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Domesmoautor:Adeusàsarmas

Aquinta-coluna

AsilhasdacorrenteContos(Obracompleta)Contos–Vol.1

Contos–Vol.2

Contos–Vol.3

Dooutroladodorio,entreasárvoresErnestHemingway,repórter:tempodemorrerErnestHemingway,repórter:tempodeviver

MorteaoentardecerOjardimdoÉdenOsoltambémselevantaOvelhoeomar

OverãoperigosoPariséumafestaPorquemossinosdobramTerenãoter

Verdadeaoamanhecer

5ªedição Tradução JoséJ.Veiga RiodeJaneiro|2015

5ªedição

Tradução

JoséJ.Veiga

5ªedição Tradução JoséJ.Veiga RiodeJaneiro|2015

RiodeJaneiro|2015

Copyright©1999byHemingwayForeignRightsTrust

“Umatravessia”:copyrightoriginal©1934InternationalMagazineCo.,Inc.,copyrightrenovado©1962JohnHemingway,PatrickHemingway

eGregoryHemingway;“Oregressodomercador”:copyrightoriginal©1936Esquire,Inc.,copyrightrenovado©1964JohnHemingway,

PatrickHemingwayeGregoryHemingway;“Adenúncia”e“Aborboletaeotanque”:copyrightoriginal©1938Esquire,Inc.,copyright

renovado©1966JohnHemingway,PatrickHemingwayeGregoryHemingway;“Vésperadebatalha”:copyrightoriginal©1939Esquire,

Inc.,copyrightrenovado©1967JohnHemingway,PatrickHemingwayeGregoryHemingway;“Aopédacordilheira”e“Ninguémmorre

jamais”:copyrightoriginal©1939HearstMagazines,Inc.,copyrightrenovado©1967JohnHemingway,PatrickHemingwayeGregory

Hemingway;“Oleãobondoso”e“Otourofiel”:copyrightoriginal©1951ErnestHemingway,copyrightrenovado©1979JohnHemingway,

PatrickHemingwayeGregoryHemingway;“Arranjeumcachorrodecego”e“Umhomemexperiente”:copyrightoriginal©1957TheAtlantic

Monthly,copyrightrenovado©1985MaryHemingway;“Veranistas”e“Quandoomundoeranovo”:copyrightoriginal©1972TheErnest

HemingwayFoundation;“Episódioafricano”:copyrightoriginal©1986JohnHemingway,PatrickHemingwayeGregoryHemingway;

“Viagemdetrem”,“Ocabineiro”,“Burropretonaencruzilhada”,“Paisagemcomfiguras”,“Cadaissonoslembraumaquilo”,“Boas

notíciasdeterrafirme”e“Umpaísestranho”:copyrightoriginal©1987TheErnestHemingwayFoundation.

Títulooriginal:ThecompleteshortstoriesofErnestHemingwayCapa:AngeloAllevatoBottino

Imagemdecapa:DavidMerewether-ColeçãoDorlingKindersley/GettyImagesEditoraçãoeletrônicadaversãoimpressa:ImagemVirtual

EditoraçãoLtda.

Preparaçãodetexto:VeioLibri

TextosegundoonovoAcordoOrtográficodaLínguaPortuguesa2015

ProduzidonoBrasil

ProducedinBrazil

Cip-Brasil.Catalogaçãonafonte

SindicatoNacionaldosEditoresdeLivros.RJ

H429c

Hemingway,Ernest,1899-1961

Contos,volume3[recursoeletrônico]/ErnestHemingway;traduçãoJ.J.Veiga.-1.ed.-RiodeJaneiro:BertrandBrasil,

2015.

recursodigital(Contos;3)

Traduçãode:ThecompleteshortstoriesofernesthemingwaySequênciade:Contos:volume2

Formato:ePub Requisitosdosistema:AdobeDigitalEditionsMododeacesso:WorldWideWeb

ISBN978-85-286-2133-4(recursoeletrônico)1.Ficçãoamericana.2.Livroseletrônicos.I.Veiga,J.J.II.Título.III.Série.

15-23895

CDD:813

CDU:821.111(73)-3

Todososdireitosreservadospela:

EDITORABERTRANDBRASILLTDA.

RuaArgentina,171—2ºandar—SãoCristóvão

20921-380—RiodeJaneiro—RJ

Tel.:(0xx21)2585-2070Fax:(0xx21)2585-2087

Tel.:(0xx21)2585-2070Fax:(0xx21)2585-2087 Atendimentoevendadiretaaoleitor: mdireto@record.com.br

Atendimentoevendadiretaaoleitor:mdireto@record.com.brou(0xx21)2585-2002

Sumário

Umatravessia

Oregressodomercador

Adenúncia

Aborboletaeotanque

Vésperadebatalha

Aopédacordilheira

Ninguémmorrejamais

Oleãobondoso

Otourofiel

Arranjeumcachorrodecego

Umhomemexperiente

Veranistas

Quandoomundoeranovo

Episódioafricano

Viagemdetrem

Ocabineiro

Burropretonaencruzilhada

Paisagemcomfiguras

Cadaissonoslembraumaquilo

Boasnotíciasdaterrafirme

Umpaísestranho

UMATRAVESSIA

U MATRAVESSIA SabecomoédemanhãcedoemHavana,mendigosbêbadosaindadormindojuntoàsparedesdosprédios, antesmesmode

SabecomoédemanhãcedoemHavana,mendigosbêbadosaindadormindojuntoàsparedesdosprédios, antesmesmode chegaremascarroçasde geloparaosbares?Atravessamosapraçapartindodocaisparao Perla de San Francisco a fim de tomar café, e só tinha um mendigo acordado na praia bebendo água da fonte.Mas,quandoentramosnocaféenossentamos,ostrêsjánosesperavam.Umdelesseaproximou. —Eentão?—perguntou. —Nãoposso—respondi.—Gostariadefazercomofavor.Maslhedisseontemquenãoposso. —Dáoseupreço. —Nãoéisso.Équenãoposso. Os outros dois tinham se aproximado também e os três ficaram parados ali com ar triste. Pareciam pessoasdebemeeugostariadeprestar-lhesofavor. —Milporcabeça—disseoquefalavainglêsbem. —Nãomefaçamperderaalegria—respondi.—Nãopossomesmofazerisso. —Depois,quandoascoisastiveremmudado,nãosignificarámuitoparavocê. —Eusei.Estoucomvocês.Massimplesmentenãoposso. —Porquenão? —Ganhoavidacomobarco.Seoperder,percoomeumeiodevida. —Comodinheiropodecompraroutrobarco. —Nãoseestivernacadeia. Devemterpensadoqueeuquerianegociar,porqueoprimeirocontinuouinsistindo. — Você ganharia três mil dólares que lhe iam fazer muito bem mais tarde. Isso não vaidurar, você

sabe.

— Olhe — disse eu. — Não me interessa quem é presidente aqui. Mas não levo para os Estados Unidosnadaquepossafalar. —Querdizerquevamosfalar?—disseumqueaindanãotinhaditonada.Estavazangado. —Eudissenadaquepossafalar.

—Pensaquesomoslenguaslargas? —Não. —Sabeoqueélengualarga? —Sei.Élínguacomprida. —Sabeoquefazemoscomeles? —Nãosejadurocomigo—disseeu.—Vocêmefezumaproposta.Eunãolheoferecinada. —Caleaboca,Pancho—disseaoenfezadooquetinhainiciadoaconversa. —Eledissequevamosfalar—dissePancho.

— Olhe, eu disse a vocês que não levo nada que possa falar. Bebida ensacada não fala. Garrafões empalhadosnãofalam.Temoutrascoisasquenãofalam.Homensfalam. —Chinesesfalam?—perguntouPanchoemtomzangado. —Podemfalar,maseunãoosentendo—respondi. —Entãonãoaceitamesmo? —Écomoeudisseontemdenoite.Nãoposso. —Masvocênãofala?—dissePancho. Opontoqueelenãotinhaentendidodireitooirritara.Eachoqueentroutambémodesapontamento. Nãorespondiaele. —Vocênãoélengualarga,é?—perguntoueleaindazangado. —Achoquenão. —Comoassim?Estánosameaçando?

— Olhe, não fique tão irritado de manhã cedo. Você deve ter degolado muita gente. Ainda nem tomeicafé. —Entãovocêachaquedegoleigente? —Não.Enãomeinteressa.Nãopodeconversarsemficarzangado? —Estouzangadoagora.Comvontadedematarvocê. —Orabolas!—respondi.—Vocêfalademais.

— Vamos, Pancho — disse o primeiro. Depois para mim: — Sinto muito. Seria bom se você nos

levasse. —Eutambémsintomuito.Masnãoposso. Os três caminharam para a porta, eu os acompanhei com o olhar. Eram jovens bem apresentáveis, usavamboasroupas;nenhumusavachapéu,epareciamtermuitodinheiro.Falavammuitoemdinheiro,e falavamoinglêsquecubanosricosfalam. Doispareciamirmãos,eoterceiro,Pancho,eraumpoucomaisalto,mastinhaomesmoaspectodos outros. Esbelto, boas roupas, cabelo lustroso. No aspecto não era rude como na fala. Devia estar muito nervoso. Quandosaíramecaminharamparaadireita,viumcarrotodofechadoatravessandoapraçanadireção deles. Uma vidraça quebrou-se e a bala fez estragos nas garrafas expostas nomostruárioque ficava numa

paredeàdireita.Ouviosdisparoseasgarrafasestourandoemtodaaparede. Puleipara trás do balcão no lado esquerdo e fiqueiagachado olhando. O carro estava parado e havia dois sujeitos agachados ao lado dele. Um tinha uma metralhadora Thompson e o outro, uma carabina automáticadecanoserrado.Odametralhadoraeranegro.Ooutrousavaguarda-póbrancodemotorista. Umdosrapazesestavaestiradonacalçada,debarrigaparabaixo,aopédajanelaesfacelada.Osoutros

dois estavam atrás de uma das carroças de cerveja Tropical paradas na frente do bar Cunard, pegado ao café.Umdoscavalosdacarroçaestavacaídocomosarneses,escoiceando,eooutrodecabeçapendida. Umdos rapazes disparoude umcantotraseirodacarroça, abalaricocheteounacalçada. O negroda metralhadora abaixou-se quase encostando o rosto no chão e deu uma rajada por baixo da carroça, que derrubou pelo menos uma pessoa, a qual caiu para o lado da calçada com a cabeça sobre o meio-fio. Ele ficoulácomasmãosnacabeça,eomotoristaatirounelecomaespingarda,enquantoonegrorecarregava ametralhadora;maserrou.Podiam-severmarcasdebalasemtodaacalçada,comoborrifosdeprata.

Ooutrorapazpuxoupelaspernasoqueestavacaídoeotrouxeparatrásdacarroça.Onegroabaixou-

se novamente noasfaltoparaatirar.AíviPanchodaravoltapelatraseiradacarroçae pisarnocabrestodo cavaloque aindaestavaempé.Afastou-se docavalo, orostobrancocomopapel, e visouomotoristacom aLugerqueseguravacomasduasmãosparaterfirmeza.Deudoistiros,quepassaramporcimadacabeça donegro,emaisum,quetambémnãoacertou. Acertounumpneudocarro,porquevipoeiraseerguendodaruasopradapeloar,eatrêsmetrosde distância o negro acertou-o na barriga com a metralhadora, gastando talvez a última bala, pois largou a armaemseguida.Panchocaiusentadoe se inclinouparaafrente.Tentavalevantar-se, aindacomaLuger na mão, mas não podia erguer a cabeça, e o negro pegou a espingarda que o motorista tinha deixado encostadanarodadocarroeestourouacabeçadePancho.Umnegroetanto. Tomei um gole da primeira garrafa que encontrei aberta e até hoje não posso dizer do que era. Aquilo tudo me deixou transtornado. Escorreguei por trás do balcão, passei para a cozinha e saí do café. Deixeia praça para trás e nem olheina direção da multidão que já se formava na frente do café. Passeio portão,entreinocaisepuleiparaobarco. Ocamaradaqueotinhaalugadoestavaabordoesperando.Contei-lheoacontecido. —EEddy?—perguntouJohnson,ocamaradaquetinhaalugadoobarco. —Nãoovimaisdepoisqueotiroteiocomeçou. —Achaqueelefoibaleado? — Ah, não. Os únicos tiros que entraram no café foram os que quebraram o mostruário. E isso foi quandoocarrovinhaatrásdeles.Quandoatiraramnorapazbemnafrentedajanela.Atiraramnumângulo assim… —Vocêfalacommuitacerteza. —Euestavaolhando. Aí, levantando os olhos, vi Eddy vindo pelo cais, mais alto e desleixado do que nunca. Caminhava comasjuntasemmovimentosdesencontrados.

—Olheeleaí. Eddypareciapéssimo.Jánãoestavabemdemanhãcedo,agorapareciabempior. —Ondeesteve?—perguntei. —Nochão. —Viutudo?—perguntouJohnson. —Nãomefalenisso,sr.Johnson.Mesintomalsódepensar. —Émelhortomarumdrinque—disseJohnson.Eparamim:—Vaisair? —Vocêéquemsabe. —Comoseráquevaiserodia? —Comoontem.Talvezmelhor. —Entãosaímos. —Logoquechegaremasiscas. Faziatrêssemanasqueestávamossaindoparapescarnacorrenteeeuaindanãotinhavistoodinheiro de Johnson, anãosercemdólaresque ele me deuparapagarocônsule alicença, comprarcomidae pôr gasolina no barco antes da travessia. Eu estava fornecendo todo o equipamento e ele alugara o barco a trintaecincodólarespordia. —Precisopôrgasolina—disseeuaJohnson. —Certo. —Precisodedinheiroparaisso. —Quanto? —Custavinteeoitocentavosogalão.Precisopôrquarentagalões.Aotodo,onzeevinte. Eletirouquinzedólares. —Queraplicarorestoemcervejaegelo?—perguntei. —Ótimo.Abatenoqueeulhedevo. Euestavaachandoque trêssemanaseramuitotempoparaficaraserviçodele, mas, se ele cumprisse o acertado, que diferença faria? Só que ele devia pagar semanalmente. Uma vez deixei correr um mês e acabeirecebendoodinheiro.Noprincípioacheibomdeixar obarconas mãos dele; sónos últimos dias é que fui ficando nervoso, mas evitei dizer qualquer coisa com medo de levar bala. Se ele era bom no negócio,quantomaistempodurasse,melhor. —Pegueumagarrafa—disse-meeleabrindoumacaixadecerveja. —Não,obrigado. Nesse momentoonegroque nos forneciaiscaapareceunocais e eudisse aEddyparapreparar para zarpar. O negro subiu a bordo com a isca, soltamos as amarras e fomos nos afastando do cais, o negro iscando duas cavalas, enfiando o anzol pela boca e empurrando a ponta pelas guelras, abrindo o lado e atravessando-ocomoanzol, fechandoabocacomoarame daguiae prendendobemoanzolparaele não escorregareaiscairsearrastandosemgirar.

Era um negro retinto, inteligente e triste, com um colar de contas azuis de vodu no pescoço, por baixo da camisa, e na cabeça um velho chapéu de palha. O que ele mais gostava de fazer a bordo era dormirelerjornais.Massabiaiscarmuitobem,eligeiro. —Vocêécapazdeiscarassim,capitão?—perguntou-meJohnson. —Sim,senhor. —Porqueprecisadeumnegroparafazerisso? —Quandoaparecerpeixegrandevocêvaisaber. —Comoassim? —Onegroiscamaisdepressadoqueeu. —Eddynãopodeiscar? —Não,senhor. —Mepareceumadespesadesnecessária.—Elepagavaumdólarpordiaaonegroeonegrodançava rumbatodasasnoites.Jáestavaficandosonolento. —Eleénecessário—disseeu. Já passávamos as sumacas com seus carros de peixe ancoradas em frente ao Cabañas, e os esquifes tambémancoradospescandopeixe-carneiropertodoMorro.Aprumeiobarcoparaonde ogolfoformava umalinhaescura.Eddylançouasduasarmadilhasgrandes,eonegroiscoutrêsvaras. Estávamos perto da corrente e, quando já íamos quase entrando nela, vimos a mancha avermelhada com os redemoinhos habituais. Soprava uma brisa leve e logo apareceu uma infinidade de peixes- voadores,daquelesgrandõesqueparecemafotografiadeLindberghatravessandooAtlântico.

Essespeixes-voadoresgrandessãoomelhorsinal.Atéondeavistaalcançavaeraaquelaalgaamarelo-

clara aqui e ali, que indica que a corrente principal é ali mesmo, e à nossa frente bandos de aves acompanhavam um cardume de atuns pequenos, pulando; tão pequenos que não deviam pesar nem um quilo. —Podecomeçarquandoquiser—disseeuaJohnson. Ele pôs o cinturão e as correias e pegoua vara grande com o molinete Hardyde quinhentos metros delinhanúmerotrintaeseis.Olheiparatráseviaiscagirandobemeacompanhandoaesteira.Vitambém asduasarmadilhasqueafundavamesubiam.Avelocidadeeraquaseideal;aprumeiobarcoparadentroda corrente. —Nãotire ocabodavaradosoquete nacadeira—disse euaJohnson.—Assimavaranãoficatão pesada. Não solte o arrasto por enquanto, espere o peixe morder. Se um peixe morder com o arrasto solto,elepuxavocêpraforadobarco. Eu dizia essas mesmas coisas todos os dias a Johnson, mas não fazia mal. Só dois por cento dos pescadores sabem pescar. E os que sabem passam a maior parte dotempoapalermados e querem utilizar linhaquenãoserveparapeixegrande. —Comoestáodia?—perguntouJohnson. —Melhornãopodiaser.—Eramesmoumdiaexcelente.

Dei a roda do leme ao negro e disse a ele para ir acompanhando a beira da corrente para leste, e volteiparapertodeJohnson,queseguiacomoolharoarrastodaiscanaágua. —Querqueeulanceoutravara?—perguntei. —Achoquenão.Querofisgar,lutaretiraropeixeeumesmo. —Ótimo.QuerqueEddyprepareoutravaraeapasseavocêseaparecerumsegundopeixe? —Não.Prefiroumavarasó. O negro continuava ao leme. Quando o olhei, ele acompanhava com os olhos um bando de peixes- voadoresemnossafrente.Atrás,via-seHavanabrilhandoaosoleumnaviosaindodoporto. —Achoquehojevaiteroportunidadedelutarcomumpeixe,sr.Johnson. —Atéqueenfim!Háquantotempoestamosnomar? —Hojefaztrêssemanas. —Émuitotempoparaficarpescando.

— São peixes estranhos. Quando parece que não tem nenhum, eles aparecem. E aparecem aos

montes.Esempreaparecem.Quandonãoaparecemnestaquadradoano,nãoaparecemmais.Aluaestána fasecerta.Acorrenteéboaevamosterbrisa. —Daprimeiravezqueviemoshaviaalgunspeixespequenos. —Écomoeulhedisse.Ospequenosrareiamesomemantesdeapareceremosgrandes.

— Vocês, capitães de pesca esportiva, usam sempre o mesmo argumento. Ou é muito cedo, ou é

muito tarde, ou o vento sopra errado, ou a lua não está na fase certa. Mas recebem o seu dinheiro do mesmojeito. — Pois fique sabendo que o problema é esse; geralmente é muito cedo oumuito tarde, e na maior partedotempooventosopraerrado.E,quandosetemumdiaperfeito,fica-senocaissemclientela. —Achaquehojeéumdiaperfeito?—perguntouJohnson. —Bem,omeudiahojejáfoimuitomovimentado.Masachoquepossogarantirqueosenhorvaiter muitaagitação. —Tomaraquesim—disseele. Instalamos o molinete. Eddy foi para a proa e deitou-se. Fiquei em pé atento ao aparecimento de algumabarbatana.De vezemquandoonegrocochilava,maseunãotiravaosolhosdele.Nacertaele não dormiradenoite. —Vocêseimportariademetrazerumagarrafadecerveja,capitão?—pediu-meJohnson. —Não,senhor—respondi,emergulheiamãonogeloparapegar-lheumagelada. —Nãoquerumatambém?—perguntouele. —Não,senhor.Vouesperaranoite. Abriagarrafae iapassá-laaele quandovioenorme vultopardocomumaespadamaiscompridado que um braço. A cabeça e parte do dorso fora d’água. Era mais robusto do que uma grossa tora de madeira. —Dêlinhaaele!—gritei.

—Elenãoengoliuaisca—disseJohnson. —Entãosegure. Opeixetinhavindodasfunduraseerraraaisca.Eusabiaqueeleiadaravoltaetentardenovo. —Prepare-separadarlinhalogoqueeleengoliraisca. Ele reapareceuaré, mas submerso. As barbatanas se mostravamforad’águacomoasas vermelhas, e

ele tinhalistras vermelhas nobojopardo.Deslizavacomoumsubmarino, e abarbatanade cimacortavaa água.Surgiubematrásdaisca,eaespadaapareceuinteiraforad’água. —Espereeleengolir—disseeu.

Johnsontirouamãodocarreteldomolinete,quecomeçouasedesenrolar,eograndemarlimvirou-

seeafundou;viocorpointeirodelebrilhandocomoprataquandoeleviroudeladoerumourápidoparaa

praia.

—Dêumpoucodearrasto.Sóumpouco—disseeu.

Johnsondesenrolouoarrasto.

—Sóumpouco—repeti.Alinhainclinou-se.—Agoratraveomolineteedêumapuxada.Épreciso

darumapuxada.Dequalquermaneiraelevaisaltarmesmo.

Eletravouomolineteepassouacuidardavara.

—Umapuxada.Éparacravarbemoanzol.Dêumasseispuxadasfortes.

Johnsondeumaisduaspuxadasfortes,avarasecurvouemduas,omolinetecomeçouaguincharelá

surgiuobichonumcompridosaltoverticalcomoprataaosol,espadanandoáguacomocavalocaídodeum

barrancoalto.

—Alivieoarrasto.

—Escapuliu—disseJohnson.

—Escapuliunada.Afrouxeoarrastoumpouco.

A linha curvou-se, e no salto seguinte o bicho estava a ré e nadando para o mar aberto. Logo

reapareceu espalhando água, e vi que estava fisgado pelo canto da boca. As listras apareciam nítidas. Era

umbelopeixe,prateadocombarravermelhaedagrossuradeumatora. —Escapuliu—disseJohnson.—Alinhaestavafrouxa. —Enrolealinha.Estáfisgado.Emfrente,comtodaaforça!—griteiparaonegro. Uma, duas vezes o peixe emergiu teso como um poste, saltando em nossa direção com o corpo

inteiro, jogandoáguaparaoaltoaofimde cadasalto. A linhaesticou-se, e vique ele rumavanovamente paraapraia,maslogocomeçouavirar. —Agoravaicomeçaracorrida—disseeu.—Seeletomaroanzol,vamosatrás.Mantenhaoarrasto frouxo.Temlinhasuficiente.

O belo marlim rumou para noroeste como fazem os peixes grandes — e como tomou o anzol!

Começoua saltar em curvas compridas, e cada esparramo era como um barco de corrida no mar. Fomos atrás dele, mantendo-o na lateral depois que fiz a curva. Assumi o leme e fiquei gritando para Johnson

manter oarrastocurtoe enrolar depressa. De repente a vara estremeceue a linha afrouxou. Eusabia que estavafrouxaporcausadopesodacurvadebaixod’água. —Escapuliu—disseeuaJohnson.Opeixeaindasaltava,econtinuousaltandoatésumirdevista.Era umbelopeixe,semdúvida. —Aindasintoopuxãodele—disseJohnson. —Éopesodalinha. —Malconsigoenrolar.Talvezestejamorto—disseJohnson. —Olheelesaltando.—Estavaaquaseumquilômetrodedistânciaesparramandoágua. Experimenteioarrasto.Estavabemtravado.Nãosepodiaenrolarnemumpalmodelinha.Tinhaque arrebentar. —Eudisseparamanteroarrastofrouxo. —Maselenãoparavadetomarlinha. —Edaí? —Daíeutravei. —Olheaqui.Senãosederlinhaquandoelestomamoanzol,elesarrebentamalinha.Nãotemlinha que aguente aforçadeles.Quandoqueremlinha, temosque dar.Éprecisomanteroarrastofrouxo.Nem ospescadoresprofissionaisconseguemmanteralinhaesticadamesmoque sejade arpão.Oque podemos fazer é utilizar o barco para persegui-los para que não tomem a linha toda quando estão em corrida. Quandoacabamacorridadãosinal,eaípode-seesticaroarrastoerecolheralinha. —Querdizerentãoque,sealinhanãotivessearrebentado,euoteriapescado? —Poderiaterpescado. —Eelenãoconseguiriacontinuarnadandotãodepressapormuitotempo,conseguiria? —Elespodemfazermuitomaisdoqueisso.Depoisqueacorridaacabaéquealutacomeça. —Poisvamospegarum—disseJohnson. —Primeiroéprecisoenrolaralinha. FisgamosaquelepeixeeoperdemossemacordarEddy.Agoraelevoltavaàpopa. —Oquefoiquehouve?—perguntou. Eddy foi bom marujo antes de se apaixonar pela garrafa. Olhei ele lá parado, compridão e de rosto chupado, a boca mole e as manchas brancas nos cantos dos olhos, o cabelo descorado pelo sol. Eu sabia queeletinhaacordadoloucoporumtrago. —Émelhortomarumagarrafadecerveja—sugeri.Eletirouumagarrafadogeloebebeu. — Sabe, sr. Johnson — disse —, acho melhor eu dormir um pouco mais. Muito obrigado pela cerveja.—EsseeraovelhoEddy.Nãoestavanemdelongeinteressadoempeixes. Por volta do meio-dia fisgamos outro peixe, e ele escapou com um salto. Vimos o anzol subir dez metrosnoar. —Qualfoiomeuerrodestavez?—perguntouJohnson. —Nenhum.Elecuspiuoanzol.

—Sr.Johnson—disse Eddy, que tinhase levantadoparapegar mais umacerveja.—Sr.Johnson, o senhornãotemsortecomopescador.Talveztenhacommulheres.Sr.Johnson,quetalsairmosestanoite? —E,dizendoisso,Eddyvoltouàproaparasedeitar. Pelas quatro da tarde, quando voltávamos para a praia tangenciando a corrente como numa levada, com o sol em nossas costas, o maior marlim-negro do mundo mordeu a isca de Johnson. Tínhamos lançadoumcachodelulasepegadoquatroatunspequenos,eonegroiscouoanzolcomum.Aiscacorria poucoabaixodasuperfície,maslevantavabompenachod’água. Johnson tirou a capa de couro do cabo da vara para poder prendê-la com os joelhos porque estava com os braços cansados de segurá-la o tempo todo. Como também estava com as mãos doloridas de segurarem a carretilha do molinete para manter o arrasto da isca, ele travou o arrasto, aproveitando a minhadistração.Nãopercebiqueeletinhatravadooarrasto.Nãogosteidojeitocomoeleseguravaavara, mas nãoqueriaestar censurando-ootempotodo. Alémdomais, comoarrastopreso, alinhase esticaria semnenhumperigo.Masnãodeixavadeserumamaneirarelaxadadepescar. Euestavacomoleme mantendoobarconabeiradacorrente opostaaumavelhafábricade cimento onde omaré fundopertodapraiae formaumaespécie de contracorrente naqualse juntamuitaisca.De repente vejo um esparrinhar como o de bomba de profundidade, e depois a espada, o olho e a queixada inferiorabertaeacabeçarubro-negradeummarlimpreto.Todaanadadeirasuperiorestavaforad’água,e pareciadaalturadeumnavioarmadoemgalera.Abarbatanadacaudaficouinteiraforad’águaquandoele atacou o atum. O bico tinha o diâmetro de um taco de beisebol e era inclinado para cima. Quando abocanhoua isca cortoufundoomar. Era preto-avermelhado, oolhodotamanhode uma tigela de sopa. Eraenorme.Deviapesarmeiatonelada. GriteiparaJohnsondarlinha,mas,antesdepoderdizerqualquercoisa,ovisubirnoarcomoquese levantadoporumguindaste,elesegurandoavaraporumsegundo,avaraencurvadacomoarcodeflecha; emseguidaocabodavarapegou-onabarrigaetodooequipamentocaiunaágua. ComoJohnsontinhatravadooarrasto,quandoopeixearrancoulevantou-odacadeiraeeleficousem ação.Quandosentadoele tinhaocabodavaradebaixode umapernae avaranocolo.Se estivesse comas correiasafiveladas,eleteriaidojuntocomoequipamento. Desligueio motor e corrià popa. Johnsonestava lá sentado com as mãos na barriga onde o cabo da varaoatingira. —Achoqueporhojechega—disseeu. —Quebichoeraaquele?—perguntou-me. —Ummarlim-negro. —Comofoiqueaconteceu? — Faça o cálculo. O molinete custou duzentos e cinquenta dólares. Hoje custa mais. A vara custou- mequarentaecinco.Haviaunsquinhentosmetrosdelinhanúmerotrintaeseis. NessemomentoEddybateunascostasdeJohnson. —Sr.Johnson—disse—,osenhoréazarado.Nuncavicoisaigualemtodaaminhavida.

—Caleaboca,seucachaceiro—disseeuaEddy. —Poisfiquesabendo,sr.Johnson—continuouele—,quefoiacoisamaisincrívelquejávi. —Oqueéqueeudeviafazersefosselevadoporumpeixecomoaquele?—perguntouJohnson. —Issoéoqueacontecequandosequerlutarporcontaprópria—disseeu.Euestavafulocomele. —Sãograndesdemais—disseJohnson.—Vaiverquefoicastigo. —Umpeixecomoaquelemataqualquerpessoa. —Mastemquemospesque. —Tem,sim,massógentequesabepescar.Masnãopensequeessestambémnãosãocastigados. —Viafotografiadeumamoçaquepescouum.

— Eaindapesca. Ele engoliuaisca, e quandofoipuxadooestômagoveiotambém, e ele morreu. É

precisodarlinhaquandoelessãofisgadospelaboca. —Massãomuitograndes—disseJohnson.—Senãoédivertido,porquepescar?

— Exatamente, sr. Johnson — disse Eddy. — Se não é divertido, por que pescar? Sr. Johnson, o

senhoracertounamosca.Senãoédivertido,paraquefazerisso? Euaindatremiacomoepisódio.Pensavanoequipamentoperdidoenãoconseguiaprestaratençãona conversa deles. Mandei o negro aproar para o Morro. Eles ficaram lá sentados, Eddy numa cadeira com umagarrafadecervejaeJohnsoncomoutra.Nãoabrimaisminhaboca. —Capitão,podemeprepararumuísquecomsoda? Preparei a bebida para ele sem dizer nada, depois uma para mim. Pensei comigo mesmo, esse Johnsonestápescandoháquinzedias,fisgaumpeixequequalquerpescadorprofissionalesperariaumano para conseguir, perde o peixe, perde o meu equipamento caro, faz papel de bobo e fica aí sentado todo contentebebendocomumcachaceiro. Quandochegamosaocaiseonegroficouempéesperando,eudisse:

—Eamanhã? —Achoquenão—respondeuJohnson.—Estoucansadodessatalpescaria. —Nãovaipagaronegro? —Quantodevoaele? —Umdólar.Podedarmaissequiser. Johnsondeuaonegroumdólareduasmoedascubanasdevintecentavos. —Paraqueisso?—perguntouonegroamimmostrandoasmoedas. —Gorjeta—expliqueiemespanhol.—Vocêestádispensado.Eleestálhedandoisso. —Nãovenhoamanhã? —Não. O negro pega a maçaroca de barbante que usava para amarrar iscas, pega os óculos escuros, põe o chapéudepalhaesaisemsedespedir.Eraumnegroquenãoligavaamínimaanenhumdenós. —Quandovamosacertarascontas,sr.Johnson?—perguntei. —Vouaobancoamanhãcedo.Acertamosàtarde.

—Sabequantosdiassão? —Quinze.

— Não. São dezesseis com hoje, e dois dias para ir e vir são dezoito. E tem também a vara, o

molineteealinha. —Oequipamentoériscoseu—disseJohnson. —Não,senhor.Nãoquandoéperdidodaquelejeito. —Alugueioequipamentopordia,epaguei.Oriscoéseu. —Não,senhor—respondi.—Seopeixetivessequebradooequipamentosemqueosenhortivesse culpa,seriadiferente.Osenhorperdeuoequipamentoporpurodescaso. —Opeixearrancou-odeminhasmãos. —Porqueosenhortravouoarrastoenãoestavacomavaranacaçapa. —Vocênãotemodireitodecobrarisso. —Se osenhoralugasse umcarroe odeixasse cairnumdespenhadeiro,nãoachaque teriaque pagar oprejuízo? —Nãoseeuestivessenele—disseJohnson.

— Essa é muito boa, sr. Johnson — disse Eddy. — Está vendo, capitão? Se ele estivesse no carro, morreria.Logo,nãopoderiapagar.Essaémuitoboa. Nãodeiatençãoaocachaça. —Osenhormedeveduzentosenoventaecincodólarespelavara,molineteelinha—disseeuaele. —Nãoachojusto—disseJohnson.—Mas,sevocêacha,podemosracharadespesa. —Nãopossocompraroutropormenosde trezentose sessenta.Nãoestoucobrandopelalinha.Um peixecomoaquelepoderiatomaralinhatodaeosenhornãoteriaculpa.Sehouvessealguémaquiquenão

fosse cachaceiro, ele lhe diriaque estousendocorreto. Seique é muitodinheiro, mas eramuitodinheiro quandocompreiaqueleequipamento.Dojeitoqueosenhorpesca,nemomelhorequipamentodomundo teriaserventia.

— Sr. Johnson, ele diz que soucachaceiro. Posso ser. Mas ele está certo. Ele está certo e está sendo razoável—disseEddy.

— Não quero criar caso — finalizou Johnson. — Pago tudo, mesmo não concordando. Então são

dezoitodiasatrintaecincodólarespordia,emaisduzentosenoventaecincodeextraordinário. —Jámedeucem.Voulhedarumalistadetudooquegasteieabaterasobra.Oqueosenhorgastou comprovisõesnasidasevindas. —Muitojusto—disseJohnson.

— Olhe, sr. Johnson, se o senhor soubesse o que costumam cobrar de um estranho, veria que é muitomaisdoquejusto.Esabedeumacoisa?Estámuitobom—disseEddy.—Ocapitãoestátratandoo senhorcomoseosenhorfosseamãedele. —Vouaobancoamanhãeprocurovocêdetarde.Pegoobarcodiurnodepoisdeamanhã. —Podevoltarconoscoeeconomizarapassagemdodiurno.

—Não.Ganhotempocomodiurno. —Muitobem.Quetalumdrinque?—perguntei. —Aceito—disseJohnson.—Tudoempazentrenós? —Tudo—disseeu.Sentamosostrêsnapopaetomamosuísquecomsodajuntos. No dia seguinte trabalheino barco a manhã toda, trocando o óleo, acertando uma coisa e outra. Ao meio-dia fuià cidade alta e almoceinum frege chinês, onde se come bem por quarenta centavos; depois fizumascomprasparalevarparaminhamulherenossastrêsfilhas—perfume,unslequeseduasdaquelas travessasgrandesparacabelo.DeiumapassadanoDonovan, tomeiumacervejae converseicomovelho; depois voltei para o cais San Francisco, parando no caminho umas duas ou três vezes para beber uma cerveja.PagueidoisdrinquesaoFrankienoCunardeentreinobarcocomexcelentedisposição.Chegueisó com quarenta centavos no bolso. Frankie foi comigo para o barco, e, enquanto esperávamos Johnson, bebemosduascervejasgeladas. Eddynãotinhaaparecidonemde noite nematé aquelahoradodia, maseusabiaque acabariadando ascarasquandoocréditodelenapraçaseesgotasse.DonovanmedissequeEddytinhaestadoláporpouco tempo com Johnson na noite anterior, e Eddy pedira bebida fiado para os dois. Enquanto esperávamos comeceiame preocuparcomJohnson.Eutinhadeixadorecadonocaisparaele me esperarnobarco,mas me disseramque ele nãoaparecera.Acheique ele tivesse idodormirtarde e consequentemente acordado tarde. Os bancos fechavam às três e meia. Vimos o avião decolar. Por volta das cinco e meia eu já tinha deixadodemesentirbemejáestavamuitopreocupado. ÀsseishorasmandeiFrankieaohotelsaberseJohnsonestavalá.Euaindapensavaqueelepudesseter passadoanoite forae estarde ressacanohotel,semdisposiçãoparase levantar.Espereiaté bemtarde.Eu estavamuitopreocupadoporqueelemedeviaoitocentosevinteecincodólares. Fazia pouco mais de meia hora que eu tinha mandado Frankie ao hotel. Quando o vi de longe, ele vinhavoltandodepressaesacudindoacabeça. —Embarcounoavião—disse. Pronto. E agora?O consulado estava fechado, eutinha quarenta centavos e o avião já devia estar em Miami.Eeunempodiapassarumtelegrama.EsseJohnson!Culpaminha.Eudeviaterfarejado. —Muitobem—disse euaFrankie.—Oque podemos fazer é tomar umagelada.Osr.Johnsonas comprou.—SórestavamtrêsgarrafasdeTropical. Frankie estavatãodeprimidoquantoeu, e eunãoentendiaporque ele ficavame dandotapinhasnas costasesacudindoacabeça. A situação era esta. Eu estava duro. Perdi quinhentos e trinta dólares do fretamento e um equipamentoque nãopodiareporportrezentose cinquentadólares.Opessoalque passaotemponocais certamente ia ficar satisfeito, pensei. Alguns ilhéus na certa iam soltar foguetes. E pensar que no dia anterior eu tinha recusado três mil dólares para desembarcar três estrangeiros na Flórida. Em qualquer parte,sóparatirá-losdeCuba.

Poisbem—e agora?Eunãopodiatrazerumacargaporque paracomprarbebidaé precisodinheiro, ealémdomaisbebidanãoémaisonegócioqueera.Acidadeestáinundadadebebidaenãotemninguém para comprar. Mas que o diabo me levasse se ia voltar sem dinheiro e com a perspectiva de passar um verãocomfome naquelacidade.Eutinhafamília.A licençaestavapaga.Paga-se aodespachante adiantado eelecuidadetodosospapéis.Droga,eeusemdinheiroatéparaagasolina.Sinucapura.EsseJohnson! —Precisotransportaralgumacoisa—disseeuaFrankie.—Precisofazerdinheiro. —Vouveroquepossofazer—disseele. Frankie bate pernaspelabeira-mar, fazbiscates, é surdoe bebe muitotodasasnoites.Masaindanão conhecininguémmaislealnemmaishonesto.Euoconhecidesdequecomeceiafazeressastravessias.Ele meajudouacarregarobarcoinúmerasvezes.E,quandopasseiatransportarbebidaeafazerexcursõesde pescaesportivaeveioafebredopeixe-espadaemCuba,euoviasemprenocaisenoscafés.Elepareceum idiotaporquesorriemvezdefalar,massóporqueésurdo. —Estádispostoalevarqualquercoisa?—perguntouFrankie. —Estou.Nãopossoescolher. —Qualquercoisa? —Qualquercoisa. —Vouver.Ondepossoencontrarvocê? —NoPerla.Precisocomer. Pode-se comer razoavelmente no Perla por vinte e cinco centavos. Tudo no cardápio custa vinte centavos, excetoasopa, que custacinco.Fuiláapé comFrankie, euentreie ele continuouandando.Mas antespegou-meamãoesacudiuepôsaoutranasminhascostas. — Fique calmo — disse. — Eu, Frankie, muito jeitoso. Faz negócio. Bebe muito sem dinheiro. Mas grandeamigo.Fiquetranquilo. —Atéjá,Frankie.Fiquetranquilovocêtambém. Entrei no Perla e sentei numa mesa. Tinha vidro novo na vidraça que fora quebrada por bala, e a vitrineestavaconsertada.Muitosgalegosbebendonobarealgunscomendo.Numamesajogavamdominó játãocedo.Pediensopadode carne comfeijão-pretoe batatacozidaporquinze centavos.Umagarrafade cerveja Hatueyelevoua conta para vinte e cinco centavos. Faleicom o garçom sobre o tiroteio, ele nada disse.Todosaliestavamcommedo. Acabeiarefeição, recostei-me nacadeirae fumeiumcigarro.Minhapreocupaçãoeraenorme.Olhei Frankieentrandoacompanhadodealguém.Materialamarelo,pensei.Entãoématerialamarelo. —Esteéosr.Sing—disseFrankiesorrindo.Eletrabalharadepressaeestavacontente. —Muitoprazer—disseSing. Sing era a coisa mais macia que já vi. Era china, claro, mas falava comoinglês e vestia ternobranco, camisadesedaegravatapreta,eusavaumchapéu-panamádaquelesdecentoevinteecincodólares. —Tomaumcafé?—perguntou. —Sevocêtomar.

—Obrigado.Estamossozinhosaqui?—perguntouSing. —Tirandoessestodosqueestãoaí—respondi. —Essesnãocontam—disseSing.—Vocêtemumbarco? —Trintaeoitopés.Kermathdecemcavalos. —Ah,penseiquefosseumveleiro. —Podepegarduzentasesessentaecincocaixassemficarcheio. —Seráqueofretariaparamim? —Emquecondições? —Vocênãoprecisair.Entrocomocapitãoeatripulação. —Não.Aondeelefor,voucomele. — Sei — disse Sing. — Quer fazer o favor de nos deixar sozinhos? — pediu Sing a Frankie, que pareceuinteressadíssimoesorriuparaochina. —Eleésurdo—disseeu.—Equasenãoentendeinglês. —Sei—confirmouSing.—Vocêfalaespanhol.Dizaeleparasejuntaranósmaistarde. FizsinalaFrankiecomopolegar. Elelevantou-seefoiparaobar. —Falaespanhol?—perguntei. —Falo—disseSing.—Oquefoiquefezvocê…Fezvocêconsiderar… —Estouquebrado. —Sei.Obarcotemdívidas?Podeserpenhorado? —Não. —Muitobem.Quantosdemeusinfelizescompatriotaselepodeacomodar? —Querdizer,transportar? —Isso. —Aquedistância? —Umdiadeviagem. —Nãosei.Podeacomodarumadúziasenãotiverembagagem. —Nãoterãobagagem. —Paraondequerlevá-los? —Deixoissoaseucargo—respondeuSing. —Decidirondedesembarcá-los? —VocêoslevaàsTortugas,ondeumaescunaosapanha. —Olhe,temumfarolemLoggerheadKey,nasTortugas,comrádioquetransmiteerecebe. —Certo—disseSing.—Seriaumaidioticedesembarcá-loslá. —Eentão? —Eudissequevocêpodeembarcá-losparalá.Issoéoqueindicaapassagemdeles. —Sei.

—Masvocêosdesembarcaondeoseubomsensoaconselhar.

—Eaescunavaiapanhá-losnasTortugas?

—Claroquenão.Quebobagem.

—Quantovalemporcabeça?—perguntei.

—Cinquentadólares.

—Não.

—Quetalsetentaecinco?

—Quantoestáganhandoporcabeça?

— Ora, isso não vem ao caso. A emissão das passagens tem muitas facetas, ou melhor dizendo, ângulos.Oassuntonãoacabaaí. —Estouvendo.Eoqueeudevofazertambémnãotempreço,éisso?

— Compreendo perfeitamente o seu ponto de vista — disse Sing. — Digamos cem dólares por

cabeça. —Olheaqui.Sabequantopossopegardecadeiaseforapanhadonisso? —Dezanos.Dezanosnomínimo.Masnãoháperigode irparaacadeia, meucarocapitão.Você só temumrisco:omomentodeembarcarseuspassageiros.Orestoficaemsuasmãos. —Eseelesvoltaremparaassuasmãos? —Émuitosimples.Digoaelesquevocêmetraiu.Devolvopartedodinheiroeosembarcodenovo. Elesestãosabendoqueaviagemédifícil. —Equantoamim? —Possofazerchegarumapalavrinhaaoconsulado. —Entendo. —Mileduzentosdólaresnãoédinheiroparaserdesprezadonestesdias,capitão. —Equandoreceboodinheiro? —Duzentosquandofecharonegócioemilquandoosembarcar. —Eseeusumircomosduzentos? —Ficonoprejuízo—falouelesorrindo.—Masseiquevocênãovaifazerisso. —Temosduzentosaí? —Naturalmente.

— Então ponha debaixo do prato. — Ele pôs. — Muito bem. Providencio os papéis amanhã cedo e

zarpodenoite.Eondeseráoembarque? —QueachadeBacuranao? —Certo.Estátudocombinado? —Naturalmente.

— Então vamos acertar essa parte. Acenda dois luzeiros, um em cima do outro, no promontório.

Apareço quando as luzes acenderem. Você vem com eles num barco e fazemos o transbordo. Venha pessoalmenteecomodinheiro.Nãoembarconinguémenquantonãotiverodinheiro.

—Não.Metadequandocomeçaroembarqueeorestoquandoterminar. —É.Ficabemassim. —Entãoestamosentendidosemtudo?—perguntouSing.

— Parece que sim. Nada de bagagem nem de armas, quero dizer, nem armas de fogo, nem facas,

nemnavalhas.Issodeveficarbemclaro. —Nãoconfiaemmim,capitão?Nãopercebequeosnossosinteressessãoidênticos? —Precisotercerteza. —Nãomeconstranja.Aindanãopercebeuqueosnossosinteressessãocoincidentes? —Aquehorasvaiestarlá? —Antesdameia-noite. —Certo.Pareceentãoqueestátudoesclarecido. —Comoquerodinheiro? —Emnotasdecem. Eleselevantoueeuoacompanheicomosolhos.Frankiesorriuparaelequandoelepassouacaminho daporta.Eraumchinêssemarestas.Grandechina. Frankieveioparaaminhamesa. —Então?—perguntou. —Ondefoiqueconheceuosr.Sing? —Eleembarcachinas.Grandenegócio. —Háquantotempooconhece?

— Ele apareceu aqui faz uns dois anos. Teve outro que embarcava chinas antes dele. Alguém o

matou.

—Alguémvaimatarosr.Singtambém.

—Vaimesmo.Porquenão?Negóciogrande.

—Negóciogrande.

— Negócio grande — repetiu Frankie. — China embarcado nunca volta. Outros chinas escrevem dizendotudobem. —Maravilha—disseeu.

— Esses chinas não sabem escrever. China que escreve, tudo rico. Come pouco. Só arroz. Cem mil chinasaqui.Sótrêsmulheres. —Porquê? —Governonãodeixa. —Quecoisa! —Faznegóciocomele? —Talvez.

Negócio bom — afirmou Frankie. — Melhor do que política. Dinheiro muito. Muito negócio

grande.

—Tomeumacerveja. —Acaboupreocupação? —Acabounada.Muitonegóciogrande.Muitoobrigado. —Muitobom—disse Frankie, e deuumtapaemminhascostas.—Ficomuitofeliz.Sóquerovocê estáfeliz.Chinês,negóciobom,hein? —Maravilha. — Fico feliz. — Vi que Frankie estava a ponto de chorar por se sentir feliz de ver as coisas bem- encaminhadas.Deiumtapanascostasdeletambém.GrandeFrankie. A primeira providência que tomei na manhã seguinte foi procurar o despachante para tratar dos papéis.Elepediuarelaçãodetripulanteseeudissequenãoiahavertripulantes. —Vaifazeratravessiasozinho,capitão? —Vou. —Quefimlevouoseucompanheirodebordo? —Poraíbêbado. —Émuitoperigososairsozinho. —Sãosónoventamilhas.Achaqueumcachaceiroabordoajudaalgumacoisa?

Levei o barco para o cais da Standard Oil do outro lado da baía e enchi os dois tanques. Quase duzentos galões. Não me agradava comprar gasolina a vinte e oito centavos o galão, mas não sabia para ondeteriaqueir. Desdequeconverseicomochinaerecebiodinheiro,comeceiamepreocuparcomonegócio.Passei anoiteemclaro.VolteicomobarcoparaocaisSanFrancisco,equemestavalámeesperando?Eddy. —Olá,Harry—gritoueleeacenou. Jogueiocabodepopaparaele,queoamarroueveioabordo;maiscomprido,osolhosmaisturvos, maisbêbadodoquenunca.Nãofaleicomele. —Foimuitasujeiradaquele Johnsonter dadooforaassim, Harry—lamentouele.—Teve alguma notícia? —Dêofora.Nãoqueromaisverasuacara. —Nãoachaquefiqueitãoaborrecidoquantovocê? —Saiadomeubarco. Elerecostou-senacadeiraeesticouaspernas. —Estousabendoquevamosatravessarhoje—disse.—É,achoqueficaraquinãovalemaisapena. —Vocênãovai. —Porqueagora,Harry?Nãohámotivoparaficarassimcomigo. —Não?Dêofora. —Estábem,seacalme.

Dei-lheumtapanacara.Eleselevantouesubiuparaocais. —Eunãofariaumacoisadessascomvocê,Harry—disse. —Nãovoulevarvocê.Pontofinal. —Masporquevocêmebateu? —Paravocêacreditar. —Oquequerqueeufaça?Quefiqueaquiemorradefome? —Fomenada.Podetrabalharnabarca.Podepagaraviagemdevoltatrabalhando. —Vocênãoestásendocorretocomigo—disseele. —Comquemvocêfoicorreto,seubêbado?Vocêécapazdetrairaprópriamãe. E era mesmo. Mas me arrependide ter batido nele. Bater em bêbado deixa a gente deprimido. Mas eunãoolevarianaquelaviagemnemqueeuquisesse. Ele foi caminhando pelo cais e me pareceu mais comprido do que um dia sem café da manhã. Lá adianteparouevoltou. —Podemecederunsdoisdólares,Harry? Dei-lheumanotadecincodólaresdodinheirodochina. —Sempretivevocênacontadecompanheiro,Harry.Porquenãomeleva? —Vocêdáazar. —Vocêestázangado.Nãofazmal,amigovelho.Vocêvaificarfelizdemeverdenovo. Agora com dinheiro na mão ele se afastou mais depressa. Não me senti bem de vê-lo caminhando daquelejeito.Caminhavacomoseosjoelhosestivessemviradosparatrás. Fui ao Perla para me encontrar com o despachante, ele deu-me os documentos e eu paguei-lhe um drinque.DepoisalmoceieFrankieapareceu. — Sujeito me deu isto pra você — disse e passou-me um papel enrolado e amarrado com cordão vermelho.Quandodesenroleiopapel,penseiquefosseumafotografiadobarcotiradaporalguém. Eraumafotografiaampliadadacabeçaepeitodeumnegromortocomagargantacortadadeumlado aoutroe depois costurada, e um cartaznopeitocom estas palavras em espanhol: “Éoque fazemos com oslenguaslargas.” —Quemlhedeuisto?—pergunteiaFrankie. Elemostrouumgarotoespanholquefaziabiscatesnocais.Estavaempénobalcãoderefeições. —Digaaeleparaviraqui. Ogarotoveio.Disse que opapellhe foradadopor dois rapazes às onze horas parame ser entregue. Perguntaramse ele me conhecia, ele disse que sim.Entãoele deuopapelaFrankie paramim.Deram-lhe umdólarparaelefazerisso.Dissequeosrapazesestavambem-vestidos. —Política—disseFrankie. —Estánacara. —Pensamquevocêcontouàpolíciaqueiaseencontrarcomaquelestrêsnaquelamanhã. —Éisso.

