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A Cruz do Pedro: memórias sobre o menino que virou festa.

Sandra R. Molina*

Resumo:

Este trabalho pretende descrever os esforços na reconstrução da vida do menino Pedro, em meio ao
município de Ribeirão Preto grande produtor de café em fins do século XIX e início do século XX.
Tratava-se de um filho de escravos, liberto pela lei de 1871, e assassinado por volta de 1885. As
histórias de pequenos milagres transformaram uma cruz, presente no local de sua morte, em uma
capela que há cerca de cem anos congrega fiéis de várias cidades da região. A “descoberta” da Festa
da Cruz do Pedro é fruto de uma pesquisa iniciada em 2010 no município de Ribeirão Preto, pela Rede
de Cooperação Identidades Culturais. Esta se caracteriza como um grupo de pesquisadores oriundos de
várias instituições de ensino superior públicas e privadas e do poder público municipal (Prefeitura
Municipal de Ribeirão Preto) e federal (IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional). A Rede foi oficializada com a assinatura de um termo de cooperação técnica, cuja
finalidade é inventariar as referências culturais de Ribeirão Preto, relativas à cultura do café, entre
1870 e 1950.

Palavras-Chave: Café, Festa da Cruz do Pedro, Ribeirão Preto [SP].

Abstract:
This paper aims to describe efforts in rebuilding the lives of the boy Peter, amid the city of Ribeirão
Preto major producer of coffee in the late nineteenth and early twentieth century. It was a son of
slaves, freed by the law of 1871, and killed around 1885. The stories of small miracles became a cross,
in this place of his death, in a chapel that about one hundred years gathers the faithful of various cities.
The "discovery" of the Feast of the Cross of Peter is the result of a research started in 2010 in Ribeirão
Preto,by the Network of Cooperation Cultural Identities, which is characterized as a group of
researchers from several institutions of public higher education and private and municipal government
(City of Ribeirão Preto) and federal (IPHAN - Institute for National Artistic and Historical Heritage).
The Network was formalized with the signing of a technical cooperation agreement whose purpose is
to identify the cultural references of Ribeirao Preto, on the coffee culture, between 1870 and 1950.

Keywords: Coffee, Feast of the Cross Peter, Ribeirao Preto [SP].

*Doutora em História, Docente da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), da


Universidade de Franca (Unifran) e pesquisadora da Rede de Cooperação Identidades
Culturais. sandmol@terra.com.br.

Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.


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Introdução

Em janeiro de 2009 foi elaborado o Projeto Rede de Cooperação Identidades Culturais


que integra o Programa Café com Açúcar desenvolvido pela Secretaria da Cultura de
Ribeirão Preto. Seu objetivo é a proteção do patrimônio cultural material e imaterial do
município atrelado à história do café e à transição para a produção da cana-de-açúcar.
Integrando o projeto mais amplo está o inventário de referências culturais (INRC) orientado
pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A fim de viabilizar o
mencionado objetivo foi criada a Rede de Cooperação Identidades Culturais composta por
um colegiado de pesquisadores ligados à entidades de Ensino Superior, técnicos do poder
público municipal (Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto) e federal (Iphan) e de outras
instituições e órgãos afins.
Integra esta Rede de Cooperação, o Grupo 3, que tem como foco o levantamento do
patrimônio imaterial de Ribeirão Preto e suas principais referências culturais.1 Resultado deste
processo de pesquisa, foi detectada, durante o ano de 2011, a existência de uma celebração
anual ocorrida no dia 29 de junho e que persiste há cerca de 100 anos: a Festa da Cruz do
Pedro.
Embora ocorra nos limites de Ribeirão Preto, observou-se que seus frequentadores
vinham de municípios vizinhos à cidade ou de localidades mais distantes. A inexistência do
sentimento de pertença dos ribeirão-pretanos associada ao desconhecimento de sua origem; a
morte do menino Pedro, motivou o esforço em buscar as memórias sobre a referida festa.
A ideia era a produção de um texto que pontuasse a vida e o processo de assassinato
desta criança.2 Entretanto, progressivamente a história do menino que fazia as vezes de
candeeiro para o carro de boi foi ficando mais complexa. Até o estágio de pesquisa em que se
acha o referido grupo, não foi possível encontrar documentação que permitisse pontuar
diretamente a vida desta criança.
Por essa razão, optou-se por rastrear o relato dos memorialistas acerca do episódio que
originou a Festa da Cruz do Pedro. Como complemento deste exercício foram utilizados os

1
Este grupo é coordenado pela Dra. Lilian Rodrigues de Oliveira Rosa e composto pelos seguintes
pesquisadores Esp. Aurélio Manoel Corrêa Guazzelli, Ms. Delson Ferreira, Dr. Marcos Câmara de Castro e a
Esp. Mônica Jaqueline de Oliveira, coautores deste trabalho.
2
Importa agradecer o comprometimento dos funcionários do Arquivo Municipal de Ribeirão Preto que não
mediram esforços em auxiliar na busca de fontes e referências que permitissem compor o contexto do século
XIX.

