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Gillette a icine nce Res Adem tin aie ee Cate Rue eet) a inks fore aCe Eee ae ee Pa cates ee eee eee Dei Cte a eee ISBN 85.271.04 a 0 ||| ea HUCTTEC Ceografia: Teoria ¢ Realidade 45 diregio de Antonio Carlos Robert Moraes kuhimann (GROGRAF(A: TEORIA EREALIDADE Pore Gengrats Noa Son Seon Propose Nanwers da Geng Ricard Harboe © Frat a Gnigra no Teves Mano, Mtn Sten Manual ce Gagrain Urbana, itn Sastos [Notes Rumaren Gengatia Arse, Milton Suros (org) Plonitasefaendsrs de io Paul, Fere Montel, ‘A Genes én Geogralia Modems, Antania Calo Robert Moraes (Gengrss Pots e Geopoitia, Wandetey Mesias da Costa (O Nena Mapa co Mando: Fin de Seto e lotta do, Mihon Sarcosorg) ‘Oo Map cd ado: lobalnaoe Eggo Ltinvierean, Frances Cpaui Soul ‘eal (org) (ONew Mapacdo Mina: Nacweme Sociedade de Hoje Um eitura Geogr Maia Adan ‘Ade Soussetal (ngs) : Destruct Deconetrcio®, Nada Angela gaia Perera Leite O Desato Elgin: Utopia eReie Manvel Covel de Andrade Ganiead icin Gengrifee Marcelo Este [errtorie Gobatzaan e fragmenac, Mia Adda de Soun eal (495) Geogr Belo Ambirte no Bras Peo P. Gales ec (8s) ‘A Qhestsn do Tevirio no Basi, anues Coren de Andrade {Tarkano: Bupa, Pitagem e Guin, Edsardo Vani, Ana Fa Aletuude Gus € Rie de ‘Csi Aro cd Gv forge) “Turtoo: pcos Sotormerns, Asia Inks Gesigs de Leos (org) an e Geol: Retiende Teceeas afoques Kept, A A,B Reigns on) (Geto Racinaa os Nauezs, Dear Bren Zeon, apacne Glilonso nx Ara da Seulo NX, Georges Beno (Osho Me a eazue Itocae, Anton Cas Degus (© Lega nado ido, Ava Fam Alea Cees LSP Formato e Terrtornagi, Berzardo tangino Pecmnaes ‘hte ce afro Cogrdis [Diced read). And Hs de Alvida “Tin Antonio Chr ‘torn oeserabienta Lacs, ey Baise Roce 0) Tinks c Ambont eflexdiese Prot, A? Base Rodrigues 0%) Trim, Moder, Glosaizaso, ay alert Regs FE) ‘A Oavpacio de Postal de Paranapanena Jos erat Leite IMhose Mares Siiolame enagnata, Amon Caos Deus Cnt para a Gero a Zon Contec Bra, Ani Clos Kober Mocs Série “Link de Free" (Gengrain equena Hit Crea, Antonin Castor Robert Moras \Gengiafi Crit Yloriarso do Espace, Aston Caos Rober Morice Wanderey Mette prea Geaa, Be Ehein 0 Fete (Espo Cara), cman Corrs da Siva ving Geogr, Aento Caras Kober Maries Mersnortoses do Bip Holt, Mito Santon {Teenie Ripa Tempo: Globatizagia 2 ei Teno Citic Informacion Mio Sctos ete dinbente« tne Haney, Arto Cavan Rober eas Taramo espten Romo xm Conbscimerto Tasceltnar, Ady Babes Rodsigues grove Dereon Regina, Aadeson Fersves Farge QUEM TEM MEDO DA GEOPOL{TICA? Sp Reivor per anges Mavcit dopo José Malt (a Maris Fino (Pmsemgee) Plaio Masts Flbe Oreste poser) Sos Kian ‘Covalde Pon Feats Tap Gomis Cota Sivan Bil Uraboyaet catback Cristina Fi LEONEL ITAUSSU ALMEIDA MELLO QUEM TEM MEDO DA GEOPOLITICA? EDITORA HUCITEC ledusp = Sao Paulo, 1999 ma pees ers ae abi am: es RSs © Diretos autorsis, 1008, cle Leonel Iauneu Almeida Mall. Dieitos de pubticagéo reservados pela Hetora Hiaitee Lida, Res Gil Benes, 719 - 04601042 Sio Paulo, Brasil, Telefones: (55 01 1)240-9918, 5120921 ¢ 543.0558; venas: (85 0113304532, Ixcsimale (59 011)520.5088, En: haiee@mandiccom br Foi feito © Depésto Legal Bdktornsia ele nica: Ouripedes Galene e Rate Vitel Covréa Dados Incmacionas & Canlogacto na Publica (CTP) {Sandee Regina Vigel Domingues) » = ‘M499 Mello, Leonel uses Almeida (Quetn tm miedo da geopolties./ Leonel aus Alrida Mello, — Sip Palo: Hucktes, Eswsp, 1999 224 pil. 21 om, ~ (Geograia: Tora e Reaidade; 45.) Dibliogeaba:p. 225 ISBN 85271-08838 1. Geopolie 2. Gongzafia pica 8, Geogratia moder —Histvia {Tau Sere Indice para Cedloge Sistemitie: 1. Bspaga gengrico e polio : Ciencia politica 320.2 2 Poitoae espago geogstien 320,12 3. Geograia denna: Hiss 9UL2 i E A politica de um Estado estd em sua geografia. Napoleao SUMARIO © TEMA EO PROBLEMA ‘A definicao do tema A formulagdo do problema HALFORD MACKINDER E A GEOPOLITICA, DO HEARTLAND A concep¢io histérico-geografica A teoria do Heartland Intermezzo: KARL FIAUSHOFER EA GEOPOLITIK ALEMA Por que um indermesso? ‘A conextio Mackinder-Haushofer ‘A conexio Haushofer-Hitler NICHOLAS SPYKMAN E A GEOPOLITICA DO RIMLAND © grande debate A estratégia americana na politica mundial ‘A geografia da paz ZBIGNIEW BRZEZINSKI E O CONFRONTO ‘AMERICANO-SOVIETICO De conselheiro do Principe a espectador engajado O grande desafio i il 18 Q7 27 40 a a 75 82 98 98 98 106 135 135 139 Keblmans 10 Sumirio HALFORD MACKINDER E O FIM DO “BREVE SEULO XX” Os tiltimes anos do século A obsolescéncia de Mackinder CONSIDERAGOES FINAIS A atualidade de Mackinder A baleia, 0 urso ¢ 0 dragio Bibliografia a77 AIT 193 213 218 217 225 