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Caderno Eu & Fim de Semana Jornal Valor Econômico capa, pp. 4-9

Capa: Profusão de opiniões literárias em blogs e mídias sociais acende debate sobre o papel do crítico tradicional, aquele com o poder de mudar o destino de uma obra.

A crítica dos comuns

Por Diego Viana | De São Paulo

11/02/2011

Caderno Eu & Fim de Semana – Jornal Valor Econômico – capa, pp. 4-9 Capa: Profusão

Concepção visual: Beto Nejme

Caderno Eu & Fim de Semana – Jornal Valor Econômico – capa, pp. 4-9 Capa: Profusão

O sucesso e o impacto de um romance podem ser medidos pela contagem de exemplares vendidos ou pelo tom das resenhas na imprensa. Um novo elemento de medida, mais difícil de controlar e de compreender, foi introduzido na última década, com a chamada "Web 2.0", na qual proliferam resenhas amadoras em blogs e breves recomendações em redes sociais. O recurso mais confiável de medição são os comentários de leitores na livraria virtual Amazon. Lançado em outubro, o romance "Nemesis", de Philip Roth, mereceu a opinião escrita de 45 amadores. "Solar", de Ian McEwan, publicado em março, foi comentado por 144 frequentadores da livraria. O best-seller "Freedom", de Jonathan Franzen, foi objeto de nada menos de 752 manifestações de leitores.

As opiniões listadas na livraria virtual oferecem um panorama quase inesgotável das maneiras possíveis de abordar os livros. Um comentário sucinto sobre o romance de McEwan diz que "é bem escrito, mas, não sei por que, não gostei". Outro decreta apenas, talvez elogiosamente, que o texto de Franzen "lembra William Faulkner". Entre essas breves intervenções, uma resenha de sete extensos parágrafos sobre "Freedom" se abre reconhecendo que "críticas negativas não costumam ser bem-vindas", mas "tantas reações favoráveis nos jornais compelem a incluir uma voz de dissenso".

"O tempo do crítico com poder de veto já passou. Hoje, o diálogo entre diferentes recepções da crítica é positivo e fecundo"

O impulso de introduzir uma opinião num circuito público é capital para a compreensão do fenômeno das resenhas on-line. "O tempo do crítico com poder de veto já passou", diz Nízia Villaça, crítica literária e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "Hoje o diálogo entre diferentes recepções da crítica é positivo e fecundo." Porém, não se deve ir longe demais, adverte Fábio Malini, professor de comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a ponto de decretar a

"morte" do crítico. "Ao contrário, se analisarmos as críticas mais reputadas na rede, veremos que se saem melhor aquelas que se dedicam ao fazer crítico diário, com qualidade e ótimas formação humana e especializada."

A variedade dos impulsos amadores de diálogo leva Malini a descrever a internet como um "dispositivo erótico" capaz de multiplicar os afetos e os olhares sobre cada coisa que se apresenta, numa objetividade amplificada. Esse triunfo das pulsões está manifesto no comentarista de "Freedom" e resume o fenômeno digital que se espalha com furor por domínios tão distantes quanto a relação de empresas com consumidores, o chamado jornalismo cidadão e, como revelam as intervenções na Amazon, a literatura, sem deixar de atingir frontalmente seu espelho indefectível, a crítica literária.

Cacalos Garrastazu/Valor

"morte" do crítico. "Ao contrário, se analisarmos as críticas mais reputadas na rede, veremos que se

Leda Tenório da Motta: revistas de literatura on-line são o único lugar em que se podem encontrar, no contexto da crítica literária, escritos ao mesmo tempo eruditos e bem redigidos

Henry Jenkins, professor de comunicação da Universidade da Califórnia, lembra que "a fronteira entre leitor e autor fica embaçada quando todos com acesso à internet podem compartilhar seus pensamentos com conhecidos e desconhecidos. Nem tudo o que escrevem é digno de ser compartilhado, mas a parcela digna é maior do que era quando o acesso à expressão era mais limitado". Poder se expressar significa, para Jenkins, poder "responder ao livro, fazer perguntas aos outros enquanto se lê, citar e comentar, reescrever; são respostas criativas do leitor ao trabalho do autor". O resultado é um mundo em que o livro deixa de ser um objeto pleno para se tornar "o início de um processo expansivo de conversa, assim como já é uma intervenção numa troca corrente com outros escritores e leitores".