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dados tangenciais sobre o contexto de época, as fazendas e os senhores das terras. Contudo
muito ainda precisa ser buscado. Assim, este texto não propõe a “verdade” sobre o menino
Pedro. Ele, de fato, pretende compartilhar a surpresa de um grupo de pesquisadores ao se
deparar com um fenômeno antropológico, sociológico e histórico, de pelo menos 100 anos e,
relativamente pouco conhecido dos moradores da cidade de Ribeirão Preto.

Olhares sobre a morte do menino Pedro


Em 29 de junho de 1885 o menino Pedro começou seu dia na Fazenda Santana.3
Tratava-se de mais uma fazenda de café, localizada na vila de Bonfim Paulista, que por sua
vez, estava atrelada à cidade de Ribeirão Preto. Seu proprietário era o Coronel Domingos
Villela de Andrade também conhecido como Coronel Mingote.
Infelizmente não foi possível rastrear uma descrição contemporânea a 1885 para a
Fazenda Santana. Contudo, em 1911, ela possuía trezentos mil pés de café com uma produção
de seiscentas arrobas diárias e uma média anual de trinta mil arrobas de café.4 Estava ligada à
Estrada de Ferro Mogyana, estação Santa Theresa distando apenas meia hora da propriedade,
que através dela exportava todos os seus cafés.5 Contava com três colônias, 40 casas de
moradas para os trabalhadores, na maioria, italianos (BOTELHO, 1911: 90).

3
Segundo ERBETTA, Adalberto Antonio. Folheto Festa da Cruz do Pedro. Datado de 1989. CX12, PASTA:
11, Nº: 231, a data morte de Pedro foi 29 de junho. Por outro lado, PRATES, Prisco da Cruz. Ribeirão Preto de
Outrora. 3ª Edição, Ribeirão Preto: Gráfica Bandeirante, 1971, CX: 30, Pasta: 63, Nº 419 data o assassinato em
1885. Entretanto, um artigo de 1966, de autoria do memorialista e ex-chefe de estação da antiga ferroviária
Mogiana, em Jaguariúna Manoel Rodrigues Seixas, denominado “A Capela do Pedro (Continuação)”, disponível
em http://www.gazetaregional.com.br/index.php/primeiro-caderno/artigos. Acesso em 25 de abril de 2012, une o
29 de junho ao ano de 1885.
4
Em 1911, o proprietário da fazenda era Coronel Antonio Vicente de Ferraz Sampaio.
5
Sobre o nome da Estação Santa Theresa paira uma pequena dúvida. Segundo o autor do site Estações
Ferroviárias do Brasil, Ralph Mennucci Giesbrecht, “A estação de Domingos Villela foi inaugurada em 1913. O
seu nome homenageava Domingos Villela de Andrade, também conhecido como Coronel Mingote.
Provavelmente as terras onde foi construída a estação pertenciam a ele. Junto a esta estação, conta-se que
existia um negociante, dono de um armazém muito grande de "secos e molhados", e que abastecia todas as
colônias das fazendas em volta. Antes de chegar na estação seguinte, o trem passava pela ponte do rio da Onça,
onde fazia uma parada para tomar água na caixa d'água que existia ali. Se existisse algum passageiro por ali,
ele subia. Dali o trem subia até chegar a Silveira do Val, de onde descia para Ribeirão Preto. Foi fechada e
transformada em parada, em julho de 1969 (*RM-1969). No ano anterior (1968), segundo um relatório da
Mogiana, a população do vilarejo (que em 2002 não existia mais) era de "6 ferroviários e 20 particulares". Em
meados dos anos 1970, quando ruiu uma ponte entre esta estação e Monteiros, o trem passou a seguir somente
até ela, voltando a seguir; isto ocorria porque junto a Domingos Villela ainda existia um eucaliptal, do qual se
cortavam toras que eram transportadas pelo ramal até Ribeirão Preto. Hoje, somente existe o canavial da
Fazenda São Martinho em volta. Até o eucaliptal já desapareceu. Não sobrou nada, nem o armazém de secos e
molhados.” Disponível em: http://www.estacoesferroviarias.com.br/d/domvilella.htm. Acesso em 25 de abril de
2012.