—Políticaruim—disseFrankie.—Bomquevocêvaiembora. —Deixaramalgumrecado?—pergunteiaogaroto. —Não.Sóparalheentregaropapel. —Precisosairagora—disseeuaFrankie. —Políticaruim—repetiuele.—Políticamuitoruim. Junteios papéis que odespachante me dera, pagueiacontae saí. Atravesseiapraça, passeioportão com pressa de chegar ao cais. Aqueles rapazes tinham me marcado mesmo. Era burrice deles pensarem que eu tivesse contado a alguém sobre os seus companheiros. Esses rapazes são como Pancho. Quando ficamcommedo,ficamexcitados;equandoficamexcitados,queremmataralguém. Entrei no barco e esquentei o motor. Frankie ficou no cais observando. Sorria aquele sorriso parado desurdo.Subiefuifalarcomele. —Olhe,Frankie.Nãováseenvolveremcomplicaçõesporcausadisso. Elenãomeouvia.Preciseigritar. —Eu,políticaboa—disseele. Fizsinalparaele,eelejogouocabo.Afastei-mecomobarcodocaiseentreinocanal.Umcargueiro britânico zarpava, emparelhei-me com ele e o ultrapassei. Saí do porto, passei o Morro, pus o barco no cursoparaKeyWest,sentidonorte.Deixeiolemeefuiavanteenrolarocabo;volteieverifiqueiocurso. Havanaficouatráseasmontanhas,àfrente. O Morro sumiu de vista depois de algum tempo; sumiu o Hotel Nacional e finalmente eu só via a cúpuladoCapitólio.Acorrenteestavafracacomparadacomadoúltimodiadepescaria,eabrisaeraleve. DuassumacasrumavamparaHavana,e,comovinhamdooeste,concluíqueacorrenteestavafraca. Desligueio motor e deixeio barco derivar para não gastar gasolina. Quando escurecesse eupoderia ver a luz do Morro ou, se o barco derivasse muito, as de Cojimar, me orientar por elas até Bacuranao. Calculei que naquela corrente o barco derivaria as doze milhas até Bacuranao no escuro, quando então avistariaasluzesdeBaracóa. Subiavanteparadarumaolhadaemvolta.Sóviasduassumacasaoestee,paratrás,acúpulabranca do Capitólio acima da água. Chumaços de algas boiavam na corrente, e algumas aves os exploravam. Sentei-me nacobertae fiqueiolhando,masosúnicospeixesque vieramdaquelespardospequeninosque saltamemvoltadealgas.Puxa,quantaáguaentreHavanaeKeyWest.Eeuestavaapenasnabeiradela. Volteiàcabine—eláestavaEddy! —Quefoiqueaconteceu?Oqueéquehácomomotor? —Enguiçou. —Porquenãoabriuaescotilha? —Nãochateie. Sabemoque aconteceu?Depoisde deixarocaisele voltou, entroupelaescotilhade vante, foiparaa cabine e dormiu.Tinhaduasgarrafascomele,compradasnaprimeirabodegaque viu.Quandozarpei,ele

acordou e logo voltou a dormir. Ao desligar o motor no golfo, o barco começou a balançar com o movimentodasondas,eeleacordou. —Eusabiaquevocêiamelevar,Harry—disse. —Levarparaosquintos.Vocênemestánalistadetripulantes.Estoucomvontadedefazervocêpular nomar. —Vocêsemprecomsuaspiadas,Harry.Nós,ilhéus,precisamosnosunirnosmomentosdifíceis. —Vocêesuabocagrande.Quemvaiconfiaremsuabocaquandovocêestáalto? —Sougenteboa,Harry.Façaumtestecomigoevejaquesougenteboa. —Medêessasgarrafas.—Euestavapensandoemoutracoisa. Elepassou-measgarrafas,tomeiumgoledaqueestavaabertaepusasduasaoladodarodadoleme. Ficouláparado,eeuolhandoparaele.Tivepenadeleporqueeusabiaoqueprecisavafazer.Diabos,sabia quandoeleestavasendobom. —Oqueéquehácomobarco,Harry? —Nada. —Então,queéqueestáacontecendo?Porqueficameolhandodessejeito? —Vocêestámetidonumaenrascada,mano—respondienovamentetivepenadele. —Comoassim,Harry? —Aindanãosei.Aindanãodescobritudo. Ficamosaliumpoucomais, eusemnenhumavontade de falarcomele.Quandoentenditudo, fiquei

semsaberoquelhedizer.Logodesciepegueiacarabinapapo-amareloeaWinchester30:30quesempre

tinhanacabine e as pendureinoaltodacobertaonde costumamos pendurar as varas, bem acimadaroda doleme,aoalcancedamão.Guardoasarmasnaquelascapasdelãmolhadasdeóleo.Éaúnicamaneirade evitarqueseenferrujemnomar. Destraveia carabina e manobrei-a algumas vezes, depois carreguei-a e coloqueiuma bala na agulha. Pus umcartuchonaculatradaWinchester e enchiocarregador. ApanheidebaixodocolchãooSmithand WessontrintaeoitoespecialdotempoemqueeueradapolíciadeMiami,limpei,lubrifiquei,carregueie pusnacintura. —Oqueéisso?Oqueéqueestáacontecendo?—perguntouEddy. —Nada. —Paraqueoraiodasarmas? —Sempre tenhoarmasabordo.Paramataravesque vêmcomerasiscas, ouatiraremtubarõesque aparecemporaí. —Oqueéqueestáhavendo?Aindanãoestouentendendo!—disseEddy. —Nada. Fiquei sentado com o velho trinta e oito raspando em minha perna com o balanço do barco. Olhei paraEddyepensei,nãoéhoraainda.Agoravouprecisardele.

— Vamos fazer um trabalhinho — disse eu. — Em Bacuranao. Vou lhe dizer o que fazer quando chegarahora. Eunãoqueriacontar-lhe commuitaantecedênciaporque ele ficariatãoassustadoe nervosoque não meterianenhumautilidade. —Você nãopodiaencontrarninguémmelhordoque eu, Harry.Souohomemde que você precisa. Estoucomvocêemtudo. Olheiparaele,comprido,trêmuloedeolhosmortiços,enãofaleinada. —Olhe,Harry.Podemedarumgole?Nãoqueroficartremendo. Dei-lheumgoleeficamossentadosesperandoescurecer.Eraumlindopôrdosol,sopravaumabrisa levee,quandoosolmergulhou,ligueiomotoreaproeilentamenteparaterra. Paramosnoescuroacercade poucomaisde umquilômetrode terra.Acorrente esfrioucomanoite e percebiomovimentodela. A luzdoMorroeravistaaoeste assim comooclarãode Havana. As luzes à nossa frente eram Rincón e Baracóa. Aproei para a corrente até passar Bacuranao e chegar perto de Cojimar. Feito isso, deixei o barco derivar. A escuridão era completa, mas eu sabia perfeitamente onde estávamos.Apagueitodasasluzes. —Doqueéquesetrata,Harry?—perguntouEddy.Elecomeçavaatremerdenovo. —Oqueéquevocêacha? —Nãosei.Vocêestámeassustando.—Ostremoresjáquasetomavamcontadelee,quandochegou pertodemim,estavacomumhálitodeurubu. —Quehorassão?—perguntei. —Vouláembaixoolhar.—Quandovoltou,dissequeeramnoveemeia. —Estácomfome?—perguntei. —Não.Sabequenãoconseguicomer,Harry. —É.Podetomarmaisum. Depoisquebebeuseutrago,pergunteicomosesentia.Eledissequesesentiamuitobem. — Daqui a pouco vou lhe dar mais dois. Sei que você só cria coragem quando bebe, e não temos muitabebidaabordo.Entãoéprecisoracionar. —Medizdoquesetrata. —VamosnosaproximardeBacuranaoepegardozechinas.Vocêassumeolemequandoeudisser,e faz o que eu mandar. Embarcamos os doze chinas e os trancamos embaixo, a vante. Vá a vante agora e fecheaescotilhaporfora. Elesubiueviovultodelenoescuro.Voltoueperguntousepodiatomarumdosdoisprometidos. —Não—respondi.—Querovocêlúcido,nãoimprestável. —Soubom,Harry.Vocêvaiver. —Vocêéumbêbado.Olhe,umchinavaitrazerosoutrosdoze.Vaimedarumdinheironocomeço. Quando todos estiverem a bordo, ele me dá mais dinheiro. Quando vir ele me entregando dinheiro pela

segunda vez, você engata à frente, acelera e ruma para omar. Nãoligue para oque estiver acontecendo. Aconteçaoqueacontecer,continueemfrente.Entendeu? —Entendi. — Se algum chinatentar sair dacabine oupelaescotilhaquandoestivermos acaminho, você pegaa papo-amareloefazelevoltarcomamesmapressacomquetentousair.Sabemanejaracarabina? —Não,masvocêmeensina. —Vocêvaiesquecer.SabemanejaraWinchester? —Ésómanobraraalavancaepuxarogatilho. —Isso.Masnãomefaçaburacosnocasco. —Émelhormedaraqueleoutrogole. —Estábem.Umpequeno. Dei-lhe um dos grandes. Eu sabia que nada ia embebedá-lo agora, com aquele medo todo. Mas o efeito de cada gole durava pouco. Depois de tomar seugole ele disse, parecendo até que estava feliz: — Então vamos transportar chinas. Pois não é que sempre achei que ia acabar carregando chineses quando estivessesemdinheiro? —Enuncaestevesemdinheiroantes?—Eleestavavoltandoaserengraçado.

Dei-lhemaistrêstragosparaeleficarcorajoso,issoaindaantesdasdezemeia.Eradivertidoobservá-

lo, e observá-lo tirava a minha mente das preocupações que eu também tinha. Eu não tinha pensado no quefazerdurantealongaespera.Tinhaprogramadosairdepoisqueescurecesse,entrarnomarparaevitar oclarãodeterraecostearatéCojimar. Pouco antes das onze vi as duas luzes no promontório. Esperei um pouco e comecei a navegar lentamente. Bacuranao é uma angra onde outrora havia um cais comprido para embarcar areia. Tem um riozinhoque entraquandoas chuvas abrem a barrana embocadura. Noinvernooventonorte amontoa a areiaefechaabarra. Por ela entravam escunas para carregar caixotes de goiabas da beira do rio, e havia uma cidade. Um furacãoarrasoutudoehojesóexisteumacasaconstruídaporalgunsgalegoscomomaterialqueofuracão espalhou. Essa casa é a sede de um clube de fim de semana para havaneses. Tem outra casa onde mora o delegado,masessaficalongedapraia. Cada lugar pequeno como esse em todo o litoral tem um delegado do governo, mas calculei que o china devia estar utilizando um barco próprio e já ter se entendido com o delegado. Quando nos aproximamossentiocheirodeuva-do-mareaquelecheirodefolhagemqueexisteemtodaailha. —Continuecomcuidado—disseeuaEddy. —Desteladonãoháperigo.Orecifeédooutrolado. “É,elejáfoiumbommarinheiro”,pensei. —Fiqueatento—disseeu. Tomeioleme e conduziobarcoparaumlugaronde elespudessemnosver.Semmarulhode ondas, ouviriamomotor.Eunãoqueriaficar esperandosemsaber se tinhamnos vistoounão.Entãolanceialuz

dofaroldebuscaumavez,odeluzverdeevermelha,eoapagueilogo.Depoisvireiobarcoeaproeipara foraeficamosparadoscomomotorembaixarotação.Umaondapequenaveioseaproximandodapraia. —Venhacá—disseeuaEddy,edei-lheumadosedeverdade. — A gente arma primeiro com o polegar? — perguntou ele em voz baixa. Estava sentado ao leme; pegueiasduasgarrafasedeixeiasrolhasnãomuitoparaforanemmuitoparadentro. Era incrível o que um trago fazia com ele, e com que rapidez. Ficamos esperando. Por entre a folhagem viuma luz na casa do delegado. Os dois luzeiros no promontório diminuíram de intensidade e umdelesdeslocou-seemvoltadopromontório.Provavelmente,haviamapagadoooutro. Quandosaímosdaangrapoucodepois,apareceuumbarcopequenovindoemnossadireçãocomum homem remando. Notei isso pela inclinação do corpo dele para a frente e para trás. O remo devia ser comprido.Fiqueicontente.Seobarcovinhaaremo,sóhaviaumapessoanele.Obarquinhochegou-seao compridodonosso. —Boa-noite,capitão—disseSing. —Acostearé. Sing disse alguma coisa ao remador, mas ele não conseguiu remar para trás; então peguei o barco pelo costado e puxei-o para a popa. Havia oito homens no barco, os seis chineses, Sing e o rapaz que remava.Enquantopuxavaobarcoparaapopa,euesperavaaqualquermomentolevarumapancadanoalto dacabeça,masnãolevei.Ergui-meepasseiaSingotrabalhodeencostar. —Vamosveracordele—disseeu. Singpassou-meomaço,queleveiparaondeestavaEddy,narodadoleme,eacendialuzdabússola. Examineitudocuidadosamente.Pareceuestaremordem.Eddytremia.Desligueialuz. —Podetomarum—disseeu.Elepegouagarrafaebebeuseutrago. Volteiàpopa. —OK.Podemsubirosseis—ordenei. Singeocubanodoremoestavamcomdificuldadedeimpedirobarcodevirar,mesmocomasondas pequenas.Singdissealgumacoisaemchinêsetodososchinasdobarcocomeçaramasubirpelapopa. —Umdecadavez—disseeu. Eletornouafalaremchinês,eosseischinassubiramabordoumaum.Eramdetodosostamanhos. —Leve-osparaavante—ordeneiaEddy. —Poraqui,senhores—orientouEddy.Erasinaldequeeletinhaviradoumtragoetanto. —Agoratranqueacabine—disseeuquandotodosestavamládentro. —Entendido—disseEddy. —Voubuscarosoutros—anunciouSing. Empurrei-osdapopa,eorapazcomeçouaremar. —Olhe—disseeuaEddy.—Nãopeguemaisnagarrafa.Vocêjáestácheiodecoragem. —OK,chefe. —Quebichoomordeu?

—Éissoqueeugostodefazer.Bastapuxarcomodedão,né? —Seucachaceiroidiota.Medêumgoledaquilo. —Acabou.Lamento,chefe. —Oquevocêtemafazeragoraéficaratento.Quandoelemeentregarodinheiro,vocêarranca. —OK,chefe. Peguei a garrafa e o saca-rolhas e tirei a rolha. Tomei um gole comprido e voltei à popa. Fechei a garrafaempurrandoarolhaatéofimepusagarrafaatrásdedoisjarrosdevimecheiosd’água. —Singvemchegando—disseeuaEddy. —Certo—respondeuele. O barco aproximou-se de nós. Encostou na popa e deixei que eles cuidassem de mantê-lo parado. Singagarrou-senoroloqueeutinhanapopaparapuxarpeixegrandeparabordo. —Podemsubir,umaum. Maisseischinassubiramabordopelapopa. —Abraacabineeleve-osparalá—disseeuaEddy. —Sim,senhor—disseele. —Tranqueacabine. —Sim,senhor. Quandoviqueeletinhavoltadoaoleme,eudisseaSing:

—Agoraoresto. Eletirouodinheirodobolsoeesticouobraçoparamim.Estiqueiamãoeagarreiopulsodelecomo dinheiro, e quando o corpo encostou na popa agarrei-lhe a garganta com a outra mão. Senti o barco arrancarefazerespumanafrentequandoEddyacelerou.MesmoocupadocomSing,viocubanoempéna popadoseubarcoagarradoaoremo, enquantoSing esperneavae se balançava.Esperneavae se balançava maisdoqueumgolfinhoarpoado. Passeiobraçodele paratráse puxeiparacima,maspuxeiforte demaise percebique tinhaquebrado algumacoisa. Com obraçofrouxo, ele soltouum gemidoesquisitoe subiumais, euaindacom amãona gargantadele, e ele me mordeunoombro.Mas, quandosentiobraçoamolecer, soltei.Aquele braçonão iatermaisserventiaparaSing.Agarreiohomempelagargantacomasduasmãos,eleseretorciacomoum peixe,obraçomolependido.Finalmentepuxei-oparadentrodobarcoeopusdejoelhosnaminhafrente. Com os dois dedões na nuca dele e o resto da mão na garganta, puxei tudo para trás até estalar. Não pensemqueessacoisanãoestala. Fiqueisegurando-oporuminstante mais, depoisdeitei-ode costasnapopa.Láficouele inerte, com suasroupascaras.Foicomoodeixei. Apanheiodinheiroquetinhacaídonoconvés,levei-oparaaluzdabússolaecontei.Assumiolemee mandeiEddyprocurar na parte de baixo da popa alguma sucata de ferro, que euusava em vez da âncora quandoiapescarpeixesdeáguafundaemlugaresondeofundoeracheiodepedraseeupoderiaperdera minhaâncora.

—Nãoacheinada—disseele,quedeveterficadoapavoradoaoverSingládeitado. —Pegueoleme.Mantenhaorumo—ordenei. Percebicertosmovimentosláembaixo,masnãomepreocupei. Encontrei do que eu precisava: sucata de ferro de um antigo embarcadouro de carvão em Tortugas. Peguei uma linha para peixe grande e fiz duas boas âncoras que prendi nos tornozelos de Sing. Quando estávamos a umas duas milhas da praia, joguei o homem para fora. Ele deslizou bonitinho pelo rolo. Sequertinhadadoumaolhadanosbolsosdele.Nãoqueriaperdertempocomele. Elesangraraumpoucopelonarizepelaboca.Puxeiumbaldecomáguaquequasemederruboupara foradobarcoporcausadeumbalançoelaveitudoesfregandocomumescovão. —Reduzaavelocidade—griteiparaEddy. —Eseeleboiar? —Estáaumassetecentasbraçasdasuperfície.Éumaviagemlongaaté ofundo, mano.Sóvaiflutuar quando os gases o inflarem, mas a correnteza vai levá-lo e tem muito peixe por aí procurando comida. Nãoprecisasepreocuparcomosr.Sing. —Oqueéquevocêtinhacontraele?

— Nada. Era fácil negociar com ele, nunca tratei com ninguém mais fácil. Mas o tempo todo achei quehaviaalgumacoisaquenãoseencaixava. —Porqueomatou? —Paranãoterquematardozeoutroschinas.

— Harry, preciso de mais um daqueles porque pressinto que a coisa vai começar. Não me fez bem veracabeçadelemolengadaquelejeito. Dei-lhemaisumgoleeeleperguntousobreosdozechineses.

— Quero tirá-los daqui o mais depressa possível, antes que eles me emporcalhem a cabine —

respondi. —Ondevaideixá-los? —Vamoslevá-losparaapraiacomprida. —Vamosrumarparalá? —Vamos.Masdevagar. Contornamos o rochedo lentamente até chegar a um ponto onde eu pudesse ver o rendilhado da praia.Temmuitaáguaantesdorochedo,edepoisdeleofundoéarenosoeinclinadoatéapraia. —Váavanteemedêaprofundidade. Eleiasondandocomumavaradearpãoemefazendosinaiscomela.Acertaalturafezsinaldeparar. —Maisoumenosummetroemeio—disse.

— Precisamos ancorar. Se acontecer alguma coisa e nãotivermos tempode recolher, desamarramos

oucortamosocabo. Eddy foi dando cabo, e, quando sentiu que a âncora tocava o fundo, esticou e prendeu a corda. O barcoficoudeproaparaterra.

—Ofundoéareia—informouele. —Quantodeáguanapopa? —Nãomaisdoqueummetroemeio. —PegueaWinchester.Etenhacuidado. —Precisodemaisum.—Eleestavanervoso. Dei-lheabebidaepegueiacarabina.Destranqueiacabine,abriaportaedissequepodiamsair.Nada aconteceu.Poucodepoisumchinapôsacabeçadefora.ViuEddycomaarmaerecuoudepressa. —Podemsair.Ninguémvailhesfazermal—disseeu. Nada.Sómuitaconversaemchinês. —Saiavocêaí!—gritouEddy.Eleestavacomagarrafanamão.

— Largue essa garrafa ou estouro você com ela e tudo — disse eu. E para os chineses: — Saiam, senãoatiro. Umdelesolhoupelocantodaportaedecertoviuapraia,porquecomeçouafalarcomosoutros. —Senãosaírem,atiro—falei. Saíram.

Aquientre nós, é precisoser muitoinsensível paramassacrar friamente umadúziade chineses, para nãofalarnatrabalheiraquedeveser,enasangueiraeoutrascoisas. Saíramtodos,apavorados,semarmas,dozeaotodo.Recueiparaapopacomacarabinanamão. —Paraforadobarco—disseeu.—Aquiéraso. Nenhumsemexeu. —Prafora! Nada. —Seusforasteirosamareloscomedoresderato!—disseEddy.—Vãosaindo. —Caleessabocacheiadecachaça—disseeu. —Sabenadarnão—balbuciouumchinês. —Nãoprecisa.Nãofundo—assegurei. —Vãosaindo—disseEddy.

— Venha cá na popa — disse a Eddy. — Fique com a arma numa mão e a vara de arpão na outra e mostreaelesafundura. Elemostrou. —Precisanadarnão?—perguntouum. —Não. —Verdadeiro? —Verdadeiro. —Ondelugar? —Cuba.

—Desgraçadovigarista—disseele.Subiuocostado,pendurou-seesoltou-se.Acabeçaafundoumas emergiu,eopeitoficouforad’água.—Desgraçadovigarista—disse.—Desgraçado. Estavaindignadoecheiodecoragem.Falouemchinêseosoutroscomeçaramapularnaágua. —Pronto.Levanteaâncora—disseeuaEddy. Quando nos afastamos da praia, a lua ia nascendo. Víamos os chineses só com a cabeça fora d’água caminhandoparaapraia,víamosorendilhadodaarrebentaçãoeavegetaçãomaisadiante. Depoisquepassamosorochedo,olheiparatrásmaisumavezeviapraiaeasmontanhasaparecendo. PusobarconocursoparaKeyWest. — Agora pode dormir — disse eu a Eddy. — Não, espere. Vá lá embaixo e abra as escotilhas para arejaracabine,etragaoiodo. —Paraqueoiodo?—perguntouelequandovoltoucomovidro. —Corteiodedo. —Querqueeupegueoleme? —Vádormir.Acordovocê. Ele esticou-se no beliche embutido na cabine de comando acima do tanque de combustível, e logo dormiu. Prendi a roda do leme com o joelho, abri a camisa e examinei o lugar da dentada de Sing. Era uma dentada valente. Apliquei iodo e fiquei ali sentado manejando o leme e indagando se dentada de chinês nãoseriavenenosae escutandooruídosuave dobarcoe odaágualambendoocasco.Concluíque não, a dentadanãoeravenenosa.Umhomemcomootalsr.Singdeviaescovarosdentesduasoutrêsvezespor dia.GrandeSing!Nãodeviasergrandecoisacomohomemdenegócios.Ouera?Quemsabeeleresolvera confiaremmim?Nãoconseguientendê-lo. Bom, tudo agora ficava simples, exceto quanto a Eddy. Sendo amigo da garrafa, ele fala demais quando fica alto. Sentado aliao leme olheipara Eddye pensei, ora, para ele é até melhor morrer do que continuar vivendo assim, e eu não fico correndo esse risco. Quando descobri que estava a bordo, decidi que precisava dar um fim nele, mas quando tudo começou a se encaminhar para um final feliz perdi a coragem.Porém, vê-loalidormindoeraumatentação.Penseitambémque nãovaliaapenaestragartudo fazendo uma coisa da qual me arrependeria. Depois pensei: ele nem estava na lista de tripulantes, e eu teriaquepagarmultaportransportá-lo;alémdomais,nãosabiacomojustificarisso. De qualquer forma havia tempo para pensar no assunto. Mantive o barco no rumo, e de vez em quando tomava um gole da garrafa que ele tinha levado para bordo e que já estava no fim. Quando ela secouabriaúnicaque restavadasminhas, e me sentimaravilhosamente bemaoleme, nalindanoite para atravessia.Nofimdascontasaexcursãotinhasidomuitoboa,apesardeterváriasvezesparecidoqueseria umdesastre. Quandoodiaamanheceu,Eddyacordou.Dissequesesentiapéssimo. —Pegueolemeuminstante—pedi.—Querodarumaolhadanobarco.

Fui à popa e joguei mais água no piso, apesar de estar tudo limpo. Passei o escovão nos lados, descarregueias armas e guardei-as embaixo. Mas orevólver ficounacintura. Embaixoestavafrescoe em ordem, e nenhumcheiro.Tinhaentradoumpoucod’águaporumaescotilhade estibordo, e só.Fecheias escotilhas.Nenhumfiscaldenenhumaalfândegadomundosentiriacheirodechinêsnomeubarco. Os papéis de autorização estavam no saco de linha que eu tinha pendurado abaixo da matrícula emoldurada quando voltei do encontro com o despachante. Tirei-os do saco, dei uma olhada e voltei à cabinedecomando. —Comofoiquevocêentrounalistadetripulantes? —Encontreiodespachantequandoeleiaparaoconsuladoelhedissequeeuestavaembarcando. —Deusolhapeloscachaças.—Tireiotrintaeoitodacinturaeguardei-oembaixo. Fizcafé,subieassumioleme. —Temcaféláembaixo—disseaEddy. — Mano, café não vaime fazer nenhum bem. — Lembrei-me de que era preciso ter pena dele. Ele estavapéssimo. Pelas nove horas avistamos as luzes de Sand Key bem à frente. Antes tínhamos visto navios-tanque rumandoparaogolfo. —Vamosentrar—ordeneiaEddy.—VoulhepagarosmesmosquatrodólarespordiaqueJohnson lhepagava. —Quantoganhoucomotrabalhodeontem? —Sóseiscentos. Nãoseiseeleacreditouounão. —Nãovaimedarparticipação? —Estaéasuaparticipação.E,sevocêabrirabocasobreanoitedeontem,euvousabereacabocom

você.

—Sabequenãosoudelator,Harry. —Écachaceiro.Masnãoimportaograudesuabebedeira.Seabriraboca,jásabe. —Sougenteboa.Nãoprecisafalarassimcomigo. —Nãoéprecisomuitamãodeobraparafazeremvocêdeixardesergenteboa. Nãome preocupeimais com osujeitoporque, afinal, quem iaacreditar nele?O tal Sing nãoiriadar queixa. Os chinas também não. Nem o rapaz que remou para eles. Era possível que Eddy abrisse a boca cedooutarde,masquemiaacreditarnumbêbado? Easprovas?Naturalmentequeaoutrasoluçãodariamuitomaisoquefalarquandoonomedelefosse visto na lista. Sorte minha. Eu podia então dizer que ele caiu no mar, mas isso também suscitaria comentários.MuitasorteparaEddytambém.Sortedemais. Chegamosàbeiradacorrenteeaáguamudoudeazulparaverde-claro.JáseviamasbalizasnoLong Reefe, nas WesternDryRocks, as torres de rádiode KeyWest e oHotelLaConchaaltoentre as casas, e muita fumaça onde queimam lixo. O farol de Sand Key estava perto, e víamos o abrigo de barcos e o

pequenocaisacompanhandoasluzes.Emquarentaminutosestaríamoschegando,e eume sentiafelizpor estarvoltandoecomalgumacoisanobolsoparaoverão. —Vamosbeber,Eddy? —Ah,Harry,sempresoubequevocêerameuamigo.

OREGRESSODOMERCADOR

O REGRESSODOMERCADOR Fizeramatravessiadenoite,comumabrisafortedenoroeste.Quandoosolnasceu,eleavistouumnavio- tanque saindo

Fizeramatravessiadenoite,comumabrisafortedenoroeste.Quandoosolnasceu,eleavistouumnavio-

tanque saindo do golfo, destacando-se alto e branco ao sol, tão alto no ar frio que mais parecia grandes edifíciosbrotandodomar. —Emqueraiodelugarestamos?—perguntoueleaonegro. Onegroergueu-separaolhar. —NãotemnadaassimdesteladodeMiami. —VocêsabemuitobemquenãofomoscarregadosparaMiamicoisaalguma—respondeuele. —OqueestoudizendoéquenãotemedifíciosassimemnenhumdosrecifesdaFlórida. —VínhamosaproadosparaSandKey. —EntãodeveríamostervistoSandKey.Ouosbaixiosamericanos. Logo ele viu que era um navio-tanque e não uma fileira de edifícios; e em menos de uma hora avistou o farol de Sand Key, ereto, estreito e pintado de marrom, erguendo-se do mar bem onde devia mesmoestar. —Éprecisoterconfiançaquandoseestánoleme—disseeleaonegro. —Euatétinhaconfiança.Mas,dojeitoquetemsidoestaviagem,aperditotalmente. —Eaperna? —Sempredoendo. —Nãoénada.Mantenhaelalimpaecobertaquesecurasozinha. Virouo leme para oeste para entrar na barra e passar o dia nos mangues de WomanKey, onde não verianinguémeondeobarcoiaentrarparaencontrá-los. —Vocêvaificarbom—disseaonegro. —Seinão.Estádoendomuito. —Voutratardevocêdireitinhoquandochegarmos.Otironãoferiutanto.Nãofiquepreocupado. —Leveiumtiro.Nuncaleveitiroantes.Estouferidodetiro,estaéqueéaverdade. —Vocêestáassustado.Sóisso.

—Não,senhor.Leveiumtiro.Eestádoendomuito.Passeianoitegemendo. Onegrocontinuouresmungandoetodahoratiravaopensoparaolharoferimento. —Parecomisso—disseohomemqueestavanoleme. Onegrodeitou-senopisodacabine,ondehaviasacosdegarrafasemformadepresuntosempilhados por todaparte. Arrumouespaçoentre eles parase deitar. Todavezque se mexia, faziaaquele barulhode vidroquebradonossacos.Noar, ocheirode bebidaalcoólicaderramada.Olíquidotinhaembebidotudo. ObarcoagorarumavaparaWomanKey,jáàvista. —Comodói—disseonegro.—Adorestáaumentando. —Sintomuito,Wesley.Nãopossolargaroleme. —Você tratagente piordoque tratacachorro.—Onegrocomeçavaaficarcomraiva, masooutro continuavadizendoquesentiamuito. —Voupôrvocêbem,Wesley.Fiquedeitadoquieto. —Vocênãoligaparaosoutros.Atéparecequenãoéhumano—disseonegro. —Voucuidarbemdevocê.Masagoratratedeficarquieto. —Vaicuidardemim,nada.

O outro, que se chamava Harry, ficou calado porque gostava do negro e nada podia fazer a não ser

dar-lheummurro,enãoqueriafazerisso.Onegrocontinuoufalando.

—Porquenãoparamosquandocomeçaramaatirar?

Ooutronãorespondeu.

—Achaqueavidadeumhomemvalemenosdoqueumcarregamentodebebida?

Ooutroestavaatentoaoleme.

—Porquenãoparamosedeixamoselespegaremabebida?

—Não.Tomavamabebida,obarco,evocêiaparaacadeia.

—Nãomeimportodeirparaacadeia.Oquenãogostoédelevartiro.

Essalamúriajáestavacansandoeirritandoooutro.

—Quemlevouotiropior?Vocêoueu?

— Você. Mas eununca tinha levadotiro. Nãoestava em meus planos. Nãosoupagopara levar tiro. Nãogostodelevartiro. —Calma,Wesley.Nãofazbemavocêficarfalandoassim.

Já estavam chegando aos recifes. Navegavam nos baixios, e, quando o barco aprumou para o canal,

ficou difícil enxergar com o sol na água. O negro delirava, ou ia ficando religioso por estar ferido; pelo menoseraoqueparecia,poisnãoparavadefalar. —Porqueaindasefazcontrabandodebebida?Aleisecajáacabou.Porquecontinuamcomisso?Por quenãotransportamabebidanasbarcas? Ohomemdolemenãotiravaosolhosdocanal. —Porqueaspessoasnãosãohonestasedecentesenãovivemhonestamenteedecentemente?

O homem ao leme viu onde a água fazia ondas mansas perto do banco, mesmo não podendo

enxergar obancopor causadosol.Fezumacurvagirandooleme comumbraço.Logoocanalse abriue eleconduziuobarcodevagarparaamargemdomangue.Deurénosmotoreselançouasduasgarras. —Possosoltarumaâncora,masnãopossorecolhê-la—disse. —Eeunãopossonemmemexer—disseonegro. —Vocêestámesmomal—disseooutro. Ele teve muita dificuldade em parar o barco, erguer e largar a pequena âncora, mas finalmente conseguiu.Deubastantecordaeobarcoficoubalançandonomangue.Elesteriamfácilacessoàcabine.Foi àpopaedesceuparaofundodacabine.Achouqueestavabagunçadademais,masfazeroquê? Durante a noite inteira, depois que ele fez curativo no ferimento do negro e o negro trocou as bandagens do braço dele, Harry manteve-se atento à bússola, controlando o curso. E, quando o dia amanheceu,eleviuonegrodeitadonossacosnomeiodacabine;mas,comoestiveradeolhonomarena bússola,eprocurandoofaroldeSandKey,nãoprestaraatençãoaoestadogeraldascoisas.Quebagunça!

O negro estava deitado no meio da carga de sacos de garrafas, com a perna erguida. Havia oito

buracos de bala na cabine, e que buracos! O vidro do para-brisa estava quebrado. Não dava para saber

quantasgarrafashaviamsidoquebradas, e onde nãotinhasangue donegrotinhasangue dele.Masopior,

pelo menos no momento, era o cheiro de bebida. Estava tudo impregnado. O barco estacionara no mangue,masohomemaindasentiaobalançodomaragitadodanoitequetinhampassadonogolfo. —Voufazercafé—disseeleaonegro—,depoisfaçoocurativoemvocê. —Nãoquerocafé. —Euquero. Láembaixo,porém,elecomeçouasentir-setontoevoltouparaoconvés. —Achoquenãovamostercafé—disse. —Queroágua. Eledeuaonegroumcanecodeáguatiradadeumgarrafão.

—Porquecontinuoucorrendoquandocomeçaramaatirar?

—Precisavamatirar?

—Precisodeummédico—disseonegro.

—Oqueéqueummédicopodefazerqueeujánãofiz?

—Médicosabemecurar. —Vocêvaitermédicoestanoitequandoobarcochegar. —Nãoqueroesperarbarconenhum. —Vamosjánoslivrardestabebida. Começouapôrforaabebida, trabalhodifícilparase fazercomumaúnicamão.Umsacode garrafas não chega a pesar vinte quilos, mas pouco depois de começar o trabalho ele já estava tonto de novo. Sentou-senacabine;nãosesentiabem,deitou-se. —Vocêvaisematar—disseonegro.

Eleládeitado,acabeçaapoiadanumsaco. Galhos do manguezal entraram na cabine fazendo sombra sobre ele. O vento soprava no mangue. Olhandoocéufrioláfora,viuastênuesnuvenspardacentasdoventonorte. Ninguémvaiapareceraquicomestabrisa,elepensou.Nãovãonosprocurarcomestevento. —Achaquevãochegar?—perguntouonegro. —Claro.Porquenão? —Ventoforte. —Estãonosprocurando.

— Não com este tempo. Pra que mentir pra mim? — O negro falava com a boca quase encostada numsaco. —Calma,Wesley.

— Ele diz pra ter calma — continuou o negro. — Calma. Que calma? A calma de um cachorro

morrendo?Melevedaqui. —Tenhacalma—disseohomemcomternuranavoz. —Elesnãovêm.Seiquenão.Estoucomfrio.Nãoaguentoestadorcomfrio. O homem sentou-se, tonto e vazio. Os olhos do negro o acompanharam quando ele se ergueu em

um joelho, o braço direito pendido; pegou a mão direita com a esquerda e colocou-a entre os joelhos; levantou-seapoiadonapranchaacimadaamuradaatéficarempé.Olhouparaonegro,amãodireitaentre ascoxas.Seráqueelejátinhasentidodornavida? —Seobraçoficaresticado,nãodóitanto—disse. —Eseeufizerumatipoiaparaele?—perguntouonegro. —Nãopossodobrarocotovelo.Ficouduro. —Oqueéquevamosfazer? —Pôrforaestabebida.Podecuidardaqueestápertodevocê? Onegrotentousemexerparapegarosaco;gemeuedesistiu. —Dóitantoassim,Wesley? —Ecomo!—disseonegro. —Quemsabesecomomovimentoadordiminui?

— Estou baleado. Não vou fazer movimento nenhum. Ele quer que eu descarregue um saco de bebidaquandoestoubaleado. —Tenhacalma. —Sedisserissomaisumavez,eupiro. —Tenhacalma—disseooutroemvozbaixa. Onegrosoltouumrugidoe,apalpandocomasmãos,apanhouapedrade amolarque ficavadebaixo dabraçola. —Matovocê—disse.—Arrancooseucoração. —Nãocomumapedradeamolar—disseooutro.—Tenhacalma,Wesley.

O negro resmungou com o rosto encostado num saco. O outro continuou devagar levantando os sacosdebebidaejogando-ospelaamurada. Enquantoestavanissoouviubarulhodemotor;olhoueviuumbarcovindonadireçãodelesnocanal. Eraumbarcobrancocomcabinealtapintadadecinzentoedotadadepara-brisa. —Barcochegando—disse.—Venhacá,Wesley. —Nãoposso. —Agoracomeçoalembrar.Anteseradiferente. —Entãoválembrando—disseonegro.—Eunãoesquecinada. Trabalhando rápido, o suor escorrendo pelo rosto, sem parar para olhar o barco que chegava lentamente,eleapanhavaossacosdebebidacomobraçobomeosjogavaparaforadobarco. —Cheguepralá. Pegou o saco que servia de travesseiro ao negro e jogou-o pelo costado. O negro ergueu o corpo e olhou. —Jáestãoaqui—disseooutro.Obarcoestavaquaseemparelhadocomeles. —ÉocapitãoWillie—disseonegro.—Comoutros. Napopadobarcobrancoestavamdoishomensde calçade flanelae chapéude panobrancosentados emcadeirasde pesca; umsenhoridosocomchapéude feltroe quebra-ventomanejavaoleme e guiavao barcorenteaomanguezalondeestavaobarcodocontrabando.

— E aí, Harry? — gritou o velho ao passar. O homem chamado Harry ergueu o braço bom em

resposta. O barco passou, os dois homens que pescavam olharam para o barco do contrabando e falaram

qualquercoisacomovelho.Harrynãoouviuoquedisseram.

— Ele vai virar na embocadura e voltar — disse Harry ao negro. Foi até embaixo e voltou com um

cobertor.—Éparacobrirvocê. —Atéqueenfim.Éimpossívelnãoteremvistoabebida.Oqueéquevamosfazer?

— Willie é malandro. Vai dizer a eles na cidade que estamos aqui. Os dois pescadores não vão se

meter.Porqueiriamligarparanós? Tremendo muito, o homem chamado Harry sentou-se na cadeira do piloto e pôs o braço bem esticado entre as coxas. Os joelhos tremiam, e com o tremor ele sentia as pontas do osso do braço se raspando. Afastou os joelhos, ergueu o braço e deixou-o pendente. Estava assim quando o barco passou porelesnavolta.Osdoishomenssentadosnascadeirasde pescaconversavam.Tinhamerguidoasvarase um deles as olhava através de seus óculos. Estavam muito longe para se ouvir o que diziam. Também de nadaadiantariaaHarryseouvisse. AbordodobarcofretadoSouthFlorida,descendoocanaldeWomanKeyporestaromarmuitoáspero parasairdorecife,ocapitãoWillie Adamspensavaoseguinte:entãoHarryfezatravessiaanoite passada. Esse caratemcojones. Deve ter pegadoa ventania. É barcode mar, sem dúvida. Comoserá que quebrouo para-brisa?Euéquenãoiafazeratravessiaemumanoitecomoadeontem.Euéquenãoiacontrabandear bebidadeCuba.AgoraestãocontrabandeandodeMariel.Éumtaldeentraresair.Deveestarescancarado.

—Oquefoiqueosenhordisse?

—Quebarcoéaquele?—perguntouumdoshomensdascadeirasdepesca.

—Aquelebarco?

—É,aquelebarco.

—Ah,éumbarcodeKeyWest.

—Pergunteidequeméobarco.

—Issonãosei.

—Serádepescador?

—Dizemqueé.

—Comodizemqueé?

—Elefazumpoucodetudo.

—Nãosabeonomedele?

—Não,senhor.

—VocêchamoueledeHarry.

—Eunão.

—Ouvivocêchamá-lodeHarry.

O capitão Willie Adams olhou bem o homem que lhe fazia essas perguntas. Viu um rosto

bochechudo de maçãs altas, lábios finos, olhos cinzentos fundos e boca desdenhosa, olhando para ele de baixo de um chapéu de lona. O capitão Willie Adams não tinha como saber que esse homem era consideradobonitoeirresistívelporgrandenúmerodemulheresemWashington. —Seochameiporessenomefoiporengano—disseocapitãoWillie. —Vê-sequeohomemestáferido,doutor—observouooutro,passandoosóculosaocompanheiro. —Percebiissosemóculos—replicouohomemtratadopordoutor.—Queméele? —Nãosei—disseocapitãoWillie. —Maspodemossaber—insistiuohomemdebocadesdenhosa.—Anoteosnúmerosdaproa. —Anotei,doutor. —Vamosfazerumaverificação—disseodoutor. —Osenhorédoutor?—perguntoucapitãoWillie. —Nãoemmedicina—respondeuohomemdeolhoscinzentos. —Seeunãofossedoutoremmedicina,nãoirialá. —Porquenão?

— Se ele precisasse de nós, teria feito um sinal. Se não precisa, não é da nossa conta. Aqui todo mundoseguiapelanormadenãosemeternoquenãoédasuaconta. —Muitobem.Entãometa-secomoqueédasuaconta.Leve-nosàquelebarco. CapitãoWilliecontinuousubindoocanal,oPalmerdedoiscilindrospipocandofirme. —Nãomeouviu? —Ouvi.

—Eporquenãoobedeceàminhaordem? —Quemvocêpensaqueé? —Issonãovemaocaso.Façaoqueestoumandando. —Quemvocêpensaqueé?—repetiucapitãoWillie.

— Pois bem. Para sua informação, sou uma das três pessoas mais importantes dos Estados Unidos

hoje.

—EntãoquediabosestáfazendoemKeyWest?

Ooutrohomeminclinou-separaafrente.

—Eleé…—disseempolgado.

—Nuncaouvifalar—retrucouocapitãoWillie.

—Poisvaiouvir—advertiuohomemchamadodedoutor.—Comovãoouvirtodososquemoram

juntoaestalagoazinhafedorenta,nemqueeutenhaquearrancartodoomanguezalpelaraiz.

—Vocêéumcaraetanto—dissecapitãoWillie.—Comofoiqueficoutãoimportante?

—Eleéoamigomaisíntimoeoconsultormaisinfluentede…—disseooutro.

—Porra,seeleétudoisso,oqueéqueestáfazendoemKeyWest?

—Eleestáaquirelaxando—explicouosecretário.—Elevaisernomeado…

— Chega, Harris — disse o homem chamado de doutor. — Agora nos leve àquele barco — determinou,sorrindo.Tinhaumsorrisoreservadoparataisocasiões. —Não,senhor. —Olheaqui,seupescadordebiloide.Façodesuavidauminfernose… —Émesmo?—ironizouocapitãoWillie. —Vocênãosabequemsou. —Nãomeinteressaoquevocêseja.Evocênãosabeondeestá. —Aquelehomemécontrabandistadebebida,nãoé? —Oqueéquevocêacha? —Talvezhajaumarecompensa. —Duvido. —Eleéumcontraventor.

— Ele tem família, precisa comer e alimentá-la. Quem paga a sua comida com pessoas trabalhando paraogovernoaquiemKeyWestaseisdólaresemeioporsemana? —Eleestáferido.Precisasertratado. —Entãoseferiubrincando.

— Não me venha com sarcasmo. Você vai nos levar àquele barco e vamos prender o homem e apreenderobarco. —Elevarparaonde? —ParaKeyWest. —Vocêéumaautoridade?

—Jálheexpliqueiquemeleé—disseosecretário.

— Muito bem. — O capitão empurrouforte a cana do leme e virouo barco, passando tão perto da

beira do canal que a hélice levantou uma nuvem de terra. Desceu o canal em marcha lenta para o lugar ondeestavaooutrobarcoancoradonomangue. —Temarmaabordo?—perguntouaocapitãoohomemchamadodedoutor. —Não. Osdoishomensdecalçadeflanelaestavamagoraempéolhandoobarcodocontrabandista. —Émaisdivertidodoquepescar,nãoé,doutor?—observouosecretário.

— Pescar é bobagem — disse o doutor. — Se você pesca um agulhão-bandeira, faz o que com ele?

Não se pode comer. Isto é mais interessante. Vou gostar de ver em primeira mão. Ferido como está, aquelehomemnãopodefugir.Omarestáagitado.Conhecemosobarcodele. —Osenhorvaiprendê-lopessoalmente,semajuda—disseosecretáriocomadmiração. —Edesarmado—completouodoutor.

—SemessabobagemdequererdarumadeagentedoFBI—disseosecretário. —EdgarHooverexageranapublicidade —disse odoutor.—Achoque jádemosmuitacordaaele. —Virou-separaocapitão.—Encosteaolado. CapitãoWillielançouoganchoeobarcoderivou. —Ei!—gritouparaooutrobarco.—Abaixemacabeça. —Oqueéisso?—perguntouodoutor,indignado. —Cale aboca! —retrucouocapitãoWillie.—Ei! —gritouparaooutrobarco.—Olhe, váparaa

cidade e fique calmo. Esqueça o barco. Vaiser apreendido. Desove a carga e vá para a cidade. Está aquia bordoum cara, um dedo-durode Washington, nãoé doFBI. Éalcaguete. Um dos primeiros doalfabeto. Dizqueémaisimportantedoqueopresidente.Querprendervocê.Pensaquevocêécontrabandista.Tem onúmerodoseubarco.Nuncavivocênemseiquemvocêé.Nãopossoidentificá-lo. Osbarcostinhamseafastadoumdooutro.OcapitãoWilliecontinuougritando. —Nãoseiondeéestelugarondevivocê.Nãosaberiacomovoltaraqui. —OK—gritoualguémdooutrobarco. —Voulevarestafiguraçaaquiparapescaratéoescurecer—gritouocapitãoWillie. —OK. —Eleadorapescar—gritouocapitãoWilliecomumavozjáquaserouca.—Masofilhodamãediz quenãosepodecomeroquesepesca. —Valeu,irmão—respondeualguémdooutrobarco.

— Esse homem é seu irmão? — perguntou o doutor, o rosto vermelho, mas com o anseio por informaçãoaindavivo. —Não,senhor.Quasetodomundoquemexecombarcoschamaumaooutrodeirmão. —VamosparaKeyWest—disseodoutor,massemmuitaconvicção.

— Não, senhor. Os cavalheiros me fretaram por um dia. Vou lhes prestar o serviço que o seu dinheiropagou.Vocêmechamoudedebiloide,masfaçoquestãodelhedarodiainteiroquefretaram. —Eleéumvelho—observouodoutoraosecretário.—Achaquedevemosdarumaliçãonele?

— Experimente — desafiou o capitão Willie. — Dou-lhe uma porrada na cabeça com isto. —

Mostrouumpedaçode canode chumboque usavaparamatartubarãopescado.—Porque oscavalheiros não lançam suas linhas na água e relaxam? Não vieram aqui para procurar complicações. Vieram para descansar. Você disse que não se come agulhão-bandeira, mas nestes canais não tem agulhão-bandeira. Terámuitasortesepegarumagaroupa. —Oqueéquevocêacha?—perguntouodoutoraosecretário. —Melhordeixarpralá—disseosecretário,deolhonocanodechumbo. — Ainda por cima você está enganado— disse ocapitãoWillie. — Agulhão-bandeira é tãogostoso comopapa-terra. Já vendimuitoagulhãopara omercadode Havana a vinte centavos oquilo, opreçodo papa-terra. —Ora,caleaboca—disseodoutor. — Penseique estivesse interessadonesses assuntos comoautoridade. Nãoestáenvolvidonos preços das coisas que comemos ou consumimos? Então? Não cuida para que custem sempre mais? Aumenta a carneebaixaopeixe?Opreçodopeixejáestáláembaixo. —Ora,caleaboca!—repetiuodoutor. Nobarcodabebida,Harryjátinhalançadoforaoúltimosaco. —Pegueafacadepeixe—pediuaonegro. —Foi-se. Harry apertou os botões e deu partida nos motores. Pegou a machadinha e com a mão esquerda cortou o cabo da âncora em cima da abita. Ele afunda e eles o pescam quando pegarem a carga, pensou. Levo o barco para Garrison Bight, e se vão apreendê-lo nada posso fazer. Preciso de um médico. Não queroperderobraçoeobarco.Acargavaletantoquantoobarco.Apartequequebroufoimínima.Umas poucasgarrafasquebradasespalhamcheiroforte. Recolheu o gancho de bombordo e virou o leme para sair do manguezal com a maré. Os motores funcionavammaravilhosamente.ObarcodocapitãoWillieestavaduasmilhasàfrente,rumandoparaBoca Grande.Parecequeamaréjáestáemboaalturaparaatravessaroslagos,pensouHarry.Recolheuogancho de estibordoe osmotoresroncaramquandoele empurrouoafogador.Aproaergueu-se e avegetaçãodo manguezal foi deslizando para trás à medida que o barco chupava a água aos pés dela. Espero que não o apreendam, pensou. Espero que tratem do meu braço. Como podíamos saber que iam atirar em nós em Marieldepoisdetermospassadoseismesesentrandoesaindo?Essescubanos.Fulanonãopagouasicrano, nóslevamosostiros.Essescubanos. —Ei,Wesley—gritouele,olhandoparatrásnacabine,ondeonegroestavadeitadocomocobertor porcima.—Comoéqueestáaí,Boogie? —DeusdoCéu,nãopodiaestarpior.

—Vaisesentirpioraindaquandoodoutorfutucarprocurandoabala—disseHarry. —Vocênãoéhumano.Nãotemnadadehumano. OvelhoWillie é malandro,pensouHarry.Malandrodosbons,ovelhoWillie.Foimelhorvirdoque terficadoesperando.Foiumerroesperar.Euestavatontodemaiseenjoado,enãopudepensardireito. ÀfrenteeleviuabrancuradoHotelLaConcha,astorresderádioeosprédiosdacidade.Viatambém as barcaças de transporte de automóveis atracadas no cais Trumbo, por onde passaria para chegar a Garrison Bight. O velho Willie, pensou. Deve estar castigando os homens. Quem serão os urubus? Puxa, nãoestounadabem.Estoutonto.Fizemosbememvir.Seriabobagemesperar. —Sr.Harry—disseonegro.—Lamentonãoterpodidoajudarajogaracargafora. —Ora,qualonegroqueprestaquandoestábaleado?Vocêégenteboa,Wesley. Entre o ronco dos motores e o espadanar da água levantada pelo barco, Harry sentiu uma música estranha dentro dele. Sempre sentia isso quando voltava para casa depois de uma viagem. Tomara que consertemomeubraço,pensou.Precisomuitodele.

ADENÚNCIA

A DENÚNCIA AntigamenteemMadrioChicoteeraumestabelecimentomaisoumenoscomooStork,semamúsicaeas

AntigamenteemMadrioChicoteeraumestabelecimentomaisoumenoscomooStork,semamúsicaeas debutantes,ouobarmasculinodoWaldorfsedeixassemasgarotasentrar.NoChicoteelasentravam,mas era lugar de homem, e elas não tinham tratamento especial. Pedro Chicote era o proprietário, e era também uma dessas personalidades que dão alma a um estabelecimento. Era um grande preparador de bebidaseestavasempresimpático,alegreecheiodeentusiasmo.Entusiasmoéumcomponenteraro,que poucas pessoas possuem permanentemente. É um componente que não deve ser confundido com teatralidade ou exibicionismo. Chicote possuía um entusiasmo legítimo, nada postiço. E era modesto, simplese prestativo.Erasimpático, cordiale eficiente comoGeorge, olibré doRitzde Paris, oque nãoé dizerpouco. Naquele tempo os esnobes que acompanhavam os jovens ricos de Madri se reuniam num lugar chamadoNuevoClub, e as pessoas confiáveis frequentavamoChicote.Láiamuitagente de quemeunão gostava, como acontecia também no Stork, mas nunca tive nenhum momento desagradável no Chicote. Sabemporquê?Porquelánãosediscutiapolítica.Haviacafésondesósediscutiapolítica,masnoChicote, não.Masfalava-semuitonosoutroscincoassuntos,eànoiteasgarotasmaislindasdacidadepassavampor lá.Eraolugaridealparaseiniciarumanoite,etodosnósiniciamosmuitasnoitesmaravilhosaslá. Eraolugaraondeseiaparasaberquemestavanacidadeouparaondetinhamidoosquenãoestavam na cidade. E, se era verão e não tinha ficado ninguém na cidade, podia-se ficar lá curtindo um drinque porqueosgarçonseramtodossimpáticos. Era como um clube, com a diferença de não se ter que pagar mensalidade ou qualquer outra coisa. Era o melhor bar da Espanha, e acho que um dos melhores do mundo. Todos nós que o frequentávamos tínhamosgrandeafeiçãoporele. Outracoisaadizeréqueosdrinquesnãotinhamcomparação.Quandosepediaummartínielevinha com o melhor gim do mercado; e Chicote tinha um uísque de barril importado diretamente da Escócia, uísque tão superior às marcas anunciadas que seria covardia compará-lo com elas. Mas aí estourou a revolta. Nessa ocasião Chicote estava em San Sebastián supervisionando o estabelecimento de verão que

tinha lá. Ainda está em San Sebastián, e dizem que é o melhor bar da Espanha de Franco. Os garçons assumiramobardeMadrieaindaoestãotocando,masaboabebidaacabou. AmaioriadosantigosfrequentadoresdoChicoteestãocomFranco,masalgunsestãocomogoverno republicano.OChicoteeraumlugaralegre,easpessoasalegressãogeralmenteasmaiscorajosas;e,como aspessoasmaiscorajosascostumammorrerprimeiro,amaiorpartedosantigosfrequentadoresdoChicote não vive mais. Os barris de uísque também não existem mais há meses, e o último gim amarelo nós o

bebemosemmaiode1938.Portanto,nãohámaismotivoparaseirlá,eachoque,seLuisDelgadotivesse

chegado a Madri um pouco mais tarde, talvez tivesse ficado longe daquele bar, e assim não teria se envolvidoemcomplicações.MasquandochegouaMadri,em1937,aindatinhamogimamareloe aágua tônicaindiana.Comonemumnemoutramerecequesearrisqueavidaparabebê-los,talvezeletenhaido lá só para tomar um drinque em um lugar de tão nobres tradições. Quem conheceu Luis Delgado e conheceutambémovelhoChicoteacharáissoperfeitamentecompreensível. Tinham abatido uma vaca na embaixada e o porteiro foi ao Hotel Florida nos avisar que haviam guardadocincoquilosdecarnefrescaparanós.Fuiapébuscaracarnemuitocedonamanhãdeinvernode Madri.Doladodeforadoportãodaembaixadaficavamdoisguardasdeassaltoarmadosdefuzis,eacarne estavanoalojamentodoporteiro. O porteiro disse que o corte era muito bom, mas que a vaca era magra. Dei a ele um punhado de sementesde girassole algumascastanhasque tinhanobolsodomeublusãode flanelae conversamosum poucoempédoladodeforadoalojamentonojardimdaembaixada. Voltei para o hotel com o pacote pesado de carne debaixo do braço. A Gran Via estava sob bombardeio, então entrei no Chicote para aguardar que terminasse. O bar estava cheio e barulhento. Sentei-me numa mesa do canto perto da janela protegida por sacos de areia, descanseio pacote de carne nobancoaomeuladoetomeiumgim-tônica.Foinessasemanaqueficamossabendoqueaindahaviaágua tônica. Ninguém tinha pedido água tônica desde o começo da guerra, e o preço ainda era o mesmo de antes. Os vespertinos ainda não tinham saído, e eu comprei de uma mulher idosa três publicações do partido. Custava dez centavos cada, e eu disse a ela que guardasse o troco de uma peseta. Ela disse que Deusmeabençoaria.Duvidei,masliostrêsfolhetosebebiogimcomtônica. Umgarçomconhecidomeudosvelhostemposchegou-seàmesaemedissequalquercoisa. —Não.Nãoacredito—comentei. —Masé —insistiuele, apontandocomabandejae acabeçanamesmadireção.—Nãoolhe agora. Eleestálá. —Nãoédaminhaconta—respondi. —Nemdaminha. Ele saiue eucompreios vespertinos que tinhamacabadode sair e que outramulher idosajávendia. Não havia dúvida quanto ao homem que o garçom tinha me mostrado. Nós dois o conhecíamos muito bem.Queidiota,pensei;vaiseridiotaassimnosquintos.