Se Jenkins estiver correto, a cultura digital tem o poder de subverter o sentido de noções tão estabelecidas quanto "livro", "escrita", "leitura" e "crítica". Nesse cenário, todos os atores - escritores, críticos, leitores - enfrentam desafios que põem na berlinda os fundamentos de suas atividades. E cada um faz face a esses desafios como pode, com as ferramentas de que dispõe.

Ítalo Moriconi, crítico literário e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), assinala que "é a própria maneira de se relacionar com um texto que se coloca em questão". O caso mais contundente é o processo envolvido na leitura crítica. "O charme da crítica acontece quando um leitor comum lê um romance e encontra um crítico interessante abordando o romance pelo qual ele se interessou." Já num contexto em que o leitor não precisa mais estabelecer uma diferença entre o encontro com um crítico qualificado e o encontro com um comentarista anônimo, o que desaparece é a estrutura espacial na qual esse charme pode acontecer. "A questão passa a ser: qual a

relação entre o espaço público que transcorre na internet e o espaço público determinado pelo meio impresso?"

Gabriel Lordelo/Valor

relação entre o espaço público que transcorre na internet e o espaço público determinado pelo meio

Malini: as críticas mais reputadas na rede são as que se dedicam ao fazer crítico diário, com qualidade

Nízia Villaça concorda que o espaço público esteja no centro da questão. Ela diz que o conceito vem sendo discutido com bastante ênfase, tendo nas plataformas eletrônicas seu lugar privilegiado. "Dominique Wolton fala em 'solidões interativas' e Jair Ferreira dos Santos diz que 'a literatura ainda será um hospital para a doença do automatismo eletrônico'."

A situação de desconforto provocada pela ascensão de uma nova tecnologia de escrita não significa que o espaço da criação e da crítica literárias fosse confortável até então. Luiz Costa Lima, da Uerj e da PUC-RJ, observa que a crise que enfrentam os escritores e seus juízes tem seu fundo na derrocada dos valores sociais burgueses após a Segunda Guerra Mundial (leia entrevista na pág. 7). Diante da evidência de que o exercício da crítica literária vive uma crise há décadas, o crítico e filósofo Benedito Nunes, da Universidade Federal do Pará (UFPA), atribui as dificuldades a um "efeito exterior de uma crise da própria literatura".

A crise, escreve Nunes no artigo "Crítica literária no Brasil, ontem e hoje", está nos princípios, na presença pública e na operatividade da crítica como leitura, fruto de um abandono da coragem estética que deve pertencer à literatura. "Se a literatura cai, a crítica despenca", prossegue Nunes. Mas o filósofo mantém no espírito uma nota de esperança, ao afirmar que, "no entanto, crise não é catástrofe; crise é incerteza do que fazer agora e do que virá depois".

"A fronteira entre leitor e autor fica embaçada quando todos com acesso à internet podem compartilhar seus pensamentos"

Diante da introdução avassaladora das manifestações e da escrita virtual, resta perguntar o que os escritores podem fazer agora e o que podem esperar depois, diante do desafio imposto pela novidade da internet. Se o meio digital for entendido como um universo em que engenheiros e veterinários podem ocupar o mesmo espaço de semiólogos e teóricos literários, sem distinção de especialidade ou experiência, então a marca da rede é a ausência de controle e o questionamento da autoridade. "São pessoas que se arvoram em emitir juízos sem compromisso", resume o sociólogo Sérgio Miceli, da Universidade de São Paulo (USP). "Atribui-se autoridade a quem não tem nenhuma autoridade."

O conceito de autoridade, porém, é problemático para os autores que mergulharam diretamente na rede, tanto para a escrita quanto para a crítica. "Talvez a autoridade esteja escapando da figura do 'autor'", argumenta Vanessa Place, poetisa e editora americana. "Isto é, talvez estejamos passando para um paradigma em que o que é dito vai importar mais do que quem diz. Isso tem de acontecer o mais rápido possível."