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Em junho de 1885, o Coronel Mingote havia construído uma rotina para seus escravos
e colonos.6 Segundo a descrição do periódico Brazil Magazine publicado em 1911, por volta
das cinco da manhã o sino disciplinar badalava despertando os cativos e autorizando a
abertura das portas das senzalas onde dormiam trancados. Reunidos no terreiro, se
organizavam em fileiras respondendo à chamada matinal. Após a oração matutina, seguida da
distribuição do café, começavam o trabalho dos terreiros, partindo para a lavoura ao clarear
do dia. Eram acompanhados de um escravo alçado à função de feitor, em geral de “postura
exigente e autoritária” em função da confiança que lhe era depositada pelo senhor
(BOTELHO, 1911: 92-93).
Pela tarde, quando já escurecia, a longa fila de escravos voltava à propriedade a fim de
completar os serviços referentes aos paióis, tulhas e terreiros. Finda esta etapa, eram reunidos
para nova chamada e oração, após o que, recebiam o café e gozavam de uma hora de
liberdade até às nove da noite, quando a marcação do sino determinava o toque de recolher.
Pedro possuía então cerca de 9 anos, era filho dos escravos João e Constância, também
conhecida como Tia Tana, e possuía a incumbência de servir como candeeiro ao também
cativo Teodoro, condutor do carro de boi. Segundo Prates, “este era escravo mais crápula e
ordinário” da fazenda (PRATES, 1971: 245).
Naquele dia, o carreiro foi incumbido de levar umas cargas à fazenda Boa Vista,
distante uns 15 km, e de propriedade do Coronel Joaquim da Cunha Diniz Junqueira,
conhecido por Quinzinho da Cunha.
Uma descrição de como era a Fazenda Boa Vista à época do crime não foi localizada,
contudo uma narração de 1911 da Brazil Magazine e a publicação Impressões do Brazil no
Século XX de 1913 permite que se imagine o quadro para o século XIX. Segundo tais fontes,
esta fazenda se distanciava de Ribeirão Preto em cerca de 18 km e possuía uma área de 2.600
alqueires que incluíam cafezais, invernadas e pastos. Seus 800.000 pés de café produziam,
entre 1905 a 1911, a media anual de 80.000 a cem mil arrobas.7
A fazenda possuía um terreiro ladrilhado, de 20.000 metros quadrados e máquinas
para o beneficiamento do café (Impressões do Brasil, 1913: 351). Quando da publicação da

6
De acordo com PRATES, Prisco da Cruz. Relembrando o Passado. 2ª Edição, Ribeirão Preto: Gráfica União,
1979, p.173, as propriedades do Coronel Mingote “eram cuidadas exclusivamente pelos escravos, fazendo cada
um a sua tarefa, sem ser preciso a presença de feitores, que nunca era necessário naquelas fazendas.” Martinho
Botelho possui outra versão para a presença do feitor.
7
Estas informações podem ser rastreadas na Brazil Magazine. Revista Periódica e Illustrada d’Arte e
Actualidades. Publicação de Propaganda Brazileira no Estrangeiro, Ano V, Número 57, Rio de Janeiro. Arquivo
Municipal de Ribeirão Preto, p. 74 e Impressões do Brazil no Século Vinte. Sua Historia, seo povo,
Commercio, Industrias e Recursos. Inglaterra: LLoyd’s Greater Britain Publishing Company Ltd., 1913, p.
351.

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Brazil Magazine, alguns anos após a Abolição da Escravidão em 1888, a fazenda possuía
1.000 trabalhadores residentes em quatro colônias além dos 100 avulsos que cuidavam das
máquinas, do transporte, dos terreiros e da criação.
Em 1885, obedecendo às ordens do administrador da fazenda, o “escravo Teodoro
atrelou os bois ao carro e em companhia do pequeno Pedro, dirigiu-se à propriedade, onde
teria de passar por uma densa e sombria mata”, popularmente conhecida como a Mata do
Quinzinho (PRATES, 1971: 245).
Uma vez finalizada a tarefa, ambos regressavam para casa tendo o menino à frente
iluminando o caminho. Passado algum tempo, Teodoro pediu o “picuá de comida”, deixado
sob a guarda de Pedro. Constatada a sua ausência, o carreiro se encheu de fúria estrangulando
o menino e pendurando-o em uma árvore, simulando um suicídio (ERBETTA, 1989: 1).
Voltando à Fazenda Santana, Teodoro contou a todos, que o menino havia se
suicidado. Não acreditando na versão do carreiro, a escrava Constância “chorou copiosamente
a morte do seu querido filho”.8
Passados alguns instantes de desespero, diante de todos os outros presentes,
provavelmente escravos que ao final da tarde voltavam da lida, e do próprio assassino,
“ajoelhou-se no terreiro da fazenda”, levantou as mão para o céu e fez a seguinte suplica:

“que o seu infortunado filho tivesse sido morto pela justiça divina, ela o perdoaria,
porém se ao contrário, a sua morte fosse por assassínio, o malvado do criminoso
haveria de ficar com as mãos secas e encarangadas e também por castigo, até o
alimento do matador do seu filho seria pelas mãos dos outros.” (PRATES, 1971:
246)