Nesse instante apareceu um camarada grego que se aproximou e sentou-se à mesa. Era um comandante de companhia na Décima Quinta Brigada que ficara soterrado por uma bomba aérea que mataraoutros quatro. Ele ficarasobobservaçãopor algumtempoe depois foimandadoparaumacasade repousooucoisasemelhante. —Comovai,John?—perguntei.—Experimenteumdestes. —Comosechamaestedrinque,sr.Emmunds? —Gim-tônica. —Queespéciedetônica? —Quina.Experimente. —Nãocostumobeber,masquinaéumbomremédioparafebre.Voutomarumpequeno. —Quefoiqueomédicodissedoseucaso,John? —Nãoprecisavermédico.Estoubem.Sótemumascoisasdezumbidonacabeça. —Precisairaummédico,John. —Vou.Maseleentendenão.Dizfaltapapeleuentrar. —Vouverisso.Conheçoopessoallá.Poracasoomédicoéalemão? —É.Alemão.Falainglêsbomnão. Ogarçomvoltou.Eraumhomemidoso,calvoedemaneirasantigasqueaguerranãotinhamudado. Pareciamuitopreocupado. —Tenhoumfilhonafrente—disse.—Outrofilhomeumorreu.Agoraisso. —Oproblemaéseu. —Evocê?Eujálhedissetudo. —Entreiaquiparatomarumdrinqueantesdecomer. —Eeutrabalhoaqui.Masmedigaoquefazer. —Oproblemaéseu—repeti.—Nãosoupolítico. —Falaespanhol,John?—pergunteiaocamaradagrego.

— Não. Entendo algumas palavras. Falo inglês, grego, árabe. Já falei árabe muito bem. Sabe como

fiqueisoterrado? —Não.Soubequevocêestevesoterrado,nadamais. Tinhaumrostomorenobonitoemãosmuitoescurasquegesticulavamquandoelefalava.Eradeuma ilhagregaefalavacomgrandeanimação.

— Pois voulhe dizer. Sabe que tenho muita experiência de guerra. Antes de ser capitão do exército

grego.Fuiumbomsoldado.QuandovioaviãovoandoemcimaenósnastrincheirasemFuentesdelEbro, olheibem.Oaviãoseaproximandopendeuassim(mostrouamãoinclinadaparabaixo),olhouparanós,e eudisse:‘Ah-ah.ÉparaEstado-Maior.Fezaobservação.Logovêmoutros.’ “Como eu disse, vieram outros. Fiquei lá em pé olhando. Mostrei para a companhia o que ia acontecer. Vieram de três em três, um na frente e dois atrás. Passou um grupo de três e eu disse à companhia:‘Estãovendo?Vaipassarumaformação.’

“Passaram outros três e eu disse à companhia: ‘Agora tudo OK. Agora não tem mais perigo.’ Foi a últimacoisaqueficounaminhalembrançaporduassemanas.” —Quandofoiisso?

— Faz um mês. O capacete ficou na minha cara quando a bomba me enterrou; daí tive o ar do

capacete pararespiraraté que me tiraram, maseunãosabiadisso.Masnoarque respireitinhafumaçada explosão,porissofiqueidoentepormuitotempo.AgoraestouOK,sótenhoessesininhonacabeça.Como chamaestedrinque?

— Gim-tônica. Água tônica indiana Schweppes. Este café aqui era muito especial antes da guerra e

esta tônica custava cincopesetas quandoocâmbioera sete pesetas por dólar. Acabamos de descobrir que aindatemaáguatônica,eopreçoaindaéomesmo.Sórestaumacaixa. —Bomdrinquemesmo.Medizumacoisa,comoeraacidadeaquiantesdaguerra? —Ótima.Comia-semuitobem. Ogarçomvoltoueinclinou-separaamesa.

—Eseeunãofizer?—disse.—Éminharesponsabilidade. —Sequiser,váaotelefoneeligueparaestenúmero.Escrevaaí.—Eleanotouonúmero.—Mande chamarPepé—disseeu.

— Nada tenho contra ele — disse o garçom. — Mas é a Causa. Essa pessoa é perigosa para nossa

causa.

—Osoutrosgarçonsnãooreconheceram?

—Achoquesim.Masninguémfalounada.Éclienteantigo.

—Eutambémsouclienteantigo.

—Podesertambémqueeleagoraestejadonossolado.

—Isso,não.Seiquenãoestá.

—Nuncadenuncieininguém.

—Oproblemaéseu.Talvezumdosoutrosgarçonsodenuncie.

—Não.Sóosgarçonsantigosoconhecem,eessesnãodenunciam.

—Metragaoutrogimamareloeangustura.Aindatemáguatônicanagarrafa.

—Oqueéqueeleestádizendo?—perguntouJohn.—Nãoentendoquasenada.

—Temumcidadãoaquiquenósdoisconhecemosdosvelhostempos.Eraexímionotiroaopombo,

eeuoencontravanostorneios.Eleéfascistaesearriscamuitovindoaqui.Massemprefoicorajosoemeio

burro.

—Memostrequemé.

—Estánaquelamesacomosaviadores.

—Qualdeles?

—Oderostoqueimado,comobonétapandoumolho.Oqueestárindo.

—Éfascista?

—É.

—ÉaprimeiravezquevejoumfascistadepertodesdeFuentesdelEbro.Temmuitofascistaaqui?

—Alguns,devezemquando.

— Ele bebe o mesmo que você. Bebendo o que fascista bebe vão pensar que somos também, não? VocêjáestevenaAméricadoSul?CostaOcidental,Magallanes? —Não. —Ébom.Sóquetemmuitopo-lo-vo. —Muitooquê? —Po-lo-vo.—Eleacrescentavaumasílaba.—Sabe,aquelequetemoitobraços. —Ah,polvo.

—Po-lo-vo.Sabe,soumergulhador.Bomlugarparasetrabalhar,ganha-sebem,mastemmuitopo-

lo-vo. —Incomodavamvocê? —Issonãosei.PrimeiravezquefuiaoportodeMagallanesvipo-lo-vo.Eleficaempéassim.—Pôs aspontasdosdedosnamesaeergueuorestodamão,aomesmotempoemquelevantavaosombroseas sobrancelhas.—Ficaempémaisaltodoqueeuemeolhanosolhos.Puxeiacordaparameiçarem. —Dequetamanhoeraele,John?

— Não posso dizer com certeza porque o vidro do capacete deforma um pouco. Mas a cabeça era

grande, mais de um metro. Ele apoiado nos pés olhando pra mim assim (chega o rosto perto do meu). Quandosaiodaáguaetiramomeucapacete,eudigoquenãomergulhomais.Aíohomemdelá,ochefe, diz: “Que é isso, John, o po-lo-vo tem mais medo de você do que você tem dele.” Então eu respondo:

“Impossível!”Quetalseagentebebermaisdestabebidafascista? —Porquenão? Euobservavaohomemlánaoutramesa.OnomeeraLuisDelgado.Aúltimavezqueeuovirafoiem 1933, fazendotiroaopomboemSanSebastián.Me lembrode que fiqueiaoladodele noestande nafinal do grande torneio. Tínhamos feito uma aposta, aliás acima das minhas possibilidades, e acho que acima também das possibilidades dele se perdesse aquele ano. Quando ele me pagou na descida dos degraus, lembroquefoimuitosimpático,dando-meaimpressãodequeeraumahonramepagar.Depoistomamos um martíni no bar e me lembro de ter tido aquela sensação maravilhosa de alívio que acontece quando apostamos mais do que podemos, e pensei em como estaria ele se sentindo. Eu tinha atirado pessimamente a semana toda, e ele maravilhosamente; mas ele ficara com aves quase impossíveis e carregaranasapostascontramim. —Vamoscasarumduro?—propôs. —Quermesmo? —Sevocêquiser. —Aquanto? Eletirouacarteiradobolso,olhoudentroeriu. —Digamosquepeloquevocêquiser.Quetaloitomilpesetas?Éoquetemaí,parece.

Correspondiaaunsmildólaresaocâmbiodaépoca.

— Feito — disse eu, toda a calma interior se evaporando e voltando o buraco que o jogo abre na gente.—Quemcanta? —Eu. Sacudimosaspesadasmoedasde cincopesetasnamãofechada.Depoiscadaumpôsasuamoedanas costasdamãoesquerdaecobriu-acomadireita. —Qualéasua?—perguntouele. DescobriapesadamoedadepratacomaefígiedeAfonsoXIIIcriança. —Cara—disseeu.

— Leve estas porcarias e tenha a bondade de me pagar um drinque. — Esvaziou a carteira. — Por

acasoestáinteressadoemcomprarumaboaespingardaPurdey? —Não.Masolhe,Luis,seprecisardedinheiro… Estendiaeleasnotasdurinhas,dobradas,depapelgrossolustroso,demilpesetas. —Nãosejaidiota,Enrique—disseele.—Jogamos,nãojogamos? —É.Masnosconhecemosbem. —Nemtanto. —Aívocêéquemsabe.Querbeberoquê? —Quetalumgim-tônica?Gostomuitodessabebida. Entãotomamosumgim-tônica,eunãogostandonadadeterlimpadooLuiseaomesmotempofeliz por ter ganhado, e aquele gim-tônica me parecendo o melhor de toda a minha vida. Não tem sentido mentirsobre essascoisase fingirque nãose gostade ganhar;masaquele LuisDelgadoeraumjogadorde classe. —Seaspessoassójogassemoquepodemperder,ojogoperdiaoencanto,nãoacha,Enrique? —Nãosei.Semprejogueiacimademinhasfinanças. —Nãomevenhacomessa.Dinheironãolhefalta. —Falta.Ecomo! —Ah,todomundotemdinheiro—disseele.—Ésóvenderumacoisaououtraparaterdinheiro. —Nãotenhomuitoquevender. —Ora,nãomevenhacomessa.Nuncaconheciumamericanoquenãofosserico. Podia até ser verdade. Se não fosse, ele não os encontraria no bar do Ritz nem no Chicote naquele tempo. Agora ele estava de novo no Chicote, e os americanos que encontrava lá eram daqueles que não encontrariaantes—anãosereu;eeueraummal-entendido.Oqueeudariaparanãovê-lolá! Porém, se ele queria fazer uma burrice tamanha como aquela, eu não tinha nada com isso. Mas, quando olhava para sua mesa e recordava os velhos tempos, me sentia mal, e pior ainda por ter dado ao garçom o telefone da contraespionagem da Seguridad. O garçom poderia falar com a Seguridad simplesmente pedindo o número à telefonista, mas simplifiquei para ele o trabalho de providenciar a prisãodeDelgadonumdaquelesmeusexcessosdeimparcialidade,deindiferençaponciopilatescaemaisa

curiosidade de ver como as pessoas se comportam ante um conflito emocional, curiosidade que faz dos escritoresamigostãocultivados. Ogarçomvoltou. —Oqueéquevocêacha?—perguntou-me.

— Eu jamais o denunciaria — respondi, procurando desfazer para mim o que tinha feito com o

númerodotelefone.—Massouestrangeiro.Aguerraésua,eoproblematambém. —Masvocêestácomagente. —Totalmenteesempre.Masissonãoincluidenunciarvelhosamigos. —Eeu? —Comvocêédiferente. Era verdade, e eunão podia dizer mais nada. Só queria não ter tomado conhecimento do assunto. A minha curiosidade de saber como as pessoas reagem em tais casos já tinha passado e já estava dolorosamente satisfeita.Voltei-me paraJohne nãoolheimaisparaamesade LuisDelgado.Sabiaque ele tinhavoadocomosfascistaspormaisde umano, e agoraestavaali, comuniforme legalista, conversando comtrêsjovensaviadoreslegalistasdaúltimafornadatreinadanaFrança. Nenhum daqueles garotos novatos o conhecia, e fiquei pensando se ele estaria ali para furtar um

avião ou coisa assim. Fosse qual fosse o motivo dele, Delgado estava cometendo grande burrice em aparecernoChicote. —Eaí,John?—perguntei. —Bom.Bebidaboa,OK.Estouficandomeioembebido.Bomparaozumbidonacabeça. Ogarçomvoltou,agitadíssimo. —Denuncieiele. —Entãovocênãotemmaisproblemas. —Não—respondeuele,empolgado.—Denuncieiele.Jáestãoacaminhoparaprendê-lo. —Vamosembora—disseeuaJohn.—Vaiterencrencaporaqui.

— Então é melhor a gente ir. Sempre acontece muita coisa, mesmo que a gente procure evitar.

Quantodevemos? —Nãovãoficar?—perguntouogarçom. —Não. —Masvocêmedeuotelefone. —Foi.Quemviveaquiacabasabendomuitosnúmerosdetelefone. —Cumpriomeudever. —Claro.Deveréumsentimentoforte. —Eagora?

— Ora, você estava vibrando agora há pouco, não estava?Quem sabe você não vaivibrar mais uma vez?Podeacabargostando.

—Estáesquecendooembrulho—disseogarçom,emeentregouacarnequeestavaembrulhadaem doisenvelopesnosquaischegavamexemplaresdoSpurparaaumentarapilhaderevistasqueseacumulava numasaladaembaixada. —Compreendo—disseeuaogarçom.—Compreendoperfeitamente. —Eraumvelhocliente,edosbons.Nuncadenuncieininguémantes.Enãotiveprazeremfazerisso. —Nãosejacíniconemgrosseirocomele.Digaque euodenunciei.Ele me detestapordivergências políticas.Ficariadecepcionadosesoubessequefoivocê. —Nadadisso.Cadaumtemqueassumirasuaresponsabilidade.Vocêcompreende,não? — Compreendo — disse eu. E acrescentei uma mentira: — Compreendo e aprovo. — Na guerra estamossemprementindo;e,quandoprecisamosmentir,temosqueserrápidoseconvincentes. TrocamosumapertodemãosesaícomJohn,masantesolheiparaamesaondeestavaLuis.Tinhana frente outro gim-tônica, e todos riam com alguma coisa que ele tinha dito. Luis tinha um rosto alegre, queimadodesol,eolhosdeatirador.Quepapelestariafazendoali,pensei. Foi muita burrice dele ter ido ao Chicote. Mas era exatamente o que ele faria para se jactar quando voltasseparaosseus. Quandosaíamos,umcarrograndedaSeguridadparouemfrenteaoChicote.Oitohomensdesceram, seis armados commetralhadoras portáteis tomaramposiçãonaentrada.Dois de trajes civis entraram.Um homempediunossosdocumentos.Eudisse“estrangeiros”,elemandouseguir. SubindoaGranVianoescuro, vimuitovidroquebradonascalçadase muitoescombroresultante do bombardeio.Aindahaviafumaçanoar,eocheirodeexplosivoedegranitodespedaçado. —Ondevaicomer?—perguntouJohn. —Noquarto.Tenhocarneparanóstodos. —Entãodeixecomigo.Cozinhomuitobem.Umaveznonavio… —Devesercarnedura.Avacafoimortahoje. —Quenada.Emtempodeguerranãotemcarnedura. Aspessoasse apressavamnoescuroparatomarocaminhode casa, tinhamentradonoscinemaspara esperarofimdobombardeio. —Oque foique deunacabeçadaquele fascistapraele iraocafé onde eraconhecido?—perguntou

John.

—Eleestavadoidoprairlá. —Esseéummaldasguerras.Muitagenteficadoida. —John,vocêdisseumacoisamuitocerta. Nohotelpassamospelossacosde areiaque protegiamopostodoporteiroe entramos.Quandopedi achave,oporteirodissequedoiscamaradastinhamsubidoparatomarbanho. —John,vocêsobeenquantovoutelefonar. Fuiàcabineeligueiparaonúmeroqueeutinhadadoaogarçom. —Alô!Pepé?

Umavozsaídadelábiosfinosatendeu. —Quetal,Enrique? —Pepé,vocêprendeuumtalLuisDelgadonoChicote? —Sí,hombre,sí.Sinnovedad.Semproblema. —Elesabealgumacoisasobreogarçom? —Não,hombre,não. —Entãonãodigaaele.Digaqueeuodenunciei,tá?Nadasobreogarçom. —Quediferençafaz?Eleéumespião.Vaiserfuzilado. —Eusei.Masfazdiferença,sim. —Comoquiser,hombre.Quandonosvemos? —Noalmoçoamanhã.Temoscarne. —Euísqueantes.Combinado,hombre. —Salud,Pepé,eobrigado. —Salud,Enrique.Nãotemdequê.Salud. Eraumavozestranhaetétrica,quenuncameacostumeiaouvir,masquandosubiaaescadamesenti muitomelhor. Todosnós,antigosclientesdoChicote,tínhamosapegoaele.FoiporissoqueLuisDelgadocometeu a temeridade de voltar lá. Podia ter feito o seu trabalho em algum outro lugar, mas estando em Madri simplesmente tinha que ir ao Chicote. Foi bom cliente, conforme disse o garçom, e fomos amigos. Qualquer pequeno gesto de bondade que pudermos praticar na vida deve ser praticado. Por isso fiquei contente de ter ligado para o meu amigo Pepé na Seguridad; Luis Delgado era velho frequentador do Chicoteeeunãoqueriaqueeleficassedesiludidocomosgarçons,oucomraivadeles,antesdemorrer.

ABORBOLETAEOTANQUE

A BORBOLETAEOTANQUE UmanoiteeuiaapédoserviçodecensuraparaomeuquartonoHotelFloridadebaixodechuva.Nomeio do caminho fiquei

UmanoiteeuiaapédoserviçodecensuraparaomeuquartonoHotelFloridadebaixodechuva.Nomeio do caminho fiquei aborrecido com a chuva e parei no Chicote para um drinque rápido. Era o segundo inverno de bombardeio do cerco de Madri. Faltava de tudo, até cigarro e alegria, todo mundo sentia um pouco de fome o tempo todo, e às vezes de repente ficava-se irritado com coisas que não se podiam mudar,comootempo,porexemplo.Eudeviatercontinuadoacaminhadaparaohotel,faltavamsócinco

quarteirões; mas, quando vi a porta do Chicote, entrei para tomar um rápido e depois subir a Gran Via pisandoemlamaeemescombrosdosprédiosbombardeados.

O café estava cheio. Não se podia chegar ao balcão do bar, e todas as mesas estavam ocupadas. O

ambienteerasófumaça,cantoria,homensdeuniformeeocheirodepaletósdecouromolhados,enobar

serviamdrinquesporcimadascabeçasaquemnãoconseguiaencostarnobalcão.

Umgarçomqueeuconheciaencontrouumacadeiravaziaemumamesaemesenteicomumalemão

também meu conhecido, sujeito magro, branquelo e de gogó saliente que trabalhava na censura, e mais duaspessoasqueeunãoconhecia.Amesaficavanomeiodosalão,umpoucoàdireitadequementra.

A cantoria não deixava ninguém ouvir sequer a própria voz. Pedi gim e angustura e o dediquei à

chuva. O lugar não podia estar mais cheio e todo mundo se mostrava alegre, talvez um pouco alegre

demais por efeito da nova bebida catalã que a maioria bebia. Duas pessoas que eu não conhecia bateram emminhascostas.Amoçaqueestavaemnossamesadissealgumacoisaamim,nãoouviedisse:“Claro.”

Quandopareideolharemvoltaeolheiparaanossamesa,viqueamoçaerahorrivelzinha;equando

ogarçom voltoudescobrique oque ela tinha ditoantes foise euqueria um drinque. O rapaz que estava com ela não tinha ar de pessoa muito decidida, mas a moça parecia ser decidida o bastante para ambos. Tinha um rosto forte, semiclássico, assim como de domador de leões; e o rapaz com ela tinha tudo para estar usando uma gravata de escola aristocrática. Mas não estava. Vestia paletó de couro como todos nós. Sóqueopaletónãoestavamolhadoporquetinhamchegadoaliantesdachuva.Amoçatambémvestiaum paletódecouroquecombinavabemcomorostodela.

Eujá estava arrependido de ter entrado no Chicote. Se tivesse continuado o meucaminho, já estaria nohotelvestidocomroupaenxutaetomandoumdrinquenoconfortodacamacomospésparacima.Mas estava ali, já farto de olhar aquelas duas caras jovens. A vida é curta e as mulheres feias são muito compridas; sentado naquela mesa concluí que, apesar de ser escritor e portanto ter uma curiosidade insaciável por gente de toda espécie, não estava nem um pouco interessado em saber se os dois alieram casados,ouoqueachavamumdooutro,ouquaiseramsuasideologias,ouseeletinhaalgumdinheiro,ou se ela tinha algum dinheiro, ouqualquer coisa a respeito deles. Concluíque deviam trabalhar no rádio. E que, quando se viam civis de aspecto estranho em Madri, eles eram sempre gente de rádio. Então, para dizeralgumacoisa,eleveiavozepergunteiseeramdorádio. —Somos—disseamoça.Então,acerteiemcheio!Eramdorádio. —Comovai,camarada?—pergunteiaoalemão. —Muitobem.Evocê? —Molhado—respondi.Eleriucomacabeçapendidaparaumlado.

— Por acaso tem cigarro? — Passei-lhe o meu penúltimo maço de cigarros, ele tirou dois. A moça decididatiroudois,orapazdagravatadeescolaaristocráticatirouum. —Tireoutro—gritei. —Não,obrigado—respondeu.Oalemãotirouesseoutro. —Seincomoda?—perguntousorrindo.

— Claro que não. — Eume incomodava, e ele sabia. Mas queria tanto os cigarros que não ligou. A

cantoria tinha cessado momentaneamente, ou tinha feito uma pausa, como às vezes acontece numa

tempestade,epudemosouviroquedizíamos. —Estáaquihámuitotempo?—perguntouamoçadecidida. —Intermitentemente—respondi.

— Precisamos ter uma conversa séria — disse o alemão. — Quero levar uma conversa com você.

Quandopodeser? —Eulhetelefono—respondi. Eraumalemãomuitoestranho,enenhumdosbonsalemãesgostavadele.Viviasobafalsaimpressão de que sabia tocar piano, mas, se a gente não odeixasse chegar perto de um piano, ele até era aceitável, desde que não ficasse exposto a bebida ou à oportunidade de fofocar; só que ninguém jamais conseguiu mantê-lolongedessastrêscoisas. Fofocaeraoqueelefaziamelhor.Sempresabiaalgumacoisanovaealtamentedesabonadoradeuma pessoaqualquerdeMadri,Valência,Barcelonaeoutroscentrospolíticoscujosnomeslhefossemcitados. Acantoriarecomeçouaplenovapor,enãosepodefofocardireitogritando,porissoaperspectivaera deumatardechatanoChicote.Resolvisairlogoquepagasseumarodadadedrinques. Aí foi que a coisa começou. Um civil de terno marrom, camisa branca, gravata preta e cabelo escovadoparatrásdeumatestaalta,queandavafazendogracinhasdemesaemmesa,molhouumgarçom

fazendoesguicharumabombadeflit.Todomundoriu,excetoogarçom,quecarregavaumabandejacheia dedrinques.Ficouindignado. — No hay derecho — disse o garçom. É a forma de protesto mais simples e mais forte que se usa na Espanha. Encantado com o seu sucesso, e aparentemente esquecido de que estávamos no segundo ano da guerra, e de estar ele numa cidade sitiada, todos vivendo sob tensão, e de que ele era apenas um dos únicosquatrocivisnocafé,ohomemdabombadeflitesguichoucontraoutrogarçom. Olheiemvoltaprocurandoumlugarparameabaixar.Osegundogarçomtambémficouindignado,e ohomem da bomba de flit deu-lhe mais um esguicho com gosto. Algumas pessoas ainda acharam aquilo engraçado, inclusive amoçadecidida.Ogarçomsacudiaacabeça.Os lábios dele tremiam.Eraumsenhor idosoquetrabalhavanoChicotehaviadezanos. —Nohayderecho—disseelesemperderadignidade. Mashouvequemrisse,e,semnotarqueacantoriatinhacessado,ohomemdabombadeflit molhou anucadeoutrogarçom.Ogarçomvirou-secomabandejanamão. — No hay derecho — disse. Desta vez não foi um protesto, mas uma acusação. Três homens fardados saíram de uma mesa e caminharam para o homem da bomba de flit, e, quase que instantaneamente, os quatrojásaíampelaportagiratória.Logoseouviuumestalocomooqueseouvequandoalguémlevaum tapanaboca,esópodiaserohomemdabombadeflit.Alguémpegouatalbombaemandou-apelaporta, atrásdodono. Ostrêshomensfardadosvoltaramcomumarmuitosériodejusticeiros.Aíaportagirouetrouxede volta o homem da bomba. Tinha o cabelo caído nos olhos e sangue no rosto, a gravata puxada para um ladoeacamisarasgada.Voltavacomabombadeflite,quandoentroudeolhosarregaladoserostopálido, lançouumesguichodesafiadorportodoosalão. Umdostrêshomensfardadoscaminhouparaele comumolharestranho.Outrosse juntaramaele e o forçaram a se espremer no espaço entre duas mesas à esquerda de quem entra no salão, o homem da bombadeflitesperneandodesesperado.Quandootirosoou, agarreiamoçadecididapelobraçoe flechei comelaparaaportadacozinha. Aportaestavafechada.Forcei-acomoombro,masnãoconseguiabri-la. —Abaixe-se aínocantodobar—disse eu.Elaficoude joelhos.—Deitada.—Forcei-aase deitar. Elaestavafuriosa. Todo mundo no café, exceto o alemão, que se deitara atrás de uma mesa, e o rapaz que devia estar usando gravata de escola aristocrática e que estava em pé em um canto perto de uma parede, tinha uma armanamão.Emumbancoaolongodaparede,trêssuperlourasdecabeloescurorenteaocrânioestavam naspontasdospésparavermelhoregritandocomodoidas. —Nãoestoucommedo—disseamoçadecidida.—Istoéridículo. —Nãovaiquererlevartironumabrigadecafé,vai?Seaquelereidoflittemamigosaqui,acoisafica preta.

Masnãotinha,obviamente,porqueaspessoascomeçaramaguardarosrevólveres,alguémdesceudo bancoaslourasgritadeiras, e todososque tinhamse aglomeradopertodohomemdabombade flit antes dotiroseafastaram,deixando-oládecostasnochão. —Ninguémsaienquantoapolícianãochegar—gritoualguémdaporta. Doispoliciaisarmadosdefuzilequefaziampartedapatrulhaderuapostaram-senaporta;e,quando foi dado o aviso de não sair, seis homens formaram-se em linha e caminharam para a porta, sendo três desses os mesmos que tinham posto o homem da bomba de flit para fora do café. Um era o que tinha atirado. Passaram pelos policiais armados de fuzil como quem chega e tira do anzol o peixe que outro acaboude pescar. Quando saíram, um dos policiais atravessouo fuzil na porta e gritou: — Ninguém sai. Ninguém. —Porquesaíramaqueles?Porquedevemosficarseunsjásaíram?—gritoualguém. —Erammecânicosqueprecisavamvoltarparaseusaviões—alguémjustificou. —Mas,sealgunsjásaíram,nãotemsentidoreterosdemais. —TodosdevemesperaraSeguridad.Tudodeveserfeitodeacordocomaleieemordem. —Mas,sealguémjásaiu,nãotemsentidoreterosoutros. —Ninguémdevesair.Todostêmqueesperar. —Chegaasercômico—disseeuàmoçadecidida. —Nãoé,não.Éhorrível. Estávamos em pé. Ela olhava indignada para o reido flit no chão. Ele estava com os braços abertos e umapernaencolhida. —Voulásocorreropobreferido.Porqueninguémosocorre,oufazqualquercoisaporele? —Eunãomemeteria—disseeu.—Vocêtambémdeveficarfora. —Masédesumano.Tenhoexperiênciacomoenfermeira;vousocorrê-lo. —Eunãofariaisso.Nemcheguepertodele. —Eporquenão?—Estavatranstornadaequasehistérica. —Porqueelejámorreu. Quandoapolíciachegou,retevetodomundonocafédurantetrêshoras.Começaramcheirandotodos os revólveres para achar um que tivesse disparado recentemente. Depois de cheirarem uns quarenta, se cansaram,e tambémoúnicocheiroalierade paletósde couromolhados.Depoissentaram-se numamesa postaatrásdofinadoreidoflit,estiradolácomocaricaturaemceradesimesmo,asmãosdeceracinzentas erostodeceracinzento,epassaramaexaminarosdocumentosdaspessoas. Pela camisa rasgada e aberta via-se que o rei do flit não usava camiseta, e que o solado dos sapatos estava muito gasto. Parecia uma criatura pequena e triste. Era preciso passar sobre ele para se chegar à mesaonde osdoispoliciaisemtrajescivisexaminavamaidentidade de cadaumdospresentes.Omarido, nervoso, perdeu e achou os seus documentos várias vezes. Tinha salvo-conduto, mas não sabia onde o guardara,e ficouprocurandonosbolsose suandoaté achá-lo.Depoisoguardouemoutrobolsoe teve de repetirabusca.Suavaemexcesso, tinhaocabeloúmidoe orostovermelho.Agoratinhaojeitode quem

deviausarnãosomente umagravatade escolaaristocrática, mastambémumdaquelesbonezinhosque os meninos das primeiras séries usam. Já ouvimos dizer que os acontecimentos envelhecem as pessoas. Pois aqueletirodeu-lheaaparênciadeserdezanosmaismoço. Enquanto esperávamos eu disse à moça decidida que achava tudo aquilo uma boa história, que eu escreveria um dia. A imagem daqueles seis, formados em linha, marchando para a porta era impressionante.Elase escandalizoue disse que eunãodeviaescreveressahistóriaporque seriaprejudicial à causa da república espanhola. Eu disse que estava há muito tempo na Espanha e que eles tinham um registro imenso de tiroteios na região de Valência no tempo da monarquia, e que por centenas de anos antesdaRepúblicaaspessoasficavampicandoumasàsoutrascomumasfacasenormeschamadasnavajasna Andaluzia, e que, tendovistoumacenacômicade tironoChicote durante aguerra, iaescrever sobre ela comosetivesseacontecidoemNovaYork,Chicago,KeyWestouMarselha.Nadatinhaavercompolítica. Ela disse que eu não devia escrever. Provavelmente muitas outras pessoas diriam o mesmo. O alemão também achou que era uma história muito boa, e eu lhe dei o último dos meus Camels. Finalmente, depoisdetrêshoras,apolícianosliberou. Estavam preocupados a meu respeito no Florida porque naqueles dias de bombardeio, se alguém ia para casa a pé e nãochegava depois dofechamentodos bares às sete e meia, as pessoas se preocupavam.

Cheguei são e salvo e contei a história enquanto preparávamos o jantar num fogareiro elétrico, e foi um sucesso.

Duranteanoiteparoudechover,enamanhãseguinteraiouumdiaclaroefriodeinverno.Aomeio-

dia e quarenta e cinco empurrei a porta giratória do Chicote para um gim-tônica antes do almoço. Havia

poucagenteláàquelahora.Doisgarçonseogerentevieramàminhamesa.Ostrêssorriam. —Pegaramoassassino? —Nãofaçapiadastãocedo—disseogerente.—Vocêviueleatirar? —Vi. — Eutambém— disse ele. — Euestavaaquinomomento. — Apontouumamesade canto. — Ele encostouorevólvernopeitodooutroeatirou. —Atéquehorasapolíciaesteveaqui? —Ah,atédepoisdasduasdamanhã. — E voltaram para pegar o presunto — continuou um dos garçons usando a gíria para cadáver — às onzedamanhã. —Masvocêaindanãosabeoresto—disseogerente. —É,elenãosabe—confirmouooutrogarçom. —Umfatomuitoraro—disseoprimeirogarçom.—Muyraro. —Etristetambém—completouogerentesacudindoacabeça. —É.Tristeecurioso—disseogarçom.—Muitotriste. —Entãomecontem. —Umfatomuitoraro—repetiuogerente.

—Entãocontem,ora. Ogerenteinclinou-separaamesacomoardequemvaicontarumsegredo. —Sabeoqueeletinhanabombadeflit?Água-de-colônia.Coitadodele. —Nãoeraumapiadademaugosto—disseumgarçom. —Erapurabrincadeira.Ninguémprecisavaseofender—disseogerente.—Pobrehomem. —Oraessa—disseeu.—Elesóqueriaquetodossedivertissem. —Éisso—reforçouogerente.—Foitudoumlamentávelmal-entendido. —Eabombadeflit? —Apolícialevou-aemandouentregaràfamília. —Devemquererguardá-la—disseeu. —Claro—disseogerente.—Claro.Umabombadeflitsempreéútil. —Quemeraele? —Eramarceneiro. —Casado? —Era.Amulheresteveaquihojecedocomapolícia. —Quedisseela?

— Ajoelhou-se aoladodele e disse: “Pedro, oque foique fizeramcomvocê, Pedro?Quemfezisto

comvocê,Pedro?” —Apolíciaprecisoulevá-laporqueelaestavainconsolável—disseumgarçom. — Parece que ele era fraco do peito — comentou o gerente. — Lutou nos primeiros dias do movimento.DizemquelutounaSierra,masestavamuitofracodopeitoparacontinuar. —Eontemàtardeveioàcidadeparaalegraraspessoas—sugeri.

— Não — disse o gerente. — Foi um acontecimento muito raro. Tudo foi muy raro. Isto eu soube

comapolícia,queémuitoeficientequandotemtempo.Interrogaramcolegasdetrabalhodelenaoficina. Localizaramaoficinapelocartãodosindicatoqueeletinhanobolso.Elecomprouontemabombadeflit e água-de-colônia para fazer uma brincadeira num casamento. Revelou essa intenção aos companheiros. Comprou a bomba e a água numa loja em frente à oficina. O vidro tinha um rótulo com o endereço. O

vidro foi achado no banheiro. Ele encheu a bomba no banheiro. Deve ter entrado aqui quando a chuva começou. —Melembrodequandoeleentrou—disseumgarçom. —Naalegriageral,comacantoria,eletambémficoualegre. —Eleestavamesmoalegre—confirmei.—Pareciaflutuarnoambiente. Ogerentecontinuoucomaimplacávellógicaespanhola. —Éaalegriadebeberquandosesofredefraquezadopeito—disse. —Nãogostomuitodestahistória—retruquei.

— Mas veja como é rara — disse o gerente. — A alegria dele entra em contato com a seriedade da guerracomoumaborboleta…

—Éisso,comoumaborboleta—disseeu.—Bemcomoumaborboleta.

— Não estoubrincando — advertiuo gerente. — Percebeu?Como uma borboleta encontrando um

tanque. Issolheagradouenormemente.Eleentravanasólidametafísicaespanhola. —Tomeumporcontadacasa—ofereceu.—Vocêprecisaescreverumahistóriasobreisso. Pensei no homem da bomba de flit com suas mãos cinzentas de cera e a face cinzenta de cera, os

braços abertos e uma perna encolhida, e achei que lembrava um pouco uma borboleta; só um pouco, querodizer.Mastambémnãopareciamuitohumano.Pareciamaisumpardalmorto. —Aceitoumgim-tônicaSchweppes. —Vocêprecisaescreverisso—disseogerente.—Àsua.

— Sorte — disse eu. — Uma moça inglesa me disse ontem que eu não devia escrever sobre o

acontecido.Queseriaprejudicialàcausa.

— Tolice — retrucou o gerente. — É muito interessante e importante, a alegria mal-entendida

entrandoemcontatocomaseriedadeduraqueestásemprenoar.Paramiméoacontecimentomaisraroe maisinteressantequejávinosúltimostempos.Vocêprecisaescreversobreisso. —É,temrazão.Preciso.Eletinhafilhos? —Não.Pergunteiàpolícia.Masvocêprecisaescreveredar-lheonomedeABorboletaeoTanque. —É,vouescrever.Vou.Masotítulonãomeagradamuito. —Éumtítuloelegante—disseogerente.—Éliteraturagenuína. —Estábem.Claro.Vaiseresseotítulo:ABorboletaeoTanque. Fiquei ali sentado na manhã clara, o café cheirando a limpeza, arejado e limpo, em companhia do gerente, que era um velhoamigoe que se mostrava feliz com a literatura que estávamos fazendojuntos. Bebiumgole dogim-tônicae olheiparaajanelacomossacosde areiae penseinamulherajoelhadaalie dizendo:“Pedro,Pedro,quemfezistocomvocê,Pedro?”Epenseitambémqueapolíciajamaisseriacapaz dedizeraela,mesmosequisesse,onomedohomemquepuxouogatilho.

VÉSPERADEBATALHA

V ÉSPERADEBATALHA Nesse tempo trabalhávamos em uma casa bombardeada que dava vista para a Casa del

Nesse tempo trabalhávamos em uma casa bombardeada que dava vista para a Casa del Campo em Madri. Abaixodenóstravava-seumabatalha.Víamosabatalhaespalhadaláembaixoenosmorros,atésentíamos ocheiroe provávamosapoeiradela, e obarulhoeraumlongoestrugirde fogode fuzise metralhadoras, às vezes diminuindo, às vezes aumentando, e no meio o ribombo de canhões e o surdo sibilar de obuses disparados das baterias atrás de nós, o baque surdo das explosões e em seguida os rolos de nuvens amarelasdepoeira.Maseramuitolongeparasefilmar.Tentamostrabalharmaisdeperto,masdesistimos porqueatiravamnacâmera. Acâmeragrandeeraoequipamentomaiscaroquetínhamos,esefossedestruídaficaríamosdemãos atadas. Fazíamos o filme com grandes dificuldades e todo o dinheiro estava nas latas de filme e nas câmeras.Nãopodíamosdesperdiçarfilmeetínhamosqueterextremocuidadocomascâmeras. Nodiaanteriorfomosexpulsosporatiradoresde tocaiade umbomlugarde onde filmar, e tive que rastejarde voltacomacâmerapequenanabarriga, tentandomanteracabeçaemnívelmaisbaixodoque osombros, me deslocandocomoscotovelos, balasbatendonaparede de tijolosacimadaminhacabeçae porduasvezesjogandoterraemmim. Osnossosataquesmaisforteseramfeitosde tarde,sabe-se láporquê;osfascistastinhamosolpelas costasnessahora,eosolserefletianaslentesdacâmeraeasfaziapiscarcomoumheliógrafoeosmouros abriamfogonesse brilho.Sabiamtudosobre heliógrafose sobre óculosde oficiaisdoRiff; quemquisesse servirde alvoparaatiradorde tocaiasóprecisavausaróculossemquebra-sol.Erambonsatiradores, e me deixavamcomabocasecaodiainteiro. Detardenosrecolhíamosàcasa.Eraótimolugarparasetrabalhar.Fizemosumaespéciedeveneziana paraacâmeranumavarandacomospedaçosde treliçasquebradas.Mas, comoeudisse, eralonge parase filmar. Nãoeramuitolonge parapegar aencostacoberta de pinheiros, olagoe operfil das construções de pedra da fazenda que tinham desaparecido no súbito esmigalhar da pedra atingida por obuses de alto poder, nem era muito longe para pegar as nuvens de fumaça e poeira que pairavam sobre a crista do

morro enquanto os bombardeiros passavam. Mas a oitocentos ou mil metros os tanques pareciam pequenos besouros enlameados atacando as árvores e cuspindo pequenos relâmpagos, e os homens atrás deles eram homens de brinquedo, que se deitavam, depois se agachavam e corriam, mais adiante se deitavam para correr de novo ou ficar parados, assinalando a encosta enquanto os tanques avançavam. Insistíamosemcaptaromodelodabatalha.Fizemosmuitastomadasdepertoeesperávamosfazermaisse tivéssemossorte e se pudéssemospegarosúbitoeclodirdaterra, oarrebentardasgranadas, asnuvensde fumaçae poeirailuminadaspeloclarãoamareloe brancodasgranadas; ouseja, tudooque queríamosera captaromodelovivodabatalha. Quando a luz faltou, carregamos a grande câmera escada abaixo, tiramos o tripé, fizemos três volumes e os levamos um de cadaveznumacarreirapelaesquinasobfogodoPaseoRosales até oabrigo da parede de pedra do velho Quartel Montana. Ficamos contentes porque era um bom lugar de onde se filmar.Masnosenganamosaopensarquenãoeramuitolonge. — Agora vamos ao Chicote, gente — disse eu depois que subimos o morro e chegamos ao Hotel Florida. Mas eles precisavam consertar uma câmera, mudar o filme e lacrar as latas que tínhamos filmado, e tivequeirsozinho.MasnuncaseestásozinhonaEspanha,egosteidamudança. Quando descia a Gran Via a caminho do Chicote no crepúsculo de abril me sentia feliz, alegre e animado.Tínhamostrabalhadobastante, e opensamentofluía.Masapé e sozinhotodaaminhaanimação foidecrescendo.Semcompanhiaedesanimado,reconheciquetínhamosidolongedemaisequeaofensiva fracassara. Percebi isso durante o dia, mas sempre nos deixamos iludir pela esperança e pelo otimismo. Passando em revista os acontecimentos do dia, percebi que tinha sido apenas mais um banho de sangue, como o do Somme. O exército do povo estava finalmente na ofensiva. Mas atacava de tal maneira, que o resultado só poderia ser um: a autodestruição. Quando juntei tudo o que tinha visto e ouvido durante o dia,mesentideprimido. Nafumaceirae nazoeiradoChicote tive acertezade que aofensivafracassara;e acertezaaumentou quandotomeioprimeirodrinque nobar apinhado.Se tudovaibeme sóagente se sente deprimido, um drinque melhoraonossoestadode espírito.Mas, se as coisas estãoruins e agente estábem, umdrinque fazagente verclaro.OChicote estavatãocheioque eraprecisoabrirespaçocomocotoveloparase levar o copo à boca. Tomei um gole demorado e alguém me deu um esbarrão que derramou parte do meu uísquecomsoda.Olheiindignado,ohomemquetinhaesbarradoemmimriu. —Olá,caradepeixe—disse. —Olá,caradebode. —Vamosarranjarumamesa.Vocêficoumesmofulocomaminhatrombada. —Estávindodeonde?—perguntei.Opaletódecourodeleestavasujoeensebado,osolhosfundos, a barba por fazer. Tinha preso na perna o enorme Colt automático que já fora de três conhecidos meus, armaque estavasempre nosdandotrabalhoparaconseguirmunição.Eraumhomemalto, orostotisnado

de fumaça e sujo de graxa. Usava capacete de couro com vinco de couro longitudinal acolchoado e aba tambémdecouroacolchoado. —Estávindodeonde?

— Casa del Campo — disse ele, pronunciando as palavras em ritmo cantado de zombaria como

ouvimos de um empregado num hotel de Nova Orleans uma vez e guardamos como se fosse uma brincadeiraquesónósconhecemos.

— Vagouuma mesa ali— disse euquando vidois soldados e duas moças se levantarem. — Vamos

pegá-la. Sentamos à mesa no meio do salão e observeio homem enquanto ele erguia o copo. As mãos eram engorduradas, os vértices dos dois polegares pretos como grafite, resultado dos gases de culatra da metralhadora.Amãoqueseguravaocopotremia. —Veja.—Mostrouaoutramão,quetambémtremia.—Asduastremem—dissenomesmoritmo cantado.Depois,sério:—Estevelá?

—Estamosfazendoumfilme. —Fotografabem? —Nãomuito. —Nosviu? —Onde? —Ataqueàfazenda.Trêsevinteecincodatardedehoje. —Ah,vi. —Gostou? —Não. —Nemeu.Foipuraloucura.Fazerumataquefrontalcontraposiçõescomoaquelas?Quemterásido oidiotaquemontouaquilo? —UmfilhodaputachamadoLargoCaballero—disseumcarabaixinhodeóculosgrossosqueestava na mesa quando chegamos a ela. — Na primeira vez que o deixaram olhar com um binóculo, ele foi promovidoageneral.Foiaobra-primadele. Nós dois olhamos para o camarada. Al Wagner, de uma guarnição de tanque, olhou para mim e levantouoqueeramassobrancelhasantesdeseremqueimadas.Ohomenzinhosorriuparanós. —Sealguémaquifalaringlêsvocêestáarriscadoaserfuzilado,camarada. —Não.QuemestáarriscadoaserfuziladoéLargoCaballero.Eledeveserfuzilado. —Olheaqui,camarada—disseAl.—Falemaisbaixo,tá?Alguémpodeouvirepensarqueestamos comvocê. —Seioqueestoufalando—disseobaixinhodeóculosdelentesgrossas. Olhei-oatentamente.Elepareciasabermesmodoqueestavafalando. —Mesmoassim,ébomnãoandarporaídizendooquesesabe—disseeu.—Aceitaumdrinque? —Aceito,sim.Falarcomvocêeuposso.Conheçovocê.VocêéOK.

—NãosoutãoOKassim.Eestamosemumbarpúblico. —Barespúblicossãoosúnicoslugaresprivadosque existem.Ninguémescutaoque osoutrosfalam aqui.Qualéasuaunidade,camarada? —Tenhounstanquesaoitominutosmaisoumenosdaqui,apé—disseAl.—Estamosdispensados pelorestododiaatéomeiodanoite. —Porquevocênuncatomabanho?—perguntei. —Pretendotomarumemseuquarto.Quandosairmosdaqui.Temsabãodemecânicolá? —Não. —Nãofazmal.Tenhoumpedacinhoaquinobolso,quevenhopoupando. OhomenzinhodeóculosdelentesgrossasolhavaatentamenteparaAl. —Émembrodopartido,camarada?—perguntou. —Claro—disseAl. —SeiqueocamaradaHenrynãoé—disseohomenzinho. —Entãonãoconfionele—disseAl.—Nunca. —Vocêéumfilhodamãe.Vamos,então?—perguntei. —Não.Precisomuitotomarmaisum—disseAl.

— Seitudo do camarada Henry— disse o homenzinho. — Agora, se me permitem, vou-lhes dizer

algumacoisamaisdeLargoCaballero.

— Precisamos ouvir? — perguntou Al. — Não esqueça que sou do exército do povo. O que você

poderiadizernãovaimedesanimar,ouvai?

— A cabeçadele estátãoinchadaque ele jáestáficandoperturbado. Éprimeiro-ministroe ministro

da Guerra, e ninguém pode mais falar com ele. Foi um bom e honesto líder sindicalista mais ou menos entreSamGomperseJohnL.Lewis,masotaldeAraquistainéqueoinventou… —Vamoscomcalma—disseAl.—Nãoestouentendendo.

— Pois é. Araquistain o inventou. Araquistain é agora embaixador em Paris. Ele inventou Caballero. DissequeeleéoLêninespanhol,eocoitadoficoutentandocorresponderàcomparação.Aíalguémpassou aeleumbinóculo,eleolhoueficoupensandoqueeraClausewitz. —Vocêjádisseisso—reclamouAl.—Eemquesebaseia?

— Há três dias, na reuniãodogabinete, ele falava de questões militares. Falavam nissoque estamos

vendo hoje, e Jesus Hernández, para provocá-lo, perguntou a diferença entre tática e estratégia. Sabe o queelerespondeu? —Não—disseAl.DavaparaperceberqueonovocamaradaestavamexendocomosnervosdeAl. —Poiselerespondeu:“Natáticaataca-seoinimigodefrente.Naestratégiaataca-seoinimigopelos flancos.”Eagora? —Émelhorvocêirandando,camarada—disseAl.—Vocêestáficandomuitoderrotista.

— Mas vamos nos livrar de LargoCaballero— continuouocamaradabaixinho. — Vamos nos livrar delelogodepoisdessaofensiva.Esteúltimoatodeestupidezdeleseráoseufim.

—OK,camarada—disseAl.—Tenhoqueatacaramanhãcedo.

—Entãovaiatacardenovo?

— Olhe, camarada. Você pode me dizer as lorotas que quiser porque são divertidas e eu sou bem crescidoparasaberquesãolorotas.Masnãomefaçaperguntas,tá?Porquepodesedarmal. —Faleientrenós.Nãocomoquempassainformação.

— Não nos conhecemos suficientemente para fazer perguntas no terreno pessoal, camarada —

observou Al. — Por que não vai para outra mesa e nos deixa, a mim e ao camarada Henry, conversar? Querofazerumasperguntasaele. —Salud,camarada—disseohomenzinhoselevantando.—Nosveremosemoutraocasião. —É—resmungouAl.—Emoutraocasião. Ficamos olhando o homenzinho passar a outra mesa. Pediu licença, alguns soldados abriram espaço paraele.Sentou-seelogocomeçouafalar.Todossemostraraminteressados. —Oqueéquevocêachadessecamaradinha?—perguntouAl.

—Euseilá.

— Nem eu — disse Al. — Com toda a certeza ele já avaliou essa ofensiva. — Tomou um gole e mostrouamão.—Estávendo?Nãotrememais.Enãosoucachaceiro.Nuncabeboantesdeumataque. —Ecomofoihoje? —Vocêviu.Comoachaquefoi?

—Lamentável.

— Essa é a palavra certa. Foi lamentável. Parece que ele está empregando estratégia e tática juntas porqueestamosatacandopelafrenteepelosdoislados.Eoresto,comofoi?

— Duran tomou a nova pista de corrida, o hipódromo. Estamos apertados no corredor que leva à CidadeUniversitária.MaisacimaatravessamosaestradadeCoruña.NosdetivemosnoCerrodeAguilarna

manhã de ontem. Era a nossa posição hoje cedo. Duranperdeumais da metade de sua brigada, pelo que sei.Edoseulado?

— Amanhã vamos tentar aquela fazenda e a igreja mais uma vez. A igreja no alto, a que chamam

ermida,éoobjetivo.Todaaencostadomorroécortadaderavinascobertasporposiçõesdemetralhadoras pelo menos de três direções. Abriram trincheiras fundas em toda a extensão. Não temos artilharia suficiente paranosdarcoberturae mantê-losnastrincheiras, e nãotemosartilhariapesadaparamassacrá-

los. Eles têm armas antitanques nas três casas e uma bateria antitanque perto da igreja. Vai ser um morticínio. —Aquehoras? —Nãomepergunteisso.Nãopossolhedizer.

— É para podermos filmar. O dinheiro do filme vai para as ambulâncias. Temos a Décima Segunda

Brigada no contra-ataque na Ponte Argada. E depois novamente a Décima Segunda naquele ataque da semanapassadacontraPingarrón.Ostanquestiverambomdesempenholá. —Ostanquesnãofizeramtrabalhonenhum—disseAl.

—Eusei.Masfotografarammuitobem.Eoquevamosteramanhã?

—Levantecedoeespere.Nãoprecisasermuitocedo.

—Evocê,comosesenteagora?

— Muito cansado. E com uma dor de cabeça horrível. Mas, quanto ao ânimo, ótimo. Vamos tomar maisumeirparaoseuquartoetomarumbanho. —Quetalcomermosantes?

— Estou muito sujo para comer. Você segura um lugar, eu tomo um banho e nos encontramos

depoisnaGranVia. —Subocomvocê. —Não.Émelhorgarantirumlugar.Vocêficalá,euvoudepois.—Inclinouacabeçaparaamesa.— Rapaz, estou com uma dor de cabeça… É o barulho daquelas caçambas. Nunca mais escutei aquele barulho,maselecontinuanomeuouvido. —Porquenãovaisedeitar?

—Prefiroficaracordadocomvocêedormirquandovoltarmos.Nãoqueroacordarduasvezes. —Nãomedigaqueéohorrordaguerra.

— Não. Não é isso. Olhe, Hank. Não quero ficar falando bobagens, mas desconfio que vou morrer

amanhã. Batinamesatrêsvezescomosnósdosdedos. —Todomundoficaassim.Mesentiassimmuitasvezes.