O TEMA EO PROBLEMA A definigéo do tema H quase um século, Halford John Mackinder (1861-1947) esbogou as linhas mestras de sua teoria do poder terrestre ao proferir, na Real Sociedade Gcogréfica de Londres, a célebre conferéncia intitulada “The Geographical Pivot of History”, em 25 de janeiro de 1904 Essa teoria tina como idéia-chave a existéncia de uma rivalidade secular entre dois grandes poderes antagénicos que se confrontavam pela conquista da supremacia mun- dial: o poder terrestre e 0 poder maritimo. O primeiro se- diava-se no coracio da Eurésia e, mediante uma expansio centrifuga, procurava apoderarse das regides periféricas do Velho Mundo e obter safdas para os mares abertos. O segundo, situado nas ilhas adjacentes ow nas regides margi- nais eurasianas, controlava a linha circunferencial costeira do grande continente e, mediante uma pressio centrfpera, procurava manter o poder terrestre encurralado no inte- rior da Burdsia 17 Mackinder, Halford. “The Geographical Pivot of Mistory",Ceegnapihiza Journal, 23:421:37, 1904, 12 Oma so pomewa Exposta inicialmente numa monografia dens: & teoria do poder terrestre Guerra € desenvoly' ‘t € concisa, foi retomada na Primeira Grande ‘ida mais extensamente por Mackinder no livro Democratic Ideals and Realty, editado durante as ne. Boclagoes de paz da Conferéncia de Paris, em 1919. No au. &¢ ea Segunda Guerra Mundial, por solicitagio da Foreign Affairs, 0 geégrafo britanico realizou um timo balango da Sus Jf entio cléssica teoria, revisando-a em varios aspectos ¢ adicionandothe novas contribuicdes, no artigo “The Round World and the Winning of the Peace”, publicado em lode Pata © estudioso de relagdes internacionais nao constivul apologia, mas fato reconhecido, afirmar que Mackinder é hoje considerado um cléssico nos campos da geopolitica e da estratégia. Sua teoria do poder terrestre transformouse, 20 lado de suas congéneres do poder maritimo e do poder aére0, num dos trés grandes pilares do pensamento geopoli- tice deste século, Ademais,a visio continentalista mackinde. [int Produziu também uma verdadeira “revolugio coperni cana” na estratégia om yoga desde 0 século XIX. Para maior clareza, geapolitica e estrat das dorayante no sentido Brzezinski: a primeira refere. gia sero utiliza. a clas atributdo por Zbigniew "se A combinaciio de fatores eco- Srificos e politicos que determinam a condi¢io de um Este, {20 ou regio, enfatizanclo o impacto da geografia sobre 4 politica; a segunda referese aplicagdo ampla e planejada de medidas para alcangar um objetivo basilar ou a recursos vitais de importancia militar’, * ipe Deveceti hic nd Reif adtanapapen Nov orks The Noten Library, 1962 oe Ibidern,p. 255-78, Renin Plgnien. EUA s URSS: gronde def. Rio de Janeiro: Batra Norrica, el, p 10 spel Oma corona 13 itico, & za ea Quanto ao aspecto geopolitico, € préciso recordar qu Weltanschauung vitoriana, impregnada pela ideologia colo lista da “missdo civilizadora” da raca branca, era ess! Cite 10 de mundo jalmente ocidentalista e eurocéntrica. Essa vi fc remontna 0 comego dos vmpos modermor, quando o as grafo flamengo Gerardus Mercator (1512-1594) tanspis ara a projeciio cartografica que leva seu nome a aie conquistada pelo continente europeu na cultura, ps ie ena economia mundias @ partir do século XVT. Come a nos quatrocentos anos seguintes, denominados Enact biana por Mackinder, a cartografia plana distorceu € a amassa caposicio geogratica relativa tee i do mapamiindi a situacao basi ae wr sina internacionais até a Primeira Grande Gombe Macinde 0 dri de suber ca comer so da geografia oficial que situava a Europa ee igo do mundo, O geégrafo britanico substituiu a secular vis i rocéntrica por uma nova abordagem que questionava r ; calmente 0 tratamento geoist6rico tradicional atspensalo até entio & Europa. Esta era vista como um foniacte parte, com wm processo historico endégeno ¢ auto-su a te que romontava A Antigitidade greco-romana e a0 mut retin proposta de Mackinder relativizou a an dade histérico-geografica européia, submetendo-a a um drastica revisio em trés aspectos cruciais: fin 4) a Europa foi deslocada do centro para o oeste do pi eu parte integrante de um sistema politico fecha- do de Amnbito mundial; 14 TEMA EO PROBLEMA ¢) sua histéria foi subordinada & dindmica da historia asia- ica, Essa abordagem baseou-se numa singular concepso geois- t6rica que enfatizava especificamente a interagao da geogra- fia com a hist6ria e estahelecia entre ambas um nexo de cate salidade que se tornou a chave da teoria mackinderiana do poder terrestre. No que tange & questo estratégica, vale lembrar que as guerras da