinham à Jerusalém de quase to-

do o mundo atraído antes de tudo por motivos religiosos

e em segundo lugar nas razões de natureza política ou

econômica. Eram especialmente sírios, babilônicos, e- gípcios e gente da Ásia Menor. Jerusalém era o lugar onde estava a corte de Herodes, e onde o espírito hele- nista reinava com influência total. A luta das feras, as corridas das bigas, os jogos de ginásio eram um podero- so centro de atração. Jerusalém era também a sede do Supremo Tribu- nal, pois ali estava sediado o Sinédrio, a primeira As- sembléia do país que por sua característica e sua atribu- ição, estendia-se aos judeus do mundo inteiro. Dada a sua importância, o Sinédrio entretinha relações com o mundo inteiro. Desde o ano de 6 dC Jerusalém era uma

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cidade romana na Província com guarnição de tropas, e dada a sua importância como centro da vida política judaica, o povo afluía em grande número para assuntos públicos e privados. Jerusalém era um dos centros mais importantes para a formação religiosa dos judeus. Atraia sábios da Babilônia e do Egito e a reputação mundial de seus ho- mens doutos fazia acorrer para lá os alunos. Nela acha- va-se o centro de convergência da vida farisaica, e de- pois durante muito tempo foi o centro da cristandade (Gl 2,1-10). Os cristãos do mundo inteiro enviavam ofertas às comunidades de Jerusalém. Muita gente ali se esta- belecia para ali depois morrer. Era a pátria do culto ju- daico, o lugar da presença divina na terra, ali os judeus vinham para rezar. No Templo levavam para o julgamen- to de Deus a Sôtah, ou seja, mulheres suspeitas de a- dultério. No Templo levavam as primícias, ali, após cada nascimento, as mães se purificavam pelo sacrifício pres- crito e os judeus do mundo inteiro para lá enviavam su- as taxas. Ao Templo, três vezes por ano fluía o judaísmo disperso por todas as nações. Nas três festas principais todos eram obrigados comparecer no Templo, exceto os surdos, os débeis men- tal, os menores, as mulheres, os escravos, os coxos, os cegos, os enfermos, os anciãos. Menor era aquele que não podia ainda montar a cavalo nos ombros do pai. Os que moravam longe se permitiam de fazer a cada ano somente a viagem pascal. As mulheres tam- bém podiam ir se bem que não eram obrigadas, mas era costume para os de longe levar o filho em Jerusalém quando este completava 12 anos (o Talmude indica o 13º ano como idade a partir da qual o Israelita fica obri- gado a submeter-se aos preceitos da lei), mas era cos- tume levar as crianças de 12 anos nas peregrinações

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para habituá-las ao preceito que devia atingi-los a partir dos 13 anos. Da diáspora também chegavam os peregrinos para as festas “Miriades chegavam de miríades cidades para cada festa do Templo, uns por via terrestre, outros por

mar, do oriente e do ocidente”

Joaquim Jeremias, o número de participantes à Páscoa era de aproximadamente 180 mil peregrinos. O luxo entre os ricaços de Jerusalém era grande, dois homens apostaram 400 Zûr (denários) para ver quem conseguia encolerizar Hilek. Rabi Meir conta que alguns ricaços de Jerusalém amaravam 4 cordões de ouro para as cerimônias das festas das Tendas. Em Je- rusalém bebia-se o vinho de mesa em copos de cristal. A nobreza sacerdotal residia em mansões, tinha servos e servas. Os escribas no tempo de Jesus com freqüência ti- nham uma profissão ao lado do ensinamento que davam e viviam de auxílios. Não existiam muitos escribas ricos

no tempo de Jesus, mas os escribas que eram sacerdo- tes, recebiam salários, assim como os que estavam a serviço do Templo, eram pagos com o dinheiro do tesou- ro. Os escribas pertenciam na maioria à classe pobre. Diz que o escriba Agiba, em pleno inverno tinha que se deitar sobre as palhas e nunca teve dinheiro suficiente para dar um presente à esposa. Yuda bem Elai tinha apenas uma capa e ele e a sua mulher usavam-na alter- nativamente para sair. Hibel, nascido na Babilônia veio para Jerusalém a pé, trabalhou como diarista por um Terop-pa’iq, isto é meio denário. Somente com 80 anos conseguiu melhorar sua situação, tendo condições de mandar sangrar um boi para si e sua família no átrio do Templo. Gado, pérolas, produtos colhidos e vinho, custa- vam bem mais caro em Jerusalém do que no campo. As

Segundo cálculos de

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frutas custavam até três vezes mais que no campo. De- vido a imensa demanda de pombas para o sacrifício, o especulador fazia subir seu preço até cem vezes mais. As taxas no tempo de Herodes o Grande eram al- tas, visto a necessidade de desenvolvimento do país, com construções de pontes, administração de cidades, assim como com as despesas no estrangeiro com cons- truções de grandes dimensões nas cidades estrangeiras como por exemplo em Rodes, Tripoli, Bibcor, Sidon, Ti- ro, Olimpia, Esparta, Atenas, Antioquia, Damasco. Devi- do o insaciável orgulho dos monarcas, havia além das taxas, confiscos de bens. Contudo, Agripo I que herdou de seu avô Herodes, o amor ao fausto, sabia cobrir suas excessivas despesas pessoais sem sacrificar os súditos.

A nobreza leiga, os escribas e os fariseus Os anciãos eram representantes da nobreza leiga, membros do Sinédrio, formavam um grupo pequeno, mas também conhecido como os grandes da cidade, os conselheiros e os guardas de Jerusalém. Geralmente e- ram latifundiários, possuíam imóveis, e eram pessoas de excelentes condições financeira. Eram em grande parte Saduceus. A este grupo pertenciam alguns Sumos Sa- cerdotes (At 5,17.21), os quais formavam um grupo or- ganizado e não era fácil pertencer ao seu círculo. Ati- nham-se estritamente à letra da Torá, tinham seu pró- prio código penal, eram conservadores, influentes na nação e constituíam com os sacerdotes da alta classe o Sinédrio. Tinham ao seu lado o poder judiciário e a au- toridade governamental. Também os escribas formavam uma classe superi- or. Havia um grande número de sacerdotes com forma- ção de escribas. Pertenciam a esta classe também al- guns membros do baixo clero, como chefe dos porteiros, levita cantor; assim como pessoas de todas camadas do

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povo: mercadores, artesãos, carpinteiros, cortadores de linho, fabricantes de tendas, a maioria não pertencia a classe abastada da população. O saber era o único e ex- clusivo poder dos escribas e quem desejasse agregar-se à corporação dos escribas pela ordenação, seguia um ciclo regular de estudos de alguns anos, começando co- mo discípulo (Talmîd) e começava desde a tenra idade e passando a ter um sólido conhecimento das escrituras ainda jovem. O aluno tinha convivência pessoal com o mestre e ouvia seus ensinamentos e quando tivesse a- prendido a dominar toda a matéria tradicional e o méto- do halaguita, a ponto de poder resolver por si mesmo questões de legislações religiosas e ritual, tornava-se “doutor não ordenado” (Talmîd hakam). Mas somente com a idade canônica para a ordenação (40 anos), é que podia ser ordenado (Semikak - At 6,6), sendo em segui- da recebido na corporação dos doutores como membro legítimo e doutor ordenado (Hakam) podendo ser juiz em processos criminais, dar pareceres em processos civis, e ter o título de Rabi. O próprio Jesus que não seguiu o ciclo regular de formação culminado na ordenação, era chamado de Rabi. Somente os doutores ordenados transmitiam e criavam tradição derivada da Torá, a qual se colocava em pé de igualdade com a lei escrita e até mesmo acima dela. Suas tradições tinham o poder de ligar e desligar (Mt 16,19; 18,18). Com exceção dos chefes dos sacerdotes e dos membros das famílias patriarcais, o escriba era o único que podia ingressar no Sinédrio. O partido fariseu do Sinédrio compunha-se inteiramente de Escribas. O Si- nédrio era eminentemente uma corte de justiça e o co- nhecimento da exegese escriturística era obrigatória nas sentenças judiciárias. Por isso, estes exerciam também atividades importantes na sociedade. Mas o fato da in-

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fluência dominante dos escribas sobre o povo não con- sistia em serem conhecedores da tradição, ou no domí- nio da legislação religiosa, mas sim por serem portado- res de uma ciência secreta, a tradição esotérica. Era grande o prestígio dos escribas, quando pas- savam o povo levantava-se; eram saudados por primeiro e chamados de Rabi. Quando os notáveis de Jerusalém ofereciam um banquete era uma honra contar com alu- nos de escribas e futuros doutores. Os primeiros lugares eram reservados aos escribas, e um Rabi merecia mais honra que os próprios pais. Nas sinagogas tinham luga- res de honra, sentavam de costas para o armário da To- rá olhando a assistência e visível a todos, só em caso especial contraiam matrimônio com filhas de pessoas que desobedeciam a lei. Seus túmulos se encontravam ao lado dos túmulos dos Patriarcas e dos Profetas vene- rados e conservados com temor supersticioso. Já os fariseus que significa separados, formavam verdadeira comunidade de Israel; eram pessoas do povo sem formação escriba, porém eram muito ligados aos escribas. Constituíam associações que visavam viver os mandamentos religiosos. A origem deste grupo foi século II aC, assim como a dos essênios. Para se tornar fari- seus havia o período de um ano de prova durante a qual o postulante devia dar provas de aptidão para se- guir as prescrições rituais. O postulante se comprometia em observar as prescrições judaicas sobre a pureza e o dízimo. A associação farisaica tinha seu chefe, fazia uma refeição em comum na sexta-feira e tinha sua justiça interna; podia pronunciar sobre a exclusão de um com- ponente. Na época de Herodes havia mais de 60 mil fari- seus (Jerusalém tinha 30 mil sacerdotes, 18 mil levitas e 4 mil essênios).

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A comunidade farisaica compunha-se de plebeus, gente do povo sem formação escriba, honestos, sérios, muitas vezes severos e orgulhosos em relação aos de- mais que não observavam como eles as leis religiosas.