— Não. Comigo não é natural. Mas a posição para onde vamos amanhã é loucura. Nem sei como

chegar lá com a minha brigada. Não se pode fazê-los avançar quando eles não querem. Podem ser fuziladosdepois.Masnahora,senãoquiseremir,nãovão.Mesmoseatirarmosneles,nãovão. —Talveznãosejaassim.

— É. Amanhã vamos ter boa infantaria. Acabarão indo. Não vão ser como aqueles covardes que tivemosnoprimeirodia. —Quemsabevaisairtudobem?

— Não. Nãovaisair tudobem. Mas vaisair damelhor maneiraque eupuder conseguir. Possofazer

que me acompanhem, e possolevá-losaté onde elestiveremque abandonartudoumaum.Pode serque cheguemaoobjetivo.Contocomtrêsemquempossoconfiar.Masissosenenhumdelesforatingidologo nocomeço. —Quemsãoosconfiáveis?

— Um grego grandalhão de Chicago que vai para onde for mandado. É o melhor que se pode

encontrar. Tenho um francês de Marselha que está com o ombro esquerdo engessado e dois ferimentos

purgando; pediuparateraltadohospitalparaeste ataque, e precisaserenfaixado, e nãoseicomopoderá sair assim.Tecnicamente, querodizer.Écomovente.Eramotoristade táxi.—Alfezumapausa.—Bem, estoufalandomuito.Medigaparacalarseeufalarmuito. —Eoterceiro?—perguntei.

—Oterceiro?Eudissequetinhaumterceiro? —Disse. —Ah,sim.Essesoueu. —Eosoutros?

— Sãomecânicos, nãotêm cabeça para assuntos militares. Nãosabem avaliar oque acontece. Etêm

muito medo de morrer. Tenho tentado curá-los disso, mas o medo volta a cada ataque. Parecem tripulantesde tanque quandoestãoaoladodostanquescomocapacete nacabeça.Parecemtripulantesde

tanque quandoentram. Mas, quandofechamas escotilhas, os tanques estãovazios. Nãosãoguerreiros de tanque.Eaindanãotivemostempodefazerguerreirosdetanque. —Quermesmotomarbanho? —Vamosficarumpoucomais.Estougostando.

— Nãodeixa de ser esquisito. Tem uma guerra lá nofim da rua, pode-se ir a ela a pé. Aíse larga a guerraesevemparaumbar. —Edepoissevoltaapéparaaguerra.

— E garotas? Tem duas garotas americanas no Florida. Correspondentes de imprensa. Quem sabe vocêseacertacomuma? —Nãoqueroconversarcomgarotas.Estoumuitocansado. —NaquelamesadecantotemduasmourasdeCeuta.

Al olhou para lá. Eram morenas, de cabelo encaracolado. Uma era alta, a outra não, e as duas pareciamfortesedecididas. —Não—disseAl.—Amanhãvouvermuitosmouros.Nãoprecisomeaproximardeleshoje. —Temgarotasaosmontes—disseeu.—NoFloridatemManolita.OcaradaSeguridadcomquem elavivefoiparaValência,eelatemsidofielaelecomtodomundo. —Olhe,Hank.Oqueéquevocêestátramandoparamim? —Sóestouquerendolevantaroseuastral. —Ora,cresça.Quetalmaisum? —Maisum. —Nãotenhomedodemorrer.Morrerécomoumlancededados.Sóqueépornada.Oataqueéum erroe umdesperdício.Se eutivesse tempopreparavabonstanquistas.E,se tivéssemostanquesumpouco maisvelozes,osantitanquesnãoseriamoproblemaque são.Olhe,Hank,elesnãosãooque pensávamos. Selembradequandotodomundopensavaquesetivéssemostanquesascoisasseriamdiferentes? —TiverambomdesempenhoemGuadalajara. —Verdade.Maseramtripuladosporveteranos.Bonssoldados.Econtraitalianos. —Eoquefoiqueaconteceudepois?

— Muitas coisas. Os mercenários assinaram contrato por seis meses. A maioria era de franceses.

Lutaram bem durante cinco meses, e agora só querem esperar que o contrato expire para irem embora. Nãovalemtiticanenhumaagora.Osrussosquevieramcomodemonstradoresquandoogovernocomprou

os tanques eram perfeitos. Agora estão sendo chamados de volta, dizem que para a China. Dos novos espanhóis alguns são bons, outros não. O preparo de um bom tanquista leva seis meses. Seis meses para

ele ficar sabendo tudo. Agora, para saber avaliar uma situação e agir com inteligência, é preciso talento. Estamospreparandotanquistasemseissemanas,epouquíssimostêmtalento. —Maspreparambonsaviadores.

— Preparam bons tanquistas também. Mas é preciso ter em mãos pessoas dotadas de vocação. É

comoparaserpadre.Apessoaprecisatervocação.Principalmenteagora,queooutroladotemmuitaarma antitanque. Tinham baixado as venezianas no Chicote, e agora trancavam a porta. Ninguém mais podia entrar. Masfaltavaaindameiahoraparafechar. —Gostodaqui—disse Al.—Hoje nãoestátãobarulhento.Se lembrade quandonosencontramos em Nova Orleans, eu estava num navio e fomos tomar um drinque no bar Monteleone e aquele garoto parecidocomSãoSebastiãochamavapessoascomumavozcantada,e deiaele vinte e cincocentavospara

elechamarMr.B.F.Slob? —Amesmavozcomquevocêdisse“CasadelCampo”.

— Exato. Toda vez que penso naquilo tenho vontade de rir. Mas, como dizia, eles não têm mais

medode tanque.Ninguémtem.Nemnós.Masostanquesaindasãoúteis.Muitoúteis.Sósãovulneráveis para armas antitanque. Talvez eudevesse passar para alguma outra coisa. Não, que bobagem. Os tanques

ainda são úteis. Mas como estão as coisas agora é preciso ter vocação. Para ser bom tanquista agora é precisotermuitainformaçãopolítica. —Vocêébomtanquista.

— Gostaria de ser alguma outra coisa amanhã. Estou de língua solta hoje, mas acho que não estou

prejudicandoninguém. Você sabe que gostode tanques, mas oproblema é que nãoos utilizamos direito

porqueainfantariaaindanãosabebemopapeldostanques.Queremqueostanquesvãoàfrenteparalhes dar cobertura no avanço. Não é assim. Eles ficam dependendo dos tanques e não avançam sem eles. Às vezesnemseespalhamquandoépreciso. —Eusei.

— Se tivéssemos tanquistas conhecedores do assunto, eles iriam na frente, atraíam o fogo de

metralhadora e recuavam para a retaguarda da infantaria, disparavam o canhão, silenciavam as

metralhadoras e davam fogo de cobertura à infantaria no ataque. Outros tanques atacariam os postos de metralhadoras como se os tanques fossem cavalaria. Podiam se colocar ao través de uma trincheira e metralhardeenfiada.Etrazerainfantariaquandofosseoportunooudarcoberturaaoavançodela. —Enãosendoassim?

— Não sendo assim, amanhã vai ser como hoje. Temos tão poucos canhões que estamos atuando

maiscomounidadesmóveisdeartilhariablindada.E,quandoseficaparadocomoartilharialigeira,perde-

se amobilidade e consequentemente asegurança, e começa-se alevar tiros isolados de armas antitanque. Quando não ficamos assim, ficamos como carrinhos de bebê se deslocando na frente da infantaria. E

ultimamentejánãosabemosseocarrinhoéempurradoporalguémdeforaouseporalguémdedentro.E nuncasabemossevaiteralguématrásdenósquandochegamoslá. —Qualoefetivodeumabrigadahoje? —Seis,umbatalhão.Trinta,umabrigada.Teoricamente. —Porquenãosaímosagora,vocêtomaoseubanhoedepoiscomemos? —Boa.Masnãomevenhacomaqueladetomarcontademim,oupensarqueestoupreocupado,ou que estou de algum jeito que não estou. Estou é cansado, e com vontade de falar. E não me venha com nenhumaconversaanimadoraporquetenhoumcomissáriopolítico,seiporqueestoulutandoenãoestou preocupado.Oqueháéquegostodeeficiência,eeficiênciaaplicadacominteligência. —Oquelhefezpensarqueeuiadespejarconversaanimadoraemcimadevocê? —Pelacaraquevocêestavafazendo. —Eusóestavaquerendosabersevocêandavaafimdeumagarotaetambémquerendodesviarvocê daquelaconversasobremorte.

— Pois fique sabendo. Não quero garota nenhuma hoje, e vousoltar a língua à vontade, desde que nãoprejudiqueoutros.Seráquevaiprejudicarvocê? —Vátomaroseubanho.Podesoltaralínguaatéquandoquiser. —Quemseriaaquelecamaradinhaquefalavacomosesoubessetudo? —Nãosei.Masvoudescobrir. —Elemedeixoudeprimido—disseAl.—Masvamosembora. Ogarçomidosoecarecaabriuaportadafrenteparasairmos. —Comovaiaofensiva,camaradas?—perguntouogarçom. —Muitobem,camarada—disseAl.—Vaimuitobem.

— Ficofeliz— disse ogarçom. — MeufilhoestánaBrigadaCentoe Quarentae Cinco. Esteve com

ela?

—Soudostanques—disseAl.—Ocamaradaaquifazcinema.VocêestevecomaCentoeQuarenta

eCinco?

—Não—respondi.

— Está na estrada de Estremadura — disse o velho garçom. — Meu filho é comissário político da

companhiademetralhadorasdoseubatalhão.Éomeucaçula.Tem20anos.

—Qualéoseupartido,camarada?—perguntouAl.

—Nãotenhopartido.Masmeufilhoécomunista.

— Eu também — disse Al. — A ofensiva ainda não chegou a uma decisão. Está muito difícil. Os

fascistas ocupam posições muito fortes. Você na retaguarda deve ter a firmeza que temos na frente.

Podemos não tomar aquelas posições agora, mas mostramos que temos um exército capaz de manter a ofensiva,evocêvaiveroqueelevaifazer.

— E a estrada de Estremadura? — perguntouo velho garçom, ainda segurando a porta. — É muito perigosolá?

—Não—disseAl.—Estáatébomlá.Vocênãodevesepreocuparcomele.

—Deusoabençoe—disseogarçom.—Deusprotejaosenhor.

Jánaruaescura,Alfalou:

—Nossa,eleestápoliticamenteconfuso,nãoestá? —Ébomsujeito—respondi.—Conheçoelehámuitotempo. —Parecebomsujeito.Masprecisamelhorarpoliticamente. O quarto no Florida estava cheio. O gramofone tocava, fumaça à beça, e um jogo da dados comia soltonochão.Camaradaschegavamparatomarbanho,oquartocheiravaafumaça,sabão,uniformessujos evapordobanheiro. A espanholachamadaManolita, muitolimpa, vestidacomrecato, comumafalsaelegânciafrancesae muitajovialidade, muitadignidade e olhosque passavamfrieza, estavasentadanacamaconversandocom umjornalistainglês.Tirandoogramofone,nãofaziammuitobarulho. —Oquartoéseu,nãoé?—disseojornalistainglês. —Estáemmeunomenoregistro—respondi.—Durmoaquidevezemquando. —Edequeméouísque?—perguntouele. —Meu—disseManolita.—Beberamumagarrafaeeutrouxeoutra. —Vocêéumagarotaetanto,filhota—disseeu.—Comessasãotrêsquelhedevo. —Duas—disseela.—Aoutrafoipresente. Tínhamos um enorme presunto cozido, rosado com bordas brancas, numa lata meio aberta na mesa aoladodaminhamáquinade escrever;umcamaradachegava,cortavaumafatiacomoprópriocanivete e voltavaaojogodedados.Corteiumafatiaparamim. —Éasuaveznabanheira—disseeuaAl.Eleaindaestavaolhandooquarto. —Ébomaqui,hein?—disseele.—Deondeveioopresunto? —Compramosnaintendênciadeumabrigada—disseManolita.—Nãoéumabeleza? —Quemcompramos? —Eueele—respondeuela,apontandocomacabeçaocorrespondenteinglês.—Nãoésimpático? —Manolitatemsidoumanjo—disseoinglês.—Estamosatrapalhandovocês?

— De jeito nenhum — respondi. — Mais tarde posso querer utilizar a cama, mas só muito mais

tarde. —Podemosorganizarumafestanomeuquarto—disseManolita.—Vocênãoestáaborrecido,está, Henry? —Jamais.Quemsãooscamaradasquejogamdados?

— Não sei — disse Manolita. — Vieram tomar banho e ficaram jogando dados. Todo mundo tem sidomuitosimpático.Sabequetiveumanotíciaruim? —Não. —Umapéssimanotícia.Sabeomeunoivo,queeradapolíciaefoiparaBarcelona? —Claro.

Alfoiparaobanheiro.

— Ele morreu num acidente e não tenho ninguém com quem contar na polícia. Ele não me deu os documentosquetinhameprometido,efiqueisabendohojequevouserpresa. —Porquê?

— Porque não tenho documentos e dizem que ando em companhia de pessoas como vocês e com

pessoas das brigadas, então acham que sou espiã. Se o meu noivo não tivesse morrido, tudo continuaria bem.Seráquevocêpodemeajudar? —Claro.Nadavailheacontecersevocêestiverlimpa—respondi. —Achomelhorficarcomvocêparamegarantir. —Esevocênãoestiverlimpa,comoéquefico? —Nãopossoficarcomvocê? —Não.Se você tiverproblema, me telefone.Nuncavivocê fazendoperguntasde naturezamilitara ninguém.Achoquevocêestálimpa.

—Estoumesmo—disseelaseafastandodoinglês.—Achaquedevoficarcomele?Eleestálimpo? —Comopossosaber?—respondi.—Nuncaoviantes.

— Você estáficandopreocupado— disse ela. — Vamos esquecer issoe ficar todomundoalegre, e

depoisvamosjantar. Aproximei-medosquejogavamdados. —Queremsairparajantar? —Não,camarada—disseocaraquetinhaosdadosnamão,semmeolhar.—Querentrarnojogo? —Querojantar. — Estaremos aqui quando você voltar — disse outro dos jogadores. — Vamos, lance. Estou esperando. —Searranjaralgumdinheiroporaí,tragaparaojogo. Além de Manolita, tinha mais uma pessoa no quarto que eu conhecia. Era da Décima Segunda Brigada,eoquemanejavaogramofone.Erahúngaro,mashúngarotriste,nãodaclassedosalegres. —Salud,camarade—disseele.—Obrigadopelahospitalidade. —Nãojogadados?—perguntei. —Nãotenhodinheiroparaisso.Essessãoaviadorescomcontrato.Mercenários.Ganhammildólares porsemana.EstiveramnafrentedeTeruel,agoraestãoaqui. —Comovieramparacá? —Umdelesconhece você.Masprecisouirparaoseuaeródromo.Vieramnumcarroapanhá-lo, e o jogojátinhacomeçado. —Foibomvocêtervindo—falei.—Voltesemprequequiser,acasaésua. —Vimtocarosdiscosnovos—disseele.—Incomodavocê? —Não.Estougostando.Tomeumdrinque. —Presunto—pediuele.

Umdosjogadoresdedadolevantou-seecortouumafatiadepresunto. —JáviuporacasoessecarachamadoHenry,donodoquarto?—perguntou-meele. —Soueu. —Ah,desculpe.Querentrarnojogo? —Maistarde—respondi. —OK—retrucouele.Depois,comabocacheiadepresunto:—Olheaqui,seubunda-suja.Jogueo dadoparabaternaparedeevoltar. —Quediferençafaz,camarada?—disseosujeitoqueestavacomosdados. Alvoltoudobanheiro.Parecialimpo,anãoserporumasmanchasemvoltadosolhos. —Podetirarissocomumatoalha—sugeri. —Tiraroquê? —Olhe-senoespelho. —Estáembaçado.Deixepralá.Mesintolimpo. —Entãovamoscomer.Vamos,Manolita.Vocêsjáseconhecem? AcompanheioolhardelaparaAl. —Comovai?—disseela. —Éumaideiaoportuna—disseoinglês.—Vamoscomer,sim.Masonde? —Éjogodedados?—perguntouAl. —Nãoviuqueeraquandochegou? —Não.Sóviopresunto. —Éjogodedados,sim. —Vocêsvãocomer,euficoaqui—disseAl. Quandosaímoshaviaseisjogadoresnochão,eAlWagnercortavaumafatiadepresunto. —Oqueéquevocêfaz,camarada?—perguntouumdosaviadoresparaAl. —Tanques. —Dizemquenãoservemmais. —Dizemumaporçãodecoisas.Oqueéquevocêtemnamão?Dados? —Quervê-los? —Não.Queropegarneles. Seguimospelocorredor,Manolita,eueoinglêsalto,esoubemosqueosrapazesjátinhamidoparao restaurante da Gran Via. O húngaro ficara tocando os discos novos. Eu estava com fome, e a comida da GranViaerahorrível.Osdoisquefaziamofilmejátinhamcomidoevoltadoparatrabalharnoconsertoda câmera. O restaurante ficava no porão. Para chegar a ele era preciso passar por um guarda, pela cozinha e descerumlancedeescada.Eraumfrege. Serviamsopadepainço,arrozamarelocomcarnedecavaloelaranjaparasobremesa.Nomenutinha sopa de grão-de-bico com salsicha — que todo mundo achava horrível —, mas já tinha acabado. Os

jornalistas ocupavam uma mesa, e as outras eram ocupadas por oficiais e garotas do Chicote, gente da censura,quefuncionavanoedifíciodatelefônicadooutroladodarua,eváriaspessoasdesconhecidas. O restaurante era administrado por um sindicato anarquista. Vendiam vinho ainda com o rótulo da adega real e a data do lote. Era um vinho tão velho que a maioria das garrafas ou estava toldada ou completamentedescorada.Comonãosepodembeberrótulos,devolvitrêsgarrafas,umadepoisdaoutra, atéconseguirumabebível.Issocausoumuitadiscussão. Os garçons não conhecem vinho, trazem uma garrafa e o freguês corre o risco. Os garçons alieram tão diferentes dos do Chicote como preto de branco. Todos ali eram resmungões, recebiam grandes gorjetasetinhampratosespeciaiscomolagostaoufrangoquevendiamporforaapreçosexorbitantes.Mas esses pratos especiais tinham acabado quando chegamos, e ficamos com a sopa, o arroz e as laranjas. Aquelerestaurantesempremeirritavaporqueosgarçonseramumbandodeaproveitadores,eopreçode

umdospratosespeciaiseracomparávelaosdo21oudoColonydeNovaYork.

Estávamos ali com uma garrafa de vinho bebível, cujo gosto podia-se sentir, mas que não merecia umadiscussão,quandoAlWagnerentrou.Olhouemvolta,noslocalizoueaproximou-se. —Queaconteceu?—perguntei. —Melimparam—respondeuele. —Tãorápidoassim? —Rapidíssimo.Comojogam!Oqueéquetemosparacomer? Chameiumgarçom. —Jáétarde—disseele.—Nãopodemosservirmaisnada.

— O camarada aqui é tanquista — disse eu. — Lutou o dia inteiro e vai lutar amanhã, e ainda não

comeu.

— Não é culpa minha — retrucou o garçom. — É muito tarde. Não tem mais nada. Por que o

camaradanãocomenaunidadedele?Nãofaltacomidanoexército. —Convidei-oparacomercomigo. —Deviaternosavisado.Émuitotarde.Nãoestamosservindomaisnada. —Chameochefe. O chefe disse que o cozinheiro já tinha ido embora e que não havia mais fogo na cozinha, e saiu. Estavamzangadosporquetínhamosdevolvidoovinhotoldado. —Prosquintos—disseAl.—Vamosaoutrolugar. —Nãoháoutrolugarparasecomeraestahora.Elestêmcomidaaqui.Ésóeuirláebajularochefe epassar-lhemaisdinheiro. Fuilá e fiz isso, e o garçom resmungão trouxe um prato de fatias de carne fria, depois meia lagosta espinhentacommaionese e saladade alface e lentilhas.Ochefe nos serviuissodoseuestoque particular, queestavareservandoparalevarparacasaouservirafreguesesretardatários. —Custoumuitocaro?—perguntouAl. —Nada—respondimentindo.

—Apostoquecustou—duvidouele.—Acertocomvocêquandoreceber. —Quantoestãolhepagando? —Aindanãosei.Eramdezpesetaspordia, masagoraque souoficialtive aumento.Masaindanãoo recebemoseeunãoreclamei. Chameiogarçom.EleveioaindaazedoporterochefepassadoporcimadeleeservidocomidaaAl. —Maisumagarrafadevinho,sim?—pedi. —Quevinho? —Umqualquer,quenãosejavelhoenãoestejadeteriorado. —Étudoigual. Eu disse o correspondente a “igual uma ova” em espanhol, e ele trouxe uma garrafa de Château

Mouton-Rothschild1906,quesereveloutãobomcomooanteriortinhasidopéssimo.

—Istoévinho—disseAl.—Oquefoiquevocêdisseaeleparaconseguiristo?

—Nada.Eleenfiouamãonaadegaeteveasortedetirareste.

—Amaiorpartedaquelevinhodopalácioézurrapa.

—Émuitovelho.Oclimadaquinãoébomparavinho.

—Olhealiaquelecamaradaquesabecoisas—disseAlindicandocomacabeçaumamesa.

O homenzinho de óculos de lentes grossas que havia nos falado de Largo Caballero conversava com umaspessoasqueeusabiaseremgenteimportante. —Eledeveserpessoaimportante—disseeu. —Quandoestãodecucacheiafalamsempensar.Maseugostariaqueeletivesseesperadoatédepois deamanhã.Aconversadeleestragouomeuamanhã. Enchiocopodele. —Oque ele disse temlógica—afirmouAl.—Estive pensandonaspalavrasdele.Masomeudever éfazeroquememandam. —Nãosepreocupeeprocuredormir.

— Vou voltar àquele jogo se você me emprestar mil pesetas — disse Al. — Tenho muito mais do

queissoareceber.Passo-lheumaletrasobreomeupagamento. —Nãoqueroletranenhuma.Vocêmepagaquandoreceber.

— Não acredito que vá receber. Estou falando como bêbado, não estou? Sei que jogo é coisa de

boêmio,masumjogocomoaqueleéoúnicomomentoemquenãopensonoamanhã. —VocênãogostoudeManolita?Elagostoudevocê. —Elatemolhosdecobra. —Nãoémápessoa.Ésimpáticaehonesta. —Nãoqueromulher.Querovoltarparaojogodedados. Na ponta da mesa Manolita ria com alguma coisa que o inglês disse em espanhol. A maioria dos outrosjátinhadeixadoamesa. —Vamosacabarovinhoeirembora—disseAl.—Nãoquerentrartambémnojogo?

—Vousapearumpouco—disseeu,echameiogarçomparapagaraconta. —Paraondevão?—perguntouManolitaládapontadamesa. —Paraoquarto. —Nósvamosdepois.Estehomemémuitoengraçado—disseela. —Elaestásedivertindoàminhacusta—disseoinglês.—Zombademeuserrosemespanhol.Leche nãosignificaleite? —Éumsignificado. —Esignificatambémalgumacoisaescabrosa? —Achoquesim—respondi. —Émesmoumalínguaescabrosa—disseele.—Evocê,Manolita,paredefazerhoracomigo. —Nãoestoufazendohoracomvocê —disse elarindo.—Nemolheiparaorelógio, estourindoé doleche. —Masquerdizerleite.NãoouviuEdwinHenryconfirmar? Manolitariudenovoenoslevantamos. —Essecaraémeioboboca—disseAl.—TenhovontadedetirarManolitadele. — Com ingleses nunca se sabe — disse eu. Por ser essa uma observação profunda, percebi que havíamos consumido muitas garrafas. Na rua estava frio e ao luar as nuvens passavam brancas e enormes sobre oladoconstruídodaGranVia.Seguimospelacalçadapassandosobre buracosabertospelaartilharia durante o dia, o entulho ainda não recolhido, até a ladeira que leva à Plaza Callao, onde ficava o Hotel Florida,defrenteparaooutromorroporondepassavaarualargaqueterminavanofront. Passamos os dois guardas que vigiavam a porta do hotel no escuro e paramos um instante no portal paraouvirotiroteionofimdaruaatéqueasdescargascessaram. —Secontinuar,achoquedevodescer—disseAlaindaescutando. —Issonãoé nada—disse eu.—De qualquermaneira, otiroteiofoibemàesquerda, dosladosde Carabanchel. —ParecequefoibemnoCampo. —Éassimqueobarulhorepercuteaquiànoite.Agentesempreseengana. —Nãovãonoscontra-atacarestanoite—disseAl.—Enquantoestiveremnaquelasposições,enós, nacabeceiradoriacho,nãovãoabandonarsuasposiçõesparatentarnosexpulsardoriacho. —Queriacho? —Vocêsabeonomedele. —Ah,aqueleriacho. —É.Nacabeceiradoriachosemumremo. —Vamosentrar.Vocênãotemnadaqueficarescutandoessetiroteio.Éassimtodasasnoites. Entramos,passamososaguão,ovigiadanoitenarecepção.Ovigialevantou-seenosacompanhouao elevador. Apertou um botão, o elevador desceu. Nele estava um senhor de jaqueta branca de pele de

carneiro encaracolada, cabeça calva rosada e rosto rosado e aborrecido. Carregava seis garrafas de champanhedebaixodosbraçosenasmãos. —Queideiaestapafúrdiafoiestadechamaroelevadorparabaixo? —Osenhorestápasseandonoelevadorfazumahora—reclamouovigianoturno.

— O que é que posso fazer? — retrucou o homem de jaqueta de lã. E para mim: — Onde anda o

Frank? —QueFrank? —VocêconheceoFrank.Vamos,medêumamãonesteelevador. —Vocêestábêbado—disseeu.—Vamos,saiadoelevadorenosdeixesubir.

— Você também ficaria bêbado — disse ele. — Você também ficaria bêbado, camarada, velho

camarada.OndeestáoFrank? —Ondeachaqueelepossaestar? —NoquartodessetaldeHenry,ondejogamdados.

— Venha com a gente — disse eu. — Não fique mexendo nestes botões. Por isso é que ele fica

sempreparando.

— Piloto qualquer coisa — disse ele. — Sou capaz de pilotar este velho elevador. Quer me ver

fazendoacrobaciasnele? —Dêofora—disseAl.—Vocêestábêbado.Queremosirparaojogodedados. —Quemévocê?Dou-lheumaporradacomumagarrafacheiadechampanhe. —Experimentesó—advertiuAl.—Eeurefrescovocê,seufalsoPapaiNoelencachaçado. —FalsoPapaiNoelencachaçado—repetiuohomem.—FalsoPapaiNoelencachaçado.Éassimque aRepúblicameagradece. Conseguimospararoelevadornomeuandar.Quandoseguíamospelocorredor,ohomemdejaqueta depeledecarneiroencaracoladadisse:—Levemumasgarrafas.Queremsaberporqueestoubêbado? —Não. —Entãonãodigo.Masficariamadmirados.FalsoPapaiNoelencachaçado.Ora,ora.Qualoseuramo, camarada? —Tanques. —Eoseu,camarada? —Filmagem. —EeusouumfalsoPapaiNoelencachaçado.Ora,ora.Repito.Ora,ora. —Váemfrenteeseafoguebebendo—disseAl.—SeufalsoPapaiNoelencachaçado. Estávamos já na porta do quarto. O homem de jaqueta branca de lã agarrou o braço de Al com o polegareoindicador. —Vocêmediverte,camarada—disse.—Vocêmedivertemuito. Abriaporta.Oquartoestavaenfumaçadoeojogocorriacomoquandosaímos,excetopelopresunto quehaviadesaparecidocompletamentedamesaepelouísquequehaviadesaparecidodagarrafa.

—ÉoCarequinha—disseumdosjogadores.

— Comovãovocês, camaradas?— cumprimentouCarequinhafazendoumacurvatura. — Comovai você?Comovaivocê?Comovaivocê? Ojogoparouetodoscomeçaramacrivá-lodeperguntas.

— Fiz o meu relatório, camaradas — disse Carequinha. — E aqui estão algumas garrafas de champanhe.Nãoestouinteressadoemmaisnada,sónosaspectospitorescosdasituação. —Comofoiaquelatrapalhadaquevocês,aviadores,fizeram?

— Não foi culpa deles — afirmou Carequinha. — Eu estava empenhado na contemplação de um

espetáculo terrível, e esqueci que tinha aviadores comigo até que aqueles Fiats todos começaram a mergulharàminhavoltaepercebiqueomeuconfiávelaeroplaninhonãotinhamaisasa. —Comoeugostariaquevocênãoestivessebêbado—disseumdosaviadores. —Masestou—disseCarequinha.—Eesperoquetodososcavalheirosecamaradasaquipresentesme façam companhia, porque estou muito feliz esta noite, apesar de ter sido insultado por um tanquista

ignorantequemechamoudefalsoPapaiNoelencachaçado. —Gostariaquevocêestivessesóbrio—observouumoutroaviador.—Comovoltouaocampo?

— Não me faça mais perguntas — disse Carequinha assumindo ar de grande dignidade. — Voltei

num carro de comando da Décima Segunda Brigada. Quando pousei com o meu confiável paraquedas, notei uma certa tendência a me considerarem um criminoso fascista devido à minha incapacidade de

dominar a Linhola Espângua. Mas todas as dificuldades foram aplainadas quando os convenci de minha identidade, e aífuitratadocom extremaconsideração. Rapaz, você deviater vistoaquele Junker pegando fogo. Eraissoque euestavaolhandoquandoos Fiats mergulharam sobre mim. Rapaz, nãotenhopalavras paradescrever. —EleabateuumJunkertrimotorhojesobreoJarama,seuscompanheirosdeflancooabandonaram, elefoiabatidoesaltoudeparaquedas—disseoutroaviador.—Nãooconhecem?ÉJacksonCarequinha. —Quantosmetrosvocêcaiuatépuxarocordão,Carequinha?—perguntououtroaviador.

— Todos os dois mil metros, e acho que o meu diafragma se desprendeu quando o para quedas

abriu.Penseique ele me cortavaaomeio.Deviahaverunsquinze Fiatse euqueriaficarbemlonge deles. Preciseimanobrarmuitooparaquedasparabaixarnoladocertodorio.Oventoerafavorável,masaqueda foiforte.

— Frank precisou voltar para Alcalá — disse outro aviador. — Inventamos um jogo de dados. Precisamosvoltartambémantesdoamanhecer. —Nãoestoucomdisposiçãoparamexercomdados—disse Carequinha.—Estoucomdisposiçãoé parabeberchampanheemcoposcompontasdecigarrodentro. —Voulavaroscopos—disseAl. —ParaocamaradafalsoPapaiNoel—disseCarequinha.—ParaovelhocamaradaNoel. —Esqueça—disseAl.Apanhouoscoposeoslevouparaobanheiro. —Eleétanquista?—perguntouumdosaviadores.

—É.Estáládesdeoprincípio. —Estãodizendoqueostanquesnãoservemmais—disseumaviador. —Vocêjádisseissoaele—repliquei.—Porquenãodáumatrégua?Eletrabalhouodiainteiro. —Nóstambém.Masaverdadeéqueostanquesnãoservemmais. —Podemnãoservirmuito.Maseleébom. —Acreditoqueseja.Pareceumbomsujeito.Quantoganhaumtanquista? —Dezpesetaspordia—respondi.—Agorafoipromovidoatenente. —Tenenteespanhol? —É. —Parecequeémalucotambém.Ouseráqueépolítico? —Épolítico. —Ah, bom.Issoexplicatudo.Mas, Carequinha, você deve terpassadomausmomentossaltandode paraquedascomapressãodoventoesemacaudadoavião. —Nemmefale,camarada—disseCarequinha. —Qualfoiasensação? —Eupensavaotempotodo,camarada. —Careca,quantossaltaramdoJunker?

— Quatro, da tripulação de seis. Tenho certeza de que matei o piloto. Notei quando ele deixou de

atirar.Temumco-pilotoque tambémé artilheiro, e tenhocertezade que oacerteitambém.Ele também parou de atirar. Mas pode ter sido o calor. De qualquer forma, quatro saltaram. Quer que eu descreva a cena?Possodescrevê-lacomclareza. Ele estava agora sentado na cama com um copo grande de champanhe na mão, a cabeça rosada e o rostorosadoporejandosuor.

— Por que ninguém bebe em minha homenagem? — perguntou Careca. — Queria que todos os

camaradas bebessem em minha homenagem para depois eu descrever a cena com todo o seu horror e

beleza. Todosbebemosemhomenagemaele. —Ondeeuestavamesmo?—perguntouele. —SaindodoHotelMcAlester—disseumaviador.—Comtodooseuhorrorebeleza.Nãobrinque, Careca.Pormaisincrível,estamosinteressados.

— Vou descrever a cena. Mas primeiro preciso de mais champanhe. — Ele tinha secado o copo

quandobebemosemsuahomenagem. —Seelecontinuarbebendoassimacabadormindo—disseoutroaviador.—Sirvasómeiocopo. Carequinhabebeutudo. —Voudescreveracena—disse.—Depoisdemaisumgolezinho.

— Careca, vá devagar, tá? Precisamos saber direitinho como foi. Você vaiter de esperar alguns dias para pegar um navio de volta, e nós voamos amanhã. O que você tem a contar é importante e também

interessante.

—Fizomeurelatório—disseCarequinha.—Vocêspodemlernoaeródromo.Haveráumacópialá.

—Vamos,Careca,entrelogonoassunto.

—Voudescreveracena,masdepois.—Fechoueabriuosolhosváriasvezes,efinalmentedisseaAl:

—Olá,camaradaPapaiNoel.Depoisdescrevoacena.Todososcamaradasvãoouvir. Edescreveu. —Foimuitoestranhaemuitobonita—afirmoueleebebeumaischampanhedocopo. —Parecomisso,Careca—disseumaviador. —Experimenteiemoçõesprofundas—disseCareca.—Emoçõesmuitoprofundas.Emoçõesdamais negraprofundeza. —VamosvoltaraAlcalá—disseumaviador.—Essecabeçarosadanãovaidizercoisacomcoisa.Eo nossojogo? —Elevaidizercoisacomcoisa,sim—disseoutroaviador.—Eleestáenrolandoporenquanto. —Estámecensurando?—perguntouCareca.—ÉesseoagradecimentodaRepública? —Medigaumacoisa,PapaiNoel—disseAl.—Comoéquefoiláemcima? — Você está me interrogando? — admirou-se Careca, encarando-o. — Você está me fazendo perguntas?Jáesteveemaçãoalgumavez,camarada? —Não.Queimeiassobrancelhasaofazerabarba. — Fique quietinho aí, camarada. Vou descrever a estranha e bonita cena. Sou escritor além de aviador,sabia? Elemesmoconfirmouoquediziabalançandoacabeça. —EleescrevenoArgusdeMeridian,Mississippi—comentouumaviador.—Colaboradorassíduo. —Souumescritortalentoso—disseCareca.—Tenhotalentooriginalparaadescrição.Eutinhaum recortedejornalquediziaisso,masperdi.Agoravoumelançaràdescrição. —OK.Comecepelocenário. —Camaradas,nãosepodedescreveraquilo—disseCareca,eestendeuocopo. —Oquefoiqueeufalei?—observouumaviador.—Nãovaidizercoisacomcoisanemdaquiaum mês.Nuncadissecoisacomcoisa. —Cale aboca,seuinfeliz.Muitobem.Quandoinclineioavião,olheiparabaixo.Ele soltavafumaça, mas continuava no curso para transpor as montanhas. Perdia altitude rapidamente. Subi e mergulhei novamente sobre ele. Ele ainda tinha companheiros de ala e começou a soltar mais fumaça. A porta da carlingaabriu-se e foicomoolharparadentrode umaltoforno, e elescomeçaramasair.Roleiquarentae cinco graus, mergulhei, estabilizei. Olheipara trás e para baixo, eles continuavam saltando fora, saltando forapelaportadoalto-forno, osparaquedasse abriame ficavamparecendoenormese lindascampânulas, e oaviãoeraumenorme tiçãode fogocomoeununcatinhavisto, umtiçãoenorme, girando, girando, e quatro paraquedas lindos como nunca vi descendo lentamente do céu. De repente um pegou fogo na

margem, e enquanto ele ia se queimando o homem começou a cair depressa, eu o olhando quando as balascomeçaramachegar,osFiatsbematrásdelas,asbalaseosFiats.

— Você é mesmo um escritor — disse um aviador. — Devia escrever para Ases da Guerra. Pode me dizeremlinguagemsimplesoqueaconteceu? —Não—respondeuCareca.—Voucontar.Masnadade brincadeiras.Eracoisadignade se ver.Eu nuncatinhaabatidoumgrandeJunkertrimotor,efiqueicontente. —Todomundoestácontente,Careca.Conteoqueaconteceudeverdade. —OK.Voutomarumpoucomaisdessevinho,depoisconto. —Comovocêsestavamquandoosavistaram?

— Estávamos num escalão esquerdo de Vs. Depois passamos a um escalão esquerdo de escalões e

mergulhamos sobre eles com todas as quatro metralhadoras, até quase podermos tocá-los, antes de nos

inclinarmose sairmosdaformação.Danificamosoutrostrês.OsFiatsestavamláemcimaprotegidospelo sol.Sódesceramquandoeucontemplavaacena. —Osseusalasfugiramdocombate? —Não.Aculpafoiminha.Fiqueiolhandooespetáculoe elesseguiram.Nãoháformaçãoparaolhar

espetáculos. Suponho que tenham prosseguido e alcançado o escalão. Não sei. Não me pergunte. Estou cansado.Euestavafeliz.Agoraestoucansado. —Vocêestáécomsono.Triscadoecomsono.

— Estou só cansado. Um homem na minha posição tem o direito de ficar cansado. E, se ficar com sono,tenhoodireitodeficarcomsono.Nãotenho,PapaiNoel?—perguntouparaAl. —Claro—confirmouAl.—Achoquetemodireitodeficarcomsono.Eutambémestoucomsono. Essejogodedadosnãovaicontinuar? —Precisamoslevá-loparaAlcalá,enóstambémprecisamosestarlá—disseumaviador.—Porquê? Perdeunojogo? —Umpouco—disseAl. —Querumlancedetudoounada?—perguntouoaviador. —Jogomil—disseAl. —Eulimpovocê—disseoaviador.—Vocês,tanquistas,nãoganhammuito,hein? —Não.Nãoganhamosmuito.

Al pôs a nota de mil pesetas no chão, sacudiu o dado entre as palmas das mãos e jogou-os no assoalho.Doisuns. —Osdadossãoseus—disseoaviadorapanhandoanotaeolhandoparaAl. —Nãoprecisodeles—disseAl,elevantou-se. —Precisadealgumdinheiro?—perguntouoaviador,olhandoparaelecomcuriosidade. —Não,paraquê?—disseAl.

— Precisamos ir para Alcalá de qualquer jeito — afirmou o aviador. — Jogaremos novamente

qualquer noite dessas. Convidamos Frank e os outros. Podemos organizar uma boa sessão de jogo. Quer

umacarona? —Não—disseAl.—Vouapé.Élogoalinofimdarua. —Bem,vamosparaAlcalá.Alguémaísabeasenhadestanoite? —Omotoristadevesaber.Devetersaídoepegadoasenhaantesdoescurecer. —Mexa-se,Careca.Seubêbadodorminhoco. —Eunão—disseCareca.—Souumásempotencialdoexércitodopovo. —Asesnãoaparecemtodososdias.Mesmocontandoositalianos,levatempoparaalguémse tornar umás,evocê,Careca,jánãotemtemposuficienteparaisso.

— Não eram italianos — corrigiu-o Careca. — Eram alemães. Você não viu o aparelho quando ele

estavaparecendoumafornalha.Eracomouminfernotrepidante.

— Levem-no daqui — disse um aviador. — Ele voltou a escrever para aquele jornal de Meridian,

Mississippi.Bem,atéapróxima.Obrigadopelahospitalidade. Trocaram apertos de mãos e saíram. Acompanhei-os até a escada. O elevador estava parado. Fiquei

olhando-osdesceraescada.Carecaiaentredois,balançandoacabeçalentamente.Estavamesmocaindode

sono.

No quarto dos dois que trabalhavam comigo no filme, eles ainda briquitavam para consertar a

câmera. Era um trabalho delicado, de cansar os olhos. Quando perguntei se achavam que iam fazer o conserto,umdelesrespondeuquesim,queprecisavamfazer.

Que tal a festa? — perguntou o outro. — Estivemos o tempo todo ocupados com esta bendita

câmera.

—Aviadoresamericanos—disseeu.—Eumconhecidomeuqueétanquista.

—Foidivertido?Infelizmentenãopudeir.

—Assim-assim.Foidivertido.

—Vocêprecisadormir.Precisamosestarempécedo.Precisamosestardescansadosparaamanhã.

—Quantotempomaisfaltapararesolveremesseproblemadacâmera?

—Estácomplicado.Sãoessasmolas-chicote.

—Deixecomele.Vamosdarconta,depoisdormir.Aquehorasvainoschamar?

—Cinco?

—Estábom.Logoqueclarear.

—Boa-noite.

Salud.Tratededormir.

Salud.Temosdeficarunidosamanhã.

—Éisso.Éoquepensotambém.Muitomaisunidos.Foibomvocêterfalado.

Alestavadormindonapoltronadoquartocomaluznorosto.Cobri-ocomumcobertor,eleacordou.

—Voudescer—disse.

—Durmaaqui.Acertoodespertadoreacordovocê.

—Odespertadorpodenãodespertar—disseele.—Émelhoreudescer.Nãoquerochegartarde.

—Lamentoosmausventosdojogo. —Teriammelimpadodequalquermaneira.Aquelescarassãoofinocomosdados. —Penseiquevocêfosseganharaqueleúltimolance. —Sãoofinosempre.Eumagente estranha, sabe?Nãoacreditoque ganhemmuitocomoaviadores. Ninguémfazissopordinheiro,nãoexistedinheirosuficienteparapagarisso. —Querqueeudesçacomvocê?

— Não. — Levantou-se e afivelouna cintura o Colt que havia tirado quando voltamos do jantar. — Não.Agoraestoubem.Recupereiaperspectiva.Nãosepodeviversemperspectiva. —Voudescercomvocê. —Não.Vádormir.Voudesceredormirumasboascincohorasantesdeenfrentarodia. —Tãocedoassim? —É.Nãovaihaverluzparavocê filmar.Émelhorficarnacama.—Tirouumenvelope dobolsodo paletóde couroe deixou-onamesa.—Guarde istoe mande parameuirmãoemNovaYork.Oendereço estánoversodoenvelope. —Claro.Masnãovouprecisarmandar.

— Não. Acho que não. Mas tem aí umas fotos e outras coisas que eles vão gostar de receber. A mulherdeleéumajoia.Querverumafotodela? Tirouafotografiadobolso.Estavadentrodacadernetadeidentidade.Eraumalindamorenaempéao

ladodeumbarcoaremonamargemdeumlago.

— É nos Catskills — disse Al. — É. Tem uma esposa linda. É judia. Não me deixe ficar sentimental. Até,menino.Secuide.Estoumesentindoótimo,acredite.Estatardenãomesentiabem. —Desçocomvocê.

— Não. Você pode ter problema na Plaza de España quando voltar. Aqueles caras costumam ficar nervososdenoite.Boa-noite.Amanhãdenoitenosveremos. —Assiméquesefala.

No quarto acima do meu, Manolita e o inglês faziam muito barulho. Significava então que ela não forapresa.

— É isso. Assim é que se fala — disse Al. — Mas, para se chegar a falar assim, às vezes são necessáriastrêsouquatrohoras. Pôsocapacetedecourocomaabaacolchoadalevantadaeficoucomorostosombreado.Masnoteios sulcosescurosdebaixodosolhos. —AmanhãànoitenoChicote—prometi. —Certo—disseelesemmeolharnosolhos.—AmanhãànoitenoChicote. —Aquehoras?

— Não é preciso mais nada — disse ele. — Amanhã à noite no Chicote. Não temos que nos preocuparcomhorário—complementouesaiu.

Quem não o conhecesse bem e não tivesse visto o terreno onde ele ia atacar na manhã seguinte pensaria que estivesse muito irritado com alguma coisa. Acho que, em seuíntimo, estava irritado, muito irritado.Ficamosirritadoscommuitascoisas,emorrerdesnecessariamenteéumadelas.Masquemsabese irritadonãoémesmoomelhorestadoemquedevemosficarquandovamosfazerumataque?

AOPÉDACORDILHEIRA

A OPÉDACORDILHEIRA No calor do dia e com muita poeira no ar, voltamos de boca seca,

No calor do dia e com muita poeira no ar, voltamos de boca seca, narizes entupidos e com pesada carga nas costas. Voltávamos da batalha para a cordilheira acima do rio onde estavam as tropas espanholas de reserva. Sentei-me com as costas na trincheira rasa, os ombros e a nuca no barranco, abrigado até de balas perdidas, e olheiparaoque estavaabaixode nós.Ostanquesde reservacobertoscomgalhoscortadosde oliveiras. À esquerda os carros do comando, enlameados e também cobertos de galhos, e entre os dois uma longa fileira de soldados carregando padiolas pelo corte até o pé da cordilheira onde as ambulâncias recolhiamos feridos.Muares daintendênciacarregados de sacos de pãoe pipas de vinho, e umatropade outros muares carregando munição, eram conduzidos pelo corte na cordilheira; e homens carregando padiolasvaziassubiamlentamenteatrilhacomosmuares. Àdireita,abaixodacurvadacordilheira,via-seaentradadacavernaondeseinstalavaoestado-maior dabrigada,comosfiosdesinalizaçãopassandoporcimadacavernaesedobrandoacimadonossoabrigo. Motociclistas com uniforme e capacete de couro subiam e desciam o corte, e nos pontos onde a subida era íngreme iam a pé empurrando as máquinas e deixando-as encostadas no corte, onde as largavame continuavamsozinhosaté aentrada.Umciclistagrandalhão, umhúngaroconhecidomeu, saiu dacaverna, enfiouunspapéisnacarteirade couro, pegouamotoe, empurrando-aporentre osmuarese ospadioleiros,passouapernaporcimadoselimesaiuroncandoelevantandopoeira. Láembaixo,ondeasambulânciaschegavamesaíam,ficavaavegetaçãoverdequemarcavaoriscodo rio. Tinha uma casa grande de telhado vermelho e um moinho de pedra cinzenta. Das árvores em volta dessacasagrande dooutroladodoriovinhamosclarõesdanossaartilharia.Disparavamnanossadireção. Primeirodoisclarões,depoisosurdoroncodaspeçasdetrêspolegadas,bang-bang,e emseguidaogemido crescente dos obuses voando em nossa direção e passando por cima de nós. Como sempre, éramos carentes de artilharia. Só contávamos com quatro baterias ali, quando precisávamos de quarenta, e as quatrosódisparavamdoiscanhõesdecadavez.Oataquetinhafracassadoantesdanossachegada. —Russos?—perguntou-meumsoldadoespanhol.

—Americanos.Temágua? —Tenho,camarada.—Elemepassouumsurrãodecouro.Essastropasdereservasóeramsoldados denomeeporestaremuniformizados.Nãoeramparaserlançadosemataques,eseespalhavampelalinha sob a crista em grupos, comendo, bebendo e conversando ou simplesmente sentados olhando a esmo, esperando.Oataqueerafeitoporumabrigadainternacional. Eueelebebemos.Aáguatinhagostodeasfaltoepelodeporco. —Vinhoébemmelhor—disseosoldado.—Vouarranjarvinho. —É.Mas,parasede,sóágua. —Nãotemsedecomoadebatalha.Mesmoaqui,comoreservista,tenhomuitasede. —Nãoésede,émedo—corrigiuoutrosoldado.—Sedeémedo. — Não — disse outro. — Com medo vem sede sempre. Mas na batalha ocorre muita sede mesmo quandonãoexistemedo. —Embatalhasempresetemmedo—falouoprimeirosoldado. —Pravocê—retrucouosegundo. —Énormal—disseoprimeiro. —Pravocê. —Caleessabocaimunda!—ordenouoprimeiro.—Souapenasumapessoaquefalaaverdade. Era um dia radioso de abril. O vento soprava forte, e cada muar que subia o corte levantava uma nuvem de poeira. Os dois homens nas extremidades de uma padiola erguiam nuvens de poeira que se juntavam e formavam uma só, e embaixo, na parte plana, riscas compridas de poeira se erguiam das ambulânciasesedesfaziamcomovento. Tive certeza de que não ia morrer naquele dia porque tínhamos trabalhado muito bem de manhã, e duas vezes no decorrer do ataque podíamos ter morrido, e não morremos; isso me deu confiança. A primeiravezfoiquandoavançamoscomostanqueseachamosumlugarbomparafilmaroataque.Depois fiquei desconfiado do lugar e deslocamos as câmeras uns duzentos metros para a esquerda. Antes de sairmos marquei o lugar pelo processo mais antigo de marcar, e em menos de dez minutos um obus de seispolegadascaiuexatamente alionde eutinhaestado,e nãosobrounemsinalde que tivéssemosestado lá.Oqueficoufoiumaenormecratera. Duashorasdepoisumoficialpolonêsrecém-destacadoe transferidoparaoestado-maiorofereceu-se paranos mostrar as posições que tinham acabadode tomar, e quandosaíamos da proteçãode uma dobra do morro caímos sob fogo de metralhadoras e tivemos que rastejar com o queixo colado ao chão e respirando poeira. Foi então que fizemos a triste descoberta de que os poloneses não tinham tomado posição nenhuma naquele dia e tinham até recuado um pouco do ponto de onde partiram para o ataque. Deitado agora no fundo da trincheira, euestava ensopado de suor, com fome e com sede e ainda não de todorecuperadodosustodoataque. —Têmcertezadequenãosãorussos?—perguntouumsoldado.—Temrussosporaquihoje. —Tem.Masnãosomosrussos

—Vocêtemcaraderusso.

—Estáenganado,camarada.Tenhomesmoumacaraesquisita,masnãoécaraderusso.

— Este tem cara de russo — continuou ele mostrando um de nossos companheiros que trabalhava numacâmera. —Podeter.Masnãoérusso.Evocêédeonde? —Estremadura—respondeuelecomorgulho. —TemmuitosrussosemEstremadura?—perguntei.

— Não — respondeu com mais orgulho ainda. — Não tem russos em Estremadura e não tem

estremenhosnaRússia. —Qualéasuapolítica? —Detestoestrangeiros. —Éumaplataformapolíticabemampla. —Detestomouros,ingleses,franceses,italianos,alemães,norte-americanoserussos. —Nessaordem? —É.Masachoquedetestomaisosrussos. —Rapaz,vocêtemideiasbeminteressantes.Éfascista? —Não.Souestremenhoedetestoestrangeiros. —Eletemideiascuriosas—ironizouumoutrosoldado.—Nãodêmuitaimportânciaaele.Eugosto deestrangeiros.SoudeValência.Tomemaisvinho. Peguei o caneco que ele me oferecia, ainda sentindo na boca o gosto metálico do outro. Olhei o

estremenho. Era alto e magro. Tinha o rosto cansado e a barba por fazer, as faces chupadas. A raiva dele eratransparente.Estavaempé,ocorpoesticado,umcobertorcobrindoosombros. —Abaixeacabeça—disseeu.—Temmuitabalaperdidapassandoporaí. —Nãotenhomedodebalaedetestoestrangeiros—respondeuele,desafiador.

— Não precisa ter medo de bala, mas deve evitá-las quando está numa tropa de reserva. Não é inteligenteserferidoquandosepodeevitar. —Nãotenhomedodenada—disseoestremenho. —Éumhomemdemuitasorte,camarada. —Éverdade —concordouooutrocomocanecode vinhonamão.—Ele nãotemmedo, nemdos aviones.

— Ele é maluco — disse outro soldado. — Todo mundo tem medo dos aviões. Matam pouco mas dãomuitomedo.

— Não tenho medo. Nem de aviões nem de nada — afirmou o estremenho. — E detesto tudo

quantoéestrangeiro. Embaixonocorte,caminhandoaoladode doispadioleirose semprestaratençãoemvolta,vinhaum sujeito alto em uniforme da Brigada Internacional com um cobertor nas costas e amarrado no peito.

Mantinha a cabeça alta e parecia um sonâmbulo caminhando. Era de meia-idade. Não tinha fuzil e não pareciaferido. Fiquei olhando esse homem caminhar sozinho para fora da guerra. Antes de chegar aos carros do estado-maior, tomou a esquerda e, com a cabeça ainda erguida de um jeito esquisito, virou a dobra da cordilheiraesumiudevista. Ocompanheiroqueestavacomigomudandoosfilmesdascâmerasportáteisnãonotouessehomem. Um obus solitário apareceu por cima da cordilheira, caiu e levantou um repuxo de terra e fumaça pretabempertodotanquedereserva. Alguém pôs a cabeça fora da caverna onde era o quartelgeneral da brigada e logo a recolheu. Achei queaqueleseriaumbomlugarparaseabrigar,mastodosládeviamestarfuriosospelofracassodoataque, e eu não queria enfrentá-los. Quando uma operação era bem-sucedida, eles ficavam contentes de vê-la filmada. Mas, quando fracassava, todos ficavam com tanta raiva que sempre corríamos o risco de ser devolvidospresos. —Agoravãonosbombardear—disseeu. —Amimpoucoimporta—disseoestremenho. Eujáestavaficandocheiodesseestremenho. —Aindatemvinhoaí?—perguntei.Minhabocacontinuavaseca.