Revolucio e do Império (1792-1815) subverte- ram o sistema de Estados € 0 equilfbrio de poder estabeleci- dos na Europa, pela Par de Vestfilia, depois da Guerra dos ‘Trinta Anos (1618-48). Apés a derrota de Napoleao, 0 Gon- gresso de Viena estabeleceu as bases do novo equilibrio eu. ropeu ¢ organizou o sistema internacional que assegurou a0 continente um duradouro periodo de trégua e estabilidade, que se estendeu até a Grande Guerra de 1914. O equilfbrio de poder entre as grandes poténcias continentais— Austria, Pris- sia, Reissia ¢ Franga ~ permitiu a Inglaterratigisular desenvol- ver urna politica internacional bifronte, isolacionista em re- lacao a Europa ¢ imperialista nas outras regides do globo. A Pax Britannica foi 0 corolirio do sistema regional, mul- tipolar e homogéneo, que durante um século impediu a eclo- so de uma guerra generalizada na Europa. O fecho da abé- bada desse sistema era a Gra-Bretanha, cuja economia indus- © (trial, parlamentarismo mondrquico, império ultramarino € | comércio internacional, estavam protegidos pelo escudo da | Royal Navy. A vit6ria sobre o poder terrestre frances repre- | sentou o triunfo do poder maritimo € da estratégia naval britinicos, que se tomaram dominantes no século XIX. Essa estratégia baseava-se no postulado de que a seguranga das has Britanicas era garantida por uma posi¢io geogréfica Onmma ro prouuema 15 insular ¢ um poderio maritimo, que, controlando os ocea- f-:< nos com a esquadra de guerra, a marinha mercante ea rede de bases espalhada por todo o planeta, constitmfam a chave da hegemonia mundial da “pérfida Albion”, Paracloxalmente, no foi um stidito de Sua Majestade, mas © almirante americano Alired T. Mahan (1840-1914), 0 pa fundador da teoria do poder maritimo®, Na virada do século, Sea Power, de Mahan, tornouse a bfblia dos defensores do destino manifesto estadunidense € dos partiditios da politica de expansio do poderio naval norteamericano. Em 1898, conquista de Porto Rico ¢ das Filipinas, assim como a instauracio do protetorado sobre Cuba, apés a vité- ria na Guerra Hispano-Americana, consolidaram poder maritimo ianque no Garibe ¢ no Pacifico. A politica do Big -: ‘Stick aplicada aos paises centro-americanos ¢ caribenhos teve seti corolirio na secessao do istmo € na abertura do canal do Panamé, em 1914. No plano geopolitico ¢ estratégico, a cons- trucio de 1m canal interocednico na cintura do continente americano — possibilitando a juncdo das frotas do Atlantic ¢ do Pacifico — transformou os Estados Unidos numa gran- de poténcia maritima c insular: a ilha-continente do hemisfé- rio ocidental, Quando o almirante Mahan faleceu em 1914 (no mesmo ano da inauguracio do canal do Panami), os diseipulos do evangelista do poder navat” encarregaram-se de implemen- | tar sua visio do papel da itha-continente norte-americana no concerto das grandes poténcias. De acordo com essa visio, os Estados Unidos deveriam assegurar uma incontestvel hi T Naan, Ave, The ffleneso ea Pane wpon History (2660-1783), Lend: Nathuen & Go, 1965. 16 O Tema £0 Prosi A gemonia no continente ame ano, conter 0 e: japonés no Exiremo Oriente e, a médio prazo, arrebatar da Inglaterra a supremacia maritima mundial, A partir desse pano de fundo, quando os mais arg observadore ja vislumbravam graves rachaduras no sistema internacional, € que Mackinder realizou sua “revolugio ¢o. pernicana”, a colocar em xeque a consagrada teoria do Poder maritime. Essa revolucéo consistiu na formulagio da teoria do poder terr tre, cuja pedra angular era o papel estratégico atribuido a Piuat Area —a tegido-pivé — politi ca de poder das grandes poténcias. O termo Pivot Area de. signava o grande micleo do contin limnites correspondiam, em linhas gerais, ao gigantesco ter trio da Russia cearista. ile eurasiatico € seus Segundo Mackinder, a exploracio dos imen daquela regi 108 recursos o basilar daria 20 Estado que a controlasse con. ra desenvolver uma econor B fa autérquica e um inex. pugndvel poder terrestie. Entrincheirado no coragio do Velho Continente, esse poder terrestre auto-suficiente pode- ria resistir a0 assédio e as pres: vaio de acto limiteva-se As j da Eurésia, es do poder maritimo, cyjo S proximas e reg es costeiras Se a fortaleza continental eurasiana conseguisse ap se de uma va irente oceanica, o poder terrestre poderia canalizar parte de scus vastos recursos para‘o desenvolvi- mento de um poder maritime. & ascensio de win poder an {Mhio, sem rival no continente eurasiftice e capaa de rivalizar com a Inglaterra nos oceanos, acabaria finalmente por su: plantar o poder maritimo britinico na mt pela preponde ¥incia mundial