A situação social da mulher Não participava da vida pública. Tinha o rosto es- condido por um manto cobrindo-lhe a cabeça cingindo a fronte e caindo até o queixo, portanto não se podia reco- nhecer os traços de seu rosto. Se a mulher saísse de ca- sa sem cobrir o rosto faltava aos bons costumes e o ma- rido tinha o dever de despedi-la sem pagar a quantia que no caso de divórcio pertencia à esposa. Algumas mulheres tão rigorosas nem em casa descobriam a cabe- ça (caiam sobre mim isto ou aquilo, se as traves de mi- nha casa viram meus cabelos). Era proibido ao homem encontrar-se sozinho com uma mulher, olhar para uma mulher casada e até cumprimentá-la. Era vergonhoso para um aluno de escriba falar com uma mulher na rua. Nas Cortes governamentais não se observava este costume, tome-se como exemplo o de Salomé (Mc 6,22) No campo as mulheres que precisavam trabalhar não observavam de modo tão estrito o hábito de cobrir a ca- beça. Em casa as moças faziam o trabalho doméstico, trabalhavam na costura e fiação e tomavam conta dos irmãos menores. Para com os mais velhos tinham que alimentá-los, vesti-los, lavar-lhes o rosto, as mãos e os pés.

Até idade de 12 anos em meio a autoridade do pai era soberania sobre a filha. A renda do seu trabalho era dada ao pai e até a esta idade era o pai que escolhe o marido dela acima de 12 anos e meio a filha era maior de idade (era chamada Bôgenet) e podia noivar sem o consentimento do pai.

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Casavam a partir dos 12 anos e era comum se ca- sarem entre parentes e quando casavam iam morar com

a família do marido. O marido tinha a obrigação de pro-

ver à sua mulher a alimentação, a moradia, o vestuário, os remédios. Quando esta morria devia o marido contra- tar, mesmo que fosse pobre dois tocadores de flautas e uma carpideira e até providenciar alguém para o discur- so fúnebre. Os deveres da esposa era cuidar do lar, moer, co- zinhar, lavar amamentar, fiar, tecer lã, preparar bacia para o marido lavar mãos e pés e sendo permitido a po- ligamia, a mulher devia tolerar a presença de concubina

a seu lado. No tempo de Jesus os Shamaítas discutiram com os Hiletitas sobre a exegese de Dt 24,1 que menciona sobre o justo motivo para o homem repudiar a esposa, caso encontre nela “qualquer coisa de vergonhoso”, “Er- wat Dabar”. Os Hiletitas explicavam esta passagem as- sim: 1º. Uma imprudicícia (erwat) da mulher e 2º Qualquer coisa (dabar) que desagradasse o marido da- vam-lhe o direito de afastar a mulher de sua casa. Quanto à obediência a Torá a mulher era igual ao ho- mem. Em todos casos de alguns mandamentos a mulher era liberada, como por exemplo: ir em peregrinação à Jerusalém na festa da Páscoa, Pentecostes, Tendas; a- brigar-se nas tendas, agitar o lûlab por ocasião desta festa, tocar o Shofar no dia do ano novo, ler a “megillah (o livro de Ester) na festa de Purim, recitar diariamente o Shemá, estudar a Torá. As escolas eram só para os me- ninos.

As Sinagogas tinham duas repartições: A Sabbateîon reservada para as cerimônias litúrgicas, o qual era acessível às mulheres, mas a Andrón só se a- bria para os homens e meninos.

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Entretanto as famílias de classe média ensina às jovens uma formação profana, ensinando-lhe por exem- plo o grego, “pois era um adorno para elas”. No Templo era permitido penetrar no átrio dos gentios e das mulheres durante os dias de purificação mensal e além desses no período de 40 dias após o nas- cimento de um filho (Lc 2,22), ou de 80 dias se fosse uma menina (Lv 12,2-5). Não se podia entrar nem mesmo no átrio dos gentios. Quando nascia um menino era alegria, uma menina tristeza.

18.

REFERÊNCIAS E ALGUMAS REFLEXÕES SO- BRE JESUS

Alguns dizem que há muito Marketing político nos evangelhos para alegar que Cristo teria nascido no ano 70 aC., que o Natal não é 25 de dezembro, pois a Igreja teria fixado este dia no ano 525 para coincidir com as festas pagãs do Oriente e de Roma, que Jesus não nas- ceu em Belém (Judéia), mas em Nazaré (Galiléia), e o presépio de Belém foi invenção dos evangelistas para identificar a vinda do Messias com o que o Antigo Tes- tamento anunciava. Hoje a fé procura ser fundada em evidências ci- entíficas, basta dizer que existem mais de 80.000 livros sobre Jesus Cristo. É verdade que nas últimas 50 décadas as desco- bertas arqueológicas trouxeram à luz muitas coisas. A lingüistica e a filosofia aprimoraram admiravelmente, pois hoje pode-se comparar os textos antigos, analisar os estilos, a mensagem e estabelecer pressupostos so- bre a cultura da época, o ambiente, etc., entretanto de Jesus desde o seu nascimento até seu batismo não te- mos descobertas arqueológicas sobre ele, e até a histo-

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riografia grega e judaica não dizem nada dele neste pe- ríodo.

Com as escavações arqueológicas de 1945 nas cavernas de Hammadi (Egito), onde encontra-se uma biblioteca cristã do século 4º em língua Copta com e- vangelhos apócrifos e depois em 1947, com a descober- ta dos manuscritos do Mar Morto nas cavernas de Qu- mran (Israel) encontrou-se documentos da seita judaica dos essênios do ano 152 aC a 68 dC, os quais também ignoram Jesus, mas revelam a cultura sobre a qual o cristianismo cresceu. O filósofo, Pe. Emile Puech da es- cola Bíblica Arqueológica Francesa de Jerusalém afirma que provavelmente o nosso conhecimento sobre Jesus não vai mudar, mas poderemos ainda ter um melhor conhecimento do Cristo real se surgirem novas indaga- ções filológicas, lingüísticas e históricas sobre a Pales- tina e sobre a comunidade cristã do primeiro século. Os quatro evangelhos são compilações de mensa- gens anônimas ou atribuídas aos apóstolos, orais ou escritas, dos séculos I II. Marcos o mais antigo evan- gelho foi escrito pelos anos 70 dC; Já Mateus foi escrito entre os anos de 70 80; Lucas, foi escrito entre os a- nos 80 90 e João foi escrito depois dos anos 90. Os evangelhos contém “material” suficiente para levar a fé ao coração das pessoas abertas mas não para escrever uma biografia de Jesus afirmava Luke Johnson. Em 311 Constantino, Imperador Romano, con- verteu-se ao cristianismo e organizou o primeiro Concí- lio Ecumênico em Nicéia (hoje território Turco), onde em 325 com 318 bispos, estabeleceu o primado da Igre- ja Romana sobre a cristandade, com importantes dog- mas e a partir dali os escritos cristãos foram oficializa- dos. Atanásio, bispo alexandrino, no século IV escreveu 27 textos do NT (exemplos e cartas) alguns escritos em grego, a língua culta de então. Até o século IV a missa

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em Roma era rezada em grego. Jerônimo traduziu os textos bíblicos para a língua latina e assim estes popu- larizaram-se na Palestina no século V. Os monges Co- pistas reproduziram os textos à mão às vezes reelabo- rando-os conforme as tendências doutrinais. Contesta-se os relatos de “Antigüidades Judai- cas”, os quais oferecem informações importantes sobre Jesus e o cristianismo e que foram escritos por Flávio Josefo (37-100), o qual afirma que Jesus fazia milagres e apareceu três dias depois de sua morte. Para Maria Luzia Conassim, professora da História Antiga da Uni- versidade de São Paulo, este texto foi distorcido pelos copistas monges, pois “Josefo não podia acreditar que Jesus fosse o Messias. Os monges agregavam o que queriam, pois do século II ao século XV as únicas cópias existentes dos livros estavam nos conventos”, diz a pro- fessora. Alguns testemunhos não cristãos como o de Filão (20 aC 50 dC) escritor judeu, ignora Jesus e fala bas- tante sobre Pôncio Pilatos. Já Flávio Josefo, o historia- dor fala que em sua “época viveu Jesus, um homem sá- bio e o que se pode dizer é que era humano. Ele fazia mi- lagres. Era o Cristo. Quando nossos cidadãos o denun- ciaram e Pilatos condenou-o à crucifixão, ele apareceu três dias depois de sua morte, de novo vivo. Os profetas anunciam suas maravilhas e milhares, o adoram”. (Ant. judaicas cap. XVII). Também Tácito (55 120) escre- vendo sobre o incêndio de Roma, disse: “Nero acusa aqueles detestáveis por suas abominações que a multi- dão chama de cristãos. Esse nome vem de Cristo, que sob o principado de Tibério, foi mandado para o suplício pelo Procurador Pôncio Pilatos. Reprimida momentanea- mente, essa superstição horrível brotou novamente, não apenas na Judéia, mas agora dentro de Roma”. (Anais, cap. XV). Da mesma forma Suetônio (70-128) falando

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sobre a vida do imperador Cláudio, disse: “O imperador expulsou de Roma os judeus que viraram causa perma- nente de desordem pela pregação de Cristo” (Vida de Cláudio, cap. 25). Por fim Plínio, o jovem (61-114) es- crevendo para o imperador Trajano relata que: “O cris- tãos têm o hábito de se reunir em um dia fixo para rezar ao Cristo que consideram Deus, para cantar e juram não cometer qualquer crime, abstendo-se de roubo, assassi- nato, adultério e infidelidade”. (Carta Trajano cap. X). O Novo Testamento delineia o perfil humano de Je- sus. Ele "foi achado em figura de Homem" (Fl 2,7), viveu em tudo igual a nós, menos no pecado. Os evangelhos colocam os traços humanos do Verbo encarnado salien- tando que experimentou a fome, a sede, sentiu cansaço, fez experiência da dor e da tortura, conheceu a alegria, o pranto, teve compaixão, medo, afeto, contrariedade. É um homem que se interroga e se maravilha, tem amigos que ficam chocados com as hostilidades com que é aco- lhido. Fez a experiência da tentação por duas vezes onde foi solicitado no profundo de sua alma. Ele conheceu todas as provas, mas nunca foi pecador (Hb 2,7; 4,15), sendo o pecado uma oposição ao divino, ele não podia contradizer-se. Jesus é Santo desde o nascimento "crescia em sa- "

rior estava condicionada pelo desenvolvimento psicológi- co e pelas experiências; através das provas Jesus ama- dureceu e alcançou a perfeição. Seu crescimento em santidade não consistia em corrigir-se, ou passar de um estágio a outro, pois ele sempre teve a plenitude da san- tidade que convinha às etapas do seu desenvolvimento. O crescimento de Jesus foi todo natural, pois tanto do ponto de vista físico como psíquico, ele estava sob as leis normais do desenvolvimento. Como recém nascido cho- rou, dormiu, foi amamentado, aprendeu a falar, e à me-

bedoria, idade e graça

(Lc 2,52). Assim sua vida inte-

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dida que se abria para o mundo ia tomando consciência de si, descobrindo a sua própria individualidade e para crescer em si mesmo ele teve necessidade dos outros sobretudo de seus pais. Porém a influência negativa do ambiente nunca lhe afetou, pois filtrava o que atingia e rejeitava as impurezas, sem que isso o fizesse menos homem que nós. Por ser o Filho de Deus o seu eu cres- ceu puro e por ser homem viveu o seu desenvolvimento físico, a sua puberdade, o desenvolvimento de sua sexu- alidade e não teve a concupiscência. Nele desabrocha- ram os sentimentos de amizade, de abertura, de encanto pela natureza, mas também do mal, das injustiças, dos