— Sim, homem. Temos de sobra — disse o soldado simpático. Era pequeno, de mãos enormes e

muito sujas. Tinha um toco de barba mais oumenos do comprimento do cabelo cortado à escovinha. — Achaquevãonosbombardear? —Épossível—respondi.—Masnestaguerranuncasesabe. —Oqueéquetemestaguerra?—perguntouoestremenho,zangado.—Nãogostadestaguerra? —Nãoamole!—disseosoldadosimpático.—Estounocomandoaqui,eessescamaradassãonossos hóspedes.

— Então não deixe que ele fale contra a nossa guerra. Não quero ouvir estrangeiros aqui falando contraanossaguerra—protestouoestremenho. —Dequecidadeévocê,camarada?—pergunteiaele.

— Badajoz. Soude Badajoz. Em Badajozfomos saqueados e pilhados, e nossas mulheres, violentadas

poringleses, franceses e agoramouros.Oque osmouros fizeramnãofoipior doque fizeramos ingleses

de Wellington. Você precisa ler história. Minha bisavó foi morta pelos ingleses. A casa onde morava a minhafamíliafoiqueimadapelosingleses. —Lamento.Eporquedetestaosnorte-americanos? —Meupaifoimortopelosnorte-americanosemCubaquandoerarecrutalá. —Lamentoissotambém.Lamentomuito.Podecrer.Eporquedetestaosrussos? —Porquerepresentamatirania,edetestoacaradeles.Vocêtemcaraderusso.

— Talvez seja melhor sairmos daqui — disse eu ao que estava comigo e não falava espanhol. — Parecequetenhocaraderussoeestoucorrendoperigo.

— Vou dormir — disse ele. — Este lugar aqui é bom. Se não ficar falando demais, não irá correr

perigo. —Temumcamaradaaquiquenãogostademim.Deveseranarquista. —Entãotomecuidadoparaelenãolhedarumtiro.Voudormir. Nesse momento dois homens vestindo capa de couro, um baixo e atarracado e o outro de estatura

mediana, ambos usando bonés de civil, pistolas Mauser em capa de madeira forrada presas na perna, apareceramnocorteevieramemnossadireção. Omaisaltodirigiu-seamimemfrancês.

— Viuumcamaradafrancês passar por aqui?Umcamaradacomumcobertor amarradonos ombros

emformabandoleira?Deidadeentre45e50anos?Viuessecamaradacaminhandoemdireçãocontráriaà

frente?

—Não—respondi.—Nãovininguémassim.

Eleencarou-meporuminstanteenoteiqueseusolhoseramamarelo-acinzentadosenãopiscavam.

—Obrigado, camarada—disse ele emfrancês, depois falourapidamente comooutronumalíngua que não identifiquei. Voltaram e subiram a parte mais alta da cordilheira, de onde podiam ver todos os sulcosdoterreno. —Essassãocarasinconfundivelmenterussas—disseoestremenho.

— Cale a boca! — gritei. Euobservava os dois homens de capa de couro. Estavam parados sobfogo

intensoolhandooterrenoabaixodacordilheiraeamargemdorio. De repente um deles viu o que procuravam, e apontou. Os dois desceram disparados como cães de caça, um em linha reta cordilheira abaixo, o outro em ângulo como se quisesse cortar o caminho de alguém.Antesqueosegundodesaparecessenacrista,sacouapistolaecorreucomelanamão. —Gostoudoqueviu?—perguntouoestremenho. —Nãomaisdoquevocê—respondi. Acimadacristadacordilheiraparalela, ouvios estampidos daMauser, uns doze oumais. Devem ter atiradodelonge.Cessadaasucessãodeestampidos,houveumapausaedepoisumtirosó. O estremenho olhou para mim com cara de desgosto e não disse nada. Achei que seria bem mais simplesseobombardeiocomeçasse.Masnãocomeçou. Os dois de capade couroe bonés civis reapareceram nacristacaminhandojuntos e desceram parao corte. Seguiram morro abaixo com aquele dobrar de joelhos de animal bípede descendo uma ladeira íngreme. Viraram a curva do corte quando um tanque apareceu estralejando e pipocando, e abriram caminhoparaele. Os tanques falharam mais uma vez naquele dia. Os motoristas que vinham das linhas com seus capacetesdecouro,astorresdostanquesabertasporestaremjánoabrigodacordilheira,olhavamàfrente comojogadoresdefutebolqueforamexpulsosdeumapartidapormoleza. Os dois homens de cara chata e capas de couro pararam junto a nós na cordilheira para deixar o tanquepassar.

—Acharamocamaradaqueprocuravam?—pergunteiaomaisaltoemfrancês. —Achamos,camarada.Obrigado—respondeueleeolhou-medealtoabaixo. —Quedisseele?—perguntouoestremenho. —Queacharamocamaradaqueprocuravam—expliquei.Oestremenhonãodissenada. Tínhamos passadoamanhãinteiranolugar de onde ofrancês de meia-idade tinhadeixadoaguerra. Estivemosalinapoeira,nafumaça,nobarulho,ondecombatentesrecebiamferimentos,morriam,tinham medode morrer, erambravos, covardes, e estavamsofrendoos efeitos dademênciae dofracassode um ataque.Estivemosalinaqueleterrenoaradoquenãosepodiaatravessareondenãosepodiaviver.Agente sedeitavaeficavacoladoaochão,fazendoummontedeterraparaprotegeracabeça;arrastandooqueixo naterra;esperandoaordemdesubirumaencostaqueninguémpodiagalgarecontinuarvivo. Estivemos em companhia daqueles que esperavam os tanques que não chegaram; aguardando sob o silvar e oestrondofinaldas bombas; metale terralançados comotorrões de umabicade águasuja; balas de metralhadora zumbindo e tapando o céucomo cortina. Sabíamos como se sentiam os que esperavam. Estavam nopontomais avançadoaonde puderam chegar. Dalinãose podia avançar mais e continuar vivo —echegouaordemdeavançar. Estivemosláamanhãinteiranolugarde onde ofrancêsde meia-idade deixouaguerra.Compreendi oque pode se passar de repente na cabeça de um homem quandoele percebe claramente a estupidez de morrer num ataque malsucedido; ou ao perceber isto com toda a clareza, como podemos perceber claramente no instante anterior à morte; perceber a inutilidade, a idiotice, perceber a realidade significa simplesmente virar as costas e sair dali caminhando como fez o francês. Ele abandonou a guerra não por covardia, mas simplesmente por ter visto tudo com clareza; por ter se convencido de repente de que precisavalargaraquilo;porperceberquenãohaviaoutracoisaafazer. Ofrancêssaiuandandodoataquecomgrandedignidade,eentendiadecisãodelecomohomem.Mas como soldado aqueles outros que policiavam a batalha o caçaram, e a morte da qual tinha se afastado o alcançou quando ele já havia transposto a cordilheira, já estava livre das balas e dos obuses, e caminhava paraorio. —Eaqueles—disseoestremenho,indicandocomacabeçaapolíciadabatalha. —Éaguerra—respondi.—Naguerraadisciplinaénecessária. —Eparaviversobessadisciplinadevemosmorrer? —Semdisciplinatodosacabammorrendo. —Hádisciplinae disciplina—disse ele.—Olhe,emfevereiroestávamosaquionde estamosagora, e osfascistasatacaram.Expulsaram-nosdosmorrosque vocêsdaInternacionaltentaramtomarhoje e não conseguiram. Recuamos para cá; para esta cordilheira. A Internacional veio e tomou a linha na nossa frente. —Eusei. — Mas tem uma coisa que você não sabe. Um garoto da minha província ficou apavorado com o bombardeioedeuumtironamãoparapoderdeixaralinhaporqueestavacommedo.

Osoutrossoldadosoouviam.Muitosconfirmaramcomacabeça. —Pessoascomoele recebemcurativose sãomandadasde voltaàlinhaimediatamente —continuou oestremenho.—Éjusto. —É—respondi.—Assiméquedeveser. —Assiméquedeveser—repetiuoestremenho.—Masotiroqueogarotodeunamãodestroçou oossoefezsurgirumainfecção.Tiveramqueamputar-lheamão. Váriossoldadosconfirmaram. —Conteoresto—pediuumsoldado.

— Será melhor não falar nisso — disse o camarada de cabelo à escovinha e barba curta que dissera estarnocomando. —Émeudeverfalar—afirmouoestremenho. Oqueestavanocomandodeudeombros. —Eutambémnãogostei—disse.—Continueentão.Masnãogostonemdeouvirfalarnisso.

— O garoto ficou no hospital do vale desde fevereiro — disse o estremenho. — Alguns de nós o

vimos lá. Todos dizem que ele era querido no hospital e se tornara útil dentro das possibilidades de uma

pessoamaneta.Nuncaestevepreso.Nuncasefeznadaparaprepará-lo. O homem no comando passou-me outro caneco de vinho sem nada dizer. Todos escutavam, como pessoasquenãosabemlerescutamumahistória. —Ontem, nofimdodia, antesde sabermosque iahaverumataque…Ontem, antesdopôrdosol, quandopensávamosquehojeiaserumdiaigualaosoutros,trouxeramogarotoestradaacimaatéaravina. Estávamos preparando a comida da noite quando trouxeram o garoto. Eram quatro ao todo. Ele, quero dizer, omeninoPaco, osdoisque você viuhápoucocomcapade couroe bonés, e umoficialdabrigada.

Vimos os quatro subindo juntos a ravina e vimos que as mãos de Paco não estavam amarradas, nem ele estavaamarradodenenhumamaneira.

— Quando o vimos nos reunimos em volta e gritamos: “Olá, Paco. Como vai, Paco? Como vão as

coisas, Paco?” Ele respondeu:“Tudobem.Tudobemmenosisto”, e mostrouocoto.Pacodisse:“Foium ato covarde e idiota. Me arrependo de o ter feito. Mas procuro ser útil com uma única mão. Farei o que pudercomestaminhaúnicamãopelaCausa.” —Foi—disseumsoldado.—Eledisseisso.Ouvieledizer. —Falamoscomele—disseoestremenho.—Eelefalouconosco.Quandoaquelesdecapadecouro e pistola aparecem é sempre mau agouro numa guerra, como é a chegada de pessoas com mapas e

binóculos. Mas ainda pensávamos que o tivessem trazido para uma visita, e os outros de nós que não tinham ido ao hospital ficaram contentes de vê-lo, e, como eu disse, era hora da refeição da noite, e a noiteestavaclaraequente. —Esteventosócomeçaduranteanoite—disseumsoldado.

— Aí — continuou o estremenho com voz soturna — um deles perguntou ao oficial em espanhol:

“Ondeéolugar?OndeéolugarondeessePacofoiferido?”

—Eurespondi—disse ohomememcomando.—Mostrei-lhe olugar.Éumpoucomaisabaixode ondevocêestá. —Éestelugaraqui—disseumsoldadoapontando.Vilogoqueeraaqueleolugar. —AíumdoshomenslevouPacopelobraçoaolugare ficousegurando-oláenquantoooutrofalava emespanhol.Falouemespanholmuitomalfalado.Nocomeçotivemosvontade de rir, e Pacocomeçoua sorrir. Nãoentenditudo, mas oque entendifoique Pacodevia ser punidopara exemplo, para nãohaver mais ferimentos autoinfligidos, e para que todos os outros fossem punidos da mesma maneira. Depois, enquanto um deles segurava Paco pelo braço, Paco muito envergonhado por terem falado dele daquela maneira,quandoelejáestavaenvergonhadoearrependido,ooutrosacoudapistolaedeuumtironanuca dePacosemlhedizernada.Nãodisseumapalavra. Ossoldadostodosconfirmaram. —Foiassim—disseum.—Aínesselugar.Elecaiucomabocaaí.Aindasepodever. Deondeeuestavaviabemolugar. — Ele não teve aviso nem oportunidade de se preparar — disse o que estava no comando. — Foi umabrutalidade. —Éporissoque agoradetestorussose todososoutrosestrangeiros—disse oestremenho.—Não podemos ter ilusões com estrangeiros. Se você é estrangeiro me desculpe. Mas agora eu não abro mais exceções.Vocêcomeupãoebebeuvinhocomagente.Agorajápodeir. —Nãofaleassim—disseoqueestavanocomando.—Éprecisomanterasformalidades. —Achomelhorirmos—disseeu. —Nãoestáaborrecido?—perguntouohomemque estavanocomando.—Pode ficarneste abrigo otempoquequiser.Estácomsede?Quermaisvinho? —Muitoobrigado.Achomelhorirmos—respondi. —Entendeomeuódio?—perguntouoestremenho. —Entendooseuódio—respondi. — Ótimo — disse ele, e estendeu-me a mão. — Não recuso um aperto de mão. Que você, pessoalmente,tenhamuitasorte. —Igualmentepravocê.Pessoalmenteecomoespanhol—disseeu. Acordeio que tinha feito as tomadas e começamos a descida para o estado-maior da brigada. Todos ostanquesvinhamvoltandoeeradifícilconversarporcausadobarulhoquefaziam. —Ficouconversandoaqueletempotodo? —Fiqueiouvindo. —Ouviualgumacoisainteressante? —Muitas. —Quepretendefazeragora? —VoltarparaMadri. —Devíamosverogeneral.

—É.Precisamosverogeneral.

O general estava friamente furioso. Tinha ordenado o ataque como surpresa com uma brigada

apenas, deslanchandotudoantes doamanhecer. Deviater atacadopelomenos comumadivisão. Utilizara três batalhões, guardando um de reserva. O comandante francês de tanques encheu a cara para ter coragemeficoutãobêbadoquenãopôdecomandar.Iaserfuziladoquandomelhorassedoporre. Os tanques não chegaram a tempo e no fim se recusaram a avançar. Dois batalhões não alcançaram seus objetivos. O terceiro alcançara os dele, mas ficouisolado à frente e insustentável. O único resultado concreto foram alguns prisioneiros, entregues aos tanquistas para serem levados para a retaguarda, e os tanquistasosmataram.Ogeneralsótinhafracassosamostrar,eseusprisioneiroseramcadáveres. —Oqueéquepossoescreversobreisso?—perguntei. —Nadaquenãoestejanocomunicadooficial.Temuísquenestagarrafacomprida? —Tem. Ele tomou um gole e lambeu os lábios gostosamente. Tinha sido capitão dos hussardos húngaros e

tomado um trem carregado de ouro na Sibéria quando comandava uma cavalaria de irregulares sob o Exército Vermelho, e o defendeu durante todo um inverno, quando o termômetro marcava quarenta abaixodezero.Éramosamigos;eleapreciavauísque.Ehojeestámorto. —Semandadaquijá—disseele.—Temtransporte? —Tenho. —Filmoualgumacoisa? —Ostanques. —Tanques—disseaborrecido.—Oscretinos.Oscovardes.Muitaatençãoparanãosermorto.Você éconsideradoescritor. —Nãopossoescrevernomomento.

— Escreva depois. Pode escrever depois. Cuidado para não ser morto. Principalmente, não se deixe

matar.Agora,foradaqui! O conselho que ele me deu ele mesmo não pôde seguir porque foi morto dois meses depois. Uma feição estranha daquele dia foia maravilha que ficaram as tomadas que fizemos dos tanques. Na tela eles avançavam irresistivelmente sobre o morro, subindo a crista como grandes navios, avançando poderosos paraavitóriaquefilmamos. Quemestiveramais pertodavitórianaquele diafoicertamente ofrancês que saiude cabeçaerguida da batalha. Mas a vitória dele só durou até quando ele chegou a meio caminho da descida. Nós o vimos caídonaencostaaindacomocobertornosombrosquandodescíamosocorteparapegarocarroqueianos levaraMadri.

NINGUÉMMORREJAMAIS

N INGUÉMMORREJAMAIS A casaerade gessocor-de-rosa, jádesbotadoe se descascandocom aumidade. Davarandavia-se omar, muito

A casaerade gessocor-de-rosa, jádesbotadoe se descascandocom aumidade. Davarandavia-se omar, muito azul, no fim da rua. Havia loureiros em toda a calçada, loureiros tão altos que faziam sombra na varanda de cima e refrescavam a casa. Numa gaiola de vime, num canto da varanda, vivia um tordo poliglota, que não estava cantando e nem mesmo trilando no momento porque um jovem de seus 28 anos, magro, moreno, com círculos azulados sob os olhos e barba apontando, tinha acabado de tirar o suéterquevestiaecobertoagaiolacomele.Ojovemficouparado,abocaligeiramenteaberta,escutando. Alguémtentavaabriraportadafrente,queestavatrancadaereforçadacomtrinco. Enquantoescutava,omoçoouviaoruídodoventonosloureirosnafrentedavaranda,abuzinadeum táxidescendo a rua e gritos de crianças que brincavam num terreno baldio. Em seguida ouviuo ruído de uma chave girando novamente na fechadura da porta da frente, ouviu a lingueta cedendo, ouviu alguém forçandoaportacontraotrinco; depoisachave girandoaocontrário.Aomesmotempoobarulhode um taco de beisebol batendo na bola e gritos agudos do terreno baldio em língua espanhola. O moço ficou paradoumedecendooslábioscomalínguae escutandoobarulhode alguémagoratentandoabriraporta dosfundos. Ojovem,quesechamavaEnrique,tirouossapatos,pousou-osdevagarinhonochãoefoiandandona ponta dos pés pelos ladrilhos da varanda até onde podia ver a porta dos fundos. Não vendo ninguém lá, voltouparaafrentedacasae,escondendo-se,olhouarua. Um negro de chapéu-palheta de aba estreita, paletó de alpaca cinzenta e calça preta seguia pela calçada sob os loureiros. Enrique olhou, não viu mais ninguém. Ficou ali um tempo mais observando e escutando;depoistirouosuéterdecimadagaiolaeovestiu. Por ter suadomuitoenquantoescutava, ele agorasentiafrionasombra, frioagravadopeloventode nordeste.Osuéter cobriaumcoldre de axilaonde ele portavaumColt calibre quarentae cinco; asolado coldre já estava descorada pelo suor, e a arma, com a pressão constante, produzira um calombo pouco abaixodaaxiladorapaz.Orapazdeitou-senumacamadelonaencostadanaparedeecontinuouàescuta.

O passarinho trilava e pulava na gaiola. O jovem levantou-se e abriua porta da gaiola. O passarinho pôsacabeçaparaforadaportaabertaelogoarecolheu.Tornouaenfiaracabeçaparafora,deviés. —Podesair—disseojovemcomvozmansa.—Nãoécilada. Enfiouamãonagaiola,opassarinhovoouparaofundo,batendoasasasnastalas. —Vocêébobo—disseojovem.Tirouamãodedentrodagaiola.—Voudeixá-laaberta. Deitou de bruços na cama de lona, o queixo apoiado nos braços dobrados. Continuava escutando. Ouviuopássarovoardagaiolaelogocantandonumdosloureiros. “Foi tolice deixar o passarinho preso quando a casa está supostamente desocupada”, ele pensou. “Tolices como essa podem ser perigosas. Como posso censurar outros quando eu também procedo assim?” Noterrenobaldioosmeninosaindajogavambeisebol, e atemperaturacaíra.Ojovemdesabotoouo coldre,tirouaarmaedeixou-aaoladodaperna.Logodormiu. Quandoacordoujáestavaescuro,easlâmpadasdaruajáestavamacesas.Levantou-seefoiàfrenteda casa,mantendo-senasombraeaoabrigodaparede.Examinouumladodarua,depoisooutro.Debaixode uma árvore na esquina estava um homem de chapéu-palheta de aba estreita. Enrique não conseguia distinguiracordopaletónemadacalça,masohomemeranegro. Enrique correu para o fundo da varanda, mas lá não havia luz, a não ser a das janelas do fundo das duascasasvizinhas.Podiavermuitagentenofundo.Deduziuissoporquenãoouviaagoracomoouvirade tarde,enãoouviaporquetinhaumrádioligadonasegundacasa. De repente o crescente gemido mecânico de uma sirene cortou o ar, e o jovem sentiu um arrepio subir até o alto da cabeça. Esse arrepio veio involuntariamente e rápido, como acontece quando uma pessoaficacorada. Foicomoum fogopontudo, que desapareceutambém rapidamente. A sirene vierado rádio, fazia parte de um comercial, e logo veio a voz do locutor: “Dentifrício Gavis. Inalterável, insuperável,imbatível.” Enriquesorriunoescuro.Estavaquasenahoradealguémaparecer. Depois da sirene no anúncio de dentifrício, veio o choro de uma criança que o locutor disse que deixariade chorarcomMalta-Malta.Depoisumabuzinade carroe ummotoristaexigindogasolinaverde. “Nãomevenhacomconversa.Pedigasolinaverde.Maiseconômica,rendemais.Amelhor.” Enrique sabia os anúncios de cor. Não tinham mudado durante os quinze meses que ele passara na guerra.Deviamestarutilizandoosmesmosdiscosnaestaçãoderádio,easireneoenganaramaisumavez, dando-lheaquelapicadarápidaespinhaacimaatéoaltodacabeça,queéareaçãoautomáticaaumperigo. No princípio ele não tinha esses arrepios. O que sentia diante de um perigo ou do medo do perigo era um vazio no estômago. Depois uma fraqueza como quando se está com febre. E havia também a incapacidade de ação,quandoé precisoforçaromovimentoparaafrente e aspernasparecemparalisadas, como que dormentes. Essas situações não aconteciam mais, e ele agora fazia sem dificuldade o que fosse preciso. O arrepio era o único resquício da enorme capacidade de sentir medo com que muitos bravos

começam.Eraaúnicareaçãoperanteoperigoquelherestava,semincluirosuordoqualjamaisselivraria, masqueporoutroladolheserviadealerta. Enquantoolhavaaárvoreondeohomemdechapéu-palhetaagoraapareciasentadonomeio-fio,uma pedra caiu no piso de ladrilho da varanda. Enrique procurou por ela colado à parede, mas não a achou. Passouamãoembaixodacamade lona, onde tambémnãoestava.Quandoficoude joelhosparaprocurar melhor, outra pedra caiuno piso, saltoue foirolando para a esquina lateral da casa, que dava para a rua. Enrique apanhou-a. Era um seixo liso comum, que ele guardou no bolso, e voltou para dentro da casa e desceuosdegrausparaaportadosfundos. Encostou-sedeumladodoportaletirouoColtdocoldre. —Avitória—dissebaixinhoemespanhol,abocaresistindoàpalavra,epassoudemansinhocomos pésdescalçosparaooutroportal. —Paraosque aconquistam—disse alguémláde fora.Eravozde mulherdandoasegundaparte da senhaemritmorápidoevacilante. Enriquecorreuotrincoduplodaportaeabriu-acomamãoesquerda,oColtaindanadireita. Quemestavalánoescuroeraumamoçacomumcestonamão.Tinhaumlençonacabeça.

— Olá — disse ele. Fechou a porta e passou o trinco depois que ela entrou. Ouvia a respiração da moçanoescuro.Tomouocestodamãodelaeacariciou-anoombro.

— Enrique — disse ela. Ele não podia ver que os olhos dela brilhavam e nem como estava o seu

rosto.

—Vamosláparacima—disseele.—Temalguémvigiandoafrentedacasa.Vocêviu?

—Não.Vimpeloterrenobaldio.

—Voulhemostrarosujeito.Vamosàvarandadecima.

Subiram a escada, Enrique com o cesto. Ele o depositara perto da cama e foiao canto da varanda. O negrodechapéu-palhetadeabaestreitanãoestavamaislá. —Ora,ora—disseEnrique. —Oraoquê?—perguntouamoçasegurandoobraçodeleeolhandoparafora. —Elefoiembora.Oqueéquetemosparacomer?

— Tive pena de deixar você sozinho o dia inteiro — disse ela. — Foi bobagem minha esperar que

escurecesseparavir.Passeiodiatodocomvontadedevir. —Foibobagemficaraqui.Trouxeram-me dobarcoparacáantesdoamanhecere me deixaramcom uma senha e nada para comer, numa casa vigiada. Ninguém come senha. Não deviam ter me deixado numa casa que está vigiada por outros motivos. É coisa muito de cubano. Antigamente pelo menos tínhamosoquecomer.Evocêcomovai,Maria? Ela beijou-o na boca, sofregamente. Ele sentiu a pressão dos lábios dela e o tremor do corpo encostadonodele,ederepenteapicadabrancadedornaespinha. —Ai!Cuidadoaí. —Quefoi?

—Minhascostas. —Oqueéquetem?Estáferido? —Vocêdeviaver—disseele. —Possoveragora? —Depois.Precisamoscomeresairdaqui.Oqueéqueguardavamaqui? —Muitascoisas.Coisasquesobraramdovexamedeabril.Coisasguardadasparaofuturo. —Ofuturodistante—disseele.—Nãosabiamqueacasaestavavigiada? —Tenhocertezaquenão. —Oqueéquetemaí? —Unsfuzisencaixotados.Ecaixotesdemunição. — Tudo deve ser retirado esta noite. Só depois de anos de trabalho é que vamos precisar dessas coisas. —Gostadeescabeche? —Muitobom.Senteaquipertodemim.

—Enrique—disseelasentando-seencostadanele.Pôsamãonapernadeleecomaoutraacariciou-

onanuca.—MeuEnrique.

—Pegueleve—disseelemastigando.—Ascostasdoem.

—Estácontentedetervoltadodaguerra?

—Nãopenseinisso.

—EChucho,comoestá?

—MorreuemLérida.

—EFelipe?

—Morreu.TambémemLérida.

—Arturo?

—MorreuemTeruel.

—EVicente?—perguntouelacomvozmonótona,asduasmãosagoranapernadele.

—Morreu.NoataquedaestradadeCeladas.

—Vicenteémeuirmão.—Elaesticouocorpoetirouasmãosdapernadele.

—Eusei—disseEnrique,econtinuoucomendo.

—Émeuúnicoirmão.

—Penseiquevocêjásoubesse.

—Nãosabia,eeleémeuirmão.

—Sintomuito,Maria.Eudeviaterditodeoutramaneira.

—Elerealmentemorreu?Vocêtemcerteza?Nãoseriaumanotíciasemconfirmação?

—Olhe,Rogello,Basilio,Esteban,Feloeeuestamosvivos.Osoutrosmorreram.

—Todos?

—Todos.

—Nãomeconformo.Desculpe,nãomeconformo. —Nãodevemosficarfalandonisso.Morreram. —NãoésóporqueVicenteémeuirmão.Possoaceitaramortedele.Eramaflordonossopartido. —Eusei.Aflordopartido. —Aguerranãovaliaisso.Eladestruiuosmelhores. —Valia,sim. —Comopodedizerisso?Chegaasercriminoso. —Nãoé,não.Aguerravalia,sim. ElachoravaeEnriquecontinuavacomendo.

— Não chore — disse ele. — O que temos a fazer agora é nos esforçarmos para ocupar os lugares

deles. —Maseleémeuirmão.Vocênãoentendeuainda?Meuirmão.

— Somos todos irmãos. Alguns morreram, outros estão vivos. Nos mandaram de volta para que

sobrassemalguns.Docontrárionãosobrarianinguém.Agoratemosquetrabalhar. —Masporquemorreramtodos?

— Estávamos numa divisão de ataque. Neste caso ou se morre ou se é ferido. Nós outros fomos

feridos. —ComofoiqueVicentemorreu? —Foiapanhadoporfogodemetralhadoraquandoatravessavaaestrada.Ofogoveiodeumafazenda àdireita.Aestradaestavacobertapelasmetralhadorasinstaladasnacasa. —Vocêestavalá?

— Estava. Com a primeira companhia. Estávamos à direita dele. Tomamos a casa, mas demorou.

Tinhamtrêsmetralhadoraslá,duasnacasaeumanoestábulo.Eradifícilaproximar-se.Tivemosquepedir

um tanque para incendiar a janela e só assim pudemos atacar o último ninho de metralhadora. Perdioito homens.Foiumaperdaalta. —Ondefoiisso? —Celadas. —Nuncaouvifalar. —Aoperaçãofracassou.Ninguémvaiouvirfalarnela.FoiaíqueVicenteeIgnaciomorreram.

— Evocê acha issojustificável?Que homens comoeles morram em operações fracassadas num país

estrangeiro?

— Não existe país estrangeiro, Maria, onde se fala espanhol. Onde se morre não tem importância paraquemlutapelaliberdade.Mas,sejacomofor,oqueprecisamosfazeréviverenãomorrer. —Maspenseemquemmorreu,longedecasa,eemoperaçõesfracassadas. —Nãoforamláparamorrer,foramparalutar.Morreréumacidente. — Mas os fracassos. Meu irmão morreu num fracasso. Chucho morreu num fracasso. Ignacio também.

— São uma parte do todo. Tínhamos que fazer algumas coisas impossíveis. Fizemos muitas que

pareciam impossíveis. Mas às vezes os que estão em nosso flanco não atacam. Às vezes não há artilharia

suficiente. Às vezes somos mandados para fazer coisas sem força suficiente, como em Celadas. São essas circunstânciasqueresultamemfracassos.Masnofimdascontasnãofoiumfracasso. Elanãorespondeueeleacaboudecomer. Soprava um vento fresco nas árvores, e estava frio na varanda. Ele recolheu os pratos no cesto e limpou a boca com o guardanapo. Limpou as mãos cuidadosamente e pôs o braço na cintura dela. Ela chorava.

— Não chore, Maria. O que aconteceué passado. Precisamos pensar no que temos de fazer. Temos muitoquefazer. Elacontinuoucalada,orostoiluminadopelaluzdarua,olhandoparaafrente.

— Precisamos nos vigiar contra romantismos. Este lugar aqui é um exemplo de romantismo.

Precisamos parar com o terrorismo. Precisamos continuar evitando cair novamente em aventureirismos

revolucionários. A moça continuava calada. Ele olhou aquele rosto em que tinha pensado durante os meses em que pôdepensaremalgumacoisaquenãofosseoseutrabalho. —Vocêfalacomoumlivro—disseela.—Nãocomoserhumano.

— Desculpe. São lições que aprendi. Coisas que sei que preciso fazer. Para mim é mais real do que

tudo.

—Paramimsóosmortossãoreais—disseela. —Prestamoshomenagemaeles.Maselesnãosãoimportantes. —Olhevocêfalandodenovocomoumlivro—disseelazangada.—Seucoraçãoéumlivro. —Desculpe,Maria.Penseiquevocêentendesse. —Sóentendoosmortos. Ele sabia que não era verdade porque ela não os viu mortos como ele viu, na chuva no olival da Jarama, no calor das casas bombardeadas de Quijorna, e na neve em Teruel. Mas sabia que ela o culpava porestarvivoquandoVicente nãoestavamais; e de repente, naparte humanaínfimae incondicionalque restaranele,equeelenãosabiaqueaindaguardava,sentiu-seprofundamenteofendido. —Tinhaumpassarinho—disseela.—Umtordo-poliglotanagaiola. —Tinha.Euosoltei. —Quepessoamaiscaridosa!—disseelaemzombaria.—Ossoldadossãotodossentimentais? —Soubomsoldado. —Acredito.Faloucomobomsoldado.Queespéciedesoldadoerameuirmão? —Dosmelhores.Maisalegredoqueeu.Nãofuialegre.Falhaminha. —Masfazautocríticaefalacomolivro. —Seriamelhorseeufossemaisalegre.Nuncaaprendiisso. —Eosalegresmorreramtodos.

—Não.Basilioéalegre. —Entãovaimorrer—disseela. —Maria,nãofaleassim.Vocêfalacomoderrotista. —Evocêfalacomolivro.Nãotoqueemmim,porfavor.Vocêtemcoraçãoduroedetestovocê. Elesentiu-seofendidopelasegundavez,elequepensaraterumcoraçãoduroquenadapodiaofender nuncamais,anãoserador.Sentou-senacamaeseinclinouparaafrente. —Levanteomeusuéter—disseele. —Eunão. Elelevantouosuéternascostaseseencurvou. —Veja,Maria.Istonãoédelivro. —Nãopossover.Nãoquerover. —Ponhaamãoembaixonasminhascostas. Ele sentiu os dedos dela tocando aquele ponto afundado onde podia caber uma bola de beisebol, a

cicatriz horrenda do ferimento em que o cirurgião tinha enfiado a mão enluvada para limpar, ferimento queiadeumladodacinturaaooutro.Sentiuotoquedosdedosdelaeseencolheu.Nomomentoseguinte

elaoabraçavaeobeijava,oslábioscomoumailhanorepentinomarbrancodedorquesurgiu,invadindo-

o, comoumaondabrilhante e insuportável. Os lábios aindanos dele; depois ador de repente cessandoe ele sentado sozinho, molhado de suor, e Maria chorando e dizendo: — Oh, Enrique, me perdoe. Me perdoe,Enrique. —Tudobem.Nadaaperdoar.Masnãofoipartedenenhumlivro. —Dóisempre? —Sóquandosoutocadooufaçomovimentosbruscos. —Eamedula? —Quasenãofoiafetada.Osrinstambémestãointeiros.Ofragmentodegranadaentroudeumlado esaiupelooutro.Temoutrosferimentosmaisembaixoenaspernas. —Meperdoe,Enrique. —Nãoháoqueperdoar.Masnãotemgraçaeunãopodermedeitarcommulher.Elamentonãoser alegre. —Podemosfazeramorquandoissoaímelhorar. —Podemos. —Eserábom. —Será. —Eeuvoucuidardevocê. — Não. Eu vou cuidar de você. Isto aqui não me incomoda em nada. É só a dor do toque ou do movimento. Nãome incomoda. Agora precisamos trabalhar. Temos que sair daqui. Tudooque tem aqui precisa ser retirado esta noite. Vamos guardar tudo em algum outro lugar que não esteja sob vigilância e também em que o material não se estrague. Não vamos precisar dele tão cedo. Temos muito que fazer

antesde chegarmosnovamente aessaetapa.Precisamoseducarmuitos.Até láessescartuchospodemnão prestar mais. O clima aqui estraga as espoletas. Precisamos sair já. Fui idiota ficando aqui até agora. O idiotaquemepôsaquivaiterqueprestarcontasaocomitê. —Estouencarregadadelevarvocêláestanoite.Acharamqueestacasaeraseguraparavocêpassaro diahoje. —Estacasaéumperigo. —Entãovamossairjá. —Jádevíamostersaído. —Mebeije,Enrique. —Sóseforcommuitocuidado. Na cama, no escuro, conduzindo-se com cuidado, os olhos fechados, os lábios dele e os dela em contato,afelicidade semdor,avoltaparacasade repente semdor,asensaçãode estarvivovoltandosem dor,oconfortodeseramadoeaindasemdor;eraumvaziodeamar,agoranãomaisvazio,eosdoisjogos de lábios no escuro, encontrando-se felizes e com doçura, no escuro e no calor da casa, e sem dor, no escuro; de repente soa a sirene cortante, despertando toda a dor do mundo. Era a sirene real, não a do rádio.Nãoeraumasirene.Eramduas.Vinhacadaumadeumladodarua. Elevirouacabeçaedepoisselevantou.Achouqueavoltaparacasadurarapouco.

— Saia pelos fundos para o terreno baldio — disse ele. — Depressa. Eu atiro daqui de cima para tentarenganá-los. —Não,vocêsai—disseela.—Saia,porfavor.Ficoaquieatiro;assimelespensamquevocêestána

casa.

—Vamos—disse ele —nósdois.Aquinãohánadaparaserprotegido.Omaterialé imprestável.É melhorfugirmos. —Queroficar.Queroprotegervocê. ElapegouoColtnocoldredebaixodobraçodele,eledeu-lheumtapanacara. —Vamos.Nãosejaingênua.Vamos!

Desceram a escada. Ele sentiu a moça bem atrás dele. Abriu a porta e saíram juntos. Ele trancou a porta. —Corra,Maria—disse.—Nestadireção,passandopeloterreno.Já! —Queroircomvocê. Eledeu-lheoutrotapa.

— Corra. Depois mergulhe na vegetação e rasteje. Me desculpe, Maria. Vá. Euvoupelo outro lado.

Vá.Oraessa,vá! Alcançaram o terreno ao mesmo tempo. Ele correu vinte passos e, quando os carros da polícia pararamnafrentedacasa,assirenesmorrendo,elemergulhouecomeçouarastejar. Enquanto ele rastejava, retorcendo-se, a aspereza do capim raspando-lhe o rosto, pelotas de areia lixando-lheasmãoseosjoelhos,ouviuoshomensdandoavoltanacasa.Elesahaviamcercado.

Continuourastejando,pensandorápido,semdarimportânciaàdor. Masporqueassirenes,pensou.Porquenãoveioumterceirocarronaretaguarda?Porquenãolançaram umholofote nesse terreno?Cubanos.Porque sãotãoidiotase tãoteatrais?Devemterpensadoque acasa estavavazia.Devemtervindosóparapegaromaterial.Masporqueassirenes? Ouviuquearrombavamaporta.Acasaestavatodacercada.Ouviudoissilvosdeapitopertodacasa,e continuourastejando. Bobocas, pensou. Mas já devem ter achado o cesto e os pratos. Que gente! Que maneira de invadir umacasa! Estava quase saindo do terreno baldio e sabia que precisava ficar em pé e atravessar a rua correndo paraascasasmaisdistantes.Tinhaachadoumamaneiraderastejarsemsentirmuitador.Podiaseadaptara qualquermovimento.Oquedoíaeramasmudançasbruscas,eeleprecisavaficarempé.Aindanacampina ergueu-se em um joelho, absorveu a dor e, quando puxou o outro pé para junto do joelho para se levantar,tornouasentirdor.Levantou-se. Começouacorrerparaacasaemfrentequandoorelâmpagodoholofoteopegoudecheio,eeleviu tudonegroemvolta. Oholofote eradocarroque tinhachegadosilenciosamente, semsirene, e estacionadonumaesquina doterreno. Quando Enrique ficou em pé, magro, iluminado pelo feixe de luz com a mão no Colt debaixo do braço,asmetralhadorasdocarroàsescurasabriramfogo. A sensaçãoé de umaporretadanopeito, e ele sósentiuaprimeira.As outras porretadas que vieram foramcomoecos. Elecaiuparaafrente,comorostonocapim,e,enquantocaía,outalveztenhasidoentreomomento emque oholofote opegoue aprimeirabalaoatingiu, umpensamentopassou-lhe pelacabeça.“Nãosão bobocas.Talvezsepossafazeralgumacoisacomeles.” Seeletivessetidotempoparaoutropensamento,seriaodetorcerparaquenãohouvesseoutrocarro naoutraesquina.Mashavia,eoholofotedelevarriaoterreno.Oamplofeixedeluzbatiaocapinzalonde Maria estava escondida. No carro escuro os metralhadores em posição acompanhavam a varredura do holofote,comafeiuraaflautadamaseficientedoscanosThompson. Na sombra da árvore, atrás do carro escurecido no qual estava o holofote, tinha um negro em pé. Usava chapéu-palheta de aba estreita e paletó de alpaca. Por baixo da camisa tinha uma guia de contas azuis.Estavaparado,quieto,acompanhandootrabalhodoholofote. Os holofotes corriam o capinzal onde a moça estava deitada, o queixo encostado na terra. Ficou imóveldesdequeouviraarajadadetiros.Sentiaocoraçãobatendonochão. —Viuamoça?—perguntouumdoshomensnocarro. —Vamos virar os holofotes paraooutroladodocapinzal—disse otenente, que estavasentadono bancodafrente.—Hola!—gritouparaonegrodebaixodaárvore.—Váàcasaedigaaelesparabaterem ocapinzalnanossadireçãoemformaçãoaberta.Sãosódois?

—Sódois—disseonegro,comumtomdevozcalmo.—Jáacertamosooutro. —Entãová. —Sim,tenente. Segurandoochapéucomas duas mãos, ele saiucorrendopelamargemdoterrenoparaacasa, onde agoraasluzesestavamtodasacesas. Nocapim,amoçacontinuavadeitadacomasmãoscruzadasnoaltodacabeça.

— Me ajude a aguentar isto — disse ela apenas para o capim, pois estava sozinha ali. E de repente, nominalmente, soluçando: —Me ajude, Vicente.Me ajude, Felipe.Me ajude, Chucho.Me ajude, Arturo. Meajudeagora,Enrique.Meajude. Houvetempoemqueelateriarezado,masperderaocostumeeagoraprecisavadealgumacoisa. —Meajudemanãofalarsemepegarem—dissecomabocaencostadanocapim.—Nãomedeixe falar,Enrique.Nãomedeixefalarnada,Vicente. Atrás ela ouvia os homens batendo o terreno como caçadores de coelho. Vinham espalhados como

soldadosvolteadores,lançandofeixesdelanternasportáteisnocapim. Enrique, me ajude, ela pensou. Tirou as mãos da cabeça e fechou-as de encontro ao corpo. Assim é melhor,pensou.Seeucorrer,atiram.Serámaissimples. Levantou-se lentamente e correupara o carro. O holofote pegou-a em cheio. Ela correuvendo só o feixedeluz,umaluzbrancacegante.Achouqueeraamelhormaneiradesairdaquilo.

Atrásdelagritaram,masnãohouvetiro.Umhomemlhedeuumviolentosafanão,eelacaiu.Ouviu-

lhearespiraçãoquandoeleasegurou.

Outroa pegoupor baixodobraçoe aergueu. Segurando-apelos braços, foram com ela em direção aocarro.Nãoforambrutoscomela,maslevaram-naparaoveículo. —Não—disseela.—Não.Não. —ÉairmãdeVicenteIrtube—disseotenente.—Elapodeserútil. —Jáfoiinterrogadaantes—disseoutro. —Nãomuitoasério —Não—disseela.—Não.Não.—Egritou:—Meajude,Vicente!Meajude,Enrique! —Jámorreram.Nãopodemajudarvocê.Nãosejaboba—dissealguém. —Podem.Evãomeajudar.Osmortosvãomeajudar.Vão,sim.Osnossosmortosvãomeajudar.

— Então dê uma olhada em Enrique — disse o tenente. — Veja se ele está em condições de ajudar você.Aínatraseiradocarro.

— Ele está me ajudando — disse Maria. — Não vê que ele está me ajudando? Obrigada, Enrique.

Muitoobrigada!

— Vamos — disse o tenente. — Ela está louca. Deixe quatro homens vigiando o material, depois mandamosumcaminhãoapanhartudo.VamoslevaressadoidaparaaCentral.Láelapodefalar. —Não—disseMariasegurando-opelamanga.—Nãovêquetodosestãomeajudando? —Não.Vocêestádoida—disseotenente.

—Ninguémmorreatrocodenada—disseMaria.—Todomundoestámeajudando. —Pedeaelesparaajudaremvocêdentrodeumahora—disseotenente. —Vãoajudar.Nãosepreocupe.Muitagente,muitagentemesmoestámeajudando. Maria sentou-se e ficou imóvel apoiada no encosto do assento. Parecia senhora de uma estranha confiança. A mesma confiança que outra moça da mesma idade dela tinha sentido há pouco mais de quinhentosanosnapraçadeumacidadechamadaRouen. Marianãopensounisso.Ninguémnocarropensounisso.Asduasmoças,umachamadaJoana,aoutra Maria, nada tinham em comum a não ser essa súbita e estranha confiança que as socorreu quando precisaram. Mas todos os policiais que estavam no carro sentiam-se constrangidos de ver Maria sentada eretacomorostoluzindoàluzelétrica. Os carros partiram, e noassentotraseirodoque ia na frente os homens repunham as metralhadoras em suas grossas capas de lona, retirando os suportes e guardando-os em seus bolsos diagonais, os canos comascoronhasnabolsagrande,oscarregadoresnosestreitosbolsosdetela. O negro de chapéu-palheta saiu da sombra da casa e fez sinal para o primeiro carro. Subiu para o assento da frente, assim ficando dois ao lado do motorista. Os quatro carros pegaram a estrada principal quelevavaaLaHavanapelabeira-mar. Apertadonoassentodafrente,onegroenfiouamãodebaixodacamisae tocoucomosdedosaguia de contas azuis. Manteve-se calado, os dedos segurando as contas. Antes de conseguir o emprego de alcaguete da polícia de Havana, era estivador, e ia receber cinquenta dólares pelo trabalho daquela noite. CinquentadólaresémuitodinheiroemLaHavana,masonegronãopodiamaispensarnodinheiro.Virou acabeçaumpouquinhoedevagarquandoentraramnaestradailuminada,oMalecon;olhouparatráseviu orostodamoçaluzindoaltivo,acabeçaerguida. Onegroassustou-seeenvolveucomosdedosaguiadecontasazuiseapertouforte.Masomedonão passouporqueeleestavaagoraexpostoaumamagiabemmaisantiga.

OLEÃOBONDOSO

O LEÃOBONDOSO EraumavezumleãoquevivianaÁfricacomtodososoutrosleões.Osoutrosleõeseramtodosmausleões e todo dia comiam

EraumavezumleãoquevivianaÁfricacomtodososoutrosleões.Osoutrosleõeseramtodosmausleões

e todo dia comiam zebras e animais selvagens e toda sorte de antílopes. Às vezes os maus leões comiam gente também. Comiamsuaílis, ungurus e wandorobos e gostavamprincipalmente de comer mercadores hindus.Todomercadorhinduémuitogordoedeliciosoparaleão. Mas esse leão, de quem gostamos porque era tão bom, tinha asas nas costas. Por ele ter asas nas costas,osoutrosleõestodoscaçoavamdele. —Olhemesseaícomasasnascostas—diziam,etodosrolavamderir.

— Vejam o que ele come — diziam, porque o bom leão só comia massas e scampi por ser ele tão

bom.

Osmausleõesrugiamdegargalhadasecomiamoutromercadorhindu,easmulheresdosmausleões bebiam o sangue do mercador, fazendo assim lap, lap, lap com as línguas, como gatos enormes. Só

paravam para rugir ou para rir do bom leão e para zombar das asas dele. Eram mesmo uns leões maus e perversos. Masobomleãosentava-se e fechavaasasase perguntavaeducadamente se podiatomarumNegroni ou um Americano, que sempre bebia em vez de beber sangue de mercadores hindus. Um dia ele se recusouacomeroitoresesmasaiesócomeutagliatelliebebeuumcopodepomodoro. Issodeixouosmausleõesindignados,eumaleoaqueeraamaisperversadetodosenuncaconseguia limparosanguedemercadoreshindusdeseusbigodes,nemesfregandoacaranocapim,disse:

— Quem é você para pensar que é melhor do que nós? De onde você veio, seu leão comedor de

massas?Eoqueéqueestáfazendoaqui?—Roncouparaeleetodososoutrosrugiramsemrir.

— Meu pai mora numa cidade, onde fica debaixo da torre do relógio olhando mil pombos, todos

súditos dele. Quandoesses pombos voam, fazem um barulhocomoode um riocaudaloso. Na cidade de meupaiexistemmais palácios doque emtodaaÁfrica, e quatrograndes cavalos de bronze olhandopara ele,ecadaumtemumpéerguidoporquetodostêmmedodemeupai.Nacidadedemeupaioshomens andamapéouembarcos,ecavalodeverdadenãoentralápormedodemeupai.

—Seupaieraumgrifo—dissealeoaperversalambendoosbigodes. —Vocêémentiroso—disseumdosmausleões.—Nãoexisteumacidadeassim.

— Passe o meu pedaço de mercador hindu — disse outro leão muito mau. — Essa vaca masai está

muitofresca.

— Você é um reles mentiroso e filho de grifo — disse a mais perversa de todas as leoas. — Estou

comvontadedematarvocêecomer,comasasetudo. Isso assustou demais o bom leão, porque ele viu os olhos amarelos dela e o rabo levantando e descendo e o sangue seco endurecido nos pelos do bigode e sentiu o hálito dela que era muito fedido porqueelanuncaescovavaosdentes.Etambémporqueelatinhapedaçosantigosdemercadorhinduentre asgarras. —Nãomemate—disseobomleão.—Meupaiéumleãonobreesemprefoirespeitado,etudoo queeudisseéverdade. Aleoaperversasaltouparapegá-lo.Maselesubiuparaoarcomsuasasasecirculouumavezsobreo

grupo de maus leões, que ficaram rugindo e olhando para ele no alto. Ele olhou para baixo e pensou:

comosãoselvagensessesleões. Circulou mais uma vez sobre eles para fazê-los rugir mais alto. Depois desceu para ver os olhos da leoaperversa,queseergueusobreaspernastraseirasparaverseopegava.Maserrouapatada. —Adiós—disseobomleão,quefalavaumexcelenteespanholporserumleãoculto.—Aurevoir! — gritouparaelesemumfrancêsexemplar. Todosrugirameroncaramemdialetoleoninoafricano. O bom leão subiu em círculos cada vez mais altos e regulou a rota para Veneza. Pousou na Piazza e

todo mundo ficoufeliz de vê-lo. Ele deuum voo curto e beijouo painas duas faces e viuque os cavalos ainda estavam com os pés erguidos, e que a Basílica estava mais bonita do que uma bolha de sabão. O Campanilenoseulugareospombosserecolhendoaseusninhosparapassaremanoite. —QuetalaÁfrica?—perguntouopai. —Muitoselvagem,pai—respondeuobomleão. —Agoratemosiluminaçãonoturna—disseopai. —Estouvendo—respondeuobondosoleãocomobomfilho. —Incomodameusolhosumpouco—disseopai.—Paraondevaiagora,filho? —ParaobardoHarry.

— Dê lembranças minhas aCiprianie digaaele que passoláqualquer diaparasaldar aminhaconta

—disseopai.

— Sim, senhor — disse o bom leão, e vooubaixo e depois foiandando com as quatro patas para o bardoHarry. NadahaviamudadonoCipriani.Todososseusamigosestavamlá.Masobomleãotinhamudadoum poucoporterestadonaÁfrica. —UmNegroni,SignorBarone?—perguntouCipriani.

MasobomleãotinhavindodaÁfrica,eaÁfricaomodificara.

—Temaísanduíchesdemercadorhindu?—perguntoueleaCipriani.

—Não,maspossodarumjeito.

—Enquantoprovidencia,meprepareummartínibemseco.ComgimGordon—acrescentou.

—Muitobem—disseCipriani.—Muitobemmesmo.

Oleãocorreuosolhospelosrostosdetodasaspessoasfinasecertificou-sedequeestavaemcasamas

tambémquetinhaviajado.Sentiu-semuitofeliz.

OTOUROFIEL

O TOUROFIEL Era uma vez um touro que não se chamava Ferdinando e não ligava para

Era uma vez um touro que não se chamava Ferdinando e não ligava para flores. Gostava de lutar e lutava comtodososoutrostourosdesuaidade,oudequalqueridade,eeraumcampeão. Oschifresdeleeramduroscomomadeiraepontudoscomocerdasdeporco-espinho.Quandolutava, os chifres o machucavam na base, mas ele não ligava a mínima. Os músculos do pescoço formavam uma protuberânciaqueemespanholsechamamorilloeessemorilloficavaaltocomoummorroquandoeleestava prontoparalutar.Ele sempre estavaprontoparalutar, e opelodele erapretoe lustroso, e osolhoseram claros. Tudoerapretextoparaelelutareelelutavacomamesmaseriedadecomquecertaspessoascomem, leem ou vão à igreja. Cada vez que lutava, lutava para matar, e os outros touros não tinham medo dele porque eram de boa linhagem, e touro de boa linhagem não tem medo. Mas não o provocavam. Nem tinhamvontadedelutarcomele. Essetouronãoeraprovocadornemeraperverso,masgostavadelutarcomoaspessoaspodemgostar de cantar ou de ser rei ou presidente. Ele nunca pensava. Lutar era a sua obrigação, o seu dever e a sua alegria. Lutavaemchãodepedra,emlugaresaltos,debaixodesobreirasenospastospertodorio.Caminhava vinte quilômetros por dia desde o rio até o terreno alto e pedregoso, e lutava com qualquer touro que olhasseparaele.Masnuncatinharaiva. Issonãoé bem verdade, porque ele tinha raiva lá dentrodele. Sóque nãosabia por quê, já que não pensava.Eraumtouromuitonobre,quegostavadelutar. E o que foique aconteceucom ele? O homem que era dono dele, se alguém pode ser dono de um animal assim, sabia que ele era um grande touro, mas se preocupava porque esse touro lhe dava muita despesa por lutar com outros touros. Cada touro valia mais de mil dólares, e depois que lutavam com o grandetouroficavamvalendosóduzentosdólares,àsvezesmenosaté. Entãoohomem,queeraumbomhomem,resolveuqueseriamelhorconservarosanguedessetouro emtodaasuacriação,emvezdemandá-loparamorrernaarena.Assim,destinou-oaserreprodutor.