Acorreram todos até a árvore onde estava o corpo de Pedro e ali fincaram uma cruz, a
Cruz do Pedro.
Algum tempo depois, a resposta do clamor aos céus, realizado pela escrava sofredora,
logo se fez presente e as mãos de Teodoro principiaram a secar:
“o miserável homem em pouco tempo ficara com as mesmas inertes e incapazes de
executar qualquer movimento, ficando porisso inativas para quaisquer efeitos, e o
assassino como o mais desditoso dos párias, saía a mendigar de porta em porta a
sua alimentação e quem lhe fizesse a caridade, teria também de fazer-lhe a esmola
de colocar a comida em sua boca.” (PRATES, 1971: 247)

Nesta sina, Teodoro teria vegetado por muitos anos, amargando os efeitos de seu
crime. Por outro lado, os pais do menino Pedro teriam permanecido junto aos seus senhores
8
PRATES, Prisco da Cruz. Op.Cit., p.246. Cione menciona a presença de um fiel cachorrinho de Pedro que teria
conduzido a mãe desesperada até o corpo do filho. CIONE, Rubem. História de Ribeirão Preto. 5 volumes. Vol.
III, Segunda Edição, IMAG – Gráfica e Editora: Ribeirão Preto, 1989, p. 424 e 425.

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mesmo após a extinção da escravatura acompanhando-os até a cidade, onde moraram na Rua
Américo Brasiliense, até a sua morte (PRATES, 1971: 247).
Quanto ao Coronel Mingote, por volta dos anos de 1890, retirou-se da cidade de
Ribeirão Preto e seguindo os trilhos do trem chegou à região de Sacramento, onde fundou a
cidade de Conquista.9
Segundo Erbetta (1989: 2), passado algum tempo, as visitas se multiplicaram ao local
onde foi instalada a Cruz do Pedro.
“As graças alcançadas ali, passavam a fazer parte daqueles que buscavam o alívio
que a fé indiscutivelmente traz. No lugar da cruz foi erguida a capela. Avolumou-se
de tal modo, que no início do século XX, o dia 29 de junho passava a ser festivo
para dois Pedros; - o apóstolo de Cristo e o filho de Constância.”

Em nenhuma das fontes compulsadas foi possível determinar o ano inicial da festa,
mas já em 1938, da madrugada do dia 28 para 29 de junho, o senhor Antonio Rodrigues
Nunes organizava o terço e a procissão do menino candeeiro transformado no mártir da
Fazenda Boa Vista (CIONE, 1989: 424 - 425).
Todos os personagens deste drama viveram em uma Ribeirão Preto de grande
importância no contexto do Brasil Império, mas muito diferente da cidade dita capital do
agronegócio que inaugura todos os dias novos arranha-céu.10
Segundo Cione (1989: 47), desde o final do século XVIII, especialmente entre 1790 e
1856, antigos moradores de Minas Gerais, Rio de Janeiro e outras regiões da Província de São
Paulo foram aportando na localidade que hoje entendemos ser Ribeirão Preto. Entretanto o
ponto culminante da formação da cidade ocorreu entre os anos de 1790 e 1856, especialmente
com a expansão do café.11

9
Segundo o site oficial da cidade de Conquista (MG), ela teria sido fundada por Domingos Vilela de Andrade,
em 30 de agosto de 1911 e descreve da seguinte forma uma das versões para a origem do nome dado “por
Domingos Vilela de Andrade, coronel, fazendeiro, latifundiário, nascido em Monte Alegre, (MG). Procedente de
Ribeirão Preto, (SP), onde era grande produtor de café, Vilela adquiriu uma gleba de terras na margem direita
do Rio Grande, onde construiu a sede da fazenda denominada, segundo alguns, de Fazenda Conquista.”
Disponível em: http://www.conquista.mg.gov.br/cidade/fundacao. Acesso em 22 de abril de 2012. Entretanto a
inventário do Coronel Mingote pode ser consultado no Arquivo Público e Histórico da Cidade de Ribeirão Preto.
10
“O café, assim como todo produto primário direcionado ao mercado externo, estava sujeito às oscilações de
demanda e variações de preço (...) e pode ser dividido em três períodos. O primeiro foi longo, marcado pela não
intervenção governamental. Foi do início da cultura no Brasil até o início do século XX, quando dois fatos
marcaram seu fim: em 1902, a proibição de novas plantações no Estado de São Paulo por um prazo de cinco
anos e o Convênio de Taubaté em 1906. O segundo período teve início em 1906 e foi até 1924, sendo
caracterizado pela intervenção esporádica do governo. Nesse período foram três as operações de valorização. A
primeira em 1906, a segunda em 1917 e a terceira e última em 1921. A terceira fase teve início em 1924 e
acabou em 1929, sendo marcada pela intervenção constante do governo.” LOPES, Luciana Suarez. Ribeirão
Preto: a dinâmica da economia cafeeira de 1870 a 1930. Col. Nossa História, Ribeirão Preto: Fundação
Instituto do Livro, 2011, p. 13 e 14.
11
Carlo Monti descreve o movimento para a formação da cidade da seguinte maneira: “Entre 1845 e 1856 foram
realizadas inúmeras tentativas de doação de terras para a formação do patrimônio de São Sebastião, porém,