Por muitos anos trabalhou como carpin-

sofrimentos

teiro (Mc 6,3) em Nazaré, aldeia nunca mencionada no Antigo Testamento. Ele teve que aprender uma profissão e em seu nível histórico sem saber, achava-se ligado ao nível cultural da época e compartilhava as idéias e os conhecimentos do seu tempo, por isso os seus conhecimentos em técni-

ca não superavam aos do seu tempo. Seu saber era limi- tado e progredia com o tempo; ele teve que ir aprenden-

do através da experiência. Ele não sabia tudo como dizi- am alguns teólogos da Idade Média, os quais afirmavam que ele por ter todas as ciências foi o melhor filósofo,

matemático, artesão, agricultor, pintor

"Ele não reali-

zou nenhuma descoberta científica e trabalhou com ins- trumentos rudimentares. Por mais de 30 anos não tinha sido nem notado (Mc 6,2-3). O Jesus histórico aparecia aos olhos dos contemporâneos como um homem autêntico em tudo e por tudo." Jesus conhecia porém o homem em profundidade, não um conhecimento no tipo conceitual, filosófico, mas sim na linha dos profetas, nem por isso ele escreveu um tratado sobre isso. Ele conhecia o pensamento íntimo de cada pessoa (Natanael, a Samaritana) e este conheci-

136

mento era em razão de sua missão, assim como eram os seus milagres. Resumindo, podemos dizer que no que concerne às coisas do mundo Jesus não era dotado de poder nem de ciência extraordinária, era condicionado pelos fatores psicológicos e históricos; a ignorância não é imperfeição e sim parte da condição humana. Em suma, o Verbo se

fez carne

de vista de sua mesquinhez e fragilidade, e Jesus pene- trou nossa condição até na banalidade, na caducidade, no fracasso e no vazio. Quem era Jesus para os discípulos? Para respon- dermos essa pergunta devemos antes dizer que os após- tolos fizeram uma experiência nova e forte dele, pois ex- perimentaram suas palavras e seu comportamento e ao seu chamado, deixaram tudo para segui-lo. Portanto, devemos admitir que Jesus provocava uma forte im- pressão naqueles que tinham contato com ele. Para a multidão Ele era Profeta, um homem carismático que agia e falava em nome de Deus, e Jesus não rejeita essa visão, fazendo seu o que disse Isaias 61,1 e Lucas 4,18- 19. Ele falava como profeta; "Não convém que um profeta pereça fora de Jerusalém " (Lc 13,33). Porém, sua originalidade era tal que o povo não sa- bia em que categoria de profeta classificá-lo (Mc 8,27- 29). Para os apóstolos ele é o Messias, aquele que cul- minava as esperanças de Israel, que levava ao cumpri- mento as palavras de Javé, porém Jesus nega que Ele fosse o Messias nacionalista que iria libertar Israel do domínio estrangeiro, e isto gerou até uma certa ilusão nos apóstolos; os Judeus perguntaram-lhe até quando manteria o suspense sobre sua identidade (Jo 10, 24), e mesmo os seus discípulos vêem nele o Messias naciona- lista. (Lc 24,21 ; At 1,6).

(Jo 1,14), isto é, o homem, tomado do ponto

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Jesus aceitou o título "Filho de Deus" (Mc 14,62), ou seja, alguém que tinha uma proximidade particular com Javé em vista da missão. Israel era chamado Filho de Deus, assim como todo israelita. (Ex 4,22 ; Dt 14,1) . Para o judaismo, o Messias era chamado de Filho de

Deus para indicar sua relação privilegiada com Javé. Embora Jesus não tenha se declarado que era Deus, ele teve atitudes em relação ao perdão dos pecados, ou à lei,

e fez declarações diante do Sinédrio (Mc 14,62) que dava

a entender sua igualdade com Deus. O fato de ter sido

condenado como blasfemador (Mc 14,64), mostra que ele reivindicou funções que só se atribuía a Deus. Jesus para não ser mal interpretado não fez decla- rações sobre si, pois era preciso antes preparar as pes-

soas, por isso ele provoca os seus ouvintes a refletirem e

a se interrogarem sobre ele, sobre a sua identidade; sus-

cita diálogo capaz de conduzir a um verdadeiro encontro com ele (samaritana). Outra maneira diferente do comportamento de Je- sus foi quanto a atribuição de uma função única para si em relação ao plano de Deus e sobre a humanidade. Ele apresenta-se como o que anuncia a aproxima- ção do Reino de Deus e o inaugura (Mt 12,28). Este rei- no chega associado à sua pessoa e ocupa o lugar cen- tral de sua mensagem, pois não é possível chegar a Deus sem a comunhão com Ele (Lc 12,9). Ele não só anuncia a salvação, mas é a salvação em pessoa; Deus está próximo porque ele se encontra presente Ne- le, entra em contato com Deus e seu Reino, Nele se en- contra a graça de Deus e seu juízo, ele é o Reino, o amor de Deus. Ele é mais que Jonas, mais que Salomão (Mt 12,41-42). Faz tudo isto sem arrogância, sem buscar o poder, a fama, a riqueza, pois vive um estilo de vida humilde sendo pobre e não tendo casa (Lc 22,27).

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A sua missão ele a desempenhou com segurança. Sua palavra como a dos escribas nunca se limita a uma explicação das escrituras, elas têm caráter imediatista; ele sabe de modo inequívoco o que Deus quer e o que anuncia. Não é a Sagrada Escritura a fonte última de sua convicção, do conhecimento da Palavra de Deus e de sua missão. Ele não apela para nenhuma visão ou reve- lação pessoal, mas encontra-se diante de uma intuição imediata, ou diante de um conhecimento de Deus por conaturalidade (Dupont). Por fim o seu modo de rezar impressionava os dis-

cípulos, pois pela relação filial que cultivava com Deus, ele falava com Deus como se falasse com o Pai (Kasper). Chama Deus como em "meu Pai" e "vosso Pai", visto que tinha uma consciência de estar numa relação íntima com Deus. Ele revela um modo seu todo novo de enten- der Deus. Vivia a relação filial na obediência, uma obe- diência por antonomásia (Fl 2,6-11). A experiência que tinha com Deus era a fonte de sua autoridade diante da lei, das respostas que deixava estupefata as multidões e tudo isto o fazia como alguém totalmente desraizado do seu próprio eu, numa atitude de serviço. Ele pertencia a este mundo, mas em meio a ele era totalmente um outro (Bornkanm). Jesus ressuscitado para a comunidade é Jesus no culme de sua doação na cruz. Para Paulo o que importa

é Cristo crucificado ( ICor 2,2) , o anúncio de Jesus ig- nomioso, maldito (Dt 21,23) ex-comungado foi escândalo

e loucura (ICor 1,22-23). Jesus sofreu o mesmo destino

dos profetas e ele mesmo reconheceu o seu destino (Lc 13,33). Nesta perspectiva Jesus morreu na sua legítima missão, morreu pelos nossos pecados conforme o credo de Paulo (ICor 15,3), ele carregou como servo os peca- dos, por isso a crucifixão está inserida na história da salvação. Sua morte foi desígnio divino e não condena-

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ção (Mc 8,31), e este desígnio é para a salvação dos homens, pois ele veio não para ser servido, mas para dar a sua vida (Mc10,45). Seu corpo imolado, seu san- gue derramado é em favor de muitos (Mc 14,24), isto é, pelos pecados; sua morte tem caráter expiatório. A expiação no mundo helenístico era o esforço do homem, mediante o sacrifício, para influenciar a divin- dade, a fim de torná-la propícia, mas para a Sagrada Escritura expiar é sinônimo de libertar os pecados, é Deus quem expia como fala João (I Jo 4,10; 2,2 ; Hb 2,17) e em Jesus crucificado o homem encontra o per- dão, a comunhão com Deus. Jesus não é um bode expi- atório que substitui a nós, mas a solidariedade; ele fez- se maldição, pecado e pobreza para dar-nos a riqueza (Gl 3,13 ; IICor 5,21). Jesus morreu por nós para satis- fazer a justiça divina ofendida, mas no sentido de que só ele sem pecado pode realizar eficazmente a salvação e estabelecer a unidade com o Pai. Ele foi colocado como instrumento de propiciação com seu sangue (Rom 3,25). O propiciotório era a tampa da Arca da Aliança onde Deus perdoava ao povo seus pecados e que no dia da expiação era aspergido com sangue. Em conclusão afirmamos que na comunidade pri- mitiva a reflexão sobre Jesus não é de tipo filosófica- teológica , mas de fé. O ponto de partida é a relação a- tual com Jesus glorificado, profissão de fé que se tradu-

zia em cantos, hinos, confissões de fé, doxologias

Não

é também uma Cristologia do tipo antológica, isto é, não dava atenção para quem é Cristo em si mesmo, em seu ser, mas é soteriológica, ou seja, vê o sinal salvífico par- ticularmente na sua morte e ressurreição. O Helenismo teve uma reflexão mais filosófica, mais voltada ao ser de Jesus (Fl 2,6-11; Cl 1,15-20) ; Jo 1,1-18). Vê o Cristo em total obediência à missão divina e sua relação com o Pai. Naturalmente toda esta proclamação de fé em

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Cristo tem um determinado aspecto de vida terrena de Jesus como fundamento, como critério da própria inter- pretação da fé. Naturalmente não podemos falar da divinização progressiva de Jesus, um ato semelhante não se explica no judaísmo. É inconcebível Paulo, judeu, divinizar ou- tro judeu vivido poucos anos antes dele e além disso morto na cruz. Os judeus recusavam divinizar o homem, entretanto a Jesus o adoravam. Porque ele é Deus desde sempre e isto foi manifestado pela ressurreição. É a con- templação do ressuscitado que abriu a fé à compreensão daquilo que ele é desde a eternidade, a partir, porém de sua figura histórica. Isto demorou tempo para ser expli- citado, pois Jesus que era distinguido de Deus Pai, vem compreendido como Filho, igual a Deus.