ossibitidade de transformacio do poder te restre num, Ora bo PROBLEMA 17 A exransko wavs bos Bsrapos Uxroos AMERICA cy spo8 Aires: Pleamar Fonte: Talinsceda, Geopaticn y rlaciones internacionales, Buenos Ai Lash, p78 18 O TEMA EO PROBLEMA poder anfibio, que viesse ultrapassar 0 poder maritimo brité- nico, foi uma preocupacao constante ¢ recorrente na reflexio geopolitica e estratégica do gedgrafo britanico. B, na visio de Mackinder (1962 e 1948), isso poderia vir a acontecer caso a Riissia, que controlava a Pivot Avea eurasiana, se aliasse 4 Ale- manha, o mais poderoso Estado continental europeu’. A formulagio do problema Para usar uma metéfora de Raymond Aron, a baleia ame- ricana venceu em 1989-1991 a Guerra Fria contra 0 urso nquanto os Estados Unidos emergem da confronta russo. cao Leste-Oeste como a tinica superpoténcia global multidé- mensional do planeta, a Ruissia pés-soviética assume a feigio de uma superpoténcia unidimensional de ambito regional. Dito de outra forma, enquanto os Estados Unidos so simul taneamente uma superpoténcia politica, econémica, militar ¢ tecnolégica, a nova Russia é unicamente uma superpotén- cia militar &s vollas com a tentativa de restatifar sua influén- cia sobre o “estrangeiro proximo”, ou seja, as reptiblicas nao- russas que se desligaram do eximpério soviético, ‘A Guerra Fria — ou, como foi denominada por alguns fal- ces, a “terceira guerra mundial” — entre as superpoténcias insular americana ¢ continental soviética culminow na vitéria do poder maritimo sobre o poder terrestre. A era pés-colom- biana do poder tertestre, que presumivelmente seguir-se‘ia & era colombiana do poder maritimo, parece ter sido posterga- da as calendas pelo curso dos acontecimentos no século XX. Mackinder, Hallaed J. Democratic Heals and Reality (with additional papers}. Nova Yous The Norton Linraty, 1962, p. 262. Ver também, do snesmo autor, “The Round World & the Winning of Use Peace" Tiden, p. 2723. O-7EMA E 0 PROBLEMA Posicdo oa anrica URS: 1 GA URSS xa chaeauirica at Macuinnon Fonte: Pinochet, Augusto, Gzopaltize de Chil, Buenos Aires: leamat, 1979. p. 193 1g Em resamo, por trés vezes ao longo deste século ~ 1918, 1945 © 199] —, 05 fatos da historia real parecem ter replicado dura. mente a filosofia da histéria do gedgrato britinico, No plano da reflexao teérica, as duras réplicas da historia Jd haviam sido registradas por Raymond Aron quase trés décadas antes da queda do Muro de Berlim. Em 1962, quan- do foi publicado Paz ¢ Guerra Entre os Nogées, 0 pensador francés empreendou um balango critico da teoria de Mac- , Kinder, pasando em revista seu: suposto “esquematismo geo- | grafico”, 0 fracasso de sua zona-tarpio separanco nussos € Jalemaes, assim como sua infludacia sobre a ideologia geo- grifica do espaco vital, desenvolvida pela Geopolitié alema sob os auspicios do general Karl Haushofer ¢ da Escola de Munique. Ao fim e ao cabo, o veredito do pensador francés sobre a obra de Mackinder foi deveras incisivo: “Relido em 1960, o gedgrafo britinico parece ter tido a pior das sortes possiveis para um conselheiro do Principe: foi ouvido pelos estadistas, mas ignorado pelos aconteci- mentos."7 Paradoxalmente, entretanto, Aron (1986x) parece relativi- var a contundéncia de sua avaliacio quando, 20 analisar 0 sistema universal da idade termonuclear, afirma que: “Nao é impossfvel interpretar a conjuntura arual A luz dos conceitos de Mackinder vendo a rivalidade entre a Unitio Soviética e os Estados Unidos como um epissdio do diflogo eterno entre o poder terrestre e © poder mari. se guera one os nade. Brann: Eitara UND, 1986, p 26. Ormma£o rronuea 21 timo, ampliado & escala do mundo contemporaneo. Con- tudo, o poder aéreo acrescenta uma outra dimensdo Aquele diélogo; 0 dominio cienuifico do espago pelos novos mei- os de transporte ¢ de comunicacao atenua a oposicio clés- sica dos estilos marftimo c terrestre.”® ‘Alids, bastaria citar outros trechos para verificar que as andlises baseadas na concepsao teérica, na visdo estratégica e nos conceitos geopoliticos de Mackinder sao a tal ponto recorrentes que tornama licito levantar o beneficio da diivida sobre 0 incisivo balanco critic aroniano. A reproducto de trés passagens, dentre virias outras possiveis, é suficiente para ilustrar ésta afirmacio. Por exemplo: “Ajuda a imaginar o mapa do campo diplomético de acordo com 0 esquema sugerido por Mackinder: a rept blica norte-americana esté situada numa ilha, compardvel & posicio da GréeBretanta com respeito i Europa e se es forca por proteger a linha costeira da massa eurasiana’ Em seguida: “A confrontagdo a que assistimos na Asia tem