Masaqueletouroeraumtouromuitoestranho.Aprimeiravezqueosoltaramnopastocomasvacas reprodutoras, ele viu uma que era jovem e bonita, esbelta e de músculos mais bem-distribuídos e mais gostososdoque asoutrastodas.Então, jáque nãopodialutar, apaixonou-se porelae nãoteve olhospara nenhumaoutra.Sóqueriaestarcomela,asoutrasnadasignificavamparaele. Diante disso o homem mandou-o com outros cinco para serem mortos na arena, e lá pelo menos o touro podia lutar, apesar de ser um touro fiel. Lutou admiravelmente e todo mundo o aplaudiu, e o homem que omatoufoiquem mais oadmirou. Mas ajaquetadohomem que omatoue que é chamado dematadorficoutodaensopada,eabocadele,sequíssima. — Que toro más bravo — disse o matador quando entregava a espada ao espadeiro. Entregou-a com o punho para cima e a lâmina pingando sangue do coração do bravo touro que não tinha mais nenhum problemadequalquerespécieeestavasendoarrastadodaarenaporquatrocavalos. — Bem, este era um dos que o Marquês de Villamayor precisouse livrar porque era fiel — disse o espadeiro,quedetudosabia. —Quemsabesenóstodosnãodevíamosserfiéis?—disseomatador.

ARRANJEUMCACHORRODECEGO

A RRANJEUMCACHORRODECEGO —Oquefoiquefizemosdepois?—perguntouele.Elaexplicou.—Essaparteémuitoesquisita.Nãome

—Oquefoiquefizemosdepois?—perguntouele.Elaexplicou.—Essaparteémuitoesquisita.Nãome lembrodenadadisso. —Nãoselembradapartidadosafári?

— Devia me lembrar. Mas nãome lembro. Me lembrodas mulheres descendoa trilha para apanhar

águacomospotesnacabeça,edobandodegansosqueotototocavaparaaáguaedevolta.Melembroda vagarosidade delese que estavamsempre descendoousubindoatrilha.Haviaumamaré forte, osbaixios

eram amarelados e o canal ia até a ilha distante. O vento não parava e não havia moscas nem mosquitos. Tinha um telhado e um piso de cimento e os esteios do telhado, e o vento soprava sem parar. A temperaturaeraamenaodiainteiroefrescaànoite.

— Se lembra de quando aquele barco grande, que chamam de dhow, chegou e querenou na maré

baixa? —Sim.Me lembrodobarcoe datripulaçãosaindodapraiae subindoatrilha, os gansos commedo deles,easmulherestambém. —Foiodiaemquepegamosmuitopeixe,mastivemosdevoltarporqueomarestavaagitado. —Melembrodisso. —Vocêestálembrandobemhoje—disseela.—Nãoseesforce. — Foi pena você não ter podido ir no avião para Zanzibar. Aquela praia mais acima de onde estávamoseraboaparapousar.Vocêpodiaterpousadoedecoladodeláfacilmente.

— Sempre podemos ir para Zanzibar. Nãofique se esforçandopara lembrar mais hoje. Quer que eu leiaparavocê?SempretemalgumacoisaqueaindanãolemosnosvelhosNewYorker. —Não,nãoleia.Fiquefalando.Faledasboascoisaspassadas. —Querqueeufaledecomoestáláfora?—perguntouela. —Estáchovendo.Issoeusei. —Choveforte.Osturistasnãovãoaparecercomestetempo.Ventamuito.Podemosdescereficarao pédofogo.

— Podemos. Na falta de outra coisa. Não estou mais interessado neles. Gosto de ouvir a conversa

deles.

— Alguns são detestáveis — disse ela —, mas outros são interessantes. Acho que os mais interessanteséquevãoparaTorcello.

— Você está certa — disse ele. — Não tinha pensadonisso. Aquinão tem nada para eles, a não ser quesejampelomenosumpoucointeressantes.

— Quer que lhe prepare um drinque? Você sabe a péssima enfermeira que sou. Não sou do ramo

nemtenhotalento.Masseipreparardrinques. —Entãovamosbeberalgumacoisa. —Queroquê? —Qualquercoisa. —Umasurpresaentão.Vouprepará-laláembaixo. Ele ouviuaportaabrindoe fechando, ospassosdelanaescada, e pensou:precisoconvencê-laafazer

uma viagem. Preciso descobrir um jeito de convencê-la. Pensar em alguma coisa prática. Vou ficar assim pelorestodavidaeprecisoinventarmeiosdenãoestragaravidadela.Elatemsidotãoboa,enãofoifeita paraserboa.Querodizer,dojeitoqueestásendo.Boadiariamenteerotineiramente. Ouviu os passos subindo a escada e registrou a diferença no andar quando carregava dois copos e quandocaminhavade mãos vazias.Ouviuachuvanavidraçae sentiuocheirodas achas de faianalareira. Quandoelaentrounoquarto,eleestendeuamãoparapegarodrinque,fechou-aesentiuotoquedamão delanocopo. —Éonossodrinqueparaesteambiente—disseela.—CamparieGordon’scomgelo. —Mesintofelizporvocênãoterditoontherocks. —É.Nuncadigoisso.Jáestivemosontherocks. — Em nossos dois pés quando estávamos por baixo e arriscando tudo. Se lembra de quando proibimosaquelasfrases? —Issofoinotempodomeuleão.Nãoeraumleãolindérrimo?Nãovejoodiadepodermosrevê-lo —disseela. —Nemeu. —Medesculpe,né? —Selembradequandoproibimosaquelafrase? —Quasequeeuadisseagora.

— Sabe de uma coisa? Foi muita sorte nossa termos vindo para cá. Me lembro tão bem que quase

chegoapegarcomamão.Éumapalavranova, e logovamosproibi-la.Masé grandiosa.Quandoescutoa chuva,euavejonaspedrasenocanalenalagoa,e seicomoasárvoresse inclinamaoventoeatorre fica iluminada, e como! Viemos ao melhor lugar para mim. É perfeito. Temos um bom rádio e um bom gravador, e vou escrever melhor do que nunca. Se você se acostumar com o gravador, vai pegar tudo

certinho.Possotrabalhardevagareveraspalavrasnomomentoemqueaspronuncio.Sesaíremerradaseu asescutoerradaseasrepitoatésaíremcertas.Minhaquerida,nãopodiasermelhoremnenhumsentido. —Oh,Philip…

— Merda — disse ele. — A treva é a treva. Mas isto não é a treva trevosa. Vejo muito bem por dentro,eminhacabeçaagoraestámelhorvinteequatrohoraspordia,melembrodetudoepossocuidar bemdemim.Vocêvaiver.Nãofuimelhorhojenaslembranças? —Vocêémelhorsempre.Eestáficandomaisforte. —Souforte.Massevocê… —Seeuoquê? —Sevocêviajasseumpoucoparadescansaremudardeares… —Nãomequermaisaqui? —Quero,sim,querida. —Entãoporqueessaconversadeeuviajar?Seiquenãosouboaparacuidardevocê,maspossofazer

coisas que outra pessoa não pode, e nós dois nos amamos. Você me ama e nós sabemos de coisas que ninguémmaissabe. —Fizemosmaravilhasnoescuro—disseele. —Efizemosmaravilhasàluzdodiatambém. —Gostomuitodoescuro.Emcertossentidoséumprogresso. —Nãoexageremuitonamentira—disseela.—Nãoprecisasertãonobre. —Escuteachuva.Comoestáamaréagora? —Estávazandoeoventoempurrouaáguaparamaislonge.QuasesepodeirapéaBurano. —Menosemumlugar—disseele.—Muitasaves?

— Principalmente gaivotas e andorinhas-do-mar. Estãonos baixios, e quandovoam sãolevadas pelo

vento. —Nenhumaavedepraia? —Algumasbeliscandonapartedosbaixiosquesóaparecemcomesteventoecomestamaré. —Achaquevaiserprimaveraalgumdia? —Nãosei.Pelovistoparecequenão. —Bebeuoseudrinquetodo? —Quase.Porquenãobebeoseu? —Estavapoupando. —Poisbeba—disseela.—Nãoerahorrívelquandovocênãopodiabeber?

— Não. Mas sabe, quando você descia a escada estive pensando que você podia ir a Paris e depois a

Londres. Conheceria pessoas e se distrairia um pouco, depois voltava e teria que ser primavera. E me contariatudooqueencontrouporlá. —Não.

— Achoque seria umadecisãointeligente — disse ele. — Sabe que estamos numasituaçãoidiota e prolongadaeprecisamosaprenderanosconduzir.Nãoqueromassacrarvocê.Sabe… —Parededizer“sabe”atodoinstante.

— Está vendo? Este é um dos motivos. Eu podia aprender a falar de maneira não irritante. Você poderiaficarfuriosacomigoquandovoltasse. —Quefariavocêdenoite? —Asnoitesnãosãodifíceis. —Duvidoquenãosejam.Vaiverqueaprendeutambémadormir.

— Vou aprender — disse ele e bebeu metade do drinque. — Faz parte do Plano. Sabe que é assim

queelefunciona?Sevocêviajaresedistrairumpouco,ficodeconsciênciatranquila.Aí,pelaprimeiravez na vida com a consciência tranquila, o sono é automático. Pego um travesseiro que representa minha consciência tranquila, abraço ele, e logo durmo. Se acordar por qualquer motivo, me entrego a pensamentos lindos, alegres e inconfessáveis. Outomoboas e maravilhosas decisões. Ouficolembrando. Sabe,queroquevocêsedistraia. —Faça-meofavordenãodizer“sabe”. —Voume concentraremnãodizer.A palavraestáproibida, masesqueçoe elaescapa.De qualquer maneiranãoqueroquevocêfiquesendoapenasumcachorroparacego. —Nãosou.Enãoéparacego,édecego. —Eusabia.Sente-seaqui,senãoforincômodo. Elasentou-se aoladodele nacamae ficaram ouvindoachuvabatendoforte navidraça, e ele tentou não sentir a cabeça e o rosto lindo dela da maneira que um cego sente, e não havia outra maneira de ele tocar orostodela a nãoser esta. Puxou-a para ele e beijou-a noaltoda cabeça. Precisoexperimentar isso outro dia, pensou ele. Não quero parecer idiota. Ela é tão atraente, gosto tanto dela e fiz-lhe tanto mal; preciso aprender a tomar conta dela em todos os sentidos. Se eu pensar nela e só nela, tudo se arranjará bem.

—Nãovoumaisdizer“sabe”otempotodo—disseele.—Podemoscomeçardaí.

Elasacudiuacabeçaeelepercebeupelotremordocorpodela.

—Podedizerquantasvezesquiser—disseela,eobeijou.

—Oh,nãochore,minhasanta—disseele.

—Nãoqueroquevocêdurmacomumtravesseiroqualquer.

—Nãovou.Nãocomumtravesseiroqualquer.

Parecomisso,disseeleasimesmo.Parejácomisso.

—Olhe,tu—disseele.—Vamosdescerealmoçarnonossolugarzinhoprediletoaopédalareira,e

euaproveitoparalhedizerquevocêéumagatinhamaravilhosaequesomosdoisgatinhosdesorte.

—Esomos.

—Vamosadministrarissomaravilhosamentebem.

—Sónãoquerosermandadaparalongedaqui.

—Ninguémvaimandarvocêparalonge. Mas, quandodesciaaescadapisandocomcuidadocadadegrau, ele pensava:precisomandá-ladaqui, e o mais depressa que puder, sem magoá-la. Porque não estou me conduzindo bem nisto. Isto eu lhe prometo.Eoquemaisvocêpodefazer?Nada.Vocênãopodefazernada.Mastalvez,àmedidaqueavança, acabeaprendendo.

UMHOMEMEXPERIENTE

U MHOMEMEXPERIENTE OcegodistinguiaobarulhodecadamáquinadoSalão.Nãoseiquantotempoelelevouparaaprender,mas nãodeve

OcegodistinguiaobarulhodecadamáquinadoSalão.Nãoseiquantotempoelelevouparaaprender,mas nãodeve tersidopouco,porque sófaziaumsalãoporvez.Maspercorriaduascidades.ComeçavaemThe Flats quando já estava bom e escuro e terminava em Jessup. Quando ouvia um carro, parava na beira da estrada,osfaróisomostravameomotoristaparavaelhedavacarona,ounãoparava,eelecontinuavapela estrada gelada. Dependia do espaço que tinham ou de haver ou não mulheres no carro, porque o cego cheiravaforte,principalmenteseerainverno.Massemprealguémparavaparaeleporqueeleeracego. Todomundooconheciae ochamavade Ceguinho,que é bomnome paraumcegonaquelaparte do país, e o salão em que ele exercia sua atividade chamava-se O Piloto. Pegado a esse tinha outro, também com jogo e restaurante, e o nome deste era O Índice. Os dois eram nomes de montanhas, e eram bons salõescombaresemestiloantigo, e ojogoeraomesmotantonumquantonooutro, adiferençaeraque secomiatalvezmelhornoPiloto,masobifedoÍndiceeramelhor.TambémoÍndiceficavaabertoanoite inteiraesebeneficiavadomovimento;damanhãedoclareardodiaatéàsdezdamanhãosdrinqueseram grátis.EramosúnicossalõesdeJessupenãoprecisavamfazerisso.Masessaeraanormadeles. Parece que o Ceguinho preferia o Piloto porque as máquinas ficavam junto da parede do lado esquerdo de quem entra, e de frente para o bar. Isso permitia a ele melhor vigilância do que no Índice, onde as máquinas eram espalhadas por ser o espaço maior. Nessa noite o frio lá fora era muito, e o Ceguinhoentroucomcristais de gelonobigode e pequenos cristais de pus nos dois olhos, oque nãolhe dava bom aspecto. Até o fedor dele estava congelado, mas não estaria por muito tempo, tanto que começou a se revelar pouco depois de fechada a porta. Eu evitava olhar para ele, mas olhei demoradamente porque sabia que ele sempre pegava carona e eu não entendia como podia ficar tão congelado.Então,perguntei-lhe:—Veiocaminhandodesdeonde,Ceguinho? —WillieSawyermepôsparaforadocarrodebaixodapontedaestradadeferro.Nãopassarammais carrosevimapé. —Porqueelepôsvocêparaforadocarro?—perguntoualguém. —Dissequeeufediamuito.

Alguém empurrou a alavanca de uma máquina e o Ceguinho ficou de orelhas em pé escutando o ruído.Deuemnada. —Algumalmofadinhajogando?—perguntou-me. —Vocênãoouviu? —Aindanão. —Nenhumalmofadinha.Équarta-feira. —Seiquediaé.Nãovenhamedizerquenoitedequediaé. OCeguinhopercorreuafileirademáquinasapalpandocadaumaparaversealgumacoisatinhaficado nascaçapaspordistração.Claroquenãoachounada,masessaeraaprimeirapartedoseutrabalho.Voltou aobarondeestávamos,eAlChaneyofereceu-lheumdrinque. —Não.Precisotermuitaatençãonessasestradas. —Queessasestradas?—perguntoualguém.—Vocêsóandanumaestrada.DaquiaTheFlats.

— Estive em montes de estradas — disse o Ceguinho. — E estou sempre precisando dar no pé e andarmais. Alguém manobrou a alavanca de uma máquina, mas não foi uma manobra forte. Mesmo assim, o

Ceguinho foi lá. Era uma máquina que funcionava com moedas de vinte e cinco centavos, e o rapaz que jogavanelalhedeuumamoedacomcertarelutância.OCeguinhoapalpou-aantesdeguardá-lanobolso. —Obrigado—disse.—Desejo-lheboasorte. Orapazrespondeu:

— Gostei de ouvir isso. — E pôs outra moeda de vinte e cinco centavos na máquina, empurrando logoemseguidaaalavanca. Dessaveztevesorte.RecolheuasmoedasedeuumaaoCeguinho. —Obrigado.Asorteestácomvocê. —Estanoiteéminha—disseorapaz.

— A suanoite é aminhanoite — disse oCeguinho. O rapazcontinuoujogando, mas nãoteve mais

sorte.OCeguinhoestavacoladoneleepareciacontrariado.Finalmente,orapazparoudejogareveiopara o bar. O Ceguinho o fizera deixar o jogo, mas não percebeu isso porque o rapaz não disse nada. O Ceguinho deu mais uma vistoria nas máquinas apalpando-as e ficou esperando que aparecesse alguma outrapessoaparajogar. Ninguémestavajogandonaroletanemnosdados,enamesadepôquerosjogadoressecomiam.Era uma noite calma de meiode semana, sem nada de extraordinário. O estabelecimentosóestava faturando no bar. Mas a atmosfera era agradável até a chegada do Ceguinho. Todo mundo já estava pensando que seriamelhorpassarparaoÍndiceouentãoirparacasa. —Oquevaiser,Tom?—perguntou-meogarçomFrank.—Estaédecortesia. —Estavapensandoemencerrar. —Entãoasaideira.

Frankperguntouaojovemvestidoderoupalistradaechapéupreto,barbaescanhoadaerostocurtido deneveoqueelequeriabeber.Ojovemdissequeomesmo.OuísqueeraOldForester. Fiz sinal para ele e ergui o meu copo e ambos tomamos um gole. O Ceguinho estava lá no fim da fileirademáquinas.Deveterimaginadoqueninguémentrariaaliseovissempertodaporta. —Comofoiqueessesujeitoficoucego?—perguntou-meorapaz. —Nãosei—respondi. —Foilutador?—perguntouoestranhosacudindoacabeça. —Foi—disseFrank.—Otomaltodevozveiodamesmaluta.Conteaele,Tom. —Estouporfora. —Claro—disseFrank.—Nãopodiasaber.Vocênãoestavalá,acho.Meuamigo,eraumanoitefria comoesta.Ouaté mais fria.Foiumalutacurtíssima.Nãoassistiaocomeço.Saíramlutandopelaportado Índice. O Pretinho, que é o Ceguinho hoje, e aquele outro cara chamado Willie Sawyer se socavam, davam-se joelhadas, se mordiam. Vi um olho do Pretinho pendurado no pescoço. Lutavam na estrada gelada,comnevedosdoislados,ealuzdestaportaaquiedaportadoÍndice,eHollisSandsbematrásde WillieSawyerquerendoarrancaroolhoeHollisgritando:“Arranquecomosdentes!Mordacomosefosse uma uva!” O Pretinho mordia a cara de Willie Sawyer, cravou uma boa dentada e arrancou um pedaço,

depois cravou outra dentada e os dois caíram no gelo, Willie Sawyer enforcando-o para ele afrouxar a dentada, e aí o Pretinho soltou um grito nunca ouvido antes. Um grito mais impressionante do que quandosesangraumjavali. OCeguinhocolocou-seemnossafrente.Viramos-lheascostasporcausadofedor.

— “Morda como se fosse uma uva” — disse ele com sua voz esganiçada e ficou olhando para nós,

balançando a cabeça. — Era o olho esquerdo. Ele arrancou o outro sem orientação de ninguém. Depois

pisou em mim quando eu não podia mais enxergar. Essa foi a parte pior. Eu era bom de briga, mas ele arrancouomeuolhoantesqueeupudessemedefender.Mepegouàtraição.Poisé—dissesemnenhum rancor—,issoencerrouaminhavidadelutador. —SirvaumdrinqueaoPretinho—pediaFrank

— Me chame de Ceguinho, Tom. Mereço esse nome. Você já sabe o que fiz para merecê-lo. Foi o mesmosujeitoquemelargounaestradahoje.Mordeuomeuolho.Nuncanosdemosbem. —Quefoiquevocêfezcomele?—perguntouoestranho.

— Ah, você vai vê-lo por aí — disse o Ceguinho. — É vê-lo e reconhecê-lo. Não digo para não estragarasurpresa. —Nãovaigostardevê-lo—disseeuaoestranho.

— Essa é uma das ocasiões em que eu gostaria de poder ver de novo — disse o Ceguinho. —

Gostariadeolhá-lobemnacara. —Vocêsabecomoeleficou—disseFrank.—Umavezvocêapalpouorostodelecomasmãos. —Fizissodenovohoje.Foiporissoqueelemepôsparaforadocarro.Elenãotemsensodehumor. Numa noite fria como esta, eu disse a ele que ele devia andar de rosto coberto para não apanhar frio no

lado de dentro do rosto. Ele nem percebeu a graça. Aquele Willie Sawyer nunca será um homem experiente.

— Pretinho, você vai tomar um de cortesia — disse Frank. — Não posso levá-lo de carro para casa porquemoroaquipertinho.Masvocêpodedormiraínosfundos. —Émuitabondadesua,Frank.MasnãomechamedePretinho.MeunomeéCeguinho. —Tomeumdrinque,Ceguinho.

— Como não?— Estendeua mão e encontrouo copo, que ergueunormalmente em nossa direção. —CoitadodoWillieSawyer—disse.—Comtodaacertezaestáemcasasozinho.WillieSawyernãosabe sedistrair.

VERANISTAS

V ERANISTAS A meio caminho da estrada de cascalho de Hortons Baypara o lago havia uma

A meio caminho da estrada de cascalho de Hortons Baypara o lago havia uma fonte. A água saía de uma manilha enfiada no barranco ao lado da estrada, escorria pelas moitas fechadas de hortelã e entrava no brejo. Nick pôs o braço no poço formado pela bica, mas teve de tirar logo por causa do frio. Sentiu nos dedos o formigar da areia que subia com o borbulhar da água caindo. Que bom se eu pudesse entrar inteiro aí nesse poço, pensou. Seria um bom remédio para mim. Deixou a bica e sentou-se na beira da estrada.Eraumanoitedecalor. Maisadiantenaestradavia-seporentreasárvoresobrancodafábricasobrepilotis.Nicknãoqueriair aoembarcadouro.Todosestavamlánadando.NãoqueriaverKatecomOdgar.Ocarroestavanaestradaao ladodoarmazém.OdgareKateestavamlá.Odgarfazendoaquelacaradeabestalhadotodavezqueolhava para Kate. Mas ele seria tão bobo assim? Kate jamais se casaria com ele. Ela não se casaria com ninguém que não a dominasse. E quando alguém tentava dominá-la ela se encolhia, endurecia e escorregava para fora. Claro que ele pensava que conseguiria que ela se casasse com ele. Então, em vez de se encolher, endurecer e escorregar, ela se abriria docemente, descontraindo-se, soltando-se, e se deixaria pegar com facilidade. Odgar pensava que ela faria isso por amor. Os olhos dele ficavam vesgos e as pálpebras, vermelhas nas bordas. Mas ela não suportava o toque de Odgar. Estava tudo nos olhos dele. Então Odgar ficavaquerendoque elesse tornassemamigos.Brincarnaareia.Fazerfigurasde barro.Passearnobarcoo diainteirojuntos.Katesempredemaiô.Odgarolhandoparaela. Odgar tinha 32 anos e já fizera duas operações de varicocele. Era feioso e todo mundo gostava do rosto dele. Odgar nunca alcançaria o prêmio, que significava tudo no mundo para ele. A cada verão ele ficava mais vidrado nisso. Dava pena. Odgar era simpaticíssimo. Com Nick então, nem se fala. Ninguém aindatinhatratadoNickmelhordoqueOdgar.MasNickpodiateroprêmiosequisesse.Odgarsemataria, sesoubesse,pensouNick. De que jeito ele se mataria? Nick não podia imaginar Odgar morto. Provavelmente não se mataria. Mas há quem faça isso. E não era questão de amor. Odgar pensava que o caminho era o amor. Odgar amavaKate,esóDeussabiaquanto.Eraumgostarinteiro,gostardocorpo,apresentarocorpo,persuadir,

aproveitar oportunidades, e nunca assustar, e aceitar a outra pessoa, e sempre tomar sem pedir, com ternurae gostando,dandogostoe felicidade,e brincandoe nãocausandomedoàspessoas.Efazendoque tudo fique bem depois. Não era amar. Amar assusta. Ele, Nicholas Adams, podia ter tudo o que quisesse porqueguardavadentroumapartícula.Talveznãodurasse.Podiaperdê-la.Gostariadepoderdá-laaOdgar oufalar-lhedela.Nãoésemprequesepodedizertudoaosoutros.MuitomenosaOdgar.Aninguém,em parte alguma. Este sempre fora o seu principal erro: falar. Já perdera muito falando. Devia haver alguma coisa que se pudesse fazer pelas virgens de Princeton, Yale e Harvard. Por que será que não há mais virgens nas universidades estaduais? Será a coeducação? Os rapazes ficam conhecendo moças que estão a fim de casar, elas resolvem cooperar e se casam com eles. Que seria de rapazes como Odgar, Harvey e Mike e os outros todos? Ele não sabia. Não tinha adquirido experiência suficiente. Eram os melhores do mundo. Que aconteceucomeles?Comodiabos ele poderiasaber?! De que formaescrever comoHardye Hamsunquandosetemapenasdezanosdevida?!Nãopodia.Sóquandochegasseaoscinquenta. Ajoelhou-senoescuroebebeuáguadabica.Sentiu-sebem.Sabiaqueiaserumgrandeescritor.Sabia de coisas e ninguém podia tocá-lo. Ninguém. Mas não sabia uma quantidade suficiente de coisas. No entanto, esse diaiachegar. A águaestavafriae doeu-lhe nos olhos. Tinhabebidoumgole muitogrande. Comosorvete.Énissoquedábebercomonarizdentrod’água.Eramelhorirnadar.Pensarnãoadianta.O pensamentocomeçaenãopara. Nick foi andando pela estrada, passou o carro e o grande armazém à esquerda onde embarcavam maçãs e batatas no outono, passoua casa pintada de branco onde às vezes dançavam à luz de lanterna no pisodurodetacos,chegouaoembarcadouroondeosoutrosnadavam. Estavam todos nadando na ponta do embarcadouro. Quando caminhava nas pranchas acima da água, ouviuoprotestoduplodocompridotrampolimeumespadanar.Aágualambeuosesteiosembaixo.Deve seroGhee,pensouNick.Katesaiudaáguacomoumafocaesubiuaescada. —ÉWemedge!—gritouparaosoutros.—Venhanadar,Wemedge.Estáumadelícia. —Oi,Wemedge—disseOdgar.—Rapaz,estáumamaravilha. —OndeestáWemedge?—EraoGhee,nadandolonge. —EsseWemedgeéabstêmiodenatação?—perguntouBillcomvozgraveemcimad’água. Nick sentiu-se feliz. É bom ouvir outros gritarem o nome da gente assim. Descalçou os sapatos de lona, tirouacamisapelacabeçae livrou-se dacalça.Nospésdescalçossentiuaareianaspranchas.Correu pelo trampolim oscilante, firmou os dedos dos pés na ponta da tábua, esticou o corpo e pulou na água. Mergulhoumacioe fundoe nadoumergulhadosemconsciênciadomergulho.Tinhaenchidoos pulmões quando pulara e agora nadava submerso, as costas arqueadas, os pés esticados fazendo os movimentos. Finalmente emergiu, flutuando de rosto para baixo. Virou de costas e abriu os olhos. Não estava interessadoemnadar,sóemmergulhareficarsubmerso. —Quetal,Wemedge?—perguntouoGheebematrásdele. —Mornacomourina—disseNick.

Inspirou fundo, segurou os calcanhares com as mãos, os joelhos tocando o queixo, e afundou devagar.Nasuperfícieaáguaestavamorna,maseleafundourápidoparaofresco,depoisofrio.Quandoia chegandoaofundo, sentiumaisfrio.Nicknadoudevagarinhorente aofundo.Finalmente esticouocorpo edeuimpulsocontraoleitoparasubiràtona,esentiuolodonosdedosdospés.Eraestranhoviràtonano escuro.Ficoudescansandonaágua,malsemovimentando.OdgareKateconversavamnoembarcadouro. —Jánadounomarcomáguafosforescente,Carl? —Não.—AvozdeOdgarnuncaeranaturalquandofalavacomKate. Devíamos nos esfregar inteirinhos com fósforo, pensou Nick. Respirou fundo, encolheu os joelhos, segurou-os forte e afundou, dessa vez com os olhos abertos. Não conseguiu enxergar debaixo d’água no escuro.Fizerabememfecharosolhosquandomergulharadaprimeiravez.Estranhas,essasreações.Aliás, nem sempre certas. Em vez de ir ao fundo, esticou o corpo e foi nadando em frente e subindo para a camadade águafresca, mantendo-se logoabaixodacamadamorna.Comoé bomnadardebaixod’água, e como não é tão bom simplesmente nadar sobre a água. No mar é bom nadar na superfície. É a flutuabilidade.Mastemogostodesal,easedequevemdepois.Águadoceémelhor.Comoestaemnoite decalor.Subiupararespirarbemabaixodabeiradadoancoradouroesubiuosdegraus. — Mergulhe do trampolim, Wemedge — disse Kate. — Dê um bom salto do trampolim. — Ela e Odgarestavamsentadosnoancoradouro,ascostasapoiadasemumesteio. —Ummergulhosilencioso,Wemedge—disseOdgar. —Éprajá. Escorrendo água, Nick caminhou pelo trampolim pensando em como se deve fazer o mergulho. Odgar e Kate olhando, Nick um vulto negro no escuro, em pé na ponta da tábua. Tomar posição e saltar como tinha aprendido olhando uma lontra-do-mar. Na água, quando se virou para subir, Nick pensou, puxa, se Kate estivesse aquicomigo.Voltouàsuperfície comáguanosolhose nosouvidos.Decertosubiu paratomarfôlego. —Foiperfeito.Absolutamenteperfeito!—gritouKateládecima. Nicksubiuparaoancoradouro. —Ondeestãooshomens?—perguntou. —Nadandolánabaía—disseOdgar. Nick deitou-se no ancoradouro junto de Kate e Odgar. Ouvia o barulho do Ghee e de Bill nadando longenoescuro. — Você é o melhor dos mergulhadores, Wemedge — disse Kate tocando as costas dele com o pé. Nickretesou-secomocontato. —Sounão—respondeuele. —Vocêémaravilhoso,Wemedge—disseOdgar. —Sounão. Ele estava pensando se seria possível ficar com alguém debaixo d’água, podia prender a respiração durante três minutos na areia do fundo, subiriam juntos, tomariam fôlego e voltariam ao fundo. É fácil

afundar quandose sabe como. Umavezele bebeuumagarrafade leite e descascoue comeuumabanana debaixo d’água para se mostrar, mas é preciso ter pesos para ficar no fundo; se ao menos tivesse uma argolanofundo, algumacoisaparase agarrar…Puxa, seriamaravilhoso, mase agarota?Umagarotanão

aguenta, engole água, Kate se afogaria, ela não sabe ficar debaixo d’água, ele gostaria de ter uma que soubesse, talvez ainda encontre uma assim, talvez nunca, não há ninguém mais que saiba, só ele. Nadadores, pois sim, nadadores são uns molengas, ninguém conhece água como ele, tinha um cara em Evanston que era capaz de prender a respiração por seis minutos, mas esse era maluco. Ele queria ser peixe;não,querianada.Riuparasimesmo.

— Qual é a piada, Wemedge? — perguntou Odgar com sua voz rascante, a voz de ficar perto de

Kate.

—Euqueriaserpeixe—disseNick. —Éumaboapiada—disseOdgar. —Nãoé?—perguntouNick. —Nãosejaburro,Wemedge—disseKate. —Gostariadeserpeixe,Butstein?—disseNickcomacabeçanaspranchas,olhandoparaoutrolado. —Não—respondeuKate.—Estanoite,não. Nickrecostoufortenopédela. —Queanimalvocêgostariadeser,Odgar?—perguntouNick. —J.P.Morgan. —Respondeubem,Odgar—disseKate.Odgariluminou-se. —EugostariadeserWemedge—disseKate. —Vocêpodesersra.Wemedge—disseOdgar.

— Não vai haver nenhuma sra. Wemedge — disse Nick, e contraiu os músculos das costas. Kate

estava com as duas pernas encostadas nele como se as descansasse numa tora de madeira na frente da lareira. —Falacomosetivessecerteza—disseOdgar. —Tenhotodaacerteza—disseNick.—Voucasarcomumasereia. —Elaserásra.Wemedge—disseKate. —Nãovoudeixar—retrucouNick. —Comovaiimpedir? —Vouimpedir,sim.Elaquetente. —Assereiasnãosecasam—disseKate. —Éoquemeconvém. —ALeiMannpegavocê—alertouOdgar.

— Ficaremos fora do limite de oito quilômetros — disse Nick. — Compraremos comida dos

contrabandistas. Você pode comprar um escafandro e ir nos visitar, Odgar. Leve Butsteinse ela quiser ir. Estaremosemcasatodasassextas-feiras.

—Que é que vamos fazer amanhã?—perguntouOdgar, avoznovamente roufenhapor estar perto deKate. —Oraessa,praquefalarmosdeamanhã?—disseNick.—Vamosfalardaminhasereia. —Jácanseidessatalsereia. —EntãovocêeOdgarfalemdeamanhã.Euvoupensarnaminhasereia. —Vocêéumimoral,Wemedge.Repugnantementeimoral. —Não.Souhonesto.—Deitou-se, fechouos olhos e disse: —Nãome perturbem.Estoupensando

nela.

FicoupensandoemsuasereiaenquantoKateeOdgarconversavam,elacomassolasdospésapoiadas nascostasdeNick. OdgareKateconversavam,masNicknãoosouvia;nãoestavamaispensando,estavafeliz. Bill e o Ghee saíram da água mais embaixo na praia, foram ao carro e o trouxeram para perto do embarcadouro.Nicklevantou-seesevestiu.BilleoGheeestavamnoassentodafrente,cansadosdalonga nadada.NickentrouatráscomKateeOdgar,eserecostaram.Billdirigiuaceleradoladeiraacimaepegoua

estrada.Nickficouolhandoasluzesdoscarrosquevinhamemsentidocontrário,faziamumhalonopara-

brisa, passavam, depois outros, subindo uma elevação, piscavam ao se aproximar e baixavam os faróis quandoBillpassava.A estradacorriaemnívelsuperioràbeiradolago.Carrosgrandesde Charlevoixcom palermões ricos no assento traseiro trafegavam em alta velocidade sem baixar os faróis. Passavam como trens.Billlançavaosfaróis emcarros paradosàbeiradaestradadebaixode árvores, fazendoosocupantes mudaremdeposições.NinguémultrapassavaBill,masalgunslançavamluzaltanascostasdelesatéqueBill lhes desse passagem. Bill reduziu e entrou abruptamente na estrada de areia que passava pelo pomar e levava à casa. O carrofoisubindoem primeira a estrada dopomar. Kate encostouos lábios noouvidode Nick.

— Dentrode umahora, Wemedge — disse ela. Nickpressionouacoxanadela. O carrofezacurva noaltoeparounafrentedacasa. —Titiaestádormindo—disseKate.—Nãovamosfazerbarulho,tá? —Boa-noite,gente—disseBillemvozbaixa.—Passamosamanhãcedo. —Boa-noite,Smith—murmurouoGhee.—Boa-noite,Butstein. —Boa-noite,Ghee—disseKate. Odgariadormirnacasa. —Boa-noite,gente—disseNick.—Atémais,Morgen. —Boa-noite,Wemedge—disseOdgardoalpendre. Nick e o Ghee desceram a estrada para o pomar. Nick ergueuo braço e apanhouuma fruta de uma dasmacieirasdotipoduquesa.Aindaestavaverde,maselechupouocaldoácidoecuspiuamassa. —VocêeoPassarinhonadaramlonge,Ghee—disseNick. —Nemtanto,Wemedge.

Saíram do pomar, passaram a caixa de correspondência e pegaram o asfalto. Uma névoa fria pairava sobreadepressãoondeaestradaatravessavaoriacho.Nickparounaponte. —Vamos,Wemedge—disseoGhee. —Vamos. Subiramaladeiraaté onde aestradadobravaparaoarvoredoque envolviaaigreja.Nãohavialuzem nenhumadascasasporondepassaram.HortonsBaydormia.Nenhumcarropassouporeles. —Aindanãoestoucomvontadedeirparaacama—disseNick. —Querquelhefaçacompanhia? —Não,Ghee.Nãoépreciso. —OK. —Acompanhovocêàquinta—disseNick. Levantaramaportadetelaeentraramnacozinha.Nickabriuacaixadecarnesedeuumaolhada. —Vaiquereralgumacoisa,Ghee? —Umafatiadetorta—disseoGhee. — Eu também — disse Nick. Embrulhou uns pedaços de frango e duas fatias de torta de cereja em papel-manteigaqueficavaemcimadageladeira. OGheecomeuatortacomaajudadeumcanecodeáguatiradadobalde. —Se quiserleralgumacoisa, Ghee, procure emmeuquarto—disse Nick.OGhee notaraacomida queNicktinhaembrulhado. —Nãováfazerburrada,Wemedge—disse. —Fiquetranquilo,Ghee. —Fico.Masnãofaçaburrada. OGheeabriuaportadetelaeatravessouogramadoparaaquinta.Nickapagoualuz,fechouaporta e passouotrinco.Comoembrulhodacomidaenvoltoemumjornal, atravessouagramamolhada, saltou a cerca e pegou a estrada da cidade; passou o último grupo de caixas do correio rural na encruzilhada e entrounarodoviade Charlevoix.Depois de atravessar aponte doriacho, cortoucaminhopor umcampo, pegouamargemdopomarepulouacercadetrilhosparaoarvoredo.Nocentrodoarvoredohaviaquatro coníferasunidas.Aterraembaixoeramaciaecobertadeagulhasdepinho,enãoestavaúmidadeorvalho. Essas árvores nunca tinham sido derrubadas, e a terra embaixo delas era seca e morna. Nick pôs o embrulho de comida no pé de uma conífera e deitou-se para esperar. ViuKate vindo entre as árvores no escuro,masnãosemexeu.Elanãooviueficouporummomentoparadacomdoiscobertoresnosbraços. No escuro o vulto parecia o de uma grávida com a barriga enorme. Nick levou um susto, depois achou engraçado. —Oi,Butstein—disseele.Elasoltouoscobertores. —Oi,Wemedge.Vocêmeassustou.Receavaquenãoviesse. — Butsteinquerida— disse ele, e abraçou-aforte, sentindoocorpodelade encontroaoseu. Elase apertoucontraele.

—Gostotantodevocê,Wemedge. —Querida!MinhaqueridaButstein. Estenderamoscobertores,Kateosesticou. —Foimuitoarriscadotrazeroscobertores—disseela. —Eusei.Vamostirararoupa. —Wemedge! — É mais gostoso. — Despiram-se sentados nos cobertores. Nick ficou meio encabulado por estar sentadonu. —Gostademimsemroupa,Wemedge? —Vamosnoscobrir—disseNick. Ficaramentreosdoiscobertoresásperos.Coladoaocorpofrescodela,explorando-o,Nickcomeçoua sentircalor,maslogosentiu-sebem. —Estágostando? Kateencostou-semaisnele,procurandooqueresponder. —Estágostando? —Oh,Wemedge.Euqueriatantoisso.Precisavatantodisso. Ficaram deitados entre os cobertores. Wemedge foi escorregando a cabeça para baixo, o nariz tocandoalinhadopescoço,descendoporentreosseios.Eracomotecladodepiano. —Vocêtemumcheirofresco—disseNick. Comprimiu um dos seios dela delicadamente com os lábios. O seio pequeno adquiriu vida entre os lábiosdele, alínguaoacariciando.A sensaçãointeiravoltava, enquantoele deslizavaasmãosparabaixoe viravaKatedecostas.Eleescorregouparabaixoeelaseencaixounele,depoisseapertoucontraacurvada barrigadele.Sentiu-semaravilhosa.Eleprocurouporela,umtantodesajeitado,eaachou.Emseguida,pôs asduasmãosnosseiosdelae puxou-aparasi,beijando-afreneticamente nascostas.Acabeçade Kate caiu paraafrente. —Gostaassim?—perguntouele. —Adoro.Adoro.Adoro.Oh,Wemedge,goze.Goze,Wemedge.Goze.Goze.Goze.Oh,Wemedge. Oh,Wemedge.Wemedge. —Gozei!—exclamouele. Derepenteelesentiuaasperezadocobertornocorponu. —Eunãoestivebem,Wemedge?—perguntouela. — Você esteve ótima — respondeu Nick. A mente dele trabalhava rápida e clara. Viu tudo com nitidezeclareza.—Estoucomfome—disse. —Seriabomsepudéssemosdormiraquiestanoite—disseKateseaninhandonele. —Seriamaravilhoso,masnãopodemos.Vocêprecisavoltarparacasa. —Nãoquerovoltar.

Nick levantou-se, recebeu a brisa no corpo. Vestiu a camisa e sentiu-se confortável. Vestiu a calça e calçouossapatos.

— Você deve se vestir, Stut — disse ele. Ela continuava deitada, com os cobertores cobrindo a

cabeça.

— Só um pouquinho — disse ela. Nick pegou o embrulho de comida que estava no pé da árvore e

abriu-o. —Vamos,Stut,vista-se. —Nãoquero.Voudormiraquiestanoite—falouela,esentou-senoscobertores.—Passe-meessas coisas,Wemedge. Nickpassou-lheasroupas.

— Sabe o que pensei agora? — disse Kate. — Se eu dormir aqui, eles pensam que sou uma idiota,

quevimparacácomoscobertoreseficatudobem. —Vocênãovaidormirbem.Éincômodo—disseNick. —Seeuacharqueéincômodovouparacasa. —Vamoscomeredepoiseuvouembora—disseele. —É.Achoquevoucomeralgumacoisa—disseKate. Comeramofrangofritoeumafatiadetortadecerejacadaum. Nicklevantou-se,depoisajoelhou-seebeijouKate. Atravessouagramamolhadaparaaquintaesubiuparaoquarto,pisandocomcuidadoparaastábuas do assoalho não estalarem. Era bom estar na cama, com lençóis, esticando-se por inteiro, afundando a cabeça no travesseiro. Bom estar na cama, confortável, feliz, indo pescar amanhã, rezou como sempre rezavaquandoselembrava,pelafamília,porele,paraserumgrandeescritor,Kate,osoutros,Odgar,por uma boa pescaria, coitado do Odgar, pobre Odgar, dormindo lá na quinta, talvez nem pescando, talvez acordadoanoiteinteira.Masoqueéquesepodiafazer?Nada,nadadenada.

PublicadopelaprimeiravezemTheNickAdamsStories,estecontonãofoiterminadoporHemingway.

QUANDOOMUNDOERANOVO

estecontonãofoiterminadoporHemingway. Q UANDOOMUNDOERANOVO —Nickie,meescute,Nickie—disseairmã. —Nãoquerosaber.

—Nickie,meescute,Nickie—disseairmã. —Nãoquerosaber. Eleolhavaofundodopoçoondebrotavaafontetrazendoareiamisturadacomaágua.Tinhaumcopo de lata numa forquilha fincada no chão perto da fonte. Nick Adams olhoupara o copo e para a água que subiaedepoisescorriaformandoumregoaoladodaestrada. Dalielepodiaveraestradaàesquerdaeàdireitasubindoomorroedescendoparaoancoradouroeo lago, a enseada arborizada do outro lado da baía e o lago mais adiante onde corriam aves brancas. Nick estava encostado num grande cedro, e atrás dele um pântano sob cedros. A irmã estava sentada com o braçonosombrosdele. — Esperam você para jantar — disse a irmã. — São dois. Vieram numa carroça e perguntaram por

você.

—Alguémdisseondeestou? —Ninguémsabiaondevocêestava;sóeu.Pegoumuitos,Nickie? —Vinteeseis. —Bons? —Dotamanhoqueelesgostamparacomernojantar. —Oh,Nickie,porquevaivendê-los? —Elamepagaadoisdólaresoquilo. Airmãestavaqueimadade sole tinhaolhoscastanho-escurose cabelotambémcastanho-escurocom laivos amarelos do sol. Ela e Nick se gostavam e não gostavam dos outros. Os dois sempre pensavam no

restodafamíliacomoosoutros.

— Eles sabem de tudo, Nickie. Disseram que vão fazer de você um exemplo e mandar você para o reformatório. —Elessótêmprovadeumacoisa.Masachoqueprecisosumirporunstempos. —Possoircomvocê? —Não.Sintomuito,Pequenina.Quantotemosemdinheiro? —Quatorzedólaresesessentaecincocentavos.Estácomigo. —Disseramalgumacoisa? —Não.Sódisseramqueiamficaratévocêvoltar. —Nossamãevaisecansardedarcomidaaeles. —Jádeualmoço. —Eelesfazemoquê?

— Ficam sentados na varanda. Perguntaram a mamãe por sua espingarda, mas eu a escondi no depósitodelenhaquandoosvichegando. —Vocêesperavaqueviessem? —Esperava.Evocê,não? —Maisoumenos.Osmalditos.

— Malditos mesmo — disse a irmã. — Acha que não tenho idade para sair de casa? Escondi a espingarda.Trouxeodinheiro. —Eupoderiaterproblemacomvocê.Nemseiparaondevou. —Sabe,sim. —Acharduaspessoasémaisfácil.Ummeninoeumameninaaparecemmais.

— Posso ir disfarçada de menino — disse ela. — Sempre quis ser menino mesmo. Não iam me

reconhecerseeucortasseocabelo. —Issoéverdade—disseNick. —Vamospensarnumplano.Eupossoajudarmuito,evocêficamuitosozinhosemmim.Nãofica? —Jáestoumesentindosozinhosódepensaremmeseparardevocê.

— Está vendo? E quem sabe vamos ter de ficar separados por muitos anos? Quem sabe? Me leve,

Nickie. Por favor, me leve. — Ela o beijoue agarrou-se a ele com os dois braços. Nick olhou-a e fez um esforçoparapensarclaro.Eradifícil.Masnãohaviaalternativa. —Nãodevolevarvocê.Mastambémnãodeviafazeroquefiz—disseele.—Levovocê.Mastalvez sóporunsdoisoutrêsdias. —Issomesmo.Quandovocê nãoprecisar mais de mim, voltoparacasa.Voltoparacasatambémse acharqueestouatrapalhandooudandodespesa. —Vamospensartudo—disseNick. Olhouaestradaparacimaeparabaixo,olhouocéu,ondeasgrandesnuvensaltasdatardepassavam, easavesbrancasnolagoadiantedaenseada.

— Vou pela mata até a estalagem adiante do promontório vender as trutas — disse Nick. — Ela as

encomendouparaojantardehoje.Hojeemdiapedemmaisjantardetrutadoquedefrango.Porquê,não sei. As trutas estão muito boas. Já as limpei e embrulhei em morim, estão frescas. Digo a ela que estou tendo um probleminha com os guarda-caças, que eles estão me procurando e que preciso sumir por um tempo. Peço a ela para me ceder uma frigideirinha, sal e pimenta, toucinho e alguma gordura e cereal. Peço a ela um saco para pôr tudo dentro, ponho também abricós, ameixas e chá e um bom estoque de fósforoseumamachadinha.Massópossopedirumcobertor.Elavaimeajudarporquecomprartrutaétão erradocomovender. —Possoarranjarumcobertor—disseairmã.—Enroloelenaespingarda,pegoseusmocassinseos meus,pegoummacacãodiferenteeumacamisaeescondotudo,eelesficampensandoqueestouusando essasroupas.TragosabãoeumpenteeumatesouraeagulhaelinhaeLornaDooneeAFamíliaRobinson. —Tragatodososcartuchos.22que encontrar—disse Nick.Efalandorápido:—Ficaatrásde mim. Esconda-se.—Eletinhavistoumacarroçadescendoaestrada.

Deitaram-se atrás dos cedros, em cima do musgo, com o rosto para baixo, e ouviram o barulho abafadodoscascosdoscavalosnaareiae orangidodasrodas.Nenhumdoshomensnacarroçafalava,mas Nick sentiu o cheiro deles quando passaram e sentiu o cheiro do suor dos cavalos. Ele também ficou suando, até a carroça já ir longe no caminho do embarcadouro — ele tinha pensado que os homens podiampararparaoscavalosbeberemáguanafonteouparaelesmesmosbeberem. —Erameles,Pequenina?—perguntouNick. —Eram. —Rastejemaisparalonge—disseNick. Elearrastou-separaobrejo,puxandoosacocomospeixes.Naquelepontoobrejoeramusgoso,mas

não tinha lama. Lá adiante levantou-se e escondeu o saco atrás do tronco de um cedro e fez sinal à irmã paraviraele.Entraramjuntosnobrejoeavançaramcomadestrezadecorças. —Conheçoumdeles—disseNick.—Éumbomfilhodamãe. —Eledissequeestáatrásdevocêháquatroanos. —Eusei. —Ooutro,ograndalhãodecaradefumomascadoeroupaazul,édosuldoestado. —Bem.Agoraquejáosvimosémelhoreuir.Vocêpodechegaremcasasemproblema?

— Posso. Corto caminho pelo alto do morro evitando a estrada. Onde vamos nos encontrar esta

noite,Nickie? —Achoquevocênãodevevir,Pequenina. —Devo,sim.Vocênãosabecomoé.Deixoumbilheteparamamãedizendoquefuicomvocêeque vocêvaicuidarbemdemim.

— Está bem. Vou esperar naquela conífera grande que foi derrubada por um raio. Perto da angra. Sabequalé?Noatalhoparaaestrada. —Masémuitopertodacasa.

—Nãoqueroquevocêcaminhemuito,carregandoascoisas. —Vocêéquemmanda.Mastenhacuidado,Nickie.

— Minha vontade era estar com a espingarda e ir ao embarcadouro e matar aqueles dois filhos da mãeejogá-losnocanal. —Edepois?Elesforammandadosporalguém—disseairmã. —Ninguémmandouaqueleprimeirosalafrário. —Masvocêmatouoalceevendeuastrutasematouoqueacharamnobarco. —Nãofaziamalmataraquilo. Elenãoquisdizeroqueeraaquilo,porqueeraaprovaquetinham. —Eusei.Masvocênãovaimatargente,eéporissoqueprecisoircomvocê. —Nãovamosficarfalandonisso.Mastenhovontadedemataraquelesdoisfilhosdamãe. —Eusei.Eutambémtenho.Masnãovamosmatarninguém,Nickie.Vocêpromete? —Não.Agoranãoseisenãoéarriscadoirvenderastrutas. —Euvendoparavocê. —Não.Pesammuito.Levo-aspelobrejoaté amatanofundodohotel.Você vaiaohotele vê se ela estáláeseocaminhoestálimpo.Seestiver,nosencontramosnatíliagrande. —Émuitolongeparaseirpelobrejo,Nicky. —Émuitolongetambémparavoltardoreformatório. —Nãopossoircomvocêpelobrejo?Assimvouefalocomelaenquantovocêficaesperando.Depois voltocomvocêeapanhamosastrutaselevamosparaela. —É—disseNick.—Masaindaachomelhorfazerdooutrojeito. —Porquê,Nickie?

— Porque você pode encontrá-los na estrada e me dizer para onde foram. Nos encontraríamos no arvoredonovodofundodohotelondeficaatíliagrande.

Nickesperoumaisdeumahoranamatadofundodohoteleairmãnãoapareceu.Quandofinalmente apareceu,vinhaagitadaevisivelmentecansada.

— Estão em nossa casa — disse ela. — Estão na varanda bebendo uísque e cerveja. Desatrelaram os

cavalos.Disseramque vãoficarláaté você voltar.Mamãe disse aelesque você tinhaidopescarnoriacho. Nãocreioqueeladisseissoparaentregarvocê.Pelomenosesperoquenão. —Easra.Packard?

— Estava na cozinha do hotel e me perguntou se eu tinha visto você, e respondi que não. Ela disse queestavaesperandovocêcomopeixeparaojantar.Estavapreocupada.Émelhorvocêlevaropeixepara ela.

—É.Estãofresquinhos.Fizoutroembrulhocomfolhas.

—Possoircomvocê?

—Claro.

O hotel era um prédio comprido de madeira com varanda de frente para o lago. Degraus largos de

madeira levavam ao embarcadouro que avançava na água. Tinha um gradil de cedro acompanhando os degraus e gradis também de cedro na varanda. Havia cadeiras de cedro na varanda e nelas sentavam-se pessoas de meia-idade vestidas de branco. Havia três bicas no gramado jorrando água, e pequenos caminhoslajeadosparaelas.Aáguatinhagostodeovopodreporqueeradefontesminerais;Nickeairmã eram postos para beber essa água como forma de castigo. Chegando pelos fundos do hotel onde ficava a cozinha, os dois passaram uma ponte de pranchas sobre um pequeno córrego que desaguava no lago; chegarameentraramfurtivamenteparaacozinha. —Lavetodaseponhanageladeira,Nickie—disseasra.Packard.—Depoiseupeso. —Sra.Packard,possofalaruminstantecomasenhora?—perguntouNick. —Poisfale.Nãovêqueestouocupada? —Équeprecisododinheiroagora.

A sra. Packard usava avental de riscado. Era bonita, tinha pele fresca e estava muito ocupada, e as

ajudantestambémestavamlá. —Nãovenhamedizerquequervendertruta.Nãosabequeéproibido? —Sei—disse Nick.—Trouxe essastrutasde presente.Hámuitotempoeuvinhaquerendolhe dar umpresente.

—Entendi.Precisoiraoanexo. Nicke airmãacompanharam-na.Nocaminhode pranchasque levavaaodepósitode geloelaparou, enfiouamãonobolsodoaventaletirouumacarteira. —Saialogodaqui—disseeladepressaeamavelmente.—Saiadepressa.Dequantoprecisa? —Temaídezesseisdólares—respondeuNick. —Tomevinte.Enãodeixeestafedelhaseenvolveremcomplicações.Elaqueváparacasaefiquede olhonelesatévocêpodervoltar.

—Quandofoiquesoubedeles?