19. TESTEMUNHAS SOBRE JESUS NOS SÉCULOS II -

III

Os textos mais antigos (Pápias, Canôn de Muratori, Irineu de Lião) consideram Marcos e Lucas autores no sentido próprio. Para Pápias, Marcos foi discípulo de Paulo e intérprete de Pedro; um cristão originário do paganismo. Sua obra influenciou Lucas e Mateus e Marcos foi influenciado por Paulo. Os autores, os evan- gelistas não forma simples comunicadores da tradição, foram também intérpretes e teólogos, pois cada um tem sua visão e seus processos literários. A autoridade dos Evangelhos se manifesta na con- servação fidelíssima do próprio texto do evangelho. O fato de que desde o século II se lê os textos dos evange- lhos nas liturgias em pé de igualdade com os profetas. (Justino diz: "No domingo, há reunião dos habitantes das cidades e da zona rural, e lêem-se as memórias dos

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apóstolos ou dos escritos dos profetas). A Igreja contra os hereges serviu-se dos evangelhos (ebionitas, marcio- nistas, docetas), além do mais, estes se apoiavam nos evangelhos, especialmente Marcos apoiava-se em Lucas. Todos eram unânimes em aceitar que pelos evangelhos se conhecia a pregação dos apóstolos a respeito de Cris- to. As Igrejas reconheceram os quatro evangelhos como norma de fé e vida.

A Igreja tomou posição contra as formações dos a-

pócrifos que tentaram preencher as lacunas dos evange-

lhos sobre períodos da vida de Jesus para satisfazer a

curiosidade popular e para certas exigências apologéti- cas. Também o Diatessaron de Taciano teve o mesmo propósito servindo-se dos evangelhos. Já nos meados do século II a Igreja considerou os evangelhos como núme- ros clausus em número de quatro, Irineu fala de "Evan- gelho quadriforme" e Eusébio de "quadriga sagrada ".

A Formgeschichte representada em alguns impor-

tantes teólogos tem como objetivo estudar a primeira fase da história da Tradição (o Evangelho pregado atua- lizado, aplicado às situações da Igreja procurou jogar algumas luzes para a interpretação dos textos Sagra- dos). Esta surgiu entre 1919-1922 para estudar a medi- ação das comunidades entre o acontecimento e o texto. Sua tarefa foi classificar as formas literárias das narra- ções evangélicas estabelecendo um relacionamento entre a forma literária e o meio ambiente que a ocasiona. In- daga, portanto quais são as situações na comunidade em que o escrito nasceu, se desenvolveu e foi transmiti- do durante o processo da tradição. Interessa-se pela gê- nese, pela formação e evolução das tradições orais, an- tes dos textos escritos. Sua ambição é retratar toda a história da tradição evangélica do evangelho oral ao es- crito. Seu método é literário, mas sua perspectiva é his- tórica. Descreve a pré-história dos evangelhos. Poderia

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ser comparada à geologia que estuda as formas sucessi- vas da crosta da terra. Face a isso, vemos que a Formgeschichte destaca a importância da tradição oral. O evangelho foi pregação antes de ser escritura; a tradição precede a escritura. A matéria dos evangelhos durante 25 ou 30 anos pregada, serviu de missão, de catequese, de culto e de polêmica; recebeu um colorido da Igreja e foi marcada pela inter- pretação teológica desta. Sublinha igualmente o caráter inconsistente das coordenadas do tempo e do lugar tor- nando impossível uma seqüência lógica dos aconteci- mentos da vida de Jesus. O Jordão, a Galiléia e Jerusa- lém, são lugares privilegiados da presença de Jesus, mas fora estes é difícil reconstruir o filme da vida de Je- sus.

Para a Formgeschichte o que interessa mesmo é a contribuição pessoal do autor, ou o cunho literário do autor, pois cada forma literária tem o seu sitz im leben particular, ou seja, o meio impõe a forma literária ade- quada; há uma interação entre o meio e o texto. A vida impõe a forma e a forma revela o meio. O que se questiona na Formgeschichite é que ela fi- xou a atenção na comunidade primitiva e subestimou o papel dos evangelistas considerando-os como simples compiladores, apresentando assim os evangelhos como um aglomerado de fragmentos. O seu mérito foi trazer um método rigoroso para a análise dos evangelhos, e o meio para se chegar pelos estudos dos textos até o meio- ambiente que eles nasceram, só que a Formgeschichte exagerou na ruptura entre Jesus e o Cristo, como tam- bém no poder criador da comunidade primitiva, pois es- tudando o meio sociológico da comunidade, esqueceu seu comportamento interior desconhecendo o papel dos evangelistas.

143

As pesquisas da Formgeschichte têm como ponto de partida a comunidade pós-pascal, mas será que a história do cristianismo começou com a fé pascal e que essa fé é responsável por toda tradição cristã? Käseman combateu esta idéia e afirmou que a continuidade de tradição é coisa não apenas possível, mas altamente provável. Bultmann achou que existe não apenas uma continuidade de lembranças, mas uma verdadeira con- tinuidade de tradição, incluindo a transmissão de uma mensagem e de uma atividade. Porém para Bultmann entre a comunidade antes e pós-pascal, há uma descon- tinuidade real porque a fé intervém como elemento novo, criador da nova comunidade. Para ele é a fé que carac- teriza o começo de uma comunidade e a fé cristã só co- meçou depois da Páscoa. Mas será que a fé no Cristo pós-pascal só foi possível porque existia uma fé nele antes da páscoa? Schurmann explorou o período pré- pascal com o método da Formgeschichte e distinguiu ali um sitz im leben externo constituído pelas ações visíveis da comu- nidade (liturgia, missionária, catequética) e o outro in- terno constituído pelas relações interpessoais que uniam entre si os membros dessa comunidade na profissão da mesma fé. É de se notar que a Formgeschichte estudou só o sitz im leben externo e negligenciou o interno, con- tudo são esses laços internos que constituem os elemen- tos motores aptos a suscitar, manter e garantir a trans- missão fiel de uma tradição. Jesus formou uma comu- nidade com discípulos escolhidos, estes o seguiram e creram nele. Os discípulos partilharam suas vidas, tor- naram suas testemunhas, tiveram fé em suas palavras, viveram em sua intimidade, ficaram fascinados por seus ensinamentos e ações. Tudo isto não caiu no esqueci- mento deles, aliás, eles conservaram o tesouro de suas palavras com respeito, guardando-as inalteradas. Esta

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fé em Jesus explica a possibilidade não apenas de uma tradição, mas a fisionomia própria desta tradição. Jesus foi para eles mais do que um mestre, ou um sábio, foi sim a revelação de Deus, o maior dos profetas, um líder. Por isso, eis a importância dos discípulos em conservar sua mensagem, mais do que a forma literária em seu conteúdo original. Assim, a comunidade íntima de Jesus

e dos discípulos, a adesão dos discípulos à personalida-

de prestigiosa de Jesus, a autoridade de sua palavra ú- nica e decisiva, constituem o sitz im leben interno sufi- ciente para explicar a continuidade efetiva de uma tradi-

ção das palavras e gestos de Jesus. Para Schurmann Jesus pregou e propôs sua men- sagem com intenção de fornecer aos discípulos um ins- trumento adaptado em vista de uma atividade missioná- ria a ser exercida não apenas depois da páscoa, mas en- quanto ele estava vivo. Ele dirigiu um apelo particular aos discípulos e isto implicou num compartilhar a mis- são. Assim a missão dos discípulos antes da páscoa constitui um sitz im leben importante para compreender

a origem e o processo de transmissão da tradição evan-

gélica. Jesus deu às suas palavras um cunho particular com a intenção de imprimi-las na memória dos discípu- los. Basta lembrar a missão que deu a eles (Mc 6,7). Ele os preparou para a missão e estes participam de sua missão e depois prestam contas do ocorrido. Nesta mis- são eles anunciam o Reino, convidam à penitência. Por- tanto, Jesus forneceu-lhes o material para a pregação e assim houve uma tradição constituída antes da Páscoa. Outro fator para explicar a formação e transmissão de uma tradição foi a vida em comum dos discípulos, os quais deixaram as próprias famílias para dedicarem-se inteiramente ao Reino.

145

Por isso a origem e a tradição dos Logia de Jesus começaram antes da Páscoa, através do próprio convício com Jesus. O iniciador da tradição foi o próprio Jesus conforme atestam (1Jo 1,1ss; Lc 1,2; At 1,21-22). As- sim, pela comunidade pré-pascal tem-se acesso a Je- sus. Se a tradição apoiasse só no pós-pascal a história de Jesus não se apoiaria sob um dado histórico, mas seria uma gnose. Com a páscoa Jesus foi melhor identi- ficado com a propagação. A Páscoa não é uma bomba atômica que destruiu tudo, mas uma chama que tudo iluminou. O mérito de Schurmann é ter aplicado a Formges- chichte ao estudo pré-pascal distinguindo o Sitz im leben interno e externo. Jesus influenciou como nenhum outro persona- gem a vida da humanidade a ponto de dividir a história em antes e depois dele, tornando se um marco divisor para a história. Esse judeu que viveu pouco mais de

trinta anos numa periferia do Império Romano, marcou profundamente os últimos vinte séculos da história hu- mana em todas as suas latitudes; seja religiosa, política,

exercendo uma influência sem pre-

cultural, artística

cedentes nos costumes e na ética. A história teria sido diferente sem a sua presença, de forma que é difícil imaginar os últimos vinte séculos da história da humanidade sem a presença do cristia- nismo. Sem Jesus no cristianismo tudo teria sido dife- rente, pois o que teria pintado um Rafael, Michelângelo, Ticiano, Murilo ou Velásquez? O que teria sido a compo-

sição de um Bach? O que teriam escrito um Dante, ou um Tomás de Aquino? Sem Jesus como seria hoje a Europa? E o mundo ibero-americano sem a presença da cruz dos conquista- dores? Como seria hoje a história sem as conquistas

146

missionárias do cristianismo ou sem as Cruzadas, as Inquisições? O mundo teria sido diferente, pois muitas das cul- turas e literaturas não teriam chegado até nós. Podemos imaginar como seria a nossa sociedade ocidental sem as milhares de pessoas formadas ou influenciadas pelas escolas e as universidades católicas no mundo inteiro? Como seriam as leis e o direito no mundo sem o cristia- nismo? E a influência da ética nos costumes? Como não levar em conta a doutrina cristã sobre o sexo, o divórcio, o aborto, a pena de morte, a eutanásia ? Jesus foi a figura mais paradoxal, poderosa e e- nigmática nos últimos vinte séculos; basta dizer que em seu nome se pregou o amor universal e que também em seu nome se assassinou, se manipulou. Pelo seu nome milhares de pessoas se imolaram e um terço atual da humanidade acredita neles e segue os seus ensinamen- tos. Tudo isso surgido de um pequeno grupo que acredi- tou na chegada de um Salvador e depois esta crença foi cultivada pelas primeiras comunidades cristãs através dos apóstolos e dos discípulos, embora Jesus tivesse sido morto numa cruz.