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Segundo João Emboaba da Costa, o “prolongamento da Estrada de Ferro Mogiana”


que até então finalizava em Casa Branca, “abriu à exploração a extraordinária gleba de terra
roxa, onde se abrem as grandes fazendas de café: Dumont, São Martinho, Guatapará, Monte
Alegre.” (COSTA, 1956: 34).
Na década de 1870, Ribeirão Preto já se firmava uma respeitável produtora de café.12
De acordo com Botelho (1911: 18), em 1877 já se calculava que
“dos dusentos e setenta mil alqueires das excellentes terras que constituíam o
Município do Ribeirão-Preto, pelo menos cincoenta mil poderiam pelas condições
topográficas de altitude, serem considerados inigualáveis para o café e se
estenderiam facilmente oitenta milhões de cafeeiros produzindo uma media de seis
milhões de arrobas de café, o que seria naquella epoca de um terco superior a
producçao da antiga província de São Paulo metade da producçao de todo o Estado
e por conseguinte a terça parte da producçao mundial!”

Se nesta época o café era a grande fortuna da economia brasileira, para Ribeirão Preto
não foi diferente e impactou no aumento populacional. De acordo com Lopes (apud Adriana
Capretz, 2008), o Censo de 1872, evidencia que a população da cidade totalizava 5.552
habitantes.
“Destes, 15% eram escravos. A população livre masculina – 52% do total – era
formada por 27,3% de homens casados, 71,6% de solteiros e 1,1% de viúvos. Para
a população livre feminina as porcentagens são, respectivamente, 29,1%, 66% e
4,9%.”

Plínio Travassos dos Santos (1939/1948: 87), tendo como fonte o Almanach da
Província de São Paulo de 1888, delimitava para alguns anos depois a população de escravos
de Ribeirão Preto:
“População escrava: total 1379. Masculinos 784. Femininos 595. Menores de 30
anos 595. Maiores de 30 a 40 anos 432. Maiores de 50 a 55 anos 71. Maiores de 55
a 60 anos 40. Filhos livres de mulher escrava em Ribeirão Preto até 30 de junho de
1886: Total 505. Masculinos 236. Femininos 269. Libertos arrolados em Ribeirão
Preto de conformidade com o Regulamento 9517 de 14 de novembro de 1885: total
12. Masculinos 9. Femininos 3. De 60 anos 10. De 64 anos 1. De 63 anos 1.”

Entre os 505 “filhos livres de mulher escrava” estava Pedro. Em 1885 ele contaria 9
anos (PRATES, 1971: 245). Provavelmente nascido em 1876, foi contemplado pela Lei nº
2.040, de 28 de setembro de 1871 que estabelecia em seu artigo primeiro que os filhos de

todas foram recusadas pela Igreja, algumas por não atenderem as exigências mínimas de valor para a doação
de terras, outras pelo fato de estarem sendo disputadas judicialmente. Em 1856, doações de terras provenientes
da fazenda Barra do Retiro somadas às doações anteriores feitas pela fazenda Retiro foram aceitas pela Igreja.
Os doadores foram: João Alves da Silva Primo, Mariano Pedroso de Almeida, José Alves da Silva, José Borges
da Costa, Inácio Bruno da Costa e Severiano João da Silva. Estas terras dariam origem em 19 de junho de 1856
ao patrimônio de São Sebastião, onde foi erigida uma capela provisória.” MONTI, Carlo Guimarães e FARIA,
Antonio Carlos Soares. “Ação e Resistência dos Cativos em Ribeirão Preto (1850-1888)”, in: DIALOGUS,
Ribeirão Preto, v.6, n.1, 2010.
12
Uma Lei de nº 34 de 12 de abril de 1871 criou o município de Ribeirão Preto. CIONE, Rubem. Op. Cit., p. 49.

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escravas que nascessem no Brasil a partir daquela data seriam considerados de condição
livre.13
Entretanto deveriam ficar junto dos proprietários de suas mães que teriam por
obrigação criá-los até os oito anos de idade. Após esta idade o senhor poderia escolher entre
receber uma indenização no valor de 600 mil réis ou manter o menor trabalhando junto aos
outros escravos até a idade de 21 anos.14
Provavelmente o Coronel Mingote optou pela segunda possibilidade uma vez que aos
nove anos Pedro morava junto aos seus pais e trabalhava como candeeiro na Fazenda
Santana.15
Tal decisão fazia todo o sentido no contexto em que se achava a cidade de Ribeirão
Preto. Desde 1850 com a Lei nº 581, de 4 de setembro, que havia extinguido o tráfico
transatlântico, a manutenção de um plantel de escravos suficiente à cultura do café tornara-se
um desafio.16
Resultado da suspensão do tráfico intercontinental, muitas regiões procuraram manter
sua mão de obra para a agricultura de duas formas, a primeira por meio do tráfico
interprovincial e a segunda através das primeiras experiências com a imigração.17
Renato Leite Marcondes (2011: 411) afirma que entre 1874 e 1883, a população cativa
do município passou de 857 para 1386 escravos. Este crescimento teria sido um dos maiores
da Província de São Paulo para o período.
“No segundo lustro da década de 1880, o plantio acelerou-se, atingindo volumes
mais expressivos e ganhando escala extraordinária, favorecido pelo ingresso
crescente de imigrantes estrangeiros. Os estrangeiros perfizeram 7,3% da