Elasacudiuacabeçaparaele. —Comprar é igualoupior doque vender.Você fique longe até as coisas serenarem.Nickie, você é

um bom menino, não importa o que digam. Entre em contato com Packard se as coisas piorarem. Venha aquidenoiteseprecisardealgumacoisa.Tenhosonoleve.Ésóbaternajanela.

—Asenhoranãovaiservi-lashoje,vai?Nãovaiservi-lasnojantar?

—Não.Masnãovoudesperdiçá-las.Packardé capazde comermeiadúzia.Econheçooutraspessoas quetambémsãocapazesdisso.Tenhacuidado,Nickie,edeixeapoeiraassentar.Nãofiquesemostrando. —APequeninaquerircomigo. —Nãoseatrevaalevá-la.Passeaquidenoite,tenhoumascoisasquefizparavocê.

—Podemeemprestarumafrigideira?

— Tenho tudo de que você precisa. Packard sabe do que você precisa. Não lhe dou mais dinheiro

paravocênãosemeteremencrencas. —Gostariadeconversarcomosr.Packardsobreumascoisasdequepreciso. —Elearranjatudodequevocêprecisar.Masnemcheguepertodaloja,Nick. —APequeninalevaumbilheteparaele.

— Sempre que estiver precisando de alguma coisa. Não esquente a cabeça. Packard vai estudar a

situação. —Atébreve,tiaHalley. —Atébreve—respondeuelaeobeijou. Ele gostoudocheirodela.Eraocheirodacozinhaquandoassavampão.A sra.Packardtinhaocheiro dacozinhadela,eacozinhasemprecheiravabem. —Nãosepreocupeenãofaçabobagem. —Podedeixar.

—Packardvaipensarnumasolução.

Estavam agora debaixo das coníferas no morro atrás da casa. Era começo de noite, o sol tinha desaparecidonosmorrosdooutroladodolago. —Acheitudo—disseairmã.—Vaificarumatrouxabemgrande,Nickie. —Eusei.Oqueéqueelesestãofazendo?

— Jantaram um horror, agora estão na varanda bebendo. Contando histórias um ao outro em que

aparecemcomomuitoespertos. —Atéagoranãoforamnadaespertos.

— Vão fazer você passar fome. Depois de duas noites no mato você volta. Quando ouvir um leão

roncarduasvezesouquandoestiverdeestômagovazio,vocêvoltacorrendo. —Oquefoiquemamãedeuaelesparajantar? —Umjantarhorrível. —Ótimo. —Encontreitudoqueestavanalista.Mamãeserecolheucomdordecabeça.Escreveuparaopapai. —Viuacarta?

— Não. Está no quarto dela com a lista de compras de amanhã. Vaiter que fazer outra lista quando descobrirqueestáfaltandomuitomais. —Elesestãobebendomuito? —Achoquejábeberamumagarrafa. —Seriabomseagentepusesseumasgotasdedormideiranabebida. —Eupodiafazerissosevocêmeensinasse.Éprapôrnagarrafa? —Não.Nocopo.Masnãotemosnadaquesirva.

—Seráquenãotemnadanoarmárioderemédios? —Não.

— Eu podia pôr elixir paregórico na garrafa. Eles têm mais uma. Ou calomelanos. Isso eu sei que

temos.

— Não. Veja se pode me trazer metade da outra garrafa quando dormirem. Ponha a bebida em um vidroderemédiovazio. —Émelhor euir agorae ficar de olhoneles.Que penanãotermos dormideira.Nuncatinhaouvido falar.Gotasdedormideira. —Nãosãogotas.Éhidratode cloro.Asprostitutasdãoissoamadeireirosquandoqueremlimparos bolsosdeles. —Quehorrível.Masdevíamosterissoparaemergências. —Voulhe darumbeijo.Paracasode emergência.Agoravamosdescere olhá-losbebendo.Gostaria deouvi-losconversandosentadosemnossascadeiras. —Prometenãoficarfuriosoenãofazernadaviolento? —Prometo. —Nemaoscavalos.Osbichosnãotêmculpa. —Nemaoscavalos. —Quepenaagentenãotergotasdedormideira. —Poisé.Nãotemos—disseNick.—PodeseratéquenemexistamemBoyneCity. Dodepósitodelenhaobservavamosdoishomenssentadosnavaranda.Estavaescuro,aluaaindanão

tinha nascido, mas os vultos dos homens apareciam à claridade que o lago refletia atrás deles. Estavam caladosagora,ambospendidosparaafrentenamesa.DerepenteNickouviuoruídodegelonobaldinho. —Acabouacerveja—disseum. —Eufaleiquenãoiadurar—disseooutro.—Masvocêachouquetínhamosbastante. —Pegueáguapranós.Temumbaldeeumaconchanacozinha. —Jábebimuito.Agoravoudormir. —Nãovaiesperarogaroto? —Voudormir.Vocêficaesperando. —Achaqueelevemhoje? —Euseilá.Voudormir.Meacordequandovocêestivercomsono.

— Nãopossoficar acordadoa noite toda — disse ovigia local. — Já passeimuitas noites acordado, atentoatochasdepescadores,sempregarolho. —Eutambém—disseoagenteestadual.—Masagoravoutirarumasoneca. Nicke airmãviram-noentrar.A mãe tinhaditoque eles podiamdormir noquartopegadoàsalade estar.Osirmãosviramquandoeleriscouumfósforo.Logoajanelaescureceudenovo.Ficaramolhandoo outroguardanamesaatéqueeledescansouacabeçanosbraços.Nãodemorou,eleroncava. —Vamosesperarumpoucoparatermoscertezadequeestádormindo—disseNick.

—Vocêficaatrásdacerca.Nãofazmalnenhumelemeverandandoporaí.Masseacordarpodever

você.

—Certo.Retirotudodaqui.Quasetudoestáaqui—disseNick.

—Vaiachartudonoescuro?

—Vou.Ondeestáaespingarda?

—Emcimadocaibromaisalto.Nãovácairnemderrubarlenha.

—Podedeixar.

Elachegouàcercanocantopertodaconíferagrande que oraiotinharachadonoanoanterior e que uma tempestade do outono derrubara, e onde Nick estava fazendo a trouxa. A lua já apontava atrás dos morros dando claridade suficiente para Nick poder ver o que punha na trouxa. A irmã descansou o saco quetinhalevado. —Dormemcomoporcos,Nick—disseela. —Ótimo. —Oagenteestadualqueestánoquartoroncacomooqueestánavaranda.Achoquetrouxetudo. —Vocêédemais,Pequenina. — Deixei um bilhete para mamãe dizendo que fui com você para não deixar você se meter em encrencas, e para ela não dizer a ninguém e que você vai cuidar bem de mim. Pus o bilhete debaixo da portadoquartodela.Aportaestáfechadapordentro. —Quemerda—disseNick.Depoisconsertou:—Desculpe,Pequenina. —Nãofoiculpasuaenãovaipiorarnadaparavocê. —Vocênãotemjeitomesmo. —Nãopodemosnosentenderbem? —Podemos,claro. —Trouxe ouísque —disse elaanimada.—Deixeiumpouconagarrafa.Cadaumficaachandoque foiooutroquebebeu.Mastêmoutragarrafa. —Trouxecobertorpravocê? —Claro. —Entãovamos. —Vaidartudocertoseformosparaondeestoupensando.Oquefezaminhatrouxaficargrandefoi ocobertor.Eulevoaespingarda. —Estábem.Estácalçadacomquê? —Meusmocassinsdetrabalho. —Trouxeoqueparaler? —LornaDoone,KidnappedeOMorrodosVentosUivantes. —TirandoKidnapped,osoutrossãomuitoantigospravocê.

LornaDoonenãoé.

— Vamos ler esse em voz alta pra durar mais. Mas você complicou as coisas, Pequenina. É melhor

irmos. Aqueles malditos não podem ser tão burros como parecem. Saiu tudo bem até agora porque eles ficarambêbados,euacho. Nicktinhaacabadode enrolaratrouxae apertadoascorreias.Sentou-se e calçouosmocassins.Pôso braçonacinturadairmã. —Querirmesmo?—perguntou. —Tenhoqueir,Nickie.Nãosejafracoeindecisoagora.Deixeiobilhete. —Entãovamos.Podecarregaraespingardaatéficarcansada. —Estoupronta.Deixeeuajudarvocêaafivelaratrouxa. —Sabequenãodormiunadaequetemosmuitoquecaminhar? —Sei.Estoucomootalqueroncavanavarandadissequeestava.

— Talvez ele também tenhaestadoassim uma vez— disse Nick. — Mas é importante você manter

ospésemboascondições.Osmocassinsnãoestãoesfolandoseuspés? —Não.Meuspésestãogrossosdetantoeuandardescalçanoverão. —Osmeustambémestãobons.Vamosandando. Saírampisandonosespinhosmolesdasconíferas.Asárvoreseramaltas,eascascasdostroncos,lisas. Seguirammorroacima.OluarvaravaagalhariaemostravaNickcomatrouxaenormeeairmãcarregando aespingardacalibre .22. Quandochegaramaoaltodomorro, olharamparatrás e viramolagoaoluar. A claridadeerasuficienteparaelesdistinguiremopromontórioemaisaolongeosmorrosdofundodapraia distante. —Émelhordizermosadeusatudoisso—disseNick. —Adeus,lago—disseairmã.—Adorovocêtambém.

Desceramaoutraencostae atravessaramolongocampoe opomar, passaramumacercade trilhose chegaram a um terreno desmatado. Desse terreno olharam para a direita e viram o matadouro, o grande galpãoeavelhacasadetorasnaoutraelevaçãoondeficavaolago.Acompridaestradacercadadechoupos daLombardiaquepassavapelolagoestavailuminadapelalua. —Ospésestãodoendo,Pequenina? —Não—respondeuairmã.

— Escolhi este caminho por causa dos cachorros — disse Nick. — Iam parar de latir logo que nos

reconhecessem,masalguémpoderiaouvi-los. —Eusei.E,quandoparassemdelatir,aspessoasficariamsabendoqueéramosnós. À frente via-se alinhaescuradosmorrosdepoisdaestrada.Osdoischegaramaofimde umaroçajá colhida e atravessaram o riacho que passava por baixo do depósito de alimentos frescos. Dali subiram a elevaçãode outraroçarecém-colhidae chegaramaoutracercade trilhosdepois daqualpassavaaestrada deareiaquetinhadeumladoamatasecundária. —Passoprimeiroedepoisajudovocê—disseNick.—Querodarumaolhadanaestrada.

Doaltodacercaele viuoscampos, amassaescuradasárvoresdoterrenodacasadelese obrilhodo lagoaoluar.Depoisolhouaestrada. —Nãopodemseguirnossosrastosporonde viemos, e nãovãoacharrastosnestaareiafofa—disse Nick.—Vamoscadaumporumladodaestrada,seaareianãorangermuito.

— Nickie, não acredito que eles tenham inteligência para rastrear ninguém. Se tivessem, não iam ficaresperandovocêvoltar,nemiambebertantoantesedepoisdojantar.

— Foram ao embarcadouro — disse Nick. — E era onde eu estava. Se você não me avisasse teriam

mepegado.

— Não precisavam ser muito inteligentes para calcular que você estaria no riacho quando mamãe

dissequevocêpodiateridopescar.Depoisquesaí,elesdevemterverificadoqueosbarcostodosestavam lá, por isso pensaram que você estava pescando no riacho. Todo mundo sabe que você costuma pescar abaixodomoinhodegrãosedaprensadesidra.Sóqueforammuitolentosemfazeradedução. —Podeser.Maschegarambempertodemim.

A irmãpassou-lhe aespingardapelacerca, acoronha paraafrente, e se arrastoupor baixodacerca. Ficouaoladodelenaestrada.Elepôsamãonacabeçadelaeaacariciou. —Estámuitocansada,Pequenina? —Nada.Estouótima.Estoucontentedemaispraficarcansada.

— Até ficar bem cansada você vai andando pela parte arenosa da estrada onde os cavalos deles

fizeramburacosnaareia.Nessaareiaaltaesecanãoficamrastos.Euvoupeloladoondeaareiaédura. —Possoirpeloladotambém. —Não.Nãoqueroquevocêesfoleospés. Foram subindo, mas com frequentes descidas, para a elevação que separava os dois lagos. Dos dois lados da estrada havia árvores secundárias muito unidas, e da beira da estrada até as árvores havia moitas de arbustosbaixos.Àfrente viamoaltode cadamorrocomocalombonamata.Aluajátinhacomeçadoa baixar. —Comoéqueestá,Pequenina? —Muitobem.Nickie,ésemprebomassimquandovocêfogedecasa? —Não.Geralmenteétriste. —Jáestevemuito,muitotristealgumdia? —Jásentiumatristezanegra.Foihorrível. —Achaquevaificartristeemminhacompanhia? —Não. —NãosearrependedeestarcomigoemvezdeestarcomTrudy? —Porqueficafalandonelaotempotodo? —Nãofico.Vocêéqueestevepensandonelaeachouqueeuéqueestavafalando. —Você é fogo—disse Nick.—Penseinelaporque você me disse onde elaestava, e quandofiquei sabendoondeelaestavapenseinoqueelaestariafazendo.

—Estouachandoquenãodeviatervindo. —Eudissequevocênãodeviavir.

— Ora bolas! Será que vamos ser como os outros e ficar brigando? Vouvoltar. Você não precisa de

mim. —Caleaboca.

— Não fale assim, Nickie. Ou volto ou continuo, do jeito que você quiser. Volto quando você me mandarvoltar.Masnãoquerobrigas.Jánãoestamoscansadosdeverbrigasnasfamílias? —Temrazão. — Sei que forcei você a me trazer. E arrumei tudo para não complicar você. E evitei que eles

pegassemvocê. Chegaram ao alto da elevação de onde viam novamente o lago, mas dali ele parecia estreito e mais comoumrio.

— Daquifazemos um atalho — disse Nick — e chegaremos à velha estrada madeireira. Pode voltar daquisequiser. Elebaixouatrouxa,emcimadaqualairmãpôsaespingarda. —Senteedescanseumpouco,Pequenina.Estamososdoiscansados. Nickdeitou-secomacabeçanatrouxa,eairmãdeitou-seaoladocomacabeçanoombrodele.

— Nickie, não vou voltar se você não me mandar — disse ela. — O que eu não quero é brigar.

Prometequenãovamosbrigar? —Prometo. —NãovoufalardeTrudy. —Elaqueváparaoinferno. —Queroserútileboacompanhia. —Vocêé.Nãoligueseeuficarnervosooutriste. —Estácerto.Vamoscuidarumdooutroeprocurarficaralegres.Podemosaténosdivertir. —Feito.Podemoscomeçarjá. —Eujácomecei.

— Só falta agora um trecho difícil e depois outro mais difícil, e aí chegaremos lá. Será melhor esperarmosclarearparacontinuar.Agoravocêdorme,Pequenina.Nãoestácomfrio? —Não,Nickie,estoucomumsuéter. Ela se encolheu ao lado dele e logo dormiu. Não demorou muito e Nick também dormiu. Dormiu duashorasefoiacordadopelaclaridadedamanhã.

Nickdeuduasvoltaspordentrodamatasecundáriaatéchegaràvelhaestradamadeireira.

—Nãopodíamosdeixarrastosvindodaestradaprincipal—explicouele.

A velha estrada estava tão coberta de mato que ele precisou se abaixar muitas vezes para não dar testadasemgalhos. —Pareceumtúnel—disseairmã. —Maisadianteelaseabre. —Jáestiveaquialgumavez? —Não.Istoaquiémuitolongedeondevocêestevecaçandocomigo. —Estaestradavaisairnolugarsecreto? —Não,Pequenina.Aindavamoslevarmuitosarranhões.Ninguémchegaaondevamos. Continuaram pela estrada até chegarem a outra ainda mais fechada. Finalmente alcançaram uma clareira.Haviaaliespinheirosearbustosbaixoseaindaasvelhascabanasdoacampamentodemadeireiros. Erammuitovelhasealgumasnãotinhammaiscobertura.Haviaumafonteaoladodaestradaondeosdois beberam água. O sol ainda não tinha nascido e eles se sentiam exaustos depois de uma noite inteira de caminhada. —Tudoaquieramatadecicuta—disseNick.—Sótiravamacascaedeixavamastoras. —Eoqueaconteceucomaestrada? —Devemter começadoocorte lánofim.Arrastavame empilhavamacascaaoladodaestradapara sertransportada.Depoisvieramcortandotudoatéaestradaeempilhavamacascaaquiparaserarrastada. —Olugarsecretoficadepoisdestesespinheirostodos? —É.Passamososespinheiros,andamosumpoucomais,outrosespinheirosechegamosaumtrecho dematavirgem. —Porqueaindadeixarammatavirgemquandoderrubaramtudoistoaqui? —Euseilá!Deveterpertencidoaalguémquenãoquisvender.Furtarammuitamadeiradasmargens epagaramdireitosparavendê-la.Masamaiorparteaindaestáempéenãotemestradaquepasseporlá. —Porquenãopodemdescerpeloriacho?Eletemquevirdealgumlugar. Estavamdescansandoantesdeenfrentaremotrechodifícildosespinheiros,eNickqueriaexplicar. — Olhe, Pequenina. O riacho corta a estrada principal por onde passamos e entra na terra de um fazendeiro.Ofazendeirocercouoterrenoparafazerpastageme expulsaquemvailápescar.Naterradele ninguém passa da ponte. A parte do riacho aonde chegariam passando pela pastagem do homem pelo outroladotemumtourobrabo. O touronãoé brincadeirae dácarreiraemqualquer um. Éotouromais perversoquejávi.Ficalácomcarademauavançandoemquemapareça.Depoisdotouroacabamasterras dofazendeiroe vemumtrechode brejode cedroscomsorvedourosperigosos paraquemnãoconhece o caminho. E, mesmo para quem conhece, é arriscado. Abaixo desse brejo fica o lugar secreto. Vamos chegarlápelosmorrose, porassimdizer, pelosfundos.Eabaixodolugarsecretoficaumbrejopior; por esseninguémpassamesmo.Agoravamoscomeçarapartedifícil.

Apartedifícileapartepiorjátinhamficadoparatrás.Nicksubiumuitastorasmaisaltasdoqueelee outrasqueficavamàalturadopeito.Tiravaaespingardaepunhaemcimadatora,puxavaairmãparacima e ela escorregava para o outro lado, ou então ele se abaixava e pegava a espingarda e ajudava a irmã a descer a tora. Passaram por cima e em volta de pilhas de galhos cortados sob forte calor. O pólen dos espinheiroscobriaocabelodaPequeninaeafaziaespirrar. —Diachode espinheiros —disse ela.Descansavamemcimade umatoraenorme comsulcos feitos pelostiradoresdecasca.Emtodaavoltahaviaoutrostroncoscompridosformandoestranhapaisagem. —Esteéoúltimo—disseNick. —Detestoisto—disse airmã.—Easlianasque osenlaçamparecemfloresde árvore de cemitério queninguémtrata. —Compreendeagoraporqueeunãoquisenfrentaristonoescuro? —Nempodíamos. —Estávendo?Ninguémvemnoscaçaraqui.Agoravamosenfrentaraparteboa. Saíramdosolforte dos espinheiros paraasombradas grandes árvores.Pisavamochãopardo, fofoe frescodafloresta.Nãohaviavegetaçãorasteira,ostroncosdasárvoresalcançavamaalturadevintemetros sem galhos. Erafresconasombrae Nickouviaabrisasoprandoláem cima. Nenhum raiode sol chegava aochãoe sóaomeio-diaalgunsraiosconseguiriamvararafolhagem.A irmãpôsamãonamãodele e os doiscaminharamjuntos. —Nãotenhomedo,Nickie,massintoalgumacoisaestranha. —Eutambém.Semprequevenhoaqui. —Nuncaestiveemmatascomoestas. —Estaéaflorestavirgemqueaindarestaporaqui. —Temosmuitoqueandarnela? —Maisoumenos. —Seeuestivessesozinhamorriademedo. —Sintoalgumacoisaestranha,masnãoémedo. —Eudisseissoprimeiro. —Eusei.Eseestivermosdizendoissoporestarmoscommedo? —Não.Nãotenhomedoporque estoucomvocê.Masseique teriamedose estivesse sozinha.Você jáveioaquicomalguém? —Não.Sóvimsozinho. —Enãotevemedo? —Não.Masésempreessasensaçãoestranha.Maisoumenoscomoeudeviasentirnaigreja. —Nickie,ondevamosviverétãosolenecomoistoaqui? — Não. Fique calma. É alegre lá. Você vai gostar, Pequenina. E vai lhe fazer bem. Assim eram as matasantigamente.Istoaquiéoúltimopedaçobomquerestadomundo.Ninguémvemaqui. —Adorootempoantigo.Masnãogostariaqueelefossesoleneassim.

—Nãoerasolene.Masasmatasdecicutaeram.

— É bom andar a pé. Eu achava o trecho atrás da nossa casa uma maravilha. Mas aqui é melhor. AcreditaemDeus,Nickie?Nãoprecisarespondersenãoquiser. —Nãosei. —Entendo.Nãoprecisadizernada.Masincomodaavocêeurezardenoite? —Não.Lembrovocêsevocêesquecer. —Obrigada.Estamatamefazmesentirreligiosa. —Porissoéqueconstroemcatedraiscomoflorestas. —Jáviuumacatedral,Nickie? —Não.Masjálisobrecatedraisepossoimaginarcomosão.Estaéamelhorquetemosporaqui. —AchaquepodemosiràEuropaumdiaparavercatedrais? —Podemos,sim.Masprimeiroprecisosairdestasinucaedescobrirumjeitodeganhardinheiro. —Achaquepodeganhardinheiroescrevendo?

—Seeuchegaraserumbomescritor.

— Não acha que podia ganhar dinheiro se escrevesse coisas mais alegres? Não é opinião minha. Mamãedissequevocêsóescrevecoisasmórbidas. —ÉmuitomórbidoparaoSt.Nicholas.Nãodisseramisso,masnãogostaram—disseNick. —MasoSt.Nicholaséanossarevistapreferida. —Eusei.Masjásoumuitomórbidoparaela.Eaindanãosouadulto. —Quandoéqueumhomemsetornaadulto?Quandocasa?

— Não. Quandoagente nãoé adultomandamagente parareformatórios. Quandoagente se torna

adultomandamparaapenitenciária. —Entãoaindabemquevocênãoéadulto.

— Não vão me mandar para porcaria nenhuma. E não vamos ficar falando de assuntos mórbidos, mesmoqueeuescrevacoisasmórbidas. —Eunãodissequeémórbido. —Mastodososoutrosdizem. —Vamosseralegres,Nickie.Estamatadeixaagentemuitosolene. —Logovamossairdela,evocêvaiverondevamosviver.Estácomfome,Pequenina? —Maisoumenos. —Eusabia.Vamoscomerduasmaçãs.

Desciamumaencostacompridaquandoviramaluzdosolporentre ostroncosdasárvores.Nabeira damatacresciamgaultériasebagas-de-perdiz,eochãocomeçavaaseanimardevida.Porentreostroncos viram um campo em suave declive onde cresciam bétulas brancas à margem de um riacho. Abaixo do campoedalinhadasbétulasoverde-escurodeumbrejodecedro,ebemadiantedelemorrosazuis.Entre

o brejo e os morros o braço de um lago. De onde estavam, os irmãos não podiam vê-lo. Mas pelas distânciasperceberamaexistênciadele. —Estaéafonte—disseNick.—Estassãoaspedrasondeacampei. —Quelugarlindo,Nickie!—disseairmã.—Podemosverolagotambém?

— Tem um lugar de onde podemos vê-lo. Mas é melhor acamparmos aqui. Vouapanhar lenha para prepararmoscomida. —Aspederneirassãomuitoantigas. —Estelugarémuitoantigo.Aspederneirassãoíndias. —Comovocêchegouaquipassandopelamata,semcaminhoesemmarcaçãonostroncos? —Vocênãoviuasestacasindicadorasnostrêsmorros? —Nãovinão. —Umdiaeulhemostro. —Feitasporvocê? —Não.Sãomuitoantigas. —Porquenãomemostrou? —Nãosei.Podeserquetenhasidoparamostraraminhaesperteza. —Nickie,nuncavãonosacharaqui. —Tomaraquenão.

Mais oumenos nahoraemque Nicke airmãentravamnoprimeirocipoalde espinheiros, oguarda que dormia na varanda entelada da casa que ficava à sombra das árvores acima do lago acordou com a claridadedosolnascente. Duranteanoiteeleselevantaraparabeberágua,equandovoltoudacozinhadeitou-senopisocoma almofada de uma cadeira como travesseiro. Quando acordou lembrou-se de onde estava e se levantou. Tinha dormido sobre o lado direito por causa do Smith and Wesson .38 que tinha no coldre debaixo do

braço esquerdo. Acordou e apalpou a arma; virou o rosto para não apanhar sol nos olhos e foi à cozinha parabeberáguadobalde.Aempregadaacendiaofogo. —Eocafé?—perguntouoguarda.

— Não tem — respondeu ela. A empregada dormia numa cabana atrás da casa e estava na cozinha faziameiahora.Quandoviuoguardadeitadonochãodavarandaeagarrafadeuísquepelomeioemcima damesa,elaseassustara.Depoisficouenojada.Edepoismuitoaborrecida. —Comonãotem?—disseoguarda,aindacomaconchad’águanamão. —Nãotem. —Porquê? —Nadaparacomer. —Ecafé?

—Tambémnão. —Chá? —Nãotemchá.Nãotembacon.Nãotemcereal.Nemsal.Nempimenta.Nemcafé.Nemcreme de lata.Nemfarinhadetrigo-sarracenodaAuntJemima.Nãotemnada. —Queconversaéessa?Tinhatantacoisaparacomerontemdenoite. —Poisagoranãotem.Osesquiloslevaramtudo. O guarda estadual, que acordara quando ouviu a conversa do outro e da empregada, apareceu na cozinha. —Dormiubem?—perguntou-lheaempregada. Oguardanãodeuatençãoaelaeperguntouaooutro:

—Oqueéquehá,Evans? —Ofilhodaputaveioaquiontemdenoiteelevouumsacocheiodecomida. —Nãouselinguagemgrosseiranaminhacozinha—disseaempregada. —Venhacá—disseoguardaestadualaooutro. Osdoisforamparaavarandaefecharamaportadacozinha. —Oqueéqueestáacontecendo,Evans?—OguardaestadualmostrouagarrafadeOldGreenRiver comumpoucodebebidanofundo.—Vocêmamouissotudo? —Bebiigualavocê.Fiqueisentadonamesa… —Fazendooquê? —EsperandoomalditomeninoAdamsaparecer. —Ebebendo. — Bebendo, não. Depois fuià cozinha pelas quatro e meia beber água. Volteie me deiteiaquipara descansar. —Porquenãosedeitounafrentedaportadacozinha? —Daquieupodiavermelhordoquedelá. —Edepois? —Eledeveterentradonacozinha,vaiverquepelajanela,epegouascoisas. —Nãoépossível! —Evocê,estevefazendooquê?—perguntouoguardalocal. —Dormindotambém,comovocê. —Muitobem.Vamosdeixardediscussão.Discutirnãoadiantanada. —Digaàempregadaparaviraqui. Aempregadaatendeu,eoguardaestadualdisse:

—Digaàsra.Adamsquequeremosfalarcomela. Aempregadanãofalounada,masentrounacasaefechouaporta. —Émelhorrecolheragarrafacheiae asvazias—disse oguardaestadual.—Oque restanãochega pranada.Querumgole?

—Não,obrigado.Precisotrabalharhoje. —Poiseuvoutomarumgole—disseoguardaestadual.—Vocêbebeumaisdoqueeu. —Depoisquevocêfoidormirnãobebimais—disseooutro. —Porqueinsistenessahistóriafurada? —Nãoéfurada. Oguardaestaduallargouagarrafanamesa. —Oquefoiqueeladisse?—perguntouàempregada,quevoltaradacasa. —Estácommuitadordecabeçaenãopodevê-los.Dissequeossenhorestêmummandado.Dizque podemrevistartudosequiserem,edepoisiremembora. —Elafaloualgumacoisadomenino? —Elanãoviuomeninoenãosabedele. —Easoutrascrianças? —EstãoemCharlevoix. —Fazendooquê? —Nãosei.Elatambémnãosabe.Foramaumbaileedepoispassaramodomingocomamigos. —Quemeraacriançaqueestavaaquiontem? —Nãohavianenhumacriançaaquiontem. —Havia,sim. — Talvez algum amigo das crianças procurando por elas. Ou algum garoto da estação de veraneio. Essatalcriançaerameninooumenina? —Meninade uns11ou12anos.Cabelose olhoscastanhos.Sardenta.Muitoqueimadade sol.Vestia macacãoecamisadehomem.Descalça.

—Podeserqualqueruma—disseaempregada.—Vocêdissede11ou12anos?

—Estáperdendotempo—disseoguardaestadual.—Nãovaiconseguirnadadessesmatutos.

—Sesoumatuta,oqueseráele?—disseaempregadaolhandoparaoguardalocal.—Oqueseráo

sr.Evans?Osfilhosdeleeeufrequentamosamesmaescola.

—Quemeraamenina?—perguntouoguardachamadoEvans.—Vamos,Suzy,euvoudescobrirde

qualquermaneira.

—Eunãosei—respondeuSuzy,aempregada.—Muitagentevemaquihojeemdia.Atépareceque

estounumacidadegrande.

—Vocênãoquerseenvolver,nãoéisso,Suzy?—disseEvans.

—Não,senhor.

—Porquê?

—Osenhortambémnãoquerseenvolver,quer?—perguntou-lheSuzy.

Nogalpão,depoisdeatrelaremoscavalos,oguardaestadualdisse:

—Parecequedemoscomosburrosn’água,hein? —Eleandasoltoporaí—disseEvans.—Temcomidaedeveterlevadoaespingarda.Masaindaestá naárea.Voupôrasmãosnele.Vocêsaberastrear? —Não.Nãosei.Vocêsabe? —Naneve,sei—disseooutro,rindo. —Nãoprecisamosrastrear.Precisamosédeduzirondeelepodeestar. —Paralevartudooquelevou,nãodeveteridoparaosul.Senãoteriapegadopoucacoisaeseguido pelostrilhos.

— Não sei o que ele tirou do depósito de lenha. Mas da cozinha tirou muita coisa. Ele tem algum plano.Precisoverificaroshábitosdeleedosamigos,esaberaondeelecostumavair.Podemosdetê-loem CharlevoixePetoskeyouemSt.IgnaceeSheboygan.Sevocêfosseele,paraondeiria? —ParaaPenínsulaSuperior. —Eutambém.Eelejáestevelá.Nabarcaéolugarmaisfácildepegá-lo.MasdaquiatéSheboygané muitochão,eeleconhecearegiãotoda. —ÉmelhortermosumaconversacomPackard.Aliás,essaconversaestavaprogramadaparahoje. —Eoquevaiimpedi-lodeseguirporEastJordaneGrandTraverse? —Nada.Masnãoézonadele.Certamentevaiparaalgumlugarqueconhece. Suzyapareceuquandoelesabriramaporteiradacerca. —Podemmedarcaronaaoarmazém?Precisofazerumascompras. —Quemfoiquedissequevamosaoarmazém? —Ontemvocêsfalaramdeirconversarcomosr.Packard. —Ecomovaitrazerascomprasdepois? —Pedindocaronanaestrada,ouentãovindopelolago.Hojeésábado. —OK.Podesubir—disseoguardalocal. —Obrigado,sr.Evans.

No armazém e agência do correio, Evans amarrou a parelha na estaca, e os dois guardas ficaram paradosconversandoantesdeentrar. —NãoconseguitirarnadadeSuzy. —Euvi.

— Packard é um bom homem. Todo mundo gosta dele nesta região. Você não vai conseguir a

condenaçãodelenocasodapescadetrutas.Ninguémvaiassustá-lo,enãodevemosameaçá-lo. —Achaqueelepodecolaborar? —Seentrarmosdesola,não. —Vamoslevarumaconversacomele. Noarmazém, Suzypassoupelasvitrines, pelosbarrisabertos, oscaixotes, asprateleirasde conservas sem olhar para nada nem para ninguém até chegar ao correio, com seus guichês para encomenda, para

correspondênciaeparaselos.Oguichêdeselosestavafechado,eSuzycontinuouatéofundodaloja.Osr. Packardabriaumcaixotecomumpédecabra.OlhouparaSuzyesorriu. — Sr. John — disse Suzy falando depressa. — Tem aí dois guardas que estão atrás de Nickie. Ele desapareceu ontem de noite e a irmã foi com ele. Não deixe que os guardas saibam disso. A mãe sabe e nãovaidizernada. —Elelevoutodososmantimentos? —Quasetudo. —Pegueoqueprecisarefaçaumalista.Depoisconferimosjuntos. —Elesestãochegando. —Vocêsaipelosfundosevoltapelafrente.Voufalarcomeles. Suzy deu a volta no prédio comprido e chegou de novo aos degraus da frente. Depois, entrou olhandotudo, reconheceuos índios que tinhamlevadoos cestos, reconheceuos dois meninos índios que olhavam as varas de pescar nas primeiras vitrines à esquerda. Viu os vidros de remédios populares na vitrineseguinteereconheceuquemoscomprava.Elatinhatrabalhadoumatemporadanoarmazémesabia osignificadodasletrasemcódigofeitasalápisnascaixasdesapatos,degalochas,demeiasdelã,deluvas, bonése suéteres.Sabiaquantovaliamos cestos feitospelos índios e sabiaque, atemporadaestandojáno fim,oscestosnãoiamalcançarbompreço. —Porquetrouxeoscestostãotarde,sra.Tabeshaw?—perguntouSuzy. —PorcausadoQuatrodeJulho—respondeuaíndia,rindo. —Billyvaibem? —Nãosei,Suzy.Nãovejoeleháquatrosemanas. —Porquenãolevaoscestosaohotelparavenderaosveranistas?—sugeriuSuzy. —Talvez.Leveiumavez—disseasra.Tabeshaw. —Podialevartodososdias. —Élonge. Enquanto Suzyconversava com as pessoas que conhecia e fazia uma lista do que precisava para casa, osdoisguardasestavamnofundodalojacomosr.JohnPackard. Osr.Johntinhaolhoscinzento-azulados, cabelopretoe bigode preto, e davasempre aimpressãode ter ido parar em uma loja por engano. Passara dezoito anos fora do norte do Michigan quando jovem, e parecia mais um oficial de paz ou um jogador honesto do que um lojista. Fora proprietário de grandes salões, que administrara bem. Mas, quando a região foi completamente desmatada, ele ficou e comprou terrasagricultáveis.Quandoomunicípioentrounaleiseca,elecomprouoarmazém.Jáeradonodohotel. Mas pouco ia ao hotel porque não gostava de hotel sem bar. A Sra. Packard dirigia o hotel. Era mais ambiciosa do que o marido, que não queria perder tempo com pessoas que tinham dinheiro para passar férias onde quisessem, mas iam para um hotel sem bar e passavam o tempo sentadas em cadeiras de balanço na varanda. Chamava os veranistas de “povo-na-menopausa” e vivia zombando deles diante da mulher;masasra.Packardgostavadeleenãoligavaparaessasbrincadeiras.

— Não me importo que você os chame de povo-na-menopausa — disse ela uma noite na cama. —

Apesardoquesofri,aindasousuamulherparavocê,nãosou? Ela gostava dos veranistas porque alguns eram cultos e dizia que gostava de cultura como um madeireirogostade Peerless, ofamosofumode mascar.Osr.Packardrespeitavaogostodelaporcultura

porque ela dissera que apreciava cultura como ele apreciava o bom uísque importado, e disse uma vez:

“Packard, você não precisa se preocupar com cultura. Não vou chatear você com isso. Mas eu me sinto muitobemcomcultura.”

O sr. John disse que ela podia ter cultura até dizer chega, contanto que ele não precisasse fazer um

curso Chautauqua ou de Aperfeiçoamento Pessoal. Tinha participado de reuniões ao ar livre e de campanhasculturais,masnuncafizeraumcursoChautauqua.Dissequereuniõesaoarlivreecampanhasjá eramumachatice,maspelomenoshaviaintercâmbiosexualdepoisentreosmaisinflamados,maselenão conhecera ninguém que pagasse suas contas depois dessas reuniões e campanhas. Ele disse a Nick Adams que a sra. Packardficava preocupada com a salvaçãoda alma imortal dele depois de assistir a uma grande

campanhade aperfeiçoamentoespiritualdirigidaporalguémcomoGypsySmith, ogrande evangelizador, mas depois Packard ficou sabendo que era parecido com Gypsy Smith, e tudo acabou bem. Mas o

Chautauqua era diferente. Pode ser que cultura seja melhor do que religião, pensava o sr. Packard, mas e daí?Tinhagenteloucaporcultura.Eramaisdoqueummodismo.

— A coisa pegou mesmo as pessoas — disse ele a Nick Adams. — Deve ser alguma coisa que só acontecedentrodacabeça.Dêumaolhadanissoquandotivertempoedepoismedigaoqueéqueacha.Se vocêvaiserescritor,devepesquisarisso.Nãodeixequepassemmuitoàsuafrente.

O sr. Packard gostava de Nick Adams porque achava que Nick tinha o pecado original. Nick não

entendeu,masficouorgulhoso.

— Você vaiter doque se arrepender, menino— disse osr. PackardaNick. — Éumadas melhores

coisasqueexistem.Pode-sesempreresolversevaisearrependerounão.Masoimportanteéterdoquese arrepender. —Nãoquerofazernadaerrado—disseNick.

— Nem quero que você faça — disse o sr. Packard. — Mas você está vivoe vaifazer muitas coisas.

Não minta nem furte. Todo mundo precisa mentir. Mas você deve escolher uma pessoa para quem você nuncamentirá. —Escolhoosenhor. —Muitobem.Jamaismintaparamimemnenhumacircunstância,eeujamaismentireiparavocê. —Voutentar—disseNick. —Nãoéassim.Temqueserabsoluto. —Estábem.Nuncamentireiparaosenhor.

—Quefimlevouasuanamorada?

—MedisseramqueelaestátrabalhandoemSoo.

—Éumagarotabonita,sempregosteidela.

—Eeutambém—disseNick. —Procurenãosofrermuito.

— Nãopossoevitar. Ela não teve culpa. Ela é assim. Se eutopar com ela de novo, achoque torno a meenvolver. —Quemsabe,não? —Ouquemsabe,sim?Voutentarnãomeenvolver—disseNick.

O sr. Packard pensava em Nick quando foi ao balcão do fundo, onde os dois guardas o esperavam. Deu-lhes uma geral e não gostou deles. Sempre antipatizara com o guarda local, Evans, por quem não tinhaomínimorespeito, e percebeuque oguardaestadualeraperigoso.Notouque osujeitotinhaolhos achatadosebocamaisapertadadoquebocademastigadordefumo.Tinhaumdenteverdadeirodealcena corrente dorelógio.Eraumabelapresade animalde cincoanos.Umabelapresa.Osr.Packardnãotirava osolhosdela,nemdovolumeenormequeocoldrefaziadebaixodopaletódohomem.

— Matou o alce com o canhão que carrega debaixo do braço? — perguntou Packard ao guarda

estadual.Oguardaolhouparaosr.Packardcomardequemnãotinhagostado.

—Não.MateioalcenumaestradadeWyomingcomumaWinchester45-70.

—Osenhorgostade armasde grossocalibre, hein?—disse Packard.Olhouparabaixo.—Tempés grandestambém.Levaestecanhãoquandosaicaçandocrianças? —Quecrianças?—perguntouoguardaestadual.Ficoualerta. —Ogarotoquevocêestáprocurando. —Vocêdissecrianças—disseoguarda. Osr.Packardentroudesola.Erapreciso. —Que armascarregaEvansquandovaiatrásde umgarotoque surrouofilhodele duasvezes?Você deveestararmadoatéosdentes,hein,Evans.Aquelegarotoécapazdesurrarvocêtambém. —Porquenãotrazeleaquiparaagentever?—disseEvans. —Vocêdissecrianças,sr.Jackson—insistiuoguardaestadual.—Porquefalouassim? —Porqueestavaolhandoparavocê,seuporqueira!Seupédechumbo—dissePackard. —Sequerfalarassim,porquenãosaidetrásdessebalcão?—desafiouoguardaestadual. —VocêestáfalandocomoAgentedosCorreiosdosEstadosUnidos.Falandosemtestemunhasanão serestecaradebostachamadoEvans.Sabeporqueeleétratadodecaradebosta?Seédetetive,descubra. Packard sentiu-se satisfeito. Passara ao ataque e sentia-se como no tempo em que ganhava a vida servindoe alimentandoveranistas que ficavamemcadeiras de balançonavarandadoseuhotel olhandoo lago.

—Olhe,Pezão,agoraestoumelembrandodevocê.Nãoselembrademim,Pezão?

Oguardaestadualencarou-o.Masnãoselembravadele.

—Me lembrode você emCheyenne nodiaemque TomHornfoienforcado—disse osr.Packard. —Você foiumdosque fizeramaarmaçãocontraele compromessasdaassociação.Lembraagora?Quem

era o proprietário do salão de Medicine Bow quando você trabalhava para as pessoas que fizeram a armaçãocontraTom?Foiporissoqueacaboufazendooquefazhoje?Perdeuamemória? —Quandofoiquevocêvoltouparacá? —DoisanosdepoisqueenforcaramTom. —Essanão!

— Se lembra de quando eu lhe dei aquela cabeça de boi quando fazíamos as malas para deixar Greybull? —Claro.Olhe,Jim,precisopegaressegaroto.

— Meu nome é John — disse Packard. — John Packard. Vamos lá nos fundos tomar um drinque.

Você precisa conhecer este outro cara. O nome dele é Evans Cara-de-Bosta. Nós o chamávamos de Cara- de-Esterco.Mudeipordelicadeza.

—Sr.John—disseEvans—,porquenãomudadeatitudeenãocolabora? — Já mudei o seu nome, não mudei? — disse o sr. Packard. — Que espécie de colaboração vocês querem?

Nos fundos da loja, o sr. John pegou uma garrafa na parte baixa de uma prateleira e passou-a ao guardaestadual. —Beba,Pezão—disse.—Parecequeestáprecisando. Osdoisbeberam,ePackardperguntou:

—Porqueestãoatrásdomenino?

—Violaçãodaleidecaça—disseoguardaestadual.

—Violaçãodequeartigo?

—Elematouumalcenodiadozedomêspassado.

— Dois homens armados atrás de um menino que matou um alce no dia doze do mês passado —

repetiuPackard. —Houveoutrasviolações.Masestaéaquepodemprovar.Maisoumenosisso. —Quaisforamasoutrasviolações? —Ah,muitas. —Masvocêsnãotêmprova. —Eunãodisseisso—disseEvans.—Masdestatemosprova. —Eadatafoiodiadoze? —Correto—disseEvans.

— Por que não faz perguntas em vez de ficar só respondendo? — disse o guarda estadual para o companheiro.Osr.Johnriu. —Deixeeleempaz,Pezão—disseosr.John.—Gostodeveressecérebropoderosotrabalhando. —Conhecebemomenino?—perguntouoguardaestadual.

—Muitobem. —Jáfeznegócioscomele? —Devezemquandoelefazpequenascomprasaqui.Pagaadinheiro. —Temalgumaideiadeparaondeelepodeterido? —TemparentesemOklahoma. —Quandooviupelaúltimavez?—perguntouEvans. —Ora,Evans—disseooutro—,vocêestáperdendoseutempo.Obrigadopelodrinque,Jim. —John—corrigiuosr.John.—Qualéoseunome,Pezão? —Porter.HenryJ.Porter. —Pezão,vocênãovaidarnenhumtironaquelemenino. —Voutrazê-loparacá. —Vocêsempregostoudedartiros. —Vamos,Evans—disseoguardaestadual.—Estamosperdendotempoaqui. —Nãoesqueçaoqueeudissearespeitodedartiros—disseosr.Johncomtodaacalma. —Euouvi—disseoguardaestadual. Osdoisguardassaíramdaloja,desamarraramoscavalos,subiramnacarroçaepartiram.Osr.Packard ficouolhando-osestradaafora.Evansseguravaasrédeas,eooutrofalavacomele. “HenryJ. Porter”, pensouo sr. Packard. “O único nome que lembro para ele é Pezão. Tem pés tão grandes que precisa fazer botinas sob medida. Era chamado de Pezão. Foi pelos rastos na fonte onde mataramomeninoNester que enforcaramTom. Pezão. Talvezeununcaficasse sabendo. Pezão. Pezãode quê?PezãoPorter?Não,nãoeraPorter.” — Sinto muito pelos cestos, sra. Tabeshaw — disse ele. — A estação está no fim e não estão comprando.Mas,setiverpaciênciacomoshóspedesdohotel,asenhoraacabarávendendo. —Osenhorcompraoscestosevendenohotel—sugeriuasra.Tabeshaw. —Não.Elespagammelhorsecompraremdasenhora.Asenhoraéumamulherbonita. —Issojáfazmuitotempo—replicouela. —Suzy,tenhoquefalarcomvocê—chamouosr.Packard. Nofundodalojaelepediu:

—Mecontetudo. — Jácontei. Vieram buscar Nickie e esperaram que ele chegasse. A irmãmenor informouaele que estavamesperandoparapegá-lo.Quandoelesestavamdormindo, bêbados, Nickie pegouosmantimentos efugiu.Levoucomidaparaduassemanaseaespingarda,eaPequeninafoicomele. —Porqueelafoi? —Nãosei, sr.Packard.Achoque paratomar contadele e impedir que ele fizesse algumabobagem. Osenhoroconhece. —VocêévizinhadeEvans.AchaqueeleconhecebemaregiãoqueNickfrequenta? —Achoquesim.Masnãotenhocerteza.

—Paraondeachaqueforam? —Nãosei,sr.Packard.Nickieconhecemuitoslugaresporaí. —AquelesujeitoqueestácomEvansnãopresta.Nãoprestamesmo. —Nãoémuitoesperto. —Émais espertodoque parece.A bebidaoatrapalha.Mas é espertoe mau.Conheçoele de outros tempos. —Querqueeufaçaalgumacoisa? —Não,Suzy.Sesouberdealgumacoisameinforme. —Vousomarascompraseosenhorconfere. —Vaiparacasa? —PossopegarabarcaatéHenry’sDockedeláumbarcoaremodaquinta,voltoepegoascompras. QueseráquevãofazercomNickie,sr.Packard? —Éissoquemepreocupa. —Falavamemmandá-loparaoreformatório. —Elenãodeviatermatadooalce. —Estáarrependido.Leunumlivroque se pode feriralgumacoisacomumtirosemcausarnenhum mal. Se fosse um animal, só ficaria assustado, e Nickie quis experimentar. Ele mesmo disse que foi uma bobagem muito grande. Mas quis experimentar. Acertou o alce no pescoço. Nickie ficou arrasado. Arrependeu-sedetertentadoacertá-loderaspão. —Eusei. — Depois achoque foiEvans quem achouacarne penduradanodepósitode carne fresca. O certoé quealguémpegouacarne. —QuemseráquecontouaEvans?

—Achoque foiofilhodele quemachou.Ele ficasempre rondandoNick.Nuncase mostra.Pode ter visto Nick matar o alce. Aquele menino não presta, sr. John. Mas sabe rastrear qualquer pessoa. Pode até estaraquimesmoagora. —Não—disseosr.John.—Maspodeestarescutandoláfora. —ÉpossívelqueestejaatrásdeNick—disseamoça. —Ouviuaquelesdoisdizeremalgumacoisasobreelelánacasa? —Nãofalaramnele.

— Evans deve ter deixado o menino cuidando da casa. Não precisamos nos preocupar com ele

enquantoaquelesdoisnãochegaremàcasadeEvans.

— Posso remar até em casa esta tarde e pedir a um de nossos meninos para ficar atento e me

informar se Evans contratou alguém para o serviço da casa. Se contratou, quer dizer que dispensou o meninodotrabalho. —Osdoishomenssãomuitovelhospararastrear—disseosr.Packard.

—Masaquele meninoé terrível,Sr.John,sabe muitosobre Nicke sabe onde ele poderáestar.Pode acharNickeairmãedepoislevaroshomenslá. —Vamosparaosfundosdocorreio—disseosr.John. Atrásdosescaninhosde correspondência, dascaixaspostaise dolivrode registro, dasfolhasde selos e dos carimbos em suas almofadas, com um guichê fechado, Suzy sentiu de novo a glória que tinha sido delaquandotrabalhavanaloja. —Paraondeachaqueelesforam,Suzy?—perguntouosr.John. — Eu não sei. Não devem ter ido longe porque a Pequenina foi com ele. Foram para algum lugar bem escondido, senão não teria levado a irmã. Os homens sabem também das trutas para o jantar, sr. John.

—Otalmenino? —Ele. —AchoqueprecisamosfazeralgumacoisaarespeitodessemeninoEvans. — Minha vontade é de matá-lo. Tenho quase certeza de que foi por isso que a Pequenina acompanhouoirmão.ParaNickienãomatarogaroto. —Entãovocêficaatentaedeolhonele. —Fico,sim.Masosenhorprecisapensaremalgumacoisa,sr.John.Asra.Adamsestásemação.Em momentosassimficacomumaterríveldordecabeça.Ah,tomeestacarta. —Ponhanacaixa—dissePackard.—ÉocorreiodosEstadosUnidos. —Tivevontadedematarosdoisontemenquantodormiam. —Nadadisso.Nãofaleassimenempensenisso. —Osenhornuncatevevontadedemataralguém,sr.John? —Já.Maséumerroenuncadácerto. —Meupaimatouumhomem. —Enãoadiantounadaparaele. —Elenãopôdeevitar. —Vocêprecisaaprenderaevitar.Émelhoriragora,Suzy. —Voltoaquidenoiteouamanhãcedo—disseSuzy.—Penaquenãotrabalhomaisaqui,sr.John. —Tambémacho,Suzy.Masasra.Packardnãoacha. —Eusei.Assimsãoascoisas.

***

Nicke airmãestavamdeitadosnumacamade capimnoabrigoque tinhamfeitonabeiradamatade cicuta,defrenteparaodeclivedomorroquedavaparaobrejodecedroseosmorrosdistantes.

— Se não está confortável, Pequenina, podemos trazer mais folhagem. Mas para esta noite serve porqueestamoscansados.Amanhãteremosumaboacama. —Estáótima—disseairmã.—Deite-sedireitoevejacomoestáboa,Nickie. —Éumbomacampamento,ebemescondido.Sóvamosacenderfogopequeno. —Seráqueumfogopodeservistoládosmorros? —Podeser.Denoiteumfogoévistodelonge.Masesticoumcobertornafrentedele.Assimelenão serávisto.

— Nickie, não seria bom se não tivesse ninguém atrás de nós e nós estivéssemos aqui apenas acampando?