20. A JUDÉIA ANTES E DEPOIS DE JESUS

Israel só completou sua independência no ano

129 aC quando venceu os Selêucidas que reinavam na

Palestina e os Macabeus que lideraram uma revolta e

assim fundaram a dinastia dos Asmoreus. Nos anos

103 - 76 aC a rivalidade entre os saduceus, homens da

classe alta influenciada pelo helenismo e aliados aos sacerdotes do Templo de Jerusalém contra os fariseus,

anti-helenizantes provocou uma guerra civil. Em 63 aC Roma invadiu a Palestina, ocupando o Templo sob o comando de Pompeu e assim a Judéia

147

tornou-se Província de Roma. Em 48 aC os Romanos nomearam Antípater como governador da Judéia e em 31 aC coroaram Herodes, um monarca cruel e detesta- do que matou sua mulher, seus filhos, sua sogra e o cunhado. Além disso insultou a religiosidade dos ju- deus construindo Templos pagãos e um hipódromo pa- ra lutas de gladiadores em Jerusalém. Apesar de tudo era bom administrador e fez obras reconhecidas tais como: o Porto de Cesaréia, a fortaleza de Massada, a restauração do Templo, e outras obras significativas. Quando Jesus nasceu Herodes governava, e na- quele ano houve 2.000 crucifixões na Judéia. Neste tempo os judeus eram divididos em quatro grupos: Sa- duceus, que formavam a elite dos sacerdotes que do- minava o Templo; Fariseus que eram populistas e pro- punham um judaísmo orientado pelos rabinos do povo; Essênios, monges austeros e separados e Zelotas, ra- dicais que pregavam a violência e a revolta contra Ro- ma.

Neste contexto os judeus esperavam com ansie- dade a manifestação do Messias para libertá-los dos

Romanos; com a vinda do Messias para eles viria o fim do mundo e o reinado de Deus na terra; de fato, os pro- fetas perambulantes anunciavam a vinda do Messias e

o fim dos tempos e os zelotas, não se conformavam com

a dominação romana, estes eram uma espécie de ban-

didos. Entre os anos 26-36, Pilatos governava em nome dos Romanos e no ano 30 mandou crucificar Cristo. Em 37 o Imperador Calígula mandou levantar uma sua estátua no Templo e provocou os judeus. Em 64 os ze- lotas iniciam a rebelião, sendo afastada pelo General Vespasiano que antes de atacar Jerusalém passou o comando para seu filho Tito, o qual no dia 28 de agosto do ano 70, arrasou Jerusalém e o Templo, matando mi- lhares de judeus. Em 73 a revolução dos judeus era a-

148

inda acesa, quando 960 judeus suicidaram-se na forta- leza de Massada para não se tornarem prisioneiros dos Romanos. Em 132 Shimon Bar Kosib auto proclama-se messias, denomina-se “Filho da Estrela” e lidera uma revolta que durou três anos, mas os Romanos acaba- ram com tudo sob o comando do General Severo que arrasou mil povoados e matou milhares de judeus. As- sim os Zelotas perderam a influência e os rabinos as- sumiram a liderança. Só em 138 com o Imperador An- tonio Pio, o Império de Roma foi mais suave e o judaís- mo rabínico começou a expandir-se. A esta altura o cristianismo era mais popular.

21. COMO O POVO VIA JESUS?

Como o povo via Jesus? Podemos afirmar que a partir do momento em que Jesus deixou Nazaré e come- çou falar nas Sinagogas, curando e acolhendo os de- samparados, tornou-se um personagem de interesse público e seu nome tornou-se famoso (Mc 6,14). Ele

passa a ser tido como o profeta (Mt 21,9-11). O povo o tinha como profeta (Mt 16,14), um dos antigos profetas que ressuscitou (Lc 9,19), um grande profeta (Lc 7,16), um profeta poderoso em obras e palavras (Lc 24,19).

disse-lhe a samaritana (Jo 4,19). “Es-

te é o profeta que deve vir ao mundo”. (Jo 6,14). “O profe- ta” (Jo 7,40). O próprio Jesus faz menção à sua função

profética “um profeta só é desprezado em sua pátria

é possível que um profeta morra fora de Jerusa-

lém” (Lc 13,33). Há um total de 20 textos em que Jesus e sua obra são interpretados mediante o recurso ao mo- delo “profeta”. Jesus é visto como profeta pelas multidões porque realiza os sinais do Êxodo como o dom do pão corres-

” “

És um profeta

”,

não

149

pondente ao maná e o da água viva, como Moisés tinha dado água do rochedo (Jo 6,14; 7,40). Ele dá cumpri- mento à promessa de Deuteronômio 18,15-18; (Lc 24,19; At, 3,22; 7,22). O povo via Jesus também Mestre, pois ele ensina- va nos lugares públicos, seja nas Sinagogas, no pátio do Templo, aos sábados (Mc 1,21; Jo 6,59; 7,14; 18,20). Às vezes ensinava ao céu aberto (Mt 5,2), ao longo do mar (Mc 2,13; 4,1), nas praças (Lc 13,26); ensinava aos dis- cípulos e multidão (Mc 2,13; 8,31; 9,31). Ele ensinava como quem tem autoridade e não como ensinava os es- cribas (Mc 1,22; Mt 2,28; Lc 4,32. 36); está acima do protótipo de sabedoria (Salomão) (Mt 12,42). Segundo a tradição rabínica os escribas eram os sucessores dos sábios bíblicos, portanto, Jesus coloca-se acima da ins- tituição docente judaica. Podemos afirmar que os dados evangélicos baseados nos critérios de historicidade fa- zem supor que a imagem de Jesus como mestre, assim como profeta, mergulhe suas raízes nas condições da atividade histórica de Jesus. Ele não foi um simples “rabbî”, ou seja, que fez uma escola para tornar-se “mestre”, mas é um carismático e profeta, cujo modo de ensinar assemelha-se mais a João Batista e ao mestre fundador da comunidade de Qumrân e não ao grupo dos escribas dos judeus. Jesus é conhecido como Cristo (Christòs em grego é Messias Mashîah em hebraico ou Meshikha em a- ramáico). Jesus não atribuía para si este título, são os discípulos e multidão que o chamam de “Christòs” (Jo 1,41; 4,25; Mt 16,16; 22,42; 26,63; 27,42). Portanto, no contexto histórico Jesus é tido como Messias e até Pau- lo assim se refere ao falar dele (I Cor 15,3-5). Da mesma forma devemos considerar que a sua morte na cruz re- velou o caráter público, religioso e político que a sua vida assumiu aos olhos da autoridade Romana, e por

150

isso o seu título na cruz de “Rei dos Judeus”, evoca a ideologia do messianismo régio. O Salmo 17 evoca a vinda do Rei, Filho de Davi, para que “reine sobre Isra-

O messianismo

referia-se à restauração religiosa, social e política de Israel, cujo modelo era o reino davídico, se bem que ha- via também a idéia de um messianismo mais heterogê- neo como por exemplo entre os fariseus. Além da res- tauração nacional, o Messias tinha também papel reli- gioso de eliminar os pagãos e os ímpios e proporcionar a observância integral da lei e a pureza do culto. Já entre os saduceus a ideologia messiânica não gozava de mui- ta simpatia a insurreição. Podemos concluir que a tra- dição evangélica mergulha suas raízes no contexto his- tórico da atividade de Jesus, proclamador do Reino, condenado à morte como perigoso mestre e profeta que catalisava em torno de si a esperança messiânica. A tradição crista dá a Jesus também o título de Filho de Deus”. Paulo insiste na proclamação de Jesus como Filho de Deus (I Ts 1,10; Gl 1,16; 2,20; Rm 1,3-4). Como pode Jesus num contexto religioso de rígido monoteísmo ser chamado de Filho de Deus? Este título ocorre 12 vezes em Mateus, 06 em Marcos, 08 em Lu- cas, 04 em Atos dos Apóstolos e 10 em João. Jesus é chamado também com títulos correspondentes como Filho Amado” (Mt 3,17); “Filho bendito” (Mt 26,63; 27, 40-43); “Filho do Altíssimo” (Mc 3,11); “Filho único de Deus” (Jo 3,18; 10,36); “Filho” (Mt 21,37-38; Mc 13,32; Lc 10,22). Podemos, portanto concluir que a profissão de fé da comunidade é concorde em afirmar que Jesus é o “Filho de Deus”. No ambiente judaico do século I cha- mavam-se “filhos de Deus” os seres celestes, ou seja, os anjos (Gn 6,2) também o povo e a comunidade, objetos da eleição de Deus (Ex 4,22; Dt 14,1; Os 11), os reis (2 Sm 7,14; Sl 27). Em todos estes casos este título era

el”, “para abater os chefes injustos

”.