13
Esta lei ficou conhecida como Lei Rio Branco. Coleção de Leis do Império do Brasil – Atos do Poder
Legislativo. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LIM/LIM2040-1871.htm. Acesso em 28
de abril de 2012.
14
“Se o senhor optasse por receber a indenização pecuniária, o menor deveria ser entregue ao Estado, que lhe
daria o ‘destino’ conveniente, remetendo-o a ‘estabelecimentos públicos’. Nesse caso, o senhor receberia títulos
de renda emitidos pelo governo, no valor de 600 mil réis sobre o quais seriam pagos juros de 6% anuais.”
MENDONÇA, Joseli M. N.. Entre a mão e os anéis: a lei dos Sexagenários e os caminhos da abolição no
Brasil. Campinas: Ed. Unicamp/Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, 1999, p. 98.
15
Não se detectou, junto à documentação, qualquer movimentação do Coronel Mingote no sentido de solicitar a
indenização estatal de Pedro, como possibilitava a Lei.
16
Esta lei ficou conhecida como Eusébio de Queiróz. Coleção de Leis do Império do Brasil – Atos do Poder
Legislativo. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LIM/LIM2040-1871.htm. Acesso em 28
de abril de 2012.
17
Robert Slenes apud MOTA, José Flavio, analisa da seguinte forma o Tráfico Interprovincial: “(...) o tráfico
interno brasileiro desenvolveu-se em um contexto de crescente mobilização nacional e internacional contra a
escravidão. Isto (...) tornou o comércio de seres humanos o foco da disputa “política” sobre o futuro do
trabalho compulsório, envolvendo senhores, escravos e outros grupos sociais interessados; de fato, poder-se-ia
sugerir que o colapso do mercado de escravos em 1881-83, refletindo uma dramática mudança nas percepções
sobre o futuro desses “ativos”, foi um divisor de águas, do ponto de vista histórico, de maior significância do
que os marcos legais anunciadores da emancipação parcial em 1871 e 1885 (...) e a abolição plena em 1888.”
“Derradeiras Transações. O comércio de escravos nos anos de 1880 (Areias, Piracicaba e Casa Branca, Província
de São Paulo)”. In: Almanack Braziliense. São Paulo, n°10, p. 147-163, nov. 2009, p. 148.

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população em 1886 e cresceram para 10,7% em 1890, ainda inferior à proporção


de Campinas. Deste modo, a colheita da preciosa rubiácea em Ribeirão Preto
cresceu expressivamente ao final do século XIX.”

À época, manter um escravo em sua lavoura era negócio de extrema importância.


Talvez por esta razão Teodoro tenha ficado na Fazenda Santana até o final de seus dias.18
Afinal tratava-se de um escravo carreiro e, portanto especializado, o que ampliava
sobremaneira seu preço em um contexto tão adverso para os braços na lavoura.
Na Fazenda Boa Vista, onde o drama se desenrolou, vivia Joaquim Diniz Junqueira, o
Coronel Quinzinho da Cunha.19 Quando Pedro morreu, Quinzinho provavelmente contava
com mais de vinte anos.
Segundo Plínio Travassos dos Santos, já no Brasil República, consta na ata da Câmara
Municipal de 26 de dezembro de 1901 a vitória do partido “chefiado pelo Coronel Joaquim da
Cunha Diniz Junqueira, que, desde então, até sua morte em 1932, foi o grande chefe do
Partido Republicano Paulista em Ribeirão Preto” (SANTOS, 1939/1948: 97).
Martinho Botelho (1911: 80), em 1911, o descrevia enfatizando “que era um dos
agricultores mais estimados e populares de todo o município”. Acrescentava que sua
“influência política era indiscutível em todo o distrito”.
De fato, tratava-se de um chefe político, um coronel cuja influência extrapolava o
cotidiano político, econômico e social do importante município cafeicultor. Josué Peroni
Cuello explicita que o poder político exercido por ele alcançava, por exemplo, Altino Arantes
e Washington Luís20, que à época eram conhecidos como gente “do coronel ribeirão-pretano”
(CUELLO, 2005).
Mattioli (2011: 8-9) explicita um pouco mais sua forma de fazer política mencionando
que Quinzinho inovava na maneira de construir suas relações:
“realizando uniões de suas filhas não com parentes, mas com políticos com
potencial que seriam seus agentes dentro da maquina política, sua lealdade era