A indistinção que a internet promove oferece à crítica, no dizer de Malini, seu "melhor momento". "A rede hospeda desde a crítica acadêmica até a mais rasa. O filtro feito por esses agentes, que funcionam como editores coletivos, é um dispositivo que faz circular um sentido geral sobre determinada obra. Uma reputação que se faz sem centro, sem editor", explica. Nízia Villaça aborda a questão do ponto de vista do autor. "Ele não só escreve seus livros como se promove junto a leitores de variadas áreas, criando nichos em que as preferências se diversificam progressivamente." O nicho, na internet, tem o mesmo papel que as confrarias literárias do século XIX, segmentando o espaço social da recepção de acordo com interesses de grupo. A diferença é o rompimento das barreiras geográficas.

Aline Massuca/Valor

O conceito de autoridade, porém, é problemático para os autores que mergulharam diretamente na rede, tanto

Moriconi: "Há mais espaço para um discurso menos rigoroso, menos amarrado por vocabulários técnicos, mesmo na crítica acadêmica"

Moriconi concorda que não se pode falar em desaparecimento do crítico profissional. "Ele muda de figura, mas não é eliminado." Mesmo a crítica universitária está mais permeável às formas de escrita típicas da rede. "A própria crítica literária ficou com uma aparência amadora, porque não existe uma metodologia única. Cada crítico escreve de seu jeito e isso passa uma impressão de amadorismo. Há mais espaço para um discurso menos rigoroso e amarrado por vocabulários técnicos, mesmo na crítica acadêmica."

Para a crítica e teórica literária Leda Tenório da Motta, a maior qualidade da internet é ser um refúgio para os bons críticos literários que não conseguem mais espaço em meios tradicionais. Revistas on-line dedicadas à literatura, como a "Sibila" e a "Agulha", são para Leda o único lugar no qual se podem encontrar, no contexto da crítica literária brasileira, escritos ao mesmo tempo eruditos e bem redigidos. Na universidade, segundo Leda, o texto pode ser erudito, mas raramente será bem redigido. No infinito espaço horizontal da blogosfera e das redes sociais, a erudição não existe, a boa redação muito menos, restando apenas uma frágil abertura a iniciativas de promoção imaginadas pelo mercado editorial.

Para confrontar a atitude do grande escritor com o caminho do debutante de hoje, Leda cita o início da carreira de Marcel Proust, atacando a leitura que Sainte-Beuve, considerado o maior crítico do século XIX, fazia dos principais autores franceses. Para

se tornar o grande romancista que foi, Proust se apoiou sobre uma atitude crítica e metacrítica. O iniciante atual, não dispondo das mesmas ferramentas nem da mesma formação cultural, no julgamento de Leda cresce a partir das boas relações com o mercado editorial e a amizade com uma comunidade de leitores.

Por que James Joyce não é Paulo Coelho?

11/02/2011

Daryan Dornelles/Folhapress

se tornar o grande romancista que foi, Proust se apoiou sobre uma atitude crítica e metacrítica.

Costa Lima, da PUC-RJ e da Uerj: quando a crítica especializada sai de cena, o que se perde é o "pente-fino"

O crítico Luiz Costa Lima é um dos principais teóricos da literatura no Brasil. Professor da PUC-RJ e da Uerj, Costa Lima é autor de estudos sobre o conceito de mímesis, o controle e a cultura de massa, desde "Por Que Literatura?" (1966) até "Controle do Imaginário e a Afirmação do Romance" (2009).

Costa Lima sublinha o caso brasileiro particularmente difícil para a crítica literária e a literatura, consequência do descompasso entre o desenvolvimento econômico e o investimento em educação e na formação intelectual. Na falta dessa formação intelectual, "o leitor compra gato por lebre", diz.

Valor: Há mesmo uma crise da crítica? Faz sentido atribuí-la à internet?

Luiz Costa Lima: A internet foi um refresco nessa crise, que tem raízes profundas. A literatura foi o grande veículo de comunicação do século XVIII até o fim da Segunda Guerra. Adquiria-se renome e dignidade mostrando conhecimento de um objeto comum, a literatura. Após 1945, não só apareceram novos meios de comunicação, como TV e rádio, como a homogeneidade de valores em que se fundava a literatura se rompeu. A essa fratura corresponde, entre as décadas de 1960 e 1980, um movimento de teorização da literatura. A base crítica anterior já não bastava, como se tivesse se convertido num dente cariado que não servia para mastigar.

Valor: O crítico tinha uma certa autoridade. Quando saía um suplemento, ele podia fazer o destino de um livro. Hoje isso se perdeu.