o carater da luta eterna entre o urso € a baleia, entre o poder terres- tre € 0 maritimo, Os Estados Unidos aparecem af como poléncia essencialmente marftima, com um cinturéo de hases insulares, do Japio até as Filipinas, passando por © wider, p40. » Thidem, p 475 om 22 O TENA EO PROBLEMA Okinawa ¢ por Formosa, No continente asiatico, contudo, 86 dispdem de uma cabecade-ponte: a Coréia do Sul." Finalmente: “Muitas aliangas so e nao podem deixar de ser tempo- ririas; a rivalidade entre os Estados Unidos e a Ruissia teria nascido, depois do esmagamento da Alemanha e do Japio, mesmo que nao houvesse um regime soviético na Rissia; com efeito, as duas grandes poténcias — uma continental, a ‘outra maritima — se chocariam em todas as partes do mun- do, devido 20 desaparecimento das zonas intermediétias. Hi outras aliangas que s40 permanentes, ou pelo menos duradouras, como a que existe entre a Gri-Bretanha ¢ os Estados Unidos, porque esto associadas a situacao geopo- litica cao parentesco cultural. Sea Gré-Bretanha nao domi- nna os mares nem se alia & poténcia que domina os mares, passa a ser um apéndice do continente europeu, um satéli- te do Estado dominante no continente.”*” Ressalte-se que 08 trechos transcritos nao constituem ex- pediente abusivo ou mero exercfcio de erudi¢ao, mas recur- 50 legitimo para comprovar a légica do argumento em ques- Ho. A recorréncia reiterada as formulacdes geopoliticas do geografo britinico demonstra cabalmente a importancia que, a despeito de sua postura critica, Aron conferia as contribu bes tedricas de Mackinder. Mesmo considerando-a refuta- da pela histéria, Aron incorporou aspectos essenciais da teo- © ide, p87 Ron non eos lion 2° el Bri: Eora UNE, 185.48 r OvrEMA £0 PROBLEMA & via mackinderiana que, em alguma medida, considerava tite 4 compreensio de certos problemas ocasionados pela polf ca de poder no mundo contemporaneo, A visio do mundo como sistema pol ico fechado € a co cepeao historico-geografica do conflito entre o poder marf mo eo poder terrestre sio algumas das categorias mackind rianas que Aron utiliza para analisar, no contexto do sistem internacional da Guerra Fria, a rivalidade americanosovié cacaconfrontacao Leste-Oeste. Essa visio, formulada pione ramente por Mackinder no inicio do século, é empregada r enquadramento do conflito comunismo versus capitalisr denuro da rigida moldura de um sistema internacional globe bipolar e heterogéneo, em cujo interior coexistem contradit riamente dois grandes subsistemas imperiais, A idéia da pugna oceanisino versus continentalismo pe passa a andlise das relagGes entre as duas superpoténcias | vais — os Estados Unidos e a Uniao Soviética —, que coma dam aqueles subsistemas imperiais: 0 “mundo livre” ea “co tina de ferro”. A primeira, uma poténcia de tipo insular: ilhacontinente que lidera um império oceanico, cujo eixo © Atlantico Norte; @ segunda, uma poténcia de tipo con rental: 0 Estado-piv6 que dirige um império terrestre, cu cerne € 0 coracio da Eurdsia. E, portanto, dificil negar qu as contribuigées de Mackinder para a abordagem de Arc acerca das relagdes interestatais do periodo da Guerra Fr sio, sob certos aspectos, bastante considerdveis, Porém, diante da suposta evidéncia dos fatos ¢ da incisi critica aroniana, que parecem colocar Mackinder na contr indo da hist6ria, seria o caso de abandonar esta pesquisa déla por encerrada? A justificativa para perseverar nesta empreitada é aceit 24 Orewa £0 pROMLEMA © desafio de repensar as mesmas evidéncias historicas 3 Inz de outro tipo de abordagem c de questionar 0 préprio vere- dicto aroniano, ainda que reconhecendo a estatura ea legiti- midade intelectual de quem o formulou, Isso posto, os crité- rios que inspiram © prosseguimento desta tarefa sio a ado- cdo de uma postura de dhivida sistematica ea busca de uma fundamentagao teérica e empirica que alicerce futuras con- clusdes. A premissa que constitui o ponto de partida deste livro 6a conviecio intelectual de que Mackinder nao é “cachorro mor- to" —como dizia Marx sobre Hegel. Em outras palavras, mes- mo apés o fim do sistema de equilibrio bipolar — com adesin- tegracio do bloco socialista, a implosio da Unido Soviética e © advento da Pax Americana —, é possfvel que 0 pensamento do gedgrafo britinico no esteja de todo ultrapassado pelas realidades emergentes do pésGuerra Fria. A proposta € sub- meter 0 pensamento mackinderiano ao crivo das recentes Mudangas geopoliticas e estvatégicas, bem como das voliteis telagdes internacionais que se desenvolvem no ambito da nova ordem mundial. O propésito é resgatar da reflexio de Mac- Kinder aquelas contribuigdes