18
Durante o processo de pesquisa, não foi possível rastrear o processo crime, como seria de se esperar em uma
situação como a descrita para a década de 1880. Outros pesquisadores posteriormente poderão descobri-lo.
Contudo, por enquanto, a ausência do mesmo se encaixa no processo de construção do mito.
19
Para MATTOS, José Américo Junqueira de. Família Junqueira sua História e Genealogia. Rio de Janeiro:
Família Junqueira, 2004, p. 478, “Joaquim da Cunha Diniz Junqueira nasceu em 14 de maio de 1861, e foi
batizado em 22 de agosto do mesmo ano. (Bat. São Simão – São Paulo 1869/1877, p. 68v.)”. Entretanto o fundo
privado Joaquim da Cunha Diniz Junqueira existente no Arquivo do Estado de São Paulo delimita o seguinte:
“Natural de Ribeirão Preto, São Paulo, Joaquim da Cunha Diniz Junqueira nasceu em 16 de maio de 1860. Foi
cafeicultor, proprietário da Fazenda Boa Vista e destacou-se no quadro político da região do Oeste Paulista.
Faleceu em 14 de setembro de 1932”. Disponível em:
http://www.arquivoestado.sp.gov.br/guia_ficha.php?fundo=102. Acesso em 27 de abril de 2012.
“Joaquim da Cunha Diniz Junqueira nasceu em 14 de maio de 1861, e foi batizado em 22 de agosto do mesmo
ano. (Bat. São Simão – São Paulo 1869/1877, p. 68v.)” p. 478
20
Washington Luís chegou à Presidência da República em 15 de novembro de 1926.

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garantida, pelos vínculos de parentela estabelecidos, assim como o controle que o


coronel possuía sobre toda a família. Os casamentos de seus filhos foram
devidamente arranjados para que fossem os mais vantajosos possíveis, (...). A filha
mais nova, Maria Gabriela Junqueira Arantes foi casada com um dos mais
promissores amigos, Altino Arantes, que além dos cargos dentro do município, foi
deputado federal, secretário do interior e presidente do Estado de São Paulo, peça
fundamental nas políticas de valorização do café e leal correligionário, sabe-se que
o apoio de Quinzinho foi valioso para a obtenção de seus cargos e que em
retribuição Altino Arantes foi fiel aos pedidos do sogro, nomeando amigos e
levando o apoio as medidas de interesse da ala ribeirão-pretana do PRP dentro de
todo estado.”

Com esta perspectiva política, certamente Quinzinho deve ter observado a


movimentação de devotos que buscava a cruz do mártir milagreiro.
Se por um lado o culto ao menino poderia se transformar em um excelente suporte de
dominação política sobre o povo. Para a Igreja, que se adaptava aos novos tempos de
República, a cruz do Pedro, fenômeno de fé iniciado nos anos finais do Império e
provavelmente fortalecido na primeira década do século XX, também poderia ser
importante.21
Segundo Nainôra Freitas (2012: 2), a Igreja tutelada pelo Estado desde o período da
colonização através do Padroado Régio havia deixado, em fins do século XIX, poucas
dioceses e paróquias. Por outro lado, além de aprender a lidar com o Estado Republicano
nascente, esta instituição simultaneamente vivenciava o movimento de romanização que
pretendia:
“desde o século XIX uma única linguagem usada de cima para baixo, da hierarquia
para os fiéis, do papa, cardeais, bispos, padres, para suas respectivas dioceses,
paróquias, capelas, executando um programa de recristianização da sociedade.
Caracterizava por um discurso homogêneo na tentativa de controlar a vida
cotidiana nas mais diferentes esferas no campo moral, educacional, familiar ou
ainda no emprego das horas de lazer.”

Embutida neste processo estava a criação de novas dioceses e paróquias e entre elas
constava o estabelecimento, em 1908, da “Província Eclesiástica de São Paulo, por meio da
Bula ‘Diocesium Nimiam Amplitudinem’ escrita pelo papa Pio X” e que previa a “criação das
dioceses de Ribeirão Preto, Botucatu, Campinas, São Carlos e Taubaté” (FREITAS: 2 - 3).

21
Entre 1877 e 1890 o padre Núncio Greco foi o vigário de Ribeirão Preto. A partir de 1890 o padre Joaquim
Antonio de Siqueira assumiu: “Foi quem colocou a primeiro Livro do Tombo da Catedral. Não sabemos se
anteriormente houve Livro do Tombo. O fato é que o mesmo, ou seja, o nº 1 começa no seu paroquiato. Alma
boníssima. Estimadíssimo ainda hoje especialmente pelos mais antigos. Foi quem deu impulso para a
construção da nova matriz, que anos depois se transformou em Catedral, devido ao fato de ter sido Ribeirão
Preto escolhida para sede de um bispado.” MIRANDA, José Pedro. Ribeirão Preto de Ontem e de Hoje.
Ribeirão Preto: Livraria El Dorado, 1971, P.64.