Costa Lima: O crítico tinha um papel fundamental na difusão de livros. Até fins do século XX, no Brasil até a ditadura, os suplementos literários tinham uma grande importância, com críticos como Antonio Candido e Décio de Almeida Prado. Guimarães Rosa, tão logo lançou "Grande Sertão: Veredas", foi tema de um especial da revista "Diálogo" e diversos artigos em suplementos. Por isso, foi logo aceito. Existia um papel social do crítico que se manteve nos anos 60, perdeu-se progressivamente e hoje ele não tem nenhuma importância social. A ausência de repercussão é um problema sério. Lê-se muito que o Brasil tem um patamar econômico superior ao do passado, mas todo o sistema educacional se degrada a olhos vistos. Não adianta esse crescimento econômico se não corresponder a um crescimento intelectual.

Valor: O senhor mencionou a internet como refresco. Quer dizer no bom sentido ou no mau?

Costa Lima: Acho que nos dois. Suponha que tem um livro que foi publicado, mas nenhum suplemento deu, não se ficou sabendo, e alguém me avisa pela internet que ele existe e que devo prestar atenção nele. Nesse caso, é positivo. Através dos blogs e redes sociais não há critério algum de publicação. Suponhamos que alguém tem um blog, coloca seu retratinho, dá sua opinião sobre tudo. Isso pode funcionar para difusão, mas sem critério, pode tanto ir num sentido razoável como muito ruim. Ou seja, é um refresco ou razoável ou muito ruim. Muito bom é que não vai ser. Um exame cuidadoso de uma obra num texto que parece uma carta? É impossível.

Valor: O amador da internet é encarado como paradigma de renovação e frescor.

Costa Lima: Discordo. Acho que, dos males, é o menor. O maior seria um grupo que se reúne para discutir novela. O mal menor é quem vai para o computador e escreve sobre um livro. É o amador bem-intencionado. Mas amador é amador, não? Do ponto de vista do grande público, o mais sério é o desencontro entre a possibilidade econômica e a capacidade intelectual. Fica difícil tornar algo público sem que seja muito dirigido no espaço público. A sensação de perda no Brasil é evidente, mas não é tão evidente nem mesmo na América Latina. Mesmo com a crise argentina, o "Clarín" tem um suplemento muito bom. Na Alemanha, o "Frankfurter Allgemeine" também tem. Nos EUA, tem o "New York Review of Books". E mesmo lá existe uma crise da crítica, um encolhimento geral. Mas entre nós já não é mais crise, é falência.

Valor: Nos EUA, reclama-se que as pessoas, em vez de ler as críticas, dispensam os especialistas e vão para a internet dizer o que querem.

Costa Lima: Até ir para a internet, existe a alternativa para quem não queira ir ou queira ir com outra opinião. Não tenho nada contra a internet, eu a uso todo o tempo. Mas não a uso como instrumento profissional.

Valor: O caminho de difusão do livro mudou com a internet, tirando o lugar do crítico, substituindo seu trabalho solitário?

Costa Lima: A única falha no raciocínio é que a passagem do livro para a recepção multiplicada e multiplicante da internet se faz a partir de um foco não especializado. Isso significa que é favorecida a obra não especializada. Não é a partir do romance de terceira categoria que o romance vai se sustentar.

Valor: Quando a recepção especializada sai de cena, o que é, especificamente, que se perde?

Costa Lima: É o pente-fino. Imagine o "Ulisses" de [James] Joyce. Estamos em 1922 e alguém me convida para escrever uma resenha, dizendo: "Você tem 5 mil toques para escrever". Eu me recusaria. O que faria o resenhista de hoje? Uma pequena descrição do enredo, um histórico da obra, informações genéricas. O que se perdeu com isso? Ora, perdeu-se o próprio livro. O leitor fica sem saber por que esse livro teve a importância que não teve, por exemplo, W. Somerset Maugham, que era tão traduzido entre nós. Por que Joyce não é Paulo Coelho? A perda da crítica especializada leva as pessoas a comprar gato por lebre.

Valor: Aí é que entra a formação do cânone?