tedricas que porventura perma necam validas ¢ atuais, expurgando-as, ao mesmo temper, de tudo o que seje circunstancial, contingente e passageiro, Embora aparentemente desmentido pelos fatos, é possi- vel que algo do pensamento de Mackinder tenha sobrevivi- do as mudangas radicais e as bruscas guinadas do curso da historia ao longo deste século, Se assim for, sera de grande utilidade analisar 0 pasado recente ¢ as transformagées cm curso i luz da tcoria, dos conceitos € da filosofia da historia mackindcrianos. Claro esta que, levando em conta os evens tos das iiluimas décadas, isso significa enfrentar uma série O TEMA £0 PROBLEMA 25 de problemas que nem sequer se colocavam no horizonte do gedgrafo britinico na primeira metade deste século, Porém, o fascinante desatio de investigat 0 colapso do sistema bipolar da Guerra Fria e essa fase de transi¢io — denominada nova ordem mundial —.4 luz de uma aborda- gem geopolitica ¢ estratégica afigurasse como razio legitima para justificar a continuidade desta pesquisa, cujo objetivo central é responder & seguinte indagagio: EN QUE MEDIDA PERMANECE ATUAL ‘ (OU TORNOD'SE OBSOLETO, NESTES ULTIMOS ANOS DO SECULO, 0 PENSAMENZO GEOPOLITICO bk MACKINDER? Os quase cem anos da publicagéo de “The Geographical Pivot of History” constituem hoje um longo espaco de tem po, que propicia o distanciamento ¢ a perspectiva no ape- nas necessérios, mas também suficientes para um oportuno cimprescindivel ajuste de contas com o pensamento do ge6- grafo britfnico, Nesse sentido, 0 principal escopo desta in- vestigagio € revisitar Mackinder, seu pensamento ¢ sua obra, de acordo com a seguinte estructura: 1. Primeiramente, efetuase uma releitura da obra de Mac. Kinder, com o intuito de refazer o percurso de seu pensa- mento geopolitice ¢ realizar um balanco critico do que se convencionou denominar teoria do poder terrestre. 2. Segue-se um intermezzo, que analisa sucintamente as re- Jagdes.entre a geopolitica inglesa e a Geopolitik alema, cen- trando scu foco especialmente nas controvertidas conexdes Mackinder-Haushofer € Haushofer-Hider. 3. Investiga-se, em seguida, a provavel influéncia de Mac- kinder sobre dois destacados expoentes da geopolitica nor- 25 O Tamar 0 FRODLEMA te-americana: 0 gedgrafo poiftico Nicholas Spykman, formu Jador da teoria do Rimland ¢ precursor da estratégia ce con- tengio do posguerra, eo cientista politico Zbigniew Brze- zinski, autor de uma relevante anélise geopolitica ¢ estratégi- ca sobre a confrontacio soviético-americana. 4. Finalmente, procura-se testar 0 valor explicativo da teo- ria do poder terrestre e discutir a questo da obsolescéncia, ou atualidade do pensamento de Mackinder no contexto clo novo ordenamento mundial, emergente da vitéria incruenta daitha-continente americana sobre o Estado-pivé eurasiano. HALFORD MACKINDER E A GEOPOLITICA DO HEARTLAND A concepsao histérico-geogratica Ase do poder terrestre s6 adquire pleno sig- nificado quando analisada no contexto mais amplo da concepgao histérico-geografica que perpassa 0 pensamento geopolitico de Mackinder. Essa concepgio tem como elementos ordenadores a visio compreensiva do mute do como sistema politico fechado, a idéia de historia uni- versal bascada na causalidade geografica e 0 postulado da luta pela supremacia entre o poder maritimo ¢ o poder ter- restre. O Muxno COMO SISTEMA POLITICO FECHADO No que diz respeito a visio do mundo como sistema poli {ico fechado, ¢ importante recordar que, na época da conte. réncia de Mackinder, em 1904, a expansio das grandes po- téncias européias estava praticamente concluida. Com isso fechavase 0 ciclo histérico que o gedgrafo brit nico deno- minou época colombiana, iniciado quatro séculos antes por dois outros movimentos expansionistas realizados simulta. heamente a partir clos pontos extremos da Europa. A ociden- 28 Hatronp Mackinpen & a Georoutnca po HEaRrianp te, navegando pelo Atléntico e realizando o périplo africa: no, @ expanso maritima portuguesa em busca do caminho para as Indias; a oriente, partindo do Grao-Ducado de Mas- cou ¢ ultrapassando 0s montes Urais, a expansio territorial russa em direco aos vastos espacos da Sibéria, Embora pouco divulgada no Ocidente, obscurecida que foi pela epopeia das grandes navegagdes, a conquista das estepes siberianas pelos russos procuziu, a longo pra, con- seqiidncias tio relevanies quanto a descoberta da rota do Cabo pelos portugueses e 0 dominio do Novo Mundo pelos espanhois, Esse dupls expansio — 0 controle dos mares pe- los europeus ocidentais ¢ a posse da mais extensa massa ter. ritorial continua do planeta pelos russos — demarcou nos