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Alguns meses depois, em fevereiro de 1909, chegou à nova diocese o Bispo


designado, D. Alberto José Gonçalves. Este religioso implantaria a romanização nestas
regiões por meio de “visitas pastorais”,
“A adesão dos fiéis para participar dos eventos de uma visita ou para receber os
sacramentos coloca em evidencia o sucesso das mesmas. Ao final de um ano de
visitas pastorais na diocese de Ribeirão Preto, D. Alberto crismou 68.228 fiéis. O
bispo afirma, em 1938, que havia visitado a diocese sete vezes e, que crismou perto
de 500 mil pessoas.“ (FREITAS: 4 - 6)

Não se sabe ao certo quando a cruz foi pasteurizada, mas é possível inferir que, fruto
desse movimento da Igreja local associada à percepção política de Quinzinho da Cunha,
ocorreu a inevitável construção da Capela da Cruz do Pedro. E desta forma, a autoridade
religiosa associada à elite política local conferiram legitimidade oficial ao culto popular. Para
Maria Angela Vilhena (2004:105), “a morte é a morte mais suas representações” que
envolvem elaborações culturais e materiais sujeitas a um movimento de apropriação e
resignificação constantes. E, esse é o exato movimento vivenciado pelo assassinato de Pedro
transformado em mito.
Segundo Solange Andrade, o catolicismo é uma religião híbrida que une crença e
práticas comportamentais. Nesse sentido, o culto aos santos e mártires está presente desde sua
origem.22 Ele constitui a fé na possibilidade do milagre transformando a realidade.
O martírio significava total submissão à divindade na medida em que o sofrimento do
humano imolado o aproximava do sofrimento divino do Cristo. Neste sentido, o mártir Pedro
constituiria a ponte com o universo místico, pois havia sido purificado pela dor. Nesse
patamar, o menino Pedro, que um dia foi candeeiro, poderia clarear os caminhos dos meros
mortais levando aos céus as súplicas e intercedendo pelos moradores dos caminhos que um
dia ele trilhou.23
A história de Pedro possuía todos os elementos emergentes de um país em transição.
Por ser filho de escravos estava restrito a uma parcela da população miserável e desprovida de

22
“O mártir era aquele que deu a vida como testemunho de sua adesão à fé cristã. Antes do final do primeiro
século da cristandade, o termo santo era reservado somente ao mártir. Com o passar do tempo a concepção de
martírio, na religiosidade católica, foi sendo ampliada a ponto de caracterizar uma morte violenta resultante
tanto de uma doença grave como de um homicídio, mesmo não existindo o critério adotado de que a morte seria
em função da adesão à fé cristã.” ANDRADE, Solange Ramos de. “O Culto aos Santos: a Religiosidade
Católica e seu Hibridismo”, in: Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano III, n. 7, Mai. 2010
- ISSN 1983-2850, p. 134. Disponível em: http://www.dhi.uem.br/gtreligiao. Acesso em 10 de março de 2012.
23
“Quanto mais elevado o espírito, mais perto de Deus, maior seu conhecimento, maior sua iluminação. Existe
uma correspondência entre a luz interna ao sujeito - ele é de luz, quanto à luz que ele expande posto que
ilumina, e a luz que o cerca é iluminado. Espíritos que têm luz interior têm luz própria e são iluminadores. Eles
habitam lugares iluminados.” VILHENA, Maria Angela. Op. Cit., p.119.

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direitos. Sendo ingênuo, liberto pela lei de 1871, deveria estar protegido pelo seu senhor e
pelo Estado, o que não ocorreu. Após a morte, sua sina deixou de ser a sina do menino negro
“liberto”, adquirindo uma identificação mais ampla para colonos imigrantes, ex-escravos e
pobres transformados em devotos de sua Cruz. Sim, pois todo o esforço da elite branca
política e religiosa no sentido de capturar o culto saneando-o e pasteurizando-o por meio das
normas eclesiásticas formais, unindo o menino Pedro ao São Pedro, não foi suficiente e a festa
de mais de cem anos ainda é chamada de Festa da Cruz do Pedro, e não da Igreja do Pedro.
Seu assassino Teodoro, ao que parece, nem ao menos foi processado. Mas o crime
originado no sumiço de um picuá de comida foi punido na medida em que suas mãos
paralisaram impedindo-o de levar a comida à própria boca.
Finalmente os homens de lei e das batinas, com poder na terra não foram suficientes
para cuidar do pequeno que só conseguiu justiça no plano divino e ainda hoje, mais de 100
anos após seu martírio, continua vivo no imaginário dos muitos fiéis que atravessam rezando
todos os anos a noite fria do 28 para o 29 de junho e em romaria seguem para homenagear a
Cruz do menino candeeiro.

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Referências Bibliográficas

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