151

entendido em sentido metafórico para indicar uma rela- ção peculiar com Deus. Da mesma forma entre os rabi- nos, os mestres famosos, piedosos e carismáticos eram tidos como “filhos de Deus” (Livro dos jubileu 1,24-25). Jesus nunca se auto proclamou “Filho de Deuseram os outros que se dirigiam a Ele com este qualifica- tivo. Entretanto, os textos o definem assim em virtude da maneira coerente e relacional filial dele com Deus que o chama de “Aba” (Mc 14,36). Esta maneira de Je- sus se apresentar é carregada de um novo significado diferente daquele dos modelos bíblicos e do uso lingüis- tico do meio judaico de então, o que explica também o áspero conflito com os representantes das instituições judaicas que o condenaram à morte. Dentre os vários títulos evangélicos para designar a figura de Jesus o mais acentuado é “Filho do homem(Nios tou Antropou). Este título está presente nos evan- gelhos 82 vezes: 14 vezes em Marcos, 30 em Mateus, 25 em Lucas, 13 em João. Esta forma é posta na boca de Jesus, fora duas exceções (Lc 24,7 e Jo 12,34). Esta expressão nos evangelhos jamais é um título atribuído a Jesus, ou seja, não se encontra a expressão na boca de Jesus “Eu sou” o “Filho do homem”, ou na boca de ter- ceiros: “Tu és o filho de homem”. Geralmente esta ex- pressão está ligada a “Anuncios” ou instruções sobre a paixão dirigida aos discípulos (Mc 8,31; Mt 17,22; Lc 9,44; Mc 14,21; Lc 22,22; Mt 26,2-24). Para alguns es- tudiosos esta expressão deriva de um mal entendido surgido em virtude de uma tradução literalista da ex- pressão idiomática (bar (‘e) nash) que no aramáico da Galiléia significava simplesmente “Eu” ou “um homem como Eu” (Mt 5,11).

22. O PERFIL DE JESUS

152

Jesus era solteiro mesmo se para a sua cultura de então era algo impensável. Como pregador na Pales- tina proclamou-se Messias, o que para os judeus era blasfêmia. Fez 31 milagres dos quais 17 curas e 6 exor- cismos. Para os judeus a doença era devido ao pecado e

a cura era monopólio divino. No ano 30 entrou em Je-

rusalém num burrinho, cumprindo a profecia de Zaca- rias, foi saudado pelo povo e foi ao Templo. Caifás, su- mo sacerdote, ordenou sua prisão no Getsêmani, e ele diante do Sinédrio, e do Conselho dos Sacerdotes do Templo, reafirmou a sua missão divina. Foi condenado no pretório de Pilatos na presença de Caifás na sexta- feira (A Sexta-feira Santa surgiu no dia 07/04/30) e foi crucificado no Gólgota, com 36 anos. Qual deve ser o tipo de Cristologia no lugar soci- al da América Latina? Deve ser uma Cristologia que leve em conta o lugar social em favor dos oprimidos, dos subnutridos, dos desempregados, dos explorados,

dos doentes, dos sem escolas e moradia, etc. Em suma, deve ser uma Cristologia diante de uma situação de pe- cado social que exija uma mudança com a práxis de amor engajado. Desta forma, a posição de Jesus diante do “status quo” do seu tempo, adquire hoje relevância.

A cristologia neste sentido deve ser pensada e vivida de

maneira que signifique a libertação econômica e política dos oprimidos. As imagens de Cristo agonizantes e moribundos neste contexto opressor são “Cristos da impotência in- teriorizada dos oprimidos”(Assmann). Desta forma, a Cristologia da libertação deve privilegiar o Jesus histó- rico sobre o Cristo da fé, justamente porque o Jesus histórico viveu um programa libertador no meio dos conflitos. Este Jesus histórico exige uma transforma- ção, ou seja, uma conversão que se traduza na mani-

153

festação e na realização da utopia da libertação estru- tural e escatológica, que se traduza na presença do Reino no meio de nós (Lc 17,21). No primeiro aparecimento público de Jesus na Sinagoga de Nazaré Jesus proclamou a utopia do ano da graça (Lc 4,16-21) onde Deus através dele tomou partido dos que sofrem. Desta forma a práxis de Jesus é entendida como historificação daquilo que significa o Reino, onde os seus milagres são “Semeion”, sinais (Lc 1,20) do amor do Pai pelos marginalizados. Assim en- tendida, a práxis de Jesus não tem a estrutura da reli-

gião da época, mas é libertadora profética, onde os cri- térios para a salvação não estão na ortodoxia, mas na ortopraxis, baseados no amor. O Deus apresentado por Jesus é cheio de infinita bondade (Lc 6,35) não o Deus da Torá, e o acesso a Ele se faz através do pobre. Jesus baniu as estratificações sociais e religiosas (judeus estrangeiros, leis e ignorantes, puros e peca-

e declarou bem-aventurados os pobres estabe-

lecendo um novo tipo de sociedade na solidariedade, no perdão, na misericórdia e submetendo a lei ao serviço. Basicamente a conversão que Jesus ensina é de atitu- des práticas na produção de relações modificadas em nível pessoal e social, será por ela que o Reino torna-se presente; desta forma a boa nova de Jesus torna-se conflitiva e é boa só para quem se converte. Por causa de sua praxis Jesus morreu não com- pactuando-se com os poderosos, mas permanecendo fiel à sua missão; por apresentar um Deus diferente daquele do “status quo” religioso, desmascarando a hi- pocrisia, morreu acusado de subversor diante do Esta- do. Por fim, a sua ressurreição é a plenitude de todo processo libertador, onde ele continua entre os homens animando a luta libertadora e todo o que processa-se como libertação neste mundo. Com isso a nossa vida

dores

)

154

aqui está sob o signo da realização do Reino escatológi- co através do seguimento de Cristo que inclui o anún-

cio da utopia do Reino e a tradução desta utopia em

práticas libertadoras. Jesus Cristo é a resposta de Deus à condição humana. Mas por que o homem não é feliz? Por que

não consegue se relacionar? Por que para ter paz, pre- cisa da guerra? Dos mais de 3.400 anos de história da humanidade, mais de 3.170 foram de guerras e os res- tantes foram de preparação para ela, embora o homem tenha a ânsia pela felicidade e da paz. Jesus surge pre- gando esta utopia, “O reino chegou crede na boa-

(Mc 1,14; Mt 3,17; Lc 4,18s); sua atuação é de

libertação, conforme respondeu a João Batista (Mt 13,3-5). Ele inicia transformando a realidade não só combatendo o pecado, mas em tudo o que o pecado significa para o homem e na sociedade. Jesus anuncia um ano de graça o que para Ex 23,10-12; 21,22-6 sig- nifica um ano onde todos deviam sentir-se irmãos, on- de as dívidas seriam perdoadas, os escravos livres, as propriedades devolvidas. Este ideal nunca chegou por

causa do egoísmo e por isso, tornou-se uma promessa para os tempos messiânicos (Is 61,15). Jesus coloca-se como realizador desta utopia (Mt 8,16-17); Lc 7,11-17;

Mc 5,41-43).

O reino que Jesus anuncia não é a libertação des- se ou daquele mal, mas engloba todo homem e a socie- dade, não está ligado a um lugar, mas está dentro do homem (Lc 17,21) é preciso assumi-lo. Este Reino ex- pressa-se na intervenção de Deus iniciada, mas não acabada, por isso Jesus ensina a pedir o Reino (Lc 11,2), onde no futuro o tempo do mundo pecador aca- bará (Mt 19,28), os sofrimentos acabarão (Lc 20,36), os mortos ressuscitarão (Lc 11,5) e os últimos serão os

nova

155

primeiros (Mt 10,34). Mas a participação neste Reino exige a adesão a Jesus. Flávio Josefo narra nas suas “antigüidades judái- cas” que os judeus dos anos 100 aC a 10dC tinham a preocupação de “Libertar-se de toda sorte de dominação dos outros, a fim de que Deus somente fosse servido. Desde o exílio de 587 aC os judeus viveram pratica- mente sem liberdade, então a literatura apocalíptica surgem com o objetivo de inspirar-lhe confiança numa saída para o futuro com a entronização do absoluto se-

nhorio de Deus, tendo a restauração da soberania da- vídica. Daí o tema Reino de Deus ser central e ter uma conotação política onde o Messias devia vir para ins- taurar o Reino de Deus. Diante disso os fariseus pensa- ram que a observância minuciosa de leis apressaria a vinda do Reino. Já os essênios se refugiaram em Qun- rân para purificação e observância da lei e os zelotas pensavam que com a guerrilha e violência provocariam

a intervenção salvadora de Deus, por isso tinham o le-

ma: “Só Javé é Rei e só a Ele serviremos”. Em vista dis-

to contestavam tudo que vinha de Roma. Da mesma forma, os apocalípticos faziam cálculos de semanas e de anos para determinar o tempo dos acontecimentos salvadores. O messianismo e a apocalíptica eram os meios adequados para Jesus comunicar sua mensagem e re- velar que era o Filho de Deus, contudo Ele destacou-se das expectativas messiânicas do povo, não alimentou o nacionalismo judeu, não se rebelou contra os romanos

e não fez nenhuma alusão à restauração do rei Davídi-

co, embora o povo assim o fez na sua entrada em Jeru- salém (Mc 11,10) e na inscrição do Cruz INRI (Lc 15,26), assim como os próprios discípulos esperavam um Messias libertador (At 1,6; Lc 24,21). Neste ponto, Cristo decepciona a todos.

156

Cristo superou as tentações do messianismo polí- tico, pois seu Reino apresentou-se frágil e sem aparato, como um grão de mostarda (Mt 13,31s), ou como o fermento na massa (Mt 13, 22s).

1. Jesus Cristo o Libertador da condição humana

O tema da pregação de Cristo foi o Reino de Deus,

ou seja, de uma situação nova, de um mundo repleto de Deus; uma revolução global e estrutural da velha ordem promovida por Deus. Para participar desta nova realidade, a exigência é preciso aderir a ele ( Lc 12,8-9).

Ora, isto significava:

1ª Conversão com a mudança no modo de pensar

e agir, ou seja, uma revolução interior. Por isso quando iniciou sua pregação pede conversão (Mt 3,2; 4,17). Pede portanto um modo novo de existir, com a ruptura do passado (Lc 12,51-52), pede de ter a coragem de a- bandonar os bens (Mt 10,37) de arriscar a própria vida (Lc 17,33). Para esta nova situação todos são chama-

dos, mas muitos rejeitam (Lc 14,16-24), muitos não passam pela porta estreita (Lc 13,24), pois exige até o abandono dos mais próximos (Lc 9,59s). Esta deve ser uma decisão pensada como pensa um construtor de uma torre (Lc 14,28-32); exige tornar-se criança (Lc 18,17), ou seja, dependente, nascer de novo (Jo 3,3). Portanto, o ensinamento de Jesus produz uma revolu- ção no modo de pensar e de agir. 2ª Uma libertação da consciência oprimida, onde

a lei era absoluta, inclusive em alguns círculos teológi- cos afirmavam que Deus nos céus ocupava-se durante

o dia com horas de estudo da lei.