Costa Lima: Sim e não. Sem um meio refinado de analisar as obras ditas canônicas, elas tendem a perdurar indefinidamente. Não há crítica adequada, então ela perdura, mantém o lastro canônico existente. Só que esse lastro tende a aumentar de acordo com a capacidade que o autor tenha de incorporar prêmios, comentários favoráveis. Veja Mario Vargas Llosa, romancista de terceira categoria. Na justificativa dada para o Prêmio Nobel, constava que ele vinha menos pela qualidade literária do que pela participação pública. É um critério estapafúrdio que mostra a falta que faz o olhar especializado da crítica.

Valor: Qual é o destino da linha de grandes textos que suscitam e remetem uns aos outros?

Costa Lima: Fica represada. É como se um rio Amazonas se transformasse num riacho. Um curso d'água gigantesco que se torna um filete. Quem acompanha a obra de Augusto de Campos? Acredito que ele seja o grande poeta brasileiro. Seu nome circula entre pessoas que estão no meio, mas ele é debatido e comentado? Tenho dúvidas. Uma coisa é o conhecimento oral, outra é o conhecimento da obra. Décio Pignatari teve publicada recentemente uma obra que refaz o traçado da sua trajetória, mas não saiu uma única resenha, nada. De Augusto de Campos saiu há pouco uma reedição de seu livro com o artista plástico Júlio Plaza, "Poemóbiles". Alguma resenha sobre isso? Nenhuma. Seria como perguntar qual é a diferença entre um grande poeta e o jogador Neymar. Vemos constantemente o Neymar atuando. O poeta, não. Vê-lo atuando seria lê-lo, lê-lo seria discuti-lo.

Valor: Transmitindo esse exemplo para novos autores: a difusão e o sucesso deles decorrerão de que, se não for da crítica especializada?

Costa Lima: Penso no exemplo de um artista plástico que também é escritor, Nuno Ramos, autor de "Ó". Quem o conhece como escritor? Muito pouca gente. E garanto que é um romance de muita qualidade. A rede de amadores da internet cobre a carência dessa difusão? Isso é brincadeira. Não cobre, não. Acho isso um problema sério. No domínio intelectual, é um problema tão sério quanto os desastres naturais que têm se multiplicado, como na Serra Fluminense.

Os deslimites da literatura

Beatriz Resende | Para o Valor, do Rio

11/02/2011

Os deslimites da literatura Beatriz Resende | Para o Valor, do Rio 11/02/2011 A cada dia

A cada dia me convenço mais de que a experiência literária é uma experiência de exílio. De muitas, diversas formas de exílio. Trazendo o imenso sofrimento que o exílio impõe, mas também como oportunidade da descoberta de amores, saudade, de necessidades insuspeitas e afetos inusitados. Falo do exílio imposto, daquele que separa, discrimina, expulsa. Mas falo também do exílio escolhido, necessário mesmo, na busca por uma solidão desejada, inevitável para que reencontros e satisfações se completem. No sentido contrário ao exilado fica o poderoso, o autoritário, o que decide a punição pelo afastamento, pela negação. Geralmente, são as qualidades do exilado que se tornaram insuportáveis ao covarde que o afasta. Banir, negar a territorialidade, a nacionalidade, o convívio com seus pares são formas, ainda que aparentemente mais civilizadas, mais longas e por mais tempo dolorosas, de punir o inimigo.

Júlia Kristeva, em escrito confessional, relativiza a questão dizendo que o exílio é um processo que é ao mesmo tempo uma dor e uma eleição. Reparo que às vezes preciso do exílio para o prazer ciumento que a obra literária oferece. Sei também que, se um dia me exilassem da literatura, era capaz de enlouquecer. Mas preciso voltar e dividir esse prazer para que ele se complete. No entanto, muitos dos marcados pela cicatriz do literário, como amantes enlouquecidos, não sabem partilhar a beleza, o conforto, o prazer, que lhes parecem somente a eles dedicados. Edward Said, que vê no intelectual quase inevitavelmente um exilado, nos ajuda a compreender a dureza da segregação tantas vezes praticada pelos zeladores das letras quando afirma que o mais doloroso é "ser exilado por exilados, reviver o processo do desenraizamento nas mãos dos exilados".

Reger o mundo das letras é, frequentemente, ordenar a exclusão. A "Poética", desde Aristóteles, é um documento, antes de mais nada, político.