séculos seguintes a oposicao oceanismo versus continentalis- mo ¢ descortinou 0 cenario do embate entre o poder mariti- mo € 0 poder terrestre pela hegemonia mundial © terceiro surto expansionista, realizado em fins do secu- lo XIX, na Africa € na Asia, completou a integragao das dife- rentes regides da superficie tetrestre puma sactedade inter- nacional unificada, Com 0 advento do barco a vapor ¢ dos canais interoceanicos, da locomotiva ¢ das ferrovias trans. continentais, todas aquelas dreas estavam sendo interligadas por um sistema de transportes maritimos ¢ terrestres ¢ sen- do totalmente envolvidas por uma rede de relagdes politicas € econdmicas de Ambito mundial Diversamente do ocorrido na época precedente, na re- cém-iniciada era pés-colombiana, nao havia mais oceanos ignotos a explorar, terras desconhecidas a descobrir ou novos continentes a conquistar. No plano politico, a socie- dade internacional encontravase fragmentada num siste- nia interestacal amirquico ¢ oligopolisca; no plano econé- ‘FiaLrorp MACKINDER E A GEOPOLITICA Do Heaxrtanp 29 mico, estava integrada a um mercado Yinico de dimensio planetéria!, O mercado mundial encontravase, por sua vez, desigual- mente repartido em impérios coloniais ¢ esferas de influén- cia entre um reduzido grupo de grandes poténcias. Paises que se constituiram em Estados nacionais precoces, como a Inglaterra e a Franga, sairam A frente na corrida imperialis- ta, apossando-se da maior e melhor parte do butim colonial. Porém, pafses que constituiram Estados nacionais tardios, como foi especialmente o caso da Alemanha, chegaram atra- sados na partilha colonial, quando a divisio estava pratica mente conchrida e, segundo Bismarck, s6 haviam sobrado “pantanos @ desertos”. As subseqiientes rivalidades interim- perialistas, avidas por uma nova divisio do mercado mun- dial, arrastaram as grandes poténcias a uma corrida arma: mentista que, na virada do século, agravou ainda mais a cri- se européia, Num sistema cujo cenério de ago era todo o planeta, tor navam-se cada vez mais raras os acontecimentos isolados ou eventos de repercussio localizada. Ao contrrio da era co- lombiana, doravante uma crise ocorrida na mais distante regio — a exemplo da rebeliio dos bosers na China ou do incidente de Fashoda no Sudio — poderia provocar graves impactos no epicentro da ordem internacional. Diversamen- te do sucedido desde o Congresso de Viena, as guerras lo- cais comportavam agora o perigo de deflagrar uma guerra geral, colocando em risco ndo s6 0s pases beligerantes, mas © sistema como um todo. ‘Avon, Raymond, Os iimos ns do seul, Rio de Janeiro: Editora Guanabace, 1997, p18, 30 Hauroxp MAckinnex 4 Grorotitica po Hearriany A anarquia internacional e 6 “estado de natureza” hobbe- siano, que caracterizavam as relagdes entre as grandes po- téncias, prenunciavam o conflito generalizaco que implodi- ria 0 concerto europeu em 1914. Dessa forma, 0 inicio do século presenciou 0 surgimento de um sistema polftico fe- chado de extensio verdadeiramente mundial, do qual nao estava excluido nenhum pais ou nenhuma regiao ¢ cujo raio de abrangéncia estendiase por todos 0s continentes. Esse processo de interconexao fisica, militar, politica ¢ econémica da ordem internacional foi, pela primeira vez, apontado por Mackinder, que afirmou, no comeco do sécu- Io, em sua conferéncia na Real Sociedade Geogrific “De agora em diante, na era pés-colombiana, novamen- te nos defrontaremos com um sistema politico fechado ¢, © que nao tem menos importéncia, a sua esfera de acio serd o mundo inteiro. Todas as explosdes de forgas sociais que se produzam, em ver de se dlissiparem’num circuito circunvizinho de espaco desconhecido no qual dorminam a barbirie ¢ © caos, serio ficlmente refletidas desde os mais distantes rincdes do globo ¢, devido a isso, 03 cle- mentos débeis do organismo politico ¢ econédmico dé mundo serio destrufdes.”* Contudo, o verdadeito significado as enormes impli- cages geopoliticas e estratégicas do proceso de mundia lizagao das relacdes internacionais nao foram percebidos pos- sivelmente por muitos dos ouvintes da célebre conferén- Mackindes Haiford, "The Geographical Pot of History” In: Dameeroticfeas tant ool (ath additional paper. Nova York: Tae Norton Library, 1952, p. 242, promenn HlaLvorp Macxinper & A Gzoronizica no Auantiann 81 cia ¢, seguramente, pela maioria de seus contemporineos. Vista na perspectiva de 1996, a afirmacio de Mackinder adquire um sentido quase prosaico. Depois da experiéneia de duas guerras mundiais ¢ da confrontacio global Leste- Oeste, constatar, neste final de século, que o planeta consti tui uma