O judeu era oprimido pelo fardo da lei (Mt 23,4),

por isso Jesus modifica as prescrições da lei como a pena de morte para adúlteros (Jo 8,11) e os polígamos

(Mc 10,9). Rompe com a observância do sábado (Mc

157

2,27) e da pureza legal (Mc 7,15). Sua lei é o amor (Mt

5,44).

Cristo não é contra nada, mas a favor do amor, ele não é um anarquista, basta lembrar a sua posição contra o divórcio estipulado por Moisés (Dt 24,1) onde o marido podia divorciar-se por qualquer coisa não agra- dável na mulher; Jesus não permite isto (Mc 10,9). 3ª Procurando atitudes de um homem novo na vi- vência do amor radical expresso não só para aquele que mata, mas também para aquele que prejudica o irmão (Mt 5,22); para aquele que comete adultério no coração (Mt 5,28); na disposição de dar também o man- to (Mt 5,39-40). Tudo isso para Cristo não é uma nova lei, mas uma atitude de amor que supera a lei.

A pregação de Jesus com sua exigência de con-

versão não atinge só as pessoas, mas também as insti- tuições; basta lembrar os fariseus que observam toda lei ao pé da letra. Estes não eram maus, pois pagavam os impostos (Mt 23,23), procuravam adeptos (Mt 23,15)

não eram ladrões, adúlteros, injustos (Lc 18,11) jejua- vam e davam dízimo (Lc 18,12), entretanto não pratica- vam a justiça (Mt 23,23). Por isso Jesus vai com os marginalizados, conversa com as prostitutas (Mc 7,24- 30) come com um ladrão, Zaqueu (Mt 11,19), conversa com mulheres, relativiza as autoridades (Mt 20,25), justamente porque estes estavam mais abertos para ouvi-lo não tinham nada a perder, porque a mensagem dele não incomodava, como incomodava aos fariseus (Mt 5,43-48), os quais procuravam-lhe armadilhas (Mt 22,15-22) procuram matá-lo (Mc 3,6; Jo 5,18) e acu- sam-no (Mt 12,10).

É evidente que o mundo de então como se apre-

sentava, precisava da mudança através do amor, da vi- vência da fraternidade, onde as questões fundamentais

da vida nem a lei, nem as tradições, nem a religião

158

substituíssem o homem. Por isso mesmo o filósofo pa- gão Celso do sec. III via nos cristãos homens sem pátria e sem raízes que se colocavam contra as instituições divinas do Império e pelo modo que eles viviam levanta- vam, segundo este filósofo, um grito de revolta (Foné Stáseos), não porque eram contra os pagãos e idóla- tras, mas porque eram a favor do amor indiscriminado para com todos. Por isto os cristãos provocaram sem violência uma revolução social e cultural no Império Romano, formavam um “Tertium genus” um Terceiro gênero de homens diferentes dos romanos (1º gênero) e dos bárbaros (2º gênero).

2. Jesus de extraordinário bom senso, fantasia cria- dora e originalidade. A mensagem de Jesus é de radical libertação do homem e manifesta um extraordinário bom senso no- tado por todos, onde para cada situação tinha-se uma palavra exata, e sabia distinguir o essencial do secun- dário. Suas palavras atingiam o objetivo com determi- nação direta. “Amai vossos inimigos” (Mt 5,44); “Não julgueis”(Mt 5,34); “Não saiba a tua mão esquerda o que tua mão direita fez” (Mt 6,3).

Ele tem o estilo de um profeta, surge como profeta (Mc 8,25), mas apresenta-se como rabino, embora dife- rente destes, pois ele aceitava o que um rabino de então

Seus ou-

vintes entendem sua linguagem simples (Mt 5,14; 6,34; 6,26-27). Não fala coisas incompreensíveis, nem ensina uma nova moralidade, mas fala de coisas que os ho- mens já tinham, mas não compreendiam. De fato sua regra de ouro sobre a caridade: “Tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o vós a eles”, já era en- sinada séculos antes dele, tais como estas: “Trata os outros assim como queres ser tratado” (Sócrates 400

não aceitava (pecador, mulheres, crianças

).

159

aC); “O que não desejas para ti, não faças aos outros” (Confúcio 470 aC) ; “O que odeias não faças a nin- guém” (Mahabharata – 400 aC); “Guarda-te de jamais fazer a outrem, o que não quererias que te fosse feito” (Tb 4,15); “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” (Hillel). Portanto, Jesus não dizia coisas no- vas e surpreendentes, por isso com razão disse Santo Agostinho: “A substância daquilo que hoje a gente cha- ma de cristianismo já estava presente nos antigos, nem faltou desde o início do gênero humano até que Cristo viesse na carne”. Jesus manda amar os inimigos porque tanto ami- gos como inimigos são filhos do mesmo Pai que fez o sol nascer para todos (Mt 5,45). Manda fazer o bem para todos porque se fizermos o bem só por recompensa que mérito há nisso? (Lc 6,33). Proíbe a poligamia porque no inicio não foi assim (Mc 10,6). Coloca-se acima do sábado porque o homem é mais que um animal (Mt 12,11-12) Deve-se confiar em Deus porque sua Provi- dência é maior (Mt 10,31; Mt 7,11). Jesus diante do mundo é realista e tem uma ati- tude de compreensão e não de censura. Vê a natureza na sua realidade criacional falando do sol e da chuva (Mt 5,45); do vento (Lc 12,54-55); dos pássaros (Mt 6,26); dos lírios (Mt 6,30); da figueira (Mt 13,28); da co- lheita (Mc 4,3s); dos espinhos (Lc 12,16-21); da terra que produz (Lc 12,16-21); da ovelha perdida (Lc 15,1); do homem do campo (Mc 4,3s); dos trabalhadores de- sempregados (Mt 20,1s). Jesus era alguém de sentimentos profundos, rela- ciona-se com as pessoas abraçando as crianças (Mt 9,36) abençoando-as (Mc 10, 13-16); admira-se da fé de um pagão (Lc 7,9); da sabedoria de um escriba (Mc 6,6); comoveu-se (Lc 7,13); sentiu compaixão (Mc 6,34); sentiu a ingratidão (Lc 7,44-46); a tristeza (Mc 3,5); fi-

160

cou nervoso (Jo 2,15-17); desabafou (Mc 8,12; Jo 14,9); viveu a amizade com Lázaro (Jo 11,11-23); com Marta e Maria (Mt 21,17; Lc 11,38-42); com algumas

mulheres (Lc 8,3); foi ungido por uma mulher (Mc 14,3-

5); conversou com a samaritana (Jo 4,75)

nele existe tudo o que é autenticamente humano; sen- tiu fome (Mt 4,2); a sede (Jo 4,7); o cansaço (Jo 4,6); a vida insegura (Lc 9,58); chorou (Lc 19,41); sentiu triste- za e medo (Mt 26,37-38) Ele afirma-se dizendo: “Eu” e quando ensina diz;

Eu, porém vos digo” (Mt 5). O seu ensinamento não co- nhece medo, não discrimina ninguém, seja pecadores, paralíticos, doentes (Lc 10,29-37; 7,36-40; 6,24; 15,2; Mt 9,10-11; Lc 13,10-17; Mc 10,46-52). Conhece os pensamentos íntimos (Mc 2,8); sabe do pecado do paralítico (Mc 2,5); do estado da filha de Jairo (Mc 5,39); do homem possuído pelo demônio (Mc 1,23s). Jesus foi portanto original não porque disse coi- sas novas, mas porque tudo que disse é cristalino e de bom senso. Ele derrubou os muros da separação entre o sagrado e o profano, do legalismo, das convenções, dos sexos, do homem com Deus (Ef 3,14-18); nele “apa- receu a bondade e o amor humanitário de Deus” (Tt 3,4). Por isso o cristão não está mais sob a lei (Rm 6,15), mas “sob a lei de Cristo (I Cor 9,21) e é livre (I Cor 9,19). Ele desritualizou a piedade, desteolizou a re- ligião, secularizou os meios da salvação fazendo do ou- tro o elemento determinante para salvação (Mt 25,31- 46). Em suma, Cristo é em palavras de Dostoiewski es- ta profissão de fé: “Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito que Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir mais do que isso: se alguém me provar que o Cristo está

Portanto

161

fora da verdade e que esta não se acha nele, prefiro fica com Cristo a ficar com a verdade”. Diante deste perfil rico e poliédrico vem-nos a pergunta: É possível escrever uma vida completa sobre Jesus? Devemos concordar que sobre Jesus se escreveu mais do que sobre qualquer outro personagem histórico desde o seu nascimento. Esta é uma tarefa muito difícil; de fato não é fácil encontrar um biblista sério que pu- desse afirmar que sim. Existem muitos estudos basea- dos na Sagrada Escritura sobre Jesus e uma infinidade de livros; basta pensar que somente a biblioteca do Pon- tifício Instituto Bíblico de Roma, possui mais de um mi- lhão de obras sobre Jesus. Igualmente pode-se dizer do Instituto Bíblico de Jerusalém. Estudiosos vêm se dedicando há muito tempo pa- ra descrever Jesus, e sobre Ele encontramos inúmeras facetas, desde um revolucionário, até um guerrilheiro. Hoje com o progresso dos estudos e da arqueologia, fo- ram realizados grandes aprofundamentos sobre a Pales- tina no tempo de Jesus e com isto podemos conhecer melhor o tempo em que ele viveu, assim como seus há- bitos religiosos e rituais. Mas apesar de tudo isto esta é uma tarefa sempre muito desafiadora. Diante deste interesse por Jesus, será por isso que Ele não desapareceu da história como os demais profe- tas? Podemos afirmar que no tempo de Jesus muitos se apresentaram como profetas ou Messias e faziam tam- bém coisas portentosas, mas por que Jesus foi diferen- te? A resposta é porque Jesus é o Filho de Deus, seus discípulos quando compreenderam isto transmitiram a sua personalidade através das primeiras comunidades cristãs guiadas por eles, as quais viveram uma fé pro- funda na pessoa de Cristo apesar das contradições e as perseguições. Estas convicções sobre Jesus baseadas na

162

fé das primeiras comunidades cristãs foram-nos trans- mitidas ao longo dos séculos. Apesar de tudo podemos afirmar que Jesus era um judeu e que foi educado na cultura judaica. Foi um judeu inconformista e crítico que fazia milagres não para realizar prodígios, mas por compaixão e para mostrar sua divindade. Jesus queria uma mudança profunda na sociedade judaica e na religião hebraica; Ele queria Deus próximo dos pobres e dos marginalizados. Por tudo isso ele foi considerado um subversivo político e social.