— Não comece a pensar assim tão cedo. Estamos apenas começando. E também, se estivéssemos

apenasacampando,nãoestaríamosaqui. —Desculpe,Nickie. —Nãoprecisapedirdesculpa.Olhe,Pequenina,voudescerepegarumastrutasparaojantar. —Possoirtambém? —Não.Vocêficaaquidescansando.Teveumdiadifícil.Leiaumpouco,ouapenasdescanse. —Foidifícilnocipoal,nãofoi?Achaquemesaíbem? —Maravilhosamentebem.Vocêfoiótimapreparandooacampamento.Masagoradescanse. —Quenomevamosdaraesteacampamento? —AcampamentoNúmeroUm. Nickdesceuaencostaparaoriachoe,quandojáestavachegandoàmargem,parouecortouumavara de salgueiro de pouco mais de um metro, aparou e alisou-a, deixando a casca. A água era clara e corria rápido. O riachoeraestreitoe fundo, as margens musgosas antes dobrejo. Correndorápido, aáguafazia caroçosnasuperfície.Nicknãochegoumuitopertodaáguaparanãoassustarospeixes,porquesabiaquea águacorriarenteàsbarrancas. Deveterumaporçãoaquinestaclareira,pensou.Overãojáestáquasenofim. Tirouumrolode linhade sedade umporta-fumoque levavanobolsodacamisa, cortouumpedaço umpoucomenordoqueavaraeamarrounapontadavaraondetinhafeitoumsulco.Depoisamarrouum anzoltambémtiradodoporta-fumo.Aí,segurandoacurvadoanzol,experimentouaresistênciadalinhae aflexibilidade davara.Largouavaranochãoe voltouparaonde tinhavistootroncode umabétulacaída há muitos anos no meio de outras perto da margem do riacho. Revirou o tronco e achou vários corós embaixo. Não eram grandes, mas eram vermelhos e ativos. Recolheu-os numa lata redonda de rapé de Copenhague comburacosnatampa.Cobriuoscoróscomterrae repôsotronconaposiçãoanterior.Erao terceiroanoemqueeleachavaiscanaquelemesmolugaresemprerepunhaotroncocomoestavaantes. Ninguémsabecomoégrandeesteriacho,pensou.Recebegrandevolumed’águadaquelebrejoláde cima.Olhouoregatoacimaeabaixo,olhouomorrodamatadecicutaondeficavaoacampamento.Voltou paraondetinhadeixadoavaracomalinha,iscouoanzolecuspiuneleparadarsorte.Segurandoavaraea

linhacomoanzoliscadonamãodireita, foicaminhandocomcuidadoparaamargemdoriachoestreitoe fundo. O riacho era tão estreito naquele ponto que a vara de salgueiro poderia transpô-lo. Quando chegou pertodobarranco, ouviuaturbulênciadaáguafluindo.Parounabarranca, foradavistade qualquer coisa nacorrente,tirouduaschumbadasdoporta-fumoeasprendeunalinhaaunstrintacentímetrosdoanzol, apertandocomosdentes. Lançoua linha com os dois corós e deixouque ela afundasse na correnteza. Abaixoua ponta da vara para que a correnteza levasse a linha com o anzol iscado para a barranca. Sentiu a linha se esticando e o endurecimento repentino. Puxou a vara com força, e ela quase se dobrou em duas. Sentiu a resistência palpitante que nãocediaaopuxardavara.Depoiscedeu, e apontaveiosubindo.Houve umaviolênciade movimento na correnteza estreita e funda. A truta apareceu fora d’água tremelicando no ar, passou por cimados ombros de Nicke bateunamargem atrás dele. Nickviuatrutabrilhandoaosol. Aproximou-se dela e a viu se debatendo no capim. Era forte e pesada e cheirava bem. Nick notou o preto das costas, o brilho das manchas coloridas e das margens das nadadeiras, brancas com uma risca preta atrás, e o lindo pôrdosoldabarriga.Comelanamãodireita,Nickmalconseguiaabarcá-la. É muito grande para a frigideira, pensou. Mas está ferida e preciso matá-la. Bateu a cabeça da truta comforçanocabodafacadecaçaedepositou-aencostadanotroncodeumaconífera. — Droga — disse ele —, tem o tamanho ideal para a sra. Packard e seus clientes. Mas é grande demaisparamimeaPequenina. É melhor eu ir riacho acima até encontrar uma rasoura e pegar duas menores. Ora, ela não me deu umaemoçãoforte quandoapuxei?Podemdizeroque quiseremsobre apescade truta, masquemnunca puxouumanãosabe asensaçãoque dá.Durapouquíssimo,mas—e daí?Éaquele instante emque nãose podeceder,ederepenteelasvêmvindo,eoqueelasnosdãoquandovêmequandoestãonoar. Muitoestranhoesteriacho,pensou.Eeuquerendoachardaspequenas. Achouavaraondeatinhalargado.Oanzolestavaentortado,eleoendireitou.Apanhouatrutapesada efoisubindooriacho. Háumtrechorasodefundopedregosoquandooriachosaidobrejodecima.Podeserqueeupegue lá duas das menores. A Pequenina pode não gostar desta grande. Se ela sentir falta de casa, vou ter que levá-la de volta. Que será que aqueles dois estão fazendo? Não acredito que o maldito Evans já tenha estadoaqui. O miserável. Achoque sóíndiojá pescouaqui, ninguém mais. Eudevia ser índio, seria bem maisfácilseeufosseíndio. Foi subindo o riacho, evitando a correnteza, mas uma hora pisou em um lugar onde a correnteza corria rente ao fundo. Uma truta enorme veio à superfície espirrando água. Era enorme e parecia ter dificuldadeemnadarnacorrenteza. — De onde você veio? — disse Nick quando a truta mergulhou novamente no riacho. — Nossa, comoégrande!

Notrechorasodefundopedregoso,elepegouduastrutaspequenas.Eramlindas,firmeserijas.Nick limpouastrêsejogouastripasnaágua;lavouospeixesnaáguafriaeenrolou-osemumsacoplásticoque levavanobolso. Ainda bem que as meninas gostam de peixe, pensou. Sófaltavam agora umas frutinhas domato. Sei onde tem disso. Nick saiu do riacho e foi subindo a encosta para o acampamento. O sol já tinha sumido atrás do morro e a temperatura era agradável. Nick olhouo brejo e o céu, olhouà frente onde havia um braçodolago,eviuumaáguia-pescadoranoar. Chegouao abrigo sem fazer barulho. A irmã estava deitada de lado, lendo. Nick faloubaixinho para nãoassustá-la. —Masoquefoiquevocêfez,suamacaquinha? Elavirou-seesorriuparaele. —Cortei—disseela. —Como? —Comtesoura.Comquemaispodiaser? —Ecomocortousemver? —Fuipuxandoparacimaecortando.Éfácil.Estouparecendoummenino? —Pareceummolequinho. —Nãodeuparacortarcomomeninodeauladecatecismo.Estámuitoruim? —Não.

— Ésensacional — disse ela. — Sousuairmãe aomesmotemposouum menino. Achaque com o

cabeloassimvouvirarummenino? —Não. —Seriabomsevirasse. —Vocêédoida,Pequenina. —Écapazdeeuser.Fiqueicomcarademeninoidiota? —Lembraumpouquinho. —Quemsabevocêdáumjeito?Vendo,vocêvaicortandocomumpente. —Possomelhorarumpouco,sóumpouco.Estácomfome,irmãozinhoidiota? —Nãopossosersóirmãozinho? —Nãoquerotrocarvocêporumirmão.

— Agora tem que trocar, Nickie. Precisávamos fazer isso, não entende? Eu devia ter pedido a você

paracortar,mas,comoprecisavaserfeito,corteisozinhaparalhefazerumasurpresa. —Poisgostei.Orestonãointeressa.Gostodevervocêassim. —Obrigada,Nickie.Deitei-meumpoucoparadescansar,comovocêdisse.Masemvezdedescansar fiquei bolando coisas para você. Ia arranjar para você uma lata de fumo cheia de pastilhas de dormideira emumsalãodealgumlugarcomoSheboygan. —Equemlhedeuaspastilhas?

Nick já estava sentado com a irmã no colo, ela com os braços no pescoço dele esfregando-lhe no rostoocabelocortado. —QuemmedeufoiaRainhadasProstitutas—disseela.—Esabeonomedosalão? —Não. —EstalagemeEmpórioEldorado. —Vocêfezoquelá? —Fuiajudantedeprostituta. —Eoqueéquefazumaajudantedeprostituta? —Ah,carregaacaudadovestidodaprostitutaquandoelaandapelosalão,abreaportadacarruagem dela,leva-aparaoquarto.Éumaespéciededamadehonra. —Eoqueéqueaajudantedizàprostituta? —Tudooquelhevieràcabeça,desdequenãosejaofensivo. —Porexemplo?

— “Oh, madame, deve ser muito cansativo em um dia quente como este viver como passarinho numagaioladeouro.”Coisasassim. —Eaprostitutadizoquê?

— Ela diz: “Sem dúvida. É puro encantamento.” Porque a prostituta de quem eu era ajudante é de origemhumilde. —Evocêédequeorigem? —Souirmãouirmãodeumescritormórbidoefuicriadacommuitocarinho.Porissosouqueridada primeiraprostitutaedetodososqueacercam. —Conseguiuaspastilhasdedormideira?

— Claro. Ela me disse: “Querida, tome estas pastilhinhas.” “Obrigada”, respondi. “Dê minhas

lembrançasaseuirmãomórbidoedigaaeleparaaparecernoEmpórioquandopassarporSheboygan.” —Saiadomeucolo—disseNick. —ÉassimmesmoquefalamnoEmpório—disseairmã. —Voucuidardojantar.Estácomfome? —Eucuido. —Não.Vocêcontinuafalando. —Vamosnosdivertirmuito,nãoé,Nickie? —Jáestamosnosdivertindo. —Querouvirumaoutracoisaquefizparavocê? —Antesoudepoisdetomarumadecisãopráticacomocortarocabelo? —Foiumacoisamuitopráticatambém.Esperesó.Possobeijarvocêenquantopreparaojantar? —Jálherespondo.Qualéessaoutracoisapráticaquevocêiafazer?

— Bem, fiquei moralmente inferiorizada ontem por ter furtado o uísque. Acha que se pode ficar moralmenteinferiorizadocomumapequenamáação?

—Não.Afinal,agarrafaestavaaberta. —É.Mas leveiagarrafavaziae meiagarrafacheiaparaacozinhae despejeiabebidadapequenana grandeederrameiumpouconamãoelambi.Foiaminharuínamoral. —Quetalachouogosto? —Muitoforteeenjoativo. —Issonãoprejudicouvocêmoralmente. — Ainda bem. Se eutivesse sofrido alguma perda moral, como poderia exercer uma boa influência sobrevocê? —Eeusei?Masoqueéquevocêpretendiafazer? Comofogojáacesoe afrigideiraemcima, Nickpunhanelafatiasde bacon.A irmãobservava, com as mãos sobre os joelhos, depois cruzava as mãos e enlaçava os joelhos com elas, ou esticava as pernas. Exercitava-separasermenino. —Precisoaprenderoquefazercomasmãos. —Ésónãoficarpondoasmãosnacabeçaatodoinstante. —Poisé.Setivesseaquiummeninodeminhaidade,seriafácileuimitá-lo. —Porquenãomeimita? —Achaqueserianatural?Nãovairirdemim? —Nãosei.Sóvendo. —Tomaraqueeunãovolteasermeninaquandoestivermosviajando. —Nãosepreocupecomisso. —Osnossosombroseasnossaspernassãoparecidos. —Qualeraaoutracoisaquevocêiafazer? Nick fritava a truta. O bacon já estava enroladinho e tostado numa lasca de madeira que ele tinha cortadodeumaárvorecaída.Atrutajáexalavaoseucheironagorduradobacon.Nickiabanhandoatruta nagordura,virando-aebanhando-adenovo.Atardeescurecia,eNickcolocouumalonanafrentedofogo paranãoseravistadodelonge. — Mas o que é que você ia fazer? — perguntou ele. A irmã inclinou-se para a frente e cuspiu na direçãodofogo. —Quetal? —Errouafrigideira. —Poisé,errei.ViistonaBíblia.Euiapegartrêsespetos,umparacadaum,efincá-losnastêmporas daquelesdoisedomeninoquandoestivessemdormindo. —Eiafincá-loscomoquê? —Comummarteloabafado. —Comoéqueseabafaummartelo? —Euseicomo. —Comaquelasorelhasficadifícilabafar.

— Mas a menina da Bíblia conseguiu, e eu já vi homens armados dormindo bêbados, passei perto

deles de noite e furtei o uísque deles; por que não seria capaz de fazer o serviço completo, do jeito que

aprendinaBíblia? —NãoseinadademarteloabafadonaBíblia. —Capazdeeuterconfundidocomremosabafados. —Podeser.Enãoqueremosmatarninguém.Aliás,foiporissoquevocêveio.

— Eu sei. Mas o crime vem fácil para nós dois, Nickie. Somos diferentes dos outros. Depois pensei

que,seeujáestavamanchadamoralmente,nãomecustavaquererserútil. —Vocêédoida,Pequenina.Medigaumacoisa,ochátiraoseusono? —Nãosei.Nuncatomeichádenoite.Anãoserchádehortelã. —Voufazerumchábemfracoepôrcremeenlatadonele. —Nãoépreciso,Nickie.Vamoseconomizaroquetemos. —Ésóparadarumgostinhodiferenteaoleite. Trataramde comer.Nickcortouduas fatias de pãode centeioparacadaume molhou-as nagordura do bacon. Comeram o pão com a truta, que estava tostadinha por fora e bem cozida por dentro. Depois

jogaram as espinhas no fogo e com as outras fatias de pão fizeram um sanduíche de bacon. A Pequenina tomouocháfracocomleitecondensadoeNicktampouosburacosdalatacomdoispedaçosdegraveto. —Matouafome?—perguntouNick.

— Ora se. A truta estava deliciosa, e o bacontambém. Não foisorte nossa terem comprado pão de

centeio?

— Agora coma uma maçã. Vamos ver se amanhã conseguimos coisa melhor. Fico lhe devendo um

jantarmelhor,Pequenina. —Estefoiótimo.Comibem. —Nãoestámesmocomfomeainda? —Não.Estoucheia.Trouxechocolate;vocêquer? —Comoconseguiu? —Comomeusalvador. —Onde? —Omeusalvador.Éondeguardominhassobras. —Ora,ora! —Eémole.Algunssãodaqueleduroqueseusanacozinha.Vamoscomerdoduroeguardarooutro para alguma ocasião especial. O meu salvador tem uma sacola daquelas de cordão na boca. Serve muito paraguardarpepitasecoisasassim.Achaquepodemosirparaooestenestaviagem,Nickie? —Nãofizplanonenhumainda. —Queroveromeusalvadorcheinhodepepitasdedezesseisdólaresograma. Nick limpou a frigideira e pôs a trouxa na entrada do abrigo. Estendeu um cobertor na cama de folhas, pôs o outro por cima e enfiou as beiradas por baixo da irmã. Limpou o baldezinho em que tinha

feito o chá e encheu-o com água da fonte. Quando voltou a irmã já dormia, a cabeça no travesseiro que fizera com os jeans enrolados nos mocassins. Nick beijou-a sem acordá-la e vestiu o blusão velho de flanela.Procurounamochilaatéqueachouagarrafademeiolitrodeuísque. Abriu-a, cheirou-ae gostou.Tiroumeiacanecade águadobaldezinhoe despejounelaumpoucode uísque.Sentou-seefoibebendodevagar,empequenosgoles,retendocadaumnabocaantesdeengolir. Ficouolhando as brasas do fogo se avivarem com a brisa suave da noite enquanto bebia uísque com água e pensava. Quando terminou com o uísque, encheu a caneca com água, bebeu e foi para a cama. Enfiou a espingarda debaixo da perna esquerda, descansou a cabeça no travesseiro duro feito com os mocassinsenroladosnacalça,puxouapartedocobertorquelhecabia,rezouefoidormir. Sentiufrio e tirouo blusão de flanela e o estendeusobre a irmã. Viroude costas e se encostounela paraficarcommaiscobertorsobocorpo.Apalpouaespingardae deixou-aonde estava, debaixodaperna esquerda. O ar estavafrioe cheiravaacicutae abálsamo. Sópercebeuoquantoestavacansadoquandoo frio da noite o acordou. Agora estava novamente confortável ao contato do corpo aquecido da irmã. Precisocuidarbemdela,pensou,fazê-lafelizelevá-lasãesalvadevoltaparacasa.Ouviuarespiraçãodela nacalmadanoiteelogotornouadormir. Quando acordou havia claridade suficiente para ver os morros distantes bem além do brejo. Ainda deitado esticou o corpo para espantar o entorpecimento. Sentou-se, vestiu a calça cáqui e calçou os mocassins.Airmãdormiacomagoladoblusãodeflaneladebaixodoqueixo,masdeixandodeforaapele bronzeadadorosto,ocabelocortadomostrandoocontornosuavedacabeçaedestacandoonarizaquilino e as orelhas bemcoladas àcabeça.Quemme derasaber desenhar paradesenhá-laagora, pensou, e olhou poruminstanteaslongaspestanasdosolhosadormecidos. Parece um animalzinho selvagem, e dorme como um animalzinho. Como reproduzir com palavras a harmoniadacabeçadela?Dojeitoqueocabelodelaestá,parecequealguémfezocortepondosuacabeça emcimade umcepoe ocortandocomummachado.Parece umafiguraentalhada.Nickgostavamuitoda irmã,eelagostavamuitodele.Tomaraqueestasituaçãoseresolvalogo,pensou. Não se deve acordar quem está dormindo. Se eu estou cansado, imagino ela. Se estamos bem aqui, estamosfazendoexatamenteoquedevemos:ficarmosescondidosatéqueapoeiraassenteeaqueleagente estadualdesista.MasprecisoalimentarmelhoraPequenina.Precisofazermelhordoquefizatéagora. Estamosbemabastecidos.Atrouxapesabastante.Mashojeprecisamoscolheralgumasfrutinhas.Vou versecaçoumaperdizoumesmoduas.Nãofaltamcogumelosporaí.Precisamosirdevagarcomobacon, mas não precisamos dele com a gordura. Ela comeupouco ontem. Está habituada a beber muito leite e a comer doces. Vou alimentá-la bem. Ainda bem que ela gosta de truta. Trutas não faltam, e são das melhores. Não há motivo para preocupação. Ela vai comer muito bem. Mas a verdade é que você, Nick, não deu comida suficiente a ela ontem. Melhor deixá-la dormir mais. Enquanto isso você tem muito trabalhopelafrente. Começou a tirar coisas da trouxa com muito cuidado, e a irmã sorriu no sono. A pele bronzeada esticou-se nasmaçãsdorostoquandoelasorriu,e acorsubjacente apareceu.Elanãoacordou.Nicktratou

de preparararefeiçãodamanhãcomeçandoporreacenderofogo.Havialenhasuficiente, masele fezum fogopequeno.Primeirofezchá, que tomoupuro, e comeucomtrêsabricóssecos.TentoulerLornaDoone, masnãofoiadiante porque játinhalidoe nãoencontrounele amagiaantiga; antestivessemlevadooutro livroemvezdesse. Na tarde anterior, quando acamparam, ele tinha posto umas ameixas numa lata para umedecer, e agora pôs a lata no fogo para cozinhar. Encontrou na trouxa a farinha de trigo-sarraceno. Pegou também umacaçarolaesmaltadaeumcanecodefolhaparamisturarafarinhacomáguaefazermassa.Pegoualata de margarina, cortou um pedaço de um saco vazio, enrolou em um talo de arbusto e amarrou a boneca assim feitacom linhade pesca. A irmãtinhatidoaideiade levar quatrosacos vazios, e ele lhe agradeceu empensamento. Misturouamassaepôsafrigideiranofogo,untando-acomamargarina,queespalhoucomaboneca na ponta do talo. A frigideira brilhou, depois chiou, depois estalou. Nick pôs mais margarina, despejou nela a massa devagar e ficou olhando-a pipocar e depois se firmar na margem. Aos poucos a massa foi crescendoeganhandoacontexturaeacoracinzentadadobolo.Descolou-adafrigideiracomumalascade madeira, jogou-a para cima para virar e aparou-a com o lado tostado para cima, o outro lado chiando. Sentiuopesodoboloaoapará-lo,eviu-otremendonafrigideira. —Bom-dia—disseairmã.—Acordeimuitotarde? —Não,diabinha. Elalevantou-se,asaiacobrindo-lhemetadedaspernasbronzeadas. —Vocêjáfeztudo! —Não.Apenascomeceiosbolos. —Enãoéqueesteaícheirabem?Vouàfontemelavarevoltoparaajudar. —Nadadeselavarnafonte. —Nãosoucara-pálida—disseelajádetrásdoabrigo.—Ondedeixouosabão? —Nafonte.Temláumalatavaziadebanha.Tragaamanteiga,sim?Estálátambém. —Jávolto. Tinha duzentos e cinquenta gramas de manteiga, que ela trouxe no papel-gordura dentro da lata de banha. Comeram os bolos de trigo-sarraceno com manteiga e melado de lata. A lata tinha um bico com tampa de rosca, o melado escorreu pelo bico. Estavam famintos, e acharam os bolos deliciosos com a manteiga derretendo em cima, escorrendo nos cortes com o melado. Comeram as ameixas do caneco de lataebeberamocaldo.Depoistomaramchánomesmocaneco. —Ameixatemgostodefesta—disseairmã.—Dormiubem,Nickie? —Muito. —Obrigadaportermecobertocomoblusão.Foiumanoiteótima,nãofoi? —Foi.Evocê?Dormiubem? —Aindaestoudormindo.Nickie,seráquepodemosficaraquiparasempre?

—Achoquenão.Vocêvaicresceresecasar. —Voumecasarcomvocê.Queroserasuacompanheiradefato.Lisobreissonumjornal. —Éoquesechamadedireitoconsuetudinário. —Éisso.Vouserasuamulherdefatopelodireitoconsuetudinário.Posso,Nickie? —Não.

— Posso, sim. A gente só precisa viver por algum tempo como marido e mulher. Vou pedir que

contemessetempoapartirdeagora.Écomomontarcasa. —Nempensar.

— Você não pode impedir. É o direito consuetudinário. Venho pensando nisso há muito tempo.

Mando fazer cartões com o nome de sra. Nick Adams, Cross Village, Michigan. Esposa de fato. Mando dessescartõesparaalgumaspessoasumavezporanoatécompletarotempo. —Nãovaidarcerto. —Tenhoaindaoutroplano.Teremosdoisfilhosquandoeuaindaformenor.Aívocêvaiterdecasar

comigopelodireitoconsuetudinário. —Nãoéassuntodedireitoconsuetudinário. —Àsvezesmeatrapalhocomessascoisas. —Atéhojeninguémsabesedácerto. —Temquedar.Osr.Thawachaquedá. —Osr.Thawpodeestarenganado. —Oraessa,Nickie.Osr.Thawinventouodireitoconsuetudinário. —Nãofoioadvogadodele? —Podeser,masquementroucomaaçãofoiosr.Thaw. —Nãogostodessesr.Thaw—disseNick. —Eletemcertascoisasqueeutambémnãogosto.Masnãosepodenegarquecomeleojornalficou maisinteressante,nãoacha? —É,eledáaosleitorescoisasnovasparaodiarem. —Jáestãoodiandoosr.StanfordWhite. —Deveserporciúmenosdoiscasos. —Tambémacho,Nickie.Damesmaformaquetêmciúmedenós. —Vocêachaquetodomundoestácomciúmedenósagora? —Nãoexatamenteagora.Mamãevaipensarquesomosfugitivosdajustiça,mergulhadosempecado ecrimes.Aindabemqueelanãosabequeeutrouxeuísqueparavocê. —Bebiumpoucoontemànoite.Émuitobom.

— Ótimo. Foi o primeiro uísque que furtei em minha vida. Ainda bem que é do bom. Eu não esperavaquealgumacoisadaquelesdoispudesseserboa. —Precisopensarbastanteneles.Nãovamosfalarnelesparanãoatrapalhar—disseNick. —Estábem.Oqueéquevamosfazerhoje?

—Oqueéquevocêquerfazer? —Queroiràlojadosr.Johnecomprartudodoqueprecisamos. —Impossível. —Eusei.Quaissãoosseuplanosparahoje? — Colher frutinhas e caçar uma perdiz ou algumas perdizes. Truta temos de sobra. Mas não quero ficarcomendosótruta. —Jáenjooudetrutaalgumavez? —Eunão.Masdizemqueseenjoa. —Eunãovouenjoar.Daquele peixe chamadolúcioagente enjoalogo.Mas de trutae de percanão seenjoanunca.Éverdade,Nickie.Eusei. —Masninguémenjoadelúciodeolhobranco.Sódosdefocinhochato.Dessesagenteenjoalogo. — Eu não gosto mesmo é daqueles muito espinhentos chamados espinha-de-gato. Esse não dá para comerduasvezes. —É,masvamoslimpartudoaquieencontrarumlugarparaenterrarolixo.Depoissaímosàprocura defrutase,quemsabe,dealgumaave. —Voupegarduaslatasvaziasdebanhaeunsdoissacos—disseairmã. —Pequenina,nãoseesqueçadeiraobanheiro,tá? —Claroquenão. —Éimportante. —Eusei.Evocêtambémnãoseesqueça. —Nãovoumeesquecer.

Nickentrounamataeenterrouacaixadecartuchos.22longoseasde.22curtosaopédeumacicuta

enorme. Repôs a terra como estava, cobriu-a com as agulhas caídas da árvore e fez no tronco, no ponto maisaltoque pôde alcançar, umamarcabempequenacomafaca.Gravounamente aposiçãodaárvore e voltouàencostaeaoabrigo. Era uma manhã amena, de céu claro sem nuvens. Nick estava contente com a irmã, e pensou que deviamsedivertiraomáximo,fossequalfosseorumotomadopelasituação.Elejátinhaaprendidoqueos diasacontecemumaume que sódevemosnospreocuparcomodiaque estamosvivendo.Depoisdodia vem a noite e quando amanhece já é hoje novamente. Essa foi a sua descoberta mais importante para o momento. Estavaumdiaesplêndido.Descendoparaoacampamentocomaespingarda,Nicksentia-sefeliz;mas oproblema que tinha levadoele e a irmã para aquele lugar era comoum anzol presonobolsoe que, de vezemquando, oespetavanacaminhada. Deixaramatrouxanoabrigo. As probabilidades de algumurso remexer na trouxa durante odia eram mínimas porque os ursos deviam estar lá embaixocomendobagas nas margens do brejo. A garrafa de uísque ficara enterrada perto da fonte. A Pequenina ainda não tinha voltado.Nicksentou-se notroncodaárvore caídaque vinhamusandoparalenhae verificouaespingarda. Como estavam à procura de perdizes, ele retirou o carregador e despejou os cartuchos longos na mão,

guardou-os numa bolsa de camurça e carregou a arma com os cartuchos curtos. Esses fazem menos barulhoenãoestraçalhamacarnecasonãoseacerteotironacabeça. Nick estava pronto e queria começar a caçada. Onde andaria a diabinha? Não fique nervoso, Nick. Vocêmesmodisseaelaparanãoseapressar.Maseleestavanervosoeirritadoconsigomesmo. —Olhaeuaqui—disse airmã.—Desculpe ter-me demorado.Me afasteimuitodoacampamento,

acho.

—Nãofazmal.Vamos.Trouxeosbaldes? —Trouxe.Eossacostambém. Começaramadescidadomorroparaoriacho.Nickdeuumaboaolhadariachoacimaenaencosta.A irmãoobservava.Osbaldes estavamemumdos sacos, que elacarregavapendente doombroe segurado pelabocajuntocomooutrosaco. —Nãovaiarranjarumcajado,Nickie? —Não.Mas,sevocêquiser,façoumparavocê. Nickiaàfrentecomaespingardanamãoeafastadodoriacho.Agoraeleeracaçador. —Esteriachotemqualquercoisaquenãoseibemoqueé—disseairmã. —Éomaiorriachopequenoqueconheço—disseNick. —Éfundoeassustadorparaumriachopequeno. — Ele está sempre recebendo água de fontes novas. Vai solapando as barrancas, e as barrancas vão caindo.Aáguaémuitofria.Experimente. —Brr!Éfriadedoer. —Osoloaqueceumpouco.Sóumpouco.Éfácilacharcaçanamargem.Temumtrechocommuita bagamaisabaixo. Continuaram andando, Nick estudando as margens. Viu uma trilha de martas e mostrou-a à irmã. Viram pequeninas poupas de cabeça cor de rubi caçando insetos. Os pequenos pássaros deixaram os dois irmãoschegarempertoenquantosaltitavamaquiealientreoscedros.Viramâmpelistãocalmosemansos se movimentando com elegância, parecendo ter cera na ponta das asas e no rabo. A Pequenina não se conteveeexclamou:—Nickie,sãoosmaislindosquejávi!Nãopodehaverpássarosmaislindos! —Têmasuacara. —Não,Nickie.Nãozombe.Âmpelismedeixamfeliz,tãofelizquetenhovontadedechorar. —Principalmentequandovoam,pousameficamandandoorgulhososealegresporaí. Continuaram andando, e de repente Nick ergueu a espingarda e atirou antes mesmo que a irmã percebesse o que ele tinha visto. Depois ela ouviuo ruído de uma ave se contorcendo e batendo asas no chão. Nick engatilhoua arma e deumais dois tiros, e depois de cada um ela ouvia outro baque surdo no chãoeoutrobaterdeasasnavegetaçãorasteira.Depoisumfarfalhardeasas,umaaveaparecendoemvoo baixo e pousando em um salgueiro. Era uma ave de crista, que entortou a cabeça para um lado e ficou olhandoparaochãoondeasoutrasavesaindasedebatiam.Aavequeolhavadosalgueiroeralinda,gorda,

pesada e meio simplória com a cabeça entortada olhando para baixo. Nick foi erguendo a espingarda lentamenteeairmãcochichouparaele:—Não,Nickie,nãofaçaisso.Játemosbastante. —Estábem.Vocêqueratirar? —Não,Nickie.Não.

Nick foi lá, apanhou os três galos silvestres, bateu com a cabeça deles na coronha da espingarda e pousou-osnocapim.Airmãosapalpou.Estavamquentes,tinhammuitacarnenopeitoepenaslindas. —Vocêvaigostarmaisquandoestivercomendoosbichinhos—disseNicksorrindofeliz.

— Agora estou com pena deles. Eles gozavam a manhã, como nós. — Ela olhou para a outra ave

aindanosalgueiro.—Pareceabobalhadaolhandodaquelejeito,nãoacha?

— Nesta época do ano os índios chamam essas aves de galinha boba. Depois que são caçadas ficam

espertas. Não são galinhas bobas verdadeiras. Essas nunca ficam espertas. São chamadas de galinhas de

salgueiro.Asoutrassãogalinhasarrepiadas.

—Tomaraquenósfiquemosespertos—disseairmã.—Nickie,digaaelaparairembora.

—Digavocê.

—Váembora,perdiz.

Aavenãosemexeu.

Nick ergueu a espingarda, a ave olhou para ele. Nick sabia que se matasse aquela ave a irmã ficaria triste,entãoelefezumbarulhocomabocaimitandocacarejodeperdizquandosaidoninho.Aaveolhou paraele,fascinada. —Émelhornãoaborrecê-la—disseNick. —Sintomuitodizer,Nickie,maselaémesmoidiota. —Idiotaounão,vocêvaigostardecomê-las. —Sãotemporãs?

— São. Mas já são adultas. Ninguém as caça, a não ser nós. Já matei muita coruja chifruda das grandes.Umacorujachifrudagrandemataumaperdizpordia.Caçamotempotodoematamtodasasaves boas.

—Entãomatariamfacilmenteaquela—disseairmã.—Jánãosintotantoremorso.Querumasacola

paralevá-las?

—Voulimpá-laseguardá-lasnasacolacomfolhagem.Nãoestamoslongedasbagas.

Sentaram-se encostados no tronco de um cedro. Nick abriu as aves, retirou-lhes as entranhas ainda quentes.Apalpando-aspordentro,encontrouosmiúdoscomestíveiseoslavounoriacho.Depoisalisouas penas das aves, envolveu-as emfolhageme guardou-as nosaco. Amarrouabocadosacoe os dois cantos inferiorescomlinhadepescaependurou-onoombro.Voltouaoriachoejogouneleasentranhasparaver astrutasemergiremnasuperfície.

— É muito boa isca, mas não precisamos de isca hoje. As nossas trutas estão sempre aí, quando precisarmosésóvirepegá-las. —Seesteriachofossepertodecasaficaríamosricos—disseairmã.

— Se fosse perto não teria mais truta. Este é o último riacho virgem que ainda existe, a não ser um outroemoutrapartededifícilacessodepoisdolago.Eununcatrouxeninguémparapescaraqui. —Quemmaispescaaqui? —Queeusaiba,ninguém. —Entãoémesmoumriachovirgem. —Nemtanto.Osíndiospescavamaqui.Masforamemboradepoisquepararamdeexplorarcascade cicuta. —OmeninoEvansconheceestaregião? —Ele,não—disseNick.Depoispensouefranziuatesta.ParecequeviuomeninoEvansdiantedele. —Estápensandoemquê,Nickie? —Eunãoestavapensando. —Estava,sim.Podemedizer.Somoscompanheiros. —Épossívelqueeletenhaestadoaqui.Droga,ébempossível. —Masvocênãotemcerteza. —Não.Esteéoproblema.Seeutivessecertezasairíamosdaqui. —Eseeleestivernoacampamentonesteexatomomento? —Nãofaleassim.Estáquerendoatraí-lo? —Não!Meperdoe,Nickie.Mearrependodeterfaladonele. —Eunão.Até agradeço.Eujátinhaessapreocupaçãomesmo, apenasnãoqueriapensarnela.Tenho muitacoisaemquepensaravidainteira. —Vocêsemprepensouemmuitascoisas. —Nãoemcoisascomoessa. —Entãovamoscolherasbagas.Mesmoporquenadapodemosfazeragora,certo? —Certo.Vamoscolherbagasevoltarparaoacampamento. Maseleprocuravaaceitarapossibilidadeepensarmeticulosamentenoquefazerparaenfrentá-lacaso acontecesse. Era importante não entrar em pânico. Nada tinha mudado. Tudo estava como quando ele decidiradesaparecereesperarapoeiraassentar.OmeninoEvanspoderiatê-loseguidoàquelelugarantes. Mas era improvável. Poderia tê-lo seguido uma vez quando ele deixou a estrada e pegou o caminho do sítio dos Hodges, mas isso também era improvável. Ninguém esteve pescando no riacho, disso ele tinha certeza.MasomeninoEvansnãoligavaparapescaria. —Elesópensaéemmeseguir—disseNick. —Eusei,Nickie. —Éaterceiravezqueelemecriaproblema. —Eusei,Nickie.Masnãomevámatá-lo. Foipor isso que ela fez questão de me acompanhar, pensouNick. É por isso que ela está aqui. Com elaaqui,nãoposso.

Sei que não devo matá-lo. Nada podemos fazer agora. Então não adianta estarmos falando no

assunto.

— Contanto que você não o mate. Não há nada de que não possamos nos livrar, e não há nada que nãotenhaumfim. —Vamosparaoacampamento. —Semasbagas? —Ficamparaoutrodia. —Estánervoso,Nickie? —Estou.Nãoqueria,masestou. —Equeadiantavoltarparaoacampamento? —Logosaberemos. —Nãopodemoscontinuarfazendooqueestávamosfazendo?

— Não agora. Não tenho medo, Pequenina. E você também não deve ter. Mas alguma coisa me

deixounervoso. Nicktinha atalhadoda beiradoriachopara amata, e caminhavam àsombra das árvores. Iam chegar ao acampamento pela parte de cima. Foram chegando de manso, Nick na frente com a espingarda. Ninguémtinhaestadonoacampamento. —Vocêficaaqui—disseNick.—Voudarumaolhadapelasimediações. Deixouo saco com as aves e o balde, desceuaoriacho e subiuna direçãoda cabeceira. Logo que se viuforadoraiodevisãodairmã,trocouoscartuchoscurtosdaespingardapeloslongos.Nãovoumatá-lo,

ele pensou, mas é o que se deve fazer em tal situação. Fez uma vistoria cuidadosa na região e não notou nenhum indício de presença de estranhos. Pegou a margem do riacho, desceu a corrente e voltou ao acampamento.

— Desculpe o nervosismo, Pequenina. Vamos agora providenciar um bom almoço para não termos

quenospreocuparemvedarofogodenoite. —Agoraeutambémestoupreocupada. —Nãoprecisasepreocupar.Tudoestácomoantes. —Maselenosimpediudeapanharbagassemestaraqui. —É.Masele nãoesteve aqui.Pode seraté que nuncatenhaestadoneste riacho.Pode serque nunca maisovejamos. —Elemefazficarcommedo,Nickie.Maisaindadoqueseestivesseaqui. —É.Masnãoadiantanadaficarcommedo. —Oqueéquevamosfazer? —Bem,serámelhordeixaracozinhaparaoanoitecer. —Porquemudoudeideia?

— Ele não vai andar por aqui de noite. Não pode vir pelo brejo no escuro. Não precisamos nos preocuparcomeledemanhãcedonemnoescurodanoite.Vamosfazercomoosveados,sósairdenoite.

Dediadormimos. —Talvezelenãoapareçanunca. —É.Talvez. —Eupossoficar,nãoposso? —Eudevialevarvocêparacasa. —Não,Nickie,porfavor.Quemvaiimpedirvocêdematá-lo?

— Olhe, Pequenina, nunca mais fale em matar. Lembre-se que eu nunca falei em matar. Não vai

havermortenemhojenemnunca. —Jura? —Juro. —Ah,quebom.Estoucontente. —Enãoprecisaficarcontentetambém.Ninguémjamaisfalouemmatar. —Perfeito.Eununcapenseinisso,emuitomenosfalei. —Nemeu. —Claroquenão. —Nemjamaispensei. Não. Você jamais pensou nisso. Só de dia e de noite, o tempo todo. Mas não deve pensar na frente delaporqueelapodecaptarseupensamento,elaésuairmãevocêsamamumaooutro. —Estácomfome,Pequenina? —Achoquenão. —Comaumpoucodochocolateduro.Voubuscaráguafrescanafonte. —Nãoquerocomernada. Olharam para o outro lado do brejo e viram as grandes nuvens brancas da brisa das onze horas se

elevando atrás dos morros azuis. O céu era azul-claro, as nuvens brancas que subiam atrás do morro se destacavamnaabóbadaazul.Abrisapassavaafresca,assombrasdasnuvenscorriamsobreobrejoesobre aencostados morros.A águadafonte erafrianobalde de folha, ochocolate nãoeramuitoamargo, mas eraduroparamastigar.

— Está tão boa como estava na fonte quando estivemos lá a primeira vez. E parece que ficou mais

gostosadepoisdochocolate. —Seestácomfome,podemoscozinharalgumacoisa. —Sevocênãoestiver,eutambémnãoestou. —Estousemprecomfome.Fuibobopornãoteridoapanharbagas. —Não.Voltamosparatercerteza. —Pequenina,seideumlugarnocipoalporondepassamosqueébomparacolherbagas.Enterramos nossas coisas aquie vamos lá pela mata. Podemos encher dois baldes de bagas para amanhã. Não é difícil chegarlá. —Estábem.Masnãoprecisodenada.

—Nãoestácomfome? — Não. Nenhuma, depois do chocolate. Gostaria mais de ficar aqui e ler. Fizemos uma boa caminhadacaçando. —OK.Estácansadadeontem? —Assim-assim. —Entãovamosdescansar.EuleioOMorrodosVentosUivantes. —Émuitoantigoparaleremvozalta? —Não. —Vailerentão? —Porquenão?

EPISÓDIOAFRICANO

E PISÓDIOAFRICANO Enquanto esperava o nascer da lua, ele acariciou Kibo para acalmá-lo e sentiu o

Enquanto esperava o nascer da lua, ele acariciou Kibo para acalmá-lo e sentiu o pelo dele se arrepiar. Ficaram os dois atentos, escutando. A lua apontou e lançou-lhes sombras. Ele passou o braço no pescoço do cachorro e sentiu que o bicho tremia. Todos os ruídos da noite tinham cessado. Não escutaram o elefante,eDavidsóoviuquandoocachorrovirouacabeçaedeuaimpressãodedescansá-laemDavid.A sombra do elefante cobriu-os e o animal passousem fazer ruído. Os dois sentiram o cheiro dele na brisa leve que vinha da montanha. Cheiro forte, antigo e acre. Quando ele passou, David notou que a presa esquerdaeratãocompridaquepareciatocarochão. Esperaram, mas nenhum outro elefante apareceu. David e o cachorro saíram correndo sob o luar. O cachorroiarenteatrás.QuandoDavidparou,ocachorroencostouofocinhonapernadele. Davidqueriaveroelefantemaisumavez.Alcançaram-nonabordadamata.Oelefanteviajavaparaa montanha em passos lentos dentro da brisa da noite. David chegou bem perto para sentir o cheiro da antiguidade acre, mas não conseguiu ver a presa direita. Não teve coragem de chegar ainda mais perto comocachorro.Voltoucomocachorroeovento,forçouocachorroaencostar-senaraizdeumaárvoree tentou fazê-lo entender. Pensou que o cachorro ficaria ali, o que aliás aconteceu. Mas, quando David caminhounadireçãodovultodoelefante,sentiunovamentenapernaotoquedofocinhomolhado. Os dois acompanharam o elefante até uma clareira na mata, onde ele parou e ficou mexendo as orelhas enormes. A massa dele estava na sombra, mas a cabeça estava iluminada pelo luar. David aproximou-seportrás,fechandoabocadocachorrocomamão,efoipassandopeladireita,demansinhoe comarespiraçãopresa,sentindoabrisanorosto,semprecontraela,atéconseguirveracabeçaenormedo animal e as orelhas que ele abanava lentamente. A presa direita tinha a grossura da coxa de David e se curvavaatéquasetocarochão. David e Kibo voltaram, agora com o vento nas costas, saíram da mata e entraram na reserva. O cachorroianafrente,eparounolugarondeDavidtinhadeixadoasduaslançasdecaçaquandoforamatrás do elefante. David pôs as lanças no ombro, pendentes das compridas alças de couro. Na mão ele tinha levadoamelhordastrêslançasque possuía.Seguiramatrilhaparaoshamba.A luajáiaalta.Entãoporque

nãoestavamtocandotamboresnoshamba?Esquisitoisso,pensouDavid.Seopaideleestavalá,porquenão

batiamtambores?

Quando pegaram novamente a trilha, David sentiu-se cansado. Por muito tempo vinha se sentindo

bem-disposto e mais resistente do que os homens, e impaciente com a lentidão deles e com as paradas regularesqueopaifaziadehoraemhora.ElepoderiateravançadomuitomaisdepressadoqueJumaedo

queopai;mas,quandocomeçavaasentir-secansado,osoutroscontinuavamnomesmoritmo,eaomeio-

dia só descansavam cinco minutos. David notara que Juma aumentava um pouco o passo. Ounão?Quem sabe eraapenasimpressão?Masoestercodoelefante eracadavezmaisfresco, e aotoque nãopareciater tomado muito sol. Quando chegaram à última bozerra de esterco, Juma deu a carabina para David carregar; mas passada uma hora olhou para David e tomou-lhe a arma. Iam subindo uma encosta da montanha, mas agora a trilha era em descida, e por uma brecha na mata Davidviuque oterrenoadiante eraacidentado. —Aquicomeçaapartemaisdifícil,Davey—disseopai. Foientãoque compreendeuque deviamtê-lomandadovoltarparaoshambadepoisque ele ospusera natrilha. Jumasabiadesde muitotempo. O paificousabendoagora, quandonãohaviamais nadaafazer. Maisumerrodele.Quefazeragora?Jogarnasorte. Davidolhouograndecírculoachatadodorastodoelefante,viuondeasamambaiatinhasidopisadae onde um talo quebrado de capim secava. Juma o apanhou e examinou ao sol, depois o passou ao pai de David, que o enrolou nos dedos. David notou as flores brancas que tinham caído e agora secavam. Mas aindanãotinhamsecadodetodonemsoltadoaspétalas. —Esteéfêmea—disseopai.—Vamos. No fim da tarde ainda rastreavam no terreno acidentado. David sentia-se sonolento já fazia muito tempo.Vendoosoutrosdois,percebeuque sonolênciaeraoseugrande inimigo.Masfoiacompanhando- os e tentando sair do sono que o perseguia. Os outros dois se revezavam no rastreamento de hora em hora, e o que ficava de descanso olhava frequentemente para David para ver se ele os acompanhava. Quandoacamparamsemacenderfogonoescurodamata,elepegounosonologoquesesentou.Acordou descalço, comJumaapalpando-lhe ospésparaverse tinhambolhas.Opaiocobriracomocasacoe agora estavasentadoaoladodelecomumpedaçodecarnefriacozidaedoisbiscoitos.Ofereceu-lheumagarrafa comcháfrio. —Precisacomer, Davey—disse opai.—Seuspésestãobem.Tantoquantoosde Juma.Comaisto devagar,bebacháevolteadormir.Tudovaibem,nãotemosnenhumproblema. —Quechato.Osonomepegou. — Você e Kibo caçaram e viajaram a noite inteira ontem. Tinha mesmo que estar com sono. Pode comermaiscarnesequiser. —Nãotenhofome.

— Ótimo. Estamos abastecidos para três dias. Amanhã chegaremos numa aguada. Não falta água

vindadasmontanhas. —Paraondevaiele? —Jumaachaquesabe. —Estádifícil,não? —Nãomuito,Davey. —Voudormirmais.Nãoprecisodocasaco. —EueJumaestamosbem.Nãosintofriodenoite,vocêsabe. Antes mesmo de o pai dizer boa-noite, David já estava dormindo. Acordou uma vez com o luar no rosto e pensou no elefante abanando as orelhas enormes na mata, a cabeça pendida ao peso das presas. Achouque ovazioque sentiupordentroquandopensounoelefante foiporteracordadocomfome.Mas nãofoi,eissoeledescobriunodecorrerdostrêsdiasseguintes.

O dia seguinte foipéssimoporque, muitoantes domeio-dia, Daviddescobriuque a diferença entre

um menino e pessoas adultas não está só na necessidade de dormir. Nas primeiras três horas ele esteve

maisdispostodoqueosoutros,epediuaJumaqueodeixassecarregaracarabina.303,masJumasacudiu

acabeça.Jumanãosorriu,eeraomelhoramigodeDavidequemoensinaraacaçar.Ontemelemedeua carabinaparaeucarregar,pensouDavid;ehojeestoumelhordoqueontem.Eestava;maspelasdezhoras percebeuqueodiaiasertãoruimoupiordoqueoanterior. Foraumagrandebobagemdelepensarquepodiarastrearcomopai,comoforabobagempensarque podia lutar ao seu lado. Percebeu também que não era só pelos outros serem homens. Eram caçadores profissionais, e era por isso que Juma não queria gastar nem um sorriso com ele. Sabiam tudo que o elefantetinhafeito,mostraramumaooutroasmarcassemfalar;e,quandoorastreamentoficavadifícil,o paiconfiavaemJuma.Quandopararamparaencherasgarrafasdeáguanafonte,opaidisse:“Éparadurar o dia inteiro, Davey.” Depois, quando já tinham deixado o terreno acidentado e subiam na direção da mata,osrastosdoelefantequebravamparaadireitaeentravamnumatrilhadeelefantes.Davidviuopaie Juma conversando, e quando chegou perto Juma olhava para trás, para o caminho que tinha percorrido; depois olhou para um grupo de morros de pedra mais longe no descampado e parece que fez uma mediçãoentreessesmorroseospicosdetrêsoutrosmaisdistantesnohorizonte.

— Agora Juma sabe para onde vaioelefante — explicouopai. — Ele pensava que sabia antes, mas

depois se atrapalhouaqui. — Olhoupara trás, verificando o terreno que tinham percorrido o dia inteiro. —Paraondeelevaiéfácilsegui-lo,mastemosquesubirmorro. Subiramatéoescurecerefizeramoutroacampamentosemfogo.Davidmatoucomoestilingueduas galinhas-do-matoquepassaramemumbandonatrilhapoucoantesdopôrdosol.Asavestinhamentrado na trilha do elefante para limpar as penas, e quando a pedra do estilingue acertou uma nas costas, e ela ficou se contorcendo no chão com as asas inertes, outra correu para bicá-la. Então, David mandou outra

pedraque acertouessasegundade umlado.Correuparaapanhá-lase asoutrasfugiramespavoridas.Juma olhouparatráse destavezsorriu.Davidapanhouasduasavese bateucomacabeçadelasnocabodafaca decaça. Noacampamentoondeiampassaranoite,opaidisse:

—Nuncavidessaraçadeperdizesemlugartãoalto.Vocêconseguiumatarduas. Juma assouas duas aves num espeto nas brasas de um fogo pequeno. O paibebeuuísque com água

na tampa da garrafa e ficouolhando o trabalho de Juma no fogo. Depois Juma deua cada um dos outros doisumpeitointeirocomocoraçãoecomeuospescoçoseascoxas. —Vocêajudoumuito,Davey—disseopai.—Agoraestamosbemdecomida. —Estamosmuitoatrásdele?—perguntouDavid.

— Estamos bem perto — disse o pai. — Resta saber se ele viaja com o luar. A lua nasce uma hora maistardeestanoite,eduashorasmaistardedoquequandovocêoachou. —ComoéqueJumaachaquesabeparaondevaioelefante? —Jumaoferiuematouoaskaridelepertodaqui. —Quando? —Hácincoanos,elediz.Issopodesignificarqualquertempo.Quandovocêaindaerapequenino,diz

ele.

—Eeleficousozinhodesdeentão? —Jumadizquesim.Nãooviudepois.Sóouviufalarnele. —Qualotamanhodele?

— Pesa uns mil e duzentos quilos. Maior doque qualquer bichoque já vi. Juma diz que sóteve um

maior,quetambémveiodaqui. —Achoquevoudormir—disseDavid.—Esperoestarmelhoramanhã. —Vocêesteveótimohoje—disseopai.—Estoumuitocontentecomvocê.Jumatambém. Quandoacordoude noite comaluajáalta, Davidteve certezade que osdoisnãoestavamcontentes comele,anãosertalvezportermatadoasduasaves.Eletinhaachadooelefantedenoite,seguindo-opara ver se tinha as duas presas, depois voltou para onde estavam os dois e os levou à trilha. David sabia que ficaramcontentescomisso.Mas,depoisquecomeçaramorastreamento,elenãotinhamaisutilidadeeera perigoso para o êxito da empreitada, da mesma forma que Kibo tinha sido perigoso para ele quando ele chegaramaispertodoelefantedenoite;esabiaquecadaumdosdoisdeviatersecensuradopornãotê-lo mandadode voltaquandohaviatempo.Aspresasdoelefante pesavamunscemquiloscada.Desde que as presascresceramalémdotamanhonormal, oelefante vinhasendocaçadoporcausadelas, e agoraostrês iammataroelefanteporcausadaspresas. David tinha certeza de que iam matar o elefante porque ele, David, tinha aguentado o dia inteiro e continuado acompanhando os outros. Então provavelmente deviam estar contentes com ele. Mas ele não estava contribuindo em nada para a caçada, e os outros ficariam melhor sem ele. Muitas vezes durante o

dia se arrependeude ter traído oelefante, e de tarde já desejava nunca oter visto. Acordadoà luz da lua elesabiaqueissonãoeraverdade.

Namanhãseguinte seguiamorastodoelefante numatrilhaantigamuitousadanamata. Até parecia queessatrilhaerapercorridaporelefantesdesdequealavaprimordialtinhasecadoeasprimeirasárvores tinhamatingidograndealtura. Juma estava confiante, e a marcha prosseguia em bom ritmo. Tanto o pai quanto Juma pareciam muitosegurosdesi,eacaminhadanatrilhadoselefanteseratãofácilqueJumapassouacarabinaaDavid. Masperderamatrilhanosmontesfumegantesdeestercofresco,enasmarcasredondaseachatadasdeum rebanhoque tinhaentradonatrilhavindodamatafechadaàesquerda.Jumatomouaarmade Davidnum gestodemauhumor.Quandoalcançaramorebanhoeviramasmassascinzentasdelesporentreasárvores eomovimentodasorelhasenormes,astrombasativasseenrolandoedesenrolando,ouvindoosestalosdo quebrar de galhos, o tombar de árvores derrubadas, o borborismo das barrigas dos bichos e o cair barulhentodoesterco,atardejáestavaemmeio. Finalmente acharam o rasto do elefante procurado, e, quando ele derivou para uma trilha menor, Juma olhou para o pai de David e sorriu mostrando os dentes limados, e o pai confirmou balançando a cabeça. Parecia que os dois tinham algum segredo, comportavam-se como quando David os encontrara aquelanoitenoshamba. Não demorou muito para o segredo ser revelado. Ficava à direita na mata, e os rastos do elefantão levavam aele. Eraumacaveiracujaalturaalcançavaopeitode David, brancapelaaçãodosol e dachuva. Natestahaviaumadepressãofunda,e saindode entre asórbitasbrancasumasaliênciaterminavaemduas cavidadesesgarçadasondeaspresastinhamsidocortadas. Jumamostrouolugarondeograndeelefantequeelesperseguiamtinhaparadoparaolharacaveirae onde a tromba dele a tinha deslocado do lugar onde estivera no chão, e onde as pontas das presas dele tinham tocado o chão perto da caveira. Juma mostrou a David o buraco na grande depressão do osso brancodatestaedepoisosquatroburacosunidosnoossoemvoltadolugardaorelha.SorriuparaDavide

paraopai;tirouumcartucho.303dobolsoeocomparoucomoburacodoossodatesta.

—Foiaquique Jumaacertouogrande bicho—disse opai.—Este eraoaskari dele. Querodizer, o amigodele, porque eratambémumelefante grande.Ele investiue Jumaoderruboue acaboude matá-lo comumtironaorelha. Juma mostrou os ossos espalhados e os rastos do elefante em volta deles. Ele e o pai de David pareciammuitosatisfeitoscomoachado. —Quantotempoachaqueeleeoamigoandaramjuntos?—perguntouDavidaopai. —Nãotenhoamenorideia—disseopai.—PergunteaJuma. —Pergunteosenhorpormim. OpaieJumaconversaram.JumaolhouparaDavidesorriu.

—Umasquatrooucincovezesotempode suavida, dizele —informouopaide David.—Ele não sabenemseinteressa.

Eumeinteresso,pensouDavid.Vioelefanteaoluar,elesozinhoeeucomKibo.Kiboestavacomigo.

O elefante não estava fazendo mal nenhum e nós o rastreamos até o lugar em que ele veio para ver o

amigomorto.Agoravamosmatá-lo.Porculpaminha.Euotraí. Jumajátinhalevantadoapista.Fezsinalaopaieretomaramorastreamento. Meupainãoprecisa matar elefantes para viver, pensouDavid. Se eunãootivesse visto, Juma nãoo teriaachado.Teve oportunidade de matá-loe sóconseguiuferi-loe mataroamigo.Eue Kibooachamos, eeunãodeviatercontadoaeles,deviaterguardadosegredoeficadocomelesempreedeixadoessesdois

se embebedando de cerveja no shamba. Juma estava tão bêbado que não conseguimos acordá-lo. De agora

emdiante vouguardar segredode tudo.Nuncamais contoqualquer coisaaeles.Se omatarem, Jumavai beber a parte dele no marfim ou comprar outra maldita esposa. Por que não ajudei o elefante quando podia?Bastavanãotercontinuadonosegundodia.Não,issonãoosatrapalharia.Jumateriacontinuado.Eu