unidade compacta ¢ repetir uma verdade auto-evi- dente que raia as beiras da obviedade. Porém, quando se contextualiza tal afirmagio, verificase que o gedgrafo brita- nico antecipou em uma década a guerra geral dos “Trinta e Um Anos” (1914-1945), que envolven as grandes poténcias, primeiro em ambito europeu e depois em escala mundial’. Dito de outra forma, o que é atualmente uma constatacdo de senso comum era, em 1904, uma formulacéo intelectual audaciosa, arrojada e revolucionsria. Numa época de hege- monia global da civilizacio ewropéi tico Fech a nogao de sistema polt (ao, utilizada para qualificar a nova realidade mun- dial, cra indubitavelmente uma formulagio inédita, pioneira € inovadora, cujo enorme alcance para a compreensio das questoes internacionais do século recém-iniciado ultrapassava em muito a tacanha mentalidade eurocéntrica da era vitoriana, No comeco do século predominava nos circulos politicos ¢ intelectuais europeus a concepgao de um sistema interna. ional regional, homogénco e multipolar, segundo a classifi- cago aroniana. Hsse ordenamento politico era formado pelo seleto clube das grandes poténcias européias — Gri-Breta nha, Franca, Alemanha, Austria-Hungria, Riissia ¢ Itélia —, cujo poder tentacular ramificavase por todos os continentes nos seus dominios ultramarinos € possess6es coloniais. No 9° -Hbsbawm, Eri. fr das exriat fo reve seule XX) Sao Pavo: Compania cae Letras, 1985, p. 30, 32 HaLrorp Macinper & » Gzovoninica no HEARr/Anp interiar do concerto europeu estava em curso um processo de polurizagao politico-militar que acabaria agrupando as poténcias rivais em dois blocos antagénicos: a Triplice Alian- gaea Triple Entente. Por outro lado, na periferia do concerto europeu estavam em ascenstio, na América do Norte e na Asia Oriental, duas poténcias insulares que adotavam em relagio & Europa uma politica isolacionista: os Estados Unidos 0 Japio. Para cidadio comum de Londres, Paris, Berlim, Viena ou Roma, que se sentia no umbigo do mundo, ao olhar o mapa de projeciio Mercator, aquelas duas poténcias emergenies situa vam-se nos antipodas do planeta. Em rigor, os contempora- neos de Mackinder chegaram muito tardiamente A conscién- cia de que a ordem internacional deixara de ser um concer- to europeu para tornarse um sistema planetario. Esse fato ‘ocorreu apenas em 1917, quando, com a interyencéo militar dos Estados Unidos, a “guerrs civil européia” wansformou- se num conflito de proporgses mundiais*, A CAUSALIDADE GROGRAFICA NA HISTORIA UNIVERSAL A concepgio de uma ordem mundial estruturada como unidade compacta permitiu a Mackinder desenvolver a idéia de uma histria universal baseada na causalidade geogréfi- ca. A propasta de Mackinder era realizar uma abordagem da histéria mundial A Juz dos fendmenos e dos fatos da geograe fia. Para cle, a unificago do mundo pelo terceiro surto ex- pansionista europeu oferecia a oportunidade inédita de ge- + Avon, Raymond, Kirudo folteos 2 ed. Brass Eitora UNB, 1985, p. 488. ‘Hlarorn Mackiwpgs £4 Grorotittéa po Heanrtann 33 neralizar ¢ correlacionar as reatidades geograficas globais € 0s pracessos histéricos globais, sintetizando-os numa formu- la abrangente ¢ capaz de exprimir “alguns aspectos da causalidade geogrifica na histéria universal.” E perceptivel que a questio da causalidade geografica na histéria aproxima Mackinder muito mais do dererminismo marxista que da pluricausalidade weberiana. © primado atri- buido uos condicionamentos geogrificos revela a ekisténcia de certos paralclismos entre Marx ¢ Mackinder, uma ver. que ambos tém da‘histéria uma visio materialista, unicausal € te- leoldgica. Eainda que sejam Filosofias da histéria radicalmen- te distintas, as duas concepgdes apresentarm inusitados e inte- ressantes aspectos de paralelismo ou de convergéncia. Esquematicamente, a concepgéo marxista tem como fun- damento irredutivel a determinacao da base econémica so- breasuperestrutura politico-ideotégica, a luta de classes entre propriesétios dos meios de producao ¢ detentores da forga de trabalho, a destruigio do sistema capitalista pela revolu- cio proletiria c a construgio de uma futura sociedade co- munista. A visio mackinderiana bascie-se no condicionamen- to exercido pelas realidades geogréficas sobre os processos historicos, no confronto secular entre as poténcias oceanicas © as poténcias continentais, assim como no declinio da su- premacia mundial do poder marftimo ¢ no advento da era pés-colombiana do poder terrestre. 2 Mackinder, Ualfordj."The Geographical Pivot of History” ns Demonic eas and Reni (vith aitional ppers). Nova York: The Newton Libraey, 1902, p 3119.