3. Jesus enviado do Pai na concretização do seu Rei- no.

O ministério de Jesus converge para a proclamação do Reino de Deus. O centro de sua pregação é sempre o Reino "Completaram-se os tempos, esta próximo o Reino "

não se refere a nenhum território concreto, mas ao po- derio da ação divina no mundo para transformá-lo em justo, fraterno e sadio. É algo que vai acontecendo (Mc 9,12). Todos esperavam a vinda do Reino; os fariseus com a observância da lei, os essênios no retiro no deser- to, os zelotas pela revolução. Para os "pobres" o Reino indicava justiça (Is 11,3-5; 32, 1-3; Sl 72,4.12-14). Por isso, para Jesus o Reino é para os pobres (Lc 6,20), os pequenos (Mt 5,19), as crianças (Mc 10,14). Jesus não se limitou a anunciar o Reino, mas procurou agir para fazer acontecê-lo. Ele fez exorcismo, "sinal de que o Rei-

no chegou" (Mt 12,28). Ele promove a solidariedade, a- proximando-se dos marginalizados, defendendo-os. Condena os egoístas que não se solidarizam, chama de néscio o rico agricultor que deleita com a abundância de colheita (Lc 12,16-21), condena o rico epulão que não partilha (Lc 16,19-31), chama de malditos quem não compartilha as necessidades (Mt 25, 41-45 ), coloca em

de Deus

(Mc 1,15; Mt 4,17; 9,35). O Reino de Deus

163

luz a dificuldade do rico entrar no Reino dos céus (Lc

18,24).

Para poder entrar e viver neste Reino, precisa con- versão (Mc 1,15), voltar-se para o verdadeiro Deus. Exige um grande esforço pessoal, fazer violência (Mt 11,12), carregar a cruz (Mt 10,38), estar disposto a perder tudo

para conseguir a pedra preciosa (Mt 13,45-46), o Reino está na frente da própria família (Mt 10,37). Este Reino é para todos, entretanto, muitos estão atarefados e recu- sam o convite (Lc 14,16-24). Portanto, o Reino de Deus vai se realizando aos poucos, mediante a conversão, na medida em que as pessoas mudam radicalmente suas mentalidades, suas escalas de valores, sua estima pelo dinheiro, mas tudo isto Jesus apenas não preza para formar um grupo fechado, isolado nos próprios valores, pois os que vivem a dinâmica do Reino devem ser "Luz do mundo, sal da terra" (Mt 5,13-14), como fermento (Lc 13,21), onde toda a realidade deve ser transformada, como uma semente que vai crescendo aos poucos com vigor (Mc 4,30-35) que cresce junto com o joio (Mc

13,24-30).

Para Jesus o Reino é destinado aos pobres, sua

vinda põe fim aos privilégios (Lc 6,24-25) "Ai de vós

Reino não é resultado de aplicação e vivência ao pé da letra religiosa, nem o resultado de uma prática de culto, de piedade ou de sacrifícios. Não é o Reino do poder, pois ele mesmo recusou o poder terreno (Mt 4,8-10), e fugiu quando o povo queria aclamá-lo rei (Jo 6,15). Dis-

se que seu reino não é deste mundo (Jo 18,36), seu rei- no não se identifica com as estruturas do mundo, mas está dentro delas. Neste novo Reino o Deus de Jesus é conflitivo, pois para Jesus o Templo não é mais o lugar para encontrar Deus, pois ele encontra-se nos mais ca- rentes e necessitados. Deus não é um Deus dos obser- vantes, mas dos pecadores, por isso muitos verão em

”. O

164

Jesus um homem que engana o povo (Jo 7,12-13), um louco possuído pelo demônio (Jo 10,19-21), um sinal de contradição (Lc 2,34-35). Diante de Jesus precisa deci- dir-se, ele provoca divisão (Lc 12,51-53). Quem não está com ele, está contra ele (Mt 12,30). Para uns ele é pedra viva (1Pd 2,4), pedra angular (Ef 2,20), para outros pe- dra de escândalo (Rm 9,33). Por tudo isso, Jesus foi condenado como blasfemo porque apresentava um Deus diferente da religião ofici- al, um Deus não enclausurado no Templo, com leis mi- nuciosas, que contentava-se com sacrifícios de animais.

O Deus de Jesus é amigo dos pecadores (Lc 7,36-50),

não condena a adúltera (Jo 8,1-11), os publicanos e prostitutas são colocados na frente dos piedosos fari- seus (Mt 21,31), o samaritano mal visto é proposto como exemplo e não os sacerdotes e levitas (Lc 10,30-37). A

alegria dos anjos nos céus é por um pecador convertido (Lc 15,7), o publicano é bem-visto por Deus (Lc 18,10- 14). A esmola da viúva agrada mais que as grandes so- mas dos ricos (Lc 21,1-4). Jesus foi condenado como blasfemo (Mt 26, 65-66),

porque invés de dizer para olhar para o céu e descobrir a Deus, mostra-o no meio dos homens, na vida diária e profana. Foi condenado como rebelde político, porque sua concepção de Deus incluía o anúncio do Reino de Deus. Diante disto, constata opressores e oprimidos e

vê que esta não é a vontade de seu Deus. Denuncia que

há pobreza porque os ricos não compartilham, há igno- rância porque os levitas se apossaram da chave da ciên- cia, há opressão porque os fariseus impõem cargas pe- sadas e os governantes atuam despoticamente; Ele ataca esta hipocrisia. Jesus foi condenando porque estava so- lapando as bases da concepção política dos dominado- res.

165

O Deus de Jesus é diferente não no plano doutri-

nal, pois teoricamente os opositores a Jesus estavam de acordo com os predicados de Deus (Deus é bom, único, misericordioso), mas isso não significava estar de acordo sobre o conhecimento real de Deus. Portanto, a posição entre Jesus e seus adversários estava na ação.

Para Jesus todos tinham direito à vida plena e não apenas um grupo privilegiado. Durante a vida de Jesus, sobretudo na vida públi- ca, sua consciência de ter sido enviado do Pai foi contí- nua; "não vim por mim mesmo, mas aquele que me enviou é verdadeiro" (Jo 7,28).”Tu me enviaste ao mundo" (Jo 17,18), os discípulos o reconheceram a partir do mo- mento em que têm consciência que Jesus foi enviado. "Estes conheceram que Tu me enviaste" (Jo 17,25), pois foi "O Pai quem me enviou” (Jo 5,23-24.30; 6, 38-39). Je- sus é o canal para Deus comunicar-se, ele transmite a vontade do Pai (1Jo 17,8; 15,15 ). É aquele que ordena o que falar (Jo 12,49-50). Ele fez a vontade do Pai (Jo 5,30). Sua palavra tem autoridade porque procede do

Pai, ele é o missionário da transparência do Pai. Como enviado do Pai, Jesus foi conhecendo cada vez mais o seu Pai: "Assim como o Pai me conhece, eu conheço o Pai" (Jo 10,15). “O Filho faz o que vê fazer o Pai; e tudo o que o Pai faz, fá-lo também semelhantemen- te o Filho. Pois o Pai ama o Filho e mostra-lhe tudo o que faz; e maiores obras do que esta lhe mostrará, para que fiqueis admirados.” (Jo 5,19-20). Por isso, Jesus tem uma nova experiência de Deus, tudo na vida de Jesus

(pensamentos, atos dade Deus.

O Deus de Jesus não é aquele dos adoradores ofici-

ais, submetido aos rituais, mas um Deus próximo e fa- miliar, ao qual se recorre com a confiança de uma crian- ça, é o Deus que procura o pecador, que vai atrás da o-

encontra-se animado pela reali-

)

166

velha perdida, que se alegra com a conversão. Por isso, ele tem uma atitude filial perante Deus. Ele o descreve como seu Pai e deve-lhe afeto e obediência e tem consci- ência que o Pai deu-lhe uma missão para cumprir. Pela primeira vez encontra-se uma invocação ao Pai feita por uma pessoa concreta no ambiente Palestino (A invocação de Pai, no Antigo Testamento, referia-se sem- pre a paternidade divina sobre todo povo de Israel Jr 31,9; Is 63, 16). Jesus chama a Deus de ABA (Paizinho), um diminutivo carinhoso pertencente à linguagem in- fantil, doméstica. Os evangelhos põem 170 vezes esta expressão nos lábios de Jesus e embora a palavra Abá em Aramáico aparece uma vez em Marcos (14,36), os estudiosos afirmam que sempre que os evangelistas u- sam a palavra grega "Pater" estão traduzindo a palavra aramaica Abá. Esta expressão revela a profundidade de relação com Deus. Este relacionamento íntimo com o Pai, traduzia-se em gestos concretos de alegria e confiança: "Oh Pai eu te dou graças porque me ouvistes, eu sei que sempre me ouves" (Jo 11,41-42). Digno de menção é a confiança de Jesus expressa na oração sacerdotal (Jo 17). Ele mani- festou também a confiança em Deus, durante a sua a- gonia no horto das Oliveira. “Faça-se a tua vontade" (Mc 14,36). A comunhão de Jesus com o Pai expressa a ima- gem da bondade do Pai, embora “A Deus ninguém viu" (Jo 1,18), em Jesus Deus se fez visível, pois "Ele é a i- magem do Deus invisível" (Cl 1,15). "Quem o vê, vê o Pai" (Jo 14,9). “Ele é o único caminho para chegar ao conhe- cimento de Deus, "se me conhecêsseis, conheceríeis tam- bém o Pai" (Jo 14,6-7). Experimentar Jesus é experi- mentar Deus, ele é o sacramento do encontro com Deus, o único mediador "um é o mediador entre Deus e os ho- mens: Jesus Cristo" (1Tm 2,5). Em Jesus é-nos comuni-

167