Os que falam em nome do literário estão sempre prontos a levantar rapidamente as pontes levadiças de seus castelos diante de estranhos, plebeus, rebeldes. Fechados em nossos castelos ou conventos, só nos resta combatermos uns aos outros. Não o bom combate, que avança, mas as defesas reativas. A verdade, porém, é que no mundo globalizado, com tecnologias de informação e comunicação cada vez mais incontroláveis, o exílio completo vai se tornando cada vez mais difícil.

No ano passado, nosso mundinho foi sacudido pela corajosa polêmica levantada por Flora Sussekind com o ensaio "A Crítica como Papel de Bala". A troca de respostas mobilizou jornalistas, escritores e professores. A desgastada oposição entre crítica acadêmica e jornalística ressurgiu. Deselegâncias e elegâncias destacáveis se revelaram. Pouco depois, Ítalo Moriconi levou o debate para mais próximo da vida acadêmica, dos programas de pós-graduação, antigos e fortes no país, e introduziu o tema do mercado.

No ensaio de Flora Sussekind, o mais polêmico foram as referências ao crítico Wilson Martins. Os que conviveram quinzenalmente com seu ímpeto destrutivo diante dos mais jovens, dos mais desimportantes academicamente, bem sabem quantos escritores poderiam ter ido adiante sem sua guilhotina. Difícil compreender o mérito de um autor que, pretendendo ser intérprete da inteligência brasileira, não hesitou em condenar, enfurecido, Lima Barreto, expulsando autor e personagens (cito: "o mulatinho Isaías") de seu cânone e concluindo: "O álcool foi a evasão compensadora do sentimento íntimo de malogro, a fuga psicanalítica para a loucura que, sendo nele hereditária, foi, entretanto, buscada com empenho sistemático". E ainda falam em censurar os coloquialismos de Monteiro Lobato!

"Kindles, iPads e outros provocam uma briga de cachorro grande em torno do livro real ou virtual, da cultura digital e suas imensas possibilidades"

Com isso, abandonou-se a reflexão final do ensaio de Flora, que vê a importância de troca criadora entre linguagens, em intervenções que interpelam leitor ou espectador a atravessar o abismo que separa a atividade da passividade. Penso no exemplo da dramaturgia atual, que numa renovação que levou séculos para abandonar cânones que foram além do gosto das elites e se impregnaram no telespectador cansado, fala, simplesmente, em "novas escritas cênicas". Importante, radical e generoso.

Kindles, iPads e outros provocam hoje uma briga de cachorro grande em torno do livro real ou virtual, da cultura digital e suas imensas possibilidades. Independentemente dos rumos mercadológicos, os autores já se utilizam, e cada vez mais, da cultura digital, dos blogs como forma de apresentação e partilha de ideias e dos sites que promovem a desierarquização e eliminam espaços. Escritores de idades, origens sociais ou espaciais diferentes podem partilhar a mesma via, sem precisar esperar pelos julgamentos acadêmicos ou avaliações editoriais. Renovam a escrita literária e se expõem. Exageram por vezes na importância do que postam, de suas identidades ou seus avatares. Não é grave, a tecla "delete" existe. Procuram, cada vez mais, reunir os múltiplos recursos das novas tecnologias.

Porém, se no mundo virtual a criação literária caminha, a crítica pouco avançou. Basta visitar os principais sites. São muitos os textos inéditos, diversas as propostas literárias, mas a crítica é pouca. Principalmente aquela que busca formas de incluir, e não exilar.

A reflexão teórica sobre a literatura é, entre nós, escassa e necessária. Cabe sobretudo aos professores e pesquisadores, que merecem mais apoio.

Diante dos múltiplos suportes, dos lançamentos e relançamentos, de autores que se revelam por eles mesmos, a crítica é imprescindível. A crítica literária honesta e desinteressada - acadêmica, jornalística, blogueira - voltada para o leitor, talvez para o último leitor, e não para o mercado, pode colaborar decisivamente para a existência de uma literatura de múltiplas tendências, inovadora, competente.

Diz Jacques Rancière, à maneira de seu mestre ignorante: "Os artistas, como os pesquisadores, constroem o palco onde a manifestação e o efeito de suas competências ficam expostos, incertos nos termos do novo idioma que traduz uma nova aventura intelectual".

Beatriz Resende é professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e pesquisadora do CNPq e da Faperj